Capítulo Quinto
Narrado por Páris
Regressei a Tróia a pé e sozinho, o arco e a aljava dependurados do ombro. Sete luas passaram nas florestas e clareiras do monte Ida e não trazia comigo um único troféu para lhes mostrar . Adorava caçar, mas não suportava ver um animal cair por terra trespassado por uma seta; preferia vê-lo vivo e livre como eu. No que tocava a caçadas, os meus melhores momentos envolviam presas mais apetecíveis do que o veado ou o javali. Para mim, a mais interessante das caças era a que eu fazia aos habitantes humanos das florestas do Ida, as moças e pastoras selvagens. Quando uma moça caía, derrotada, só uma seta a trespassava, a de Eros; não havia rios de sangue, nem os gemidos que anunciavam a morte, mas apenas suspiros de doce contentamento, enquanto eu a estreitava nos meus braços, ofegante ainda do êxtase da perseguição e pronto a perder de novo o fôlego por obra e graça de uma outra espécie de êxtase. Passava sempre a Primavera e o Verão no monte Ida; a vida na corte deixava-me louco de aborrecimento. Ah, o que eu odiava aquelas vigas de cedro, oleadas e polidas até se tornarem de um castanho cintilante, aquelas salas de paredes pintadas, aquelas torres sustentadas por colunas! Estar encerrado dentro de enormes muralhas era sufocar, era estar preso. Tudo o que eu queria era correr léguas e léguas de erva e árvores, deitar-me exausto sobre um leito perfumado pelas folhas que as árvores à terra ofereciam. Porém, todos os Outonos, tinha de regressar a Tróia e de passar o Inverno com o meu pai. Esse era o meu dever, ainda que simbólico. No fim de contas, eu era apenas o seu quarto filho de uma vasta prole. Ninguém me levava a sério—antes assim! Num dia frio e ventoso, entrei na Sala do Trono no final de uma assembléia, envergando ainda as minhas roupas de montanha, ignorando os sorrisos de desdém, os lábios franzidos de reprovação. O crepúsculo se esbatia já, para dar lugar à melancolia da noite; fora longa a reunião. O meu pai, o rei, estava sentado na sua cadeira de ouro e marfim, sobre um estrado de mármore púrpura, ao fundo da sala, o seu longo cabelo branco requintadamente encaracolado, a sua imponente barba branca entrançada com finos fios de ouro e prata. Invulgarmente orgulhoso da sua
provecta idade, era assim que ele mais gostava de estar: sentado, como um deus antigo, sobre um elevado pedestal, contemplando tudo aquilo que possuía. Se a sala fosse menos imponente, o espetáculo que o meu pai oferecia talvez não fosse tão impressionante; contudo, segundo diziam, aquela sala era ainda maior e mais grandiosa do que a velha Sala do Trono do palácio cretense de Cnossos. Espaçosa o suficiente para albergar trezentas pessoas sem que parecesse apinhada de gente, o seu teto altíssimo, para lá das vigas de cedro, fora pintado de azul e salpicado de constelações douradas. Possuía colunas maciças que afunilavam nas bases azul-escuras ou púrpura, simples capitéis redondos e plintos dourados. As paredes eram de mármore púrpura sem quaisquer relevos até à altura da cabeça de um homem; mais acima, exibiam frescos com cenas de leões, leopardos, ursos, lobos e caçadores— figuras a preto e branco, amarelas, carmins, castanhas e cor-de-rosa contra um fundo azul-pálido. Por detrás do trono, via-se um retângulo de ébano egípcio, incrustado com padrões de ouro, e os degraus que conduziam ao estrado régio eram debruados a ouro. Entreguei o arco e a aljava a um criado e avancei por entre os cortesãos até chegar ao estrado. Ao ver-me, o rei inclinou-se para tocar suavemente na minha cabeça baixa com a esmeralda do seu cetro de marfim, o sinal de que deveria erguer-me e aproximar-me dele. Beijei-lhe a face engelhada. — Estou tão contente por te ver, meu filho!—disse ele. — Quem me dera poder dizer-te que estou contente por voltar— retorqui. O meu pai afastou-me para que eu me sentasse aos seus pés. Com um suspiro, observou: — Ainda não perdi a esperança de te ver todo o ano em Tróia, Páris. Poderia fazer muito por ti, se tu não te ausentasses tanto. Afaguei-lhe a barba porque ele gostava disso. — Eu não quero levar uma vida de príncipe, meu pai. — Mas tu és um príncipe!—Suspirou uma vez mais, mexeu-se nervoso no seu trono.—Embora seja ainda muito novo, eu sei. Temos tempo. — Não, pai, tempo é coisa que não temos. Tu pensas que eu ainda sou um rapaz, mas a verdade é que eu sou um homem há já muito tempo. Tenho trinta e três anos. Príamo não ouviu nada do que eu disse, imaginei eu, pois o vi erguer a cabeça e acenar com o seu bastão para alguém que estava ao fundo da sala:
Heitor . — Páris insiste que tem trinta e três anos, meu filho!—disse ele quando Heitor parou junto aos três degraus. Apesar dos degraus, Heitor era alto o bastante para que o seu rosto ficasse ao mesmo nível do nosso pai. Os olhos escuros de Heitor examinaram-me atentamente. — Suponho que deve ter essa idade, Páris. Eu nasci dez anos depois de ti e tenho vinte e três anos e seis luas.—Pôs um sorriso imenso e acrescentou: —Mas a verdade é que pareces muito mais novo! Desatei a rir . — Obrigado, irmãozinho! Tu é que pareces ter a minha idade. E tudo porque és tu o herdeiro. Ser o herdeiro de um trono envelhece um homem —fica-se acorrentado ao estado, ao exército, à coroa. Eu prefiro a eterna juventude da irresponsabilidade! — Aquilo que está bem para um homem, não está necessariamente bem para outro homem—foi a sua tranqüila resposta.—O meu apetite por mulheres é muito menos acentuado do que o teu: por isso, que importância tem que eu pareça velho antes de realmente o ser? Enquanto tu desfrutas das tuas incursões ao harém, eu sinto um prazer genuíno em comandar o exército sempre que há manobras. Por outro lado, o meu rosto poderá ficar prematuramente engelhado, mas o meu corpo permanecerá forte e capaz, ao passo que o teu se vergará sob o peso de uma enorme pança! Desisti. Heitor tinha uma facilidade sobrenatural para descobrir os nossos pontos fracos! Mal via um homem, localizava o seu ponto fraco e atirava-se a ele como um leão. E não tinha medo nenhum de usar as suas garras. O fato de ser o herdeiro transformara-o rapidamente num homem maduro. A exuberante, e irritante, juventude do ano anterior perecera como que por magia: Heitor moldara os seus inegáveis talentos à tirania do trabalho útil. Fosse como fosse, a verdade é que Heitor era corpulento o suficiente para agüentar essa tirania. Eu não era uma fraca figura, mas Heitor era muito mais alto do que eu e, quanto a largura, tinha o dobro da minha. Vestia-se de uma forma muito simples—e, portanto, com uma dignidade indesmentível; bastava-lhe um saiote e uma camisa de cabedal, a longa cabeleira negra entrançada, apanhada atrás num belo rabo-de-cavalo. Todos nós, os filhos de Príamo e Hécuba, éramos famosos pela nossa beleza, mas Heitor tinha algo mais: uma autoridade natural. Quase sem dar por isso, vi-me de pé e afastado da companhia de meu pai; o velho Antenor indicara, com um ar mal-humorado, que pretendia
falar com o rei antes que a assembléia terminasse. Heitor e eu escapulimo-nos do estrado real sem que ninguém desse pela nossa falta. — Tenho uma surpresa para ti—disse o meu irmão mais novo com um prazer tranqüilo, enquanto atravessávamos as passagens aparentemente infindáveis que ligavam as alas e os palácios menos importantes da cidadela. O palácio do herdeiro ficava ao lado do palácio real, daí que a caminhada não fosse demasiado longa. Quando entrei na ampla sala de entrada do palácio de Heitor, parei de repente e pus-me a olhar à minha volta, absolutamente estupefato. — Heitor! Onde é que ela está? Aquele que fora um armazém atravancado de lanças, escudos, armaduras e espadas, era agora uma sala. E também não tresandava a cavalos, ainda que Heitor adorasse cavalos. Não me lembrava da decoração das paredes do velho armazém, mas as paredes daquela sala brilhavam de árvores em tons jade e azul, de flores púrpuras, de cavalos a preto e branco, cabriolando. O chão estava tão limpo que o seu mármore preto e branco cintilava. Trípodes e ornamentos haviam sido polidos, e cortinas púrpura, magnificamente bordadas, pendiam de argolas douradas em todas as portas e janelas. — Onde é que ela está?—repeti. Heitor corou. — Não demora—resmungou. Ela entrou nesse mesmo instante. Examinei-a de alto a baixo e tive de concordar que o meu irmão tinha bom gosto; a sua esposa era extremamente bonita. Tão morena como ele, alta e robusta. E tão desajeitada como ele no que tocava aos contactos sociais; olhou uma só vez para mim e logo desviou os olhos. — Apresento-te a minha esposa, Andrómaca—disse Heitor . Beijei-a na face. — Aprovo inteiramente, irmãozinho! Mas Andrómaca não é destas bandas, pois não? — Não. É filha do rei Eecião da Cilícia. Estive lá na Primavera, em representação do nosso pai, e trouxe-a comigo. Não foi planejado, mas...—e respirou fundo—aconteceu... Andrómaca falou por fim, com óbvio embaraço. — Quem é, Heitor? Exasperado, Heitor bateu com tanta força na sua coxa que quase me assustou. — Mas quando é que eu aprenderei estas coisas? É Páris, o meu irmão. Algo de que não gostei assomou por um momento aos olhos dela. Ah! Aquela
jovem tinha uma força imensa: bastava que o embaraço e a estranheza se dissipassem. — A minha Andrómaca é muito corajosa—disse Heitor, inchado de orgulho, um braço à volta da cintura dela.—Deixou o seu lar e família para vir comigo para Tróia. — Deveras?—disse eu polidamente, e por aí me fiquei. Depressa me resignei à monotonia da vida dentro da cidadela. Enquanto o granizo batia nas persianas de concha de tartaruga ou a chuva caía em cascatas do topo das muralhas ou a neve atapetava os pátios, eu farejava e rondava os aposentos das mulheres, ansioso por encontrar uma fêmea nova e interessante—alguém que acendesse em mim pelo menos uma fagulha do desejo que as pastoras do monte ida tão facilmente incendiavam. Um trabalho que, sobre ser esgotante, não me incitava, bem pelo contrário, a dar o meu máximo. Um trabalho que nunca conduzia aos arrebatados e violentos exercícios que as mulheres do monte Ida me proporcionavam. Heitor tinha razão. Se correrias furtivas por corredores proibidos eram o meu desporto favorito, depressa ficaria com uma pança enorme. Quatro luas após o meu regresso, Heleno entrou nos meus aposentos e instalou-se confortavelmente num banco almofadado junto a uma janela. Estava um dia radioso—bastante quente, o que, nos Invernos troianos, era uma raridade—e a vista que se desfrutava dos meus aposentos era belíssima: os nossos olhos podiam abarcar toda a cidade e ainda o porto de Sigeu e a ilha de Ténedo. — Quem me dera ter a influência que tu tens junto do nosso pai, Páris— disseme Heleno. — Bom, Heleno, acontece que tu és ainda muito novo, apesar de seres um filho imperial. A sabedoria é algo que só vem com a idade. Heleno, que não fazia ainda a barba, era um jovem muito belo, com cabelos e olhos muito escuros, tal como todos os filhos imperiais de Hécuba. Era gêmeo de Cassandra e contavam-se coisas muito estranhas acerca dos dois. Tinham dezessete anos apenas; a juventude de Heleno impedira que se tivesse desenvolvido entre nós uma verdadeira intimidade. Além disso, Heleno e Cassandra possuíam a Segunda Visão. Sobre eles pairava uma aura que deixava os outros (mesmo os seus irmãos e irmãs) manifestamente constrangidos. Essa estranha aura era menos evidente em Heleno do que em Cassandra. Pois ainda bem para Heleno: Cassandra era louca.
Eram ainda bebês quando foram consagrados ao serviço de Apolo. Esta decisão arbitrária conformara os seus destinos; se havia no seu íntimo alguma revolta contra tal decisão, a verdade é que nunca a exprimiram. De acordo com as leis promulgadas pelo rei Dárdano, um filho e uma filha do rei e da sua rainha, de preferência gêmeos, tinham de presidir aos Oráculos de Tróia. Não admirava, pois, que Heleno e Cassandra tivessem sido escolhidos. Por ora, gozavam ainda de alguma liberdade; porém, logo que fizessem vinte anos, seriam formalmente entregues aos cuidados do trio que governava o culto de Apolo em Tróia: Calcas, Lacoonte e a mulher de Antenor, Teano. Heleno vestia a longa e flutuante túnica dos religiosos. Aliando uma beleza extrema a uma expressão sonhadora, a sua figura, enquanto observava a cidade da minha janela, era impressionante o suficiente para me prender a atenção. Gostava mais de mim do que de todos os outros irmãos—fossem eles filhos de Hécuba, de qualquer outra esposa ou de uma concubina—porque eu não sentia a menor inclinação para a guerra ou para matar . Embora a sua natureza ascética fosse obviamente avessa às minhas aventuras com mulheres, Heleno gostava de conversar comigo, pois as minhas palavras eram mais pacíficas do que marciais. — Trago-te uma mensagem—disseme ele, sem se virar . Suspirei. — O que é que eu fiz de mal? — Nada que mereça censura. Disseram-me apenas que tens de participar numa assembléia a realizar depois da ceia. — Não posso. Tenho um compromisso para depois da ceia. — Terá de desistir desse compromisso. A mensagem que te trago é do nosso pai. — Mas que seca! Porquê eu, Heleno? — Não faço a mínima idéia. Pelo visto, é um grupo muito pequeno. Alguns dos filhos imperiais, Antenor e Calcas. — Um estranho grupo... Qual será o assunto? — Vai, e logo saberás. — Ai vou, vou! Também foste convidado? Heleno não me respondeu. De súbito, os seus belos traços arrepanharam-se e os olhos pareciam não ver nada à sua volta, ainda que vissem algo de indefinível: o olhar que associamos ao místico. Não era a primeira vez que assistia a um transe visionário, mas nada fiz para o interromper; pelo contrário, observei com um extremo fascínio as alterações por que Heleno passava. Subitamente, porém, com um acentuado estremecimento de todo o corpo, o meu irmão regressou
ao seu estado normal. — Que viste?—perguntei. — Eu não consegui ver ...—disse ele lentamente, limpando o suor da testa. Um padrão. Dei-me conta de um padrão... O início de uma mudança que conduzirá a um desfecho inevitável. — Alguma coisa deve ter visto, Heleno! — Chamas... Gregos envergando armaduras... Uma mulher que, de tão bela, só poderia ser Afrodite... Navios—centenas e centenas de navios... Tu, o nosso pai, Heitor ... — Eu? Mas eu não sou importante! — Acredita no que te digo, Páris: tu és importante—disse ele com uma voz cansada. Então, sem mais nem menos, levantou-se.—Preciso falar com Cassandra. É muito freqüente vermos as mesmas coisas, mesmo quando não estamos juntos. Porém, também eu sentia vagamente aquela presença obscura, rodeando-nos como uma teia, e abanei a cabeça. — Não, não vá ter com ela. Cassandra destruirá a tua visão. Heleno tinha razão: o grupo era, de fato, muito pequeno. Fui o último a chegar; sentei-me na ponta do banco onde já estavam sentados os meus irmãos Tróilo e ílio—porquê eles? Tróilo tinha oito anos, ílio apenas sete. Eram os dois últimos filhos de minha mãe e os seus nomes evocavam o espectro que tirara o trono ao rei Dárdano. Heitor também estava lá. Tal como o nosso irmão mais velho, Deífobo. Deífobo deveria ter sido nomeado herdeiro, mas todos aqueles que o conheciam—incluindo o nosso pai—sabiam que, ao fim de um ano de reinado, Tróia sucumbiria ao seu poder . Ganancioso, estouvado, violento, egoísta, imoderado—era com estes adjetivos que Deífobo era descrito. Sentia por nós um ódio terrível! Sobretudo por Heitor, que lhe usurpara o título a que tinha direito—pelo menos era isso o que ele pensava. A inclusão do tio Antenor era lógica. O chanceler tinha de estar presente em todas as reuniões. Mas porquê Calcas? Uma criatura inquietante... O tio Antenor fitava-me com uma expressão feroz e não era por eu ter chegado tarde. Com efeito, dois Verões antes, no monte Ida, disparara uma seta a um alvo fixado numa árvore, mas um vento repentino desviara o seu curso. Acabei por encontrar a seta alojada nas costas do filho mais novo de Antenor e da concubina que ele mais amava; o pobre rapaz andava espiando uma pastora que se banhava nua numa fonte. O filho de Antenor
estava morto e eu era culpado de homicídio involuntário. Não se tratava verdadeiramente de um crime; mesmo assim, eu teria de expiar a morte do jovem. E só havia uma maneira de a expiar: teria de encontrar um rei estrangeiro que estivesse disposto a presidir às cerimônias de purificação. O tio Antenor não chegara ao ponto de clamar por vingança, mas a verdade é que não me perdoara. A ferocidade do seu olhar fez-me lembrar que ainda não fizera nada para encontrar o tal rei estrangeiro. Os reis eram os únicos sacerdotes aptos a conduzir os ritos de purificação exigidos por um caso de homicídio acidental. O meu pai bateu no chão com a base do seu cetro de marfim, cuja cabeça redonda cintilava de verde, pois continha uma enorme e perfeita esmeralda.—Convoquei esta reunião, porque quero discutir algo que me atormenta há muitos anos—principiou o meu pai com a sua voz firme e forte.—Um acontecimento que voltou a dominar os meus pensamentos, porque me ocorreu, há poucos dias, que o meu filho Páris nasceu precisamente no dia em que tudo se passou. Um dia de morte e perda. O meu pai Laomedonte foi assassinado. Tal como os meus quatro irmãos. A minha irmã Hesíona foi raptada e violada. Só o nascimento de Páris impediu que aquele dia fosse o mais negro de toda a minha vida. — Pai, por que razão nos convocaste a nós?—perguntou Heitor num tom afetuoso. Ultimamente, sempre que a mente do nosso pai começava a divagar, Heitor tomava a seu cargo a tarefa de a reconduzir ao caminho certo; com efeito, a mente de Príamo revelava uma tendência cada vez mais acentuada para se perder em estranhas deambulações. — Ah... eu não lhes disse? Bom, convoquei-te a ti, Heitor, porque és o herdeiro. Convoquei Deífobo, porque é o mais velho dos filhos imperiais. Heleno, porque será ele o encarregado dos Oráculos de Tróia. Calcas, porque é ele quem preside aos Oráculos enquanto Heleno não fizer vinte anos. Tróio e ílio, porque Calcas diz que há profecias a respeito deles. Antenor, porque ele estava presente nesse dia. E Páris, porque nasceu nesse dia. — Qual é então o assunto desta reunião?—perguntou Heitor . — Tenciono enviar uma embaixada formal a Télamon, rei de Salamina, logo que o estado do mar o permita—disse o nosso pai. Uma resposta que me parecia perfeitamente lógica, ainda que Heitor tivesse franzido muito o sobrolho, como que inquieto com a novidade.—Essa embaixada solicitará a
Télamon o regresso da minha irmã a Tróia. Fez-se silêncio. Antenor encaminhou-se para o espaço que havia entre o meu banco e o outro, após o que se virou para o meu pai. Coitado do meu tio, andava quase que curvado, devido a uma terrível doença dos ossos de que padecia há um tempo; todos achavam que os estragos causados pela doença eram a causa do seu notório mau gênio. — Rei Príamo, isso não passa de uma aventura disparatada!—atirou ele, sem mais aquela.—Para quê gastar o ouro de Tróia numa coisa dessas? Sabe, tão bem como eu, que, ao longo dos seus trinta e três anos de exílio, Hesíona nunca nos fez saber que lamentava o seu destino. O filho dela, Teucro, será um bastardo; no entanto, ocupa uma posição extremamente importante na corte de Salamina e é amigo e mentor do herdeiro, Ájax. A resposta será «não», Príamo. Assim sendo, por que razão havemos de nos meter em trabalhos? O rei levantou-se de um salto, furibundo. — Está me acusando de estupidez, Antenor? Não sabia que Hesíona estava satisfeita por estar exilada! Não, Télamon é que a impede de nos pedir ajuda! Antenor agitou o punho cerrado. — Eu estava falando, rei Príamo! E quem está falando, não deve ser interrompido! Porque insiste em pensar que fomos nós os ultrajados? Foi Héracles quem foi ultrajado: eu sei que, no fundo, até concorda comigo. Gostaria também de lembrar que, se Héracles não tivesse morto o leão, Hesíona não estaria hoje viva. O meu pai tremia da cabeça aos pés. Apesar de serem cunhados, não havia sombra de afeição entre Antenor e Príamo. O coração de Antenor permanecia fiel à Dardânia: o inimigo dentro das nossas muralhas. — Se fôssemos jovens—disse o meu pai, cada palavra uma seta —,haveria uma maneira de pôr termo a esta guerra constante. Poderíamos pegar em escudos e espadas e resolver a questão. Mas tu não passa de um inválido e eu estou demasiado velho. Repito: vou enviar uma embaixada a Salamina logo que seja possível. Entendido? Antenor fitava-o com o maior desdém. — Tu és o rei, a decisão é tua. Quanto a duelos—é natural que te aches demasiado velho, mas garanto-te que a minha invalidez não me impediria de te deixar feito em pedaços! Nada me daria mais prazer! Dito isto, retirou-se. O meu pai regressou ao trono, mordiscando
furiosamente na barba. Levantei-me, surpreendido com o fato de ter levantado, mas ainda mais surpreendido com aquilo que nesse instante comecei a dizer . — Pai, eu ofereço-me para conduzir a tua embaixada. De qualquer modo, teria sempre de me deslocar ao estrangeiro, a fim de buscar a purificação que a morte do filho de Antenor exige. Heitor riu-se e até bateu as palmas. — Páris, deixa-me saudar a tua iniciativa! Mas Deífobo não gostou. — Porque não eu, pai? Eu é que deveria ser nomeado! Eu sou o mais velho! Heleno declarou-se favorável a Deífobo; não conseguia acreditar no que estava ouvindo, pois Heleno detestava o nosso irmão mais velho. — Pai, por favor, manda Deífobo! Se for Páris o escolhido, Tróia chorará lágrimas de sangue! Com ou sem lágrimas de sangue, a decisão do rei Príamo estava tomada. Confiou-me a embaixada a Salamina. Depois de todos terem partido, permaneci algum tempo com o meu pai. — Estou tão contente, Páris!—disse ele, afagando-me o cabelo. — O teu contentamento é prêmio suficiente para mim.—De súbito, desatei a rir .—Se não conseguir trazer a tia Hesíona, pode ser que consiga trazer uma princesa grega em vez dela ... ! O meu pai riu também; a minha piada apontava para algo que não lhe desagradava. — Não faltam princesas na Grécia, meu filho. Olho por olho, dente por dente: admito que, se seguíssemos essa norma, os Gregos receberiam o mais correto dos castigos. Beijei-lhe a mão. O ódio implacável que votava à Grécia e a tudo o que fosse grego era bem conhecido em Tróia; e eu fizera-o feliz. Que importava que a piada não fosse mais do que isso, uma simples piada sem quaisquer conseqüências, se o tinha feito rir? Como parecia que o ameno Inverno ia terminar cedo, instalei-me em Sigeu durante vários dias, a fim de discutir a organização da frota com os comandantes e mercadores que participariam nela. Queria vinte navios grandes com tripulações completas e porões vazios; como era o Estado a pagar a conta, não iam faltar os voluntários. Embora sem perceber que demônio me levara a oferecer os meus serviços ao rei, o certo é que sentia uma excitação extraordinária perante a perspectiva de uma tal aventura. Em breve poderia ver longínquos lugares, lugares que muitos olhos troianos
nunca veriam. Lugares gregos. Terminada a reunião, decidi dar um passeio pelo porto, a fim de respirar aquele ar cortante e salgado e observar a azáfama dos homens na praia; os navios que, durante o Inverno, eram arrastados para um leito de seixos longe das águas, viam-se agora rodeados de uma pequena multidão que inspecionava os costados revestidos a pez e concluía se as embarcações estavam ou não em condições de navegar . Um enorme navio escarlate manobrava nas proximidades da praia; os olhos da sua proa tentavam fixarme e a figura que rematava o capuz curvo da sua popa era, obviamente, a minha própria deusa: Afrodite. Que construtor de navios a teria visto em sonhos (e em que sonhos?) para a ter representado de uma forma tão maravilhosa? Por fim, o capitão do navio encontrou espaço suficiente para instalar os seus pesados costados entre os seixos; logo desceram as escadas de corda. Nesse instante, reparei que o navio trazia uma bandeira real na proa, decorada com incrustações escarlates e debruada a ouro—aquele navio trazia um rei estrangeiro! Avancei lentamente, ajeitando o meu manto em elegantes dobras. O régio indivíduo desceu cuidadosamente. Era um grego. Uma conclusão fácil, dado o modo como estava vestido e a superioridade inconsciente com que ele — Como qualquer grego—olhava para o resto do mundo. Porém, à medida que o rei se foi aproximando, todo o meu espanto inicial se dissipou. Um homem de aspecto tão vulgar ... ! Não era especialmente alto, nem especialmente bem-parecido. E era ruivo. Sim, não havia dúvida: era grego. Pelo visto, metade dos gregos eram ruivos. O saiote de cabedal fora tingido de púrpura e adornado a ouro, a franja que o debruava era de ouro, o amplo cinto era de ouro incrustado com pedras preciosas, a blusa púrpura abria-se para revelar um peito magro, e, à volta do pescoço, usava um imponente colar de ouro e jóias. Um homem muito rico. Quando me viu, alterou o seu curso. — Bem-vindo às praias de Tróia!—disse eu formalmente.—Sou Páris, filho do rei Príamo. O homem pegou no braço que eu lhe estendera e envolveu-o com os seus dedos. — Obrigado, príncipe. Eu sou Menelau, rei da Lacedemônia e irmão de Agamêmnon, rei supremo de Micenas.
Os meus olhos arregalaram-se de espanto. — Gostaria de te oferecer o meu carro, rei Menelau—disse-lhe.— Poderemos seguir sem demora para a cidade. O meu pai estava ocupado com as suas audiências diárias. Segredei ao arauto, o qual, imediatamente, abriu as portas de par em par . — Rei Menelau, da Lacedemônia!—atroou o homem. Entramos juntos e deparou-se uma multidão reduzida à mais absoluta imobilidade. Heitor estava de pé, ao fundo, com a mão estendida e a boca aberta devido a uma palavra que não chegara a pronunciar, Antenor estava meio virado para nós, e o meu pai estava sentado no seu trono, direito que nem um fuso, a mão apertando com tanta força o bastão que este não parava de tremer . Se o meu companheiro concluiu nesse instante que os Gregos não eram bem-vindos, a verdade é que não houve nele nada que o denunciasse; depois de conhecê-lo melhor, decidi que, provavelmente, não tinha reparado na hostilidade. Mirou a sala e o mobiliário e, pelos vistos, não ficou particularmente impressionado: fiquei pensando como não seriam os palácios gregos, já que ele não abrira a boca de espanto. O meu pai desceu do estrado e estendeu-lhe a mão. — Sentimonos muito honrados com a tua visita, rei Menelau—disse ele. Apontando para um enorme divã juncado de almofadas, o meu pai pegou no braço do visitante.—Proponho-te que nos sentemos. Páris, vem ter conosco, mas primeiro diz a Heitor que venha também. E diz aos criados que nos tragam comida e vinho. A corte estava muito quieta (só os olhos dos cortesãos andavam numa roda-viva), mas a conversa no divã era inaudível a dois passos de distância. Terminadas as necessárias formalidades, o meu pai perguntou a Menelau os motivos da sua visita. — Trata-se de um caso de vital importância para o povo da Lacedemônia, rei Príamo—retorquiu Menelau.—Eu sei que aquilo que busco não se encontra nas terras troianas, mas Tróia pareceu-me o melhor local para dar início ao meu inquérito. — Pergunta à vontade, rei Menelau. Menelau inclinou-se para frente e virou-se, a fim de poder olhar para o rosto inexpressivo do meu pai. — Rei Príamo, o meu reino está sendo assolado pela peste. Os meus sacerdotes não conseguiram adivinhar a causa. Procurei então a pitonisa de Delfos, que me disse que eu deveria ir pessoalmente procurar os ossos dos
filhos de Prometeu e levá-los para Amiclas—a minha capital. Têm de ser enterrados em Amiclas. Só então venceremos a peste. Ah! Afinal, a missão dele nada tinha a ver com a tia Hesíona, ou a escassez de estanho e cobre, ou os embargos comerciais no Helesponto. A missão de Menelau era muito mais vulgar . Perfeitamente comum. A luta contra a peste exigia medidas extraordinárias; havia sempre um ou outro rei vagueando pelos mares e pelas praias, à procura de um qualquer objeto que os Oráculos exigiam que levasse para casa. Perguntava-me, por vezes, se o objetivo dos Oráculos não seria mandar para longe o rei até que a doença chegasse ao seu inevitável fim. Uma forma de proteger o rei do castigo; se o rei permanecesse em casa, seria muito provável que morresse da mesma peste ou que acabasse por ser ritualmente linchado. Claro que o rei Menelau tinha de ser hospedado. Talvez no ano seguinte o Oráculo ordenasse ao rei Príamo que pedisse ajuda ao rei Menelau... Os elementos da realeza, fossem quais fossem as suas divergências ou as suas nacionalidades, mostravam-se solidários em determinadas situações. Por isso, enquanto o rei Menelau se instalava na nossa cidade, os batedores do meu pai trataram de localizar os ossos dos filhos de Prometeu. Concluíram que estavam na Dardânia. O rei Anquises da Dardânia protestou energicamente, mas nada podia fazer . Estivesse ou não de acordo, teria de ficar sem as relíquias. Foi-me atribuída a tarefa de velar pelo bem-estar de Menelau até que ele pudesse seguir, com toda a pompa que o seu cargo exigia, para a cidade de Lirnesso, onde reclamaria os ossos. O que me levou a fazer-lhe uma oferta que, em tais circunstâncias, era perfeitamente comum: a escolha de uma mulher de que ele gostasse, desde que a mulher em questão não tivesse sangue real. Menelau desatou a rir-se, abanando enfaticamente a cabeça. — Eu não preciso de outras mulheres, Páris! Basta-me a minha Helena! retorquiu. Fiquei curioso, muito curioso. — Deveras?—disse. Os olhos dele ganharam uma luminosidade extrema; diria que o homem estava embriagado, não de vinho, mas de adoração. — Páris, eu estou casado com a mulher mais bela do mundo—disse ele, com a maior solenidade. Sem perder a polidez que um tal diálogo impunha, dei rédea solta à minha incredulidade.
— Deveras, rei Menelau? — Ah sim, Páris, sem a menor dúvida. Helena não tem rival neste nosso mundo. — É mais bela do que a mulher do meu irmão Heitor? — A princesa Andrómaca é uma pálida Selene, se comparada com o esplendor de Hélio—disse ele. — Gostaria que fosses mais preciso, Menelau. O rei suspirou, agitou os braços. — Como descrever Afrodite? Como pintar a perfeição visual com meras palavras? Vai ver o meu navio, Páris, e atenta na figura de proa—Helena foi o modelo. Semicerrei os olhos, tentando lembrar-me. Mas tudo o que consegui ver foi um par de olhos tão verdes como os de um gato do Egito. Ah, eu tinha de conhecer aquela beldade! Não que acreditasse nele—a figura de proa seria certamente superior ao modelo. Nenhuma das estátuas de Afrodite que conhecia poderia rivalizar com o rosto daquela figura (embora, verdade seja dita, os escultores não passassem de uns artífices medíocres que teimavam em dar sorrisos tontos, traços desgraciosos e corpos ainda mais desgraciosos às suas estátuas). — Rei Menelau—disse eu, movido por um irresistível impulso.—Em breve, terei de conduzir uma embaixada a Salamina, a fim de me avistar com o rei Télamon e de inquirir sobre o bem-estar de minha tia Hesíona. Porém, enquanto estiver na Grécia, terei de submeter-me a um ritual purificador, visto que cometi um homicídio involuntário. Diz-me uma coisa: a Lacedemônia fica muito longe de Salamina? — Bom, Salamina é uma ilha que fica ao largo do litoral ático, ao passo que a Lacedemônia fica no interior da ilha de Pélops, mas—não, não é uma viagem especialmente difícil. — Rei Menelau, aceitarias presidir à cerimônia da minha purificação? O rei fitou-me radiante. — Claro que aceito! É o mínimo que posso fazer para retribuir a tua amabilidade. Visita-nos no próximo Verão e eu realizarei os necessários ritos. —De súbito, pôs um ar altivo.—Duvidaste de mim, quando te falei da beleza de Helena — Sim, sim, eu sei que duvidaste! Os teus olhos traíram-te... Mais uma razão para visitares Amiclas - vê-la-ás com os teus próprios olhos. Depois disso, espero que me apresentes as tuas desculpas.
Selamos o pacto com um gole de vinho, após o que nos concentramos no planejamento da viagem a Lirnesso, onde Menelau exumaria os ossos dos filhos de Prometeu, sob o olhar indignado do rei Anquises e do seu filho Enéias. Com que então Helena era tão bela como Afrodite! Perguntei-me como é que Anquises e Enéias reagiriam a essa comparação quando Menelau se saísse com ela—e sair-se-ia com toda certeza. É que, como todos sabiam, Anquises, na sua juventude, fora tão irresistivelmente belo que a própria Afrodite se humilhara para que ele fizesse amor com ela. Depois, a deusa fora-se embora, mas deixara-lhe Enéias. Pois é: as loucuras de juventude tinham sempre um preço!
Capítulo Sexto Narrado por Helena
Depois de os ossos dos filhos de Prometeu terem sido enterrados em Amiclas rodeados de preciosos artefatos, cada caveira coberta com uma máscara de ouro, os efeitos da peste começaram a esbater-se. Era maravilhoso poder passear de novo pela cidade, participar em caçadas nas montanhas, assistir aos jogos na arena que ficava por detrás do palácio! Não menos maravilhoso era ver os sorrisos de alegria nos rostos das pessoas, ouvilas saudarem-nos e louvarem-nos quando passávamos por elas. O rei acabara com a peste e a felicidade voltara ao reino. Só o coração de Helena não era feliz. Menelau vivia com um espectro a seu lado. Com o passar dos anos, fui-me tornando uma mulher cada vez mais apagada, cada vez mais grave—respeitável e obediente, sempre. Dei a Menelau duas filhas e um filho. O meu marido dormia na minha cama todas as noites. Nunca lhe recusava o acesso aos meus aposentos quando ele batia à porta. E ele amava-me. Perante o seu amor, eu não poderia fazer nada de mal. E era por isso que eu era uma esposa respeitável e obediente; não conseguia resistir a um homem que me tratava como se eu fosse uma deusa. Havia ainda outra razão: eu queria que a minha cabeça estivesse sempre presa aos meus ombros. Se ao menos eu tivesse conseguido manter o meu corpo distante e frio quando ele veio ter comigo após o casamento! Mas não consegui. Helena era uma criatura toda ela de carne feita; uma criatura que não era imune às carícias de um homem, de qualquer homem—mesmo de um homem tão enfadonho e desajeitado como o meu marido. Um homem, um homem qualquer, era melhor do que homem nenhum. O Verão veio, o mais escaldante de que havia memória. As chuvas cessaram e os rios secaram, e, nos altares, os sacerdotes começaram a murmurar palavras agourentas. Tínhamos sobrevivido à peste; seria a fome o nosso próximo tormento? Por duas vezes, senti Poseidon, o Senhor dos Terremotos, gemer e mover as entranhas da terra, como se também ele estivesse inquieto. O povo começou a falar de maldições e os sacerdotes ergueram ainda mais as suas vozes quando o trigo morreu na terra ressequida; até a cevada, mais resistente do que o trigo, parecia encaminhar
se para o mesmo triste fim. Porém, quando o calor do Verão atingiu um pico insustentável, o Senhor dos Trovões, exibindo o seu sombrio semblante, falou ao nosso reino. Num dia opressivo, sufocante, enviou os seus mensageiros, as nuvens que anunciam as tempestades, aglomerando-os contra o branco metálico do céu. Ia a tarde a meio quando o Sol se escondeu e a escuridão caiu sobre a terra; Zeus explodiu finalmente. Fazendo atroar todo o seu poder ao ponto de ensurdecer os humanos, disparou os seus raios com uma ferocidade tal que a própria Mãe se encolheu, tremendo de medo, pois cada dardo que a sua medonha mão lançava era uma coluna de puro fogo. Tremendo de terror, transpirando de pânico, balbuciando rezas, refugieime num divã da pequena sala que usava perto das áreas públicas e tapei os ouvidos enquanto os trovões rebentavam e aquela luz tão branca e violenta descia vezes sem conta sobre a terra. Menelau, Menelau, onde estás?, perguntava-me eu, desvairada de medo. Nesse momento, ao longe, ouvi a voz dele. Falava com invulgar animação com alguém que também falava Grego, embora com um acento estrangeiro. Disparei na direção da porta e corri para os meus aposentos, pois não queria provocar o descontentamento do meu marido; como todas as mulheres do palácio, e porque o calor era muito, acostumara-me a vestir roupa feita de linho egípcio, muito leve e transparente. Imediatamente antes do jantar, Menelau apareceu nos meus aposentos para me ver entrar no banho. Nunca tentava sequer tocar-me quando eu tomava banho; era a sua oportunidade de não fazer outra coisa senão olhar . — Minha querida—disse ele, pigarreando—,temos uma visita. Gostaria que esta noite vestisse o teu traje régio. Fitei-o surpreendida. — É assim tão importante, essa visita? — Muito. É o meu amigo Páris, príncipe de Tróia. — Ah sim, lembro-me de me teres falado dele. — Quero que esteja mais bonita do que nunca, Helena, pois eu falei-lhe muito da tua beleza quando estive em Tróia. E Príamo—vê lá tu—mostrouse céptico! Sorridente, rebolei-me na água quente, fazendo transbordar a imensa banheira. — Prometo-te que nunca me terás visto tão bonita como nesta noite. Tive certeza de que nunca me tinham visto tão bela, no preciso instante
em que entrei no salão de jantar, pouco antes da corte se reunir para comer a última refeição do dia com o rei e a rainha. Menelau já estava lá, de pé junto à mesa régia, conversando com um homem que estava de costas para mim. Umas costas muito interessantes. Muito mais alto do que Menelau, o homem em questão tinha uma comprida e espessa cabeleira encaracolada que lhe chegava a meio das costas e estava nu da cintura para cima, no que seguia a moda cretense. Sobre os ombros, caía-lhe um enorme colar de pedras preciosas engastadas em ouro; braceletes de ouro e cristal adornavam-lhe os braços portentosos. Olhei para o seu saiote púrpura e para as pernas fortes e bem proporcionadas e senti uma excitação que há muitos anos desconhecia. De costas, era de fato uma bela visão; provavelmente— disse para mim mesma, desdenhando já do que não conhecia—tem uma cara de cavalo. Dei um jeito nos folhos para que a música soasse. Menelau e o estrangeiro viraram-se. Olhei para o estrangeiro e apaixonei-me. Tão simples como isso. Apaixonei-me. Se eu era a mulher perfeita, ele era, seguramente, a perfeição feita homem. Fiquei parada e pasmada a olhar para ele. Defeito nenhum. A perfeição absoluta. E eu estava apaixonada. — Minha querida—disse Menelau, abeirando-se de mim—,apresento-te o príncipe Páris. Devemos-lhe todas as cortesias e atenções que pudermos prodigalizar-lhe—ele foi para mim um excelente anfitrião. - Menelau olhou para Páris, com as sobrancelhas bem erguidas.—Então, meu amigo, ainda duvidas de mim? — Não—disse Páris. E de novo:—Não. Menelau sorriu radiante: graças à sua esposa, a noite estava ganha. Um pesadelo, aquele jantar! Rios de vinho eram servidos, ainda que—porque era mulher—eu não pudesse beber uma única gota. Mas que malévolo deus teria convencido Menelau a beber copo atrás de copo, quando, normalmente, era abstêmio. Páris estava sentado entre nós dois, o que me impedia de fazer fosse o que fosse para, com modos suaves, convencer o meu marido a parar de beber . Por outro lado, aquele príncipe troiano também não se comportava com a circunspeção que seria de esperar . Claro que eu vira a atração chamejando nos seus olhos negros no instante exato em que se haviam, pela vez primeira, fixado em mim; mas havia tantos homens que reagiam assim e que, depois, se mostravam tão tímidos como cordeirinhos... Não era esse o caso de Páris. Ao longo de toda a refeição, desfiou um rosário de escandalosos cumprimentos. Quanto aos seus olhares, eram descaradamente íntimos; diria que os seus olhos tinham se
esquecido de que estávamos sentados na mesa régia e que estávamos a ser vistos por uma centena de homens e mulheres da corte. Num tumulto de medo e confusão, fiz o possível para que tais observadores (metade dos quais eram espiões de Agamêmnon) pensassem que não se estava a passar nada de menos decente. Procurando mostrar-me cortês e fingindo uma descontração que não sentia, desatei a perguntar a Páris como era a vida em Tróia, ou se em todas as nações da Ásia Menor se falava Grego, ou se Tróia ficava muito longe de nações como a Assíria ou Babilônia, ou se nessas nações também se falava Grego. Conhecedor dos femininos artifícios, Páris respondeu-me facilmente e com autoridade, enquanto os seus olhos maliciosos vagueavam entre os meus lábios e o meu cabelo, entre os meus dedos e os meus seios. À medida que a interminável refeição ia avançando, o discurso de Menelau tornava-se cada vez menos inteligível; o meu marido parecia não ver outra coisa senão o vinho que transbordava do seu copo. E Páris tornouse cada vez mais atrevido. A certa altura, aproximou-se tanto de mim que pude sentir o seu hálito no meu ombro e cheirar o seu embriagante perfume. A pouco e pouco fui me afastando dele, acabando por ficar sentada mesmo na ponta do banco. — Os deuses são cruéis—sussurrou ele—por deixarem tanta beleza nas mãos de um único homem. — Príncipe Páris, tem cuidado com o que dizes! Suplico-te: sê discreto! A resposta que ele me deu foi um sorriso. O coração pareceu afundar-se no meu peito. Presa de um fogo súbito, comprimi os joelhos um contra o outro. — Eu te vi esta tarde—prosseguiu ele, como se eu não tivesse dito nada, fugindo de nós. Tinha um vestido tão transparente... Um mar escarlate desenhava-se já sob a minha pele; pedia a todos os deuses que os muitos olhos que nos miravam não reparassem em nada do que se estava a passar . A mão dele caiu e encontrou o meu braço. Dei um salto, tão intolerável era aquele toque; a sensação que produzira no meu corpo era idêntica ao que sentira quando o Senhor dos Trovões falara. — Príncipe Páris, por favor! O meu marido pode ouvir-te! Rindo-se a bom rir, voltou a pôr a mão na mesa, mas de uma forma tão abrupta que fez tombar o seu copo; o vinho tinto espalhou-se como um lago pela pálida madeira. Acenei para que um criado viesse limpar a mesa, mas, enquanto eu acenava, ele abeirava-se uma vez mais de mim.
— Amo-te, Helena—disse ele. Os criados! Teriam ouvido? Porque é que os rostos dos criados nunca diziam nada, sempre que executavam as ordens dos seus superiores? Olhei de relance para Menelau: estava ébrio, muito ébrio, os seus olhos sonolentos miravam o vazio. Com efeito, estava demasiado embriagado para ir ter comigo naquela noite. Os criados levaram-no para os seus aposentos e deixaram-me seguir sozinha para os meus. Por um longo período de tempo, deixei-me ficar sentada à janela do meu salão, pensando: Que havia de fazer? Como havia de passar os próximos dias talvez muitos, não sabia quantos—sabendo que aquele homem, aquele perigo, estaria presente? Uma única refeição ao seu lado e ficara arrasada. Seduzia-me despudoradamente, achando que o meu marido era demasiado idiota para se dar conta disso. Mas Menelau não se apercebera de nada unicamente por causa do vinho—e, no jantar do dia seguinte, Menelau estaria sóbrio. Mesmo o mais estúpido dos homens tem, dentro de si, um vigilante; além disso, não me admirava nada que um dos nobres da casa fosse intrigar junto dele. Agamêmnon pagava-lhes para que eles espiassem tudo. Bastava que um deles decidisse que eu era infiel e, um dia depois, Agamêmnon me condenaria por infidelidade. Páris, ainda que fosse um príncipe troiano, perderia a sua cabeça. Tal como eu. Tal como eu! Dividida entre o medo e o desejo, sofria horrivelmente. Ah, eu amava-o tanto! Mas que espécie de amor era aquele, tão súbito, tão avassalador tão de repente? À mera lascívia, sabia eu resistir; aprendera a resistir-lhe ao longo do meu casamento. O amor, em contrapartida, era irresistível. Ansiava estar com Páris por todos os motivos. Ansiava viver a minha vida com ele. Queria saber o que ele pensava, como é que ele vivia, o que é que ele sentia, como era a sua aparência enquanto dormia. A seta trespassara-me, a seta que levara Fedra ao suicídio, Dánae a atirar-se para uma arca que o seu pai lançara ao mar, Orfeu a enfrentar o reino de Hades em busca de Eurídice. A minha vida já não me pertencia; pertencia a Páris. Eu seria capaz de morrer por ele! Contudo... Que êxtase poder viver para ele! Menelau entrou no meu quarto pouco depois de eu me ter deitado exausta, enquanto os galos cantavam estridentes e a orla do céu oriental empalidecia sob o nevoeiro. Com um ar constrangido, recusou-se me beijar . — O meu hálito tresanda a vinho, minha querida. É estranho que eu tenha bebido tanto. Não faz sentido.
Acenei-lhe para que se sentasse ao meu lado. — Como está esta manhã, tirando o hálito? Menelau sorriu. — Um pouco indisposto.—De súbito, franziu o sobrolho.—Helena, estou com um problema. Fiquei com a boca seca; dei comigo a molhar os lábios. Um dos nobres da casa tinha-lhe contado tudo! Palavras! Eu tinha de encontrar as palavras certas! — Um problema?—balbuciei. — Sim. Um mensageiro de Creta acordou-me. O meu avô Catreu morreu e Idomeneu decidiu atrasar o funeral, a fim de que eu ou Agamêmnon possamos comparecer . Claro que Idomeneu está à espera que seja eu. Agamêmnon não pode sair de Micenas. Sentei-me na cama, boquiaberta. — Menelau! Tu não podes ir! A minha veemência surpreendeu-o, mas entendeu-a como um cumprimento. — Não há alternativa, Helena. Tenho mesmo de ir a Creta. — E vais estar fora muito tempo? — Pelo menos meio ano. Podia saber um bocadinho mais de geografia... Os ventos outonais me levarão até Creta, mas terei de esperar pelos ventos do Verão para regressar . — Oh—disse eu, e suspirei.—Quando tens de partir? Menelau apertoume o braço. — Hoje, minha querida. Terei de ir primeiro a Micenas, a fim de falar com Agamêmnon, e, como terei de fazer-me ao mar a partir de Lerna ou Náuplia, não poderei passar por aqui. É pena, mas que havemos nós de fazer?—disse ele, deliciado com a minha consternação. — Mas tu não podes partir, Menelau. Já te esqueceste de que tens um convidado real na tua casa? — Páris compreenderá. Realizarei os ritos de purificação esta manhã, antes de partir para Micenas. Mas lhe direi também que permaneça aqui o tempo que quiser . — Leva-o para Micenas contigo—disse eu, de súbito inspirada. — Helena, francamente! A correr? Claro que ele pode ir a Micenas, mas com tempo!—disse o meu tonto marido, ansioso por agradar ao convidado, mas cego perante o perigo que ele representava. — Menelau, tu não podes deixar-me sozinha com Páris!—exclamei.
Menelau pestanejou. — Porque não? O que não falta na nossa corte são damas de companhia, Helena... — Agamêmnon pode não ser da mesma opinião. A minha mão apertavalhe o antebraço; ele baixou-se para a beijar e para me afagar o cabelo. — Helena, fica tranqüila. As tuas preocupações são encantadoras, mas desnecessárias. Eu confio em ti. Agamêmnon confia em ti. Como explicar-lhe que era eu que não confiava em mim mesma? Nessa tarde, desci a escadaria do palácio para me despedir do meu marido. De Páris, nem sinal. Logo que os carros e carroças desapareceram, regressei aos meus aposentos e aí fiquei. Disse aos criados para me trazerem as refeições. Se Páris não me visse, era possível que se cansasse daquele jogo de sedução—e, quem sabe, podia ser que partisse para Micenas ou para Tróia. Por outro lado, deste modo, os nobres da corte também não teriam qualquer oportunidade de nos verem juntos. Porém, quando a noite veio, não consegui dormir . Depois de muito vaguear pelo meu quarto, decidi sentar-me junto à janela. A mais absoluta escuridão caíra sobre Amiclas: não se via uma única luz e as montanhas pareciam anônimas corcundas da terra contra o pano de fundo de um céu estrelado. A lua cheia pairava imensa e prateada, derramando silenciosamente uma delicada luz pelo vale de Lacedemônia. Assomei à janela e, sorvendo o ar da noite com um prazer extremo, deixei que toda esta quietude me penetrasse e aquietasse os nervos. Vivia ainda este apaziguamento encantado quando me dei conta de que ele estava atrás de mim, contemplando a beleza dos céus por cima do meu ombro. Não gritei, nem me virei, mas ele sabia que eu estava consciente da sua presença. As mãos dele envolveram os meus cotovelos e, suavemente, levaram o meu corpo a repousar contra o seu. — Helena de Amiclas, és tão bela como Afrodite. O meu corpo ficou sem forças. Movi um pouco a cabeça sob o seu queixo. — Não tentes essa deusa, Páris. Ela detesta rivais. — Mas não te detesta, Helena... Não compreende? Foi Afrodite quem me ofereceu Helena... Eu pertenço à deusa, sou o seu favorito. — É por isso que, segundo se diz, nunca fizeste um filho? — É.—As mãos dele moviam-se em círculos lentos na minha cintura, sem qualquer pressa, como se ele tivesse todos os dias do mundo para fazer
amor comigo. Os lábios encontraram a minha nuca. — Helena, nunca desejaste ardentemente deixar este palácio durante a noite e correr para as mais recônditas paragens da floresta? Nunca invejaste a leveza e a agilidade do veado? Nunca sonhaste correr tão livre como o vento e cair exausta sob o corpo do único homem que amas? Duas respostas deu o meu corpo: um espasmo percorreu-me os tendões, mas a minha boca seca retorquiu: — Não. Eu nunca sonho com coisas dessas. — Pois eu sonho. E, nos meus sonhos, tu estás sempre presente. Vejo a tua longa cabeleira loura flutuando enquanto corres, as tuas longas pernas lutando para que o caçador que eu sou não te consiga apanhar . Era assim que eu deveria ter-te conhecido, e não neste palácio vazio e sem vida.—As mãos dele abriram-me o roupão e descansaram, tão leves como plumas, sobre os meus seios. — Ao pé de ti, todo o brilho dos palácios empalidece. Nesse momento, tudo se precipitou. Virei-me para os seus braços e olvidei tudo, exceto que ele era a minha outra metade, o meu companheiro natural. Que eu o amava, que eu o amava verdadeiramente. Escrava dos seus desejos, jazia nos seus braços tão lânguida e mole como a boneca de trapos da minha filha. A manhã nascia, mas eu só queria que não nascesse mais manhã nenhuma. — Vem para Tróia comigo—disse ele de súbito. Ergui-me para ver o seu rosto, para ver o meu amor refletido naqueles belos olhos negros. — Isso seria uma loucura—retorqui. — Loucura, não; bom senso—Uma mão demorava-se no meu ventre, a outra brincava com o meu cabelo.—Tu não nasceste para seres esposa de um homem insensível e estúpido como Menelau. Tu nasceste para seres minha. — Eu nasci nesta terra, nasci neste mesmo quarto. Eu sou a rainha. Os meus filhos vivem neste palácio.—Limpei as lágrimas que começavam a molhar-me as faces. — Helena, tu pertences a Afrodite, tal como eu! Em tempos, jurei solenemente no templo de Afrodite que lhe daria tudo—preteri Hera e Palas Atena para a adorar apenas a ela. E pedi-lhe que me concedesse apenas uma coisa: uma mulher chamada Helena. — Eu não posso abandonar o meu reino! — Helena, tu não podes ficar . Eu não ficarei. — Oh, amo-te tanto, Páris! Como poderei viver sem ti?
— Não viverás sem mim, Helena. — Pedes-me o impossível. -As minhas lágrimas eram já um rio descendo pelas faces. — De modo nenhum! Qual é o obstáculo, Helena? Os teus filhos? Esta pergunta fez-me refletir . A minha resposta não poderia ter sido mais sincera. — Não, de fato, não. O problema dos meus filhos é que... são tão vulgares! São iguais a Menelau. Até no cabelo! Até têm sardas... — Se os teus filhos não são um obstáculo, então só vejo uma razão: Menelau. Seria? Não, não era. Pobre Menelau: dominado, oprimido, um mero títere nas mãos de Micenas. No fim de contas, que obrigações tinha eu para com ele? Eu não quisera casar com Menelau! As obrigações que tinha para com ele eram as mesmas que tinha para com o seu irmão, aquele homem de ar carrancudo e modos ameaçadores que nos usava a todos nós como simples peças num jogo monumental. Agamêmnon não atribuía qualquer importância à pessoa que eu realmente era—aos meus desejos, às minhas necessidades, aos meus sentimentos. — Irei contigo para Tróia—respondi por fim.—Não há nada que me prenda a Amiclas. Nada.
Capítulo Sétimo Narrado por Heitor
O capitão do porto de Sigeu mandou-me um mensageiro com a notícia de que a frota de Páris regressara finalmente de Salamina; mal cheguei à sala onde o rei concedia as suas audiências diárias, ordenei a um pajem que fosse dar a notícia ao meu pai. Eram as audiências do costume, enfadonhas e intermináveis—disputas por causa de propriedades, escravos, terras e outras causas que tais, uma embaixada da Babilônia, uma queixa em torno de direitos de pasto apresentada pelos nossos parentes nobres da Dardânia e defendida, como sempre, pelo tio Antenor . A embaixada da Babilônia já fora recebida e o rei estava prestes a pronunciar a sua sentença acerca de um caso sem qualquer importância, quando as trombetas soaram e Páris avançou todo emproado pela Sala do Trono. Impossível não sorrir, dado o seu traje; transformara-se num consumado cretense! Tudo nele eram requintes, desde o saiote púrpura franjado de fios de ouro até às jóias e aos caracóis do cabelo. Estava com ótimo aspecto e parecia muito satisfeito consigo mesmo. Que andara ele a tramar para parecer um chacal que conseguia chegar à presa antes do leão? É claro que, nos olhos do nosso pai, brilhava a luz do seu amor senil—como era possível que um homem sábio o bastante para estar sentado num trono ficasse tão cego perante coisas tão primárias como o encanto e a beleza? Páris chegou rapidamente ao estrado e já estava instalando-se no degrau de cima quando me aproximei. Antenor, um abelhudo incurável, encontrava-se também Suficientemente perto para poder ouvir toda a conversa. Decidi então me colocar ostensivamente junto ao trono do meu pai. — Traz boas notícias, meu filho?—perguntou o rei. - Acerca da tia Hesíona, não—disse Páris, abanando a cabeça, os anéis do cabelo num vaivém.—O rei Télamon mostrou-se extremamente cortês, mas recusou-se categoricamente a entregar-nos a tia Hesíona. O meu pai todo se inteiriçou: de súbito, a brandura dava lugar à fúria. Nunca conheci um ódio tão profundo como aquele. Por que razão—ao fim de tantos anos!—continuava o meu pai a abominar tão implacavelmente a Grécia? O silvo da sua respiração silenciou toda a sala. — Como se atreve? Como se atreve Télamon a insultar-me? Viste a tua
tia, tiveste oportunidade de falar com ela? — Não, meu pai, não pude ver a tia Hesíona. — Malditos sejam todos eles!—Empinou muito a cabeça e cerrou os olhos. Ò poderoso Apolo, Senhor da Luz, Senhor do Sol e da Lua e das Estrelas, concede-me a oportunidade de reduzir a pó o orgulho grego! Inclinei-me para ele e disse-lhe: — Pai, acalme-se! Não estava à espera de outra resposta, não é? O rei Príamo virou a cabeça na minha direção e abriu os olhos. — Não, suponho que não. Obrigado, Heitor . Como sempre, és tu quem me faz regressar à fria realidade. Mas por que raio é que os Gregos hão de levar sempre a sua avante? Por que raio é que hão de ficar impunes se cometeram um crime—o rapto de uma princesa troiana? Páris colocou a mão no joelho do nosso pai, afagou-o delicadamente. O rei olhou para ele e logo a sua expressão ganhou uma doçura nova. — Pai, a arrogância grega não ficou impune. Eu dei-lhe o melhor dos castigos—disse Páris, os olhos muito brilhantes. Chegara a pensar em retirar-me, mas houve qualquer coisa no tom com que Páris disse aquilo que me deteve. — Como, meu filho? — Olho por olho, dente por dente, meu pai! Os Gregos raptaram a tua irmã, não foi? Pois eu te trouxe da Grécia uma presa muito mais valiosa do que uma simples moça de quinze anos!—Ergueu-se de um salto, tão cheio de si que já não suportava continuar sentado aos pés do rei Príamo. — Pai—exclamou ele, com uma voz tão sonora que chegava às alturas do teto—,eu te trouxe Helena! A rainha da Lacedemônia, esposa de Menelau, o irmão de Agamêmnon, e irmã da rainha Clitemenestra, esposa de Agamêmnon! Tão grande foi o choque que senti que fiquei sem saber o que dizer—uma tragédia, pois o tio Antenor pôde falar primeiro do que eu. Avançou tão depressa quanto pôde, erguendo as mãos—as juntas inchadas dos dedos faziam com que estas parecessem enormes e disformes garras. — O que tu fizeste foi a mais estúpida das ingerências, digna do mais ignorante e imbecil dos homens!—atroou Antenor—Será possível que essa carinha efeminada não veja outra coisa senão saias? Já agora, podias ter feito jus à tua cegueira de pinga-amor e raptado a própria Clitemenestra! Os Gregos não se revoltaram por causa dos nossos embargos comerciais, nem por causa da escassez de estanho e cobre, mas vão revoltar-se por causa do
que tu fizeste! Idiota! Imbecil! Deste a Agamêmnon a oportunidade que ele estava à espera há muitos anos! Lançaste-nos para uma guerra que será a ruína de Tróia! O que te falta em tino, sobra-te em presunção! Ah, se ao menos o teu pai te tivesse enjeitado! Se ao menos ele tivesse sufocado à nascença a tua devassidão! Quando tivermos colhido todas as tempestades dos ventos que semeaste, nenhum Troiano pronunciará o teu nome sem cuspir de nojo! Uma parte de mim aplaudiu silenciosamente o discurso do velho; com efeito, ele ecoava os meus próprios sentimentos. No entanto, ao mesmo tempo, amaldiçoava o tio Antenor . Que teria decidido o meu pai se Antenor tivesse se calado? Quando Antenor acusava, o rei defendia. Príamo podia até estar de acordo com Antenor, mas Antenor, com aquele discurso inflamado, empurrara-o para o lado de Páris. O meu irmão estava estupefato com a reação. — Pai, eu fi-lo por ti!—disse ele, suplicante. Antenor fitou-o com um sorriso de escárnio. — Ah, sim, claro, claro que o fizeste pelo teu pai! E já te esqueceste do mais famoso de todos os oráculos? “Cuidado com a mulher grega que é raptada e levada para Tróia!” Não achas que o oráculo fala por si? — Não, eu não me esqueci do oráculo!—gritou o meu irmão.—Mas Helena não foi raptada! Ela veio comigo de livre vontade porque quer casarse comigo! E, como prova disso, trouxe consigo um magnífico tesouro—ouro e jóias que chegam para comprar um reino! Um dote, pai, um dote!—E deu um risinho satisfeito.—Eu fiz pior aos Gregos do que raptar uma rainha—eu pus-lhes os cornos! Antenor parecia ter perdido a batalha. Abanando lentamente a cabeça alva, refugiou-se entre os cortesãos. Páris fitava-me suplicante. — Heitor, ajude-me!—disse. — Como posso te ajudar?—perguntei furioso. Páris virou-se de novo para o pai, ajoelhou e, com os seus braços, envolveu as pernas do rei. — Diga-me, meu pai: que mal poderá advir daquilo que eu fiz?— perguntou ele, tentando puxar o pai ainda mais para o seu lado.—Alguma vez a fuga voluntária de uma mulher deu origem a uma guerra? Helena veio de sua livre vontade! Helena não é uma menina pequena! Tem vinte anos, é uma mulher! Esteve casada durante seis anos—tem filhos! Imagina só quão terrível foi a sua vida para ter tomado esta decisão! Para ter deixado um reino e os seus
filhos! Pai, eu a amo! E ela me ama!—exclamou ele, com uma voz pateticamente embargada, as lágrimas começando a deslizar pelas faces. Ternamente, o rei afagou o cabelo de Páris. — Quero vê-la—disse o nosso pai. — Não, espera!—Era Antenor que voltava à carga.—Rei Príamo, antes de veres essa mulher, suplico-te que me ouças! Manda-a de volta para a sua terra, Príamo, manda-a de volta para a Lacedemônia! Manda-a de volta para Menelau sem que ninguém a veja—e apresenta as tuas mais sinceras desculpas e devolve-lhe todos os tesouros que ela trouxe e recomenda-lhe que corte a cabeça à esposa infiel! Porque é isso que ela merece! Amor ! Que amor é esse que abandona os filhos? Não será essa uma prova mais do que suficiente? Ela trouxe para Tróia um tesouro magnífico, mas não os seus filhos! O meu pai não queria olhar para ele, mas devia saber o que todos nós estávamos sentindo, pois não fez qualquer tentativa para interromper o discurso. Antenor pôde continuar falando. — Príamo, eu receio o rei supremo de Micenas—e tu devias também receá-lo! O ano passado, ouviste Menelau gabar-se de que o seu irmão Agamêmnon conseguira transformar toda a Grécia num obediente vassalo de Micenas! Que acontecerá, se Agamêmnon optar pela guerra? Mesmo que o derrotemos, ele nos arruinará. A riqueza de Tróia tem crescido desde tempos imemoriais por uma única razão—Tróia sempre evitou a guerra! A guerra destrói as nações, Príamo quantas vezes te ouvi dizer isso! O oráculo afirma que a mulher que há de vir da Grécia será a nossa ruína. E, no entanto, tu queres vê-la! Presta atenção ao que os nossos deuses dizem! Não feches os teus ouvidos à sabedoria dos seus oráculos! Que são os oráculos senão uma oportunidade que os deuses dão aos mortais de entreverem o futuro? Tu prosseguiste a obra de Laomedonte, teu pai, e agravaste as suas medidas—enquanto Laomedonte se limitou a restringir o número de navios mercantes gregos com acesso ao Euxino, tu proibiste todos os navios gregos de entrarem no Euxino. E agora, os Gregos têm fome de estanho! Sim, eu sei que eles podem ir buscar cobre no ocidente, ainda que tenham de pagar um preço absurdo. Mas o estanho—onde poderão eles ir buscá-lo? Em lugar nenhum! Apesar de serem ricos e poderosos. Com o rosto sulcado de lágrimas, Páris ergueu os olhos para o rei. — Pai, eu já te disse: Helena não foi raptada! Ela veio de sua livre
vontade! Portanto, Helena não pode ser a mulher de que falam os oráculos —não pode! Desta feita, consegui ser mais rápido do que Antenor . Abandonei o estrado e falei. — Páris, tu dizes que ela veio de sua livre vontade—mas que dirão os Gregos? Achas que Agamêmnon dirá aos reis seus vassalos que o seu irmão é o mais ridículo dos homens—um cornudo? Não Agamêmnon, que é o mais orgulhoso dos homens! Não, Agamêmnon lhes dirá que Helena foi raptada. Antenor tem razão, pai. Estamos a um passo da guerra. E uma guerra contra a Grécia não afetará apenas a nós. Nós temos aliados, pai! Pertencemos a uma federação de estados da Ásia Menor . Temos tratados de comércio e amizade com todas as nações costeiras entre a Dardânia e a Cilícia, e também com todas as nações interiores até à Assíria e, a norte, até à Cítia. As terras costeiras são ricas e pouco povoadas—não possuem efetivos suficientes para enfrentar o invasor grego. Essas nações apoiam o nosso bloqueio e têm enriquecido com a venda de estanho e cobre aos Gregos. Caso haja uma guerra, crês que Agamêmnon limitará a sua ação a Tróia? Não! Haverá guerra por todo o lado! O meu pai olhava-me fixamente; olhei-o também, sem medo. Momentos antes, dissera-me, “Como sempre, és tu quem me faz regressar à fria realidade”. Mas agora—disse para mim mesmo, desesperado - o meu pai abandonara a realidade. As minhas palavras e as de Antenor haviam tido um único efeito: levá-lo a tomar a posição contrária à que pretendíamos. — Ouvi tudo o que me interessa ouvir—disse ele, num tom gélido. Arauto, manda entrar a rainha Helena. Aguardamos. Toda a sala estava tão quieta e calada como um túmulo. Lancei ao meu irmão um olhar feroz, perguntando-me como fora possível que tivéssemos permitido que Páris se houvesse transformado num tão consumado idiota. Páris virara as costas ao pai (ainda que mantivesse uma mão no joelho dele, afagando-o) e olhava fixamente para as portas, a boca encurvada num imenso sorriso de vaidade. Ele não tinha a menor dúvida de que estávamos todos à espera de uma surpresa maravilhosa: lembravame muito bem de Menelau ter dito que Helena era uma bela mulher . Mas eu sempre desconfiei de tais elogios quando as elogiadas eram rainhas ou princesas. Muitas eram as que recebiam tal epíteto só porque tinham o título. As portas abriram-se de par em par e ela parou por um momento antes
de avançar na direção do trono. Ao sabor dos seus movimentos, a saia emitia um delicado tinido, transformando-a numa melodia viva. Dei comigo boquiaberto, a respiração suspensa; tive de forçar-me a exalar . Não havia dúvida: ela era a mais bela mulher que eu jamais vira. Até Antenor estava de boca aberta. Com os ombros para trás e a cabeça imperiosamente erguida, caminhava com dignidade e graça, sem sombra de vergonha ou de timidez. De elevada estatura, para uma mulher, possuía o mais soberbo corpo que Afrodite dera a humanas fêmeas. Cintura estreita, ancas graciosamente cheias, longas pernas. Não, não havia nela nada que não agradasse. Os seios! Nus, de acordo com a indecorosa moda grega, ereto e cheios, desconheciam todos os artifícios, exceto que os mamilos estavam pintados de ouro. Um tempo infindo pareceu passar até os nossos olhos Pousarem naquele pescoço de cisne. Superlativos, demasiados superlativos! A memória que tenho dela nesse dia é simples: Helena era simplesmente... bela. Massas de cabelo ouro-pálido, sobrancelhas e pestanas negras, os olhos da cor da relva primaveril, maquiados com um fino traço que subia nos cantos, à maneira das Cretenses e Egípcias. Quanto do que estávamos vendo seria real e quanto não seria mais do que um encantamento? Nunca o saberei. Helena é a maior obra de arte que os deuses jamais puseram na Mãe Terra. Para o meu pai, Helena era o Destino. Não tão velho que tivesse olvidado os prazeres que as mulheres nos davam, Príamo olhou para ela e apaixonou-se. Não sei se terá sido amor, se mera lascívia. Porém, como era demasiado velho para a roubar ao filho, preferiu considerar como um elogio a si mesmo o fato de um filho seu ter conseguido seduzi-la e roubá-la ao marido, aos filhos, à sua própria terra. Inchado de orgulho, virou os seus olhos maravilhados para Páris. Faziam sem dúvida um casal notável: ele, tão escuro como Ganimedes, ela, tão loura e branca como Ártemis da floresta. Apenas com uma breve caminhada, Helena vencera por completo a silenciosa sala. Nenhum dos homens presentes poderia continuar a censurar Páris pela loucura que cometera. Logo que o rei dissolveu a assembléia, coloquei-me ao seu lado, subindo deliberadamente para o estrado e aproximando-me lentamente do trono. Ficava assim três degraus mais alto do que os amantes fugitivos e muito mais alto do que o trono de ouro e de marfim do meu pai. Normalmente, não
exibia tão brutalmente o meu estatuto de herdeiro, mas a verdade é que Helena mexia com os meus nervos; queria que ela soubesse qual era o lugar exato de Páris na corte—e qual era o meu lugar . Os seus estranhos e insondáveis olhos verdes fixaram-se no meu rosto. — Querida rainha, este é Heitor, o meu herdeiro—disse o meu pai. Helena inclinou solene e regiamente a sua cabeça. — Muito prazer em conhecer-te, Heitor .—Os olhos dela ganharam de súbito uma vivacidade coquete. — Por todos os deuses, Heitor, és um homem enorme! Era obviamente uma provocação. Porém, não era desejo que ela queria provocar em mim; no que tocava a homens, as suas inclinações iam mais para os efeminadamente belos como Páris do que para os guerreiros possantes como eu. Ainda bem que era assim: eu não sabia se conseguiria resistir-lhe. — O maior de Tróia, rainha—retorqui, incapaz de disfarçar a tensão. Ela riu. — Não duvido, não duvido...—disse. — Pai—disse eu – me dá licença para que me retire? — Os meus filhos são verdadeiramente magníficos, não são, rainha Helena?—disse o meu pai, inchado de satisfação.—Heitor é o orgulho do meu coração um grande homem! Um dia, será um grande rei! Helena nada disse, enquanto me apreciava atentamente; porém, para lá do seu olhar brilhante, a mente perguntava-se se não seria possível afastarme e pôr Páris no meu lugar . Ela que pensasse o que quisesse! O tempo lhe ensinaria que Páris abominava todo o tipo de responsabilidades. Estava já prestes a sair quando o meu pai me chamou: — Espere, espere! Heitor, diz a Calcas que quero falar com ele. Uma estranha ordem. Porque quereria o rei falar com aquele homem repulsivo, excluindo Lacoonte e Teano? Havia muitos deuses na nossa cidade, mas a nossa principal divindade era Apolo. O culto de Apolo era uma especificidade nossa, o que fazia com que os seus sacerdotes—Calcas, Lacoonte e Teano—fossem os prelados mais poderosos de Tróia. Encontrei Calcas caminhando sonolentamente à sombra do altar dedicado a Zeus do Pátio. Não questionei sequer o fato de ele estar ali; Calcas era o tipo de homem cujos atos ninguém questionava. Envergava uma longa e ondeante túnica negra, bordada a prata com estranhos signos e símbolos, e a pele doentiamente branca da sua cabeça
calva brilhava tenuemente à luz do entardecer . Certa vez, era eu ainda uma criança, descobrira um ninho de cobras, tão brancas como arminho, na cripta do palácio. Porém, depois de ter encontrado essas criaturas cegas e debilitadas, escravas de Kore, nunca mais me aventurara a descer à cripta. Calcas despertava em mim precisamente os mesmos sentimentos. Dizia-se que Calcas viajara por todo o mundo, desde as terras dos Hiperbóreos ao rio do Oceano, desde terras muito a oriente de Babilônia a terras muito a sul da Etiópia. A indumentária de Calcas fora imitada da dos sacerdotes de Ur e da Suméria. No Egito, assistira aos rituais que haviam sido transmitidos, ao longo de muitas gerações de ilustres sacerdotes, desde o princípio dos deuses e dos homens. Outras coisas se diziam a respeito dele: que era capaz de preservar os corpos dos mortos, de tal modo que estes, ao fim de cem anos, pareciam não ter sofrido a corrosão natural do tempo; que Participara nos horrendos ritos do negro Seth; dizia-se até que beijara o falo de Osíris e que acedera assim ao supremo conhecimento. Nunca consegui gostar dele. Emergi dos pilares e avancei para o pátio. Ele sabia que era eu quem se aproximava, embora não tivesse olhado para mim uma única vez. — Procuras-me, príncipe Heitor? — Sim, sagrado sacerdote. O rei quer que vás ter com ele à Sala do Trono. — Para falar com a mulher que veio da Grécia. Eu vou. Fui à frente dele —como era meu direito—pois ouvira falar de sacerdotes que julgavam poder tornar-se eminências pardas dos reis; não queria que Calcas nutrisse tais esperanças. Enquanto Helena o fitava com uma repulsa constrangida, Calcas beijou as mãos do meu pai e aguardou que ele falasse. —Calcas, o meu filho Páris trouxe uma noiva. Quero que os case amanhã. — Como te aprouver, rei Príamo. De seguida, o rei ordenou a Páris e Helena que se retirassem. — Vai, Páris, e mostra a Helena o seu novo lar—disse ele para o meu estúpido irmão. Saíram de mãos dadas. Desviei os olhos daquele espetáculo de felicidade. Calcas permanecia silencioso, imóvel. — Sabe quem ela é, sacerdote?—perguntou o meu pai. — Sei sim, rei Príamo: é Helena. A mulher grega raptada. Estava à espera dela. Estaria mesmo? Ou teriam sido os seus espiões tão eficientes como
sempre? — Calcas, tenho uma missão para ti. — Sim, rei Príamo. — Preciso dos conselhos da pitonisa de Delfos. Vai a Delfos após o casamento e descobre o que significa Helena para nós. — Sim, rei Príamo. Deverei obedecer à pitonisa? — Claro. A pitonisa é a Boca de Apolo. Que se estaria a passar realmente ali, na Sala do Trono? perguntei-me. Quem enganava quem? As respostas estavam na Grécia. Todas as respostas pareciam estar na Grécia. Seria o Oráculo de Delfos servo do Apolo troiano ou do Apolo grego? Seriam os dois Apolos o mesmo deus? O sacerdote retirou-se. Fiquei finalmente a sós com o meu pai. — Tomaste uma decisão lamentável—disse-lhe eu. — Não, Heitor, eu tomei a única decisão possível.—Ergueu as mãos irritado.—Não percebe que não podia mandá-la embora? O mal está feito, Heitor . Está feito desde o momento em que ela deixou o seu palácio de Amiclas. — Nesse caso, pai, não a devolva toda aos Gregos: devolva-lhe apenas a cabeça. — É tarde demais, Heitor—retorquiu ele, o seu pensamento vagueando por outras paragens.—Tarde demais... tarde demais...
Capítulo Oitavo
Narrado por Agamêmnon
Clitemenestra estava de pé junto à janela, banhada pelo sol. A luz semeava na sua cabeleira chamas acobreadas, tão ardentes e brilhantes como ela própria. A minha esposa não possuía a beleza de Helena, mas, para mim, os seus atrativos eram mais interessantes e o seu sexo mais forte. Clitemenestra era uma fonte viva de poder, não um simples ornamento. A vista que dali se desfrutava sempre a encantara, talvez porque era o claro espelho da magnífica situação geográfica de que Micenas gozava. A nossa cidadela era mais elevada do que todas as outras. Dali se via uma paisagem imensa, desde a montanha do Leão ao vale de Argos, o extenso verde dos campos cultivados, e depois, mais acima, as montanhas que nos rodeavam, com as suas densas florestas de pinheiros sobranceiras a vastos olivais. A certa altura, gerou-se um tumulto à porta do meu quarto; ouvia distintamente as vozes dos meus guardas, protestando que o rei e a rainha não queriam ser incomodados. Irritado e intrigado, levantei-me. Porém, não tinha dado ainda um passo quando a porta se abriu de par em par e Menelau entrou cambaleante. Veio direito a mim, caiu de joelhos, encostou a cabeça às minhas coxas e desatou a soluçar . Lancei um olhar aturdido a Clitemenestra, que fitava o meu irmão estupefata. — Que se passa?—perguntei, afastando-o dos meus joelhos e sentando-o numa cadeira, Mas a resposta de Menelau eram lágrimas, apenas lágrimas. Tinha o cabelo emaranhado e sujo, as vestes em desalinho, uma barba de três dias. Clitemenestra encheu um copo de vinho sem água e estendeume. Depois de ter bebido, Menelau acalmou-se um pouco: pelo menos, os soluços abrandaram. — Menelau, conta-nos o que se passa. — Helena partiu! Clitemenestra correu para ele. - Morreu? — Não! Antes tivesse morrido! Helena deixou-me, Agamêmnon! Soergueu-se na cadeira, fez um esforço para se controlar .
— Conta-me tudo devagar, Menelau—pedi-lhe. — Regressei de Creta há três dias. Ela não estava lá... Ela fugiu, irmão— fugiu para Tróia com Páris. Ficamos parados olhando para ele, boquiabertos de espanto. — Fugiu para Tróia com Páris—repeti eu, quando pude. — Sim, sim! E levou consigo o tesouro! — Não acredito—disse eu. — Oh, pode acreditar, marido, pode acreditar! Aquela harpia estúpida e lasciva! silvou Clitemenestra. — Outra coisa não seria de esperar de uma mulher que se entregou a Teseu! Uma rameira, é o que ela é! Uma prostituta! Uma cadela amoral! — Tento na língua, mulher! Ela mostrou-me os dentes, mas obedeceu. — Quando aconteceu isso, Menelau? Com certeza que foi há menos de cinco luas! — Há quase seis luas, irmão—foi no dia em que eu parti para Creta. — Não é possível! Admito que não estive em Amiclas na tua ausência, mas tenho bons amigos na cidade—amigos que, sem demora, me teriam comunicado o sucedido. — Ela lançou-lhes o mau olhado, Agamêmnon! Helena foi ao Oráculo da Mãe Kubaba e falsificou a sua mensagem: o Oráculo, segundo ela, dizia que eu usurpara o trono da Lacedemônia. Depois, convenceu a Mãe Kubaba a amaldiçoar os meus nobres. Nestas condições, ninguém se atreveria a contar-te. Sufoquei a raiva que sentia. — Com que então, na Lacedemônia, a Mãe e a Velha Religião continuam a ser reis e senhores ... ! Deixa estar que eu trato disso ... ! Mais de cinco luas e eu sem saber de nada...—Encolhi os ombros.—Bom, agora não há nada a fazer . Não vale a pena ir atrás de Helena. — Não há nada a fazer? Não vamos fazer nada?—disse Menelau, erguendo-se de um salto. - Agamêmnon, tu és o rei supremo! Tem de fazer tudo para que ela volte! — Ela levou os seus filhos?—perguntou Clitemenestra. — Não—disse ele. -Apenas o tesouro. — Por aí se vê quais são as prioridades daquela cadela...—,rosnou a minha esposa.—Esquece-a, Menelau! Ficará muito melhor sem ela!
Menelau ajoelhou-se, de novo em lágrimas. — Eu quero que ela volte! Eu quero que ela volte, Agamêmnon! Me dê um exército! Me dê um exército e deixe-me seguir para Tróia! — Levante-se, irmão! Controle-se! — Dá—me um exército!—exclamou ele, fora de si. Suspirei de enfado. — Menelau, isto é um caso meramente pessoal. Não posso dar um exército só para levar a tribunal uma prostituta! Admito que todos os Gregos têm razões de sobra para odiarem Tróia e os Troianos, mas nenhum dos reis meus vassalos consideraria a fuga voluntária de Helena razão suficiente para declararem guerra a Tróia. — Tudo o que eu te peço é um exército formado pelas minhas e pelas tuas tropas, Agamêmnon! — Tróia reduziria os nossos homens a pó, Menelau. Consta que o exército de Príamo tem cerca de cinqüenta mil soldados—expliquei-lhe eu. Nesse instante, Clitemenestra deu-me uma cotovelada nas costas. — Marido, já esqueceu do Juramento?—perguntou.—Graças ao Juramento do Cavalo Esquartejado, pode formar um exército muito maior! Cem reis e príncipes pronunciaram esse Juramento! Abri a boca para informá-la que as mulheres não passavam de uns seres idiotas, mas fechei-a imediatamente sem lhe dizer uma única palavra. A Sala do Trono não ficava longe; foi para lá que fui sem mais demoras. Senteime na Cadeira do Leão, as minhas mãos coladas às garras que rematavam os seus braços, e refleti. Um dia antes, apenas, recebera uma delegação de reis de toda a Grécia, protestando contra o encerramento do Helesponto e as conseqüências daí advindas. Já não tinham dinheiro que chegasse para comprar estanho e cobre aos estados da Ásia Menor . As nossas reservas de metais—e, em particular, de estanho—haviam chegado ao fim; as relhas dos arados, agora, eram feitas com madeira e osso. Se as nações da Grécia queriam sobreviver, teriam de acabar com a política troiana de deliberada exclusão dos mercadores gregos. A norte e a oeste, as tribos bárbaras começavam a concentrar-se, prontas a exterminarem-nos, tal como, outrora, nós havíamos exterminado os primitivos Gregos. E onde iríamos nós buscar o bronze necessário para produzir os milhões de armas de que precisávamos para enfrentarmos essas tribos? Escutara os reis meus vassalos e prometera-lhes uma solução. Sabendo que não havia outra solução senão a guerra—mas sabendo também que
muitos desses reis recusariam a mais desesperada das medidas. Agora, um dia depois, tinha nas minhas mãos os meios necessários. Clitemenestra mostrara-me como. Eu era um homem no pleno apogeu das suas capacidades e participara já em muitas guerras—e era um bom guerreiro, um bom militar . Sim... eu era capaz de chefiar uma invasão de Tróia! Helena me serviria de pretexto... O astuto Ulisses previra a guerra sete anos antes, quando aconselhara o falecido Tíndaro a exigir o Juramento aos pretendentes de Helena. Se queria que o meu nome permanecesse vivo depois da minha morte, teria de deixar grandes feitos aos vindouros. Haveria no mundo maior feito do que a invasão e conquista de Tróia? O Juramento me permitiria dispor de cerca de cem mil soldados—um número suficiente para executar uma tal missão em dez dias. E com Tróia em ruínas, quem me impediria de concentrar os meus esforços nos estados costeiros da Ásia Menor, quem me impediria de reduzi-los a meros satélites de um império grego? Pensei no bronze, no ouro, na prata, no eletro, nas jóias, nas terras a conquistar . Tudo isso seria meu: bastava-me invocar o Juramento do Cavalo Esquartejado. Sim, eu poderia construir um império para o meu povo! A minha esposa e o meu irmão, de pé no meio da sala, não tiravam de mim os olhos; endireitei-me no trono, falei-lhes com um ar grave. — Helena foi raptada—disse eu. Menelau abanou a cabeça, com a mais infeliz das expressões. — Quem me dera que tivesse sido, Agamêmnon! Mas a verdade é que não foi. Helena não precisou de nenhuma coação para fugir . Apetecia-me lhe bater . Era isso que costumava fazer-lhe quando éramos pequenos. Claro que não bati, mas confesso que tive de fazer um grande esforço para reprimir os meus impulsos. Pela Mãe, que idiota que era o meu irmão! Como era possível que o nosso pai, Atreu, tivesse feito aquele idiota chapado? — Pouco importa a verdade, Menelau!—atirei-lhe, furioso. Dirá a todo mundo que ela foi raptada! A mais leve sugestão de que a fuga dela foi voluntária destruirá tudo—ainda não percebeu? Se obedecer às minhas ordens sem discussões, garanto-te que, recorrendo ao Juramento, reunirei um exército imenso! O mais infeliz dos homens ganhou um ânimo novo; a escuridão deu lugar à luz. — Isso mesmo, Agamêmnon, isso mesmo! Olhei de relance para
Clitemenestra. Havia nos seus lábios um amargo sorriso. O meu irmão era um imbecil, a irmã dela não lhe ficava atrás, e ambos estávamos perfeitamente conscientes disso. Um criado encontrava-se ao fundo da sala, demasiado longe para ouvir a nossa conversa; bati as palmas para que se aproximasse. — Vá chamar Calcas—ordenei. O sacerdote entrou na sala momentos depois. Prostrou-se a meus pés. Olhei-lhe para a nuca, perguntando-me que motivo o trouxera efetivamente a Micenas. Calcas era um troiano da mais alta nobreza. Até há pouco tempo, fora um dos supremos sacerdotes de Apolo em Tróia. Quando de uma peregrinação a Delfos, a pitonisa dissera-lhe que deveria servir Apolo em Micenas. Ordenara-lhe ainda que não regressasse a Tróia e que nunca mais voltasse a servir o Apolo troiano. Depois de ter aparecido na minha corte, mandei um enviado a Delfos para confirmar a história; a pitonisa não deixou margem para dúvidas—era tudo verdade. Calcas teria de ser sacerdote de Micenas porque o Senhor da Luz assim o queria. Tenho de admitir, por outro lado, que nunca me dera razões para que eu suspeitasse de uma eventual traição. Dotado da Segunda Visão, informarame, poucos dias antes, que o meu irmão me viria procurar devido a um grave problema. A sua aparência era desagradável, pois Calcas era uma raridade entre as raridades—um albino verdadeiro. A cabeça era completamente calva, a pele tão branca como a barriga de um peixe. Os olhos eram rosa-escuro e muito vesgos, numa cara enorme e redonda que exibia uma expressão permanente da mais absoluta estupidez. Pura ilusão: Calcas seria tudo, menos estúpido. Enquanto se endireitava, tentei sondar a sua mente. Contudo, era impossível ler fosse o que fosse naqueles olhos nublados, como que cegos. — Calcas, há quanto tempo deixaste o rei Príamo? — Há cinco luas, rei Agamêmnon. — O príncipe Páris já tinha regressado de Salamina? — Não, rei Agamêmnon. — Pode retirar-se. Notei no seu ar que tinha ficado ofendido por eu o ter tratado tão sumariamente; era evidente que, em Tróia, estava habituado a ser tratado com mais deferência. Mas Tróia adorava Apolo como deus supremo, ao passo que, em Micenas, o deus supremo era Zeus. Devia ser uma humilhação terrível para ele, um troiano, ser obrigado por Apolo a servir numa terra onde era rebaixado. Bati de novo as palmas.
— Chamem o arauto-mor . Menelau suspirou, lembrando-me que continuava ali, na Sala do Trono; embora eu não me tivesse esquecido, por um só momento, de que Clitemenestra ainda ali estava. — Coragem, irmão. Nós traremos Helena de volta. Ninguém pode infringir o Juramento do Cavalo Esquartejado. Terá o seu exército na Primavera do próximo ano. O arauto-mor entrou. — Arauto, enviará mensagens a todos os reis e príncipes da Grécia e de Creta que pronunciaram o Juramento do Cavalo Esquartejado, diante do rei Tíndaro, há sete anos. O funcionário encarregado dos Juramentos sabe de cor os seus nomes. Os teus mensageiros recitarão aquilo que te vou ditar: “Rei – ou príncipe, ou seja lá o que for—eu, vosso suserano, Agamêmnon, rei dos reis, ordeno-vos que se desloquem imediatamente a Micenas, a fim de discutirmos o Juramento que pronunciaram quando do casamento da rainha Helena com o rei Menelau.” Decorou tudo? Orgulhoso da sua memória, o arauto-mor acenou que sim. — Decorei tudo, rei Agamêmnon. — Então, faz o que te ordenei. Clitemenestra e eu livramo-nos de Menelau, dizendo-lhe que precisava de um banho. Desandou imediatamente, todo feliz; Agamêmnon, o irmão mais velho, tinha a situação controlada—portanto, o menino podia descansar . — Supremo rei da Grécia é um título grandioso—disse Clitemenestra mas rei supremo do Império Grego é incomparavelmente melhor . Fitei-a com um sorriso arreganhado. — Também acho, mulher . — Agrada-me a idéia de Orestes herdar um tal título—disse ela, sonhadora. Um comentário que dizia tudo sobre Clitemenestra. No seu coração selvagem, a minha rainha era uma chefe, uma mulher que achava humilhante ter de se vergar ao poder de alguém ainda mais forte do que ela. Eu estava perfeitamente consciente das ambições dela; sabia que ela ansiava substituir-me no trono, que ansiava fazer renascer a Velha Religião e usar o rei unicamente como um símbolo vivo da sua fertilidade. E mandá-lo para o machado quando a terra gemesse de dor . O culto de Mãe Kubaba, na ilha de Pélops, não estava ainda suficientemente reprimido. O nosso filho, Orestes, era muito pequeno ainda; nascera quando eu já desesperava de ter um filho varão. Electra e Crisótemis eram já púberes quando ele nascera. Um filho
varão era um rude golpe para Clitemenestra; a minha mulher nutrira a esperança de governar através de Electra; ultimamente, porém, transferira toda a sua afeição para Crisótemis. Electra adorava o pai, não a mãe. Contudo, Clitemenestra não desarmava. Agora que tínhamos certeza de que Orestes, um bebê forte e saudável, sucederia ao pai, a mãe esperava que eu morresse antes que ele tivesse a idade necessária para subir ao trono. Depois, governaria através dele. Ou através da nossa filha mais nova, Ifigênia. Alguns dos homens que haviam pronunciado o Juramento do Cavalo Esquartejado chegaram a Micenas antes de Menelau ter regressado de Pilos com o rei Nestor . De Micenas a Pilos era uma longa distância; muitos dos reis que vieram viviam mais perto da minha capital. Palamedes, o filho de Náuplio, não demorou muito a chegar . A sua presença alegrou-me muito: só Ulisses e Nestor eram mais sábios do que ele. Estava conversando com Palamedes na Sala do Trono, quando reparei que havia alguma agitação entre o pequeno grupo de reis menos importantes que se encontravam na sala. Palamedes, reparando no mesmo que eu, sufocou um risinho. — Por Heracles, que colosso! Deve ser Ájax, o filho de Télamon. Que vem ele aqui fazer? Era apenas uma criança quando o Juramento foi pronunciado e o pai dele não estava lá. O jovem avançou decididamente na nossa direção: era sem dúvida o homem mais corpulento de toda a Grécia; os seus ombros e a sua cabeça erguiam-se mais alto do que todos os presentes. Pertencendo a um grupo de jovens que aderia a um regime rigorosamente atlético, Ájax desprezava a comum blusa; fosse qual fosse a estação do ano, fizesse frio ou sol, andava de tronco nu e descalço. Não conseguia tirar os olhos do seu peito maciço, dos poderosos músculos dos braços e das pernas, sem sombra de gordura. De cada vez que punha um pé nas minhas lajes de mármore, parecia até que as paredes tremiam. — Dizem que Aquiles, o primo dele, é quase tão grande como ele— comentou Palamedes. — Isso não nos interessa—retorqui, irritado.—Os senhores do norte nunca se dignam prestar homenagem a Micenas. A Tessália, pensam eles, é suficientemente forte para ser independente. — Bem-vindo, filho de Télamon—disse eu.—Que te traz a Micenas? Os seus olhos infantis examinaram-me serenamente.
— Vim oferecer os serviços de Salamina, rei Agamêmnon, em representação de meu pai, que se encontra doente. Disseme que seria uma boa experiência para mim. Fiquei sinceramente satisfeito. Pena que o outro filho de Éaco, Peleu, fosse tão arrogante. Télamon reconhecia os seus deveres para com o rei supremo; em contrapartida, ninguém estaria à espera de que Peleu, Aquiles e os Mirmidões aparecessem. — Agradecemos a tua presença, filho de Télamon. Sorrindo, Ájax deixou-nos e encaminhou-se, com a sua possante passada, na direção de alguns amigos que o saudavam freneticamente. De súbito, porém, parou, e virou-se para mim. — Esquecia-me de uma coisa, rei Agamêmnon. O meu irmão Teucro está comigo. Ele pronunciou o Juramento. Palamedes estava ainda rindo, ainda que ocultasse o riso com uma mão. — Será que vamos abrir uma escola para rapazinhos do campo, Agamêmnon? — Sim, é de fato pena que o rapaz seja um brutamontes. Mas não podemos menosprezar as tropas de Salamina. À hora do jantar, ao entardecer, tinha já comigo Palamedes, Ájax, Teucro, o outro Ajax da Lócrida, conhecido como o pequeno Ájax, Menesteu, o rei supremo da Ática, Diomedes de Argos, Toas da Etólia, Eurípilo de Orménion, e outros mais; para minha grande surpresa, alguns dos que tinham vindo não haviam pronunciado o Juramento. disse-lhes que tencionava invadir a península de Tróia conquistar a cidade e libertar o Helesponto. Pensando na reabilitação do meu irmão, alonguei-me na descrição das perfídias de Páris, mas a verdade é que nenhum dos presentes se deixou iludir; eles sabiam muito bem quais eram as verdadeiras razões daquela guerra. — Nos últimos tempos, os nossos mercadores têm-nos massacrado com protestos: querem, e com razão, que o Helesponto seja reaberto. Precisamos de mais estanho e cobre. Os bárbaros canibais do norte e do oeste já começaram a cobiçar as nossas terras. Alguns de nós governam estados que se tornaram demasiado populosos, com todas as conseqüências que daí advêm—pobreza, agitação, motins, conspirações.—Fitei-os com um ar grave. —Que ninguém se iluda: Helena não é o único objetivo desta guerra. Esta expedição contra Tróia e os estados do litoral da Ásia Menor não conduzirá apenas a uma acumulação de riquezas e à obtenção de bronze barato. Esta
expedição oferece-nos a oportunidade de colonizar territórios ricos e pouco povoados com os nossos excedentes populacionais. O mundo em torno do Egeu fala já Grego com mais ou menos sotaque. Mas imaginem que todo esse mundo em torno do Egeu se torne grego! Imaginem a Grécia não como um simples reino, mas como um império! Ah, eles adoravam ouvir tais palavras! Todos morderam avidamente a isca; terminado o discurso, nem precisei de invocar o Juramento, e ainda bem que assim foi. A avareza era melhor capataz do que o medo. Claro que Atenas me apoiava inteiramente; nunca duvidei da cooperação de Menesteu. Cooperação que encontrei também em Idomeneu de Creta, o terceiro rei supremo. Mas o quarto Peleu—não me apoiaria. Quando muito, contaria apenas com a ajuda de alguns dos seus reis vassalos. Vários dias depois, chegou Menelau com Nestor . Ordenei que trouxessem imediatamente o ancião à minha presença. Mandei embora Menelau e reunimo-nos, com Palamedes, no meu salão privado; mandava a prudência que Menelau continuasse a acreditar que Helena era a única e exclusiva razão para aquela guerra. Não lhe ocorrera ainda qual seria o inevitável desfecho do suposto resgate de Helena—e ainda bem. Logo que estivesse nas nossas mãos, Helena teria de dizer adeus à sua cabeça. Não fazia idéia de qual seria a idade do rei de Pilos. Era eu ainda um rapaz e já ele era um velho de cabelos brancos. Era senhor de uma sabedoria notável e o seu discernimento continuava tão agudo como no tempo em que eu era um jovem; não havia sinal de senilidade nos seus penetrantes e brilhantes olhos azuis, não havia sombra de tremuras nos seus dedos carregados de anéis. — Diga-me, Agamêmnon, afinal qual é a verdadeira razão de tudo isto? perguntou-me.—O teu irmão está cada vez mais tonto! A sua saúde mental não melhorou nada... Tudo o que me disse foi que Helena fora raptada— uma história muito estranha... Nunca me pareceu que Helena precisasse de ser forçada... E não me venha dizer que Menelau convenceu o irmão a satisfazer-lhe os caprichos! Uma guerra por causa de uma mulher? Francamente, Agamêmnon. Meu caro Nestor, as razões desta guerra são o estanho, o cobre, o alargamento das vias mercantis, a livre passagem através do Helesponto e a colonização do litoral da Ásia Menor . A fuga de Helena com o tesouro do meu irmão é, muito simplesmente, o mais perfeito dos pretextos. — Hum.—Nestor franziu os lábios.—Fico contente por te ouvir falar
assim. Está contando com quantos homens? — As informações de que dispomos referem oitenta mil soldados. Com mais de vinte mil ajudantes não combatentes, teremos mais de cem mil homens. Deveremos fazer-nos ao mar em cerca de mil navios, na próxima Primavera. — Uma campanha gigantesca, Agamêmnon. Espero que estejam a planejá-la com todos os cuidados. — Naturalmente—retorqui eu com um ar altivo.—No entanto, será uma guerra muito breve—um tão grande número de homens arrasará Tróia em poucos dias. Os olhos dele arregalaram-se de surpresa. — Acha que sim? Tem mesmo certeza disso, Agamêmnon? Alguma vez esteve em Tróia? - Não. — Mas já deve ter ouvido falar das muralhas troianas... — Claro que já ouvi falar! No entanto, Nestor, não há muralhas que resistam a uma centena de milhar de homens. — Talvez... Te daria, porém, um conselho: espere que os teus navios aportem em Tróia. Poderá então ter uma idéia mais precisa da situação. Tróia, ao que se diz, é o oposto de Atenas, que possui uma cidadela fortificada e uma única muralha que se estende na direção do mar . Não, Tróia encontra-se completamente cercada por verdadeiros baluartes. Acredito que o desfecho da campanha seja a tua vitória. Mas acredito também que será uma longa campanha.... — Teremos de concordar que, quanto a este ponto, divergimos, rei Nestor retorqui eu, firmemente. Nestor suspirou. — Seja como for, nem eu, nem nenhum dos meus filhos, pronunciou o Juramento; contudo, podes contar com o nosso apoio. Se não acabarmos com o poder de Tróia e dos estados da Ásia Menor, Agamêmnon, nós—e a Grécia depressa pereceremos!—Pôs-se a olhar para os anéis, após o que perguntou: Onde está Ulisses? — Mandei um mensageiro a Ítaca. — Oh! Ulisses não vem com simples mensagens...—disse Nestor . — Tem de vir! Ele também jurou! — Os Juramentos nada significam para um homem como Ulisses. Não que possamos acusá-lo de sacrilégio—mas a verdade é que foi ele quem
concebeu todo este plano! Provavelmente, pronunciou muito baixinho o Juramento do fim para o princípio e ninguém deu por isso. No fundo, Ulisses é um homem que adora a tranqüilidade e, segundo consta, adaptouse com a maior das felicidades à rotina doméstica. Disseram-me que havia perdido todo o seu velho interesse pela intriga. Não, Agamêmnon, ele não quererá ir contigo. Mas tens de contar com ele entre os teus chefes. — Eu sei, rei Nestor . — Então vai buscá-lo tu—retorquiu Nestor .—Leva Palamedes contigo. E soltou um risinho malandro. — Para apanhar um ladrão, não há melhor do que outro ladrão... — Acha que leve Menelau? Os olhos dele cintilaram de divertimento. — Sem a menor dúvida. Sempre é uma maneira de pôr Menelau a falar mais de sexo e menos de economia... Fizemos a primeira etapa da nossa viagem por terra e, numa pequena aldeia da costa ocidental da ilha de Pélops, embarcamos rumo a Ítaca. Mal chegamos à praia, examinei a ilha e confesso que fiquei triste com o que vi— era uma ilha pequena, rochosa, algo árida; enfim, não seria por certo o mais adequado dos reinos para a mente mais notável do mundo. Enquanto avançava a pé por um caminho de pastores que conduzia à única cidade da ilha, amaldiçoei Ulisses por nem sequer se preocupar em assegurar a existência de transportes na única praia da ilha onde um barco poderia aportar . Na cidade, contudo, conseguimos encontrar uns quantos burros infestados de pulgas; profundamente satisfeito por nenhum dos meus cortesãos estar presente (que triste espetáculo, o rei supremo empoleirado num burro!), segui na direção do palácio. Apesar de pequeno, o palácio foi uma verdadeira surpresa. O exterior era magnífico, os pilares eram enormes, as pinturas levavam-nos a pensar que o interior seria por certo suntuoso. Claro que o dote da esposa de Ulisses incluíra vastas extensões de terra, baús cheios de ouro e jóias reais. O pai de Penélope, Icário, fartara-se de protestar contra uma tal união, pois não queria dar a filha a um homem que, até para ganhar uma corrida, usava de artimanhas! A verdade, porém, é que agora Penélope era a esposa de Ulisses. Contava que Ulisses estivesse à nossa espera no pórtico; era mais do que provável que a notícia da chegada tivesse chegado já ao palácio, levada pelos habitantes da cidade. Porém, quando finalmente deixámos os nossos ignóbeis corcéis, verificámos que o palácio estava tão silencioso quanto
deserto. Nem os criados se dignavam aparecer! Tomei o comando do grupo e avancei pelas salas do palácio — Por Zeus, que frescos maravilhosos! Excelentes, sem dúvida!— sentindo-me mais perplexo do que ofendido por descobrir que, de uma ponta a outra do palácio, não havia sinal de vida. Nem sequer aquele maldito cão, Argos, que Ulisses levava para todo o lado, se dignava ladrar aos visitantes. Um par de magníficas portas de bronze disse-nos onde ficava a Sala do Trono; Menelau abriu-as. Ficamos no vão da porta, pasmados, apreciando a qualidade da arte e a perfeita distribuição das cores, até que os nossos olhos repararam numa mulher que estava sentada no último degrau do estrado do trono e que chorava rios de lágrimas. A cabeça estava parcialmente tapada pelo manto; porém, quando o ergueu, logo descobrimos de quem se tratava, pois o seu rosto estava tatuado com uma teia azul, a qual tinha no meio uma aranha carmim: a insígnia de uma mulher consagrada a Palas Atena, no seu disfarce de tecedeira. Penélope era tecedeira. Levantou-se num repente e logo caiu de joelhos para beijar a bainha do meu saiote. — Rei Agamêmnon! Não estávamos à tua espera! Ah, é muito triste a recepção que te ofereço!—E rompeu de novo a chorar . Fiquei parado olhando para aquela cena, sentindo-me o mais ridículo dos homens: uma mulher histérica enroscada nas minhas pernas! Olhei de relance para Palamedes e não consegui evitar um sorriso. Como esperar o trivial, se estávamos na corte de Ulisses? Palamedes inclinou-se para mim e disseme ao ouvido: — Rei Agamêmnon, vou dar uma volta às imediações para ver se descubro alguma coisa. Me dá licença? Acenei que sim, após o que tratei de erguer a chorosa Penélope. — Então, prima, acalme-se. Conte-me o que se passa—disse-lhe. — Foi o rei, primo!—disse ela.—O rei enlouqueceu! Ah, primo, Ulisses está louco varrido ... ! Nem sequer reconhece a sua esposa! Está lá em baixo, no pomar sagrado! Fala sozinho e só diz disparates, coitado! Palamedes regressou a tempo de ouvir aquilo. — Temos de ir vê-lo, Penélope—disse eu. — Vão vê-lo, vão...—disse ela, soluçando. Penélope conduziu-nos até às traseiras do palácio, de onde se viam terras de cultivo que se espalhavam
em todas as direções; o centro de Ítaca era muito mais fértil do que o litoral. íamos nós descendo a escadaria das traseiras quando apareceu uma velha com um bebê bo colo. — Rainha, o príncipe não pára de chorar! Há muito que devia ter mamado! Penélope pegou logo na criança, embalando-a nos seus braços. — É o filho de Ulisses?—perguntei. — Sim, é Telêmaco. Fiz-lhe umas cócegas no rosto, após o que tratei de avançar; o destino do seu pai era muito mais importante. Passamos por oliveiras muito velhas—tão velhas que os seus troncos torturados eram mais grossos do que touros—e nos vimos por fim numa área murada que seria talvez o pomar, ainda que tivesse mais terra seca do que árvores de fruto. E foi nesse instante que vimos Ulisses. Menelau murmurou qualquer coisa numa voz estrangulada, mas eu nem murmurar consegui. Ulisses estava arando a terra com o duo mais estranho que eu jamais vira preso a um arado—um boi e uma mula! Os animais puxavam cada um para seu lado, o arado erguia-se da terra e girava obliquamente, os sulcos que fazia na terra eram tão tortuosos como Sísifo. Sobre a cabeleira vermelha, Ulisses trazia um chapéu de feltro de camponês e atirava não sei o quê, a esmo, por sobre o ombro esquerdo. — Que ele está fazendo, Penélope?—perguntou Menelau. — A semear sal—respondeu ela, impassível. Tagarelando disparatadamente consigo mesmo, rindo-se desvairadamente, Ulisses continuou a arar e a semear o seu sal. Tinha-nos visto certamente, mas os seus olhos não nos tinham reconhecido. Não havia dúvida: o brilho daqueles olhos era inconfundível, era o brilho da loucura! Perdêramos o homem de quem mais precisávamos! Não suportava assistir por mais tempo àquela triste cena. — Vamos embora, deixemo-lo em paz—disse. O arado estava agora perto de nós e os animais estavam cada vez mais furiosos, cada vez mais incontroláveis. Então, sem mais nem menos, Palamedes tirou o bebê dos braços de Penélope e, numa corrida, foi pô-lo a uma escassa distância dos cascos do boi. Com um grito estridente, Penélope tentou correr para salvar a criança, mas Palamedes deteve-a. Nesse momento, o estranho duo parou; Ulisses correu para frente do boi e pegou no filho. — Que se passa?—perguntou Menelau.—Ele afinal está bom da cabeça? — Tão bom da cabeça como qualquer um de nós—retorquiu Palamedes,
sorridente. — Fingiu que estava louco?—perguntei. — Claro, rei Agamêmnon. Porque só desse modo poderia escapar ao Juramento... — Mas como é que teve certeza disso?—perguntou Menelau, aturdido. — Encontrei um criado à saída da Sala do Trono. O pobre homem tinha um defeito: falava pelos cotovelos. Contou-me que Ulisses consultara ontem o Oráculo. Ao que parece, se ele for para Tróia, terá de permanecer vinte anos longe de Ítaca—disse Palamedes, satisfeito com o seu pequeno triunfo. Ulisses entregou o bebê a Penélope—que, agora, estava chorando de verdade. Todos sabiam que Ulisses era um grande ator, mas, pelos vistos, Penélope não ficava atrás. Estavam mesmo bem um para o outro. Os olhos cinzentos de Ulisses não largavam Palamedes, enquanto o seu braço descansava sobre os ombros da mulher . Era uma cara de poucos amigos, a de Ulisses. Palamedes atraíra o ódio de alguém que era capaz de esperar uma vida inteira pela vingança perfeita. — Fui descoberto—disse Ulisses, sem sombra de arrependimento. Sempre é verdade que precisas dos meus serviços, rei Agamêmnon? — Preciso, sim, Ulisses. Mas diga-me: porquê uma tão grande relutância? — Porque a guerra contra Tróia será longa e sangrenta, rei Agamêmnon, e eu não gostaria nada de participar nela. Outro que assegurava que seria uma longa campanha! Mas como poderia Tróia resistir a cem mil homens, por muito altas que fossem as suas muralhas? Regressei a Micenas com Ulisses, depois de o ter posto a par de todos os fatos. Não valia a pena dizer a Ulisses que Helena fora raptada. Como de costume, o rei de Ítaca revelou-se uma mina de conselhos e informações. Nem por uma vez se virou para ver a sua ilha esbater-se no horizonte; nem por uma vez deu mostras de que teria saudades da mulher—nem ela dele, já agora. Ulisses e Penélope, a mulher da face tatuada com uma teia, eram criaturas que sabiam controlar muito bem as suas emoções e que viviam num mundo de segredos. Quando chegamos ao Palácio do Leão, verifiquei que o meu primo Idomeneu de Creta já tinha chegado. Estava desejoso de participar na minha expedição a Tróia—por um preço, evidentemente. Pediu-me o título
de co-comandante: um pedido que tratei de satisfazer sem demora. Cocomandante ou não, se curvaria perante as minhas ordens. Idomeneu tivera uma paixão assolapada por Helena e reagiu muito mal à sua fuga (a ele, também tive de contar a verdade). Poucos tinham faltado à chamada. Entretanto, enquanto os meus funcionários decoravam aquilo que havia a decorar, todos os construtores de navios da Grécia se lançaram energicamente ao trabalho. Felizmente, nós, os Gregos, éramos os melhores construtores de navios do mundo e possuíamos vastas florestas de pinheiros e abetos, todo o pez de que precisávamos, graças à muita resina, e escravos em número suficiente para darem os seus cabelos que depois seriam misturados com o pez, e suficientes cabeças de gado para obtermos a necessária pele para as velas. Não tínhamos a menor necessidade de encomendar navios a estrangeiros que, assim, ficariam conhecendo os nossos planos. O total era ainda melhor do que eu tinha previsto: com efeito, foram-me prometidos mil e duzentos navios e mais de cem mil homens. Logo que a frota começou a ser construída, convoquei o meu conselho restrito. Nestor, Idomeneu, Palamedes e Ulisses estudaram comigo todos os pormenores da campanha. Por fim, pedi a Calcas que realizasse um augúrio. — Uma boa idéia—disse Nestor, que gostava de se mostrar deferente com os deuses. — Que te disse Apolo, sacerdote?—perguntei a Calcas.—Tudo correrá bem na nossa expedição? Calcas não hesitou. — Só se da tua expedição fizer parte Aquiles, o sétimo filho do rei Peleu. — Oh, Aquiles, Aquiles!—exclamei, furioso.—Para onde quer que me vire, só ouço esse nome! Ulisses encolheu os ombros. — É um grande nome, Agamêmnon. — Essa é boa! O rapaz ainda nem sequer tem vinte anos! — Mesmo assim—disse Palamedes—creio que deveríamos nos informar melhor acerca dele.—Virou-se para Calcas.—Quando saír, sacerdote, diz a Ájax, o filho de Télamon, que venha ter conosco. Calcas não gostava de receber ordens dos Gregos. Mas obedecia, o albino vesgo. Teria percebido de que eu mandara espiar todos os seus movimentos? Só por precaução... Ájax apareceu pouco depois.
— Fale-me de Aquiles—disse eu. Este simples pedido levou-o a desfiar um rosário de superlativos que, pelo menos a mim, me deixaram com os nervos em frangalhos. Por outro lado, não nos disse nada que nós não soubéssemos. Agradeci-lhe e mandei-o embora. Mas que brutamontes! — Então?—perguntei ao meu conselho. — Aquilo que nós pensamos ou deixamos de pensar não interessa para o caso, Agamêmnon—disse Ulisses.—O sacerdote diz que temos de ter Aquiles. — Mas Aquiles não virá se Agamêmnon lhe ordenar—disse Nestor . — Muito obrigado, isso também eu sei!—atirei-lhe. — Acalme-se, Agamêmnon—disse o ancião.—Peleu já não é nenhum jovem. Ele não estava presente quando ocorreu o Juramento. Nada o obriga a apoiar-nos, tão-pouco nos ofereceu o seu apoio. No entanto, pensa um pouco, Agamêmnon... Imagina o que não seria o nosso exército se pudéssemos contar com os Mirimidões! A sua voz enfatizou aquele nome mágico: “os Mirmidões”... Impôs-se na sala um pesado silêncio que o próprio Nestor quebraria momentos depois. — Preferia ter um mirmidão nas minhas costas do que meia centena de homens de outros povos disse. — Nesse caso—disse eu, decidido a castigar alguns dos meus conselheiros, sugiro-te, Ulisses, que leve Nestor e Ájax a Iolcos e que solicites ao rei Peleu os serviços de Aquiles e dos Mirmidões.

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