Powered By Blogger

sexta-feira, 21 de abril de 2017

SD 502 : A CANÇÃO DE TRÓIA

Capítulo Primeiro
 

Narrado por Príamo

Nunca houve uma cidade como Tróia. O jovem sacerdote Calcas, enviado à egípcia Tebas durante o seu noviciado, regressou indiferente às pirâmides construídas ao longo da margem ocidental do Rio da Vida. Tróia, disse ele, era mais imponente, pois toda ela se erguia mais alto e os seus edifícios albergavam os vivos e não os mortos. No entanto, acrescentou, havia uma circunstância atenuante: os Egípcios possuíam deuses inferiores. Os Egípcios tinham movido as suas pedras com mãos mortais, ao passo que as poderosas muralhas de Tróia haviam sido erigidas pelos próprios deuses. Aplana Babilônia, disse ainda Calcas, também não podia competir com Tróia, pois tinha apenas a altura que era permitida pela lama do rio e as suas muralhas assemelhavam-se a uma obra de crianças. Não se lembra homem nenhum de quando foram construídas as nossas muralhas, pois isso sucedeu há muito, muito tempo. Contudo, todos os homens conhecem a história. Dárdano (filho do rei dos nossos deuses, Zeus) apossou-se da península que existe na ponta extrema da Ásia Menor, onde, a norte, o mar Euxino derrama as suas águas no mar Egeu, através do exíguo estreito do Helesponto. Dárdano dividiu este novo reino em duas partes. Deu a parte sul ao seu segundo filho, que chamou Dardânia ao seu domínio e instalou a capital na cidade de Lirnesso. Embora menor, a parte norte é muitíssimo mais rica; foram-lhe conferidos a tutela sobre o Helesponto e o direito de impor tributos a todos os mercadores que entrem ou saiam do mar Euxino. A esta parte chamamos Tróada. A sua capital, Tróia, ergue-se sobre o monte do mesmo nome. Zeus amava o seu filho mortal. Por isso, quando Dárdano pediu ao seu
divino pai que desse a Tróia muralhas indestrutíveis, foi com grande prazer que Zeus satisfez o seu desejo. Por essa altura, havia dois deuses que não estavam nas boas graças de Zeus: Poseidon, senhor do mar, e Apolo, senhor da luz. Ordenou-lhes Zeus que seguissem para Tróia e construíssem muralhas mais altas, mais grossas e mais fortes do que todas as outras. Era um trabalho muito pouco indicado para o delicado e enfastiado Apolo, que preferia pegar na sua lira a ficar todo sujo e transpirado—uma maneira, explicou ele ao ingênuo Poseidon, de ajudar a passar o tempo enquanto as muralhas iam subindo. E foi assim que Poseidon empilhou pedras atrás de pedras, enquanto Apolo lhe cantava as suas canções. Poseidon, no entanto, não trabalhava de graça: com efeito, todos os anos, deveria ser depositada a soma de cem talentos de ouro no seu templo em Lirnesso. O rei Dárdano concordou; desde tempos imemoriais que os cem talentos de ouro são pagos todos os anos ao templo de Poseidon em Lirnesso. O problema é que, precisamente na altura em que o meu pai, Laomedonte, subiu ao trono troiano, um terremoto devastador destruiu a Casa de Minos em Creta e arrasou o império da ilha de Tera. A nossa muralha ocidental ruiu e o meu pai contratou o engenheiro grego Éaco para a reconstruir . Éaco fez um bom trabalho, ainda que a nova muralha não tivesse nem as linhas suaves nem a beleza do resto da grandiosa cintura de pedra erigida pelos deuses. O contrato com Poseidon (pelos vistos, Apolo não se dignou sequer pedir o seu salário de músico), disse então o meu pai, deixara de ter validade. As muralhas, afinal de contas, não eram indestrutíveis. Portanto, os cem talentos de ouro pagos todos os anos ao templo de Poseidon em Lirnesso não voltariam a ser pagos. Nunca mais. Superficialmente, este argumento parecia válido—só que os deuses sabiam, com toda certeza, aquilo que eu, então um rapaz, estava farto de saber: o rei Laomedonte era um sovina incurável e odiava ter de pagar o precioso ouro de Tróia a um templo situado numa cidade rival que era governada por uma dinastia rival, apesar de ligada à nossa pelo sangue. Fosse qual fosse a verdadeira razão, o certo é que o ouro deixou de ser pago e nada de invulgar aconteceu durante aqueles anos em que eu, da criança que era, passei ao homem que sou. Quando o leão apareceu, a ninguém passou pela cabeça que um tal
sucesso pudesse estar relacionado com deuses ofendidos ou com as muralhas da cidade. Nas verdejantes planícies a sul de Tróia, ficava a quinta onde o meu pai criava os seus cavalos, o único prazer que ele se permitia—embora, para o rei Laomedonte, até mesmo o prazer tivesse de dar lucro. Pouco tempo depois de Éaco, o Grego, ter concluído a construção da muralha ocidental, chegou a Tróia um homem vindo de uma terra longínqua—tão longínqua que, dela, só sabíamos que as suas montanhas suportavam o céu e que a sua erva era mais tenra e viçosa do que todas as outras ervas do mundo. O refugiado trazia consigo dez cavalos: três garanhões e sete éguas. Nunca tínhamos visto cavalos assim - corpulentos, velozes, graciosos, com abundantes crinas e compridas caudas e bonitos focinhos, bem comportados e dóceis. Esplêndidos para puxarem bigas! No instante em que o rei os viu, o destino do estrangeiro ficou traçado: morreu. Quanto aos seus cavalos, passaram a ser propriedade privada do rei de Tróia. O qual, graças a esses dez belos exemplares, criou uma raça tão famosa que mercadores de todo o mundo começaram a aparecer em Tróia, desejosos de comprarem éguas e machos castrados; sim, porque o meu pai era demasiado astuto para cair no erro de lhes vender um garanhão. Pelo meio da quinta, passava um velho e sinistro caminho, outrora usado pelos leões que, no Verão, atravessavam a Ásia Menor rumo à Cítia, no norte, e que, no Inverno, seguiam para sul, para a Cária e a Lícia, onde o sol conservava o poder de aquecer as suas fulvas peles. As caçadas tinham-nos dizimado; o caminho dos leões transformara-se num rego por onde corriam as águas de um riacho. Há seis anos, os camponeses acorreram ao palácio de meu pai, lívidos de medo. Não esquecerei nunca a calma do rei, quando lhe disseram que três das suas melhores éguas estavam mortas e que um garanhão fora gravemente mutilado e que tudo fora obra de um leão. Laomedonte não era, de seu natural, propenso a acessos de cólera. Com uma voz rigorosamente controlada, ordenou a um destacamento dos Guardas Reais que se postasse no caminho em causa na Primavera seguinte e que matasse o animal. Mas não era um leão vulgar, aquele leão! Aparecia todos os Outonos e Primaveras, mas tão furtivamente que ninguém o via, e matava muito mais do que a sua barriga precisava. Matava porque gostava de matar . Dois anos após o seu aparecimento, os Guardas Reais surpreenderam-no a atacar um garanhão. Avançaram para ele, batendo
com as espadas nos escudos, com o que pretendiam encostá-lo a um canto a fim de poderem usar as suas lanças. Em vez disso, o leão rugiu o seu grito de guerra, correu na direção dos soldados e passou por eles como um pedregulho deslizando por uma encosta. Os soldados dispersaram, mas o rei dos animais teve ainda tempo para matar sete homens antes de seguir o seu caminho sem um único arranhão. Deste desastre resultou uma coisa boa. Um homem dilacerado pelas garras do animal sobreviveu e foi contar aos sacerdotes, e em particular a Calcas, que o leão tinha a marca de Poseidon; no seu pálido flanco, via-se claramente o tridente negro do deus. Calcas consultou imediatamente o Oráculo e anunciou que o leão pertencia a Poseidon. Que nenhuma mão troiana tocasse no animal!, exclamou Calcas, pois este era um castigo infligido a Tróia por ter se furtado ao pagamento dos cem talentos anuais ao senhor dos mares. E mais: o leão só se iria embora quando Tróia retomasse o devido pagamento. De início, o meu pai ignorou Calcas e o Oráculo. No Outono seguinte, ordenou de novo aos Guardas Reais que matassem o leão. Mas Laomedonte tinha subestimado o medo que todos os homens comuns têm aos deuses: mesmo quando ameaçou os guardas com a morte, estes recusaram-se a obedecer . Furioso, mas decidido a não ceder, o meu pai informou Calcas de que se recusava a pagar ouro troiano a Lirnesso—os sacerdotes que pensassem numa alternativa. Calcas voltou a consultar o Oráculo, que anunciou, de uma forma muito clara, que havia realmente uma alternativa. Se, todos os Outonos e Primaveras, seis moças virgens escolhidas à sorte fossem acorrentadas e deixadas nos campos onde os cavalos pastavam para que o leão delas fizesse banquete, Poseidon ficaria satisfeito pelo menos por uns tempos. Claro que o rei preferia dar virgens ao leão a perder ouro; e foi assim que o novo plano foi posto em prática. O problema é que o meu pai nunca confiou efetivamente nos sacerdotes nesta matéria particular, não por ser um homem sacrílego—dava aos deuses aquilo que achava que os deuses tinham direito—,mas porque detestava que outras pessoas ficassem com o ouro que, afinal, era só dele. Assim, todos os Outonos e Primaveras, todas as virgens de Tróia, meninas de não mais do que quinze anos, eram cobertas da cabeça aos pés com um pesado manto branco, de molde a que não fosse possível identificá-las, e levadas para o pátio de Poseidon, o Construtor de Muralhas, onde os sacerdotes escolhiam seis daqueles embrulhos tão brancos
quanto anônimos para o sacrifício. A manobra resultou. Duas vezes ao ano, o leão passava pelo seu caminho, matava as moças acorrentadas e deixava os cavalos incólumes. Para o rei Laomedonte, era um preço insignificante a pagar para que nem o seu orgulho, nem o seu comércio, saíssem molestados. Há apenas quatro dias, foram escolhidas as seis virgens deste Outono. Cinco delas eram moças da cidade; a sexta era da cidadela, o palácio real. A mais amada das filhas do meu pai, Hesíona. Quando Calcas surgiu com a triste notícia, o rei nem queria acreditar . — O quê? Então tu foste idiota ao ponto de não deixares nenhuma marca no manto dela?—replicou o meu pai.—A minha filha—a minha filha! —tratada do mesmo modo que todas as outras moças da cidade? — Limito-me a obedecer às ordens de Poseidon—retorquiu calmamente Calcas. — Não! Poseidon não ordenou que a minha filha fosse escolhida! O que ele ordenou foi que lhe dessem seis moças virgens—foi isso, apenas isso! Por isso, Calcas, trata de escolher outra vítima! — Não posso, Grande Rei. E não havia maneira de convencer Calcas do contrário. Uma mão divina presidia à escolha: portanto, se Hesíona fora escolhida, só ela poderia satisfazer os termos do contrato. Ainda que nenhum membro da corte tivesse assistido a este tenso e irado encontro, o certo é que, ao fim de pouco tempo, as novidades corriam soltas pela cidadela. Bajuladores como Antenor condenavam energicamente o sacerdote, ao passo que os muitos filhos do rei—incluindo eu, o seu herdeiro —pensavam que Laomedonte teria finalmente de ceder e pagar a Poseidon os cem talentos de ouro anuais. No dia seguinte, o rei convocou o seu Conselho. Participei, evidentemente, na reunião; o herdeiro tem de estar presente sempre que o rei toma uma decisão. O rei Laomedonte parecia calmo; não havia nele nada que denunciasse a agitação que dentro dele fervia. Era um homem pequeno, o meu pai, já longe do vigor da juventude; eram da cor da prata os seus longos cabelos e da cor do ouro o comprido manto. A sua voz sempre nos surpreendeu; agora, era com uma voz grave, nobre, melódica, forte, que se dirigia aos seus conselheiros. — A minha filha Hesíona—disse ele aos filhos, primos direitos e primos mais afastados—concordou em submeter-se ao sacrifício. Obedece assim à vontade do deus.
Talvez Antenor tivesse adivinhado o que o rei iria dizer a seguir; eu não adivinhei, e os meus irmãos também não. — Meu pai!—exclamei, sem conseguir controlar-me.—Não podes permitir que isso aconteça! Quando Tróia vive tempos difíceis, o rei pode sacrificar-se para salvar o seu povo, mas as suas filhas virgens pertencem à virgem Ártemis e não a Poseidon! O meu pai pouco se preocupava com o fato de o seu filho mais velho o repreender diante de toda a corte; os seus lábios franziram-se, o seu peito inchou, e logo veio a resposta: — A minha filha foi escolhida, Príamo Podarkesl! Escolhida por Poseidon! — Poseidon ficaria mais contente—repliquei, furioso—se pagasses os cem talentos de ouro ao templo de Lirnesso. Nesse preciso momento, dei-me conta do sorriso satisfeito de Antenor . Ah, o que ele adorava as desavenças entre o rei e o seu herdeiro! — Recuso-me—disse o rei Laomedonte—a pagar ouro que tanto nos custou a obter, a um deus que não conseguiu construir uma muralha capaz de resistir a um dos seus próprios terremotos! — Não podes condenar Hesíona à morte! — Eu não estou a condená-la à morte! A decisão foi de Poseidon! O sacerdote Calcas mexeu-se um nada para logo ficar quieto. — Um homem mortal como tu—disse eu—não deveria responsabilizar os deuses pelas suas próprias fraquezas!  Nota do tradutor: Podarkes é um termo do Grego antigo que significa de pés ligeiros», «veloz.

— Estás a dizer que eu tenho... fraquezas? — Todos os homens mortais as têm—respondi.—Até mesmo o rei da Tróada! — Podes retirar-te, Príamo Podarkes! Desaparece! Quem sabe? Pode ser que, no próximo ano, Poseidon exija que os herdeiros ao trono se submetam ao sacrifício! Antenor continuava a sorrir . Obedeci a meu pai; saí e procurei consolo na cidade e no vento. Um vento frio e úmido vindo do distante pico do monte Ida esfriou a minha raiva, enquanto atravessava o pátio lajeado à saída da Sala do Trono, a caminho dos degraus—duzentos, ao todo—que conduzem ao ponto mais
alto da cidadela. Aí, muito acima da distante planície, cravei as minhas mãos em pedras que homens haviam moldado; sim, porque a cidadela não fora construída pelos deuses, mas sim pelos homens de Dárdano. Aqueles ossos da Mãe Terra, cuidadosamente trabalhados por mãos humanas, como que penetraram no mais íntimo do meu ser; com efeito, senti, nesse preciso instante, todo o poder que ao rei era inerente. Quantos anos, perguntei-me, quantos anos teria ainda de esperar até poder usar a tiara de ouro e sentarme na cadeira de marfim que era o trono de Tróia? Os homens da Casa de Dárdano costumavam morrer muito velhos e Laomedonte não chegara ainda aos setenta. Durante um longo tempo, observei o vaivém constante de homens e mulheres lá em baixo na cidade; depois, os meus olhos procuraram paragens mais distantes, as verdejantes planícies onde os preciosos cavalos do rei Laomedonte esticavam os seus longos pescoços para se alimentarem das tenras ervas. Mas essa era uma visão que contribuía apenas para agravar o meu sofrimento. Olhei então para oeste, para a ilha de Ténedo, e para o fumo das fogueiras com que os habitantes da pequena aldeia portuária de Sigeu combatiam o frio. Para norte, as águas azuis do Helesponto imitavam o céu; vi a longa curva acinzentada da praia, entre os estuários dos rios Escamandro e Simoente, os dois rios que irrigavam a Tróada e alimentavam os campos de trigo e cevada que ondulavam ao sabor de um vento que nunca se cansava de zumbir . Por fim, o vento fez-me regressar ao grande pátio diante da entrada dos palácios, onde esperei que um criado me trouxesse o meu carro. — Para a cidade—disse eu para o condutor .—Deixa que os cavalos te conduzam. A estrada principal descia da cidadela para se juntar à curva da avenida que corria à volta das muralhas da cidade. As muralhas construídas por Poseidon. Na junção das duas ruas, erguia-se uma das três portas das muralhas, a Porta Ceia. Não me lembrava de alguma vez a ver fechada; dizia-se que isso só aconteceria em tempos de guerra e não havia no mundo uma nação que fosse forte o bastante para declarar guerra a Tróia. A Porta Ceia tinha uma altura de vinte cúbitos e era feita de enormes toras de madeira unidas umas as outras com pregos e chapas de bronze; tão pesada era que nem as maiores dobradiças do mundo poderiam movê-la. A Porta Ceia abria-se segundo um princípio que teria sido concebido pelo arqueiro Apolo, enquanto descansava ao sol vendo Poseidon trabalhar . O
fundo da porta assentava numa grande pedra redonda inserida numa cova funda e curva e envolvida por maciças correntes de bronze. Se a porta tivesse de ser fechada, trinta bois atrelados às correntes puxariam lentamente a porta, pois a enorme pedra redonda só assim giraria no fundo da sua cova. Em menino, desejoso de assistir a um tal espetáculo, suplicara ao meu pai que mandasse atrelar os bois às correntes da pedra. O meu pai rira-se e recusara. No entanto, agora, ali estava eu, um homem de quarenta anos, marido de dez esposas e possuidor de cinqüenta concubinas, desejoso ainda de ver a Porta Ceia fechar-se. Por sobre a porta, um arco ligava as muralhas, permitindo assim que não houvesse nenhuma interrupção no caminho que, no topo das muralhas, percorria todo o perímetro da cidade. A Praça Ceia permanecia permanentemente na sombra, graças àquelas fantásticas muralhas de construção divina; estas erguiam-se a uma altura de trinta cúbitos acima de mim, suaves e elegantes, brilhantes quando o sol as banhava. Acenei para que o condutor seguisse em frente, mas, antes que ele pudesse dar o necessário movimento às rédeas, mudei de idéia e mandei-o parar . Um grupo de homens entrara pela Porta Ceia e encontrava-se agora na praça. Gregos. Isso era manifesto nos seus modos e vestuário. Usavam saiotes de cabedal ou calções também de cabedal, muito justos, que iam até ao joelho; alguns estavam nus da cintura para cima e outros envergavam blusas de cabedal abertas, deixando a descoberto o peito. Não faltavam os adornos na sua indumentária; algumas peças de roupa eram enfeitadas com desenhos de ouro, outras com borlas ou fitas de cabedal tingido; as suas cinturas eram estreitadas por amplos cintos de ouro e bronze cravejado de lápis-lazúli; contas de cristal polido pendiam dos lóbulos das suas orelhas; cada pescoço era cingido por um grande colar incrustado de pedras preciosas; e as suas cabeleiras, muito compridas, caíam livres em caracóis cuidadosamente moldados. Os Gregos eram mais altos e mais esbeltos do que os Troianos, mas aqueles Gregos eram mais altos e mais esbeltos e tinham um ar mais violento e perigoso do que todos os homens que vi na minha vida. Só a riqueza das suas roupas e armas me permitiu concluir que não eram vulgares bandidos, já que traziam consigo lanças e espadas.
À sua frente, seguia um homem que era seguramente uma criatura única: um gigante que suplantava em estatura todos os outros membros do grupo. Devia ter seis cúbitos de altura e tinha uns ombros que mais pareciam montanhas negras. Negra como breu e pontiaguda, uma barba cobria o seu queixo poderoso e saliente, e o seu cabelo negro, embora cortado curto, erguia-se desgrenhado sobre a testa que se projetava sobre as órbitas como se fosse um toldo. A sua única peça de roupa era uma enorme pele de leão sustentada por uma alça sobre o ombro esquerdo e que descaía depois sob o braço direito; a cabeça do leão era como um capuz que trazia às costas, com a temível bocarra aberta, exibindo as poderosas presas. O gigante virou-se e surpreendeu-me a olhar para ele. Subjugado, olhei-o nos olhos, uns olhos tão grandes quanto serenos—uns olhos que já tinham visto tudo, suportado tudo, vivido todas as degradações que os deuses poderiam impor a um homem. Olhos que faiscavam de inteligência. Sentime mentalmente encostado à parede da casa que estava atrás de mim, o meu espírito completamente posto a nu, a minha mente um brinquedo nas mãos dele. Apesar disso, consegui incutir algum vigor à minha débil coragem e, enchendo-me de brios, recompus-me do choque e assumi uma postura tão direita quanto possível; afinal de contas, era eu quem possuía um título grandioso, mais aquele carro ornamentado a ouro, mais aqueles cavalos brancos, melhores do que todos os que ele jamais vira. Afinal de contas, era eu o herdeiro deste reino, o mais poderoso de todos os reinos do mundo. O gigante avançou por entre o tumulto da praça do mercado como se não houvesse tumulto nenhum e veio direito a mim com dois dos seus companheiros imediatamente atrás; então, com uma mão do tamanho de um presunto, afagou delicadamente os focinhos negros dos meus cavalos brancos. — Diz-me: tu és do palácio? Da Casa Real?—perguntou-me ele com uma voz ressoante, ainda que sem sombra de arrogância. — Eu sou Príamo Podarkes, filho e herdeiro de Laomedonte, rei de Tróia respondi. — Eu sou Héracles—disse ele. Fitei-o boquiaberto. Héracles! Héracles estava em Tróia! Molhei os lábios secos. — É uma grande honra para Tróia poder receber-te, Héracles. Gostaria de te convidar para casa de meu pai Havia uma doçura surpreendente no seu sorriso.
— Agradeço-te muito, príncipe. O convite inclui todos os meus homens? Todos eles pertencem a casas nobres gregas: não envergonharão a tua corte, nem me deixarão envergonhado a mim. — Claro, Héracles. Acenou para os dois homens que estavam na sua sombra, um sinal de que deveriam avançar . — Posso apresentar-te os meus amigos? Este é Teseu, rei supremo da Ática, e este é Télamon, filho de Éaco, rei de Salamina. Engoli em seco. O mundo inteiro conhecia Héracles e Teseu; os bardos cantavam incessantemente os seus feitos. Éaco, o pai do adolescente Télamon, reconstruíra a nossa muralha ocidental. Quantos outros nomes famosos haveria naquele pequeno grupo de Gregos? Tal era o poder daquele nome que até mesmo o avarento do meu pai decidiu abrir os cordões à bolsa e oferecer ao famoso Héracles uma régia recepção. Assim, naquela mesma noite, o rei Laomedonte deu um banquete em honra de Héracles no salão do palácio, com muitas e variadas iguarias e bebidas servidas em baixela de ouro e com harpistas, bailarinas e acrobatas para entreter os convidados. Se eu sentira um temor reverente ao ver Héracles, também o meu pai experimentava agora esse sentimento; todos os gregos que faziam parte do grupo de Héracles eram reis pelos seus próprios méritos. Assim sendo, perguntei-me por que razão aceitavam seguir um homem que não reivindicava nenhum trono? Um homem que limpara estábulos? Que fora arranhado, mordido, dilacerado por todo tipo de animais, desde o mosquito ao leão? Sentei-me na mesa régia com Héracles à minha esquerda e Télamon à minha direita; o meu pai ficou sentado entre Héracles e Teseu. Embora a iminência da morte sacrificial de Hesíona ensombrasse a nossa hospitalidade, ocultávamos tão bem esse fato que disse para mim mesmo que os nossos convidados gregos não tinham dado por nada. A conversa fluía ligeira e fácil, pois eles eram homens cultos, adequadamente instruídos em tudo, desde a aritmética mental às palavras dos poetas que, como nós, sabiam de cor . Restava saber uma coisa—por debaixo dessa capa, que gênero de homens eram os Gregos? Eram poucos os contatos entre as nações da Grécia e as nações da Ásia Menor, entre as quais Tróia. De uma maneira geral, nós, os que vivíamos na Ásia Menor, pouca importância dávamos aos Gregos. Eram homens notoriamente sinuosos, famosos pela sua curiosidade insaciável—isso sabíamos nós; mas aqueles homens que estavam conosco deviam ser os
melhores entre os Gregos, já que os Gregos escolhiam os seus reis por razões estranhas ao sangue. O meu pai, em particular, não atribuía importância nenhuma aos Gregos. Nos últimos anos, tinha firmado tratados com os diversos reinos da Ásia Menor, dando-lhes a maior parte do comércio entre o Euxino e os mares Egeus, o que significava que havia restringido severamente o número de navios mercantes gregos autorizados a passar pelo Helesponto. A Mísia e a Lídia, a Dardânia e a Cária, a Lícia e a Cilícia, não queriam partilhar o comércio com os Gregos, e por uma razão muito simples: de algum modo, os Gregos superavam-nos sempre, os Gregos obtinham sempre os melhores negócios, E o meu pai cumpriu a sua parte, mantendo os mercadores gregos o mais longe possível das águas negras do Euxino. Todas as esmeraldas e safiras, todos os rubis, todo o ouro e prata da Cólquida e da Cítia iam para as nações da Ásia Menor; os poucos mercadores gregos que haviam recebido a necessária autorização do meu pai tinham de concentrar os seus esforços no estanho e no cobre da Cítia. No entanto, Héracles e os seus companheiros eram criaturas demasiado bem educadas para se porem a discutir temas tão controversos como embargos comerciais. Limitaram a sua conversa a observações elogiosas sobre a nossa cidade e as suas imponentes muralhas, sobre o tamanho da cidadela e a beleza das nossas mulheres—embora, no que tocava a mulheres, apenas conhecessem as escravas que iam de mesa em mesa, servindo guisados, distribuindo pães e carnes várias, enchendo de vinho as taças. Como seria de esperar, ao tema das mulheres seguiu-se o dos cavalos; aguardei que Héracles abordasse o assunto, pois vira aqueles seus astutos olhos negros apreciando a qualidade dos meus cavalos brancos. — Os cavalos que puxavam o carro do teu filho eram verdadeiramente magníficos—disse finalmente Héracles.—Nem mesmo a Tessália se pode gabar de possuir uma tão bela raça. Diz-me, Laomedonte, tens por hábito vender alguns daqueles belos espécimes? Na expressão do meu pai, notaram-se imediatamente os traços da avareza. — Sim, são de fato animais encantadores e é verdade que vendo alguns —mas temo que consideres o preço proibitivo. Costumo pedir mil talentos de ouro por uma boa égua. Héracles pôs uma expressão pesarosa e encolheu os portentosos ombros. — Talvez pudesse pagar-te esse preço, rei Laomedonte, mas, neste
momento, tenho de comprar coisas mais importantes. O dinheiro que pedes é uma verdadeira fortuna. E não voltou a falar de cavalos. À medida que a tarde foi avançando e a luz declinando, o meu pai começou a ficar cada vez mais triste, pois não conseguia esquecer-se de que, no dia seguinte, a sua filha seria conduzida aos braços da morte. Vendo-o assim, Héracles pôs a mão no braço do meu pai, tentando consolá-lo. — Diz-me, rei Laomedonte, o que te preocupa? — Nada, meu amigo, nada. Héracles fitou-o com aquele seu sorriso, tão estranhamente doce. — Grande rei Laomedonte, o que eu leio nos teus olhos é preocupação. Conta-me tudo, peço-te. E logo a história foi contada, ainda que o meu pai, como seria de esperar, desse de si mesmo uma imagem que não correspondia à realidade: todos os anos o seu reino era vítima de um leão que pertencia a Poseidon, os sacerdotes haviam ordenado o sacrifício de seis donzelas todos os Outonos e Primaveras, e, entre as escolhidas deste Outono, contava-se a filha que, entre todos os seus rebentos, ele mais amava - Hesíona. Héracles escutou toda a história com um ar pensativo. Por fim, perguntou ao meu pai: — Que disseram os sacerdotes? Que nenhuma mão troiana poderá erguer-se contra o animal? Foi isso, não foi? Os olhos do rei brilharam. — Precisamente, Héracles: nenhuma mão troiana. — Nesse caso, os sacerdotes não se podem opor a que uma mão estrangeira se erga contra o leão... Não é verdade, rei Laomedonte? — Sim, é uma conclusão lógica, Héracles. Héracles olhou de relance para Teseu. — Eu já matei muitos leões—disse—,incluindo o de Neméia, cuja pele envergo. O meu pai rompeu a chorar . — Oh, Héracles, livra-nos desta maldição! Se o fizeres, ficaremos eternamente em dívida para contigo. Falo, não só em meu nome, mas em nome de todos os Troianos, que já perderam trinta e seis filhas para darem de comer ao leão. Aguardei a resposta de Héracles, numa deleitosa expectativa; o gigante seria tudo menos idiota: não se ofereceria para lutar contra um leão enviado
por um deus, sem pedir em troca alguma recompensa... — Rei Laomedonte—disse o gigante grego suficientemente alto para que todas as cabeças se virassem para ele—,proponho-te um contrato: eu mato o leão e, em troca, tu dás-me dois dos teus cavalos, um garanhão e uma égua. Que podia o meu pai fazer? Praticamente encostado à parede, devido à natureza pública da proposta, o rei não tinha outra possibilidade senão concordar com o preço; se não concordasse, toda a corte—os seus parentes próximos e afastados—criticaria o seu desapiedado egoísmo. Acedeu, por isso, conseguindo mesmo imitar uma expressão alegre. — Se conseguires matar o leão, Héracles, dar-te-ei aquilo que pedes. — Assim seja—disse Héracles, após o que, de súbito, ficou muito quieto, como que ausente: os seus grandes olhos pareciam não ver; nem pestanejavam, nem viam o que se passava à sua volta. Por fim, com um suspiro, pareceu regressar à terra. Olhou, não para o rei, mas para Teseu. — Iremos amanhã, Teseu. O meu pai diz que o leão aparecerá ao meiodia. Mesmo os outros gregos que estavam à mesa ficaram assombrados com tão estranho transe. Com os delicados pulsos vergados ao peso das correntes, os tornozelos presos com grilhetas de ouro, vestidas com os seus mais belos trajes e com o cabelo primorosamente encaracolado e os olhos pintados, as seis moças esperavam que os sacerdotes chegassem ao pátio defronte do templo de Poseidon, o Construtor de Muralhas. Hesíona, a minha meia-irmã, estava entre elas, calma e resignada, embora um ligeiro tremor num dos cantos da sua meiga boca, traísse o medo que lhe ia à alma. Ressoavam no pátio o pranto e os lamentos de pais e parentes, o tinido das pesadas grilhetas, a respiração ofegante das seis aterrorizadas donzelas. Fiquei apenas o tempo suficiente para dar um beijo a Hesíona; depois, fuime embora. Hesíona nada sabia da tentativa que Héracles ia fazer para a salvar . Não lhe disse nada talvez porque, mesmo então, suspeitava que não nos veríamos livres da maldição tão facilmente—que, se Héracles matasse realmente o leão, Poseidon, o Senhor dos Mares, seria muito capaz de inventar algo de pior . As minhas apreensões dissiparam-se enquanto corria na direção da pequena porta nas traseiras da cidadela onde Héracles reunira o seu grupo. O gigante escolhera apenas dois ajudantes para a caçada: o venerável guerreiro Teseu e o jovem Télamon. No último momento, demorou-se a falar com um outro membro do grupo, o rei Perítoo
dos Lápitas; consegui ouvi-lo dizer a Perítoo que levasse todos os homens para a Porta Ceia por volta do meio-dia e que esperasse aí por ele. Héracles estava com pressa de partir, o que era compreensível; os gregos queriam chegar antes do Inverno aos domínios das Amazonas, onde pretendiam roubar a cinta da rainha Hipólita. Depois daquele transe extraordinário ocorrido na noite anterior, no salão do palácio, ninguém punha em causa a convicção de Héracles de que o leão apareceria naquele dia—embora o leão nunca tivesse passado tão cedo pelas nossas terras. Mas Héracles sabia. Ele era filho do Senhor de Tudo, Zeus. Eu tinha quatro irmãos germanos, todos eles mais novos do que eu: Titono, Clício, Lampo e Hicetáon. Acompanhamos Héracles integrados na escolta do nosso pai e chegamos ao local escolhido antes dos sacerdotes aparecerem com as donzelas. Héracles tratou imediatamente de inspecionar o terreno; por fim, voltou para junto de nós e indicou a posição que ocuparia tendo em vista o ataque, determinando que Télamon empunharia o arco e Teseu a lança. A arma dele seria uma maça enorme. Enquanto subíamos ao alto de um outeiro mais protegido, por causa do vento e também porque daí se via melhor, o nosso pai permaneceu no caminho à espera dos sacerdotes, visto que aquele seria o primeiro dia do sacrifício. Por vezes, as pobres moças eram obrigadas a esperar muitos dias, presas às suas grilhetas de ouro, tendo por cama o chão e por alimento a pouca comida que uns quantos jovens sacerdotes, cheios de medo, lhes levavam. O Sol ia já alto quando surgiu o cortejo que saíra do santuário de Poseidon, Construtor de Muralhas. Os sacerdotes não permitiam que as lacrimosas moças parassem, empurrando-as constantemente; ao mesmo tempo, entoavam os seus cânticos rituais e batiam em minúsculos tambores com minúsculas baquetas amortecidas. Por fim, à sombra de um olmo, enterraram no chão grossas estacas a que prenderam as correntes, e desapareceram com a celeridade que a dignidade permitia. Quanto ao meu pai, subiu a toda a pressa a encosta na direção do nosso esconderijo. Instalamo-nos na relva e esperamos. Por um momento, observei indolentemente tudo o que se passava lá em baixo, pois não contava que acontecesse alguma coisa antes do meio-dia. De súbito, o jovem Télamon saiu do seu esconderijo e correu como uma seta na direção do local onde as moças tinham se agachado, debatendo-se com as suas correntes.
Ouvi o meu pai murmurar qualquer coisa acerca do atrevimento dos gregos no preciso momento em que o rapaz abraçou a minha meia-irmã e encostou a cabeça dela ao seu peito bronzeado e nu. Hesíona era uma bela moça, bela o bastante para atrair as atenções da maior parte dos homens: mas era uma loucura correr para ao pé dela quando o leão podia aparecer a qualquer momento! Perguntei-me se Télamon teria agido com a autorização de Héracles. As mãos de Hesíona agarravam-se desesperadamente aos braços dele; Télamon baixou a cabeça para lhe murmurar qualquer coisa ao ouvido, depois beijou-a demorada e apaixonadamente, como nenhum homem fora autorizado a beijá-la em toda a sua curta vida. Por fim, secou-lhe as lágrimas com a mão e correu, despreocupadamente, para o lugar que Héracles lhe reservara. Conseguimos ouvir as risadas dos três gregos; fiquei tremendo de raiva. O sacrifício era sagrado! E, no entanto, aqueles homens atreviam-se a rir! Porém, quando voltei a olhar para Hesíona, constatei que ela havia perdido todo o medo, que se erguera do chão cheia de orgulho e que os seus olhos brilhavam—e tal era o seu brilho que eu, tão distante dela, podia vê-lo. A hilaridade dos gregos manteve-se até ao fim da manhã; então, de um momento para o outro, calaram-se. Tudo o que ouvíamos era o inquieto vento troiano, soprando incessantemente. Uma mão tocou-me no ombro. Pensando que o leão tinha aparecido, virei-me num ápice, o coração batendo desordenadamente. Mas era apenas Tissanes, um criado do palácio que trabalhava para mim. Inclinou a cabeça para me segredar: — A princesa Hécuba pede a sua presença, senhor . A criança está prestes a nascer e as parteiras dizem que a vida da princesa está presa por um fio. Porque é que as mulheres escolhiam sempre o momento errado? Acenei a Tissanes para que se sentasse e estivesse quieto e calado e virei-me a fim de me concentrar no caminho: mais exatamente num lugar em que, após uma pequena elevação, surgia uma cova. Os pássaros tinham deixado de cantar e de se chamar uns aos outros. O vento parara. Um calafrio percorreu-me todo o corpo. O leão começou a subir tranqüilamente a pequena elevação. Em toda a minha vida, nunca vira um animal tão grande. Tinha uma pele castanhoclara, uma imensa juba negra e uma cauda que terminava numa espessa felpa igualmente negra. No flanco direito, lá estava a marca de Poseidon, o tridente. Quando ia a meio da descida, e já perto do local onde se
encontrava Héracles, o leão parou, com uma das patas erguida, a cabeçorra bem alta, a cauda açoitando o ar, as narinas muito abertas. Então, viu as suas vítimas paralisadas de terror; a perspectiva de um belo banquete levou-o a tomar a decisão que tomou. Baixou a cauda, convocou toda a força dos seus músculos e avançou na direção das moças a uma velocidade cada vez maior . Uma das donzelas deu um grito agudo e penetrante. A minha irmã resmungou qualquer coisa e a jovem calou-se. Héracles ergueu-se da relva, um gigante vestido com uma pele de leão, a maça suspensa da sua mão direita. O leão parou, a bocarra aberta revelando os dentes amarelecidos. Héracles agitou a maça e soltou um rugido de desafio no momento em que o leão saltou. Mas Héracles saltou também, evitando a temível investida das garras e batendo com tal força na barriga tufada de negro do animal que este, num ápice, perdeu o equilíbrio. Os quadris do leão recuaram, mas uma garra ergueu-se para golpear o homem; contudo, nesse mesmo momento, a maça atingiu-o em cheio. Ouviu-se um horrendo ruído de esmagamento quando a arma entrou em contacto com o crânio do animal; a garra vacilou e o homem desviou-se. De novo a maça atingiu o crânio do animal: o segundo ruído foi mais suave do que o primeiro, pois o crânio já estava dilacerado. Mas aquilo nem fora um combate! O leão jazia no caminho, a juba negra fumegando do sangue quente que escorria. Enquanto Teseu e Télamon dançavam e davam vivas, Héracles pegou na sua faca e cortou a garganta do animal. O meu pai e os meus irmãos começaram a descer a encosta apressadamente, na direção dos radiantes gregos, com o meu criado Tissanes avançando furtivamente na sua esteira, ao passo que eu segui na direção contrária, rumo à minha casa. Hécuba, a minha esposa, ia dar à luz e a sua vida corria perigo. As mulheres não eram importantes. A morte de parto era comum entre a nobreza e eu tinha mais nove esposas e cinqüenta concubinas, para além de uma centena de filhos. No entanto, Hécuba era a mulher que eu mais amava; ela seria a minha rainha quando eu subisse ao trono. O filho, pouco contava. Mas que iria eu fazer se ela morresse? Sim, Hécuba era importante para mim, apesar de ser originária da Dardânia e de ter levado o seu irmão, Antenor, para Tróia. Quando cheguei ao palácio, Hécuba estava ainda em trabalho de parto; como nenhum homem podia ter acesso aos mistérios das mulheres, passei o
resto do dia tratando dos meus assuntos, ou melhor, das tarefas que o rei desdenhava executar . Ao anoitecer, comecei a sentir-me inquieto, pois o meu pai não me contara e eu não ouvira ainda nenhum grito de alegria no interior dos majestosos palácios que encimavam a colina de Tróia. Aos meus ouvidos não chegara ainda nenhuma voz: nem grega, nem troiana. Apenas silêncio. Muito estranho. — Príncipe! Príncipe! Era o meu criado. Estava lívido, os olhos esbugalhados de terror, tremia incontrolavelmente. — Que aconteceu?—perguntei, lembrando-me de que ele ficara na quinta de meu pai para ver o leão. Tissanes caiu de joelhos e as suas mãos prenderam-se aos meus tornozelos. — Príncipe, só há instantes me atrevi a mexer-me! Depois... depois corri! Não falei com ninguém, vim direto ao palácio! — Levante-se, homem! Levante-se e me conte tudo! — Príncipe, o seu pai, o rei, está morto! Os seus irmãos estão mortos! Todos morreram! Uma imensa calma invadiu-me nesse instante. Finalmente era rei. — Os Gregos também? — Não, príncipe! Os gregos mataram-nos! Fala devagar, Tissanes, e conta-me o que aconteceu. Héracles ficou muito contente com o seu feito. Ria-se e cantava enquanto esfolava o leão, ao passo que Teseu e Télamon tratavam das moças, libertando-as das correntes. Logo que a pele do leão foi estendida para secar, Héracles pediu ao rei que o acompanhasse às suas cavalariças. Queria escolher imediatamente o garanhão e a égua que lhe tinham sido prometidos, porque estava com muita pressa.—Tissanes parou, molhou os lábios secos.      — Continua. — O rei ficou furioso. Negou que tivesse prometido o que quer que fosse. O leão, disse, não passara de um passatempo. Héracles matara-o por desporto. Héracles e os outros dois ficaram tão furiosos como o rei, mas o rei não estava disposto a ceder . Ah, o meu pai, o meu pai! Não dar a um deus como Poseidon o que lhe é devido é uma coisa—as represálias dos deuses são lentas e ponderadas. Mas Héracles e Teseu não eram deuses. Eram heróis—e os heróis são muito mais perigosos e muito mais rápidos. — Teseu estava lívido—prosseguiu o meu criado.—Cuspiu no chão, na
direção dos pés do rei, e chamou-lhe ladrão e mentiroso. O príncipe Titono pegou na espada, mas Héracles meteu-se no meio e dirigiu-se de novo ao rei. Pediu-lhe que capitulasse, que procedesse ao pagamento que havia sido acordado. O rei respondeu que não permitiria que um bando de vis mercenários gregos o roubassem. Nesse mesmo instante, reparou que Télamon pusera o braço à volta da cintura da princesa Hesíona. Avançou para eles e esbofeteou Télamon. A princesa desatou a chorar—o rei esbofeteou-a também. Quanto ao resto, príncipe... é tudo tão horrível ... !—O meu criado limpou o suor do rosto com a mão. — Faz um esforço, Tissanes. Conta-me o que viste. — Héracles, de súbito, pareceu ficar tão grande como um auroque. Pegou na sua maça e, com um só golpe, deitou por terra o rei. O príncipe Titono tentou apunhalar Teseu, mas foi logo trespassado pela lança de Teseu. Télamon pegou no seu arco e matou o príncipe Lampo. Por fim, Héracles pegou em peso no príncipe Clício e no príncipe Hicetaón e, batendo com as cabeças de ambos uma na outra, esmagou-as como se fossem amoras. — E onde estavas tu enquanto tudo isso se passava, Tissanes? — Eu... eu escondi-me, príncipe—disse o homem, de cabeça baixa. — Bom, tu és um escravo e não um guerreiro. Prossegue. — Os gregos pareciam ter caído em si... Héracles pegou a pele do leão e disse que já não tinham tempo para irem buscar os cavalos e que teriam de partir imediatamente. Teseu apontou para a princesa Hesíona e disse que, se não levavam os cavalos, então teriam de levar a jovem. Poderiam dá-la a Télamon, pois o rapaz estava enamorado dela e, desse modo, a honra grega não sairia molestada. Partiram imediatamente, rumo à Porta Ceia — Afastaram-se já das nossas praias? — Tratei de me informar a meio do caminho, príncipe. O guarda da Porta Ceia disseme que a tarde mal começara quando Héracles apareceu. Mas não viu Teseu, nem Télamon, nem a princesa Hesíona. Todos os gregos seguiram pela estrada que vai até Sigeu, onde se encontrava o seu navio. — E as outras moças? Tissanes baixou de novo a cabeça. — Não sei, príncipe. A única coisa em que pensei foi em dar-lhe a notícia o mais depressa possível.
— Essa é boa, Tissanes! Tu estiveste escondido até ao crepúsculo porque estavas cheio de medo! Vai ter com o chefe da casa do meu pai e diz-lhe que procure as moças. E que traga também os cadáveres de meu pai e dos meus irmãos. Conta-lhe tudo o que me contaste e ordena, em meu nome, que se faça tudo o que for necessário. Podes retirar-te, Tissanes. Héracles limitara-se a pedir dois cavalos! Dois cavalos! Não haveria no mundo remédio para a cobiça? Não haveria na mente humana um mecanismo qualquer pelo qual a prudência obrigasse à generosidade? Ah, se ao menos Héracles tivesse esperado! Poderia ter apelado para a corte—todos nós ouvíramos a promessa de meu pai. Héracles acabaria por receber aquilo a que tinha direito. Em vez disso, a ira e a cobiça haviam triunfado. E eu—eu era rei de Tróia. Esquecida Hécuba, dirigi-me ao salão principal do palácio e bati no gongo, convocando assim a assembléia da corte. Desejosos de conhecerem o resultado do combate com o leão—e irritados por causa da hora tardia—vieram todos num instante. Não chegara ainda o momento de me sentar no trono; mantive-me de pé ao lado dele e fitei o pequeno mar de rostos curiosos: rostos que pertenciam aos meus meiosirmãos, aos meus primos de todos os graus, à alta nobreza que só pelo casamento se unira a nós. O meu cunhado Antenor estava presente, os olhos bem alerta. Acenei-lhe para que se aproximasse, após o que bati com o meu bastão no chão de lajes vermelhas. — Nobres de Tróia, o leão de Poseidon foi morto por Héracles, o Grego, anunciei. Antenor olhava-me de esguelha, intrigado. Sendo ele da Dardânia, não poderia ser amigo de Tróia. No entanto, Antenor era também irmão de Hécuba e, por causa dela, eu tolerava a sua presença. — Deixei o local nesse momento, mas o meu criado ficou. Regressou há pouco e contou-me que os três gregos tinham assassinado o nosso rei e os meus quatro irmãos. Partiram no seu navio há demasiado tempo para que possamos agora persegui-los. E levaram um refém: a princesa Hesíona. Era impossível prosseguir, tendo em conta o tumulto que se seguiu; sustive a respiração, debatendo comigo mesmo que porção da história poderia contar-lhes. Não, não lhes poderia dizer que o rei Laomedonte se recusara a cumprir uma promessa solene; Laomedonte estava morto e a sua
régia memória teria de ser preservada; a memória de um rei não poderia ser maculada por um final tão miserável. Seria preferível dizer-lhes que os gregos haviam congeminado tamanha atrocidade em represália contra a política que negava aos seus mercadores o acesso ao mar Euxino. Eu era o rei. Tróia e a Tróada eram minhas. Eu era o guardião do Helesponto e o zelador do Euxino. Quando voltei a bater com o meu bastão, o ruído esbateu-se imediatamente. A diferença era tão grande, tão clara, agora que era rei! — Diante da corte aqui reunida—disse eu—,juro solenemente que, enquanto for vivo, não esquecerei nunca aquilo que os gregos fizeram a Tróia. Este dia ficará para sempre na nossa história como um dia de luto: neste dia, todos os anos, os sacerdotes percorrerão as ruas da cidade, entoando cânticos que denunciarão os crimes dos mercenários gregos. E não descansarei enquanto Tróia não fizer com que os gregos se arrependam dos crimes cometidos! — Antenor, nomeio-te chefe do meu governo. Prepara uma proclamação pública: a partir deste dia, nenhum navio grego será autorizado a atravessar o Helesponto e a entrar no Euxino. O cobre pode ser obtido em outros locais, mas o estanho vem todo da Cítia. E o cobre e o estanho juntos dão-nos o bronze! Nenhuma nação pode sobreviver sem bronze! No futuro, os Gregos terão de comprá-lo a um preço exorbitante às nações da Ásia Menor, pois estas terão o monopólio do estanho. Será a decadência das nações da Grécia! Os vivas e aplausos foram ensurdecedores. Apenas Antenor mantinha uma expressão desconfiada; sim, teria de lhe contar toda a verdade, mas num encontro a sós. Entretanto, entreguei-lhe o meu bastão e apressei-me na direção do meu palácio, onde—lembrei-me de súbito—Hécuba estava às portas da morte. Uma parteira esperava-me ao alto das escadas, o rosto molhado de lágrimas. — Hécuba morreu, mulher? A velha bruxa olhou para mim com um sorriso desdentado, apesar da mágoa que aparentemente sentia. — Não, não! Eu estou a chorar a morte de seu pai, o rei Laomedonte! A rainha está livre de perigo e deu à luz um belo e saudável menino. Tinham levado Hécuba diretamente do banco de parir para a sua grande cama, onde descansava agora, esgotada e lívida, com uma trouxa enfaixada na curva do braço esquerdo. Ninguém lhe contara as tristes
notícias e eu só as contaria quando ela estivesse mais forte. Baixei-me para beijá-la. Então, Hécuba desviou o pano que tapava a cara da criança. Este quarto filho que ela me dera parecia ser a encarnação do sossego. Por outro lado, não contorcia as feições como os recém-nascidos costumam fazer . Era de uma beleza extraordinária e a sua pele era muito suave e tão branca como o marfim, em vez de vermelha e engelhada. Um cabelo negro, encaracolado, cobria-lhe maciçamente o crânio; as pestanas eram negras e compridas; as sobrancelhas negras eram elegantes arcos sobre uns olhos cuja cor não conseguia distinguir: eram tão escuros, de fato, que não saberia dizer se eram azuis ou castanhos. Hécuba fez-lhe cócegas sob o queixo perfeito. — Que nome lhe vais dar, príncipe? — Páris—respondi eu imediatamente. Hécuba fitou-me perplexa. — Páris? Casado com a morte? É um nome sinistro, príncipe. Por que não Alexandre, como tínhamos previsto? — Se chamará Páris—disse eu, desviando o olhar . Em breve, também Hécuba saberia que o nosso filho casara com a morte no dia em que nascera. Deixei-a depois de a ter erguido um pouco mais sobre as almofadas. Quando me retirei do quarto, Hécuba embalava debilmente a criança contra os seus seios inchados. — Páris, meu homem pequenino!—dizia ela.—És tão bonito ... ! Oh, os corações que tu vais destroçar! Todas as mulheres te amarão, Páris. Páris, Páris...

Capítulo Segundo
          
Narrado por Peleu
   Quando a ordem começou a imperar no meu novo reino da Tessália—e quando pude finalmente confiar nas pessoas que deixava em lolcos, sentindo-me seguro de que tratariam adequadamente dos meus assuntos— viajei até à ilha de Ciros. Exausto, ansiava pela companhia de um amigo; e a verdade é que, mesmo nessa altura, não tinha em lolcos um único amigo que pudesse rivalizar com o rei Licomedes de Ciros. Licomedes era um homem afortunado: nunca fora banido do reino de seu pai, como eu fora; nunca precisara lutar desvairadamente para construir um novo reino para si mesmo, como eu precisara; nunca travara uma guerra para o defender, como eu travara. Os seus antepassados haviam governado aquela ilha rochosa desde o princípio dos tempos, dos deuses e dos homens, e ele subira ao trono depois de o pai ter morrido na cama, rodeado por filhos e filhas, esposas e concubinas; é que o pai de Licomedes aderira à Velha Religião, tal como Licomedes—a monogamia estava vedada aos governantes de Ciros! Com a Velha ou com a Nova Religião, Licomedes teria por certo o mesmo tipo de morte que o pai, ao passo que eu não teria seguramente a mesma sorte. Invejava a sua tranqüila existência, mas, enquanto passeava com ele nos seus jardins, percebi que Licomedes não gozara ainda muitos dos prazeres que a vida nos proporciona. O seu reino e o seu reinado pouco significavam para ele, ao contrário do que sucedia comigo; executava a sua obra de uma forma competente e conscienciosa, pois era ao mesmo tempo um homem generoso e um dirigente capaz, mas faltava-lhe algo que eu tinha: a determinação de lutar ferreamente por aquilo que era seu, já que, na realidade, nunca ninguém ameaçara tirar-lhe o que quer que fosse. Eu conhecia plenamente o significado de palavras como perda, fome e desespero. E amava o meu novo reino da Tessália—tão duramente conquistado!—como ele nunca poderia amar Ciros. Tessália, a minha Tessália! Eu, Peleu, era rei supremo da Tessália! Outros reis deviam-me obediência—a mim, que só há poucos anos voltara às terras a norte da Ática. Era eu o rei dos Mirmidões, o povo de lolcos a quem chamavam Formigas. O rei de Ciros interrompeu os meus pensamentos. — Estás a pensar na Tessália—disse.
— Não consigo pensar em outra coisa. Licomedes ergueu uma mão branca e indolente. — Meu caro Peleu, os deuses não me dotaram dos teus poderosos entusiasmos. Enquanto que eu ardo em fogo lento, tu és uma labareda refulgente e vibrante. Embora deva dizer que me sinto satisfeito com aquilo que sou. Se estivesses no meu lugar, só terias parado depois de teres conquistado todas as ilhas entre Creta e a Samotrácia. Encostei-me ao tronco de uma nogueira e suspirei. — E no entanto, meu amigo, estou muito, muito cansado. Já não sou o jovem de outros tempos. — Uma verdade tão óbvia que nem vale a pena proclamá-la...—Os seus olhos pálidos examinavam-me atentamente.—Peleu—prosseguiu ele —,sabes com certeza que tens a reputação de seres o homem mais notável de toda a Grécia... Até mesmo Micenas é obrigada a reparar em ti. Endireitei-me e continuei a andar . — Eu sou igual a qualquer outro homem. — Podes negá-lo à vontade, mas a verdade tem de ser dita! Tu tens tudo, Peleu! Um corpo belo e atlético, uma mente astuta e sutil, uma arte inquestionável no que toca à chefia de homens, um talento notável para inspirar o amor do teu povo—pois se tu até tens um rosto encantador! — Continua com elogios desses, que eu pego já nas minhas coisas e vou embora. — Sossega que já terminei. Para dizer a verdade, gostaria de discutir contigo uma questão muito específica. O meu péan de louvor à tua pessoa era apenas uma maneira de chegar a esse assunto...      Fitei-o com curiosidade. — Ah sim? Licomedes molhou os lábios, franziu o sobrolho e, por fim, decidiu mergulhar de chofre em águas agitadas. — Peleu, tu tens trinta e cinco anos. És um dos quatro reis supremos da Grécia e, portanto, possuis um poder extraordinário nesse território. Contudo, não tens esposa, ou seja, não tens rainha. E, ah—visto que é um adepto fiel da Nova Religião, o que quer dizer que escolheste a monogamia, como é que vais garantir a sucessão do trono da Tessália se não tens uma esposa? Não consegui controlar o riso. — Mas que impostor que tu me saíste, Licomedes! Já percebi tudo: escolheste uma esposa para o teu amigo!
Ele fitou-me com um ar manhoso. — É possível... A não ser que tenhas outras idéias... — Licomedes, devo dizer-te que penso muitas vezes no meu casamento. Infelizmente, porém, não gosto de nenhuma das candidatas. — Pois eu conheço uma mulher a que talvez não resistas. Estou certo de que daria uma esposa esplêndida. — Diz tudo, homem! Sou todo ouvidos. — És todo ouvidos e estás todo excitado... Mas eu vou contar-te tudo. A mulher em questão é a grande sacerdotisa de Poseidon em Ciros. Ordenoulhe o deus que se casasse, mas ela resistiu ao casamento. Eu não posso obrigar tão augusta sacerdotisa a obedecer às ordens de Poseidon ou às minhas ordens. Contudo, se quero salvar o meu povo e a minha ilha, tenho de convencê-la a casar-se. Por essa altura, já eu o fitava com um espanto sem fim. — Licomedes! Com que então eu não passo de um objeto para conseguires os teus fins! Francamente! — Não, não!—exclamou ele, com uma expressão aflita.—Ouça-me até ao fim, Peleu! — Poseidon ordenou-lhe que se casasse? — Sim. Os oráculos dizem que, se ela não se casar, o Senhor dos Mares abrirá ao meio as terras de Ciros e levará a minha ilha para as profundezas do mar, fazendo dela mais um dos seus territórios. Disseste “oráculos”... Quer dizer que consultaste vários? — Consultei até a pitonisa de Delfos e a floresta de carvalhos de Dodona. A resposta foi sempre a mesma—ou ela se casa, ou vocês morrem. — Porque é que ela é tão importante?—perguntei, fascinado. Na sua expressão, o temor transpareceu de súbito. — Porque ela é filha de Nereu, o Velho Deus do Mar . Assim sendo, ela é, pelo sangue, metade divina, metade humana—e há uma divisão na sua lealdade. A sua linhagem pertence à Velha Religião; no entanto, é a Nova Religião que ela serve. Peleu, tu conheces bem a agitação que varreu o nosso mundo grego desde que os impérios de Creta e Tera se desmoronaram. Pensa no caso de Ciros! Nunca fomos tão dominados pela Mãe como Creta ou Tera ou os reinos da ilha de Pélops—aqui, foram sempre os homens que governaram—,mas a Velha Religião possui uma força inegável. Contudo,
Poseidon é um deus da Nova Religião e nós estamos sob o seu domínio— para além de ser o Senhor dos Mares que nos rodeiam, Poseidon é também o Senhor dos Terremotos. — Devo concluir, portanto—disse eu, lentamente—,que Poseidon está furioso com o fato de uma mulher da Velha Religião ser precisamente a sua sacerdotisa suprema. No entanto, Poseidon deve ter aprovado a nomeação dessa mulher . — E aprovou! Mas agora está furioso—tu sabes como são os deuses, Peleu! Alguma vez os deuses foram coerentes? Apesar de ter aprovado a nomeação da sacerdotisa, agora está furibundo e não quer que o seu altar seja servido por uma filha de Nereu. — Licomedes, Licomedes! Acreditas mesmo nessas histórias de homens e mulheres gerados pelos deuses?—perguntei eu, incrédulo.—Tinha-te em melhor juízo! Os homens e as mulheres que afirmam ser filhos de deuses são, na sua maior parte, simples bastardos—e, geralmente, filhos de um pastor ou de um moço de estrebaria. Licomedes desatou a dar aos braços como uma galinha assustada. — Sim, sim, sim! Eu sei que isso é verdade, Peleu, mas a verdade é que acredito! Tu nunca a viste, tu não a conheces. Eu já a vi, eu conheço-a. Nunca vi criatura mais estranha ... ! Basta uma pessoa olhar para ela, para logo ficar sem dúvidas: aquela mulher veio do mar! Por essa altura, já eu me sentia francamente ofendido. — Não posso acreditar no que estou ouvindo! Muito obrigado pela oferta! Queres impingir uma mulher doida ao rei supremo da Tessália? Pois bem, comigo é que ela não se casa! Licomedes agarrou-me no antebraço com ambas as mãos. — Peleu, acha-me capaz de uma baixeza dessas? Exprimi-me mal, é tudo—não queria ofender-te, juro-te que não! Só que... logo que te vi, ao fim de tantos anos, o meu coração disseme que aquela era a mulher certa para ti. Não lhe faltam pretendentes nobres... Todos os solteiros bem nascidos de Ciros já lhe propuseram casamento. Mas ela tem-nos recusado a todos. Diz que está à espera daquele que o deus prometeu enviar-lhe—esse homem virá com um sinal divino. Suspirei. — Está bem, Licomedes, eu vou vê-la. Mas não te prometo nada! Entendido? O recinto e o altar sagrados de Poseidon—de fato, não se tratava de um
verdadeiro templo—situavam-se na outra ponta da ilha, a zona menos fértil e menos habitada; uma localização muito peculiar para o principal santuário do Senhor dos Mares. Os seus favores eram vitais para todas as ilhas, cercadas por todos os lados pelos seus líquidos domínios. A sua disposição determinava a prosperidade de um local ou a fome que grassava noutro; por alguma razão Poseidon era também aquele que fazia tremer a terra. Eu próprio vira os frutos da sua raiva: cidades inteiras destruídas, tão rasas e tão lisas como o ouro sob o martelo do artífice. Poseidon enfurecia-se por tudo e por nada e era muito cioso do seu prestígio; por duas vezes, tanto quanto se sabia, Creta fora arrasada pela violência da sua vingança, pois os seus reis, sentindo-se inchados de importância, haviam negligenciado a veneração que a Poseidon era devida. O mesmo acontecera com a ilha de Tera. Se aquela mulher que Licomedes queria para minha esposa era filha de Nereu—que governara os mares no tempo em que Cronos governara o mundo do seu trono no Olimpo—não admirava que os oráculos exigissem o seu afastamento do cargo. Zeus e os seus irmãos não tinham tempo a perder com os velhos deuses que haviam derrubado—bom, e vendo bem as coisas, quem é que poderia perdoar a um pai que devorava os seus filhos? Cheguei ao recinto sozinho e a pé, envergando um vulgar traje de caça e conduzindo a minha oferenda com uma corda. Queria que ela pensasse que eu era um anônimo membro do povo, queria que ela não suspeitasse sequer que eu era o rei supremo da Tessália. O altar erguia-se sobre um promontório sobranceiro a uma pequena enseada; avancei lentamente por entre o sagrado bosque que havia diante do altar, aturdido com o silêncio e com a sufocante religiosidade que impregnava o local. Até mesmo o mar chegava aos meus ouvidos como que abafado, ainda que as ondas não parassem de se erguer e de se esmagar, numa multidão de bolhas brancas, contra as rochas da torturada base do precipício. Diante do altar, um altar simples, desprovido de ornamentos, ardia a chama eterna sobre um tripé dourado; aproximei-me da chama, parei e puxei a minha oferenda para perto de mim. Nesse momento, a sacerdotisa emergiu para a luz do sol, ainda que com alguma relutância, como se preferisse viver na sombra, numa versão mais fresca e líquida do dia. Fitei-a fascinado. Pequena, elegante, feminina, possuía, no entanto, uma qualquer qualidade que, de feminino, nada tinha. Em vez do vestido habitual das sacerdotisas, com todos os seus bordados e rufos, envergava uma simples túnica feita com o belo e transparente linho
que os Egípcios tecem, e a cor da sua pele via-se claramente sob o linho, pálida e azulada, listrada porque o material fora mal tingido. Os lábios eram cheios, mas de um rosa desmaiado; os olhos, os olhos mudavam de cor consoante os matizes e os estados de ânimo do mar—cinzentos, azuis, verdes, até mesmo um púrpura tão escuro como o vinho; não usava qualquer pintura no rosto, exceto uma linha negra e muito fina desenhada em torno dos olhos e prolongada na direção das sobrancelhas para lhe dar um ar vagamente sinistro. O cabelo dela não tinha cor nenhuma, era de um branco como o branco das cinzas, embora possuísse um brilho que, na escuridão de um quarto, o faria por certo parecer azul. Avancei, conduzindo a minha oferenda. — Suprema sacerdotisa, estou de visita à tua ilha e decidi fazer uma oferenda ao Pai Poseidon. A sacerdotisa aquiesceu e segurou na corda. Depois, examinou o vitelo branco com um olhar conhecedor . — O Pai Poseidon ficará satisfeito. Há muito que não via um animal tão belo. — Como os cavalos e os touros são sagrados para ele, pensei que deveria oferecer-lhe aquilo de que ele mais gosta. Ela fitou atentamente a chama do altar . — O momento não é propício para um sacrifício. Farei a oferenda mais tarde disse. — Como queiras, sacerdotisa.—Virei-lhe costas, decidido a ir-me embora.     —Espere.     —Sim? — Tenho de dizer ao deus o nome do homem que lhe oferece o vitelo. Como te chamas? — Peleu. Sou o rei de lolcos e o rei supremo da Tessália. Os olhos dela mudaram rapidamente de cor: o azul-claro passou a ser um cinzentoescuro. — Não é um homem vulgar, Peleu. O teu pai era Éaco e o pai dele era o próprio Zeus. O teu irmão Télamon é rei de Salamina e tu pertences à realeza. Sorri. — Sim, eu sou filho de Éaco e irmão de Télamon. Quanto ao meu avô, não faço idéia quem foi. Embora duvide que fosse o rei dos deuses. Sinto-me mais inclinado a
acreditar que fosse um bandido qualquer que se apaixonou perdidamente pela minha avó. — A impiedade, rei Peleu—retorquiu ela serenamente—,conduz ao castigo divino. — Não consigo encontrar em mim sinal de impiedade, sacerdotisa. É com a mais profunda fé que venero os deuses e lhes faço oferendas. — No entanto, negas que Zeus tenha sido o teu avô. — Tais histórias, senhora, são contadas para realçar os direitos de um homem a um trono—foi o que aconteceu com o meu pai, Éaco. Ela afagou o focinho do vitelo com um ar ausente. — Deves estar hospedado no palácio... Por que razão o rei Licomedes te deixou vir até aqui sozinho e sem seres anunciado? — Porque eu assim o quis, senhora. Depois de ter amarrado o vitelo branco a uma argola que havia num dos pilares, virou-me as costas. — Suprema sacerdotisa, quem aceita a minha oferenda? Olhando-me por cima do ombro, mostrou-me uns olhos de um cinzento frio e neutro. — Eu sou Tétis, filha de Nereu. E não se trata apenas de rumores, rei Peleu. o meu pai é um grande deus. Era tempo de partir . Agradeci-lhe e retirei-me. Mas não fui muito longe. Armado de cuidados para que nenhum espião do santuário me visse, deslizei pelo caminho de cobras que conduzia à enseada, arrumei a lança e a espada atrás de uma rocha e deitei-me na areia quente, à sombra de um penhasco. Tétis. Tétis. Não havia dúvida: aquela mulher tinha nela o mar . Dei comigo até a querer acreditar que ela era filha de um deus, pois me deixara enlear por aqueles olhos camaleônicos, pois vira neles todas as tempestades e bonança que moldam o mar, pois vira neles um eco de um qualquer fogo frio que as palavras não podem descrever . E queria que ela fosse minha esposa. Ela também estava interessada em mim; a minha idade e o meu cabedal de experiência levavam-me a essa conclusão. Faltava apenas saber quão forte era a sua atração; dentro de mim, sentia já a advertência de que, naquele combate, a derrota poderia ser minha. Tétis recusara já um semnúmero de pretendentes: por que haveria de querer a mim? Embora não sentisse qualquer inclinação por homens, o certo é que, até então, as mulheres pouco mais tinham significado para mim do que a satisfação de um apetite que dilacera tanto os mais augustos deuses como os simples mortais. Por vezes, levava uma mulher da casa para dormir comigo, mas, na
realidade, nunca sentira por nenhuma verdadeiro amor . Estivesse ela ou não ciente disso, Tétis pertencia-me. E como eu defendia a Nova Religião em todos os seus aspectos, Tétis não teria esposas rivais. Eu seria só dela. O sol ardiame agora nas costas com uma força cada vez maior . O meiodia veio; despi o meu traje de caçador, para que os raios de Hélio penetrassem na minha pele. Mas não conseguia parar quieto. Acerta altura, soergui-me e fitei o mar, culpando-o da perturbação que sentia. Depois, cerrei os olhos e ajoelhei. — Pai Zeus, concede-me os teus favores! Tu sabes que, da minha boca, só tens ouvido súplicas nos momentos de maior abandono e necessidade, tu sabes que, quando apelo à tua intervenção, é como se procurasse o auxílio de um avô! Mas é por isso que agora rezo, é por isso que agora apelo aos teus mais benévolos e doces sentimentos! Tu sempre me ouviste, porque eu nunca te aborreço com trivialidades. Ajuda-me agora, rogo-te! Dá-me Tétis como me deste lolcos e os Mirmidões e toda a Tessália! Dá-me a melhor das rainhas para o trono mirmidão, dá-me filhos possantes, capazes de ocuparem o meu lugar quando eu morrer! De olhos cerrados, mantive-me ajoelhado por um longo tempo. Quando me levantei, verifiquei que nada tinha mudado. O que não era para admirar: os deuses não fazem milagres para instilarem a fé nos corações dos homens. Então, de súbito, a vi. O vento agitava a sua frágil túnica como se fosse uma bandeira, o seu cabelo, sob a violência do sol, parecia cristal, o seu rosto erguido parecia extasiado. Ao lado dela, estava o vitelo branco; na mão direita, Tétis empunhava um punhal. O vitelo caminhava para a morte tranqüilamente; aninhou-se mesmo sobre os joelhos de Tétis quando ela se ajoelhou na areia que as ondas beijavam; e não lutou, nem gemeu de dor, quando ela lhe cortou a garganta, apertando-o contra si enquanto cintilantes fios escarlates se espalhavam pelas suas coxas e pelos braços nus. A água à volta dela ganhou um tom vermelho desmaiado, enquanto as caprichosas correntes sugavam o sangue do vitelo, diluindo-o na sua própria substância. Ela não tinha me visto. E não me viu enquanto deslizava pelos caminhos do mar, arrastando o vitelo morto; quando a água lhe cobriu os seios, pôs o vitelo à volta da nuca e começou a nadar . Por fim, já a alguma distância da praia, encolheu os ombros e libertou o vitelo, que afundou imediatamente.
Uma rocha enorme e plana erguia-se do mar; nadou até à rocha, subiu para o seu leito duro e, por um momento, manteve-se de pé, uma silhueta desenhada contra o céu claro. Depois, deitou-se de costas, aconchegou a cabeça sobre os braços cruzados e, aparentemente, adormeceu. Um ritual bizarro, um ritual que não era aprovado pela Nova Religião. Tétis aceitara a minha oferenda em nome de Poseidon, mas quem a recebera fora Nereu. Sacrilégio! E era ela a suprema sacerdotisa de Poseidon! Ah, Licomedes, tu tinhas toda a razão! Aquela mulher albergava as sementes de destruição de Ciros. Ela não dava ao Senhor dos Mares aquilo que lhe era devido, tão-pouco respeitava o Senhor dos Terremotos que Poseidon também era. O ar estava calmo e suave, a água límpida; porém, enquanto caminhava na direção das ondas, tremia tanto como se estivesse com as sezões. A água não conseguiu refrescar-me enquanto nadava; Afrodite apertara de tal modo as suas sedosas garras que me lacerava até os ossos. Tétis era minha e eu ia possuí-la. Salvava assim o pobre Licomedes e a sua ilha. Quando cheguei à rocha, agarrei-me a uma saliência e ergui-me com um esforço que quase me fendeu os músculos; curvei-me sobre Tétis antes que ela pudesse aperceber-se de que eu estava mais perto dela do que o palácio de Ciros está perto da cidade. Mas Tétis não estava dormindo. Os olhos dela, agora de um verde suave, sonhador, estavam abertos. Então, afastou-se bruscamente de mim, e os seus olhos tornaram-se negros. — Não me toque!—disse ela, ofegante.—Homem nenhum se atreve a tocar-me! Eu pertenço ao deus! A minha mão estendeu-se num ápice, detendo-se a uma escassa distância do seu tornozelo. — Os votos que fizeste não são permanentes, Tétis. Podes casar-te. E casarás comigo. — Eu pertenço ao deus! — De que deus falas tu? Quando falas, serves um deus, mas quando procedes aos sacrifícios, estás a servir outro deus! Tu me pertences, Tétis, e acredita que a minha ousadia não conhece limites. Se o deus—seja ele quem for!—exigir a minha morte por isto, acredita que aceitarei a sua sentença. Soltando um grito de aflição e pânico, tentou deslizar pela rocha na direção do mar . Mas eu era mais rápido do que ela: agarrei-lhe uma perna e arrastei-a para mim; os dedos dela enclavinhavam-se na superfície arenosa, podia mesmo ouvir as suas unhas rasgando tudo aquilo em que se podiam
cravar . Agarrei-a pelos pulsos, libertando-lhe o tornozelo, e ergui-a. Lutou comigo como dez gatos selvagens, com todas as suas forças, chutando-me e me mordendo silenciosamente enquanto os meus braços a apertavam. Uma dúzia de vezes escapou à tenaz dos meus braços, uma dúzia de vezes voltei a prendê-la. O sangue tingia-nos os corpos. A carne do meu ombro estava dilacerada, os lábios dela estavam fendidos, mancheias do cabelo de ambos rodopiavam ao sabor do vento que de súbito se levantara. Não era uma violação, nem eu pretendia que fosse; era um mero concurso de forças, homem contra mulher, a Nova Religião contra a Velha. Terminou como tais concursos devem terminar: com a vitória do homem. Caímos sobre a rocha com uma violência que a deixou sem fôlego. O corpo dela estava agora acorrentado sob o meu, os ombros já não se debatiam. Olhei-a nos olhos. — Perdeste o combate. Conquistei-te. Os lábios dela tremiam; virou-me a cara. — Tu és ele. Eu soube disso logo que te vi no santuário. Quando jurei servi-lo, o deus disseme que um homem viria um dia do mar, um homem do céu que retiraria o mar da minha mente e me tornaria a sua rainha.— Suspirou.—Pois que assim seja, se essa é a vontade do deus. Com pompa e circunstância, sentei a nova rainha no trono de lolcos. Durante o primeiro ano da nossa união, Tétis ficou grávida. Era o culminar do nosso júbilo. Nunca fomos tão felizes como durante as nove luas em que esperamos pelo nascimento do nosso filho. Nenhum de nós admitia sequer que pudesse ser uma menina. A minha própria ama, Aresune, foi nomeada chefe das parteiras; por isso, quando Tétis começou com as dores de parto, de nada me valeu o poder do trono; a velha ama impôs a sua autoridade e baniu-me para o outro extremo do palácio. Tive de aguardar que o carro de Febo desse uma volta inteira: durante esse tempo, refugiei-me na solidão, ignorando os criados que me rogavam que comesse ou bebesse. Nesse momento, a única coisa que sabia fazer era esperar ... Até que, já a noite ia alta, Aresune veio ter comigo. Não se dera sequer ao trabalho de mudar de roupa; manchas de sangue espalhavam-se pelo seu vestido; mirrada e curvada, parecia encolhida dentro daquelas roupas ensangüentadas e, no rosto enrugado, a dor desenhara os seus traços. Os olhos, que, de tão fundos, pareciam duas covas negras, eram uma fonte de
lágrimas. — Era um rapaz, rei Peleu, mas não viveu o suficiente para inspirar o ar da vida. A rainha está bem. Perdeu algum sangue e está muito cansada, mas a sua vida não corre perigo.—As mãos escanzeladas contorciam-se uma na outra. — Senhor, juro-lhe que não houve erro nenhum no meu trabalho! Um rapaz tão bonito, tão forte! Foi a vontade da deusa. Não suportava que ela visse o meu rosto à luz da lamparina. O meu sofrimento era tanto que não conseguiria chorar . Num ápice, virei costas à minha ama e fui-me embora dali. Vários dias passaram até conseguir arranjar forças para ir ver Tétis. Quando finalmente entrei no seu quarto, fiquei espantado com o que vi: Tétis parecia gozar de ótima saúde e o seu ar não podia ser mais feliz. Disse tudo o que seria correto dizer em tais circunstâncias, ensaiou mesmo algumas palavras que exprimiam tristeza, mas nada daquilo era verdadeiro! Tétis estava contente! — O nosso filho está morto!—explodi.—A morte de um filho é insuportável! Ele nunca conhecerá o sentido da vida! Nunca ocupará o meu lugar no trono. Durante nove luas trouxeste-o no teu ventre—e afinal para nada! Tétis afagou-me a mão com um ar vagamente protetor . — Oh, meu querido Peleu, não sofras mais! O nosso filho não tem uma vida mortal, mas já te esqueceste de que eu sou uma deusa? Como ele não respirou o ar da terra, pedi ao meu pai que concedesse ao nosso filho a vida eterna, e o meu pai acedeu ao meu pedido. O nosso filho vive agora no Olimpo—come e bebe com os outros deuses, Peleu! Não, ele nunca será o rei de lolcos, mas desfruta de algo que nenhum homem mortal jamais poderá desfrutar . Ao morrer, o nosso filho tornou-se imortal. Portanto, nunca morrerá. O meu espanto transformou-se em repulsa. Olhei-a nos olhos e perguntei-me como era possível que Tétis se tivesse deixado enredar de tal maneira por aqueles disparates. Ela era tão mortal como eu e o filho dela era tão mortal como nós dois. Então, reparei na confiança extrema que havia no seu olhar e não consegui dizer aquilo que ansiava dizer-lhe. Se acreditar em tais disparates lhe aliviava a dor, pois que acreditasse! A vida com Tétis ensinara-me que ela não pensava, nem se comportava, como as outras mulheres. Por isso, limitei-me a afagar-lhe a cabeça e retirei-me.
Seis filhos me deu Tétis e todos mortos. Quando Aresune me trouxe a notícia da morte do segundo rapaz, quase enlouqueci. Durante muitas luas, não consegui sequer aproximar-me de Tétis, pois sabia o que ela me diria— que o nosso filho era agora um deus. No fim, porém, o amor e o desejo levavam-me de volta aos seus braços e de novo percorríamos o medonho ciclo até ao fatal desenlace. Quando a sexta criança nasceu morta—como era possível que tivesse morrido à nascença, se a gravidez durara as nove luas e a criança, no seu minúsculo carro funerário, parecia tão forte, apesar do tom azul-escuro da pele?—jurei que nunca mais daria filhos meus ao Olimpo. Mandei um emissário à pitonisa de Delfos e a resposta foi esta: Poseidon estava furioso porque eu lhe roubara a sua sacerdotisa! Quanta hipocrisia! Hipocrisia e loucura! Primeiro, não a queria; agora, mudara de idéia. Não duvidemos: não há no mundo um só homem que consiga entender o que pensam e o que fazem os deuses, Novos ou Velhos. Durante dois anos, não vivi com Tétis, que continuava a querer conceber mais filhos para o Olimpo. Então, no final do segundo ano, levei um potro branco a Poseidon Criador de Cavalos e ofereci-o diante de todos os Mirmidões, o meu povo. — Revoga a tua maldição e dá-me um filho vivo!—gritei. As entranhas da terra ribombaram, a cobra sagrada, que estava sob o altar, disparou como um relâmpago castanho, o chão agitou-se, percorrido de espasmos. Um pilar caiu mesmo ao meu lado, mas eu não me mexi. Entre os meus pés, surgiu uma fenda e quase sufocava com o cheiro a enxofre, mas mantive-me quieto e direito até que o tremor se esbateu e a fenda se fechou. O potro branco jazia no altar sem um pingo de sangue e pateticamente quieto. Três luas depois, Tétis disseme que estava grávida do nosso sétimo filho. Ao longo das nove fatigantes luas que se seguiram, ordenei que a vigiassem como um falcão vigia pintinhos; ordenei a Aresune que dormisse com ela todas as noites, ameacei as mulheres da casa com as torturas mais terríveis, caso a deixassem sozinha por um instante que fosse, a menos que Aresune se encontrasse por perto. Tétis suportava estes «caprichos», como ela lhes chamava, com paciência e bom humor; nunca discutia, nunca tentava infringir as minhas leis. Certa vez, ouvi-a cantar um estranho cântico da Velha Religião; um arrepio gelado percorreu-me o corpo. Porém, quando lhe ordenei que se calasse, Tétis obedeceu prontamente e nunca mais a ouvi entoar tais cânticos. Aproximava-se a hora em que daria à luz o
sétimo filho. Comecei a nutrir algumas esperanças. Se eu sempre respeitara os deuses, por que razão não haveriam eles de me dar um filho vivo? Possuía uma armadura que havia pertencido a Minos; era, entre todos os meus tesouros, aquele que eu mais prezava. Era um objeto extraordinário: sobre quatro camadas separadas de bronze e três de estanho, era forrada de ouro e incrustada com lápis-lazúli e âmbar, e ornamentada com um padrão maravilhoso de coral e cristal. O escudo, de idêntica construção, era tão alto como um homem e fazia lembrar dois escudos redondos sobrepostos; de fato, possuía como que uma cintura. A couraça e as grevas, o elmo e o saiote e as proteções dos braços, tinham sido feitos para um homem mais corpulento do que eu; por isso eu respeitava o falecido Minos, que usara aquela armadura nas suas viagens pelo reino cretense, confiando que nunca precisaria dela para se proteger, desejoso apenas de exibir diante do seu povo toda a sua riqueza. E quando Minos caíra, a armadura de nada lhe servira, pois Poseidon esmagara-o, bem como a Creta, porque nem Minos nem Creta queriam a Nova Religião. A Mãe Kubaba, a Grande Deusa da Velha Religião, Rainha da Terra e dos Céus, sempre reinara em Creta e Tera. Com a armadura de Minos, guardara uma lança de freixo das encostas do monte Pélion; tinha uma ponta pequena, feita com um metal chamado ferro, tão raro e precioso que a maior parte dos homens pensava tratar-se de uma lenda, pois poucos o tinham visto. A experiência havia provado que a lança atingia sempre o seu alvo, apesar de mais parecer uma pena na minha mão. Quando deixei de precisar dela, porque a guerra terminara, guardei-a com a armadura. A lança tinha um nome: Velha Pélion. Antes do nascimento do meu primeiro filho, fora buscar estas raridades e limpara-as e polira-as, certo de que a armadura assentaria que nem uma luva ao meu filho. Porém, com as sucessivas mortes dos meus filhos, mandei-as de novo para os subterrâneos onde guardava os meus tesouros, condenando-as a viverem numa escuridão que não era mais negra do que o meu desespero. Cerca de cinco dias antes do esperado nascimento do meu sétimo filho, peguei numa lamparina e desci os velhos e gastos degraus de pedra que conduziam às entranhas do palácio. Depois, avancei lentamente por infindáveis corredores até que avistei a grande porta de madeira da sala dos tesouros. Porque estava eu ali? perguntei a mim mesmo, mas não consegui encontrar uma resposta satisfatória. Abri a porta, preparando já os olhos
para a escuridão; porém, em vez de escuridão, deparou-se uma luz dourada no extremo oposto da imensa câmara. Apaguei a minha lamparina e avancei furtivamente, com a mão no punhal. A sala estava atravancada de urnas e baús, cofres e indumentária sagrada; tinha de avançar com todo o cuidado. Ao aproximar-me da luz, ouvi o inconfundível som de uma mulher chorando. Aresune, a minha ama, estava sentada no chão, embalando nos seus braços o elmo de ouro que havia pertencido a Minos; as belas plumas douradas do elmo balouçavam sobre a sua mão mirrada. Eram lágrimas brandas, mas amargas; ao mesmo tempo, entoava o cântico de luto de Egina, a ilha de onde ela e eu éramos originários, a ilha que fora o reino de Éaco. ó Kore! Aresune chorava já o meu sétimo filho! Não podia deixá-la sem consolo, não podia sair dali furtivamente, fingindo que não a tinha visto, que não a tinha ouvido. Quando a minha mãe lhe ordenara que me desse o seu seio, Aresune era já uma mulher madura; fora ela quem me criara, sob o olhar indiferente de minha mãe; seguira-me nas minhas deambulações por uma dúzia de estados, tão fiel como o mais fiel dos meus cães; e quando conquistei a Tessália, atribuí-lhe um importante cargo no meu lar . Por tudo isto, aproximei-me dela, toqueilhe brandamente no ombro e supliquei-lhe que não chorasse. Tirei-lhe o elmo dos braços e estreitei o seu corpo velho e rígido, dizendo-lhe muitas meiguices tontas, procurando confortá-la com o meu próprio sofrimento. Por fim, Aresune acalmou-se, ainda que os seus dedos magros continuassem cravados na minha túnica. — Meu querido rei, porquê?—disse ela, num tom plangente.—Porque a deixa fazer aquilo? — Porquê o quê? O que é que eu deixo fazer? E a quem?     —À rainha—retorquiu ela, por entre soluços. Mais tarde, dei-me conta de que o sofrimento a deixara transtornada; caso contrário, nunca teria conseguido arrancar-lhe aquela confissão. Embora a amasse muito mais do que jamais amara minha mãe, Aresune sempre tivera uma consciência muito clara da diferença de estatuto que havia entre nós. Prendia com tal violência entre as minhas mãos que a pobre desatou a contorcer-se e a lamentar a sua sorte. — O que é que a Rainha faz?—berrei. — Mata os teus filhos! Todo eu tremia. — Tétis? Os meus filhos? Que história é essa? Fala! A velha ama já não se debatia entre os meus braços. Fitava-me apenas, fitava-me horrorizada
porque descobrira, naquele preciso momento, que eu não sabia nada. Abanei-a. — Aconselho-te a me contar tudo, Aresune. Como é que a minha mulher mata os seus filhos? E porquê? Porquê? Mas Aresune cerrou os lábios e nada disse; os seus olhos aterrados fixavam a chama da lamparina. Empunhei o punhal; encostei a sua temível ponta àquela pele velha e flácida.   Notas: 1-Kubaba ou Cíbele; Kubaba era uma deusa da Anatólia a que Cíbele foi posteriormente assimilada. A origem de Cíbele é a Frígia. O seu culto espalhou-se por toda a Grécia e chegou também a Roma. 2-A autora utiliza um dos nomes de Perséfona, filha de Zeus e Deméter, Kore: neste caso, Perséfona é invocada na sua qualidade de rainha dos Infernos, ou seja, do mundo dos mortos.

— Fala, mulher, ou, por Zeus Onipotente, juro que te arrancarei as unhas e os olhos—juro que tudo farei para te desatar a língua! Fala, Aresune, fala! — Peleu—disse ela, com uma voz tremula—,se eu falar, ela me amaldiçoará, e a maldição dela é muito pior do que qualquer tortura. — Essa maldição seria funesta para Tétis, porque se viraria contra ela. Conte-me tudo. — Eu pensava que sabias, que tinhas consentido... Quem sabe, talvez ela tenha razão—talvez a imortalidade seja preferível à vida na terra, porque os imortais não envelhecem. — Tétis é louca—disse eu. — Não, meu senhor . Tétis é uma deusa. — Não é tal, Aresune! Apostaria a minha vida em como ela é tão mortal como tu! Aresune não parecia convencida da condição mortal de Tétis; eu não conseguira abalar as suas superstições. — Ela matou todos os teus filhos, Peleu. Com a melhor das intenções. — Como é que ela faz isso? Toma alguma poção? — Não, meu querido senhor . O processo é muito mais simples. Quando a sentamos no banco de parir, ela manda sair todas as mulheres exceto eu. Depois, ordena-me que ponha um balde cheio de água debaixo dela. Logo que a cabeça da criança sai de dentro dela, Tétis a conduz na direção da água e aí a mantém até sufocar o bebê.
Os meus punhos cerravam-se e abriam-se. — Então é por isso que os meninos têm aquela cor azul!—Ergui-me. Volta para junto dela, Aresune, ou dará pela tua falta. Te juro, como teu rei, que nunca direi a ninguém que foste tu quem me contou a verdade. Farei com que ela não tenha a menor possibilidade de te fazer mal. Vigia-a de perto. Quando as dores de parto começarem, corra a avisar-me. Entendido? Ela acenou que sim, já sem lágrimas nos olhos e sem culpa no coração. Depois, beijou-me as mãos e, no seu passo trôpego, retirou-se. Fiquei ali um tempo infindo sem me mexer, enquanto as chamas das lamparinas se esbatiam. Tétis matara os meus filhos—e para quê? Por causa de um sonho impossível, de um sonho demente. Por superstição. Por uma ilusão. Privara-os do direito a tornarem-se homens. Cometera crimes tão vis que eu daria tudo para, naquele momento, poder trespassá-la com a minha espada. Mas Tétis trazia ainda no seu ventre o meu sétimo filho. A espada teria de esperar . E a vingança pertencia aos deuses da Nova Religião. Cinco dias depois de ter falado com Aresune, a velha procurou-me. Corria como louca, o cabelo desgrenhado pelo vento. A tarde estava chegando ao seu termo e eu fora aos estábulos a fim de examinar os garanhões, pois a época de acasalamento aproximava-se e os cavalariços queriam mostrar-me os casais que haviam escolhido. Corri como um corcel rumo ao palácio, com Aresune empoleirada no meu pescoço. — Que vai fazer?—perguntou-me ela quando a larguei diante da porta de Tétis. — Vou entrar contigo—disse eu. Horrorizada, Aresune soltou um grito agudo. — Meu senhor, meu senhor! Isso é proibido! — Matar também é proibido—retorqui, e abri a porta. O nascimento de uma criança é um mistério feminino, um mistério que não pode ser profanado pela presença de homens. Quando a Nova Religião venceu a Velha, houve coisas que não mudaram; a Mãe Kubaba, a Grande Deusa, continua a governar os assuntos das mulheres. E, em particular, tudo o que tenha a ver com o desenvolvimento dos frutos humanos—e com a sua colheita, estejam eles verdes, perfeitamente maduros ou secos e mirrados pela idade. Quando entrei, ninguém me viu durante breves momentos; tive tempo para observar, cheirar, ouvir .
A sala tresandava a suor e sangue e a outras coisas estranhas e aterradoras para um homem. O trabalho de parto ia avançado, pois as mulheres da casa estavam nesse momento conduzindo Tétis da sua cama para o banco de parir, onde as parteiras rondavam e instruíam numa azáfama constante. A minha mulher estava nua, o abdômen grotescamente inchado, quase luminoso de tão distendido. Dispuseram cuidadosamente as suas coxas sobre a dura superfície de madeira do banco; o assento do banco tinha no meio um amplo buraco, concebido para ajudar à distensão da extremidade do canal do parto, o local por onde saía o corpo do bebê, sendo a cabeça a primeira porção do corpo a aparecer . No chão, perto do banco, havia um balde de madeira transbordando de água, mas nenhuma das mulheres olhava sequer para ele, pois nenhuma delas sabia para que servia aquele objeto. Mal me viram, quase voaram para mim, com a raiva estampada no rosto, pensando que o rei enlouquecera, determinadas a correrem comigo dali para fora. Com uma bofetada, deitei por terra aquela que ousou aproximar-se mais; as outras recuaram imediatamente. Aresune estava curvada sobre o balde, murmurando feitiços para afastar o mau olhado, e não se mexeu enquanto eu expulsava as mulheres e trancava a porta. Tétis viu tudo. O seu rosto cintilava de suor e os seus olhos estavam negros como breu. Apesar disso, conseguia controlar a sua fúria. — Vá embora, Peleu—disse ela, num tom brando. Respondi-lhe afastando Aresune, pegando no balde e despejando no chão a água do mar . — Não matarás mais ninguém, Tétis! Este filho é meu! — Matar? Matar? Oh, pobre idiota! Eu não matei ninguém! Eu sou uma deusa! Os meus filhos são imortais! As minhas mãos cravaram-se nos ombros dela. — Os teus filhos estão mortos, mulher! Estão condenados a viver como sombras errantes porque tu não os deixaste realizar os feitos que atraem o amor e a admiração dos deuses! Não pisarão nunca os Campos Elíseos, não serão nunca heróis, não encontrarão nunca o seu lugar entre as estrelas! Tu não és uma deusa! Tu és uma mulher mortal! A resposta dela foi um estridente grito de aflição; as suas costas arquearam-se e as mãos agarraram os braços de madeira do banco com tanta força que as juntas dos dedos brilhavam que nem prata. Aresune, entretanto, parecia ter despertado de um longo torpor . — Chegou a hora!—exclamou.—Está prestes a nascer!
— A criança não será tua, Peleu!—rosnou Tétis. Começou a tentar juntar as pernas, o que contrariava o instinto que lhe ordenava que as abrisse. — Vou esmagar a cabeça dele!—exclamou, a voz prenhe de raiva. Depois, desatou a gritar, um grito que parecia não ter fim.—Oh, Pai! Pai Nereu! Ele está a rasgar-me! As veias ressaltavam-lhe na testa como se fossem cordões púrpura, as lágrimas corriam-lhe pelas faces. Mesmo assim, continuava a lutar para fechar as pernas. Apesar de desvairada de dor, convocou todas as fibras da sua vontade e uniu inexoravelmente as pernas e cruzou-as e entrelaçou-as para que ficassem tão fechadas como a porta que eu trancara havia pouco. Aresune estava sentada no chão encharcado, a cabeça sob o banco; ouvia gritar, mas, logo a seguir, a velha ama desatou num riso que mais parecia um relincho. — Ai! Ai!—guinchou ela por fim.—Peleu, é o pé dele! Ele vem ao contrário, é o pé dele!—Arrastou-se para o lado, levantou-se e, com a força de um jovem no seu velho braço, fez com que eu me virasse para ela.—Quer um filho vivo?—perguntou-me.     —Quero, quero! — Então, abre-lhe as pernas! Os pés estão a sair primeiro, a cabeça dele não corre perigo! Ajoelhei-me e agarrei com a mão esquerda o joelho mais alto de Tétis; em seguida, enfiei a mão direita sob esse joelho a fim de agarrar o outro; por fim, usei de toda a minha força para lhe afastar as pernas. Os ossos dela rangiam perigosamente; ela empinava a cabeça e vociferava maldições e cuspia algo que mais parecia uma chuva corrosiva, e o seu rosto—aqui o juro, pois eu não tirava os olhos dela e ela não tirava os olhos de mim—,o seu rosto ganhara as escamas e a forma da cabeça de uma serpente. Os joelhos começaram enfim a separar-se; eu era demasiado forte para ela. Não seria essa uma prova incontestável da sua condição mortal? Aresune mergulhou sob as minhas mãos. Fechei os olhos e resisti à força de Tétis. Então, ouvi um som agudo e breve, um respirar convulsivo e, de repente, o quarto encheu-se do choro de um bebê vivo. Os meus olhos abriram-se num ápice. Fiquei a olhar incrédulo para Aresune e para a criatura em que ela pegava com uma mão, de cabeça para baixo—uma coisa medonha, molhada, escorregadia, que se contorcia e debatia e berrava com tal força que os seus berros chegariam por certo ao teto dos céus—uma coisa com pênis e escroto, salientes sob a película
membranosa. Um filho! Eu tinha um filho vivo! Tétis permaneceu quieta e calada, o rosto vazio e parado. Mas os olhos dela não se tinham fixado em mim, mas sim no meu filho, que Aresune envolvia agora com um pano branco, depois de ter atado o cordão umbilical e de o ter limpo. — Um filho que fará as delícias do teu coração!—riu-se Aresune.—O bebê mais forte e saudável que jamais vi! Foi pelo calcanhar direito que o puxei. Entrei em pânico. — O calcanhar! O calcanhar direito, velha! Está partido? Está deformado? Aresune afastou o pano e mostrou-me um calcanhar perfeito— o esquerdo e um pé e um calcanhar inchados e contundidos. — Ambos os calcanhares estão intactos. O direito acabará por sarar e as marcas desaparecerão. Tétis riu-se, um som débil e toldado. — O calcanhar direito... Com que então foi assim que ele conseguiu respirar o ar da terra. O pé saiu primeiro... Não admira que me tenha rasgado tanto. Sim, as marcas desaparecerão, mas esse calcanhar direito será a sua ruína. Um dia, quando ele precisar de um calcanhar firme e possante, o calcanhar direito se lembrará do dia em que ele nasceu e o trairá. Ignorei-a, estendendo os braços para Aresune. — De-me o meu filho, Aresune! Deixe-me vê-lo! Deixe-me ver o amor da minha vida, a razão do meu ser, o meu filho! O meu filho! Informei a corte de que tinha um filho. Quanta exultação, quanta alegria! Toda a lolcos, toda a Tessália, haviam sofrido comigo ao longo dos anos. Porém, depois de todos terem partido, sentei-me no meu trono de imaculado mármore branco com a cabeça entre as mãos, quase morto de exaustão. As vozes começaram a esbater-se ao longe, e a noite começou a tecer as suas mais negras e solitárias teias. Eu tinha um filho vivo, mas deveria ter tido sete filhos vivos. A minha mulher era louca. Penetrou descalça na câmara escassamente iluminada, envergando uma vez mais aquela túnica transparente e flutuante que eu lhe vira em Ciros. Com um rosto velho, enrugado, atravessou lentamente as geladas lajes do chão. O seu caminhar expressava bem o sofrimento do seu corpo. — Peleu—disse ela, mal chegou ao estrado onde o meu trono assentava. Vira-a através dos meus dedos. Ergui a cabeça para falar com ela.
— Vou voltar para Ciros, marido. — Licomedes não te quer . — Nesse caso, irei para onde me queiram. — Como Medeia, num carro puxado por cobras? — Não. Farei a minha viagem nas costas de um golfinho. Nunca mais a vi. Ao alvorecer, Aresune veio com dois escravos que me levantaram e levaram para a cama. Dormi tanto que, quando acordei, já o carro de Febo dera uma volta inteira ao nosso mundo; não me lembrei de um único sonho, mas lembrei-me de que tinha um filho. Corri ao seu quarto como se tivesse as sandálias aladas de Hermes nos meus pés e encontrei Aresune pegando nele, depois de ter mamado nos seios da sua ama—uma jovem saudável que perdera o seu bebê, disseme logo a velha. Chamava-se Leucipa, um nome que significava “égua branca”. Era a minha vez agora. Peguei-o e constatei que o rapaz era pesado. O que não era para admirar, pois ele parecia ser feito de ouro. Um cabelo dourado, todo aos caracóis, uma pele dourada, sobrancelhas e pestanas douradas. Os olhos, que não largavam os meus, eram escuros, mas imaginei que, quando começassem a ver, seriam de um qualquer tom dourado.     —Como lhe vais chamar?—perguntou Aresune. Não sabia que resposta lhe dar . Ele tinha de ter o seu próprio nome, um nome que mais ninguém tivesse. Mas que nome? Olhei-lhe para o nariz, para as faces, para o queixo, para a testa, e achei-os tão delicadamente moldados... Um rosto mais parecido com o de Tétis do que com o meu. Os lábios, os lábios só poderiam ser dele, porque lábios era coisa que não tinha; uma simples fenda, ferozmente determinada e, no entanto, dolorosamente triste, era a sua boca. — Aquiles—disse eu, finalmente. Ela concordou. — Sem lábios. Um bom nome para ele, meu querido rei.—Depois, suspirou.—A mãe dele fez aquela profecia... Vais consultar a pitonisa de Delfos? Abanei a cabeça. — Não. A minha mulher é louca, não acredito nas suas predições. Mas a pitonisa diz a verdade—e eu não quero saber o que o destino reserva ao meu filho.

Nenhum comentário:

Postar um comentário