THE WALKING DEAD
A QUEDA DO GOVERNADOR
Oito
Austin chega cedo à arena aquela noite — por volta de 20h45 — e se senta
sozinho, na frente, atrás da barreira enferrujada de tela metálica, no final
da segunda fileira, pensando em Lilly. Ele imagina se deveria ter insistido
mais para conseguir que ela o acompanhasse naquela noite. Pensa no olhar
que Lilly lançou a ele no início da noite — na suavidade que passou pelos
olhos de avelã logo antes de o beijar — e Austin sente uma estranha
mistura de animação e pânico queimando no estômago.
Os enormes postes arqueados de xênon se acendem, vivos, ao redor
do estádio, iluminando a faixa de terra e o campo coberto de lixo, e as
arquibancadas lentamente se enchem ao redor de Austin com cidadãos
barulhentos, sedentos por sangue e por catarse. O ar tem um traço frio e
fede a óleo combustível e podridão de errantes, e Austin se sente
estranhamente removido de tudo isso.
Vestido com um moletom com capuz, jeans e botas de motociclista,
os cabelos longos presos com um prendedor de couro, ele se remexe no
assento frio e duro, os músculos doloridos das aventuras daquela tarde no
interior. Austin não consegue ficar confortável. Ele olha para além do
campo, para o lado mais afastado da arena, e vê os portais escuros se
enchendo com aglomerados de cadáveres de pé, cada um encoleirado a um
guia por correntes grossas. Os guias começam a levar os Mordedores para
a luz ofuscante do campo, os spots de luz prateada fazem os rostos
mortos ficarem quase iguais aos do teatro kabuki, pintados como palhaços
mórbidos.
A multidão fervilha com barulho, assobios e palmas. Os grunhidos e os
resmungos viscosos dos errantes conforme tomam seus lugares na pista
de cascalho mais externa misturam-se às vozes crescentes dos
espectadores, criando assim um ruído inumano. Austin encara o espetáculo.
Ele não consegue tirar Lilly da cabeça. O rugido que se avoluma ao seu
redor começa a se dissipar... e dissipar... e dissipar... até que ele só consiga
ouvir a voz de Lilly na cabeça, baixinha, fazendo uma promessa.
Mostrarei algumas coisas... o único modo de sobrevivermos... ajudar
um ao outro.
Alguma coisa cutuca as costelas de Austin e o arranca de volta à
realidade.
Ele se vira e percebe que um senhor tomou o lugar ao lado.
Exibindo uma barba amarelada pela nicotina, um rosto velho tão
enrugado quanto um pergaminho amassado e um surrado sobretudo preto
com um chapéu de aba larga, o homem é um judeu chassídico briguento
que, de alguma forma, conseguiu sobreviver nas ruas de Atlanta depois da
Transformação. O nome dele é Saul, e o homem mostra a Austin os dentes
manchados e apodrecidos quando diz, sorrindo:
— A coisa vai ficar quente na velha cidade esta noite... estou certo?
— Sim, claro. — Austin se sente aturdido, zonzo. — Mal posso esperar.
Austin se volta para os mortos reunidos na periferia da pista, e essa
visão o faz sentir um desconforto no estômago. Um dos Mordedores, um
homem obeso com macacão de pintor borrifado com bile, projeta um
emaranhado de intestino delgado de um ferimento circular na barriga
porcina. Outro não tem a lateral do rosto, os dentes superiores brilham sob
os holofotes conforme a mulher geme e puxa a corrente. Austin está
rapidamente perdendo o entusiasmo pelas lutas. Lilly tem razão. Ele abaixa
a cabeça para a faixa grudenta abaixo da arquibancada, para as guimbas de
cigarro e as poças de bebidas e de cerveja azeda. Austin fecha os olhos e
pensa no rosto doce de Lilly, as sardas salpicadas sobre o osso do nariz, a
curva esguia do pescoço.
— Com licença — diz o rapaz, levantando-se e passando pelo idoso.
— Melhor voltar correndo — murmura o velhote, piscando
repetidamente. — O espetáculo vai começar a toda!
Austin já está a meio caminho no corredor. Não olha para trás.
Enquanto cruza a cidade, ultrapassando as sombras de fachadas de lojas e
os prédios escuros e cobertos com tábuas da avenida principal, Austin vê
meia dúzia de pessoas vindo em sua direção do lado oposto da rua.
Fechando mais o capuz, enfiando a mão no bolso, ele continua
avançando, a cabeça abaixada. Enquanto evita contato visual com o grupo
que se aproxima, Austin reconhece o Governador, que caminha à frente dos
estranhos como um guia turístico, o peito todo inflado de orgulho. Bruce e
Gabe seguem na retaguarda com os rifles de assalto empunhados e
prontos.
— ... Guarda Nacional a cerca de 1,5 quilômetro, completamente
abandonada — diz o Governador para os estranhos. Austin jamais viu
aquelas pessoas. O Governador as está tratando como VIPs. — Todo tipo
de suprimento no interior — diz o Governador. — Temos feito bom uso
deles. Óculos de visão noturna, rifles de precisão, munição, vocês viram
isso em ação. Este lugar não seria merda alguma sem eles.
Quando Austin passa na calçada oposta, ele vê melhor os recémchegados.
Os dois homens e a mulher parecem açoitados pela batalha, sombrios
e talvez até um pouco nervosos. Entre os dois homens — cada um deles
está vestido com roupa de batalhão de choque —, o mais velho parece mais
durão, mais malvado, mais esperto. De cabelos loiros como areia, uma
barba um pouco grisalha, o homem mais velho caminha ao lado do
Governador, e Austin ouve quando ele diz:
— Vocês parecem ter sorte. Para onde está nos levando? Estamos
caminhando na direção da luz. O que é aquilo? Um jogo de beisebol?
Antes de o grupo desaparecer na esquina, Austin olha por cima do
ombro e vê melhor os outros dois estranhos. O homem mais jovem usa um
capacete de batalhão de choque e parece, talvez, asiático, é difícil
determinar sua idade àquela distância e sob aquela luz.
A mulher é muito mais interessante de se olhar. O rosto fino e
delineado mal pode ser visto à sombra do capuz, e, para Austin, ela parecer
ter trinta e poucos anos, ser afro-americana e exoticamente linda.
Apenas por um instante, Austin tem uma sensação ruim a respeito
daquelas pessoas.
— Ora, estranho. — Ele ouve o Governador dizendo quando o grupo sai
de seu campo visual. — Parece que não somos os únicos com sorte por
aqui. Vocês apareceram na noite perfeita. Há uma luta hoje.
O vento e as sombras abafam o restante da conversa conforme o
grupo vira uma esquina. Austin solta um suspiro, afasta a sensação
inexplicável de pesar e continua a seguir para a casa de Lilly.
Um minuto depois, ele se vê parado diante do prédio dela. O vento
retornou e espirais de lixo passam pela entrada. Austin para, abaixa o
capuz, afasta uma mecha de cabelo cacheado dos olhos e, silenciosamente,
ensaia o que dizer.
Ele sobe até a porta de Lilly e inspira fundo.
Lilly está sentada próxima à janela em uma poltrona de segunda mão, uma
vela tremeluzente num aparador ao lado, um livro de culinária aberto no
capítulo sobre os grandiosos acompanhamentos da comida sulista, quando o
ruído de batidas interrompe seu devaneio.
Ela estava pensando em Josh Hamilton e em todas as grandes
refeições que ele teria preparado se tivesse sobrevivido, e a mistura de
tristeza e arrependimento levou a fome de Lilly a desejar mais do que
carne enlatada e arroz instantâneo. Ela também estava pensando bastante
no Governador naquela noite.
Ultimamente, seu pavor do homem vinha se transformando em outra
coisa. Ela não consegue tirar da mente a memória do Governador
sentenciando o assassino de Josh — o açougueiro da cidade — a uma morte
horrível nas mãos dos errantes famintos. Com uma combinação de
vergonha e satisfação, Lilly revive o ato de vingança em seus pensamentos
mais obscuros. O homem teve o que mereceu. E talvez — apenas talvez —
o Governador seja o único remédio que eles têm para aquele tipo de
injustiça. Olho por olho.
— Quem diabo...? — resmunga ela, levantando-se da poltrona.
Lilly cruza a sala descalça, a calça jeans boca de sino rasgada se
arrasta na madeira imunda do piso. Ela está vestida com uma camiseta
térmica verde-oliva, tipo lingerie, decotada provocativamente em um V
perfeito, um top esportivo por baixo, colares de couro cru e contas ao redor
do pescoço fino. As mechas loiras estão presas ao estilo Brigitte Bardot no
topo da cabeça. O senso de moda descolado de Lilly — desenvolvido
inicialmente em brechós e em lojas do Exército da Salvação em Marietta —
resiste bravamente no mundo pós-praga. De certa forma, seu senso de
moda é sua armadura, seu mecanismo de defesa.
Lilly abre a porta e olha para Austin parado no escuro.
— Desculpe por ficar incomodando você — diz ele, envergonhado, com
um braço segurando o outro como se estivesse prestes a rasgar nas
costuras. Ele está com o capuz puxado sobre o rosto fino e, por um
brevíssimo instante, parece uma pessoa diferente para Lilly. Os olhos
perderam a confiança arrogante que perpetuamente brilhava ali. A
expressão do rosto dele se suavizou, e a pessoa de verdade por baixo
daquela crosta dura emergiu. Austin encontra o olhar de Lilly. — Está
ocupada?
Lilly sorri.
— É, você me pegou no telefone com meu corretor de ações, estava
movendo milhões entre meus fundos de investimento.
— Devo voltar outra hora?
Lilly suspira.
— Isso se chama piada, Austin. Lembra o que é humor?
Ele assente, triste.
— Ah... é. — Austin consegue sorrir. — Estou um pouco lento esta
noite.
— O que posso fazer por você?
— Tudo bem... hã. — Ele olha ao redor da rua escura. Praticamente
toda a cidade se deslocou até a arena para as festividades da noite. Agora,
o vento arrasta o lixo nas calçadas desertas e farfalha entre os fios
elétricos mortos, fazendo um zumbido esquisito. Apenas alguns dos homens
de Martinez permanecem nos cantos das barricadas, patrulhando com as
AR-15 e os binóculos. De vez em quando, uma luz de busca varre os
bosques vizinhos com o feixe luminoso. — Estava imaginando, hã, sabe, se
não estiver muito ocupada — gagueja Austin, evitando contato visual com
Lilly —, se você estaria disposta a, tipo, treinar um pouco comigo hoje à
noite?
Lilly olha para o rapaz de modo questionador.
— Treinar?
Austin pigarreia sem jeito, então olha para baixo.
— Bem, é que você disse que pensaria na possibilidade de me mostrar
algumas coisas... me dar algumas dicas de como... sabe... lidar com os
Mordedores, me proteger.
Lilly olha para ele e respira fundo. Então sorri.
— Um segundo... vou buscar minhas armas.
Os dois descem até a estação de trem perto da fronteira leste da cidade, o
mais longe das luzes e do barulho da arena que conseguem. Quando
chegam lá, Lilly já levantou a gola da jaqueta jeans para se proteger do frio
crescente. O ar tem cheiro de metano e gás de pântano — um misto de
podridão —, e o odor os envolve nas sombras sob o luar do pátio dos trens.
Lilly repassa alguns cenários com Austin, faz testes, desafia o jovem.
Austin está com a Glock 9 mm consigo, assim como com uma faca de
caça embainhada na coxa direita, amarrada com couro cru.
— Vamos, continue em movimento — diz Lilly para ele em certo
momento, conforme Austin, vagarosamente, segue ao longo da fronteira do
bosque, a pistola na lateral do corpo, agarrada à mão direita, o dedo do lado
de fora do vão do gatilho. Os dois estão treinando há quase uma hora, e
Austin está ficando impaciente. A floresta pulsa e zune com ruídos
noturnos — grilos, galhos farfalhando — e a ameaça constante de sombras
se movendo atrás das árvores. Lilly caminha ao lado dele com a autoridade
silenciosa de uma instrutora de treino. — Você deve sempre se manter em
movimento, mas não muito rápido, nem muito devagar... mantenha os olhos
abertos.
— Deixe eu adivinhar... assim, certo? — diz ele, um traço de
exasperação na voz.
A arma de Austin está com um dos silenciadores de Lilly acoplado ao
cano. O capuz dele está puxado, bem fechado, ao redor do rosto. Uma
cerca alta de arame retorcido percorre o limite do bosque, tendo um dia
servido como segurança para o depósito da ferrovia. Um rastro de carvão
espalhado se estende ao longo de uma fileira de trilhos de ferrovia
abandonados, cobertos pela grama selvagem.
— Eu disse a você para não colocar o capuz — falou Lilly. — Você
está interrompendo sua visão periférica.
Austin tira o capuz e continua se movendo no limite das árvores.
— E agora?
— Melhor. Você deve sempre estar ciente do que o cerca. Essa é a
chave. É mais importante do que qual arma usa ou do que a maneira como
segura a pistola ou o machado ou qualquer coisa. Sempre esteja ciente
daquilo que está em cada um dos seus lados. E daquilo que está atrás de
você. Assim pode fugir rapidamente se precisar.
— Entendi.
— E nunca-nunca-nunca-nunca se permita ficar cercado. Eles são
lentos, mas podem se fechar ao seu redor se forem numerosos o bastante.
— Você já disse isso.
— A questão é sempre saber para que lado correr se precisar.
Lembre-se, sempre será mais rápido do que eles... mas isso não quer dizer
que não possa ser cercado.
Austin assente e olha intermitentemente por cima do ombro,
acompanhando a escuridão em todos os lados da trilha. Ele se vira e,
devagar, recua pela trilha por um momento, examinando as sombras.
Lilly o observa.
— Abaixe a arma por um segundo — diz ela. — Pegue a faca. — Lilly o
observa trocar de arma. — Tudo bem, agora digamos que está sem
munição, está isolado, talvez perdido.
Austin olha para ela de esguelha.
— Lilly, já repassamos essa parte... tipo, umas duas vezes.
— Que bom, você sabe contar.
— Qual é...
— E vamos repassá-la de novo, uma terceira vez, então responda à
pergunta. Como você segura sua faca?
Austin suspira, recuando ao longo das árvores, as botas esmagando o
carvão.
— Você segura com a lâmina para baixo, agarrando firme o cabo... Não
sou burro, Lilly.
— Nunca disse que você era burro. Me diga por que está segurando
assim.
Austin continua recuando ao longo do limite do bosque, movendo-se
distraidamente agora, balançando a cabeça.
— Você segura assim porque só tem uma chance de descer com força
no crânio deles e quer fazer isso decisivamente.
Lilly repara em uma tábua largada — um dormente da ferrovia — ao
lado da trilha, a cerca de 6 metros. Ela se move silenciosamente na direção
do objeto.
— Continue — diz Lilly. Com um movimento rápido e discreto, Lilly
chuta o dormente para o caminho de Austin. — Por que faz isso
decisivamente?
Ele emite outro suspiro cansado, recuando distraído.
— Faz isso decisivamente porque tem a chance de destruir o cérebro.
— Austin continua recuando devagar na direção do dormente, agarrado à
faca, alheio à obstrução que jaz em seu caminho. — Não sou burro, Lilly.
Ela sorri.
— Ah, não, você é um verdadeiro ninja, o modo como verificou o
bosque para nós hoje no local do acidente. Está com tudo em cima.
— Não tenho medo, Lilly, já disse um milhão de vezes, estive...
Austin tropeça no dormente da ferrovia.
— Ai! MERDA! — dispara ele, quando atinge o chão, levantando uma
nuvem de poeira de carvão.
A princípio, Lilly emite uma gargalhada enquanto Austin fica sentado
ali por um segundo, parecendo derrotado, envergonhado, humilhado. Na
escuridão, os olhos dele brilham com emoção, e os cachos pendem no rosto
do rapaz. Ele parece um cachorro açoitado. A risada de Lilly cessa, e a
culpa revira seu estômago.
— Desculpe, desculpe — murmura ela, ajoelhando-se ao lado de Austin.
— Eu não tive a intenção... — Lilly acaricia o ombro dele. — Desculpe, estou
sendo babaca.
— Tudo bem — responde Austin, baixinho, respirando fundo, olhando
para baixo. — Eu mereço.
— Não. Não. — Lilly se senta ao lado dele. — Você não merece nada
disso.
Austin olha para ela.
— Não se preocupe com isso. Só está tentando me ajudar e agradeço.
— Não sei o que estou fazendo na metade do tempo. — Lilly esfrega o
rosto. — Só sei que... precisamos estar prontos. Precisamos estar... odeio
dizer isso... mas precisamos estar tão sedentos por sangue quanto os
Mordedores. — Ela olha para o rapaz. — É a única forma de superarmos
isso.
O olhar de Austin se detém sobre Lilly. O zunido do ambiente fica
mais profundo ao redor deles, o rugir dos sons da noite aumenta. De longe,
quase inaudíveis, vêm os grunhidos de hiena dos espectadores da pista de
corrida torcendo por sangue.
Por fim, Austin diz:
— Você está começando a soar como o Governador.
Lilly olha para longe e não diz nada, apenas ouve os sons pairando na
brisa.
Austin umedece os lábios e olha para ela.
— Lilly, estive pensando... e se não houver outro lado para o qual ir? E
se for só isto? E se isto for tudo o que há para nós?
Lilly pensa a respeito.
— Não importa. Contanto que tenhamos um ao outro... e estivermos
dispostos a fazer o que for preciso... sobreviveremos.
As palavras pendem no ar noturno por um momento. Quase
imperceptivelmente, os dois se aproximaram, a mão de Lilly permanecendo
no ombro de Austin, a dele encontrando a lombar de Lilly.
Lilly percebe, de súbito, que, originalmente, podia estar pensando na
união da comunidade como um todo, mas agora está pensando apenas nos
dois. Lilly se vê inclinar para perto dele, e Austin responde inclinando o
corpo na direção dela. Lilly sente alguma coisa se desenvolver, se libertar,
os lábios dos dois se tocam, e o beijo está para acontecer, quando, de
repente, Lilly se afasta.
— O que é isso? Nossa, o que é isso?
Ela sente algo molhado na cintura de Austin e olha para baixo.
A bainha do moletom dele está ensopada de sangue. Parte do sangue
pinga em um fluxo até o chão folhoso, preto e brilhante como óleo de
transmissão. A lâmina da faca desponta de um rasgo na calça jeans, onde
cortou a carne do quadril de Austin durante a queda. Austin coloca a mão
sobre o ferimento.
— Merda — dispara ele, com os dentes trincados, o sangue escorrendo
pelos dedos. — Achei que tinha sentido alguma coisa me morder.
— Vamos! — Lilly fica de pé em um salto e oferece a mão a Austin,
cuidadosamente levantando-o. — Temos de levar você para o Dr. Stevens.
Seu nome todo era Christina Meredith Haben, cresceu em Kirkwood,
Geórgia, e foi para a faculdade nos anos 1980 para estudar
telecomunicações em Oberlin. Teve um filho fora do casamento, deu à luz
a criança e a entregou para adoção um dia depois do 11 de Setembro.
Sofreu diversas desventuras amorosas na vida, jamais encontrou o cara
certo, nunca se casou e sempre se considerou comprometida com o
trabalho de produtora de conteúdo sênior em um dos maiores canais da
região sul. Christina ganhou três prêmios Emmy, um Clio e dois Cable Ace
— todos a deixavam, justificadamente, orgulhosa — e nunca sentiu que
seus superiores a respeitavam ou a remuneravam como merecia.
Mas no momento — naquele piso de ladrilho imundo, na iluminação das
lâmpadas fluorescentes — todos os arrependimentos de Christina Haben, os
medos, as frustrações, as esperanças e os desejos se foram há muito
tempo, destruídos pela morte, seus restos mortais espalhados pelo
parquete inundado de sangue viscoso enquanto 17 errantes prisioneiros
arrancam os órgãos e os tecidos da mulher.
Os ruídos úmidos e orgíacos da alimentação ecoam pelas paredes de
concreto enquanto os mortos se banqueteiam com as partes do corpo, em
sua maioria inidentificáveis, que costumavam compor Christina Haben.
Sangue e fluido espinhal e bile se misturam nos cantos da sala como
alimentos multicoloridos, escorrendo pelas depressões dos azulejos,
borrifando as paredes com profundas manchas escarlate e encharcando os
Mordedores em frenesi. Selecionados pela integridade física, etiquetados
para a arena de gladiadores, a maioria das criaturas parece ter sido homens
adultos, alguns agora agachados de modo simiesco à luz forte, roendo
nódulos cartilaginosos que costumavam pertencer à parte inferior do
esqueleto de Christina Haben.
Do outro lado do ambiente, portas duplas retangulares estão embutidas
em uma porta de garagem que cerca a sala. Na moldura da janela à
esquerda, um rosto magro, abatido e de bigode, olha para a ação.
Parado no corredor silencioso, do lado de fora do espaço fechado,
olhando atentamente pelo vidro da janela, o Governador exibe pouca emoção
no rosto a não ser severa satisfação com o que vê. Sua orelha esquerda
está com ataduras de um encontro recente com os recém-chegados, e a
dor toma conta dele. Faz com que feche os punhos. Irradia pela medula
como eletricidade, envolvendo-o, cristalizando sua missão. Todas as
dúvidas, todas as hesitações — na verdade, toda sua humanidade
remanescente — estão sendo colocadas de lado pelo ódio, pela vingança e
pela voz bem no fundo dele que serve de bússola. O Governador sabe agora
qual é o único modo de evitar que sua caixinha de metal pegue fogo. Ele
sabe o que deve fazer para...
As passadas arrastadas da outra ponta do corredor interrompem seus
pensamentos.
***
Lilly está com o braço ao redor de Austin quando chega à base das
escadas, vira em um canto e corre pelo corredor principal que atravessa as
catacumbas fétidas de blocos de concreto das garagens e das baias de
serviço abaixo da arena.
A princípio, ela não vê a figura escura de pé, sozinha, no final do
corredor, olhando pela janela do portal. Está preocupada demais com o
ferimento de Austin e com o esforço exigido para simplesmente manter
pressão no corte com a mão direita conforme se arrasta pela enfermaria.
— Olhe o que o gato trouxe — diz a figura, quando Lilly e Austin se
aproximam.
— Ah... oi — diz Lilly, sem jeito, ao se aproximar com Austin pingando
algumas gotas de sangue no chão, nada que ponha a vida em risco, mas o
suficiente para se preocupar. — Preciso levar este aqui ao médico.
— Espero que o outro cara esteja pior — brinca o Governador, quando
Lilly e Austin param do lado de fora de uma porta de garagem surrada.
Austin consegue dar um risinho, os cachos longos e úmidos pendem
sobre seu rosto.
— Não é nada... é superficial... caí em cima da minha faca feito um
idiota. — Ele segura a lateral do corpo. — O sangramento basicamente
parou, estou totalmente bem agora.
Muito baixinho, os sons abafados do frenesi da alimentação podem ser
ouvidos pelo vidro selado. Parece um estômago gigantesco roncando. Lilly
vê de relance pela janela mais próxima a orgia grotesca que ocorre na
“pen”, e lança um olhar para Austin, que também vê. Os dois ficam em
silêncio. A visão daquilo quase não é registrada na mente de Lilly.
Antigamente, teria se sentido enojada. Lilly olha de volta para o Governador.
— Vejo que estão tomando as vitaminas e os minerais.
— Nada é desperdiçado aqui — diz o Governador, dando de ombros e
acenando na direção da janela. — Pobre garota do helicóptero, morreu...
ferimentos internos devido à queda, acho... pobrezinha. — Ele se vira na
direção do vidro e olha para dentro. — Ela e o piloto servem a um propósito
maior agora.
Lilly vê a orelha enfaixada. Ela olha novamente para Austin, que
também encara as ataduras manchadas de sangue do Governador e a orelha
mutilada abaixo.
— Não é da minha conta — diz Austin, por fim, apontando para a
orelha. — Mas você está bem? Parece que tem um ferimento horrível aí.
— Essas pessoas novas, chegaram esta noite — murmura o
Governador, sem tirar o olhar da janela. — No fim das contas, eram um
risco maior do que pensei.
— É, vi você com eles mais cedo. — Austin se empertiga. — Estava
meio que levando eles para fazer um tour do lugar, certo? O que
aconteceu?
O Governador se vira e olha diretamente para Lilly, como se ela
tivesse feito a pergunta.
— Tento estender toda cortesia às pessoas, mostrar a elas
hospitalidade. Estamos todos no mesmo barco ultimamente, certo?
Lilly assente para ele.
— Com certeza. Então, qual era o problema deles?
— Pelo visto eram um grupo de reconhecimento de outro
assentamento próximo, e as intenções deles não eram exatamente
amigáveis.
— O que eles fizeram?
O Governador encara Lilly.
— Acho que iam tentar saquear nossa cidade.
— Saquear?
— Está acontecendo por todo canto agora. Os grupos de
reconhecimento se infiltram, asseguram um lugar, então roubam tudo.
Comida. Água. Nossa roupa do corpo.
— Então, o que aconteceu?
— Tive uma discussão feia com eles. Não deixaria que fodessem com
a gente. Não em um milhão de anos. Um deles, a garota de cor, tentou
arrancar minha orelha a mordidas.
Lilly compartilha outro olhar de tensão com Austin. Ela olha para o
Governador.
— Cruzes... o que está acontecendo? Essas pessoas são selvagens,
porra.
— Somos todos selvagens, garotinha Lilly. Só precisamos ser os mais
selvagens do quarteirão. — O Governador respira fundo. — Briguei bem feio
com o principal. O cara revidou com força. Acabei cortando a mão dele
fora.
Lilly não consegue se mover. Ela sente emoções contraditórias
percorrendo seu corpo, beliscando suas entranhas, disparando fagulhas de
trauma no fundo de sua mente — lembranças de uma bala destruindo a
parte de trás da cabeça de Josh Hamilton.
— Meu Deus — murmura ela, quase para si.
O Governador respira fundo mais uma vez, então exala um suspiro
exasperado.
— Stevens está mantendo o cara vivo. Talvez a gente consiga extrair
alguma coisa dele. Talvez não. Estamos em segurança por enquanto. E é
isso que conta.
Lilly assente e ameaça dizer algo quando o Governador a interrompe.
— Não vou deixar ninguém foder com nossa cidade — diz ele, fazendo
contato visual com os dois.
Uma única pérola de sangue escorre pelo pescoço do Governador a
partir da orelha enfaixada. Ele a limpa e suspira de novo.
— Vocês são minha prioridade número um, e é só isso que importa.
Lilly engole em seco. Pela primeira vez desde que chegou àquele lugar,
sente algo diferente de desprezo por aquele homem... se não confiança,
então talvez um traço de compreensão.
— Enfim — diz ela —, melhor eu levar Austin para a enfermaria.
— Vá em frente — diz o Governador, com um sorriso cansado. —
Consiga um Band-Aid para o bonitão aqui.
Lilly passa o braço ao redor de Austin e ajuda o jovem a se arrastar
pelo corredor. Mas antes de eles virarem na última esquina, Lilly para e
olha de volta para Philip.
— Ei, Governador — diz ela, baixinho. — Obrigada.
***
Percorrendo o labirinto de corredores que dá na enfermaria, os dois
esbarram em Bruce. O enorme afro-americano está vindo da direção
oposta, caminhando com determinação, as botas de montaria ecoando, a .45
quicando na coxa grande e musculosa, o rosto queimando com urgência.
Bruce ergue o rosto ao ver Lilly e Austin.
— Oi, gente — diz ele, com a voz de barítono. — Viram o Governador
por aí?
Lilly diz onde está o homem, então acrescenta:
— Deve ser noite de lua cheia, não?
Bruce olha para ela. A expressão séria, os olhos semicerrando-se, ele
parece estar imaginando o quanto, exatamente, a garota sabe.
— Como assim?
Lilly dá de ombros.
— Só parece que as coisas estão ficando cada vez mais loucas.
— De que jeito?
— Não sei... esses babacas tentando saquear a cidade... as pessoas
agindo como doidas e coisas assim.
Bruce parece aliviado.
— Ah... é... uma coisa doida. Preciso ir.
Ele passa roçando os dois, então corre pelo corredor até a “pen” dos
errantes.
Lilly franze a sobrancelha, observando-o.
Alguma coisa não se encaixa.
Nove
Quando chegam à enfermaria, Lilly e Austin encontram o Dr. Stevens
preocupado, debruçado sobre a forma parcialmente nua de um homem
adulto inconsciente jogado sobre uma maca no canto. O homem — de cerca
de 30 anos, magro, de cabelos loiros como areia, uma barba meio grisalha
— está com uma toalha jogada sobre as partes íntimas e uma atadura
encharcada de sangue no coto direito em que consiste seu punho. O médico
cuidadosamente remove um colete protetor surrado e manchado de sangue
dos ombros do homem.
— Doutor? Tenho outro paciente para você — diz Lilly ao cruzar a sala
com Austin se arrastando ao seu lado.
O homem inconsciente na maca é desconhecido para Lilly, mas Austin
parece reconhecê-lo pelos cabelos loiros como areia imediatamente, ao que
dá um cutucão nas costelas de Lilly.
Austin sussurra:
— É ele... o cara com quem o Governador se atracou.
— O que foi agora? — diz o médico, erguendo o rosto da maca e
olhando para os dois por cima dos óculos de armação de arame. Ele vê os
dedos de Austin manchados de sangue, pressionados contra a costela. —
Coloque-o ali, já vou até vocês. — O médico olha por cima do ombro. —
Alice, ajude-nos com Austin, sim?
A enfermeira sai de uma despensa adjacente com os braços cheios de
ataduras de algodão, esparadrapo e gaze. Vestida com o jaleco, o cabelo
preso para longe do rosto jovem, ela parece exaurida. Alice faz contato
visual com Lilly, mas não diz nada conforme corre pela sala.
Lilly ajuda Austin a subir na mesa de exames no canto oposto.
— Quem é o paciente, doutor? — pergunta Lilly, fazendo-se de boba,
ajudando Austin, com cuidado, a subir na mesa. Austin se contorce
levemente com uma pontada de dor, mas parece mais fascinado pelo
homem deitado e apagado na maca. Alice se aproxima e começa a abrir
com cuidado o moletom de Austin, inspecionando o ferimento.
Do outro lado da sala, o médico cuidadosamente passa uma camisola
hospitalar rasgada por cima da cabeça oscilante do homem, guiando os
braços inertes para dentro das mangas.
— Acho que ouvi alguém dizer que o nome dele é Rick, mas não tenho
certeza.
Lilly vai até a maca e olha com desdém para o homem inconsciente.
— O que eu ouvi é que ele atacou o Governador.
O médico não olha para ela, apenas contrai os lábios de modo cético
conforme amarra gentilmente a parte de trás da camisola.
— E onde, pergunto, ouviu isso?
— Do próprio homem.
O médico dá um sorriso cruel.
— Foi o que pensei. — Ele lança um olhar para Lilly. — Acha que ele
está sendo honesto, é?
— O que quer dizer? — Lilly se aproxima. Ela abaixa o rosto para o
homem na maca. No estupor lívido do sono, com a boca um pouco aberta e
respirando rapidamente, o sujeito de cabelos loiros poderia ser qualquer um.
Açougueiro, padeiro, fabricante de velas... serial killer, santo... qualquer um.
— Por que o Governador mentiria sobre isso? Que bem faria?
O médico termina de amarrar as costas da camisola hospitalar e
então puxa delicadamente um lençol sobre o paciente.
— Você parece ter esquecido que seu líder destemido é um mentiroso
congênito. — Stevens diz isso em tom casual, como se informasse a hora e
a temperatura. Ele para e encara Lilly. — Não é novidade, Lilly. Procure a
palavra “sociopata” no dicionário e veja se não encontra a foto dele.
— Olhe... eu sei que ele não é nenhuma Madre Teresa... mas e se ele
for exatamente aquilo de que precisamos agora?
O médico olha para ela.
— O que precisamos? Sério? Ele é o que precisamos? — Stevens
balança a cabeça, afasta-se e vai até o monitor de pulsação e oxigênio
sobre a mesa ao lado da maca. A máquina está desligada, a tela vazia.
Presa a uma bateria de carro de 12 volts, parece que caiu da traseira de
um caminhão. Stevens mexe no aparelho por um momento, reajusta os
terminais. — Sabe do que precisamos de verdade? Precisamos de um
monitor aqui embaixo que realmente funcione.
— Precisamos ficar unidos — insiste Lilly. — Essas pessoas são uma
ameaça.
O médico se vira com raiva para ela.
— Quando foi que bebeu a poção do fanatismo, Lilly? Certa vez me
disse que o Governador é a maior ameaça à nossa segurança. Lembra-se?
O que aconteceu com a defensora da liberdade?
Lilly semicerra os olhos para ele. A sala fica silenciosa, Alice e Austin
sentem a tensão, o silêncio deles alimenta a inquietude esquisita na
atmosfera. Lilly fala.
— Ele poderia ter matado a gente e não matou. Só quero sobreviver. O
que é essa coisa que você tem com ele?
— Essa coisa que tenho está deitada bem aqui — diz o médico,
indicando o homem inconsciente. — Acredito que ele foi atacado pelo
Governador.
— Do que está falando?
O médico assente.
— Atacado sem provocação, é o que estou dizendo. O Governador
mutilou este homem.
— Isso é ridículo.
O médico avalia Lilly. O tom de voz dele muda, fica baixo, frio:
— O que aconteceu com você?
— Como disse, doutor, só estou tentando sobreviver.
— Use a cabeça, Lilly. Por que essas pessoas rastejariam até aqui
com más intenções? Elas só estão vagando por aí como o restante de nós.
O médico olha para o homem na maca. Os olhos dele oscilam
levemente sob as pálpebras, um sonho febril desesperado se desenvolvendo.
A respiração dele fica um pouco agitada por um momento, então se acalma
de novo.
O silêncio se prolonga. Por fim, Austin fala do outro lado da sala.
— Doutor, havia dois outros, um cara mais novo e uma mulher com
ele. Sabe onde estão? Para onde foram?
Stevens apenas balança a cabeça negativamente e olha para o chão
agora. A voz sai em um sussurro quase inaudível:
— Não sei. — Então ele ergue o rosto para Lilly. — Mas lhes digo uma
coisa... não queria ser eles agora.
Uma voz abafada pode ser ouvida detrás de uma porta de garagem selada
ao fim de um corredor isolado no subporão da arena. Rouca de exaustão,
saindo aguda por causa da tensão, a voz é feminina, baixa e indecifrável
para os dois homens de pé do lado de fora.
— Ela está nessa desde que a coloquei aí — diz Bruce ao Governador,
que está parado olhando para a porta com os braços dobrados
judiciosamente sobre o peito. — Falando sozinha assim.
— Interessante — comenta o Governador, com os sentidos aguçados
pela violência latente no ar. Ele consegue sentir nos ossos o zumbido de
geradores. Consegue detectar os odores de podridão e de gesso mofado.
— Essas pessoas são totalmente malucas — acrescenta Bruce,
balançando a cabeça careca e reluzente, com a mão instintivamente
apoiada na coronha da .45 embainhada no quadril.
— É, malucas como raposas — murmura o Governador.
O ouvido dele lateja. A pele formiga com antecipação. Controle. O
refrão emerge da voz que vive no compartimento mais baixo de seu
cérebro: As mulheres devem ser controladas... gerenciadas... subjugadas.
Por um instante passageiro, parece a Philip Blake que parte dele está
do lado de fora do corpo, observando tudo aquilo transpirar, fascinado pela
voz interior que é sua segunda natureza agora, uma segunda pele: Você
precisa descobrir o que essas pessoas sabem, de onde vêm — o que têm
— e, mais importante, o quanto são perigosas.
— A moça aí dentro é durona pra cacete — diz Bruce. — Não vai dizer
nada.
— Eu sei como dobrá-la — murmura o Governador. — Deixe comigo.
Ele respira profundamente, inspira devagar, prepara-se. O Governador
pressente perigo ali. Aquelas pessoas poderiam muito facilmente feri-lo —
poderiam destruir sua comunidade —, então ele precisa apelar para a parte
de si que sabe como ferir os outros, que sabe como subjugar as pessoas,
que sabe como controlar as mulheres. Ele nem mesmo pisca.
O Governador simplesmente se vira para Bruce e diz:
— Abra.
A porta da garagem rola para cima sobre roldanas enferrujadas que
guincham, chocando-se contra o trilho superior. No fundo do espaço
fechado, a mulher na escuridão puxa as cordas que a prendem,
sobressaltada, os longos dreadlocks cobrindo-lhe o rosto.
— Desculpe — diz o Governador para ela. — Não deixe que eu
interrompa.
Sob o feixe de luz que entra do corredor, o olho esquerdo da mulher
brilha entre um espaço em meio às tranças, apenas aquele olho,
perversamente avaliando os visitantes parados como gigantes à porta, suas
silhuetas formadas pelas lâmpadas nuas dentro de grades ao longo do teto
do corredor atrás deles.
O Governador dá um passo adiante. Bruce se aproxima por trás dele.
— Você parecia que estava tendo uma conversa legal e bem-humorada
com... desculpe, com quem exatamente estava falando? Na verdade, deixe
pra lá, nem me importo. Vamos em frente com isso.
A mulher no chão lembra um animal exótico encoleirado dentro de
uma penitenciária — pele escura, graciosa e esguia como uma pantera, até
mesmo nas roupas surradas —, e seu pescoço fino está amarrado a uma
corda na parede dos fundos. Cada braço está amarrado em um canto
oposto da câmara, a pele cor de café espresso reluzindo do suor, as
tranças de Medusa brilhando e escorrendo por seus ombros e nas costas. A
mulher olha com ódio através do cabelo para o homem magricela que se
aproxima com uma calma ameaçadora.
— Bruce, me faça um favor. — O Governador fala com o tom
distraído e profissional de um trabalhador que se aproxima de um
encanamento quebrado ou um buraco a ser preenchido no asfalto. — Tire a
calça dela e amarre uma perna àquela parede ali.
Bruce se aproxima e faz como ordenado. A mulher fica tensa quando a
calça é puxada para baixo. Bruce faz isso com a certeza determinada de
alguém arrancando um Band-Aid de um machucado. O grandalhão se afasta,
então puxa um rolo de corda do cinto. E começa a amarrar uma das pernas.
— Amarre a outra perna àquela parede ali — instrui o Governador.
A mulher não tira o olhar do Governador. Ela o fita com ódio através
do cabelo, os olhos tão cheios de raiva que poderiam fundir aço.
O Governador se aproxima dela. Ele começa a abrir o cinto.
— Ainda não lute muito, garota. — O Governador solta o cinto e abre a
calça camuflada. — Você vai querer guardar energia.
A garota no chão fita o Governador com a intensidade de um buraco
negro engolindo toda matéria. Cada partícula na sala, cada molécula, cada
átomo, é atraída para o vazio escuro de seus olhos. O Governador se
aproxima. Ele alimenta o ódio da mulher como um para-raios.
— Depois de terminar aí, Bruce... nos deixe sozinhos — diz o
Governador, com o olhar fixo na mulher. — Precisamos de privacidade. —
Ele sorri para ela. — E feche a porta ao sair. — O sorriso do Governador
fica mais largo. — Diga uma coisa, garota. Quanto tempo acha que levaria
pra que eu destruísse sua vida, acabasse com seu senso de segurança,
fodesse com você de verdade?
Nenhuma resposta vem da mulher, apenas aquele antigo olhar curvado
de um animal tenso logo antes de uma luta mortal.
— Acho que meia hora provavelmente seria o bastante. — Aquele
sorriso. Aquele olhar viperino de pálpebras pesadas. O Governador está a
apenas centímetros da mulher. — Mas, na verdade, planejo fazer isso todo
dia o tanto quanto puder... — A calça dele está abaixada na altura dos
tornozelos agora. Bruce se dirige à porta conforme o Governador tira a
calça. Um arrepio percorre a espinha dele.
A porta externa desce quando Bruce sai. A reverberação do estampido
faz a mulher estremecer novamente, apenas de leve.
A voz do Governador preenche o vácuo do espaço quando a cueca é
retirada.
— Isso vai ser divertido.
Na superfície. No ar noturno. Na quietude da cidade escura. Tarde. Duas
figuras caminham lado a lado pelas fachadas das lojas destruídas.
— Não consigo entender essa merda toda — diz Austin Ballard, as
mãos nos bolsos conforme caminha pela calçada abandonada.
Ele estremece no frio. Está com o capuz puxado sobre os cachos, o
pesar pelo que acaba de ver persiste, estampado em seu rosto em breves
flashes conforme a iluminação intermitente irradia no caminho deles.
— A sala de alimentação? — Lilly caminha devagar ao lado de Austin
com a jaqueta jeans abotoada até o pescoço. Ela abraça o próprio corpo,
envolve o tronco com os braços em algum gesto inconsciente de
autopreservação.
— É... isso e o cara com a mão decepada. Que merda está
acontecendo, Lilly?
Ela começa a responder quando o estalo distante de um calibre grande
ecoa. O ruído sobressalta os dois. Martinez e seus rapazes ainda estão lá
fora, fazendo hora extra, limpando os Mordedores desgarrados atraídos para
a muralha pela comoção de mais cedo na arena da pista de corrida.
— Negócios, como sempre — diz Lilly, sem acreditar nisso de verdade.
— Você se acostuma.
— Às vezes parece que os Mordedores são o menor de nossos
problemas. — Austin estremece. — Acha que essas pessoas estão mesmo
planejando um saque?
— Quem sabe?
— Quantos mais deles você acha que existem?
Ela dá de ombros. Não consegue afastar a sensação esquisita no
estômago de que algo perigoso e inexorável já começou. Como uma geleira
negra e agourenta que se move, invisível, sob os pés deles, o curso dos
eventos parece deslizar na direção de um horizonte indefinido. E pela
primeira vez desde que esbarrou nessa comunidadezinha maltrapilha... Lilly
Caul sente um medo profundo que não consegue identificar.
— Não sei — diz ela, por fim —, mas sinto como se pudéssemos dar
adeus a qualquer noite de descanso por um tempo.
— Para ser sincero, não durmo bem desde que a “transformação”
irrompeu. — Uma pontada de dor dos ferimentos faz com que Austin se
encolha, e ele segura a lateral do corpo conforme anda. — Na verdade, não
durmo uma noite inteira desde o início.
— Agora que falou, eu também não.
Os dois caminham um pouco mais em silêncio... até que Austin diz:
— Posso perguntar uma coisa?
— Vá em frente.
— Está mesmo a favor do Governador agora?
Lilly anda se perguntando o mesmo. Seria um caso de síndrome de
Estocolmo — aquele fenômeno psicológico esquisito em que reféns
começam a ter empatia e sensações positivas em relação aos captores?
Ou será que Lilly estaria projetando todo o ódio e as emoções reprimidas
no homem como se ele fosse algum tipo de cão de ataque programado
contra ela? Tudo o que sabia era que estava com medo.
— Eu sei que ele é um psicopata — diz ela, por fim, medindo as
palavras. — Acredite em mim... se as circunstâncias fossem diferentes...
eu atravessaria a rua e andaria pelo outro lado se o visse se aproximando
em minha direção.
Austin parece insatisfeito, ansioso, com algo na ponta na língua.
— Então está dizendo... é tipo... aquela... coisa, sobre quando a
situação aperta, os fortes sobrevivem? Ou algo assim?
Lilly olha para ele.
— O que estou dizendo é: sabendo o que há lá fora, poderíamos estar
em grave perigo de novo. Talvez o pior perigo que já enfrentamos desde
que a cidade foi fundada. — Lilly pensa a respeito. — Acho que vejo o
Governador como... Não sei... como se combatesse fogo com fogo? — Então
ela acrescenta, um pouco mais baixo, menos segura: — Enquanto ele
estiver do nosso lado.
Outra rajada distante de disparos faz os dois estremeceram.
Eles chegam ao fim da rua principal, onde duas ruas se cruzam na
escuridão com um sinal petrificado de travessia ferroviária. Na escuridão da
noite, a placa quebrada e as ervas daninhas na altura do ombro parecem o
fim do mundo. Lilly se detém, prepara-se para partir até o prédio em que
mora, ao norte.
— Tudo bem, é, enfim... — Austin parece não saber o que fazer com
as mãos. — Um brinde a mais uma noite em claro.
Lilly dá um sorriso cansado para Austin.
— Que tal isto. Por que não vem até minha casa e me entedia um
pouco mais com suas histórias sobre surfar na costa de Panama City
Beach? Quem sabe você não seja chato o suficiente pra me colocar pra
dormir.
Por um momento, a expressão de Austin Ballard parece a de um
animal que acaba de ter um espinho removido da pata.
Os dois se aconchegam para dormir na sala de estar improvisada de Lilly,
em meio às caixas de papelão e aos restos de tapetes e coisas inúteis
deixadas para trás por incontáveis antigos residentes. Lilly prepara um
pouco de café instantâneo para eles em uma panela com réchaud, então os
dois se sentam sob a luz da lanterna e apenas conversam. Falam sobre as
infâncias — como compartilham passados suburbanos inócuos e similares,
cheios de ruas sem saída, tropas de escoteiros e churrasco de salsicha —,
então têm aquela discussão padrão pós-transformação sobre o que fariam
se e quando a cura vier e os Problemas se forem. Austin diz que
provavelmente tentará se mudar para algum lugar quente e encontrará uma
boa mulher, se casará e fará pranchas de surfe ou algo assim. Lilly conta a
ele sobre seus sonhos de ser estilista, de ir para Nova York — como se
Nova York ainda existisse — e construir um nome para si mesma. Lilly
percebe que cada vez mais se afeiçoa àquele jovem despenteado e de bom
caráter. Fica maravilhada por ele ser uma pessoa tão decente e carinhosa
por baixo da arrogância. Imagina se a encenação de playboy não seria
algum tipo de mecanismo de defesa deturpado. Ou, talvez, ele esteja
apenas lidando com a mesma coisa com que todos os outros sobreviventes
estão lidando no momento — a coisa que ninguém consegue nomear, mas
que parece algum tipo de transtorno de estresse virulento.
Independentemente das epifanias a respeito de Austin, no entanto, Lilly fica
feliz pela companhia naquela noite, e os dois conversam até altas horas.
A certa altura, muito tarde naquela noite, depois de um longo
momento de silêncio desconfortável, Lilly olha ao redor do apartamento
escuro, pensando, tentando se lembrar de onde colocou o pequeno estoque
de bebida.
— Sabe — diz ela, por fim. — Se a memória não falha, acho que tenho
meia garrafa de Southern Comfort escondida para emergências.
Austin lhe dá um olhar significativo.
— Tem certeza de que quer se desfazer dela?
Lilly dá de ombros, levanta-se do sofá e caminha pela sala até uma
pilha de caixas.
— Não há hora melhor que o presente — murmura ela, revirando
cobertores sobressalentes, água engarrafada, munição, Band-Aids e
desinfetante. — Olá, querida — diz Lilly, finalmente, ao localizar a garrafa
de líquido cor de chá com lindo relevo.
Ela volta para a sala e arranca a tampa com o polegar.
— A uma boa noite de sono — brinda Lilly, então dá um gole generoso
e limpa os lábios.
Ela se senta no sofá ao lado de Austin e passa a garrafa para ele.
Austin, que se contorce de novo devido à dor na lateral do corpo, toma um
gole da garrafa e, então, faz uma careta não só pela queimação do líquido
na garganta como pelos pontos no tórax.
— Nossa, sou um maldito fracote.
— Como assim? Você não é fracote. Um jovem da sua idade que sai
para reconhecimentos... mandando ver do lado de fora da zona de
segurança. — Lilly pega a garrafa e entorna outro gole. — Você vai ficar
bem.
Ele olha para ela.
— “Jovem”? Você é o quê, uma cidadã idosa? Tenho quase 23 anos,
Lilly. — Austin sorri. — Passe essa coisa. — Ele pega a garrafa e toma
mais uma golada, estremecendo pela queimação. Austin tosse e leva a mão
à lateral do corpo. — Porra!
Lilly segura uma risada.
— Está bem? Precisa de água? Não? — Ela pega a garrafa dele e toma
outro gole. — A verdade é que tenho idade para ser sua... irmã mais velha.
— Lilly arrota. Então ri, cobrindo a boca. — Meu Deus, me desculpe.
Austin ri. A dor ressurge em seu tórax, e ele se encolhe.
Os dois bebem e conversam por um tempo, até que Austin começa a
tossir de novo, com a mão na lateral do corpo.
— Você está bem? — Lilly estende a mão e tira uma mecha dos
cabelos cacheados dos olhos dele. — Quer um Tylenol?
— Estou bem! — dispara Austin para ela. Então solta um suspiro de
dor. — Desculpe... obrigado pela oferta, mas estou bem. — Ele estende a
mão e toca na de Lilly. — Desculpe por ser tão... irritadiço. Eu me sinto um
idiota... como uma porra de um inválido. Como pude ser tão desastrado,
porra?
Lilly olha para ele.
— Quer calar a boca? Você não é desastrado e não é um inválido.
Austin olha para ela.
— Obrigado. — Ele toca a mão de Lilly. — Agradeço.
Por um momento, Lilly sente a escuridão ao seu redor se transformar
e girar. Sente um alívio no abdômen, um calor fluindo para baixo de seu
corpo a partir do estômago até os dedos dos pés. Ela quer beijar Austin.
Pode admitir de uma vez. Quer muito beijá-lo. Quer provar a Austin que ele
não é um fracote... é um homem bom, forte, viril e decente. Mas algo a
detém. Lilly não é boa nisso. Não é nenhuma puritana — já esteve com
muitos homens —, mas não consegue agir. Em vez disso, apenas olha para
Austin, e o olhar dela aparentemente envia um sinal de que algo
interessante está acontecendo. O sorriso dele se dissipa. Austin toca o
rosto de Lilly. Ela umedece os lábios, avaliando a situação, querendo muito
agarrá-lo e enfiar a boca na dele.
Por fim, quebrando a tensão, Austin fala:
— Vai monopolizar essa garrafa pelo resto da noite?
Lilly sorri e entrega a garrafa, e Austin toma uma série de goladas,
enxugando grande parte do que sobrou da bebida. Dessa vez, ele não se
contorce. Não dobra o corpo. Austin olha para ela e diz:
— Acho que deveria avisá-la sobre uma coisa. — Os enormes olhos
castanhos de Austin estão cheios de timidez, arrependimento e talvez até
mesmo um pouco de vergonha. — Não tenho camisinha.
Começa como dois bêbados rindo. Lilly ruge com gargalhadas profundas —
ela não ri tanto desde o surto da praga — e dobra o corpo com gargalhadas
roucas e altas até que as laterais de seu corpo doem e seus olhos
começam a brilhar com lágrimas. Austin não consegue deixar de se juntar a
Lilly e ri, e ri até que percebe que ela o puxou pela parte da frente do capuz
e está dizendo algo sobre não dar a mínima para camisinhas, e, antes que
ele sequer saiba o que está acontecendo, Lilly puxa o rosto de Austin para o
dela e os lábios dos dois se agarram.
A paixão alimentada pelo álcool irrompe. Os dois se enroscam um no
outro e começam a se agarrar tão vigorosamente que derrubam a garrafa e
a luminária ao lado do sofá, e a pilha de livros que Lilly queria ler em algum
momento. Austin desliza pela beirada do sofá até o chão, e Lilly o derruba,
enfiando a língua na boca do rapaz. Ela sente o gosto do licor doce no hálito
de Austin e o cheiro almiscarado e picante dele, então se enfia entre as
pernas de Austin.
Eles se banham no calor que flui de cada um — o desejo latente
reprimido por tantos meses — e os dois se agarram por muitos minutos ali
mesmo no chão. Lilly sente Austin acariciar-lhe a curva dos seios por baixo
do top, testando a maciez da pele dos quadris e, por fim, tocá-la entre as
pernas, ao que Lilly se sente úmida e começa a respirar com dificuldade e
rapidamente, corada de excitação. Por fim, ela percebe que Austin está se
contorcendo devido à dor na lateral do corpo de novo, e vê as ataduras no
lugar em que o moletom dele foi rasgado na direção do peito, então se
afasta. Aquela visão parte o coração de Lilly — ela se sente responsável —,
e agora quer muito tornar tudo melhor.
— Vem cá — diz ela, pegando Austin pela mão e colocando o rapaz de
volta no sofá. — Olhe pra mim — sussurra Lilly para ele, quando Austin
afunda no sofá, sem fôlego. — Apenas olhe.
Ela tira as roupas, uma peça por vez, sem tirar os olhos dele. Austin
já está com as mãos no cinto, abrindo-o. Lilly tira o top, encarando Austin
com olhos brilhantes. Ela vai devagar. Dobra cada peça de roupa conforme a
tira — calça jeans, sutiã, calcinha —, hipnotizando Austin, mantendo-o
vidrado, até que esteja completamente nua sob o feixe de luar diante dele,
os cabelos no rosto agora, a cabeça girando, zonza pelo álcool e pelo
desejo. Arrepios percorrem seus braços.
Lilly vai até Austin sem mais uma palavra. Não tira os olhos do rapaz
ao se sentar sobre ele. Austin emite um suspiro rouco de luxúria conforme
Lilly o guia para dentro dela. A sensação é extraordinária. Ela vê fragmentos
de luz e faíscas diante dos olhos conforme oscila para cima e para baixo
ritmicamente. Austin arqueia as costas e penetra Lilly. Ele não está mais
machucado. Não é mais apenas um garoto tentando ser legal.
Austin goza primeiro, e o orgasmo dele causa tremores nos dois. Lilly
estremece a seguir, a sensação de formigamento começa nas pontas dos
dedos dos pés, então percorre o corpo dela até convergir em seu plexo
solar e explodir. O orgasmo agita Lilly e quase a derruba de cima de Austin,
mas ela se segura nos cabelos longos, reluzentes e cacheados dele,
aterrissando feito uma pilha de satisfação suada nos braços do rapaz. Os
dois desabam um sobre o outro, abraçados, permitindo que a calma retorne
como a maré que sobe mais uma vez.
Por um tempo muito longo, os dois ficam deitados ali, nos braços um do
outro, ouvindo um silêncio interrompido apenas pela leve sinfonia sincopada
de suas respirações. Lilly puxa um cobertor sobre o corpo e volta à
realidade duramente. Uma dor lancinante surge em suas têmporas e viaja
até o osso do nariz. O que foi que fez? Conforme o efeito da bebida passa,
uma vaga sensação de arrependimento começa a se enroscar em seu
estômago, e ela olha pela janela. Por fim, começa a dizer:
— Austin, ouça...
— Não. — Ele acaricia o ombro de Lilly, então começa a vestir a calça.
— Não precisa dizer.
— Dizer o quê?
Austin dá de ombros.
— Não sei... algo sobre isto ser apenas uma daquelas coisas... e que
não deveríamos dar muito valor a ela... e é apenas o álcool ou o que seja.
Lilly dá um sorriso triste.
— Eu não ia dizer isso.
Austin olha para Lilly e sorri.
— Só quero fazer a coisa certa com você, Lilly... Não quero pressioná-
la ou nada disso.
Ele a beija na testa.
Então os dois começam a limpar a bagunça que fizeram — limpam o
conteúdo derrubado da mesa de canto, colocam luminárias de volta no
lugar, empilham livros e vestem as roupas. Nenhum dos dois tem muito
mais a dizer, embora ambos estejam morrendo de vontade de falar sobre
aquilo.
***
Algum tempo depois, perto do amanhecer, Austin fala:
— Sabe... tem algo me incomodando a respeito daquela sala de
alimentação lá embaixo, nas garagens sob a pista.
Lilly olha para Austin, afundando de volta no sofá, exausta.
— O que é?
Austin engole seco.
— Não quero ser nojento, mas está me incomodando.
— O quê.
Ele olha para Lilly.
— Está bem... então... o Governador, supostamente, deu o piloto morto
e a garota do helicóptero para aqueles errantes. Certo?
Lilly assente, sem querer pensar no assunto.
— É. Acho que sim. Uma pena.
Austin morde o lábio.
— De novo, não quero ser nojento, mas não consigo afastar a
sensação de que havia alguma coisa faltando.
— E o que seria isso?
Ele olha para Lilly.
— As cabeças. Não havia cabeças. Onde estavam as porras das
cabeças?
Dez
Bruce Allan Cooper está do lado de fora da porta da garagem sob o porão
abaixo da arena. No corredor estreito onde se encontra, uma lâmpada de
tungstênio solitária em uma grade acima dele fornece a única iluminação
tremeluzente. Bruce afasta da mente os ruídos que vêm de trás da porta —
como diabo um homem consegue ficar naquilo por tanto tempo? Os gritos
de ódio da garota negra agora se deterioraram em sons de soluços
distorcidos e engasgados.
Bruce está com os seus grandes braços — grossos como um tubo de
chaminé — cruzados contra o peito largo, e sua mente continua vagueando
por aqueles dias pré-praga quando ele gerenciava o posto de gasolina com o
pai. Bruce perdia a noção do tempo naquela época também — enterrado em
um Camaro 427 com teto solar e câmara de combustão hemisférica. Agora,
perdeu a noção do tempo de novo. Bruce pensa na antiga namorada, Shauna,
e por quanto tempo costumavam fazer — uma lembrança que o deixa feliz
de um modo vagamente melancólico. Mas isso. Isso é diferente.
Bruce está parado ali há tanto tempo que começa a sentir cãibras nas
pernas, e fica mudando o peso do corpo de uma perna para outra. Bruce
pesa mais de 110 quilos e tem a musculatura de um estivador, mas aquilo
é ridículo. Ele não consegue ficar em pé tanto tempo assim.
Pelos últimos vinte minutos ou mais, Bruce ouviu os murmúrios baixos
da voz do Governador provocando a mulher, debochando dela, magoando-a.
Deus sabe o que o homem está fazendo com ela agora.
O silêncio se instaura.
Bruce cola o ouvido à porta: Que merda é essa que ele está fazendo
com ela?
Na cela escura e fechada, o Governador está de pé sobre a figura inerte da
mulher, fechando a calça, subindo o zíper. As amarras nos pulsos
ensanguentados são a única coisa que mantêm o corpo violentado fora do
chão. A respiração difícil da mulher preenche o silêncio, os dreadlocks
pendem sobre o rosto espancado. Lágrimas, coriza e sangue se misturam e
pingam dos lábios inchados da prisioneira.
Recuperando o fôlego, o Governador se sente bem e exausto e corado
com o exercício enquanto olha para ela. Ele está com as mãos doloridas, as
articulações dos dedos esfoladas de trabalhar na mulher, de repetidas vezes
acertar os punhos nos dentes dela. O Governador ficou muito bom em
estrangulá-la, ao ponto de fazê-la apagar, mas sempre trazendo a mulher
de volta à consciência no último minuto com um tapa ou um soco no
estômago bem cronometrados. Ele ficou longe da boca o máximo que pôde,
mas violou os demais orifícios dela com muita atenção. O motor dentro do
Governador fez com que ele seguisse forte, mantendo-o determinado e
irrefreável.
— Tudo bem... admito — diz o Governador, calmamente, para a
mulher. — Eu me empolguei um pouco.
Ela bufa e funga e se segura à consciência por um fio tênue. A mulher
não consegue erguer a cabeça, mas é óbvio que quer. Ela quer muito dizer
algo a ele. O chão abaixo da mulher está empoçado com fluidos e sangue,
as longas tranças dela se arrastando na sujeira. A camisa de elastano que
ela veste está estampada com rasgos, aberta na altura dos seios. A
metade inferior despida da mulher — ainda aberta pelas amarras de corda
— brilha com suor e exibe os inchaços e as abrasões do trabalho do
Governador na pele cor de caramelo.
O Governador a encara.
— Mas não me arrependo de nada. Gostei de cada minuto. E você? —
Ele espera para ver se a mulher diz alguma coisa. Ela arqueja e inspira e
emite uma combinação confusa de tosse, soluço e gemido. Ele sorri. —
Não? Jamais diria.
O Governador caminha até a porta e bate nela. Então alisa o longo
cabelo preto.
— Acabamos aqui! — grita ele para Bruce. — Abra pra mim!
A porta emite um guincho nas roldanas antigas e deixa entrar a luz
cruel do corredor.
Bruce está parado ali, silencioso e estoico como uma estátua de índio
em uma loja de charutos. O Governador nem mesmo faz contato visual
com o homem. Virando-se para a mulher no chão, ele ergue a cabeça e a
avalia por um momento. Ela é durona, sem dúvida. Bruce estava certo. De
modo algum essa vaca vai falar. Mas agora — agora — o Governador repara
em algo a respeito dela que lhe dá um estremecimento inesperado de
prazer. Ele precisa olhar de perto para ver — com todo aquele cabelo
pendurado, escondendo as feições dela —, mas o barulho o torna bem
distinto. O Governador repara, e então sorri.
Ela está chorando.
O Governador se delicia com isso.
— Pode chorar tudo, querida. Tire tudo de dentro de você. Você
merece. Não tem nada do que se envergonhar. Chore até estourar. — Ele se
vira para ir embora.
Então para quando ouve outra coisa. O Governador se volta para ela e
ergue a cabeça de novo. Por um brevíssimo instante, ele acha que ouve a
mulher dizer algo. Então ouve atentamente, e aquilo sai de dentro dela entre
arquejos de agonia.
— Eu... não... choro por mim — diz ela para o chão, com a cabeça
oscilando pesadamente com dor. A mulher precisa inspirar o ar aos poucos
para conseguir proferir as palavras. — Estou... chorando... por você.
O Governador a encara.
Ela ergue a cabeça o bastante para fazer contato visual pela cortina de
tranças molhadas. O rosto marrom bronzeado da mulher está coberto de
muco e sangue, lágrimas escorrem pelas bochechas inchadas dela, a mulher
perfura o Governador com o olhar. E toda a dor e o desespero e a angústia
e a perda e a desesperança daquele mundo brutal da praga são exibidos ali
por um momento, apenas por um instante — no rosto delineado e
violentado dela —, até que tudo isso é cauterizado para longe, no instante
de uma respiração, pelo puro ódio inflamado da mulher... e o que sobra é
uma máscara de instinto assassino bestial.
— Penso em todas as coisas que farei com você — diz ela, muito
controladamente, quase calma —, e isso me faz chorar. Isso me assusta.
O Governador sorri.
— Que bonitinho. Descanse um pouco, o máximo que conseguir, pelo
menos. Alguém virá mais tarde para limpá-la, talvez faça alguns curativos.
Talvez se divirta um pouco ele mesmo. Mas, principalmente, ele vai deixá-
la pronta para quando eu voltar. — O Governador pisca um olho para a
mulher. — Só quero lhe dar algo pelo que esperar. — Ele se vira e gesticula
com desdém com os ombros. — Até mais.
O Governador sai andando.
A porta de enrolar desce com um estampido metálico.
O sol nasce enquanto o Governador caminha de volta para casa.
O ar tem um cheiro limpo — terra fértil e trevos —, o clima sombrio
das catacumbas é varrido pela luz dourada e pela brisa de uma manhã de
primavera da Geórgia. O Governador afasta o humor ríspido ao longo do
caminho e veste a máscara do líder benevolente da cidade. Ele vê alguns
madrugadores e dá a eles acenos amistosos, desejando bom dia com o
sorriso jovial de um vigia da cidade.
O Governador caminha quase saltitando agora, o mestre do pequeno
feudo, os pensamentos sobre subjugar mulheres e controlar os forasteiros
evaporam, são enfiados de volta nos compartimentos mais profundos de
seu cérebro. Os ruídos de motores de caminhões e pregos sendo enterrados
em madeira nova já preenchem o ar — Martinez e sua equipe fortificam as
novas seções da barricada.
Aproximando-se do prédio em que mora, o Governador esbarra em
uma mulher e seus dois filhos, os menininhos correm pela rua.
O Governador ri para as crianças, sai do caminho delas.
— Bom dia — diz ele para a mãe, com um aceno de cabeça.
Preocupada com a cria, a mulher — uma matrona de Augusta — grita
para os meninos:
— Crianças, por favor! Mandei pararem de correr! — Ela se vira para
Philip e dá um sorrisinho comportado a ele. — Bom dia, Governador.
O homem continua caminhando e vê Bob curvado na calçada próximo
aos degraus de seu prédio.
— Bob, por favor — diz o Governador ao se aproximar do farrapo de
ser humano enroscado sob um toldo ao lado da entrada da casa do
Governador. — Coma alguma coisa. Odeio vê-lo desperdiçando a vida assim.
Nós acabamos com o sistema de troca, eles simplesmente darão algo a
você.
Bob gorgoleja e arrota.
— Está bem... tá... se isso for tirar a “Mamãe Ganso” da minha cola.
— Obrigado, Bob — responde o Governador, dirigindo-se ao saguão. —
Eu me preocupo com você.
Bob murmura algo que se assemelha a:
— Tanto faz...
O Governador entra no prédio. Uma mosca — uma enorme varejeira —
zumbe acima das escadas. Os corredores estão tão silenciosos quanto
criptas vazias.
Dentro do apartamento, ele encontra sua garotinha morta agachada no
chão da sala de estar, encarando com olhar vazio o carpete manchado,
fazendo pequenos ruídos que parecem quase roncos. O fedor paira em torno
dela. O Governador vai até a menina, cheio de afeição.
— Eu sei, eu sei — diz o homem para ela com amor. — Desculpe por
eu estar tão atrasado... ou adiantado, depende da maneira como você
encara.
Ela ruge de súbito — um grunhido agudo que sai da menina como o
grito de um gato torturado —, fica de pé e o ataca.
O Governador dá um tapa na menina — com força — com o dorso da
mão, fazendo com que ela se choque contra a parede.
— Comporte-se, porra!
A menina cambaleia e ergue o rosto para ele com os olhos leitosos.
Uma expressão parecida com medo percorre o rosto azul lívido dela, contrai
o sorriso sem lábios que é sua boca, faz a menina parecer estranhamente
tímida e dócil. Essa visão faz o Governador arrefecer.
— Sinto muito, querida. — Ele se pergunta se ela não está com fome.
— O que a deixou tão agitada ultimamente? — O Governador repara que o
balde da menina está virado. — Sem comida, hein?
Ele vai até o balde e o recolhe, enfiando um pé decepado de volta
dentro dele.
— Precisa ter mais cuidado. Se virar seu balde, ele vai rolar para fora
de seu alcance. Eu a criei melhor do que isso.
O Governador olha dentro do balde. O conteúdo está seriamente
decomposto. O pé decepado parece tão inchado e lívido que lembra um
balão. Peludo devido ao mofo, irradiando um fedor indescritível que
literalmente faz brotarem lágrimas nos olhos, as partes de corpos boiando
em uma substância espessa e viscosa com a qual patologistas estão bem
familiarizados: a gororoba amarelada feito bile que é essencialmente o sinal
de que a decomposição avançada começou — quando todos os vermes e as
moscas partiram e deixaram para trás uma massa de proteínas
ressecadas.
— Você não quer isso, quer? — pergunta o Governador à menina
morta, tirando o pé escurecido e inchado, com nojo, do balde. Ele o segura
entre o polegar e o indicador, formando algo semelhante a uma pinça, e o
atira para a criatura. — Aqui... vá em frente.
Ela segura o pedaço com as mãos e os joelhos, as costas arqueadas
com um fervor simiesco. A menina parece enrijecer o corpo de súbito ao
provar a carne.
— PFUH! — grunhe ela ao cuspir as partes mastigadas.
O Governador apenas balança a cabeça com tristeza ao se virar e se
dirigir à sala de jantar, reprimindo-a por cima do ombro.
— Está vendo... você virou o balde, e agora sua comida estragou. É
isso o que merece. — Ele abaixa a voz, acrescentando aos sussurros: —
Mesmo fresca, não entendo como come essa porcaria... mesmo.
Ele desaba na poltrona reclinável, que solta um guincho quando é
reclinada. Com as pálpebras pesadas, as articulações doloridas, a genitália
inflamada devido ao uso excessivo, o Governador se recosta e pensa na vez
que provou, de fato, a comida de Penny.
Era tarde uma noite, cerca de três meses antes, e o Governador estava
bêbado e tentando fazer com que a criança morta se acalmasse. Aconteceu
quase espontaneamente. Ele simplesmente pegou um pedaço de tecido —
parte de um dedo humano; nem mesmo se lembra do dono — e o enfiou na
boca. Ao contrário de todas as piadas, não tinha, nem remotamente, gosto
de frango. Tinha um gosto amargo e metálico de carne de caça —
acobreado como sangue, mas com uma sensação na boca similar à de
carne de ensopado extremamente dura e granulosa —, e o Governador
imediatamente o cuspiu.
Existe um axioma entre gourmets de que a comida mais próxima,
geneticamente, do consumidor é a mais deliciosa, a mais suculenta, a mais
satisfatória. Por isso existem pratos exóticos entre culturas ocidentais
como cérebro de chimpanzé e diversos miúdos. Mas Philip Blake sabe que
essa crença é uma mentira — seres humanos têm gosto de merda. Talvez
se servidos crus com tempero — tartare humano, digamos —, o tecido e os
órgãos possam ser toleráveis, mas o Governador ainda não teve disposição
para provar.
— Eu pegaria mais comida para você, querida — diz ele baixinho para
o minúsculo cadáver no outro cômodo, o corpo do Governador relaxa
enquanto ele cochila na poltrona reclinável ao som tranquilizante de bolhas
estourando nas sombras do outro lado da sala de jantar. Os ruídos baixos
dos chiados dos aquários são onipresentes no apartamento, como ruído
branco ou estática de uma estação de TV extinta. — Mas o papai está
cansado hoje, precisa fechar os olhos um pouco... então precisa esperar,
querida... até que eu acorde.
O Governador cai no sono sob o borbulhar constante dos tanques de
água e não tem ideia de por quanto tempo dorme quando o som de batidas
invade seu sono e o faz se sentar sobressaltado.
A princípio, o Governador pensa que é Penny fazendo barulho no outro
cômodo, mas então ouve de novo, mais forte dessa vez, vindo da porta dos
fundos.
— É melhor que seja algo bom — murmura o homem ao se arrastar
pelo apartamento.
Ele abre a porta dos fundos.
— O quê?
— Aqui está o que você pediu — diz Gabe, parado do lado de fora da
porta externa, segurando um container de metal sujo de sangue. O homem
de pescoço atarracado parece sombrio e assustado, hesitante com relação
ao humor no ambiente, olhando por cima do ombro. A caixa de munição que
segura, resgatada da estação da Guarda Nacional, tem servido bem com um
recipiente improvisado de material biológico. Ele olha para o Governador. —
Os dois do helicóptero. — O homem pisca. — Ah... e coloquei outra coisa
aí. — Mais uma piscadela. — Não sabia se você ia querer guardar. Pode se
livrar dela se não quiser.
— Obrigado — murmura o Governador ao pegar o container do homem.
O metal está morno e grudento devido ao sangue. — Certifique-se de que
eu consiga dormir um pouco, está bem? Não deixe mais ninguém subir.
— Tudo bem, chefe.
Gabe se vira e desce as escadas rapidamente, feliz por se livrar do
recipiente.
O Governador fecha a porta, se vira e volta para a sala de jantar.
Penny avança contra ele quando o homem passa, puxando a corrente,
fungando para o Governador e esticando os bracinhos magros para as
guloseimas. Ela consegue sentir o cheiro da carne morta. Seus olhos viram
enormes moedas prateadas, fixos na caixa.
— Não! — O Governador briga com a menina. — Isto não é para você,
querida.
Ela rosna e cospe.
O Governador para.
— Bem... tudo bem... espere um pouco. — Repensando, ele abre uma
brecha na tampa e enfia a mão no container. Objetos úmidos e carnudos
estão fechados dentro de grandes sacos Ziploc. Um dos objetos, uma mão
humana decepada, enroscada como um caranguejo branco e carnudo
congelado na morte, leva um sorriso aos lábios do Governador. — Acho que
pode ficar com isto. — Ele tira a mão que antes pertenceu ao intruso
chamado Rick e a atira para a garota. — Isso deve mantê-la calada por
tempo suficiente para que eu cochile.
A criança morta se esbalda com o membro pingando sangue, fazendo
ruídos de sucção luxuriantes; a cartilagem se parte como ossos de galinha
nos dentinhos pretos. O Governador sai, carregando o container para dentro
da sala de jantar.
No aposento mal iluminado, o Governador tira os outros dois objetos
dos sacos.
— Vocês têm convidados — diz ele para alguém nas sombras,
ajoelhando-se e tirando uma cabeça de mulher decepada do plástico. O
crânio pingando sangue pertence à mulher chamada Christina. A expressão
fixa no rosto, que agora parece massa inchada e macia como pão cru, é de
horror imutável. — Novos vizinhos, na verdade.
Ele abre a tampa de um aquário vazio, que está encostado na parede
mais ao fundo, e coloca a cabeça da produtora de conteúdo no fluido.
— Vocês podem fazer companhia um ao outro — diz o Governador
baixinho, quase com carinho, quando coloca o segundo crânio, aquele que
pertenceu ao piloto, na água lodosa de um aquário adjacente. O Governador
emite um suspiro. A mosca zune em algum lugar próximo, invisível,
incessantemente. — Preciso me deitar agora.
Ele volta para a cadeira e afunda nela com um gemido cansado e
satisfeito.
Vinte e seis aquários borbulham baixinho no cômodo, cada um
contendo pelo menos duas — alguns até três ou quatro — cabeças humanas
reanimadas. Os filtros estalam e gorgolejam, as luzes do topo emitem
zumbidos baixinhos. Cada aparato está conectado a uma régua de energia
principal, cujo cabo da espessura de uma anaconda percorre o rodapé e
sobe pela quina da parede até um gerador no telhado do prédio.
Encapsuladas em seus frascos verdes com água, fileiras de rostos
lívidos, sem cor, se contorcem como se fios invisíveis de marionetes os
estivessem puxando. As pálpebras são finas e vascularizadas como folhas
secas antigas e piscam a intervalos aleatórios, as órbitas oculares cobertas
por um filme de catarata fixam-se em reflexos que passam e em sombras
refratadas pela água. As bocas se escancaram e se fecham
intermitentemente, como um jogo perpétuo de martelar a toupeira por toda
a extensão dos painéis de vidro. O Governador coletou as cabeças no curso
de 12 meses, com o cuidado de um curador de museu. O processo de
seleção é instintivo, o efeito de todos aqueles rostos mortos é bastante
misterioso.
Ele se recosta na poltrona, as molas guinchando quando o descanso
para pés é erguido. O Governador relaxa ali, o peso da exaustão o esmaga
enquanto ele encara a totalidade dos rostos. O Governador mal repara no
novo semblante — a cabeça da mulher antes conhecida por produzir
conteúdo de forma genial na WROM Fox Atlanta —, que agora arqueja e
solta bolhas da boca inanimada. O Governador vê apenas o todo, a
totalidade de tantas cabeças — a impressão maior de todas aquelas
vítimas aleatórias.
Os gritos daquela garota negra magricela no cofre subterrâneo ainda
reverberam na mente dele. A parte do Governador que sente repulsa por
aquele tipo de comportamento ainda reclama e protesta em uma seção
mais profunda do cérebro. Como pôde fazer aquilo com outro ser humano?
O Governador encara as cabeças. Como qualquer um pode fazer aquilo com
outra pessoa? Ele encara, boquiaberto, os semblantes pálidos e inchados.
O horror nauseante de todos os rostos indefesos — arquejando por
uma liberdade que jamais virá — é tão desolador, tão sombrio, tão
perfeitamente oportuno que, mais uma vez, de alguma forma, penetra os
pensamentos de Philip Blake e o purifica. De algum modo, esse horror sela
a psique ferida dele com a natureza cáustica da realidade. Ele inocula o
Governador contra a dúvida, a hesitação, a piedade, a empatia. Aquilo, afinal
de contas, poderia ser como todos acabam: cabeças flutuando em tanques
pela eternidade. Quem sabe? Aquele é o extremo lógico, um lembrete
constante do que está esperando se a pessoa for fraca por um milésimo de
segundo. As cabeças representam o velho Philip Blake. O fraco, o
fracassado... o eterno lamuriante. Como pôde fazer essa coisa horrível?
Como qualquer um pode fazer uma coisa dessas? Ele encara. As cabeças o
envolvem, lhe dão poder, o energizam.
A voz de Philip cai uma oitava e sai quase como um murmúrio:
— Cinquenta e sete canais e nada passando.
Como?
Você?
Pôde?
Ele ignora a voz dentro de si e fica sonolento encarando aquelas bocas
que se movem, soltam bolhas, se contorcem e gritam seus gritos
silenciosos e molhados. Como? O Governador mergulha na escuridão do
sono. Encarando. Absorvendo. Ele começa a sonhar — o mundo de pesadelo
escorre para o mundo real — e corre por uma floresta escura. O
Governador tenta gritar, mas sua voz não faz barulho. Ele abre a boca e
emite um grito silencioso. Nenhum ruído sai de dentro dele — apenas
bolhas, que sobem na escuridão e desaparecem. O bosque o cerca. Ele fica
de pé parado, os punhos fechados, ódio inflamado fluindo de dentro de si,
escorrendo por sua boca. Queime tudo. Queime tudo. Destrua. Destrua tudo.
Agora. Agora! AGORA!
O Governador acorda sobressaltado algum tempo depois. Ele não consegue
dizer a princípio se é dia ou noite. Suas pernas estão dormentes, e seu
pescoço dói por ter ficado pendente em um ângulo esquisito no descanso da
poltrona.
Ele se levanta e entra no banheiro para se recompor. De pé diante do
espelho, o Governador consegue ouvir os grunhidos como roncos de sua
garotinha acorrentada à parede no outro cômodo. O despertador de corda no
cômodo informa a ele que é quase meio-dia.
O Governador se sente renovado. Forte. Tem um dia cheio pela frente.
Ele usa sabonete de pedra-pomes para limpar o sangue da moça negra de
debaixo das unhas. Então se lava, coloca roupas limpas e toma um café da
manhã rápido — leite em pó para o cereal, café instantâneo aquecido em
uma lata de combustível em gel — e dá mais um pedaço fresco do
container de aço para Penny.
— Papai precisa ir trabalhar — diz ele, alegremente, para o pequeno
cadáver conforme se dirige à porta. O Governador pega a arma e o walkietalkie
que está carregando perto da porta. — Amo você, querida. Não
arrume problemas enquanto eu estiver fora.
Ao sair do prédio, o Governador fala com Bruce pelo walkie-talkie.
— Encontre-me na pista — diz ele para o receptor —, no alto da
entrada de serviço. — O Governador desliga o walkie-talkie sem esperar
reposta.
Dez minutos depois, o Governador está parado no alto de uma
escadaria oleosa, a qual leva até o labirinto subterrâneo cavernoso e escuro.
O céu acima da pista de corrida parece ameaçador, o dia se torna escuro e
ventoso.
— Oi, chefe — diz o homem grande e careca conforme se aproxima
vindo do estacionamento.
— Onde diabos você estava?
— Vim direto, desculpe.
O Governador olha por cima do ombro, alguns pedestres passam por
seu campo de visão. Ele abaixa a voz.
— Qual é a situação da mulher?
— Ainda está falando sozinha. A vaca é doida de pedra, se quer saber.
— Ela está limpa?
— É, praticamente. Albert a visitou, deu uma olhada, um pouco de
comida... na qual ela não tocou. Acho que bebeu um pouco de água, só isso.
— Ainda está acordada?
— Sim. Até onde sei. Fui verificar faz uma hora.
— Como estava a... têmpera dela?
— A o quê?
O Governador suspira.
— A têmpera, Bruce. O temperamento. Que merda ela estava
fazendo?
Bruce dá de ombros.
— Não sei, só olhando para o chão, falando com as vozes na cabeça
dela. — Ele umedece os lábios. — Posso fazer uma pergunta?
— Qual?
— Ela está contando alguma coisa? Dando alguma informação?
O Governador passa os dedos pelos longos cabelos.
— Não estou perguntando nada a ela... então não há o que me contar,
ou há?
Bruce franze a sobrancelha e olha para o Governador.
— Não está perguntando nada?
— Isso mesmo.
— Se importa se eu perguntar por quê?
O Governador olha para a distância, para a fumaça do exaustor que é
soprada pela escavadeira que revira a terra contra a barricada, os
trabalhadores reforçam as últimas seções, o zunido de motores e de
martelos preenchendo o ar.
— Isso ainda virá — responde ele, pensando a respeito. — E por falar
nisso... quero que faça algo para mim. Onde está o prisioneiro mais jovem?
— O garoto asiático? Está no nível B, no armazém ao lado da
enfermaria.
— Quero que você o leve para o compartimento ao lado do da mulher.
A sobrancelha de Bruce se franze ainda mais, as rugas se espalham
por sua cabeça careca.
— Está bem, mas... quer que ele ouça o que acontece naquele quarto?
O Governador dá um sorriso frio para Bruce.
— Você não é tão burro, Brucey. Quero que aquele garoto ouça tudo o
que eu fizer com a vaca esta noite. Então um deles vai falar. Confie em
mim.
Bruce começa a dizer outra coisa quando o Governador se vira e vai
embora sem proferir mais uma palavra.
Na quietude empoeirada do apartamento, Lilly e Austin conseguem algumas
horas de sono conturbado naquela manhã, e, quando finalmente acordam por
volta das 13 horas, a atmosfera de convivência da noite anterior se
transformou em uma série de negociações desconfortáveis.
— Ah... desculpe — diz Austin, quando abre a porta do banheiro e
encontra Lilly no vaso sanitário vestindo a camiseta da Georgia Tech com a
calcinha na altura das canelas. Austin se vira imediatamente.
— Sem problemas — responde ela. — Pode me dar só uns minutinhos?
Então ele é todo seu.
— Com certeza — replica Austin, enfiando as mãos nos bolsos e
caminhando de um lado para outro no corredor. Mais cedo naquela manhã,
ele cochilava no chão da sala de estar, coberto com uma das mantas
usadas para transporte do caminhão, enquanto Lilly dormia no quarto em
seu futon quebrado. Do corredor, Austin grita para ela: — Tem tempo de
me dar mais uma lição hoje?
— Você está mesmo fominha por uma punição — diz ela de dentro do
banheiro, ao dar descarga e se arrumar diante do espelho. Lilly sai e dá um
soco brincalhão no braço de Austin. — O que acha de darmos àquele lado
do seu corpo uma chance de se curar primeiro?
— O que vai fazer hoje à noite?
— Hoje à noite?
— Eu posso cozinhar o jantar para você — diz Austin, com os olhos
brilhando e inocentes.
— Ah... hã... uau.
Lilly quer muito dizer a coisa certa. Não quer perder Austin como
amigo. Emoções conflitantes percorrem seu corpo enquanto ela procura
pelas palavras certas. Lilly se sente ao mesmo tempo mais próxima e
estranhamente distante de Austin. A questão é que não pode ignorar os
sentimentos que tem pelo garoto desleixado. Ele tem bom coração, é
corajoso, leal e, Lilly pode muito bem admitir para si mesma, um amante
incrível. Mas o que sabe realmente sobre Austin? O que qualquer um sabe
realmente sobre qualquer outro naquela nova sociedade fodida? Será que
Austin é daqueles homens antiquados que acha que sexo sela um acordo? E,
nesse sentido, por que Lilly não pode simplesmente se render aos
sentimentos de carinho que tem por ele? Qual é o problema dela? A
resposta é elusiva: medo, autopreservação, culpa, autodepreciação; Lilly não
consegue determinar. Mas sabe que uma coisa é certa: não está pronta
para um relacionamento. Ainda não. E percebe pelo olhar do jovem naquele
momento que ele já está a meio caminho disso. Lilly diz, por fim:
— Eu vou... pensar sobre isso.
Austin parece decepcionado.
— Lilly, é só um jantar... não estou pedindo para escolher móveis.
— Eu sei... só... preciso pensar a respeito.
— Fiz alguma coisa errada?
— Não. De maneira alguma. É só que... — Ela para. — É só que...
Austin dá um sorriso para Lilly.
— Por favor, não diga “não é você, sou eu”.
Lilly gargalha.
— Está bem, desculpa. Apenas estou dizendo que... só me dê um
tempo.
Austin faz uma reverência para ela.
— Você o tem, minha senhora... darei tempo e espaço. — Austin vai
para a sala de estar e recolhe a arma, o casaco e a mochila, então Lilly o
segue até a porta.
Os dois saem.
— Parece que uma tempestade está se formando — diz Austin,
olhando para cima, para a cobertura de nuvens escuras.
— É verdade — replica Lilly, semicerrando os olhos para a luz
acinzentada, e a dor de cabeça retorna.
Austin começa a descer os degraus quando Lilly estende a mão e,
carinhosamente, dá um puxão no braço dele.
— Austin, espere. — Lilly busca as palavras certas. — Desculpe...
Estou sendo ridícula. Só quero ir devagar. O que aconteceu ontem à noite...
Austin a pega nos braços, olha fundo nos olhos dela e diz:
— O que aconteceu ontem à noite foi lindo. E não quero estragar isso.
— A expressão dele se suaviza. Austin toca o cabelo de Lilly e dá um
beijinho platônico na lateral do rosto dela. Ele faz isso sem intenção, sem
premeditar. Simplesmente beija a têmpora de Lilly com muita ternura. —
Quer saber a verdade? — Austin a encara. — Você vale totalmente a
espera.
E, com isso, ele desce as escadas arrastando os pés e sai pela
tempestade que se forma.
A chuva desce em ondas naquela tarde. Martinez precisa suspender o final
da construção no canto nordeste da muralha, e ele e a equipe se
reposicionam sob as marquises ao longo da estação de trem abandonada,
onde permanecem, fumando, observando o tempo, de olho no bosque ao
norte.
Errantes têm sido vistos com mais frequência nas últimas semanas lá
fora no matagal e nos pântanos, atrás das cercas de pinheiros brancos.
Agora, as cortinas de chuva se abrem do céu, varrendo a floresta e lavando
os campos. O céu lança rajadas de trovões enquanto veios de raios estalam
no horizonte. É uma tempestade raivosa, bíblica em volume e fúria, e isso
deixa Martinez nervoso. Ele fuma o cigarro sem filtro de forma vingativa —
ele enrola o próprio cigarro — tragando-o até a guimba conforme observa a
tempestade. A última coisa de que precisa no momento é drama.
Mas naquele exato momento, o drama vira a esquina na forma de Lilly
Caul. Ela corre pelo estacionamento adjacente com a jaqueta jeans erguida
sobre a cabeça para afastar a chuva. Lilly se aproxima com uma expressão
ansiosa no rosto, protegendo-se sob o abrigo temporário, sem fôlego,
sacudindo a umidade da jaqueta.
— Meu Deus do céu, isso desceu rápido — diz ela, ofegante, para
Martinez.
— Boa tarde, Lilly — responde ele, jogando o cigarro na calçada.
Ela recupera o fôlego e olha ao redor.
— Como está indo?
— Está indo.
— O que está acontecendo com os forâneos?
— Quem?
— Os estranhos — diz ela, limpando o rosto. — Aqueles... chegaram
na outra noite?
— O que têm eles? — Martinez faz um gesto de desdém com os
ombros, olhando, nervoso, por cima dos ombros para os homens. — Não
tenho nada a ver com isso.
— Não estão sendo interrogados? — Lilly olha para ele. — Qual é o
problema?
Martinez lança um olhar esquisito para Lilly.
— Você sequer deveria saber disso.
— Disso o quê?
Martinez segura Lilly e a puxa para longe dos homens, até a beirada da
marquise. A chuva se estabeleceu como uma tempestade constante, e
agora o zunido feito motor de um jato do temporal esconde a conversa
deles.
— Olha — diz Martinez para ela, medindo as palavras —, isso não tem
nada a ver conosco, e eu a aconselharia a ficar fora disso.
— Que diabo é o problema? Só fiz uma simples pergunta.
— O Governador quer manter isso abafado, ele não quer que as
pessoas se preocupem.
Lilly suspira.
— Não estou preocupada, só estava curiosa para saber se ele
descobriu alguma coisa.
— Não sei e não quero saber.
— Qual é o seu problema, caramba?
Raiva incendeia o interior de Martinez, viajando até a espinha dele e
secando sua boca. Ele quer estrangular aquela intrometida. O homem
segura Lilly pelos ombros.
— Ouça. Já tenho problemas o bastante, preciso lidar com essa merda
também?! Fique longe disso. Simplesmente esqueça!
Lilly se afasta.
— Opa, Kemosabe! Segura a onda. — Lilly esfrega o ombro. — Não sei
quem mijou no seu cereal hoje de manhã, mas pode descontar em outra
pessoa.
Martinez respira fundo diversas vezes, olhando para ela.
— Está bem, olhe. Desculpe. Mas estamos em um estado de “saiba só
o necessário” aqui. O Governador sabe o que está fazendo. Se houver
alguma coisa que precisemos saber, ele contará.
Lilly gesticula como se o dispensasse, vira-se e sai na chuva,
murmurando:
— Tanto faz.
Martinez a observa sumir em meio ao temporal.
— Ele sabe o que está fazendo — diz o homem de novo, baixinho, aos
sussurros, como se estivesse tentando se convencer.
Onze
A chuva continua, um dilúvio irrefreável sobre o sul da Geórgia central por
quase três dias seguidos. Somente no meio da semana o tempo muda,
deixando em seu encalço inundações e cabos de força caídos até o litoral. A
terra ao redor de Woodbury fica encharcada e coberta de lamaçais e valas,
os campos não cultivados ao sul tão ensopados e inundados que os homens
na muralha reparam que aglomerados de errantes são levados para fora do
bosque, afundando nas áreas inundadas como sanguessugas gigantes e
reluzentes subindo umas nas outras. É como atirar em peixes em um
aquário para os atiradores com calibre .50 nos cantos nordeste e sudeste
da barricada. Mas apesar dessas pequenas demonstrações barulhentas e
repulsivas que o Governador começou a chamar de “gerenciamento do lixo”,
a cidade de Woodbury permanece quase estranhamente calma naquela
semana. Na verdade, somente no final da semana Lilly repara que há algo
errado.
Até então, ela se mantém discreta, passa a maior parte dos dias
reclusa, honrando o comando de Martinez de manter para si mesma
qualquer notícia sobre os estranhos hostis na cidade. Ela passa o tempo
lendo, observando a chuva, pensando e, quando deitada à noite, acordada e
angustiada quanto ao que fazer a respeito de Austin. Na quinta-feira, ele
aparece à porta de Lilly com uma garrafa de vinho que furtou da velha
despensa do prédio do tribunal, junto com um buquê de sálvias que colheu
próximo ao prédio do correio, e Lilly fica tão comovida pelo gesto que deixa
Austin entrar, mas insiste que ele evite o assunto do relacionamento dos
dois ou qualquer menção à noite em que passaram dos limites. Austin
parece feliz em apenas ficar junto dela. Os dois bebem toda a garrafa de
vinho enquanto jogam Pictionary — em determinado momento, Austin faz
Lilly rir tanto ao revelar que o desenho que fez, igual a um ovo frito, é, na
verdade, o cérebro dele sob o efeito de drogas, que ela cospe a bebida —, e
Austin não vai embora até que a luz cinzenta do amanhecer atravesse as
fendas das janelas cobertas por tábuas. No dia seguinte, Lilly precisa
admitir para si mesma que gosta do cara — independentemente das
circunstâncias esquisitas — e talvez, apenas talvez, esteja aberta às
possibilidades.
Então chega a manhã de domingo. Exatamente uma semana após a
noite fatídica, Lilly acorda sobressaltada em algum momento antes do
amanhecer. Algo amorfo e indefinido no fundo da mente dela vem
incomodando-a, e, por algum motivo — seja algo que sonhou ou algo que se
infiltrou em seu subconsciente no curso daquela semana —, isso a atinge
com força total naquele momento, naquela manhã, como um martelo
diretamente entre os olhos.
Lilly salta da cama e corre pelo quarto, então abre um fichário de três
argolas que está apoiado sobre uma mesa improvisada — dois blocos de
concreto e um painel de madeira compensada. Freneticamente, ela vira as
páginas.
— Ah não... não, não, não — murmura Lilly, sussurrando conforme
pesquisa no calendário.
Durante quase um ano, controla religiosamente as datas. Por muitos
motivos diferentes. Lilly quer saber quando caem os feriados, quer saber
quando as estações mudam e, mais do que tudo, simplesmente quer se
manter ligada à antiga ordem, à vida civilizada, à normalidade. Ela quer
ficar conectada com a passagem do tempo — embora haja muitos nessa
era sombria que desistiram, que não sabem distinguir o Dia da Árvore do
Yom Kippur.
Lilly verifica a data e fecha o calendário, arfando.
— Ah, merda... porra... merda — murmura ela consigo mesma,
afastando-se da mesa e girando como se o chão estivesse prestes a fugir
de seus pés. Lilly caminha em um círculo nervoso no quarto escuro por um
momento, seus pensamentos nadando e se chocando uns contra os outros.
Não pode ser dia 23. Não pode ser. Ela está imaginando a coisa toda.
Simplesmente paranoica. Mas como pode ter certeza? Como qualquer um
pode ter certeza de qualquer coisa nesse Mundo de Praga fodido? Deve
haver algo que possa fazer para tranquilizar a mente — para provar para si
mesma que está apenas sendo paranoica. De súbito, Lilly tem uma ideia.
— Tudo bem!
Ela estala os dedos, então corre até o armário de metal surrado no
canto, no qual guarda os casacos, as armas e a munição. Lilly pega o colete
jeans, as Ruger .22 gêmeas, os silenciadores e um par de pentes curvos de
25 balas. Ela veste o casaco e então atarraxa os silenciadores e enfia as
armas atrás do cinto. Lilly guarda os pentes nos bolsos, respira fundo,
levanta o colarinho do casaco e sai pela porta.
A respiração dela se condensa no ar pré-amanhecer conforme Lilly sai
do prédio. A cidade ainda está dormindo, e o sol começa a despontar do
bosque ao leste — lançando raios angelicais de luz através da bruma
pairando baixo — conforme Lilly atravessa a rua e caminha rapidamente
pela calçada estreita em direção ao velho prédio abandonado do correio.
Logo após o correio — do outro lado da muralha sul, fora da zona de
segurança —, há uma farmácia saqueada. Lilly precisa entrar naquela loja,
apenas por um segundo, para poder descobrir se está ou não maluca. Só há
um problema.
Fica do lado de fora da muralha, e, com o fim da tempestade, a
atividade dos errantes aumentou por ali.
No subporão mal iluminado abaixo da arena da pista de corrida, Bruce ouve
as batidas reveladoras do lado de dentro da última porta de garagem à
esquerda.
Ele se prepara para o que está prestes a ver, se abaixa, destrava a
fechadura, segura a alça e puxa a porta para cima sobre as roldanas
congeladas. A porta guincha. A abertura revela uma clausura escura de
cimento que costumava armazenar chassis sujos de graxa e partes
sobressalentes — agora é um lugar de degradação e dor —, e o Governador
está de pé à meia-luz, ofegante devido ao trabalho duro.
— Isso é entretenimento — murmura ele, o rosto brilhando com suor,
os pontos escuros de umidade sob as axilas e o sangue nas mãos dele são
piores do que após a última sessão, dois dias antes.
O Governador trabalhou na mulher a noite toda, a terceira rodada de
tortura naquela semana, e agora a fadiga e o fardo sobre o homem se
revelam em um olhar fundo.
Por um breve instante, Bruce olha para a figura em frangalhos no
chão, atrás do Governador. O torso dela está a centímetros do chão, as
cordas mal a mantêm erguida, as tranças pendem, fluidos pingam de seu
rosto inchado. Os ombros estreitos da mulher sobem e descem
ritmadamente, os pulmões arquejam por ar, a metade inferior despida está
contorcida como a de uma boneca quebrada. A mulher mal está viva — pelo
menos à primeira vista —, embora, ao olhar mais de perto, seja possível
notar uma chama queimando por trás dos olhos injetados dela, um reator
nuclear de fúria que a mantém acordada, que a mantém agarrada a uma
esperança tênue de vingança.
— Feche — diz o Governador, ao pegar uma toalha jogada sobre o
ombro de Bruce.
Bruce obedece, batendo a porta de rolar contra o chão com um estalo
metálico.
O Governador passa a toalha no rosto.
— Ela nunca vai falar. Quantas vezes já fizemos isso, três, quatro,
perdi as contas. — Ele atira a toalha. — E o garoto? Já cedeu?
Bruce faz que não com a cabeça.
— Gabe diz que ele está ouvindo tudo pela parede, diz que está
balbuciando como um bebê, entra dia, sai dia, e que não parou com isso
desde que você começou com ela.
O Governador funga, alonga os músculos fatigados do pescoço, estala
as juntas ensanguentadas dos dedos.
— Mas não deixou escapar nada, deixou?
Bruce dá de ombros.
— De acordo com Gabe, ele só grita e grita e só isso. Não fala.
— Isso já é demais. — O Governador respira fundo várias vezes,
pensando, revirando as coisas na mente. — Essas pessoas são mais
fechadas do que pensei, porra, difíceis de quebrar.
Bruce pondera.
— Posso fazer uma sugestão?
— Qual é?
Bruce dá de ombros de novo.
— No xadrez, eles quebram as pessoas na solitária.
O Governador olha para ele.
— E daí?
— Daí que estou pensando, se as mantivéssemos trancadas,
separadas, sabe, como uma porra de confinamento na solitária. Pode ser a
maneira mais fácil de conseguir.
— Isto não é uma prisão, Bruce, tenho uma cidade para... — O
Governador pisca, inclinando a cabeça diante da revelação súbita. — Espere
um pouco.
Bruce olha para ele.
— O que foi, chefe?
— Espere... espere um segundo.
— O quê?
O Governador encara o enorme homem negro.
— Gabe não disse que essas roupas de batalhão de choque que eles
estavam vestindo eram o tipo de porcaria que usam na prisão?
Bruce assente em silêncio, olhando ao redor do corredor, pensando a
respeito.
O Governador começa a descer as escadas, murmurando conforme o
faz.
— Pensando melhor, aquele cara, Rick, estava vestindo um macacão
de presidiário por baixo do equipamento.
Bruce corre atrás dele.
— Aonde vai, chefe?
O Governador já está subindo as escadas, gritando por cima do ombro.
— Limpe aquela vaca... depois pegue Gabe... e me encontre na
enfermaria. Acho que tenho um jeito melhor de fazer isso!
Lilly para ao lado da muralha, o coração acelerado, o sol já nasceu, os raios
do início da manhã atingem a nuca da mulher. A 45 metros, um dos
homens de Martinez — cujo físico forte forma uma silhueta contra o céu do
amanhecer — caminha por uma passarela improvisada.
Lilly espera até que o vigia passe para trás de um cano de
aquecimento e, então, se move.
Ela rapidamente sobe e desce a muralha, caindo com força sobre um
estacionamento de cascalho do outro lado. O impacto das botas nas pedras
faz um ruído alto de esmagamento, e Lilly se agacha por um momento —
com a pulsação acelerada —, esperando para ver se o vigia nota ou não.
Após um momento de silêncio e respiração presa, ela silenciosamente
caminha agachada pela rua de cascalho e desliza para trás de um prédio
queimado. Lilly verifica a arma, levantando o ferrolho. Ela mantém a Ruger
na lateral do corpo conforme segue, abaixando-se em uma rua lateral
coberta com destroços e pedaços de errantes decapitados em
decomposição. O fedor é extraordinário.
O vento frio sopra o cheiro ao redor de Lilly como uma rede conforme
ela ultrapassa o correio — mantendo-se abaixada, esgueirando-se
silenciosamente por velhos pôsteres rasgados de carteiros felizes
entregando pacotes coloridos para crianças e banners pichados de
aposentados sorridentes colecionando selos. Lilly ouve um farfalhar atrás de
si — folhas ao vento, talvez — e não se vira.
Ela continua se dirigindo ao sul.
Os restos bombardeados da farmácia e conveniência Gold Star estão
no fim da rua, uma minúscula caixa de tijolos vermelhos em ruínas com
uma vitrine coberta por balas e tábuas de madeira. A velha placa com o
R/X estampado no desenho de um pilão, indicando a venda de remédios sob
prescrição, pende por cabos destrinchados, girando à brisa. Lilly corre até a
entrada. A porta está trancada, e ela precisa arrombá-la com o ombro.
Lilly irrompe no interior escuro da loja, o vidro da porta quebrada se
espalha pelo chão. O coração dela estrondeia no peito conforme Lilly
verifica a área de desastre que um dia ofereceu xarope para tosse, cola
para dentadura e bolas de algodão para esposas de fazendeiros e residentes
resfriados.
Os corredores foram completamente saqueados — as prateleiras
completamente limpas, apenas algumas caixas vazias e poças de fluidos
não identificados são vistas aqui e ali. Lilly ziguezagueia pelos detritos e
segue na direção do balcão da farmácia, nos corredores sombreados dos
fundos.
Um ruído chama sua atenção bem à direita — um chiado, uma garrafa
virando —, e a arma de Lilly imediatamente sobe. Ela vê um borrão de pelo
amarelo. Lilly solta o gatilho quando vê que é um gato selvagem — a
criatura maltrapilha desvia de displays caídos de enxaguante bucal e
branqueador de dentes com um rato na boca.
Lilly expira rapidamente, aliviada, vira-se na direção do balcão da
farmácia... e grita de repente.
O velho farmacêutico se arrasta para fora das sombras ao lado dela
com os braços estendidos e as mãos escuras e retorcidas como garras —
a boca gigantesca e pútrida do homem trabalhando como um triturador de
madeira. O rosto longo e flácido tem a consistência de pudim de pão
coberto de mofo e tem cor de ferrugem velha, os olhos leitosos e
encaroçados são grandes como ovos cozidos. O homem veste um jaleco
branco maculado por sangue e bile.
Lilly desvia para trás, ergue a arma e derruba um display de comida
canina.
Ela cai de bunda no chão, latas tilintam no chão ao seu redor, o ar é
sugado de seus pulmões, e Lilly começa a atirar. Os estalos dos tiros
silenciados criam fagulhas, chamas, e reverberam pelo espaço confinado,
metade das cápsulas acerta o alto, estilhaçando tubos fluorescentes. Mas
metade das balas entra na cabeça careca do farmacêutico.
Ossos cranianos se estilhaçam e voam, sangue e tecido jorram nas
prateleiras vazias. O Mordedor gigante cai como um carvalho velho,
pousando diretamente em Lilly. Ela grita e se contorce abaixo do peso
morto e fedido do cadáver, o cheiro é insuportável. Por fim, Lilly rola e se
liberta.
Por vários minutos frenéticos e silenciosos, ela fica agachada no chão
ao lado do Mordedor caído. Lilly engole o nojo, a vontade de fugir daquela
loja escura horrorosa, a voz no fundo de sua mente lhe dizendo que ela é
louca, insana por arriscar a vida por aquele pedacinho ridículo de
esclarecimento pessoal.
Lilly afasta os pensamentos e consegue se recompor.
O balcão da farmácia está na escuridão a 6 metros de distância. Lilly
cuidadosamente atravessa o corredor dos fundos, os olhos se ajustando
lentamente à penumbra. Ela vê o balcão, empoçado com fluidos grudentos e
ressecados, documentos desbotados e mofo tão espesso que parece um
casaco de pele sobre a coisa toda.
Lilly se espreme para passar pela brecha e começa a vasculhar o
conteúdo parco das prateleiras da farmácia. Nada além de remédios e
extratos inúteis permanecem intocados pelos saqueadores — remédios para
acne, tratamentos para hemorroidas e remédios de nomes indecifráveis,
que ninguém se incomodou em identificar —, todos os valiosos remédios
para o sistema nervoso central e os opiáceos e analgésicos já se foram há
tempos. Mas Lilly não se importa.
Não quer ficar doidona ou apagar ou bloquear a dor.
Depois de uma busca aparentemente interminável e angustiante, ela
finalmente encontra o que procura no chão sob o computador, em uma pilha
de caixas e frascos plásticos de pílulas ignorados. Sobrou apenas uma
caixa, e parece que alguém pisou nela em algum momento. Achatada, com
a tampa quebrada, a caixa mantém seu conteúdo em uma embalagem a
vácuo selada e intacta.
Lilly a enfia no bolso, fica de pé e sai dali correndo.
Quinze minutos depois, ela está de volta ao apartamento com o kit.
Cinco minutos depois disso, Lilly espera para ver se sua vida está
prestes a mudar.
— Ele era um homem bom — diz uma voz abafada do outro lado da porta
fechada da enfermaria, inconfundível com o tom irônico, o leve sotaque, o
sarcasmo cansado; obviamente a voz do estimado Dr. Stevens. — Ênfase
em era.
O Governador está do lado de fora da porta da enfermaria com Gabe e
Bruce. Os três param antes de entrar, ouvindo os murmúrios baixos do
outro lado da porta com muito interesse.
— Encontramos esta cidade bem cedo — continua a voz do médico. —
A estação da Guarda Nacional, os becos estreitos, decidimos que
poderíamos defender este lugar. Então marcamos nosso território. — Uma
leve pausa silenciosa, o som baixo de água corrente. — No início ele era
valentão — continua a voz —, mas fazia o trabalho.
O Governador fecha as mãos em punhos enquanto ouve, o ódio
enrijece sua espinha, mistura-se com a pura adrenalina da descoberta.
— Philip emergiu como líder de nosso grupo muito rapidamente — diz
a voz. — Ele fez o que precisava ser feito, o que precisava ser feito para
manter as pessoas em segurança. Mas depois de um tempo...
O ódio faz o Governador esticar a coluna, seus dedos formigam, a
boca se enche de bile amarga e ríspida. Ele se inclina na direção da porta
para ouvir com mais atenção.
— ... ficou claro para alguns de nós que ele estava fazendo isso mais
por diversão do que para nos proteger. Estava claro que ele era pouco mais
do que um desgraçado cruel. Sequer consigo falar da filha dele.
O Governador ouviu o bastante. Ele estende a mão para a maçaneta,
mas algo o impede.
Do outro lado da porta, uma voz mais grave e rouca com um sotaque
mais carregado, ao estilo classe operária de Kentucky, fala:
— Por que permitem que continue? As lutas? Alimentar os zumbis?
A voz do médico:
— O que acha que ele faria com qualquer um que se opusesse? Odeio
o filho da puta, mas não posso fazer nada. O que quer que faça... ele
mantém esta gente em segurança. Isso basta para a maioria das pessoas.
O Governador engole o impulso de arrombar a porta com um aríete e
matar todos.
O médico:
— Contanto que haja uma muralha entre elas e os Mordedores, não
estão muito preocupadas com quem está com elas do lado de dentro da
barricada.
Philip Blake chuta a porta, a fechadura se parte e sai voando pela sala,
quicando pelo piso de azulejos como uma cápsula de bala usada. A porta se
choca contra a parede adjacente, fazendo todos na sala saltarem.
— Bem colocado, doutor — diz o Governador conforme adentra
calmamente a enfermaria, seguido de perto pelos comparsas. — Bem
colocado.
Se é possível que um cômodo inteiro fique eriçado com eletricidade
estática, é exatamente o que acontece naquele instante seguinte no qual os
olhos de todos — de Stevens, do estranho sentado na cama, de Alice,
próxima à pia — disparam na direção do homem magro que caminha para
dentro da enfermaria com as mãos nos quadris como se fosse dono do
lugar. A expressão fria de assombro no rosto do Governador é desmentida
pelas expressões sombrias e ameaçadoras nos rostos de Bruce e Gabe, que
entram como cães de ataque no encalço do dono.
— O que você quer? — diz o médico, finalmente, em tom provocador.
— Você disse para voltar hoje, doutor — responde o Governador, com
a simpatia casual de mais um paciente que chega para um checkup. —
Disse que queria trocar minhas ataduras? — Ele aponta prestativamente
para a orelha ferida. — Lembra? — O Governador então lança um olhar para
o intruso, agora congelado na posição sentada, na cama, do outro lado do
cômodo. — Bruce, aponte uma arma para o cotozinho ali.
O enorme homem negro calmamente saca a .45 prateada e mira no
homem chamado Rick.
— Sente-se, Philip — diz o médico. — Serei rápido. — A voz dele
mergulha em um tom mais baixo, pingando desprezo. — Tenho certeza de
que tem coisas mais importantes para fazer.
O Governador afunda em uma maca de exames iluminada por
lâmpadas de halogênio.
O homem chamado Rick não consegue tirar os olhos do Governador, e
o Governador devolve o olhar — dois predadores naturais na selva, as
costas arqueadas, avaliando um ao outro — e o Governador sorri.
— Você parece bem, forasteiro. Está se curando direitinho? — Ele
espera que o estranho responda, mas o homem não diz uma palavra.
— Bem — murmura o Governador consigo mesmo, enquanto Stevens
se aproxima e se abaixa para olhar melhor a orelha enfaixada —, tão bem
quanto pode.
Por fim, o homem de cabelos loiros como areia do outro lado do
cômodo consegue replicar:
— Então... quando vai começar a me torturar?
— Você? Nunca. — Os olhos do Governador definitivamente brilham
com escárnio. — Entendi você desde o início, não vai dizer merda nenhuma.
Tem família de onde quer que tenha vindo. Não vai denunciá-los.
Stevens cuidadosamente dobra as ataduras e ilumina a orelha
decepada com uma lanterna tipo caneta.
— Não, eu ia torturar os outros na sua frente — explica o Governador.
— Não achei que o quebraria, mas estava quase certo de que um deles sim.
— Agora o homem pisca um olho. — Mas os planos mudaram.
O homem na cama encara o buraco da Magnum de cano longo de
Bruce, então diz:
— Para quê?
— Você vai entrar na arena — diz o Governador animado. — Quero, ao
menos, conseguir alguma diversão com você. — Ele vira o rosto com um
leve sorriso. — Atualmente planejo estuprar aquela vaca que arrancou
minha orelha feito louco, até que ela encontre um modo de se matar.
O cômodo — quase como um único organismo — absorve essa
informação em silêncio estarrecido. A estranha cena se prolonga, o único
ruído é o de Stevens rasgando um pedaço de rolo de esparadrapo e o
farfalhar da gaze.
— E o garoto asiático com as glândulas lacrimais hiperativas? —
acrescenta o Governador, seu sorriso se espalhando praticamente de orelha
a orelha ferida. — Eu o soltei.
Um momento de silêncio chocado. O homem chamado Rick,
espantado, encara o Governador.
— Você o soltou? Por quê?
A essa altura, Stevens terminou de examinar e de substituir a velha
atadura na orelha do Governador.
O médico se afasta quando o Governador emite um suspiro satisfeito,
dá um tapa nas coxas de modo jovial e se levanta da mesa.
— Por quê? — Ele sorri para o estranho. — Por que ele cantou como
um periquito. Me contou exatamente o que eu precisava ouvir.
O Governador assente para seus homens, então se dirige à porta com
um sorriso.
— Eu sei tudo o que preciso saber sobre sua prisão — murmura ele ao
sair. — E se ele for burro o bastante para ir até lá, nos levará diretamente
para ela.
Os três homens saem da sala, batendo a porta quebrada.
Na esteira de turbulência que deixam, a enfermaria se deteriora em
um silêncio horrível.
À primeira luz do dia seguinte, o atirador de calibre .50 no canto nordeste
da barricada começa a atirar em um aglomerado de errantes que se
concentra no limite do bosque, lançando jorros de matéria cerebral e tecido
morto no ar frio da manhã.
O ruído acorda a cidade. O rugido dos estalos do calibre alto chega a
um beco estreito atrás dos condomínios de apartamentos no final da rua
principal, ecoando pela passagem, penetrando a sonolência ébria de uma
figura imunda e maltrapilha encolhida sob uma plataforma de escada de
incêndio.
Bob se vira e tenta entender onde está, que ano é e qual é a porra do
nome dele. Água da chuva ainda escorre das calhas e dos canos de
drenagem ao seu redor. Ele está com a calça molhada. Flutuando no estupor
induzido pelo álcool, ensopado até os ossos devido à chuva, Bob esfrega o
rosto enrugado e repara que tem lágrimas nas bochechas macilentas e
bastante marcadas.
Estava sonhando com Megan de novo? Estava tendo outro pesadelo no
qual não consegue chegar até ela enquanto a jovem está pendurada pelo
pescoço em seu poleiro suicida? Ele nem mesmo consegue se lembrar. Bob
sente vontade de rastejar até a caçamba de lixo ao lado e morrer, mas, em
vez disso, fica de pé com dificuldade e cambaleia até o beco em direção à
luz do dia.
Ele decide tomar café da manhã — os últimos dedos de uísque barato
da garrafa de meio litro no bolso do casaco — na calçada, recostado contra
a fachada de tijolos do prédio do Governador, o lugar de sorte de Bob, seu
lar longe do lar. Bob afunda contra a parede, enfiando a mão no bolso com
os dedos oleosos e sujos, e pega seu “remédio”.
Ele toma uma golada generosa, terminando com o que restou na
garrafa, e então desliza contra a parede. Não consegue mais chorar. O luto
e o desespero de Bob queimaram suas glândulas lacrimais. Em vez disso,
ele apenas emite um suspiro congestionado pelo catarro com um hálito
desagradável e se deita e cochila por tempo indeterminado antes de ouvir a
voz.
— Bob!
Bob pisca e pisca, e com os olhos remelentos vê a figura embaçada
de uma jovem se aproximando do outro lado da rua. A princípio, ele nem
mesmo consegue se lembrar do nome dela, mas o olhar no rosto da mulher
conforme se aproxima — de frustração, ansiedade, até mesmo um traço de
ódio — alcança alguma câmara profunda da alma e das memórias
carinhosas de Bob.
— E aí, Lilly — diz ele, levando a garrafa vazia aos lábios. Até a última
gota. Bob limpa a boca e tenta se concentrar na mulher. — Excelente
manhã para você.
A mulher se aproxima, se ajoelha e carinhosamente tira a garrafa dele.
— Bob, o que está fazendo? Tentando se matar em câmera lenta?
Bob inspira e então exala um suspiro tão pútrido e inflamável que
poderia acender uma churrasqueira.
— Eu venho... ponderando as opções.
— Não diga isso. — Lilly olha Bob nos olhos. — Não é engraçado.
— Não estou tentando ser engraçado.
— Está bem... tanto faz. — Ela limpa a boca e olha por cima do
ombro, ansiosamente verificando a rua. — Não viu Austin, viu?
— Quem?
Lilly encara Bob.
— Austin Ballard? Você sabe. Cara jovem, meio desarrumado.
— O garoto com o cabelo?
— É ele.
Bob emite mais um coro de tossidas roucas e chiadas. Ele dobra o
corpo por um momento, tentando tossir até ficar limpo. Então pisca de
volta para Lilly.
— Não, senhora. Não vejo o danado há dias. — Por fim, Bob controla a
tosse e então fixa os olhos amarelos em Lilly. — Você tem uma quedinha
por ele, não?
Lilly olha para os limites da cidade, roendo uma unha.
— Hã?
Bob consegue dar um sorriso torto.
— Vocês dois são um casal?
Lilly apenas faz que não com a cabeça, soltando uma risadinha
cansada.
— Um casal? Não diria isso. Não exatamente.
Bob continua olhando para ela.
— Vi vocês dois indo para sua casa juntos na semana passada. —
Mais um sorriso torto. — Eu posso ser um pé de cana, mas não sou cego.
O modo como vocês andavam, conversavam.
Lilly esfrega os olhos.
— Bob, é complicado... mas, neste momento, preciso encontrá-lo. —
Ela olha para Bob. — Pense bem. Quando o viu pela última vez?
— Lilly, não sou muito bom com detalhes. Minha memória não é
exatamente...
Ela o agarra e o sacode.
— Bob, acorde! É importante! Preciso encontrar Austin... é
superimportante! Entende? — Lilly dá um tapa leve em Bob. — Agora,
concentre-se, tente colocar essas células afogadas em álcool para funcionar
e PENSE!
Bob estremece nas mãos de Lilly, os olhos caídos estão arregalados e
úmidos. Os lábios de cor lívida do homem tremem, e ele tenta formar as
palavras, mas as lágrimas descem.
— E-eu não... faz... não tenho muita certeza de...
— Bob, desculpe. — Toda a raiva e a frustração deixam o rosto de
Lilly, e ela solta Bob, ao que sua expressão se suaviza. — Desculpe. — Lilly
o envolve com o braço. — Estou um pouco... não estou... estou lidando com
um pouco de...
— Está tudo bem, querida — diz ele, e deixa a cabeça tombar. — Não
tenho sido mais eu mesmo e não me sinto exatamente no topo do mundo
agora.
Lilly olha para Bob.
— Ainda está sofrendo, não está? Sofrendo muito.
Bob suspira de novo. Ele se sente quase normal quando está perto
daquela mulher.
Por um momento, Bob considera contar a Lilly sobre os sonhos com
Megan. Considera contar a ela sobre o gigantesco buraco negro em seu
coração que suga cada gota da vida dele. Bob considera explicar a Lilly
como nunca foi muito bom em lidar com o luto. Perdeu dezenas de amigos
próximos no Oriente Médio. Como médico do exército, ele viu tanta morte e
tanta dor que achou que isso iria rasgar suas entranhas. Mas nada daquilo
sequer se compara com a perda de Megan do modo como foi. Ele considera
tudo isso durante um instante angustiante, então ergue o rosto para Lilly e
simplesmente murmura:
— Sim, querida, ainda estou sofrendo.
Os dois ficam sentados ali, à meia-luz da manhã, por um longo tempo,
encarando o nada, ambos afogados nos próprios pensamentos, ambos
ruminando sobre futuros obscuros e incertos, quando, por fim, Lilly olha
para Bob.
— Bob, tem alguma coisa que eu possa trazer para você?
Ele ergue a garrafa vazia e tamborila os dedos nela.
— Tenho outra desta escondida na escada de incêndio. É tudo de que
preciso.
Lilly suspira.
Mais um longo momento de silêncio se passa. Bob sente que vai
cochilar de novo, suas pálpebras ficam mais pesadas. Ele ergue o rosto
para Lilly.
— Você parece meio perdida, querida — diz Bob. — Tem alguma coisa
que eu possa trazer para você?
Sim, pensa Lilly consigo mesma, o peso do mundo sobre suas costas.
Que tal uma arma e duas balas para que Austin e eu possamos acabar com
nossas vidas?
Doze
Martinez caminha de um lado para outro na passarela sobre um caminhão
de carga leve estacionado no canto norte da muralha quando ouve alguém
gritar seu nome.
— Ei, Martinez! — A voz atravessa o vento e o trovão distante que
arranha o céu a leste.
Martinez olha para baixo e vê Rudy, o antigo pedreiro de Savannah,
aproximando-se pelo canteiro de obras. Rudy tem o físico de uma sequoia e
usa o cabelo preto fixo para trás com gel, com bico de viúva ao estilo
Drácula.
— O que quer? — grita Martinez para baixo. Vestido com a camisa
sem mangas, a bandana e as luvas sem dedos que são sua marca
registrada, Martinez, de queixo fino, segura uma Kalashnikov com um pente
de munição curvo e o cano encurtado. Do teto de aço enferrujado do
caminhão Kenworth, ele consegue enxergar a mais de 1,5 quilômetro em
qualquer direção e pode facilmente acertar meia dúzia de mortos-vivos em
uma rajada controlada se necessário. Ninguém fode com Martinez, seja
homem ou Mordedor, e aquele visitante inesperado já o está irritando. —
Meu turno não termina por mais duas horas.
Semicerrando os olhos para o sol, Rudy dá de ombros num gesto
estoico.
— Bem, estou aqui para rendê-lo, então acho que vai poder parar mais
cedo. O chefe quer ver você.
— Merda — murmura Martinez, sussurrando, sem ânimo para ir à sala
do diretor naquela manhã. Ele começa a descer pela lateral da cabine,
resmungando baixinho: — Que diabos ele quer?
Martinez salta do estribo do caminhão.
Rudy olha para ele.
— Como se ele fosse contar para mim.
— Fique atento lá em cima — ordena Martinez, olhando pela brecha
estreita diante do caminhão, verificando os campos alagados ao norte. O
pasto está deserto, mas Martinez tem uma sensação ruim a respeito do
que está lá, além das colunas escuras e distantes de pinheiros. — Até
agora tem estado quieto... mas isso jamais costuma durar.
Rudy assente para ele e começa a subir pela lateral da cabine.
Martinez sai caminhando enquanto a voz de Rudy o segue:
— Vai assistir à luta hoje?
— Vamos descobrir primeiro por que o Governador quer me ver —
murmura Martinez, ao sair do campo de audição de Rudy. — Uma porra de
cada vez.
Martinez leva exatamente 11 minutos para atravessar a cidade a pé,
parando algumas vezes para brigar com os trabalhadores vadiando nos
cantos e nas reentrâncias da rua dos mercadores, alguns já compartilhando
garrafas às 14 horas. Quando Martinez chega ao prédio do Governador, o sol
irrompeu pelas nuvens e deixou o dia úmido como uma sauna.
Suor brota no corpo do grande latino-americano quando ele passa para
os fundos e sobe no deque de madeira da porta dos fundos do Governador.
Martinez bate forte no portal.
— Mova essa bunda até aqui — cumprimenta o Governador, abrindo a
porta externa.
Martinez sente o músculo da nuca enrijecer ao entrar na atmosfera
acre da cozinha. O lugar tem cheiro de gordura e mofo preto, e algo pútrido
por baixo. Um desodorizante de carro com cheiro de pinho pende sobre a
pia.
— O que há, chefe? — diz Martinez, apoiando o rifle de assalto e
encostando a arma contra um armário mais baixo.
— Tenho um trabalho pra você — responde o Governador, servindo
água em um copo. Aquele apartamento é um dos poucos restantes em
Woodbury com encanamento funcional, embora a torneira costume jorrar
água marrom enferrujada do poço. O Governador bebe a água. Ele veste
uma camiseta justa surrada sobre o tronco magro e musculoso, a calça
camuflada está enfiada dentro dos coturnos. As ataduras na orelha do
Governador ficaram laranja devido ao sangue e à iodopovidona. — Quer um
copo d’água?
— Claro. — Martinez encosta na pia e cruza os braços musculosos
para esconder as batidas do coração. Já não gosta do rumo que aquilo está
tomando. No passado, as pessoas enviadas para as “missões especiais” do
Governador acabaram em pedaços. — Obrigado.
O Governador enche outro copo e o entrega.
— Quero que visite o tal Rick e quero que deixe escapar como está
incomodado com o modo como as coisas andam por aqui.
— Como?
O Governador encara o homem.
— Você está de saco cheio, entende?
— Na verdade, não.
O Governador revira os olhos.
— Tente acompanhar, Martinez. Quero que conheça esse desgraçado.
Ganhe a confiança dele. Diga como você está insatisfeito com o modo
como a cidade é gerenciada. Quero que tire vantagem do que está
acontecendo naquela porra de enfermaria.
— O que está acontecendo na enfermaria?
— O babaca está conquistando Stevens e a cachorrinha da enfermeira
dele. Esses estranhos parecem pessoas decentes para eles, parecem legais,
mas não acredite nisso, porra. Eles arrancaram minha orelha a mordidas!
— Certo.
— Eles me atacaram, Martinez. Querem nossa cidade, querem nossos
recursos... e farão de tudo para conseguir, porra. Confie em mim. Eles farão
de tudo. E eu farei de tudo para evitar que isso aconteça.
Martinez bebe a água, assentindo, pensando a respeito.
— Entendo, chefe.
O Governador vai até a janela dos fundos e olha para a tarde úmida. O
céu está da cor de leite estragado. Nenhum pássaro evidente em lugar
algum. Nenhum pássaro, nenhum avião, nada além do interminável céu
cinza.
— Quero que vá fundo — diz o Governador, com a voz baixa e
sombria. Ele se vira e olha para Martinez. — Quero que tente fazer com
que levem você até a prisão em que vivem.
— Eles vivem em uma prisão? — Isso é novidade para Martinez. —
Algum deles falou?
O Governador olha para fora. Muito baixo, com a voz grave, ele conta
a Martinez sobre o macacão de presidiário dos homens, sob o equipamento
de batalhão de choque, e da lógica disso — a lógica perfeita.
— Temos alguns ex-presidiários na cidade — diz ele, por fim. —
Perguntei por aí. Há três ou quatro prisões estaduais a um dia de distância
de carro, uma em Rutledge, outra em Albany e uma em Leesburg. Seria
muito melhor se pudéssemos determinar o local sem um monte de viagens.
— O Governador se vira e olha para Martinez. — Entende?
Martinez assente.
— Farei o que puder, chefe.
O Governador vira o rosto. Um momento de silêncio se passa, e o
Governador diz:
— O tempo está passando, Martinez. Ao trabalho.
— Uma pergunta?
— O que é?
Martinez mede as palavras.
— Digamos que a gente encontre esse lugar...
— Sim?
Martinez dá de ombros.
— E aí?
O Governador não responde. Apenas continua encarando o céu vazio, a
expressão cruel e desolada como a paisagem assolada pela praga.
As peças de dominó começam a cair naquela tarde, a sequência de eventos
aparentemente aleatória desdobrando-se com implicações sombrias de uma
colisão de núcleos atômicos.
Às 14h53, fuso horário padrão do leste, um dos melhores lutadores do
Governador, um antigo caminhoneiro magricela de Augusta chamado Harold
Abernathy, faz uma visita inesperada à enfermaria. Ele pede que o médico o
prepare para a luta do dia. O homem quer que suas ataduras sejam
removidas para que pareça valentão para a plateia. Com o estranho
chamado Rick olhando, Stevens relutantemente começa a trabalhar em
Abernathy, desenrolando gaze e removendo as variadas ataduras oriundas
de atritos anteriores, quando, de súbito, um quarto homem adentra o
cômodo, a voz de barítono esbravejando:
— Onde está aquele filho da puta?! ONDE ele ESTÁ?!
Eugene Cooney, um homem desdentado com o físico de um tanque e a
cabeça raspada, vai direto para Harold, grunhindo e disparando algo sobre
Harold não controlar os socos lá fora e agora Eugene ter perdido os últimos
dentes da frente viáveis e como é tudo culpa de Harold. Harold tenta se
desculpar por “se empolgar um pouquinho” com a multidão e tudo o mais,
mas, de acordo com o careca descontrolado, “desculpas não vão resolver o
problema”, e, antes que qualquer um possa interferir, Eugene puxa uma faca
de caça de aparência nojenta e avança para a garganta de Harold. No caos,
a lâmina corta o pescoço de Harold Abernathy e rompe a carótida, jorrando
sangue pelas paredes de azulejos em uma exibição nauseante. Antes que
Stevens sequer tenha a chance de reagir ou mesmo de estancar o
sangramento, Eugene Cooney já havia se virado e saído com a satisfação
casual de um funcionário de abatedouro dessangrando um porco.
— Babaca — comenta ele por cima do ombro, antes de sair mancando
do cômodo.
A notícia sobre o ataque — e sobre a subsequente morte de Harold por
perda maciça de sangue — viaja pela cidade no curso da hora seguinte. As
palavras passam de homem para homem na muralha até que chegam ao
Governador exatamente às 15h55, fuso horário do leste. O Governador ouve
a notícia no deque dos fundos da casa, olhando para fora pela porta de tela
e ouvindo Bruce recontar o acidente calmamente. O Governador absorve o
relatório de maneira estoica, pensando a respeito, e, por fim, diz a Bruce
para não criar caso. Ele não deve alarmar a população. Em vez disso, deve
espalhar que Harold Abernathy sucumbiu graças a ferimentos internos
obtidos durante as lutas porque o sujeito era um soldado que deu tudo o
que podia e foi quase um tipo de herói, e também porque as lutas são
verdadeiras e as pessoas deveriam se lembrar disso. Bruce pergunta quem
substituirá Harold na partida daquele dia, a qual está marcada para começar
em pouco mais de uma hora. O Governador diz que tem uma ideia.
Às 16h11 naquela tarde, o Governador sai de seu apartamento com
Bruce ao lado e se dirige para a pista de corrida, a qual já começa a encher
com os madrugadores ansiosos para que as festividades do dia comecem.
Às 16h23, os dois homens desceram dois lances de escada e passaram por
milhares de metros de corredores estreitos de concreto até chegarem à
última sala, do lado esquerdo do nível subterrâneo mais baixo. Pelo
caminho, o Governador explica sua ideia e diz a Bruce do que precisa. Por
fim, eles chegam à fossa improvisada. Bruce destranca a porta de rolar, e
o Governador dá um aceno. O guincho das roldanas velhas penetra o
silêncio conforme Bruce puxa a porta para cima.
Dentro da câmara escura e imunda de cimento oleoso e mofo, a figura
esguia de pele marrom amarrada à parede dos fundos ergue a cabeça
usando cada última gota de força, os dreadlocks pendem sobre o rosto
violentado. Ódio incandescente como fogo brilha de novo no fundo dos olhos
cor de avelã, o olhar quente como laser atravessa as mechas de cabelo
quando o Governador dá um passo na direção da mulher. A porta bate atrás
dele. Nenhum dos dois se move. O silêncio os sufoca.
O Governador dá mais um passo para perto e fica a 30 centímetros da
mulher e começa a dizer algo quando ela o ataca. Apesar da condição
enfraquecida, a mulher quase o morde — por tão pouco que o Governador
recua assustado —, o leve estalar dos dentes dela e a tensão das cordas
que a seguram firme preenchem o silêncio.
— Certo, você vai me morder, e daí? — diz o Governador para a
mulher.
Nada além de um leve ciciar sai da boca da mulher, os lábios se
afastam dos dentes em uma careta de ódio puro e imaculado.
— Como acha que poderia sair daqui? — diz ele, inclinando-se na
direção da mulher de modo que os rostos deles fiquem a centímetros de
distância. O Governador se banqueteia no ódio dela. Ele consegue sentir o
cheiro dela, um odor almiscarado de suor e cravo e sangue, e o saboreia. —
Você realmente deveria parar de lutar. As coisas seriam tão mais fáceis
para você. Além disso, da última vez quase quebrou os punhos. Não
queremos isso, queremos?
A mulher fixa o olhar viperino nele, a sede de sangue nos olhos dela é
quase feral.
— Então, pelo seu bem — diz o Governador, relaxando um pouco,
recuando e avaliando a mulher. — Eu agradeceria se você simplesmente
deixasse isso em paz... mas chega disso. — Ele faz uma pausa dramática
no momento. — Temos um probleminha. Bem, você tem um problemão, e,
dependendo de sua definição, eu tenho muitos “problemas”... mas o que
quero dizer é que tenho um novo problema e preciso de sua ajuda.
O rosto da mulher fica imóvel como o de uma cobra, um laser
concentrado nos olhos escuros do Governador.
— Tenho uma luta marcada para hoje na arena, uma das grandes. —
Ele assume o tom de voz de um controlador chamando um táxi. — Muitas
pessoas devem vir... e acabo de perder um lutador. Preciso de um
substituto... e quero que seja você.
Algo reluz por trás da expressão obscura da mulher, algo novo nos
olhos brilhantes dela. A mulher não diz nada, mas inclina a cabeça para o
homem, quase involuntariamente, conforme absorve cada palavra dele.
— Antes que você comece a tagarelar o “eu jamais faria qualquer
coisa por você” e “quem diabo você pensa que é para me pedir qualquer
coisa”... quero que pense nisso. — Ele lança um olhar severo para a mulher.
— Estou em posição de facilitar sua vida. — Por um breve instante, um
sorriso cruza as feições dele. — Que diabos, uma bala está em posição de
facilitar sua vida... mas mesmo assim, posso ajudá-la.
Ela o encara. Espera. Os olhos escuros inflamados.
O Governador sorri para a mulher.
— Só não quero que perca isso de vista. — Ele olha para a porta por
cima dos ombros. — Bruce!
A porta de rolar sobe, e a mão enluvada de alguém surge por debaixo
da fenda.
Bruce puxa a porta para cima, deixando entrar a luz fria e desnuda do
corredor.
O enorme homem segura um objeto que reflete a luz, a ponta de aço
reluzindo num brilho quase líquido.
A mulher no chão fixa o olhar no objeto na mão do homem negro.
A bainha está faltando, mas a espada gloriosa — exposta à meia-luz
— chama a mulher como um farol de boas-vindas. O modelo originalmente
criado para os samurais no século XV, forjado à mão atualmente por
apenas alguns poucos mestres ferreiros, a katana é pura poesia de aço.
Com a longa lâmina graciosamente curvada como o pescoço de um cisne, o
punho enfaixado com pele de cobra costurada à mão, a arma é uma obra de
arte e um instrumento preciso da morte.
A visão da coisa, simultaneamente, enrijece a espinha da mulher e
causa-lhe arrepios nos braços e nas pernas. E, de uma só vez, todo o seu
ódio, toda a angústia dolorida entre suas pernas, todo o ruído branco em
sua mente se dissipam... substituídos pela necessidade inata de colocar as
mãos naquele punho perfeitamente equilibrado. A presença da coisa então
transporta e hipnotiza a mulher de tal forma que ela mal ouve a voz do
monstro que ainda tagarela.
— Eu gostaria de dar isto a você — diz ele. — Tenho certeza de que
gostaria de tê-la. — A voz do homem some conforme a arma fica mais e
mais radiante para a mulher, o arco reluzente do aço feito uma lua nova
prateada eclipsando tudo mais na cela, no mundo, no universo. — Você vai
lutar contra um homem — explica o monstro, a voz sumindo até virar nada.
— E para a multidão, bem, você vai precisar parecer estar com a
vantagem. As pessoas não gostam de assistir homens encherem mulheres
de porrada. — Uma pausa aqui. — Eu sei... também não entendo. Acho que
se você o atacar com uma espada, não terá problema se ele acertar você
em cheio com um taco de beisebol.
No cérebro traumatizado da mulher, a espada quase parece murmurar
baixinho agora, vibrar, reluzir tão forte no confinamento sombrio que é
como se estivesse em chamas.
— Em troca, você ganha uma semana inteira de descanso — diz o
monstro. — E comida e, talvez, até mesmo uma cadeira ou uma cama,
terei de verificar. — A sombra do monstro paira sobre a mulher agora. —
Para ser sincero, nosso pequeno relacionamento anda muito exaustivo.
Preciso de um tempo. — Ele olha para ela com um sorriso obsceno no
rosto. — Não tem problema, porque, bem, ainda estou muito puto com a
orelha. Mas sinto como se já tivesse ao menos conseguido uma pequena
vingança. — Pausa. — E, bem, o cara com quem você vai lutar esta noite
poderia matá-la.
Na imaginação da mulher, raios de luz celestial parecem disparar da
ponta cinzelada da espada.
— E eu não quero que você mate esse cara — continua o monstro. —
Esse é o segredinho que não contamos de verdade às pessoas. Nossas
pequenas lutas na arena são mais do que encenadas. O perigo com os
Mordedores está lá, claro, mas você não deve de fato ferir demais o
oponente.
O brilho de luz que se reflete na arma parece alcançar a mulher no
chão agora, a voz na sua cabeça fazendo promessas, sussurrando para ela...
seja paciente, apenas espere, paciência.
— Não precisa decidir agora — diz o Governador por fim, e acena com
a cabeça para Bruce. Eles se dirigem à porta, o Governador murmura: —
Você tem vinte minutos.
Lilly procura por Austin em cada canto da cidade naquele dia. Fica
preocupada em certo momento — depois de conversar com os Stern —
com a possibilidade de ele ter saído sozinho para encontrar uma fazenda
mitológica de maconha não muito longe de Woodbury.
Austin fala sobre o lugar esporadicamente, em geral com o tom
desejoso de alguém descrevendo Xanadu, alegando que ouviu rumores de
que algum programa médico do governo estava cultivando maconha para o
laboratório Pfizer visando às leis de legalização que estavam para sair. Lilly
preparava-se para ir atrás dele — a fazenda infame aparentemente ficava a
leste de Barnesville, uma curta viagem de carro de Woodbury ou uma
caminhada longa de um dia a pé — quando, no fim daquela tarde, ela
começou a reparar em sinais de que Austin poderia muito bem estar sob
seu nariz.
Em dado momento, Gus menciona a Lilly que o jovem foi visto por
volta do meio-dia caminhando de cabeça baixa entre os arbustos selvagens
ao lado do pátio da ferrovia, procurando por alguma coisa, o que não fazia
qualquer sentido para Lilly. Mas desde quando as ações de Austin Ballard
faziam sentido?
Mais tarde naquele dia, depois do triste encontro com Bob, Lilly estava
a caminho de casa quando esbarrou em Lydia Blackman, uma herdeira viúva
de Savannah que aceitara com satisfação o papel de fofoqueira da cidade.
De acordo com Lydia, Austin fora visto mais ou menos uma hora antes,
vasculhando a pilha de lixo atrás do armazém na rua principal, revirando
baldes e tonéis de óleo. Alguns pedestres fizeram comentários maldosos a
respeito de o rapaz ter “virado mendigo” e “em seguida vai empurrar um
carrinho de compras pela estrada de Woodbury em busca de latinhas”.
Confusa com tudo isso, quase no limite da paciência, com a pele
arrepiada pela tensão, Lilly decide que o melhor modo de encontrar alguém
é ficar parada. Então ela se dirige ao apartamento de Austin do lado leste
da cidade, próximo às fileiras de caminhões de carga leve, e fica plantada
na varanda. E é exatamente nesta varanda que Lilly está sentada agora,
com as pernas cruzadas, os cotovelos apoiados nas pernas, a cabeça sobre
as mãos.
A oeste, o sol mergulhou sob a imensa arena em formato de molheira,
a brisa esfriou, e agora Lilly observa as últimas pessoas da cidade
passarem em fila pela casa de Austin a caminho do grande espetáculo. As
lutas estão programadas para começar em meia hora, e Lilly não quer estar
nem perto dali àquela altura, mas está determinada a encontrar o jovem de
cabelos longos e largar a bomba.
Menos de cinco minutos depois, Lilly está prestes a desistir quando vê
uma silhueta familiar emergir como um avatar de cabeleira cacheada, de
capuz e jeans rasgado, vindo do halo de raios solares que ilumina em feixes
a entrada do beco adjacente. Ele carrega a mochila sobre o ombro, o
conteúdo não identificado chacoalhando dentro dela. Austin parece sério,
talvez até um pouco solitário, até que vira a esquina, se encaminha para o
prédio e vê Lilly na entrada.
— Meu Deus — diz ele, aproximando-se de Lilly com os olhos
repentinamente brilhantes, como um garotinho que descobre uma cesta de
ovos de Páscoa debaixo da cama. — Procurei você por todo canto.
Lilly fica de pé, coloca as mãos nos bolsos e faz um gesto breve com
os ombros.
— Mesmo...? Engraçado. Eu estava procurando você.
— Bonitinho — diz Austin, e beija a bochecha de Lilly, cuidadosamente
apoiando a mochila nos degraus da entrada. — Trouxe uma coisa para você.
— É? Eu também tenho algo para você — diz Lilly, inexpressiva.
Austin vasculha a mochila.
— Eu estava esperando na sua casa, mas você não apareceu. — Ele
pega um lindo buquê de ásteres roxos cercados por cravos-de-amor brancos
como marfim, reunidos em uma grande lata enferrujada com a logomarca
do fermento em pó Clabber Girl desbotada na lateral. Tudo isso explica o
comportamento esquisito de Austin naquele dia, revirando as plantas e as
pilhas de lixo. — Barbara disse que essa coisa branca se chama Olho de
Boneca... não é assustador e legal?!
— Obrigada — diz Lilly, recebendo o presente sem emoção e o
apoiando no degrau. — É muita gentileza sua.
— Qual é o problema?
Ela olha para Austin.
— Então, quais são seus planos?
— Hã?
— Você ouviu. — Lilly apoia as mãos nos quadris como se estivesse
prestes a demiti-lo de um emprego. — Para o futuro, quero dizer.
Austin inclina a cabeça e franze a testa, confuso.
— Não sei... acho que vou continuar praticando com a Glock, ficar
melhor em detonar os Mordedores... talvez tentar conseguir mais um
gerador para colocar alguns aparelhos em casa?
— Não é disso que estou falando, e você sabe. — Lilly morde o lábio
por um momento. — Estou falando de quando e se nós sairmos desta
confusão. Quais são seus planos? Para o resto da vida?
A cabeça de Austin se inclina ainda mais, uma confusão mais profunda
percorre as feições dele.
— Quer dizer, tipo... emprego e essas porcarias?
— Quero dizer tipo uma carreira. Quero dizer tipo crescer. Quais são
seus planos? Vai ser um vagabundo de praia profissional? Estrela do rock?
Traficante... o quê?
Ele a encara.
— O que está acontecendo?
— Responda a pergunta.
Austin coloca as mãos nos bolsos.
— Tudo bem, primeiro de tudo, não sei se um dia haverá um futuro
para o qual planejar. Segundo, não tenho, tipo, nenhuma ideia do que vou
fazer. — Ele observa a expressão fechada de Lilly. Austin percebe que não é
brincadeira. — Tenho um diploma e tudo mais.
— De onde?
Ele suspira, sua voz perde um pouco do entusiasmo.
— ATC.
— ATC... o que é isso?
A voz de Austin fica ainda mais baixa.
— Atlanta Technical College.
— Sério? — Lilly o encara. — O que é isso, Austin? Alguma porra de
site da internet em que você paga 19,95 por um diploma de papel e eles
mandam cupons para uma troca de óleo e um serviço de currículo?
Austin engole seco.
— É uma faculdade de verdade. — Ele abaixa o rosto. — O campus
fica próximo ao aeroporto. — A voz de Austin cai uma oitava. — Eu estava
estudando para ser auxiliar de advocacia.
— Isso é perfeito.
Austin olha para ela.
— Que merda é essa, Lilly? Aonde você está indo com isso?
Ela se vira e olha pela rua vazia. O barulho da multidão se animando
para as lutas a um quarteirão e meio de distância ecoa pelo céu. Lilly
balança a cabeça devagar.
— Descansos para caminhões e clubes de strip-tease — murmura ela
consigo mesma.
Austin encara a nuca de Lilly, ouvindo atentamente, ficando cada vez
mais preocupado.
— O que foi isso?
Lilly se vira e olha para ele.
— O mundo é dos homens, bonitinho. — O rosto dela é uma máscara
de dor. Os olhos de Lilly já se encheram d’água. — Vocês homens acham
que tudo é só uma rapidinha e então “sayonara”. Bem, não é. Não é, Austin.
Ações têm consequências. As escolhas mais simples podem fazer com que
você seja morto.
— Lilly...
— Isso é mais verdade do que nunca agora. — Ela se abraça como se
estivesse congelando. Lilly olha para longe de novo. — Este mundo de
merda em que estamos não é muito piedoso. Você se mete em confusão e
morre... ou pior.
Austin estende a mão e carinhosamente toca o ombro dela.
— Lilly, o que quer que seja... podemos lidar com isso. Juntos. Não foi
o que me disse? Vamos ficar juntos? Me diga o que está acontecendo. O
que aconteceu?
Lilly se afasta dele e começa a descer os degraus.
— Não sei em que estava pensando — diz ela, a voz falhando com
desdém.
— Espera! — grita Austin para Lilly. — Lilly, posso consertar... o que
quer que seja.
Ela para na base das escadas. Então se vira e olha para ele.
— É mesmo? Pode consertar? — Lilly enfia a mão no bolso e tira de
dentro um pequeno instrumento de plástico. Parece um termômetro digital.
— Conserte isto! — Ela o atira para Austin.
O rapaz pega o objeto e abaixa o rosto para ele.
— Que diabo é isto? — Olhando com atenção, ele vê o pequeno
mostrador no teste digital e as palavras estampadas ao lado:
não grávida: |
grávida: | |
O mostrador indica dois traços verticais, um resultado de teste
positivo.
PARTE 2
Hora do Show
Pois haverá então grande tribulação, como jamais se viu
desde o início do mundo até este tempo nem jamais se verá.
— Mateus 24:21
Treze
O enorme holofote de tungstênio na ponta norte da pista se acende com o
ruído de um tiro de pistola, brilhando como a ponta de um fósforo gigante
em ignição, o raio prateado alcançando o campo da arena antes conhecida
como Pista de Corrida dos Veteranos de Woodbury. O advento da luz
artificial agita a multidão de mais de cinquenta espectadores espalhados
pela arquibancada do lado oeste do campo. Vivas, gritos e assobios de
todas as idades e humores se erguem no céu amarelo do crepúsculo e se
misturam com o cheiro de fumaça de madeira e gasolina no ar frio. As
sombras vão se alongando.
— Quanta gente, hein? — O Governador olha para a multidão escassa,
porém barulhenta, conforme sobe com Gabe e Bruce a escada da imprensa
até o observatório, onde repórteres locais e olheiros da NASCAR
costumavam compartilhar garrafas de Jack e mascar Red Man enquanto
assistiam o caos controlado lá embaixo, na poeira.
Gabe e Bruce seguem o Governador na direção dos assentos da cabine
de vidro, dando a ele um “sim, senhor” e um “tem toda razão”... E quando
estão prestes a se fechar dentro do pequeno clubinho, uma voz soa abaixo.
— Ei, chefe! — É um ex-fazendeiro de amendoim com um boné com a
sigla CAT, sentado na fileira dos fundos, olhando por cima do ombro quando
o Governador passa. — Melhor ser boa a de hoje!
O Governador dá a ele o tipo de olhar que se dá a uma criança que
está prestes a andar de montanha-russa pela primeira vez.
— Não se preocupe, amigo. Será. Prometo.
Sob a arena, minutos antes de as festividades da noite começarem, a porta
da enfermaria se abre inesperadamente, e um homem alto e bonito com
uma bandana amarrada no topo da cabeça entra com um olhar esperançoso
no rosto.
— Doutor? Dr. Stevens?
Do outro lado da sala, Rick Grimes, o forasteiro azarado, caminha
arrastando os pés pela extensão da parede dos fundos, a qual contém
material médico de segunda mão. Quase sem reparar no visitante, ele se
move de modo robótico, a mente a milhões de quilômetros de distância. O
homem segura o braço mutilado como se fosse um bebê morto, a mão
ausente agora aparente em uma atadura bojuda e manchada com o formato
de um pino gigante.
— Ei, cara! — Martinez para do lado de dentro da porta, com as mãos
nos quadris. — Você viu...? — Ele se interrompe. — Ah, oi... você é o... Qual
era seu nome?
O homem ferido se vira devagar, o coto ensanguentado é iluminado. A
voz dele sai como uma confusão pesada, rouca e esganiçada.
— Rick.
— Ai, meu Deus. — Martinez encara, chocado pela visão nauseante do
punho decepado. — O que aconteceu com...? Cruzes, o que aconteceu com
você?
Rick abaixa o rosto.
— Um acidente.
— O quê?! Como?! — Martinez se aproxima dele e apoia uma das
mãos no ombro de Rick, que se afasta. Martinez consegue expressar o
máximo de indignação e simpatia possível. É uma atuação bastante
decente. — Alguém fez isso com você?
O homem chamado Rick o ataca, agarrando a camisa de Martinez com
a mão boa.
— Cale a boca! Cale a porra da boca! — Os olhos azuis do homem se
incendeiam de ódio tão quente quanto brasa. — Você me entregou àquele
psicopata! Você fez isso, porra!
— Uoa... ei! — Martinez recua, horrorizado, fazendo-se de tolo.
— PAREM!
A voz do Dr. Stevens é como um balde de água fria nos dois homens.
O médico se intromete na discussão, mantendo cada homem afastado com
as palmas das mãos abertas.
— Parem, parem com essa porra agora mesmo! — Ele alterna o olhar
entre cada um dos dois. Então passa o braço ao redor de Martinez. —
Venha, Martinez, você precisa sair.
Rick se tranquiliza, olhando para o chão e segurando o coto conforme
Martinez vai embora.
— Qual é o problema daquele cara? — pergunta Martinez ao médico,
sussurrando, quando passa para o outro canto da sala e sai do campo de
audição, satisfeito com o estratagema. As sementes foram plantadas. —
Ele está bem?
O médico para diante da porta, falando baixinho, em confidência.
— Não se preocupe com ele. O que você queria? Estava me
procurando?
Martinez esfrega os olhos.
— Nosso bom Governador pediu que conversasse com você... disse que
você não parecia muito feliz aqui. Ele sabe que somos amigos. Só queria
que eu... — Martinez para nesse ponto, genuinamente perdido. Ele sente
uma afeição pelo cínico e debochado Stevens. Secretamente, bem no fundo,
Martinez admira o homem... um homem educado, um homem de conteúdo.
Por um brevíssimo instante, Martinez olha por cima do ombro para o
homem do outro lado do cômodo. O estranho chamado Rick se recosta
contra a parede, segurando o punho enfaixado com um olhar distante no
rosto. Ele parece encarar o vazio, olhar para um abismo, lutar para
compreender a realidade fria de sua situação. Mas ao mesmo tempo, pelo
menos aos olhos de Martinez, o homem, de alguma forma, parece forte
como uma rocha, pronto para matar se necessário. A protuberância do
queixo com barba curta, os pés de galinha que enrugam as bordas dos olhos
devido a anos de gargalhadas, diversão ou suspeitas, ou talvez todos os
três — tudo isso parece fazer parte de um homem de um tipo de
substância diferente. Talvez não com diplomas de pós-graduação e
consultórios particulares, mas definitivamente um homem que deve ser
considerado.
— Não sei — murmura Martinez por fim, voltando-se para o médico.
— Acho que ele queria que eu apenas... me certificasse de que você não
causaria problemas ou algo assim. — Mais uma pausa. — Ele só quer se
certificar de que você está feliz.
Agora é a vez do médico de olhar pelo cômodo e considerar as coisas.
Por fim, Stevens lança um de seus sorrisos debochados para Martinez
e diz:
— Quer mesmo?
A arena ganha vida com a fanfarra de música estrondosa e barulhenta de
heavy metal e uma saraivada de berros de hienas nas arquibancadas — e, à
deixa, o semianalfabeto parrudo, imoral e de pele enrugada conhecido como
Eugene Cooney emerge das sombras do vestíbulo norte feito um Espártaco
de brechó. Ele veste ombreiras de futebol americano de segunda mão nos
ombros parecidos com vigas de ferro e carrega um bastão manchado de
sangue enrolado com um rolo de fita.
A multidão o incita conforme ele passa pelo corredor polonês de
mortos-vivos acorrentados aos postes dos portões no limite do campo. As
criaturas tentam agarrá-lo — bocas pútridas trabalhando, dentes pretos
mastigando, filetes delicados de bile preta rodopiando através de partículas
de luz do crepúsculo. Eugene os saúda com o dedo médio. A multidão ama
o homem e ruge com aprovação quando Eugene toma seu lugar no centro
do campo, brandindo o bastão com um tipo de majestade pomposa que
envergonharia a guarda de honra da marinha. O fedor de órgãos podres e de
entranhas fermentando se mistura à brisa.
Eugene gira o bastão e espera. Os espectadores esperam. A arena
inteira parece ficar silenciosa em um quadro esquisito enquanto todos
aguardam o desafiante.
No alto do camarote de imprensa, atrás do Governador, olhando para baixo,
Gabe pondera em voz alta, erguendo-a o suficiente para ser ouvido:
— Tem certeza disso, chefe?
O Governador nem mesmo olha para o homem.
— A chance de ver essa vaca tomar uma surra sem que eu sue uma
gota? É... acho que é uma boa jogada.
Um ruído abaixo, na arena, leva a atenção deles para a poça de luz ao
redor do portal sul.
O Governador sorri.
— Isso vai ser bom.
Ela entra no local do espetáculo a partir da escuridão do vestíbulo com um
ritmo brusco, quase ríspido, na caminhada. De cabeça baixa, os ombros
erguidos sob a capa monástica, os dreadlocks esvoaçantes ao vento, ela se
mexe com rapidez e determinação apesar dos ferimentos e da exaustão,
como se estivesse prestes a simplesmente pegar um coelho fujão pela
nuca. O sabre longo e curvo, preso com firmeza à mão direita, aponta para
baixo a um ângulo de 45 graus.
Acontece tão rapidamente, tão casualmente, de modo tão autoritário,
que a natureza exótica dessa pessoa — a esquisitice do caráter oficial em
seu comportamento — parece momentaneamente cativar a atenção do
público, como se todos ali reunidos tivessem inspirado e prendido a
respiração na mesma hora. Os cadáveres ambulantes estendem os braços
para essa mulher conforme ela passa — aquele espécime esquisito com a
espada chique — quase como pedintes, cercando-a, convergindo sobre a
mulher conforme ela se aproxima de Eugene sem expressão, sem prazer,
sem emoção.
Eugene inclina o bastão e grunhe alguma ameaça idiota para a mulher,
então dispara.
Os movimentos do homem podem muito bem estar em câmera lenta
conforme a mulher, de modo simples e ágil, acerta um chute perfeitamente
direcionado na genitália do brutamonte. O golpe atinge o ponto macio entre
as pernas e incita um gritinho quase efeminado do gigante, fazendo-o
inclinar o corpo como se estivesse subitamente intoxicado de agonia. Os
espectadores urram.
A parte seguinte se desenvolve com a destreza e a precisão de uma
faca de chef.
A mulher de capa simplesmente faz um giro rápido, uma espécie de
pirueta baixa, a arma presa nas duas mãos agora — um movimento tão
natural, tão treinado, tão preciso, tão inevitável que parece quase inato —,
então desce a espada no pescoço do grandalhão. A lâmina forjada à mão,
moldada por artesãos na tradição de ancestrais durante milênios, decepa a
cabeça de Eugene Cooney com pouco mais que um sussurro.
A princípio, nas arquibancadas, a visão do aço reluzindo, um reflexo de
tungstênio na lâmina — e o crânio inteiro daquele homem gigante é
arrancado com a facilidade de uma motosserra cortando queijo Brie —, é
tão surreal que a multidão reage de modo esquisito: um ruído de tosse
entre muitos, um coro de gargalhadas nervosas... e, então, um tsunami de
silêncio.
A quietude repentina que toma o estádio empoeirado é tão inapropriada
e tão deslocada que faz com que o gêiser de sangue jorrando do pescoço
precisamente desmembrado de Eugene Cooney quando o corpo decapitado
cai como um boneco — primeiro de joelhos, depois de barriga, terminando
em um monte tão sem vida quanto uma pilha de pele descascada — incite,
de súbito, berros de indignação.
No alto, no observatório, atrás de painéis de vidro encardido, uma
figura magricela fica de pé. O Governador arqueja na direção da arena, os
dentes trincados, ciciando:
— Que. Porra. É. Essa?
Durante um longo momento onírico, parece que uma paralisia estranha
toma conta de cada pessoa dentro do confinamento da cabine de imprensa
e nas arquibancadas. Gabe e Bruce se dirigem ao vidro, abrindo e fechando
o punho. O Governador chuta a cadeira dobrável atrás de si, o objeto
metálico ecoa contra a parede dos fundos.
— Desçam! — O Governador aponta para a cena no campo: a
amazona negra com a espada erguida, o círculo de cadáveres estendendo os
braços para ela; então grita para Gabe e Bruce: — Guiem aqueles
Mordedores para dentro e depois TIREM ESSA MULHER DA PORRA DA
MINHA FRENTE! — Ódio líquido corre nas veias dele. — Juro que vou matar
aquela vaca!
Gabe e Bruce seguem para a porta cambaleando, tropeçando um no
outro para sair.
No campo, a mulher de capa — ninguém ainda se incomodou em
sequer saber o nome dela — libera a fúria controlada no círculo de mortosvivos
que a cercam. Começa quase como uma dança.
Agachando-se, ela salta, gira e simultaneamente acerta a espada no
primeiro errante. A ponta afiada sussurra através de tendões do pescoço
em flagelos e viscosidade, facilmente arrancando a primeira cabeça.
Sangue e tecido florescem à luz artificial quando a cabeça cai e rola
na poeira, e o corpo desaba. A mulher gira. Outra cabeça sai voando.
Fluidos jorram no ar como uma fonte. A mulher gira de novo, zunindo mais
um pescoço pútrido, mais um crânio voando para longe de sua âncora
maltrapilha e ensanguentada. Outro giro, mais uma decapitação... outra, e
outra, e outra... até que a poeira começa a ficar preta com os fluidos
cérebro-espinhais, e a mulher fica sem fôlego.
A essa altura — sem o conhecimento da multidão ou da mulher no
centro do campo — Gabe e Bruce já chegaram à base das escadas e
passam correndo pelo portão, na direção da pista.
A multidão começa a relinchar — uns ruídos esquisitos, rugidos, como
de um burro, misturados com vaias —, e, para um ouvido não treinado,
seria difícil dizer se está irritada, com medo ou animada. O clamor parece
alimentar a mulher no campo. Ela detona os três últimos cadáveres
reanimados com uma combinação graciosa de plié, jeté e pas de piruette
mortal, a espada destacando os crânios silenciosamente, a dança um banho
de sangue de batismo, a terra inundando-se com fluidos de um pretoescarlate
profundo.
Nesse momento, Gabe já atravessou a pista exterior, seguido de perto
por Bruce, e os dois homens disparam na direção da mulher, que está de
costas. Gabe chega a ela primeiro e literalmente mergulha até a mulher,
como se só tivesse uma chance de derrubar um running back desgarrado
antes que o jogador marcasse ponto.
A mulher cai com força, a espada sai voando de suas mãos. Ela come
poeira quando os dois homens sobem nela. Um arquejo abre caminho para
fora dos pulmões da mulher — ela disse talvez dez palavras desde que
chegou a Woodbury —, que se contorce no chão sob o peso dos dois,
emitindo lufadas de respiração angustiada enquanto os homens pressionam
o rosto dela contra a poeira. Pequenas nuvens de poeira sobem do chão,
erguidas por sua respiração nervosa. Os olhos da mulher se voltam para
cima com ódio e dor.
O público está bestificado com tudo aquilo — absorvendo tudo em um
nível mais profundo agora —, e os espectadores reagem de novo, em
silêncio petrificado. A quietude retorna à arena e se estabelece no local até
que o único som sejam as lufadas e os arquejos da mulher no chão, e um
clique baixo surge do observatório acima da arquibancada.
O Governador emerge, bêbado de ódio, os punhos fechados com tanta
força que as unhas começam a tirar sangue.
— EI!
Uma voz feminina grossa — curtida pelo tabaco e aprimorada pela
rispidez — grita para o Governador vinda de baixo. Ele para no parapeito.
— Seu filho da puta! — A dona da voz é uma mulher com um vestidão
em frangalhos, sentada em uma fileira no meio entre dois meninos em
roupas surradas que parecem sem-teto. Ela olha para cima com raiva, para
o Governador. — Que diabo foi essa merda?! Não trago meus meninos aqui
para isso! Trago eles para as lutas por uma diversão boa e limpa, aquilo foi
uma porra de massacre! Não quero meus meninos assistindo assassinato,
porra!
A multidão reage enquanto Gabe e Bruce lutam contra a amazona,
arrastando-a para fora do campo. Os espectadores vociferam sua
reprovação. Murmúrios aumentam e se misturam a gritos de raiva. A
maioria das pessoas concorda com a mulher, mas algo mais profundo guia
aquelas pessoas agora. Quase um ano e meio de inferno e fome e tédio e
terror intermitente descem jorrando de alguns deles em uma rajada de
gritos e urros.
— Você os traumatizou! — grita a mulher, entre os ruídos
esganiçados. — Vim para ver uns ossos quebrados, uns dentes faltando, não
isto! Isto foi demais! VOCÊ ESTÁ ME OUVINDO?!
No parapeito, o Governador para e olha para baixo, para a multidão, o
ódio flui por dentro dele como um incêndio florestal consumindo cada
última célula, fazendo os olhos dele se encherem de água e sua espinha
ficar gelada. Bem fundo na mente do Governador, parte dele se desfaz...
controle... controle a situação... queime o câncer... queime agora.
Das arquibancadas, a mulher o vê indo embora.
— Ei, porra! Estou falando com você! Não saia andando enquanto falo!
Volte aqui!
O Governador desce as escadas, alheio aos assobios e às vaias,
partindo com fogo e vingança na mente.
Correndo... disparando em frente... perdidas na escuridão, cegueira noturna...
elas mergulham para a vegetação, buscando freneticamente a segurança do
acampamento. Três mulheres... uma na faixa dos 50 anos, outra perto dos
60 e a terceira nos 20... elas vagam pela vegetação rasteira e pelos galhos
retorcidos, desesperadamente tentando voltar para o círculo de barracas e
trailers na escuridão, a menos de 1,5 quilômetro ao norte. Tudo o que essas
pobres mulheres queriam fazer era colher algumas amoras e agora estão
cercadas. Imobilizadas. Presas. O que deu errado? Foram tão silenciosas,
tão furtivas, tão habilidosas, carregando as amoras nas bainhas das saias,
com o cuidado de não falar umas com as outras, comunicando-se somente
por gestos... e agora os errantes as estão cercando de todas as direções, o
fedor sobe ao redor delas, o coro de ruídos aquosos dos grasnidos é como
uma separadora de grãos atrás das árvores. Uma das mulheres grita
quando o braço de um morto irrompe de um arbusto, agarrando-a,
arrancando a saia dela. Como isso aconteceu tão rapidamente? Os errantes
saíram do nada. Como os monstros as detectaram? De uma só vez, os
cadáveres móveis bloqueiam o caminho delas, interrompendo a fuga,
cercando-as, as mulheres em pânico, os gritos esganiçados se erguem
conforme elas lutam contra o massacre... o sangue delas se misturando ao
suco roxo-escuro das amoras... até que seja tarde demais... e o bosque fica
vermelho com o sangue delas... e os gritos são afogados pela separadora de
grãos irrefreável.
— Elas ficaram conhecidas como as Mulheres de Valdosta — diz Lilly,
estremecendo, sentada na escada de incêndio de Austin com um cobertor
enroscado nela enquanto conta sua história sobre cautela.
É tarde e os dois estão sentados ali há quase uma hora, permanecendo
na plataforma muito depois de as luzes da arena terem começado a,
sequencialmente, se apagar, e os insatisfeitos moradores da cidade terem
começado a longa caminhada de volta para as tocas. Agora Austin está
sentado ao lado dela, fumando um cigarro enrolado por ele e ouvindo
atentamente a estranha história. O estômago dele se contorce com
emoções fortes que Austin não consegue determinar muito bem, não
consegue entender, mas precisa processar tudo antes que se decida, então
não diz nada, apenas ouve.
— Quando eu estava com Josh e os outros — continua Lilly em uma
voz sem emoção, esganiçada devido à exaustão —, eles costumavam dizer:
“Cuidado... e use um absorvente o tempo todo durante seu ciclo e mergulhe
o absorvente em vinagre para disfarçar o cheiro... ou acabará como as
Mulheres de Valdosta.”
Austin emite um suspiro frágil e espantado.
— Uma delas estava menstruada, presumo.
— Isso mesmo — diz Lilly, erguendo o colarinho e puxando mais o
cobertor sobre os ombros. — Ao que parece, os errantes conseguem sentir
cheiro de sangue menstrual como se fossem tubarões... é como a porra de
um farol.
— Cruzes.
— Sorte minha que sou regular como um relógio. — Lilly balança a
cabeça e estremece. — O vigésimo oitavo dia depois da minha última
menstruação passa, e eu me certifico de ficar dentro de casa ou pelo
menos em algum lugar seguro. Desde que começou a “transformação”,
tento acompanhar meticulosamente. É um dos motivos pelo qual sabia.
Estava atrasada e simplesmente sabia. Estava ficando dolorida e inchada...
e estava atrasada.
Austin assente.
— Lilly, só quero que você...
— Não sei... não sei — murmura ela, como se nem o estivesse
ouvindo. — Seria algo grande em qualquer outra época, mas agora, nesta
merda doida em que estamos...
Austin deixa que Lilly não complete a frase, então diz, bem baixinho,
com muito, muito carinho:
— Lilly, só quero que saiba uma coisa. — Austin olha para ela com
olhos cheios d’água. — Quero ter esse bebê com você.
Lilly olha para ele. Um momento longo de silêncio paira no ar frio. Ela
olha para baixo. A pausa está matando Austin. Ele quer dizer muito mais,
quer provar a Lilly que está sendo sincero, quer que ela confie nele, mas as
palavras escapam. Austin não é bom com palavras.
Por fim, Lilly ergue o rosto para ele, os olhos se enchendo de água.
— Eu também. — Ela pronuncia isso quase como um sussurro. Então
gargalha. É uma gargalhada purificadora, um pouco zonza e histérica, mas
purificadora mesmo assim. — Que Deus me ajude... eu também... quero tê-
lo.
Os dois se abraçam apertado, por um bom tempo naquele precipício
frio e ventoso do lado de fora da janela dos fundos de Austin. As lágrimas
de ambos descem livremente.
Depois de um tempo, Austin leva a mão ao rosto de Lilly, tira o cabelo
dela dos olhos, limpa as lágrimas das bochechas dela e sorri.
— Nós faremos dar certo — murmura ele. — Precisamos. É um grande
foda-se para o fim do mundo.
Lilly assente, acariciando a bochecha de Austin.
— Você está certo, bonitinho. Quando você está certo, está certo.
— Além disso — diz Austin —, o Governador tem este lugar sob
controle agora. Ele tornou este lugar seguro para nós... um lar para nosso
bebê. — Austin beija carinhosamente a testa de Lilly, sentindo uma certeza
que nunca sentiu na vida. — Você estava certa sobre ele o tempo todo —
fala Austin baixinho, segurando Lilly. — O homem sabe o que está fazendo.
Catorze
Passos ecoam pelo corredor mais baixo sob os níveis subterrâneos. Eles se
aproximam com força e rapidamente, descendo as escadas dois degraus
por vez, movendo-se em um ritmo irritado, chamando a atenção de Gabe e
de Bruce na escuridão. Os dois homens estão do lado de fora do último
compartimento, nas sombras projetadas por lâmpadas sem suporte,
tentando conjuntamente recuperar o fôlego da luta que foi para colocarem a
garota negra de volta na solitária.
Para uma coisinha tão magricela, ela briga bastante. Inchaços surgem
nos braços grossos de Gabe como coxas de porco, no lugar onde a moça o
arranhou, e Bruce toca uma área dolorida logo abaixo do olho direito, onde a
vaca o acertou com o cotovelo. Mas nada disso se compara ao furacão que
se aproxima pelo corredor estreito na direção deles.
A figura projeta uma longa sombra conforme se aproxima, iluminada
pelas costas por lâmpadas dentro de grades, e para com os punhos
fechados com força.
— Então? — diz o homem magro, de pé, a 10 metros, a voz ecoando,
o rosto fino oculto pelas sombras. — Ela está aí dentro? — A voz dele
parece fora do normal, distorcida e engasgada com emoção. — Colocaram
ela de volta aí dentro? Ela está amarrada? ENTÃO?!
Gabe engole seco.
— Nós a colocamos de volta aí dentro, cara... mas não foi fácil.
Bruce ainda respira com dificuldade pelo esforço, segurando a espada
delicada na enorme mão como uma criança que segura um brinquedo
quebrado.
— A vaca é maluca — murmura ele.
O Governador para diante dos dois, com os olhos inflamados vocifera
com desprezo:
— Não importa... só... eu só... ME DÊ ESSA PORRA!
Ele arranca a espada da mão de Bruce, que instintivamente desvia
sobressaltado.
— Senhor? — diz ele, com a voz baixa e hesitante.
O Governador bufa e trinca os dentes, caminhando de um lado para
outro, a espada apertada nas mãos com as juntas brancas.
— Como essa vaca ousa?! Eu disse a ela, disse que pegaria leve com
ela, só precisava que me fizesse uma porra de um favor, só essa porra de
favor! UM FAVOR! — A voz retumbante do Governador praticamente cola
os dois homens à parede. — Ela concordou em me ajudar! ELA
CONCORDOU!! — Com as têmporas pulsando, a mandíbula contraída, os
tendões do pescoço proeminentes, os lábios dobrando-se para longe dos
dentes, Philip Blake parece um animal enjaulado. — Porra! Porra! PORRA! —
Ele se volta para os dois homens. Então grunhe, borrifando saliva. — Nós.
Tínhamos. Um acordo!
Gabe fala:
— Chefe, talvez se nós...
— Cale a boca! CALE A PORRA DA BOCA!
O corredor ecoa. O silêncio que se segue poderia congelar um lago.
O Governador recupera o fôlego. Ele se acalma, inspirando e expirando,
erguendo a espada em uma demonstração estranha que faz parecer, a
princípio, apenas por um momento, que está prestes a atacar seus homens.
Então murmura para eles:
— Tentem me persuadir a não entrar aí agora mesmo e abrir essa
mulher da boceta até o pescoço com esta coisa.
Os dois outros homens não têm resposta para o Governador. Estão
sem ideias.
O silêncio é glacial.
Naquele momento, outro par de passos — pesados, urgentes e furtivos —
cruza a ala de baias de serviço subterrâneas e corredores decrépitos abaixo
da pista de corrida. Na quietude bolorenta da enfermaria, esses passos —
que se aproximam da ponta sul da arena — ainda estão longe o suficiente
para não serem ouvidos.
Na verdade, bem naquele momento, na clínica improvisada, nos
minutos antes de a reviravolta conturbada de eventos se tornar conhecida,
as lâmpadas fluorescentes no teto pulsam e piscam com a corrente
oscilante dos geradores no nível superior. Esse crescente e minguante das
luzes, assim como os ruídos incessantes de zunidos, está começando a
deixar o homem chamado Rick nervoso.
Ele se senta em uma maca no canto, observando o Dr. Stevens se
limpar na pia. O médico exaurido inspira fundo e alonga os músculos
cansados das costas.
— Tudo bem — diz o médico, retirando os óculos e esfregando os
olhos. — Vou para casa tirar uma soneca, ou pelo menos tentar. Não durmo
direito há dias.
Do outro lado do cômodo, Alice sai de uma despensa com uma agulha
hipodérmica em uma das mãos e um frasco de Netromicina — um
antibiótico forte — na outra. Ela prepara a agulha e olha para o médico.
— Você está bem?
— É, bem... bem mal... nada que uma dose de vodca Stolichnaya não
resolva. Alice, pode ir me buscar se algo importante surgir? — Ele pensa
melhor. — Se precisar de mim, quero dizer.
— Sem problemas — responde ela, puxando a manga da blusa de Rick
para cima e esfregando álcool na lateral. Ela injeta mais 50 ml nele, ainda
conversando distraidamente com o médico. — Vá descansar um pouco.
— Obrigado — responde o médico, saindo e fechando a porta atrás de
si.
— Então... — Rick olha para Alice enquanto ela pressiona gaze contra
seu braço, selando o local da injeção. — O que há com vocês dois? Estão...?
— Juntos? — Alice dá um sorriso alegre, como se divertida com a
piada interna. — Não. Acho que ele desejaria que estivéssemos, e,
sinceramente, é um bom homem. Muito bom, na verdade. E gosto dele. —
Ela dá de ombros, jogando o frasco usado em um recipiente para lixo e
abaixando a manga da camisa de Rick. — Mas não ligo se esse é o fim do
mundo... ele é velho demais para mim.
O rosto do homem se suaviza.
— Então você é...?
— Solteira? — Alice para e olha para ele. — Sim, mas não estou
procurando ninguém e você tem uma aliança no dedo, então... — Ela se
interrompe. — Sua mulher ainda está viva? Sinto muito por ter...
— Ela está. — Rick suspira. — Não tem problema. E não se preocupe,
só estou puxando conversa. Desculpe se pareci que estava... — Outro
suspiro. — Então você também é médica? Enfermeira? Paramédica? Algo
assim?
Alice se dirige até uma mesa bagunçada encostada na parede. Ela
escreve algo em uma ficha.
— Na verdade, eu estava na faculdade, estudando para ser designer de
interiores, quando os Mordedores, errantes, enfim, mudaram meus planos.
Não sabia nada dessas coisas alguns meses antes.
— Mas agora? Como aprendeu essas coisas? — O homem ferido
parece genuinamente interessado, mesmo que somente de um modo “papo
distraído ao lado da máquina de café”. — O Dr. Stevens ensinou você?
— A maior parte, sim — diz Alice, assentindo, ainda fazendo
anotações sobre estoques, remédios usados, nível de suprimentos. Em
Woodbury, todos os bens são limitados, principalmente remédios, então
Stevens instituiu um sistema meticuloso de registros, o qual Alice atualiza
religiosamente.
Na pausa que se segue, os passos que se aproximavam chegaram ao
corredor do lado de fora da enfermaria. Ainda distantes o suficiente para
serem audíveis para Rick e Alice, eles se aproximam rapidamente, com
determinação e urgência.
— Sempre aprendi rápido — diz Alice. — Desde que era menininha.
Para ser sincera, só preciso mesmo observá-lo fazer algo uma vez, talvez
duas, e praticamente consigo repetir.
Rick sorri.
— Bem, estou impressionado.
— Não fique. — Alice lança um olhar inexpressivo para ele. — Não
considero prestar atenção algo especial somente porque a maioria das
pessoas não presta. — Ela para e emite um suspiro. — Isso pareceu cruel?
Me fez parecer uma megera? Faço muito isso. Desculpe.
— Não se preocupe — diz Rick, ainda sorrindo. — Não entendi dessa
forma. E você está certa, aliás. — Ele abaixa o rosto para o coto enfaixado.
— A maioria das pessoas não presta atenção... a nada. — Rick olha para
Alice. — Simplesmente passam pela vida preocupando-se tanto com as
próprias merdas que sequer notam as coisas que acontecem ao redor. —
Ele volta a olhar para o ferimento e emite um som baixinho.
Alice olha para Rick.
— O que foi?
— Sinto saudade da minha mulher — responde ele, baixinho, olhando
para o chão. — Eu... não consigo parar de pensar nela. — Uma longa pausa...
então: — Ela está grávida.
Alice o encara.
— Sério?
Rick assente.
— É. Deve dar à luz em dois meses. Da última vez que a vi... ela
estava... estava bem. — Ele engole seco. — Mas há alguma coisa com o
bebê... não sei se...
Do outro lado do cômodo, a porta se escancara, interrompendo as
palavras de Rick.
— Rick... levante-se! AGORA!
***
O homem que invade a enfermaria usa uma bandana desbotada, carrega um
rifle de alta potência e tem braços musculosos projetados para fora da
camisa sem mangas que está manchada sob os braços com suor de
ansiedade.
— Venha... precisamos ir! — suplica o homem conforme corre até
Rick e o agarra pelo braço. — AGORA MESMO!
— O que...? Que porra você está fazendo? — Rick recua, afastando-se
daquela pessoa louca. Alice também se afasta, de olhos arregalados.
Martinez perfura os olhos de Rick com o olhar.
— Estou salvando sua vida.
Rick pisca.
— Como assim? Como está salvando minha vida?
— Vou tirar você daqui! Ajudar você a escapar! Venha!
— Me solte, porra! — Rick puxa o braço de volta, o coração acelerado.
Martinez ergue a mão em um gesto de penitência.
— Está bem. Olhe, sinto muito. Ok. Só que precisamos correr. Não vai
ser fácil tirar você daqui sem que ninguém note. Ouça o que estou dizendo.
Vou tirar você daqui, mas não posso roubar um veículo, só temos uns dois
com gasolina e são muito difíceis de pegar sem sermos detectados.
Rick e Alice trocam olhares de pânico, então Rick olha de volta para
Martinez.
— Por que você...?
— Se eles notarem que você sumiu antes de estarmos longe o
suficiente, poderão nos alcançar. Precisamos sair daqui sem que ninguém
repare por um bom tempo. — Martinez olha para Alice, então de volta para
Rick. — Agora venha... vamos embora!
Rick respira fundo — uma barreira de emoções contraditórias se choca
contra ele — antes de dar ao homem um aceno curto e relutante com a
cabeça. Ele olha para Alice, então de volta para Martinez, que se vira e se
dirige à porta.
— Espere! — Rick segura Martinez a caminho da saída do cômodo. —
Eles me disseram que há guardas a postos à porta! Como vamos passar
por eles?
Martinez quase sorri apesar da adrenalina.
— Já cuidamos deles.
— Cuidamos?! — Rick segue Martinez porta afora com passadas
rápidas, mergulhando para o corredor.
Deixada sozinha dentro da sala, Alice encara a porta boquiaberta.
Descendo o corredor central pé ante pé, cuidadosamente, evitando as poças
de luz das lâmpadas penduradas, descendo escadas até o próximo nível
subterrâneo e fazendo dois desvios rápidos, Martinez reza silenciosamente
para que ninguém os veja. Somente ele e o Governador sabem sobre aquela
armação, e pessoas como Gabe e Bruce são adeptas de atirar primeiro,
perguntar... bem... nunca. Martinez silenciosamente ergue a mão em um
gesto de aviso conforme se aproximam de uma das cabines. Os dois
homens param diante de uma porta de segurança.
— Acho que já conheceu meu colega — sussurra Martinez para Rick,
abrindo rapidamente a porta de metal.
Dentro do confinamento mal iluminado, dois corpos estão estatelados
e inconscientes no piso de cimento. São dois dos homens do Governador —
Denny e Lou —, ambos feridos e espancados, mas ainda respirando em
arquejos curtos. Uma terceira figura, com vestimentas de batalhão de
choque, está de pé sobre eles, os punhos fechados, respiração pesada, um
cassetete em uma das mãos.
— GLENN!
Rick irrompe de súbito no cômodo e se dirige ao homem mais jovem.
— Rick, nossa, você está vivo! — O jovem asiático com o
equipamento de proteção preto ao estilo da SWAT abraça o homem.
Com o rosto redondo e jovial, olhos castanhos como avelã e corte de
cabelo bem rente, o mais novo poderia se passar por um soldado do
Exército recém-saído do treinamento básico. Ou talvez um escoteiro, pensa
Martinez consigo mesmo à porta enquanto os dois homens fazem sua
reuniãozinha sentimental.
— Achei que você estivesse morto, cara — diz o mais jovem para o
mais velho. — Martinez me disse que viu você, mas não sei... acho que não
estava acreditando até agora. — O garoto olha para o coto de Rick. —
Cruzes, Rick, tinha tanto sangue...
— Estou bem — diz Rick, olhando para baixo, segurando as ataduras
manchadas de sangue contra o tronco. — Acho que tenho sorte por esta ser
a única coisa que aquele maluco tirou de mim. E você? — Ele bate na
ombreira de Kevlar do garoto. — Eles me disseram que soltaram você, que
você tinha contado tudo sobre a prisão e que iriam te seguir até lá.
O jovem explode em uma gargalhada nervosa, o que parece mais um
cachorro hiperventilando para Martinez.
— Cara, eles nunca sequer perguntaram nada. — Algo muda no rosto
do rapaz. Os olhos se semicerram, ele trinca o maxilar com força, então
olha para baixo. — Rick, passei um dia trancado em uma garagem ao lado
de outra garagem com Michonne dentro. — Mais uma pausa, os olhos do
garoto se enchem de lágrimas de repulsa. — Rick...
O jovem para de novo, parece que mal consegue tomar fôlego, quanto
mais explicar o que está acontecendo. Do outro lado do cômodo, Martinez
absorve aquilo tudo. É a primeira vez que ouve o nome da mulher negra, e,
por algum motivo, o modo como soa — Mii Shon? Mishone? — o deixa
nervoso. Não consegue entender por que exatamente.
Rick dá tapinhas no ombro do rapaz.
— Está tudo bem, Glenn, vamos tirar Michonne e nós dois daqui.
— Rick, amo Maggie — diz o rapaz, por fim, erguendo o rosto para o
homem mais velho com os olhos cheios de lágrimas. — Não quero colocar
ninguém em perigo, mas as coisas que ouvi... as coisas que devem ter feito
com Michonne. — Ele para de novo. Então olha para Rick e diz, com a voz
falhando: — Acho que eu teria dito qualquer coisa que os fizesse parar. —
Glenn funga para afastar a vergonha. — Mas nem sequer perguntaram. —
Pausa, ódio aumentando. — É como se tivessem feito tudo aquilo para foder
comigo.
É a vez de Martinez se intrometer e dar início àquela porra de
espetáculo.
— Isso parece verdade — diz ele, com a voz mais baixa e mais grave.
Então lança aos dois homens um olhar sombrio ao continuar: — Philip ou o
Governador, como quiserem chamá-lo, anda passando dos limites aos
poucos já faz um tempo. Ouvi coisas sobre as merdas que ele anda
fazendo, sussurros, rumores... não queria acreditar que fosse verdade. —
Martinez respira fundo. — Você meio que escolhe ignorar essas coisas, te
impede de precisar fazer alguma coisa. Depois de ver você — ele acena
para Rick com a cabeça —, suspeitei que o “acidente” que arrancou sua
mão estivesse relacionado com ele.
Do outro lado do cômodo, Rick e Glenn se entreolham. Algo não dito se
passa entre os dois, e Martinez repara, mas não reage.
— Ele me pediu que substituísse os guardas — continua Martinez, com
a voz baixa —, vigiasse a garagem na qual estava mantendo Glenn. Não
sabia que estava mantendo prisioneiros aqui. Em geral, trabalho na
segurança... todo meu tempo era passado nas cercas. — Mais uma
respiração. Ele olha para os dois homens do outro lado do cômodo. — Não
podia deixar isso continuar... precisava ajudar a parar com essa porra de
insanidade. — Martinez olha para o chão. — Ainda somos humanos, porra!
Rick está pensando a respeito, umedecendo os lábios pensativamente,
as linhas de expressão em seu rosto ficando mais acentuadas. Ele olha para
Glenn.
— A porra das minhas roupas. — Rick olha para Martinez. — Minhas
roupas! — Ele balança a cabeça. — Estávamos usando equipamento de
batalhão de choque enquanto o médico cuidava de mim... alguém deve ter
visto o que eu estava vestindo por baixo. — Ele balança a cabeça mais
devagar, olhando para as paredes de argamassa em ruínas, as artérias de
ferrugem ou de sangue descendo como veios pelos cantos. — Cristo —
murmura ele.
O rapaz olha para Rick.
— Como assim?
— O macacão, o macacão laranja — murmura Rick. — Foi assim que
ele soube da prisão. Como pude ser tão idiota, porra?
— Vamos! — Martinez já ouviu o bastante; o tempo está passando. —
Precisamos sair daqui.
Rick assente para Glenn, e o rapaz desce o visor.
Então o trio sai do cômodo e se dirige para o corredor, na direção da
rampa.
Durante quase dez minutos agonizantes, no nível mais baixo do subporão,
Bruce e Gabe não se moveram dos lugares onde estavam posicionados,
contra a parede de concreto adjacente à cela.
O Governador caminha de um lado para outro diante deles,
empunhando a katana, entrando e saindo de poças de luz manchadas de
lâmpadas de emergência de 100 Watts, murmurando consigo mesmo, os
olhos vítreos com ódio e loucura. A cada poucos momentos, a voz abafada
da mulher — quase inaudível atrás da porta de rolar da área de serviço —
murmura algo misteriosamente. Com quem diabo ela está falando? Que
tipo de defeito está apodrecendo o cérebro daquela moça?
Bruce e Gabe esperam as ordens, mas decisões não estão exatamente
a caminho: o Governador parece lutar contra as próprias vozes demoníacas,
tentando despedaçar o ar e os problemas com o sabre, grunhindo, de vez
em quando, confuso e irritadiço:
— Porra... porra... como pôde... porra... como isso pôde, porra...?!
Em um momento, Gabe arrisca uma sugestão:
— Ei, chefe, por que não nos concentramos nas prisões perto de
Albany? Tem um monte delas perto de...
— Cale a porra da boca! — O Governador caminha. — Preciso
conseguir novos Mordedores para as lutas agora! Preciso encontrar novos
lutadores! MERDA!
Bruce se intromete:
— Chefe, e se nós...?
— MERDA! — O Governador agita a espada no ar. — Aquela porra de
vaca! — Ele se vira para a porta da garagem e bate o mais forte que
consegue com a bota contra os painéis de metal enferrujados. A coisa
ribomba e deixa uma mossa do tamanho da barriga de um porco. Gabe e
Bruce se sobressaltam com o barulho. — MERDA! MERDA! MERDA! MERDA!
— O Governador se vira para eles. — ABRAM!
Bruce e Gabe trocam um olhar rápido e acalorado, então Bruce vai até
a porta, ajoelha-se e segura a alça mais baixa com as duas mãos.
— Quero ver a porra das entranhas dela espalhadas pelo chão, droga
— ruge o Governador. A porta se abre com um guincho, e o Governador
estremece como se corrente elétrica percorresse seu corpo. — PARE!
Bruce congela com a porta entreaberta, as enormes mãos presas à
borda. Tanto ele quanto Gabe se viram e olham para o chefe.
— Feche — diz o Governador, com a voz de volta ao normal, como se
um interruptor tivesse sido ligado.
Bruce olha para ele.
— Claro, chefe... mas por quê?
O Governador esfrega o osso do nariz, os olhos.
— Vou...
Os homens esperam. Mais uma breve troca de olhares. Bruce
finalmente umedece os lábios.
— Você está bem, chefe?
— Vou dormir antes de decidir sobre isso — diz ele baixinho. — Não
quero fazer nada de que me arrependa mais tarde. — O Governador suspira
longamente, alongando os músculos do pescoço. Então se vira e começa a
ir embora. — Preciso repassar todos os ângulos — murmura ele, quando
parte, sequer olhando para os dois homens. — Voltarei em algumas horas.
Ele some ao dobrar no fim do corredor, saindo da iluminação sombria
como se fosse um fantasma.
— ESPEREM!
A voz surge das sombras atrás dos fugitivos, das profundezas do
corredor, e a princípio Martinez tem certeza de que foram surpreendidos e
seu plano foi para o inferno antes mesmo de terem a chance de dar um
único passo do lado de fora.
— Por favor, parem!
Os três homens se viram e param perto de dois túneis que se
cruzam, a nuca de Martinez está arrepiada. Eles se voltam um a um —
Martinez, depois Rick, depois Glenn —, cada homem respirando com
dificuldade, os corações acelerados, as mãos trêmulas alcançando os
punhos das armas de fogo e bastões. Eles semicerram os olhos para ver
quem é, uma figura sombreada se aproxima rapidamente, passa por baixo
de um cone amarelo de luz.
— Esperem — diz a mulher mais jovem, a luz iluminando a coroa da
cabeça dela, os cabelos loiros reluzentes presos em uma trança embutida,
mechas finas pendendo sobre um rosto de menina. O jaleco brilha sob a luz
fraca do corredor. Ela se aproxima, sem fôlego.
Rick ergue a voz.
— O que foi, Alice? O que quer?
— Estava pensando — diz ela, com a voz trêmula, tomando fôlego no
túnel escuro e sem ar. Em algum lugar não muito longe dali, um nível
acima, do lado de fora dos vestíbulos, o vento sussurra pelas gruas e
arquibancadas vazias. — Se vocês vão — diz ela —, quero que nos levem
com vocês. O Dr. Stevens e eu.
Os homens compartilham olhares tensos, mas ninguém oferece uma
resposta.
Alice olha para Rick.
— Onde quer que morem, deve ser melhor do que isto... e com sua
mulher grávida, tenho certeza de que poderíamos ser úteis.
Rick considera isso por um momento. Então dá um leve sorriso para
ela.
— Não vou argumentar contra isso. Adoraríamos ter vocês. Na
verdade...
— Está bem, rapazes... senhorita — interrompe Martinez, a voz
estirada como a corda de um piano. — Precisamos ir agora.
Eles correm por um túnel ramificado e então descem uma longa rampa, o
tempo passa. Acabam na escuridão fétida do subporão. Glenn tem uma
vaga memória de onde Michonne está sendo mantida — está um pouco
confuso por todas as portas de garagem que se parecem, pelas marcas
enlouquecedoramente semelhantes de graxa e arranhões velhos —, mas se
lembra de ter sido arrastado por aquele subnível. Por fim, o grupo encontra
a última ala estreita de baias de serviço e para.
— Tenho quase certeza de que é logo depois desta próxima curva —
sussurra Glenn quando o grupo se amontoa sob as sombras de dois túneis
que se cruzam.
— Que bom — murmura Rick, baixinho. — Nós a pegamos, pegamos o
doutor, então partimos. — Ele olha para Martinez. — Qual é a distância até
a casa do médico e de lá até a cerca? Há uma saída fácil?
— Espere! — Martinez ergue a mão enluvada no ar, a voz como um
sussurro alto. — Esperem... quietos. Para trás. — Ele olha com cuidado pela
curva, então volta o olhar para o grupo. — Eu ficaria chocado para cacete
se o Governador não tivesse colocado um vigia onde sua amiga está presa.
Rick começa a falar:
— Por que nós não...
— Correr até lá não é a melhor das ideias — avisa Martinez. — A não
ser que queira levar um tiro. Todos aqui me conhecem. Vou na frente...
então chamo vocês quando terminar.
Ninguém discute.
Martinez respira fundo, se prepara, então desaparece, deixando os três
exilados agrupados, nervosos, na escuridão do túnel.
Glenn olha para Alice.
— Oi, eu sou Glenn.
— Sou Alice — diz ela, com um sorriso vacilante. — Um prazer.
Rick mal ouve a conversa. Seu coração bate em uníssono com a
bomba-relógio em sua mente. Eles têm uma chance.
Quinze
— Ei... e aí, Gabe? — Martinez se aproxima da última porta de garagem
com uma tranquilidade ensaiada, caminhando até o vigia robusto com um
sorriso amigável e um aceno. — Ele colocou você aqui embaixo para
proteger a reserva de ouro ou algo assim?
O homem corpulento com a gola rulê — de pé, com as costas
apoiadas na porta de rolar — dá a Martinez um sorriso e balança a cabeça
negativamente.
— Não exatamente. Aquela vaca que fodeu com a luta está aí dentro.
Martinez se aproxima e fica parado ao lado do homem parrudo.
— Ã-hã.
— É irritante essa daí — diz Gabe, com um sorrisinho. — O chefe não
quer arriscar.
Martinez devolve o sorrisinho ele mesmo com um riso lascivo.
— Acha que posso dar uma olhada? Só uma olhadinha. Não consegui
ver direito na luta. Parecia gostosa.
O sorriso de Gabe fica maior.
— Ah, sim... ela era gostosa. Mas depois da surra que o Governador
deu nela...
O golpe vem do nada — um soco ágil com as articulações dos dedos
no pomo de adão do homem corpulento — e fecha a via aérea de Gabe
junto com a voz dele. O homem atarracado se inclina para a frente,
puxando fôlego, confuso pelo choque.
Martinez termina o trabalho com a coronha do rifle Garand de calibre
.762. A ponta cega da coronha acerta Gabe bem na base do crânio, emitindo
um ruído de madeira quebrando.
Gabe desaba com a cara no chão, um filete de sangue escorrendo da
nuca para o cimento. Martinez grita por cima do ombro:
— BARRA LIMPA!
Das sombras no fim do túnel, todos saem às pressas com os olhos
arregalados e a adrenalina pulsando. Rick olha para Gabe, então se volta
para Martinez e começa a dizer algo, mas Martinez já está agachado na
base da porta de garagem.
— Ajudem a abrir esta porta, está toda amassada, não abre — diz ele,
resmungando, ao mexer na beirada inferior da porta com as mãos
enluvadas. Rick e Glenn se aproximam e se agacham ao lado dele, e são
necessários os três homens para forçar a coisa para cima. As treliças
guincham e reclamam conforme eles sobem a porta até a metade.
Os três se abaixam sob a porta entreaberta, e Rick dá alguns passos
na câmara de argamassa escura e com um fedor pútrido... de repente,
congela no lugar, paralisado pela visão da amiga... instantaneamente ciente
em algum nível celular no cérebro, como uma sinapse disparando, que uma
guerra já começou.
A mulher no chão da cela escura, com os braços amarrados à parede, não
reconhece os amigos a princípio. Longas tranças pendem, o peito infla e
esvazia com respirações curtas, filetes de sangue escorrem pelo concreto a
partir do lugar em que ela está, a mulher tenta erguer a cabeça e olhar
pelos olhos catatônicos.
— Ai, meu Deus... — Rick se aproxima dela com cuidado, mal
consegue proferir as palavras. — Você está...?
A mulher ergue a cabeça e cospe nele. Rick recua, cobrindo o rosto
instintivamente. A desidratação, o choque e a exaustão secaram a saliva
dela até parecer serragem. A mulher tenta cuspir de novo.
— Ei, Michonne! Calma — diz Rick, agachando-se diante dela. — Sou
eu. — A voz dele fica mais baixa. — Michonne, é Rick.
— R-rick? — A voz da mulher sai como um sussurro retraído, baixo e
rouco. Os olhos dela têm dificuldade para focalizar Rick. — Rick?
— Gente! — Rick fica de pé e se vira para os outros. — Ajudem a
desamarrá-la!
Os outros três correm até as cordas. Alice solta cuidadosamente um
tornozelo, enquanto Glenn se ajoelha ao lado do outro e briga com o nó
corrediço, murmurando para a mulher:
— Meu Deus... você está bem?
Outro chiado apertado sai da mulher.
— N-não... Não estou... nem perto disso.
Rick e Martinez pegam um punho cada e começam a afrouxar os nós.
Emoções contraditórias percorrem Martinez conforme ele trabalha a
corda, sentindo o cheiro da pobre mulher, sentindo a febre irradiando do
corpo violentado dela. O ar fede a desespero — uma mistura de cecê,
ferimentos pútridos e rastro de sexo violento. A calça da mulher está
amarrada ao redor da cintura com fita adesiva, o tecido está rasgado e
manchado com pontos úmidos de toda variedade — sangue, lágrimas,
sêmen, suor, urina, cuspe — de dias de tortura. A pele parece açoitada,
como se alguém tivesse usado uma lixa nos braços e nas pernas dela.
Martinez luta contra o impulso de confessar tudo àquelas pessoas, de
entregar a armação. A visão dele fica embaçada. Martinez se sente zonzo,
enjoado. Tudo isso vale um pouco de segurança para aquela merda de
cidade? Uma vantagem tática mínima? O que em nome de Deus essa
mulher fez para merecer aquilo? Por um momento, Martinez imagina o
Governador fazendo aquilo com ele. Martinez nunca esteve tão confuso.
As cordas finalmente se soltam, e a mulher desaba no chão com um
arquejo.
Os outros se afastam quando Michonne se contorce por um momento
no chão, de bruços, com a testa junto ao cimento. Rick se agacha ao lado
dela enquanto a mulher luta para tomar fôlego, para se levantar, se
recompor. Ele diz a ela:
— Você precisa...?
A mulher no chão subitamente se levanta, fica de joelhos. Ela funga e
afasta toda a agonia com um ruído teimoso e alto de escárnio.
Rick e os outros olham para Michonne. Hipnotizados pela reserva
repentina de energia dela, ficam parados, em silêncio, ao redor da mulher,
sem saber o que dizer ou fazer. Como vão tirá-la dali? Michonne parece
uma pessoa paraplégica lutando para sair da cadeira de rodas.
De uma só vez, ela fica de pé, alimentada por puro ódio agora,
fechando as mãos finas em punhos. Michonne engole toda a dor e olha ao
redor do cômodo. Então olha para Rick, e sua voz adquire o tom de
gramofone tocando um disco arranhado:
— Vamos sair daqui, porra.
O grupo não chega muito longe. Mal saem do subporão e sobem um único
lance de escadas, aproximando-se do fim do corredor principal — Michonne
na liderança agora — quando a mulher negra subitamente ergue a mão com
um gesto de cautela.
— Parem! Alguém está vindo.
Os outros congelam, aglomerados atrás dela. Martinez abre caminho
entre os outros e vai para o lado de Michonne, sussurrando no ouvido dela:
— Deixe comigo. As pessoas ainda não sabem o que estou fazendo...
vou impedir que vejam vocês.
De uma esquina, uma sombra cresce, passadas se aproximam.
Martinez sai para a fonte de luz que ilumina a esquina.
— Martinez? — O Dr. Stevens recua sobressaltado quando vê o
homem de bandana. — O que está fazendo aqui embaixo?
— Hã, doutor... nós íamos buscar você.
— Algum problema?
Martinez lança um olhar severo ao médico.
— Nós estamos saindo daqui... desta cidade. Queremos que venha
junto.
— O quê? — Stevens pisca e inclina a cabeça para tentar absorver o
que ouve. — Quem somos nós?
Martinez olha por cima do ombro, então gesticula para que os outros
se aproximem. O médico encara. Rick, Michonne, Glenn e, por fim, Alice
saem timidamente das sombras e ficam parados sob a luz forte da
lâmpada. Todos encaram o médico, que os encara de volta, processando
aquilo tudo com uma expressão sombria no rosto.
— Ei, doutor — diz Rick, por fim. — O que acha? Está com a gente ou
não?
A expressão no rosto do médico passa por uma transformação súbita.
Os olhos dele se semicerram atrás dos óculos de aro de metal, e seus
lábios se contraem pensativamente por um momento. Ele parece, apenas
por um instante, que está diagnosticando um conjunto de sintomas
particularmente complexo.
Então responde:
— Só preciso pegar alguns suprimentos da enfermaria, então podemos
ir. — O médico dá ao grupo o sorriso irônico que é sua marca registrada. —
Não vai levar nem um minuto.
Do lado de fora dos portões em ruínas da arena, o grupo corre pelo
estacionamento, evitando os olhares dos cidadãos errantes que vagueiam
pelas ruas secundárias.
O céu da noite se abre acima deles — uma multidão de estrelas
ocultada pelos fiapos de nuvens e nenhuma lua à vista. O grupo se move
em fila única, rápido, mas não tanto a ponto de fazer barulho ou atrair
atenção indesejada, ou de dar a entender que estão fugindo. Alguns dos
pedestres vão até eles. Ninguém reconhece os estranhos — Rick e Glenn —,
mas alguns dão meia-volta quando veem a mulher de dreadlocks. Martinez
os mantém em movimento.
Um após o outro, eles pulam o corrimão do lado oeste da arena e
atravessam um estacionamento vazio, dirigindo-se para a rua principal. O
médico está na retaguarda, agarrado à bolsa de suprimentos médicos.
— Qual é o caminho mais rápido para fora daqui? — pergunta Rick, já
ofegante e respirando com dificuldade conforme ele e Martinez param para
tomar fôlego às sombras do prédio comercial. Os outros seguem atrás.
— Por aqui. — Martinez indica a calçada deserta do outro lado da rua.
— Apenas continuem seguindo, vou tirar a gente daqui.
O grupo dispara pela rua e então mergulha nas sombras da calçada
desocupada. O passeio se estende por pelo menos quatro quarteirões a
oeste, passando por baixo de toldos e marquises, envolto em escuridão.
Eles correm em fila única pelas sombras.
— Quanto menos ficarmos expostos assim, melhor — comenta
Martinez aos sussurros para Rick. — Só precisamos chegar a um beco,
então passar por cima de uma dessas cercas. Não são tão vigiadas quanto
o portão da frente. Não deve ser difícil.
Cruzam mais metade de um quarteirão quando o som de uma voz
dispara:
— DOUTOR!
Isso faz com que todos percam o ritmo e erice os pelos da nuca de
Martinez. Todos cambaleiam e param. Martinez se vira e vê uma figura não
identificada dobrando a esquina de um prédio atrás deles.
Rápida e instintivamente, sem mesmo olhar, Martinez leva a ponta do
dedo para o gatilho — pronto para qualquer coisa.
Um nanossegundo depois, Martinez exala um suspiro momentâneo de alívio,
soltando a pressão sobre o gatilho ao ver uma das matronas da cidade se
aproximar.
— Dr. Stevens! — grita a mulher, com a voz fraca pela subnutrição.
Stevens se vira.
— Ah, olá, Sra. Williams. — Ele acena breve e nervosamente para a
dona de casa de meia-idade que se aproxima. Os outros deslizam para
dentro das sombras, para fora da linha de visão da mulher. O médico
bloqueia o caminho dela. — Em que posso ajudar?
— Desculpe incomodar você assim — diz ela, apressando-se até o
médico. Com um vestido simples, sem corte e surrado, os cabelos
curtinhos, a mulher ergue o rosto para ele com os olhos enormes e
oprimidos. A espessura do tronco e a pele flácida em seu rosto traem a
beleza jovial que ela teve um dia. — Meu filho, Matthew, está levemente
febril.
— Ah... um...
— Tenho certeza de que não é nada, mas não quero arriscar.
— Entendo.
— Você tem tempo mais tarde?
— É claro. Eu... eu só... um. — O médico gagueja, e isso deixa
Martinez ensandecido. Por que simplesmente não se livra da mulher, porra?
Stevens pigarreia. — Só... hã... leve o menino ao consultório mais tarde
hoje... se puder... eu o verei então. Eu... me certificarei de encaixá-lo.
— Claro, eu... Você está bem, Dr. Stevens? — Ela olha para os outros
espreitando nas sombras atrás de Stevens, então dá um olhar confuso para
o médico com aqueles olhos enormes e tristes. — Parece chateado.
— Estou bem, de verdade. — Ele se agarra mais forte à bolsa na
altura do peito. — Eu só... estou no meio de uma coisa agora.
O médico começa a se afastar da mulher, o que lança uma onda de
alívio para o estômago de Martinez.
— Não quero ser grosseiro — diz Stevens para a mulher —, mas
preciso ir. Desculpe. — O médico se vira e se junta aos demais.
Martinez lidera o grupo por uma esquina e para na beira da calçada por
um momento, a adrenalina irrompendo. Por um breve instante, considera
deixar Stevens e Alice. Os dois sabem demais e têm laços muito fortes
com a comunidade — poderiam ser um enorme risco. Pior do que isso,
podem conhecer Martinez ligeiramente bem demais. Poderiam com
facilidade enxergar além daquela farsa. Talvez já o tenham feito. Talvez só
estejam encenando.
— Doutor? — Alice vai até Stevens e apoia a mão no ombro dele.
Esfregando o rosto, o médico parece deprimido. Alice fala baixinho: — O
filho daquela mulher...?
— Não posso pensar nisso agora — murmura o médico. — É muito...
não posso. Precisamos sair daqui, talvez não tenhamos outra chance. — Ele
toma fôlego e se recompõe, olhando para baixo, sacudindo a cabeça. —
Essas pessoas... simplesmente terão de se virar sem nós.
Alice olha para ele.
— Você está certo. Eu sei. Vai ficar tudo bem.
— Ei! — cicia Martinez com urgência para os dois. — Parem, não
temos tempo para isso agora!
Ele coloca o grupo em movimento de novo — por um calçadão,
atravessando mais uma rua e então até uma rua lateral, indo na direção da
entrada de um beco, 180 metros ao sul.
O silêncio que recaiu sobre a cidade incomoda Martinez. Ele consegue
ouvir o zunido dos geradores, o farfalhar dos galhos contra a parede. Os
passos do grupo parecem tiros de pistola aos ouvidos dele, a batida do
coração de Martinez é alta o bastante para guiar uma banda marcial.
Ele apressa o passo. Os pedestres sumiram. Estão sozinhos agora.
Martinez acelera o passo de um trote para uma corrida, os outros têm
dificuldades em acompanhar. Um momento mais tarde, ouve aquela que se
chama Michonne fazer um comentário esquisito para alguém atrás de si.
— Pare de me olhar assim — diz ela, entre respirações pesadas
conforme corre. — Não se preocupe comigo.
A voz de Glenn é quase inaudível por cima do barulho dos passos
agitados de todos e das respirações ofegantes.
— Está bem... desculpe.
— Falem baixo!
Martinez chia baixinho para eles por cima do ombro à medida que se
aproximam da entrada do beco. Ao erguer a mão enluvada, ele para o grupo
e então os leva para além da esquina de um prédio adjacente, para dentro
da escuridão coberta de lixo.
O beco está envolto em sombras densas, grudento com o fedor de
latas de lixo alinhadas na parede, uma lâmpada solitária de emergência está
piscando ao fundo, fornecendo a única iluminação. As batidas do coração de
Martinez aumentam. Ele rapidamente vasculha a área. Martinez vê a
sentinela na ponta do beco.
— Certo... esperem aqui um minuto — diz ele aos demais. — Volto
logo.
Agora Martinez encara outra grande encenação — um papel dentro de
um papel dentro de um papel — quando funga para acalmar os nervos e
segue na direção dos fundos do beco. Martinez vê o jovem marginal na
plataforma levadiça a uns 30 metros de distância, de costas, uma AK nos
braços enquanto olha por cima de uma barricada temporária de painéis de
aço unidos por rebites.
Do outro lado da barricada estão os limites escuros da cidade e a
liberdade.
— Ei... ei, garoto! — Martinez se aproxima da sentinela com um aceno
amigável. Ele mantém a voz casual, mas autoritária, como se ordenasse a
um gato de estimação que saísse da mesa de jantar. — Vou substituir
você!
O garoto se encolhe sobressaltado, então se vira e olha para baixo.
Mal saído da adolescência, com o corpo desengonçado coberto por
acessórios de hip-hop, um arco de cabelo sobre os cachos estilo Jheri, ele
quase parece que está brincando de polícia e ladrão na plataforma. Também
parece um pouco chapado e mais do que um pouco paranoico.
Martinez se aproxima.
— Me entregue esse rifle e vá embora. Vou cobrir o restante do seu
turno.
O garoto dá de ombros e começa a descer.
— Claro, cara... tanto faz. — Ele salta para a calçada. — Mas, hã... por
que está fazendo isso? Precisa de mim em algum outro lugar ou algo
assim?
Martinez pega a AK nos braços do garoto, mais uma vez com aquele
tom de voz amoroso, mas rígido de dono de animal.
— Não me faça perguntas. Estou fazendo um favor a você aqui.
Entregue a arma, agradeça... e aproveite a folga.
O garoto o encara e entrega a arma de fogo.
— Hã... claro.
O garoto vai embora, dirigindo-se para a entrada do beco, murmurando
consigo mesmo.
— Tanto faz... tanto faz, cara... é seu espetáculo... só trabalho aqui.
***
Os outros se agrupam atrás do edifício adjacente até que a sentinela tenha
saído do beco e adentrado a noite, murmurando uma versão desafinada de
alguma música de rap desconhecida. Eles esperam até que o garoto
desapareça ao dobrar a esquina. Rick, então, acena com a cabeça para
Glenn, e o grupo sai para o beco — um a um — atravessando rapidamente
a extensão da calçada escura, fedorenta e suja de lixo.
Martinez os espera na plataforma levadiça, olhando para baixo com um
fervor profissional.
— Vamos! — Ele gesticula para que se aproximem. — Atravessamos
estas paredes e estamos fora de perigo.
O grupo se reúne na base da barricada.
Martinez olha para eles.
— Isso funcionou melhor do que pensei... mas ainda precisamos
correr. Um dos panacas do Governador ainda pode passar a qualquer
minuto.
Segurando o coto, Rick ergue o rosto para ele.
— Certo, certo... e você acha que não temos pressa de sair daqui?
Martinez consegue dar um sorriso tenso.
— É, acho que entendo o que quer dizer.
Atrás de Rick, uma voz murmura algo que Martinez não entende a
princípio.
Rick para, se vira e olha para Michonne. Glenn faz o mesmo. Na
verdade, todos se viram e olham para a mulher negra, que está parada nas
sombras, parecendo sinistra e indiferente enquanto encara a noite.
— Não vou embora ainda — murmura ela, em uma voz tão fria e
determinada que poderia ser uma declaração de nome, patente e número de
série.
— O quê?! — Glenn a encara boquiaberto. — O que está dizendo?
Michonne encara o jovem com olhos escuros e sem fundo. A voz dela
é tão contida quanto a de um clérigo proferindo as escrituras sagradas.
— Vou visitar o Governador.
Dezesseis
O silêncio que se segue à declaração de Michonne parece manter o grupo
inteiro atento por momentos intermináveis, as implicações do
pronunciamento se espalhando de pessoa a pessoa, de olhar desconfortável
a olhar desconfortável, como uma doença transmitida por contato visual.
Não precisa ser dito o que ela tem em mente para Philip Blake — embora
ninguém ouse ponderar a respeito das especificidades —, e essa é a parte
que atinge as pessoas primeiro. Mas conforme o silêncio se prolonga e se
torna desconfortável naquele beco fedido e escuro, fica claro para Martinez,
olhando para essa transação do alto da plataforma levadiça, que a trajetória
irrefreável de Michonne indica algo mais sombrio do que pura vingança.
Nessa nova época brutal, o ato de vingança — apesar de um instinto mais
baixo e mais básico ao longo do curso normal dos eventos humanos —
parece assumir uma inevitabilidade apocalíptica, tão natural quanto atirar na
cabeça de um cadáver ambulante ou assistir a um ente querido se
transformar em monstro. Apêndices infeccionados são rapidamente
amputados e cauterizados nessa nova sociedade terrível. Pessoas más não
são mais uma coisa das lendas e dos programas de investigação forense.
Nesse novo mundo, são como gado doente que simplesmente precisa ser
separado do rebanho. São partes defeituosas que precisam ser substituídas.
Ninguém de pé à muralha naquela noite poderia culpar ou mesmo se
surpreender com a decisão repentina e inexorável de Michonne de dar meiavolta
e encontrar a célula cancerosa que apodrece naquela cidade — o
homem que a violou —, mas isso não torna a coisa mais fácil de
testemunhar.
— Michonne, não acho que... — Rick começa a se opor.
— Eu alcanço vocês — diz ela, interrompendo-o. — Ou não.
— Michonne...
— Não posso partir sem fazer isso. — Ela perfura os olhos de Rick
com o olhar. — Vão em frente. — Então Michonne se vira e olha para Alice.
— Onde ele mora?
Naquele momento, do outro lado da cidade, ninguém repara em duas figuras
deslizando para as entranhas escuras de um beco logo além da curva em S
da rua Durand — o mais longe possível da comoção da pista de corrida e do
distrito comercial central, ainda dentro da zona de segurança. Nenhum vigia
vagueia tão longe ao sul da rua principal, e as cercas mais externas de
arame de concertina mantêm os Mordedores errantes afastados.
Vestidos em jeans, com rolos de cobertores debaixo dos braços, os
dois se movem lado a lado, mantendo-se abaixados. Um deles carrega uma
grande sacola de lona com alça sobre o ombro, o conteúdo da bolsa
tilintando baixinho a cada tranco. No fim do beco, eles se espremem para
passar por uma fenda estreita entre a cabine de um caminhão de carga
leve e um vagão de trem.
— Onde diabo está me levando? — pergunta Lilly Caul, seguindo Austin
por um estacionamento vazio oculto na escuridão.
Austin dá uma risada maliciosa para ela.
— Você vai ver... confie em mim.
Lilly pula cuidadosamente uma trilha de plantas espinhentas e sente o
odor de putrefação que emana da floresta adjacente, cerca de 50 metros
além do perímetro externo. Os pelos da nuca de Lilly ficam eriçados. Austin
pega o braço dela e a ajuda a pular sobre a lenha caída até uma clareira.
— Cuidado onde pisa — diz ele, tratando Lilly com as luvas de pelica
de um futuro pai das antigas, o que, para Lilly, é ao mesmo tempo irritante
e meio adorável.
— Estou grávida, Austin, não inválida. — Ela o segue até o centro da
clareira. É um lugar reservado, abrigado por folhagens e galhos caídos. Há
uma cratera oca no chão, chamuscada e petrificada, onde algum visitante
anterior cavou um buraco para uma fogueira. — Onde aprendeu sobre
cuidados pré-natais? Em desenhos?
— Muito engraçado, espertinha... sente-se.
Dois troncos cortados de árvores antigas fornecem perfeitos — ainda
que não exatamente confortáveis — assentos para que um casal se sente e
converse. Os grilos fazem alarde ao redor enquanto Austin apoia a bolsa no
chão, então se senta ao lado de Lilly.
O céu acima deles brilha e pulsa com o tipo de paraíso estrelado que
só se vê em áreas rurais. As nuvens se dispersaram, e o ar — finalmente
— está livre do fedor dos errantes. Cheira a pinho e terra preta e noite
clara.
Lilly se sente pela primeira vez desde — bem, nem consegue se
lembrar —, como uma pessoa. Ela sente como se pudessem, de fato, ter
uma chance de fazer aquilo dar certo. Austin não é o pai dos sonhos e nem
o marido perfeito, até onde a imaginação alcança, mas tem uma faísca
dentro de si que comove o coração de Lilly. É uma boa alma, e isso basta
por enquanto. Os dois têm muitos desafios pela frente, muito para decidir,
muitos territórios perigosos por onde navegar. Mas Lilly acredita agora que
eles sobreviverão... juntos.
— Então, que ritual misterioso é esse para o qual você me arrastou
até aqui? — diz ela, por fim, erguendo o colarinho e alongando o pescoço
contraído. Os seios de Lilly estão doloridos, e o estômago andou
reclamando o dia todo. Mas, de um modo estranho, ela nunca se sentiu tão
bem.
— Meus irmãos e eu costumávamos fazer isso todo Halloween — diz
Austin, indicando a bolsa de lona. — Tivemos essa ideia quando estávamos
doidões, acho... mas faz sentido agora por algum motivo. — Ele olha para
Lilly. — Trouxe as coisas que pedi para trazer?
Ela assente para Austin.
— Sim. — Lilly dá um tapinha no bolso do casaco. — Estão bem aqui.
— Está bem... que bom. — Ele fica de pé, vai até a bolsa e abre o
zíper. — Costumávamos fazer uma fogueira para atirar as coisas... mas
acho que esta noite devemos evitar chamar atenção. — Ele pega uma pá,
vai até a cratera e começa a cavar. — Em vez disso, vamos simplesmente
enterrá-las.
Lilly pega algumas fotos que encontrou na carteira, uma bala de uma
das pistolas Ruger e um pequeno objeto enrolado em lenço de papel. Então
apoia o conjunto no colo.
— Está bem, pronta quando você estiver, bonitinho.
Austin apoia a pá no chão, volta para a bolsa e pega uma garrafa
plástica de um litro e dois copos de papel. Ele serve um líquido escuro em
cada copo.
— Achei suco de uva... não queremos beber vinho na sua condição.
Lilly sorri.
— Você vai me enlouquecer com esse comportamento de mãe judia.
Austin ignora o comentário.
— Está bem aquecida? Precisa de outro cobertor?
Lilly suspira.
— Estou bem, Austin... Pelo amor de Deus, pare de se preocupar
comigo.
Austin entrega a ela um copo de suco e pega um saquinho de plástico
de dentro do bolso.
— Está bem, eu começo — diz ele. Dentro do Ziploc há 15 gramas de
maconha, um pequeno cachimbo de metal e alguns papéis de seda. Ele olha
desejoso para a parafernália e diz: — Está na hora de abandonar as coisas
infantis. — Austin ergue o copo. — Um brinde ao romance de uma vida
inteira com a maconha. — Ele olha para o saco. — Você me ajudou a
superar muitas merdas difíceis, mas está na hora de ir.
Austin atira a maconha no buraco.
Lilly ergue o copo.
— Um brinde à sobriedade... é uma merda, mas é para melhor.
Eles bebem.
— Não acredito que ela nos deixou assim — diz o jovem chamado Glenn,
depois de escalar a parede. Seu colete de proteção estala enquanto ele está
parado ao vento, na beira da plataforma levadiça, ajudando Alice a escalar a
muralha. A enfermeira tem dificuldade — não tem tanta força na parte
superior do corpo — e se impulsiona arduamente para a plataforma. Glenn
resmunga com esforço quando a puxa sobre o precipício. — Deveríamos
ajudar? Também não morro de amor por aquele cara.
Rick está na plataforma atrás de Glenn, observando Martinez estender
o braço para Stevens e puxar o médico pela lateral da barricada.
— Confie em mim, Glenn — diz Rick, baixinho —, nós provavelmente a
atrasaríamos. Nossa aposta mais segura é sair agora enquanto podemos.
O médico luta para subir a muralha e se joga na plataforma para se
juntar aos demais.
Martinez se certifica de que todos estão bem. Todos respiram fundo,
virando-se e olhando para a paisagem vasta do outro lado da muralha.
Conseguem ver o bosque vizinho por uma abertura estreita entre dois
prédios abandonados. O vento noturno faz voar lixo por ruas vazias de
terra, as ruínas aos pedaços das elevações da ferrovia a distância parecem
gigantes caídos. A lua subiu, cheia e alta — a lua de um lunático —, e a luz
leitosa coloca um ponto de exclamação em todas as reentrâncias escuras,
nas alcovas sombreadas e nas ravinas serpenteantes que poderiam abrigar
Mordedores.
Rick respira mais uma vez e dá um tapinha nas costas de Glenn para
confortá-lo.
— Michonne sabe se cuidar — diz ele, com a voz baixa. — Além disso,
tenho a impressão de que isso é algo que ela gostaria de fazer sozinha.
— Primeiro as damas — diz Martinez para Alice, indicando a borda da
plataforma.
Alice dá um passo hesitante em direção à beirada, enchendo os
pulmões de ar.
Martinez a ajuda a encontrar um apoio para os pés, então a desce até
o exterior da muralha.
— Pronto — diz ele, as mãos nas axilas de Alice. Martinez
acidentalmente roça na lateral dos seios dela. — Você está bem. Quase lá.
— Só tenha cuidado com essas mãos — diz Alice, raspando e
resmungando contra a lateral da muralha, até que finalmente salta para a
estrada de terra, erguendo uma pequena nuvem de poeira. Alice se agacha
instintivamente, olhando ao redor da zona de perigo, os olhos arregalados e
os pelos eriçados.
Martinez abaixa Glenn a seguir, depois o médico. Os dois homens
descem ao lado de Alice, na terra, levantando mais poeira. O silêncio é
quebrado pelas respirações pesadas e tensas — e pelo retumbar dos
corações deles nos ouvidos — conforme cada fugitivo se vira e verifica a
estrada escura à frente, que leva para fora da cidade e para dentro do
esquecimento escuro da noite.
O grupo ouve o farfalhar de Martinez descendo a muralha. O homem
alto cai com um estampido, as armas jogadas em suas costas chacoalham,
e, então, ele olha de volta para o parapeito.
— Está bem, Rick... vamos lá.
No alto da plataforma, Rick pressiona o coto enfaixado contra o
esterno.
— Isso não vai ser fácil — murmura ele. — Vocês me seguram?
— Nós seguramos você, irmão. — Martinez estende o braço para Rick.
— Apenas desça devagar.
Rick começa a abaixar o corpo desengonçadamente pelo exterior da
muralha com uma das mãos.
— Meu Deus — exclama Alice, observando. — Não o deixe cair. Tome
cuidado!
Martinez pega o homem de 80 quilos com um resmungo, abaixando-o
devagar até o chão. Rick expira dolorosamente e olha ao redor.
Do outro lado da clareira de terra, o Dr. Stevens está de pé às
sombras de uma fachada de loja abandonada, uma placa erodida pende por
um fio, com as palavras MCCALLUM RAÇÕES E SEMENTES. Ele emite um
suspiro de alívio e verifica se a bolsa está danificada. Os frascos de vidro
de antibióticos e analgésicos permanecem intactos, os instrumentos em
ordem.
— Ainda não acredito que saímos de lá tão facilmente — murmura ele,
verificando o restante do conteúdo da bolsa. — Quero dizer, a muralha não
serve exatamente para manter as pessoas dentro... mas...
Atrás do médico, uma sombra se move nas profundezas da entrada
aos pedaços da McCallum. Ninguém repara. Ninguém ouve os passos
desengonçados e arrastados que estalam, baixinho, detritos e tiras de
embalagem, movendo-se na direção das vozes deles.
— Estou tão aliviado — diz Stevens ao fechar a bolsa.
A figura emerge da porta — apenas um borrão de dentes, roupas em
frangalhos e pele manchada como a barriga de um peixe na escuridão — e
crava os dentes na carne humana mais próxima em seu caminho.
Às vezes a vítima sequer vê o que está vindo até que seja tarde demais, o
que é, talvez, em algum nível fundamental, o modo mais misericordioso de
as coisas ocorrerem.
A criatura que afunda os dentes na curva do pescoço exposto do Dr.
Stevens é enorme — provavelmente um antigo trabalhador do campo ou
atendente da loja. Um homem acostumado a carregar fardos de 30 quilos
de fertilizante ou ração de gado em caçambas de caminhão o dia inteiro,
todos os dias — e desce na jugular do médico com tanta firmeza que um
pé de cabra não soltaria seu maxilar. Vestido com macacão jeans mofado,
os cabelos parcos reduzidos a fiapos como teias no crânio branco com
veias delineadas, o cadáver tem olhos amarelos como chamas de um bico
piloto e emite um ruído aquoso e incompreensível, como uma tosse, ao
fincar os incisivos podres no tecido vivo.
O Dr. Stevens enrijece o corpo imediatamente, os braços se erguem,
os óculos são arrancados de seu rosto, a bolsa sai voando, um grito horrível
irrompe de dentro dele em um choque completamente involuntário. O
médico não consegue ver ou detectar o agente de seu sofrimento — apenas
o tom vermelho de agonia incandescente que desce sobre seu olhar.
A brusquidão do ataque pega todos de surpresa, o grupo se agita em
uníssono, pegando armas, recuando.
Alice solta um berro:
— DR. STEVENS!
E então vê o peso do Mordedor gigantesco, combinado com as
contorções e o cambaleio involuntário do médico, puxar Stevens para trás,
tirar seu equilíbrio e jogá-lo no chão.
Stevens cai em cima do agressor com um resmungo aquoso, o sangue
jorra e batiza o Mordedor gigante abaixo dele em uma torrente de fluido
preto e oleoso como melaço no escuro. Com a voz estrangulada,
indiscernível, o médico gagueja:
— O quê?... O que é? É...? É um deles? É...? É um Mordedor?
Os outros disparam na direção dele, mas Alice já pegou a AK da
sentinela, que pende da alça sobre o ombro de Martinez. Ela vocifera:
— ME DÊ ISSO!
— Ei! — Martinez não sabe o que está acontecendo, o puxão em seu
ombro vindo acompanhado por vozes gritando ao redor, e os outros homens
o empurrando para seguir adiante.
Alice já ergueu e mirou a AK, então puxa o gatilho — ainda bem que o
garoto na muralha mantém a arma engatilhada e municiada, o pino de
segurança removido o tempo todo —, e a arma ruge.
Um buquê de fogo faísca e brilha do cano curto quando as cápsulas
saem voando, e as rajadas acertam uma cadeia de buracos na têmpora do
Mordedor, na bochecha, na mandíbula, no ombro e na metade do tronco. A
coisa se contorce e remexe nos espasmos de morte abaixo do médico
ferido, e Alice continua atirando e atirando e atirando, até que o cartucho
emita um clique avisando que está vazio, e o ferrolho se abre — e ela
continua atirando.
— Está tudo bem... tudo bem, Alice.
O ruído baixo de uma voz masculina é a primeira coisa que penetra os
ouvidos zunindo e o cérebro traumatizado dela. A moça abaixa a arma e
percebe que o Dr. Stevens está se dirigindo a ela da pilha ensopada de
sangue de uma carroça fúnebre na qual ele está.
— Ah, meu Deus, doutor... DR. STEVENS! — Alice atira o rifle de
assalto no chão com um baque e vai até o médico.
Então fica de joelhos e toca o pescoço dele, molhando as pontas dos
dedos com o sangue arterial de Stevens enquanto procura a pulsação,
tentando se lembrar das aulas de primeiros-socorros que o médico lhe deu,
dos protocolos da unidade de traumas, quando percebe que Stevens puxa o
jaleco de Alice com os dedos sujos de sangue.
— Não estou... morrendo... Alice... pense nisso... cientificamente —
murmura ele pela boca cheia de sangue. Na escuridão, o rosto do médico
parece quase sereno. Os outros se juntam atrás de Alice e ouvem
atentamente. — Só estou... evoluindo... para outra... pior... forma de vida.
O horror se espalha de pessoa a pessoa pairando sobre ele enquanto
Alice luta contra as lágrimas e acaricia a bochecha de Stevens.
— Doutor...
— Ainda existirei, Alice... de alguma forma — murmura ele, em algo
que mal é um sussurro. — Leve os suprimentos, Alice... vai precisar deles...
para cuidar dessas pessoas. Use o que ensinei a você. Agora vá... vá... vá
embora.
Alice olha fixamente enquanto a vida do médico é drenada de dentro
dele, os olhos inteligentes de Stevens vão ficando vítreos, então vazios,
encarando o nada. Ela deixa a cabeça pender para a frente, mas nenhuma
lágrima sai. A desolação dentro de Alice não permite que lágrimas venham
naquele momento.
Martinez está parado ao lado dela, observando tudo isso com
intensidade nervosa. Um punhado de emoções contraditórias revira seu
estômago. Ele gosta dessas pessoas — do médico e de Alice —
independentemente do ódio delas pelo Governador, das traições mesquinhas,
dos planos e das fofocas e do sarcasmo e do desrespeito. Que Deus ajude
Martinez, mas ele gosta delas. Martinez sente uma proximidade estranha
com elas e, agora, está tateando no escuro.
Alice fica de pé, pega a bolsa de suprimentos médicos.
Martinez toca o ombro dela e diz baixinho:
— Precisamos ir.
Alice assente, não diz nada, encara os corpos.
— As pessoas na cidade acharão que os tiros foram apenas o vigia
matando Mordedores que se aproximaram demais da cerca — continua
Martinez, com a voz apressada e inexpressiva devido à tensão. Ele olha por
cima do ombro para os outros dois homens, que aguardam, parecendo
abalados. Martinez se volta para Alice. — Mas o som vai atrair mais
Mordedores e precisamos ter partido antes que cheguem aqui.
Ele olha para o rosto sem vida do médico, manchado com sangue,
congelado na morte.
— Eu... Ele era um bom amigo — acrescenta Martinez, por fim. —
Também sentirei saudade.
Alice dá um último aceno de cabeça, então se vira. Ela assente para
Martinez.
Sem mais uma palavra, Martinez pega a AK e gesticula com a mão
para os outros, então lidera os três sobreviventes até uma estrada lateral
— e na direção dos limites da cidade —, suas silhuetas são engolidas em
instantes pela escuridão absoluta, impiedosa, implacável.
— Droga, querida... coma! — O Governador se abaixa e se apoia sobre as
mãos e os joelhos no carpete de odor fétido da sala de estar, segurando um
pé humano decepado pelo dedão diante da menininha morta. A espada
japonesa está no chão, próxima, um tesouro, um talismã, um butim de
guerra que o Governador não tirou de vista desde o fiasco na pista de
corrida, cujas implicações agora são a coisa mais afastada de sua mente.
— Não está completamente fresco — diz ele, indicando o apêndice
acinzentado —, mas juro que esta coisa estava andando a menos de duas
horas.
O minúsculo cadáver dá um puxão na corrente a 45 centímetros da
mão do Governador. Ela emite mais um pequeno grunhido — uma
bonequinha falante quebrada — e afasta os olhos como vidro congelado da
guloseima.
— Vamos lá, Penny, não é tão ruim. — O Governador se aproxima e
agita o pé decepado e pingando diante dela. É bem grande, difícil dizer se é
de homem ou de mulher, os dedos são pequenos, mas naturais, não há
resquício de esmalte, e já começou a se tornar azul-esverdeado e enrijecer
com rigor mortis. — E só vai piorar se você não comer. Vamos, querida,
faça isso por...
Um enorme estampido faz o Governador recuar sobressaltado no chão.
— Que porra! — Ele se volta para a porta da frente, do outro lado do
cômodo.
Mais um estampido descomunal ecoa. O Governador fica de pé.
Um terceiro impacto na porta resulta em poeira de argamassa
escorrendo do portal e um leve ruído de rachadura na borda do ferrolho.
— Que diabo você quer?! — grita ele. — E não bata tão forte na
porcaria da minha porta!
O quarto impacto arranca o ferrolho e a corrente, a porta se
escancara tão forte que bate na parede adjacente em uma explosão de
estilhaços e poeira, a maçaneta se enterra na madeira como uma bucha.
A inércia leva o intruso para dentro do cômodo como um redemoinho.
O Governador fica tenso no meio da sala — os punhos fechados e
erguidos, os dentes trincados em uma encenação do instinto de lutar ou
correr. Ele parece ver um fantasma se materializar ao lado do sofá de
segunda mão.
Michonne entra aos tropeços no apartamento, quase caindo de cara
devido a todo o impulso para a frente.
Ela desliza e para a menos de 1 metro do alvo de sua missão.
Recuperando o equilíbrio, Michonne estica os ombros, com os punhos
também fechados, os pés plantados firmemente agora, a cabeça inclinada
para a frente em uma postura ofensiva.
Por brevíssimos instantes, eles ficam parados se encarando. Michonne
se recompôs a caminho dali — o macacão esticado, a blusa para dentro, a
faixa de cabelo amarrada ao redor das tranças fartas —, a ponto de parecer
pronta para começar um dia de trabalho ou, possivelmente, ir a um funeral.
Depois de uma pausa insuportável — os dois combatentes encarando-se
com uma intensidade quase patológica —, o primeiro som emitido vem do
Governador.
— Ora, ora. — A voz dele é baixa, inexpressiva, fria, nenhuma
perturbação ou emoção. — Isso vai ser interessante.
Dezessete
— Minha vez — diz Lilly, a voz quase inaudível acima do canto dos grilos e
da brisa que chacoalha os galhos ao redor da clareira escura. Ela encontra
uma foto tirada com uma câmera descartável, Megan e ela em um bar em
Myrtle Beach, as duas completamente chapadas, os olhos turvos e
vermelhos como brasa. Lilly fica de pé e vai até o buraco no chão. — Um
brinde à minha melhor amiga, minha garota, minha velha amiga Megan, que
descanse em paz.
A fotografia flutua e cai como uma folha morta no buraco.
— À Megan — diz Austin, e toma mais um gole do suco açucarado. —
Tudo bem... a seguir... meus irmãos. — Ele pega uma gaita pequena e
enferrujada do bolso. — Eu gostaria de brindar a meus irmãos, John e
Tommy Ballard, que foram mortos por errantes em Atlanta no ano passado.
Austin atira a gaita no buraco. O pequeno instrumento de metal tilinta
e quica no chão duro. Austin abaixa o olhar para ele, os olhos distantes e
brilhantes.
— Ótimos músicos, caras legais... espero que estejam em um lugar
melhor agora.
Austin limpa os olhos quando Lilly ergue o copo e fala, baixinho:
— A John e Tommy.
Cada um toma outro gole.
— O meu próximo é um pouco estranho — diz Lilly, ao encontrar a
pequena cápsula de calibre .22 e a erguer entre o dedão e o indicador. O
latão brilha ao luar. — Estamos cercados por morte, todo dia; a morte está
em toda parte — diz ela. — E eu gostaria de enterrá-la, porra... sei que não
muda nada, mas só quero fazer isso. Pelo bebê. Por Woodbury.
Lilly atira a bala no buraco.
Austin encara a pequena cápsula de metal por um momento, então
murmura:
— Por nosso bebê.
Lilly ergue o copo.
— Por nosso bebê... e pelo futuro. — Ela pensa por um momento. — E
pela espécie humana.
Os dois encaram a bala.
— Em nome do Espírito Santo — diz Lilly, bem baixinho, encarando o
buraco no chão.
Uma luta — do tipo espontâneo, mano a mano — acontece de muitos jeitos.
No oriente, o negócio das lutas é zen, é estudado, controlado, acadêmico;
os oponentes costumam se atacar com anos de treinamento nos currículos,
um tipo de precisão matemática. Na Ásia, o oponente mais fraco aprende a
usar as forças do adversário contra ele, a agressão é resolvida
rapidamente. Do outro lado do espectro, em ringues competitivos ao redor
do mundo, batalhas de estilo livre podem durar horas, com muitos rounds, o
resultado final depende da resistência física de cada pugilista.
Um terceiro tipo de luta ocorre nos becos escuros das cidades norteamericanas,
durante o qual os oponentes entram em um tipo totalmente
diferente de batalha. Rápida e brutal e imprevisível — às vezes esquisita —,
a luta de rua comum costuma terminar em segundos. Lutadores de rua têm
uma tendência a atirar golpes uns contra os outros, caoticamente,
impulsionados pelo ódio, e a balbúrdia toda costuma terminar em empate...
ou pior, com alguém finalmente sacando uma faca ou uma arma de fogo
para dar às coisas uma conclusão rápida e mortal.
A batalha que ocorre na sala de estar fétida e mal iluminada do
Governador naquela noite abarca todos os três estilos e dura um total de 87
segundos — dos quais os cinco primeiros envolvem muito pouca luta de
fato. Começa com os dois oponentes plantados onde estão, encarando um
ao outro.
Muita informação não verbal é trocada durante esses primeiros cinco
segundos. Michonne mantém o olhar colado no do Governador, e o
Governador a encara de volta — nenhum dos adversários sequer pisca para
o outro — e o cômodo parece se cristalizar em um diorama preso no gelo.
Então, por volta do segundo de número três, o Governador desvia o
olhar por uma fração de segundo para o chão do seu lado direito.
Ele repara na criança e na espada, cada uma a seu alcance. Penny
parece alheia ao drama humano que se desdobra ao seu redor, o rosto lívido
e esbranquiçado enterrado no balde de entranhas. A espada reluz sob a
iluminação fraca de uma lâmpada incandescente.
O Governador tenta ao máximo, no curso daquela fração de segundo,
não exibir nenhum pânico ou qualquer preocupação exterior pela segurança
de sua garotinha morta, nem a ideia que se forma em sua mente — o
cérebro humano pode formular noções complexas no mínimo espaço de
tempo, menos tempo do que leva para que uma sinapse seja disparada —,
de que talvez consiga agarrar a espada e concluir a questão rapidamente.
No espaço daquele único segundo — o terceiro em uma série de 87 —
Michonne também desvia o próprio olhar na direção da garota e da katana.
No segundo número quatro o Governador volta o olhar para o olhar
incandescente de Michonne. Nesse tempo, ela também já voltou os olhos
para o Governador.
Na duração do próximo segundo e meio — o número quatro e uma
porção do número cinco —, os dois inimigos interpretam o olhar um do
outro.
O Governador agora sabe que ela sabe o que ele está pensando, e
Michonne sabe que ele sabe, e no meio segundo seguinte — o restante do
número cinco — é o fim de uma contagem regressiva. As máquinas entram
em ação, e a coisa explode.
Leva seis segundos para que a fase seguinte do encontro se desdobre.
O Governador mergulha na direção da espada, e Michonne emite um
grito retumbante de “NÃO!”, e, quando o ombro do Governador atinge o
carpete a menos de 1 metro da lâmina, a mão estendida dele se
aproximando da adjacência daquele magnífico punho com a gravação
escamosa de serpente, Michonne também já se aproximou com a
instantaneidade de um trovão.
Ela instintivamente desfere o primeiro golpe do conflito no segundo
número 11. A perna de Michonne sobe e chuta o Governador. A ponta dura
da bota da mulher acerta a lateral do rosto dele abaixo da têmpora, no
momento em que o Governador segura o cabo da espada.
O estalo nauseante de couro duro fraturando uma mandíbula humana
preenche o cômodo — um som pouco diferente de um talo de aipo se
partindo —, e o Governador se encolhe para trás em agonia, um filete de
sangue escorrendo da boca. Ele cai de costas, a espada intocada.
Os oito segundos seguintes são uma confusão de movimentos
explosivos e quietude repentina. Michonne se aproveita do estupor inebriado
pelo golpe no Governador — ele conseguiu se virar e ficar sobre os
cotovelos e os joelhos agora, o rosto escorrendo sangue por todo o lugar, os
pulmões pesando — e dispara rapidamente na direção da espada caída. Ela
a pega e gira de volta em menos de três segundos, então passa os quatro
segundos seguintes recuperando o fôlego e se preparando para desferir o
golpe fatal.
A essa altura, exatamente 19 segundos se passaram, e parece que
Michonne tem a vantagem. Penny ergueu o rosto da refeição e grunhidos
baixos são disparados para os dois adversários. O Governador consegue
ficar sobre os joelhos bambos.
O rosto dele, sem que o Governador tenha noção, exibe uma expressão
de pura e inalterada sede de sangue, sua mente é uma tela de TV ao final
de um dia de programação — uma parede vazia murmurando ruído branco
—, bloqueando todo pensamento externo a não ser matar aquela porra de
vaca naquele mesmo instante. O Governador instintivamente abaixa o
centro de gravidade, como uma cobra se encolhe antes de atacar.
Ele consegue ver a espada na mão da mulher como um bastão mágico
que absorve toda a energia do cômodo. Sangue e baba pingam da boca do
Governador. Michonne está de pé a apenas 1,5 metro dele agora, com a
espada erguida. Já se passaram 27 segundos. Um golpe bem desferido com
aquela ponta chanfrada da lâmina e tudo estará terminado, mas isso sequer
perturba o Governador agora.
Aos trinta segundos ele ataca.
A manobra seguinte de Michonne dura um total de três segundos. Um,
ela permite que ele fique a centímetros de distância, dois, ela desfere um
de seus chutes na virilha que são marca registrada, três, o golpe imobiliza
o Governador. A essa proximidade, o bico reforçado com aço da bota de
cano alto de Michonne acerta com resultados tão intensos que o Governador
literalmente se dobra ao meio, todo o fôlego é forçado para fora dele, a
mistura de sangue, coriza e saliva na boca do homem é atirada para fora
em um borrifo pelo chão. O Governador emite um murmúrio confuso e cai
de joelhos diante de Michonne, arquejando por fôlego, a dor é como se um
aríete o esmagasse no estômago. O homem agita os braços por um
momento, como se tentasse se agarrar a alguma coisa, então cai sobre as
mãos e os joelhos.
Vômito de sangue jorra para fora dele, encharcando o carpete aos pés
de Michonne.
Aos quarenta segundos, as coisas se acalmam. O Governador pragueja
e tosse e tenta se recompor no chão. Ele consegue sentir Michonne de pé
sobre si, olhando para baixo com aquela calma esquisita no rosto. Ele
consegue sentir quando ela ergue a lâmina. O Governador engole o gosto
amargo de bile na garganta e fecha os olhos, então espera pelo sussurro da
lâmina forjada à mão beijar sua nuca e acabar com aquilo tudo. É isso. Ele
espera para morrer naquele chão como um cachorro açoitado. Então abre os
olhos.
Michonne hesita. Ele ouve a voz dela, suave e tranquila e fria como a
de um gato ronronando:
— Não queria que fosse tão rápido.
Cinquenta segundos.
— Não quero que tenha terminado — diz ela, parada acima do
Governador, a lâmina oscilando.
Cinquenta e cinco segundos.
Bem no fundo da mente do Governador, uma fagulha se acende. Ele
tem uma chance. Uma última oportunidade contra ela. Ele finge tossir de
novo e não olha para cima, tosse de novo, mas, tão sutilmente, o
Governador pisca e olha para os pés de Michonne — para aquelas botas
com biqueira de aço afastadas à distância de um ombro diante dele — a
apenas centímetros de suas mãos.
Uma última chance.
No sexagésimo segundo, o Governador agarra a parte inferior do corpo
de Michonne. Surpreendida, a mulher cambaleia para trás.
O Governador cai sobre ela como um amante, a espada dispara pelo
chão. O impacto deixa Michonne sem ar. O Governador consegue sentir o
cheiro almiscarado dela — suor e cravos e o toque acobreado de sangue
seco — conforme Michonne se contorce abaixo dele, a espada está a
apenas 45 centímetros dela no carpete. O brilho da lâmina chama a atenção
do Governador.
No segundo número 65, ele tenta pegar a espada, estende a mão para
o cabo. Mas antes que tenha a chance de tocá-la, os dentes de Michonne se
enterram na carne do ombro do Governador, na base do pescoço, e ela
morde com tanta força que seus dentes perfuram a pele e camadas de
tecido subcutâneo e, por fim, chegam ao músculo.
A dor lancinante é tão repentina e enorme e afiada que o homem grita
como uma menininha. Ele rola para longe de Michonne — movendo-se por
instinto agora — segurando o pescoço e sentindo a umidade escorrer entre
os dedos. Michonne recua e cospe um punhado de tecido, o sangue escorre
pela frente do corpo dela em córregos espessos.
— Por... PORRA! VACA!
O Governador consegue se sentar, estancando o fluxo de sangue com
a mão. Não lhe ocorre que a mulher pode muito bem ter perfurado sua
jugular e ele já seja um homem morto. Não ocorre a ele que Michonne
dispara para a espada. Sequer lhe ocorre que a mulher se ergue sobre ele
de novo.
Tudo em que o Governador consegue pensar naquele momento — aos
73 segundos da luta — é parar o sangue que escorre de seu pescoço.
Setenta e cinco segundos.
O Governador engole o gosto metálico na boca e tenta enxergar
através dos olhos cheios d’água conforme o sangue encharca o carpete
velho.
Aos 76 segundos, ele ouve ruídos de inalação quando a oponente
respira fundo e se levanta sobre ele de novo, murmurando algo que parece
um pouco com “Tenho uma ideia melhor”.
O primeiro golpe do cabo cego da espada acerta o crânio dele acima
do osso do nariz. Faz um ruído alto de estalo no ouvido do Governador — a
violência de um taco de beisebol Louisville Slugger acertando o ponto exato
de uma bola difícil — e o prende ao chão.
Com os ouvidos zunindo, a visão embaçada, dor angustiante, o homem
faz uma última tentativa de agarrar os tornozelos de Michonne quando o
cabo duro como ferro desce de novo.
Depois de 83 segundos de confronto, o Governador desaba, uma
sombra escura ofusca sua visão. O golpe final contra o crânio dele chega
aos 86 segundos, mas o Governador mal sente.
Um segundo depois, tudo fica completamente escuro, e ele está
flutuando no espaço.
Na escuridão iluminada pelo luar da clareira, no silêncio farfalhante da noite,
Lilly cuidadosamente desembrulha o último objeto a ser jogado na boca da
cratera de fogueira. Do tamanho de um caroço de pêssego, está aninhado
em seu lenço. Ela olha para a coisa, uma única lágrima desce por sua
bochecha. Lilly se lembra de tudo que aquele pequeno nódulo significa para
ela. Josh Hamilton salvou sua vida. Josh foi um homem bom que não
merecia morrer como morreu, uma bala na nuca, disparada por um dos
brutamontes de Woodbury, o homem que chamavam de açougueiro.
Lilly e Josh viajaram muitos quilômetros juntos, aprenderam a
sobreviver juntos, sonharam com tempos melhores juntos. Um cozinheiro
gourmet, um chef executivo profissional, Josh Hamilton tinha de ser o único
homem que viajou pelas estradas do apocalipse com uma trufa negra
italiana no bolso. Ele raspava flocos daquela coisa para dar sabor a óleos e
sopas e pratos com carne. O sabor com toque de noz e terra era
indescritível.
A coisa no colo de Lilly ainda exala um aroma pungente, e ela se
inclina e dá uma fungada profunda. O odor preenche seus sentidos com
memórias de Josh, memórias de quando chegou a Woodbury, memórias de
vida e morte. Lágrimas enchem seus olhos. Lilly ainda tem um pouco de
suco de uva no copo e agora o levanta.
— A um velho amigo — diz ela. — Ele salvou minha vida mais de uma
vez.
Ao lado de Lilly, Josh inclina a cabeça, sentindo a importância do
momento, a mágoa sendo exorcizada. Ele segura firme o copo, próximo ao
peito.
— Espero que nos encontremos de novo algum dia — diz Lilly, e segue
até o buraco.
Ela atira o pequeno nódulo preto no buraco com os outros objetos
simbólicos.
— Amém — diz Austin, baixinho, e toma um gole. Ele vai até Lilly e
coloca o braço ao redor dela, e, por um momento, os dois ficam de pé ali,
na escuridão, encarando o amontoado de artefatos no buraco.
O zunido ambiente de grilos e do vento acompanha os pensamentos
silenciosos dos dois.
— Lilly?
— Sim?
Austin olha para ela.
— Já mencionei que amo você?
Ela sorri e continua olhando para o chão.
— Cale a boca e comece a cavar, bonitinho.
***
No vazio da noite absoluta — a escuridão no fundo das fossas Marianas —,
uma frase sem sentido flutua na escuridão opaca como um sinal
fantasmagórico, uma mensagem que não significa nada, um bipe de energia
elétrica codificada que estala através da tela mental de um homem ferido
com a intensidade de neon:
A COR DE MARACA!
O homem ferido não entende. Ele não consegue se mover. Não consegue
respirar. Fundiu-se com a escuridão. É uma bolha amorfa de carbono
flutuando no espaço... mas mesmo assim... mesmo assim... ainda sente a
presença dessa mensagem direcionada apenas a ele, um comando urgente
que não faz sentido algum:
A CORDA MATRACA!
De uma só vez, ele sente as leis físicas do universo retornando muito
devagar, como se estivesse em uma embarcação acertando o curso na
parte mais profunda do oceano, sentindo o peso da gravidade através de
névoas de dor paralisante, agindo sobre ele — primeiro no tronco, depois
nas extremidades —, uma sensação de puxão abaixo e em ambas as
laterais do corpo, como se as amarras que o mantêm prisioneiro naquele
tanque escuro de privação sensorial estivessem ficando apertadas.
O homem sente a existência do próprio rosto, grudento com sangue,
quente com inflamação, uma pressão na boca, uma sensação de ardência
nos olhos, que ainda não enxergam, mas começam a absorver uma luz
reluzente e nebulosa de algum lugar acima.
No fundo do cérebro, a mensagem de neon sendo transmitida
vagarosamente se torna clara, pelo som ou por algum outro meio telepático
rudimentar, e, quando a mensagem entra em foco hesitantemente — um
imperativo ríspido, encaixando-se como peças de um cubo enigmático —, a
psique fraturada do homem começa a computar o significado mais profundo
dela.
O comando irritado direcionado a ele dispara um alarme de aviso que
estraçalha a coragem do homem e enfraquece sua determinação. Todas as
defesas dele desabam. Todos os bloqueios em seu cérebro — todas as
paredes de concreto e divisórias e compartimentos — caem em ruínas...
até que ele não seja nada... nada além de um ser humano despedaçado
tateando no escuro, horrorizado, minúsculo, fetal... conforme as palavras
codificadas são vagarosamente decifradas em sua mente:
ACORDE, BABACA!
A voz vem de apenas centímetros de distância, uma voz feminina familiar,
áspera.
— Acorde, babaca!
Ele abre os olhos ressecados. Ai, Deus, ai, Deus, não, não, não — NÃO!
Uma voz no fundo do subconsciente do homem registra o horror e a
verdadeira natureza da situação: ele está amarrado às paredes da própria
sala de estar fétida, que agora serve como um reflexo perfeito da câmara
de tortura na qual ele manteve Michonne, logo abaixo da pista de corrida.
Uma única lâmpada de segurança no teto, em uma luminária de
alumínio, o ilumina. Michonne deve tê-la trazido. A parte superior do corpo
do Governador está açoitada e ferida, puxada tão intensamente pelas cordas
que os ombros dele estão quase deslocados. O restante do Governador —
que ele agora percebe, bastante horrorizado, estar completamente nu — se
apoia nas pernas dobradas sobre os joelhos e estranhamente abertas contra
um painel de madeira apressadamente pregado ao carpete abaixo dele. O
pênis do Governador dói, esticado em um ângulo estranho abaixo do corpo,
como se colado ao chão em uma poça de sangue coagulado. Um fio de baba
espessa, viscosa e sangrenta pende do lábio inferior dele.
A voz fraca como um miado bem dentro do Governador perfura o
barulho na mente dele: Estou com medo... ai, Deus, estou com medo...
CALE A BOCA!
Ele tenta afastar a voz. Está com a boca seca como uma mina de
calcário. Sente um gosto amargo de cobre, como se estivesse chupando
moedas. A cabeça do Governador parece pesar 500 quilos. Ele pisca e pisca,
tentando se concentrar no rosto sombreado diante de si.
Gradualmente, em ondas embaçadas como miragens, o rosto fino de
uma mulher de pele negra entra em foco — ela se agacha em frente ao
homem, a apenas centímetros de distância —, fuzilando-o com o olhar.
— Finalmente! — diz a mulher, com uma intensidade que o faz se
afastar sobressaltado. — Achei que nunca mais acordaria.
Vestida com macacão, arco de cabeça e tranças e botas, a mulher
apoia o braço nos quadris bem diante dele como uma técnica inspecionando
um aparelho defeituoso. Como ela fez aquilo, porra? Por que ninguém viu
aquela vaca espreitando a casa dele? Onde estão Gabe e Bruce, porra?
Onde está Penny, porra? O Governador tenta manter contato visual com a
mulher, mas tem dificuldade em segurar a cabeça de meia tonelada
erguida. Ele quer fechar os olhos e dormir. Sua cabeça oscila, e ele ouve
aquela voz terrível.
— Você desmaiou uma segunda vez quando preguei seu pau à tábua
sobre a qual está. Lembra-se disso? — A mulher inclina a cabeça
curiosamente para ele. — Não? Memória um pouco ferrada? Está me
acompanhando?
O Governador começa a hiperventilar, o coração se atirando contra o
peito. Ele sente a voz interior — em geral enterrada bem no fundo das
cavidades mais remotas de seu cérebro — gorgolejando até a superfície e
assumindo, dominando sua consciência: Ai, Deus, estou com tanto medo...
estou com medo... o que eu fiz? É Deus se vingando. Eu jamais deveria ter
feito as coisas que fiz... com essa mulher... com os outros... com Penny...
estou com tanto medo, droga... não consigo respirar... não quero morrer...
por favor, Deus, não quero morrer, por favor, não me faça morrer, não
quero morrer, ai, Deus, ai, Deus...
... CALE A PORRA DA BOCA!!...
Philip Blake silenciosamente vocifera com a voz em sua mente, a voz
de Brian Blake — seu eu mais fraco e mais sentimental — quando enrijece
o corpo e se contorce contra a corda. Uma pontada lancinante de dor atinge
seu tronco desde o pênis mutilado, e ele emite um arquejo inaudível por
trás da fita colada sobre a boca.
— Calma aí, cowboy! — A mulher sorri para ele. — Não me mexeria
tanto se fosse você.
O Governador deixa a cabeça oscilar e fecha os olhos, então exala
fracamente pelas narinas. A mordaça está apertada em sua boca, um
pedaço de fita prateada de 10 x 10 centímetros. Ele tenta gemer, mas
sequer consegue fazê-lo — suas cordas vocais estão estranguladas pela dor
e pela guerra que acontece dentro de si.
A parte “Brian” do Governador abre caminho de volta para a superfície
através das camadas... até que se insinua de novo no cérebro dele: Deus,
por favor... por favor... eu fiz coisas ruins eu sei, eu sei, mas não mereço
isso... não quero morrer assim... não quero morrer como um animal... neste
lugar escuro... estou com tanto medo que não quero morrer... por favor... eu
imploro... tenha misericórdia... vou implorar a esta mulher... vou implorar
por minha vida, por piedade, por minha vida, por favor, por favor, por favor,
por favor, por favor, por favor, por favor, AI DEUS, por favor, DEUS, por
favor...
Philip Blake se encolhe, o corpo convulsionando, a corda enterrando-se
em seus pulsos.
— Calma aí, amigo — diz a mulher para ele, o rosto marrom reluzente
quase sanguíneo à luz intermitente da lâmpada que oscila devagar. — Não
quero que desmaie de novo antes que eu tenha a chance de começar.
Os olhos se fecham, os pulmões explodem com fogo, o Governador
afoga a voz, engole-a de volta, enfia-a de volta nos convolutos obscuros do
cérebro. Ele silenciosamente urra para o outro eu: PARE COM A PORRA
DAS RECLAMAÇÕES, SEU BEBÊ FRACO, E OUÇA, OUÇA, OUÇA, OUÇA...
VOCÊ NÃO VAI IMPLORAR E NÃO VAI CHORAR COMO UMA PORRA DE
BEBÊ, PORRA, SEU BEBEZINHO!!!
A mulher interrompe o clamor:
— Fique calmo por um segundo... e pare de se contorcer... e ouça.
Você não precisa se preocupar com a garotinha...
Os olhos de Philip Blake se abrem à menção de Penny, e ele olha para
a mulher.
— ... eu a coloquei no quarto da frente, do lado de dentro, onde você
guardava toda essa tralha. O que está fazendo? Construindo uma jaula para
sua pequena escrava sexual? Por que a tem aqui? — A mulher contrai os
lábios pensativamente. — Aliás... nem responda. Nem quero saber.
Ela se levanta e fica de pé acima dele por um momento, então respira
fundo.
— Estou ansiosa para começar.
Agora, a tempestade devastadora no cérebro de Philip cessa
subitamente como se um fusível tivesse queimado. Ele ergue o rosto para a
mulher, sua visão periférica perdida — ela está totalmente concentrada nele
agora —, e Philip encara assustado quando a mulher se vira e caminha
lentamente pelo cômodo, movendo-se com um tipo de autoridade casual,
como se tivesse todo o tempo do mundo.
Por um único instante, Philip acha que ouve a mulher assobiando
baixinho conforme vai até uma sacola grande e manchada de graxa no chão,
no canto mais afastado do cômodo. Ela se abaixa e vasculha diversas
ferramentas.
— Começarei com um pouco de “mostre e conte” — murmura a
mulher, e tira um alicate da sacola. Ela fica de pé, se vira e exibe o alicate
para Philip como se pedindo um lance em um leilão. Qual é o lance de
abertura para este belíssimo alicate de titânio artesanal? A mulher o
encara. — “Mostre e conte” — reitera ela. — Vou usar tudo isso em você
antes que morra. Primeiro... este alicate excelente.
Philip Blake parece engolir ácido, então abaixa o rosto para a
plataforma de madeira ensopada de sangue.
Michonne coloca o alicate de volta na sacola, depois pega outra
ferramenta e mostra a ele.
— A seguir, um martelo. — Ela agita o martelo alegremente. — Já usei
esta belezinha em você um pouco.
Michonne coloca o martelo de volta e vasculha um pouco mais o
conteúdo da sacola enquanto Philip encara a plataforma manchada e tenta
levar ar aos pulmões.
— OLHE PARA MIM, FILHO DA PUTA! — O rugido dela atrai a atenção
de Philip de volta para o outro lado da sala. Michonne segura um aparelho
pequeno e cilíndrico com um cano de cobre. — Maçarico de acetileno — diz
ela, com uma espécie de expressão justiceira, a voz novamente calma. — E
parece quase cheio também. Isso é bom. Você usou para cozinhar. —
Michonne dá mais um sorriso gélido. — Eu também vou usar.
A cabeça de Philip Blake cai de novo, o ruído branco em seu cérebro
estala.
A mulher do outro lado da sala encontra mais um aparelho e o puxa da
sacola.
— Você vai gostar muito do que vou fazer com isto — diz ela,
segurando uma colher dobrada sob a luz para que Philip possa ver bem. A
concavidade da colher reluz na sala mal iluminada.
Tontura percorre o corpo do Governador, os pulsos dele latejam de dor.
Michonne vasculha a sacola em busca de mais um objeto e finalmente
o encontra.
Ela ergue o aparato para que Philip o veja.
— Furadeira elétrica — diz Michonne. — Deve tê-la carregado
recentemente... a bateria está cheia.
Ela caminha na direção do Governador apertando o gatilho da furadeira,
iniciando o motor. O ruído lembra o rilhar de um instrumento dentário.
— Acho que começaremos por ela.
É preciso cada último fragmento de força para que Philip Blake encare
a mulher nos olhos conforme a furadeira chia e, devagar, se aproxima da
parte mais resistente do ombro esquerdo dele, onde o braço se liga ao
tronco — o lugar onde moram todos os nervos.
Dezoito
Durante o curso normal do vaivém da vida diária de uma cidade pequena,
um grito abafado na madrugada escura da noite não apenas levantaria
suspeitas, mas também puro terror entre aqueles que cuidam da própria
vida, sonolentos, com as janelas abertas para deixar entrar a brisa
agradável de uma noite de primavera, ou cochilando no terceiro turno como
balconistas em lojas de conveniência 24 horas. Mas naquele momento, a
exatamente 1h33 da manhã, no horário padrão do leste, em Woodbury,
Geórgia, conforme as lamúrias emanam do segundo andar do prédio do
Governador, o ruído afogado e abafado por camadas de argamassa, concreto
e vidro — além da fita prateada que suprime os gritos —, o curso da vida
diária é tudo menos normal.
Os homens que trabalham no turno da noite nas muralhas ao norte, a
oeste e ao sul começaram a abandonar seus postos, perplexos com a
ausência do supervisor. Martinez não dá notícias há horas — um evento
bizarro que deixa a maioria dos vigias quebrando a cabeça. Bruce e Gabe já
descobriram a enfermaria deserta — o médico e Alice não se encontram
em lugar nenhum — e agora os dois homens discutem se incomodam ou
não o Governador com a notícia.
A calma esquisita na cidade também despertou Bob de um sono
inquieto e levou-o a lutar para ficar de pé e fazer uma caminhada ébria no
ar noturno para limpar a mente e entender por que as coisas parecem tão
estranhamente paradas e silenciosas. Na verdade, Bob Stookey pode ser o
único residente que de fato ouve os ruídos baixos de gritos naquele
momento. Ele cambaleia ao passar diante da fachada do prédio do
Governador quando os gritos agudos — mascarados pela mordaça de fita
prateada, tão baixos, porém distintos quanto um pássaro cantando sobre a
extensão escura de um lago parado — ecoam por detrás de uma das
janelas cobertas por tábuas. O som é tão bizarro e inesperado que Bob
acha que está imaginando — o álcool às vezes prega peças nele —, então
continua a caminhada oscilante pela calçada, alheio à importância dos
ruídos estranhos.
Mas nesse momento, dentro do referido prédio, no fim do corredor do
segundo andar, dentro da sala de estar sufocada do maior apartamento, à
luz amarelada de uma lâmpada pendente, que agora oscila levemente à
corrente de ar, não há nada imaginário a respeito da dor infligida a Philip
Blake. A dor é algo vivo, que respira — um predador —, mastigando o
homem com a ferocidade de um javali selvagem chafurdando em busca de
pepitas ensanguentadas no emaranhado de nervos entre o peitoral esquerdo
e os músculos deltoides do Governador.
A furadeira canta conforme a broca afunda cada vez mais no tecido
neural dele, jorrando sangue e partículas humanas no ar.
O grito de Philip — filtrado pela fita prateada, quase ao ponto de soar
como um alarme de carro desafinado — é constante agora. Michonne
empurra a broca giratória até a base, a névoa delicada de sangue é soprada
de volta no rosto dela. Philip emite um gemido feral — que soa um pouco
como “MMMMMMMMMMMMMMGGGHHHHH!!!” — conforme a furadeira zune
e chia. Michonne finalmente solta o gatilho e, sem cerimônia, arranca a
broca do miolo do ombro de Philip com um puxão violento.
O Governador estremece em agonia entre as duas cordas que estalam
ruidosamente a cada contorção.
Michonne deixa a furadeira cair no chão, sem se preocupar muito com
o bem-estar da ferramenta, rachando o exterior. Gavinhas de cartilagem e
matéria orgânica estão agarradas à broca em um emaranhado sangrento.
Michonne assente na direção da furadeira.
— Tudo bem — diz ela, falando mais consigo mesma do que com seu
alvo. — Vamos cuidar desse sangramento e nos certificar de que você fique
acordado.
Ela encontra o rolo de fita prateada, pega-o, puxa uma faixa, arranca
com os dentes e a enrosca ao redor do ombro ensanguentado e ferido com
muito pouco carinho. Michonne teria mais cuidado se estivesse decorando
um peru para o jantar de Ação de Graças. Ela fecha o ferimento como se
consertasse um cano vazando.
Enquanto isso, Philip Blake sente a cortina de escuridão se fechar
sobre o campo visual. Ele sente o mundo se separando como dois painéis
de vidro se abrindo debaixo d’água, formando uma imagem dupla que se
dissipa mais e mais, até que a cabeça dele oscile para a frente e o frio se
espalhe pelo corpo. Então Phillip misericordiosamente começa a desmaiar
de novo.
O tapa surge do nada, forte e rápido, na lateral do rosto.
— ACORDE!
Philip cambaleia para trás contra as cordas, os olhos tremeluzindo até
se abrirem para a visão aterrorizante da expressão determinada e perversa
da mulher negra. Ainda com as cicatrizes e as marcas roxas do açoite da
própria tortura, o rosto da mulher se enruga com desprezo, e ela fixa o
olhar furioso e irredutível no Governador. O sorriso dela é tal qual o de um
palhaço, com loucura e ódio.
— A última coisa que você quer fazer é desmaiar de novo — diz ela,
tranquilamente —, vai perder toda a diversão.
A seguir vem o alicate de ponta curva. A mulher o procura na sacola e
volta assobiando aquela melodia enlouquecedora que faz a pele do
Governador se arrepiar. Parece que uma colmeia de vespas zune nos
ouvidos dele. O homem fixa o olhar incandescente nas pontas afiadas
daquele alicate, e Michonne se abaixa e pega a mão direita dele, que pende,
inerte, do pulso amarrado. Assobiando distraidamente, ela, com cuidado,
segura o indicador de Philip entre o próprio polegar e o indicador, como se
estivesse prestes a fazer a unha dele.
É preciso algum esforço, mas Michonne arranca a unha do Governador
rapidamente, como se arranca um Band-Aid de um machucado. A dor
lancinante espirala pelo braço do homem, estrangulando-o, incendiando os
tendões de Philip como lava derretida. O rugido feroz que ele emite —
suprimido pela mordaça de fita — parece o de uma vaca sendo abatida.
Michonne segue para o dedo médio e arranca a unha. Sangue pinga e se
acumula. Philip começa a hiperventilar com agonia. Ela faz o terceiro dedo e
o mindinho por precaução.
— Essa mão está destruída agora — diz Michonne, tão indiferente
quanto uma manicure que oferece conselhos de beleza. Ela solta o alicate,
se vira e procura por algo do outro lado do cômodo. — Simplesmente
arruinada — murmura Michonne, ao encontrar a espada.
Ela volta e, com muita destreza — sem hesitar —, ergue o corpo
como um rebatedor da liga profissional de beisebol prestes a mirar a cerca
e desce a espada com força e rapidez na articulação do braço direito do
Governador, logo acima do cotovelo.
A primeira sensação que atinge Philip Blake — antes da dor
incandescente e insuportável — é um alívio de pressão quando a corda
oscila para longe com o braço arrancado preso a ela. O pênis de Philip se
solta da tábua e sangue jorra do coto em frangalhos quando o homem cai
de lado, agora solto da parede leste. Ele atinge o chão com força, olhando
para o que restou do braço direito com um horror incompreensível — bem
no centro dos olhos, nas pupilas, no miolo das íris, as aberturas se
fechando até parecerem cabeças de alfinetes que queimam como díodos —,
e emite um ruído grotesco por trás da mordaça de fita prateada, lembrando
um porco estrangulado.
O sangue o banha a essa altura, tornando a plataforma de madeira tão
viscosa quanto uma poça de óleo. Um frio profundo envolve Philip,
transformando sua carne em gelo.
— Não se preocupe — diz Michonne a ele, mas o homem mal
consegue ouvir uma palavra do que ela diz. — Tenho quase certeza de que
posso parar o sangramento. — Michonne tira um isqueiro Zippo do bolso. —
Onde está aquele maçarico?
Na passagem surreal de tempo antes que a mulher retorne com o
maçarico, deitado no chão sobre o próprio sangue, o frio irradiando por seu
corpo, Philip sente a outra voz bem no fundo de alguma cavidade enterrada
do cérebro, soluçando e engasgando na súplica angustiada: Deus, por favor,
não me deixe morrer assim... por favor... me salve... não deixe acabar...
assim não... não quero morrer ass...
BASTA!
BASTA!!
Bem no fundo da alma, Philip Blake supera um obstáculo, a revelação
percorre sua espinha e explode no cérebro.
Em câmera superlenta, Michonne se aproxima com o maçarico, acende
o bico com um WWWWHOOMP, mas a visão da mulher não mais perturba
Philip, não mais o alarma. Ela é o destino em duas pernas, e Philip encontra
sua verdadeira personalidade ali. Ele observa enquanto a mulher abaixa a
chama arqueada na direção do coto em frangalhos que é seu cotovelo. Philip
olha para ela com aquele único olho — espreitando entre mechas pendentes
dos cabelos oleosos — e tem a maior epifania da vida.
Está na hora, pensa ele, projetando os pensamentos para Michonne
através do farol de seu olhar febril. Vá em frente. Estou pronto. Acabe com
isso. Eu a desafio. Vá em frente, vaca. Estou pronto para morrer, porra.
Então me mate... agora... ME MATE! APOSTO QUE NÃO TEM A PORRA DO
ESTÔMAGO! VÁ EM FRENTE E ME MATE AGORA SUA VACA!!
Michonne queima o coto com a chama azul, cauterizando sangue e
carne e tecido, emitindo ruídos de estalo aterrorizantes na sala de estar
silenciosa, a fumaça espumando e a medula chiando, irradiando a pior dor
que Philip jamais sentiu pelo corpo... jamais.
Jamais.
E, infelizmente para Philip Blake — também conhecido como
Governador —, o processo não o mata.
E a mulher chamada Michonne apenas começou a trabalhar em Philip.
Do outro lado da cidade, sob as estrelas, conforme o canto onipresente de
grilos e outros ruídos farfalhantes da noite continuam, imperturbados, a
primeira pá de terra é jogada sobre o buraco para fogueira. A terra arenosa
e marrom-escura da Geórgia cai sobre a fotografia de Megan com um leve
estampido. Austin enche mais uma pá e joga a terra. E outra. E outra. E a
terra começa a cobrir a pilha de objetos preciosos com o caráter definitivo
de um enterro.
Em certo momento, Austin para de encher a pá e olha para Lilly, que
está próxima, enroscada em um cobertor, observando. Ela segura o cobertor
com força ao redor do pescoço, conforme deixa as lágrimas se acumularem
até que escorram pelas bochechas e umedeçam a ponta do cobertor.
Austin entrega a Lilly uma pá cheia de terra, e ela joga o conteúdo no
buraco.
Nenhum dos dois diz em voz alta, mas a sensação que se passa entre
eles é de desapego.
Estão se desapegando do luto, do medo, do passado. Têm um futuro
agora. Têm um ao outro e têm um minúsculo embrião de vida nova
crescendo dentro de Lilly como uma promessa silenciosa. Lilly sorri, triste,
limpando o rosto. Austin sorri de volta para ela. Os dois terminam de
preencher o buraco, e Austin baixa a pá.
Então eles voltam para os troncos de árvores cortadas e descansam
os corpos cansados no silêncio escuro.
— Ah, você está acordado de novo... que bom.
A iluminação se tornou translúcida e onírica na terrível sala de estar
conforme a voz de Michonne flutua como uma linda mariposa pairando no
ar atrás dele. Philip não consegue mais vê-la — apenas a sombra rasgando
o chão atrás dele —, mas consegue ouvir Michonne ali atrás, próxima à
bunda dele. Philip percebe que foi reposicionado, e agora está deitado de
bruços, o rosto pressionado contra a plataforma, a traseira elevada. Todos
os órgãos sensoriais dele agora absorvem o ambiente vagarosamente, de
modo embaçado —, uma câmera cuja lente foi desatarraxada.
A ponta fria e dura da colher penetra o reto de Philip com força e bem
fundo.
Ele desliza para a frente com um tranco conforme o implemento
afunda até seu osso sacro. Por um brevíssimo momento, os horrores do
único exame de próstata que ele já fez retornam a Philip como uma
enxurrada, o médico em Jacksonville — qual era o nome dele? Kenton?
Kenner? — tagarelando distraidamente sobre as jogadas dos Falcons o
tempo todo. Philip se imagina rindo daquela piadinha interna, mas em vez
disso, arqueja.
Michonne enfia a colher até as vértebras sacras do Governador e giraa
como vingança — como se estivesse tentando pegar com uma colherada
o cóccix e o intestino dele —, e Philip grita. Naturalmente, a fita abafa o
grito, e tudo que ele ouve com os próprios ouvidos é uma série de gemidos
infantis. O fogo em seu abdômen queima fora de controle quando Michonne
começa a ter um pouco de dificuldade, a colher fica presa em alguma parte
da anatomia interna do homem.
O Governador está prestes a mergulhar mais uma vez na areia
movediça da inconsciência quando Michonne arranca a colher dobrada do
ânus dele com um ruído úmido de sucção.
— Pronto — diz ela. — Vai ficar dolorido durante um tempo aí dentro.
Michonne se levanta e caminha diante do Governador de modo que ele
possa vê-la de relance pela visão periférica febril. A mulher ergue a colher
ensanguentada.
— E achei que colocá-la dentro fosse difícil — comenta ela,
sarcasticamente, conforme as persianas se fecham novamente, tão
misericordiosamente, sobre a visão do Governador, levando-o de volta para
aquela escuridão abençoada, vazia e fria.
Os especialistas sabem como manter uma pessoa acordada e consciente
durante o “interrogatório intensificado” — espiões da CIA, valentões do
Terceiro Mundo, fantasmas da KGB, cartéis de drogas, etc. —, mas essa
amazona com os dreadlocks de medusa não tem perguntas a fazer e não
parece ter experiência na arte de manter uma pessoa consciente durante
esse tipo de tortura apressada e improvisada. Tudo o que tem, até onde o
Governador consegue ver, é o senso inato de justiça e um pouco de
sabedoria de rua para se manter em ação e manter o Governador acordado.
O Governador percebe tudo isso sempre que é despertado e vê que seu
nível de compreensão foi corrompido e distorcido ainda mais através da
lente surreal daquela dor infernal.
Dessa vez, ele acorda com a sensação de que um piano caiu em sua
cabeça. Philip sente o impacto colossal, rachando a lateral de seu crânio,
causando-lhe uma concussão, enviando minúsculas bombas de agonia até o
osso do nariz. Ele ouve o retinir fora de tom de todas as 88 teclas do piano,
de uma só vez, dentro da cabeça, e seus ouvidos cantam uma ária
desafinada, o tilintar é tão alto que Philip mal pode respirar.
Michonne está de pé acima dele. Ela acerta a sola da bota sobre a
cabeça do homem uma segunda vez.
O salto racha a mandíbula dele, e, de uma só vez, o Governador fica
apenas semiacordado... não está totalmente consciente, mas também não
está inconsciente de verdade.
Ele oscila e geme e dá risinhos por trás da fita, em um tipo de névoa
neurológica, as funções mais sofisticadas do cérebro cessando e entrando
em programação default: o eu primordial. O Governador sente que é um
menininho em Waynesboro e está sentado no colo do pai no parque de
diversões. Ele sente cheiro de pipoca e de merda de cavalo e de algodão
doce. Ouve o realejo tocando uma melodiazinha engraçada, e a estrela do
espetáculo — a Guerreira Negra de Bornéu — o circunda vagarosamente,
circunda vagarosamente o assento sobre o colo do pai de Philip na primeira
fileira.
— Acho que chutei você forte demais — diz ela, com a vozinha
engraçada. O público bate palmas e ri. — Parece que algo se partiu.
Ele quer rir da piada engraçada da mulher, mas alguém — seu papai,
talvez? — mantém a mão sobre sua boca. O que faz tudo parecer ainda
mais engraçado. A Guerreira Negra de Bornéu se ajoelha perto do rosto de
Philip. Ele ergue o olhar para ela. A mulher olha para ele e sorri um sorriso
engraçado. O que vai fazer com aquela colher? Talvez faça o melhor truque
de todos!
A mulher segura a colher perto do olho esquerdo de Philip e murmura:
— Não desmaie e me deixe... ainda não terminamos.
A ponta da colher está fria quando a mulher começa a cavar a órbita
ocular dele. Isso lembra Philip a vez que o dentista precisou perfurar-lhe
uma cavidade bem no fundo da boca — doeu tanto, tanto, tanto, tanto,
taaaaaaaanto — e Philip ganhou um pirulito, e dói mais do que ele achou
que seria possível. Philip até mesmo ouve os ruídos nojentos — como
quando sua mamãe destrincha um frango para o jantar —, ruídos viscosos e
aquosos. Enquanto a Moça de Bornéu cava a órbita ocular dele e a coisa,
por fim, se desatarraxa do bocal.
Philip tem vontade de bater palmas para aquela incrível moça negra
que consegue deixar a órbita ocular oscilando na metade do rosto dele,
pendurada por fios de nervos e coisas vermelhas nojentas como serpentina
úmida.
A visão dele agora fica totalmente errática e é como se Philip
estivesse em um brinquedo emocionante — como quando papai levou seu
irmão Brian e ele para o parque estadual Coração da Geórgia e eles
andaram no Zipper — e tudo está girando. Philip ainda consegue ver — um
pouco — pela órbita pendurada. E ainda consegue ver com o outro olho. E o
que vê naquele momento faz com que ele se sinta mal pela Grande e
Selvagem Guerreira de Bornéu.
Ela está chorando.
Lágrimas escorrem pelo rosto marrom e brilhante da mulher enquanto
ela está agachada diante de Philip, e Philip se sente triste, ele também, de
súbito, por aquela pobre moça. Por que ela está chorando? Está encarando
Philip como uma criança perdida, como uma garotinha que acaba de fazer
algo muito ruim.
Então outra coisa acontece que chama a atenção de Philip Blake.
Uma batida alta na porta o leva de volta para o presente. Philip pisca
com o olho bom, e a moça pisca para afastar as lágrimas, então os dois
ouvem a voz masculina grave e irritada do lado de fora da porta.
— GOVERNADOR! ESTÁ AÍ DENTRO?!
De uma só vez, a música do realejo para, e o pequeno Philip Blake não
está mais no parque.
Michonne pega a espada, fica de pé e olha para a porta — paralisada pela
indecisão. Ainda não terminou sua obra-prima, a peça mais importante do
quebra-cabeça estava prestes a ser colocada no lugar, mas agora a coisa
toda pode ser — em tantos níveis — abreviada.
Ela se volta para os restos grotescos no chão — o homem que mal se
agarra à vida — e começa a dizer algo a ele quando a voz ecoa do lado de
fora da porta.
— EI! PHIL! ABRA! A VACA MALUCA SUMIU, CARA! O MÉDICO E
ALICE... E OS OUTROS DOIS TAMBÉM! — O ranger de madeira, um estalo.
Michonne olha para baixo, para o Governador, quando um enorme
estampido reverbera. Ela estende a ponta da katana na direção da virilha
dele.
A voz de Gabe — inconfundível com seu rugido grave e de sotaque
pesado — se ergue uma oitava do lado de fora da porta:
— QUE MERDA ACONTECEU COM SUA PORTA, CARA?! O QUE ESTÁ
ACONTECENDO?! DIGA ALGUMA COISA, SENHOR! VAMOS ENTRAR!
Mais um estampido descomunal — talvez tanto Gabe quanto Bruce
usando os ombros ou talvez um aríete improvisado lá fora —, as treliças já
estão se partindo, chove poeira, e elas ameaçam estourar no local em que
Michonne as pregou apressadamente.
Michonne segura a espada a centímetros do pênis flácido do
Governador.
— Parece que o que sobrou dessa coisa pode se curar caso você
sobreviva a isso — diz ela, baixinho, para ele, a voz tão suave que poderia
estar falando com um amante. Michonne não tem ideia se o Governador
sequer consegue ouvi-la ou compreendê-la. — E não queremos isso.
Com um único movimento do punho, ela arranca com precisão o pênis
do homem na base, o sangue borbulha e escorre quando o órgão desaba
inerte na tábua de madeira ao lado do homem.
Michonne se vira e dispara para fora do cômodo e já cruzou a
extensão do apartamento, abriu uma janela, desceu e está na metade da
escada de incêndio quando a porta finalmente cede.
Bruce entra cambaleando no apartamento primeiro. A cabeça careca
reluzente, os olhos arregalados e incandescentes, ele quase cai no chão.
Gabe irrompe atrás dele, os punhos fechados, os olhos verificando
rapidamente.
— PORRA! — Bruce vira quando ouve o minúsculo grunhido da criança
morta. — PORRA! — Ele vê Penny acorrentada por segurança do outro lado
do corredor. — PORRA! PORRA! PORRA! — Bruce sente no ar o fedor
pesado de fluidos corporais e do sangue de um abatedouro. Ele olha ao
redor. — PORRA! PORRA! PORRA! PORRA! PORRA! PORRA!
— Cuidado! — Gabe empurra Bruce para o lado quando a garotinha
morta avança neles, esticando as correntes, estalando os minúsculos
dentes pretos no ar perto do tronco de Bruce. Gabe grita: — Saia de perto
dela!
— Ah, porra... porra — profere Bruce subitamente, quando se vira na
direção da passagem arqueada para a sala de estar. Ele vê os restos
repulsivos da refeição de Penny. — Governador! Ah, porra!
Na escuridão calma e primitiva da clareira, sob o enorme céu rural, Austin
Ballard finalmente interrompe o silêncio.
— Quer saber? Acabo de perceber... Posso montar um pequeno quarto
de bebê naquele jardim de inverno nos fundos do meu apartamento.
Lilly assente.
— Isso seria legal. — Ela pensa a respeito. — Vi um berço no
armazém que ninguém está usando. — Então pensa mais um pouco. — Pode
me chamar de louca, mas acho que isso vai funcionar.
Austin estende a mão para ela, puxa Lilly em um abraço carinhoso. Os
dois estão sentados no mesmo tronco agora, abraçados. Lilly beija o cabelo
de Austin. Ele sorri e a puxa mais para perto.
— Woodbury é o lugar mais seguro em que poderíamos estar agora —
diz o rapaz, baixinho.
Lilly assente.
— Eu sei... tenho a sensação de que o Governador está com as coisas
sob controle.
Austin aperta Lilly com delicadeza.
— E Stevens e Alice podem fazer o parto do bebê.
— Bem lembrado. — Lilly sorri consigo mesma. — Acho que estamos
em boas mãos.
— É. — Austin olha para a noite. — O Governador vai nos manter em
segurança. — Ele sorri. — Esta é a melhor situação no mundo para começar
uma nova vida.
Lilly assente mais uma vez para Austin. O sorriso dela poderia
iluminar uma cidade inteira.
— Gosto de como isso soa... uma nova vida... tem um tom legal.
Pela primeira vez na vida, Lilly sente, de verdade, que tudo vai ficar
bem.
Gabe e Bruce mergulham para a câmara de tortura que é a sala de estar e
de uma só vez percebem as evidências do trabalho manual de Michonne —
as ferramentas ensanguentadas, a sacola de lona, o braço arrancado, os
lenços e as manchas de sangue espalhados pela plataforma de madeira
como asas demoníacas infernais brotando do corpo. Eles dão mais alguns
passos na direção dos restos mortais.
As mentes dos dois estão imersas em pânico, tentam ficar calmos e
conversar um com o outro.
Olhando para o corpo, Gabe fala:
— E quanto à garota negra?
Bruce fica boquiaberto.
— Foda-se ela. Deve estar fora da zona de segurança agora... não tem
chance.
— Cruzes — murmura Gabe, olhando para o que restou do chefe, os
restos mortais eviscerados, queimados, açoitados e contorcidos, um olho
pendurado por fios de tecido na lateral do rosto do homem. O corpo
estremece. — Ele... ele está morto?
Bruce inspira rapidamente e se aproxima para se ajoelhar ao lado do
Governador.
Um leve ruído cicia das narinas do homem.
Bruce nem mesmo consegue encontrar um lugar para sentir a
pulsação, o corpo está tão destruído. Ele cuidadosamente tira a fita adesiva
dos lábios do homem.
Então Bruce se inclina para baixo e aproxima a orelha da boca
ensanguentada do homem.
Sinais de uma respiração fraca chegam ao ouvido de Bruce, mas ele
não sabe dizer se é um suspiro de morte...
... ou se o homem está se agarrando a um mundo crepuscular à beira
da morte.
Abaixo de um dossel de estrelas brilhantes, Austin toca o rosto de Lilly
como se acariciasse as contas de um rosário.
— Prometo, Lilly, as coisas vão, definitivamente, se encaixar. — Ele a
beija. — Tudo vai ficar ótimo. — Ele beija Lilly de novo. — Você vai ver.
Ela sorri. Que Deus a ajude, mas Lilly acredita no rapaz... ela acredita
no Governador... acredita em Woodbury. Tudo vai ficar bem.
O sorriso de Lilly permanece nos lábios, ela apoia a cabeça no ombro
de Austin e ouve a noite eterna, que continua a farfalhar e zunir em seu
ciclo remoto de destruição e regeneração.
Obrigada, Deus.
Obrigada.
