Capítulo Décimo Sexto Narrado por Helena
À sombra de Tróia, Agamêmnon erigiu, pedra a pedra, uma nova cidade; todos os dias, da minha varanda, mais alta do que as muralhas, espreitava os Gregos acampados nas areias do Helesponto. Ao longe, pareciam formigas, e como formigas trabalhavam, arrastando pedras e empilhando troncos de árvores descomunais a fim de construírem uma muralha que ia desde o cintilante Simoente ao imundo Escamandro. As casas proliferavam mesmo para lá da praia, casernas imponentes destinadas a acomodarem os soldados durante o Inverno, depósitos de cereais onde o trigo e a cevada eram convenientemente guardados, imunes às investidas dos ratos e do tempo. Sofrera a minha vida um rude golpe desde que a frota grega chegara a Tróia, embora a minha vida nunca tivesse sido aquilo que eu imaginara antes de partir para Tróia. Porque será que, quando olhamos para o tear do tempo, nunca conseguimos ver claramente o futuro, mesmo quando o tear do tempo no-lo dá a ver, claro e definido? Eu tinha olhos para ver . Eu deveria tê-lo visto. Mas Páris era tudo para mim. Que viam os meus olhos? Páris, Páris, Páris. Em Amiclas, eu fora a rainha. Era o meu sangue que legitimava Menelau no trono. O povo da Lacedemônia contava com a filha de Tíndaro para que velasse pelo seu bem-estar e para que, através dela, pudesse entrar em contato com os deuses. Eu era importante. Quando, no meu régio carro, percorria as ruas de Amiclas, os populares baixavam a cabeça, ajoelhavam. Era venerada. Era adorada. Era a rainha Helena, o único dos gêmeos da divina Leda que ao povo restava. E, sempre que o passado diante dos meus olhos desfilava, percebia-me de quão intensa e preenchida fora a minha vida em Amiclas—as caçadas, os torneios desportivos, as festas, a corte, as diversões de toda a sorte. Nesses tempos em Amiclas, costumava dizer a mim mesma que o tempo era para mim um pesado fardo; agora, porém, eu sabia que, nesses tempos passados, não conhecera nunca o significado da palavra tédio. No que toca ao tédio, aprendi tudo o que havia a aprender desde que cheguei a Tróia. Aqui, não sou rainha. Aqui, não passo de um elemento insignificante seja a que nível for . Sou a esposa de um filho imperial sem grande importância. Sou uma estrangeira detestada. Sou limitada por
normas e regulamentos que não posso ignorar, pois não possuo nem o poder nem a autoridade para tal. E não há nada para fazer, lugar nenhum aonde ir! Não posso acenar para um qualquer criado e pedir um carro, não posso ir para os campos próximos e ver os homens disputando jogos ou preparandose para a guerra. Sou uma prisioneira na cidadela. Quando tentei descer à cidade, todos, desde Hécuba a Antenor, protestararam: que eu era leviana, imoral, caprichosa o suficiente para confraternizar com o povo miúdo! Não compreenderia eu, disseram, que, se passasse por uma taberna mal freqüentada e os homens vissem os meus seios expostos, acabaria por ser violada ali mesmo na rua, por todos eles? disse-lhes que, se era esse o problema, não me custava nada cobrir os seios. Mesmo assim, a resposta de Príamo foi um não rotundo. De repente, os meus aposentos (Príamo fora generoso neste particular— eram belos e amplos os aposentos de Páris e Helena) e as câmaras onde se reuniam as nobres da cidadela passaram a ser os limites do meu mundo. Ao mesmo tempo, descobria que Páris, o meu maravilhoso Páris, era um homem igual aos outros. Ele consegue sempre o que pretende. O que não inclui fazer companhia à esposa. Eu não passo de um objeto para o amor—e o amor é coisa breve quando os amantes já não têm nada de novo a aprender um sobre o outro. Depois dos Gregos terem chegado, a minha vida, que eu considerava já tão entediante, piorou ainda mais. As pessoas passaram a ver-me como a causa da catástrofe e a culpar-me do aparecimento de Agamêmnon. Idiotas! De início, tentei convencer a nobreza troiana de que, se Agamêmnon queria a guerra, não era por causa de mulher nenhuma, nem mesmo quando essa mulher era duas vezes sua cunhada: com efeito, acrescentei, Agamêmnon falava de guerra desde a noite em que os sacerdotes haviam esquartejado o cavalo branco e em que a minha mão fora dada a Menelau. Ninguém me deu ouvidos. Ninguém quis dar-me ouvidos. Eu, diziam eles, eu era a razão pela qual os Gregos estavam ali, nas areias do Helesponto. Eu era a razão pela qual a cidade grega crescia fora das poderosas muralhas que haviam erigido desde o cintilante Simoente ao imundo Escamandro. Tudo era culpa minha! Príamo estava muito afetado. Pobre velho. Empoleirava-se na ponta da sua cadeira de ouro e marfim, em vez de se afundar nela, como costumava fazer, e punha-se a arrancar pêlos das longas barbas e mandava homens atrás de homens à torre de vigia ocidental, pois queria manter-se a par de
todos os progressos dos Gregos. Desde o dia em que, pela primeira vez, entrara na sua Sala do Trono, o velho Príamo experimentara toda a gama de emoções, desde o júbilo (porque, graças a mim, escarnecera de Agamêmnon) à mais absoluta perplexidade. Muito se riu ele, enquanto os Gregos não deram nenhuma indicação de que tencionavam permanecer; tinha a felicidade estampada no rosto quando os seus aliados lhe prometeram ajuda. Porém, quando a muralha defensiva grega começou a ser construída, a consternação tomou conta do seu rosto e um peso imenso fez vergar os seus ombros. Gostava muito de Príamo, ainda que lhe faltasse a força e a dedicação comuns aos reis gregos. Na Grécia, um rei tinha de ser muito forte se queria manter o seu poder—ou tinha de ter um irmão cuja força chegasse para os dois. O caso de Tróia era muito diverso: os antepassados de Príamo reinavam em Tróia desde tempos imemoriais. O povo troiano tinha por ele um amor que os povos gregos nunca poderiam ter pelos seus reis; apesar disso, Príamo era menos firme no cumprimento dos seus deveres, pois estava seguro de que nunca perderia o seu trono. A palavra dos deuses não era tão preciosa para ele como para os reis gregos. O velho Antenor, o cunhado do rei, não perdia uma única oportunidade para me censurar; odiava-o mais do que ao próprio Príamo! Sempre que os olhos remelosos de Antenor se fixavam em mim, tudo o que encontrava neles era o fogo da inimizade. Depois, a boca dele abria-se e as censuras começavam, um longo rosário de censuras. Porque é que eu me recusava a cobrir os seios? Porque é que batera na minha criada? Porque é que eu não tinha jeito para as tarefas que às mulheres competiam, como tecer e bordar? Porque é que eu não me calava, bem pelo contrário, as minhas opiniões, quando era norma entre as mulheres não terem opinião nenhuma? Havia sempre em mim algo que merecia censura e Antenor lá estava para me censurar . Quando os Gregos concluíram a muralha que rodeava a praia do Helesponto, Príamo perdeu finalmente a paciência com que sempre suportara os ataques de Antenor . — Cale-se, velho pateta!—gritou-lhe.—Agamêmnon não veio a Tróia por causa de Helena. Crê que ele e os reis seus vassalos gastaram tanto e tão precioso dinheiro unicamente para levarem uma mulher que deixou a Grécia por sua livre vontade? O que Agamêmnon quer é Tróia e a Ásia
Menor e não Helena! Ele quer colônias gregas nas nossas terras—ele quer encher os seus cofres com as nossas riquezas—,ele quer que os seus navios entrem livremente no Helesponto e livremente naveguem no Euxino! A esposa de meu filho é apenas um pretexto, não mais do que um pretexto! Se devolvêssemos Helena aos Gregos, estaríamos muito simplesmente participando do jogo que Agamêmnon montou! Por isso, proíbo-te de voltar a falar de Helena! Entendeu bem o que eu disse, Antenor? Antenor baixou os olhos e, com uma vênia exagerada, acatou as palavras do rei. Os estados da Ásia Menor começaram a enviar os seus embaixadores a Tróia; a assembléia seguinte a que assisti estava cheia de representantes dessas nações. Não consegui decorar todos aqueles estranhos nomes, nomes como Paflagônia, Cilícia, Frígia. Príamo atribuía mais importância a uns embaixadores do que a outros, mas a todos reservou um digno tratamento. No entanto, as suas mais fervorosas saudações foram, sem dúvida, para o embaixador da Lícia. Chamava-se Glauco e dividia com um primo o governo da Lícia. Chamava-se Sarpédon esse primo. Páris, a quem o pai ordenara que assistisse à reunião, segredou-me que Glauco e Sarpédon eram tão inseparáveis como gêmeos, para além de amantes. Um disparate, entre reis. Como não tinham esposas, nunca teriam herdeiros. — Asseguro-te, rei Glauco, que, quando tivermos expulso os Gregos da nossa costa, a Lícia receberá uma vasta parte dos despojos—disse Príamo, com lágrimas nos olhos. Glauco, um homem relativamente jovem (e muito belo), sorriu. — A Lícia não está aqui por causa dos despojos, tio Príamo. O rei Sarpédon e eu queremos apenas uma coisa—esmagar os Gregos e mandá-los de volta para o outro lado do Egeu. O nosso comércio é vital para a Lícia, pois ocupamos a ponta sul desta costa. Todo o comércio desta região passa pela Lícia: tanto o que se dirige para os nossos vizinhos do Norte, como o que se dirige para Sul, para Rodes, para Chipre, para a Síria, para o Egito. A Lícia é a porta giratória de todo o comércio da região. Cremos que devemos juntar as nossas forças, não por cobiça, mas sim por necessidade pura e simples. Asseguro-te que, na Primavera, contarás já com as nossas tropas e com ajuda de outro tipo. Vinte mil homens, todos eles convenientemente equipados e abastecidos. As lágrimas deslizavam pelas faces de Príamo, pois um coração que é
velho comove-se pela mais pequena coisa. — Os meus muito sentidos agradecimentos, meu querido sobrinho— disse-lhe o rei de Tróia. Avançaram depois os outros, alguns tão generosos como os da Lícia, outros regateando dinheiro ou privilégios. Príamo prometia a todos o que eles queriam que ele prometesse—não admira que o número de soldados não parasse de crescer e que a ajuda prevista ganhasse uma dimensão gigantesca. No final da assembléia, comecei a duvidar que Agamêmnon conseguisse resistir a tão portentosa força. Príamo disporia de duzentos mil homens na planície logo que, na Primavera do ano seguinte, o açafrão espreitasse sob a neve que entretanto derretera. O meu ex-cunhado seria derrotado—a menos que pudesse contar com reforços ou que tivesse algum truque escondido na manga púrpura. Se assim era, porque estava eu tão inquieta? Porque conhecia o meu povo. Ai daquele que, perante os Gregos, abrandasse a sua vigilância: em pouco tempo, teria a sua sepultura cavada. Eu conhecia bem os conselheiros de Agamêmnon e vivia em Tróia há tempo suficiente para saber que o rei Príamo não possuía conselheiros com o valor de Nestor, Palamedes ou Ulisses. Ah, que entediantes que eram aquelas assembléias! Assistia a elas unicamente porque o resto da minha vida era ainda mais entediante. Tirando o rei, a ninguém era permitido sentar-se e muito menos uma mulher . Meus pés doíam. Por isso, enquanto o embaixador da Paflagônia, envergando algo que parecia ser um conjunto de suaves peles bordadas, arengava num dialeto que eu não entendia, deixei que os meus olhos passeassem ociosamente pela multidão. Até que se detiveram num homem que estava no fundo e que, pelo visto, acabara de chegar . Ah, que belo homem! Belíssimo! Avançou facilmente por entre a multidão. Era mais alto do que todos os presentes, exceto Heitor, que se encontrava, como de costume, ao lado do pai. O recém-chegado tinha toda a altivez de um rei além do que devia imaginar-se um dos grandes deste mundo. Fez-me lembrar Diomedes; tinha o mesmo jeito gracioso de andar e o mesmo ar duro de guerreiro. Cabelos escuros, olhos escuros, vestia ricamente; o manto que lhe caía descuidadamente sobre os ombros possuía o forro mais belo que alguma vez vira, uma pele de aspecto muito suave e macio, com manchas fulvas. Aos pés do estrado do trono, curvou-se muito ligeiramente, como um rei faz perante outro rei cuja primazia tem dificuldade em reconhecer .
— Enéias!—exclamou Príamo, num tom muito peculiar .—Há tanto tempo que esperava por ti... — Sabe a razão da minha demora, rei Príamo—disse o homem chamado Enéias. — Já viu por acaso os Gregos? — Ainda não, rei Príamo. Entrei pela Porta Dardaniana. A ênfase com que pronunciara o nome da porta era significativa. Lembrei-me entretanto que já tinha ouvido aquele nome: Enéias era o herdeiro da Dardânia. O pai, o rei Anquises, governava a metade sul daquelas terras; vivia numa cidade chamada Lirnesso. Príamo falava sempre com desprezo da Dardânia, de Anquises ou Enéias; imaginara eu que, em Tróia, consideravam Anquises e Enéias homens inferiores em estatuto e riqueza, mas Páris dissera-me que o rei Anquises era primo direito de Príamo e que Dárdano fundara tanto a casa real de Tróia como a casa real de Lirnesso. — Sugiro então que vá até à varanda e que olhe na direção do Helesponto—disse Príamo, transbordando de sarcasmo. — Como quiser . Enéias não demorou muito. Parece que tencionam ficar . É isso? — Uma conclusão perspicaz. Enéias ignorou a ironia. — Por que razão me chamou?—perguntou. — Não será óbvia essa razão? Agamêmnon, depois de ter abocanhado Tróia, engolirá a Dardânia e Lirnesso. Quero que as suas tropas me ajudem a esmagar os Gregos na próxima Primavera. — A Grécia não tem qualquer conflito com a Dardânia. — A Grécia, atualmente, não precisa de pretextos para lançar guerras. A Grécia quer terras, bronze e ouro. — Pois bem, rei Príamo, a julgar pela formidável assembléia hoje aqui reunida, creio poder concluir que não precisará dos homens da Dardânia para te ajudarem a esmagar os Gregos. Quando realmente precisar de nós, acredite que trarei um exército. Mas não na Primavera. — Mas eu preciso dos vossos soldados na Primavera do próximo ano! — Duvido que precise. Príamo bateu no chão com o seu cetro de marfim; a esmeralda do punho emitia centelhas de azul. — Eu quero os seus soldados! Não posso comprometer-me com nada sem a permissão explícita do meu pai—uma permissão que, por ora, não tenho. Príamo, sem saber o que dizer, virou-lhe a cara. Mal ficamos sozinhos, cheia de curiosidade, interroguei Páris acerca daquela estranha discussão.
— Que se passa entre o teu pai e o príncipe Enéias? Páris afagou-me preguiçosamente o cabelo. - Rivalidade. — Rivalidade? Mas um governa a Dardânia e o outro Tróia! — Sim, mas há um oráculo que diz que Enéias reinará um dia em Tróia. O meu pai teme que a palavra do deus se cumpra. Enéias conhece também esse oráculo. Espera por isso que seja tratado como o herdeiro. Porém, se pensarmos que o meu pai tem cinqüenta filhos, a atitude de Enéias é perfeitamente ridícula. Quanto a mim, me parece que o oráculo se refere a um outro Enéias—um Enéias que ainda não nasceu. — Parece-me um homem—disse eu, pensativa—muito atraente. Páris fitou-me. Havia nos seus olhos um estranho brilho. — Espero que nunca se esqueça de quem é esposa, Helena. Afaste-se de Enéias. Definhava o amor que nos unira. Como era possível que isso tivesse acontecido, quando eu me apaixonara por ele logo que o vira? Contudo, o fogo era agora cinzas. Talvez porque descobrira, ao fim de pouco tempo, que, apesar da paixão que nutria por mim, Páris não conseguia resistir ao desejo de conhecer outras mulheres. Nem ao desejo de, chegado o Verão, ir se divertir nas florestas do monte Ida, No Verão, entre a minha chegada a Tróia e o desembarque dos Gregos, Páris desaparecera durante seis luas. Quando por fim regressou, nem sequer me pediu desculpas! Não se dava conta tãopouco do que eu sofrera durante a sua ausência. Algumas das mulheres da corte não poupavam esforços para transformar a minha existência num tormento constante. A rainha Hécuba abominava-me; considerava-me a ruína do seu querido Páris. A mulher de Heitor, Andrômaca, abominava-me porque eu usurpara o seu título, o título da mais bela mulher de Tróia—e também porque temia que Heitor sucumbisse aos meus encantos. Como se isso alguma vez me tivesse passado pela cabeça! Heitor não passava de um moralista e de um pedante, tão formal e rígido que, ao fim de pouco tempo, já o considerava o homem mais enfadonho de uma corte cheia de homens enfadonhos! No entanto, era Cassandra, a jovem princesa, quem mais me aterrava. Andava por salas e corredores com a cabeleira negra flutuando livre e imensa, os olhos prenhes de loucura, o rosto muito branco devastado pelo que lhe ia na alma. Sempre que me via, rompia numa estridente diatribe—dizia-me coisas
que me ofendiam mas que não faziam sentido, pois as palavras e as idéias surgiam tão emaranhadas que ninguém conseguia desvendar-lhes a lógica. Eu era um demônio, dizia ela. Eu era um cavalo. Eu era aquela que trazia a desordem. Eu estava conluiada com a Dardânia. Eu estava conluiada com Agamêmnon. Eu era a ruína de Tróia. E por aí adiante. Cassandra perturbava-me: uma perturbação de que Hécuba e Andrômaca depressa perceberam. Daí que tivessem encorajado Cassandra a procurar-me; esperavam, evidentemente, que eu nunca mais saísse do meu quarto. Mas Helena era mais forte do que elas pensavam. Em vez de me retirar para o meu quarto, juntava-me a Hécuba, Andrômaca e às outras nobres que se reuniam na câmara de recreio e deixava-as profundamente irritadas, pois punha-me a afagar os seios (verdadeiramente magníficos) diante dos seus escandalizados olhos (nenhuma delas se teria atrevido a mostrar os seus seios flácidos e mirrados). Quando me fartava dessa brincadeira, arranjava outras: esbofeteava uma criada, derramava leite para cima daqueles horrorosos tecidos e tapeçarias de que elas tanto gostavam, rompia em monólogos sobre violações, fogo e saque. Numa memorável manhã, deixei Andrômaca tão furiosa que a mulher de Heitor acabou por me declarar guerra—para logo descobrir que, quando moça, Helena praticara luta e tinha a maior facilidade em bater uma dama mimada. Deitei-a por terra e dei-lhe um murro no olho que, durante quase uma lua, a pobre Andrômaca andou de olho inchado, fechado e negro. Depois, tratei de espalhar que fora Heitor o autor de tão triste obra. Perseguiam Páris, advertindo-o de que devia disciplinar-me; a mãe, em particular, não o largava. Porém, sempre que ele se propunha a ralhar ou pedir-me que fosse mais simpática, eu desatava a rir dele e oferecia-lhe uma litania de todos os insultos de que fora alvo por parte das outras mulheres da corte. O que, tudo junto, significava que Páris era, para mim, uma presença cada vez mais fugaz. O Inverno chegou e a corte de Tróia sentiu-se pela primeira vez inquieta. Dizia-se que os Gregos tinham deixado a praia e percorriam agora a costa da Ásia Menor, atacando uma série de cidades muito afastadas entre si. Príamo enviou à praia um destacamento fortemente armado, a fim de investigar o que realmente se passava. Afinal, os Gregos continuavam lá—e até abandonaram o acampamento para travar breves escaramuças com o destacamento troiano. Mesmo assim, com o avançar do Inverno,
continuaram a chegar a Tróia notícias de ataques a outras cidades; um a um, os aliados de Príamo trataram de anunciar que já não podiam honrar as suas promessas. Agora, eram as suas próprias terras que se encontravam ameaçadas. Tarso, na Cilícia, foi incendiada e a sua população morta ou submetida à escravatura; os campos e os pastos situados cinqüenta léguas à volta da cidade foram queimados, depois dos cereais terem sido levados por navios gregos; o gado foi massacrado e as carnes queimadas em defumadores cilicianos para depois encherem as barrigas dos Gregos; os templos foram despojados dos seus tesouros, 115 o palácio do rei Eecião foi saqueado. Mísia foi a vítima seguinte. Lesbos resolveu auxiliar a Mísia, mas depressa se arrependeu, pois os Gregos atacaram-na. Termos foi arrasada; os Lesbianos lamberam as suas feridas e concluíram que talvez fosse mais oportuno juntarem-se a Agamêmnon, tanto mais que uma parte dos seus antepassados eram Gregos. Pouco tempo depois, na Cária, as cidades de Priena e Mileto sucumbiram às tropas gregas. Foi então que se instalou na corte troiana um verdadeiro pânico. Até mesmo Sarpédon e Glauco, os reis que em conjunto governavam a Lícia, se viram obrigados a ficar nos seus domínios. As notícias de cada novo ataque eram-nos comunicadas de um modo absolutamente inusitado. A mensagem era trazida por um arauto grego que se postava diante da Porta Ceia e gritava as suas notícias para o comandante da torre de vigia ocidental. Dizia-nos qual fora a cidade saqueada, quantos cidadãos haviam sido mortos, o número de mulheres e crianças vendidas como escravas, o valor dos despojos, o total de canecas de cereais. E concluía a sua mensagem sempre com as mesmas palavras:—Diz a Príamo, rei de Tróia, que foi Aquiles, o filho de Peleu, que me mandou! Os Troianos começavam a ficar apavorados com aquele nome. Na Primavera, Príamo teve de suportar em silêncio a presença do acampamento grego, já que as forças aliadas não apareceram para ajudá-lo e também porque ele não tinha dinheiro para comprar mercenários aos Hititas, aos Assírios ou aos Babilônios. O dinheiro troiano tinha de ser cuidadosamente conservado; agora, com efeito, eram os Gregos quem cobrava os tributos do Helesponto. Uma iniludível desolação começou a penetrar tanto os corações como os palácios troianos. E, como eu era a única criatura grega a viver na cidadela, todos, desde Príamo a Hécuba, me perguntavam quem era aquele homem chamado Aquiles. Contei-lhes o que sabia, mas quando lhes expliquei que o filho de Peleu pouco mais era do que um rapaz—embora possuindo uma
excelente linhagem todos duvidaram de mim. O tempo foi passando e o medo de Aquiles aumentando; a simples menção do seu nome chegava para que Príamo ficasse lívido. Apenas Heitor mostrava não estar com medo. Aparentemente, daria tudo para poder combater contra Aquiles. Os seus olhos iluminavam-se e a sua mão afagava o punhal sempre que o arauto grego se postava diante da Porta Ceia com notícias frescas. De fato, na mente de Heitor, um eventual combate contra Aquiles transformou-se numa verdadeira obsessão. Chegou a ponto de fazer oferendas em todos os altares da cidade, rogando aos deuses que lhe dessem a oportunidade por que o seu coração ansiava. Tudo o que queria era travar um duelo com Aquiles e matá-lo. Também ele me interrogou acerca de Aquiles: recusou-se a acreditar nas minhas respostas. Chegado o Outono do segundo ano, Heitor perdeu a paciência e pediu ao pai que o deixasse sair das muralhas com todo o exército troiano. Príamo ficou paralisado olhando para ele. Deve ter pensado nesse momento que o seu herdeiro tinha enlouquecido. — Não, Heitor—respondeu-lhe. — Pai, as nossas investigações revelaram que os homens que se encontram no acampamento são menos de metade do total dos soldados gregos! Seria fácil derrotá-los! Derrotado o exército que está acampado na praia, o exército de Aquiles teria de voltar para Tróia! Então... então os derrotaríamos! — Ou seríamos derrotados. — Pai, nós somos mais do que eles!—exclamou Heitor . — Não acredito nisso. Desesperado, Heitor continuou a apresentar motivos susceptíveis de convencerem o aterrorizado pai de que era ele quem tinha razão. — Nesse caso, deixe-me ir ter com Enéias a Lirnesso—com o apoio dos Dardanianos, ficaríamos com mais soldados do que Agamêmnon! — Enéias não quer envolver-se nos nossos dilemas. — Enéias me daria ouvidos, pai. Príamo ergueu-se, ofendido. —Autorizar o meu filho—autorizar o meu herdeiro—a suplicar ajuda aos Dardanianos? Mas você enlouqueceu, Heitor? Preferia morrer a curvar-me perante Enéias! Nesse preciso instante, por mero acaso, vi Enéias. Acabava de entrar na Sala do Trono, mas já ouvira o suficiente. A sua boca cerrada exprimia um claro desagrado; os seus olhos ora atentavam em Príamo, ora examinavam
Heitor, mas seria impossível saber que pensamentos lhe percorriam a mente. Antes que alguém importante reparasse nele—eu não era importante— deu meia volta e abandonou a sala. — Pai—disse Heitor, cada vez mais desesperado—,nós não vamos ficar eternamente no interior destas muralhas! Os Gregos estão decididos a reduzir a cinzas os nossos aliados! A nossa riqueza começa a minguar porque os nossos rendimentos se eclipsaram e porque o abastecimento da cidade está a tornando-se cada vez mais oneroso! Se não me deixa sair da cidade à frente do exército troiano, então me deixa ao menos chefiar destacamentos que possam apanhar os Gregos desprevenidos, que possam assolar os destacamentos deles e obrigá-los a acabar com estas insolentes expedições às nossas muralhas, com as quais pretendem apenas uma coisa—insultar-nos! Príamo sentiu-se vacilar . Pousou o queixo na mão e refletiu por um longo período. Após o qual suspirou e disse: — Muito bem. Comece a preparar os homens. Se conseguir convencerme de que não se trata de uma empresa temerária, poderá fazer aquilo que pretende. O rosto de Heitor todo se iluminou. — Não te desapontarei, meu pai! — Espero que não—retorquiu Príamo, manifestamente cansado. Alguém na Sala do Trono desatou a rir . Olhei à minha volta, surpreendida; pensava que Páris havia se ausentado uma vez mais. Mas não, ali estava ele, rindo a bom rir . Sombras turvaram de súbito a expressão feliz de Heitor; desceu do estrado e avançou por entre a multidão. — Qual a razão das suas gargalhadas, Páris? O meu marido aquietou-se um pouco, pôs um braço por cima dos ombros do irmão. — Você, Heitor, você! Tanta coisa por causa de umas simples escaramuças, quando tem uma mulher tão atraente em casa! Como é possível que prefira a guerra às mulheres? — Porque—atirou-lhe Heitor—eu sou um homem e não um rapaz bonito! Fiquei paralisada. O meu marido não era apenas um idiota—era também um covarde! Ah, que terrível humilhação! Dando-me conta do desprezo com que todos me olhavam, abandonei a sala. Idiotas e belos, assim éramos nós. Eu desistira do meu trono, da minha liberdade e dos meus filhos para viver numa prisão com um homem que era belo, idiota e também covarde. Porque sentia eu tão poucas saudades dos
meus filhos? A resposta era fácil. Os meus filhos pertenciam a Menelau; e agora, talves numa qualquer região da minha mente, via-me obrigada a juntar Menelau, os meus filhos e Páris num mesmo e odioso lote. Haveria destino mais terrível para uma mulher do que saber que em toda a sua vida, não havia um único ser que fosse digno dela? Precisava de ar fresco. Fui para o pátio que dava acesso aos meus aposentos e aí desatei a andar de um lado para o outro até conseguir aplacar a dor tremenda que sentia. A certa altura, ao virar-me, quase colidia com um homem que vinha em sentido contrário. Instintivamente, erguemos as nossas mãos para nos protegermos; por um momento, manteve-se a uma escassa distância de mim, contemplando curioso o meu rosto enquanto, nos seus olhos escuros, se esbatiam os últimos vestígios da sua própria ira. — Deve ser Helena—disse ele. — E você é Enéias. - Sou. — Não vem muitas vezes a Tróia—disse eu, entregando-me ao prazer de apreciá-lo. — Será capaz de me apontar uma razão para que eu venha? Não valia a pena dissimular . Sorri. — Não—disse. — Gosto do seu sorriso, mas se vê que está furiosa—disse ele.—Porquê? — Isso é um assunto só meu. — Discutiu com Páris? — De modo nenhum-retorqui, abanando a cabeça.—Discutir com Páris é tão difícil como agarrar em mercúrio. — Sem dúvida—disse ele. Nesse instante, inopinadamente, acaricioume o seio esquerdo. — Uma moda muito agradável, deixá-los assim... a descoberto... Mas há um problema, Helena: excitam muito um homem... As minhas pálpebras fecharam-se, a minha boca abriu-se expectante de desejo. — É agradável saber que os meus seios te excitam...—disse eu, num murmúrio quase inaudível. Esperando os seus lábios, o meu rosto procurou o seu rosto, os olhos ainda cerrados. Porém, quando os abri—porque não sentia já diante de mim rosto nenhum, tão-pouco os lábios, tão-pouco o beijo—Enéias já lá não estava. Agora que o tédio era uma coisa do passado, compareci na assembléia
seguinte decidida a seduzir Enéias. Mas Enéias não se dignou aparecer . Quando perguntei a Heitor, o mais descontraidamente possível, o que acontecera ao seu primo da Dardânia, o meu cunhado respondeu-me que Enéias aparelhara os cavalos no meio da noite e regressara para casa.
Capítulo Décimo Sétimo
Narrado por Pátrocles
Os estados da Ásia Menor tratavam agora de curar as suas feridas, depois dos sobreviventes terem se refugiado nas vastas montanhas que pertenciam aos Hititas. Temiam avançar para Tróia e temiam agrupar-se fosse onde fosse, porque não faziam a mínima idéia quanto ao local onde os Gregos atacariam a seguir . Na realidade, nós já os tínhamos derrotado antes de nos termos feito ao mar para a nossa primeira campanha; todas as vantagens estavam do nosso lado; percorríamos a costa demasiado longe para que pudessem espiar-nos de terra; a nossa mobilidade era muito maior do que a deles, pois as vias de comunicação entre os vários focos populacionais daquela região de vales profundos e serras escarpadas não facilitavam os movimentos. As nações da Ásia Menor, de fato, comunicavam através do mar, e, agora, éramos nós que dominávamos o mar . Ao longo do primeiro ano, interceptamos muitos navios que traziam armas e comida para Tróia, mas tais comboios cessaram logo que os reis da Ásia Menor perceberam de que éramos nós, e não os Troianos, quem ganhávamos. Éramos muitos para eles; nenhuma das cidades que se espalhavam por aquela longa costa poderia nutrir a esperança de que, um dia, conseguiria reunir um exército forte o suficiente para nos derrotar . Por outro lado, as muralhas das suas cidades eram demasiado fracas para as nossas investidas. E foi assim que saqueamos dez cidades em dois anos, algumas tão distantes como Tarso, na Cilícia, outras tão próximas de Tróia como Mísia e Lesbos. Sempre que navegávamos, Fênix deixava os navios de abastecimento entre Assos e Tróia sob o comando do seu lugar-tenente, e seguia conosco, chefiando os duzentos navios vazios onde seriam guardados os despojos. Sempre que deixávamos para trás mais uma cidade incendiada, esses mesmos navios ficavam tão carregados de despojos que havia quem temesse o seu afundamento; até mesmo os navios que transportavam os soldados rangiam sob o peso dos despojos que não tinham cabido nos duzentos navios de Fênix. Aquiles era implacável. Poucos eram os sobreviventes—seria praticamente impossível voltar a organizar a resistência antigrega. Aqueles que não podíamos reduzir à escravatura ou vender ao Egito e à Babilônia eram mortos—mulheres idosas, homens mirrados pela idade, todos aqueles
que os negociantes de escravos achavam que já não teriam qualquer préstimo. Ao longo daquela costa, o nome de Aquiles era um nome odiado e, no meu íntimo, eu não poderia condenar aquela gente por odiar Aquiles. No início do nosso terceiro ano, Assos regressou lentamente à vida; a neve começava a derreter, as árvores prometiam flores. Não havia entre nós disputas nem divergências, pois há muito que havíamos esquecido todas as lealdades, exceto aquela que devíamos a Aquiles e ao Segundo Exército. Sessenta e cinco mil homens estavam aquartelados em Assos: um núcleo duro de vinte mil veteranos que fazia sempre parte do nosso exército, mais trinta mil que ficavam conosco o tempo que durasse a campanha, mais quinze mil profissionais e artífices de todo o tipo, alguns dos quais permaneciam em Assos todo o ano. Um dos chefes permanentes ficava sempre em Assos, para o caso da Dardânia resolver atacar a cidade, enquanto a frota se fazia ao mar; até mesmo Ájax chegou a ficar em Assos, embora Aquiles navegasse sempre; tal como eu, pois nunca me separava de Aquiles. O meu amigo era um chefe feroz—eram impiedosos os seus ataques e um inimigo que se rendesse pouco ou nada ganhava com isso. Mal vestia a sua armadura, Aquiles tornava-se tão frio como o vento norte, implacável. A razão da nossa existência—dizia-nos ele—era assegurar a supremacia grega e não deixar naquelas terras qualquer oposição, tendo em vista o dia em que as nações gregas começassem a enviar os seus excedentes populacionais para as novas colônias da Ásia Menor . Após uma campanha na Lícia, já no fim do Inverno (Aquiles parecia ter um pacto com os deuses do mar, pois nunca tínhamos problemas de navegação, fosse no Verão, fosse no Inverno), abeirávamo-nos finalmente do porto de Assos. Ájax estava na praia para nos saudar, informando-nos, com eufóricos sinais, do seu tremendo desejo de voltar para a guerra, e de que, durante a nossa ausência, não se registrara qualquer ameaça à cidade. A Primavera inundara já as terras de Assos: a erva chegava aos tornozelos, flores temporãs salpicavam os prados, os cavalos do acampamento saltavam e brincavam nos seus pastos, o ar era suave e tão estonteante como o vinho a que não misturamos água. Enchendo os nossos peitos das fragrâncias daquele que era então o nosso lar, corremos às amuradas dos navios, desejosos de saltar para os seixos que rolavam ao sabor das marés. Separamo-nos depois, com a intenção de nos encontrarmos mais tarde. Ájax acompanhou o Pequeno Ájax e Teucro, os seus braços portentosos cingindo os ombros de ambos, ao passo que Meríona seguia à frente de todos,
inchado de superioridade cretense. Quanto a mim, acompanhei Aquiles, deliciado por estar de novo em Assos. As mulheres tinham trabalhado duramente durante a nossa ausência; nos quintais e jardins, rebentos de um verde-pálido prometiam ervas e legumes para as panelas, ou grinaldas de flores para as nossas cabeças. Uma bela região, a de Assos, completamente diferente daquela onde Agamêmnon montara o seu desolado acampamento. As nossas habitações espalhavam-se a esmo por entre o abundante arvoredo e as ruas serpeavam tal e qual as ruas de qualquer cidade. Claro que, apesar disso, a segurança era total. Rodeavam-nos uma muralha com vinte cúbitos de altura, uma paliçada e uma trincheira; e nem mesmo durante as mais frias luas de Inverno faltava um único guarda nas nossas fortificações. Não que o inimigo mais próximo, a Dardânia, parecesse interessado em atacar-nos; constava que o seu rei, Anquises, continuava de candeias às avessas com Príamo. Havia mulheres por todo o lado no acampamento, algumas já com gravidez adiantada; aliás, durante o Inverno, haviam nascido imensos bebês. Agradou-me vê-los, mais às suas mães, pois tinham o condão de mitigar a angústia que a guerra sempre traz, o vazio que em nós sempre provoca o ato de matar . Nenhum daqueles bebês era meu, tão-pouco de Aquiles. Considero as mulheres criaturas interessantes, ainda que não sinta por elas nenhuma atração física. Todas aquelas mulheres eram cativas das nossas espadas; contudo, depois do choque e da desorientação iniciais, pareciam ter conseguido esquecer o passado e os homens que haviam amado; como que se tinham convencido de que poderiam amar um outro homem, ter novas famílias e adotar os costumes gregos. Bom, elas não eram guerreiros—eram a presa dos guerreiros. Quer-me parecer que as realidades femininas lhes são ensinadas na infância pelas suas mães. As mulheres são construtoras de ninhos; por isso, para elas, o ninho é algo de extrema importância. Claro que houve algumas que nunca conseguiram esquecer o passado, que choravam, que lamentavam a sua sorte; não ficaram muito tempo em Assos; vendidas como escravas, foram trabalhar para as terras lamacentas onde o Eufrates quase se junta ao Tigre; imagino que aí terão morrido, chorando ainda a sua triste sorte. O salão era a maior divisão da nossa casa, servindo tanto de sala de estar como de sala de reuniões. Aquiles e eu entramos ao mesmo tempo, os nossos ombros juntos roçando a estrutura da porta. Sentia sempre um prazer tremendo quando entrávamos os dois juntos
por aquela porta, como se, de algum modo, esse simples ato fosse um claro símbolo daquilo em que nos havíamos transformado: senhores do mundo. Despi a minha armadura sozinho, ao passo que Aquiles deixou que as mulheres lhe tirassem a sua, erguendo-se como uma torre, enquanto meia dúzia de escravas se atarefavam a desapertar correias e a desatar nós, desatando num cacarejar nervoso logo que viram o longo vergão negro de uma ferida meio sarada nas suas coxas. Nunca consegui aceitar que as escravas me desarmassem; eu bem vira os seus rostos quando as havíamos escolhido como parte do nosso quinhão dos despojos. Mas Aquiles não se preocupava nada com isso. Deixou que elas lhe tirassem a espada e o punhal, aparentemente sem se dar conta de que uma delas poderia aproveitar tal oportunidade para matá-lo. Desconfiado, sondei os seus movimentos, mas tive de concluir que era diminuto o perigo de isso ocorrer . Desde a mais nova à mais velha, todas estavam apaixonadas por ele. As nossas banheiras estavam cheias de água quente. Saiotes e blusas lavados de fresco esperavam-nos mal acabássemos de tomar banho. Depois de comermos e bebermos, Aquiles mandou embora as mulheres e, com um suspiro, recostou-se no divã. Estávamos ambos cansados, mas não valeria a pena tentarmos dormir; a luz do dia escoava-se já pelas janelas e era muito provável que, em breve, os nossos amigos invadissem a nossa habitação. Aquiles tinha estado muito calado o dia todo—nada de invulgar, exceto que o silêncio daquele dia sugeria que a sua mente pairava muito longe dali. Não gostava de vê-lo assim. Era como se ele se afastasse para um lugar qualquer onde eu não tinha entrada, para um mundo que era só seu, deixando-me gritando às suas portas sem que ninguém me ouvisse. Aproximei-me dele e toquei-lhe no braço, ainda que com mais força do que desejava. - Aquiles, mal tocou no vinho. - Não tenho vontade. - Sente-se mal? A minha pergunta surpreendeu-o. - Não. É sinal de doença eu recusar o vinho? - Não. Será antes sinal de que a tua disposição não é a melhor . Suspirou profundamente, olhou lentamente à sua volta. - Adoro esta sala mais do que qualquer outra. Porque esta sala pertenceme. Porque não há nela uma única coisa que não tenha sido ganha com a
minha espada. Esta sala diz-me que eu sou Aquiles, não o filho de Peleu. - Sim, é uma bela sala—disse eu. Aquiles franziu o sobrolho. -A beleza é uma indulgência dos sentidos, é algo que eu ponho ao mesmo nível que a enfermidade. Não, eu adoro esta sala porque ela é o meu troféu. - Um esplêndido troféu—disse eu, meio atrapalhado. Ele ignorou as minhas palavras banais e de novo se refugiou no seu mundo privado; tentei uma vez mais trazê-lo de volta ao nosso mundo. - Apesar de vivermos juntos há já tanto tempo, continua a dizer coisas que não entendo. Estou convicto de que gosta de certas manifestações do belo. Viver considerando que o belo é uma enfermidade não é viver, Aquiles. - Pouco me interessa como é que vivo ou quanto tempo vou viver— retorquiu.—A única coisa que me interessa é que a minha vida assegure a minha fama eterna. É preciso que os homens não me esqueçam depois de o meu corpo ter descido à sepultura.—A sua disposição alterou-se de repente. —Crê que, no meu desejo de alcançar a fama, tenho seguido pelo caminho errado? - Isso é algo que só depende de você e dos deuses—respondi.—Não pecou contra os deuses—não matou nenhuma mulher fértil nem crianças demasiado pequenas para poderem empunhar armas. Não é pecado condená-las à servidão. Não matou de fome nenhuma cidade. Se a tua mão tem sido pesada, também é verdade que não tem sido uma mão criminosa. Só que eu sou uma criatura mais branda do que você—é só essa a diferença. Um sorriso esboçou-se nos seus lábios. - Subestimas-se, Pátrocles. Com uma espada na mão, você é tão duro e valente como qualquer um de nós. - A batalha é algo diferente. Sou capaz de matar sem piedade num campo de batalha. Por vezes, porém, os meus sonhos são sombrios e tormentosos. - Tal como os meus. Ifigênia amaldiçoou-me antes de morrer . Incapaz de prosseguir a conversa, Aquiles refugiou-se de novo nos seus pensamentos; calei-me também e contemplei-o, pois contemplá-lo era precisamente aquilo que eu mais gostava de fazer . Muitas das suas qualidades escapavam à minha compreensão; contudo, se havia no mundo algum homem que conhecesse Aquiles, esse homem era eu. Aquiles possuía a invulgar capacidade de atrair o amor de todas as pessoas: tanto o dos Mirmidões como o das suas cativas—ou o meu amor . Porém, a razão dessa
atração não estava nos seus atributos físicos, mas sim numa faceta muito peculiar do seu espírito, num território espiritual que parecia faltar a todos os outros homens. Desde que havíamos largado de Áulida, havia três anos, que Aquiles se tornara um indivíduo extremamente reservado; perguntava-me, por vezes, se a sua esposa o reconheceria quando voltassem a se ver . Claro que a raiz dos seus problemas era a morte de Ifigênia—algo que eu compreendia e partilhava. O que eu não compreendia era o distante mundo onde os seus pensamentos o levavam, os lugares mais recônditos da sua mente. Uma súbita e fria rajada de vento fez esvoaçar as cortinas de cada lado da janela. Estremeci, sobressaltado. Aquiles continuava deitado de lado, a cabeça pousada sobre uma mão, mas a sua expressão havia mudado. Chamei por ele: não me respondeu. De súbito, assustado, saltei do meu divã para a beira do divã dele. Pus a minha mão sobre o seu ombro nu, mas ele pareceu não perceber . Com o coração num alvoroço, fitei a pele sob a minha mão e baixei a cabeça até que os meus lábios a afagaram; lágrimas corriam-me sob as pálpebras, tão rapidamente que uma delas deslizou pelo seu braço. Amedrontado, afastei os lábios do seu ombro mal ele se virou para me fitar; havia nos seus olhos uma expressão não inteiramente clara—como se, naquele exato momento, houvesse visto o verdadeiro Pátrocles pela primeira vez. Abriu aquela pobre fenda sem lábios para falar, mas não chegou a dizer aquilo que quereria dizer-me. Os olhos procuraram a porta aberta e a boca murmurou apenas: - A minha mãe. Horrorizado, reparei que estava babando, que a sua mão esquerda se agitava numa convulsão, que o lado esquerdo do rosto se arrepanhava. Então, inopinadamente, caiu no chão; todo o seu corpo se retesou, a espinha arqueou-se, os olhos ficaram tão cegos e tão brancos que pensei que ele ia morrer . Sentei-me a seu lado no chão, encostei-o em mim, estreitei-o nos meus braços, esperando até que o negrume do rosto se esbatesse e se transformasse num cinzento eivado de manchas, que as convulsões parassem, que ele revivesse. Quando tudo acabou, limpei-lhe a saliva que tinha nos cantos da boca, embalei-o nos meus braços, afaguei-lhe o cabelo encharcado de suor . - Que aconteceu contigo, Aquiles? Os seus olhos nublados fixaram-se nos meus; lentamente, voltava a este mundo. Então, suspirou como uma
criança exausta. - A minha mãe voltou e trouxe com ela o sortilégio. Creio que, durante todo o dia, a senti por perto. O sortilégio! Então aquilo é que era o sortilégio? A mim, parecia-me muito simplesmente um acesso de epilepsia, embora os epilépticos que conhecera acabassem sempre por perder faculdades mentais até caírem por completo na demência; por outro lado, a demência, ao fim de pouco tempo, conduzia-os inevitavelmente à morte. Aquilo de que Aquiles padecia—fosse lá o que fosse—não afetava a sua mente. Havia ainda que ter em conta a reduzida freqüência dos acessos. De fato, fora em Ciros, bastantes anos antes, que o sortilégio se manifestara pela última vez. - Porque ela veio, Aquiles? - Para eu não me esquecer de que vou morrer . - Não pode dizer uma coisa dessas! Como é que sabe?—Ajudei-o a erguer-se, a deitar-se no divã. Sentei-me a seu lado.—Desta vez, Aquiles, eu pude ver os efeitos desse tal sortilégio. A mim, pareceu-me um ataque epiléptico. - Talvez tenha razão, talvez eu padeça de epilepsia. Mas é a minha mãe que provoca os acessos—para que eu não me esqueça da minha mortalidade. E tem razão. Eu morrerei antes que Tróia caia nas nossas mãos. O sortilégio é um prenúncio de morte, da minha futura vida no mundo das sombras, sem sentir nada, longe de tudo...—A sua boca cerrou-se por um momento.—Longa e ignominiosa ou curta e gloriosa. Não há escolha—e é isso que ela não entende. As aparições da minha mãe, sob a forma deste sortilégio, não poderão alterar rigorosamente nada. A minha escolha está feita desde Ciros. Virei-lhe as costas, ocultei os olhos com o braço. - Não chore por mim, Pátrocles. Eu escolhi o destino que queria. Afastei as lágrimas. - Não choro por ti, Aquiles, choro por mim mesmo. Embora não estivesse olhando para ele, senti que algo nele mudara. - Nós partilhamos o mesmo sangue, Pátrocles—disse ele.—Um momento antes do sortilégio me ter vencido, vi em ti algo que nunca antes vira. - O meu amor por ti—disse eu, com um nó na garganta. - Sim. Desculpe. Devo ter te magoado muitas vezes, por não compreender o teu amor . Mas diga-me: porque chora?
- Os homens choram quando o seu amor não é retribuído. Aquiles levantou-se do divã e estendeu-me as suas mãos. - Eu retribuo o seu amor, Pátrocles—disse ele.—Sempre retribuí. - Mas você não é um homem capaz de amar outro homem, e é esse o amor que eu quero. - Talvez isso fosse verdade se eu tivesse escolhido uma vida longa e ignominiosa. Mas não foi essa a minha escolha. E, embora não possa te dar todo o amor que quer, a verdade é que não me repugna a idéia de fazer amor contigo. Estamos juntos neste exílio—e creio que seria maravilhoso se partilhássemos o exílio tanto em espírito como na carne—disse Aquiles. Foi nesse dia que nos tornamos amantes, ainda que não encontrasse no homem que amava o êxtase com que havia sonhado. Mas alguma vez encontraremos esse êxtase? Aquiles ardia por muitas coisas—o saciar do desejo físico nunca foi uma delas. Mas que importância é que isso tinha? Muito pouca... Ele me pertencia mais do que a qualquer mulher, e nisso, pelo menos, achava eu alguma satisfação. O amor não é verdadeiramente o corpo. O amor é a liberdade de percorrer sem barreiras o coração e a mente do amado. Só ao fim de cinco anos regressamos a Tróia e a Agamêmnon. Como não poderia deixar de ser, acompanhei Aquiles, que decidira levar também consigo Ájax e Meríona. Estava consciente de que esta visita já deveria ter sido feita há muito tempo, mas creio que, mesmo assim, Aquiles nunca teria ido se não tivesse realmente necessidade de se encontrar com Ulisses. Com o tempo, a ingenuidade dos estados da Ásia Menor dera lugar à astúcia; com efeito, graças a elaborados estratagemas, já eram capazes de antecipar os nossos ataques. A longa e desolada praia entre os rios Simoente e Escamandro nem parecia a mesma que havíamos deixado quatro anos antes. O ar improvisado, atamancado, do acampamento inicial, desaparecera por completo; tudo naquela praia falava de permanência e determinação. As fortificações eram eficientes e bem concebidas. Havia duas entradas para o acampamento, uma no Escamandro, outra no Simoente, onde pontes de pedra haviam sido erguidas por sobre a trincheira e portas enormes abertas na muralha. Ájax e Meríona desembarcaram na extremidade da praia junto ao Simoente, ao passo que eu e Aquiles aportamos junto ao Escamandro, logo descobrindo que haviam sido construídas habitações para albergar os
Mirmidões mal estes regressassem. Avançamos pela estrada principal do acampamento, procurando a nova casa de Agamêmnon, a qual, ao que nos tinham dito, era verdadeiramente grandiosa. Homens curavam feridas descansando ao sol, outros assobiavam alegres enquanto aplicavam sebo nas armaduras de cabedal ou poliam as de bronze, outros ainda retiravam plumas cor de púrpura de elmos troianos, certamente com a intenção de virem a usá-las numa próxima batalha. Um local onde a azáfama e a alegria eram evidentes. Não havia dúvida: as tropas que tinham ficado em Tróia não conheciam a doença da preguiça. Ulisses vinha saindo da casa de Agamêmnon no preciso momento em que chegamos. Quando nos viu, encostou a lança ao pórtico e, com um sorriso imenso, abriu para nós os seus braços. Havia duas ou três cicatrizes novas no seu robusto corpo—seriam vestígios de alguma batalha ou das suas excursões noturnas? Entre todos os homens desonestos que pude conhecer, Ulisses foi o único que nunca receou arriscar a sua vida num campo de batalha. Talvez porque nele tudo era da cor do fogo, ou talvez porque estava convencido de que, graças a Palas Atena, um encantamento protegia a sua vida. - Já não era sem tempo!—exclamou, abraçando-nos. E, virando-se para Aquiles:—Finalmente! O herói conquistador! - Já não conquisto tanto como conquistava. As cidades costeiras aprenderam a lição: já conseguem prever os meus ataques. - Podemos falar disso mais tarde—disse Ulisses, entrando conosco. Tenho de lhe agradecer a consideração que demonstraste por nós, Aquiles. Mandaste-nos generosos despojos e algumas mulheres muito interessantes. - Nós, em Assos, não padecemos de cobiça. Mas, pelo que vejo, você também tem tido muito trabalho por estas bandas. Muitos combates? - O bastante para manter todos em forma. Heitor tem lançado uns ataques particularmente irritantes. Aquiles, de súbito, pôs um ar alerta. Heitor? - O herdeiro de Príamo e comandante dos Troianos. Agamêmnon deunos as boas-vindas com um ar satisfeito mas formal. Contudo, não nos propôs sequer que passássemos a manhã com ele. Aquiles também não teria gostado de tal proposta; desde que ouvira o nome de Heitor que estava desejoso de saber mais e mais acerca do príncipe troiano e tinha perfeita consciência de que Agamêmnon não era a pessoa mais indicada para o
informar . Nenhum deles tinha de fato mudado ou envelhecido, tirando uma ou duas cicatrizes novas. Se alguém tinha mudado, era Nestor, que parecia mais novo. Nestor estava no seu elemento, ocupado e constantemente estimulado. Idomeneu tornara-se menos indolente, o que era bom para a sua figura. Apenas Menelau parecia não ter beneficiado com a vida num acampamento de campanha; o pobre coitado continuava roído de saudades de Helena. Ficamos como convidados de Ulisses e Diomedes, que também tinham se tornado amantes. Em parte por necessidade, em parte porque gostavam francamente um do outro. As mulheres eram uma complicação para homens que levavam a vida que nós levávamos, e Ulisses, creio eu, nunca havia reparado em outra mulher além de Penélope, ainda que constasse que não se recusava a seduzir algumas mulheres troianas a fim de obter informações. Pela primeira vez, Ulisses falou-nos da existência da sua colônia de espiões—uma história verdadeiramente extraordinária. Ninguém sabia de nada. - É espantoso que ninguém saiba de nada!—disse Aquiles.—Por todos os deuses, se eles soubessem! Eu não sabia—tal como nenhum dos meus companheiros. - Nem mesmo Agamêmnon sabe—disse Ulisses. - Por causa de Calcas?—perguntei. - Um palpite perspicaz, Pátrocles... Com efeito, eu não confio em Calcas. - Bom, não será através de nós que Agamêmnon e Calcas saberão disse Aquiles. Ficamos em Tróia uma lua. Durante todo esse tempo, Aquiles só pensou numa coisa—defrontar Heitor . - Aconselho-o a esquecer Heitor, rapaz—disse Nestor no final de um jantar que Agamêmnon deu em nossa honra.—Pode ficar aqui todo o Verão e não ver Heitor uma única vez. As surtidas de Heitor parecem não obedecer a qualquer plano. Não podemos prevê-las, apesar de todas as informações que Ulisses nos traz de Tróia. E, neste momento, nós também não temos projetada nenhuma incursão. - Incursões?—perguntou Aquiles, alarmado.—Vão tomar a cidade na minha ausência? - Não, não!—exclamou Nestor .—Não temos condições para tomar de
assalto Tróia: nem mesmo que a Cortina Ocidental ruísse amanhã. Vocês têm a melhor parte do exército em Assos—e sabem muito bem que têm. Volte para Assos, Aquiles! Não vale a pena ficar aqui à espera de Heitor . - Nada indica que Tróia venha a cair na sua ausência, príncipe Aquiles disse uma voz suave atrás de nós: o sacerdote Calcas. - Que quer dizer com isso?—perguntou Aquiles, obviamente perturbado por aqueles olhos róseos e vesgos. - Tróia não poderá cair na sua ausência. É o que dizem os oráculos.—E logo se afastou, o manto púrpura tremeluzindo de ouro e pedras preciosas. Ulisses fazia bem em manter secretas algumas das suas atividades. O nosso rei supremo nutria grande estima pelo velho; a sua residência (vizinha da de Agamêmnon) era suntuosa e Calcas podia escolher à vontade entre as mulheres que nós enviávamos de Assos. Diomedes contou-me que, certa vez, Idomeneu ficou tão furioso por Calcas lhe ter roubado uma mulher de quem gostava, que levou o caso ao conselho e obrigou Agamêmnon a tirar a mulher do sacerdote e a dá-la ao seu co-comandante. E foi assim que Aquiles deixou Tróia profundamente decepcionado. Tal como Ájax, como se veio a ver . Ambos tinham perambulado vezes sem conta pela ventosa planície troiana, na esperança de convencerem Heitor a abandonar as muralhas. Contudo, nem sequer a sombra de Heitor—ou de quaisquer tropas troianas—conseguiram ver . Os anos foram avançando inexoravelmente, sem que nada de fundamental mudasse. As nações da Ásia Menor foram tombando lentamente, enquanto os mercados de escravos do mundo transbordavam de Lícios, Cários, Cilicianos e de mais uma dúzia de nacionalidades. Nabucodonosor recebia de bom grado tudo o que lhe mandávamos para Babilônia, ao passo que Tiglate-Pileser da Assíria esquecia os laços que uniam os Hititas aos Troianos e comprava milhares de escravos. Descobri que não havia uma única nação que se desse por satisfeita com os escravos que tinha e que há muito que não havia uma guerra—nem um Aquiles que fornecesse tantos escravos a essas nações. Nos intervalos entre os nossos ataques, a vida nem sempre foi pacífica. Houve momentos em que a mãe de Aquiles o perseguiu, dia após dia, com o seu maldito sortilégio; depois, partia para um lugar qualquer e deixava-o tranqüilo durante luas a fio. Porém, eu aprendera a tornar esses períodos mais fáceis para ele; Aquiles dependia agora de mim para todas as suas necessidades. E haverá algo de mais reconfortante do que saber que o nosso
amado depende de nós para tudo? Um navio chegou certa vez de lolcos, trazendo mensagens de Peleu, Licomedes e Deidamia. Graças ao constante fluxo de bronze e de mercadorias que agora se verificava no Egeu, a prosperidade voltara à Grécia. Enquanto a Ásia Menor ficava sem pinga de sangue, a Grécia engordava. Segundo Peleu, os primeiros colonizadores gregos da Ásia Menor tinham começado já a reunirse em Atenas e Corinto. Para Aquiles, a notícia mais importante era a que dizia respeito ao seu filho, Neoptolemo. Pouco tempo faltava para que chegasse à idade adulta! Quanto tempo já se passara! Segundo Deidamia, o rapaz estava quase tão alto como o pai e mostrava possuir a mesma aptidão para o combate e as armas. Embora fosse mais turbulento do que o pai e tivesse já feito mil conquistas femininas. Isto para não falar do seu mau gênio e de uma tendência para beber demasiado vinho sem água. Daí a dias, faria dezesseis anos. - Vou ordenar a Deidamia e a Licomedes que mandem o rapaz para a corte do meu pai—disse Aquiles depois de ter mandado embora o mensageiro.—O meu filho precisa da mão de um homem a controlá-lo.—O seu rosto franziu-se de tristeza.—Ah, Pátrocles, os filhos que eu e Ifigênia não teríamos tido! Sim, a morte de Ifigênia continuava a atormentá-lo—ainda mais, cria eu, do que Tétis e o seu sortilégio. Precisamos de nove anos para reduzir a cinzas a Ásia Menor . No final do nono Verão, já não havia mais nada para fazer . Os colonizadores gregos começavam a chegar a locais como Colofão e Apasas, todos eles desejosos de iniciarem uma nova vida numa nova terra. Alguns se dedicariam à agricultura, outros ao comércio, outros ainda, provavelmente, seguiriam para leste ou para norte. Nada disso tinha a mínima importância para nós, que formávamos o núcleo duro do Segundo Exército. A nossa missão estava concluída. Ou melhor: faltava ainda o ataque, nesse Outono, a Lirnesso, a capital do reino da Dardânia.
Capítulo Décimo Oitavo Narrado por Aquiles
A Dardânia ficava mais perto de Assos do que qualquer outra nação da Ásia Menor . Contudo, deixara-a deliberadamente em paz durante os nove anos da nossa campanha, enquanto reduzíamos a ruínas as cidades costeiras da Ásia Menor . Uma das razões para esta decisão residia no fato da Dardânia ser um território interior que partilhava uma fronteira com Tróia. A outra razão era mais sutil: eu queria dar aos Dardanianos um falso sentimento de segurança, queria que eles acreditassem que o fato de estarem longe do mar os tornava invioláveis. Além disso, a Dardânia não confiava em Tróia. Enquanto os deixasse em paz, o velho rei Anquises e o seu filho Enéias não se associariam a Tróia. Agora, tudo isso estava prestes a mudar . A invasão da Dardânia não demoraria. Em vez da longa viagem habitual, preparei as minhas tropas para uma árdua jornada; se Enéias, por acaso, estivesse à espera de algum ataque, pensaria por certo que iríamos por mar, contornaríamos o canto da península e aportaríamos à costa defronte de Lesbos. Daí até Lirnesso, seria uma marcha de apenas quinze léguas. Mas eu tencionava marchar a partir de Assos: quase cem léguas de terras desoladas, desde as encostas do monte Ida até ao fértil vale que albergava Lirnesso. Ulisses dera-me batedores experientes. Antecipadamente, mandei-os investigar as terras por onde passaríamos; informaram-me de que havia densas florestas, de que, no nosso caminho, poucos lugares havia, e de que os pastores não se aventuravam a sair com o gado, pois o Outono era severo. Mandei que trouxessem dos depósitos todas as peles e botas resistentes que houvesse, pois o Ida estava coberto de neve até meio dos seus flancos, e era muito provável que apanhássemos tempestades de neve. Calculava que marcharíamos cerca de quatro léguas por dia; ao fim de vinte dias, avistaríamos o nosso objetivo final. Ao Décimo quinto dia, Fênix, o meu almirante, conduziria a sua frota até à praia deserta de Andramítio, o porto mais próximo. Não era crível que a Fênix se deparasse oposição. Eu incendiara Andramítio no início do ano— pela segunda vez. Avançamos silenciosa e calmamente e os dias de marcha foram-se
sucedendo sem incidentes. Não havia pastores nas colinas nevadas—não havia ninguém que pudesse correr para Lirnesso a fim de denunciar a nossa presença. A tranqüila paisagem só a nós pertencia e a nossa marcha, afinal, revelou-se mais fácil do que pensara. Não admira, pois, que tenhamos avistado a cidade de Lirnesso ao Décimo sexto dia. Ordenei aos meus homens que parassem e proibi as fogueiras até poder determinar se teríamos ou não sido detectados. Era meu hábito proceder sozinho à investigação final; parti por isso a pé e sem qualquer companhia, ignorando os protestos de Pátrocles, o qual, por vezes, me fazia lembrar uma galinha velha. Porque será que o amor sempre alimenta o sentimento de posse e reduz drasticamente a liberdade? Ao fim de não mais de três léguas, subi uma colina e vi Lirnesso a meus pés, espraiando-se por uma vasta área e dispondo de boas muralhas e de uma cidadela elevada. Estudei por algum tempo a cidade, combinando aquilo que via com o que os batedores de Ulisses me haviam dito. Não, o assalto não seria fácil; por outro lado, também era verdade que seria muito menos difícil do que o assalto às muralhas de Esmirna ou de Tebas Hipoplaquiana. Cedendo à tentação, desci um pouco a encosta, tanto mais que o lugar era verdadeiramente aprazível; com efeito, aquele era o lado do monte protegido do vento, além de não haver neve, nem frio. Um erro grave, Aquiles!, disse para mim mesmo, e, nesse exato momento, quase tropeçava nele: uma criatura humana que estava deitada no chão. O desconhecido afastou-se, rolando agilmente sobre si mesmo, e, com extrema maleabilidade, pôs-se de pé; depois, correu até ficar fora do alcance da minha lança; por fim, parou para me examinar . O desconhecido fazia-me lembrar, e de que maneira, Diomedes; tinha mesmo o ar feroz e felino de Diomedes e, tendo em conta o vestuário e o porte, só poderia ser um membro da mais alta nobreza. Tendo memorizado o catálogo de todos os dirigentes troianos e aliados que Ulisses fizera para nós, decidi que aquele só poderia ser Enéias. — Eu sou Enéias e não estou armado!—gritou ele. — Tanto pior, dardaniano! Eu sou Aquiles e estou armado! Aparentemente muito pouco impressionado, Enéias ergueu as sobrancelhas e atirou-me: — Não há dúvida: há momentos na vida de um homem precavido em
que a prudência deve sobrepor-se à coragem! Encontramo-nos em Lirnesso! Sabendo que era um bom corredor, mais veloz do que muitos outros, tratei de persegui-lo a um ritmo ligeiro, não excessivamente rápido. Queria ver se conseguia cansá-lo. Mas Enéias era muito veloz, além de que conhecia a disposição do terreno. Obrigou-me por isso a me meter por caminhos cheios de moitas (e onde há moitas, sempre há espinhos), a avançar por terrenos crivados de crateras (as tocas de raposas e coelhos), e, por fim, a atravessar um curso de água tão largo quanto baixo; ele atravessou o rio com facilidade, pois conhecia bem as pedras que a água ocultava, ao passo que eu tinha de parar em cada rocha e procurar a seguinte. E foi assim que o perdi de vista e desatei a amaldiçoar a minha estupidez. Lirnesso saberia, com um dia de antecedência, que os Gregos iam atacála. Mal o Sol apareceu no céu, dei início à marcha; confesso que a minha disposição deixava muito a desejar . Trinta mil homens espalharam-se pelo vale de Lirnesso, cingindo facilmente as muralhas da cidade. Os Dardanianos acolheram-nos com uma rápida saraivada de dardos e lanças, mas os meus homens ergueram os escudos para se protegerem e não sofremos nenhuma baixa. Com uma coisa fiquei espantado: parecia não haver muitos homens dentro das muralhas! Perguntei-me se os Dardanianos não seriam por acaso uma raça de covardes. No entanto, Enéias parecia tudo menos o chefe de um povo degenerado. Lançamos as escadas de corda. Conduzindo os Mirmidões, alcancei a pequena passagem que encimava as muralhas sem se me ter deparado uma única pedra ou com as temíveis ânforas de azeite fervendo. Quando um pequeno grupo de defensores apareceu, ceifei-os num ápice com o meu machado, sem precisar sequer pedir reforços. Ao longo de toda a muralha, as minhas tropas dizimavam o inimigo com uma facilidade francamente ridícula... Depressa entendi porquê: os nossos oponentes eram todos velhos e rapazes. Ao fim de pouco tempo, descobri que Enéias, no dia anterior, regressara à cidade e ordenara imediatamente aos seus soldados que pegassem em armas. Mas não com a intenção de me enfrentar . Com efeito, o filho de Anquises partira sem demora para Tróia com o seu exército. — Parece que os Dardanianos também têm um Ulisses—disse eu para Pátrocles e Ájax.—Uma verdadeira raposa ... ! Príamo ficará com mais vinte
mil homens chefiados pelo Ulisses da Dardânia. Esperemos que os preconceitos do velho não o deixem ver o portento que Enéias é.
Capítulo Décimo Nono Narrado por Briseida
Lirnesso morreu fechando as asas e espalhando a sua plumagem por sobre a desolação, com um grito que era todos os gritos de todas as mulheres postos numa só boca. Deixáramos Enéias entregue aos cuidados da sua mãe imortal, Afrodite, felizes porque lhe fora concedida a oportunidade de salvar o nosso exército. Todos os cidadãos tinham concordado que não havia outra coisa a fazer: só assim a Dardânia, ou uma parte dela, poderia continuar viva para enfrentar e abater os Gregos. Velhas armaduras haviam sido retiradas de baús por mãos deformadas que mal agüentavam o esforço; rapazes lívidos de medo haviam envergado as suas armaduras de brinquedo, presas fáceis para as lâminas de bronze. Claro que morreram. Todos morreram. Veneráveis barbas encharcadas de sangue dardaniano, os gritos de guerra de pequenos soldados convertidos em soluços aterrados de meninos. O meu pai levara até o meu punhal; com lágrimas nos olhos, explicou-me que não poderia deixar nas minhas mãos a arma que me libertaria da servidão; o meu punhal, tal como os punhais de todas as outras mulheres, estaria melhor nas mãos dos soldados, ainda que estes não fossem mais do que velhos ou meninos. Impotente, assisti da minha janela à morte de Lirnesso, suplicando a Ártemis, a misericordiosa filha de Latona, que trespassasse o meu coração com um dos seus dardos, que aplacasse para sempre o clamor que me varria o sangue antes que algum grego me capturasse e enviasse para os mercados de escravos de Hatusas ou Nínive. As nossas débeis defesas depressa foram arrasadas; ao fim de um instante, só as muralhas da cidadela me separavam de uma massa fervilhante de guerreiros, todos eles com armaduras de bronze, mais altos e mais brancos do que os Dardanianos; nesse momento, fiquei sabendo que as filhas de Kore só poderiam ser altas e brancas. A minha única consolação era saber que Enéias e o exército estavam em segurança. Tal como o nosso querido rei, o velho Anquises, o qual, por ser, na sua juventude, o mais belo dos homens, atraíra o amor de Afrodite, que lhe dera Enéias. E Enéias era o melhor dos filhos; por isso se recusara a deixar o velho pai na cidade condenada. Tal como não deixara Creusa, sua esposa, nem Ascânio, o seu filho ainda pequeno. Embora não conseguisse afastar-me da janela, como que paralisada por
um sortilégio, podia ouvir os ruídos dos preparativos para a batalha nos aposentos próximos dos meus—velhos passos trôpegos, vozes esganiçadas murmurando aflitas. O meu pai era um desses homens. Só os sacerdotes não combateriam, pois tinham ficado suplicando a ajuda dos deuses nos altares; porém, o meu tio Criseu, o sumo-sacerdote de Apolo, despira o sagrado manto e envergara uma armadura. Combateria, dizia ele, para proteger o Apolo asiático, que não era o mesmo deus que o Apolo grego. Os Gregos trouxeram os aríetes para abater as portas da cidadela. As entranhas do palácio estremeceram e, apesar da tumultuosa pulsação que devorava os meus ouvidos, julguei ouvir o berro tremendo do Senhor dos Terremotos, esse ruído que sempre vestia de luto os homens. É que o coração de Poseidon estava com os Gregos e não conosco. Nós seríamos oferecidos como vítimas, por causa do orgulho e da rebeldia de Tróia. Poseidon poderia sentir por nós compaixão, mas a verdade é que fora aos aríetes gregos que emprestara a sua força. A madeira desfez-se em momentos, as dobradiças cederam e as portas ruíram com um rugido horrendo. Com lanças e espadas prontas para matar, os Gregos inundaram o pátio, sem qualquer sentimento de piedade diante daquela patética oposição, pois tudo o que sentiam era raiva por Enéias os ter superado em astúcia. O homem que os chefiava era um gigante. Envergava uma armadura de bronze adornada de ouro. Empunhando um machado portentoso, abatia os velhos como se fossem mosquitos, fendendo-lhes a carne cheio de desprezo. Depois, correu para a Sala do Trono, com os seus homens atrás; fechei os olhos para não ver o resto do massacre, enquanto rogava à casta Ártemis que instilasse no coração dos nossos inimigos o desejo de me matarem. A morte seria uma bênção, se comparada com a violação e a escravatura. Névoas vermelhas flutuavam diante das minhas pálpebras, a luz do dia, implacável, penetrava-as, os meus ouvidos não conseguiam deixar de ouvir os gritos sufocados e as súplicas de misericórdia. A vida é preciosa para os velhos, pois eles sabem quanto lhes custa a ganhar cada dia que passa. Mas eu não ouvira a voz do meu pai e pressentia que ele morrera tão orgulhosamente como sempre vivera. Quando ouvi passos fortes, determinados, aproximando-se do meu quarto, abri os olhos e virei-me para ver quem vinha. Era um homem enorme, muito maior do que a porta, o machado suspenso de uma mão, o rosto imundo sob o elmo de bronze com plumas douradas. Era cruel, muito
cruel a sua boca: os deuses que o tinham feito haviam-se esquecido de lhe dar lábios; um homem sem lábios não conheceria nunca, no seu coração, piedade ou bondade. Por um momento, fitou-me como se eu tivesse saído das entranhas da terra; depois, fez menção de avançar para mim com a cabeça empinada, como um cão farejando o ar . Preparei-me para enfrentá-lo: podia violar-me, ferir-me, matar-me, que não ouviria nunca um grito ou um lamento. Não seria eu quem o levaria a concluir que aos Dardanianos faltava coragem. Tive a sensação de que, com um único passo, se aproximara de mim; com a mão que tinha livre, prendeu-me um pulso, depois o outro, e ergueu-me depois até que fiquei suspensa no ar, os pés muito longe do chão. — Assassino! Assassino de velhos e crianças! Animal!—exclamei ofegante, chutando-o. De súbito, esmagou-me com tanta força os pulsos que senti os ossos rangerem. Queria gritar, pois a dor era insuportável, mas não gritaria—não gritaria! Os seus olhos amarelos, como os de um leão, eram o espelho de uma fúria animalesca; eu ferira-o no ponto certo, no único ponto, provavelmente, onde a sua auto-estima era ainda sensível. Ele não gostava que lhe chamassem assassino de crianças e velhos. — Dobre essa língua, moça! Nos mercados de escravos, têm um chicote para as meninas rebeldes como você! — Seria uma bênção dos deuses se me desfigurassem com o chicote! — Não, moça. No seu caso, seria uma pena—disse ele, baixando-me e libertando-me os pulsos. Mas logo a sua mão me agarrou pelos cabelos e assim me arrastou até à porta enquanto eu esmurrava e chutava a sua armadura metálica, e tantos foram os murros e pontapés que, em certo momento, pensei que tinha partido os ossos dos punhos e dos pés. — Deixe-me caminhar!—gritei.—Permita-me a dignidade de caminhar! Se vão me condenar à violação e à servidão, então deixe-me caminhar! Não quero ir para essa morte debatendo-me e choramingando como uma vulgar criada! Ele parou de súbito e fitou-me com um ar perplexo. — Você tem a coragem dela—disse ele lentamente.—Não é como ela, mas tem qualquer coisa dela... Crê que vai ser esse o seu destino: a violação e a escravatura? — Que outro destino poderá ter uma cativa? Sorrindo—o que o tornava mais parecido com os outros homens, pois o sorriso faz com que os lábios
fiquem mais finos—,largou-me os cabelos. Levei a mão à cabeça, perguntando-me se ele não me teria rasgado o couro cabeludo. Depois, caminhei à sua frente. Os dedos dele logo se apoderaram do meu pulso magoado. Era muito grande a sua força: impossível libertar-me.— Respeito a sua dignidade, minha querida menina, mas não sou idiota. Acredite que não será devido ao meu descuido que conseguirá escapar . — Como o teu chefe deixou escapar Enéias?—atirei-lhe. A expressão dele não se alterou. — Precisamente—disse ele, impassível. Conduziu-me através de quartos que nem conseguia reconhecer, pois as paredes estavam salpicadas de sangue e os móveis estavam sendo empilhados a fim de seguirem nas carroças do saque. Mal entramos na Sala do Trono, afastou a pontapé uma pilha de cadáveres, atirados uns para cima dos outros sem o menor respeito pela idade ou pela posição. Parei, procurando, naquele anônimo amontoado de corpos, algo que me permitisse identificar o meu pai. O meu captor tentou puxar-me, mas eu resisti. — O meu pai pode estar aqui! Deixe-me ver!—roguei. — Qual deles é o seu pai?—perguntou-me, com um ar indiferente. — Se eu soubesse, não teria pedido para me deixar ver! Embora sem me ajudar, deu-me rédea suficiente para que eu sondasse os trajes ou os sapatos dos mortos. Por fim, vi os pés do meu pai, inconfundíveis pois era o único que usava sandálias ornamentadas com granadas—tal como a maior parte dos velhos, vestira a armadura, mas não as botas de combate. Porém, não conseguia arrancar o seu corpo àquela pilha imensa de cadáveres. — Ájax!—chamou o meu captor .—Ajude a moça! Debilitada pelo terror, esperei que o outro homem se aproximasse de nós. Era também um gigante, maior ainda do que o meu captor . — Não é capaz de ajudá-la sozinho?—perguntou o tal Ájax. — E deixá-la fugir? Ájax, Ájax! Esta moça é esperta, não posso confiar nela! — Já percebi, priminho! Gosta da moça, não é? Também já não era sem tempo! Há uma eternidade que só tem olhos para Pátrocles... Ájax afastou-me como se eu fosse uma pena. Depois, sem largar o machado, empurrou os cadáveres que cobriam o meu pai. Finalmente, pude ver aqueles olhos mortos fixos nos meus, a barba enterrada num golpe que lhe dilacerara o peito. Um golpe de machado.—Este é o velho que se atirou a mim!—disse Ájax, com admiração.—Sim senhor, um velho valente!
— Tal pai, tal filha—disse o outro, puxando-me pelo braço.—Vá, moça, temos de ir . Não há tempo para chorar os mortos. Levantei-me trôpega, curvando a cabeça para saudar o meu pai. Preferia partir sabendo que ele estava morto. Era melhor não ter dúvidas. Assim, não alimentaria uma esperança infundada. Ájax afastou-se, dizendo que ia reunir todos os sobreviventes, embora duvidasse que os houvesse. Paramos à porta que dava para o pátio. O meu captor retirou um cinto de um cadáver que jazia nos degraus. Com uma das pontas, prendeu-me o pulso; depois, prendeu a outra ponta ao seu próprio braço, obrigando-me assim caminhar quase que encostada a ele. Dois degraus mais alta do que ele, fitei a sua cabeça curvada enquanto concluía a sua pequena tarefa com uma eficiência que me pareceu ser típica dele. — Não foi você quem matou o meu pai—disse eu. — Fui eu, sim—respondeu.—Eu sou o chefe que foi vencido pela astúcia de Enéias. O que significa que sou responsável por todas as mortes. — Como se chama?—perguntei. — Aquiles—disse ele, puxando-me para o pátio. Tinha de correr para não cair . Aquiles. Claro. Só poderia ser ele. Enéias falara dele um dia antes, mas há muitos anos que eu ouvia falar daquele homem. Deixamos Lirnesso pela porta principal, enquanto os Gregos saqueavam e violavam mulheres, alguns com archotes nas mãos, outros com odres de vinho. Aquiles nem sequer os repreendia. Ignorava-os. No alto do caminho, virei-me para contemplar pela última vez o vale de Lirnesso. — Incendiaram a minha casa. Foi ali que vivi durante vinte anos, era ali que esperava viver até que me arranjassem casamento. Mas nunca esperei que fosse esta a minha sorte. Ele encolheu os ombros. — São os acasos da guerra, moça. Apontei para as minúsculas figuras dos soldados que reuniam os despojos. Não pode impedir que eles se comportem como animais? Será mesmo necessária tamanha brutalidade? Eu ouvi as mulheres gritarem—eu vi! As pálpebras dele descaíram cinicamente. — Que sabe você destes gregos exilados ou dos seus sentimentos? O que você sente por nós é ódio, o que é perfeitamente compreensível. Mas o teu ódio não supera o ódio que estes homens dedicam a Tróia e aos aliados de Tróia! Príamo custou-lhes dez anos de exílio. É por isso que eles sentem tanto prazer em vingar-se de Príamo! Bom, de qualquer modo, mesmo que eu
tentasse detê-los, não conseguiria. E sinceramente, moça, não me não tenho vontade de detê-los. — Há muitos anos que ouvia histórias sobre a guerra, mas não sabia que a guerra era assim - murmurei. — Pois agora já sabe—disse ele. O acampamento dele ficava a três léguas de distância; mal chegamos, Aquiles chamou um oficial encarregado das bagagens. — Polides, esta moça é minha cativa. Pega o cinto e prenda-a a uma bigorna até forjar melhores correntes. Não a deixe livre um momento que seja. Nem mesmo quando ela quiser fazer as suas necessidades fisiológicas. Logo que esteja devidamente acorrentada, leve-a para um local onde ela tenha tudo o que precisa, incluindo uma boa cama, boa comida e uma bacia. Amanhã, partirá para Andramítio. A entregará aos cuidados de Fênix.— Pegou-me no queixo e beliscou-o suavemente.—Adeus, moça. Polides Prendeu-me Os tornozelos com umas correntes que eram bastante leves, Pôs uns chumaços à volta dos pulsos, sob as algemas, para que eu não me machucasse mais, e conduziu-me até à costa montada num burro. Aí, entregou-me a Fênix, um velho nobre com os olhos azuis e enrugados e o andar gingado de um marinheiro. Quando viu as minhas correntes, Pôs um ar pesaroso, mas nada fez para me aliviar daquela prisão. Subi com ele a bordo da nau capitânia. Com gentil cortesia, fez-me sinal para que me sentasse, mas eu estava decidida a ficar de pé. — Lamento muito as correntes—disse ele e os seus olhos exprimiam um evidente pesar . Mas logo percebi que não era de mim que ele estava com pena. Pobre Aquiles!—exclamou. Irritava-me que aquele velho me tivesse em tão pouca conta. — Aquiles tem mais consideração pelo meu brio do que você! De-me um punhal e vai ver se eu não me livro desta morte em vida—nem que tenha de morrer! A consternação do velho desapareceu num ápice. Com um risinho, respondeu-me. — Oh, mas que valente guerreira! Mas olhe, moça, desista de nutrir falsas esperanças... Aqueles que Aquiles prende, não é Fênix quem vai libertar . — A palavra dele é uma lei Sagrada? — De fato, é. Aquiles é o príncipe dos Mirmidões. — Príncipe das formigas? Um título muito adequado... Respondeu-me
com outro risinho. Depois, foi buscar uma cadeira. Olhei para a cadeira com todo o meu ódio, mas a verdade é que me doíam horrivelmente as costas por causa da viagem de burro, e tinha as pernas tremendo pois recusara-me a comer e a beber desde o instante em que me haviam feito cativa. Sem qualquer delicadeza, Fênix pegou em mim e obrigou-me a sentar, após o que desarrolhou uma garrafa de vinho. — Bebe, moça. Se quer manter essa rebeldia, precisa de sustento. Não seja tonta. Um conselho sensato. Segui-o e bebi e logo concluí que o meu sangue era fraco, pois o vinho subiu-me num instante à cabeça. Já não conseguia lutar . Pousei a cabeça na mão e logo adormeci. Acordei algum tempo depois. Tinham-me levado para a cama. As correntes presas a uma viga. No dia seguinte, levaram-me para a coberta, sem se esquecerem de prender as correntes à amurada, a fim de que eu pudesse manter-me de pé, sob aquele débil sol invernoso, e observar o vaivém que ia na praia. A certa altura, porém, quatro navios surgiram no horizonte e, com tal aparição, desataram os homens—em particular os seus chefes—numa correria e num alvoroço indescritíveis. De súbito, Fênix correu para mim e libertou-me da amurada e conduziu-me não à minha prisão anterior, mas sim a um abrigo que havia no convés de ré e que tresandava a cavalos. Aí me deixou presa a um barrote. — Que se passa?—Perguntei, curiosa. — Vem aí Agamêmnon, o rei dos reis—retorquiu Fênix. — Porque é que me trouxe para cá? Será que eu não sou nobre o suficiente para ser apresentada ao rei dos reis? O velho marinheiro suspirou. — Moça—disse—,será possível que nunca te tenhas visto no espelho? Se Agamêmnon a visse, pode crer que não lhe escapava! Apesar de pertencer a Aquiles, acredite que Agamêmnon não a deixaria virgem! — Pode ser que eu desate aos gritos e que ele me ouça—disse eu. Fênix fitou-me como se eu tivesse enlouquecido. — Se arrependeria dos teus gritos, moça. Pense um pouco: que vantagem teria você em mudar de amo? Acredite no que te digo: acabaria por preferir Aquiles. Houve qualquer coisa no tom com que me disse aquilo que me convenceu. Por isso, quando ouvi vozes à porta do estábulo, enfiei-me debaixo de uma manjedoura e escutei as belas e fluidas cadências do mais
puro Grego—e percebi o poder e a autoridade que uma das vozes possuía. — Aquiles ainda não voltou?—perguntou essa voz, num tom imperioso. — Não, rei Agamêmnon, mas deve estar de volta antes da noite. Aquiles teve de organizar o saque. São abundantes os despojos de Lirnesso. As carroças têm chegado carregadas dos mais preciosos objetos. — Excelente! Vou esperar por ele na sua cabina. — Será melhor esperar na tenda da praia, rei Agamêmnon. Você conhece Aquiles: para ele, o conforto não é importante. — Deve de ter razão, Fênix. As vozes diminuíram; rastejando, libertei-me do meu esconderijo. O som daquela voz fria e orgulhosa assustara-me. Aquiles também era um monstro, mas melhor é o monstro que se conhece do que aquele que se ignora, como dizia a minha ama quando eu era pequena. Durante a tarde, ninguém veio ter comigo. De início, sentei-me na cama que julgava pertencer a Aquiles e atentei, com olhos curiosos, no escasso conteúdo daquela vulgaríssima cabina. Havia umas quantas lanças encostadas a um pilar, ninguém se lembrara de pintar as paredes de madeira, as dimensões da cabina eram minúsculas. Na realidade, naquela divisão, havia apenas dois objetos dignos de alguma atenção: uma bela pele branca na cama e uma taça de ouro com quatro pegas. Os lados da taça tinham sido pintados com uma representação do Pai Céu sentado no seu trono e cada pega era encimada por um cavalo galopando. Nesse preciso instante, o abismo horrendo do meu sofrimento abriu-se e engoliu-me, talvez porque, desde o momento da minha captura, aquela era a primeira vez em que o perigo e a fúria não me obrigavam a calar a dor . Enquanto ali estava sentada naquela cama, o meu pai jazia na vala de Lirnesso para onde era deitado todo o lixo, o seu corpo devorado pelos cães perpetuamente esfomeados da cidade; esse era o tradicional destino para os nobres que morriam no campo de batalha. As lágrimas inundavam-me o rosto; atirei-me para cima daquela pele branca e chorei. Não conseguia parar de chorar . A pele branca ficou limpa e brilhante sob a minha face, sob o rio da minha dor . Não ouvi a porta abrir-se. Por isso, quando uma mão pousou sobre o meu ombro, o meu coração desatou a correr dentro do meu peito como um animal que acaba de cair numa cilada. Toda a minha rebeldia se esfumou num ápice; naquele instante, só uma coisa pensei: o rei supremo
Agamêmnon tinha me descoberto,encolhi-me sobre a cama, apavorada. — Eu pertenço a Aquiles, eu pertenço a Aquiles!—gemi. — Eu sei. Quem julgou que era? Antes de erguer o rosto para o ver, disfarcei cuidadosamente o alívio que sentira e limpei rapidamente as lágrimas com a palma da mão. — O rei supremo da Grécia. - Agamêmnon. Aquiesci. — Onde está ele? — Na tenda da praia. Aquiles aproximou-se de um baú, abriu-o, remexeu-o de alto a baixo e, por fim, atirou-me um lenço de um belo tecido. — Tome, assoe esse nariz e limpe essa cara. Se continuar assim, ainda adoece. Fiz o que ele me mandou. Aquiles voltou para perto de mim e pôs-se a olhar para a pele com um ar preocupado. — Espero que não fique com marcas quando secar . Foi uma prenda da minha mãe. Mirou-me com olhos críticos.—Será possível que Fênix não te tenha mandado tomar banho e vestir roupa lavada? — Mandar, mandou, mas eu recusei. — Pois comigo não haverá recusas. As criadas vão te trazer roupa lavada e uma banheira para tomar banho. Terá de vestir o que elas te trouxerem. Caso contrário, será lavada e vestida à força—e não por mulheres. Entendido? — Sim. — Ótimo. -Tinha já a mão na tranca da porta quando parou e se voltou para mim. — Como é que se chamas, moça? — Briseida. Sorriu para mim; detectei na sua expressão alguma admiração pela minha pessoa. — Briseida: “Aquela que triunfa.” Tem certeza que não o inventou? — O meu pai chamava-se Briseu. Era primo direito do rei Anquises e chanceler da Dardânia. O irmão do meu pai, Criseu, era sumo-sacerdote de Apolo. Nós pertencemos à família real. Ao entardecer, um oficial mirmidão veio ter comigo, desprendeu da viga as correntes e conduziu-me até à amurada. Uma escada de corda estava suspensa a amurada; silenciosamente, indicou-me que deveria descer; contudo, fez-me a cortesia de descer primeiro e de esperar por mim na
praia: desse modo, não teria qualquer oportunidade de olhar para aquilo que as minhas saias tapavam. O navio estava assente sobre os seixos da praia; sobre os seixos caminhei, mas tão redondos eram que me fugiam debaixo dos pés e me magoavam o que magoado já estava. Uma enorme tenda de cabedal erguia-se na praia. Não me lembrava de te-la visto quando chegara de burro. O oficial mirmidão fez-me entrar na tenda através de uma aba que havia nas traseiras e logo me conduziu a uma divisão apinhada de mulheres: cerca de uma centena de mulheres de Lirnesso, nenhuma das quais reconheci. Só eu fora distinguida com correntes. Muitos foram os olhos que, com uma curiosidade canina, se fixaram em mim, enquanto eu procurava um rosto conhecido no meio daquela multidão. Ah, ali, a um canto! Uma gloriosa cabeleira dourada: inconfundível! O meu guarda continuava a segurar-me nas correntes; porém, quando fiz menção de avançar para o canto da sala, deixou-me partir sem qualquer protesto. A minha prima Criseida ocultava o rosto com as mãos; quando lhe toquei, a pobre moça deu um salto, tomada de pânico. Fitou-me espantada e logo se refugiou nos meus braços, lavada em lágrimas. — Que faz aqui?—perguntei, confusa.—Você é a filha do sumosacerdote de Apolo. Como tal, é uma criatura inviolável. A resposta dela foi um gemido de puro horror . Abanei-a. — Por favor, Criseida, deixa de choro!—ordenei-lhe. Desde menina que Criseida tinha medo de mim; não admira que me tenha obedecido nesse mesmo instante. — Apesar disso, fizeram-me cativa, Briseida. — Mas isso é um sacrilégio! — Eles dizem que não é. O meu pai combateu. Os sacerdotes não combatem. Por isso, consideraram-no um guerreiro e fizeram de mim o que quiseram. — O que quiseram? Está me dizendo que te violaram?—perguntei, horrorizada. — Não, não! As mulheres que me vestiram disseram-me que só as mulheres do povo ficam à mercê da violência dos soldados. Aquelas que se encontram nesta sala foram poupadas a essa violência porque vão ter um destino especial. Qual, não sei.—Olhou para baixo e viu as grilhetas.—Oh, Briseida! Acorrentaram-te!- Pelo menos trago uma prova evidente do meu
estatuto real. Graças às grilhetas, ninguém poderá confundir-me com uma prostituta. — Briseida!—disse ela, com uma expressão escandalizada; eu conseguia sempre chocar a minha pobre e recatada prima. Depois, perguntou-me: — O tio Briseu? — Morreu, como todos os demais. — Morreu? E você não chora a sua morte? — Claro que choro a sua morte!—protestei.—A verdade, porém, é que já estive nas mãos dos Gregos o tempo suficiente para perceber que uma cativa tem de secar as lágrimas e aguçar o seu engenho. Criseida parecia perplexa com a minha resposta. — Porque que é nos trouxeram para cá, prima? Virei-me para o oficial mirmidão. — Ei, soldado! Porque é que nos trouxeram para cá? O homem riu do meu tom, mas respondeu afavelmente. — O Segundo Exército ofereceu um banquete em honra do rei supremo de Micenas. Estão dividindo os despojos. As mulheres aqui presentes vão ser distribuídas pelos reis. Esperamos aquilo que nos pareceu uma eternidade. Demasiado cansadas para falar, Criseida e eu sentamo-nos no chão. De quando em quando, um guarda entrava e levava um pequeno grupo de mulheres, consoante umas fitas coloridas que traziam nos pulsos; eram, todas elas, moças muito bonitas. Não havia entre nós nenhuma velha, tampouco rameiras ou caras feias ou moças que, de tão magrinhas, mais parecessem esqueletos. Contudo, nem eu nem Criseida tínhamos fitas nos pulsos. Cada vez havia menos mulheres na sala e nós continuávamos a ser ignoradas. Por fim, só nós duas restávamos. Um guarda entrou e tapou com véus os nossos rostos antes de nos conduzir à sala contígua. Através de uma malha muito fina, consegui ver um imenso clarão, produzido, aparentemente, por um milhar de lamparinas e archotes, um dossel de tecido por cima das nossas cabeças e, por todo o lado, um mar de homens. Estavam sentados em bancos à volta de mesas, bebiam vinho; os criados andavam numa azáfama, correndo de um lado para o outro. Fizeram-nos avançar até um comprido estrado onde se encontrava a mesa de honra. Haveria talvez vinte homens sentados àquela mesa, de um lado apenas,
de frente para todos os outros comensais. No meio, numa cadeira de costas altas, estava sentado um homem que muito se assemelhava ao Pai Zeus das minhas fantasias de menina. Tinha uma cabeça nobre, altiva, carrancuda; a cabeleira negra com vestígios de cinza, requintadamente encaracolada, derramava-se como uma cascata sobre a cintilante indumentária; uma imponente barba, entrelaçada com fios de ouro, caía-lhe sobre o peito e pedras preciosas cintilavam em alfinetes ocultos. Um par de olhos escuros examinava-nos com um ar pensativo, enquanto uma aristocrática mão branca mexia absorta no bigode. Era o imperial Agamêmnon, rei supremo de Micenas e da Grécia, rei dos reis. Anquises, ao pé dele, pareceria um servo e não um rei. Afastei dele os olhos a fim de perscrutar os outros homens, preguiçosamente recostados nas suas cadeiras. Aquiles estava sentado à esquerda de Agamêmnon, embora não fosse fácil reconhecê-lo. Eu vira-o de armadura vestida, imundo e violento. Agora, estava na companhia de reis. O peito nu, glabro, brilhava sob um maciço colar de ouro e pedras preciosas que lhe caía dos ombros; os braços reluziam de braceletes, os dedos de anéis. Fizera a barba, e o seu cabelo, brilhante como ouro, fora penteado para trás sem grandes requintes; requintados eram os brincos de ouro que lhe pendiam das orelhas. Os seus olhos amarelos revelavam agora uma limpidez e uma tranqüilidade novas; aquela cor de olhos, absolutamente invulgar, ressaltava poderosamente sob as sobrancelhas e as pestanas fortemente marcadas e também porque ele pintara os olhos ao estilo cretense. Pestanejei, desviei dele o meu olhar, confusa. Inquieta. Ao lado dele, estava um homem com um aspecto verdadeiramente nobre, muito direito na sua cadeira, os caracóis cor de fogo coroando uma testa muito alta e larga; era branca e delicada a sua pele. Sob umas sobrancelhas surpreendentemente escuras, os seus belos olhos cinzentos irradiavam um brilho penetrante. Nunca antes vira olhos tão fascinantes como aqueles! Quando o meu olhar percorreu o seu peito nu, apiedei-me dele: quantas cicatrizes! O rosto parecia ser a única parte do seu corpo que escapara aos golpes inimigos. À direita de Agamêmnon, estava outro homem ruivo, um indivíduo com um ar desleixado e consternado que não tirava os olhos da mesa. Quando ergueu a taça para beber, reparei que a sua mão tremia. O seu vizinho era um velho com a mais régia das aparências, alto e ereto, com uma barba tão branca como a prata e uns olhos azuis muito grandes. Embora estivesse
vestido de uma forma muito simples (não mais do que uma túnica de linho branco), tinha os dedos cravejados de anéis. O gigante Ájax vinha logo a seguir; uma vez mais tive de pestanejar, pois o príncipe que agora estava vendo não se parecia nada com o homem que libertara o corpo do meu pai da pilha de cadáveres. Mas os meus olhos depressa se cansaram dos seus rostos, todos eles tão enganosamente nobres. O guarda fez com que Criseida avançasse e logo lhe tirou o véu. Senti o meu estômago revolver-se. A minha prima ficava tão bonita com aquela indumentária estrangeira, roupas gregas tiradas de um qualquer baú grego, roupas que em nada se assemelhavam aos vestidos compridos e direitos que cobriam as mulheres de Lirnesso do pescoço aos tornozelos. Em Lirnesso, nós escondíamo-nos de todos os homens, exceto dos maridos; as mulheres gregas —isso era mais do que evidente—vestiam-se como prostitutas. Escarlate de vergonha, Criseida tapou os seios nus com as mãos, mas por pouco tempo; o guarda encarregou-se de os destapar . Agora, todos aqueles homens poderiam ver quão fina era a sua cintura e quão perfeitos eram os seus seios. Agamêmnon já não parecia o Pai Zeus; agora, todo ele era Pã. Virou-se para Aquiles. — Pela Mãe, que preciosidade... Aquiles sorriu. — Ainda bem que gosta dela, Agamêmnon. A moça é tua—uma prova evidente da estima que o Segundo Exército tem por ti. Chama-se Criseida. — Vem cá, Criseida.—A elegante mão branca fez um gesto imperativo; a minha prima não se atreveu a desobedecer . — Vem, olha para mim! Não tenha medo, moça, que eu não te faço mal. Com os dentes brancos cintilando, sorriu para ela e afagou-lhe depois o braço, aparentemente sem reparar que Criseida toda se encolhia.—Levemna imediatamente para o meu navio. Os guardas levaram Criseida. Agora era a minha vez. O guarda retiroume o véu para que eu me exibisse naquele figurino indecente. Pus um ar tão altivo quanto possível, as mãos bem juntas ao corpo, o rosto inexpressivo. A vergonha era deles, não minha. Percebendo a luxúria que inundava os olhos do rei supremo, obriguei-o a desviar o olhar . Aquiles nada disse. Movi um pouco as pernas para que as correntes retinissem. Agamêmnon ergueu as sobrancelhas. — Correntes? Quem ordenou isso? — Fui eu—retorquiu Aquiles.—Não confio nela.
— Oh?—Uma única palavra e, no entanto, prenhe de sentido.—E de quem é ela? — É minha. Fui eu próprio que a capturei—disse Aquiles. — Devia ter me deixado escolher entre as duas—replicou Agamêmnon, agastado. — Fui eu quem a capturou, rei Agamêmnon. Portanto, a moça é minha. Além disso, não confio nela. O nosso mundo grego sobreviverá sem mim, mas não sem você. Tenho provas que chegam de que esta moça é perigosa. — Hum... perigosa ... disse o rei supremo, nada convencido. Depois, suspirou.—Nunca vi um cabelo assim! Uma mistura de fogo e ouro! Nem uns olhos assim, tão azuis!—E suspirou de novo.—Mais bela do que Helena! O indivíduo nervoso que estava à direita do rei supremo deu um murro na mesa com tal violência que as taças de vinho até saltaram. — Helena não tem igual!—exclamou. — Sim, meu irmão, nós sabemos—disse Agamêmnon, paciente.— Acalme-se. Aquiles acenou para o oficial mirmidão. — Leve-a. Esperei sentada numa cadeira da sua cabina, as pálpebras pesadas, embora não me atrevesse a permitir-me um momento que fosse de sono. Haverá mulher mais indefesa do que aquela que tranqüilamente se entrega ao doce chamamento do sono? Muito tempo depois, Aquiles apareceu na cabina. Quando ergueu a tranca, eu estava cochilando, apesar de toda a minha determinação; assustada, dei um salto e entrelacei as minhas mãos com toda a força. Chegara o momento do ajuste de contas. Mas Aquiles não parecia consumido de desejo; ignorou-me, encaminhou-se para o baú e abriu-o. Depois, tirou o colar, os anéis, os braceletes, o cinto cravejado de jóias. Mas não o saiote. — É um alívio, ver-me livre deste lixo todo!—exclamou, olhando agora para mim. Olhei também para ele, confusa, perdida. Como é que começava uma violação? A porta abriu-se e outro homem entrou, muito parecido com Aquiles nos traços e na tez, mas mais pequeno de estatura, e com um rosto mais terno. Eram encantadores os seus lábios. Uns olhos azuis examinaramme com um brilho apreensivo. — Pátrocles, apresento-te Briseida.
— Agamêmnon tinha razão. É mais bela do que Helena.—O olhar que lançou a Aquiles estava carregado de significado e repleto de dor .—Vou deixá-los. Só vim ver se precisava de alguma coisa. — Espere lá fora, eu não demoro—disse Aquiles com um ar ausente. Já a caminho da porta, Pátrocles parou e lançou a Aquiles um olhar que não enganaria ninguém: um olhar de absoluta alegria e de uma posse absoluta. — Ele é o meu amante—disse Aquiles mal Pátrocles partiu. — Já tinha percebido. Com um suspiro de fadiga, Aquiles sentou-se na beira da estreita cama e apontou para a minha cadeira. — Sente-se. Sentei-me e, por um momento, fitei-o, enquanto ele me olhava com algo que Parecia ser um absoluto desapego; começava a suspeitar que ele não sentia por mim nada que se assemelhasse ao puro desejo físico. Nesse caso... nesse caso, por que razão me quisera para ele? — Pensava que vocês, as mulheres de Lirnesso, eram muito recatadas— disse ele, por fim—,mas você parece conhecer muito bem as coisas do mundo. — Algumas coisas. Aquelas que são universais. O que nós não entendemos são estas modas! Toquei nos meus seios nus.—Imagino que na Grécia as mulheres devem ser vítimas constantes de violações. — Nesse particular, a Grécia é igual a todas as outras nações. Uma coisa tende a perder encanto quando se torna—universal. — Que pretende fazer comigo, príncipe Aquiles? — Não faço a mínima idéia. -A minha natureza não é branda nem fácil. — Eu sei.—Era irônico o seu sorriso.—De fato, a tua pergunta tem toda a razão de ser . Para ser franco, não sei mesmo o que fazer contigo.—Olhou-me com aqueles seus olhos amarelos.—Sabe tocar lira? Sabe cantar? — Sei. Toco e canto até muito bem. Ele levantou-se. — Nesse caso, tocará e cantará para mim—disse ele, e logo berrou: Sentese no chão! Sentei-me no chão. Ele puxou-me a pesada saia acima dos joelhos e saiu. Quando voltou, trazia um martelo e um escopro. Um instante depois, eu estava livre das correntes. — Deste cabo da madeira do chão—disse eu, apontando para as estrias profundas que o escopro abrira. — Isto é apenas um abrigo numa coberta de proa—disse ele, levantandose. Depois, ergueu-me com mãos firmes e secas.—Vá dormir—disse, e logo
me deixou. Porém, antes de ir para a cama, agradeci a Ártemis. A deusa virgem ouvira as minhas súplicas; o homem de quem eu era cativa não tinha pelas mulheres qualquer apetite carnal. Estava salva. Se assim era, porquê tanta tristeza? Não saberia responder, mas uma coisa tinha eu por certa: as saudades que tinha de meu pai não eram, das minhas lágrimas, a única causa. De manhã, a nau capitânia fez-se ao mar . Marinheiros e guerreiros desataram numa azáfama na coberta e os bancos dos remadores depressa foram ocupados. Gargalhadas e obscenidades da pior espécie encheram os ares. Era evidente que se sentiam felizes por deixarem a desolada Andramítio, por duas vezes reduzida a cinzas. Quem sabe, talvez aquele fosse um local assombrado; talvez os marinheiros e guerreiros, ao partirem, deixassem de ouvir os gemidos de aflição de milhares de sombras inocentes. Pátrocles, o terno companheiro de Aquiles, avançou sem dificuldade por entre a multidão que enchia a meia-nau e subiu os poucos degraus que conduziam à coberta de proa, onde eu estava contemplando o mar e as humanas criaturas. — Como se sente esta manhã, Briseida? Bem? — Sim, estou muito bem, obrigada. Virei-lhe as costas, mas ele permaneceu a meu lado, visivelmente satisfeito com a minha gelada companhia. — Acabará por se habituar—disse ele. Fitei-o e respondi-lhe: — Seria difícil imaginar uma observação mais estúpida... Se habituaria a viver na casa de um homem que tivesse sido responsável pela morte do teu pai e pela destruição da tua pátria? — Talvez não—respondeu ele, de súbito afogueado.—Mas estamos em guerra—e você é uma mulher . — A guerra—retorqui, cheia de amargura—,é uma atividade masculina. As mulheres são as suas vítimas, tal como são vítimas dos homens. — A guerra—contrapôs ele, divertido—também existiu enquanto as mulheres governaram o mundo sob o domínio da Mãe. As rainhas supremas eram tão gananciosas e ambiciosas como qualquer rei supremo. A guerra não tem nada a ver com o sexo. Creio, com efeito, que ela é um fator intrínseco da raça humana. Como isto era incontestável, resolvi mudar de assunto. — Pátrocles, como é que você, que é um homem tão sensível e perspicaz,
pode amar um homem tão duro e cruel como Aquiles?—perguntei-lhe. Os seus olhos azuis fitaram-me espantados. — Mas Aquiles não é duro nem cruel!—retorquiu ele. — Lamento, mas não posso acreditar nisso. — Aquiles não é o que parece—asseverou-me o seu fiel cão de guarda. — Nesse caso, o que é Aquiles afinal? Pátrocles abanou a cabeça. — Isso, minha cara Briseida, terá de descobrir por si própria. — É casado?—Por que raio é que as mulheres têm de fazer sempre esta pergunta? — É. Casou com a filha única do rei Licomedes de Ciro. Têm um filho, Neoptolemo, um rapaz com dezesseis anos. E como é o único filho de Peleu, é herdeiro do reino supremo da Tessália. — Nada disso altera a minha opinião a seu respeito. Para minha grande surpresa, Pátrocles pegou-me na mão e beijou-a. Depois, foi-se embora. Permaneci na proa enquanto os meus olhos puderam enxergar uma sombra que fosse de terra no horizonte. O mar estava sob os meus pés: nunca mais voltaria à minha querida terra. Agora, agora não poderia fugir ao meu triste destino. Eu, que estava destinada a casar com um rei, acabaria os meus dias tocando e a cantando para um rei que de mim fizera serva. Aliás, se os Gregos não tivessem decidido atacar Tróia, já estaria casada. Os homens que, em circunstâncias normais, teriam aparecido na corte da Dardânia para pedir a minha mão, ficaram de súbito demasiado ocupados para pensarem em alianças matrimoniais. As águas assobiavam sob o casco e transformavam-se em branca espuma sob o impacto dos remos, um som brando e constante que penetrava sutilmente no meu espírito—tão sutilmente que, só ao fim de muito tempo, me dei conta de que a minha decisão estava já tomada. Não era difícil subir à amurada; foi o que fiz e preparava-me para saltar quando um braço forte me agarrou e me puxou violentamente para baixo. O braço de Pátrocles. — Deixe-me morrer! Esquece que me viu!—roguei. — Nunca mais!—disse ele, lívido. — Pátrocles, eu não sou importante, eu não represento nada para ninguém! Deixe-me morrer! Deixe-me morrer! — Não, nunca mais. O teu destino é muito importante para ele. Nunca mais. Mas que estranhos mistérios... Quem? O quê? Nunca mais? Sete dias demoramos a avistar Assos. Mal contornamos o canto da península defronte da ilha de Lesbos, os remos revelaram-se inúteis; os
ventos sopravam intermitentemente, ora empurrando-nos para a praia, ora afastando-nos dela. A maior parte do tempo, passei sozinha na coberta de proa, numa alcova rodeada de cortinas, e, sempre que eu emergia da alcova, Pátrocles deixava o que estava fazendo e corria para junto de mim. De Aquiles, nem sinal. Por fim, fui informada de que seguia no navio de um tal Automedonte. Conseguimos aportar na manhã do oitavo dia. Aconcheguei-me no meu manto porque o vento era cortante como gelo e observei fascinada as operações de aportagem e desembarque, já que, em toda a minha vida, nunca vira nada assim. O nosso foi o segundo navio a descansar nas cunhas; o de Agamêmnon fora o primeiro. Logo que puseram a escada de corda, deixaram-me descer . Quando Aquiles passou, a pouca distância de mim, pus um ar altivo e preparei-me para a guerra, mas ele nem deu pela minha presença. Nesse momento, surgiu a governanta da sua casa, uma mulher corpulenta e bem-disposta que se chamava Laódice. Foi ela quem me conduziu à casa de Aquiles. — Deixe-me dizer-te uma coisa, minha pombinha—murmurou ela.— Você é uma privilegiada. Vai viver na casa do teu amo e, mais importante ainda, vai ter os teus próprios aposentos. Nem eu, que sou a governanta, tenho tais direitos, quanto mais as outras.... — Mas ele não tem centenas de mulheres? — Tem, mas não vivem com ele. — Claro, ele vive com Pátrocles. — Com Pátrocles?—disse Laódice, com um sorriso arreganhado.—Isso foi em outros tempos... Alguns meses depois de terem se tornado amantes, Aquiles ordenou-lhe que construísse a sua própria casa. — Porquê? Isso não faz sentido... — Oh, faria todo o sentido, se conhecesse o seu amo! Ele gosta de ser livre como o vento! Hmmm. Bom, era muito possível que eu não conhecesse Aquiles, mas também era verdade que estava aprendendo depressa. Com que então gostava de ser livre como o vento! As peças do quebracabeças estavam todas lá, à espera que eu as pegasse, tal e qual como quando eu era criança e me entretinha com tais passatempos. O verdadeiro problema era pôr as peças todas no lugar certo.
Durante esse longo Inverno, prisioneira do frio que eu era, muito tempo gastei encaixando as peças do quebracabeças que se chamava Aquiles. O meu amo raramente parava em casa, muitas vezes jantava fora—por vezes, também dormia fora, supunha eu que com Pátrocles, o qual, pobre coitado, parecia agora mais angustiado do que feliz com o amor que Aquiles lhe dedicava. As outras mulheres estavam predispostas a detestar-me porque eu vivia na casa do amo e elas não. No entanto, e porque sei lidar muito bem com todo o gênero de mulheres, depressa consegui conquistar os seus afetos; vencidos os corações, desataram as línguas—e o interminável fio da bisbilhotice. Pelo visto, Aquiles padecia de uma doença que culminava numa espécie de sortilégio (elas tinham-no ouvido falar de um sortilégio); havia momentos em que parecia estar longe deste mundo, estranhamente concentrado em insondáveis paragens; a mãe dele era uma deusa, uma criatura do mar chamada Tétis que era capaz de alterar a sua configuração física tão depressa como o Sol se desvenda ou oculta atrás das nuvens—ouriço-domar, choco, baleia, vairão, caranguejo, estrelado-mar, tubarão, tudo isso ela podia ser; o avô do seu pai era o próprio Zeus; o seu professor fora um Centauro, um ser fabuloso que tinha cabeça, braços e torso de homem, ainda que o resto do corpo fosse o de um cavalo; o gigante Ájax era seu primo direto e um grande amigo; vivia para a guerra, não para o amor . Não, elas não acreditavam que Aquiles gostasse de homens, apesar do amor que dedicava ao seu primo Pátrocles. Mas também não lhes parecia que gostasse de mulheres. De vez em quando, chamava-me à sua presença e ordenava-me que tocasse e cantasse e eu obedecia-lhe com gratidão; a minha vida, sem esses momentos, era a mais desolada das paisagens. Com um ar pensativo, Aquiles escutava a minha música apenas com metade da sua mente; a outra metade permanecia num outro mundo, um mundo que excluía tanto a música como aquela que a executava. Nem sinal de desejo, nunca. Nenhuma sugestão quanto aos motivos por que decidira fazer de mim sua cativa. Também não entendia ainda o que poderia estar por detrás das coisas que Pátrocles me dissera quando eu tentara atirar-me ao mar . Nunca mais! Nunca mais o quê? Nunca mais quem? Que estranho evento matara o desejo naquele homem? Descobri com grande tristeza que, a pouco e pouco, Lirnesso e o meu pai
iam perdendo a primazia nos meus pensamentos. O que se passava em Assos começava a relegar para segundo plano aquilo que acontecera na Dardânia. Por três vezes Aquiles jantou sozinho em casa, por três vezes ordenou que eu o servisse e que mais nenhuma mulher estivesse presente. Laódice, tonta como era, embonecava-me e perfumava-me, convencida de que, finalmente, eu lhe pertenceria. Mas Aquiles nada me disse e nada fez. Chegava ao fim o Inverno quando nos mudãmos de Assos para Tróia. Fênix fez um sem-número de viagens e, pouco a pouco, os celeiros, os depósitos e as tendas foram ficando vazios. Por fim, todo o exército seguiu, por mar, para norte. Tróia. Mesmo em Lirnesso era Tróia quem governava, pois Tróia era o centro do nosso mundo. O rei Anquises e Enéias não gostavam dessa verdade—mas era uma verdade indiscutível. Agora, pela primeira vez, os meus olhos podiam ver Tróia. O vento incessante varria a planície, consigo levando a neve; torres e pináculos, engrinaldados de gelo, cintilavam ao sol. Era como que um palácio no Olimpo—longínquo, frio e belo. Era ali que Enéias vivia, com o pai, a esposa e o filho. A mudança para Tróia operou em mim uma outra mudança e muito estranha, fora do alcance da minha compreensão; de súbito, tornei-me presa fácil de acessos de melancolia; chorava por tudo e por nada; sem quê nem porquê, irritava-me por coisa nenhuma. Aquele era o Décimo ano da guerra e todos os oráculos diziam que seria o último. Seria essa a razão do meu desalento? Seria por saber que, quando a guerra acabasse, Aquiles me levaria consigo para lolcos? Ou por recear que ele me vendesse a um outro rei que apreciasse os meus talentos musicais? Com efeito, aparentemente, só os meus talentos musicais lhe agradavam. Mal a Primavera acordou, começaram as surtidas dos destacamentos troianos; com todos os Gregos instalados num acampamento imenso, os Troianos tinham de procurar mantimentos que suprissem as suas faltas. Heitor procurava aproveitar todas as oportunidades para lançar incursões destinadas à recolha de alimentos, ao passo que os Gregos e, em particular Aquiles e Ájax, vigiavam todos os passos dos Troianos, na esperança de apanharem Heitor . Aquiles desejava desesperadamente combater contra Heitor; diziam as outras mulheres que o desejo de matar o herdeiro troiano consumia todas as suas energias. Todo o dia e metade da noite, a casa enchia-se de vozes masculinas. Acabei por saber os nomes de todos os outros
chefes gregos. Por fim, a Primavera encheu o ar de fragrâncias poderosas e os campos de minúsculas flores brancas e as águas do Helesponto de um azul mais intenso. Pequenas escaramuças ocorriam quase todos os dias. Em Aquiles, crescia a ânsia de um duelo decisivo com Heitor . Contudo, não queria a sorte que ele acalmasse de vez essa ânsia. Não conseguia encontrar no campo de batalha o esquivo herdeiro do trono de Tróia. Nem ele, nem Ájax. Embora Laódice considerasse que o trabalho duro não era para uma moça como eu, que nascera num berço de ouro, o certo é que, mal ela se ausentava, logo eu me entregava a todo o tipo de tarefas que normalmente são executadas por mulheres de mais baixa condição. Tarefas mais úteis do que bordar coisas supérfluas com uma agulha enfadonha e sem inspiração. Uma das histórias mais intrigantes que corriam acerca de Aquiles dizia respeito ao modo como ele aceitara o amor de Pátrocles, depois de tantos anos de uma amizade de todo isenta dos prazeres do corpo. Segundo Laódice, a transformação ocorrera durante um dos sortilégios com que Tétis castigava o filho. Em tais momentos, ainda segundo Laódice, o nosso amo tornava-se particularmente susceptível aos desejos dos outros e Pátrocles não desperdiçara a oportunidade. Parecia-me uma explicação demasiado maldosa, pois nunca encontrara em Pátrocles nada que sugerisse uma tão grande falta de escrúpulos. Porém, os caminhos da deusa do amor são, todos eles, de estranheza feitos: quem poderia ter previsto que também eu viria a cair na cilada do sortilégio? Talvez a verdade fosse outra: talvez o coração de Aquiles se defendesse com uma armadura invulnerável, uma armadura que só cedia aos golpes do amor por obra e graça do sortilégio ou seja, em circunstâncias de extrema fragilidade. Tudo aconteceu certo dia em que, escapando à vigilância de Laódice, decidi entregar-me ao trabalho de que mais gostava: polir a armadura dele, no quarto especial onde era guardada. Aquiles entrou. Os seus passos eram mais lentos do que era costume e os seus olhos não me viam, apesar de eu estar mesmo diante dele, com um trapo na mão e um pedido de desculpas na ponta da língua. Tinha o rosto abatido, desfigurado, e havia salpicos de sangue no seu braço direito. Não, aquele sangue não era dele!, concluí, já mais calma. Tirou o elmo e largou-o no chão; levou ambas as mãos à cabeça, como se esta lhe doesse muito. Assustada, comecei a tremer enquanto ele desapertava desajeitadamente as correias da couraça. Onde estava Pátrocles?
Despida a armadura, envergando agora apenas a túnica acolchoada que usava debaixo de todo aquele metal, procurou uma cadeira, com os olhos ausentes virados na minha direção. Porém, em vez de se afundar na cadeira, foi no chão que caiu e logo desatou a tremer e a contorcer-se e a babar copiosamente e a murmurar coisas indistintas. Depois, revirou muito os olhos e ficou hirto, muito hirto, braços e pernas rígidos como os de um cadáver; de súbito, porém, todo o seu corpo rompeu numa convulsão que parecia não ter fim. A baba converteu-se em grandes gotas de espuma, o rosto ficou negro. Não podia fazer nada enquanto as convulsões durassem; porém, logo que cessaram, ajoelhei a seu lado. — Aquiles! Aquiles! Ele não me ouviu; jazia no chão, o rosto da cor da cinza, os braços movendo-se a esmo. Depois de terem encontrado o meu corpo, as mãos dele procuraram a minha cabeça e embalaram-na docemente. — Mãe, deixe-me em paz! A voz dele estava tão alterada que quase não a reconhecia; desatei a chorar, aterrorizada por vê-lo assim. — Aquiles, eu sou Briseida! Briseida! — Por que me atormenta?—perguntou, mas não era a mim que perguntava. Eu não preciso que me lembre que a minha morte está próxima! Não me atormente mais, pois já tenho penas que cheguem—não ficou satisfeita com Ifigênia? Deixe-me em paz, deixe-me em paz! Calou-se depois, porque uma profunda letargia o venceu. Corri à procura de Laódice. — O banho do nosso amo já está pronto?—perguntei, ofegante. Laódice interpretou erradamente a minha pressa: viu desejo onde havia aflição e desatou a meter-se comigo. — Também já não era sem tempo, minha tontinha!—disseme ela.—Sim, o banho já está pronto. Dá-lhe banho que eu tenho muito que fazer . Ai, ai! Dei-lhe banho, embora ele não me distinguisse de Laódice. Daí que pudesse olhar para ele à vontade e entender aquilo que desde o início me recusara a entender: quão belo ele era, quão intensamente o desejava. O vapor inundava o quarto, a minha túnica dardaniana colava-se ao meu corpo porque eu transpirava abundantemente. Escarneci da minha própria tolice. Briseida, afinal, era igual às outras. Tal como todas as suas outras mulheres, Briseida se apaixonara por ele. Apaixonara-se por um homem que não ardia nem por homens, nem por mulheres, pois só vivia para uma coisa:
o combate mortal. Mergulhei um pano em água fria, retorci-o e molhei-lhe o rosto. Nos seus olhos, brilhou algo que se aproximava da consciência. Ergueu a mão e colocou-a no meu ombro. — Laódice?—perguntou. — Sim, meu amo. Vem, a tua cama está feita. De-me a tua mão. Os dedos dele apertaram-me a mão; sem precisar olhar para ele, sabia que Aquiles reconhecera a minha voz. Libertando-me da sua mão, peguei num boião de óleo perfumado que estava sobre a mesa. Quando olhei de relance para o seu rosto, verifiquei que estava sorrindo: o sorriso que quase fazia daquela fenda uma boca, um sorriso inesperadamente gentil. — Obrigado—disse ele. — De nada—respondi, quase incapaz de ouvir o que estava dizendo, tal era a violência com que o meu coração batia. — Há quanto tempo está aqui? Não podia mentir-lhe. — Desde o princípio. — Então, viu. — Vi. — Então, não temos segredos. — Não. Nós partilhamos o segredo—disse eu. E num ápice estava nos seus braços, como não sei. Só que não me beijava; me diria mais tarde que, como não tinha lábios, os beijos pouco prazer lhe davam. Mas o corpo, ah, o corpo dava-lhe todo o prazer do mundo. Um prazer que o meu corpo também sentia. Não havia uma única fibra do meu corpo que as suas mãos não fizessem cantar como uma lira; eu era um corpo sem forças, inarticulado, sentindo apenas a ofuscante intensidade que Aquiles era. E eu, eu que, durante tantas luas, tanto ansiara por aquele momento sem o admitir, conheci finalmente o poder da deusa. Não nos dividiu, nem nos destruiu; por um breve momento, senti a presença da deusa tanto dentro dele como dentro de mim. Amava-me, disseme ele mais tarde. Amava-me desde o princípio. Embora eu não fosse igual a ela, vira Ifigênia em mim. Depois, contou-me a horrível história; imaginei que, desde a morte de Ifigênia, Aquiles se sentia verdadeiramente feliz pela primeira vez. E perguntei-me com que coragem iria eu enfrentar Pátrocles, o qual, com a pureza do amor, tentara a cura do amado, mas falhara. Agora, todas as peças estavam no lugar certo.
Capitulo Vigésimo
Narrado por Enéias
Levei para Tróia um milhar de carros e quinze mil soldados de infantaria. Príamo engoliu a sua aversão à Dardânia e acolheu-me com grande alarido; abraçou o meu pobre e demente pai e deu a Creusa, minha esposa (que era filha dele e de Hécuba), calorosas boas-vindas; quando viu o nosso filho, Ascânio, o seu rosto iluminou-se. Pôs-se logo a compará-lo a Heitor, o que muito me agradou, pois Ascânio, pelo menos fisicamente, era muito parecido com Páris. As minhas tropas foram distribuídas pela cidade e eu e a minha família ficamos num pequeno palácio dentro da cidadela. Quando me vi sozinho, encarei tudo isto com um sorriso amargo; não, de fato não fora um erro protelar por tanto tempo o meu apoio. Príamo estava tão desesperado por se ver livre da sanguessuga grega—e sanguessuga era, pois o sangue que era a vida de Tróia rareava já—que até era capaz de fingir que o apoio da Dardânia fora uma oferta dos deuses. A cidade mudara. As ruas estavam mais tristes e sujas do que em outros tempos; desaparecera a atmosfera de riqueza e poder ilimitados. Tal como alguns dos pregos de ouro das portas da cidadela. Deliciado por me ver a seu lado, Antenor contou-me que muito do ouro de Tróia fora gasto na compra de mercenários dos Hititas e da Assíria, mercenários que, afinal, não tinham vindo. E o ouro não fora devolvido. Ao longo de todo o Inverno entre o nono e o Décimo anos do conflito, recebemos mensagens dos nossos aliados da costa, prometendo o auxílio possível. Desta feita, sentíamo-nos inclinados a acreditar que os governantes da Cária, da Lídia, da Lícia e das outras nações acabariam por vir . A costa fora arrasada de uma ponta à outra, colonizadores gregos começavam já a instalar-se nas ruínas das cidades; os reis nossos aliados já não tinham nem terras nem riquezas para defender . A derradeira esperança da Ásia Menor seria unir-se a Tróia e combater os Gregos em Tróia. A vitória permitiria a esses reis regressarem aos seus domínios e expulsarem os intrusos. De todos vieram notícias: mesmo de alguns de quem já não esperávamos notícia nenhuma. O rei Glauco deslocou-se a Tróia com uma mensagem de Sarpédon, com quem partilhava o trono; estavam organizando as forças que haviam restado; apenas vinte mil homens conseguiriam trazer daquelas nações, outrora tão populosas, que se estendiam desde a Mísia à longínqua
Cilícia. Príamo chorou quando Glauco lhe contou como tudo acontecera. Pentesiléia, a rainha das Amazonas, prometeu dez mil combatentes de cavalaria; Menão, um parente de Príamo que era rei dos Hititas, viria com cinco mil soldados de infantaria e quinhentos carros. Quarenta mil soldados troianos eram nossos; se juntassem em Tróia todos os reis que nos prometiam apoio, no Verão seguinte disporíamos de muito mais soldados do que os Gregos. Os primeiros a chegar foram Sarpédon e Glauco. Era um exército bem equipado; porém, quando examinei mais atentamente os seus soldados, entendi quão profundos haviam sido os golpes que Aquiles desferira nas nações da costa. Sarpédon fora obrigado a incluir no seu exército jovens sem experiência e homens vergados ao peso da idade, camponeses que só sabiam manejar o arado e pastores das montanhas que pouco mais eram do que meninos; enfim, gente que desconhecia por completo a arte da guerra. Mas entusiasmo não lhes faltava e Sarpédon não tinha nada de idiota: sem grande dificuldade, os transformaria em soldados. Heitor e eu sentamo-nos certa noite numa sala do seu palácio e, enquanto nos deliciávamos com o seu vinho, discutimos a situação. — Os teus quinze mil soldados de infantaria, vinte mil soldados das nações costeiras, cinco mil hititas, dez mil amazonas e quarenta mil soldados de infantaria troianos—mais um total de dez mil carros... Enéias, a vitória só pode ser nossa!—disse Heitor . — Cem mil soldados... Segundo as tuas estimativas, quantos Gregos restam no acampamento? - perguntei. — Não é fácil fazer uma estimativa, Enéias. A nossa única fonte de informações têm sido os escravos que, ao longo dos anos, têm fugido do acampamento grego—disse Heitor .—Há um em particular de quem me tornei amigo—um homem chamado Demétrios. Um homem de origem egípcia. Através dele e de outros, fiquei sabendo que Agamêmnon dispõe agora de apenas cinqüenta mil homens. E quanto a carros de guerra, possui apenas mil. — Achei estranho. — Cinqüenta mil? Custa a crer . — Não é assim tão estranho, Enéias. Quando chegaram, os soldados gregos eram oitenta mil. Demétrios disseme que dez mil gregos foram dispensados devido à idade e que Agamêmnon nunca mandou vir mais soldados da Grécia. Os únicos
gregos que têm chegado à Ásia Menor são os colonos. Por outro lado, cinco mil soldados morreram de uma epidemia há cerca de dois anos. Dez mil membros do Segundo Exército ou morreram ou ficaram incapacitados e cinco mil regressaram à Grécia pois as saudades da pátria eram tantas que não agüentavam ficar mais tempo em Tróia. Daí a minha estimativa: não mais do que cinqüenta mil homens, Enéias. — Nesse caso, será fácil aniquilarmos os Gregos—disse eu. — Concordo inteiramente—disse Heitor, francamente animado. – Me apoiará quando eu pedir ao meu pai que autorize a saída do exército? — Mas nós ainda não temos os hititas nem as amazonas, Heitor! — Não precisamos deles. — Não se esqueça de que o exército grego possui uma longa experiência, ao contrário do que sucede com o nosso. Os Gregos são um povo habituado à guerra. E os seus soldados sabem que possuem ótimos chefes. — Admito a nossa inexperiência, mas não estou de acordo quanto à excelência dos chefes gregos. Nós também possuímos guerreiros famosos—você, por exemplo. E Sarpédon, que é filho de Zeus! Os soldados adoram-no.—Heitor tossiu, embaraçado.—E eu próprio, agora. — Não é o mesmo—insisti.—Que pensam os Dardanianos de Heitor ou os Troianos de Enéias? E quem é que conhece o nome de Sarpédon, filho de Zeus ou não, fora dos limites da Lícia? Pensa nos nomes gregos! Agamêmnon, Idomeneu, Nestor, Aquiles, Ájax, Teucro, Diomedes, Ulisses, Meríona—e mais, muitos mais! Até Macáon, o cirurgião-chefe grego, é um guerreiro notável! E todos os soldados gregos conhecem todos esses nomes. Se perguntar a um soldado grego qual é o prato preferido de um determinado chefe, ou a sua cor favorita, aposto que o homem sabe. Não, Heitor, os Gregos são uma única nação combatendo sob o comando de um rei supremo, Agamêmnon. Nós, em contrapartida, não passamos de facções divididas por rivalidades mesquinhas, por censuráveis invejas. Heitor fitou-me por um longo momento e, com um suspiro, retorquiu: — Tem razão, Enéias, claro que tem razão. Creio, porém, que quando for dada ordem de batalha, o nosso exército poliglota não pensará em outra coisa senão em expulsar os Gregos da Ásia Menor . Os nossos soldados anseiam pela vitória. Nós lutamos pela nossa sobrevivência. Eu ri. — Heitor, você é um idealista incurável! Quando um homem encosta a
ponta da sua lança à sua garganta, será que para pensar que esse homem anseia pela vitória? Os Gregos lutam pela sua sobrevivência tanto como nós lutamos pela nossa. Sem se dar ao trabalho de comentar as minhas palavras, Heitor encheu de novo os nossos copos. — Tenciona portanto pedir ao teu pai que te autorize a sair com o exército? — Sim—disse Heitor .—Hoje. Estou farto destas muralhas, Enéias! A cidade de Tróia converteu-se numa imensa prisão!—Acontece por vezes que as coisas que mais amámos acabam por ser precisamente aquelas que nos destroem—disse eu. Heitor sorriu, mas não estava nada divertido. — É um homem tão estranho, Enéias ... ! Será possível que não acredita em nada? Será possível que não tenha amor a nada? — Acredito em mim mesmo e tenho amor a mim mesmo—retorqui eu, dono e senhor de mim mesmo. Príamo vacilou: na sua mente, o bom senso travava uma luta sem tréguas com a ânsia de expulsar os Gregos. Mas acabou por dar ouvidos a Antenor e não a Heitor . — Não faça isso, rei Príamo!—suplicou Antenor .—Um confronto prematuro com os Gregos seria a morte de todas as nossas esperanças! Espera por Menão dos Hititas e pela rainha das Amazonas! Se Agamêmnon não tivesse Aquiles e os Mirmidões, tudo seria por certo diferente, mas a verdade é que os Mirmidões fazem parte do exército grego e justificam plenamente os meus receios! Desde que nascem, os Mirmidões vivem apenas para a guerra. O seu corpo é como bronze, o coração é como pedra, o espírito é tão pertinaz como o de uma formiga. Por alguma razão, lhes chamam Formigas! Sem as guerreiras amazonas, que serão capazes de opor uma resistência decisiva aos Mirmidões, a linha da frente das tuas tropas sucumbirá num ápice! Espera, rei Príamo, espera! Príamo decidiu esperar . Superficialmente, Heitor pareceu aceitar o veredito do pai. Mas eu conhecia Heitor ... O herdeiro de Tróia não pensava em outra coisa senão em combater Aquiles; o receio que o seu pai sentia relativamente a Aquiles fora precisamente a razão da sua derrota naquela assembléia. Aquiles... Recordei o meu encontro com ele nos arredores de Lirnesso e perguntei-me se Aquiles seria superior a Heitor . Tinham mais ou menos a
mesma corpulência e estatura, possuíam o mesmo espírito marcial. No entanto, havia qualquer coisa que me dizia que Heitor estava condenado a sair derrotado do confronto... Em minha opinião, as nossas sociedades tendiam a sobrestimar a virtude—e Heitor era tão virtuoso... A virtude não era o meu domínio—eu ardia por outras coisas... Foi com inquietação que abandonei a Sala do Trono. Por causa daquela antiqüíssima profecia que dizia que eu reinaria um dia em Tróia, Príamo afastara-se de mim e do meu povo. Apesar de toda a civilidade exibida desde o dia em que eu chegara, o escárnio velado continuava lá. Só os meus soldados me tornavam desejado. Porém... como é que eu poderia sobreviver aos cinqüenta filhos de Príamo? Como? A menos que Tróia perdesse a guerra—nesse caso, até era possível que Agamêmnon decidisse dar-me o trono de Tróia ... Um belo dilema, para alguém que tinha nas veias o mesmo sangue de Príamo ... Encaminhei-me para o pátio grande da cidadela e por aí vaguei, consumido pelo ódio que votava a Príamo, desejando que Tróia fosse minha. Até que me dei conta que havia alguém, oculto nas sombras, espiando os meus movimentos. Senti como que um gelo na minha nuca. Príamo odiavame. Seria capaz de cometer um pecado tão horrendo? Seria capaz de matar um parente próximo? Concluí que sim—Príamo seria capaz disso e de muito mais. Empunhei o punhal e, oculto pelo altar repleto de flores consagrado a Zeus do Pátio, avancei pé ante pé. Quando estava à distância de pouco mais de um braço do meu espião, saltei para cima dele, tapei-lhe a boca e encostei a lâmina à garganta. Mas os suaves lábios sob a palma da minha mão não eram lábios de homem, tal como não eram de um homem os seios que o meu punhal roçava. Libertei-a imediatamente. — Pensou que eu era um assassino?—perguntou ela, ofegante. — É uma estupidez andar por aí oculta pelas sombras, Helena. Encontrei uma lanterna no degrau do altar e acendi-a com o fogo eterno; ergui-a depois e examinei demoradamente a mulher de Páris. Oito anos tinham passado desde a última vez que a vira. Inacreditável! Devia ter trinta e dois anos. Mas as lanternas são amáveis; mais tarde, sob uma luz mais intensa, pude ver os danos que a idade desenhara à volta dos seus olhos, pude sentir a flacidez que se anunciava nos seus seios... No entanto, por todos os deuses... continuava tão bela! Helena, Helena
de Tróia e de Amiclas. Helena, a Sanguessuga. Todo o encanto de Ártemis, a Caçadora, se insinuava na sua pose, toda a delicadeza de traços e toda a sedução lasciva de Afrodite brilhavam no seu rosto. Helena, Helena, Helena... Só agora, enquanto olhava para ela, é que me dava conta das muitas noites em que a sua imagem irrompera nos meus sonhos, dos muitos sonhos em que ela desapertara a sua cinta cravejada de pedras preciosas e deixara cair as suas saias em torno de uns pés tão brancos como marfim. Helena era Afrodite encarnada, era Afrodite transformada numa forma mortal. Em Helena, eu reconhecia as formas e os traços da deusa que era minha mãe, a mãe que eu nunca vira, a mãe que conhecia apenas graças aos delírios do meu pai, que enlouquecera devido ao seu encontro amoroso com a deusa do amor . Helena era todos os sentidos encarnados, uma Pandora que sorria e que guardava os seus segredos, escrava e senhora; ela era terra e amor, umidade e ar, fogo misturado com um gelo capaz de abrir as veias a um homem. Ela exibia todo o fascínio da morte e do mistério, ela tornava tudo o mais risível. Pôs a sua mão no meu braço, as unhas polidas brilhando como o interior de uma concha. — Está em Tróia há quatro luas, mas esta é a primeira vez que o vejo, Enéias. Revoltado e enfurecido, afastei a sua mão. — Porque haveria eu de procurá-la? Que terei eu a ganhar, nesta corte de Príamo, se me virem a cortejar a Grande Meretriz? Ela ouviu impassível as minhas palavras, os olhos baixos. As pestanas negras ergueram-se então, os seus olhos verdes fitaram-me gravemente. — Concordo com tudo isso—disse ela, sentando-se, compondo os folhos da saia que emitiam uma música esbatida.—Aos olhos de um homem— prosseguiu—uma mulher é uma coisa, um objeto. Um objeto que é propriedade sua. Pode abusar dela à vontade sem medo de represálias. As mulheres são criaturas passivas. A autoridade nos é vedada, pois os homens crêem que não temos acesso ao pensamento lógico. Mas somos nós que damos à luz aos homens, ainda que os homens se esqueçam disso. Bocejei. — A autocomiseração é algo que não lhe assenta bem—disse. — Gosto de você—disse ela, sorrindo—porque você vive para as suas próprias ambições. E porque é como eu.
— Como você? — Sim, como eu... Eu sou um brinquedo nas mãos de Afrodite. Você é o seu filho. Sôfrega, procurou os meus braços e encheu-me de carícias estonteantes; ergui-a nos meus braços e caminhei com ela pelos silenciosos corredores que conduziam aos meus aposentos privados. Ninguém nos viu. Suponho que a minha mãe—astuta raposa!—nos protegia. Mesmo quando a intensidade da sua paixão abalava o que de mais fundo havia em mim mesmo, havia uma parte dela que nem sequer sabia da possessão que a consumia—um longínquo recanto do seu ser, reservado e secreto. Partilhamos o mesmo paroxismo de prazer, mas, enquanto me obrigava a desnudar todo o meu espírito, Helena mantinha o seu próprio espírito guardado a sete chaves num qualquer esconderijo e eu não tinha a menor esperança de alguma vez encontrar uma só chave que fosse.
Capítulo Vigésimo Primeiro
Narrado por Agamêmnon
Há muito que o exército recebera ordem de batalha, mas Príamo permanecia no interior das muralhas. Até as surtidas dos destacamentos troianos haviam cessado; as minhas tropas andavam irritadas devido à incerteza e à inação. Não tendo nada a discutir, não convoquei conselho nenhum. Até que Ulisses apareceu. — Agamêmnon, estaria de acordo em convocar um conselho para hoje ao meio-dia?—perguntou-me. — Porquê? Não há nada para discutir . — Não quer saber como é que vamos convencer Príamo a sair? — O que você está maquinando, Ulisses? Fitou-me com uma expressão divertida, radiante. — Rei Agamêmnon! Não pode me pedir que te revele os meus segredos neste momento! Seria o mesmo que pedir a imortalidade aos deuses! — Muito bem. Convocarei o conselho. — Posso te pedir outro favor? — Que favor?—perguntei, desconfiado. Ulisses olhava-me com aquele sorriso irresistível a que costumava recorrer sempre que queria de mim qualquer coisa. Fraquejei: que poderia eu fazer quando Ulisses se punha com aquele sorriso? Só poderia dizer que sim a tudo, porque ficava encantado com o maldito sorriso. — Não quero um conselho geral. Só alguns homens. — O conselho é seu. Convocarei os homens que desejar . Diga-me os seus nomes. — Nestor, Idomeneu, Menelau, Diomedes e Aquiles. E Calcas? — Nem pensar! — Daria tudo para saber porque é que detesta tanto o homem, Ulisses. Se ele fosse um traidor, a esta hora já o saberíamos. Contudo, insiste em excluílo de todos os conselhos importantes. Os deuses são testemunhas, Ulisses: Calcas já teve imensas oportunidades para revelar os nossos segredos aos Troianos, mas a verdade é que nunca o fez. — Calcas ignora alguns dos nossos segredos tanto como você, Agamêmnon. Creio que ele está apenas à espera do segredo decisivo—o
segredo capaz de justificar uma traição. Mordisquei nos lábios, soprei irritado. Por fim, retorqui: — Muito bem. Calcas não virá. — Mas atenção: também não lhe pode dizer que vai haver um conselho. E mais: logo que estejamos reunidos, quero as portas e as janelas seladas com tábuas e um cordão de guardas à volta de todo o edifício. — Ulisses! Não acha que está exagerando? Havia uma malícia evidente no seu sorriso. — Não quero que Calcas fique mal visto... É por isso que vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance para que esta guerra não dure mais de dez anos. Os homens que Ulisses convocou estavam à espera de um conselho geral. Quando compreenderam que seríamos apenas sete, não conseguiram esconder a sua curiosidade. — Porque não convocou Meríona?—perguntou-me Idomeneu, algo irritado. — E Ájax?—perguntou-me Aquiles, truculento como sempre. Aclarei a voz para a minha breve intervenção. — Ulisses pediu-me que os convocasse. Ulisses queria um conselho de apenas sete homens. Querem saber a que se deve este barulho? São os guardas que estão pregando tábuas nas portas e janelas desta sala. Por aí podem ver até que ponto os assuntos que vamos tratar são secretos... Exijo por isso que todos jurem o seguinte: tudo o que aqui for dito, não poderá ser repetido fora destas paredes. Nem mesmo durante o sono. Um a um, todos ajoelharam e juraram. Quando Ulisses começou, era branda a sua voz; um dos seus muitos truques. Começava com uma voz tão suave e tão baixa que tínhamos de fazer um esforço para ouvi-lo; porém, à medida que ia delineando as suas idéias, o volume da sua voz ia também crescendo. Até que, no fim, ressoava por toda a sala como se fosse um tambor . — Antes de abordar a razão que me levou a pedir a convocação de um conselho tão restrito—disse ele, numa voz que quase não se ouvia—contarei a alguns dos presentes aquilo que outros já sabem. Mais exatamente: revelarei a verdadeira função da minha prisão no pequeno vale. Cada vez mais irado e espantado, escutei da boca de Ulisses aquilo que Nestor e Diomedes sempre haviam sabido. Por que estranho motivo nunca nos tínhamos lembrado de investigar o que se passava no pequeno vale? Talvez porque—admiti eu, apesar de me sentir muito ofendido—nenhum
de nós estava verdadeiramente interessado em investigar; Ulisses, ao levar consigo os piores soldados, resolvera alguns dos nossos mais graves problemas —livrara-nos daquelas malditas criaturas. E, pelos vistos, não os encarcerara... Não, nada disso: as malditas criaturas eram, agora, os seus espiões! — Muito bem—disse eu, incapaz de ocultar a minha irritação, quando Ulisses concluiu as suas revelações.—Pelo menos agora sabemos como é que você consegue prever os sucessivos passos do exército troiano. Mas porquê tanto segredo? Eu sou o rei dos reis, Ulisses! Deveria ter-me informado de tudo desde o início! — Não poderia fazê-lo—retorquiu Ulisses—enquanto favorecesse Calcas. — Eu continuo a favorecer Calcas. — Mas não tanto como favorecia... — Talvez. Talvez. Prossiga, Ulisses. O que é que os seus espiões têm a ver com esta reunião? — Os meus espiões não têm descansado tanto como o nosso exército— disse ele.—Todos conhecemos os boatos que correm quanto às razões por que Príamo ainda não abandonou as suas muralhas. Segundo o rumor mais corrente, Príamo não teria ainda os reforços de que estava à espera—ou seja, teria ainda menos homens do que nós. Isso não é verdade. Neste momento, Príamo dispõe de setenta e cinco mil homens, mais de dez mil carros. Quando Pentesiléia, a rainha das Amazonas, e Menão, o rei dos Hititas, chegarem, o exército aliado nos superará drasticamente. Além disso, Príamo está erroneamente convencido de que, com alguma sorte, nós conseguiremos reunir apenas quarenta mil homens. Podem ter certeza de que tudo isto é verdade. Consegui introduzir na corte troiana alguns dos meus espiões—e Príamo e Heitor confiam neles. Deu uma breve volta pela sala, escassamente ocupada e, portanto, livre de obstáculos. — Antes de avançar, gostaria de falar um pouco do rei de Tróia. Príamo é um homem muito velho e atreito às dúvidas, às vacilações, aos receios e preconceitos dos velhos. Em suma: Príamo não é um Nestor . Que não haja nenhum equívoco quanto a este ponto. Príamo governa Tróia com uma mão muito mais autocrática do que qualquer rei grego—Príamo é, literalmente, o rei de tudo aquilo que os seus olhos vêem. Nem mesmo Heitor, seu filho e herdeiro, se atreveria a dizer-lhe o que deveria ou não fazer . Agamêmnon convoca conselhos. Príamo convoca assembléias.
Agamêmnon escuta atentamente aquilo que nós temos a dizer . Príamo escuta apenas a sua própria voz e as vozes que ecoam aquilo que ele está pensando. Parou e virou-se para nós. — É neste homem que temos de nos concentrar . A nossa astúcia terá de ser superior à dele. Teremos de saber manipulá-lo sem que ele suspeite sequer de que está sendo vítima da nossa manipulação. Heitor chora enquanto vagueia pelas ameias, contando os seus soldados e vendo-nos acampados nesta praia do Helesponto como fruta madura pronta a ser colhida. Enéias impacienta-se e anseia pelo combate. Antenor, sozinho, nada faz, porque Príamo só faz aquilo que Antenor deseja—e Príamo também nada faz. Mais uma volta diante das cadeiras; todos os olhos o seguiam. — Resta-nos saber, portanto, por que razão Príamo não quer a guerra, precisamente numa altura em que teria boas hipóteses de nos expulsar da Tróada. Estará mesmo à espera de Menão e Pentesiléia? Nestor acenou que sim. — Sem dúvida—disse.—Um homem tão velho como ele esperaria sempre por mais e mais reforços. Ulisses respirou fundo; a sua voz começava a crescer . — Mas nós não podemos permitir-lhe que espere mais tempo! É preciso que suceda qualquer coisa que o convença a sair da cidade, antes que se possa dar ao luxo de perder milhares e milhares de soldados. As minhas fontes de informação são muito melhores do que as de Príamo e posso garantir-lhes que tanto Pentesiléia como Menão chegarão a Tróia antes que a neve do Inverno fechem as estradas do interior . As Amazonas são cavaleiras; portanto, com elas, Tróia disporá de mais de vinte mil soldados de cavalaria. Em menos de dois meses, Pentesiléia estará em Tróia. Menão virá logo a seguir . Engoli em seco. — Ulisses, eu não tinha percebido essa possibilidade... Porque é que não me falou disso mais cedo? — Porque só agora é que pude confirmar as minhas informações. — Sim, estou vendo... Prossiga, por favor . — Príamo estará na defensiva apenas por uma questão de prudência, ou haverá mais alguma razão para o fato de protelar a guerra?—perguntou Ulisses, para ninguém em particular .—Não, a prudência não explica tudo. Se não fossem Aquiles e os Mirmidões, Príamo teria já autorizado Heitor a
sair da cidade com o seu exército. Príamo receia mais Aquiles e os Mirmidões do que todas as outras nossas tropas juntas. Em parte, os seus receios são motivados por certos oráculos envolvendo Aquiles—oráculos segundo os quais a presença de Aquiles implica necessariamente a destruição da elite troiana. Mas também são motivados por um sentimento que se generalizou entre as hostes troianas: o sentimento de que os Mirmidões são imbatíveis, de que Zeus os criou a partir de um exército de formigas, a fim de dotar Peleu dos melhores soldados do mundo. Bom, todos nós sabemos como são os homens normais—supersticiosos e crédulos. Porém, tudo isto junto significa que Príamo precisa de um bode expiatório—alguém que possa opor a Aquiles e aos Mirmidões. — Pentesiléia ou Menão?—perguntou Aquiles, com uma expressão grave. — Pentesiléia. São muitos os mistérios que rodeiam a rainha das Amazonas e as suas guerreiras. Além disso, as amazonas trazem consigo a magia que só as mulheres possuem. É que Príamo não pode permitir que Heitor combata contra Aquiles. Mesmo que Apolo garantisse uma vitória troiana, Príamo não permitiria que Heitor enfrentasse um homem que, segundo os oráculos, implicará a destruição da elite troiana. Não havia sinal de alegria no rosto de Aquiles. Apesar disso, não interrompeu Ulisses. — Aquiles possui dons que são raros—comentou Ulisses.—É um chefe tão capaz como o próprio Ares. E é ele quem comanda os Mirmidões. Nestor suspirou. — Se fôssemos todos como ele...—disse.—Ainda é cedo para desesperos, Nestor!—retorquiu Ulisses num tom bem-disposto.—Eu ainda não perdi todas as minhas faculdades. Diomedes—claro que Diomedes já sabia o que ia se passar, fosse lá o que fosse—sorria. Aquiles observava-me e eu observava-o; Ulisses observava-nos aos dois. Então, sem mais nem menos, bateu com o Bastão no chão com tal violência que todos nós saltamos nas cadeiras, e, quando falou, a sua voz ressoou como o trovão. — Terá de haver uma disputa entre nós! Fitamo-lo boquiabertos. — Os Troianos não desconhecem a espionagem—prosseguiu Ulisses num tom mais normal.—Para dizer a verdade, os espiões troianos no nosso acampamento têm-me servido quase tão bem como os espiões que mandei
para Tróia. Conheço-os a todos e passo-lhes determinadas informações que eles, como bons espiões que são, transmitem a Polidamas, que os recrutou— um homem interessante, este Polidamas, embora não seja tão apreciado quanto deveria ser: mais uma razão para agradecermos aos deuses! Claro que os espiões de Polidamas levam apenas aquilo que eu os deixo levar— nomeadamente, a falsa informação de que temos um total insignificante de soldados. Porém, nestas últimas luas, tenho-os encorajado a transmitir a Polidamas uma informação muito particular ... Tão particular que me sinto tentado a incluí-la no campo do mero mexerico... — Mexerico?—perguntou Aquiles, com o sobrolho muito franzido. — Sim, mexerico. As pessoas adoram acreditar em mexericos.... — Que mexericos?—perguntei. — Mexericos que são verdade: que não existe nem sombra de amizade entre Agamêmnon e Aquiles. Creio que parei de respirar mais tempo do que devia, pois tive de inspirar de súbito e muito audivelmente. — Nem sombra de amizade entre mim e Aquiles...—disse eu, lentamente. — Exato—disse Ulisses, satisfeito consigo mesmo.—Sabe, Agamêmnon, é que os soldados adoram falar dos seus superiores. E todos eles sabem que tem havido sérias divergências entre vocês. Ultimamente, tenho espalhado o boato de que o vosso relacionamento se tem deteriorado—e de que maneira! Aquiles levantou-se de um salto. O rapaz estava lívido. — Não gosto nada desses mexericos, Ulisses de Ítaca!—exclamou ele, furioso. — Não esperava que gostasse, Aquiles. Mas sente-se, faça o favor!— Ulisses calou-se por um momento; tinha um ar pensativo.—Tudo aconteceu nos últimos dias do Outono, quando os despojos de Lirnesso foram divididos em Andramítio.—Suspirou.—É um espetáculo muito triste, quando dois grandes homens se engalfinham por causa de uma mulher ... ! Agarrei-me aos braços da cadeira para não me levantar e olhei para Aquiles, meu companheiro de mortificação; havia nos seus olhos um negrume que não deixava margem para dúvidas. — Claro que é inevitável que uma tão pronunciada inimizade tenha um desfecho pouco agradável—prosseguiu Ulisses, como se estivesse a ter a mais normal das conversas.—Ninguém ficará surpreendido se houver entre
vocês uma rija disputa... — Por causa de quê?—perguntei. -Por causa de quê? — Um pouco de paciência, Agamêmnon! Primeiro, terei de explanar detalhadamente os acontecimentos de Andramítio. O Segundo Exército, em sinal de respeito, lhe ofereceu uma prenda muito especial: uma moça chamada Criseida, cujo pai era sumo-sacerdote de Apolo Esminteu em Lirnesso. Criseu envergou armadura, empunhou uma espada e foi morto em combate. Agora, porém, Calcas anda dizendo que os augúrios são muito adversos—e que só melhorarão caso a moça fique sob a custódia dos sacerdotes de Apolo em Tróia. Pelos vistos, incorremos na ira do deus, se Criseida não for devolvida. — Isso é verdade, Ulisses—disse eu, encolhendo os ombros.—Contudo, como disse a Calcas, não vejo de que modo Apolo poderá castigar-nos mais. Apolo está completamente do lado de Tróia. Criseida agrada-me. Não tenho a menor intenção de desistir dela. Ulisses fez um irônico “Tch!” e prosseguiu: — Reparei, contudo, que a tua oposição irrita sobremaneira Calcas. Estou por isso certo de que o nosso sacerdote continuará a exortar-nos a que mandemos para Tróia a moça. E, para ajudá-lo, creio que seria boa idéia se houvesse um surto de peste no nosso acampamento. Tenho uma erva que deixa um homem muito doente durante cerca de oito dias, após o que recupera completamente. Verdadeiramente impressionante! Aos primeiros sinais de peste, Calcas te pedir-á, mais ou menos diariamente, que devolva Criseida a Tróia. E, perante a violência da ira de Apolo, consubstanciada na temível doença, você, Agamêmnon, acabará por ceder! — Mas onde é que tudo isso vai dar?—perguntou Menelau, exasperado. — Prometo que em breve saberá.—Ulisses concentrou-se em mim. — Contudo, Agamêmnon, você não é propriamente um principezinho insignificante.—portanto, não se conformará com o fato de te ser retirado, de uma forma tão arbitrária, um prêmio absolutamente legal. Você é o rei dos reis. Logo, terá de ser compensado. Poderá argumentar que, se foi o Segundo Exército quem te ofereceu a moça, terá de ser o Segundo Exército a substituí-la. Ora bem: havia entre os despojos de Lirnesso uma outra moça, a qual foi atribuída—de uma forma particularmente arbitrária—a Aquiles. Chama-se Briseida, essa jovem. Todos os reis, mais duzentos oficiais de
alta patente, perceberam que o nosso rei dos reis teria preferido Briseida a Criseida. E os mexericos espalham-se depressa, Agamêmnon. Atualmente, todo o exército sabe que você teria preferido Briseida. No entanto, todos sabem também que Aquiles desenvolveu uma extrema afeição por Briseida e que não gostaria nada que o separassem dela. Aos soldados, bastou-lhes olharem para Pátrocles para logo perceberem o que se passava: o pobre Pátrocles anda com uma cara que é a própria encarnação da tristeza. — Ulisses, está entrando em terreno perigoso—disse eu, antes que Aquiles conseguisse falar . Ulisses ignorou-me. — Você e Aquiles—disse—vão brigar por causa de uma mulher . Sempre achei que as brigas por causa de mulheres são um fato facilmente aceito por todas as pessoas—não esqueçamos que tais disputas são extremamente comuns e causaram mesmo a morte de muitos homens. Se me permite a liberdade, meu caro Menelau, creio que poderíamos incluir Helena nesse catálogo. — Não o permito!—rosnou o meu irmão. Ulisses pestanejou. Ah, mas que patife! Quando lhe davam a rédea toda, não havia quem o detivesse. — Eu próprio—disse ele, visivelmente divertido—tratarei de inventar uns quantos presságios nas barbas do nosso augusto sacerdote. Eu próprio fabricarei a falsa peste. Uma coisa prometo desde já: a doença enganará até Podalírio e Macáon! Ao fim de um dia, o terror se espalhará pelo nosso acampamento. Agamêmnon: logo que te informem da gravidade da doença, chamará Calcas e lhe perguntará por que motivo o deus está irado. Ele vai adorar . E adorará ainda mais, quando você solicitar um augúrio público. Diante de todos os oficiais superiores do nosso exército, Calcas exigirá que envie Criseida para Tróia. A sua posição será absolutamente insustentável. Terá de concordar com a exigência de Calcas. Contudo, estou certo de que ninguém o censurará se ficar ofendido com as gargalhadas de Aquiles. Gargalhadas no meio de um augúrio público? É de pasmar! Por esta altura, estávamos já sem fala, embora eu duvide que Ulisses tivesse parado mesmo que Zeus houvesse lançado um raio a seus pés. — Como é evidente, o rei dos reis ficará furioso. E exigirá que Aquiles lhe dê Briseida. Depois, apelará para os oficiais superiores—a oferta do Segundo Exército foi-lhe retirada; logo, Aquiles terá de compensá-lo, oferecendo-lhe Briseida. Aquiles dirá que não, mas a sua posição será tão insustentável como
a do rei dos reis quando Calcas lhe pediu Criseida. Aquiles terá de desistir de Briseida -e o fará ali mesmo, sem mais demora. Porém, depois de ter entregado a moça a Agamêmnon, lhe lembrará que nem ele, nem o seu pai, juraram o Juramento do Cavalo Esquartejado. Diante de toda a assembléia, Aquiles anunciará a sua retirada da guerra.—Ulisses desatou num riso que só ao fim de algum tempo conseguiu controlar .—Tenho um retiro especial reservado para um certo Troiano que eu conheço. No dia seguinte, toda a cidade de Tróia saberá da briga. Estávamos como homens transformados em pedra pelo olhar de Medusa. Quanto às tempestades de emoções que Ulisses provocara nos outros, poderia apenas conjecturar; as minhas próprias tempestades já eram suficientemente medonhas. Pelo canto do olho, vi Aquiles mexer-se, e concentrei nele a minha atenção, impaciente por saber como reagiria o jovem. Nunca conhecera um homem como Ulisses, capaz de buscar os mais secretos túmulos tantos e tantos esqueletos secretos e de os exibir diante de todos. Pela Mãe, Ulisses era uma criatura verdadeiramente brilhante! Fiquei espantado com Aquiles: o rapaz, afinal, não estava furioso! Nos seus olhos, havia apenas admiração. — Que espécie de homem és você, Ulisses, para conseguir projetar tão profunda desordem? É um plano hediondo—e assombroso! Contudo, tem de admitir que nem eu nem Agamêmnon sairemos beneficiados. As nossas duas carcaças serão cobertas de ridículo e desprezo, se fizermos aquilo que pretende. E, se quer saber, devo dizer que não renunciarei a Briseida, nem que, por isso, tenha de morrer . Nestor pigarreou um pouco. — Você não vai renunciar a nada, Aquiles. As duas jovens ficarão sob a minha custódia e comigo permanecerão enquanto o plano de Ulisses não atingir o desfecho pretendido. As levarei para um local secreto. Ninguém saberá onde estão. Incluindo Calcas. Aquiles não estava convencido. — Uma oferta justa, Nestor, e uma oferta em que confio. Mas com certeza que entende por que razão eu não gosto deste plano. Que acontecerá se conseguirmos enganar Príamo? Sem os Mirmidões na linha da frente, sofreremos perdas fatais. Não posso gostar de um plano que põe em perigo tantas vidas.—Fez uma breve pausa, cismando.—E Heitor? Eu jurei aos deuses que havia de matá-lo... E se ele morrer enquanto eu não estiver no campo de batalha? E quanto tempo é que eu vou estar longe do campo
de batalha? Ulisses respondeu. — Sim, nós perderemos soldados que não perderíamos se os Mirmidões estivessem conosco. Mas os Gregos não são guerreiros inferiores. Não tenho a mínima dúvida de que nos sairemos bastante bem. Por ora, não responderei à mais importante das tuas questões—quanto tempo terá de se ausentar do campo de batalha. Prefiro falar primeiro da eventualidade de Príamo abandonar as suas muralhas. Respondam-me, se puderem: que acontecerá se esta guerra se arrastar por muito mais tempo? Que acontecerá se os nossos homens envelhecerem sem a esperança de voltarem a ver os seus lares? Que acontecerá se Príamo sair apenas quando Pentesiléia e Menão chegarem? Com ou sem Mirmidões, seremos arrasados.—Sorriu e continuou.—Quanto a Heitor, há de viver o tempo suficiente para combater contigo, Aquiles. Estou certo e seguro disso. Nestor levantou-se para falar . — A primeira saída de todo o exército troiano será, para Tróia, um passo fundamental—disse.—Depois desse passo dado, voltarão a sair das suas muralhas. Se sofrerem pesadas baixas, Príamo receberá a informação de que as nossas baixas foram ainda mais graves. Quando conseguirmos atraí-los ao campo de batalha, o dique rebentará. Não descansarão enquanto não nos expulsarem de Tróia, ou enquanto o último dos troianos não estiver morto. Aquiles estirou os braços, os músculos enormes movendo-se sob a pele. — Ulisses, duvido que tenha a força de caráter suficiente para me abster de combater enquanto todo o exército corre para o campo de batalha. Há dez anos que espero pela guerra. E há outros fatores a ter em conta. Que dirão os soldados de um homem que os abandona num momento tão difícil, unicamente por causa de uma mulher—que dirão os meus mirmidões? — Não te farão elogios, Aquiles: quanto a isso não tenho a menor dúvida retorquiu Ulisses, num tom sério.—Para fazer aquilo que te peço, terá de ter um tipo de coragem muito especial. Muito mais coragem do que aquela que seria precisa para atacar a Cortina Ocidental amanhã. Que não haja equívocos! Aquiles não exagerou: a realidade será tão dura como o quadro que ele descreveu! Muitos serão aqueles que o insultarão, Aquiles. Muitos serão aqueles que o insultarão, Agamêmnon. Alguns o amaldiçoarão. Alguns cuspirão para o chão à vossa passagem. Com um sorriso irônico, Aquiles fitou-me, mas havia no seu olhar alguma compaixão. Ulisses conseguira aproximar-nos mais do que eu julgaria ser
possível depois do que sucedera em Áulida. A minha filha! A minha pobre filha! Quieto e frio, antevi o odioso papel que teria de representar . Se Aquiles ia fazer o papel do fantoche arrebatado, que espécie de fantoche ia eu representar? Seria fantoche a palavra certa? Talvez “idiota” fosse mais adequada. Nesse exato instante, como que anunciando que acabara de tomar uma decisão, Aquiles deu uma forte palmada na coxa. — A tarefa que nos propõe é extremamente pesada, Ulisses. Porém, se Agamêmnon tiver a humildade de aceitar carregar sobre os seus ombros a sua parte deste fardo, como poderei eu recusar? — Qual é a sua decisão, Agamêmnon?—perguntou-me Idomeneu, num tom que sugeria que nunca estaria de acordo com uma resposta positiva da minha parte. Abanei a cabeça, pousei o queixo sobre a mão e pensei, pensei, pensei, enquanto todos os outros me observavam. Aquiles interrompeu as minhas cogitações, dirigindo-se de novo a Ulisses. — Responde agora à mais importante das minhas perguntas, Ulisses quanto tempo? — Precisaremos de dois ou três dias para atrair os Troianos ao campo de batalha. — Isso não é resposta. Quanto tempo é que eu terei de ficar à margem dos acontecimentos? — Proponho que ouçamos primeiro a decisão do rei supremo. Agamêmnon, que decidiu? Deixei cair a mão que me amparava o queixo. — Eu o farei, desde que seja observada uma condição. Cada um dos homens presentes nesta sala terá de jurar solenemente que cumprirá tudo o que aqui for acordado, até ao dia do desfecho final—seja qual for esse desfecho. Ulisses é o único que poderá nos guiar através deste labirinto—tais planos, tais intrigas, tais tergiversações, nunca se coadunaram com a posição dos reis supremos de Micenas; digamos que são um domínio mais próprio dos reis ilhéus. Estão todos de acordo quanto ao juramento? Estavam todos de acordo. Como não havia nenhum sacerdote presente, juramos pelas cabeças dos nossos filhos varões, pela sua capacidade em procriar e pela perpetuação das nossas linhagens. Um juramento mais tremendo ainda do que o do Cavalo Esquartejado. Ulisses, peço agora que conclua—disse Aquiles.
— Eu me encarregarei de Calcas. Farei com que ele faça aquilo de que estamos à espera e que nunca saiba de que estávamos à espera disso mesmo. Calcas acreditará em si mesmo tão completamente como o jovem e pobre pastor escolhido entre a multidão para desempenhar o papel de Dioniso durante as festas das Ménades. Aquiles: depois de ter entregue Briseida a Agamêmnon e dito a tua parte, pegará os teus oficiais mirmidões e com eles regressará sem demora à sua base. Ainda bem que insististe em construir uma estacada à volta do teu acampamento! O seu isolamento se tornará ainda mais evidente. Proibirá os mirmidões de abandonarem o seu acampamento. Você próprio não o abandonará. A partir desse momento, receberás visita, mas nunca visitará ninguém. Todos pensarão que as visitas tentarão demover-te. Em todas as circunstâncias, e diante de todos os teus amigos mais próximos, deverá pôr um ar verdadeiramente furioso—o ar de um homem que se sente profundamente magoado e desiludido—de um homem que sente ter sido vítima de uma tremenda injustiça—de um homem que preferiria morrer a reatar o seu relacionamento com Agamêmnon. Até mesmo Pátrocles terá de te ver assim: furioso, magoado, desiludido. Entendido? Aquiles aquiesceu gravemente; agora que tudo estava decidido e que o juramento fora feito, parecia resignado. — Continuo à espera da tua resposta, Ulisses—disse ele.—Quanto tempo? — Só intervirá no último, no derradeiro momento—disse Ulisses.—Heitor deve ficar absolutamente convencido de que a sua vitória é certa—e o pai dele também! Estica a corda tanto quanto for possível, Aquiles! Quanto mais esticar a corda, tanto maior será o efeito de surpresa—tanto maior será o pânico! Os próprios mirmidões retomarão a ação antes de você.—Respirou fundo, prosseguiu.—Ninguém pode prever o que acontecerá no campo de batalha. Nem mesmo eu. Porém, há coisas que são praticamente certas. Por exemplo: sem o apoio dos mirmidões, seremos arrastados para dentro do nosso próprio acampamento. Heitor irromperá pela nossa muralha defensiva e chegará aos nossos navios. Posso contribuir para que as coisas se passem assim, recorrendo a alguns dos meus espiões no seio das nossas tropas. Eles podem, por exemplo, semear o pânico—e o pânico contribuirá decisivamente para uma retirada. Cabe a você decidir o momento exato em que deverá intervir . No entanto, deixe que, de início, seja Pátrocles a conduzir os mirmidões. Desse modo, os
troianos pensarão que a sua decisão é absolutamente irreversível. Eles conhecem os oráculos, Aquiles. Eles sabem que nós não conseguiremos derrotá-los se você não estiver do nosso lado. Por isso, meu amigo, estica a corda o máximo que puder! Corra para o campo de batalha no último, no derradeiro momento! Depois disto, pouco mais haveria para dizer . Idomeneu levantou-se, encarando-me com uma expressão solidária; ninguém entendia tão bem como ele quão duro seria para Micenas suportar tão extrema humilhação. Nestor concedeu-nos a todos o seu afável sorriso—claro que Nestor já estava a par de tudo antes de a reunião ter começado. Tal como Diomedes, que exibia um sorriso de orelha a orelha—divertia-se com a perspectiva de ver os outros desempenhando o papel de bufão. Só Menelau falou. — Posso lhes dar um conselho? — Claro que pode, Menelau!—exclamou Ulisses, num tom francamente caloroso.—Somos todos ouvidos! — Calcas. Contem-lhe o segredo. Se ele souber, as nossas dificuldades diminuirão drasticamente. Ulisses deu um murro na palma da sua outra mão. — Não, não e não! Calcas é troiano! Não podemos confiar num homem que nasceu de uma mulher inimiga, e num país inimigo, quando estamos combatendo na sua própria terra e temos todas as probabilidades de vencer! — Tem toda a razão, Ulisses—disse Aquiles. Não fiz qualquer comentário. Deixei os meus pensamentos para mim mesmo apenas. Durante anos, defendera Calcas. Contudo, qualquer coisa mudara em mim naquela manhã —não sabia exatamente o quê. Calcas estivera no centro de uma série de acontecimentos muito graves... Fora ele quem me forçara a sacrificar a minha própria filha—e, por isso mesmo, a atrair a hostilidade de Aquiles. Bom, se Calcas era realmente um homem indigno da minha confiança, isso se veria no dia do meu teatral rompimento com Aquiles. É que, apesar de toda a sua cautelosa inexpressividade, o seu rosto acabaria sempre por trair o prazer que lhe ia na alma—isto é, se de fato ele sentisse algum prazer . Ao fim de tantos anos, eu já o conhecia. — Agamêmnon—queixou-se o meu irmão, despertando-me dos meus pensamentos—,estamos presos! Por favor, ordene aos soldados que nos deixem sair!
Capítulo Vigésimo Segundo Narrado por Aquiles
Temendo enfrentar aqueles que amava e não ser capaz de guardar segredo, regressei com um passo mais do que lento ao acampamento mirmidão. Pátrocles e Fênix estavam sentados a uma mesa, gozando o sol de Tróia e jogando, divertidíssimos, às pedrinhas. — Que aconteceu? Algo de importante?—perguntou Pátrocles e levantou-se para pôr o seu braço por cima dos meus ombros. Uma coisa que ele sentia cada vez mais a tentação de fazer, desde que Briseida surgira na minha vida—o que era lamentável. Não ganhava nada em proclamar publicamente que eu lhe pertencia, além do que me irritava solenemente. Era como se estivesse tentando culpar-me—eu sou teu primo direto e também teu amante; portanto, não pode abandonar-me assim sem mais nem menos, só porque agora tem um brinquedo novo. Dei aos ombros para afastar o seu abraço. — Não se passou nada. Agamêmnon queria saber se estávamos tendo dificuldades em controlar os soldados.Fênix pôs um ar surpreso. — Para isso, não precisava convocar um conselho. Bastava-lhe dar uma volta pelo acampamento. — Vocês conhecem o nosso imperial suserano... Há mais de uma lua que não convocava nenhum conselho—ele receia um abrandamento do seu controlo sobre os restantes chefes. — Mas porque é que só convocou a ti, Aquiles? Creio que sou um elemento útil em todos os conselhos, pois sou eu quem serve o vinho e vela pelo conforto geral—disse Pátrocles com um ar magoado. — Foi um grupo muito restrito. — Calcas estava presente?—perguntou Fênix. — Calcas não está muito bem visto neste momento. — Por causa de Criseida? Seria melhor se calasse quanto a esse assunto disse Pátrocles. — Talvez pense que, de tanto insistir, acabará por conseguir aquilo que pretende—disse eu, casualmente. Pátrocles ficou surpreendido. — Crê que sim? Não me parece... — Vocês não terão nada de mais importante para fazer do que jogar às
pedrinhas?—perguntei, para mudar de assunto. — Haverá coisa mais agradável do que jogar às pedrinhas, num dia tão bonito como este? Num dia em que os Troianos continuarão encarcerados nas suas muralhas?—perguntou Fênix. Fitou-me com um olhar manhoso.— Esteve fora toda a manhã, Aquiles. É muito tempo para uma reunião tão banal. — Ulisses estava em boa forma. — Sente-se aqui conosco—pediu Pátrocles, afagando-me o braço. — Agora não. Briseida está em casa? Nunca vira Pátrocles furioso; de súbito, porém, uma raiva imensa ardia-lhe nos olhos; tremiam-lhe os lábios, mordeu-os. — Onde é que ela havia de estar senão em casa?—atirou-me e logo me virou costas e sentou-se à mesa.—Vamos jogar?—propôs a Fênix, que aquiesceu todo contente. Chamei por ela mal entrei. Briseida abriu imediatamente uma porta interior e correu para os meus braços. — Teve saudades minhas?—perguntei eu, vaidosamente. — Pareceram-me dias e não uma manhã! — Quer me parecer que foi meio ano...—Suspirei, pensando no que se passara naquela sala entaipada. — Com certeza que bebeu mais do que o costume durante o conselho, mas... quer que te traga o vinho? Olhei para ela, surpreendido. — Para dizer a verdade, não bebemos vinho nenhum. O riso transbordava nos seus olhos de um azul muito intenso. — Foi uma reunião absorvente! — Aborrecida. — Coitadinho! Agamêmnon não te deu de comer? — Não. Olha, seja uma boa menina e traga-me qualquer coisa para comer, está bem? Briseida desatou numa azáfama para me servir, chilreando como um pardal, enquanto eu a observava, dizendo para mim mesmo que ela possuía o mais encantador dos sorrisos, um andar dos mais graciosos, um colo cuja suavidade só encontrava paralelo nas formas do cisne. A guerra contém em si uma perpétua ameaça de morte; contudo, Briseida parecia ignorar por completo que sobre as cabeças de muitos homens pairava naquele momento a sentença final; a verdade é que eu nunca lhe falava de guerra.
— Viu Pátrocles lá fora, no sol? — Vi. — Mas preferiu vir ter comigo—disse ela, toda satisfeita, provando que a rivalidade não era meramente unilateral. Passou-me o pão quente e um prato de azeite para eu molhar o pão. — Aqui está, acabou de sair do forno. — Foi você que o fez?—perguntei. — Sabe perfeitamente que eu não sei fazer pão, Aquiles. — Claro. Você não domina as artes femininas. — Me diga isso esta noite, quando baixarmos as cortinas da nossa porta e eu estiver na sua cama—respondeu-me ela, serenamente. — Muito bem. Admito que domina pelo menos uma das artes femininas. Mal acabei de dizer isto, sentou-se ao meu colo, pegou na mão que eu tinha livre e enfiou-a na blusa larga que trazia, oferecendo-me o seu seio esquerdo. — Amo-te tanto, Aquiles! — Eu também te amo muito, Briseida.—Pus a minha mão no seu cabelo e ergui-lhe o rosto para que ela olhasse para mim.—Briseida, gostaria que me fizesses uma promessa. Nos olhos dela, não havia nenhum sinal de ansiedade. — Tudo o que quiser . — Que faria, se eu te mandasse embora e te ordenasse que pertencesse a outro homem? A boca dela tremeu. — Se fossem essas as suas ordens, obedeceria. — E que pensaria de mim? — O mesmo que penso agora. Haveria certamente uma razão para me dar tais ordens. Ou então, seria por estar farto de mim. — Eu nunca me fartarei de você. No tempo que me restar de vida, nunca me fartarei de você. Há coisas que não podem mudar nunca. A cor regressou num ápice às suas faces. — É também isso que eu penso.—E desatou a rir .—Peça-me para fazer uma coisa fácil, como morrer por você. — Antes de irmos para a cama? — Bom, então... pode ser amanhã? — Ainda não te disse qual era a promessa que queria que fizesse. — Então qual é? Por um instante, os meus dedos brincaram com uma madeixa do seu magnífico cabelo. Por fim, disse-lhe:—Quero que me
prometa que, se alguma vez eu te parecer a mais estúpida das criaturas, ou a mais desumana, mesmo assim continuará a acreditar em mim. —Acreditarei sempre em você.—Apertou um pouco mais a minha mão contra o seu seio.—Eu também não sou estúpida, Aquiles. Já percebi que há qualquer coisa que te perturba. — Se há, não poderei dizer . Ao ouvir isto, Briseida mudou de assunto—e nunca tentou sequer arrancar-me fosse o que fosse. Nenhum de nós se dava conta de como Ulisses andava a cumprir as tarefas que se havia proposto; sabíamos que a mão dele estava manipulando os cordéis; contudo, não víamos nem sinal dessa mão. Fosse como fosse, o certo é que todo o exército comentava que a hostilidade entre mim e Agamêmnon atingira um ponto critico, que Calcas se mostrava cada vez mais obstinado no que tocava à necessidade de devolver Criseida a Tróia e que Agamêmnon estava prestes a perder a paciência. Três dias após o conselho, estes temas de conversa depressa foram esquecidos. A catástrofe abatera-se sobre o nosso acampamento. De início, os oficiais tentaram silenciar o caso; porém, ao fim de pouco tempo, havia tantos homens doentes que seria impossível escondê-los. A medonha palavra passou de boca em boca: peste, peste, peste! Num só dia, quatro mil homens adoeceram; no dia seguinte, mais quatro mil doentes—uma multidão clamando pelos cuidados dos médicos. Fui ver alguns dos meus homens afetados pela falsa peste—e supliquei a Latona e a Ártemis que guiassem Ulisses. Saberia ele realmente o que estava fazendo? Os meus homens estavam febris, deliravam; a sua pele cobrira-se de uma estranha irritação que exsudava um estranho fluido; e eram tão violentas as dores de cabeça que eles não conseguiam conter as lágrimas. Falei com Macáon e Podalírio, que se mostraram peremptórios: aquilo era peste. Pouco depois, encontrei por acaso o próprio Ulisses. Exibia um sorriso radiante. — Uma coisa tem de admitir, Aquiles—disseme ele.—Enganei os filhos de Asclépio! — Espero que não tenha se excedido—retorqui azedamente. — Sossegue: não haverá nenhuma baixa. Estarão todos em perfeitas condições de saúde quando deixarem o hospital. Abanei a cabeça, exasperado com o fato de, no meio de tão grande aflição, Ulisses estar todo satisfeito consigo mesmo!
E vão deixar o hospital de Macáon e Podalírio no preciso momento em que Agamêmnon obedecer a Calcas e desistir de Criseida. É isso, não é? Uma recuperação miraculosa—operada pelo deus! Só que, desta feita, será um falso deus! — Não diga isso demasiado alto—pediu-me ele, e logo se afastou para tratar dos doentes com as suas próprias mãos, desse modo ganhando uma imerecida reputação de homem corajoso: tão corajoso que nem a peste temia... Quando Agamêmnon pediu a Calcas um augúrio público, o exército suspirou de alívio. Ninguém duvidava que o sacerdote insistiria na devolução de Criseida; os corações dos homens começaram a sentir algum consolo perante a possibilidade de a epidemia chegar ao seu fim. Um augúrio público implicava a presença de todos os oficiais do exército com um cargo superior ao de mero chefe de esquadrão. Concentraram-se no espaço destinado às assembléias; seriam cerca de mil, formados atrás dos reis, todos de frente para o altar; a maior parte deles, evidentemente, eram familiares dos reis, alguns mesmo muito próximos. Só Agamêmnon estava sentado. Quando passei diante do seu trono, fitei-o com ar de poucos amigos e não ajoelhei. Os espectadores repararam no meu comportamento; não havia rosto em que não se lesse uma preocupação sincera. Pátrocles chegou mesmo a levar a mão ao meu braço, advertindo-me contra o desrespeito demonstrado, mas eu afastei-lhe a mão com um gesto furioso. Depois, ocupei o meu lugar, ouvi Calcas dizer que a peste só cederia se déssemos a Apolo aquilo que Apolo queria—Criseida. Agamêmnon teria de mandá-la para Tróia. Nem eu nem Agamêmnon precisávamos nos exceder no desempenho dos nossos papéis; bastava que não saíssemos da teia tecida por Ulisses— bastava que obedecêssemos às suas odiosas instruções. Desatei a rir de Agamêmnon e ele vingou-se do meu escárnio, ordenando-me que lhe desse Briseida. Afastando brutalmente Pátrocles (o pobre coitado estava frenético de ansiedade), abandonei o local, encaminhando-me imediatamente para o acampamento mirmidão. Briseida olhou para o meu rosto e nada disse, ainda que os seus olhos estivessem marejados de lágrimas. Regressamos em silêncio ao local onde decorria a assembléia. Então, diante de todos os reis e oficiais superiores, entreguei-a a Agamêmnon. Nestor ofereceu-se imediatamente para tomar conta das duas moças e
para conduzi-las aos seus respectivos destinos. Ao afastar-se, Briseida virouse para me ver uma última vez. Quando disse a Agamêmnon que retiraria e que as minhas tropas não participariam na guerra, fi-lo como se acreditasse piamente em tudo o que estava dizendo. Nem Pátrocles nem Fênix duvidaram, por um instante que fosse, da minha sinceridade. Representada a minha parte, dirigi-me sem mais delongas para o acampamento mirmidão; eles que me seguissem, se quisessem. A casa estava cheia de ecos, vazia sem Briseida. Evitando Pátrocles, caminhei furtivamente todo o dia pelas várias divisões, sozinho com a minha vergonha e tristeza. À hora da ceia, Pátrocles veio ter comigo. Comemos os dois juntos, mas, de início, não trocamos uma única palavra. Pátrocles recusava-se a falar comigo. Acabei por ser eu a quebrar o terrível silêncio. — Primo, não consegue compreender, não é? Com os olhos nublados pelas lágrimas, Pátrocles fitou-me. — Não, Aquiles, não consigo. Desde que aquela moça apareceu, você se transformou numa outra pessoa. Hoje, tomou uma decisão em nome de todos nós, quando não tinha o direito de decidir sem nos consultares previamente. Só o nosso rei supremo poderia fazer uma coisa dessas—e Peleu nunca o fez, nem faria. Não é digno do pai que tens, Aquiles. Ah, magoavam-me tanto aquelas palavras! — Poderá perdoar-me, já que não consegue compreender-me? — Só te perdoarei se for ter com Agamêmnon e retirar aquilo que disse. — Retirar aquilo que disse? Enlouqueceu? Agamêmnon insultou-me de uma forma intolerável! — Um insulto inteiramente merecido! Se não tivesse escarnecido dele, Agamêmnon nunca teria se lembrado de você e de Briseida! Seja justo! Comportou-se como se tivessem arrancado o coração, por te terem tirado Briseida—nunca te ocorreu que Agamêmnon poderia sentir exatamente o mesmo por lhe tirarem Criseida? — Quem, Agamêmnon? Aquele tirano não tem sentimentos! — Aquiles, por que razão se mostra tão obstinado? — Obstinado, eu? Essa é boa! Pátrocles juntou as mãos, pasmado. — Ah, isto é inacreditável ... ! É a influência dela, só pode ser ... ! O que ela não te terá feito para te pôr nesse estado ... ! — Percebo perfeitamente que tenha essa visão, Pátrocles, mas a sua
visão não corresponde à verdade. Perdoe-me, Pátrocles, é tudo o que te peço. — Não posso te perdoar—disse ele, e foi embora. O ídolo Aquiles caíra finalmente do seu pedestal. Ulisses estava coberto de razão: os homens acreditavam que as mulheres eram mesmo capazes de provocar os mais terríveis conflitos. Ulisses visitou-me na noite seguinte, fazendo o possível por não chamar a atenção. Fiquei tão contente por ver um rosto amigo que o saudei de um modo quase febril. — Desprezado pelos seus próprios homens?—perguntou-me. Sim. Nem mesmo Pátrocles quer me ver . — Bom, a reação de Pátrocles não tem nada de surpreendente... Mas anime-se, Aquiles, anime-se! Dentro de poucos dias, regressará ao campo de batalha e será absolvido de todas as acusações. — Absolvido... Uma palavra interessante... No entanto, ocorreu-me há pouco algo que deveria ter-me ocorrido durante o conselho. Se tivesse me lembrado disso, nunca teria concordado com o teu plano. — Como assim? Ulisses parecia saber o que eu ia dizer . Que vai acontecer a todos nós, Ulisses? Muito naturalmente, todos presumimos que, se o plano der certo—e resta saber se dará!—,poderíamos, no fim de tudo, revelá-lo a todas as pessoas. Percebo agora que nunca poderemos contar aos nossos homens a maquinação que criamos. Tanto os oficiais como os soldados censurariam tal expediente. Concluiriam que recorremos a meios demasiado cruéis para atingirmos os nossos fins. Veriam apenas os rostos dos homens que hão de morrer para que esses fins sejam alcançados. Tenho razão, não tenho? Ulisses esfregou o nariz com um ar pesaroso. — Perguntava-me quem seria o primeiro a descobrir isso—se você, se Agamêmnon. Apostei em você—e voltei a ganhar . — Você nunca perde, Ulisses ... ! Mas diga-me uma coisa: a minha conclusão é correta, ou tem em mente uma solução capaz de deixar todos felizes? — Essa solução não existe, Aquiles. Conseguiu ver aquilo que deveria ter enxergado durante o nosso conselho. Se por acaso o teu peito albergasse um pouco menos de paixão, têria visto na sala do conselho. Não, Aquiles, o nosso plano nunca poderá ser revelado. Teremos de levar o segredo conosco para o
túmulo, tanto mais que estamos presos ao juramento que Agamêmnon sugeriu—poupando-me assim o trabalho de ser eu próprio a sugeri-lo e poupando-me a perguntas que eu teria a maior dificuldade em responder— disseme ele com um ar grave. Cerrei os olhos. — Ou seja: enquanto for vivo, e depois de descer ao túmulo, Aquiles será visto pela humanidade como um fanfarrão egoísta, tão inchado consigo mesmo, tão estupidamente obcecado com a sua própria importância, que permitiu que inúmeros soldados perecessem—e unicamente para satisfazer o seu orgulho ferido! — Sim. — Devia cortar a cabeça que é capaz de tão tortuosas maquinações! Graças a você, terei de carregar sobre os meus ombros um fardo de vergonha e desonra que maculará o meu nome para todo o sempre. Quando, em épocas futuras, os homens falarem de Aquiles, dirão que ele sacrificou tudo por causa do seu orgulho ferido. Espero bem que acabe no Tártaro, Ulisses! — Não tenho qualquer dúvida de que será esse o meu fim depois do fim —retorquiu ele, muito pouco preocupado e ainda menos impressionado.— Não é o primeiro homem que me amaldiçoa, nem será o último. Mas todos nós sofreremos as repercussões daquele conselho, Aquiles. Os homens nunca saberão ao certo o que se passou—mas suspeitarão que a mão de Ulisses esteve por detrás disto tudo. E Agamêmnon? Você será visto como uma vítima de um orgulho desmedido—e ele? Você, pelo menos, foi injuriado. Mas quem injuriou, foi ele. De súbito, dei conta de quão disparatada era aquela conversa—pois os homens, mesmo quando são tão brilhantes como Ulisses, não passam de meros títeres no imenso teatro a que os deuses presidem. — Pois bem—disse eu—sempre é uma forma de justiça. Nós merecemos perder as nossas reputações imaculadas. A fim de nos lançarmos nesta desastrada empresa, consentimos em participar num sacrifício humano. É por isso que vamos pagar . E é por causa do que aconteceu em Áulida que eu estou disposto a manter até ao fim este disparate. A minha maior ambição me será assim negada. — Que ambição? — Viver nos corações dos homens como o guerreiro perfeito. Heitor, esse sim, será considerado o guerreiro perfeito.
— Não pode ter certeza quanto a isso, Aquiles, mas é possível que os teus bisnetos já a tenha. A posteridade julga-nos de um modo diverso do nosso. Fitei-o cheio de curiosidade. — Diga-me uma coisa, Ulisses: nunca sentiu o desejo de ser lembrado por muitas gerações de homens? Ulisses desatou a rir . — Não! Eu não me preocupo nada com o que a posteridade dirá ou não dirá de mim! Não me preocupo sequer com a eventualidade de a posteridade conhecer ou não o meu nome. Depois de morto, serei condenado a empurrar eternamente uma rocha para o alto de um monte qualquer do Tártaro ou a nunca chegar ao jarro que contém a água que me saciaria a mais terrível das sedes. — E eu estarei a seu lado. Por muito que façamos, já é demasiado tarde. — Quanto a isso, tem toda a razão, Aquiles. Caímos num silêncio profundo, a cortina corrida contra intrusos que nunca viriam apiedar-se do seu orgulhoso chefe. O jarro de vinho estava sobre a mesa. Enchi os nossos copos e bebemos lentamente, embrenhados nos nossos pensamentos, pois nenhum de nós estava interessado em revelá-los. Sem dúvida que os pensamentos de Ulisses seriam muito mais agradáveis, visto que ele não esperava que a posteridade o premiasse. Embora Ulisses parecesse não acreditar em mais nada para além das penas eternas, achava maravilhoso que fosse capaz de encarar o seu destino com uma confiança tão absoluta. — Porque veio visitar-me?—perguntei-lhe. — Porque queria te informar de uma estranha ocorrência antes que outra pessoa o fizesse—respondeu. — Uma estranha ocorrência? — Hoje de manhã, alguns soldados foram pescar para as margens do Simoente. Quando o Sol nasceu, viram qualquer coisa sendo levada pela corrente. O corpo de um homem. Correram a chamar o oficial que estava de vigia, o qual tratou de ir buscar o cadáver e de o trazer para terra. Era Calcas. Morreu, crêem eles, ao cair da noite. Estremeci. — Como morreu ele? — Tinha uma ferida horrível na cabeça. Ao entardecer, um oficial de Ájax tinha-o visto no alto do penhasco do lado de lá do Simoente. O oficial
jura que era Calcas—Calcas era o único homem no nosso acampamento que envergava túnicas compridas. Deve ter tropeçado e caído de cabeça. Fitei-o atentamente. Ulisses exibia uma expressão pesarosa, comovida mesmo; nos seus belos olhos cinzentos, diria que cintilava a mais pura devoção. Seria possível? Seria mesmo possível? Estremecendo de puro terror, dei comigo a pensar se ele não teria acrescentado mais um pecado à longa lista que, ao que constava, havia cometido. Se juntássemos o assassínio de um sumo-sacerdote ao sacrilégio, à profanação, à blasfêmia, ao ateísmo e ao assassínio ritual, teríamos uma lista que superaria as de Sísifo e Dédalo juntas. Ímpio Ulisses que, no entanto, era amado pelos deuses! Paradoxo mortal, um pulha e um rei combinados numa só pessoa! Ulisses leu os meus pensamentos e fitou-me com um sorriso afável. — Aquiles, Aquiles! Como é possível que pense uma coisa dessas— mesmo de uma criatura como eu?—E deixou escapar um risinho.—Se quer saber a minha opinião, acho que o autor do crime foi Agamêmnon.

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