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sexta-feira, 15 de abril de 2016

SD 104

THE WALKING DEAD


A QUEDA DO GOVERNADOR


PARTE 1
A Reunião Então quando a última e sofrida hora Este espetáculo em ruínas devorar, O trompete será ouvido às alturas, Os mortos viverão, os vivos morrerão, E Música perturbará o céu.
 — John Dryden

Um

Contorcendo-se de dor no chão, Bruce Allan Cooper arqueja, pisca e tenta recuperar o fôlego. Ele consegue ouvir os rosnados guturais, animalescos, de meia dúzia de Mordedores que vêm em sua direção, aproximando-se para se alimentar. Uma voz na mente de Bruce grita: Anda, seu idiota de merda! Sua bicha! O que está fazendo?! Um enorme afro-americano com o físico de um ala da NBA, com a cabeça raspada em formato de míssil e um cavanhaque grisalho, ele rola pela terra áspera, evitando por pouco os dedos cinza em garras e a mandíbula estalando de uma Mordedora adulta com meio rosto. Bruce percorre talvez 1,5 ou 2 metros até que uma pontada de dor explode pela lateral de seu corpo, irradiando fogo pelas costelas, tomando-o em uma agonia paralisante. Ele cai de costas, ainda segurando o machado de incêndio enferrujado. A cabeça do machado está coberta de sangue e cabelo humano, e da bile preta e viscosa que ficou conhecida entre os sobreviventes como excremento dos errantes. Momentaneamente atordoado, os ouvidos zumbindo, um olho já se fechando pelo inchaço de um nariz quebrado, Bruce está vestido com o uniforme militar esfarrapado e coturnos da milícia oficiosa de Woodbury cobertos de lama. Ele consegue ver o céu da Geórgia acima — um dossel baixo de nuvens cinzentas imundas como água de lavar louça, inclemente e terrível para o mês de abril — e aquilo o provoca: Você não passa de um inseto aí embaixo, menino Brucey, uma larva na carcaça de uma terra moribunda, um parasita alimentando-se dos restos e ruínas da raça humana que desaparece. De uma só vez, o panorama do céu sobre Bruce é ocultado por três rostos desconhecidos — planetas escuros que bloqueiam vagarosamente o paraíso —, cada um rosnando estúpida e ebriamente, cada par de olhos leitosos perpetuamente abertos e ansiosos. Um dos estranhos, um adulto obeso do sexo masculino, vestindo um jaleco hospitalar imundo, baba uma gosma preta que pinga na bochecha de Bruce. — PORRAAAAAAAAA! Bruce sai do estupor, encontrando uma reserva inesperada de força. Ele dispara com o machado. O lado pontiagudo arqueia para cima e empala o Mordedor gorducho no tecido mole abaixo da mandíbula. A metade inferior do rosto da coisa se solta e despenca, um corpo borrachudo de carne morta e cartilagem lustrosa que espirala uns 6 metros no ar antes de voltar para a terra e se esparramar. Depois de rolar de novo e se levantar com dificuldade, Bruce executa um giro de 180 graus — relativamente gracioso para um homem grande agonizando de dor — e apunhala os músculos pútridos do pescoço de outra Mordedora que o ataca. A cabeça dela cai para um lado, agitando-se por um momento em fios de tecido desidratado antes de se soltar e quicar no chão. A cabeça rola por alguns metros, deixando uma trilha de gosma preta, enquanto o corpo permanece de pé por um momento angustiante, contorcendo-se com braços irracionais esticados em um instinto cego terrível. Algo metálico se enrosca nos pés da coisa quando ela finalmente desaba no chão. Bruce então ouve a coisa mais estranha que pode ser ouvida — abafada em seus ouvidos traumatizados — após a carnificina: címbalos se chocando. Pelo menos é o que parece aos ouvidos ainda zumbindo — um ruído latejante e metálico de algo se quebrando em sua mente — vir da vizinhança. Afastando-se com a arma na lateral do corpo, impulsionado pelo barulho, Bruce pisca e tenta se concentrar em outros Mordedores arrastando-se em sua direção. Há muitos deles para utilizar a picareta. Bruce dá meia-volta para fugir, e, descuidado, corre diretamente na direção de outra silhueta que bloqueia o caminho. — UOU! A outra silhueta — um homem branco, de pescoço largo, compleição parecida com a de um hidrante, os cabelos loiros com um corte à escovinha antiquado no topo da cabeça — emite um grito de guerra e brande uma maça do tamanho da perna de um cavalo na direção de Bruce. O bastão com espinhos passa raspando pelo rosto de Bruce, a centímetros do nariz quebrado. Bruce instintivamente recua e tropeça nos próprios pés. Ele desaba no chão em uma exibição esquisita que levanta uma nuvem de poeira e incita outra série de ruídos de címbalo vindos da névoa a uma curta distância. O machado sai voando. O homem de cabelos loiros se aproveita da confusão e ruge para Bruce com a maça erguida para a ação. Bruce resmunga e rola para longe do alcance dele no último minuto. A cabeça da maça atinge o chão com força, cravando-se na terra a apenas centímetros do rosto de Bruce. Bruce rola na direção da arma caída, que está jogada na terra vermelha a cerca de 3 metros. Ele fecha a mão em torno do cabo de madeira quando, de súbito, sem aviso, uma figura emerge da poeira bem à esquerda de Bruce. Ele desvia da Mordedora, que rasteja em sua direção contraindo-se languidamente como um lagarto gigante. Gosma preta escorre da boca inerte da mulher — os dentes pequenos e afiados são visíveis —, e sua mandíbula estala com vigor reptiliano. Então outra coisa acontece e leva Bruce de volta à realidade. A corrente que mantém a mulher no lugar subitamente estala, e o monstro alcança o limite de seu grilhão. Bruce emite um arquejo instintivo de alívio, a coisa morta a apenas centímetros de distância, investindo inutilmente contra ele. A Mordedora ruge com uma frustração grosseira, a corrente segurando firme. Bruce sente vontade de arrancar as órbitas dos olhos da coisa com as próprias mãos, de morder o pescoço daquele pedaço inútil de carne pútrida de merda. Mais uma vez, Bruce ouve aquele ruído esquisito de címbalo estalando, bem como a voz do outro homem, quase inaudível em meio ao barulho: — Vamos lá, cara, levante... levante. Bruce começa a se mover. Ele segura o machado e luta para ficar de pé. Mais ruídos de címbalo estalando... quando Bruce gira, ele brande o machado com força contra o outro homem. A lâmina erra por pouco a garganta do Escovinha, rasgando a gola do casaco de gola rulê do homem e deixando uma fenda de 15 centímetros. — Que tal? — murmura Bruce ao tomar fôlego, andando ao redor do homem. — Isso é divertido o suficiente para você? — Esse é o espírito — murmura o homem robusto, cujo nome é Gabriel Harris, Gabe para os amigos, ao brandir o bastão novamente, a cabeça da arma coberta de pregos ciciando ao passar pelo rosto inchado de Bruce. — É tudo o que tem? — murmura Bruce, afastando-se bem na hora, e, em seguida, circundando Gabe pelo outro lado. Ele ataca com o machado. Gabe investe com o bastão, e, em torno dos dois combatentes, os monstros rugem e gorgolejam suas ululações aquosas, debatendo-se contra as correntes, famintos por carne humana, instigados a um frenesi de comida. Conforme a névoa de poeira nos arredores do campo de batalha assenta, o que restou de uma arena de corrida de terra entra em foco. Do tamanho de um campo de futebol americano, com as bordas externas fechadas por tela metálica, a Pista de Corrida dos Veteranos de Woodbury está cercada pelas relíquias de antigas áreas de pit-stop e passagens cavernosas. Atrás da tela metálica erguem-se bancos dobráveis que se inclinam para o alto até enormes e enferrujados postes de luz. No momento, os bancos estão cheios de grupos formados pelos animados residentes de Woodbury. Os ruídos estalados dos címbalos são, de fato, os aplausos incontroláveis e as vozes de deboche da multidão. Lá no miasma de poeira que gira em torno do campo da arena, o gladiador conhecido como Gabe murmura, de modo que apenas seu adversário ouça: — Você está lutando feito uma maldita de uma garota hoje, Brucey. — A piadinha é pontuada por uma investida circular com o bastão na direção das pernas do homem negro. Bruce dá uma cambalhota no ar, executando uma manobra que causaria inveja a uma estrela do World Wrestling Entertainment. Gabe golpeia de novo, ao que o bastão se solta e acerta a cabeça de um jovem Mordedor com macacão coberto de graxa, talvez um antigo mecânico. Os pregos se enterram no crânio cadavérico da coisa, fazendo fios grossos de fluido escuro jorrarem no ar antes que Gabe tenha a chance de puxar a maça e murmurar: — O Governador vai ficar puto com sua atuação de merda. — Ah, é? — Bruce contra-ataca com o cabo do machado, golpeando-o contra o plexo solar de Gabe e levando o homem robusto ao chão. O machado percorre um arco no ar e desce a apenas centímetros da bochecha de Gabe. Gabe rola para longe e fica de pé, ainda murmurando. — Não deveria ter comido aquela última porção de broa de milho ontem à noite. Bruce investe em um novo golpe com o machado, a lâmina passando a centímetros do pescoço de Gabe. — Olha quem fala, gorducho. Gabe gira a maça várias vezes, empurrando Bruce de volta para os Mordedores acorrentados. — Quantas vezes eu já te disse? O Governador quer que pareça real. Bruce bloqueia a ferocidade dos golpes de maça com o cabo do machado. — Você quebrou a porra do meu nariz, filho da puta. — Pare de choramingar, otário. Gabe golpeia mais e mais com a maça, até que os pregos se enterrem no cabo do machado. Gabe puxa a maça de volta e arranca o machado das mãos de Bruce. O machado voa pelos ares. A multidão vibra. Bruce se afasta às pressas. Gabe o segue. Bruce se interrompe e corre para o lado oposto, ao que Gabe se abaixa e, simultaneamente, golpeia as pernas do homem negro com a maça. Os pregos se agarram à calça militar de Bruce, rasgando uma tira e lacerando a carne superficialmente. Bruce cambaleia e cai com força. Filetes de sangue espiralam através da luz pálida e empoeirada do dia, conforme Bruce rola. Gabe recebe os aplausos frenéticos e descontrolados — as pessoas o fazem de maneira quase histérica — e se volta para a arquibancada, que está tomada pela multidão, a população pós-praga de Woodbury. Ele ergue a maça no estilo Coração valente. Os vivas crescem e aumentam. Gabe os incentiva. Ele se vira devagar com a maça acima da cabeça, uma expressão quase cômica de vitória masculina no rosto. O lugar irrompe em um pandemônio... e nos bancos, em meio aos braços agitados e às vozes exultantes, apenas um espectador não parece comovido com o espetáculo. Sentada na quinta fileira, bem longe, na ponta norte da arquibancada, Lilly Caul vira o rosto, enojada. Com uma echarpe de linho desbotada presa ao redor do pescoço para afastar o vento frio de abril, Lilly veste o jeans rasgado de costume, um casaco de brechó e um colar de contas de segunda mão. Enquanto balança a cabeça e emite um suspiro exasperado, o vento sopra fios de cabelo castanhos como caramelo ao redor do antes jovial rosto de Lilly, que agora exibe marcas do trauma — as rugas aninhadas ao redor dos olhos cor de água-marinha e dos cantos da boca —, tão profundas quanto as saliências de um couro curtido. Ela sequer está ciente de que resmunga. — Malditos circos romanos... — O que foi? — A mulher ao lado de Lilly ergue o rosto de um copo térmico de chá verde morno. — Você disse alguma coisa? Lilly faz que não com a cabeça. — Não. — Você está bem? — Bem... muito bem. — Lilly mantém o olhar distante enquanto o restante da multidão grita e urra e emite uivos de hienas. Ainda com trinta e poucos anos, Lilly Caul parece ao menos dez anos mais velha do que isso agora, com a sobrancelha perpetuamente franzida em consternação. — Se quer saber a verdade, não sei quanto mais desta merda aguento. A outra mulher beberica o chá, pensativa. Coberta por um jaleco branco encardido sob a parca, com os cabelos presos em um rabo de cavalo, ela é a enfermeira da cidade — uma jovem determinada e de fala mansa chamada Alice —, que adquiriu bastante interesse na posição tênue de Lilly na hierarquia da cidade. — Não é da minha conta — diz Alice, por fim, falando baixinho o suficiente para não ser ouvida por nenhum dos foliões próximos —, mas se fosse você, guardaria meus sentimentos para mim mesma. Lilly olha para ela. — Do que está falando? — Pelo menos por enquanto. — Não estou acompanhando seu raciocínio. Alice parece vagamente desconfortável em conversar sobre aquilo em plena luz do dia, diante dos olhos de outros. — Ele está nos observando, sabe. — O quê? — Agora mesmo, está vigiando. — Você deve estar... Lilly se interrompe. Ela percebe que Alice está falando da figura sombreada de pé no topo do arco de pedra, diretamente ao norte, a cerca de 30 metros de distância, sob o placar defeituoso. Escondido pelas sombras, a silhueta formada pelas luzes atrás de si, o homem está parado com as mãos nos quadris, observando a ação no campo com um brilho satisfeito nos olhos. De altura e compleição medianas, vestido de preto, ele tem uma pistola de alto calibre presa ao quadril. À primeira vista, parece quase inofensivo, benigno, como o dono orgulhoso de uma terra ou um nobre medieval verificando sua propriedade. Mas mesmo àquela distância, Lilly consegue sentir o olhar viperino dele — afiado como o de uma cobra — varrendo cada canto da arquibancada. E, a cada poucos segundos, aquele olhar elétrico recai sobre o canto no qual Lilly e Alice agora estão sentadas, trêmulas sob o vento da primavera. — É melhor se ele achar que tudo está bem — murmura Alice para o chá. — Cruzes — resmunga Lilly, olhando para o chão de cimento coberto de lixo abaixo dos assentos da arquibancada. Outra onda de vivas e aplausos se ergue ao redor dela quando os gladiadores se enfrentam mais uma vez no campo, Bruce descontrolando-se com o machado, Gabe encurralado por um grupo de Mordedores acorrentados. Lilly presta pouca atenção à cena. — Sorria, Lilly. — Sorria você... Não tenho estômago para isso. — Lilly ergue o rosto para a ação repulsiva no campo por um momento, a maça abrindo os crânios podres dos mortos-vivos. — Simplesmente não entendo. — Ela balança a cabeça e vira o rosto. — Não entende o quê? Lilly respira fundo e olha para Alice. — E quanto a Stevens? Alice dá de ombros. O Dr. Stevens tem sido o bote salva-vidas de Alice há quase um ano, mantendo-a sã, ensinando a ela o ofício de enfermeira, mostrando-a como costurar os gladiadores surrados com os suprimentos médicos cada vez mais escassos armazenados na rede de catacumbas sob a arena. — O que tem ele? — Não o vejo concordando com essa merda horrorosa. — Lilly esfrega o rosto. — O que o torna tão especial a ponto de não precisar ser bonzinho com o Governador? Principalmente depois do que aconteceu em janeiro. — Lilly... — Por favor, Alice. — Lilly olha para ela. — Admita. O bom médico jamais aparece para essas coisas e está constantemente resmungando para qualquer um sobre os sanguinários shows de horrores do Governador. Alice umedece os lábios e apoia a mão no braço de Lilly em sinal de aviso. — Me escute. Não se engane. O único motivo pelo qual o Dr. Stevens é tolerado são as habilidades médicas dele. — E daí? — E daí que ele não é exatamente uma peça bem-vinda no reinozinho do Governador. — O que está dizendo, Alice? A mulher mais nova respira fundo de novo, então abaixa mais ainda a voz: — Só estou dizendo que ninguém está imune. Ninguém tem estabilidade profissional por aqui. — Ela segura o braço de Lilly com mais força ainda. — E se encontrarem outro médico, um que seja mais empenhado? Stevens poderia facilmente acabar lá dentro. Lilly se afasta da enfermeira, fica de pé e dá uma olhada na ação repugnante no campo. — Para mim já chega, não aguento mais. — Ela lança um olhar ao norte, para a silhueta no vão imerso em sombras. — Não estou nem aí se ele está vendo. Lilly começa a se mover em direção da saída. Alice a segura. — Lilly, apenas prometa... que irá tomar cuidado. Está bem? Tente não causar problemas? Como um favor a mim? Lilly lança um sorrisinho frio e enigmático para Alice. — Sei o que estou fazendo, Alice. Então, Lilly se vira, desce as escadas e some pela saída. Faz mais de dois anos desde que os primeiros mortos acordaram e se fizeram conhecer pelos vivos. Nesse período, o mundo maior, fora do isolamento rural da Geórgia, gradualmente chegou ao fim com a lenta inevitabilidade das células metastáticas, os grupos de sobreviventes tateavam em busca de vantagens em condomínios de edifícios comerciais, em shoppings desertos e em comunidades abandonadas. Conforme a população de errantes se incubava e multiplicava e os perigos cresciam, alianças tribais entre humanos eram formadas com um propósito. A cidadela de Woodbury, no estado da Geórgia, no condado de Meriwether, situado na parte oeste do estado, a cerca de 110 quilômetros ao sul de Atlanta, se tornou uma verdadeira anomalia no reino dos assentamentos de sobreviventes. Originalmente uma pequena cidade agrícola de cerca de mil pessoas, com a extensão de uma rua principal de seis quarteirões e travessias ferroviárias, a cidade tinha sido completamente fortificada e reforçada por um material improvisado de guerra. Caminhões de carga leve modernizados com metralhadoras de calibre .50 foram enviesados nos cantos externos. Antigos vagões da ferrovia, envolvidos em arame farpado e posicionados para que bloqueassem os pontos de entrada. Ao longo do centro da cidade, muralhas cercam o distrito central de negócios — algumas das barricadas apenas recentemente terminadas — no qual pessoas vivem suas vidas esquecidas, agarrando-se às lembranças de eventos da igreja e churrascos ao ar livre. Seguindo pela área central das muralhas, caminhando com determinação pelas pedras de cimento rachado da rua principal, Lilly Caul tenta ignorar o que sente sempre que vê os fantoches do Governador passeando diante das lojas, com AR-15 presas bem acima do peito. Não estão só mantendo os errantes fora... também nos mantêm dentro. Lilly é persona non grata em Woodbury há meses, desde seu golpe malsucedido em janeiro. Era óbvio para Lilly, mesmo na época, que o Governador tinha saído do controle, que o regime violento dele estava transformando Woodbury em um carnaval da morte. Lilly conseguira recrutar alguns dos habitantes mais sãos da cidade — inclusive Stevens, Alice e Martinez, um dos braços direitos do Governador — para sequestrar o Governador certa noite e levá-lo em um passeio no país dos errantes, ensinar a ele um pouquinho de limite. O plano era “acidentalmente de propósito” fazer com que o Governador fosse devorado. Mas os errantes têm sempre de estragar o curso dos melhores planos, e, no meio da missão, um bando havia se formado do nada. A empreitada toda se reverteu em uma luta pela sobrevivência... e o Governador viveu para mandar mais um dia. Estranhamente, em algum tipo de reviravolta darwiniana, a tentativa de assassinato só serviu para solidificar e fortalecer a base de poder do Governador. Aos residentes já sob seu feitiço, ele se tornou Alexandre, o Grande, retornando à Macedônia... Stonewall Jackson voltando para Richmond, ensanguentado, porém livre, um pit bull nervoso nascido para liderar. Ninguém parecia se importar que o líder fosse obviamente — pelo menos para Lilly — 100% sociopata. Estes são tempos cruéis, e tempos cruéis exigem liderança cruel. E para os conspiradores, o Governador tinha se tornado uma figura paterna violenta — dando “lições” e dosando suas punições mesquinhas com prazer. Lilly se aproxima de uma fileira de edifícios de dois andares feitos de tijolinhos vermelhos, alinhados ao longo do distrito comercial. Antigos complexos de condomínios com decoração peculiar, agora eram prédios exibindo marcas de abrigos da praga. As cercas de madeira foram envoltas em arame farpado, os canteiros estéreis e pedregosos, e cheios de cartuchos de espingarda, as gavinhas de buganvília sobre as molduras das janelas estão mortas e marrons como fios desencapados. Ao olhar para o alto, para todas as janelas cobertas por tábuas, Lilly pergunta-se novamente, pela milionésima vez, por que permanece naquela família horrível, desolada e disfuncional conhecida como Woodbury. A verdade é que ela fica porque não tem mais para onde ir. Ninguém tem mais para onde ir. A terra do lado de fora daquelas paredes está tomada por mortos errantes, as estradas secundárias entupidas de morte e destruição. Lilly fica porque tem medo, e o medo é o grande denominador comum nesse novo mundo. O medo leva as pessoas para dentro de si mesmas, desencadeia impulsos básicos e liberta o pior dos instintos ferais e do comportamento adormecido na alma humana. Mas para Lilly Caul, a experiência de animal enjaulado atraiu outra coisa que se escondera profundamente dentro dela pela vida toda, algo que a havia assombrado nos sonhos e estivera à espreita em seu âmago como um gene recessivo: a solidão. Filha única, criada na cidade de classe média de Marietta, Lilly costumava ficar sozinha: brincava sozinha, sentava-se sozinha no fundo do refeitório ou do ônibus escolar... sempre sozinha. No ensino médio, a inteligência afiada, a teimosia e o humor incisivo a distanciavam do cenário social das animadoras de torcida. Cresceu sozinha, e o peso latente dessa solidão a perseguiu no mundo pós-praga. Lilly perdeu tudo que já significou alguma coisa para ela — o pai; o namorado, Josh; a amiga, Megan. Lilly perdeu tudo. Seu apartamento fica na ponta leste da rua principal, um dos prédios de tijolo vermelho mais detonado do complexo. Ervas daninhas mortas se agarram à parede oeste como mofo, as janelas cobertas pelas veias pretas e crispadas das gavinhas. Do telhado brotam antenas tortas e antigas parabólicas, que muito provavelmente jamais receberão sinal. Conforme Lilly se aproxima, o teto baixo das nuvens se abre e o sol do meio da tarde, pálido e frio como uma lâmpada fluorescente, irrompe sobre ela, fazendo com que o suor brote na nuca. Ela chega à porta externa e busca as chaves. Mas para subitamente, algo chamando sua atenção pelo canto do olho. Lilly se vira e vê uma figura estropiada jogada no chão do outro lado da rua, um homem encostado na fachada de uma loja. A visão dele causa uma pontada de tristeza no estômago de Lilly. Ela guarda as chaves e atravessa a rua. Quanto mais se aproxima, mais claramente ouve a respiração difícil dele — obstruída pelo catarro e pela depressão — e a voz baixa e chiada do homem murmura exalações incompreensíveis num estupor alcoólico. Bob Stookey, um dos últimos amigos verdadeiros de Lilly, está deitado, enroscado em posição fetal, estremecendo, desmaiado dentro do casaco verde-ervilha da marinha, fedido e puído, apoiado na porta de uma loja de ferragens destruída. A janela acima de Bob exibe o anúncio irônico, desbotado pelo sol, com letras alegres multicoloridas: LIQUIDAÇÃO QUEIMA TOTAL DE PRIMAVERA. A dor gravada no rosto bastante enrugado e envelhecido do médico do exército — que está pressionado contra a calçada feito lixo orgânico — parte o coração de Lilly. O homem entrou em decadência desde os eventos do último inverno, e pode ser que fosse agora o único outro residente de Woodbury mais perdido do que Lilly Caul. — Pobrezinho — diz Lilly, em voz baixa, ao esticar a mão na direção de um cobertor de lã em frangalhos enroscado aos pés de Bob. O fedor de cecê, fumaça de cigarro e uísque barato é soprado até ela. Lilly puxa o cobertor sobre Bob, uma garrafa de bebida vazia rola para fora do tecido e emite um estalo contra a saliência ao lado da porta. Bob solta um gorgolejo. — ... preciso contar a ela... Lilly se ajoelha ao lado do amigo, acariciando o ombro dele e imaginando se deveria limpar Bob, tirá-lo da rua. Também imagina se o “ela” sobre quem Bob balbucia é Megan. Ele gostava da garota — pobre homem —, e o suicídio de Megan o destruiu. Agora, Lilly puxa o cobertor até o pescoço empapado de Bob e dá tapinhas carinhosos no amigo. — Está tudo bem, Bob... ela... ela está em um lugar melhor... — ... preciso contar... Por um breve instante, Lilly se afasta ao ver os olhos tremeluzentes de Bob, que revelam a parte branca e injetada abaixo. Será que ele se transformou? O coração de Lilly dispara. — Bob? É Lilly. Você está tendo um pesadelo. Lilly engole o medo ao perceber que o amigo ainda vive — se é que aquilo pode ser chamado de vivo — e que está simplesmente se contorcendo durante um sonho febril e ébrio, provavelmente revivendo a reprise interminável de ter esbarrado em Megan Lafferty pendurada na ponta de uma corda, que por sua vez fora jogada pela varanda quebrada de um apartamento. — Bob...? Os olhos dele estremecem e se abrem, apenas por um instante, sem foco, mas acesos com angústia e dor. — Preciso... contar a ela... o que ele disse — diz o homem num chiado. — É Lilly, Bob — diz Lilly, baixinho, acariciando o braço de Bob. — Está tudo bem. Sou eu. Então, o velho médico encontra o olhar de Lilly e diz outra coisa, em seu chiado mucoso e gaguejante, que faz a espinha de Lilly gelar. Dessa vez, Lilly ouve com clareza e percebe que o “ela” não é Megan. O “ela” é Lilly. E a coisa que Bob Stookey precisa lhe contar assombrará Lilly enquanto ela viver.

DOIS

Naquele dia, na arena, Gabe dá o golpe final que encerra a competição logo após as 15 horas, fuso horário do leste, depois de uma hora inteira de luta. A cabeça coberta de pregos da maça acerta as costelas de Bruce — o torso está protegido por um colete oculto pela roupa militar —, ele cai, e tem início a contagem. Exausto devido à farsa de murros e socos, o homem negro fica no chão, coberto por uma nuvem de poeira, respirando com dificuldade em meio ao pó. — TEMOS UM VENCEDOR! A voz amplificada assusta muitos na arquibancada, o ruído estalado ressoa a partir de enormes alto-falantes posicionados ao redor da arena, funcionando por geradores que murmuram abaixo do local. Gabe se exibe, agitando a maça na melhor imitação de William Wallace. Os vivas e os aplausos disfarçam os grunhidos baixos e compartilhados dos mortos-vivos acorrentados aos postes ao redor de Gabe, muitos ainda tentando pegar um pedaço de carne humana, suas bocas pútridas trabalhando e pulsando e babando com fome robótica. — FIQUEM POR AÍ, PESSOAL, PARA UMA MENSAGEM DO GOVERNADOR APÓS O ESPETÁCULO!! Com a deixa, os alto-falantes estalam e ribombam a batida de uma música de heavy metal, uma guitarra soando como serras preenche o ar à medida que um batalhão de auxiliares de palco invade a arena. A maioria é de homens jovens usando capuz e jaquetas de couro, carregando grandes estacas de ferro com as pontas em gancho. Eles circundam os errantes. As correntes são soltas, as coleiras são presas, vozes se erguem, ordens são dadas por capatazes, e, um a um — em uma tempestade de terra —, os trabalhadores começam a levar os monstros para o outro lado da arena, na direção do portal mais próximo. Algumas das criaturas mordem o ar conforme são empurradas de volta para as sombras abaixo da arena, outras grunhem e atiram gotas de baba preta como atores relutantes sendo arrastados para fora do palco. Alice observa aquilo da arquibancada com um desprazer silencioso. No momento, os outros espectadores estão de pé, batendo palmas para acompanhar o som do heavy metal, gritando para a horda de mortos-vivos sendo levada para fora. Alice estende a mão para o chão abaixo de si e encontra a maleta médica preta sob o banco. Ela pega a maleta, rapidamente luta para sair do assento e, então, corre degraus abaixo até o campo. Quando Alice chega ao nível da arena, os dois gladiadores — Gabe e Bruce — estão indo embora, dirigindo-se à saída sul. Ela corre atrás deles. Pelo canto do olho, sente uma figura fantasmagórica emergindo das sombras do portal norte atrás de si, fazendo uma entrada dramática comparável ao rei Lear atuando em Stratford-Upon-Avon. Ele chega ao campo todo em suas vestes de couro e apliques metálicos, as botas de cano longo levantando poeira, o sobretudo tremeluzindo à brisa atrás de si. O homem parece um caçador de recompensas grisalho do século XIX, com a pistola agitando-se no quadril conforme caminha. A multidão irrompe em emoção quando o vê, uma onda de aplausos e vivas. Um dos trabalhadores, um homem mais velho com uma camiseta da Harley e com barba estilo ZZ Top, corre até a figura com um microfone de fio. Alice se vira e alcança os dois guerreiros exaustos. — Bruce, espera! Mancando bastante, o grande homem negro chega ao limite do arco sul, para e se vira. Seu olho esquerdo inchou completamente até se fechar, e os dentes estão manchados de sangue. — O que você quer? — Quero ver esse olho — responde Alice, aproximando-se dele, ajoelhando-se e abrindo a maleta médica. — Estou bem. Gabe se junta aos dois com um sorrisinho no rosto. — Qual é o problema, pequeno Bruce está com dodói? Alice olha com mais atenção, dando leves batidinhas no osso do nariz de Bruce com uma gaze. — Meu Deus, Bruce... por que não me deixa levar você para ver o Dr. Stevens? — É só um nariz arrebentado — diz Bruce, afastando Alice. — Eu disse que estou bem! Ele chuta a maleta médica, e ela se vira, os instrumentos e suprimentos se espalhando pela terra. Alice emite um murmúrio exasperado e se abaixa para catar as peças. Em seguida, a música cessa, e o som de uma voz baixa, aveludada e amplificada, ecoa pelo vento e pelo barulho da multidão. — SENHORAS E SENHORES... AMIGOS E COMPANHEIROS RESIDENTES DE WOODBURY... QUERO AGRADECER A TODOS POR PARTICIPAREM DO ESPETÁCULO DE HOJE. FOI DE ARRASAR! Alice olha por cima do ombro e vê o governador parado no centro da arena. O homem sabe como cativar o recinto. Ele avalia a multidão com fogo no olhar, agarrando o microfone manual com a sinceridade inflada do pastor de uma megaigreja, dono de uma aura estranha e carismática. Não é um homem grande, não é particularmente bonito — na verdade, olhando de perto, pode-se até dizer que é desleixado e malnutrido —, mas ainda assim Philip Blake passa um ar de confiança sobrenatural. Tem olhos escuros que refletem a luz como geodos, e seu rosto anguloso é adornado por um bigode retorcido para cima, como o de um bandido do Terceiro Mundo. Philip se vira e acena com a cabeça para a saída sul, fazendo com que a coluna de Alice se enrijeça quando a jovem sente o olhar frio do Governador sobre si. A voz amplificada estala e ecoa: — E QUERO MANDAR UM GRITO ESPECIAL PARA NOSSOS GLADIADORES DESTEMIDOS, BRUCE E GABE! MOSTREM UM POUCO DE AMOR A ELES, PESSOAL — ERGAM A MÃO! Os vivas e gritos e urros sobem diversos tons, ecoando para além dos postes de metal e das marquises afastadas, como uma matilha faminta de cães que ladram. O Governador deixa a coisa rolar, um maestro, pacientemente guiando a sinfonia. Alice fecha a maleta médica e fica de pé. Bruce acena heroicamente para a multidão, então segue Gabe para dentro das sombras do recuo, sumindo na rampa de saída com a formalidade de um ritual religioso. Do outro lado da arena, Philip Blake abaixa a cabeça, esperando que a onda de vivas retroceda para o mar. No silêncio crescente, ele abaixa de leve o tom, falando suavemente com sua voz aveludada, que é levada pelo vento: — AGORA... FALANDO SÉRIO POR UM MINUTO... SEI QUE NOSSOS MANTIMENTOS ESTÃO FICANDO UM POUCO ESCASSOS. MUITOS DE VOCÊS ANDAM ECONOMIZANDO E RACIONANDO. FAZENDO SACRIFÍCIOS. O Governador ergue o rosto para seu rebanho, fazendo contato visual conforme continua: — SINTO A PREOCUPAÇÃO CRESCENDO. MAS QUERO QUE TODOS SAIBAM... O ALÍVIO ESTÁ A CAMINHO. VAMOS FAZER UMA SÉRIE DE BUSCAS... A PRIMEIRA AMANHÃ... E ESSAS BUSCAS VÃO JUNTAR PROVISÕES O BASTANTE PARA NOS FAZER RESISTIR. E ESSA É A CHAVE, SENHORAS E SENHORES. ESSA É A COISA MAIS IMPORTANTE. CONTINUAREMOS RESISTINDO! JAMAIS DESISTIREMOS! JAMAIS! Alguns espectadores aplaudem, mas a maioria permanece em silêncio, cética, ambivalente em seus assentos duros e frios. Eles estão há semanas vivendo da água azeda e metálica do poço, das frutas podres dos pomares descuidados. Deram a seus filhos as últimas carnes enlatadas e os restos mofados de aves de caça defumadas. Do centro da arena, o Governador mantém o olhar neles. — SENHORAS E SENHORES, UMA NOVA COMUNIDADE ESTÁ SENDO CONSTRUÍDA AQUI EM WOODBURY... E É MINHA MISSÃO SAGRADA PROTEGÊ-LA. E FAREI O QUE PRECISA SER FEITO. SACRIFICAREI O QUE PRECISAR SER SACRIFICADO. ESSE É O SIGNIFICADO DE COMUNIDADE! QUANDO VOCÊ SACRIFICA AS PRÓPRIAS NECESSIDADES PELAS NECESSIDADES DA COMUNIDADE, VOCÊ ANDA DE CABEÇA ERGUIDA! Isso aumenta um pouco os aplausos, alguns espectadores encontram Jesus e emitem gritos. O Governador continua o sermão: — VOCÊS TIVERAM DE SOFRER IMENSAMENTE DEVIDO À PRAGA. FORAM DESTITUÍDOS DE TUDO PELO QUE TRABALHARAM TANTO A VIDA TODA. MUITOS DE VOCÊS PERDERAM ENTES QUERIDOS. MAS AQUI... EM WOODBURY... VOCÊS TÊM ALGO QUE NÃO PODE SER TOMADO POR HOMEM OU BESTA: VOCÊS TÊM UM AO OUTRO! Agora, alguns dos residentes ficam de pé e aplaudem, enquanto outros erguem punhos no ar. O barulho aumenta. — DEIXEM QUE EU RESUMA PARA VOCÊS: O BEM MAIS PRECIOSO QUE TEMOS NO MUNDO É NOSSO PRÓPRIO POVO. E PELO BEM DE NOSSO POVO... JAMAIS DESISTIREMOS... JAMAIS CAÍREMOS... JAMAIS PERDEREMOS A CALMA... E JAMAIS PERDEREMOS A FÉ! Mais espectadores se levantam. Os vivas e os aplausos se elevam até o céu. — VOCÊS TÊM UMA COMUNIDADE! E, CASO SE APÓIEM NELA, NÃO HAVERÁ FORÇA NO MUNDO QUE POSSA TOMÁ-LA DE VOCÊS! NÓS SOBREVIVEREMOS. PROMETO A VOCÊS. WOODBURY SOBREVIVERÁ! DEUS ABENÇOE A TODOS... E DEUS ABENÇOE WOODBURY! Do outro lado da arena, Alice carrega a maleta médica pela entrada sul e nem olha para trás. Ela já viu esse filme. *** Depois do espetáculo pós-jogo, Philip Blake para no banheiro masculino, depois do pórtico cheio de lixo da arena. O espaço estreito fede a urina seca, mofo escuro e cocô de rato. Philip se alivia, joga água no rosto e então olha por um momento para o próprio reflexo cubista no espelho rachado. Bem no fundo da mente, em algum canto afastado de suas memórias, o som de uma garotinha chorando ecoa levemente. Ele termina e sai batendo a porta, as botas com bico de metal e a longa corrente do cinto tilintando, Philip percorre o longo corredor de concreto, desce um lance de escadas, passa por outro corredor e, por fim, desce o último lance de escadas, então chega à “pen” — a penitenciária, uma fileira de portas de garagem de enrolar cobertas de mossas e antigas pichações. Gabe está diante da última porta, à esquerda, e enfia a mão em um latão metálico de óleo. Então joga algo molhado por uma janela quebrada. O Governador se aproxima sem dizer uma palavra e para diante de uma das janelas. — Bom trabalho lá fora hoje, amigo. — Obrigado, chefe. Gabe enfia a mão no latão e puxa outro pedaço, um pé humano cortado displicentemente na altura do tornozelo, reluzente com sangue. O homem casualmente o atira pela abertura irregular. Philip olha pelo vidro sujo para o espaço confinado de ladrilhos borrifados de sangue. Ele vê a massa fervilhante de mortos-vivos — uma pequena orgia de rostos azuis pálidos e bocas escurecidas, as duas dúzias de errantes sobreviventes do evento do dia chafurdando nos pedaços de corpo humano sobre o chão de ladrilho, como uma vara de porcos selvagens brigando por trufas — e observa fixamente, hipnotizado por um instante, fascinado pelo espetáculo. Por fim, Philip afasta o olhar da abominação e indica a lata cheia de restos mortais frescos com um aceno de cabeça. — Quem é desta vez? Gabe ergue o rosto, a blusa de gola rulê preta e puída está rasgada sobre o peitoral e se alarga na altura da barriga graças ao colete por dentro, as axilas de Gabe apresentam manchas de suor, evidenciando o esforço físico. Ele usa luvas cirúrgicas que pingam sangue fresco. — Como assim? — A gororoba que está jogando, quem é? Gabe assente. — Ah... é aquele velhote que morava do lado do posto de gasolina. — Causas naturais, espero? — É. — Gabe assente e atira mais um pedaço pela abertura. — Ataque de asma ontem à noite, coitado. Alguém disse que ele tinha enfisema. O Governador emite um suspiro. — Ele foi para a Glória agora. Me dê um braço. Do cotovelo para baixo. E talvez um dos órgãos menores... um rim, o coração. Gabe para, os ruídos úmidos deploráveis do frenesi alimentar ecoam pelo corredor. Gabe lança ao Governador um olhar esquisito, uma mistura de simpatia, afeição e talvez até mesmo dever, como um escoteiro prestes a ajudar o líder da tropa. — Que tal o seguinte — diz Gabe, a voz rouca se suavizando. — Por que não vai para casa e eu os levo para você? O Governador olha para ele. — Por quê? Gabe dá de ombros. — As pessoas me veem carregando alguma coisa, nem sequer pensam duas vezes. Se você está carregando algo, querem ajudar... talvez perguntar o que é, imaginando o que está fazendo. Philip encara o homem por um momento. — Tem razão nisso. — Não vai pegar bem. Philip dá um aceno de satisfação. — Está bem, então. Faremos do seu jeito. Estarei em casa durante o resto da noite, traga pelos fundos. — Entendido. O Governador se vira para ir embora e então para por um momento. Ele se volta para Gabe e sorri. — Gabe... obrigado. Você é um homem bom. O melhor que tenho. O homem de pescoço robusto sorri. Uma insígnia de mérito para o melhor escoteiro. — Obrigado, chefe. Philip Blake se vira e se dirige às escadas com uma alteração muito sutil no andar, um vago, porém distinto, saltitar nos passos. O mais próximo que Woodbury tem de uma mansão executiva é o apartamento de três quartos que se estende pela cobertura de um enorme prédio de condomínio no fim da rua principal. Pesadamente fortificado, a porta da frente é vigiada o tempo todo por uma equipe rotativa de atiradores, que operam as torretas do outro lado da rua, o prédio é de tijolos amarelos limpos, tem as juntas bem feitas e é livre de grafite e de sujeira. Philip Blake entra no saguão naquela noite e, assobiando alegremente, passa pela grande estante de caixas de correio metálicas que não veem o serviço postal há mais de 28 meses. Ele sobe as escadas, dois degraus por vez, sentindo-se bem, digno e cheio de afeição pelos irmãos da cidadezinha, a extensão de sua família, seu lugar nesse novo mundo. À porta, ao fim do corredor do segundo andar, ele para, pega as chaves e entra. O lugar jamais chegaria às páginas da revista Architectural Digest. Os cômodos acarpetados estão, na maior parte, sem mobília, algumas poltronas aqui e ali cercadas por caixas. Mas o lugar é limpo e bem organizado, um macrocosmo da mente compartimentada e organizada de Philip Blake. — O papai chegou — anuncia ele, cuidadosamente, quando entra na sala. — Desculpe tanto atraso, amorzinho... dia ocupado. — Ele desafivela a arma, abre o colete e coloca as chaves e a pistola no aparador ao lado da porta. Do outro lado da sala, uma garotinha de vestido salopete desbotado está de costas para Philip. Ela bate o corpo levemente contra a enorme janela panorâmica, como um peixe dourado tentando, compulsivamente, escapar do aquário. — Como vai minha princesinha? — diz ele ao se aproximar da criança. Momentaneamente perdido na felicidade doméstica de uma vida normal, Philip se ajoelha atrás da menina e estende a mão, como se esperando um abraço. — Vamos lá, bonequinha... é seu papai. Não tenha medo. A coisinha que um dia foi uma menina se vira de repente para encará- lo, esticando a corrente presa à coleira de ferro. Ela emite um grunhido gutural, estalando os dentes podres para Philip. O rosto — um dia aquele de um lindo querubim de olhos azuis — agora exibe a cor dos mortos, pálida como barriga de peixe. Os olhos estão vazios, bolinhas de gude brancas e leitosas. Toda a felicidade é drenada de Philip Blake quando ele afunda no chão, sentando-se de pernas cruzadas no carpete diante da menina, suficientemente longe do alcance dela. Ela não me reconhece. A mente de Philip acelera, seus pensamentos retomam a disposição padrão, sombria e deprimente: Por que ela não me reconhece, porra? Philip Blake acredita que os mortos-vivos podem aprender, que ainda podem acessar partes dormentes de suas memórias e seus passados. Ele não tem prova científica dessa teoria, mas precisa acreditar nela, precisa. — Está tudo bem, Penny, é só o papai. — Philip estende a mão para a menina como se ela a fosse pegar. — Me dê sua mão, querida. Lembra? Se lembra de quando costumávamos ficar de mãos dadas e fazer longas caminhadas até Lake Rice? Ela tateia o ar em busca da mão dele, tenta puxá-la para a boca, os minúsculos dentes como os de piranhas fechando-se com força. Philip puxa o braço de volta. — Penny, não! — Ele repete o movimento, uma tentativa de pegar carinhosamente a mão da menina. Mas ela tenta dar outra mordida. — Penny, pare com isso! — Philip luta para controlar a raiva. — Não faça isso. Sou eu... papai... não me reconhece? Ela segura a mão de Philip, a boca preta e em decomposição de Penny mastiga o ar, e seu hálito tóxico e fétido é soprado com um grunhido úmido. Philip se afasta. Ele fica de pé. Então passa as mãos pelos cabelos, o estômago se contorce de angústia. — Tente lembrar, querida — implora ele, com um nó na garganta, a voz falhando como se prestes a soluçar. — Você consegue. Sei que consegue. Tente lembrar quem sou. A coisa-menina dá um puxão na corrente, a boca movendo-se involuntariamente. Ela inclina a cabeça destruída para Philip — os olhos sem vida exibem apenas fome e, talvez, até mesmo um traço de confusão — a confusão de um sonâmbulo que vê algo que não se encaixa. — Que droga, criança, você sabe quem eu sou! — Philip fecha as mãos em punho e se ergue sobre Penny. — Olhe para mim! Sou seu pai! Não consegue ver isso?! Sou seu papai, porcaria! Olhe para mim! A criança morta rosna. Philip solta um rugido de ódio, ergue a mão instintivamente para dar um tapa na menina quando, de súbito, o ruído de batidas à porta quebra o feitiço. Philip pisca ao ouvir o barulho, a mão direita ainda prestes a acertar a criança. Alguém bate à porta dos fundos. Ele olha por cima do ombro. O som vem da cozinha, onde a porta externa se abre para um deque improvisado que dá para um beco estreito. Exalando um suspiro, Philip alonga as mãos e inspira a raiva de volta. Ele se afasta da criança, respirando devagar e profundamente enquanto se dirige para o outro lado do apartamento. Philip vai até a porta dos fundos e abre. Gabe está parado nas sombras, segurando uma caixa de papelão com manchas úmidas oleosas. — Oi, chefe. Aqui está aquela coisa que você disse que... Philip estende o braço para a caixa, pega-a sem dizer nada e volta pra dentro. Gabe continua ali, parado, na escuridão, frustrado pela recepção brusca, enquanto a porta bate em sua cara. Naquela noite, Lilly tem dificuldades para dormir. Vestida com uma camiseta úmida da Georgia Tech e calcinha, está deitada no colchão sem lençol do futon, tentando encontrar uma posição confortável, encarando as rachaduras no teto de gesso do apartamento térreo imundo. A tensão em sua nuca, na lombar e nas articulações toma conta de Lilly feito corrente elétrica latejando intermitentemente pelo corpo. Deve ser essa a sensação de tratamentos eletroconvulsivos. Lilly teve um terapeuta que sugeriu TEC para seu suposto distúrbio de ansiedade. Lilly recusou. Mas sempre se perguntou se o tratamento teria ajudado. Agora, todos os terapeutas se foram, os divãs estão virados, os prédios comerciais foram dizimados e abandonados, as farmácias, saqueadas, todo o campo da psicoterapia, extinto, do mesmo modo que os SPAs e parques aquáticos. Agora, Lilly Caul está por conta própria, sozinha com sua insônia dilacerante e pensamentos andando em círculos, assombrados por memórias do falecido Josh Lee Hamilton. Em grande parte, Lilly pensa no que Bob Stookey murmurou para ela mais cedo naquele dia, durante a catatonia ébria na calçada. Lilly precisou se abaixar para ouvir o chiado fraco de Bob, as palavras saindo com uma urgência trabalhosa. — Preciso contar a ela o que ele disse — murmurava Bob ao ouvido de Lilly. — Antes de morrer... ele me contou... Josh me contou... foi Lilly... Lilly Caul... foi ela... a única que ele já amou. Lilly jamais acreditara naquilo. Nunca. Não na época. Não quando o grande Josh Hamilton estava vivo. Nem mesmo depois que Josh foi assassinado a sangue frio por um dos brutamontes de Woodbury. A muralha que havia em torno do coração de Lilly era devido à culpa? Porque havia incitado e usado Josh para, principalmente, proteção? Ou seria porque Lilly simplesmente não se amava o bastante para amar outra pessoa? Depois de ouvir a frase disparada por um bêbado catatônico na calçada naquele dia, Lilly se enrijecera com horror. Tinha se afastado do velho como se ele fosse radioativo, então disparou enlouquecidamente até o apartamento, trancando-se do lado de dentro. Agora, na escuridão eterna de seu apartamento solitário, a inquietude e a angústia fazem sua pele se arrepiar, e Lilly deseja profundamente os remédios que, em outros tempos, costumava tomar como se fossem doces. Daria o ovário esquerdo por um comprimido de Valium, um Xanax, quem sabe até um Ambien... droga, ela até se contentaria com uma bebida forte. Lilly encara o teto mais um pouco e finalmente tem uma ideia. Ela sai da cama e vasculha uma caixa de pêssegos com parcos mantimentos. Entre as duas latas de carne enlatada, a barra de sabão Ivory e o rolo de papel higiênico usado pela metade — em Woodbury, o papel higiênico é agora adquirido e distribuído com a crueldade de uma barra de ouro sendo negociada na bolsa de valores de Nova York —, Lilly encontra um frasco quase vazio de NyQuil. Ela entorna o que restou na boca e volta para a cama. Esfregando os olhos, Lilly respira de modo curto e tenta limpar a mente e ouvir o ruído branco dos geradores do outro lado da rua, os zunidos onipresentes e entorpecedores tornando-se as batidas de um coração em seus ouvidos. Pouco mais de uma hora depois, Lilly afunda no colchão suado e nas garras de um pesadelo vívido e aterrorizante. Poderia ser parcialmente culpa do NyQuil agindo em seu estômago vazio, ou parcialmente devido às reminiscências repulsivas da luta de gladiadores que assistira agarrando-se à mente de Lilly, ou talvez o resultado dos sentimentos não resolvidos por Josh Hamilton, mas, seja lá qual for o motivo, Lilly se vê andando sem rumo por um cemitério campestre, na escuridão da noite, procurando desesperadamente o túmulo de Josh. Ela está perdida e ouve o som de rosnados ferais na floresta escura atrás de si, dos dois lados. Lilly ouve galhos se partindo, cascalho se quebrando, os passos arrastados dos mortos-vivos — centenas deles — vindo em sua direção. Ela ultrapassa lápide após lápide ao luar... em busca do local do descanso final de Josh. A princípio, o ruído rítmico de pancadas entra na narrativa do sonho subitamente, distante, os ecos baixos, afogados pelo ruído crescente dos mortos. Lilly nem mesmo toma consciência do barulho por um bom tempo. Está ocupada demais procurando freneticamente a lápide importante, ziguezagueando entre uma floresta de pedras cinza e desgastadas. Os Mordedores se aproximam. Por fim, Lilly vê um túmulo recente a distância, em uma encosta íngreme de terra pedregosa e árvores esqueléticas. Sob as sombras há uma lápide branca como ossos, de mármore, sozinha, o brilho pálido da lua refletindo-se na superfície. A lápide está no topo de uma colina de terra úmida avermelhada, e, conforme Lilly se aproxima, o nome gravado na superfície se torna visível ao luar: JOSHUA LEE HAMILTON N. 15/1/69 M. 21/11/12 O som das pancadas é registrado pelos ouvidos de Lilly conforme ela se aproxima do túmulo. O vento sussurra. Os errantes se aproximam. Pelo canto do olho, ela entrevê o bando que a cerca, os corpos pútridos emergindo do bosque, arrastando-se na direção de Lilly, roupas fúnebres em frangalhos tremeluzindo ao vento, punhados de olhos mortos na escuridão como moedas brilhantes. Quanto mais Lilly se aproxima da lápide, mais evidente fica o barulho. Ela sobe a encosta e se aproxima do túmulo. O som das pancadas se revela ser o de ruídos abafados de batidas — um punho batendo contra uma porta ou, talvez, contra o interior de um caixão —, o barulho sufocado pelas camadas de terra. Lilly não consegue respirar. Ela se ajoelha ao lado da lápide. O barulho de batidas vem de dentro do túmulo de Josh. Naquele momento torna-se tão alto que a terra fofa na superfície do túmulo estremece e rola pela colina em minúsculas avalanches. O terror de Lilly se modifica. Ela toca o monte trêmulo de terra. Seu coração fica gélido. Josh está lá embaixo, batendo do lado de dentro do próprio caixão, uma súplica terrível para ser libertado da morte, para ser solto da prisão. Os errantes seguem na direção de Lilly, ela consegue sentir o hálito pútrido deles em sua nuca, as sombras alongadas deslizando colina acima em ambas as laterais de Lilly. Ela está condenada. Josh quer sair. As batidas aumentam. Lilly olha para o túmulo, as lágrimas descem pelas bochechas, pingam de seu queixo. As lágrimas de Lilly inundam a terra. As tábuas grosseiramente pregadas do caixão simples de Josh ficam visíveis em meio à lama, algo se move dentro das ripas. Lilly chora. Os errantes a cercam. As batidas aumentam e viram pancadas estrondosas. Lilly soluça, estende a mão e carinhosamente toca o caixão quando, de súbito... ... Josh emerge da clausura de madeira, rasgando as tábuas como se fossem palitos de fósforos, a boca faminta dele morde o ar, um rosnado inumano sai de dentro dele. Lilly grita, mas nenhum som sai de dentro dela. O rosto enorme e quadrado de Josh se contorce em sua sede de sangue conforme ele ataca o pescoço de Lilly, os olhos tão mortos e brilhantes quanto uma moeda de prata. O impacto dos dentes podres de Josh acertando-lhe a jugular desperta Lilly em um espasmo de terror. Lilly acorda sobressaltada, ensopada de suor febril, a luz da manhã vibrando com o som de alguém batendo à porta de seu apartamento. Ela arqueja para tomar fôlego. Então pisca para afastar o pesadelo, o ruído do próprio grito ainda ecoando em seus ouvidos. As batidas continuam. — Lilly? Você está bem? A voz familiar, abafada do lado de fora da porta de entrada, mal é registrada pelos ouvidos de Lilly. Ela esfrega o rosto, respira fundo algumas vezes e tenta se recompor. Por fim, o quarto entra em foco, e a respiração de Lilly volta ao normal. Ela se arrasta para fora da cama, a tontura tomando Lilly enquanto procura a calça jeans e a blusa. As batidas ficam frenéticas. — Já vou! — grita ela, com a voz esganiçada enquanto veste as roupas. Lilly vai até a porta. — Ah... oi — murmura ela depois de abrir a porta e ver Martinez parado à entrada, sob a luz pálida. O latino-americano alto e esguio usa uma bandana na cabeça ao estilo de um pirata, tem braços musculosos, os quais despontam das mangas cortadas de sua camisa de trabalho. Martinez tem um rifle de assalto jogado por cima do ombro largo, e o rosto bonito dele se contrai com preocupação. — Que diabos está acontecendo aqui? — diz ele, olhando Lilly de cima a baixo com os olhos castanhos brilhando de preocupação. — Estou bem — responde ela, sem convencer muito. — Você esqueceu? — Hã... não. — Pegue suas armas, Lilly — diz Martinez. — Vamos sair para aquela busca sobre a qual falei, e precisamos de todas as mãos no serviço.

Três

— Bom dia, chefe! Um homem careca e atarracado de meia-idade chamado Gus cumprimenta Martinez e Lilly ao lado do caminhão de carga leve mais afastado, caminhão esse que bloqueia o portão de saída do lado norte da cidade. Gus tem o pescoço largo como o de um rinoceronte e usa uma camiseta sem manga manchada de óleo repuxada em torno de uma barriga rotunda. O sujeito passa a impressão de ser inútil como arma. Mas o que lhe falta em inteligência ele compensa em lealdade. — Bom dia, Gus — diz Martinez ao se aproximar. — Você se importa de pegar alguns daqueles galões de gasolina vazios, para o caso de darmos sorte na viagem? — Imediatamente, chefe. Gus dá meia-volta e sai dando passos desleixados, levando a espingarda .12 com coronha de pistola sob o braço como se fosse um jornal que ainda não teve a chance de ler. Martinez e Lilly observam o pequeno troll sumir ao virar uma esquina. Lilly olha para o leste e vê o sol do início da manhã despontar sobre o limite da barricada. Nem são 7 horas ainda e o frio anormal da semana anterior já era. Nessa parte da Geórgia, a primavera pode ser um pouco bipolar — entra fria e chuvosa, mas fica quente e úmida como os trópicos, sem avisar. — Lilly, por que não vai atrás com os outros? — Martinez indica com a cabeça um enorme caminhão militar de carga pesada a meia distância. — Colocarei o velho Gus no banco do carona ao meu lado, caso a gente precise derrubar alguma coisa no caminho. Ocioso, sob um dossel de carvalhos que se agitam, o caminhão de carga pesada está perpendicular ao de carga leve. Ele tem enormes pneus manchados de lama e uma carcaça aparafusada resistente a minas, tão durável quanto um tanque — uma aquisição recente da estação vizinha da Guarda Nacional. A caçamba traseira tem cobertura de lona. Quando Martinez e Lilly se aproximam, um homem mais velho usando boné de beisebol e uma jaqueta de seda surge diante do caminhão, limpando as mãos em um retalho oleoso. Envelhecido, magro como uma tripa, na casa dos 60 anos, de olhar astuto e um cavanhaque ruivo grisalho, David Stern tem o porte vagamente majestoso e valentão de um técnico de futebol americano de faculdade. — Estava com menos um quarto — diz ele para Martinez. — Coloquei um pouco de gasolina reciclada... deve mantê-la andando por um tempo. Bom dia, Lilly. Lilly dá um aceno de cabeça relutante para o homem e murmura um cumprimento sonolento. Gus volta com dois galões plásticos de gasolina desgastados. — Jogue na traseira, Gus. — Martinez vai até a traseira do caminhão. Lilly e David o seguem. — Onde está a pequena dama, David? — Aqui! — A lona é aberta, e Barbara Stern enfia a cabeça para fora. Está ficando grisalha. Também na casa dos 60 anos, veste uma jaqueta jeans por cima de um vestido havaiano de algodão desbotado, e tem os fios de cabelo rebeldes e prateados da mulher que, mesmo maternal, ainda conserva sua sensualidade. O rosto de Barbara, bastante enrugado e queimado pelo sol, está animado com a inteligência aguçada que, se presume, manteve o marido dela na linha todos esses anos. — Tentando ensinar alguma coisa ao Júnior aqui. É como arrancar um dente. O “Júnior” ao qual Barbara se refere surge subitamente de dentro da caçamba, ao lado dela. — Mi-mi-mi — diz o jovem, com um sorriso implicante. Um rapaz de 22 anos, com cachos longos, castanhos, marrons como café espresso, Austin Ballard tem olhos determinados, que brilham com esperteza. Com jaqueta de couro de piloto e múltiplas correntes de bijuterias no pescoço, exibe o ar de um roqueiro de segunda classe, um bad boy incorrigível. — Como diabos você aguenta, Dave? — pergunta ele. — Beba muito e concorde com tudo o que ela diz — responde David Stern, brincando, atrás de Martinez. — Barbara, pare de bancar a mãe do garoto. — Ele estava tentando acender um cigarro aqui, pelo amor de Deus — resmunga Barbara Stern. — Quer que eu deixe ele fumar e mande todos nós para o reino dos céus? — Tudo bem, gente, vamos parar. — Martinez verifica o cartucho de munição. Está todo profissional, talvez até um pouco sobressaltado. — Temos um trabalho a fazer. Todo mundo já conhece a rotina. Vamos fazer isso com o mínimo de enrolação. Martinez ordena que Lilly e David entrem na traseira com os outros dois e então leva Gus para a cabine. Lilly sobe e entra na atmosfera fétida do compartimento de carga. A câmara sem ar fede a suor velho, cordite e bolor. Uma lâmpada redonda dentro de uma grade ilumina levemente os contêineres de transporte alinhados ao longo de cada um dos lados do piso corrugado. Lilly procura um lugar para se posicionar. — Guardei um lugar para você — diz Austin a ela, com um sorrisinho lascivo, dando tapinhas no contêiner desocupado ao seu lado. — Qual é, relaxe... não vou morder. Lilly revira os olhos, suspira e se senta ao lado do jovem. — Guarde suas mãos para você, Romeu — brinca Barbara Stern do outro lado da clausura deprimente em que se encontram. Ela está sentada em uma caixa de madeira baixinha ao lado de David, que sorri para os outros dois do outro lado do compartimento de carga. — Eles formam um belo par, não é? — pergunta David, com um brilho nos olhos. — Ah, por favor — murmura Lilly, levemente enojada. A última coisa que quer é se envolver com um cara de 22 anos, ainda mais um garoto que gosta tão irritantemente de flertar como Austin Ballard. Nos últimos três meses, desde que apareceu em Woodbury vindo do norte, malnutrido e desidratado, com um grupo de dez farrapos, Austin cantou quase todas as mulheres solteiras que ainda não chegaram à menopausa. Caso insistissem, no entanto, Lilly teria de admitir que Austin Ballard é o que sua velha amiga Megan chamaria de “colírio para os olhos”. Com a cabeleira cacheada e os longos cílios, poderia facilmente aquecer a alma solitária de Lilly. Além do mais, parece que há mais do que os olhos veem no garoto. Lilly já o tinha visto em ação. Sob a aparência de menino bonitinho e o charme rebelde, há um jovem corajoso, fortalecido pela praga, que parece mais do que disposto a se colocar na linha de frente pelos amigos sobreviventes. — Lilly gosta de se fazer de difícil — intromete-se Austin, ainda com aquele sorriso lateral. — Mas ela vai se tocar. — Continue sonhando — murmura Lilly, conforme o caminhão vibra e ronca. Os freios são acionados, e o compartimento de carga estremece quando o veículo lentamente sai do lugar. Lilly ouve um segundo motor — um caminhão grande — acelerando do lado de fora da caçamba. O estômago se aperta de leve à medida que percebe que a saída está se abrindo. Martinez observa o caminhão de carga leve dar ré devagar a partir da abertura, o cano de escapamento vertical cuspindo e jorrando fumaça, abrindo uma brecha de quase 8 metros na barricada. O bosque adjacente a Woodbury se revela no sol pálido a cem metros de distância. Nenhum errante à vista. Por enquanto. O sol, ainda baixo no céu, irradia-se através das árvores distantes em pequenas partículas enevoadas, queimando a neblina de antes do amanhecer. Adiantando-se mais 6 metros, Martinez para o caminhão e abre a janela. Ele ergue o rosto para dois atiradores agachados sobre uma plataforma elevatória, a qual está erguida contra o canto da parede. — Miller! Faça um favor, sim? Um dos homens — um afro-americano magricela com uma camisa do Atlanta Falcons — se inclina sobre a beirada. — É só dizer, chefe. — Enquanto estivermos fora, mantenha o muro livre de Mordedores. Pode fazer isso por mim? — Pode deixar! — Queremos uma entrada fácil na volta. Entendeu? — Pode deixar, cara! Não se preocupe! Martinez emite um suspiro, subindo a janela de novo. — Aham — murmura ele aos sussurros, então passa a marcha no caminhão e pisa no acelerador. O veículo ronca e parte em direção à manhã sombria. Por apenas um instante, Martinez olha pela janela do lado do motorista para o retrovisor lateral. Entre véus de poeira erguida pelos pneus imensos, ele vê Woodbury se afastando a distância atrás do grupo. — Não me preocupar... claro. O que poderia dar errado? O grupo leva meia hora para chegar à rodovia interestadual 85. Martinez pega a estrada de Woodbury a oeste, serpenteando entre as carcaças abandonas de carros e caminhões que engarrafam a via de duas pistas, mantendo a velocidade entre 60 e 80 quilômetros por hora para o caso improvável de algum Mordedor desgarrado tentar sair aos tropeços do bosque e os atacar. Conforme o caminhão de carga intermitentemente desvia de escombros, o movimento oscilante mantém as pessoas na parte traseira agarradas aos assentos. Sentindo-se enjoada, Lilly se empenha em evitar roçar o corpo contra Austin. A caminho da interestadual, eles passam por Greenville, mais uma comunidadezinha agrária ao longo da autoestrada 18 que é praticamente a imagem espelhada de Woodbury. Antes, Greenville era o centro administrativo, um enclavezinho rústico de prédios governamentais de tijolos vermelhos, domos brancos oficiais e casas vitorianas imponentes, muitas das quais estavam nos registros históricos. Agora, o lugar jaz demolido e drenado de qualquer vida ao sol cruel da manhã. Pela lona traseira tremeluzente, Lilly consegue ver os destroços — janelas com tábuas, colunatas quebradas e carros virados. — Parece que Greenville foi saqueada — comenta David Stern, melancólico, enquanto o grupo encara pela traseira a devastação que passa por eles. Muitas das janelas exibem a marca de pichação esclarecedora: um enorme M maiúsculo em um círculo, que significa MORTOS, que significa “Melhor nem tentar”. A letra adorna muitos dos prédios naquela parte do estado. — Qual é o plano, Dave? — pergunta Austin, limpando as unhas com uma faca de caça, uma mania que irrita Lilly imensamente. Ela não consegue decidir se é um hábito genuíno ou se é apenas exibicionismo. David Stern dá de ombros. — Acredito que a cidade seguinte, Hogansville, acho, tem uma mercearia que Martinez considera ser ainda viável. — Viável? Outro gesto de ombros de David. — Quem sabe... é tudo um processo de eliminação. — É, bem... vamos apenas nos certificar de que nós não sejamos eliminados no processo. — Ele se vira e cutuca Lilly gentilmente nas costelas com o cotovelo. — Entendeu, Lilly? — Ha ha ha — diz ela, então olha de novo para fora do caminhão. Eles passam por uma rua de acesso familiar, que serpenteia para fora da via principal de duas pistas, uma grande placa na lateral da estrada reflete o sol da manhã. A logomarca registrada, com o sol dourado, pende para o lado, as letras azuis enormes estão rachadas e desbotadas e salpicadas de cocô de pássaros: Walmart Economize. Viva melhor. Um arrepio gélido de pesar percorre a barriga de Lilly à medida que se lembra dos eventos do ano anterior. Naquele mesmo Walmart, ela e Josh e o contingente de Atlanta toparam pela primeira vez com Martinez e seus seguidores. Em flashes de memórias confusas, Lilly recorda-se de encontrar armas e suprimentos... e, então, de esbarrar em Martinez... do impasse... de Megan ficando histérica... então de Martinez fazendo a apresentação de vendas dele... e, finalmente, de Josh angustiado quanto a experimentar ou não Woodbury por um tempo. — O que há de errado com essa interseção? — Austin aponta com o polegar na direção do supermercado destruído conforme passam voando pela propriedade. — Tudo — murmura Lilly, aos sussurros. Ela vê errantes desgarrados percorrendo o estacionamento do Walmart como aparições do inferno, os carros virados e os carrinhos de compras espalhados tão fossilizados e fustigados pela ação do tempo que agora têm ervas daninhas crescendo por dentro. As bombas do posto de gasolina estão enegrecidas e chamuscadas dos incêndios que destruíram o lugar em fevereiro. E a loja lembra uma ruína antiga feita de vidro quebrado e metal enferrujado, pacotes e caixas vazios vomitados para fora de janelas quebradas. — O lugar foi saqueado de comida e suprimentos há muito tempo — lamenta David Stern. — Todos e mais alguns se serviram dele. Conforme ultrapassam o Walmart, Lilly vê de relance, pela lona tremeluzente, a fazenda agrícola ao norte da propriedade. As silhuetas de errantes — daquela distância tão pequenos e indiscerníveis quanto insetos sob uma rocha — oscilam para trás e para a frente sob o matagal e atrás dos milharais mortos. Desde o advento da horda, no ano anterior, a atividade dos errantes aumentou, a população de mortos-vivos cresce e se espalha nas estradas secundárias e nas fazendas desoladas que antes estavam em descanso e desertas. Rumores circulam sobre grupos desgarrados de cientistas, em Washington e em laboratórios subterrâneos no Oeste, estarem desenvolvendo modelos comportamentais e previsões populacionais para os mortos reanimados, e nada disso é promissor. Notícias ruins pairam sobre a terra e pairam bem agora no compartimento de carga mal iluminado do caminhão de transporte conforme Lilly tenta afastar pensamentos sombrios da mente. — Ei, Barbara. — Lilly lança um olhar para a mulher de cabelos grisalhos sentada diante dela. — Por que não nos conta a história famosa de novo? Austin revira os olhos de modo bem-intencionado. — Ah, meu Deus... isso de novo não. Lilly olha para ele. — Você, cale a boca. Vamos, Barbara, conte a história da lua de mel. Austin esfrega os olhos. — Alguém me dê um tiro. — Shhh! — Lilly cutuca Austin, então olha para a mulher mais velha e consegue sorrir. — Vá em frente, Barbara. A mulher de cabelos grisalhos sorri para o marido. — Quer contar? David envolve a esposa com o braço. — Claro, será a primeira vez... eu falando. — Ele olha para a mulher mais velha com aquele brilho nos olhos, e algo se passa entre os dois, atravessando a clausura obscurecida e causando um aperto no coração de Lilly. — Está bem... primeiramente, eu estava lá nos dias pré-históricos, quando ainda tinha cabelos pretos e uma próstata que funcionava. Barbara dá um soco brincalhão no braço do marido. — Pode apenas ir direto ao ponto, por favor? Estas pessoas não precisam de seu histórico urinário completo. O caminhão ronca sobre trilhos de ferrovia, chacoalhando o compartimento de carga. David se segura no banco, então respira fundo e sorri. — A questão é que éramos apenas crianças... mas estávamos loucamente apaixonados. — Ainda estamos, por algum motivo... Sabe Deus por que — acrescenta Barbara, com um risinho, e lança ao marido um olhar significativo. David mostra a língua para ela. — Então, enfim... nos vimos em direção ao lugar mais lindo da terra: Iguaçu, na Argentina, com nada além das roupas nas costas e cerca de cem dólares em pesos. De novo, Barbara se intromete: — Se não me falha a memória, “Iguaçu” significa “garganta do diabo”, e é basicamente um rio que corre pelo Brasil e pela Argentina. Lemos sobre ele em um guia de turismo e achamos que seria a aventura perfeita. David suspira. — Então, enfim... chegamos lá no domingo e segunda à noite tínhamos caminhado todo o percurso rio acima, talvez 8 quilômetros, até uma cachoeira incrível. Barbara balança a cabeça. — Oito quilômetros? Está brincando? Andamos umas 20 milhas! David pisca um olho para Lilly. — Ela exagera. Confie em mim... foram só uns 20 ou 30 quilômetros. Barbara, de brincadeira, cruza os braços. — David? Quantos quilômetros há em uma milha? Ele suspira e balança a cabeça. — Não sei, querida, mas tenho certeza de que você está prestes a nos dizer. — Tipo 1,6... então, 30 quilômetros equivalem a umas 20 milhas. David lança outro olhar para a esposa. — Posso contar a história? Tudo bem por você? Barbara vira o rosto com petulância. — Quem está lhe impedindo? — Então encontramos essa cachoeira incrível, e quero dizer que é a cachoeira mais linda da terra. De um único ponto, você está praticamente cercado, 360 graus, e a água ruge ao seu redor. — E muitos arco-íris! — diz Barbara maravilhada. — Em todo lugar para onde se olhasse. Era realmente uma coisa incrível — Então — continua David. — A assanhadinha aqui decide brincar um pouquinho. Barbara sorri. — Eu só queria dar um abracinho nele, só isso. — E ela me apalpando enquanto a água corria por todo lado ao nosso redor... — Eu não estava apalpando você! — Ela estava me agarrando. E, do nada, diz: “David, onde está sua carteira?”. Então sinto a parte traseira da calça jeans, e, isso mesmo, a coisa sumiu. Barbara balança a cabeça de novo, revivendo o momento pela milionésima vez. — Minha pochete também estava vazia. Alguém nos roubou em algum momento na fila. Passaportes, identidade, tudo. Estávamos presos no meio da Argentina, dois americanos idiotas, e não tínhamos qualquer “m” de ideia do que fazer. David sorri consigo mesmo, mantendo o momento na memória como uma herança preciosa que ele guarda em uma gaveta. Lilly tem a sensação de que aquilo é algo essencial para os Stern, algo não dito, mas tão poderoso quanto o movimento das marés ou a atração gravitacional da Lua. — Voltamos para a cidade mais próxima e fizemos algumas ligações — continua David —, mas não há uma embaixada em quilômetros, e os policiais são tão úteis quanto um dedo no olho. — Nos disseram que tínhamos de esperar até que o problema com nossa identidade fosse resolvido em Buenos Aires. — Que fica, tipo, a umas 800 milhas de distância. — Quilômetros, Barbara. A 800 quilômetros de distância. — David, não comece. — De qualquer forma, ainda tínhamos alguns centavos de pesos nos bolsos, o equivalente a o quê, Barbara? Tipo 1,5 dólar? Então encontramos uma cidadezinha e convencemos um cara local a nos deixar dormir no chão do celeiro dele por 50 centavos de peso. Barbara dá um sorriso melancólico. — Não era exatamente o Ritz, mas nos viramos. David sorri para a mulher. — No fim das contas, o homem era dono de um restaurantezinho na cidade e concordou em nos deixar trabalhando lá enquanto esperávamos o problema dos passaportes ser resolvido. Babs servia mesas, e eu trabalhava nos fundos, enchendo linguiças de chorizo e fazendo menudo para a população local. — O engraçado é que foi uma das melhores épocas de nossas vidas. — Barbara emite um suspiro pensativo. — Estávamos em um ambiente tão diferente e só tínhamos um ao outro para buscar conforto, mas foi... foi... bom. — Ela olha para o marido, e, pela primeira vez, o rosto enrugado de matrona se suaviza. Uma expressão toma conta de Barbara, apenas por um instante, e extingue o tempo, apaga todos os anos e a transforma novamente em uma jovem noiva apaixonada por um homem bom. — Na verdade — diz Barbara, baixinho —, foi até meio que sensacional. David olha para a esposa. — Ficamos presos lá por... o quê? Quanto tempo foi, Babs? — Ficamos lá por dois meses e meio, esperando notícias da embaixada, dormindo com as cabras, vivendo daquela porcaria de menudo. — Foi... uma experiência. — David envolve a mulher com o braço. Ele beija carinhosamente a têmpora de Barbara. — Não teria trocado por todo o chá do Tennessee. O caminhão estremece ao passar por mais uma série de saliências, e o silêncio ruidoso que se segue pesa sobre Lilly. Esperava que a história levantasse seu ânimo. Esperava que a distraísse, que a acalmasse, talvez até mesmo fosse um bálsamo para seus pensamentos deprimentes. Mas serviu apenas para arranhar a casca que Lilly ergueu sobre o coração. Fez com que ela se sentisse pequena, sozinha e insignificante. Tontura percorre o corpo de Lilly, e ela sente vontade de chorar... por Josh... por Megan... por si mesma... por todo aquele pesadelo de pontacabeça que toma conta da terra. Por fim, Austin quebra o feitiço com um franzir das sobrancelhas em sinal de confusão. — Que porra é essa de menudo? O caminhão de carga sacoleja sobre uma série de trilhos ferroviários petrificados e entra em Hogansville pelo oeste. Martinez mantém as duas mãos no volante conforme verifica as ruas desertas e as fachadas das lojas pelo para-brisa. O êxodo em massa deixou a cidadezinha coberta de grama e ervas daninhas, bem fechada com tábuas de madeira e repleta de pertences esquecidos pela rua — colchões mofados, gavetas soltas e roupas imundas agarradas a cada calha. Alguns errantes desgarrados, maltrapilhos como espantalhos, vagueiam sem rumo nos becos e nos estacionamentos vazios. Martinez pisa nos freios e reduz a velocidade do caminhão a estáveis 30 quilômetros por hora. Ele vê uma placa de rua e consulta a página arrancada de uma antiga lista telefônica que ele colou no painel. A Piggly Wiggly de Hogansville parece ficar do lado oeste da cidade, a cerca de 800 metros de distância. Os pneus estalam vidro quebrado e detritos, o barulho atrai a atenção de errantes próximos. Do assento do carona, Gus enfia um cartucho na abertura da espingarda .12. — Deixe comigo, chefe — diz ele, abrindo a janela. — Gus, espere! — Martinez estende a mão até uma mochila enfiada entre os bancos. Ele encontra uma Magnum .357 de cano curto com um silenciador e a entrega ao homem careca e rechonchudo. — Use isso, não quero que o barulho atraia mais deles. Gus abaixa a espingarda, pega o revólver, abre o tambor, verifica as balas, então o fecha com um clique. — Justo. O careca mira o revólver para fora da janela e derruba três cadáveres com a facilidade de um homem jogando em um parque de diversões. Os estouros — abafados pelo supressor de barulho — parecem fogo estalando. Os errantes caem um a um, o topo dos crânios deles se abrindo em bolhas de fluido preto e tecido, os corpos despencando na calçada com pancadas úmidas satisfatórias. Martinez continua para o oeste. Ele vira em um cruzamento bloqueado pelos destroços da colisão de três carros, os escombros queimados de metal e vidro estão emaranhados em uma confusão amassada. O caminhão de carga sobe a calçada, e Gus abate outro par de errantes, vestidos em uniformes de paramédicos. O caminhão continua a descer a rua lateral. Logo depois de um shopping a céu aberto fechado por tábuas, a placa da Piggly Wiggly aparece no canto sul da rua, a entrada do estacionamento deserto cheia com meia dúzia de errantes. Gus os livra de seus sofrimentos com pouca comoção — parando uma vez para recarregar — enquanto o caminhão entra devagar no estacionamento. Um dos errantes cai contra a lateral do caminhão, uma fonte de sangue oleoso jorra sobre o capô antes que o corpo deslize para baixo das rodas. — Merda! — xinga Martinez, ao parar diante da loja. Pelo para-brisa manchado de sangue, ele consegue ver a área de desastre que é a antiga Piggly Wiggly. Calçada quebrada e vasos de plantas virados se esparramam pela fachada da loja, as janelas estão todas quebradas e com os vidros afiados, fileiras de carrinhos de compras enferrujados estão jogados de lado ou esmagados por vigas quebradas. No interior sombreado da loja, os corredores estão saqueados, as prateleiras, vazias; lâmpadas pendem pelos fios, rodopiando vagarosamente ao vento. — Merda! Merda! Merda! Merda-merda-merda! Martinez esfrega o rosto, recosta-se no banco do motorista. Gus olha para ele. — E agora, chefe? A lona se abre, a luz cruel do dia inunda o compartimento de carga. O brilho faz Lilly piscar e semicerrar os olhos enquanto eles se ajustam. Ela se levanta e olha para Martinez, que está parado do lado de fora da traseira do caminhão, segurando a lona aberta com uma expressão sofrida nas feições sombrias. Gus está em pé atrás dele, apertando as mãos. — Notícias boas e notícias ruins — resmunga Martinez. Os Stern se levantam, Austin também se ergue devagar, espreguiçando-se como um gato sonolento. — A mercearia foi detonada, totalmente limpa — anuncia Martinez. — Sorte de merda. Lilly olha para ele. — Qual é a notícia boa? — Tem um armazém atrás da loja, sem janelas, bem trancado. Parece que as pessoas o deixaram em paz. Talvez seja uma mina de ouro. — O que estamos esperando? Martinez ergue o olhar para Lilly. — Não tenho certeza do quanto é seguro. Quero todos engatilhados e municiados, e na ponta dos pés. Tragam as lanternas também... parece que é bem escuro lá dentro. Todos pegam suas armas e equipamentos. Lilly vasculha a mochila. Lá de dentro, tira duas Ruger .22 semiautomáticas e verifica os pentes de munição. Tem dois pentes curvos, cada um carregado com 25 balas. Bob a ensinou a usar os pentes de alta capacidade, os quais fazem as pistolas ligeiramente difíceis de manejar, mas também dão a ela poder de resistência caso as coisas fujam ao controle. — Austin, quero que carregue as mochilas — diz Martinez, indicando bruscamente a pilha de bolsas de lona no canto. — Mantenha todas abertas e prontas. Austin já está de pé ao lado das bolsas, reunindo-as e colocando-as sobre os ombros. Os outros verificam os suprimentos de munição, embainhando as armas em cavidades das quais seria fácil sacá-las, nos quadris e nos cintos. Barbara enfia uma Colt Army .45 na parte de trás de uma faixa muito bem amarrada em torno de seu tronco largo, David entrega dois cartuchos sobressalentes a ela. O grupo trabalha com a concentração prática de ladrões de banco veteranos. Fizeram isso muitas vezes. Mesmo assim, ainda há certa tensão estalando na clausura escura conforme Martinez olha uma última vez pela lona aberta. — Vou encostar o caminhão nos fundos — diz ele. — Estejam prontos para detonar e cuidado ao entrar... o barulho do caminhão já atraiu mais Mordedores. Após uma rápida sucessão de acenos pelo compartimento de carga, Martinez desaparece. Lilly vai até a caçamba traseira e se apoia no batente quando o som das portas da cabine fechando é seguido pelo do motor sendo ligado. O caminhão sai devagar e então segue roncando pela lateral do supermercado. Quarenta e cinco segundos depois, os freios pneumáticos chiam, e o caminhão para de súbito. Lilly respira fundo, saca uma das Rugers, abre a lona e salta para fora. Ela aterrissa com força na calçada rachada, o sol nos olhos, o vento no rosto, o cheiro de borracha queimada paira, vindo de algum cataclismo distante. Martinez já está fora da cabine, a .357 com o silenciador embainhada e batendo contra sua coxa; Gus se apressa pela frente do caminhão. O homem careca vai para trás do volante. O armazém está à direita deles, ao fim do estacionamento dos fundos, aninhado em uma selva de ervas daninhas e capim-navalha, uma enorme caixa de metal corrugado do tamanho de três cinemas. Lilly vê a porta metálica sem marcas no topo de um pequeno lance de escadas, situada bem ao lado da estação de carga e descarga, e duas enormes portas de garagem à sombra do anexo. Tudo parece congelado e petrificado pelo tempo, fechado pela ferrugem, com marcas de grafite. Lilly olha por cima do ombro e vê de relance um aglomerado de errantes, a cerca de 90 metros de distância, perto da placa detonada do Piggly Wiggly, virando-se devagar para a comoção que o grupo provocou e começando a se arrastar na direção deles. Austin surge atrás de Lilly. — Vamos, vamos — murmura ele, carregando as mochilas. — Enquanto somos jovens e estamos inteiros! David e Barbara aparecem rapidamente atrás de Austin, o casal mais velho fica abaixado, com os olhos arregalados e alerta. Martinez gesticula com a mão para Gus, apontando para a estação de carga e descarga. — Dê marcha a ré, Gus, e mantenha o canal de rádio aberto e os olhos nas coisas do lado de fora. — Entendido. — Gus liga o motor, então começa a colocar o caminhão em marcha. — Sairemos pela lateral da estação de carga e descarga — informa Martinez a ele. — Por isso deixe o motor ligado e esteja pronto para partir sem aviso prévio. — Entendi! Então as coisas começam a seguir muito rápida e eficientemente conforme Gus dá ré no caminhão até a estação e os demais, ágil e silenciosamente, sobem até a porta lateral sem marcas, movendo-se com a competência fria de uma equipe da SWAT. Martinez sobe escadas, puxa uma longa placa de metal do cinto e começa a trabalhar no cadeado, batendo na placa com a coronha da arma. Os outros se aglomeram atrás dele, olhando por cima do ombro para os mortos que se aproximam. O cadeado estala, e Martinez abre a porta de treliças esganiçadas. Eles mergulham na escuridão e no fedor insuportável — carne podre, odores acres feito vômito, cheiros de amônia —, a porta bate atrás do grupo, fazendo-os saltar. Uma única claraboia, bem acima das estruturas metálicas com teias de aranha, fornece iluminação suficiente para revelar as silhuetas dos corredores e as empilhadeiras tombadas espalhadas entre as prateleiras. Cada um dos intrusos — inclusive Lilly — pausa para sorrir quando seus olhos se ajustam o suficiente para ver todos os enlatados e a comida embalada que se erguem até as vigas do teto. É, de fato, a mina de ouro pela qual Martinez torcera. Mas, tão imediatamente quanto registram a boa sorte, ouvem os ruídos aumentando nas sombras mais profundas, como se agindo sob a deixa da chegada do grupo, e um a um os sorrisos desaparecem... ... à medida que veem a primeira das silhuetas que emerge de detrás das prateleiras carregadas.

Quatro

Ao sinal de Martinez, o grupo começa a atirar, o estalo coletivo de silenciadores e os flashes faiscantes das aberturas dos canos iluminando o armazém escuro. Lilly dispara três tiros rápidos, abatendo dois à distância de 15 metros. Um dos alvos — um homem obeso com um uniforme de trabalho em frangalhos, a carne da cor de minhocas — é jogado contra uma prateleira, e seu crânio jorra fluidos cerebrais quando ele derruba uma fileira de tomates enlatados. O outro Mordedor — um jovem de macacão sujo de graxa, que talvez operasse empilhadeiras — desaba em uma cascata de sangue que borrifa do buraco recém-aberto em seu crânio. Os mortos continuam vindo, pelo menos duas dúzias ou mais, de todos os cantos do armazém. O ar estrondeia e estala com iluminação estroboscópica. Os atiradores se mantêm aglomerados perto da porta, os canos das armas disparando e se iluminando. Austin joga as mochilas no chão e começa a trabalhar com a Glock 19, outra aquisição do depósito da Guarda Nacional, equipada com um silenciador e um dispositivo abaixo do cano que lança um estreito fio de luz vermelha pela escuridão. David mira em uma mulher com uniforme manchado da Piggly Wiggly e manda a garota morta pelos ares contra uma estante de bagels mofados. Barbara acerta um homem mais velho de camisa social manchada de sangue, gravata tipo clip on e um crachá com o nome — talvez o antigo gerente da loja —, derrubando a criatura em uma névoa vermelha que pinta uma lâmpada em profusão pontilhista. O tiroteio abafado emite um ruído surreal, como uma rodada de aplausos enlouquecidos, acompanhados por uma exibição de fogos que interrompe a quietude fétida, seguida pelo estalido e o tilintar de cápsulas de balas acertando o chão. Martinez se adianta, liderando o grupo mais para dentro do armazém. Eles passam por corredores perpendiculares e atiram em figuras errantes com olhos brancos leitosos que seguem diretamente para eles — antigos operadores de máquinas, balconistas, assistentes de gerência, caixas —, cada um desabando em batismos copiosos de sangue. O grupo perde a conta quando o último afunda no chão. No silêncio que ecoa, Lilly ouve o ganido metálico da voz de Gus irrompendo do walkie-talkie de Martinez: — ... porra está acontecendo?! Estão me ouvindo?! Chefe?! Vocês ouviram? O que está acontecendo? Ao fim do corredor principal, Martinez para e toma fôlego. Ele pega o rádio preso no cinto. — Estamos bem, Gus — diz ele ao walkie-talkie. — Esbarramos em uma comitiva de boas-vindas... mas tudo limpo. No ar, a voz chia: — Estava quase infartando! Martinez aperta o botão TALK: — A porra da equipe toda deve ter se escondido aqui quando a merda aconteceu. — Ele olha ao redor para a carnificina por trás de véus de fumaça azul, o ar agora fedendo a cordite. Martinez aperta o botão. — Fique pronto para partir, Gus. Parece que vamos encher o caminhão até o teto com mantimentos. A voz retorna: — Boa notícia, chefe. Entendido. Estarei pronto. Martinez desliga o rádio, coloca-o de volta e se vira para os outros. — Todo mundo bem? Lilly ouve um apito dentro dos ouvidos, mas se sente equilibrada, alerta. — Tudo bem — responde ela, e pressiona com o polegar a coronha de cada uma das Rugers, liberando os cartuchos usados, que batem no chão com um estalo. Lilly pega cartuchos novos de trás da cintura e os coloca no lugar. Ela verifica os corredores dos dois lados, onde os restos dos errantes jazem em pilhas encharcadas de sangue. Lilly não sente nada. — Fiquem de olho nos desgarrados — ordena Martinez, olhando para os corredores às sombras. — Que porcaria esta coisa! — reclama David Stern, sacudindo uma lanterna. As mãos retorcidas dele tremem. — Verifiquei as pilhas ontem à noite. Barbara revira os olhos na escuridão. — O homem é um caso perdido com a tecnologia. — Ela pega a lanterna do marido. — Achei que estas pilhas não estivessem muito confiáveis. — Ela desatarraxa a tampa da lanterna e agita as pilhas tipo C. Não adiante; a coisa não acende. — Espere um pouco — diz Austin, e coloca a Glock de volta atrás do cinto. — Tenho uma ideia. Ele vai até uma prateleira sobre a qual toras de lenha estão empilhadas junto com sacas de carvão, latas de fluido para isqueiro e pacotes de lascas de madeira. Austin puxa um longo pedaço de madeira sólida, tira uma bandana do bolso e a enrola na ponta da lenha. Lilly o observa com interesse. Ela não consegue desvendar muito bem esse garoto. De alguma forma, ele parece mais velho do que realmente é. Lilly o observa embeber o tecido com fluido de isqueiro. Ele pega um isqueiro Bic e acende a bandana, e, de súbito, uma chama de luz laranja brilhante ilumina o corredor central com um halo radiante. — Muito sombrio — diz Lilly, e dá uma risada. — Bom trabalho, Huckleberry. Eles se dividem em dois grupos. Martinez e os Stern pegam a frente do prédio — um labirinto de prateleiras transbordando com mercadorias embaladas, suprimentos para casa, bens secos, condimentos e utensílios de cozinha —, e Lilly e Austin ficam com os fundos. Martinez ordena que todos sejam rápidos, sem enrolação, e, se virem algo sobre o qual não tenham certeza, deixem. Que peguem apenas os itens dentro da validade. Austin leva Lilly por um corredor lateral ladeado por escritórios vazios. Eles passam por diversas portas, cada uma trancada e exibindo escuridão vazia atrás das janelas. Austin caminha um pouco à frente de Lilly, segurando a tocha em uma das mãos e a Glock na outra. Lilly está com as duas armas empunhadas, pronta para entrar em ação ao menor sinal. À luz amarela bruxuleante, eles passam por fileiras de tanques de propano, suprimentos de jardim, sacas de fertilizante, pilhas de lenha, mangueiras de jardim enroladas e tralhas inúteis, como alimentadores de pássaros e anões de jardim. A pele da nuca de Lilly fica arrepiada quando ela ouve o eco dos sussurros e o arrastar dos pés dos Stern e de Martinez aproximando-se na escuridão atrás dela. No fim do corredor principal, contra a parede dos fundos, os dois se viram e encontram uma enorme empilhadeira hidráulica entre ancinhos, pás e ferramentas. Austin puxa a coisa até o corredor — é um enorme carrinho de carga com rodas de ferro pesadas e dois garfos que se estendem por pelo menos 2,5 metros — e testa a empilhadeira bombeando a enorme alavanca manual. — Isso pode ser útil — especula Austin. — Faça um favor, segure a tocha um segundo. — Lilly indica as sombras na parede dos fundos. Austin ergue a tocha e revela, à luz trêmula da chama, uma pilha de estrados vazios. Eles agem com rapidez, enfiando os garfos da empilhadeira sob o estrado mais próximo. Então voltam pelo corredor central escuro, as rodas guinchando ruidosamente no piso imundo de cimento. Os dois começam a carregar o estrado, Austin empurra e segura a tocha, Lilly pega os itens essenciais. Tonéis de 190 litros de água potável, caixas de sementes, ferramentas de ponta afiada, rolos de corda. Viram novamente e seguem por um corredor de bens enlatados. Lilly começa a trabalhar empilhando caixas embaladas a vácuo de pêssego, milho, feijão, couve, latas de sardinha, de atum e carne enlatada. — Seremos heróis, voltando com toda essa porcaria — resmunga Austin, enquanto empurra a empilhadeira pelo corredor. — Aham. Talvez você finalmente consiga comer alguém — brinca Lilly, empilhando as bandejas pesadas com um murmúrio. — Posso perguntar uma coisa? — O quê? — De onde vem essa atitude? Lilly continua trabalhando, as armas cutucando-a atrás do cinto. — Não faço ideia do que você está falando. — Por favor, Lilly... percebi de imediato... desde que a conheci... você tem implicância com alguma coisa. Os dois seguem até o fim do corredor de bens enlatados. Lilly joga mais uma caixa de latas no estrado e resmunga: — Podemos simplesmente terminar isso e sair daqui? — Só estou puxando papo — diz Austin com um resmungo ao empurrar o equipamento pela curva no fim do corredor. Os dois seguem por mais um corredor empilhado com caixas de frutas podres. Então param. Austin ergue a tocha e revela os pêssegos e as bananas escuras e murchas nas caixas infestadas de larvas. As frutas se decompuseram até virarem caroços pretos e viscosos. Lilly limpa o suor do rosto, e sua voz sai baixa e rouca. — A verdade é que perdi pessoas muito próximas. Austin encara as frutas podres. — Olhe... sinto muito por ter mencionado... desculpe. — Ele começa a empurrar o equipamento mais para dentro do corredor. — Você não precisa... — Espere! Lilly o segura e o mantém parado. Um ruído baixo de batidas metálicas faz a espinha dela se arrepiar, e Lilly sussurra: — Ilumine com a tocha naquela direção. À luz bruxuleante, os dois veem uma fileira de portas de freezer na lateral esquerda do corredor. O fedor de carne rançosa paira no ar. Lilly saca as armas. A última porta à esquerda oscila e estala intermitentemente, as treliças enferrujadas estão soltas. — Fique atrás de mim, erga a tocha — sussurra Lilly, e coloca o dedão nos ferrolhos das duas Rugers, seguindo na ponta dos pés até a última porta à esquerda. — Errante? — Austin pega a Glock e se aproxima por trás dela. — Cale a boca e erga a tocha. Lilly passa da porta oscilante, para e fica de costas para o freezer. — No três — sussurra ela. — Está pronto? — Pronto. Lilly segura a tranca. — Um, dois, três! Ela escancara a porta do freezer, os dois canos das armas se erguem, e o coração dela acelera. Não há nada ali. Nada além de escuridão e o fedor rançoso. O odor toma conta de Lilly, fazendo com que os olhos dela se encham d’água à medida que se afasta, abaixando as pistolas. A podridão escura e oleosa se agarra ao interior do freezer às escuras. Lilly ouve um barulho e abaixa o rosto para alguma coisa pequena e peluda que passa às pressas por seus pés. Ela solta um suspiro doloroso ao perceber que era apenas um rato que fazia todo aquele barulho. — Porra — comenta Austin, sem fôlego, abaixando a Glock e exalando aliviado. — Vamos — diz Lilly, enfiando as armas de volta no cinto. — Temos o bastante. Vamos voltar, encher o caminhão e sair dessa porra. — Por mim está ótimo — responde Austin, puxando o carrinho para si com um sorriso, então o empurrando de volta pelo corredor, seguindo Lilly em direção à frente do armazém. Atrás dele, uma silhueta enorme emerge do freezer. Austin ouve primeiro e só tem tempo de se virar e ver o homem corpulento de macacão e rosto deformado arrastando-se em direção a ele. As mandíbulas da criatura abrem e fecham, os olhos são da cor de leite azedo, o Mordedor tem bem mais de 1,80 metro e está coberto com um filme de mofo branco por ter ficado trancado no freezer por tanto tempo. Desviando da criatura e levando a mão à Glock, Austin tropeça na ponta do carrinho. Ele cai, a arma escorrega de sua mão, a tocha rola pelo cimento. O enorme Mordedor paira acima, babando bile negra, a tocha agora ilumina a cena por um ângulo surreal. Chamas estremecem e refletem os olhos brilhantes e leitosos do cadáver. Austin tenta rolar para longe, mas o Mordedor fecha os dedos gigantescos nas pernas da calça dele. Austin emite um rugido de ódio, chuta o errante, xinga a criatura. A coisa abre a boca, e Austin acerta a sola da bota no aglomerado de dentes pretos e tortos como os de um tubarão. O estalo no maxilar inferior mal detém a coisa. A criatura ataca a carne da coxa de Austin. O peso da coisa é insuportável, como se uma casa o esmagasse, e, no momento em que ela está prestes a morder a artéria femoral de Austin — os dentes escuros a apenas centímetros —, os estalos de dois silenciadores calibre .22 são ouvidos. Apenas alguns segundos se passaram desde o momento em que o Mordedor apareceu, mas é a quantidade de tempo exata que levou para que Lilly ouvisse a comoção, parasse o que estava fazendo, virasse, soltasse os ferrolhos, erguesse as armas, mirasse com cuidado e intercedesse. Ela acerta o Mordedor fatalmente, bem entre os olhos, logo acima do osso do nariz. O enorme cadáver é lançado para trás em uma nuvem de sangue que parece fumaça na escuridão, o topo do crânio dele partindo-se e jorrando. A criatura cai em uma poça encharcada aos pés de Austin enquanto o jovem se encolhe para longe e arqueja para tomar fôlego. Austin então se afasta de costas arrastando a bunda no chão por diversos segundos de frenesi. — Porra!... Meu Jesus! Porra! — Você está bem? — Lilly se aproxima, se ajoelha e inspeciona as pernas de Austin. — Está bem? — Eu... é... estou bem, bem — dispara o rapaz, e gagueja, tomando fôlego. Ele encara o enorme amontoado que é o cadáver deitado a seus pés. — Venha, vamos... — YO! O som da voz de Martinez vindo da frente do armazém entra nos ouvidos de Lilly, ainda zunindo. — Lilly! Austin! Estão bem?! Lilly grita por cima do ombro: — Estamos bem! — Juntem suas tralhas e venham! — Martinez parece nervoso. — O barulho está atraindo mais deles dos esconderijos! Vamos embora! — Vamos, bonitão — murmura Lilly para Austin, ajudando-o a se levantar. Os dois se levantam, Austin recupera a tocha antes que esta tenha a chance de incendiar qualquer coisa, então os dois empurram o carrinho. Pesa uma tonelada agora, e são necessários os dois, bufando e sem fôlego, para empurrar a coisa pelo corredor. O grupo se reúne na estação de carga e descarga. Os Stern e Martinez encheram as bolsas, assim como meia dúzia de grandes caixas de papelão com uma variedade de mantimentos embalados, inclusive caixas de macarrão instantâneo, café solúvel gourmet, garrafas de 2 litros de suco, pacotes de farinha, caixas de arroz com macarrão, diversos quilos de açúcar, galões de vegetais em conserva e caixas embaladas a vácuo de banha, macarrão instantâneo com molho, macarrão com queijo e cigarros. Martinez chama Gus pelo rádio e diz a ele para dar ré no caminhão até o mais próximo possível da estação e para ficar pronto para a ação quando a porta da garagem subir. Austin, ainda sem fôlego e abalado pelo ataque, empurra o estrado até a porta de metal corrugado. — Me passe aquele martelo que encontrou lá atrás — diz Martinez a David. O homem mais velho se aproxima e entrega o martelo a Martinez. Os outros se reúnem ao redor dele, esperando, nervosos, enquanto Martinez martela o cadeado na base da porta da garagem. O cadeado é teimoso, e o ruído das marteladas ecoa. Lilly olha por cima do ombro, semiconsciente dos sons de passos arrastados que vêm das sombras mais escuras atrás de si. O cadeado finalmente se parte, e Martinez empurra a porta. A coisa se enrosca para cima com um guincho enferrujado. O vento e a luz irrompem para dentro do armazém, cheirando a asfalto e borracha queimando, fazendo com que todos pisquem. No chão rodopiam faixas de nylon para embalagens e lixo, agitados pela brisa. A princípio, conforme dão os primeiros passos para fora, ninguém vê a pilha de lixo orgânico e caixas de papelão mofadas do outro lado da estação de carga e descarga, ao lado de uma caçamba de lixo, que se move levemente, trepidando com algo abaixo dela. Estão todos muito ocupados seguindo Martinez pela estação imunda, com os braços cheios de mantimentos. Gus dá ré no caminhão, com a lona aberta, o cano de descarga engasgando e soprando ao vento da primavera. O grupo começa a carregar a traseira. As mochilas pesadas vão pela abertura. Entram as caixas. Entra o conteúdo do estrado, os bens enlatados, os tonéis de água, os suprimentos de jardim, as ferramentas, o propano. Ninguém sequer nota o cadáver que se move pela estação de carga e descarga, arrastando-se em meio à pilha de lixo e, então, ficando de pé com a hesitação ruidosa e inebriada de um bebê grande demais. Lilly vê o movimento de relance pelo canto do olho, então se vira na direção do Mordedor. O cadáver esquálido de um afro-americano de quase 30 anos, talvez no início dos 30, com dreadlocks curtinhos despontando na cabeça, se arrasta desastradamente na direção do grupo como um mímico bêbado caminhando contra um vento imaginário, agarrando-se ao ar. Ele veste um macacão laranja que parece familiar para Lilly, mas ela não consegue se lembrar de onde. — Deixa comigo — diz Lilly para ninguém em particular, quando saca uma das Rugers. Os outros reparam a comoção e param de trabalhar, sacam as armas e observam Lilly parada em pé como uma pedra, imóvel como uma placa de quilometragem na estrada, apontando a mira frontal para o cadáver que se aproxima. Um momento se passa. Lilly fica imóvel como uma estátua. Os outros encaram enquanto Lilly, por fim, tranquilamente, quase languidamente, decide puxar o gatilho, diversas e diversas vezes, esvaziando as últimas seis cápsulas do cartucho. A arma estala e acende, e o cadáver jovem e negro parece dançar na estação por um momento, os ferimentos de saída jorram sangue desintegrado. As balas corroem a crosta dura do crânio, destruindo os dreadlocks e lançando pedaços do lobo pré-frontal e fluido cérebro-espinhal cinzento pelos ares. Lilly termina e encara, inexpressiva. O Mordedor se vira e desaba na estação de carga e descarga em uma poça encharcada de sangue. Parada em uma névoa azulada da fumaça com cordite da própria arma, Lilly murmura algo para si mesma. Ninguém ouve o que ela diz. Os outros encaram a mulher por um momento, então Austin finalmente se aproxima e elogia: — Bom trabalho, Annie Oakley. Martinez quebra o feitiço. — Tudo bem... vamos correr, pessoal! Antes que a gente atraia mais deles! O grupo se amontoa na traseira do caminhão. Lilly é a última a entrar e encontrar um assento em meio ao compartimento de carga abarrotado. Ela se senta em um dos tanques de propano e se segura em um trilho lateral, preparando-se para a força inercial. Então a porta da cabine bate, e o motor ronca, e o caminhão subitamente ruge para longe da estação de carga e descarga. Lilly lembra-se naquele momento — por algum motivo a percepção surge em sua mente conforme o caminhão se afasta — de onde tinha visto um macacão laranja como o que o Dreadlock estava usando. É um macacão de presídio. Eles percorrem todo o caminho do estacionamento, passam pela saída e estão a meio caminho da estrada de acesso quando Barbara quebra o silêncio. — Não foi um mau dia de trabalho para um bando de desajustados emocionais. As risadas começam com David Stern, então se espalham entre cada passageiro, até que, por fim, até mesmo Lilly está rindo com alívio e satisfação insanos e descontraídos. Quando conseguem voltar para a autoestrada, cada ocupante daquela clausura escura e fétida está vibrando com animação. — Podem imaginar o olhar no rosto das crianças dos DeVrie quando virem todo esse suco de uva? — Barbara Stern parece definitivamente fervilhante com o jeans desbotado e as tranças grisalhas desarrumadas. — Achei que detonariam o castelo quando acabou o suco instantâneo Kool-Aid na semana passada. — E aquele café solúvel Via, do Starbucks? — acrescenta David. — Mal posso esperar para aposentar aquelas porcarias de grãos de café na pilha de lixo. — Temos todos os grupos alimentares também, não temos? — Austin se anima em seu lugar, separado de Lilly por uma depressão no assento. — Açúcar, cafeína, nicotina e cupcakes Dolly Madison. As crianças vão ficar doidonas de açúcar durante um mês. Lilly sorri para o rapaz pela primeira vez desde que se conheceram. Austin devolve o olhar piscando um olho, os longos cachos caídos em torno do lindo rosto devido à corrente de ar que entra pela lona tremulante. Lilly olha pela abertura traseira e vê a estrada campestre deserta passar em um borrão, o sol da tarde piscando agradavelmente através das árvores que ficam para trás deles. Apenas por um instante, sente como se Woodbury pudesse mesmo ter uma chance. Se tivessem mais pessoas como aquelas — pessoas que se importam umas com as outras — podem até ter a chance de construir uma comunidade. — Você se saiu bem hoje, bonitinho — diz Lilly, finalmente, para Austin. Ela olha para os outros. — Todos se saíram bem. Na verdade, se pudermos apenas... Um ruído baixo vindo de fora interrompe Lilly. A princípio, soa meramente como o vento agitando a lona. Mas quanto mais Lilly ouve, mais parece com um ruído quase alienígena, de outra época, de outro lugar, um ruído que ela não ouve — um ruído que ninguém ouve — desde que a praga irrompeu anos antes. — Ouviram isso? — Lilly olha para os demais, os quais, todos agora parecem ouvir espantados. O ruído aumenta e diminui ao vento. Parece vir do céu, talvez a 1,5 quilômetro, vibrando o ar como o rufar de um tambor. — Parece... Não. Não pode ser. — Que porra é essa? — Austin abre caminho até a traseira do compartimento e coloca a cabeça para fora, inclinando o pescoço para olhar o céu. — Está de sacanagem com a minha cara! Lilly vai para perto dele, segurando-se na abertura traseira e inclinando o corpo para fora. O vento agita seus cabelos e faz seus olhos arderem conforme a mulher olha para cima, e, certamente, ela vê um relance daquilo no céu do oeste. Apenas a cauda da aeronave está visível acima do dossel das árvores, o rotor girando desenfreadamente, o corpo do helicóptero inclinando-se para baixo. A coisa está com problemas. Uma espiral fina de fumaça preta acompanha a traseira do helicóptero como um cometa escuro enquanto ele mergulha e sai do campo de visão. O caminhão de carga reduz a velocidade. Martinez e Gus obviamente também viram a coisa. — Acha que é...? — Lilly começa a perguntar o que está na mente de todos quando as palavras são interrompidas. O impacto da queda — há mais de 800 metros de distância — sacode a terra. Um cogumelo de fogo acende o bosque e arranha o céu.

Cinco

— Aqui! Bem aqui! Pare! Gus pisa nos freios, o caminhão de carga reclama conforme estremece para fora da estrada de duas pistas. O veículo quica sobre uma trilha estreita de grama lamacenta no recuo da estrada, então chacoalha e para com uma nuvem de monóxido de carbono e poeira. — É o mais próximo que chegaremos de caminhão — diz Martinez, inclinando-se para a frente no banco do carona. Ele vira o pescoço para olhar pelo para-brisa sujo e vê de relance a coluna de fumaça que sobe além das árvores no horizonte oeste. Parece estar a cerca de 400 metros. Martinez pega a .357. — Vamos precisar andar o resto do caminho. — É um caminho longo, chefe. — Gus olha pela janela lateral, coçando as bochechas grisalhas. — Parece que caiu na mata densa. Martinez pensa nisso, mordendo a parte interna da bochecha. Naquela região da Geórgia, muitas das estradas passam por vales planos e arborizados conhecidos como grotas. Formados por rios e cercados por colinas densamente florestadas, esses aglomerados de vegetação arbustiva, ervas e musgo podem estar cheios de sumidouros, colônias de mosquitos e recessos e reentrâncias nos quais Mordedores enlameados costumam espreitar. Gus olha para Martinez. — O que acha de tentarmos ir dirigindo? — Negativo. — Martinez pronuncia a palavra com rispidez, verificando o cilindro da Magnum. Ele consegue ouvir a porta traseira do caminhão descendo e os outros saindo, as vozes tensas são carregadas pela brisa da tarde. — Ficaremos presos nesta sopa de lama, com certeza. — Como quiser, chefe. — Gus puxa a alavanca de câmbio até ponto morto e desliga o motor. O silêncio é preenchido pelo farfalhar da natureza... os zunidos apressados dos grilos, o vento nas árvores. — Deixe a calibre .12, pegue uma das AR-15, caso fique complicado, e pegue o facão debaixo do banco. — Martinez tem uma faca de combate Bowie, dos fuzileiros navais, com uma lâmina de 40 centímetros, presa à perna, e, no momento, verifica-a. Ele faz isso compulsivamente, com o maxilar trincado, ar profissional, enquanto ouve os demais se aproximando pela lateral do caminhão. Martinez sai da cabine. Todos se reúnem diante da cabine, entre as ervas daninhas e as nuvens de mosquitos zumbindo, com os rostos fechados e pálidos de tensão. O ar tem cheiro de podridão e de metal queimado. Austin levanta, pressionando as mãos e olhando para o local do acidente. Os Stern ficam juntos, ambos com as sobrancelhas franzidas de preocupação. Lilly está com as mãos nos quadris, a Rugers embainhada no alto da cintura. — No que você está pensando? — pergunta ela para Martinez. — Dave e Barb, quero que fiquem com o caminhão, vigiando. — Martinez enfia a Magnum atrás do cinto. — Se forem cercados, dirijam para afastá-los... levem as criaturas para longe... e então façam a volta e nos busquem. Entenderam? David apenas assente sem parar, parecendo um boneco nervoso de cabeça articulada. — Sim, claramente. — Fiquem com o walkie-talkie, mantenham a frequência aberta enquanto estivermos fora. Gus entrega o rádio para David, que ainda assente e murmura: — Entendi, entendi. — Há uma caixa de sinalizadores de estrada na traseira — diz Martinez para Gus. — Pegue um punhado deles. E também pegue o kit de primeiros-socorros, está bem? Gus corre para a traseira do caminhão enquanto Martinez olha para o relógio. — Temos ainda umas boas quatro horas de luz do dia. Quero ir até lá e voltar antes que escureça, nada de enrolação. Lilly tem um cartucho de alta capacidade restante. Ela o enfia na Ruger, puxando a trava. — A questão é... e se encontrarmos sobreviventes? — Essa é a questão — diz Martinez, soltando a bainha da perna e posicionando a faca para facilitar seu acesso. — Além disso, o helicóptero ainda pode estar inteiro. Lilly olha para ele. — Não temos maca, nenhum médico, nenhum modo de trazê-los até aqui. — Pensaremos nisso quando chegarmos lá — fala Martinez, ajustando a bandana, já ensopado de suor na testa. Gus retorna com a mão cheia de sinalizadores, que parecem bananas de dinamite. Martinez dá um sinalizador para cada um. — Quero que todos fiquem juntos, em formação unida... mas se por algum motivo alguém se afastar, acenda um desses e encontraremos você. — Ele olha para os Stern. — Se vocês tiverem qualquer problema aqui atrás, acendam um desses. — Martinez olha para o homem careca. — Gus, quero você no flanco direito com o facão. Não faça barulho. Use a AR-15 como um último recurso. Tomarei o flanco esquerdo. — Ele olha para Lilly. — Você e Júnior fiquem com o meio. Austin olha para o céu. As nuvens do meio da tarde apareceram. O dia se tornou fechado e cinzento. O pântano diante do grupo se estende em sombras oscilantes. Foi um ano úmido, e agora o chão parece intransponível, enlameado devido a torrentes, buracos ocultos e densos aglomerados de pinheiros brancos que os separam do local do acidente. — Há um riacho correndo pelo meio do bosque — diz Martinez, respirando fundo e sacando a Magnum. — Seguiremos a água o máximo possível, então nos guiaremos pela fumaça. Todos entenderam? O grupo concorda, sem dizer nada, engolindo a apreensão crescente que os percorre como se fosse um vírus. Martinez assente. — Vamos nessa. É difícil seguir durante um tempo, a lama impiedosa sugando as solas das botas, fazendo ruídos de estalos molhados no silêncio primitivo do bosque. Eles seguem as curvas sinuosas do riacho salobro, e, quanto mais se aventuram pela grota, mais as árvores engolem a luz do dia. — Você está bem, Huckleberry? — sussurra Lilly para Austin, que caminha ao lado dela, com a Glock firme nas duas mãos suadas. — Fantástico — mente ele. Os longos cachos de Austin estão afastados do rosto reluzente de suor por uma faixa de couro. Ele morde o lábio, nervoso, enquanto revolve a lama. — Não precisa segurar a arma assim — diz Lilly, e dá um risinho. — Assim como? — Como se fosse algum tipo de soldado da Força Delta. Apenas mantenha a arma à mão. — Está bem. — Se tiver um na mira, leve o tempo que precisar. Eles são lentos, então faça valerem os tiros. Não precisa agir feito um pistoleiro. Austin olha para Lilly. — Só quero estar pronto... caso eu precise salvar você. Lilly revira os olhos para o rapaz. — É, ótimo, sinto-me totalmente segura agora. Ela olha entre as árvores diante deles e vê a névoa fraca de fumaça se acumulando no bosque. O ar, agitado com insetos, tem cheiro de fios elétricos queimados e metal chamuscado. Os destroços ainda estão a poucas dezenas de metros entre os pinheiros distantes. O crepitar baixo de fogo pode ser ouvido, mas muito pouco, acima do farfalhar do vento no alto das árvores. À direita, a cerca de 20 metros diante de Lilly, Martinez tomou a liderança, ziguezagueando entre a vegetação rasteira, cortando a folhagem com a faca Bowie. Em um caminho paralelo à esquerda, Gus o segue se arrastando, facão no ombro, os olhos de cão farejador varrendo as sombras em busca de Mordedores. O céu mal pode ser visto acima dele, bloqueado por emaranhados de troncos de árvores e gavinhas. Lilly está prestes a falar quando uma figura surge diante de Gus. Ela para, sua arma se ergue rapidamente, o fôlego fica preso na garganta. Ela vê Gus levantar o facão. O enorme errante do sexo masculino, vestido de macacão surrado, está de costas para ele, cambaleando com as pernas mortas, a cabeça inclinada na direção do local do acidente como um cachorro que ouve um apito ultrassônico. Gus se adianta sorrateiramente pelas costas do morto. O facão desce rápido, a lâmina faz um ruído de esmagamento quando é cravada na dura-máter cartilaginosa do crânio do errante. Fluidos jorram, emitindo ruídos aquosos que escorrem no silêncio do bosque quando o errante desaba. Lilly mal tem chance de respirar de novo quando outro ruído chama sua atenção à direita. A 4,5 metros de distância, Martinez rasga outro errante desgarrado — uma mulher magricela com cabelo grisalho embaraçado como teias de aranha — provavelmente a antiga mulher de algum fazendeiro escondendose na vegetação. A faca de Martinez empala a nuca da mulher acima dos tendões, derrubando-a com a velocidade de uma embolia silenciosa. A mulher nem viu o golpe se aproximar. Emitindo um suspiro involuntário de alívio ao abaixar a pistola, Lilly percebe que os errantes, no momento, estão hipnotizados pela visão e pelos ruídos do acidente. Martinez para e olha por cima do ombro para os demais. — Todos estão bem? — pergunta ele com a voz baixa, quase como um sussurro teatral. Acenos de cabeça de todos. Então voltam a seguir, devagar, mas constantemente adiante, para as árvores mais densas e para as sombras envoltas em neblina. Martinez gesticula para que o grupo se apresse. O chão está esponjoso e encharcado sob os pés deles, o que faz com que sigam lentamente. As sombras se aproximam, os odores de metal chamuscado e combustível queimado tomam conta do grupo, o crepitar fica mais alto. Lilly se sente enjoada, sua pele está arrepiada de nervoso. Ela sente o olhar de Austin sobre si. — Será que poderia parar de olhar para mim? — Não é culpa minha que você seja tão gostosa — responde ele, com aquela risada nervosa de sempre. Lilly balança a cabeça desapontada. — Pode apenas tentar se concentrar? — Estou totalmente concentrado, acredite — diz Austin, ainda agarrado à arma com aquela pegada exibicionista de falso policial conforme continuam. A menos de 90 metros do local do acidente, eles chegam a uma vala — uma clareira pantanosa infestada de insetos bloqueando o caminho —, enormes troncos de árvores caídos atravessam o pântano. Com gestos silenciosos das mãos, Martinez direciona o grupo para usar os troncos como ponte. Gus vai primeiro, caminhando de lado pelo maior dos troncos caídos. Martinez o segue. Em seguida vai Lilly, e Austin fecha a retaguarda. Quando chega do outro lado, Austin tem a sensação de que alguém puxa sua calça jeans. Os outros já atravessaram e agora seguem arrastando os pés na direção da clareira. Austin para. A princípio, acha que ficou preso em um pedaço de tronco, mas então olha para baixo. Mãos em decomposição saem do pântano, agarrando-se à perna da calça dele. Austin grita e se atrapalha com a arma quando dedos mortos o agarram, puxando-o para baixo. Erguendo-se para cima da mira, a metade superior de uma criatura em decomposição ataca as pernas de Austin. Coberto de gosma preta, o crânio sem cabelos, impossível de identificar como sendo de um homem ou de uma mulher, os olhos brancos e opacos como lâmpadas, o morto estala a boca escura de tartaruga com as articulações enrijecidas de uma mandíbula destruída. Austin consegue dar um único tiro abafado — o silenciador cospe as fagulhas —, mas a bala erra o alvo. O tiro arranha o topo da cabeça do Mordedor do pântano, então afunda inofensivamente na água. A 15 metros dali, Lilly ouve o tiro. Ela dá meia-volta e pega as armas. Mas as pernas de Lilly ficam presas e ela escorrega na lama. Estatelada nas ervas daninhas, as armas voando das mãos. Austin tenta dar um segundo tiro, mas o Mordedor do pântano ataca a perna dele. A criatura emerge para fora da mira como uma baleia preta e viscosa, sua mandíbula incontrolável emitindo um rugido irritante. Austin se arrasta para trás involuntariamente — com um grito agudo —, e a arma escorrega de sua mão. Ele chuta a boca da criatura, o bico da bota fica preso nos dentes escuros e podres e na baba pútrida. O Mordedor do pântano fecha a mandíbula. Lilly se arrasta até as armas. Martinez e Gus, a essa altura, se voltaram para a comoção, mas é tarde demais para interceder. O enorme Mordedor encharcado está prestes a mastigar a bota de caminhada da Timberland de Austin, e o rapaz vasculha o bolso desenfreadamente em busca de alguma coisa. Por fim, Austin fecha a mão em torno do sinalizador. No último instante possível — antes que o Mordedor do pântano consiga rasgar a pele do pé de Austin — o jovem acende o sinalizador e o enfia no olho esquerdo do Mordedor. A criatura cambaleia e se afasta de súbito, soltando Austin e jogando a cabeça destruída para trás em um chafariz de fagulhas. Austin encara por um momento, mesmerizado pela visão das chamas dentro da cavidade pútrida do crânio do Mordedor. O olho esquerdo brilha por um momento horrível, reluzindo com a intensidade de um sinal de trânsito amarelo. O Mordedor enrijece o corpo na lama. A parte de trás da cabeça, de repente, estoura, cuspindo chamas como o cano de um maçarico. O olho esquerdo salta para fora como uma lâmpada estourando, cuspindo tecido quente em Austin... e então a criatura mergulha no vazio negro. Austin estremece, limpa o rosto e observa por um momento, hipnotizado pelo espetáculo do Mordedor afundando de volta para o esquecimento... até que a única coisa que resta são bolhas flutuando na superfície do pântano e um brilho tênue e tremeluzente abaixo da água viscosa. Por fim, Austin consegue desviar o olhar. Ele encontra a arma e recupera o fôlego. — Bom trabalho — diz Lilly, com uma suavidade relutante na voz, conforme atravessa a ponte de tronco. — Aqui... me dê a mão. Ela ajuda Austin a se levantar, mantendo o rapaz equilibrado no tronco gosmento. Ele recupera o fôlego, engole o choque e enfia a arma de volta no cinto. Austin encara Lilly. — Essa foi por pouco. — Ele consegue dar um sorriso hesitante. — Aquela coisa poderia facilmente ter atacado você. — É... graças a Deus que você estava por perto — responde ela, um sorriso nos lábios agora, apesar do coração acelerado. — LILLY! A voz retumbante de Martinez se intromete no momento, atraindo a atenção de Lilly para trás do ombro dela. A cerca de 30 metros de distância, entre uma abertura entre as árvores, em meio a um véu de fumaça negra e rançosa, Martinez e Gus encontraram o local do acidente. — Vamos, bonitinho — diz Lilly, rangendo os dentes, nervosa de tensão. — Temos trabalho a fazer. O helicóptero está caído de lado em um leito seco do riacho, soltando fumaça do tanque de combustível furado. Nenhuma vítima à vista. Lilly se aproxima com cuidado, tossindo, usando a mão para afastar a fumaça do rosto. Ela vê Martinez se aproximar da cabine do piloto, agachado, com a mão sobre a boca. — Cuidado! — Lilly saca as armas ao gritar para Martinez. — Não sabe o que tem aí dentro! Martinez toca a maçaneta da porta e se queima, então puxa a mão de volta. — Filha da PUTA! Lilly se aproxima. A fumaça, já se dissipando, começa a se abrir como uma cortina e revela o chão macio e chamuscado ao redor do local do acidente. Lilly percebe que o piloto deve ter mirado no solo mole do leito do riacho, a terra coberta de folhas do entorno está agora revirada pela violência da queda. O rotor principal, solto e caído no chão a 6 metros de distância, parece ter dado um nó. — Gus! Austin! Fiquem de olho no entorno! — Martinez indica a muralha adjacente de pinheiros brancos mais acima da elevação. — O barulho vai atrair um bando! Gus e Austin se viram na direção do bosque e erguem os canos das armas para a escuridão atrás das árvores. Lilly sente o calor no rosto conforme se aproxima dos destroços. A fuselagem está caída sobre a lateral direita, a cauda e o rotor traseiro do helicóptero parecem terrivelmente dobrados. Um dos esquis do trem de pouso foi arrancado como que pela força de um abridor de latas gigante. As janelas da carenagem e das portas estão rachadas e embaçadas por causa dos passageiros sufocados ou da fumaça. Independentemente das causas, no entanto, é impossível ver do lado de dentro da cabine do piloto. A fuligem cobriu a maior parte das marcas da carcaça e do chassi, mas Lilly vê uma série de letras ao longo da cauda. Ela vê um W e talvez um R... e é só. Martinez ergue a mão de súbito, e o ruído do fogo diminui o suficiente para que eles ouçam os gritos abafados que vêm de dentro da cabine do piloto. Martinez se aproxima, caminhando agachado. Lilly se move com as Rugers para cima, abaixada e pronta para a ação. — Tome cuidado! Martinez respira fundo, então sobe pela lateral da fuselagem. Lilly se aproxima, mirando as .22 gêmeas para a porta. Equilibrando-se na estrutura de aço destruída, Martinez tira a bandana e a enrola na alavanca de abertura. Lilly ouve uma voz aguda. — ... daqui...! Martinez dá um puxão. A porta estala, abrindo-se com um guincho das treliças que reclamam, liberando uma lufada de fumaça e a silhueta em frangalhos de uma mulher histérica. Vestida com casaco rasgado e uma echarpe, manchada de sangue, ela irrompe da cabine do piloto, tossindo e gritando: — ... ME TIREM DAQUI...! Lilly abaixa as armas, percebendo que a mulher ainda não se transformou. Martinez puxa a vítima de dentro da armadilha mortal. A mulher se debate nos braços dele, o rosto macilento é uma máscara de agonia. Uma das pernas da mulher está muito queimada, o tecido da calça jeans escureceu até virar uma crosta coberta de pus e sangue. A mulher segura o braço esquerdo junto à barriga, a fratura no cotovelo desponta pela manga do casaco. — Uma ajuda aqui, Lilly! Os dois carregam a mulher para longe dos destroços e colocam-na no chão. Ela parece ter quase 40 anos, talvez já quarenta e poucos. Pele clara, cabelos loiros com reflexos, contorcendo-se de dor e com o rosto molhado de lágrimas, a mulher balbucia histericamente: — Vocês não entendem! Nós precisamos...! — Está tudo bem, tudo certo — diz Lilly a ela, gentilmente afastando os cabelos encharcados da mulher do rosto. — Podemos ajudar você, temos um médico, não muito longe daqui. — Mike! Ele ainda...! — As pálpebras da mulher estremecem, o corpo sofre espasmos de dor, os olhos se reviram devido ao choque. — Não podemos ir... precisamos... precisamos tirá-lo... precisamos! Lilly toca a bochecha da vítima, a pele dela está pegajosa e viscosa como uma ostra. — Tente ficar calma. — ... precisamos enterrar ele... é algo que eu... antes de ele... — A cabeça da mulher cai para um lado, e ela mergulha na inconsciência tão subitamente quanto a chama de uma vela se apaga. Lilly ergue o rosto para Martinez. — O piloto — exclama Martinez, e encara Lilly com severidade. Àquela altura, a fumaça se dissipou, e o calor diminuiu, e tanto Gus quanto Austin voltaram a olhar por cima dos ombros. Martinez fica de pé e retorna para os destroços. Lilly o segue. Os dois sobem em um dos esquis retorcidos e impulsionam o corpo para cima o suficiente para ver pela porta aberta. O odor de carne queimada invade seus sentidos enquanto olham para dentro. O piloto está morto. Na clausura nevoenta e em chamas, o homem chamado Mike está sentado, curvado, com a jaqueta de couro de piloto chamuscada — ainda afivelado ao assento —, todo o lado esquerdo do corpo escurecido e desfigurado devido ao incêndio durante o voo. Os dedos de uma das mãos enluvadas derreteram e se fundiram com a alavanca de comando. E, apenas por um instante, encarando aquela cabine infernal, Lilly tem a sensação de que aquele cara foi um herói. Ele pousou a aeronave na encosta esponjosa do riacho, salvando a vida da passageira — esposa, namorada? — Tarde demais para fazer qualquer coisa por este cara — murmura Martinez ao lado dela. — Obviamente — diz Lilly, descendo de volta ao chão. Ela olha pela clareira, onde Austin agora está ajoelhado ao lado da mulher inconsciente, procurando-lhe a pulsação no pescoço. Nervoso, Gus vigia o bosque. Lilly limpa o rosto. — Mas deveríamos honrar o pedido dela, não? Martinez desce do helicóptero e olha pela clareira, a fumaça se dissipando ao vento. Ele limpa os olhos. — Não sei. — Chefe! — grita Gus da beira do bosque. Ruídos perturbadores da floresta ao redor são trazidos pelo vento. — Deveríamos pensar em dar o fora daqui bem rápido. — Já vamos! — Martinez se vira para Lilly. — Voltaremos com a mulher. — Mas e quanto a...? Martinez abaixa a voz. — Sabe o que o Governador vai fazer com esse cara, certo? A espinha de Lilly se arrepia de ódio. — Isso não tem nada a ver com o Governador. — Lilly... — Esse cara salvou a vida da mulher. — Ouça. Já vai ser um inferno voltar com ela por este bosque. Lilly emite um suspiro angustiado. — E não acha que o Governador vai descobrir que deixamos o piloto? Martinez se afasta dela e cospe com ódio. Limpa a boca. Repensa a questão. — Chefe! — grita Gus de novo, parecendo excessivamente nervoso. — Eu disse que já estamos indo, porra! — Martinez encara o chão chamuscado, pensando, angustiado... até que a questão toda se torna uma decisão já tomada.

Seis

O grupo volta ao caminhão assim que o sol começa a se por, as sombras da floresta se prolongando ao redor. Exaustos da viagem de volta através da grota, onde encontraram um número cada vez maior de errantes, o grupo pede a ajuda de David e de Barbara para arrastar os corpos — cada um amarrado a uma maca improvisada com galhos de bétula e folhagem de salgueiro — rapidamente até a porta traseira do caminhão. Eles os erguem, um de cada vez, para dentro do compartimento de carga lotado. — Cuidado com ela — avisa Lilly, enquanto David e Barbara enfiam a maca que carrega a mulher entre duas pilhas de caixas de comida. A mulher está lentamente retomando a consciência, a cabeça dela oscila para a frente e para trás, olhos estremecendo. Não há muito espaço para corpos a mais no caminhão, e Barbara precisa, apressadamente, reorganizar as caixas e as pilhas de embalagens para abrir espaço. — Ela se machucou feio, mas está resistindo — acrescenta Lilly, quando sobe no compartimento de carga. — Queria poder dizer o mesmo do piloto. Todas as cabeças se viram na direção da porta traseira quando Gus e Martinez erguem o piloto morto — os restos desfigurados ainda amarrados à maca — para cima e para a traseira do caminhão. David precisa abrir espaço para o cadáver enfiando uma pilha de pêssegos em lata contra uma parede, esvaziando assim uma faixa estreita do piso corrugado entre uma torre de caixas de macarrão instantâneo com molho e meia dúzia de tanques de propano. David limpa as mãos artríticas na jaqueta de seda enquanto olha para os restos mortais queimados do piloto. — Isto aqui nos apresenta um tipo de dilema. Lilly olha por cima do ombro para a porta traseira aberta no momento em que Martinez olha para dentro da câmara sombreada. — Precisamos enterrá-lo, é uma longa história. David encara o cadáver. — E se ele...? — Fique de olho nele — ordena Martinez. — Se ele se transformar no caminho de volta, use uma bala de calibre pequeno. Prometemos à moça que... — Não vamos conseguir! O ataque repentino leva a atenção de Lilly de volta para a mulher, que se contorce no piso de ferro, ainda no casulo feito de galhos de salgueiro, a cabeça manchada de sangue oscilando para a frente e para trás. Os olhos febris estão arregalados, o olhar fixo no teto do caminhão. Os murmúrios são proferidos irregularmente, como se ela estivesse falando no sono. — Mike, estamos ao sul de lá... E quanto... e quanto à torre?! Lilly se ajoelha ao lado da mulher. — Está tudo bem, querida. Você está em segurança agora. Barbara vai ao lado oposto do compartimento e rapidamente abre a tampa protetora de um galão de água filtrada. Ela volta para a mulher ferida com o galão. — Aqui, querida... tome um gole. A mulher na maca se contrai quando uma onda de dor percorre seu corpo, no momento em que a água escorre para dentro da boca. Ela tosse e tenta falar. — Mike... ele está...? — Merda! A voz de Austin ecoa da traseira do veículo quando ele tenta, com dificuldade, subir no caminhão. Lançando olhares nervosos por cima do ombro, o rapaz vê um bando de errantes se arrastando para fora do bosque — a cerca de uns 18 metros e se aproximando —, pelo menos dez deles, todos homens grandes, as bocas famintas trabalhando ocupadas conforme se aproximam. Os olhos leitosos brilham à luz do crepúsculo. Austin sobe no caminhão com a arma ainda apertada na mão suada. — SAIA DAQUI, PORRA! As batidas das portas da cabine assustam todos. O câmbio guincha. O chassi estremece e vibra abaixo deles. Lilly se segura às caixas conforme o caminhão dá ré em um redemoinho de fumaça e poeira. Pela lona esvoaçante da traseira, Lilly vê os errantes se aproximando. O caminhão se choca diretamente contra os mortos, derrubando-os como pinos de boliche, emitindo pancadas úmidas abaixo das rodas enormes. O caminhão quica sobre as criaturas enquanto o motor reclama, ruidoso, e os pneus escorregam por um momento na viscosidade dos órgãos pútridos. As rodas ganham tração no asfalto, Gus empurra o câmbio para a posição drive e o caminhão sai aos roncos dali, derrapando pela estrada de duas pistas na direção pela qual chegaram. Lilly volta a olhar para a mulher com os cabelos com reflexos. — Aguente firme, querida, você vai ficar bem... vamos levá-la a um médico. Barbara vira mais água nos lábios rachados e queimados da mulher. Lilly se ajoelha mais perto. — Meu nome é Lilly, e esta é Barbara. Pode nos dizer seu nome? A mulher murmura algo inaudível, a voz dela é abafada pelo rugido do caminhão. Lilly se aproxima mais. — Repita, querida. Qual é o seu nome? — Chrisss... Chris-tina — diz ela, com dificuldade, entre os dentes. — Christina, não se preocupe... tudo vai ficar bem... você vai conseguir. — Lilly acaricia a sobrancelha encharcada de suor da mulher. Trêmula, contorcendo-se na maca, a mulher está com a respiração curta. Os olhos se fecham pela metade, os lábios se movem, proferindo uma litania silenciosa e sofrida que ninguém consegue ouvir. Lilly toca nos cabelos embaraçados. — Vai ficar tudo bem — murmura repetidamente, mais para si mesma do que para a mulher. O caminhão ronca pela estrada de duas pistas, a lona traseira oscila ao vento. Lilly olha para trás e vê os pinheiros altos do lado de fora, passando em um borrão. O sol poente atrás das copas das árvores produz um efeito estroboscópico quase hipnótico. Por um momento, Lilly se pergunta se tudo vai, de fato, ficar bem. Talvez Woodbury tenha se estabilizado agora. Talvez os métodos maquiavélicos do Governador consigam mesmo mantê- los em segurança, manter o local fechado. Ela quer acreditar em Woodbury. Talvez seja essa a chave... simplesmente acreditar. Talvez apenas isso faça com que resistam... Talvez, talvez, talvez, talvez... — O-onde estou? — A voz é rouca, engasgada e falha. O Dr. Stevens está de pé ao lado da cama, com o jaleco surrado e óculos de armação de arame, olhando para baixo em direção à mulher do helicóptero. — Você vai ficar um pouco grogue por um tempo — diz ele. — Nós lhe demos algumas pílulas da felicidade. A mulher chamada Christina está deitada de costas em uma maca improvisada nas catacumbas de blocos de concreto abaixo da pista de corrida. Vestida em um roupão de toalha de segunda mão, o braço direito amarrado em um gesso improvisado com galhos e esparadrapo, a mulher vira o rosto pálido e macilento para longe da luz halogênica impiedosa que brilha sobre ela. — Segure isto, Alice, só um segundo. — Stevens entrega a bolsa plástica de soro para a jovem enfermeira. Também com um jaleco surrado, o cabelo preso em um rabo de cavalo, Alice força um sorriso ao segurar a bolsa afastada, com o fio conectado a uma agulha no braço da mulher ferida. Mais uma vez, Christina balbucia: — O-onde estou? Stevens segue até uma pia adjacente, lava e seca as mãos. — Eu poderia ser sincero e dizer que estamos no Nono Círculo do Inferno, mas evitarei as críticas por enquanto. — Ele se volta para a mulher e fala, com um sorriso acolhedor, porém levemente irônico: — Você está na profícua metrópole de Woodbury, Geórgia... com população de sabe-se-lá- quantos. Meu nome é Dr. Stevens, e esta é Alice, e são 19h15, e soube que você foi pescada dos destroços de um helicóptero esta tarde...? A mulher consegue assentir, então se encolhe ao sentir uma pontada no abdômen. — Isso vai ficar um pouco sensível por um tempo — diz Stevens, limpando as mãos na toalha. — Você teve queimaduras de terceiro grau em mais de vinte por cento do corpo. A boa notícia é que não acho que precisará de transplante de pele... há apenas um pequeno edema que estamos tratando de forma intravenosa. Para sua sorte, ainda tínhamos três litros de glicose. Os quais você está sugando como um marinheiro bêbado. Você conseguiu fraturar o braço em dois lugares. Observaremos isso também. Disseram que seu nome é Christina? Ela assente. Stevens acende uma lanterna clínica tipo caneta, se abaixa e verifica os olhos da mulher. — Como está sua memória recente, Christina? Ela inspira dolorosamente, chiando baixinho na garganta. — A memória está bem... Meu piloto... O nome dele é Mike... era Mike... Eles...? Stevens coloca a lanterna de volta no bolso e fica sério. — Sinto dizer, mas seu amigo morreu na queda. Christina consegue assentir. — Sei disso... mas me pergunto se... o corpo dele... Trouxeram de volta? — Na verdade, trouxeram. Ela engole em seco, umedece os lábios ressecados. — Isso é bom... porque prometi a ele um enterro cristão. Stevens olha para o chão. — Isso é muito admirável... um enterro cristão. — Stevens e Alice trocam um olhar. Stevens olha de novo para a paciente e sorri. — Um passo de cada vez... está bem? Por enquanto, vamos nos concentrar em fazer você ficar boa. — Qual é o problema? Disse algo errado? Stevens avalia a mulher ferida. — Não é nada, não se preocupe. — Há algum problema em querer dar a meu piloto um enterro digno? Stevens suspira. — Olhe... Serei sincero com você. Não acho que isso vai acontecer. Christina emite um resmungo ao tentar se sentar. Alice ajuda, mantendo o braço da paciente cuidadosamente elevado. Christina olha para Stevens. — Mas qual diabos é o problema? Stevens olha para Alice, então de volta para a paciente. — O Governador é o problema. — Quem? — O cara que gerencia o lugar. — Stevens tira os óculos, pega um lenço e limpa as lentes com cuidado conforme fala. — Ele acha que é um servidor público, imagino. Por isso o nome. Christina franze a sobrancelha, confusa. — Esse cara é...? — Ela busca as palavras. — Ele é...? — É o quê? A mulher dá de ombros. — Ele é... como diria? “Eleito”? É um oficial eleito? O médico lança outro olhar significativo para Alice. — Hmm... nossa... essa é uma pergunta interessante. Alice resmunga: — Ele foi eleito sim... por um único voto... o dele. O médico esfrega os olhos. — É um pouco mais complicado do que isso. — Ele mede as palavras. — Você é nova aqui. Esse homem... é o macho-alfa em nosso pequeno canil. Ele é líder por exclusão. Mantém a ordem fazendo o trabalho sujo. — Um pequeno sorriso surge nas feições delicadas de Stevens. O sorriso está encharcado de desprezo. — O único problema é que o homem desenvolveu um gosto pela coisa. Christina encara o médico. — Não entendi o que isso significa. — Olhe. — Stevens recoloca os óculos e, cansado, passa os dedos pelos cabelos. — O que quer que aconteça com os restos de seu amigo... aceite meu conselho. Fique de luto sozinha, preste respeito silenciosamente. — Não estou entendendo. Stevens olha para Alice, o sorriso se desfaz. Então encara Christina. — Você vai ficar bem. Em uma semana ou mais... quando seu braço estiver curado... pode pensar em sair deste lugar. — Mas eu não... — E mais uma coisa. — Stevens mantém o olhar fixo nela. Ele baixa a voz uma oitava, fica muito sério. — Esse homem. O Governador. Não deve confiar nele. Entendeu? É capaz de qualquer coisa. Então apenas fique longe dele... e aguarde até poder sair daqui. Entende o que estou dizendo? Christina não responde, apenas o encara, absorvendo a informação. A escuridão cai sobre a cidade. Algumas das janelas começam a brilhar com luz de lanternas, outras já pulsam com a corrente imprevisível dos geradores. À noite, Woodbury tem a sensação surreal e antiquada do século XXI transportado para o XIX — uma atmosfera que se tornou de praxe entre a maioria dos assentamentos pós-praga. Em um canto, chamas de tochas banham um McDonald’s fechado com tábuas e abandonado, a luz amarelo-alaranjada reflete as ruínas dos arcos dourados em pedaços. Os homens de Martinez, posicionados em plataformas levadiças em junções cruciais da barricada, agora começam a lidar com um número crescente de sombras móveis na beira do bosque adjacente. O tráfego de errantes aumentou levemente desde o retorno da equipe de reconhecimento, e agora armas de calibre .50 posicionadas nas laterais norte e oeste estalam com tiros intermitentes. Isso confere à cidadezinha — que agora é banhada pela meia-luz roxa e enevoada do crepúsculo — uma sensação de zona de guerra. Encaminhando-se por um pórtico de fachadas de lojas, carregando uma caixa de pêssegos cheia de provisões, Lilly Caul se dirige a seu prédio. Ela ouve os disparos de armas automáticas atrás de si, ecoando pela rua tomada pelo vento. Então para e olha por cima do ombro ao ouvir uma voz se elevando sobre os disparos. — LILLY, ESPERE! Sob as rajadas estroboscópicas de balas traçantes arqueando no céu, a silhueta de um jovem vestido em couro e com cachos castanhos esvoaçantes corre na direção de Lilly. Austin tem uma mochila pesada de suprimentos sobre o ombro. Ele mora meio quarteirão a oeste da casa de Lilly. Austin se aproxima com um sorriso enorme e esperançoso no rosto. — Eu ajudo você com isso. — Está tudo bem, Austin, eu consigo — diz Lilly, quando o rapaz tenta tirar a caixa dela. Por um momento constrangedor, os dois brincam de cabo de guerra com a caixa. Por fim, Lilly desiste. — Está bem, está bem... leve. Agora, Austin caminha alegremente ao lado dela com a caixa nos braços. — Uma descarga de adrenalina e tanto, hoje, não? — Calma, Austin... controle-se. Os dois seguem na direção do prédio de Lilly. A distância, um homem armado caminha de um lado para outro ao longo de uma fileira de caçambas de caminhão no fim da rua. Austin dá a Lilly o mesmo sorrisinho provocador que vem oferecendo a ela há semanas. — Acho que tivemos um gostinho da camaradagem do campo de batalha juntos, hein? Meio que nos aproximamos lá fora, não foi? — Austin, pode, por favor, parar com isso? — Estou cansando você, não estou? Lilly balança a cabeça e solta uma risadinha, apesar do nervosismo. — Você é incansável, admito isso. — O que vai fazer esta noite? — Está me chamando para sair? — Tem uma luta na arena. Por que não me deixa levá-la? Levo aquele pacote de alcaçuz que encontrei hoje. O sorriso de Lilly some. — Não sou muito fã. — De quê? Alcaçuz? — Muito engraçado. Aquelas lutas são bárbaras. Prefiro comer vidro quebrado. Austin dá de ombros. — Se você diz. — Os olhos dele se iluminam com uma ideia. — Que tal isto: em vez de um encontro, por que não me dá mais algumas dicas qualquer dia desses? — Dicas sobre o quê? — Sobre lidar com os mortos. — De súbito, Austin exibe uma expressão séria no rosto. — Vou ser sincero com você. Desde que toda essa merda começou, meio que me escondi nos grupos grandes... jamais precisei me defender de verdade. Tenho muito que aprender. Não sou como você. Lilly olha para o rapaz conforme andam. — O que quer dizer com isso? — Você é durona, Lilly... tem aquela coisa fria, calculista, tipo Clint Eastwood. Os dois chegam ao estacionamento diante do prédio de Lilly, agora mergulhado nas sombras, as ervas daninhas mortas no exterior dos tijolos vermelhos são como um câncer sob a luz tênue. Lilly para, vira para Austin e diz: — Obrigada pela ajuda, Austin. Assumo daqui. — Ela pega a caixa e olha para ele. — Só uma coisa. — Lilly umedece os lábios e sente uma pontada de emoção beliscar suas entranhas. — Eu nem sempre fui assim. Você deveria ter visto como eu era no início. Com medo da própria sombra. Mas alguém me ajudou quando precisei. E essa pessoa não precisava. Acredite em mim. Mas sim, me ajudou. Austin não diz nada, apenas assente e espera que ela termine o pensamento, porque parece que alguma coisa a corrói por dentro. Algo importante. — Vou te mostrar algumas coisas — diz Lilly, por fim. — E, aliás... esse é o único modo de sobrevivermos. Ajudar um ao outro. Austin sorri, e, pela primeira vez desde que Lilly o conheceu, é um sorriso caloroso, sincero e sem segundas intenções. — Agradeço, Lilly. Desculpe por ser tão babaca. — Você não tem sido um babaca — diz Lilly, então, sem aviso, ela se inclina sobre a caixa e dá um beijinho platônico na bochecha de Austin. — Você só é jovem. Ela se vira e entra, fechando a porta com cuidado diante dele. Austin fica parado ali por bastante tempo, encarando aquela enorme porta de entrada de carvalho, esfregando a bochecha como se tivesse sido tocada por água benta. — Doutor? — Três batidas fortes e curtas estilhaçam a quietude da enfermaria improvisada... seguidas pela inconfundível voz gutural, com o leve sotaque da Geórgia rural, logo atrás da porta: — A nova paciente pode receber visitas? Do outro lado da sala cinza cercada por blocos de concreto, o Dr. Stevens e Alice se entreolham. Os dois estão de pé diante de uma pia de aço inoxidável, esterilizando instrumentos em um balde de água escaldante, o vapor flutuando pelas expressões tensas deles. — Só um segundo! — grita Stevens, limpando as mãos e seguindo até a porta. Antes de abri-la, Stevens olha para o outro lado da enfermaria, para a paciente sentada no canto da maca, as pernas esguias e enfaixadas pendendo. Christina, ainda de roupão, beberica água filtrada em um copo de plástico, um cobertor de lã está puxado até seu tronco. O rosto inchado da mulher — ainda lindo, mesmo com os cabelos embaraçados como palha de trigo presos para trás em um nó emaranhado — registra a tensão. Naquele instante antes de a porta se abrir, algo impronunciado se passa entre o médico e a paciente. Stevens assente, então abre a porta. — Soube que temos uma mocinha corajosa em meio a nós! — vocifera o visitante ao adentrar a sala como se fosse um fenômeno da natureza. O corpo magricela e curvado do Governador está vestido com trajes de guerreiro de fim de semana: um colete de caça, blusa de gola rulê preta e calça camuflada enfiada em coturnos pretos; fazendo com que pareça um ditador degenerado do Terceiro Mundo. Seus cabelos cor de ônix na altura dos ombros brilham e se agitam quando entra na sala, o bigode retorcido está enroscado ao redor de um risinho. — Vim prestar respeito. Gabe e Bruce entram no encalço do Governador, os dois homens severos e alertas como agentes do serviço secreto. — Aí está ela — diz Philip Blake para a mulher sentada na maca. Ele vai até a cama, pega uma cadeira dobrável de metal e a coloca no chão ao lado da cama. — Como você está, mocinha? Christina apoia a água e então, timidamente, puxa o cobertor sobre o colo exposto. — Estou bem, acho. Graças a esses dois. O Governador se senta ao contrário na cadeira diante da mulher, apoiando os braços finos no encosto. O olhar dele é jovial feito o de um vendedor excessivamente cuidadoso. — O doutor Stevens e Alice aqui são os melhores... com certeza são. Não sei o que faríamos sem eles. Stevens ergue a voz do outro lado da sala. — Christina, diga oi para Philip Blake. Também conhecido como Governador. — O médico emite um suspiro e vira o rosto, como se enojado por toda aquela exibição de falsa cortesia. — Philip, esta é Christina. — Christina — ronrona o Governador, como se experimentasse o nome. — Ah, esse não é o nome mais lindo? Um tremor repentino e poderoso de apreensão formiga na lombar de Christina. Algo a respeito dos olhos do homem — profundos e escuros como os de um puma — a deixa imediatamente nervosa. O Governador não tira o olhar brilhante e castanho da mulher enquanto fala com os demais. — Vocês se importam se a moça e eu conversarmos em particular? Christina quer dizer algo, quer se opor, mas a força da personalidade daquele homem é como um rio selvagem fluindo pela sala. Sem uma palavra, os outros se entreolham e então, timidamente, um atrás do outro, saem em fila da enfermaria. O último a sair é Gabe, que para à porta. — Ficarei aqui fora, chefe — diz ele. Então... Clique.

Sete

— Então, Christina... bem-vinda a Woodbury. — A princípio, o Governador mantém o sorriso eletrizante apontado para a mulher ferida. — Posso perguntar de onde você é? Christina respira fundo, olhando para as pernas. Por algum motivo indefinido, ela se sente impelida a manter em segredo a emissora de TV para a qual trabalhava. Em vez disso, simplesmente diz: — Subúrbio de Atlanta, foi atingido feio. — Sou de um buraco de cidade no entorno de Savannah, chamada Waynesboro. — O sorriso do homem se alarga. — Nada chique como os bairros ricos de Hot-Lanta. Ela dá de ombros. — Eu com certeza não sou rica. — Aqueles lugares foram todos para o inferno agora, não foram? Os Mordedores ganharam aquela guerra. — O Governador abre aquele sorriso para Christina. — A não ser que você saiba algo que não sei. A mulher o encara sem dizer nada. O sorriso do Governador some. — Posso perguntar como acabou naquele helicóptero? Por um breve instante, ela hesita. — O piloto era... um amigo. Chama-se Mike. — Christina engole a hesitação. — O problema é que prometi a ele um enterro cristão. — A mulher sente o calor do olhar do Governador como se fosse uma fornalha. — Acha que eu poderia fazer isso? O homem magro arrasta a cadeira para perto da cama. — Acho que podemos acomodá-la nesse departamento... quero dizer... se você entrar no jogo. — Se eu o quê? O Governador dá de ombros. — Apenas responda a algumas perguntas. Só isso. — Ele pega uma embalagem de chiclete Juicy Fruit do bolso do colete, arranca um pedaço e enfia na boca. Oferece a Christina. Ela recusa. O Governador guarda o chiclete e aproxima mais a cadeira. — Veja bem, Christina... a questão é que... tenho uma responsabilidade com meu povo. Há certa... diligência que preciso cumprir. Ela olha para o homem. — Contarei tudo o que quiser saber. — Você e o piloto estavam sozinhos? Ou havia mais pessoas com vocês antes de decolarem? De novo, a mulher engole em seco, preparando-se. — Nós nos juntamos a algumas pessoas. — Onde? Christina dá de ombros. — Você sabe... aqui e ali. O Governador sorri e balança a cabeça. — Agora, veja bem, Christina... isso não vai funcionar. — Philip Blake apoia a cadeira contra a maca, próximo o bastante para que Christina sinta o cheiro dele: cigarros e chiclete e algo indiscernível, como carne estragada; então o Governador fala baixinho. — Em um tribunal, um bom advogado deve se certificar de fazer uma objeção quando a testemunha está escondendo informações. Ele está prestes a passar do limite, diz uma voz na cabeça de Christina, não se deve confiar nele, é capaz de qualquer coisa. Com um sussurro fraco, ela responde: — Não sabia que eu estava sendo julgada aqui. O rosto magro e bastante marcado do Governador se transforma, qualquer traço de divertimento se dissipa. — Não precisa ter medo de mim. Christina olha para ele. — Não estou com medo de você. — A verdade é que não quero forçar ninguém a fazer algo que não queira... ninguém precisa se machucar. — Com o gesto casual de um homem que ajusta os punhos da camisa, ele apoia a mão retorcida na beirada da cama, entre as coxas de Christina, de modo provocativo, sem tocar a mulher, apenas apoiado entre as pernas enfaixadas dela. O olhar de Philip não vacila. Permanece fixo em Christina. — É só que... farei o que for preciso para me certificar de que esta comunidade sobreviva. Entendeu? Ela abaixa o rosto para a mão do Governador, para a sujeira debaixo das unhas. — Sim. — Por que não vai em frente e começa a falar, querida. Sou todo ouvidos. Christina emite um suspiro angustiado, mudando a postura. Ela encara o próprio colo. — Eu trabalhava no Canal 9, WROM, a afiliada da Fox no norte de Atlanta... era produtora de conteúdo... vendas de bolos, animais de estimação perdidos, essas coisas. Trabalhava naquela torre grande em Peachtree, aquela com o heliporto no telhado. — A respiração da mulher fica difícil, a dor aumenta conforme ela fala. — Quando a “transformação” aconteceu, cerca de vinte de nós ficamos presos na estação... Sobrevivemos da comida no refeitório do quarto andar por um tempo... então começamos a sair com o helicóptero que dava notícias do trânsito para buscar suprimentos. — Ela perde o fôlego por um momento. O Governador encara. — Sobrou algum desses suprimentos lá em cima? Christina faz que não com a cabeça. — Nada... nenhuma comida... nenhuma energia... nada. Quando acabou a comida... as pessoas começaram a se voltar umas contra as outras. — Ela fecha os olhos e tenta bloquear as lembranças que voltam em uma enxurrada, como quadros intermitentes de um filme de terror com imagens reais: os balcões do bufê cobertos de sangue e todos os monitores com chuviscos e a cabeça cortada no freezer industrial pútrido e os gritos à noite. — Mike me protegeu, que Deus o abençoe... e finalmente, ele e eu... nós conseguimos sair de fininho para o telhado e fugir no helicóptero de trânsito de Mike. Achamos que estávamos livres... mas não percebemos... havia alguém em nosso grupo que estava determinado a impedir que qualquer outro saísse. Ele sabotou o motor do helicóptero. Soubemos imediatamente. Mal saímos da cidade... percorremos talvez uns 80 quilômetros... antes de começarmos a ouvir... antes de vermos... — Christina balança a cabeça, deprimida, então ergue o rosto. — Enfim... você sabe o resto. — Ela tenta esconder o fato de que está tremendo. A voz de Christina fica mais afiada, torna-se destemida. — Não sei o que quer de mim. — Você enfrentou muita coisa. — O Governador dá tapinhas na coxa enfaixada da mulher, o comportamento dele muda de súbito. Ele sorri para Christina, afasta-se da cama e fica de pé. — Sinto muito por ter passado por isso. São tempos difíceis... mas você está segura aqui. — Segura? — Christina não consegue afastar a raiva crescente. Os olhos dela lacrimejam de ódio. O lado implacável da mulher surge nesse momento, a profissional de TV veterana que não aceita merda de ninguém. — Está falando sério? — Muito sério, querida. Estamos construindo algo bom aqui, algo sólido. E sempre procuramos pessoas boas para se juntarem a nós. — Acho que não. — Christina o encara com raiva. — Acho que vou me arriscar lá fora com os Mordedores. — Agora fique calma, querida. Sei que passou maus bocados. Mas isso não é motivo para recusar algo bom. Estamos construindo uma comunidade aqui. — Por favor! — Christina praticamente cospe as palavras. — Sei tudo sobre você. — Tudo bem, já chega. — O Governador parece uma criança tentando acalmar um aluno indisciplinado. — Vamos abaixar o tom um pouco. — Talvez consiga enganar alguns desses caipiras com essa encenação de Líder Benevolente... O Governador dispara contra a mulher e lhe acerta um tapa — com o dorso da mão contra o rosto ferido de Christina — forte o bastante para fazer com que a cabeça da mulher quique contra a parede. Christina arqueja e pisca, e engole a dor. Ela esfrega o rosto e encontra fôlego o bastante para falar bem baixinho e de modo equilibrado: — Trabalhei com homens como você durante toda a minha carreira. Você se intitula o governador? Sério? É apenas um valentão de escola que encontrou um pátio para comandar. O doutor me contou tudo sobre você. De pé acima de Christina, o Governador assente e dá um sorriso frio. A expressão dele endurece. Os olhos semicerram, a luz halogênica refletida nas íris escuras como duas cabeças de alfinete prateadas. — Eu tentei — murmura o homem, mais para si mesmo do que para ela. — Deus sabe que tentei. Ele a ataca de novo, dessa vez na direção do pescoço. Christina enrijece na cama enquanto o Governador a estrangula. Ela olha nos olhos dele. Christina se acalma de súbito durante o estrangulamento. Seu corpo começa a ter espasmos involuntários contra a maca, fazendo as rodinhas guincharem, mas ela não sente mais dor. O sangue é drenado do rosto da mulher. Ela quer morrer. O Governador sussurra baixinho: — Pronto... pronto... pronto... vai ficar tudo bem... Os olhos dela se reviram na cabeça, exibindo a parte branca conforme a mulher se torna lívida ao aperto de Philip. As pernas dela chutam e se contraem, derrubando o suporte do soro. O aparato de aço tilinta no chão, derramando glicose. No silêncio que se segue, a mulher fica dura como pedra, os olhos congelados com um olhar vazio e pálido. Mais um momento se passa, então o Governador a solta. *** Philip Blake se afasta da maca na qual a mulher de Atlanta agora jaz morta, braços e pernas esparramados, oscilando pela lateral da cama. Ele tenta recuperar o fôlego, inspirando e expirando profundamente, recompondo-se. Em algum compartimento distante do cérebro, uma voz baixa protesta e se debate, mas Philip enfia a voz de volta naquele lugar escuro e partido da mente. Ele murmura consigo mesmo, a voz quase inaudível para os próprios ouvidos, como se uma discussão estivesse acontecendo: — Precisava ser feito... Não tive escolha quanto a isso... nenhuma escolha... — CHEFE?! O ruído abafado da voz de Gabe do outro lado da porta traz Philip de volta. — Um segundo — grita ele, o tom imperativo retornando à voz. — Me dê só um segundo. Philip engole em seco e vai até a pia. Ele abre a torneira, joga água no rosto, lava as mãos e se seca em uma toalha encharcada. E quando está prestes a virar, vê de relance o próprio reflexo na superfície de um armário de aço inoxidável sobre a pia. O rosto brilha de volta na superfície prateada aquosa do armário, quase fantasmagórico, translúcido, ainda inexistente. Philip se vira. — Entre, Gabe! A porta se abre com um clique, e o homem careca e corpulento olha para dentro. — Tudo bem? — Vou precisar de uma ajudinha com uma coisa — diz o Governador, indicando a mulher morta. — Isso precisa ser feito direitinho. Não fale, apenas ouça. Em um prédio residencial ao lado da pista de corrida, na quietude empoeirada do segundo andar, o Dr. Stevens está jogado preguiçosamente com o jaleco desabotoado, uma revista Bon Appétit aberta apoiada contra a barriga volumosa e aristocrática, uma garrafa meio vazia de Pinot Noir contrabandeado na caixa ao lado, quando uma batida à porta o faz quicar na poltrona. O médico tateia em busca dos óculos. — Doutor! — A voz abafada do lado de fora da porta o acorda e agita. Tonto devido ao vinho e à falta de sono, Stevens cambaleia pela suposta sala de estar do apartamento austero. Uma toca cheia de caixas de papelão e pilhas de material de leitura que ele pôde encontrar, mal iluminada por lampiões de querosene, a casa do médico é um refúgio do fim do mundo para quem foi um intelectual a vida toda. Por um tempo, Stevens acompanhou boletins esporádicos emitidos pelo CDC e por Washington — que em geral chegavam com grupos de sobreviventes, publicados em circulares breves, impressas sob demanda —, mas agora os dados acumulam poeira à janela, esquecidos no luto radioativo do doutor pela perda da família. — Precisamos ter uma conversinha — diz o homem no corredor, quando Stevens abre a porta. O Governador fica do lado de fora, na escuridão do corredor, com Gabe e Bruce parados atrás, os rifles jogados sobre os ombros. O rosto obscuro e hirsuto do Governador está iluminado com falsa alegria. — Não se incomode com os biscoitos e o leite, não ficaremos muito tempo. Stevens dá de ombros e leva os três homens para a sala de estar. Ainda zonzo, o médico indica um sofá em frangalhos coberto de jornais. — Se encontrar um lugar para sentar neste chiqueiro, é bem-vindo para descansar. — Ficaremos em pé — diz o Governador, inexpressivo, olhando ao redor da pocilga. Gabe e Bruce se movem para trás de Stevens, predadores circulando a presa. — Então... a que devo esta inesperada...? — O médico começa a falar, e o cano de uma pistola APC é erguido, roçando a parte de trás de sua nuca. Stevens percebe que Gabe pressiona o cano da semiautomática contra os tendões do pescoço, o mecanismo empunhado e pronto para atirar. — Você é um estudioso de história, doutor. — O Governador caminha em círculos como um chacal. — Tenho certeza de que se lembra, nos tempos da Guerra Fria, de quando os russos ainda balançavam seus cacetes nucleares para nós... tinham uma expressão. Destruição Mútua Assegurada... D-M-A, era como chamavam. O coração de Stevens acelera, a boca fica seca. — Conheço a expressão. — É o que temos aqui. — O Governador dá a volta e vai para a frente do médico. — Se eu caio, você cai comigo. E vice-versa. Está entendendo? Stevens engole em seco. — Sinceramente, não tenho ideia do que está falando. — A garota Christina, ela teve a impressão de que eu era um cara mau. — O Governador ainda caminha em círculos. — Não tem ideia de onde ela tenha tirado tal impressão, tem? Stevens começa a dizer: — Olhe, eu não... — Cale a porra da boca! — O Governador saca uma pistola 9 mm preta, coloca o dedão no ferrolho e enfia o cano sob o queixo do médico. — Você tem sangue nas mãos, doutor. O falecimento da garota é culpa sua. — Falecimento? — A cabeça de Stevens está virada para cima agora, devido à pressão do cano da arma. — O que você fez? — Fiz meu dever. — O que fez com ela? Com os dentes trincados, o Governador cicia para Stevens: — Eu a removi da equação. Era um risco à segurança. Sabe por quê? — O que isso...? — Sabe por que ela era um risco à segurança, doutor? — Philip aumenta a pressão no queixo do médico. — Ela era um risco à segurança por culpa sua. — Não sei do que está falando. — Você é um homem inteligente, doutor. Acho que sabe exatamente do que estou falando. — Philip alivia a pressão, puxa a arma de volta e continua circulando. — Gabe, pode se afastar. Deixe-o em paz agora. Gabe puxa a arma e se afasta. O médico exala um suspiro minguado, as mãos trêmulas. Ele olha para o Governador. — O que quer, Philip? — QUERO SUA LEALDADE, PORRA! O rugido repentino da voz retumbante do Governador parece mudar a pressão do ar na sala. Os outros três homens ficam mortalmente quietos. O médico encara o chão, os punhos fechados, o coração acelerado. O Governador continua caminhando de um lado para o outro ao redor do médico. — Sabe o que acontece quando você fere minha imagem nesta cidade? As pessoas ficam nervosas. E quando ficam nervosas, ficam descuidadas. O médico continua olhando para o chão. — Philip, não sei o que essa mulher disse a você... — Vidas estão em risco aqui, doutor, e você está fodendo com o equilíbrio. — O que quer que eu diga? — Não quero que diga nada, quero que, para variar, você ouça. Quero que cale essa boca espertinha e ouça e pense em uma coisa. O médico emite um leve suspiro de exasperação, mas não diz nada. — Quero que considere o que aconteceu com a garota antes que envenene mais alguém contra mim. — O Governador se aproxima de Philip. — Quero que concentre seu cérebro grande nisso. Pode fazer isso por mim? — Como quiser, Philip. — E quero que considere outra coisa. Quero que considere como tem sorte... tem habilidades que o mantêm por aqui. O médico ergue o rosto para ele. — O que quer dizer? O Governador mantém o olhar em Stevens. — Vou colocar desta forma. É melhor rezar para que a gente não esbarre em outro médico. Entendeu? O médico olha para baixo. — Entendi, Philip. Não precisa me ameaçar. Agora o Governador inclina a cabeça para Stevens e sorri. — Doutor... por favor... sou eu. — O antigo charme de vendedor da Fuller Brush retorna. — Por que eu ameaçaria meu velho remenda-ossos? — Philip dá tapinhas nas costas do médico. — Somos apenas dois vizinhos papeando sobre um desentendimento. — Philip olha para o relógio. — Na verdade, adoraríamos jogar damas com você, mas precisamos... Do nada, um som do lado de fora interrompe as palavras do Governador e chama a atenção de todos. Baixo a princípio, carregado pelo vento, o estalo inconfundível de um tiro de calibre .50 vem do leste. A duração e a fúria dos disparos — mais de uma arma ladra por diversos momentos — indicam um tiroteio sério. — Espere! — O Governador ergue a mão e inclina a cabeça na direção da janela. Parece que o som vem do canto nordeste da barricada, mas àquela distância é difícil dizer com certeza. — Alguma coisa importante está acontecendo — diz o Governador para Gabe. Tanto Gabe quanto Bruce giram as metralhadoras Bushmaster para a frente do corpo, soltando a trava de segurança. — Vamos! — O Governador dispara para fora da sala, Gabe e Bruce no encalço. Os três correm para fora do prédio de Stevens com as automáticas empunhadas, o Governador à frente, a 9 mm na mão, engatilhada e erguida. O vento sopra lixo nos pés deles conforme se dirigem para o leste. Os ecos dos tiros de automáticas já se dissiparam na brisa, mas o grupo consegue ver um par de luzes de busca de tungstênio — a quase 300 metros de distância —, seus feixes gêmeos balançando para cima até o topo das silhuetas de telhados. — BOB! — O Governador vê o velho médico encolhido contra uma fachada de loja a meio quarteirão. Envolto em um cobertor em frangalhos, o bêbado está agachado, tremendo, os olhos saltam arregalados na direção da comoção. Ele parece ter sido acordado pelo tiroteio apenas momentos antes, a expressão lívida e agitada, um homem que foi despertado de um pesadelo por outro. O Governador corre até ele. — Viu alguma coisa, amigo? Estamos sendo atacados? O que está acontecendo? O médico balbucia por um momento, tossindo e chiando. — Não sei ao certo... ouvi um cara... ele vinha da muralha apenas um segundo atrás... — Bob se curva com um ataque de tosse. — O que ele disse, Bob? — O Governador toca o ombro do idoso, sacudindo-o de leve. — Ele disse... que é uma nova chegada... algo assim... novas pessoas. O Governador solta um suspiro de alívio. — Tem certeza, Bob? O velho assente. — Disse algo sobre umas pessoas novas chegando com um bando de errantes no encalço. Mas abateram todos... quero dizer, os errantes. O Governador dá tapinhas no idoso. — Que alívio, Bob. Fique bem aqui enquanto vou verificar. — Sim, senhor, farei isso. O Governador se vira para os homens, falando aos sussurros agora: — Até entendermos essa situação, fiquem com as armas a postos. — Sim, chefe — diz Gabe, abaixando o cano da Bushmaster, mas mantendo a arma aninhada sob os braços rechonchudos. Com a mão enluvada, ele solta o gatilho, mas mantém o indicador no coldre. Bruce faz o mesmo, fungando, nervoso. O Governador olha para o próprio reflexo na janela da loja de ferramentas. Ele acaricia o bigode, tira uma mecha de cabelos pretos como pena de corvo dos olhos e murmura: — Vamos, rapazes, vamos levar a comitiva de boas-vindas. A princípio, de pé em um halo de iluminação de magnésio e uma nuvem de cordite, Martinez não ouve as passadas pesadas que se aproximam dele vindas da extensão escura da rua adjacente. Está distraído demais pela confusão que adentrou a cidade após a chegada dos novos visitantes. — Vou levá-los para o chefe — diz Martinez para Gus, que está parado perto de uma abertura na muralha, com os braços cheios de armas confiscadas, alguns bastões de batalhão de choque, um machado, duas pistolas calibre .45 e algum tipo chique de espada japonesa ainda em sua bainha ornamentada. O ar tem cheiro de carne podre e aço quente, e o céu noturno ficou enevoado. Atrás de Gus, em uma névoa de fumaça de arma, corpos em frangalhos são visíveis no chão do lado de fora da barricada e alguns espalhados sobre a calçada dentro da abertura. Os corpos recém-detonados fumegam no frio da noite, seus rastros pretos reluzentes espalhados pelas pedras do calçamento. — Se eu souber que um Mordedor se aproximou sequer 6 metros da muralha — vocifera Martinez, fazendo contato visual com cada um dos 12 homens que estão de pé, tímidos, ao redor de Gus —, vocês vão ouvir muito! Casa limpa! Então Martinez se vira para os recém-chegados. — Vocês podem vir comigo. Os três estranhos param por um momento, desconfiados e hesitantes contra a parede — dois homens e uma mulher —, semicerrando os olhos sob o brilho de tungstênio, de costas para a barricada como se fossem prisioneiros surpreendidos em fuga. Desarmados e desorientados, imundos da viagem difícil, os homens usam trajes de batalhão de choque, a mulher veste um tecido com capuz que, a princípio, parece quase deslocado no tempo, como uma capa de um monastério ou de alguma ordem secreta. Martinez se aproxima um passo do trio e começa a dizer algo mais, então o som de uma voz familiar ecoa detrás dele: — Posso assumir a partir daqui, Martinez! Martinez se vira e vê o Governador se aproximar, com Gabe e Bruce no encalço. Conforme se aproxima, o Governador faz o papel perfeito de anfitrião da cidade, parecendo todo “sejam bem-vindos companheiros”, à exceção do gesto de abrir e fechar as mãos em punhos. — Gostaria eu mesmo de acompanhar nossos convidados. Martinez assente, se afasta e não diz nada. O Governador para, olha pela abertura deixada pelo caminhão de carga leve que falta. — Preciso de você na muralha — explica o Governador aos sussurros para Martinez, indicando toda a carnificina espalhada pelo chão —, tirando todos os Mordedores que, sem dúvida, eles atraíram até aqui. Martinez continua assentindo. — Sim, senhor, Governador. Não sabia que você viria buscá-los quando demos a notícia da chegada. São todos seus. O Governador se volta para os estranhos com um enorme sorriso. — Sigam-me, amigos. Farei o tour mais curto com vocês.

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