O Alvorecer do
Dia Vermelho
A vida dói muito mais do que a morte.
— Jim Morrison
UM
Ninguém na clareira ouve os Mordedores chegando por entre as árvores altas.
O retumbante som metálico das estacas das tendas penetrando o barro frio e resistente da
Geórgia abafa os passos distantes — os intrusos ainda estão a uns bons 450 metros de distância à
sombra dos pinheiros que os cercam. Ninguém escuta os galhos estalando sob o ruído do vento norte,
nem os característicos gemidos guturais, tão fracos quanto o ruído dos mergulhões que se escondem
atrás das copas das árvores. Ninguém detecta os traços do fedor de carne pútrida e mofo marinado
em fezes. O forte odor da fumaça de madeira outonal e das frutas que apodrecem na brisa vespertina
oculta o cheiro dos mortos-vivos.
Na verdade, por um bom tempo, nenhum dos colonos do acampamento que ali floresce
rapidamente registra qualquer perigo iminente — a maioria dos sobreviventes está ocupada
erguendo vigas de sustentação improvisadas originárias de objetos encontrados; dormentes de
estrada de ferro, postes telefônicos e pedaços enferrujados de vergalhão.
— Que patético... olhe só para mim — comenta com um suspiro exasperado a mulher esbelta
com o cabelo preso em um rabo de cavalo, agachada desajeitadamente ao lado de um pedaço
quadrado de lona de barraca salpicada de tinta, dobrada no chão no canto noroeste do terreno. Ela
treme dentro de seu volumoso moletom do Georgia Tech, que cobre joias antigas e o jeans rasgado.
O rosto sardento corado, os longos cabelos castanho-escuros pendendo em cachos enredados a
pequenas e delicadas penas, Lilly Caul é uma coleção de tiques nervosos, que vão de enfiar
constantemente mechas soltas de cabelo para trás das orelhas a roer compulsivamente as unhas.
Agora, com a pequena mão, ela aperta com mais força o cabo do martelo e golpeia diversas vezes
uma estaca de metal, apenas roçando a extremidade como se estivesse lubrificada.
— Não tem problema, Lilly, relaxe — diz o homem grande que observa tudo atrás dela.
— Uma criança de 2 anos é capaz de fazer isso.
— Pare de ser tão dura consigo mesma.
— Não sou eu quem está sendo dura. — Ela bate um pouco mais, segurando o martelo com as
duas mãos. A estaca não se mexe. — É essa estaca idiota.
— Você está segurando o cabo do martelo muito em cima.
— Estou o quê?
— Coloque a mão mais para o final do cabo, deixe a ferramenta fazer o trabalho.
Mais marteladas.
A estaca pula do chão duro, sai voando e cai a 3 metros de distância.
— Droga! Droga! — Lilly acerta o chão com o martelo, olha para baixo e suspira.
— Você está indo bem, garota, deixa eu te mostrar.
O homenzarrão se coloca ao lado dela, ajoelha-se e avança gentilmente a fim de pegar o
martelo de sua mão. Lilly recua, recusando-se a entregar a ferramenta.
— Me dê mais um segundo, está bem? Eu consigo lidar com isso, posso — insiste ela, e os
ombros estreitos se tencionam sob o moletom.
Ela pega outra estaca e recomeça, golpeando a cabeça de metal sem segurança. O chão resiste,
duro como cimento. Outubro tem sido um mês frio até o momento, e os campos abandonados ao sul
de Atlanta endureceram. Não que isso seja ruim. O barro duro também é poroso e seco — pelo
menos por enquanto —, daí a decisão de montar acampamento naquele local. O inverno está
chegando, e essas pessoas vêm se reagrupando ali há mais de uma semana, estabelecendo-se,
recarregando, repensando o futuro — se é que terão algum.
— Você só precisa deixar a cabeça cair sobre a estaca — demonstra ao lado dela o robusto
afro-americano, meneando o enorme braço. As mãos imensas provavelmente conseguiriam envolver
a cabeça dela. — Use a gravidade e o peso do martelo.
Lilly precisa fazer um grande esforço para não fixar o olhar no braço do homem, que oscila
para cima e para baixo. Mesmo agachado, usando a camisa de brim sem mangas e um colete
acolchoado puído, Josh Lee Hamilton ostenta uma aparência imponente. Embora tenha o corpo de um
jogador de futebol americano, ombros monolíticos, enormes coxas de tronco de árvore e um pescoço
grosso, ele consegue se movimentar com bastante leveza. Seus olhos tristes de cílios longos e o
semblante cortês, que enruga perpetuamente a fronte meio calva, transmitem um ar de inesperada
ternura.
— Não é difícil... viu? — Ele demonstra de novo, e o bíceps tatuado, grande como uma
pancetta, salta quando maneja o martelo imaginário. — Entende o que estou dizendo?
Lilly desvia os olhos discretamente do braço definido de Josh. Ela sente um ligeiro arrepio de
culpa toda vez que repara em seus músculos, nas costas amplas, nos ombros largos. A despeito da
quantidade de tempo que passam juntos nesse inferno na Terra, ao qual alguns georgianos estão
chamando “a Mudança”, Lilly tem evitado escrupulosamente qualquer ligação íntima com Josh.
Melhor manter o relacionamento platônico, fraterno, de melhores amigos, nada mais. Melhor ser
estritamente prática... especialmente em meio a esta praga.
Mas isso não impede Lilly de lançar ao homenzarrão tímidos sorrisinhos dissimulados quando
ele a chama de “garota” ou “boneca”... ou de deixá-lo ter um vislumbre do caractere chinês tatuado
em seu cóccix à noite, quando está se acomodando no saco de dormir. Será que está dando falsas
esperanças a ele? Que o está manipulando para obter proteção? As perguntas retóricas continuam
sem resposta.
Para Lilly, as brasas do medo que ardem constantemente em suas entranhas cauterizaram todas
as questões éticas e nuances de comportamento social. Na verdade, o medo a perseguira pela maior
parte da vida — ela desenvolveu uma úlcera no ensino médio e teve de tomar medicamentos
ansiolíticos durante a passagem malsucedida pelo Georgia Tech —, mas agora ele fervilha
constantemente dentro dela. O medo envenena seu sono, nubla os pensamentos, pressiona seu
coração. O medo a obriga a fazer coisas.
Ela agarra o martelo com tanta força que as veias do pulso estremecem.
— Pelo amor de Deus, isso não é nenhum bicho de sete cabeças! — vocifera ela, conseguindo
finalmente controlar o martelo e enfiar uma estaca no chão por pura raiva. Ela pega outra estaca. Vai
até o canto oposto da lona e força a ponta de metal diretamente através do tecido e para dentro da
terra, martelando furiosa e desenfreadamente, errando tantos golpes quanto acerta. O suor brota em
seu pescoço e em sua testa. Ela martela sem parar. Ela perde o controle por um momento.
Finalmente, para, exausta, ofegante, molhada de suor.
— OK... Também dá para fazer desse jeito — diz Josh suavemente, levantando-se com um
sorriso malicioso no rosto moreno cinzelado enquanto observa a meia dúzia de estacas que prende a
lona ao chão. Lilly não diz nada.
Os zumbis, chegando despercebidos por entre as árvores a norte, estão a menos de cinco
minutos de distância.
Nenhum dos outros sobreviventes, companheiros de Lilly Caul — que já são quase cem, e agrupamse
com relutância na tentativa de construir ali uma comunidade heterogênea —, percebe a
desvantagem inevitável daquele terreno rural abandonado no qual ergueram suas tendas
improvisadas.
À primeira vista, a propriedade parece ideal. Situada em uma área verdejante 80 quilômetros
ao sul da cidade — uma área que, em média, produz milhões de alqueires de pêssegos, peras e maçãs
anualmente —, a clareira fica em uma bacia natural de capim seco e terra compacta. Abandonado por
seus antigos proprietários — provavelmente donos dos pomares próximos — o terreno é do tamanho
de um campo de futebol. Estradas de cascalho rodeiam a propriedade. Ao longo dessas vias sinuosas
erguem-se paredes densas e frondosas de pinheiros e carvalhos que se estendem pelas colinas.
Na extremidade norte do pasto ficam os restos dizimados e queimados de uma grande mansão,
com as trapeiras enegrecidas destacando-se contra o céu como esqueletos petrificados e as janelas
estraçalhadas pelo recente turbilhão. Nos últimos meses, incêndios destruíram grandes extensões dos
subúrbios e das casas de fazenda ao sul de Atlanta.
Em agosto, após os primeiros contatos humanos com os cadáveres ambulantes, o pânico que
varreu o Sul prejudicou a infraestrutura de emergência. Hospitais ficaram superlotados e depois
fecharam, unidades do corpo de bombeiros ficaram incomunicáveis, a Interestadual 85 foi obstruída
por veículos destruídos. As pessoas desistiram de encontrar estações em seus rádios a pilha e
começaram a procurar suprimentos para recolher, lugares para saquear, alianças para fazer e áreas
onde se abrigar.
As pessoas que estão reunidas nesta propriedade rural abandonada se encontraram nas estradas
de terra vicinais que serpenteiam através da colcha de retalhos formada pelas inúmeras fazendas de
tabaco e shoppings de estrada desertos dos condados de Pike, Lamar e Meriwether. Abrangendo
todas as idades, incluindo mais de uma dúzia de famílias com crianças pequenas, o comboio de
veículos engasgados e agonizantes cresceu... até que a necessidade de encontrar abrigo e espaço se
tornou suprema.
Agora eles se espalham por esse lote de quase 1 hectare de terra abandonada, como se
regredissem a uma espécie de Hooverville* da Depressão, uns vivem em carros, outros abrem vãos
no capim mais tenro, alguns já estão abrigados em pequenas tendas triangulares na periferia. Eles têm
pouquíssimas armas de fogo, e menos munição ainda. Instrumentos de jardinagem, acessórios
esportivos e equipamentos de cozinha — todos as amenidades da vida civilizada — agora servem
como armas. Dezenas desses sobreviventes ainda estão enfiando estacas no chão frio e áspero,
trabalhando diligentemente, correndo contra um relógio invisível e subentendido, esforçando-se para
erigir seus santuários improvisados — todos inconscientes do perigo que se aproxima por entre os
pinheiros a norte.
Um dos colonos, um homem alto e esguio de trinta e poucos anos usando um boné da John
Deere e uma jaqueta de couro, está parado sob a borda de uma gigantesca área de lona no centro do
pasto, seus traços cinzelados são obscurecidos pelo tecido da enorme tenda. Ele supervisiona um
grupo de adolescentes mal-humorados sob a lona.
— Vamos, senhoritas, deem o sangue! — vocifera ele, gritando acima da balbúrdia de metal
retinindo que enche o ar gelado.
Os adolescentes se atrapalham com uma pesada viga de madeira que serve como mastro central
do que é essencialmente uma grande lona de circo. Eles a encontraram na I-85, estendida em uma
vala perto de uma carreta capotada em cuja lateral havia a insígnia gasta de um gigante palhaço com
a tinta descascada. Com uma circunferência de mais de 100 metros, a grande tenda de circo suja e
puída — que cheira a mofo e excremento de animais — pareceu ao homem com o boné da John
Deere a cobertura perfeita para uma área comum, um lugar para guardar os suprimentos, um lugar
para manter a ordem, um lugar para manter alguma aparência de civilização.
— Cara... isso não vai segurar o peso — reclama um dos adolescentes, um garoto preguiçoso
usando um casaco do Exército, chamado Scott Moon. Seu cabelo comprido louro pende sobre o
rosto, e a respiração fica visível enquanto ele bufa e se esforça com os outros garotos góticos, cheios
de tatuagens e piercings, de seu colégio.
— Pare de reclamar, vai segurar, sim — retruca o homem de boné com um grunhido. Seu nome
é Chad Bingham, um dos homens de família do assentamento, pai de quatro meninas: uma de 7 anos,
duas gêmeas de 9 e uma adolescente. Infeliz em seu casamento com uma garota submissa de Valdosta,
Chad se considera um disciplinador rigoroso, exatamente como o pai era. Mas seu pai teve filhos
homens e nunca precisou lidar com as coisas femininas sem sentido. Aliás, o pai de Chad nunca teve
que lidar com sacos apodrecidos de pus e carne morta que perseguem os vivos. Portanto, agora Chad
assume o controle, o papel de macho alfa... porque, como dizia seu pai: “Alguém tem que fazê-lo.”
Ele lança um olhar feroz para os garotos.
— Aguentem firme!
— Não vai ficar mais alto do que já está — resmunga um dos garotos góticos através de dentes
cerrados.
— Você é que está alto — brinca Scott Moon, com uma risadinha abafada.
— Segurem firme! — ordena Chad.
— O quê?
— Eu disse para segurar FIRME essa merda! — Chad enfia um contrapino de metal através de
uma ranhura na viga. As paredes externas do enorme pavilhão de lona tremulam no vento outonal,
causando um estrondo, enquanto outros adolescentes correm em direção aos cantos mais afastados
com vigas de sustentação menores.
Quando a grande cobertura toma forma e o panorama da clareira fica visível para Chad pela
ampla abertura em uma das extremidades, seu olhar atravessa o capim marrom achatado do pasto,
passando por carros com capôs abertos, por bandos de mães e filhos sentados no chão contando as
magras provisões de frutinhas silvestres e detritos de máquinas de salgadinhos, pela meia dúzia de
picapes repletas de bens materiais.
Por um instante, Chad trava o olhar com o grande sujeito negro a quase 30 metros de distância,
perto do canto norte da propriedade, montando guarda para Lilly Caul como um gigantesco leão de
chácara em algum clube ao ar livre. Chad conhece Lilly de nome, mas é só isso. Ele não sabe muito
sobre a garota — a não ser pelo fato de que ela é “uma das amigas da Megan” — e sabe menos ainda
sobre o homem grande. Chad esteve próximo do gigante durante semanas e não consegue sequer
lembrar o nome dele. Jim? John? Jack? Na verdade, Chad não sabe nada sobre nenhuma dessas
pessoas, a não ser que estão totalmente desesperadas, apavoradas e implorando por disciplina.
Mas há algum tempo Chad e o grande sujeito negro têm trocado olhares carregados. Medindo
um ao outro. Avaliando um ao outro. Nem sequer uma palavra foi trocada, mas Chad sente que está
sendo desafiado. Provavelmente, o grandão conseguiria vencê-lo em um corpo a corpo, no entanto, o
homem de família nunca deixaria chegar a esse ponto. Tamanho não é documento para uma bala de
calibre .38 que está convenientemente acomodada na Smith & Wesson modelo 52 cromada enfiada e
escondida no largo coldre de Chad.
Só que agora uma corrente inesperada de reconhecimento se arqueia como um raio através dos
30 metros que separam os dois homens. Lilly continua ajoelhada diante do negro, espancando
furiosamente as estacas, mas algo sombrio e perturbador lampeja de repente no fundo dos olhos do
sujeito quando ele encara Chad. A percepção chega rapidamente, em estágios, como um circuito
elétrico se incendiando.
Mais tarde, os dois homens concluirão, independentemente, que — assim como todos os outros
— deixaram passar dois fatos muito importantes que estão ocorrendo naquele momento. Primeiro, o
barulho que a construção das tendas na clareira está gerando na última hora tem atraído os errantes.
Segundo, e talvez mais importante, a propriedade tem uma única deficiência crítica.
Depois do ataque, os dois homens perceberão mortificados, cada um por si, que, devido à
barreira natural fornecida pela floresta adjacente, que se estende até o topo de uma colina vizinha,
qualquer som natural que ocorra atrás das árvores é abafado, amortecido, quase eliminado pela
topografia.
Na verdade, mesmo que uma banda marcial universitária chegasse pelo alto daquele platô, um
colono não a ouviria até que os pratos estalassem bem na sua cara.
Lilly Caul permanece tranquila e alheia ao ataque por vários minutos. Apesar das coisas terem
começado a se desenrolar com grande velocidade ao seu redor, o barulho das vozes e dos martelos
retinido é substituído pelos gritos dispersos das crianças. Lilly continua enfiando furiosamente
estacas no chão — confundindo os berros dos mais novos com brincadeiras — até o momento em que
Josh agarra a gola de seu moletom.
— O quê... — Lilly se contrai com o susto, voltando-se para o homem com uma expressão
surpresa.
— Lilly, temos que...
Josh mal termina a primeira parte da frase quando uma figura sombria e cambaleante sai das
árvores a menos de 4 metros de distância. Ele não tem tempo de correr, não tem tempo de salvar
Lilly, não tem tempo de fazer nada além de arrancar o martelo da mão da garota e empurrá-la para
longe do perigo.
Lilly cai e rola instintivamente antes de se situar e se levantar de novo, com um grito preso no
fundo da garganta.
O problema é que o primeiro cadáver que entra cambaleando na clareira — um errante alto e
pálido usando uma bata hospitalar suja, com metade do ombro faltando e as fibras dos tendões
pulsando como vermes — é seguido por mais duas criaturas. Uma mulher e um homem, ambos com
bocas que parecem valas abertas, lábios descorados vertendo bílis preta, olhos de botão fixos e
vidrados.
Os três se aproximam com o característico passo espasmódico, as mandíbulas estalando, os
lábios deixando entrever dentes enegrecidos, como piranhas.
Nos vinte segundos que os três errantes levam para cercar Josh, a cidade de tendas passa por
uma mudança rápida e dramática. Os homens vão buscar suas armas caseiras, aqueles que têm
pistolas levam a mão aos coldres improvisados. Algumas das mulheres mais ousadas agarram tábuas
de madeira, ganchos de feno, forcados e machados enferrujados. Guardiães correm com suas
crianças pequenas para dentro dos carros e das cabines das caminhonetes. Punhos cerrados esmurram
pinos. Caçambas traseiras são fechadas com estrondo.
De uma maneira estranha, os poucos gritos que ressoam — das crianças, principalmente, e de
algumas mulheres mais velhas que talvez estejam em estado inicial de senilidade — mínguam
depressa, substituídos pela calma sinistra de uma tropa em manobra ou de uma milícia provisória.
No intervalo de vinte segundos, o barulho de surpresa rapidamente se transforma na atividade da
defesa, da repulsão e da raiva canalizada para a violência controlada. Essas pessoas já fizeram isso.
Há uma curva de aprendizagem em ação ali. Alguns dos homens armados se espalham em direção às
margens do campo, pegando calmamente seus martelos, enfiando balas na culatra das espingardas,
empunhando pistolas de exibição roubadas ou revólveres de família enferrujados. O primeiro tiro
que ressoa é o estalo seco de uma Ruger calibre .22 — de forma alguma a arma mais poderosa,
porém certeira e fácil de disparar. A explosão arranca a parte de cima do crânio de uma mulher
morta a cerca de 30 metros de distância.
A mulher mal sai das árvores antes de cair no chão em um batismo de fluido craniano oleoso,
que se despeja sobre ela em grossos borbotões. Esse abate acontece dezessete segundos depois do
começo do ataque. No vigésimo segundo, as coisas começam a acontecer em um passo mais rápido.
Na extremidade norte do terreno, Lilly Caul está se movendo, colocando-se de pé,
movimentando-se com a rigidez lenta e confusa de um sonâmbulo. O instinto assume o controle, e ela
percebe que está se afastando quase involuntariamente de Josh, que logo é cercado por três
cadáveres. Ele tem um martelo. Não tem uma arma. E três bocas apodrecidas repletas de dentes
pretos se aproximam.
Ele gira em direção ao zumbi mais próximo enquanto o resto do acampamento se espalha. Josh
enfia a ponta afiada do martelo na têmpora daquele que está usando um avental hospitalar. O som da
fratura lembra o de uma fôrma de gelo sendo torcida. Massa cerebral jorra, a lufada de
decomposição comprimida é liberada com um sopro audível, quando o ex-paciente cai.
O martelo fica preso, e é arrancado da grande mão de Josh quando o errante se dobra.
Ao mesmo tempo, outros sobreviventes espalham-se por todos os cantos da clareira. Na
extremidade mais distante das árvores, Chad bota sua Smith cromada em ação, acertando a cavidade
ocular de um velho esquálido sem metade do maxilar, então o morto geriátrico gira em uma névoa de
fluidos rançosos, caindo no capim. Atrás de uma fila de carros, a armação de uma tenda é enfiada na
boca de uma mulher que ruge, prendendo-a ao tronco de um carvalho. Na extremidade leste do pasto,
um machado abre um crânio apodrecido com a facilidade que teria para dividir ao meio uma romã. A
cerca de 20 metros dali, o estouro de uma espingarda vaporiza a vegetação, assim como a metade
superior do corpo de um ex-homem de negócios em decomposição.
Do outro lado do terreno, Lilly Caul — ainda se afastando da emboscada que engole Josh — se
contrai e estremece na algazarra da matança. O medo perfura sua pele como agulhas, tirando o fôlego
e dominando o cérebro. Ela vê o grande homem negro de joelhos, se rastejando, tentando alcançar o
martelo, enquanto os outros dois errantes se aproximam como aranhas pela lona caída em direção a
suas pernas. Um segundo martelo está na grama, fora de seu alcance.
Lilly se vira e corre.
Ela demora menos de um minuto para percorrer o espaço entre a fileira externa de tendas e o
centro do pasto, onde mais de vinte almas enfraquecidas estão aglomeradas entre as caixas e
provisões estocadas sob a lona de circo parcialmente erigida. Diversos veículos foram ligados e
agora param perto desse grupo amontoado em meio a nuvens de monóxido de carbono. Homens
armados na traseira de uma carreta protegem as mulheres e crianças enquanto Lilly se abaixa atrás de
um velho baú de viagem, com os pulmões arfando por ar e a pele formigando de terror.
Ela fica desse jeito durante todo o ataque, com as mãos sobre as orelhas. Não vê Josh perto das
árvores, agarrando o martelo enterrado no cadáver caído, arrancando-o no último instante possível e
brandindo-o na direção do agressor mais próximo. Ela não vê a extremidade achatada do martelo
atingindo a mandíbula do zumbi, quebrando ao meio o crânio apodrecido com a enorme força do
golpe de Josh. E Lilly perde a última parte da luta; a da mulher quase cravando os incisivos pretos no
tornozelo de Josh antes de uma pá fincar-se em sua nuca. Diversos homens chegaram até Josh a
tempo de liquidar o último zumbi, e Josh se afasta; ileso, mas trêmulo por conta da adrenalina e do
nervosismo de ter escapado por um triz.
Todo o ataque — agora subjugado e se desvanecendo em um suave murmúrio de crianças
choramingando, fluidos pingando e na liberação de gases da decomposição — durou menos de 180
segundos.
Mais tarde, quando arrastam os corpos para um leito seco de rio ao sul, Chad e os outros
machos alfa contam 24 errantes ao todo — um nível de ameaça totalmente viável... pelo menos por
enquanto.
— Nossa, Lilly, por que você simplesmente não toma coragem e vai se desculpar com o homem? —
A jovem chamada Megan se senta em um cobertor do lado de fora da tenda de circo, observando o
café da manhã intocado na frente de Lilly.
O sol acabou de sair, pálido e frio no céu limpo — mais um dia na cidade de tendas —, e Lilly
está sentada diante de um fogão portátil Coleman, bebendo café instantâneo em um copo de papel. Os
restos frios dos ovos desidratados ficam na frigideira enquanto ela tenta afastar as reflexões culpadas
de uma noite em claro. Neste mundo, não existe descanso para os exaustos nem para os covardes.
Ao redor da grande e puída tenda de circo — agora totalmente montada — o alvoroço dos
sobreviventes continua, quase como se o ataque do dia anterior não tivesse acontecido. Pessoas
carregam cadeiras e mesas dobráveis para a grande tenda através da ampla abertura em uma das
extremidades (que provavelmente um dia foi a entrada para elefantes e carros de palhaços), enquanto
as paredes externas da tenda palpitam com as brisas inconstantes e mudanças na pressão do ar. Em
outras partes do acampamento, mais abrigos são levantados. Pais se reúnem e fazem um inventário da
lenha, água mineral, munição, armas e enlatados. Mães cuidam das crianças, dos cobertores, dos
casacos e dos remédios.
Se olhasse com mais atenção, um observador perspicaz perceberia uma camada de ansiedade
mal disfarçada em cada atividade. Mas não se sabe qual dos perigos é a maior ameaça: os mortosvivos
ou o inverno iminente.
— Ainda não pensei no que falar — murmura finalmente Lilly, bebendo o café morno.
Suas mãos não pararam de tremer. Já se passaram 18 horas desde o ataque, mas Lilly ainda se
aflige de vergonha, evitando o contato com Josh, isolando-se, convencida de que ele a odeia por ter
fugido e o deixado para morrer. Josh tentou falar com ela algumas vezes, mas Lilly não conseguiu
lidar com ele, e disse que estava se sentindo mal.
— O que há para dizer? — Megan procura na jaqueta jeans seu minúsculo cachimbo. Ela soca
um pouquinho de maconha na ponta e acende com um isqueiro Bic, dando um saudável tapa. A jovem
de pele oliva, com quase 30 anos, cachos pintados com hena soltos caindo ao redor do rosto fino e
astuto solta a fumaça e tosse. — Quero dizer, olhe para aquele cara, ele é enorme.
— Do que você está falando?
Megan sorri.
— Só estou dizendo que um cara assim consegue se cuidar sozinho.
— Essa não é a questão.
— Você está dormindo com ele?
— O quê? — Lilly olha para a amiga. — Está falando sério?
— É uma pergunta simples.
Lilly balança a cabeça, suspira.
— Não vou nem me dar ao trabalho de resp...
— Não está... não é? Lillyzinha Boazinha. Boazinha até o fim.
— Quer parar?
— Mas por quê? — O sorriso de Megan se torna malicioso. — Por que você ainda não montou
nele? O que está esperando? Aquele corpo... aqueles bíceps que ele tem...
— Pare com isso! — A raiva de Lilly dispara uma dor aguda e intensa atrás da ponte de seu
nariz.
Suas emoções estão à flor da pele, o tremor recomeça, até ela se surpreende com o volume de
sua voz.
— Eu não sou igual a você... OK? Não sou tão sociável. Nossa, Meg, eu perdi a conta. Qual
desses caras está com você agora?
Megan a encara por um instante, tosse, depois recarrega o cachimbo.
— Quer saber? — Megan oferece o cachimbo. — Por que você não se acalma um pouco?
Relaxa?
— Não, obrigada.
— Faz bem para o que está te incomodando. Vai acabar com esse remorso.
Lilly esfrega os olhos, balança a cabeça.
— Você é uma figura, Meg.
Megan dá outro tapa, e assopra a fumaça.
— Prefiro ser uma figura a ser uma idiota.
Lilly não diz nada, apenas continua balançando a cabeça. A triste verdade é que Lilly às vezes
se pergunta se Megan Lafferty não é exatamente assim — uma idiota. As duas se conhecem desde o
último ano do ensino médio na Sprayberry High School, em Marietta. Eram inseparáveis na época,
compartilhavam tudo, desde lição de casa a drogas e namorados. Mas então Lilly começou a querer
ter uma carreira, passou dois anos de purgatório no Massey College of Business emAtlanta, e depois
foi para o Georgia Tech fazer um MBA que nunca chegaria a obter. Ela queria ser estilista, talvez
começar a criar para a própria grife, mas só chegou até a recepção em sua primeira entrevista — um
estágio extremamente cobiçado na Mychael Knight Fashions — antes de amarelar. Seu velho
companheiro, o medo, estragava todos os seus planos.
O medo a fez fugir daquele extravagante saguão, desistir de tudo e voltar para Marietta e
retomar o estilo de vida ocioso com Megan, se drogando, sentada no sofá assistindo a reprises de
Project Runway.
Mas alguma coisa havia mudado entre as duas mulheres nos últimos anos, algo
fundamentalmente químico — para Lilly era claro, como uma barreira idiomática. Megan não tinha
ambição, direção, nem foco, e não via problema nisso. Mas Lilly ainda nutria sonhos — sonhos
impossíveis, talvez, mas mesmo assim sonhos. Ela desejava secretamente ir para Nova York,
começar um site ou voltar para aquela recepcionista na Mychael Knight e dizer, “Ops, desculpe, tive
que me ausentar por um ano e meio...”
O pai de Lilly — professor de matemática, aposentado e viúvo, chamado Everett Ray Caul —
sempre encorajava a filha. Everett era um homem gentil e respeitoso que, depois da morte lenta da
esposa por câncer de mama em meados da década de 1990, assumiu a responsabilidade de criar a
filha única com carinho. Ele sabia que ela queria mais da vida, mas também sabia que precisava de
amor incondicional, que precisava de uma família, que precisava de um lar. E Everett era tudo o que
ela tinha. E foram todas essas coisas que tornaram os eventos dos últimos meses tão infernais para
Lilly.
O primeiro surto de errantes atingiu violentamente o norte do condado de Cobb. Eles vieram
das periferias, dos parques industriais a norte das florestas de Kennesaw, infiltrando-se entre a
população como células malignas. Everett decidiu pegar Lilly e fugir em sua velha perua
Volkswagen, mas só conseguiram chegar até a U.S. 41 antes de os destroços de carros interrompê-
los. Encontraram um ônibus municipal desgarrado a 1,5 km ao sul de onde estavam — percorrendo
as ruas secundárias, recolhendo sobreviventes — e quase conseguiram subir a bordo. Até hoje, a
imagem do pai empurrando-a pela porta do ônibus que se fechava enquanto os zumbis se
aproximavam assombra os sonhos de Lilly.
O coroa salvou sua vida. Ele bateu aquela porta sanfonada no último instante possível, e
escorregou para o chão, já em poder de três canibais. O sangue espirrou pelo vidro enquanto o
ônibus arrancava dali. Lilly gritou até que as cordas vocais se exaurissem. Depois, ela entrou em uma
espécie de estado catatônico, encolhida em posição fetal em um dos bancos, olhando fixamente para
a porta manchada de sangue do pai até chegar em Atlanta.
Foi um pequeno milagre Lilly encontrar Megan. Naquela altura do surto, os celulares ainda
funcionavam, e ela conseguiu marcar um encontro com a amiga nas cercanias do aeroporto
Heartsfield. As duas mulheres partiram juntas a pé, pedindo caronas para o Sul, dormindo em casas
vazias, concentrando-se apenas na sobrevivência. A tensão entre elas se intensificou. Cada uma
parecia estar compensando o terror e a perda de um jeito diferente. Lilly se introverteu. Megan fez o
contrário, passando a maior parte do tempo drogada, falando sem parar e envolvendo-se com
qualquer viajante que cruzasse o caminho delas.
Elas se juntaram a uma caravana de sobreviventes a 50 km a sudeste de Atlanta — três famílias
de Lawrenceville, viajando em minivans. Megan convenceu Lilly de que era mais seguro ficar com
um grupo, e Lilly concordou em seguir com eles por algum tempo. Ela ficou na sua durante as
semanas seguintes, quando ziguezaguearam pelo cinturão das frutas, mas Megan logo se interessou
por um dos maridos. Seu nome era Chad, e ele tinha o jeito do típico sulista durão, com seu rapé
Copenhagen sob o lábio e as tatuagens da marinha nos braços rijos. Lilly ficou horrorizada ao ver o
flerte acontecer em meio àquele pesadelo, e não demorou até que Megan e Chad estivessem saindo
de fininho para as sombras das paradas na estrada para “se aliviar”. A distância entre Lilly e Megan
aumentou ainda mais.
Foi nessa época que Josh Lee Hamilton entrou em cena. Certo dia, ao anoitecer, a caravana
tinha sido encurralada por um grupo de mortos em um estacionamento do Kmart, quando o grande
Beemote afro-americano veio em nosso socorro, saindo das sombras do galpão de carga. Apareceu
como um gladiador mouro, brandindo as enxadas de jardinagem com as etiquetas de preço ainda
tremulando ao vento. Despachou facilmente a meia dúzia de zumbis, e os integrantes da caravana o
agradeceram profusamente. Ele mostrou ao grupo algumas espingardas novas em folha nos
corredores dos fundos da loja, assim como equipamentos de camping.
Josh dirigia uma moto, e depois de ajudar a carregar as minivans com provisões, decidiu se
juntar ao grupo, acompanhando-os na moto enquanto a caravana se aproximava da miscelânea de
pomares abandonados no condado de Meriwether.
Agora Lilly começava a se arrepender do dia em que concordou em ir na garupa da grande
Suzuki. Será que seu apego àquele homenzarrão é apenas uma projeção do luto pela perda do pai?
Será que é um ato desesperado de manipulação em meio a um terror interminável? Será que era
vulgar e transparente como a promiscuidade de Megan? Lilly se pergunta se seu ato de covardia —
abandonar Josh no campo de batalha no dia anterior — foi um ato subconsciente doentio e sombrio
de profecia autorrealizável.
— Ninguém está dizendo que você é idiota, Megan — diz finalmente Lilly, com a voz tensa e
pouco convincente.
— Não precisa dizer. — Megan bate furiosamente o cachimbo no fogão. Ela se levanta. —
Você já disse mais que o bastante.
Lilly fica de pé. Ela se acostumou com essas guinadas de humor repentinas da amiga.
— Qual é o seu problema?
— Você... você é o meu problema.
— De que merda está falando?
— Deixa pra lá, não aguento mais isso — diz Megan, o tom triste da voz filtrado pela onda da
erva agindo sobre ela. — Boa sorte, garotinha... Você vai precisar.
Megan sai pisando duro em direção à fila de carros na extremidade leste da propriedade.
Lilly observa a amiga desaparecer atrás de um trailer alto carregado de caixas de papelão. Os
outros sobreviventes praticamente não percebem o desentendimento entre as duas garotas. Algumas
cabeças se viram, alguns sussurros são trocados, mas a maioria dos colonos continua ocupada em
reunir e contar suprimentos, com expressões sombrias contraídas de tensão nervosa. O vento cheira a
metal e granizo. Está chegando uma frente fria.
Olhando através da clareira, Lilly fica momentaneamente transfixada por toda a atividade. A
área parece um mercado de pulgas repleto de compradores e vendedores, pessoas trocando
suprimentos, empilhando lenha e jogando conversa fora. Pelo menos vinte tendas menores alinham-se
agora na periferia da propriedade, alguns varais de roupa estão amarrados aleatoriamente entre
árvores com peças salpicadas de sangue tiradas dos errantes, nada é desperdiçado, a ameaça do
inverno é uma motivação constante. Lilly vê crianças brincando de pular corda perto de uma carreta,
alguns garotos chutam uma bola de futebol. Ela vê fogo em uma churrasqueira, a névoa de fumaça
flutuando acima do teto dos carros estacionados. O ar está perfumado com gordura de bacon e
fumaça de nogueira, um cheiro que, em outro contexto, poderia sugerir preguiçosos dias de verão,
festas ao ar livre, churrascos no quintal, jogos de futebol americano e reuniões de família.
Uma maré de ódio escuro se eleva em Lilly enquanto ela esquadrinha o alvoroço do pequeno
assentamento. Ela vê as crianças brincando... e os pais trabalhando para fazer o lugar dar certo...
todos eles são comida de zumbi... e de repente Lilly tem uma pontada de clareza... um choque de
realidade.
Ela vê claramente que essas pessoas estão condenadas. Esse grande plano para construir uma
cidade de tendas nos campos da Geórgia não vai dar certo.
___________________
Nota:
* Hooverville era o nome dado às favelas construídas pelos que ficaram sem-teto durante a Grande Depressão, muito comuns em 1920.
DOIS
No dia seguinte, sob um céu cor de estanho, Lilly brinca com as filhas dos Bingham em frente à tenda
de Chad e Donna Bingham, quando um barulho aflitivo ecoa sobre as árvores que acompanham a
estrada de terra de acesso. O som faz metade dos colonos da área se contrair; rostos viram-se em
direção ao barulho de um motor que se aproxima, roncando em marcha lenta.
Pode ser qualquer um. Pela terra flagelada, espalham-se boatos de que bandidos estão pilhando
os vivos, bandos de piratas fortemente armados despojam os sobreviventes de tudo, até dos sapatos
de seus pés. Diversos veículos de colonos estão fazendo reconhecimento para encontrar suprimentos,
mas nunca se sabe.
Lilly levanta o olhar da amarelinha das meninas — os quadrados foram riscados em um
pequeno trecho de barro cor de tijolo sem vegetação —, e as filhas dos Bingham congelam no meio
do pulo. A mais velha, Sarah, lança um olhar para a estrada. Uma moleca magra de jardineira jeans
desbotada e colete acolchoado, com grandes olhos azuis inquisidores, Sarah, de 15 anos, a
inteligente líder das quatro irmãs diz suavemente:
— Isso é...
— Está tudo bem, querida — diz Lilly. — Com certeza é um dos nossos.
As três irmãs mais novas começam a esticar o pescoço, procurando a mãe.
Donna não está à vista, foi lavar roupas em um barril de latão galvanizado atrás da grande
barraca de camping que Chad Bingham carinhosamente ergueu quatro dias antes, equipando-a com
camas de campanha de alumínio, prateleiras para coolers, exaustores e um DVD a pilha com uma
coleção de histórias infantis, como A pequena sereia e Toy Story 2. Ouve-se o som dos passos
arrastados de Donna Bingham contornando a tenda enquanto Lilly reúne as crianças.
— Sarah, pegue a Ruthie — diz Lilly calmamente enquanto o barulho do motor se aproxima, o
vapor de óleo queimado ultrapassa a copa das árvores.
Lilly se levanta e vai rapidamente até as gêmeas. Mary e Lydia, de 9 anos, são querubins
idênticos em casacos iguais e marias-chiquinhas louras. Lilly reúne as pequenas enquanto Sarah pega
Ruthie, de 7 anos — um pequeno e adorável elfo, com cachos a la Shirley Temple pendendo sobre a
gola de seu casaco de esqui em miniatura.
Donna Bingham aparece pela lateral da barraca no momento em que Lilly está levando as
gêmeas para dentro.
— O que está acontecendo? — A mulher tímida com jaqueta de lona dá a impressão de que
pode ser derrubada por um vento forte. — Quem são? É um estranho?
— Nada com que se preocupar — diz Lilly, segurando a aba da tenda enquanto as quatro
meninas entram enfileiradas nas sombras. Desde que o grupo de colonos chegou ali, há cinco dias,
ela se tornou a babá de fato, tomando conta de vários grupos de crianças enquanto os pais saem para
procurar comida ou aproveitam algum tempo a sós. Ela fica contente com a distração bem-vinda,
especialmente agora, que essa função pode fornecer uma desculpa para evitar todo o contato com
Josh Lee Hamilton. — Fique na tenda com as meninas até sabermos quem é.
Com prazer, Donna Bingham se fecha na barraca com as filhas.
Lilly volta-se na direção da estrada e vê a grade de um familiar caminhão International
Harvester de 15 marchas se materializando em meio a uma névoa de fumaça de madeira no fim da
estrada — fazendo a curva entre engasgadas do escapamento —, o que gera uma onda de alívio em
Lilly. Ela sorri, apesar do nervosismo, e começa a ir em direção ao descampado no canto oeste do
campo, que serve como área de carga. O caminhão enferrujado chega pela grama e estremece ao
parar, os três adolescentes que estão na traseira com os engradados amarrados quase caem para a
frente contra a cabine esburacada.
— Lilly Marlene! — grita o motorista pela janela aberta da cabine quando ela contorna a frente
do caminhão. Bob Stookey está com as grandes mãos sujas de graxa — as mãos de um trabalhador —
ao redor do volante.
— O que temos no cardápio hoje? — diz Lilly com um sorriso quase imperceptível. — Mais
Twinkies?
— Ah, hoje temos um banquete completo com todos os acompanhamentos, irmãzinha. — Bob
ergue o rosto profundamente enrugado na direção do grupo na traseira. — Encontramos uma Target
deserta, só tivemos de lidar com alguns errantes... Foi moleza.
— Conte.
— Vejamos... — Bob coloca a marcha em ponto morto e desliga o motor retumbante. Com a
pele da cor de um couro de vaca castanho e olhos caídos margeados de vermelho, Bob Stookey é um
dos últimos homens no Novo Sul que ainda usa pomada para emplastar seu cabelo preto para trás
sobre a cabeça exposta ao clima local. — Pegamos madeira, sacos de dormir, ferramentas, frutas
enlatadas, lanternas, cereais, rádios meteorológicos, pás, carvão... O que mais? Também pegamos um
monte de panelas, alguns pés de tomate... ainda com tomatinhos murchos nos galhos... alguns botijões
de gás, dez galões de leite que só estão fora da validade há algumas semanas, um pouco de
desinfetante para as mãos, Sterno, sabão em pó, chocolates, papel higiênico, um Chia Pet, um livro
sobre cultivo de orgânicos, uma placa com um peixe cantor para minha tenda... enfim, tudo e mais um
pouco.
— Bob, Bob, Bob... nenhuma AK-47? Nem dinamite?
— Trouxe algo ainda melhor, espertinha. — Bob pega um engradado de pêssegos que está no
banco do carona a seu lado. Ele o entrega a Lilly. — Faça o favor de colocar isso na minha tenda
enquanto ajudo esses três palhaços a levar as coisas pesadas.
— O que é isso? — Lilly baixa os olhos para o engradado cheio de potes e frascos de plástico.
— Suprimentos médicos. — Bob abre a porta e sai. — Precisam ser mantidos em segurança.
Lilly repara em algumas garrafas pequenas de bebida enfiadas entre os anti-histamínicos e a
codeína. Ela lança um olhar para Bob.
— Suprimentos médicos?
Ele sorri.
— Sou um homem muito doente.
— Eu que o diga — comenta Lilly. Agora, ela conhece o suficiente do histórico de Bob para
saber que, além de ser uma alma doce, genial, um pouco perdida, e ser ex-paramédico do Exército —
o que o torna o único habitante da cidade de tendas com algum treinamento médico —, também é um
bêbado inveterado.
No começo da amizade deles, quando Lilly e Megan ainda estavam na estrada e Bob as ajudara
a sair de uma enrascada em uma parada de ônibus repleta de zumbis, ele fizera tentativas ineficazes
de esconder o alcoolismo. Mas, quando o grupo se estabelecera naquele pasto abandonado cinco
dias antes, Lilly começara a ajudar Bob a cambalear em segurança para sua tenda à noite, garantindo
que ninguém o roubasse — o que era uma verdadeira ameaça em um grupo tão grande, variado e tão
cheio de tensão. Ela gostava de Bob e não se importava em servir de babá para ele, assim como fazia
com as crianças. Mas isso também acrescentava uma camada adicional de estresse, algo de que Lilly
precisava tanto quanto precisava de uma lavagem intestinal.
Na verdade, naquele momento ela percebeu que ele precisava de mais alguma coisa dela. Ela
sabe disso porque ele está esfregando pensativamente a mão suja na boca.
— Lilly, tem mais uma coisa que eu queria... — Ele se interrompe e engole em seco.
Ela suspira.
— Desembucha, Bob.
— Não é da minha conta... tudo bem. Eu só queria dizer... Ai, droga. — Ele respira fundo. —
Josh Lee, ele é um bom homem. Eu o visito de vez em quando.
— Sim... e?
— Falei por falar.
— Continue.
— Só estou... Olhe... Ele não está muito bem, OK? Acha que você está zangada com ele.
— Ele acha que estou o quê?
— Ele acha que você está chateada com ele por algum motivo, e não sabe qual é.
— O que ele disse?
Bob dá de ombros.
— Não tenho nada com isso. Não sou exatamente íntimo do... Não sei, Lilly. Ele só gostaria
que você não o estivesse ignorando.
— Eu não estou.
Bob olha para ela.
— Tem certeza?
— Bob, é sério...
— Tudo bem. — Bob balança a mão nervosamente. — Olha, não estou lhe dizendo o que fazer.
Só acho que pessoas como vocês, bons amigos... É uma pena uma coisa assim, sabe, em uma época
como esta... — A voz dele some.
Lilly se abranda.
— Eu agradeço por você dizer isso, Bob, de verdade. — Ela baixa os olhos.
Bob contrai os lábios, pensa no assunto.
— Eu o vi hoje mais cedo. Perto da pilha de lenha, cortando madeira como se não houvesse
amanhã.
A distância entre a área de carga e a pilha de lenha é de menos de 100 metros, mas, para Lilly, cruzá-
la parece a marcha da morte de Bataan.
Ela anda lentamente, com a cabeça baixa e as mãos enfiadas nos bolsos do jeans para esconder
o tremor. Ela tem que passar por um grupo de mulheres que seleciona roupas em malas, circundar a
extremidade da tenda de circo, desviar de um grupo de meninos que conserta um skate e evitar um
aglomerado de homens que inspeciona uma fileira de armas espalhadas sobre um cobertor no chão.
Quando passa pelos homens — Chad Bingham está entre eles, no centro das atenções, como um
déspota caipira —, Lilly baixa os olhos para as 11 pistolas sujas, de diferentes calibres, marcas e
modelos, bem arrumadas como talheres em uma gaveta. O par de espingardas de calibre .12 do
Kmart está ali. Apenas 11 pistolas e as espingardas, e uma quantidade limitada de munição — o total
do arsenal dos colonos — interpõem-se como um fino tecido de defesa entre os colonos e a
calamidade.
O pescoço de Lilly se arrepia quando ela passa, o medo queima um buraco em suas entranhas.
O tremor aumenta. Ela se sente febril. A tremedeira sempre foi um problema para Lilly Caul. Ela se
lembra de quando teve que fazer uma apresentação para o comitê de admissão do Georgia Tech. Suas
anotações estavam escritas em fichas, e ela tinha ensaiado durante semanas. Mas, quando se viu
diante dos professores naquela sala de reuniões sufocante na North Avenue, tremeu tanto que deixou
cair o bolo de fichas no chão e travou completamente.
Agora ela sente o mesmo tipo de tensão — elevada a mil — conforme se aproxima da cerca de
tábuas que contorna a extremidade ocidental da propriedade. Ela sente o tremor nos traços de seu
rosto e nas mãos dentro dos bolsos, tão intenso que parece que está prestes a dominar suas juntas e
paralisá-la. “Transtorno de ansiedade crônica”, fora o diagnóstico do médico em Marietta.
Nas últimas semanas, ela experimentou esse tipo de paralisia espontânea imediatamente depois
de ataques dos errantes — um episódio de tremedeira que leva horas para passar —, mas agora uma
sensação de pavor mais intensa a inunda, vinda de algum lugar primitivo e rudimentar. Ela está se
voltando para dentro, encarando a própria alma ferida, desfigurada pela tristeza e pela perda do pai.
Ela se sobressalta ao ouvir o som de um machado acertando a lenha, a atenção se desvia para a
cerca.
Um grupo de homens se aglomera ao redor de uma longa fileira de toras secas. Folhas mortas e
flocos algodoados de choupo rodopiam no vento acima das árvores. O ar cheira a terra molhada e
agulhas de pinheiro. Sombras dançam atrás da vegetação, estimulando o medo de Lilly como um
diapasão em seu cérebro. Ela se lembra de quase ter sido mordida em Macon há três semanas,
quando um zumbi avançou sobre ela saindo de trás de uma caçamba de lixo. Agora, para Lilly, essas
sombras atrás das árvores parecem a passagem atrás da caçamba, podres de ameaças, odor de
decomposição e milagres horríveis — os mortos voltando à vida.
Outro golpe do machado a sobressalta, e ela se volta para a extremidade mais distante da pilha
de lenha.
Josh está com as mangas da camisa arregaçadas, de costas para ela. Uma mancha de suor
oblonga desce pelo tecido de cambraia entre suas enormes omoplatas. Seus músculos se contraem, a
pele se dobra na nuca negra pulsante, ele trabalha em um ritmo uniforme, meneando, golpeando,
puxando, retesando-se, meneando outra vez com um thwack!
Lilly vai até ele e pigarreia.
— Você está fazendo tudo errado — diz ela com uma voz trêmula, tentando manter as coisas
leves e casuais.
Josh congela com a lâmina do machado em pleno ar. Ele se vira e olha para ela, o rosto
esculpido de ébano está perolado de suor. Por um momento, parece ficar em estado de choque, o
brilho em seus olhos denuncia a surpresa.
— Sabe, percebi que alguma coisa não estava indo bem — diz ele finalmente. — Só consegui
cortar umas cem toras em 15 minutos.
— Você está segurando o cabo baixo demais.
Josh sorri.
— Sabia que era algo do gênero.
— Precisa deixar a tora fazer o trabalho por você.
— Boa ideia.
— Quer que eu te mostre?
Josh se afasta para o lado, entrega a ela o machado.
— Assim — diz Lilly, fazendo de tudo para parecer atraente, espirituosa e corajosa.
Mas a tremedeira é tão intensa que a cabeça do machado estremece quando ela faz uma débil
tentativa de cortar uma tora. Ela dá um impulso e a lâmina pega de raspão na madeira, cravando-se
no chão. Ela se esforça para soltá-lo.
— Agora entendi — assente Josh, divertindo-se.
Ele percebe que ela está tremendo, e seu sorriso se desvanece. Josh se aproxima de Lilly e
coloca a enorme mão sobre as dela, que agarram com força o cabo do machado, tentando arrancá-lo
do barro. O toque dele é terno e tranquilizador.
— Tudo vai ficar bem, Lilly — diz ele suavemente.
Ela solta o machado e volta-se para ele. O coração dispara quando ela olha em seus olhos. A
pele fica fria, e ela tenta colocar os sentimentos em palavras, mas tudo o que consegue fazer é
desviar o olhar, envergonhada. Finalmente, consegue encontrar a voz.
— Podemos ir conversar em algum lugar?
— Como você faz isso?
Lilly está sentada de pernas cruzadas no chão sob os enormes galhos de um carvalho, que
salpicam o carpete de folhas emaranhadas ao seu redor com um entrelaçado de sombras. Ela se
reclina contra o gigantesco tronco enquanto fala. Os olhos se mantêm fixos nas copas oscilantes das
árvores, não muito distantes.
Ela está com um olhar perdido que Josh Lee Hamilton já tinha visto algumas vezes no rosto de
veteranos de guerra e enfermeiras de salas de emergência — os olhos em exaustão perpétua, a
aparência abatida dos atordoados, o olhar a mil metros de distância. Josh sente o ímpeto de tomar
aquele corpo esbelto e delicado em seus braços e abraçá-la, acariciar seus cabelos e fazer com que
tudo melhore. Mas de alguma forma ele sente — ele sabe — que não é o momento. Agora é hora de
ouvir.
— Faço o quê? — pergunta ele.
Josh está sentado na frente dela, também com as pernas cruzadas, enxugando a nuca com uma
bandana úmida. Uma caixa de charutos está diante dele, no chão — os últimos de seu decrescente
estoque. Ele quase hesita em fumá-los; uma pontada supersticiosa de que se o fizer estará selando seu
destino.
Lilly levanta os olhos para ele.
— Quando os errantes atacam... como você consegue não ficar... apavorado?
Josh solta um riso cansado.
— Se você descobrir como se faz, vai ter que me ensinar.
Ela o encara por um instante.
— Pare com isso.
— O que foi?
— Está me dizendo que fica apavorado quando atacam?
— Exatamente.
— Ah, por favor. — Ela inclina a cabeça, incrédula. — Você?
— Deixe-me dizer uma coisa, Lilly. — Josh pega o pacote de charutos, tira um e o acende com
seu Zippo. Ele solta a fumaça, pensativo. — Só os idiotas ou os loucos não estão com medo hoje em
dia. Se você não está com medo, não está prestando atenção.
Ela olha para além das fileiras de tendas alinhadas ao longo da cerca de tábuas. Solta um
suspiro aflito. Seu rosto fino está cansado, pálido. Ela parece estar tentando articular pensamentos
que teimam em não colaborar com seu vocabulário. Finalmente, diz:
— Já lido com isso há bastante tempo. Não é algo de que eu me... orgulhe. Acho que estragou
muitas coisas para mim.
Josh olha para ela.
— Do que você está falando?
— Do fator covardia.
— Lilly...
— Não. Escute. Preciso dizer isso. — Ela se recusa a olhar para ele, seus olhos queimam de
vergonha. — Antes desse... surto acontecer... era só meio... inconveniente. Eu perdi algumas coisas.
Estraguei algumas coisas porque sou uma cagona... Mas agora os riscos são... sei lá. Eu poderia
causar a morte de alguém. — Ela finalmente consegue olhar o homem grande nos olhos. — Eu
poderia arruinar completamente as coisas para alguém de quem gosto.
Josh sabe do que ela está falando, e isso deixa seu coração apertado. Desde que colocou os
olhos em Lilly Caul, teve sentimentos que não tinha desde que era adolescente em Greenville —
aquele tipo de fascínio arrebatador que um garoto pode ter pela curva do pescoço de uma garota,
pelo cheiro de seu cabelo, pelo borrifo de sardas sobre a ponte de seu nariz. Sim, de fato, Josh Lee
Hamilton está apaixonado. Mas ele não vai estragar esse relacionamento como estragou tantos outros
antes de Lilly, antes da praga, antes de o mundo ficar tão terrivelmente desolado.
Em Greenville, Josh se apaixonava com uma frequência constrangedora, mas sempre estragava
tudo por se precipitar. Ele se comportava como um grande filhote de cachorro lambendo os
calcanhares delas. Mas não dessa vez. Dessa vez, Josh ia ser esperto... esperto e cuidadoso, dando
um passo de cada vez. Ele pode ser um caipira bobo da Carolina do Sul, mas não é idiota. Está
disposto a aprender com os erros do passado.
Naturalmente solitário, Josh cresceu nos anos 1970, quando a Carolina do Sul ainda se apegava
aos dias fantasmagóricos de Jim Crow, insistindo em tentativas inúteis de integrar suas escolas e
ingressar no século XX. Arrastado de um projeto habitacional caindo aos pedaços para outro, com a
mãe solteira e as quatro irmãs, Josh tirava vantagem de seu tamanho e força providenciais no campo
de futebol americano, jogando pela Mallard Creek High School e visando bolsas de estudo. Mas lhe
faltava a única coisa que impulsionava os jogadores nas escalas acadêmica e socioeconômica:
agressividade pura.
Josh Lee Hamilton sempre fora uma alma bondosa... até demais. Deixava garotos muito mais
fracos implicar com ele. Acatava todos os adultos com “sim, senhora” ou “sim, senhor”.
Simplesmente não tinha garra em si. Por causa de tudo isso, a carreira no futebol americano perdeu
força em meados dos anos 1980. Foi mais ou menos na mesma época em que sua mãe, Raylene, ficou
doente. Os médicos disseram que se chamava “lúpus eritematoso”, e que não era fatal, mas para
Raylene foi uma sentença de morte, uma vida de dor crônica, lesões cutâneas e quase paralisia. Josh
assumiu a responsabilidade de cuidar da mãe (enquanto as irmãs se afastavam, em casamentos ruins e
empregos sem futuro fora do estado). Ele cozinhava, limpava e tomava conta dela, e em poucos anos
estava cozinhando bem o bastante para conseguir emprego em um restaurante.
Tinha um talento natural para a culinária, especialmente no preparo de carnes, e galgou a
hierarquia de cozinhas de steakhouses na Carolina do Sul e na Geórgia. Por volta dos anos 2000,
tornara-se um dos mais cobiçados chefs executivos do sudoeste dos Estados Unidos, supervisionando
grandes equipes de subchefs, cuidando de eventos sociais sofisticados e tendo sua foto publicada na
Atlanta Homes and Lifestyles. E, ao mesmo tempo, conseguia comandar suas cozinhas com gentileza
— uma raridade no mundo dos restaurantes.
Agora, em meio a esses horrores diários, perturbado por todo esse amor não correspondido,
Josh gostaria de cozinhar algo especial para Lilly.
Até agora, eles têm sobrevivido com coisas como ervilhas e carne enlatadas, cereais matinais e
leite em pó — nada que forneça o pano de fundo apropriado para um jantar romântico ou uma
declaração de amor. Toda a carne e todos os produtos frescos da área ficaram para os vermes há
semanas. Mas Josh tinha desejos de pegar um coelho ou um porco selvagem que estivesse vagando
pelos bosques adjacentes. Faria um ragu ou um guisado com cebolas silvestres e alecrim e um pouco
do Pinot Noir que Bob Stookey tinha arranjado naquela loja de bebidas, e Josh serviria a carne com
um pouco de polenta com ervas e acrescentaria outros toques especiais. Algumas mulheres da cidade
de tendas estavam fazendo velas com o sebo que tinham encontrado em um comedouro para pássaros.
Isso seria bom. Velas, vinho, talvez uma pera cozida do pomar para a sobremesa, e Josh estaria
pronto. Os pomares ainda estavam repletos de frutas passadas. Talvez um chutney de maçã com o
porco. Sim. Com certeza. Então Josh estaria pronto para servir o jantar para Lilly e lhe dizer o que
sente por ela, que quer estar com ela, protegê-la e ser seu homem.
— Sei aonde você quer chegar com isso, Lilly — diz Josh, finalmente, batendo o charuto em
uma pedra. — E quero que saiba de duas coisas. Primeiro, o que você fez não é vergonhoso.
Ela baixa os olhos.
— O quê, fugir como um cachorro açoitado quando você estava sendo atacado?
— Ouça, se fosse o contrário, eu teria feito exatamente a mesma coisa.
— Isso é mentira, Josh. Eu nem sequer...
— Deixe-me terminar. — Ele apaga o charuto. — Segundo, eu queria que você fugisse. Você
não me ouviu. Eu gritei para você sair dali. Só um dos martelos estava ao alcance, não faria sentido
nós dois tentarmos lutar contra aquelas coisas. Entendeu o que estou dizendo? Não precisa sentir
nenhuma vergonha do que fez.
Lilly suspira. Ela continua olhando para baixo. Uma lágrima se forma e rola pelo nariz.
— Josh, eu agradeço pelo que está tentando...
— Somos um time, não é? — Ele se abaixa para poder ver o lindo rosto dela. — Não é?
Ela assente.
— A dupla dinâmica, não é?
Outro aceno.
— É.
— Uma máquina bem lubrificada.
— É. — Ela enxuga o rosto com as costas da mão. — É, está bem.
— Então vamos continuar assim. — Ele joga a bandana úmida para ela. — Combinado?
Ela olha para o pano em seu colo, o pega, olha para ele e consegue dar um sorriso.
— Jesus Cristo, Josh, isto aqui está muito nojento.
***
Três dias se passam na cidade de tendas sem qualquer tipo de ataque. Apenas alguns poucos
incidentes perturbam a calma. Certa manhã, um grupo de crianças topa com um torso trêmulo em uma
vala de escoamento paralela à estrada. Seu rosto cinzento e carcomido está virado para as copas das
árvores em uma perpétua agonia de grunhidos, a coisa parece ter se enroscado recentemente em uma
segadora mecânica, e tem cotos dilacerados onde ficavam os braços e as pernas. Ninguém consegue
entender como a coisa sem membros chegou ali. Chad mata a criatura com um único golpe da
machadinha sobre o osso nasal apodrecido. Em outra ocasião, nos banheiros comunitários, um
colono mais velho percebe, com horror de parar o coração, que em sua ida vespertina ao banheiro
acabou cagando involuntariamente em um zumbi. De alguma forma, o errante ficou preso na vala de
esgoto. A coisa é facilmente despachada por um dos homens mais jovens com um único golpe de uma
cavadeira manual.
Mas esses acabam sendo encontros isolados, e a semana progride tranquilamente.
A pausa dá aos habitantes tempo para se organizar, terminar de erguer os últimos abrigos,
guardar suprimentos, explorar as adjacências, criar uma rotina e formar coalizões, panelinhas e
hierarquias. As famílias — dez ao todo — parecem ter mais peso no processo de tomada de decisões
do que os solteiros. Algo a respeito de se ter mais em risco, da necessidade de proteger os filhos,
talvez até do simbolismo de carregar as sementes genéticas do futuro — tudo isso contribui para uma
espécie de superioridade tácita.
Entre os patriarcas das famílias, Chad Bingham aparece como o líder de fato. A cada manhã,
conduz as reuniões comunitárias dentro da tenda de circo, distribuindo tarefas com a autoridade
despreocupada de um chefe da máfia. Todos os dias, caminha empertigado pelas margens do campo
com seu rapé aparecendo audaciosamente sob a bochecha e a pistola totalmente à mostra. Com a
aproximação do inverno, e os barulhos perturbadores atrás das árvores à noite, Lilly se preocupa
com essa imitação de testa de ferro. Chad tem ficado de olho em Megan, que está tendo um caso com
um dos outros pais diante dos olhos de todos, inclusive da mulher grávida do homem. Lilly teme que
toda a aparência de ordem desse lugar repouse sobre um barril de pólvora.
A tenda de Lilly e a de Josh ficam a meros 10 metros uma da outra. Todas as manhãs, ela
acorda e senta diante da abertura de sua barraca, olhando para a tenda de Josh, bebendo o café
instantâneo e tentando decifrar seus sentimentos pelo homem grande. O ato covarde ainda a
atormenta, a assombra, envenena seus sonhos. Ela tem pesadelos com a porta dobrável ensanguentada
daquele ônibus desgarrado emAtlanta, mas agora, em vez do pai sendo devorado, escorregando pelo
vidro manchado, Lilly vê Josh.
Seus olhos acusadores sempre a acordam com um sobressalto e suor frio encharcando as
roupas de dormir.
Nessas noites atormentadas por pesadelos, fica deitada sem conseguir pegar no sono no saco de
dormir bolorento, com os olhos fixos no teto mofado de sua minúscula tenda — ela adquiriu a tenda
triangular usada em uma incursão a uma área KOA de camping deserta, e ela fede a fumaça, sêmen
seco e cerveja choca — ela inevitavelmente ouve os barulhos. Tênues na distante escuridão além da
colina atrás das árvores, os sons se misturam ao vento, os grilos e a folhagem farfalhante: estalos
estranhos, barulhos espasmódicos de algo se arrastando que lembram a Lilly sapatos velhos girando
e batendo dentro de uma secadora.
Em sua imaginação transformada pelo terror, os barulhos distantes conjuram imagens de
terríveis fotos forenses em preto e branco, corpos mutilados, escurecidos pelo rigor mortis, e mesmo
assim ainda se movendo, rostos mortos voltando-se e olhando para ela, pequenos filmes macabros de
cadáveres dançando freneticamente como rãs em uma frigideira quente. Deitada e insone a cada
noite, Lilly rumina sobre o que os barulhos podem de fato significar, o que está acontecendo lá e
quando virá o próximo ataque.
Alguns dos colonos mais previdentes vêm desenvolvendo teorias.
Um jovem de Athens chamado Harlan Steagal, um estudante de graduação meio nerd com
óculos de armações de tartaruga grossas, começou a presidir saraus de filosofia ao redor da fogueira.
Com os cérebros ligados pela pseudoefedrina, pelo café instantâneo e pela maconha de má
qualidade, a cerca de meia dúzia de desajustados tenta encontrar respostas para as questões
imponderáveis que atormentam a todos: as origens da praga, o futuro da humanidade e, talvez a
questão mais oportuna de todas, os padrões de comportamento dos errantes.
O consenso entre esses experts é que só existem duas possibilidades: (a) zumbis não têm
instinto, propósito ou padrão comportamental além da alimentação involuntária. São apenas
terminações nervosas com dentes, esbarrando uns nos outros como máquinas letais que simplesmente
precisam ser “desligadas”. Ou (b) está em ação um padrão comportamental complexo que nenhum
sobrevivente conseguiu decifrar ainda. Esta hipótese levanta a questão de como a praga é transmitida
dos mortos para os vivos — é somente por meio da mordida de um errante? — assim como questões
de comportamento de manada, de possíveis curvas de aprendizagem pavlovianas e, em uma escala
ainda maior, imperativos genéticos.
Em outras palavras, no jargão de Harlan Steagal: “Será que essas coisas mortas estão, tipo,
tramando alguma parada evolucionária estranha, fodida e louca?”
Lilly entreouve muitas dessas divagações nesses três dias e presta pouca atenção. Não tem
tempo para conjecturas ou análises. Quanto mais tempo a cidade de tendas fica sem ser atacada pelos
mortos, mais Lilly se sente vulnerável, apesar das precauções de segurança. Com a maioria das
tendas montada e uma barricada de veículos estacionados ao redor da periferia da clareira, as coisas
se acalmaram. As pessoas se acomodaram, se isolaram, e as poucas fogueiras ou fogareiros usados
para as refeições são logo apagados por medo de que a fumaça ou os odores atraiam intrusos
indesejados.
Mesmo assim, Lilly fica extremamente nervosa todas as noites. Parece que uma frente fria está
chegando. O céu noturno fica cristalino e sem nuvens, uma nova geada se forma a cada manhã no
chão batido, nas cercas e nas lonas das tendas. O frio crescente reflete a sombria intuição de Lilly.
Algo terrível parece estar a ponto de acontecer.
Uma noite, antes de ir dormir, Lilly Caul pega um pequeno calendário com capa de couro em
sua mochila. Nas semanas seguintes ao advento da praga, a maioria dos dispositivos pessoais falhou.
A rede elétrica caiu, baterias sofisticadas se esgotaram, provedores de serviços desapareceram e o
mundo retrocedeu aos fundamentos: tijolos, argamassa, papel, fogo, carne, sangue, suor e, sempre que
possível, combustão interna. Lilly sempre foi uma garota analógica — sua casa em Marietta está
repleta de discos de vinil, rádios antigos, relógios a corda e primeiras edições enfiadas em todos os
cantos —, então ela naturalmente começa a acompanhar os dias da praga no pequeno fichário preto
com o logo desbotado do American Family Insurance gravado em dourado na capa.
Nesta noite, ela coloca um grande X no quadrado marcado quinta-feira, 1º de novembro.
O dia seguinte é 2 de novembro — o dia em que seu destino, assim como o de muitos outros,
mudará irrevogavelmente.
A sexta-feira amanhece limpa e terrivelmente fria. Lilly acorda logo depois do nascer do sol,
tremendo em seu saco de dormir, com o nariz entorpecido de frio. As juntas doem quando veste
apressadamente as camadas de roupa. Ela se obriga a sair da tenda, fechando o zíper do casaco e
olhando para a tenda de Josh.
O homenzarrão já está de pé, parado ao lado de sua tenda, alongando a sólida circunferência.
Embrulhado em um suéter de lã de aran e um colete acolchoado puído, ele se vira, vê Lilly e diz:
— Frio bastante para você?
— Qual é a próxima pergunta idiota? — diz ela, indo até a tenda dele para pegar a garrafa
térmica de café instantâneo que Josh segura na enorme mão enluvada.
— Esse tempo deixou as pessoas em pânico — diz ele suavemente, entregando a garrafa
térmica. Com a cabeça, indica três caminhões ligados ao longo da estrada que cruza a clareira. Sua
respiração sai em lufadas de vapor enquanto fala. — Vários colonos estão indo para o bosque,
reunindo a maior quantidade de lenha que pudermos carregar.
— Vou também.
Josh balança a cabeça.
— Falei com Chad ainda agora, acho que ele precisa que você olhe as filhas dele.
— Está bem. Claro. Tanto faz.
— Fique com isso — diz Josh, indicando a garrafa térmica com um gesto. Ele pega o machado
que está apoiado em sua tenda e sorri para ela. — Devo estar de volta na hora do almoço.
— Josh — diz ela, segurando sua manga antes que ele vire as costas. — Tenha cuidado no
bosque.
O sorriso dele se abre.
— Sempre, boneca... sempre.
Ele se vira e se afasta em direção às nuvens de fumaça de escapamento visíveis na estrada de
cascalho.
Lilly observa o contingente entrando em cabines, pulando sobre estribos, subindo em caçambas.
Ela não se dá conta, neste momento, da quantidade de barulho que estão fazendo, a comoção causada
pelos três grandes caminhões embarcando ao mesmo tempo, as vozes chamando outras pessoas,
portas batendo, a densa fumaça de dióxido de carbono.
Em toda essa empolgação, nem Lilly nem ninguém percebe que a algazarra da partida está
ultrapassando as copas das árvores.
Lilly pressente o perigo primeiro.
Os Bingham a deixaram dentro da tenda do circo cuidando das quatro meninas, que agora
brincam sobre o chão de grama batida, correndo entre mesas dobráveis, pilhas de caixas de pêssegos
e botijões de gás. O interior da tenda de circo é iluminado por claraboias improvisadas — abas no
teto puxadas para baixo, de forma a deixar entrar a luz do dia —, e o ar ali dentro cheira a mofo e
décadas de feno embolorado impregnado nas paredes. As garotas estão brincando de dança da
cadeira com três velhas cadeiras de jardim dispostas sobre o chão de terra frio.
Lilly tem que providenciar a música.
— Duh-do-do-do... duh-da-da-da — canta indiferentemente Lilly, murmurando um velho
sucesso Top 40 do The Police, com a voz fina e fraca, enquanto as garotas riem e rodeiam as
cadeiras.
Lilly está distraída. Não para de olhar na direção de uma das extremidades do pavilhão através
da entrada de carga, uma grande faixa da cidade de tendas é visível na luz acinzentada do dia. O
terreno está praticamente deserto, aqueles que não saíram para procurar suprimentos estão
escondidos em suas tendas.
Lilly engole seu terror, o sol frio cai enviesado por entre as árvores distantes, o vento sussurra
através da grande tenda. Sobre a colina, sombras dançam na luz fraca. Lilly acha que está ouvindo
barulhos arrastados em algum lugar lá, talvez atrás das árvores; ela não tem certeza. Pode ser sua
imaginação. Dentro da tenda esvoaçante e vazia, os sons enganam os ouvidos.
Ela vira as costas para a abertura e esquadrinha o pavilhão em busca de armas. Vê uma pá
encostada contra um carrinho de mão cheio de terra adubada. Depois algumas ferramentas de
jardinagem em um balde sujo. Vê os restos do café da manhã em uma lata de lixo plástica — pratos
de papel encrostados de feijões e ovos, embalagens de burrito amassadas, caixas vazias de suco — e
ao lado um recipiente plástico com talheres sujos. Os talheres vieram de uma das picapes adaptadas
com uma camper, e Lilly repara que há algumas facas afiadas no recipiente, mas basicamente vê
garfos de plástico arredondados sujos de comida. Ela se pergunta quão efetivo seria um desses
garfos contra um monstruoso canibal salivante.
Ela xinga em silêncio os líderes do campo por não deixar armas de fogo.
Entre os que permaneceram na propriedade incluem-se os colonos mais velhos — o Sr.
Rhimes, algumas solteironas de Stockbridge, um professor aposentado de 80 anos chamado O’Toole,
dois irmãos idosos de um asilo abandonado em Macon — e algumas mulheres adultas, boa parte
delas ocupada demais lavando roupas e batendo papos filosóficos ao longo da cerca dos fundos para
perceber qualquer coisa estranha.
Além dessas pessoas, as únicas almas presentes na cidade de tendas neste momento são as
crianças — dez grupos — algumas ainda aconchegadas contra o frio em suas tendas particulares,
outras chutando uma bola de futebol em frente à casa de fazenda abandonada. Cada bando de crianças
é vigiado por uma mulher adulta.
Lilly olha pela saída e vê Megan Lafferty, bem distante, empoleirada na varanda da casa
queimada, fingindo estar de babá, e não fumando maconha. Lilly balança a cabeça. Megan devia estar
olhando os filhos dos Hennessey. Jerry Hennessey, um vendedor de seguros de Augusta, está tendo
um caso com Megan há dias, de um jeito não muito discreto. Os filhos dos Hennessey são os
segundos mais novos do acampamento — com idades de 8, 9 e 10 respectivamente. As crianças mais
novas do assentamento são as gêmeas Bingham e Ruthie, que neste momento pausam a brincadeira
para olhar impacientemente para a nervosa babá.
— Anda logo, Lilly — grita Sarah Bingham, com as mãos nos quadris, recuperando o fôlego ao
lado de uma pilha de engradados de frutas. A adolescente usa um adorável suéter imitação de angorá
que parte o coração de Lilly. — Continue cantando.
Ela se volta para as crianças.
— Desculpe, querida, eu só...
Lilly se interrompe. Ela ouve um barulho vindo de fora da tenda, das árvores. Parece o rilhar
da amurada de um navio virado... ou o lento ranger de uma porta em uma casa assombrada... ou, mais
provavelmente, o peso do pé de um zumbi sobre um tronco caído.
— Meninas, eu...
Outro som interrompe as palavras de Lilly. Ela se volta para a abertura da tenda ao ouvir um
farfalhar ressoando a 100 metros de distância no leste, despedaçando a quietude, vindo de uma moita
de rosas silvestres e cornisos.
Um bando de pombos alça voo repentinamente, saindo da folhagem com a inércia de uma
exibição de fogos de artifício. Lilly observa, transfixada por um único instante, quando a revoada
enche o céu com uma constelação de borrões pretos e cinzentos.
Como explosões controladas, ao longo da extremidade mais distante do campo, outras duas
revoadas de pombos emergem. Cones de partículas esvoaçantes perfuram a luz, dispersando-se e se
reagrupando como nuvens de tinta flutuando em uma piscina transparente.
Os pombos são abundantes nesta área — “ratos do céu”, como são chamados pelos locais, que
afirmam que eles são deliciosos quando desossados e grelhados —, mas a repentina aparição nas
últimas semanas ganhou um significado mais sombrio e perturbador do que uma possível fonte de
alimento.
Algo espantou os pássaros de seu local de repouso e agora está se dirigindo para a cidade de
tendas.
TRÊS
— Meninas, prestem atenção. — Lilly vai rapidamente até a filha mais nova dos Bingham e a pega no
colo. — Vocês precisam vir comigo.
— Por quê? — Sarah demonstra a Lilly o patenteado mau humor adolescente. — O que está
acontecendo?
— Não discuta comigo, querida, por favor — diz Lilly suavemente, e seu olhar endireita a
adolescente com o poder de um aguilhão para gado.
Sarah se vira depressa e pega as gêmeas pelas mãos, depois começa a encaminhá-las para a
saída.
Lilly para repentinamente no meio da abertura da tenda quando vê o primeiro zumbi sair das
árvores a 40 metros de distância — um homem grande e careca com o couro cabeludo roxo e olhos
que parecem vidro leitoso. De repente, Lilly está empurrando as crianças para dentro do pavilhão,
apertando Ruthie nos braços e dizendo entredentes:
— Mudança de planos, meninas, mudança de planos. — Lilly impele rapidamente as crianças
de volta para a luz fraca e o ar bolorento da tenda de circo vazia. Ela coloca a menina de 7 anos no
capim emaranhado ao lado de um baú de viagem. — Fiquem quietas — sussurra Lilly.
Sarah está com uma gêmea de cada lado, o rosto adolescente aterrorizado e os olhos
arregalados.
— O que está acontecendo?
— Fique aqui e faça silêncio. — Lilly corre novamente para a abertura da tenda e luta com a
enorme aba, que está amarrada com cordas a 3 metros de altura. Ela puxa as cordas até a aba da
tenda cair sobre o vão.
O plano original — que passou instantaneamente pela mente de Lilly — era esconder as
crianças em um veículo, de preferência um que estivesse com as chaves ainda na ignição, para o caso
de precisar fazer uma fuga rápida. Mas agora, Lilly só consegue pensar em se encolher
silenciosamente no pavilhão vazio e torcer para que os outros colonos escapem ao ataque.
— Agora vamos brincar de um jogo diferente — diz Lilly quando volta para perto das meninas
amontoadas.
Um grito reverbera de algum lugar, do outro lado da propriedade. Lilly tenta estancar seu
tremor, e uma voz ressoa em sua cabeça, Que droga, sua vaca idiota, você precisa ter coragem uma
vez na vida, por essas crianças.
— Um jogo diferente, isso, isso, um jogo diferente — diz Sarah, com os olhos cintilando de
medo. Agora ela sabe o que está acontecendo. Ela aperta as mãozinhas de suas irmãs gêmeas e segue
Lilly para o espaço entre duas pilhas altas de engradados de frutas.
— Vamos brincar de esconde-esconde — diz Lilly para a pequena Ruthie, que está muda de
pavor. Lilly coloca as quatro meninas nas sombras atrás dos engradados, cada uma das crianças se
agacha e ofega. — Precisamos ficar totalmente imóveis... e muito, muito, muito quietas. Está bem?
A voz de Lilly parece reconfortá-las temporariamente, embora até a mais nova já saiba que
aquilo não é um jogo, não é faz de conta.
— Volto logo — sussurra Lilly para Sarah.
— Não! Espere! NÃO, NÃO VÁ! — Sarah agarra a jaqueta acolchoada de Lilly, segurando
com todas as suas forças. Os olhos da adolescente estão suplicantes.
— Só vou pegar uma coisa do outro lado da tenda, não estou indo embora.
Lilly se solta e engatinha rapidamente através do carpete de capim comprimido até a pilha de
baldes perto da longa mesa central. Ela pega a pá que está apoiada contra o carrinho de mão, depois
rasteja de volta para o esconderijo.
Durante esse tempo, sons terríveis se sobrepõem e crescem do lado de fora do pavilhão batido
pelo vento. Outro grito atravessa o ar, seguido por passos frenéticos, e então o som de um machado
sendo enterrado em um crânio. Lydia choraminga, Sarah a acalma, e Lilly se agacha diante das
meninas, com a visão borrada de terror.
O vento gelado agita a barra das paredes da tenda, e por um breve instante, por um vão
momentâneo, Lilly vê de relance o ataque em progresso. Pelo menos duas dúzias de errantes —
apenas seus pés enlameados são visíveis, arrastando-se como uma brigada de vítimas de derrame —
convergem para o campo coberto de tendas. Os sobreviventes, a maioria mulheres e velhos, fogem
correndo em todas as direções.
O espetáculo do ataque distrai temporariamente Lilly do barulho atrás das meninas.
Um braço ensanguentado aparece sob a aba da tenda a apenas alguns centímetros das pernas de
Sarah.
Sarah grita quando uma mão morta agarra seu tornozelo, cravando as unhas enegrecidas como
garras. O braço está esburacado e retalhado, envolvido pela manga rasgada de um terno fúnebre, e a
garota convulsiona em choque. Agindo por instinto, a adolescente se arrasta para longe — a força de
seu movimento puxa o resto do zumbi para dentro da tenda.
O coro dissonante de gritos e guinchos das irmãs ressoa enquanto Lilly se põe de pé segurando
com força a pá nas mãos suadas. O instinto assume o controle, Lilly corre e ergue a pá no alto. O
homem morto morde o ar com fúria enquanto a adolescente se contorce e rasteja pelo chão frio,
soltando gemidos indistintos de terror, arrastando consigo o zumbi.
Antes que os dentes apodrecidos tenham uma chance de penetrar, Lilly desce a pá com força no
crânio do zumbi, e o impacto faz um barulho seco como o toque de um gongo quebrado. A vibração
da ruptura do crânio chega até os pulsos de Lilly e a faz estremecer.
Sarah se livra dos dedos frios e consegue se levantar.
Lilly desce a pá outra vez... e mais outra... enquanto o ferro ressoa com um estrondo seco de
sino de igreja e a coisa morta se esvazia em um fluxo preto rítmico de sangue arterial e massa
cinzenta podre. No quarto golpe, o crânio cede com um som aquoso de rachadura, e a espuma preta
borbulha pela grama batida.
Nesse momento, Sarah já se juntou às irmãs, que se agarram umas às outras, de olhos
arregalados e choramingando de horror enquanto recuam em direção à saída, a grande aba de lona
oscila sonoramente ao vento atrás delas.
Lilly vira as costas para o cadáver destroçado com o terno risca de giz em frangalhos e vai em
direção à abertura a 6 metros de distância, quando de repente fica paralisada, agarrando a manga de
Sarah.
— Espere, Sarah, espere... ESPERE!
Do outro lado da tenda de circo, o vento levanta a gigantesca aba da lona, revelando ao menos
uma dúzia de errantes se aglomerando na saída. Eles se arrastam espasmodicamente para dentro da
tenda — todos adultos, tanto homens quanto mulheres, vestidos com roupas rasgadas e salpicadas de
sangue, formando um estranho agrupamento — com os olhos velados e carcomidos fixos nas meninas.
— Por aqui! — Lilly puxa Sarah em direção à extremidade oposta da tenda de circo, a uns 45
metros de distância, e Sarah pega a irmã menor no colo. As gêmeas correm atrás delas, escorregando
na grama molhada e batida. Lilly aponta para o fundo da parede de lona, agora a 30 metros, e sem
fôlego sussurra:
— Vamos passar por baixo da tenda.
Elas estão na metade do percurso até a parede oposta quando outro errante surge em seu
caminho.
Aparentemente, esse cadáver magro e mutilado usando uma jardineira jeans desbotada — com
metade do rosto arrancada em uma explosão destroçada de carne e dentes — entrou por baixo da
lona e vai diretamente para Sarah. Lilly se coloca entre o zumbi e a garota e meneia a pá com toda a
força, colidindo-a contra o crânio mutilado e fazendo a coisa cambalear para o lado.
O zumbi se choca contra o pilar central, e a simples inércia do peso morto desloca a viga.
Tirantes estalam. Ouve-se um estrépito, como o de um navio atravessando o gelo, e três das quatro
garotas Bingham soltam gritos desesperados quando a imensa grande cobertura desaba sobre si
mesma, estraçalhando os pilares menores como se fossem palitos de fósforo e arrancando estacas do
chão a sua volta. O teto cônico afunda como um imenso suflê.
A tenda cai sobre as garotas e o mundo se torna escuro, abafado e repleto de movimentos
serpenteantes.
Lilly empurra o tecido pesado e luta para se orientar, ainda segurando a pá. A lona a oprime
com o peso repentino de uma avalanche. Ouve os gritos abafados das crianças e vê a luz do dia a 15
metros de distância. Ela se desloca na diagonal sob a tenda em direção à luz, com a pá em uma das
mãos.
Finalmente, ela roça um dos pés contra o ombro de Sarah. Lilly grita:
— Sarah! Segure a minha mão! Pegue as garotas com a outra e PUXE!
Nesse ponto, para Lilly, a passagem do tempo, como geralmente acontece durante catástrofes,
começa a ficar lenta, pois várias coisas acontecem quase simultaneamente. Ela chega ao final da
tenda e se desvencilha da lona murcha. O vento e o frio a despertam, ela puxa Sarah para fora com
toda a força, e duas das outras meninas são arrastadas para fora com Sarah — suas vozes estão
agudas como chaleiras fervendo.
Lilly fica de pé e ajuda Sarah a se levantar com as duas outras meninas.
Uma das garotas — Lydia, a mais nova das gêmeas por “uma boa meia hora”, como diz Sarah
— está desaparecida. Lilly empurra as outras garotas para longe da tenda e lhes diz para não se
aproximar, mas ficar por perto. Então Lilly volta-se para a tenda e vê algo que para seu coração.
Formas movem-se sob a tenda de circo caída. Lilly larga a pá. Ela observa. Suas pernas e
espinha se transformam em blocos de gelo. Ela não consegue respirar. Só consegue fixar os olhos na
pequena protuberância no tecido agitando-se desesperadamente a 6 metros de distância — a pequena
Lydia, lutando para escapar — o som dos gritos da criança são amortecidos pela lona.
A pior parte — a parte que enclausura Lilly Caul em gelo — é a visão de outras
protuberâncias abrindo caminho firmemente, como toupeiras, em direção à menina.
Nesse momento, o medo estoura um fusível no cérebro de Lilly, o fogo purificador da raiva
percorre seus tendões e vai até a medula.
Ela entra em ação, a explosão de adrenalina a leva até a margem da tenda caída, o combustível
da raiva impele seus músculos. Ela levanta a lona sobre a cabeça, agachando-se e tentando pegar a
garota.
— LYDIA, QUERIDA, ESTOU BEM AQUI!! VENHA ATÉ MIM, QUERIDA!!
Na escuridão turva e difusa sob a lona, Lilly vê a pequena menina loura a menos de 5 metros de
distância, chutando e lutando para escapar da tenda. Lilly grita novamente e mergulha sob a lona,
estica a mão e segura uma parte do macacão da garotinha. Lilly puxa com toda a força.
É nesse momento que ela vê o braço dilacerado e o rosto azulado sem sangue aparecendo no
escuro a apenas alguns centímetros da criança, tentando às cegas agarrar seu tênis da Hello Kitty. As
unhas pontiagudas e apodrecidas agarram a sola do sapato bem na hora em que Lilly consegue puxar
a menina de 9 anos para fora das pregas do tecido fétido.
Lilly e a menina caem para trás na fria luz do dia.
Elas rolam alguns metros, e Lilly consegue segurá-la em um forte abraço.
— Está tudo bem, querida, está tudo bem, peguei você, você está a salvo.
A menina soluça e ofega, mas não há tempo para reconfortá-la. O rumor de vozes e tendas
farfalhando se eleva ao redor delas enquanto o acampamento é atacado.
Lilly, ainda de joelhos, faz um gesto para que as outras garotas se aproximem.
— Está bem, meninas, prestem atenção, ouçam, agora vamos precisar ser rápidas, ficar juntas e
fazer exatamente o que eu disser. — Lilly está ofegante quando se levanta. Ela pega a pá, vira-se e vê
o caos se espalhando pela cidade de tendas.
Mais errantes desceram para o campo. Alguns deles andam em grupos de três, quatro ou cinco,
grunhindo e babando com uma fome violenta e selvagem.
Entre gritos e pandemônio — colonos fugindo em todas as direções, motores de carro sendo
ligados, machados oscilando, cordas de roupa caindo —, algumas das tendas estremecem com
violentas lutas sendo travadas do lado de dentro, os atacantes entranham-se através de aberturas,
encontrando os habitantes paralisados. Uma das tendas menores cai para o lado, pernas aparecem se
debatendo em uma das extremidades. Outra barraca estremece em um frenesi alimentar, as paredes de
náilon translúcido exibem silhuetas de sangue, como borrões de tinta.
Lilly vê um caminho desimpedido que leva até uma fileira de carros estacionados a 50 metros
de distância e vira-se para as garotas.
— Preciso que todas vocês me sigam... OK? Fiquem bem juntas e não deem um pio. Está bem?
Após uma série de acenos frenéticos e silenciosos de cabeça, Lilly puxa as garotas pelo
terreno... e para dentro do conflito.
Os sobreviventes dessa inexplicável praga aprenderam rapidamente que a maior vantagem que um
humano tem sobre um cadáver reanimado é a velocidade. Sob as circunstâncias certas, um humano
consegue escapar até mesmo do mais vigoroso defunto ambulante. Mas a superioridade física é
anulada diante de uma horda. O perigo aumenta exponencialmente com cada zumbi adicional... até
que a vítima é engolida em um lento tsunami de dentes pontiagudos e garras enegrecidas.
Lilly descobre essa dura realidade ao se dirigir para o primeiro carro estacionado.
O Chrysler 300 danificado e manchado de sangue seco com um compartimento de bagagens no
teto está no acostamento da estrada de acesso a menos de 50 metros da tenda de circo, inclinado à
sombra de uma alfarrobeira. As janelas estão fechadas, mas Lilly ainda tem motivos para acreditar
que elas podem pelo menos ficar ali dentro, se não conseguir ligar o carro. Há 50% de chances de as
chaves estarem na ignição. As pessoas têm deixado as chaves nos carros há algum tempo, para fugas
rápidas.
Infelizmente, a propriedade agora está repleta de mortos, e Lilly e as meninas mal conseguem
atravessar 10 metros de grama cheia de ervas daninhas antes de vários atacantes aparecerem em cada
flanco.
— Fiquem atrás de mim! — grita Lilly para suas protegidas, e gira a pá no ar.
O ferro corroído golpeia a bochecha manchada de uma mulher com o penhoar salpicado de
sangue, fazendo a errante resvalar sobre dois zumbis com jardineiras sujas, que caem no chão como
pinos de boliche. Mas a mulher continua de pé. Cambaleia com o golpe, agita os braços por um
momento, e depois volta.
Lilly e as meninas se aproximam mais 15 metros do Chrysler quando outra bateria de zumbis
bloqueia seu caminho. A pá zune pelo ar, despedaçando o nariz de um errante mais novo. Outro golpe
atinge a mandíbula de uma mulher morta que usa um imundo casaco de pele de marta. Mais um golpe
racha o crânio de uma velha corcunda com os intestinos aparecendo através de sua bata hospitalar,
mas a velha morta apenas cambaleia e recua.
Finalmente, as garotas chegam ao Chrysler. Lilly tenta abrir a porta do passageiro e vê que está
— felizmente — destrancada. Delicada, mas rapidamente, ela empurra Ruthie para o banco da frente
enquanto a horda de errantes cerca o sedan. Lilly vê as chaves pendendo da ignição na base do
volante — outro golpe de sorte.
— Fique no carro, querida — diz Lilly para a menina de 7 anos, e bate a porta.
Nesse ponto, Sarah chega à porta de trás do lado do passageiro com as gêmeas.
— SARAH, CUIDADO!
O grito agudo de Lilly ultrapassa o rumor primitivo de grunhidos que preenche o ar, quando
cerca de uma dúzia de mortos assomam atrás de Sarah. A adolescente abre a porta de trás com um
puxão, mas não tem tempo para colocar as gêmeas dentro do carro. As duas garotas menores
tropeçam e se estatelam no capim.
Sarah solta um lamento primitivo. Lilly tenta se colocar entre a adolescente e os atacantes com
a pá, e consegue espatifar outra cabeça — o imenso crânio de um homem negro putrefato com uma
jaqueta de caça —, fazendo o agressor cambalear para trás até cair sobre o capim. Mas há errantes
demais agora, chegando de todas as direções para comer.
No caos resultante, as gêmeas conseguem rastejar para dentro do carro e bater a porta.
Com a sanidade a ponto de ceder e os olhos cheios de raiva ardente, Sarah vira-se e solta um
grito ininteligível quando tira de seu caminho um errante lento. Ela encontra uma brecha, passa por
ela aos empurrões e foge.
Lilly vê a adolescente correndo em direção à tenda de circo.
— SARAH, NÃO!
Sarah chega até a metade do campo antes que uma horda impenetrável de zumbis a encurrale,
bloqueando seu caminho, agarrando-se às suas costas e subjugando-a. Ela cai com força, de boca,
enquanto mais mortos enxameiam ao redor. A primeira mordida penetra o suéter imitação de angorá
na altura do diafragma, arrancando um pedaço do torso e provocando um grito ensurdecedor. Dentes
em decomposição afundam em sua jugular. A maré escura de sangue a encobre.
A 25 metros de distância, perto do carro, Lilly repele uma massa crescente de dentes rangendo
e carne morta. Talvez vinte errantes ao todo — a maioria exibindo a grotesca adrenalina do frenesi
alimentar enquanto cerca o Chrysler —, com bocas enegrecidas movendo-se e estalando vorazmente,
enquanto atrás das janelas manchadas de sangue os rostos de três garotinhas observam catatônicas de
horror.
Lilly balança a pá sem parar — seus esforços são inúteis contra a horda crescente — enquanto
as engrenagens do cérebro se paralisam, torturadas pelos terríveis sons da morte de Sarah no chão do
outro lado da propriedade. Os gritos da adolescente se deterioram e engrolam em uma série de
guinchos tênues. Pelo menos meia dúzia de errantes está sobre ela agora, escavando, mastigando e
rasgando seu abdômen transbordante. O sangue se derrama de seu vulto trêmulo.
Na fileira de carros, Lilly sente um frio na barriga ao bater com a pá em outra cabeça. A mente
crepita e palpita de terror, fixada em um único objetivo: Afastá-los do Chrysler.
A silenciosa urgência dessa única necessidade — afastá-los das crianças — reanima Lilly e
lança um choque de energia que percorre sua espinha. Ela se vira e golpeia a pá contra o para-lama
da frente do Chrysler.
O estrondo ressoa. As crianças dentro do carro se sobressaltam. Os rostos azulados lívidos dos
mortos se voltam para o barulho.
— VENHAM! VENHAM!! — Lilly se afasta correndo do Chrysler, indo em direção ao carro
mais próximo na aleatória fileira de veículos, um Ford Taurus velho com uma janela coberta de
papelão, e golpeia o teto com o máximo de força que consegue, causando outro estrondo metálico que
chama atenção de mais mortos.
Lilly dispara em direção ao carro seguinte na fila e bate com a pá contra o para-lama frontal do
lado esquerdo, emitindo outro baque surdo.
— VENHAM!! VENHAM!! VENHAM!!
A voz de Lilly se eleva sobre o clamor como o ganido de um animal doente, afinado pelo
terror, áspero de trauma, sem tom, com um toque de loucura. Ela bate com a pá em carro após carro,
sem saber exatamente o que está fazendo, sem o controle de suas ações. Mais zumbis percebem, os
movimentos preguiçosos e desajeitados são atraídos para o barulho.
Lilly leva apenas segundos para chegar ao fim da fileira de veículos, batendo com a pá contra o
último deles — mas nesse ponto a maior parte dos atacantes atendeu a seu estridente chamado, e
agora, lentamente, estupidamente, desajeitadamente vagueiam em direção ao som de seus gritos
traumatizados.
Os únicos errantes que restam são os seis que continuam a devorar Sarah Bingham no chão da
clareira perto da grande ondulante tenda de circo.
— VENHAM!! VENHAM!! VENHAM!! VENHAM!! VENHAM!! VENHAM!! VENHAM!!
VENHAMMMMM!! — Lilly se lança pela estrada de cascalho e corre colina acima em direção às
árvores.
Com a pulsação disparada, a visão embaçada e os pulmões arfando por ar, ela larga a pá e
enterra as botas de caminhada na lama quando pisa o macio solo da floresta. Precipita-se por entre as
árvores. O ombro colide contra o tronco de uma antiga bétula, a dor explode em seu crânio, estrelas
disparam por sua linha de visão. Agora se move instintivamente, com uma horda de zumbis subindo a
colina atrás dela.
Ziguezagueando pelas entranhas do bosque, Lilly perde o senso de direção. Atrás dela, o bando
de errantes perdeu a velocidade e não consegue mais farejá-la. O tempo perde todo o sentido. Como
se estivesse em um sonho, Lilly sente os movimentos desacelerando, os gritos se recusando a sair, as
pernas afundando na areia movediça invisível dos pesadelos. A escuridão a cerca conforme a
floresta se adensa e aprofunda.
Lilly pensa em Sarah, pobre Sarah, com o lindo suéter de angorá cor-de-rosa agora banhado em
seu próprio sangue, e a tragédia a deprime, arrebatando-a e jogando-a no macio solo de agulhas de
pinheiro emaranhadas, matéria em decomposição e infinitos ciclos de morte e regeneração. Lilly
libera um espasmo de dor e soluça sem fôlego, suas lágrimas rolam pelas bochechas e umedecem a
terra.
Seu choro — que não é ouvido por ninguém — dura bastante tempo.
O grupo de buscas encontra Lilly no final daquela tarde. Liderados por Chad Bingham, os cinco
homens e as três mulheres — todos fortemente armados — veem o casaco azul-claro de Lilly atrás de
um tronco caído a quase 1 quilômetro a norte da cidade de tendas, na gélida escuridão das
profundezas do bosque, em uma pequena clareira sob um dossel de galhos de pinheiro. Ela parece
estar inconsciente, deitada em um trecho de arbustos.
— Cuidado! — grita Chad Bingham para seu imediato, um mecânico magro de Augusta,
chamado Dick Fenster. — Se ela ainda estiver se mexendo, pode já ter se transformado!
Com a respiração nervosa visível no ar gelado, Fenster segue com cautela até a clareira
empunhando sua .38 de cano curto, com o cão armado e o dedo estremecendo no gatilho. Ele se
ajoelha ao lado de Lilly, dá uma boa olhada e depois volta-se para o grupo.
— Ela está bem! Está viva... Não foi mordida nem nada... Ainda está consciente!
— Não por muito tempo — diz Chad Bingham entredentes enquanto marcha até a clareira. —
Essa vadia covarde de merda deixou minha filha ser morta...
— Ei! Ei! — Megan Lafferty para entre Chad e o tronco. — Espere um pouco, espere.
— Saia da minha frente, Megan.
— Você precisa respirar fundo.
— Só vou falar com ela.
Uma pausa constrangedora parece abater todos os presentes. Os outros integrantes do grupo de
buscas mantêm distância perto das árvores, com os olhos baixos. As expressões tensas e exaustas
refletem o horrível trabalho do dia. Alguns dos homens estão com os olhos vermelhos, arrasados
pela perda.
Ao voltar da expedição de coleta de lenha, com o barulho dos motores e machados ainda
reverberando em seus ouvidos, eles ficaram chocados ao encontrar a cidade de tendas terrivelmente
destroçada. Tanto humanos quanto zumbis cobriam o terreno encharcado de sangue, 16 colonos
mortos, alguns deles devorados — nove entre eles eram crianças. Josh Lee Hamilton fez o trabalho
sujo de eliminar os errantes remanescentes e os infelizes humanos cujos restos foram deixados
intactos. Ninguém mais teve coragem de atirar na cabeça de amigos e entes queridos para garantirlhes
o descanso eterno. Estranhamente, o período de encubação parece estar cada vez mais
imprevisível nos últimos tempos. Algumas vítimas se reanimam em questão de minutos depois de
uma mordida. Outras levam horas — até mesmo dias — para se transformar. Neste momento, de fato,
Josh ainda está no acampamento supervisionando uma equipe de descarte, preparando as vítimas
para um enterro coletivo. Ainda vão precisar de mais 24 horas para reerguer a tenda de circo.
— Cara, ouça, é sério — diz Megan Lafferty para Chad, com a voz ficando mais baixa e se
tornando levemente urgente. — Eu sei que você está devastado e tudo, mas ela salvou três das suas
filhas... eu já disse que vi com meus próprios olhos. Ela afastou os errantes, arriscou a porra da vida
dela.
— Eu só... — Chad parece estar a ponto de chorar ou gritar. — Só quero falar.
— Sua mulher está no acampamento e vai enlouquecer de tristeza... Ela precisa de você.
— Eu só...
Outro instante constrangedor de silêncio. Um dos outros pais começa a chorar baixinho nas
sombras das árvores, o revólver cai no chão. São quase 17 horas, e o frio está apertando, nuvens de
vapor flutuam diante de todos os rostos angustiados. Do outro lado da clareira, Lilly se senta, enxuga
a boca e tenta se situar. Ela parece uma sonâmbula. Fenster a ajuda a se levantar. Chad baixa os
olhos.
— Foda-se. — Ele se vira e sai andando, a voz o acompanha. — Foda-se.
No dia seguinte, sob um céu frio e nublado, os moradores das tendas fazem um funeral improvisado
para os amigos e entes queridos mortos.
Cerca de 75 sobreviventes se reúnem em um grande semicírculo ao redor do local do enterro
coletivo na extremidade leste da propriedade. Algumas das pessoas em luto seguram velas que
tremulam com teimosia contra o vento de outubro. Outros se agarram uns aos outros em uma tristeza
convulsiva. A dor pungente em alguns dos rostos — especialmente nos rostos dos pais — reflete a
agonizante aleatoriedade desse mundo flagelado. Seus filhos foram levados com a brusquidão
arbitrária de um relâmpago, e os rostos dos que estão em luto se contraem de desolação, os olhos
vermelhos cintilam sob a impiedosa luz prateada do sol.
Os marcos de pedra estão enfiados no barro, espalhando-se sobre a pequena elevação de terra
nua além da cerca de tábuas. Pequenas pilhas de pedra marcam cada um dos 16 túmulos. Alguns
marcos têm ramalhetes de flores silvestres cuidadosamente enfiadas entre as pedras. Josh Lee
Hamilton cuidou para que o marco de Sarah Bingham fosse adornado com um lindo buquê de
pequenas rosas Cherokee, que crescem em profusão às margens dos pomares. O homem grande tinha
passado a gostar da irascível e inteligente adolescente... e a morte dela partiu seu coração.
— Senhor, pedimos que tome os amigos e vizinhos que perdemos em suas mãos — diz Josh da
extremidade da cerca.
O vento agita o casaco verde-oliva do Exército esticado sobre seus enormes ombros. O rosto
profundamente burilado brilha com as lágrimas.
Josh foi criado como batista, e embora tenha perdido a maior parte da fé ao longo dos anos,
naquela manhã perguntou aos outros sobreviventes se poderia dizer algumas palavras. Batistas não
dão muita importância a orações pelos mortos. Eles acreditam que os justos vão imediatamente para
o Céu na hora em que morrem — ou, no caso dos descrentes, que vão imediatamente para o inferno
—, mas Josh se sentiu na obrigação de dizer alguma coisa.
Ele viu Lilly mais cedo e a deteve por um instante, sussurrando-lhe palavras de conforto. Mas
percebeu que havia algo errado. Estava acontecendo alguma coisa dentro dela além do mero luto. Ela
parecia inerte em seus enormes braços, e a forma delgada tremia incessantemente como um pássaro
ferido. Falou muito pouco. Disse apenas que precisava ficar sozinha. E não apareceu para o funeral.
— Pedimos que os leve para um lugar melhor — continua ele, com a profunda voz de barítono
falhando. O trabalho de descarte teve um preço para o grandão. Ele luta para manter o controle, mas
as emoções estão estrangulando suas cordas vocais. — Pedimos que... que...
Ele não consegue continuar. Vira-se, baixa a cabeça e deixa as lágrimas silenciosas virem. Ele
não consegue respirar. Não consegue ficar ali. Quase sem saber o que está fazendo, afasta-se da
multidão e do suave e terrível som do choro e da reza.
Entre as muitas coisas que ele não percebeu nesse dia, em sua névoa de tristeza, está o fato de
que a decisão de Lilly Caul de evitar o funeral não é a única ausência notável. Chad Bingham também
não compareceu.
— Você está bem? — Lilly mantém distância por um momento, parada à margem da clareira,
retorcendo as mãos nervosamente a cerca de 4 metros de Chad Bingham.
O homem esguio com o boné da John Deere não diz nada por um tempo extremamente longo.
Apenas fica perto das árvores, com a cabeça baixa, de costas para ela, com os ombros caídos como
se estivesse carregando um grande peso.
Minutos antes do começo do funeral, Chad Bingham surpreendeu Lilly ao aparecer em sua tenda
perguntando se eles podiam conversar em particular. Disse que queria acertar as coisas. Disse que
não a culpava pela morte de Sarah, e pela expressão desoladora de seus olhos, Lilly acreditou nele.
E por isso o acompanhou até aquela pequena clareira no denso bosque que contorna a
extremidade norte da propriedade. Com menos de 20 m2 de solo coberto de agulhas de pinheiro e
rodeada por pedras cobertas de limo, a clareira fica sob um dossel de folhagem, a luz cinzenta do sol
se infiltra em feixes que iluminam grossas partículas de poeira. O ar frio cheira a decomposição e
fezes de animais.
A clareira fica longe o bastante da cidade de tendas para dar alguma privacidade.
— Chad... — Lilly quer dizer alguma coisa, quer dizer o quanto está sentida.
Pela primeira vez desde que conheceu o homem, após ficar inicialmente chocada com sua
disposição em ter um caso com Megan bem debaixo do nariz da esposa, Lilly vê Chad Bingham como
um simples humano... imperfeito, assustado, emotivo, confuso e devastado pela perda da filha.
Em outras palavras, ele é apenas um sulista típico — nem melhor nem pior do que qualquer
outro sobrevivente. E agora Lilly sente uma onda de simpatia inundando-a.
— Quer conversar sobre isso? — pergunta ela, finalmente.
— É, acho que sim... talvez não... não sei. — Ele ainda está de costas, a voz sai como uma
torneira vazando, intermitentemente, tão baixa quanto a água pingando. A tristeza junta suas
omoplatas, o faz tremer um pouco à sombra dos pinheiros.
— Eu sinto muito, Chad. — Lilly ousa se aproximar. Ela está com lágrimas nos olhos. — Eu
adorava a Sarah, ela era uma garota maravilhosa.
Ele fala alguma coisa, tão baixo que Lilly não consegue ouvir, e chega mais perto.
Com gentileza, ela coloca a mão no ombro do homem.
— Eu sei que não há nada que alguém possa dizer... em um momento como este. — Ela fala
para a nuca dele, na pequena tira de plástico na parte de trás do boné está escrito spalding. Ele tem
uma pequena tatuagem de cobra entre os tendões do pescoço. — Sei que não é um consolo —
acrescenta Lilly —, mas Sarah morreu como uma heroína, ela salvou a vida das irmãs.
— Salvou? — A voz dele não passa de um sussurro. — Ela era uma ótima menina.
— Eu sei que era... era uma menina maravilhosa.
— Você acha? — Ele ainda está de costas. Cabeça baixa. Ombros estremecendo suavemente.
— Sim, acho, Chad, ela foi uma heroína, ela era única.
— Mesmo? Você acha?
— Com certeza.
— Então por que você não fez a MERDA DO SEU TRABALHO!? — Chad se vira e acerta
Lilly com as costas da mão, a força é tamanha que ela morde a língua. Sua cabeça oscila bruscamente
e ela vê estrelas.
Ele bate outra vez e ela cambaleia para trás, tropeçando em uma raiz exposta e caindo no chão.
Chad assoma sobre ela, com os punhos cerrados, os olhos fulgurantes.
— Sua vadia inútil! Tudo o que você precisava fazer era proteger minhas filhas! Um chimpanzé
poderia fazer isso!
Lilly tenta rolar para longe, mas Chad impele a biqueira de aço de sua bota de trabalho contra o
quadril dela, jogando-a de lado. A dor trespassa o abdômen de Lilly. Ela tenta respirar, a boca se
enche de sangue.
— P-por favor, nã...
Ele se abaixa e a coloca de pé. Segurando-a pela parte da frente do moletom, ele sibila com o
hálito ácido e quente em seu rosto:
— Você e sua amiguinha vagabunda acham que isto aqui é uma festa? Você estava fumando
bagulho ontem? Hein? HEIN?
Chad dá um gancho de direita no maxilar de Lilly, quebrando seus dentes e jogando-a
novamente no chão. Ela cai em uma pilha agonizante, com duas costelas quebradas, sufocando com o
sangue. Ela não consegue respirar. Um frio gélido se espalha por seu corpo e embaça a visão.
Ela mal consegue focalizar a forma vigorosa e compacta de Chad Bingham pairando acima dela
e se lançando sobre seu corpo com um peso enorme; ele monta nela, a baba da fúria incontrolável
vazando pelo canto da boca, e a saliva voando.
— Responda! Você estava fumando maconha enquanto cuidava das minhas filhas?
Lilly sente as mãos poderosas de Chad se fechando em torno de sua garganta, a parte de trás da
cabeça bate contra o chão.
— RESPONDA, SUA VAD...
Sem aviso, uma terceira figura surge atrás de Chad Bingham, afastando-o de Lilly; a identidade
de seu salvador é praticamente indistinguível.
Lilly vê apenas o borrão de um homem tão grande que encobre os raios do sol.
Josh segura a jaqueta jeans de Chad Bingham com as duas mãos e o puxa com toda a força.
Seja pelo pico repentino de adrenalina que corre pelo homem grande ou simplesmente por
causa da relativa magreza de Chad, o resultante descarte faz Chad Bingham parecer uma bola de
canhão humana. Ele voa através da clareira em um arco alto, uma de suas botas sai voando, o boné
rodopia para o meio das árvores. Ele bate com o ombro em um enorme e antigo tronco de árvore.
Chad fica sem ar e cai no chão diante da árvore. Ele tenta respirar, perplexo.
Josh se ajoelha ao lado de Lilly e gentilmente ergue seu rosto cheio de sangue. Ela tenta falar,
mas não consegue obrigar os lábios ensanguentados a formar as palavras. Josh solta um suspiro
aflito, uma espécie de gemido terminal. Algo na visão daquele lindo rosto — com olhos verde-claros
e bochechas delicadamente sardentas, agora pontilhadas de sangue — o lança em uma fúria que
coloca um filtro diáfano sobre seus olhos.
O homem grande se levanta, vira-se e marcha através da clareira até o local onde Chad
Bingham está caído, contorcendo-se de dor.
Josh só consegue ver o borrão branco leitoso do homem no chão enquanto a luz fraca do sol
irradia-se pelo ar úmido. Chad faz uma débil tentativa de se arrastar para longe, mas Josh pega as
pernas do homem com facilidade, e com um único e decidido puxão, o corpo de Chad é deslocado
novamente para a frente da árvore. Josh levanta o homem rijo contra o tronco.
Chad gagueja com sangue na boca:
— Isso não é... não é da sua... por favooor... m-meu irmão... você não precisa FAZEEEE...!
Josh empurra o corpo agitado do homem contra a casca de um carvalho centenário. O impacto
racha o crânio do homem e desloca suas omoplatas com a violenta brusquidão de um aríete.
Chad solta um grito indistinto e viscoso — mais primitivo e involuntário do que consciente —
revirando os olhos. Se Chad Bingham fosse atingido pelas costas diversas vezes por um imenso
aríete, a série de impactos não rivalizaria com a força com a qual Josh Lee Hamilton empurra o
homem vigoroso de jeans contra a árvore.
— Não sou seu irmão — diz Josh com uma calma sinistra.
Uma voz baixa e aveludada vem de algum lugar escondido e inacessível em suas profundezas
enquanto ele esmurra o homem, que mais parece um boneco de pano, contra o tronco.
Josh raramente perde o controle dessa maneira. Só aconteceu algumas vezes em sua vida: uma
vez em campo, quando um jogador adversário — um cara de Montgomery — chamou-o de crioulo...
e em outra ocasião, quando um batedor de carteiras em Atlanta roubou a bolsa de sua mãe. Mas agora
a tempestade silenciosa dentro dele está mais violenta do que nunca — as ações são desimpedidas,
mas mesmo assim controladas — enquanto ele bate sem parar a parte de trás do crânio de Chad
Bingham contra a árvore.
A cabeça de Chad pende a cada impacto, o baque doentio fica cada vez mais aquoso conforme
a parte de trás do crânio cede. Vômito é esguichado de Chad — novamente um fenômeno involuntário
—; partículas de cereal e bílis amarela rolam despercebidas pelos grossos antebraços de Josh Lee
Hamilton. Josh nota a mão esquerda de Chad tateando pelo cabo da Smith & Wesson cromada,
enfiada na parte de trás do cinto.
Josh arranca facilmente a pistola das calças de Chad e a joga do outro lado da clareira.
Usando sua última centelha de força, com o cérebro confuso por causa das múltiplas
concussões e a hemorragia vazando pela parte de trás do crânio fraturado, Chad Bingham faz a
tentativa inútil de impulsionar um joelho contra a virilha do homem grande, mas Josh rápida e
habilmente bloqueia o joelho com um dos antebraços, e então desfere um golpe extraordinário — um
violento tapa com as costas da mão, cujo eco surreal chega instantes depois até Lilly —, que
arremessa Chad Bingham para o lado.
Chad se estatela no chão a quase 5 metros do tronco da árvore. Josh não consegue ouvir Lilly
cambaleando através da clareira. Não consegue ouvir sua voz estrangulada.
— Josh, NÃO! NÃO! JOSH, PARE, VOCÊ VAI MATÁ-LO!!
De repente, Josh acorda, e pisca como se descobrisse que é sonâmbulo e está caminhando nu
pela Peachtree Boulevard durante a hora do rush. Ele sente a mão de Lilly em suas costas, agarrando
seu casaco, tentando puxá-lo parta trás e para longe do homem caído no chão.
— Você vai matá-lo!
Josh se vira. Ele vê Lilly — machucada e exausta, com a boca cheia de sangue, mal
conseguindo se manter de pé, respirar ou falar — bem atrás, com o olhar pálido cravado ao dele. Ele
a puxa para um abraço e os olhos se enchem de lágrimas.
— Você está bem?
— Estou... por favor, Josh... você precisa parar antes que o mate.
Josh começa a dizer alguma coisa, mas se interrompe. Ele se vira e baixa os olhos para o
homem no chão. Durante aquela terrível pausa silenciosa — enquanto Josh move os lábios, mas não
consegue emitir um som ou colocar um pensamento em palavras — ele vê o corpo mole, caído sobre
uma poça de seus próprios fluidos, imóvel e sem vida como um fardo de trapos.
QUATRO
— Fique quieta, querida. — Bob Stookey vira gentilmente a cabeça de Lilly para obter um ângulo
melhor de seu lábio inchado. Com cuidado, ele passa uma quantidade de antibiótico do tamanho de
uma ervilha sobre a pele cortada. — Está quase acabando.
Lilly se contrai de dor. Bob está ajoelhado ao lado dela, com o kit de primeiros-socorros
aberto na ponta da cama estreita na qual Lilly está deitada de bruços, olhando para o teto de lona. A
tenda brilha com os pálidos raios de sol do final da tarde, que atravessa as paredes de tecido
manchadas. O ar está frio e cheira a desinfetante e bebida velha. Um cobertor protege o torso e o
sutiã de Lilly.
Bob precisa de uma bebida. Precisa muito. Suas mãos estão tremendo outra vez. Nos últimos
tempos ele tem tido flashbacks de seus dias no Corpo Médico dos Fuzileiros Navais dos Estados
Unidos. A estada no Afeganistão, 11 anos antes, esvaziando comadres em Camp Dwyer — parece
que foi há um milhão de anos-luz — nunca poderia tê-lo preparado para isto. Ele também era uma
esponja naquela época, mal conseguiu se formar na escola de medicina e terminar o treinamento em
San Antonio por causa da bebida, e agora a guerra veio buscar Bob em casa. Os corpos crivados de
estilhaços que ele costurou no Oriente Médio não foram nada comparados aos campos de batalha
deixados para trás por esta guerra. Bob sonha com o Afeganistão, às vezes — os mortos-vivos
misturando-se e infectando as fileiras do Talibã de um jeito bem Grand Guignol —, os braços frios,
mortos e cinzentos brotando das paredes de unidades de cirurgia móveis.
Mas remendar Lilly é um assunto completamente diferente para Bob — muito pior do que ser
um paramédico de campanha ou limpar o resultado de um ataque de errantes. Bingham a machucou
muito. Pelo que Bob consegue ver, ela está com pelo menos três costelas quebradas e uma grande
contusão no olho esquerdo — que pode ou não envolver uma hemorragia do vítreo ou até mesmo um
descolamento de retina — assim como uma série de machucados e lacerações no rosto. Bob se sente
desprovido, tanto de técnica quanto de suprimentos médicos, para sequer fingir tratá-la. Mas ele é a
única opção disponível nas redondezas, então improvisou uma tala com lençóis, capas duras de
livros e ataduras elásticas em torno do tronco de Lilly e aplicou creme antibiótico de seu decrescente
estoque nos ferimentos superficiais. O olho é o que mais o preocupa. Ele precisa observá-lo, cuidar
para que melhore da maneira correta.
— Pronto — diz ele, aplicando a última porção de creme no lábio dela.
— Obrigada, Bob. Pode mandar a conta para a minha seguradora. — A fala de Lilly está
obstruída pelo inchaço, há um leve ceceio no s.
Bob solta uma risadinha sem graça e a ajuda a recolocar o casaco sobre o tronco enfaixado e os
ombros machucados.
— O que aconteceu lá, afinal?
Lilly suspira, sentando-se na cama de campanha, fechando cuidadosamente o zíper do casaco e
estremecendo com as pontadas de dor.
— As coisas saíram um pouco... do controle.
Bob encontra o cantil de bebida amassado, recosta-se na cadeira dobrável e toma um longo
trago medicinal.
— Correndo o risco de dizer o óbvio... isso não é bom para ninguém.
Lilly engole como se estivesse tentando digerir vidro quebrado. Cachos do cabelo avermelhado
caem sobre o rosto.
— Eu que o diga.
— Eles estão fazendo uma reunião sobre isso agora na tenda de circo.
— Quem?
— Simmons, Hennessey, alguns dos caras mais velhos, Alice Burnside... esse pessoal... filhos e
filhas da revolução. Josh está... bom... eu nunca o tinha visto assim. Ele está bastante abalado.
Sentado no chão diante da barraca dele como uma esfinge... Não diz uma palavra... só fica olhando
para o nada. Disse que vai concordar com o que quer que decidam.
— Como assim?
Bob toma outro saudável gole de seu remédio.
— Lilly, isso tudo é novo. Alguém assassinou um vivo. Essas pessoas nunca lidaram com algo
assim.
— Assassinou?
— Lilly...
— É assim que chamam agora?
— Só estou dizendo...
— Preciso falar com eles. — Lilly tenta se levantar, mas a dor a puxa de volta para a borda da
cama.
— Cuidado aí, Kemosabe. Vá com calma. — Bob se inclina e gentilmente a endireita. — Eu só
lhe dei codeína suficiente para acalmar um Clydesdale.
— Que merda, Bob, eles não vão linchar o Josh por isso, não vou deixar.
— Vamos dar um passo de cada vez. Você não vai a lugar nenhum agora.
Lilly baixa a cabeça. Uma única lágrima aparece e cai de seu olho saudável.
— Foi um acidente, Bob.
Bob olha para ela.
— Que tal nos concentrarmos apenas em melhorar por enquanto, hein?
Lilly levanta os olhos para ele. Seu lábio machucado está três vezes maior do que o normal, o
olho esquerdo está injetado de vermelho, com a pele ao redor já enegrecida e contundida. Lilly puxa
a gola de seu sobretudo de brechó e estremece de frio. Ela usa diversos acessórios estranhos que
chamam a atenção de Bob: pulseiras de macramê e contas e pequenas penas entrelaçadas aos cachos
do cabelo âmbar que cai sobre o rosto devastado. Bob Stookey acha interessante o fato de uma garota
ainda prestar atenção à moda naquele mundo. Mas isso é parte do charme de Lilly Caul, parte de seu
caráter. Da pequena tatuagem de flor-de-lis na nuca aos meticulosos rasgos e remendos do jeans, ela
é uma daquelas garotas que conseguem transformar 10 dólares e uma tarde no brechó em um guardaroupa
completo.
— É tudo culpa minha, Bob — diz ela, com uma voz áspera e sonolenta.
— Isso é bobagem — retruca Bob Stookey depois de dar outro gole no cantil velho. Talvez o
álcool tenha começado a soltar a língua de Bob, porque ele sente uma pontada de crueldade. —
Conhecendo a personalidade daquele Chad, acho que ele já estava pedindo por isso há algum tempo.
— Bob, não é...
Lilly se interrompe quando escuta o barulho de passos do lado de fora da tenda. A sombra de
um leviatã cai sobre a lona. A silhueta familiar faz uma pausa momentânea, espreitando
desajeitadamente do lado de fora da aba fechada da tenda de Bob. Lilly reconhece a figura, mas não
diz nada.
Uma mão enorme dobra a aba da tenda para dentro e um grande rosto negro e profundamente
contraído espia para dentro.
— Disseram que eu podia... eles me deram três minutos — diz Josh Lee Hamilton em um tom
estrangulado e tímido.
— Do que você está falando? — Lilly se senta e fixa os olhos no amigo. — Três minutos para
quê?
Josh se ajoelha diante da aba da tenda, olhando para o chão, lutando para encobrir suas
emoções.
— Três minutos para me despedir.
— Se despedir?
— É.
— Como assim se despedir? O que aconteceu?
Josh solta um suspiro aflito.
— Eles votaram... Decidiram que a melhor maneira de lidar com isso é me mandar embora, me
chutar do grupo.
— O quê!?
— Acho que é melhor do que ser enforcado na árvore mais alta.
— Você não... quero dizer... foi completamente acidental.
— É, claro — diz Josh, com os olhos fixos no chão. — O pobre sujeito esbarrou no meu punho
um monte de vezes por acidente.
— Mas naquelas circunstâncias, essas pessoas sabem que tipo de homem...
— Lilly...
— Não, está errado. Isso está... errado.
— Acabou, Lilly.
Ela olha para ele.
— Vão deixar você levar algum suprimento? Talvez um dos veículos?
— Eu tenho minha moto. Vou ficar OK, vou ficar bem...
— Não... não... isso é simplesmente... ridículo.
— Lilly, ouça. — O homem grande entra parcialmente na tenda. Bob desvia os olhos por
respeito. Josh se agacha, estica a mão e toca com gentileza o rosto machucado de Lilly. Pela maneira
como os lábios de Josh estão contraídos, como seus olhos estão cintilando, e como as linhas se
aprofundam ao redor da boca, não há dúvida de que ele está segurando uma emoção fortíssima. — É
assim que tem que ser. Vai ser melhor. Eu vou ficar bem. Você e Bob seguram as pontas.
Os olhos de Lilly se enchem de lágrimas.
— Então eu vou com você.
— Lilly...
— Não há nada para mim aqui.
Josh balança a cabeça.
— Desculpe, boneca... a passagem é só para um.
— Eu vou com você.
— Lilly, sinto muito mesmo, mas isso não vai acontecer. Aqui é mais seguro. Com o grupo.
— É, isto aqui é muito estável — diz ela friamente. — É um verdadeiro festival do amor.
— Melhor aqui do que lá fora.
Lilly olha para ele com uma expressão furiosa, as lágrimas começam a descer por seu rosto
ferido.
— Você não pode me impedir, Josh. A decisão é minha. Vou junto e pronto. E se tentar me
impedir, vou perseguir você, vou encontrá-lo. Vou também, e não há nada que você possa fazer a
respeito. Você não pode me impedir, OK? Então só... aceite.
Ela abotoa o casaco, enfia os pés nas botas e começa a recolher suas coisas. Josh observa com
desalento. Os movimentos de Lilly são incertos, interrompidos por sobressaltos intermitentes de dor.
Bob troca um olhar com Josh. Algo tácito, mas poderoso ocorre entre os dois homens, enquanto
Lilly enfia as peças soltas de roupa em uma sacola e sai da tenda.
Josh fica na entrada da tenda por um instante, olhando para Bob, que finalmente dá de ombros e
diz, com um sorriso cansado:
— Mulheres.
Quinze minutos depois, os alforjes da Suzuki ônix de Josh estão transbordando de latas de carne
enlatada e atum, sinalizadores luminosos para a estrada, fósforos à prova d’água, corda, uma tenda
enrolada, uma lanterna, um pequeno fogão de campanha, uma vara de pescar desmontável, uma
pequena calibre .38 vagabunda e alguns pratos de papel e temperos surrupiados da área comum. O
dia se tornou tempestuoso, o céu se fechando com nuvens escuras cinzentas.
O tempo ameaçador adiciona mais uma camada de ansiedade aos procedimentos, enquanto Josh
prende as bagagens e olha por cima do ombro para Lilly, que está a 3 metros de distância na margem
da estrada, colocando sobre os ombros uma mochila excessivamente cheia. Ela se contrai com a dor
aguda nas costelas ao apertar as tiras.
Do outro lado da propriedade, alguns dos autoproclamados líderes da comunidade assistem.
Três homens e uma mulher de meia-idade estão parados observando estoicamente. Josh quer gritar
alguma coisa sarcástica e desmoralizante para eles, mas segura a língua. Em vez disso, vira-se para
Lilly e diz:
— Está pronta?
Antes de Lilly conseguir responder, uma voz ressoa da extremidade leste da propriedade.
— Esperem aí, companheiros!
Bob Stookey aparece caminhando ao longo da cerca com uma grande sacola de lona jogada
sobre as costas. O chocalhar das garrafas é audível — seu estoque particular de “remédios”, sem
dúvida — e há uma expressão estranha no rosto do velho paramédico, uma mistura de expectativa e
constrangimento. Ele se aproxima cuidadosamente.
— Antes de cavalgarem em direção ao pôr do sol, tenho uma pergunta.
Josh lança um olhar ao homem.
— O que está havendo, Bob?
— Só me responda uma coisa — diz ele. — Você tem algum treinamento médico?
Lilly se aproxima com a testa franzida de confusão.
— Bob o que você quer?
— É uma pergunta simples. Algum dos dois desmiolados tem credencial médica legítima?
Josh e Lilly trocam um olhar. Josh suspira.
— Que eu saiba, não, Bob.
— Então, deixe-me perguntar outra coisa. Quem vai vigiar aquele olho para não infeccionar?
— Ele indica o olho hemorrágico de Lilly. — Ou cuidar daquelas costelas fraturadas?
Josh olha para o paramédico.
— O que você está tentando dizer, Bob?
O homem mais velho aponta o dedo para a fileira de veículos estacionados ao longo da estrada
de acesso de cascalho atrás dele.
— Já que estão indo se divertir na imensidão azul, não faria mais sentido levar um integrante
do Corpo Médico dos Fuzileiros Navais dos Estados Unidos?
Eles colocam as coisas na picape de cabine dupla de Bob. A velha Dodge Ram é um monstro —
esburacada com cicatrizes enferrujadas e mossas —, e tem uma camper adaptada na caçamba
estendida. As janelas da camper são longas, estreitas e opacas. A mochila de Lilly e os alforjes de
Josh entram pelo basculante traseiro e ficam enfiados entre pilhas de roupas sujas e garrafas de
uísque barato pela metade. Ali, há duas instáveis camas dobráveis de campanha, um grande cooler,
três kits velhos de primeiros-socorros, uma mala puída, dois reservatórios de combustível, uma
velha bolsa de médico de couro que parece saída de uma loja de penhores e um amontoado de
ferramentas de jardinagem comprimidas contra a divisória na frente — pás, uma enxada, alguns
machados e um forcado com aparência nojenta. O teto abobadado é alto o bastante para acomodar um
adulto com a cabeça abaixada.
Enquanto acondiciona as bagagens, Josh vê partes espalhadas de uma espingarda calibre .12
desmontada, mas nenhum sinal de munição. Bob carrega uma .38 de cano curto, que provavelmente
não conseguiria acertar um alvo parado a dez passos sem vento — e isso se Bob estiver sóbrio, o
que raramente é o caso. Josh sabe que vão precisar de armas e munição se quiserem ter uma chance
real de sobrevivência.
Josh bate o basculante e sente que alguém mais os está observando da propriedade.
— Oi, Lil.
A voz é familiar, e quando Josh se vira, vê Megan Lafferty, a garota com os cachos castanhos
avermelhados e libido desvairada, parada a alguns carros de distância, perto do acostamento de
cascalho. Ela está de mãos dadas com o garoto maconheiro — qual é mesmo o nome dele? — de
cabelo louro pegajoso caindo no rosto e suéter roto. Steve? Shawn? Josh não consegue se lembrar.
Tudo de que se lembra é de aturar a garota pulando de cama em cama desde Peachtree City.
Agora os dois vagabundos estão parados ali, observando como abutres.
— Oi, Meg — diz Lilly suavemente, um pouco cética, ao contornar a traseira da caminhonete e
parar ao lado de Josh. No silêncio constrangedor, ouve-se o barulho que Bob está fazendo sob o
capô do veículo.
Megan e o garoto maconheiro se aproximam cuidadosamente. Ela mede suas palavras ao se
dirigir a Lilly.
— Cara, soube que você estava, tipo, pegando a estrada.
Ao lado de Megan, o maconheiro ri baixo.
— Estou sempre disposto a viajar.
Josh fuzila o garoto com um olhar.
— O que podemos fazer por vocês, bons jovens?
Megan não tira os olhos de Lilly.
— Lil, eu só queria dizer... tipo... Espero que você não esteja chateada comigo ou coisa assim.
— Por que estaria chateada com você?
Megan baixa os olhos.
— Eu disse umas coisas no outro dia, eu não estava pensando direito... eu só queria... sei lá. Só
queria pedir desculpas.
Josh dá uma olhada para Lilly, e nesse breve instante de silêncio antes da resposta dela, ele vê
toda a essência de Lilly Caul. Seu rosto machucado se ameniza. Os olhos se enchem de perdão.
— Você não precisa pedir desculpas por nada, Meg — diz Lilly à amiga. — Todos nós só
estamos tentando manter a sanidade.
— Ele realmente ferrou você — diz Megan, ponderando os ferimentos do rosto de Lilly.
— Lilly, temos que ir — interrompe Josh. — Vai escurecer logo.
O garoto maconheiro sussurra para Megan:
— Você vai perguntar ou não?
— Perguntar o quê, Megan? — diz Lilly.
Megan umedece os lábios. Ela levanta os olhos para Josh.
— O jeito que estão tratando você é muito escroto.
Josh assente educadamente.
— Eu agradeço, Megan, mas temos mesmo que ir.
— Queremos ir também.
Josh olha para Lilly, e ela encara a amiga. Finalmente, Lilly, diz:
— Ahn, sabe, é que...
— É mais seguro ficar em grupo, cara — entusiasma-se o garoto maconheiro com a risadinha
seca e nervosa de drogado. — Estamos totalmente em modo bélico...
Megan levanta a mão.
— Scott, dá para calar a boca por dois minutos? — Ela olha para Josh. — Não podemos ficar
aqui com esses idiotas fascistas. Não depois do que aconteceu. Isto aqui está uma bagunça da porra.
As pessoas não confiam mais umas nas outras.
Josh cruza os grandes braços sobre o peito de tonel, olhando para Megan.
— Você ajudou a agitar as coisas.
— Josh... — Lilly tenta interceder.
Repentinamente, Megan baixa os olhos com uma expressão abatida.
— Não, tudo bem. Eu mereço. Acho que eu só... só esqueci quais são as regras.
No silêncio que se segue — os únicos sons são o vento nas árvores e os barulhos de Bob
matando tempo sob o capô — Josh revira os olhos. Ele não acredita que está a ponto de concordar
com isso.
— Peguem suas coisas — diz ele, finalmente. — E sejam rápidos.
Megan e Scott viajam na traseira. Bob dirige, com Josh no banco do carona e Lilly no espaço estreito
na parte de trás da cabine. A picape tem um leito modificado atrás do banco da frente, com portas
laterais menores e um banco estofado dobrável que serve de cama. Lilly se senta no banco
esfarrapado e se segura, cada solavanco e curva causa uma pontada de dor em suas costelas.
Conforme percorrem a sinuosa estrada de acesso que sai dos pomares, ela vê as árvores de
ambos os lados escurecendo, as sombras do final da tarde se alongam, a temperatura despenca. O
barulhento aquecedor da picape luta uma batalha perdida contra o frio. O ar na cabine cheira a
bebida velha, fumaça e odores corporais. Através da ventilação, o cheiro dos campos de tabaco e
das frutas apodrecidas — o cheiro do outono na Geórgia — é levemente discernível, um aviso para
Lilly, um prenúncio do desligamento da civilização.
Ela começa a procurar errantes nas árvores — cada sombra, cada lugar escuro é uma ameaça
em potencial. O céu está vazio de aviões ou pássaros de qualquer espécie, o firmamento está frio,
morto e silencioso como uma imensa geleira cinzenta.
Eles entram na Spur 362 — a principal via do condado de Meriwether — enquanto o Sol
afunda no horizonte. Por causa da proliferação de destroços e carros abandonados, Bob dirige
devagar, mantendo a caminhonete a mais ou menos 60 km/h. A estrada de mão-dupla se torna azulacinzentada
na escuridão crescente, o crepúsculo espalha-se sobre as colinas ondulantes de pinheiros
e soja.
— Qual é o plano, capitão? — Bob pergunta a Josh depois de terem percorrido 2,5 km.
— Plano? — Josh acende um charuto e abre a janela. — Você deve estar me confundindo com
um daqueles comandantes de batalha que você costurava no Iraque.
— Nunca estive no Iraque — diz Bob. Ele está com um cantil entre as pernas. Toma um gole.
— Não fiz nada que valesse a pena no Afeganistão e, para ser honesto, aquilo lá está parecendo cada
vez melhor para mim.
— Tudo o que sei é que me mandaram sair da cidade, e é o que estou fazendo.
Eles passam por um cruzamento, uma placa que diz ESTRADA FILBURN, uma desolada estrada rural
de terra ladeada por valas, que passa entre dois campos de tabaco. Josh toma nota e começa a se
perguntar se é prudente estar em uma estrada grande depois do anoitecer. Ele começa a dizer:
— Mas estou começando a pensar que talvez não devêssemos nos afastar demais do...
— Josh! — A voz de Lilly corta o ronco da picape — Errantes... olhe!
Josh percebe que ela está apontando para um trecho à frente, na autoestrada, a mais ou menos
450 metros de distância. Bob pisa com força no freio. A picape derrapa, jogando Lilly contra o
assento. Uma dor aguda como um caco de vidro pontiagudo atravessa suas costelas. O baque abafado
de Megan e Scott batendo na divisória na traseira penetra a cabine.
— Filhos da mãe! — Bob agarra o volante com as mãos enrugadas e desgastadas pelo tempo,
os nós de seus dedos ficam brancos com a pressão enquanto a picape continua barulhentamente em
ponto morto. — Filhos da mãe!
Josh vê a horda de zumbis ao longe, pelo menos quarenta ou cinquenta — talvez mais, o
crepúsculo pode enganar — aglomerados ao redor de um ônibus escolar virado. Dessa distância,
parece que o ônibus despejou montes de roupas molhadas, que os mortos estão ocupados em separar.
Mas rapidamente fica claro que os volumes são restos humanos. E os errantes estão se alimentando.
E as vítimas são crianças.
— Podíamos simplesmente forçar a passagem através deles — sugere Bob.
— Não... não — diz Lilly. — Está falando sério?
— Podemos contorná-los.
— Não sei. — Josh joga o charuto pela janela, seu pulso se acelera. — Aquelas valas de cada
lado são íngremes, poderíamos virar.
— O que você sugere?
— O que você tem de munição para aquela espingarda de pressão que está lá atrás?
Bob solta um suspiro tenso.
— Tenho uma caixa de chumbinho com 25 grãos que tem mais ou menos um milhão de anos. E
aquela sua arma de brinquedo?
— Apenas o que está no tambor, acho que cinco tiros, e só.
Bob olha pelo retrovisor. Lilly vê seus olhos profundamente enrugados faiscando de pânico.
Bob está olhando para Lilly quando diz:
— Alguma ideia?
Lilly diz:
— OK, então mesmo se derrubarmos a maioria deles, o barulho vai atrair uma horda. Se quer
minha opinião, acho que devemos evitá-los completamente.
Nesse momento, batidas abafadas fazem Lilly se sobressaltar. Suas costelas dão uma pontada
quando ela se vira. Na janelinha estreita da traseira da cabine, o rosto pálido e ansioso de Megan
aparece. Ela bate com a palma da mão no vidro e forma com os lábios as palavras Porra, o que está
acontecendo?
— Calma! Está tudo bem! Fiquem calmos! — grita Lilly pelo vidro, depois se volta para Josh.
— O que você acha?
Josh olha pela janela para o espelho longo e salpicado de ferrugem. No reflexo retangular, ele
vê o solitário cruzamento cerca de 300 metros para trás, quase invisível na luz cada vez mais fraca.
— Dê marcha a ré — diz ele.
Bob olha para ele.
— O quê?
— Dê ré... rápido. Vamos pegar aquela estrada secundária lá atrás.
Bob engata a ré e pisa fundo. A picape dispara. O motor geme. A força gravitacional empurra
todos para a frente. Bob morde o lábio inferior enquanto luta com o volante, usando o espelho lateral
para se guiar. A picape desliza para trás, com a frente oscilando e as engrenagens se esgoelando. A
traseira se aproxima do cruzamento.
Bob trava os freios e Josh bate contra seu assento quando a traseira da picape derrapa no
acostamento da via de mão dupla, enredando-se em um emaranhando de cornisos, espadanas e
mandrágoras, levantando uma nuvem de folhas e detritos. Ninguém ouve os sons arrastados de algo
morto se movendo atrás dos arbustos.
Ninguém ouve o leve raspar da coisa morta saindo da vegetação e envolvendo o para-choque
traseiro com os dedos sem vida até ser tarde demais.
Dentro da camper, caindo no chão com o violento chacoalhar da picape e rindo histericamente,
Megan e Scott não sabem do zumbi que agora está preso ao estribo da traseira. Quando a Dodge Ram
engata a primeira e dispara pela estrada de terra perpendicular, ambos voltam para os assentos
improvisados feitos de engradados de pêssego ainda rindo furiosamente.
O ar dentro da camper apertada está azul por causa da névoa de um cachimbo cheio de erva que
Scott acendeu dez minutos antes. Ele vem conservando seu estoque, protegendo-o, temendo o
inevitável dia em que ficará sem e terá que descobrir como plantá-la no barro arenoso.
— Você acabou de peidar quando caiu. — Scott ri de Megan, com os olhos sonhadores e
dopados por causa do intenso entorpecimento.
— Tenho quase certeza de que não peidei, não — retruca ela com uma risada descontrolada,
tentando se equilibrar sobre o engradado. — Foi a merda do meu sapato que arranhou a merda do
chão.
— Mentira, cara, você peidou sim.
— Não peidei.
— Peidou, peidou com certeza... você acabou de soltar um, e foi um peido de menina.
Megan cai na gargalhada.
— O que é um peido de menina?
Scott gargalha.
— É... é tipo... tipo um punzinho delicado. Que nem um trenzinho. Tchu-tchu. O peidinho que
podia...
Os dois se dobram em um incontrolável espasmo de risos enquanto um rosto lívido de olhos
leitosos se eleva como uma pequena lua na superfície escura da janela traseira da camper. Esse é um
homem de meia-idade quase careca, com o couro cabeludo delineado com veias azul-escuras e
punhados de cabelos cinza-mofo.
Nem Megan nem Scott o veem a princípio. Eles não veem o vento soprando suas mechas
bolorentas de cabelos ralos, os lábios gordurosos se arreganhando para expor dentes enegrecidos, ou
o movimento dos dedos insensíveis e podres enfiando-se pelo vão da janela basculante parcialmente
aberta.
— AI, MERDA! — Scott solta as palavras em meio a uma risada quando vê o intruso. — AI,
MERDA!
A risada convulsiva faz Megan se dobrar, enquanto Scott gira e cai de cara, depois engatinha
enlouquecidamente pelo espaço estreito em direção às ferramentas de jardinagem. Ele não está mais
rindo. O zumbi já está com metade do corpo dentro da camper. O som de seu rosnado semelhante ao
de uma serra e o fedor de seus tecidos em decomposição enchem o ar. Megan finalmente vê o intruso
e começa a tossir e ofegar, a risada se alterando.
Scott tenta pegar o forcado. A picape dá uma guinada. O zumbi, agora com o corpo inteiro
dentro da camper, cambaleia como um bêbado para o lado e bate na parede. Uma pilha de
engradados cai. Scott empunha o forcado.
Megan se afasta rapidamente, deslizando sobre a bunda, enfiando-se no canto mais distante. O
terror em seus olhos parece incongruente com as risadas agudas e soluçantes. Como um motor
engasgado, sua risada indistinta e demente continua enquanto Scott se levanta com os joelhos frouxos
e investe com o forcado com toda a força na direção do cadáver em movimento à sua frente.
Os dentes enferrujados acertam a lateral do rosto da coisa.
Uma das pontas empala o olho esquerdo do zumbi. As outras entram na mandíbula e na jugular.
Sangue preto jorra por toda a camper. Scott dá um grito de guerra e solta a ferramenta. O zumbi
cambaleia para trás, na direção do basculante açoitado pelo vento — que agora está batendo — e por
alguma razão, o segundo golpe arranca de Megan uma gargalhada convulsiva e insana.
Os dentes do forcado afundam no crânio da coisa.
Isso é hilário para Megan: o engraçado homem morto estremecendo como se estivesse sendo
eletrocutado, com um forcado enfiado na cabeça, estendendo os braços impotentemente no ar. Como
um tolo palhaço de circo com o rosto branco, com grandes dentes pretos ridículos, a coisa cambaleia
para trás por um instante, até que a pressão do vento o puxa para fora do basculante traseiro.
O forcado escorrega das mãos de Scott quando o zumbi despenca da picape. Scott cai de bunda,
aterrissando em uma pilha de roupas.
Agora, tanto Megan quanto Scott caem na gargalhada diante do absurdo do zumbi resvalando
para a estrada com o forcado ainda fincado no crânio. Os dois engatinham até o basculante traseiro e
olham os restos humanos desaparecendo na distância atrás deles — com o forcado ainda espetado em
sua cabeça como uma placa de identificação quilométrica.
Scott fecha o basculante e os dois caem outra vez na gargalhada em espasmos de riso chapado e
tosse frenética.
Ainda rindo, com os olhos úmidos, Megan se vira para a frente da camper. Através da janela da
cabine ela vê a parte de trás da cabeça de Lilly e de Josh. Eles parecem absortos, inconscientes do
que acabou de acontecer a apenas alguns centímetros deles. Parecem estar apontando para alguma
coisa ao longe, no topo de uma colina adjacente.
Megan não consegue acreditar que ninguém na cabine ouviu a comoção na camper. Será que o
barulho da estrada era tão alto? Será que a luta foi abafada pelo som das risadas? Megan está a ponto
de bater no vidro quando finalmente vê para onde estavam apontando tanto.
Bob está saindo da estrada e entrando em um íngreme caminho de terra em direção a um prédio
que pode ou não estar abandonado.
CINCO
O posto de gasolina deserto fica no alto de uma colina de onde é possível ver os pomares ao redor.
Com três lados protegidos por cercas de tábuas repletas de ervas daninhas e caçambas de lixo
espalhadas, o lugar tem uma letreiro pintado à mão sobre as duas ilhas de combustível — uma bomba
de diesel e três de gasolina — que diz FORTNOY’S FUEL A BAIT . A construção térrea possui um escritório
imundo, uma loja de conveniência e uma pequena oficina com apenas um elevador automotivo.
Quando Bob para no terreno de cimento rachado — com os faróis desligados para evitar
detecção —, a noite está completamente escura, e os pneus da picape trituram vidro quebrado.
Megan e Scott espiam pelo basculante traseiro, notando as sombras da propriedade abandonada,
enquanto Bob leva a picape para trás da oficina, fora do campo de visão de algum passante
intrometido.
Ele estaciona a picape entre a carcaça de um sedan destruído e um pilar de pneus. Logo depois,
o motor é desligado, e Megan ouve o rangido da porta do carona e o pesado baque de Josh Lee
Hamilton saindo e contornando a traseira da camper.
— Fiquem aí um segundo — diz Josh suave e calmamente depois de abrir a porta da camper e
ver Megan e Scott agachados perto do basculante como um casal de corujas. Josh não repara nos
respingos de sangue nas paredes. Ele verifica o cilindro de sua .38, o aço azulado cintila na
escuridão. — Vou dar uma olhada no lugar para ver se não há nenhum errante.
— Não quero ser grosseira, mas como assim? — diz Megan, sua onda completamente esgotada,
substituída por uma espécie de áspera descarga de adrenalina. — Vocês não notaram o que houve
aqui atrás? Não ouviram o que estava acontecendo?
Josh olha para ela.
— Tudo o que ouvi foram dois maconheiros se divertindo até não poder mais... Isto aqui está
com cheiro de Mardi Gras em um bordel.
Megan conta a ele o que aconteceu.
Josh lança um olhar a Scott.
— Fico surpreso por você ter conseguido... com o cérebro confuso desse jeito. — A expressão
de Josh se ameniza. Ele suspira e sorri para o garoto. — Parabéns, júnior.
Scott dá a ele um sorrisinho entorpecido.
— Meu primeiro abate, chefe.
— Provavelmente não vai ser o último — diz Josh, fechando o cilindro.
— Posso perguntar só mais uma coisa? — diz Megan. — O que estamos fazendo aqui? Achei
que tínhamos bastante combustível.
— Está complicado demais por aí para viajar à noite. É melhor nos abrigarmos até de manhã.
Quero que vocês dois fiquem aí até terem certeza de que está tudo limpo.
Josh se afasta.
Megan fecha a porta. Na escuridão, ela sente o olhar de Scott sobre si. Ela se vira e olha para
ele. Scott está com uma expressão estranha nos olhos. Ela sorri para ele.
— Cara, tenho que admitir, você é muito habilidoso com ferramentas de jardinagem... Foi muito
foda com aquele forcado.
Ele retribui o sorriso. Algo muda em seus olhos, como se a visse pela primeira vez — apesar
da escuridão — e umedece os lábios. Ele tira uma mecha de cabelos louros sujos dos olhos.
— Não foi nada.
— Ah, falou. — Já tem algum tempo que Megan está fascinada pela semelhança de Scott Moon
com Kurt Cobain. A semelhança parece irradiar dele com uma mágica atávica, seu rosto cintila na
escuridão, seu cheiro — óleo de patchuli, fumaça, folhas e chiclete — causa um turbilhão no cérebro
de Megan.
Ela o agarra e comprime seus lábios contra os dele. Ele puxa seu cabelo e encaixa a boca na
dela, e logo as línguas se entrelaçam e os troncos roçam um contra o outro.
— Me coma — sussurra ela.
— Aqui? — diz ele. — Agora?
— Talvez não — diz ela, olhando em volta, sem fôlego. Seu coração está acelerado. — Vamos
esperar aqui dentro até ele ter terminado e depois achamos um lugar.
— Legal — diz ele, esticando a mão e acariciando-a através da camiseta rasgada do Grateful
Dead.
Ela enfia a língua na boca dele. Megan precisa de Scott naquele momento, naquele instante, ela
precisa muito de alívio.
Meg se afasta. Na escuridão, os dois se encaram, ofegantes, como animais selvagens que
matariam um ao outro se não fossem da mesma espécie.
Megan e Scott encontram um lugar para consumar seu desejo momentos depois de Josh dizer que está
tudo limpo.
Os dois maconheiros não enganam ninguém, apesar das descuidadas tentativas de serem
discretos: Megan finge exaustão e Scott sugere arrumar um lugar para ela dormir no chão do
almoxarifado nos fundos da loja de conveniência. O estoque apertado — com menos de 20 m2 de
ladrilhos embolorados e encanamento exposto — fede a peixe morto e isca de queijo. Josh lhes diz
para ter cuidado e revira os olhos quando se afasta enojado, e talvez, só talvez, com um pouco de
inveja.
Os baques surdos começam quase imediatamente, antes mesmo de Josh voltar ao escritório,
onde Lilly e Bob estão descarregando uma mochila cheia de suprimentos para a noite.
— Que merda é essa? — pergunta Lilly ao homem grande quando ele volta.
Josh balança a cabeça. Os baques abafados dos dois corpos mandando ver na sala ao lado
reverberam através dos cômodos pequenos do posto. De vez em quando, um suspiro ou um gemido se
eleva acima dos sons rítmicos de sexo.
— Amor juvenil — diz ele, exasperado.
— Você não pode estar falando sério. — Lilly está parada tremendo no escritório escuro
enquanto Bob Stookey tira nervosamente água engarrafada e cobertores de um engradado, fingindo
não escutar os barulhos carnais. Lilly se segura como se pudesse se desintegrar a qualquer momento.
— Então é isso o que podemos esperar?
O Fortnoy’s está sem energia, os reservatórios de combustível estão vazios e o ar no prédio é
frio como o de uma câmara refrigerada. A loja de conveniência parece ter sido depenada. Até mesmo
o refrigerador sujo está sem as minhocas e os peixinhos usados como iscas. O escritório tem uma
estante empoeirada de revistas, uma máquina de salgadinhos com poucos chocolates e sacos velhos
de batatas fritas, rolos de papel higiênico, algumas cadeiras de plástico viradas, uma estante de
anticongelante e desodorizantes para carro e um balcão de madeira arranhado no qual fica uma caixa
registradora que deveria estar no Smithsonian. A gaveta da registradora está aberta e vazia.
— Talvez eles façam até cansar. — Josh verifica seu último charuto, que está parcialmente
queimado no bolso da jaqueta. Ele esquadrinha o escritório procurando um mostruário de cigarros. O
lugar parece saqueado. — Parece que os garotos Fortnoy saíram às pressas.
Lilly toca o olho machucado.
— É, acho que os saqueadores chegaram antes de nós.
— Como você está? — pergunta Josh.
— Vou viver.
Bob levanta os olhos do engradado de suprimentos.
— Sente-se, Lilly. — Ele coloca uma das cadeiras contra a janela. A luz da lua da colheita
entra e deixa o chão listrado de sombras prateadas empoeiradas enquanto Bob limpa as mãos com um
lenço estéril. — Vamos dar uma olhada nesses curativos.
Josh observa Lilly se sentar e Bob abrir o kit de primeiros-socorros.
— Fique parada — avisa Bob suavemente enquanto dá leves pancadinhas com um lenço
embebido em álcool em volta das crostas do olho machucado de Lilly. A pele sob a sobrancelha está
do tamanho de um ovo cozido. Lilly não para de se retrair, e isso incomoda Josh. Ele reprime a ânsia
de ir até ela, de abraçá-la, de acariciar seu cabelo macio. A visão daquelas mechas onduladas de
mogno caindo sobre o rosto delicado e fino está torturando o homem grande.
— Ai! — Lilly se retrai. — Vá com calma, Bob.
— Você está com um olho roxo bem feio, mas se conseguirmos mantê-lo limpo, vai ficar pronta
para partir.
— Para onde?
— É uma ótima pergunta. — Com cuidado, Bob solta as ataduras elásticas que estão ao redor
das costelas de Lilly e apalpa gentilmente as áreas contundidas com as pontas dos dedos. Ela se
retrai outra vez. — As costelas devem melhorar por conta própria, desde que você não se meta em
nenhuma competição de luta ou maratona.
Bob substitui a atadura elástica ao redor do tronco dela, depois coloca um curativo em seu
olho. Lilly olha para o homem grande.
— No que você está pensando, Josh?
Josh olha em volta.
— Vamos passar a noite aqui, fazer turnos de vigia.
Bob rasga um pedaço de esparadrapo cirúrgico.
— Isto aqui vai ficar mais frio do que um peito de bruxa.
Josh suspira.
— Vi um gerador na oficina, e temos cobertores. Aqui é bem seguro, e estamos alto o bastante
nessa colina para ver qualquer número significativo daquelas coisas se juntando lá fora antes de
chegarem até nós.
Bob termina e fecha o kit de primeiros socorros. Os sons abafados de fornicação diminuem no
outro cômodo, uma pausa momentânea na ação. Nesse breve silêncio, sobre o som do vento
chacoalhando o letreiro lá na frente, Josh ouve o distante a cappella dos mortos — a tênue vibração
característica de cordas vocais mortas — como um órgão quebrado, gemendo e gorgolejando em
uníssono atonal. O barulho eriça os pelos de sua nuca.
Lilly ouve o coro distante.
— Eles estão se multiplicando, não estão?
Josh dá de ombros.
— Vai saber.
Bob enfia a mão no bolso do casaco acolchoado puído. Ele pega um cantil, tira a tampa e toma
um saudável gole.
— Acha que sentem nosso cheiro?
Josh vai até a suja janela da frente e olha para a noite.
— Acho que toda a atividade do Acampamento Bingham os está atraindo há semanas.
— A que distância você acha que estamos do acampamento-base?
— Mais ou menos 1,5 km em linha reta. — Josh olha para os pináculos dos pinheiros distantes,
seu oscilante oceano de galhos é tão denso quanto uma renda preta. O céu clareou e o firmamento
está adornado com uma profusão de estrelas geladas.
Sob o bordado de constelações se elevam colunas de fumaça de madeira da cidade de tendas.
— Tenho pensado em uma coisa... — Josh se vira e olha para os companheiros. — Isto aqui
não é o Ritz, mas se conseguirmos procurar suprimentos, talvez encontrar um pouco mais de munição
para as armas... pode ser melhor ficar aqui por um tempo.
A ideia paira no escritório silencioso por um instante, sendo absorvida.
Na manhã seguinte, após uma noite longa e inquieta no chão de cimento frio da oficina — se virando
com cobertores surrados e fazendo turnos para montar guarda —, eles reúnem o grupo para decidir o
que fazer. Enquanto tomam xícaras de café instantâneo preparado no fogão Coleman de Bob, Josh os
convence de que o melhor a fazer é se entocar ali por enquanto. Lilly pode se curar e, se for
necessário, eles podem roubar provisões da cidade de tendas por perto.
Nesse ponto, ninguém resiste muito. Bob descobriu um estoque de uísque sob um balcão na loja
de iscas, e Megan e Scott se alternam entre ficar chapados e “ter bons momentos” na salinha dos
fundos durante horas a fio. Eles trabalham duro para deixar o lugar seguro nesse primeiro dia. Josh
decide não botar o gerador para funcionar do lado de dentro por medo de asfixiá-los com o gás, e
teme fazê-lo funcionar do lado de fora por medo de atrair atenção indesejada. Ele encontra um fogão
a lenha no almoxarifado e uma pilha de sobras de madeira do lado de fora, atrás de uma das lixeiras.
Na segunda noite no Fortnoy’s Fuel and Bait, mantendo o fogão na capacidade máxima, eles
conseguem elevar a temperatura para um nível tolerável na oficina, e Megan e Scott mantêm um ao
outro aquecidos barulhentamente na sala dos fundos sob uma camada de cobertores. Bob fica bêbado
o bastante para não perceber o frio, mas parece perturbado pelos baques abafados vindos do
almoxarifado. Eventualmente, o homem mais velho fica tão bêbado que mal consegue se mover. Lilly
o ajuda a entrar embaixo das cobertas como se estivesse colocando uma criança para dormir. Ela
chega até a cantar uma canção de ninar para ele — uma de Joni Mitchell, “The Circle Game” —,
enquanto ajeita o cobertor embolorado em torno de seu pescoço envelhecido e enrugado. É estranho,
mas ela se sente responsável por Bob Stookey, mesmo que fosse ele quem devesse estar cuidando
dela.
Nos dias seguintes, eles reforçam as portas e janelas e se lavam nas grandes pias galvanizadas atrás
da oficina. Organizam uma espécie de rotina relutante. Bob prepara sua picape para o inverno,
usando partes de alguns dos destroços, e Josh supervisiona missões de reconhecimento constantes
nas cercanias da cidade de tendas 1,5 km a oeste. Sob o nariz dos colonos, Josh e Scott conseguem
roubar lenha, água potável, algumas tendas descartadas, legumes enlatados, uma caixa de munição
para espingarda e uma embalagem de Sterno. Josh percebe que os pontos que seguram o tecido de
comportamento civilizado na cidade de tendas estão se esgarçando. Ele ouve discussões cada vez
mais frequentes. Vê brigas entre alguns dos homens, e muita bebedeira. O estresse está levando a
melhor sobre os colonos.
Na escuridão da noite, Josh mantém um controle restrito sobre o Fortnoy’s Fuel and Bait. Ele e
os outros ficam do lado de dentro, fazendo o máximo de silêncio possível, acendendo um mínimo de
velas de emergência e lanternas, sobressaltando-se com os barulhos intermitentes causados pelos
ventos cada vez mais intensos. Lilly Caul se pega imaginando qual é a ameaça mais letal — as
hordas de zumbis, seus companheiros humanos ou o inverno iminente. As noites estão ficando mais
longas, e o frio está começando. A geada se acumula nas janelas, o frio atacando as juntas das
pessoas, e, embora ninguém fale muito sobre isso, ele é a ameaça silenciosa que pode realmente
destruí-los com muito mais facilidade e eficiência do que qualquer ataque zumbi.
Para combater o tédio e o medo constante, alguns dos habitantes do Fortnoy’s adotam hobbies.
Josh começa a enrolar charutos caseiros com folhas de tabaco que colhe nos campos adjacentes.
Lilly inicia um diário e Bob encontra um tesouro perdido de velhas iscas para peixes em um baú sem
identificação na loja de iscas. Ele passa horas na loja de conveniência saqueada, sentado em uma
bancada de trabalho, atando iscas para pesca com mosca, a fim de usá-las no futuro. Bob planeja
pegar belas trutas, corvinões-de-pintas e percas nos baixios do rio próximo. Ele mantém uma garrafa
de Jack Daniel’s sob a bancada o tempo todo, sorvendo pequenos goles dia e noite.
Os outros percebem a rapidez com que Bob está acabando com a bebida, mas quem pode
culpá-lo? Quem pode culpar qualquer um por afogar o nervosismo nesse cruel purgatório? Bob não
tem orgulho de beber tanto. Na verdade, está completamente envergonhado. Mas é por isso que ele
precisa do remédio — para afastar a vergonha, a solidão, o medo e os terríveis terrores noturnos dos
bunkers salpicados de sangue em Kandahar.
Na sexta-feira daquela semana, de madrugada — Bob anota em seu calendário de papel que é
dia 9 de novembro —, ele está na bancada de trabalho nos fundos da loja atando iscas, enchendo a
cara como de hábito, quando ouve os barulhos arrastados vindo do almoxarifado. Ele não tinha visto
Megan e Scott escapulindo mais cedo naquela noite, nem detectado os odores da maconha queimando
no cachimbo, nem ouvira as risadas abafadas atravessando as paredes finas. Mas agora se dá conta
de outra coisa que não percebeu naquele dia.
Ele para de mexer com as iscas e olha para os fundos da sala. Atrás de um grande botijão de
gás velho, um buraco na parede está claramente visível na luz bruxuleante da lanterna de Bob. Ele se
afasta da bancada e vai até o botijão. Ele o empurra para o lado e se ajoelha diante de um trecho de
15 cm sem revestimento. O buraco parece ter sido formado por dano de água, ou talvez pela
deformação do reboco durante os úmidos verões da Geórgia. Bob olha por cima do ombro para ter
certeza de que está sozinho. Os outros dormem profundamente na oficina.
Os gemidos e suspiros do sexo selvagem fazem a atenção de Bob retornar ao buraco.
Através da abertura de 15 cm ele espia o almoxarifado, onde a luz fraca de uma lanterna a pilha
projeta sombras oscilantes pelo teto baixo. As sombras arquejam e penetram a escuridão. Bob
umedece os lábios. Ele se inclina para mais perto do buraco, quase caindo de bêbado, apoiando-se
contra o botijão de gás. Ele consegue ver uma pequena porção da bunda espinhenta de Scott Moon
subindo e descendo sob a luz amarela, e Megan sob o jovem, com as pernas abertas, os dedos dos
pés se contraindo em êxtase.
Bob Stookey sente o coração se apertar no peito, e a respiração fica presa na garganta.
O que mais o fascina não é o abandono desnudo com o qual os dois amantes entregam-se um ao
outro, nem os grunhidos e gemidos que enchem o ar. O que deixa Bob Stookey arrebatado é a visão
da pele oliva de Megan Lafferty à luz da lanterna, os cachos avermelhados espalhados pelo cobertor
sob a cabeça, o cabelo lustroso e brilhante como o mel. Bob está boquiaberto por causa dela, o
desejo brotando dentro dele.
Bob não consegue tirar os olhos dela, mesmo quando uma tábua do piso range atrás dele.
— Ah... Bob... desculpe... eu não...
A voz vem da sombra do vão da porta do outro lado da loja de conveniência, da passagem para
o escritório. E quando Bob dá um pulo para longe do buraco na parede, virando-se para encarar seu
inquisidor, quase cai no chão. Tem que se segurar ao botijão de gás.
— Eu não estava tentando... isso não é... eu... eu não...
— Não tem problema... eu só... eu só queria ter certeza de que você estava bem.
Lilly está no vão da porta usando moletom, cachecol de tricô e calças, sua roupa de dormir,
com o rosto virado, desviando os olhos, que exibem uma estranha combinação de pena e nojo. A
contusão em torno de seus olhos já melhorou bastante. Ela se movimenta muito melhor, suas costelas
estão sarando.
— Lilly, eu não estava... — Bob vai cambaleando na direção dela, com as grandes mãos
levantadas em um gesto de arrependimento, quando tropeça em uma tábua solta do piso. Ele se
esborracha no chão, arfando com força. Incrivelmente, os barulhos carnais não diminuem na sala
adjacente — uma cadência arrítmica de arquejos e carne colidindo.
— Bob, você está bem? — Lilly corre até ele, se ajoelha e tenta ajudá-lo a se levantar.
— Estou bem, estou bem. — Ele a afasta gentilmente. Ele se põe de pé com dificuldade por
causa da bebedeira e não consegue encará-la. Ele olha para o outro lado da sala. — Pensei ter
ouvido alguma coisa suspeita lá fora.
— Suspeita? — Lilly olha para o chão, para a parede, para qualquer lugar, menos para Bob. —
Ah... OK.
— É, não era nada.
— Ah... que bom. — Lilly recua lentamente. — Só queria ver se você estava bem.
— Estou bem, estou bem. Está ficando tarde, acho que vou dormir.
— Que bom, Bob. Vá, sim.
Lilly se vira e sai apressada, deixando Bob Stookey sozinho à luz da lanterna. Ele fica parado
ali por um instante, olhando para o chão. Depois atravessa lentamente a sala e vai até a bancada. Ele
encontra a garrafa de Jack, tira a tampa e a leva aos lábios.
Ele engole os dedos restantes de bebida em três goles ofegantes.
— Só fico imaginando o que vai acontecer quando ele ficar sem bebida.
Embrulhada em seu casaco de esqui e sua boina de tricô, Lilly segue Josh por um caminho
estreito que serpeia entre colunas de pinheiros. Josh força passagem através da folhagem, com a
calibre .12 aninhada em seus enormes braços, indo em direção a um leito seco de rio coberto de
seixos e vegetação morta. Ele usa seu casaco puído de lenhador e um gorro, a respiração fica visível
quando ele fala.
— Ele vai encontrar mais... Não se preocupe com o velho Bob... Pés de cana sempre encontram
mais cana. Para ser honesto, tenho mais medo de ficarmos sem comida.
O bosque está silencioso como uma capela quando se aproximam das margens do riacho. A
primeira neve da estação se infiltra por entre os galhos altos, rodopiando ao vento, grudando em seus
rostos.
Eles já estão no Fortnoy’s há quase duas semanas, e já gastaram mais da metade dos
suprimentos de água potável e quase todos os alimentos enlatados. Josh chegou à conclusão de que
provavelmente é melhor usar a única caixa de munição da espingarda que eles têm em um veado ou
coelho do que para se defender de um ataque de zumbis. Além disso, as fogueiras, o barulho e a
atividade da cidade de tendas têm afastado do posto de gasolina a maior parte da ação dos errantes
nos últimos tempos. Josh está apelando para as lembranças infantis das caçadas com seu tio Vernon
na Briar Mountain para recuperar o faro e as antigas habilidades. Muito tempo atrás, Josh era um
caçador com uma visão apurada. Mas agora, com essa espingarda de pressão avariada e os dedos
gelados... como saber?
— Estou preocupada com ele, Josh — diz Lilly. — Ele é um homem bom, mas tem problemas.
— E isso não vale para todos nós? — Josh olha por cima do ombro para Lilly, que desce a
colina, passando cuidadosamente por cima de um tronco caído. Ela parece mais forte pela primeira
vez desde o incidente com Chad Bingham. Seu rosto cicatrizou bem e mal se nota qualquer marca. O
inchaço ao redor do olho diminuiu, e ela não está mais mancando nem favorecendo o lado direito. —
Ele com certeza cuidou bem de você.
— É, estou me sentindo muito melhor.
Josh para na margem do riacho e espera por ela. Lilly se junta a ele. Ele vê rastros na lama
compactada no fundo do leito do riacho.
— Parece que um veado cruzou por aqui. Acho que se seguirmos o riacho devemos encontrar
um ou dois deles.
— Podemos descansar um pouco antes?
— Claro — diz Josh, fazendo um gesto para ela se sentar em um tronco.
Ela o faz. Ele se junta a ela com a espingarda atravessada no colo. Ele suspira, sentindo um
desejo enorme de colocar o braço em torno dela. O que há de errado com ele? Arrebatado por uma
paixonite juvenil como um adolescente idiota em meio a todos esses horrores?
Josh baixa os olhos.
— Eu gosto do jeito que vocês tomam conta um do outro, você e o velho Bob.
— É, e você toma conta de todos nós.
Josh suspira.
— Queria ter tomado conta da minha mãe.
Lilly olha para ele.
— Você nunca me contou o que aconteceu.
Josh respira fundo.
— Como eu disse, ela ficou muito doente por vários anos... pensei que ia perdê-la algumas
vezes... mas ela viveu o bastante para... — Ele se interrompe, a tristeza cresce nas entranhas, incha
dentro dele, surpreende-o com sua brusquidão. Lilly vê a dor em seus olhos.
— Não tem problema, Josh, se você não quer...
Ele faz um gesto tênue, um aceno de sua grande mão negra.
— Não me importo de contar a você o que aconteceu. Eu ainda estava tentando ir para o
trabalho todas as manhãs nesse ponto, ainda tentava receber um salário nos primeiros dias da
Mudança, havia apenas alguns avistamentos de Mordedores na época. Já contei o que eu fazia?
Minha profissão?
— Você me disse que era cozinheiro.
Ele assente.
— Um ótimo cozinheiro, modéstia à parte. — Ele olha para ela e a voz fica mais suave. — Eu
sempre quis fazer um jantar de verdade para você. — Seus olhos ficam úmidos. — Minha mãe, que
Deus a tenha, me ensinou o básico, me ensinou a fazer um pudim de pão que a deixaria com os olhos
cheios de lágrimas e a barriga contente.
Lilly sorri para ele, depois o sorriso se desvanece.
— O que aconteceu com sua mãe, Josh?
Por um bom tempo, ele fixa os olhos na fina camada de neve sobre as folhas emaranhadas,
reunindo a energia para contar a história.
— O Muhammad Ali não se comparava a minha mãe... Ela era uma lutadora; lutou contra
aquela doença como uma leoa, durante anos. Mas doce? Ela era doce até não poder mais. De
cachorros vadios a desajustados, ela acolhia qualquer um, os indivíduos mais maltrapilhos,
mendigos, desabrigados, não importava. Ela os acolhia, os chamava de “doçura” e lhes fazia pão de
milho e chá doce até eles roubarem dela ou se meterem em uma briga na sala de estar.
— Parece que ela era uma santa, Josh.
Ele encolhe novamente os ombros.
— Vou ser honesto com você, não eram as melhores condições de vida para mim e para minhas
irmãs. Nós nos mudávamos muito, escolas diferentes, e todos os dias chegávamos em casa e a
encontrávamos cheia de estranhos, mas eu adorava a velha.
— Dá para entender por quê.
Josh engole em seco. Aí vem ela. A parte ruim, a que assombra seus sonhos até hoje. Ele olha
para a neve sobre as folhas.
— Aconteceu em um domingo. Eu sabia que minha mãe estava piorando, não estava pensando
direito. Um médico nos disse que o Alzheimer estava progredindo. Nesse ponto, os mortos estavam
entrando nos conjuntos habitacionais, mas ainda havia as sirenes de alerta sendo ligadas, avisos e
essas coisas. Nossa rua estava bloqueada naquele dia. Quando saí para o trabalho, minha mãe estava
sentada à janela, olhando para aquelas coisas passando pelos cordões de isolamento e sendo
abatidas pelos caras da SWAT. Eu não me preocupei. Achei que ela ia ficar bem.
Ele faz uma pausa e Lilly não diz nada. Está claro para ambos que ele precisa dividir essa
história com outro ser humano ou ela vai continuar a corroê-lo.
— Eu tentei ligar para ela mais tarde. Acho que as linhas tinham caído. Imaginei que, se tivesse
acontecido alguma coisa ruim, eu saberia. Acho que eram umas 17h30 quando saí do trabalho
naquele dia.
Josh está com um bolo na garganta, e sente o olhar de Lilly sobre ele.
— Eu estava virando a esquina no começo da minha rua, mostrando a identidade para os caras
no bloqueio, quando percebo uma grande atividade mais para a frente. Homens da SWAT indo e
vindo. Bem em frente ao meu prédio. Estaciono. Eles gritam para eu sair dali e digo, “ei, cara, calma,
eu moro aqui”. Eles me deixam passar. Vejo a porta da frente do nosso prédio escancarada. Policiais
estão entrando e saindo. Alguns deles carregando...
Josh engasga com as palavras. Ele respira. Se prepara. Enxuga lágrimas dos olhos.
— Alguns deles estavam carregando... como se chamam... recipientes para amostras? Para
órgãos humanos e essas coisas? Subi as escadas correndo de dois em dois degraus. Acho que
derrubei um dos policiais. Chego a nossa porta no segundo andar e lá estão uns caras com trajes de
proteção bloqueando a entrada, e eu os empurro para o lado, entro e vejo...
Josh sente a tristeza subindo lentamente por sua garganta, estrangulando-o. Ele faz uma pausa
para respirar. As lágrimas queimam e descem pelo queixo.
— Josh, você não tem que...
— Não, tudo bem, eu preciso... o que eu vi lá... soube imediatamente o que tinha acontecido.
Soube no segundo em que vi a janela aberta e a mesa posta. A mamãe estava usando os pratos do
enxoval. Não dava para acreditar na quantidade de sangue. O lugar estava pintado de sangue. — Ele
sente a voz falhando, e nada contra a maré de lágrimas. — Havia pelo menos seis daquelas coisas no
chão. Os caras da SWAT deviam tê-los abatido. Não tinha... sobrado muito da mamãe. — Ele
engasga. Engole. Estremece com a dor causticante em seu peito. — Havia... pedaços dela na mesa.
Com a louça boa. Eu vi... eu vi... seus dedos... todos mastigados ao lado da molheira... o que sobrou
do corpo dela... jogado em uma cadeira... a cabeça estava caída para um lado... o pescoço aberto...
— Está tudo bem... Josh, você não precisa... sinto muito... sinto muito mesmo.
Josh olha para ela como se visse seu rosto sob uma nova luz, pairando no brilho difuso da neve,
com os olhos distantes, como se estivesse em um sonho.
Através das lágrimas, Lilly Caul encontra o olhar do homem grande e seu coração se aperta. Ela quer
abraçá-lo, quer reconfortar esse gentil colosso, acariciar seus grandes ombros e dizer a ele que tudo
vai ficar bem. Nunca se sentiu tão próxima de outro ser humano, e isso a está torturando. Ela não
merece sua amizade, sua lealdade, sua proteção, seu amor. O que deve dizer? Sua mãe está em um
lugar melhor agora? Ela se recusa a rebaixar esse momento terrivelmente profundo com clichês
idiotas.
Ela está para dizer outra coisa quando Josh fala novamente em um tom baixo, esgotado,
derrotado, sem tirar os olhos dela.
— Ela convidou aquelas coisas para entrar e comer pão de milho e feijão... ela os acolheu...
como cachorros vadios... porque é o que ela fazia. Amava todas as criaturas de Deus. — O homem
grande se curva e seus ombros tremem enquanto as lágrimas pingam de seu maxilar grisalho sobre a
frente do casaco de lenhador do Exército da Salvação. — Provavelmente os chamou de “doçura”...
até o momento em que a comeram.
Então o homem grande baixa a cabeça e solta um som aterrador — meio soluço, meio risada
insana — enquanto as lágrimas descem pelo rosto negro enorme e cinzelado.
Lilly se aproxima. Ela coloca a mão em seu ombro. A princípio, ele não diz nada. Ela toca suas
mãos gigantescas, que apertam a espingarda no colo. Ele levanta os olhos para ela, sua expressão é
uma máscara de ruína emocional.
— Desculpe, estou tão... — diz ele com um tom que mal chega a ser um sussurro.
— Está tudo bem, Josh. Tudo bem. Vou estar sempre aqui para você. Estou com você agora.
Ele levanta a cabeça, enxuga o rosto e consegue dar um sorriso fraco.
— Parece que está mesmo.
Ela o beija — rapidamente, mas na boca — pouco mais do que um selinho amistoso. O beijo
dura alguns segundos.
Josh larga a arma, coloca os braços em torno dela e corresponde ao gesto, e as emoções
conflitantes percorrem Lilly quando o homem grande deixa os lábios pairarem sobre os dela. Ela se
sente flutuar na neve varrida pelo vento. Não consegue distinguir a corrente de sentimentos que a
deixa tonta. Sente pena desse homem? Ela o está manipulando outra vez? Ele tem gosto de café,
fumaça e chiclete Juicy Fruit. A neve fria toca os cílios de Lilly, o calor dos lábios de Josh derrete o
frio. Ele fez muito por ela. Ela lhe deve sua vida mais de dez vezes. Ela abre a boca, pressiona o
peito contra o dele, e então ele se afasta.
— O que foi? — Ela o encara, examina os grandes olhos castanhos e tristes. Será que ela fez
alguma coisa errada? Será que passou do limite?
— Nada, querida. — Ele sorri, inclina-se e a beija na bochecha. É um beijo caloroso, suave,
carinhoso, uma promessa de que há o que esperar. — É o momento, sabe — diz ele, e pega a
espingarda. — Não é seguro aqui... não é certo.
Por um instante, Lilly não consegue entender se ele está se referindo ao bosque ou se está
falando deles dois.
— Desculpe se eu...
Ele toca os lábios dela gentilmente.
— Eu quero que seja perfeito... quando chegar a hora.
Ele dá o sorriso mais sincero, puro e doce que Lilly já viu. Ela corresponde, os olhos se
enchendo de lágrimas. Quem teria imaginado, em meio a todo esse horror, um perfeito cavalheiro?
Lilly vai começar a dizer alguma coisa quando um barulho agudo chama sua atenção.
Josh ouve o suave tamborilar de cascos antes, e gentilmente empurra Lilly para trás de si. Ele levanta
o cano simples da espingarda de pressão. O tropel se torna mais alto. Josh arma o cão.
A princípio, ele acha que está vendo coisas. Acima deles, descendo a barragem, levantando
folhas e detritos, um bando de animais — impossíveis de identificar, apenas um borrão de pelos —
lança-se através da vegetação diretamente na direção deles.
— Abaixe-se! — Josh puxa Lilly para trás de um tronco caído na margem do leito do rio.
— O que é isso? — Lilly se agacha atrás da madeira carcomida.
— Jantar! — Josh leva a alça de mirada da arma aos olhos e aponta para os animais que se
aproximam: um pequeno grupo de corças com orelhas felpudas e pontudas, e olhos tão grandes
quanto bolas de sinuca. Mas algo o impede de atirar. Seu coração palpita no peito, a pele fica toda
arrepiada.
— Josh, o que foi?
Os veados passam com estrondo por Josh, quebrando galhos e jogando pedras enquanto ele
evita a debandada.
Josh aponta a arma para as sombras mais escuras vindo atrás dos animais.
— Corra, Lilly!
— O quê? Não! — Ela se levanta de trás do tronco, observando os veados pularem para o
outro lado do leito do riacho. — Não vou deixar você!
— Atravesse o riacho, estarei logo atrás de você! — Josh mira a espingarda nos vultos que
descem a colina, ziguezagueando entre a vegetação rasteira.
Lilly vê a horda de zumbis movendo-se com dificuldade em direção a eles, pelo menos vinte,
batendo contra as árvores e esbarrando uns nos outros.
— Ai, merda.
— VÁ!
Lilly corre pela vala de cascalho e mergulha nas sombras da floresta adjacente.
Josh recua, apontando a mira para a dianteira da horda que se aproxima.
Subitamente, no instante anterior a seu tiro, ele vê corpos e roupas com formas bizarras, e
rostos e fantasias estranhos e queimados, mutilados a ponto de ficarem quase irreconhecíveis. E Josh
se dá conta do que aconteceu com os proprietários anteriores da tenda de circo de três picadeiros —
os infelizes membros do Cole Brothers’ Family Circus.
SEIS
Josh aperta o gatilho.
O tiro ecoa no céu, o chumbinho abre um buraco na testa do anão mais próximo. A 6 metros de
distância, o pequeno cadáver apodrecido recua em convulsão, colidindo com três outros anões com
maquiagem de palhaço ensanguentada e dentes pretos arreganhados. Os pequenos zumbis —
atrofiados e deformados como gnomos doentios — resvalam para o lado.
Josh dá uma última olhada nos intrusos surreais que se aproximam dele.
Atrás dos anões, cambaleando colina abaixo, vem um agrupamento heterogêneo de artistas
mortos. Um homem gigantesco e forte com um bigode de pontas retorcidas para cima e a musculatura
aberta em veios ensanguentados anda ao lado do cadáver de uma mulher morbidamente obesa,
seminua, com pneus de gordura pendendo sobre os genitais, com olhos leitosos enterrados em um
rosto tão encaroçado quanto massa fermentada.
Na retaguarda, um agrupamento aleatório de funcionários do parque, aberrações e
contorcionistas mortos segue estupidamente. Cabeças de alfinete com encefalite, estalando as
pequenas bocas, cambaleiam ao lado de trapezistas esfarrapados com extravagantes lantejoulas e
rostos gangrenados, seguidos por vários amputados que os acompanham espasmodicamente. A horda
se movimenta de forma irregular, selvagem e faminta como um cardume de piranhas.
Josh se esquiva, lançando-se através do leito seco do riacho em um único salto.
Ele sobe correndo a margem oposta e imerge no bosque adjacente com a espingarda no ombro.
Não há tempo para recarregar. Vê Lilly ao longe, correndo em direção às árvores mais densas. Ele a
alcança em questão de segundos e a direciona para o leste.
Os dois desaparecem nas sombras antes que o que restou do Cole Brothers’ Family Circus
tenha sequer a chance de atravessar o riacho.
No caminho de volta ao posto de gasolina, Josh e Lilly encontram um bando menor de veados. Josh
tem sorte e mata um dos mais jovens com um único tiro. O estrondo ecoa pelo céu — longe o
bastante do Fortnoy’s para evitar chamar atenção, mas próximo o suficiente para que seja possível
arrastar o troféu de volta para casa —–, e o animal cai arfando e se contraindo.
Lilly não consegue parar de olhar a carcaça enquanto Josh prende o cinto em torno de suas
ancas e arrasta os restos ainda quentes por quase 1 km até o Fortnoy’s. Nesse Mundo Flagelado, a
morte em qualquer contexto — humana ou animal — ganhou novas implicações.
Naquela noite, o humor melhora entre os habitantes do posto de gasolina.
Josh prepara o veado na oficina, nas mesmas pias galvanizadas nas quais eles têm se banhado,
e obtém o suficiente do animal para durar semanas para o grupo. Ele mantém o excesso de carne do
lado de fora, no frio cada vez mais intenso dos fundos do terreno, e prepara um banquete de órgãos,
costelas e barriga, lentamente cozidos no caldo de uma sopa de frango instantânea que ele encontrou
na última gaveta da mesa do escritório do Fortnoy`s, com fatias de alho silvestre e talos de urtiga.
Eles têm alguns pêssegos enlatados para acompanhar o veado refogado, e se fartam.
Os errantes os deixam em paz pela maior parte da noite — nem sinal dos mortos do circo ou de
qualquer outro enclave. Durante o jantar, Josh percebe que Bob não consegue tirar os olhos de
Megan. O homem mais velho parece estar muito atraído pela garota e, por alguma razão, isso
preocupa Josh. Há dias Bob está frio e áspero com Scott (não que o garoto tenha percebido alguma
coisa em seu constante estado de demência). Mesmo assim, Josh sente as voláteis ligações químicas
de sua pequena tribo sendo testadas, pressionadas, alteradas.
Mais tarde, sentam ao redor do fogão a lenha, fumam os charutos caseiros de Josh e
compartilham um pouco do estoque de uísque de Bob. Pela primeira vez desde que saíram da cidade
de tendas — talvez desde o advento da praga — eles se sentem quase normais. Falam em escapar.
Falam de ilhas desertas, antídotos e vacinas, e em reencontrar a felicidade e a estabilidade. Eles
falam sobre coisas às quais não davam valor antes da praga começar: fazer compras em
supermercados, se divertir em parques, sair para jantar, assistir a programas de TV, ler o jornal nas
manhãs de domingo, ir a shows de música ao vivo, se sentar no Starbucks, fazer compras nas lojas da
Apple, usar o Wi-Fi e receber cartas por aquela coisa anacrônica chamada correio.
Cada um deles tem seus pequenos prazeres. Scott lamenta a extinção da boa maconha e Megan
sente falta da época em que podia ficar em seu bar favorito — o Nightlies, em Union City — e
desfrutar as porções de pepino e os espetinhos de camarão gratuitos. Bob anseia por Bourbon de dez
anos como uma mãe ansiaria por um filho perdido. Lilly se lembra de seu prazer secreto de
frequentar lojas de roupas usadas e brechós para encontrar o cachecol, o casaco ou a blusa perfeita
— os dias em que encontrar roupas rejeitadas não era uma questão de sobrevivência. E Josh se
lembra das várias delicatessens que havia na área de Little Five Points, em Atlanta; tinham de tudo,
desde um bom kimchi ao raro óleo de trufa rosa.
Seja por causa de algum capricho do vento ou talvez pelo som combinado de suas risadas —
assim como do crepitar do fogão a lenha —, os barulhos perturbadores chegando por sobre as
árvores da cidade de tendas passam despercebidos durante horas naquela noite.
Em certo momento — depois que o pequeno jantar termina e cada um vai para seu saco de
dormir no chão da oficina —, Josh tem a impressão de que ouve algo estranho ecoando sob o som da
brisa que bate contra as portas de vidro. Mas simplesmente chega à conclusão de que é o vento e sua
imaginação.
Josh se oferece para fazer o primeiro turno, ficando de vigia no escritório da frente, para se
certificar de que os barulhos não são nada. Mas ele leva horas para ouvir ou ver qualquer coisa fora
do comum.
O escritório tem uma grande janela de vidro suja em sua fachada, boa parte da qual está
bloqueada por prateleiras, estantes de mapas, guias de viagem e pequenos desodorizantes de pinho.
A mercadoria empoeirada bloqueia qualquer sinal dos problemas que acontecem do outro lado do
distante mar de pinheiros.
A madrugada passa, e eventualmente Josh cochila na cadeira. Seus olhos ficam fechados até as
4h43, quando o primeiro som fraco de motores subindo a colina o acorda com um susto.
Lilly desperta com o som de passos pesados de bota saindo pela porta do escritório. Sentando-se
contra a parede, com a bunda congelando, ela não percebe que Bob já está acordado em seu
emaranhado ninho de cobertores do outro lado da oficina.
Sentando-se e olhando em volta da oficina, Bob Stookey aparentemente ouviu os barulhos de
motor poucos segundos depois que acordaram Josh no escritório.
— O que está acontecendo? — resmunga ele. — Aquilo lá está parecendo as Quinhentas
Milhas de Indianápolis.
— Todo mundo de pé — diz Josh, entrando de repente na oficina, olhando freneticamente o
chão engordurado, procurando alguma coisa.
— Qual é o problema? — Lilly esfrega o sono dos olhos, o coração começa a bater com força.
— O que foi?
Josh se aproxima dela. Ele se ajoelha e fala com suavidade, mas urgência:
— Está acontecendo alguma coisa lá, carros se movendo sem se preocupar com nada, e eu não
quero ser pego desprevenido.
Ela ouve o ronco dos motores, o crepitar de cascalho voando. Os sons estão se aproximando. A
boca de Lilly fica seca de pânico.
— Josh, o que você está procurando?
— Vista-se, boneca, rápido. — Ele olha para o outro lado do cômodo.
— Bob, sabe onde está aquela caixa de balas calibre .38 que trouxemos?
Bob Stookey se põe de pé, puxando desajeitadamente as calças de trabalho sobre a cueca
comprida, uma fatia de luz da lua passa pela claraboia e cobre de listras seus traços profundamente
enrugados.
— Coloquei sobre a bancada de trabalho — diz ele. — Qual é o problema, capitão?
Josh corre até lá e pega a caixa de munição. Ele enfia a mão sob o casaco de lenhador, pega a
.38 de cano curto no cinto, abre o cilindro e carrega enquanto fala.
— Lilly, você vai buscar os pombinhos. Bob, vou precisar que você pegue aquela sua
espingarda e me encontre lá na frente.
— E se eles forem amigáveis, Josh? — Lilly veste o suéter e calça as botas enlameadas.
— Se for o caso, não temos com o que nos preocupar. — Ele volta-se em direção à porta. —
Mexam-se, vocês dois. — E sai do cômodo.
Com o coração acelerado e a pele formigando de terror, Lilly atravessa a oficina correndo,
passa pela arcada e depois pelo estreito corredor da loja de conveniência. Uma única lanterna
pendurada ilumina seu caminho.
— Gente! Acordem! — diz ela depois de chegar à porta do almoxarifado e começar a bater
com força.
Há sons arrastados de pés descalços nas frias tábuas do piso, depois a porta se abre
parcialmente. O rosto sonolento e confuso de Megan espia para fora de uma nuvem-fumaça de skank.
— Qué pasa? Cara... que porra é essa?
— Acorde, Megan, estamos com problemas.
O rosto da garota fica instantaneamente tenso e preocupado.
— Errantes?
Lilly balança a cabeça enfaticamente.
— Acho que não, a não ser que tenham aprendido a dirigir.
Minutos mais tarde, Lilly se junta a Bob e Josh na frente do Fortnoy’s — no ar gelado e cristalino da
madrugada — enquanto Scott e Megan, enrolados em cobertores, se amontoam atrás deles na porta
do escritório.
— Ai, meu Deus — diz Lilly, praticamente falando sozinha.
A pouco mais de 1,5 km de distância, sobre as copas das árvores vizinhas, um grande miasma
de fumaça se eleva e encobre as estrelas. O horizonte tem um leve brilho rosado, e parece que o
oceano negro de pinheiros está pegando fogo. Mas Lilly sabe que não é a floresta que está sendo
incendiada.
— O que eles fizeram?
— Isso não é bom — murmura Bob, segurando a espingarda apertada em suas mãos frias.
— Para trás — diz Josh, armando o cão da .38 barata.
Os barulhos de motor estão cada vez mais próximos, talvez a 100 metros de distância, vindos
pela sinuosa estrada rural. As fontes do barulho ainda estão obscurecidas por trás do véu na noite e
das árvores que cercam a propriedade. Os faróis criam feixes incrivelmente arqueados. Pneus
derrapam e deslizam pelo cascalho. Raios de luz são apontados para o céu, depois para a copa das
árvores e, outra vez, para a estrada.
Um dos faróis ilumina o letreiro do Fortnoy’s e Josh murmura:
— O que está havendo com eles?
Lilly olha o primeiro veículo que aparece — um sedã modelo novo — ziguezagueando pela
sinuosa estrada de cascalho, depois derrapando.
— Que merda é essa?
— Eles não estão parando! ELES NÃO ESTÃO PARANDO!! —Bob começa a se afastar do
feixe duplo de luz halogênica mortal.
O carro entra derrapando no terreno, rugindo sem controle através dos 50 metros de cascalho
fino que contornam o Fortnoy’s, a traseira levanta uma nuvem de poeira no frio índigo da madrugada.
— CUIDADO!
Josh entra em ação, pegando Lilly pela manga e puxando-a para longe do perigo, enquanto Bob
gira em direção ao escritório e grita o mais alto que consegue para os dois amantes abraçados, com
os olhos arregalados, no vão da porta aberta.
— SAIAM DAÍ!!
Megan afasta o namorado da porta e o puxa pela faixa de cimento rachado que rodeia as ilhas
de combustível. O sedã — que acaba se revelando um Cadillac DeVille danificado conforme se
aproxima — canta pneus e oscila em direção ao prédio. Bob se joga em direção a Megan. Scott solta
um grito indistinto.
Outro veículo, um utilitário velho com o bagageiro quebrado, chega guinchando e deslizando no
terreno. Bob agarra Megan e a empurra gentilmente para o capim macio além das portas da oficina.
Scott se joga para se esconder atrás de uma caçamba de lixo. Josh e Lilly se abaixam atrás de um
destroço perto do letreiro da frente.
O sedã passa por cima da bomba de gasolina mais próxima e segue em frente, com o motor se
esgoelando furiosamente. O outro veículo continua girando. Atrás do destroço, a cerca de 5 metros,
Lilly observa em choque o sedã bater contra a janela da frente.
O terrível som de vidro e metal sendo triturados faz Lilly se retrair de susto. Detritos e fagulhas
saem voando quando o sedã entra na frente do prédio.
O carro segue, com os pneus traseiros cantando e girando no piso, destruindo metade do prédio
com a força de uma bola de demolição. Lilly cobre a boca com a mão. A parte frontal do telhado do
Fortnoy’s desmorona sobre o sedã quando ele para na loja de conveniência.
O utilitário bate de lado na bomba de diesel, incendiando os resquícios de combustível. O fogo
explode para cima e lambe os vapores suspensos. As janelas do carro exibem o brilho amarelo
opaco de alguma coisa queimando do lado de dentro. Lilly agradece silenciosamente a Deus pelo
fato de os reservatórios de combustível estarem vazios, ou ela e seus amigos já teriam sido
vaporizados.
O utilitário para enviesado sob o toldo, com os faróis altos ainda brilhando com força,
iluminando o prédio como refletores em uma peça de teatro alucinante.
Por um instante, o silêncio despenca sobre a propriedade até que o crepitar das chamas e o
chiado dos fluidos são tudo o que se pode ouvir.
Cautelosamente, Josh sai de trás do destroço, ainda segurando o revólver .38. Lilly se junta a
ele e está a ponto de dizer algo como “Que merda foi essa?”, quando percebe que os faróis do carro
estão apontados para o interior do prédio, uma ampla piscina de luz caindo diretamente sobre a
traseira do sedã.
Dentro do vidro de trás do carro — fraturado em enormes padrões circulares de vidro
quebrado — algo se move. Lilly vê a parte de trás dos ombros de alguém, virando-se lentamente,
girando desajeitadamente, revelando um rosto pálido e descorado.
De repente, Lilly entende exatamente o que aconteceu.
Momentos depois, as coisas no Fortnoy’s começam a se desenrolar em grande velocidade quando
Josh sussurra freneticamente para os outros:
— Afastem-se do prédio!
Do outro lado do terreno, Bob, Megan e Scott ainda estão agachados no capim atrás da
caçamba de lixo. Eles se levantam lentamente e estão a ponto de responder.
— SSSSSHHHHHHHHH!! — Josh aponta para o prédio, indicando o perigo lá dentro, e
sussurra alto o bastante para fazê-los se mexer: — Rápido! Venham para cá!!
Bob compreende imediatamente, pega a mão de Megan e contorna as chamas tremulantes da
bomba de diesel. Scott os segue.
Lilly está ao lado de Josh.
— O que vamos fazer? Todas as nossas coisas estão lá.
A parte da frente do posto e metade de seu interior estão completamente destruídas, as faíscas
ainda espirram, os canos de água ainda jorram sobre os pisos frios.
No clarão dos feixes dos faróis do utilitário, o vão aberto de uma das portas traseiras do sedã
se alarga repentinamente, uma perna decomposta coberta de farrapos sai em movimentos
espasmódicos e indecisos.
— Este lugar já era, querida — diz Josh entredentes. — P.T. Saudações... esqueça.
Bob e os outros se juntam a Josh e Lilly, e por um breve instante ficam parados ali, ainda em
choque, recuperando o fôlego coletivamente. Bob ainda segura a espingarda com as mãos suadas.
Megan parece enjoada.
— Que porra foi essa? — murmura ela, quase retoricamente.
— O pessoal deve ter tentado fugir — especula Josh. — Talvez um passageiro tenha sido
mordido, e eles se transformaram no carro.
Dentro do prédio destruído, um zumbi sai do sedã como um feto deformado nascendo.
— Bob, está com a chave?
Bob olha para Josh.
— Está na picape.
— Na ignição?
— Porta-luvas.
Josh vira-se para os outros.
— Quero que todos esperem aqui. Vou pegar a picape. — Josh vira as costas e Lilly o segura.
— Espere! Espere! Está me dizendo que vamos simplesmente deixar todas as nossas coisas lá, todos
os nossos suprimentos?
— Não temos escolha.
Ele contorna as bombas fumegantes pelo lado esquerdo enquanto os outros ficam ali, perplexos
e sem fala. A 8 metros de distância, o utilitário explode, uma porta entreaberta se escancara, o fogo
cintila. Lilly estremece. Megan ofega quando outra coisa morta sai do veículo.
Bob tenta enfiar uma bala de espingarda dentro do cano com as mãos trêmulas.
Os outros se afastam em direção à estrada, Scott murmura histericamente:
— Merda, cara, merda... merda... merda... merda... merda... merda... merda...
A coisa que sai do carro, queimada a ponto de ficar irreconhecível, cambaleia em direção a
eles. A boca escancarada verte saliva preta. A parte de trás de seu colarinho e parte do ombro
esquerdo ainda crepitam com minúsculas chamas. A fumaça em torno da cabeça é como um halo.
Aparentemente um homem adulto, com metade da pele do rosto queimada. Ele mal consegue ficar de
pé enquanto se arrasta lentamente na direção do cheiro de humanos.
Bob não consegue encaixar a bala direito, de tanto que as mãos tremem.
Ninguém vê a luz das lanternas traseiras do outro lado do terreno atrás da fileira de destroços,
e ninguém ouve o rumor do motor da picape de cabine dupla sendo ligado ou o guincho da tração dos
pneus traseiros quando o motor acelera.
O zumbi em chamas se aproxima de Megan, que se vira, corre e tropeça em um trecho de
cascalho solto. Ela se estatela no chão enquanto Scott grita, Lilly tenta ajudá-la a se levantar e Bob se
atrapalha com a espingarda.
O errante chega a centímetros deles quando o borrão de metal aparece.
Josh recua a Ram diretamente sobre o zumbi, e o impacto do engate traseiro projetado empala a
coisa, fazendo o cadáver chamuscado sair voando em uma nuvem de faíscas. A coisa quebra ao meio,
o torso voa para um lado, e as extremidades inferiores, para outro.
Um dos órgãos escurecidos e crepitantes acerta as costas de Megan, salpicando-a de bile e
fluidos quentes e oleosos. Ela solta um grito.
A picape derrapa para perto e eles entram correndo, puxando uma Megan histérica para dentro
pelo basculante traseiro. Josh enfia o pé no acelerador.
A caminhonete sai do terreno em disparada e desce a estrada sinuosa de acesso.
Ao todo, apenas três minutos e meio passaram desde o ataque... mas, nesse tempo, o destino de
todos os cinco sobreviventes mudou irrevogavelmente.
Eles decidem descer a colina e virar para o norte, ziguezagueando pela floresta em direção à cidade
de tendas. Seguem cautelosamente, com os faróis desligados e os olhos bem abertos. Na camper,
Scott e Megan espiam através da janela da divisória, enquanto Bob e Lilly, lado a lado na cabine,
juntos a Josh, observam a paisagem com concentração febril. Ninguém diz uma palavra. Todos eles
abrigam o medo oculto de investigar a extensão do dano na cidade de tendas — os recursos do vasto
acampamento agora são cruciais para a sobrevivência.
Nesse ponto começou a amanhecer, as bordas do horizonte — azul-claras atrás das árvores —
começam a afastar as sombras das valas e reentrâncias. O ar está terrivelmente frio e com cheiro dos
incêndios recentes. Josh mantém as mãos no volante enquanto a picape serpeia através das sombras
frias que se elevam sobre a cidade de tendas.
— PARE! JOSH! PARE!
Josh pisa no freio no cume de uma colina de onde se vê o canto sul do acampamento. Os pneus
da picape raspam ao parar.
— Ah, meu Deus.
— Jesus Cristo.
— Vamos voltar. — Lilly rói a unhas, olhando por entre uma abertura na vegetação. Ela vê o
que restou da cidade de tendas ao longe. O ar fede a carne queimada e algo pior, algo mortalmente
sórdido, como uma infecção em massa. — Não há nada que possamos fazer aqui.
— Espere um pouco.
— Josh...
— Mas o que foi que aconteceu lá? — murmura Bob para ninguém em particular, olhando
através do vão entre as árvores, que se abre como um proscênio sobre o pasto 15 metros abaixo. Os
raios do sol da manhã atravessam cortinas de fumaça, tornando a devastação quase irreal, como a
cena de um filme mudo. — Parece que o Godzilla atacou esse lugar.
— Acha que alguém enlouqueceu? — Lilly não consegue tirar os olhos da ruínas fumegantes.
— Acho que não — diz Josh.
— Acha que os errantes causaram isso?
— Não sei, talvez tenha aparecido uma grande horda e um incêndio começou.
Lá embaixo, no pasto, ao longo das margens do acampamento, carros incendiados estão
desordenados. Muitas das tendas menores ainda estão pegando fogo, soltando lufadas pretas de
fumaça para o céu acre. No centro do campo, a tenda de circo foi reduzida a um endoesqueleto
ardente de postes de metal e tirantes. Até mesmo o chão batido queima em alguns pontos, como se
alguém tivesse distribuído bocados de chamas líquidas. Corpos fumegantes cobrem o terreno. Por um
momento breve e surreal, Josh se lembra do desastre do Hindenburg, os destroços ardentes da nave
em seus catastróficos estertores mortais.
— Josh...
O homem grande se vira e olha para Lilly, cujo rosto está virado, esquadrinhando as margens
da floresta em ambos os lados da picape. Sua voz baixa vários tons até ficar quase grogue de terror.
— Josh... ãhn... temos que sair daqui.
— O que foi?
— Puta que pariu. — Bob vê o que Lilly está vendo, e o ar na cabine crepita de tensão. —
Tire-nos daqui, capitão.
— O que vocês...
Então Josh vê o problema: as incontáveis figuras sombrias saindo das árvores — quase em uma
ordem sincronizada de marcha — como um grande cardume de peixes expulso das profundezas.
Alguns deles ainda ardem soltando finas colunas de fumaça das roupas esfarrapadas. Outros andam
em uma fome robótica, com as garras retorcidas esticadas. Centenas de olhos opacos refletem a
pálida luz da alvorada quando focalizam o veículo solitário. Os pelos da nuca de Josh se arrepiam.
— JOSH, ANDE!
Ele gira o volante e afunda o pé no acelerador, e as 360 polegadas cúbicas rugem. A picape dá
uma guinada de 180 graus, atropela uma dúzia de zumbis e derruba um pequeno pinheiro. O úmido
destroncamento dos membros mortos e o estalo dos galhos faz um barulho inacreditável quando os
detritos e o sangue batem nos para-lamas da frente. A traseira sacode violentamente, batendo contra
uma horda de errantes e jogando Megan e Scott de um lado para o outro na camper. Josh volta para a
estrada e pisa no acelerador, disparando colina abaixo outra vez na direção da qual vieram.
Eles mal chegam à estrada adjacente no sopé da colina antes de perceberem que pelo menos três
zumbis se prenderam como cracas à picape.
— Merda! — Josh vê um em seu espelho retrovisor, agarrando-se ao veículo pelo lado do
motorista, perto do para-lama traseiro, com os pés no estribo, emaranhado em cordas e com as
roupas esfarrapadas presas no acabamento de metal da camper. — Fiquem calmos... estamos com
alguns parasitas!
— O quê!? — Lilly se volta para a janela do carona e vê um rosto morto aparecer do outro
lado do vidro como um palhaço saindo da caixa de surpresas. O rosto se contorce e mostra os dentes
para ela, a saliva escura pende ao vento. Lilly se sobressalta, apavorada.
Josh se concentra na estrada, fazendo uma curva fechada, depois seguindo para o norte a
constantes 70 km/h, em direção à rodovia principal, ziguezagueando de propósito em uma tentativa
de arremessar para longe os zumbis da picape.
Dois dos errantes se atracaram do lado do motorista, e outro agarrou-se no lado do carona —
todos com força —, presos à picape ou fortes o bastante em sua fome espasmódica para se segurar.
— Bob, você tem mais daquelas balas na cabine?
— Estão na traseira.
— Merda!
Bob lança um olhar para Lilly.
— Querida, acho que tem um pé de cabra no chão, atrás do banco do carona...
A picape oscila. Um dos errantes se solta, caindo na estrada e rolando pela margem. Gritos
abafados vêm da traseira. O som de vidro quebrando atravessa a divisória. Lilly encontra um pedaço
de ferro sujo de 90 cm com a extremidade curva no chão atrás deles.
— Achei!
— Entregue para mim, querida!
Josh olha pelo retrovisor e vê um segundo zumbi se soltar de onde está preso e cair no chão sob
as rodas. A picape passa por cima do cadáver e continua acelerando.
Bob grita, ofegando asperamente, virando-se para a janela do compartimento de dormir,
erguendo o pé de cabra.
— Para trás, Lilly, cubra o rosto!
Lilly se encolhe, protegendo-se, quando Bob ataca o zumbi na janela.
A extremidade curvada do pé de cabra choca-se contra a janela, mas só lasca um pedaço do
vidro laminado e reforçado. O zumbi rosna, enredado nas cordas — o rosnado atonal é um eco com
efeito Doppler ao vento.
Bob solta um grito e bate com o pé de cabra na janela sem parar, com toda a força, até que a
ponta curvada quebra o vidro laminado e crava-se no rosto morto. Lilly desvia os olhos.
O pé de cabra empala o cadáver pelo céu da boca e se prende. Bob fica boquiaberto de horror.
Por trás do mosaico de vidro fraturado, a cabeça espetada fica suspensa no vento por um instante.
Seus olhos de botão como os de um tubarão, ainda animados, têm um brilho fosco, e a boca ainda
pulsa ao redor do ferro, como se tentasse comer o pé de cabra.
Lilly não consegue olhar. Ela se encolhe no canto, tremendo convulsivamente.
Josh dá outra guinada e o zumbi finalmente se solta no vento, caindo no chão e desaparecendo
sob as rodas. O restante da janela se arrebenta, um tecido de vidro despedaçado que implode e
rodopia para dentro da cabine. Bob estremece, inundado de adrenalina, e Josh continua disparando
em frente enquanto Lilly se encolhe em posição fetal atrás.
Eles finalmente chegam à estrada de acesso principal e Josh vai em direção ao sul, acelerando,
gritando alto o bastante para os que estão atrás escutarem.
— Todo mundo se segura!
Sem qualquer outra palavra, Josh acelera, com as mãos soldadas ao volante, ziguezagueando e
contornando bolsões de veículos destruídos e abandonados por mais alguns quilômetros, vigiando o
retrovisor, certificando-se de que estão livres e fora do alcance da horda.
Eles se afastam 8 km do cataclismo antes de Josh pisar nos freios e parar no acostamento de cascalho
de um trecho deserto dos campos abandonados. A picape cai em um silêncio irreal. Apenas o som
das batidas de seus corações nos ouvidos e o assobio agudo e solitário do vento são ouvidos.
Josh olha para Lilly por cima do ombro. A expressão de seu rosto levemente machucado, a
maneira como está encolhida no canto, segurando os joelhos dobrados contra o peito, tremendo como
se estivesse com hipotermia — tudo o preocupa.
— Você está bem, boneca?
Mesmo aterrorizada Lilly consegue engolir o bolo em sua garganta e lança um olhar para ele.
— Ótima.
Josh assente, depois grita alto o bastante para ser ouvido na camper:
— Está todo mundo bem aí atrás?
O rosto de Megan na janela diz tudo. Seu rosto corado está retorcido de tensão, e ela levanta o
polegar para eles devagar.
Josh se vira e olha pelo para-brisa. Ele respira pesadamente, como se estivesse se recuperando
de uma corrida.
— Essas coisas malditas estão mesmo se multiplicando.
Bob esfrega o rosto, ofegante, lutando contra o tremor.
— Também estão ficando mais audaciosos, se quer saber.
Após uma pausa, Josh diz:
— Deve ter sido rápido.
— É.
— Os coitados nem viram o que os atingiu.
— É. — Bob enxuga a boca. — Talvez devêssemos voltar, tentar afastar aquelas coisas do
acampamento.
— Para quê?
Bob mordisca a própria bochecha.
— Não sei... pode haver sobreviventes.
Outra longa pausa paira na cabine, até que Lilly finalmente diz:
— É improvável, Bob.
— Podem ter sobrado suprimentos de que precisamos.
— É arriscado demais — diz Josh, observando atentamente a paisagem. — Onde é que nós
estamos, afinal?
Bob tira um mapa de um porta-objetos cheio e desorganizado na porta; desdobra-o com as
mãos trêmulas e segue com a unha os minúsculos capilares de estradas rurais sem identificação. Ele
ainda tenta recuperar o fôlego.
— Pelo que posso deduzir, estamos em algum lugar ao sul de Oakland, na região do tabaco. —
Ele tenta segurar o mapa com firmeza apesar de as mãos estarem trêmulas. — A estrada em que
estamos não está no mapa... pelo menos não neste mapa.
Josh olha ao longe. O sol da manhã desce sobre a estreita via de mão dupla. A estrada não
identificada, cercada de capim e salpicada com um destroço abandonado a cada 20 metros, segue em
curvas ao longo de um platô entre duas fazendas de tabaco. Em ambos os lados dessa estrada
anônima, os campos estão excessivamente crescidos por causa da negligência, e ervas daninhas e
trepadeiras se entrelaçam às desgastadas tábuas dos guarda-corpos. A natureza cerrada e descuidada
dos campos reflete os meses que se passaram desde o início da praga.
Bob dobra o mapa.
— E agora?
Josh dá de ombros.
— Não vejo uma casa de fazenda há quilômetros, parece que nos embrenhamos o bastante no
meio do nada para evitar outra horda daquelas coisas.
Lilly volta para o banco.
— No que você está pensando, Josh?
Ele engata a primeira na caminhonete.
— Acho que devemos continuar em direção ao sul.
— Por que o sul?
— Para começar, estaremos nos afastando dos centros populacionais.
— E...?
— E talvez, se continuarmos em frente... a gente consiga deixar o frio para trás.
Ele acelera um pouco e começa a voltar para a estrada quando Bob agarra seu braço.
— Calma aí, capitão.
Josh para a picape.
— O que foi?
— Não quero ser o arauto da desgraça. — Bob aponta para o medidor de combustível. — Mas
abasteci a picape com a última gota das minhas reservas ontem à noite.
O ponteiro está logo abaixo da reserva.
SETE
Eles vasculham a área atrás de tanques para drenar ou postos de gasolina para pilhar, e voltam de
mãos vazias. A maioria dos destroços desse trecho desolado de estrada rural está totalmente
queimada ou abandonada com o tanque seco. O grupo vê apenas mortos dispersos perambulando
pelos campos distantes; cadáveres solitários vagando sem rumo, longe o bastante para escapar com
facilidade.
Eles decidem dormir na Ram naquela noite, fazendo turnos de vigia e racionando a comida
enlatada e a água potável. Estar tão longe de tudo acaba sendo tanto uma bênção quanto uma
maldição. A preocupante falta de combustível e provisões é compensada pela ausência de atividade
dos errantes.
Josh avisa a todos para falar baixo e fazer o mínimo de barulho possível durante seu exílio
naquela região desolada.
Nessa primeira noite, quando a escuridão se aproxima e a temperatura despenca, Josh deixa o
motor ligado o máximo de tempo possível, depois lança mão de ligar o aquecimento diretamente na
bateria. Ele sabe que não pode manter aquela situação por muito tempo. Eles cobrem a janela
quebrada do compartimento de dormir com papelão e fita adesiva.
Nessa noite, todos têm um sono agitado nas acomodações apertadas da picape — Megan, Scott
e Bob na camper, Lilly na parte de trás da cabine e Josh na frente, quase sem conseguir esticar o
enorme corpo nos dois assentos anatômicos.
No dia seguinte, Josh e Bob têm a sorte de encontrar uma perua capotada a 1,5 km para oeste,
com o eixo traseiro quebrado, mas o restante, intacto, e o tanque praticamente cheio. Puxam quase 70
litros para três recipientes e voltam para a Ram antes do meio-dia. Partem em direção ao sudoeste —
atravessando mais 30 km de campos abandonados — antes de parar para passar a noite sob um
viaduto ferroviário desolado, onde o vento canta uma triste ária constante através dos fios de alta
tensão.
Na escuridão da picape, que já está cheirando mal, eles discutem se devem continuar em frente
ou encontrar um lugar para ficar. Brigam por coisas pequenas — arranjos para dormir, racionamento,
roncos e pés fedorentos — e irritam uns aos outros de forma geral. O espaço dentro da camper tem
menos de 10 m2, e a maior parte é coberta pelos detritos rejeitados de Bob. Scott e Megan dormem
como sardinhas contra o basculante traseiro enquanto Bob se revira em seu delírio semissóbrio.
Eles vivem desse jeito por quase uma semana, ziguezagueando em direção ao sudoeste,
seguindo os trilhos da Estrada de Ferro West Central Georgia, procurando combustível quando
podem. Os temperamentos são pressionados ao limite. As paredes da camper os comprimem cada
vez mais.
Na escuridão, os barulhos perturbadores atrás das árvores ficam mais próximos a cada noite.
Certa manhã, enquanto Scott e Megan dormem na traseira, Josh e Lilly se sentam no para-choque
frontal da Ram, compartilhando uma garrafa térmica de café instantâneo na luz do começo do dia. O
vento está mais frio; o céu, mais pesado — o cheiro do inverno está no ar.
— Parece que está vindo mais neve — observa Josh com brandura.
— Para onde o Bob foi?
— Ele disse que viu um riacho a oeste, levou a vara de pescar.
— Levou a espingarda?
— A machadinha.
— Estou preocupada com ele, Josh. Ele treme o tempo todo.
— Ele vai ficar bem.
— Ontem à noite o vi bebendo uma garrafa de enxaguante bucal.
Josh olha para ela. Os ferimentos de Lilly estão praticamente curados, seus olhos estão
límpidos pela primeira vez desde o espancamento. As contusões quase sumiram e ela removeu as
ataduras das costelas na tarde anterior, descobrindo que estava perto de conseguir andar
normalmente sem elas. Mas a dor de ter perdido Sarah Bingham ainda a corrói — Josh pôde ver a
tristeza marcada em seu rosto adormecido, tarde da noite. Do banco da frente, Josh a tem observado
enquanto dorme. É a coisa mais bonita que já viu. Ele quer beijá-la outra vez, mas a situação não tem
permitido esses luxos.
— Vamos todos ficar bem melhor quando encontrarmos comida de verdade — diz Josh. —
Estou ficando muito cansado da comida enlatada Chef Boyardee fria.
— A água também está acabando. E tenho pensado em outra coisa que não está exatamente me
deixando confortável.
Josh olha para ela.
— O que é?
— E se encontrarmos outra horda? Eles podem virar a picape, Josh. Você sabe disso tão bem
quanto eu.
— Mais uma razão para continuar em frente, em direção ao sul, despercebidos.
— Eu sei, mas...
— Temos mais chances de encontrar suprimentos se seguirmos em frente.
— Eu entendo, mas...
Lilly para quando vê a silhueta de uma figura distante, talvez a uns 300 metros, sobre o viaduto
ferroviário, vindo na direção deles, seguindo os trilhos. A sombra longa e delgada da figura,
delineada pelas partículas de poeira ao sol da manhã, tremula através dos dormentes e das vigas —
movendo-se rápido demais para ser um zumbi.
— Falando no diabo — diz Josh quando finalmente reconhece a figura.
O homem mais velho se aproxima carregando um balde vazio e uma vara de pescar
desmontável. Ele caminha rapidamente por entre os trilhos, com uma urgência queimando o rosto.
— Ei, pessoal! — grita ele para baixo, sem fôlego, quando chega à escadinha perto do viaduto.
— Fale baixo, Bob — adverte Josh. Andando até a base do viaduto com Lilly a seu lado.
— Esperem até ver o que encontrei — diz Bob, descendo a escada.
— Pegou um peixe grande, não é?
Ele pula para o chão e recupera o fôlego, com os olhos brilhando de animação.
— Não senhor, não consegui nem encontrar o maldito rio. — Ele dá um sorriso de dentes
separados. — Mas achei algo melhor.
O Walmart fica na interseção de duas autoestradas rurais, 1,5 km a norte dos trilhos do trem. Seu
letreiro com o logotipo de letras azuis e estrela amarela é visível do viaduto elevado que atravessa a
floresta. A cidade mais próxima fica a quilômetros de distância, mas essas grandes lojas isoladas
mostraram-se pontos de venda lucrativos para comunidades rurais, especialmente as que ficam tão
próximas a uma grande interestadual como a U.S. 85 — a saída para Hogansville está a apenas 11
quilômetros a oeste.
— OK... eu acho o seguinte — diz Josh para os outros, depois de estacionar na entrada do
terreno, parcialmente bloqueada por uma carreta cuja frente está emaranhada com uma placa de
sinalização. A carga, basicamente de tábuas, está espalhada pelas amplas vias que conduzem ao
grande estacionamento, salpicado de destroços e veículos abandonados. De longe, a enorme
“superloja” térrea parece deserta, mas as aparências podem enganar. — Vamos verificar os
arredores primeiro, fazer algumas rondas, só para conhecer a área.
— Parece bem vazio, Josh — comenta Lilly enquanto rói a unha do dedão no nicho de trás.
Durante todo o percurso de 15 minutos pelas estradas de terra vicinais, Lilly roeu cada unha
disponível até o sabugo. Agora morde uma cutícula.
— É difícil ter certeza só de olhar — diz Bob.
— Mantenha os olhos bem abertos e procure errantes ou qualquer outro movimento — diz Josh,
engatando a primeira na picape e passando lentamente sobre as tábuas espalhadas.
Eles circulam a propriedade duas vezes, prestando atenção especial às sombras dos galpões de
carga e das entradas. Os carros do estacionamento estão todos vazios, alguns foram queimados até
virar carcaças enegrecidas. A maioria das portas de vidro da loja está quebrada. Um carpete de
cacos reluz ao sol da tarde fria na entrada principal. O interior da loja está escuro como uma mina de
carvão. Nada se move. Dentro do vestíbulo, alguns corpos cobrem o chão. O que quer que tenha
acontecido ali, aconteceu há um bom tempo.
Após uma segunda varredura, Josh para na frente da loja, coloca a picape em ponto morto,
deixa o motor ligado e verifica os últimos três tiros aninhados no cilindro de sua .38.
— OK, não quero deixar a picape sozinha — diz ele, e se volta para Bob. — Quantas balas
você ainda tem?
Bob abre a espingarda de pressão com mãos trêmulas.
— Uma na culatra, outra no meu bolso.
— OK, estou pensando o seguinte...
— Vou com você — diz Lilly.
— Não sem uma arma, não até sabermos que é seguro lá dentro.
— Pego uma pá na traseira — diz ela. Lilly olha por cima do ombro e vê o rosto de Megan na
janela, parecendo uma coruja esperançosa ao esticar o pescoço para ver através do para-brisa. Ela
olha para Josh novamente. — Você vai precisar de outro par de olhos lá dentro.
— Nunca discuta com uma mulher — resmunga Bob, abrindo a porta do carona e saindo para o
vento frio da tarde de final do outono.
Eles contornam a traseira, abrem o basculante traseiro da camper e dizem a Megan e Scott para
ficarem na cabine com a picape ligada até darem o sinal de que está tudo limpo; e se virem algum
problema, devem tocar a buzina como loucos. Nem Megan nem Scott se opõem muito.
Lilly pega uma das pás e depois segue Josh e Bob pela entrada de cimento da fachada da loja.
O som de seus passos estalando sobre o vidro quebrado é abafado pelo vento. Josh força uma das
portas automáticas a se abrir e eles entram no vestíbulo.
Perto da entrada, eles veem o velho sem cabeça caído no piso manchado sobre uma poça de sangue
seco — agora tão negro quanto obsidiana —, com as fibras estraçalhadas de suas entranhas sendo
expelidas do pescoço. Pregada ao pequeno colete azul de recepcionista, torta e parcialmente visível,
a etiqueta com o nome diz walmart em cima e elmer k embaixo. A insígnia da carinha feliz amarela
está salpicada de sangue. Lilly observa o pobre Elmer K decapitado por bastante tempo enquanto se
embrenham na loja vazia.
O ar está quase tão frio quanto do lado de fora, e cheira a mofo, decomposição e proteínas
rançosas, como as de uma pilha de adubo gigante. Constelações de buracos de bala adornam a
padieira sobre o cabeleireiro à esquerda, enquanto borrões parecidos com um teste Rorschach de
sangue arterial marcam a entrada do centro de visão à direita. As prateleiras estão vazias — já
saqueadas — ou viradas no chão.
Josh levanta uma de suas enormes mãos, ordenando que os companheiros parem por um instante
e ouçam o silêncio. Ele esquadrinha o espaço da loja, muito do qual está coberto de corpos sem
cabeça, vestígios não identificáveis de carnificina, carrinhos de supermercado virados e lixo. Os
caixas à direita estão silenciosos e manchados de sangue. O centro de farmácia, o balcão de
cosméticos e o departamento de saúde e beleza à esquerda também estão crivados de buracos de
bala.
Sinalizando para os outros, Josh continua cautelosamente, com a arma empunhada, os pesados
passos de suas botas trituram os escombros enquanto eles se aprofundam nas sombras fedorentas.
Quanto mais se afastam das portas de entrada, mais escuros se tornam os corredores. A luz
pálida do dia mal penetra os corredores de alimentos mais distantes à direita, com seus produtos
vazados e vidro quebrado se misturando aos restos humanos, ou às seções de casa, escritório e moda
à esquerda, com roupas espalhadas e manequins desmembrados. Os departamentos dos fundos na loja
— brinquedos, eletrônicos, artigos esportivos e sapatos — estão na completa escuridão.
Apenas os fracos raios prateados das luzes de emergência a bateria iluminam as sombrias
profundezas dos corredores mais distantes.
Eles encontram lanternas no departamento de ferragens e direcionam os feixes de luz para os
cantos distantes da loja, registrando mentalmente todas as provisões e ferramentas úteis. Quanto mais
investigam, mais animados ficam. Quando terminam de circular todos os 1.400 m2 da loja —
encontrando apenas alguns restos humanos espalhados nos estágios iniciais de decomposição,
incontáveis prateleiras viradas e ratos fugindo ao som de seus passos — estão convencidos de que a
loja é segura — revirada, certamente, mas segura.
Ao menos por enquanto.
— Tenho quase certeza de que estamos sozinhos — diz Josh finalmente, quando os três
retornam à luz difusa do vestíbulo.
Eles baixam as armas e as lanternas.
— Parece que aconteceu alguma merda aqui — diz Bob.
— Não sou detetive. — Josh olha as paredes e os pisos cobertos de respingos de sangue que
poderiam passar por pinturas de Jackson Pollock. — Mas eu diria que algumas pessoas se abrigaram
aqui há algum tempo, e depois vários grupos foram aparecendo e pegando o que precisavam do que
restou.
Lilly olha para Josh com a expressão ainda contraída de tensão. Ela olha de relance para o
recepcionista decapitado.
— Acha que poderíamos limpar este lugar, talvez ficar aqui por um tempo?
Josh balança a cabeça.
— Seríamos alvos fáceis, isto aqui é tentador demais.
— É também uma mina de ouro — diz Bob. — Há muitas coisas nas prateleiras altas, talvez
estoque nos fundos com mercadorias, poderia ser muito útil para nós. — Seus olhos cintilam, e Josh
percebe que o homem mais velho examinou cuidadosamente as prateleiras mais altas do
departamento de bebidas, que ainda transbordam de garrafas fechadas.
— Eu vi alguns carrinhos de mão e de armazém no departamento de jardinagem — diz Josh.
Ele olha para Bob, depois para Lilly, e sorri. — Acho que nossa sorte acabou de mudar para melhor.
Eles enchem três carrinhos de mão com casacos acolchoados, botas de inverno, roupas de baixo
térmicas, gorros e luvas do departamento de moda. Acrescentam dois walkie-talkies, correntes para
pneus, cordas para reboque, um kit de chaves inglesas, sinalizadores de estrada, óleo de motor e
anticongelante. Chamam Scott para ajudar, deixando Megan na picape para vigiar a chegada de
intrusos.
Do departamento de alimentos — onde a maior parte das carnes, vegetais e laticínios sumiu ou
estragou há muito tempo — conseguem caixas de aveia instantânea, passas, barras de proteína,
macarrão instantâneo, vidros de manteiga de amendoim, carne seca, latas de sopa, molho para
massas, caixas de suco, embalagens de macarrão, carne enlatada, sardinhas, café e chá.
Bob ataca o que restou da farmácia. A maioria dos barbitúricos, analgésicos e ansiolíticos já
desapareceu há muito tempo, mas encontra sobras suficientes para abrir um consultório. Pega um
pouco de Lanacane para usar em primeiros socorros, amoxicilina para infecções, epinefrina para
trazer um coração de volta à vida, Adderall para se manter alerta, lorazepam para acalmar os nervos,
Celox para estancar perda de sangue, naproxeno para dor, loratadina para abrir as vias aéreas, e um
bom sortimento de vitaminas.
De outros departamentos, eles obtêm itens de luxo irresistíveis — que não são exatamente
cruciais para sua sobrevivência, mas que mesmo assim podem proporcionar alívio momentâneo da
cruel tarefa de se manter vivo. Lilly escolhe vários livros de capa dura — na maioria romances —
da banca de jornal. Josh encontra uma coleção de charutos da Costa Rica enrolados à mão atrás do
balcão de serviço ao cliente. Scott descobre um DVD player a pilha e seleciona uma dúzia de filmes.
Pegam alguns jogos de tabuleiro, um baralho, um telescópio e um pequeno gravador digital de voz.
Eles fazem uma viagem até a picape, entupindo a camper com as mercadorias antes de voltar e
começar a se dedicar a busca ao tesouro de itens úteis na escuridão dos fundos da loja.
— Aponte a lanterna para a esquerda, boneca — Josh pede a Lilly, do lado de fora do departamento
de artigos esportivos. Ele segura duas grandes sacolas resistentes encontradas no departamento de
bagagens.
Scott e Bob estão ali perto, observando ansiosamente, enquanto Lilly percorre com o fino feixe
de sua lanterna a área destruída que um dia vendeu bolas de futebol e tacos de beisebol infantis.
O raio de luz amarela passa por mostruários destroçados de raquetes de tênis e bastões de
hóquei, bicicletas com peças faltando e pilhas de roupas de ginástica e luvas de beisebol espalhadas
pelo chão salpicado de sangue.
— Opa... ali, Lilly — diz Josh. — Segure firme.
— Merda — diz Bob, atrás de Lilly. — Parece que chegamos tarde demais.
— Alguém as pegou antes de nós — resmunga Josh quando a lanterna percorre o mostruário de
vidro estilhaçado à esquerda das varas e iscas de pescaria. A vitrine está vazia, mas pela aparência
dos nichos e ganchos deixados para trás, fica óbvio que o mostruário abrigava uma grande variedade
de rifles para caça, pistolas de tiro ao alvo e revólveres de uso doméstico. As prateleiras das
paredes atrás do mostruário também estão vazias. — Direcione a lanterna um pouco para o chão,
querida.
No cone opaco de luz, veem-se alguns cartuchos e balas espalhados pelo chão.
Eles vão até o balcão de armas e Josh larga as sacolas, depois espreme sua forma enorme atrás
do mostruário. Ele pega a lanterna e a direciona para o chão. Vê algumas caixas perdidas de
munição, um frasco de óleo para armas, um bloco de recibos e um objeto prateado grosseiro
aparecendo por baixo da vitrine.
— Esperem um pouco... parem tudo.
Josh se ajoelha. Ele enfia a mão sob o balcão e puxa dali a extremidade de aço rombudo do
cano de uma arma.
— Agora sim — diz ele, levantando a arma na luz para todos verem.
— É uma Desert Eagle? — Bob se aproxima. — É uma .44?
Josh segura a arma como um menino na manhã de Natal.
— Seja o que for, é pesada para cacete. Essa coisa deve pesar quase 5 kg.
— Posso? — Bob pega a arma. — Meu Deus... isto aqui é o canhão do mundo das pistolas.
— Agora só precisamos de balas.
Bob verifica o clipe.
— Manufaturada por hebreus fodões, operada a gás... a única semiautomática da sua categoria.
— Bob olha as prateleiras altas. — Ilumine ali em cima... veja se têm alguma calibre .50 por lá.
Logo depois, Josh encontra uma pilha de caixas identificadas como 50-c-r na última prateleira.
Ele dá um impulso e pega meia dúzia de caixas.
Enquanto isso, Bob comprime o retém, e o pente cai em sua mão suja. A voz fica suave e baixa,
como se estivesse falando com uma amante.
— Ninguém projeta armas de fogo como os israelenses... nem mesmo os alemães. Esse danado
pode penetrar blindagem de tanques.
— Cara — diz finalmente Scott, parado atrás de Bob, com uma lanterna. — Você está
planejando atirar ou foder com isso aí?
Após um momento constrangedor, todos caem na gargalhada — nem mesmo Josh consegue
resistir ao riso — e apesar do fato de que a risada deles é áspera e carregada de nervosismo, ela
serve para quebrar a tensão naquele depósito silencioso de sangue e prateleiras saqueadas. Eles
tiveram um bom dia. Tiraram a sorte grande naquele templo do consumismo por atacado. Acima de
tudo, obtiveram ali algo muito mais valioso que meras provisões: um vislumbre da esperança de
conseguir sobreviver ao inverno... de talvez atravessar esse pesadelo.
Lilly é a primeira a ouvir o barulho. Sua risada morre instantaneamente e ela olha em torno
como se estivesse acordando de um sonho com um sobressalto.
— O que foi isso?
Josh para de rir.
— Qual é o problema?
— Ouviu isso?
Bob olha para ela.
— O que foi, querida?
— Eu ouvi alguma coisa. — A voz está baixa e tensa de pânico.
Josh desliga a lanterna e olha para Scott.
— Desligue a lanterna, Scott.
Scott apaga a luz e os fundos da loja mergulham na escuridão.
O coração de Lilly bate com força enquanto ficam ali parados nas sombras por um momento,
escutando. A loja está silenciosa. Então outro rangido penetra a quietude.
Está vindo da frente da loja. Um som de deslocamento, como o rilhar de metal enferrujado, mas
fraco, tão fraco que é impossível de identificar.
Josh sussurra:
— Bob, onde está a espingarda?
— Deixei lá na frente, com os carrinhos de mão.
— Ótimo.
— E se for a Megan?
Josh pensa sobre isso.
— Megan! É você?
Não há resposta.
Lilly engole ar. A vertigem a percorre.
— Acha que os errantes podem abrir a porta?
— Uma brisa forte poderia abri-la — diz Josh, enfiando a mão atrás do cinto para pegar a .38.
— Bob, quão hábil você é com essa pistola fodona?
Bob já está com uma das caixas de munição aberta. Ele pega as balas com os dedos sujos e
trêmulos.
— Estou muito a sua frente, capitão.
— Está bem, ouçam...
Josh começa a sussurrar instruções quando outro barulho enche o ar — abafado, mas distinto
—, claramente o som de dobradiças empenadas raspando em algum lugar perto da entrada. Alguém
ou alguma coisa está entrando na loja.
Com as mãos trêmulas, Bob enfia nervosamente balas em um pente vazio. Ele deixa o pente cair
e o clipe bate no chão, espalhando a munição.
— Putz, cara — comenta Scott entredentes, observando nervosamente enquanto Bob se põe de
quatro e recupera as balas perdidas como um menininho juntando bolinhas de gude às pressas.
— Ouçam — sibila Josh para eles. — Scott, você e o Bob pegam o flanco esquerdo, vão para a
frente da loja pelo departamento de alimentos. Boneca, você me segue. Vamos pegar um machado no
caminho, no departamento de casa e jardim.
No chão, Bob finalmente consegue colocar as balas no clipe, depois empurra o pente para
dentro da pistola e se levanta.
— Pronto. Vamos, garoto. Vamos nessa.
Eles se separam e atravessam a escuridão em direção à luz pálida.
Lilly segue Josh através das sombras do centro automotivo, passando por prateleiras
saqueadas, por montes de lixo espalhados pelo piso de ladrilhos, pelos departamentos de casa e
escritório, e pelo de artes. Eles se movem com o mínimo de barulho possível, mantendo-se
abaixados e próximos, Josh se comunica por gestos. Ele está com a .38 em uma das mãos, e a outra
se ergue repentinamente fazendo um sinal para Lilly parar.
Da frente da loja, o som de passos arrastados agora é claramente audível.
Josh aponta para um mostruário caído no departamento de bricolagem. Lilly se arrasta para trás
de um mostruário de lâmpadas e encontra o chão repleto de ancinhos, tesouras de poda e machados
de cabo longo. Ela pega um dos machados e contorna novamente as lâmpadas, com o coração
martelando e a pele formigando de terror.
Eles se aproximam da entrada da frente. Lilly vê um ocasional relance de movimento do outro
lado da loja conforme Scott e Bob se aproximam pela parede oeste do departamento de alimentos.
Nesse ponto, o que quer que esteja deslizando para dentro do Walmart, parece ter ficado silencioso e
imóvel. Lilly não consegue ouvir nada além de seu coração acelerado.
Josh para trás do balcão da farmácia, agachando-se. Lilly se junta a ele, que sussurra para ela:
— Fique atrás de mim, e se uma daquelas coisas passar por mim, dê um bom golpe no meio da
cabeça com isso daí.
— Josh, sei como se mata um zumbi — retruca Lilly em um sussurro áspero.
— Eu sei, querida, só estou dizendo... só não se esqueça de golpear com bastante força logo de
primeira.
Lilly assente.
— No três — sussurra Josh. — Está pronta?
— Pronta.
— Um, dois...
Josh congela. Lilly ouve algo que não faz sentido.
Josh a segura e a pressiona contra a parte inferior do balcão da farmácia. Paralisados de
indecisão, eles ficam agachados ali por um instante. Um único pensamento incongruente reverbera no
cérebro de Lilly.
Zumbis não falam.
— Olá? — A voz ecoa pela loja vazia. — Tem alguém em casa?
Josh hesita atrás do balcão por mais um breve momento, pesando suas opções, o cérebro está
inundado de pânico. A voz parece amigável... meio... com certeza masculina, profunda, talvez com
um pouco de sotaque.
Josh olha para Lilly por cima do ombro. Ela está segurando o machado como um taco de
beisebol, pronta para atacar, com os lábios trêmulos de terror. Josh levanta a mão enorme — fazendo
um gesto de “me dê um instante” — e está a ponto de agir, armando o cão da pistola, quando outra
voz ressoa, mudando instantaneamente a dinâmica.
— SOLTEM-NA, SEUS FILHOS DA PUTA!
Josh sai de trás do balcão com a .38 levantada e pronta para atirar.
Lilly o segue com o machado.
Um grupo de seis homens — todos fortemente armados — está no vestíbulo.
— Calma... calma, calma, calma... opa! — O líder, um homem parado à frente do bando,
segurando um rifle de assalto de longo alcance com a boca levantada ameaçadoramente, parece ter
quase 30 anos, ou pouco mais, no máximo. Alto, esguio, moreno, ele usa uma bandana na cabeça. As
mangas de sua camisa de flanela foram cortadas. Os braços são extremamente musculosos.
A princípio, as coisas acontecem quase rápido demais para Josh acompanhar enquanto mantém
sua posição com o cano da .38 apontado para o Cara da Bandana.
Saindo de trás das baias do caixa, Bob Stookey investe em direção aos intrusos agarrando a
Desert Eagle com as mãos, como um fuzileiro. Seus olhos margeados de vermelho estão arregalados
de heroísmo embriagado.
— SOLTEM-NA! — O objeto de sua fúria está atrás do cara da bandana, sendo mantida presa
por um dos membros do grupo de ataque.
Megan Lafferty se contorce furiosamente em poder de um garoto negro de olhos desvairados,
que está com uma das mãos sujas sobre sua boca, mantendo-a quieta.
— BOB... NÃO! — berra Josh o mais alto que consegue, e a estrondosa autoridade de sua voz
parece frear a galanteria de Bob. O homem mais velho hesita no final das baias dos caixas,
cambaleando até parar a meros 6 metros do homem que está mantendo Megan prisioneira. Ofegante,
o velho pé-de-cana olha para Megan com impotência. Josh percebe as emoções alteradas do homem
mais velho.
— Todo mundo calmo! — ordena Josh a seu pessoal.
Scott Moon aparece atrás de Bob com a velha espingarda de pressão em riste.
— Scott, calma com essa espingarda!
O homem com a bandana não baixa sua AK-47.
— Vamos relaxar, pessoal, numa boa. Não queremos um massacre aqui.
Atrás do homem moreno estão cinco outros homens com armamentos pesados. A maioria na
faixa dos 30, alguns negros, alguns brancos, alguns usando roupas estilo hip-hop, outros com
uniformes militares esfarrapados e coletes acolchoados. Eles parecem descansados e bemalimentados
e talvez um pouco altos. O mais importante para Josh é que parecem estar tão dispostos
a começar a atirar quanto a se envolver em qualquer tipo de diplomacia.
— Estamos tranquilos — diz Josh, mas ele tem certeza de que o tom de sua voz, a contração do
maxilar, e o fato de que também não baixou sua arma provavelmente passam uma mensagem contrária
ao Cara da Bandana. — Não é, Bob? Não estamos tranquilos?
Bob resmunga alguma coisa inaudível. A Desert Eagle continua levantada e travada, por um
momento breve e desconfortável, os dois grupos mantêm uns aos outros afastados com armas
apontadas para partes importantes de suas anatomias. Josh não gosta das probabilidades — os
intrusos têm poder de fogo para derrubar uma pequena guarnição —, mas, por outro lado, no
momento o grupo de Josh tem três armas carregadas e apontadas diretamente para o líder do grupo de
ataque, cuja perda poderia causar um verdadeiro problema para a dinâmica desse pequeno bando
armado.
— Solte a garota, Haynes — ordena o Cara da Bandana para o subordinado.
— Mas e...
— Eu disse para soltá-la!
O garoto negro de olhos desvairados empurra Megan em direção a seus companheiros e ela
vacila por um instante, quase caindo, mas consegue se manter de pé e cambalear até Bob.
— Que bando de imbecis! — rosna ela.
— Você está bem, querida? — pergunta Bob, colocando o braço livre ao redor dela, mas sem
desviar os olhos (ou o cano da magnum) dos intrusos.
— Os idiotas me pegaram de surpresa — diz ela, esfregando os pulsos, olhando furiosamente
para eles.
O Cara da Bandana baixa a arma e se dirige a Josh.
— Olhe, não podemos correr nenhum risco hoje em dia, não sabíamos quem vocês eram... só
estamos nos cuidando.
Incerto, Josh mantém a .38 apontada diretamente para o peito do Cara da Bandana.
— E por causa disso vocês tinham que arrancar a garota da picape?
— Como eu disse... não sabíamos com quantos de vocês estávamos lidando... quem ela ia
avisar... não sabíamos nada.
— Este lugar é de vocês?
— Não... como assim? Não.
Josh dá a ele um sorriso frio.
— Então me permita dar uma sugestão... sobre o que fazer a partir de agora.
— Vá em frente.
— Ainda tem muita coisa aqui... por que vocês não nos deixam passar e podem ficar com o
resto?
O Cara da Bandana se vira para sua gangue.
— Baixem as armas, rapazes. Vamos lá. Para trás. Andem logo.
Quase relutantemente, o resto dos invasores obedece e baixa as armas.
O Cara da Bandana vira-se novamente para Josh.
— Meu nome é Martinez... É uma pena termos começado com o pé esquerdo.
— Sou Hamilton. É um prazer conhecer vocês, e agradeço por nos deixar passar.
— Sem problema, mi amigo... mas posso fazer uma sugestão para vocês antes de concluirmos
nossos negócios?
— Estou ouvindo.
— Primeiro, será que poderiam parar de apontar essas armas para nós?
Josh não tira os olhos de Martinez enquanto baixa a arma.
— Scott... Bob... podem abaixar... tudo bem.
Scott coloca a espingarda no ombro e se encosta à esteira do caixa para escutar. Com
relutância, Bob baixa a boca da Desert Eagle, a enfia atrás do cinto e mantém o braço em torno de
Megan.
Lilly apoia o machado — com a cabeça para baixo — no chão, encostando-o contra o balcão
da farmácia.
— Obrigado, sinceramente. — Martinez respira fundo, e suspira. — O que estou pensando é o
seguinte. Vocês parecem ter a cabeça no lugar. Vocês têm o direito de levar toda essa mercadoria
daqui... mas posso perguntar para onde estão levando?
— Na verdade, não estamos levando para lugar nenhum — diz Josh. — Só estamos pegando.
— Estão vivendo na estrada?
— Que diferença faz?
Martinez dá de ombros.
— Olhe, sei que você não têm nenhum motivo para confiar em mim, mas as coisas estão de um
jeito que pessoas como nós... podemos ser mutuamente benéficos uns para os outros. Entende o que
estou dizendo?
— Para ser honesto, não... Não faço a mínima ideia do que você está falando.
Martinez suspira.
— Deixe-me botar as cartas na mesa. Podemos nos separar aqui e agora, sem prejuízos,
desejando boa-sorte uns aos outros...
— Para mim parece bom — diz Josh.
— Mas temos uma opção melhor — diz o homem.
— Qual é?
— Um lugar cercado, logo à frente na estrada, com pessoas como eu e você, tentando construir
um local para viver.
— Continue.
— Chega de fugir, é o que estou dizendo. Nós conseguimos deixar uma parte de uma cidade
segura. Não é muito... ainda. Erguemos alguns muros. Temos espaço para plantar alimentos.
Geradores. Aquecimento. Com certeza temos lugar para mais cinco.
Josh não diz nada. Olha para Lilly. Ele não consegue interpretar sua expressão. Ela parece
exausta, assustada, confusa. Ele olha para os outros. Ele vê as engrenagens de Bob girando. Scott
olha para o chão. Megan encara os invasores perniciosamente através de mechas de cabelos
encaracolados.
— Pense nisso, cara — continua Martinez. — Podemos dividir o que restou aqui e ir embora,
ou podemos juntar forças. Precisamos de gente forte. Se eu quisesse roubar, sacanear ou ferrar
vocês... já não teria feito? Não tenho motivo para causar problemas. Venha conosco, Hamilton. O que
me diz? Não existe nada na estrada além de mais merda e do inverno chegando. O que me diz, cara?
Josh olha para Martinez por um bom tempo, até que finalmente diz:
— Nos dê um segundo.
Eles se reúnem perto dos caixas.
— Cara, você só pode estar de sacanagem — diz Megan para Josh em um sussurro baixo e
tenso. Os outros se aglomeram em torno do homem grande em um semicírculo. — Está pensando em
ir a algum lugar com essa corja?
Josh umedece os lábios.
— Não sei... Quanto mais olho para esses caras, mais eles parecem tão apavorados e nervosos
quanto nós.
Lilly entra na conversa.
— Talvez pudéssemos só dar uma olhada no lugar, ver como é.
Bob olha para Josh.
— Comparado a viver em tendas no chão com um monte de esquentadinhos? Como poderia ser
pior?
Megan suspira.
— Sou só eu, ou vocês enlouqueceram completamente?
— Megan, não sei — diz Scott. — Estou meio que pensando... O que temos a perder?
— Cale a boca, Scott.
— Está bem, olhem — diz Josh, levantando uma mão enorme e interrompendo o debate. — Não
vejo nenhum mal em segui-los, dar uma olhada lá. Vamos ficar com nossas armas e manter os olhos
abertos, e a gente decide quando virmos o lugar. — Ele olha para Bob, depois para Lilly. — Tudo
bem?
Lilly respira fundo. Depois assente para ele.
— Sim... tudo bem.
— Que maravilha — rosna Megan, seguindo os outros até a entrada.
Demora mais uma hora, sob os esforços combinados dos dois grupos, para vasculhar o resto da loja
em busca de itens pesados necessários para a cidade. Eles fazem uma incursão à área de gramado e
jardim e ao de reparos domésticos para pegar tábuas, fertilizante, terra adubada, sementes, martelos e
pregos. Lilly sente que há um caráter apreensivo na insegura trégua entre os dois grupos. Ela vigia
Martinez com o canto do olho, e percebe uma hierarquia tácita no maltrapilho grupo de ataque do
qual Martinez é claramente o chefe, comandando os outros com simples gestos e acenos de cabeça.
Quando terminam de lotar de mercadorias a Ram de Bob e os dois veículos da cidade murada
— uma perua e uma carreta —, o crepúsculo se aproxima. Martinez assume o volante da perua, e diz
a Bob para seguir atrás da carreta... e o comboio parte para a cidade.
Conforme saem do terreno empoeirado do Walmart e entram na estrada de acesso em direção à
autoestrada, Lilly senta no compartimento de dormir, olhando através do para-brisa manchado de
insetos, enquanto Bob se concentra em acompanhar a carreta, que cospe fumaça pelo escapamento.
Passam por emaranhados de destroços e densas florestas dos dois lados da estrada rural, atrás da
qual as sombras estão se aprofundando. Uma fina névoa de granizo é trazida pelo vento norte.
No crepúsculo cor de aço, Lilly mal consegue ver o primeiro veículo — a uma boa distância
deles —, apenas um relance de Martinez no retrovisor lateral, o braço tatuado pousado sobre a borda
da janela aberta enquanto dirige.
Pode ser imaginação de Lilly, mas ela tem quase certeza de que vê a cabeça coberta por uma
bandana de Martinez virando-se para seus passageiros, dizendo alguma coisa, compartilhando algum
comentário infame e obtendo uma intensa reação dos companheiros.
Os homens riem histericamente.


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