Capítulo Terceiro
Narrado por Quíron
Eu tinha um lugar preferido à saída da minha gruta, esculpida na rocha pelos éons divinos muito antes de os homens terem chegado ao monte Pélion. Era mesmo na ponta do penhasco, e muitos eram os momentos que eu passava sentado nessa espécie de banco, com uma pele de urso estendida em cima dele, para proteger os meus velhos ossos das duras carícias da pedra. Aí sentado, os meus olhos dominavam terra e mar como se fossem os olhos de um rei: o rei que eu nunca fui. Estava velho, demasiado velho. Era sobretudo no Outono que me apercebia disso, pois era no Outono que começavam as dores que anunciavam o Inverno. Ninguém—e ainda menos eu—fazia idéia da minha idade; um tempo vem em que a realidade da idade fica como que paralisada, em que todos os anos e todas as estações se resumem afinal a um longo dia em que não fazemos outra coisa senão esperar pela morte. O alvorecer prometia um dia de beleza e paz. Por isso, antes que o Sol se erguesse no céu, executei os meus poucos trabalhos domésticos, após o que saí para o ar fresco do monte. A minha gruta ficava bem no alto, quase que no cume da vertente sul do Pélion, sobranceira a um fundo precipício. Afundei-me na minha pele de urso para ver o Sol. Nunca me cansava de ver o mundo que dali se via; ao longo de incontáveis anos, do alto do Pélion, vigiara o mundo que se estendia sob os meus pés, a costa da Tessália e o mar Egeu. E enquanto via o Sol erguendo-se no horizonte, tirei alguns favos gotejantes de mel da caixa de alabastro onde guardava os meus confeitos e afundei neles as minhas gengivas desdentadas, sugando-os esfomeado. Aquele mel sabia a flores silvestres, a doces zéfiros, às florestas de pinheiros. O meu povo, os Centauros, vivera no monte Pélion durante mais tempo do que os homens poderiam registrar, servindo os reis da Grécia como preceptores dos seus filhos. De fato, nós éramos os melhores professores do mundo. Digo “éramos” porque eu sou o último dos Centauros; com a minha morte, morrerá a minha raça. No interesse do nosso trabalho, a maior parte dos Centauros escolhera o celibato; por outro lado, aqueles que se casavam nunca escolhiam mulheres de outros povos; por isso, as nossas mulheres, quando se cansaram de uma existência vulgar, pegaram nas suas coisas e
partiram. Por essa razão, os nascimentos diminuíram drasticamente; com efeito, a maior parte dos nossos homens não tinha sequer tempo para fazer a viagem até à Trácia, a região para onde tinham ido as nossas mulheres a fim de se juntarem às Ménades e de participarem no culto de Dioniso. E, a pouco e pouco, uma lenda nasceu: a lenda segundo a qual os Centauros eram invisíveis porque tinham medo de se mostrar aos outros homens; e tinham medo porque—acrescentava a lenda—seriam meio homens, meio cavalos. Uma criatura sem dúvida interessante, caso tivesse existido. Mas não, tal criatura nunca existiu: os Centauros mais não eram do que homens, em tudo iguais aos outros homens. O meu nome era conhecido em toda a Grécia; eu sou Quíron e fui o mestre da maior parte dos jovens que, chegando à idade adulta, se tornaram heróis famosos: Peleu e Télamon, Tideu, Héracles, Atreu e Tiestes, isto para referir apenas alguns. Contudo, isso fora já há tanto tempo... Para dizer a verdade, enquanto assistia ao nascer do Sol, não era em Héracles, nem na sua estirpe, que eu pensava. Abundam no monte Pélion as florestas de freixos, freixos mais altos e eretos do que todos os outros, um mar tremeluzente de um amarelo radioso nesta altura do ano, visto que todas as folhas, moribundas mas prenhes de luz, estremecem e caem ao sabor da mais ligeira das brisas. Aos meus pés, caía a pique o precipício, quinhentos cúbitos de rocha nua, sem uma sombra sequer de verde ou amarelo, e, sob o abismo, de novo a floresta de freixos erguendo os seus ramos para o céu e muitos pássaros com suas vozes distintas. Não ouvia nunca os sons dos homens, pois entre mim e os pináculos do Olimpo não havia outro homem. Estendendo-se muito ao longe e reduzida ao tamanho de um reino de formigas, surgia lolcos—e não será forçada esta descrição, pois chamavam Mirmidões, ou formigas, ao povo de lolcos. Entre todas as cidades do mundo, tirando as de Creta e Tera antes de Poseidon as ter arrasado, lolcos era a única que não tinha muralhas. Quem ousaria invadir a pátria dos Mirmidões, que eram guerreiros sem par? A ausência de muralhas levava-me a amar ainda mais lolcos. É que eu odiava muralhas. Outrora, quando viajava, não suportava ver-me encerrado dentro das muralhas de Micenas ou Tirinto mais do que um ou dois dias. As muralhas eram estruturas construídas pela morte com pedras das pedreiras do Tártaro. Deitei fora os favos de mel e peguei no meu odre, aturdido pelo sol que
tingia de carmesim a amplidão da baía de Págasa, reverberando nas figuras douradas do telhado do palácio, dando nova cor às cores dos pilares e das paredes dos templos, do palácio e dos edifícios públicos. Um caminho serpenteava desde a cidade até ao meu quase inexpugnável retiro, mas havia muito tempo que não era usado. Naquela manhã, porém, alguém decidira usá-lo; com efeito, ouvi um veículo aproximando-se. A raiva que senti destronou por completo a doce contemplação; levantei-me, cambaleante, decidido a enfrentar o insolente intruso e a mandá-lo dali para fora. Era um nobre e conduzia um veloz carro de caça, puxado por dois cavalos baios da Tessália; na túnica do homem, viam-se as insígnias da casa real. Eram claros os seus olhos e radioso o seu sorriso; desceu do carro com uma elegância que só os jovens conhecem e encaminhou-se na minha direção. Recuei; naqueles tempos, o cheiro de um homem causava-me repulsa. — O rei manda-te as suas melhores saudações, Quíron—disse o jovem. — Que pretendes? Que pretendes?—perguntei, descobrindo, para meu grande pesar, que a minha voz soava rouca e áspera. — Ordenou-me o rei que te trouxesse uma mensagem, Quíron. Amanhã, ele e seu irmão virão ter contigo: deixarão à tua guarda os seus filhos até estes crescerem. Deverás ensinar-lhes tudo aquilo que eles devem saber . Todo o meu corpo se retesou de indignação. O rei Peleu que nem pensasse nisso! Estava demasiado velho para aturar meninos turbulentos. Há muito que deixara de ensinar . E não voltaria a ensinar—nem mesmo que os alunos fossem descendentes de uma casa tão ilustre como a de Éaco. — Diz ao rei que fiquei furioso com a sua proposta! Não tenciono dar aulas ao filho dele, nem ao filho do seu régio irmão, Télamon. Diz-lhe que, se subir o Pélion amanhã, estará a perder o seu tempo. Quíron abandonou já o seu velho mestre. O jovem fitou-me desalentado. — Quíron, eu não ousaria levar-lhe tal mensagem. O rei ordenou-me que te anunciasse a sua visita e foi isso que eu fiz. Mas Peleu não me encarregou de levar uma resposta. Quando o carro de caça desapareceu, regressei ao meu banco e descobri que a paisagem que, momentos antes, contemplara, desaparecera sob um véu escarlate. O véu da minha raiva. Como se atrevia o rei a pensar que eu daria aulas ao seu filho—ou ao filho de Télamon, agora? Anos antes, fora o próprio Peleu que enviara arautos a todos os reinos da Grécia, anunciando
que Quíron, o Centauro, se retirara. Agora, Peleu dava o dito por não dito. Télamon, Télamon... Tinha muitos filhos, mas havia dois que eram os preferidos... O mais velho era um bastardo, filho da princesa troiana Hesíona, e chamava-se Teucro. O outro era o seu herdeiro legítimo, Ájax. Por outro lado, Peleu tinha um único filho, um filho de Tétis, a sua rainha, miraculosamente nascido de—pois de seis crianças terem morrido à nascença. Chamava-se Aquiles. Que idade teria agora Aquiles e Ájax? Eram meninos pequenos, certamente. Malcheirosos, ranhosos, algures entre o bicho e o homem. Que horror . Morta a minha alegria, reduzida a cinzas a minha raiva, regressei à minha caverna. Não havia maneira de recusar o trabalho. Peleu era o rei supremo da Tessália; eu era seu súdito e tinha de obedecer-lhe. Por isso atentei no meu amplo e arejado retiro e senti um receio imenso dos dias e dos anos que viriam. A minha lira estava esquecida numa mesa, ao fundo da câmara principal; nas suas cordas, há tanto tempo caladas, o pó tinha-se acumulado. Fitei-a com olhos sombrios, relutantes; então, de repente, peguei nela e apaguei as provas da minha negligência. Não havia uma única corda que estivesse devidamente retesada; tive de afiná-las a todas; só depois disso pude tocar na minha velha lira. Ah, e a minha voz! Perdera-se, morrera! Enquanto Febo conduzia o seu carro de oriente a ocidente, toquei e cantei, tentando convencer os meus dedos entorpecidos a reencontrar a antiga flexibilidade, exercitando as mãos e os punhos, percorrendo para a frente e para trás a escala dos sons. Um professor ter de praticar diante dos alunos era uma coisa horrível; por isso, tinha de recuperar toda a prática perdida antes que eles chegassem. E só parei quando a escuridão inundou a caverna e as sombras silenciosas dos morcegos começaram a agitar as asas, demandando o seu refúgio, algures num local mais recôndito da montanha. Estava morto de cansaço, cheio de frio e de fome e o meu humor, garanto-lhes, não era o melhor . Peleu e Télamon chegaram ao meio-dia. Vinham os dois juntos no carro real, seguido por um outro carro e por uma pesada e lenta carroça puxada por bois. Desci o caminho para os saudar e esperei de cabeça baixa. Havia anos que não via o rei supremo e uma eternidade que não via Télamon. Já de melhor humor, ergui os olhos para os ver . Sim, eles eram reis, aqueles dois homens que irradiavam força e poder .
Peleu continuava o homem corpulento e pujante de sempre, Télamon mantinha a agilidade de outros tempos. Agora, ambos podiam dizer que os seus problemas se haviam dissipado—mas só depois de longos períodos de discórdia, guerra, preocupações. E os forjadores do metal das almas dos homens tinham deixado neles a sua marca indelével. O ouro dos seus cabelos esbatia-se já, antes que a prata os invadisse, mas não encontrava qualquer sinal de decadência nos seus corpos vigorosos, nos seus rostos duros e graves. Peleu foi o primeiro a descer e acercou-se de mim antes que eu pudesse recuar; senti um arrepio de repulsa quando ele me abraçou afetuosamente; mas logo essa repulsa foi temperada pelo seu calor . — A partir de uma certa altura, Quíron, já não é possível parecermos mais velhos. Como tens passado? Estás bem? — Apesar de tudo, posso dizer que estou muito bem. Afastamo-nos um pouco dos carros. Lancei-lhe um olhar de revolta. — Como podes pedir-me que volte a ensinar? Não fiz eu já trabalho que chegue? Não há mais ninguém no mundo capaz de instruir os vossos filhos? — Quíron, tu não tens rival.—Fitando-me do alto da sua elevada estatura, Peleu agarrou-me no braço.—Sabes, com todcerteza, que Aquiles significa tudo para mim. É o meu único filho—não haverá mais. Quando eu morrer, Aquiles ficará com ambos os tronos. Terá de ser por isso um homem educado. Eu próprio poderia educá-lo, mas faltam-me os fundamentos adequados. Só tu poderás instilar-lhe os rudimentos, Quíron, e tu sabes disso. Na Grécia, a posição dos reis hereditários é muito precária. Há sempre inimigos à espreita de uma oportunidade.—Suspirou, para logo acrescentar:—Além disso, Quíron, eu amo Aquiles mais do que a própria vida. Como poderia eu negar-lhe a educação que tive? — Fico pensando se não terás já estragado o rapaz. — Não, Quíron. Creio que Aquiles é incorruptível. — Eu não quero este trabalho, Peleu. Desviou o olhar, franziu muito o sobrolho. — Seria idiota da minha parte insistir . Mas... não queres ver ao menos os rapazes? Pode ser que mude de idéia. — Nem que fossem novos Héracles ou Peleus... Mas está bem. Já que assim desejas, vê-los-ei. Peleu virou-se e acenou para dois rapazes que se encontravam junto ao segundo carro.
Aproximaram-se lentamente, um atrás do outro; não conseguia enxergar o rapaz que vinha atrás. Não admira: o rapaz que vinha à frente era daqueles que faziam o possível por atrair as atenções. No entanto, era uma verdadeira decepção... Seria aquele o filho de Peleu, o adorado filho único? Não, não podia ser . Aquele só poderia ser Ájax; Aquiles seria ainda um menino por certo. Catorze anos? Treze? Já era tão alto como um homem, e os seus braços e ombros eram poderosos e musculosos. Não tinha mau aspecto o rapaz, mas também não tinha nada de especial. Apenas um adolescente fisicamente desenvolvido, com um nariz ligeiramente achatado e uns olhos cinzentos impassíveis, nos quais não se via a luz de um verdadeiro intelecto. — Este é Ájax—disse Télamon, cheio de orgulho.—Tem só dez anos, embora pareça muito mais velho. Acenei para que Ájax se afastasse. — E este é Aquiles?—perguntei, com um aperto na voz. — Sim—disse Peleu, tentando dar uma impressão de distância.— Também está muito grande para a idade. Acaba de fazer seis anos. De súbito, senti a garganta seca. Estava pasmo. Apesar de ter apenas seis anos, Aquiles possuía já uma magia muito sua, uma espécie de encantamento que ele usava sem saber e que prendia os homens a ele e que os levava a amá-lo. Fisicamente, não era tão possante como o primo, mas, mesmo assim, era uma criança alta e dotada de uma forte constituição. Tinha uma postura muito descontraída para um menino da sua idade; distribuía o peso do seu corpo por uma só perna, enquanto a outra avançava apenas um pouco, e os braços caíam livres junto ao corpo, embora de um modo gracioso. Tranqüilo e inconscientemente régio, parecia feito de ouro. O cabelo assemelhava-se aos raios de Hélio, as sobrancelhas brilhavam como cristal amarelo, a pele parecia ouro polido. Muito belo, exceto no que tocava à boca—apenas uma fenda riscada no rosto; uma boca dolorosamente triste, mas tão determinada que intimidaria qualquer um. Fitava-me gravemente com uns olhos que tinham a cor do final do alvorecer, amarelos e nublados; uns olhos cheios de curiosidade, dor, mágoa, espanto e inteligência. Despedi-me de sete dos poucos anos que me restavam quando me ouvi dizer, “Serei o professor deles”. Peleu fitou-me com um sorriso radiante e Télamon abraçou-me; só agora tinham certeza de que eu aceitava. — Não ficaremos mais tempo—disse Peleu.—Na carroça, vem tudo o
que eles precisam, e trouxe criados para cuidarem de ti. Diz-me, Quíron, a tua velha casa ainda não caiu? — Continua de pé—respondi. — Nesse caso, poderá hospedar os criados. Eles têm ordens para obedecerem a todas as tuas ordens. Falarás em meu nome, Quíron. Pouco depois, foram-se embora. Deixei os escravos descarregando a carroça e avancei para os rapazes. Ájax erguia-se como a própria montanha, impassível e dócil, os olhos sem a menor sombra; aquele crânio poderoso teria de ser muito malhado até que a mente que lá estava dentro ganhasse consciência da sua verdadeira função. Aquiles fitava ainda o caminho por onde seguia o pai, os seus olhos enormes reluzindo das lágrimas que não chorara. Aquela separação assumia, para ele, uma extrema importância. — Venham comigo, rapazes, vou mostrar-lhes a vossa nova casa. Seguiram-me silenciosamente até à caverna. Mostrei-lhes quão confortável poderia ser uma morada tão estranha. Mostrei-lhes as macias e espessas peles onde dormiriam, a área da câmara principal onde decorreriam as nossas aulas. Depois, levei-os até à beira do precipício e sentei-me no meu assento preferido, com um de cada lado. Estão ansiosos por começarem a vossa instrução?—perguntei, mais para Aquiles do que para Ájax. — Sim, meu senhor—disse Aquiles, cortesmente; o pai, pelo menos, deralhe lições de boas maneiras. — O meu nome é Quíron. Pode tratar-me por Quíron. — Sim, Quíron. O meu pai diz que eu devo aplicar-me nos estudos. Virei-me para Ájax. — Na caverna, sobre uma mesa, encontrarás uma lira. Traga-a mas tenha cuidado, não a deixe cair . O possante rapaz fitou-me sem qualquer animosidade. — Eu nunca deixo cair nada—respondeu-me ele, como se aquela fosse a mais trivial das respostas. As minhas sobrancelhas ergueram-se; havia nos meus olhos uma luz de divertimento que, no entanto, não acendeu qualquer resposta nos olhos cinzentos do filho de Télamon. Em vez disso, fez exatamente o que lhe disse: o bom soldado obedecendo às inquestionáveis ordens do seu chefe. Era o melhor que eu poderia fazer por Ájax, pensei. Transformá-lo no mais forte e capaz dos soldados. Ao passo que os olhos de Aquiles espelhavam a
minha própria hilaridade. — Ájax leva sempre muito a sério o que a gente diz—disse ele, com aquela voz tão agradável, firme e equilibrada, de que eu já gostava. Esticou uma mão para indicar a cidade, lá muito ao fundo. - lolcos? - Sim. — Então aquilo, ali na colina, deve ser o palácio! Parece tão pequeno, visto daqui! Sempre pensei que fosse maior do que o Pélion, mas, visto daqui, é apenas uma casa como as outras. — Todos os palácios são casas como as outras: basta que uma pessoa possa vê-los de longe. — Sim, estou percebendo. — Já está com saudades do teu pai. — Pensei que ia chorar, mas passou.... — Voltará a vê-lo na Primavera. Verá que o tempo passará num instante. Não poderá preguiçar aqui; a preguiça é a mãe do descontentamento, das maldades, das travessuras das crianças. Respirou fundo. — O que é que eu vou ter de aprender, Quíron? Que preciso eu de saber para ser um grande rei? — Demasiadas coisas, Aquiles. Não poderia responder-te a essa pergunta com poucas palavras. Um grande rei é uma fonte de conhecimento. Os reis são os melhores homens do seu povo, mas um grande rei é aquele que compreende que é o representante do seu povo diante do deus. — Nesse caso, tenho de começar a aprender . Ájax voltou com a lira. Segurava-a com todo o cuidado. Era um grande instrumento, parecido com as harpas dos Egípcios, construído a partir de uma enorme carapaça de tartaruga com cintilantes manchas castanhas e cor de âmbar, e tinha cravelhas de ouro. Encostei-a ao meu joelho e afaguei as cordas com um toque muito leve que produziu um belo som, mas não uma melodia. — Vocês terão de conhecer todos os segredos da lira e aprender as canções do vosso povo. O maior de todos os erros é ser impolido ou inculto. Terão de conhecer de cor a história e a geografia do mundo, todas as maravilhas do universo, todos os tesouros que há sob o regaço de Mãe Kubaba, que é a Terra. Os ensinarei a caçar, a matar, a lutar com toda a sorte de armas, a fabricar as vossas próprias armas. Ficarão conhecendo as ervas
que curam as doenças e as feridas. Os ensinarei a extraírem remédios dessas ervas. Saberão também como usar talas para curar pernas ou braços partidos. Um grande rei dá mais valor à vida do que à morte. — E a oratória?—perguntou Aquiles. — Não faltará. Depois de aprenderem comigo, a vossa oratória terá um efeito poderoso sobre os corações dos vossos ouvintes, seja por via da alegria, seja por via da tristeza. Quando saírem daqui, saberão julgar equilibradamente os homens, tal como elaborar leis e executá-las. Lhes ensinarei aquilo que o deus espera de vocês, porque vocês são os eleitos.— Sorri.—E isto é só o princípio! Assentei a lira no chão, passei com a mão pelas cordas. Toquei apenas por breves momentos: então, chegado ao clímax, quando o último acorde se esbateu para dar lugar ao silêncio, comecei a cantar . «Ele estava só e rodeado de inimigos. Hera, irritada, abriu de fúria os braços E o teto dourado do Olimpo tremeu. Hera não abrandava a sua vigilância. Implacável a raiva da esposa de Zeus! No seu céu, afinal, Zeus não tinha poder, Pois prometera à gloriosa Hera Que o seu filho da terra seria servo. Euristeu, o frio e impiedoso amante, Sorria enquanto contava os ribeiros de suor que a Héracles impusera. Porque os filhos dos deuses têm de saber que contra os deuses não podem revoltar-se E que essa é a diferença entre os homens E os deuses que deles fazem fáceis presas. Filho bastardo sem icor nas suas veias, Héracles pagou o preço da paixão. E pagou com sofrimento e degradação, Enquanto Hera ria de ver Zeus chorando ... » Era a Balada de Héracles, que morrera havia não muitos anos antes. Enquanto cantava, observava atentamente os dois rapazes. Ájax escutava atentamente. Aquiles, tão vibrante como as cordas da lira, inclinou-se para mim, com o queixo apoiado nas mãos e ambos os cotovelos no braço do meu assento, os olhos a escassa distância do meu rosto. Quando finalmente afastei de mim a lira, deixou cair as mãos, suspirando exausto. E foi assim que tudo começou e foi assim que tudo prosseguiu nos anos que haviam de vir . Aquiles avançava rapidamente em tudo, Ájax empenhava-se tenazmente na execução dos seus deveres. No entanto, o filho de Télamon não era propriamente um pobre tonto. Ájax tinha uma coragem e uma determinação capazes de fazerem inveja a qualquer rei e, de algum modo, conseguia sempre estar à altura daquilo que lhe era exigido. Porém, Aquiles é que era o meu rapaz, a minha alegria. Tudo o que eu lhe
dizia era ciosamente guardado—para ser usado mais tarde, quando fosse um grande rei, como ele dizia, sorridente. Adorava aprender e destacava-se em todos os ramos do conhecimento. Era tão bom com as mãos como com a mente. Ainda guardo alguns dos desenhos e das tigelas de barro que então fez. Porém, mais do que para as matérias eruditas, Aquiles nascera para a ação, para a guerra e os feitos heróicos. Mesmo do ponto de vista físico, Aquiles superava o primo, pois eram velocíssimas as suas pernas e gostava de manejar armas tanto como uma mulher cúpida adora mexer nas suas jóias. Com a lança, nunca falhava o alvo; quando pegava na espada, eu mal via a alada arma! Empunhar, atacar, golpear . Ah sim, ele nascera para ser chefe! Ele compreendia a arte da guerra sem qualquer esforço—por instinto. Era um caçador natural e, muitas vezes, regressava à caverna arrastando um javali demasiado pesado para trazer às costas, e, com os veados, conseguia correr atrás deles e lançar-lhes de perto a lança fatal. Uma única vez o vi aflito. Certa vez em que, depois de ter perseguido a presa a toda a velocidade, se estatelou redondo no chão, de tal modo que só ao fim de algum tempo recuperou a consciência. Fora o seu pé direito, explicou, fora o seu pé direito que falhara. Nota do tradutor: Icor era o etéreo fluido que, segundo a mitologia grega, corria nas veias dos deuses em vez do humano sangue. Ájax podia ter violentos acessos de fúria, mas nunca vi Aquiles perder a compostura. Não era tímido nem retraído; possuía, contudo, no mais fundo de si mesmo, uma serenidade e um comedimento inabaláveis. Ele era o guerreiro pensador . Uma espécie rara. Poderia pensar que aquela cutilada que tinha no lugar da boca seria a tradução física do outro lado da sua natureza; porém, havia um único aspecto em que essa correspondência se revelava: quando havia alguma coisa que não estava de acordo com o seu sentido da justiça, era capaz de ser tão frio e inflexível como o vento norte que sempre traz a neve. Aqueles sete anos deram-me mais prazer do que todo o resto da minha vida, graças não apenas a Aquiles, mas também a Ájax. O contraste entre os primos era tão notório, e eram tão excelentes os dois, que transformá-los em homens foi, para mim, uma obra amorosamente cumprida. De todos os rapazes que foram meus alunos, Aquiles foi aquele que mais amei. Chorei
quando foi embora pela última vez; e, durante muitas luas após a sua partida, a minha vontade de viver transformou-se num moscardo tão persistente como aquele que atormentou Io. Só ao fim de muito tempo consegui contemplar o remate dourado do telhado do palácio cintilando ao sol sem que uma névoa pairasse diante dos meus olhos—uma névoa que fazia com que esse remate dourado e o telhado se dissolvessem um no outro como minério no crisol.
Capítulo Quarto Narrado por Helena
Xantipa era uma opositora terrível; quando cheguei dos campos, vinha ofegante e exausta. Tínhamos atraído uma vasta audiência e não deixei de oferecer ao círculo dos rostos que nos admiravam o mais radioso dos meus sorrisos. Nenhum homem quis dar os parabéns a Xantipa por ter vencido o combate. Eles estavam lá unicamente para me verem. Quando o combate terminou, os homens rodearam-me, cobriram-me de elogios, usaram de todos os pretextos para me afagarem a mão ou o ombro; os mais atrevidos propuseram-me até—brincavam, é claro—que combatesse contra eles. Esquivei-me aos seus gracejos e sugestões com o maior dos agrados; infelizmente, não havia nas suas palavras o mínimo resquício de sutileza. Quanto à idade, eu era ainda uma criança. Os olhos deles, contudo, negavam isso; os olhos deles diziam de mim coisas que eu já sabia, pois havia nos meus aposentos espelhos de cobre polido e também eu tinha olhos. Embora fossem nobres da corte, nenhum deles era verdadeiramente importante. Sacudi-os para longe de mim como sacudiria a água depois de ter tomado banho, peguei na toalha de linho que a minha criada trazia e com ela envolvi as minhas pernas nuas e suadas no meio de um coro de protestos. Foi então que vi meu pai para lá da multidão. O meu pai tinha assistido ao combate? Mas que coisa rara! Pois se ele se recusava a ver as mulheres parodiando os desportos masculinos! A minha expressão de surpresa fez com que alguns dos nobres se virassem; e, num ápice, todos desapareceram. Fui ter com meu pai e beijei-o na face. — Tens sempre um público tão entusiasta?—perguntou-me ele de sobrolho franzido. — É verdade, pai—retorqui, enquanto dava um jeito na minha roupa. Talvez não saiba, mas sou muito admirada. — Se não sabia, fiquei sabendo. Devo estar ficando velho, devo estar perdendo os meus poderes de observação. Felizmente, o teu irmão mais velho não é cego nem velho. Disseme esta manhã que talvez não fosse má idéia passar pelo campo onde as mulheres praticam desportos. Fiquei furiosa.
— Não faz sentido nenhum Castor preocupar-se comigo!—retorqui. — Estaríamos mal, se ele não se preocupasse contigo! Estávamos chegando à porta da Sala do Trono. — Vai lavar-te e vestir roupa nova, Helena. Depois, vem ter comigo. No rosto dele não havia a menor sugestão quanto ao que pretendia dizer-me; limitei-me a encolher os ombros e desatei numa corrida a caminho dos meus aposentos. Neste estava à minha espera, ansiosa por poder cacarejar as suas censuras. Deixei-a tirar-me a toalha, desejosa como estava de um bom banho quente, da sensação do raspador na minha pele. Neste, que ainda não se calara, atirou a toalha para um canto e desapertou os cordões da minha tanga. Mas eu não ouvia nada do que ela dizia. Corri pelas lajes frias, saltei para a água quente do banho e desatei a chapinhar alegremente. Era a maior das delícias, sentir a água ondeando à minha volta, acariciando-me—e poder acariciar-me a mim mesma, porque os olhos velhos de Neste só conseguiriam ver alguma coisa se a água fosse tão límpida como a de uma nascente. E que agradável que era depois, quando ela me massageava com óleos fragrantes—e eu própria me massageava um pouco. Nunca eram demasiados aqueles momentos em que podia acariciar-me, mexer-me, proporcionar-me aqueles arrepios e frêmitos a que outras moças, como Xantipa, pouco pareciam ligar . Talvez porque não tinham tido um Teseu a ensiná-las. Uma das minhas outras criadas dispôs em círculos no chão a minha saia para que eu pudesse entrar pelo meio. Ergueram-na depois ao longo das minhas pernas e apertaram-na na cintura. Era pesada, mas eu já estava habituada àquele peso, pois envergava uma saia de mulher há já dois anos, desde que regressara de Atenas. A minha mãe achava demasiado ridículo que eu voltasse a vestir roupas de criança depois daquele episódio. Vieram depois a blusa, atada sob os seios, e o amplo cinto e o avental que só poderiam ser apertados se eu sustivesse o suficiente a respiração. Uma diligente criada enfiou os meus caracóis no diadema de ouro, outra me colocou nas orelhas um belo par de brincos de cristal. Estendi os meus pés nus um de cada vez e deixei-as enfiar pequenas alianças e sininhos em todos os meus dedos, estendi os braços para receber dezenas de tilintantes braceletes, estendi os dedos para os esperados anéis. Quando acabaram, pus-me diante do maior dos meus espelhos e examinei a minha aparência com uns olhos críticos. A saia era a mais bonita que eu possuía, um mar de folhos e babados desde a cintura aos tornozelos,
transbordando de contas de cristal e âmbar, amuletos de lápis-lazúli e ouro trabalhado, sininhos dourados e pingentes de faiança, de tal forma que todos os meus movimentos eram acompanhados por música. O meu cinto não estava suficientemente apertado; chamei duas mulheres das mais fortes para procederem a tal operação. — Neste, porque é que eu não posso pintar de ouro os meus mamilos? perguntei.—De nada lhe vale queixar-se a mim, jovem princesa. Pergunte à sua mãe. Mas, se quer um conselho, recorra a um tal artifício apenas quando precisar dele. Por exemplo, depois de ter dado à luz um filho, pois os seus mamilos ganharão um tom castanho-escuro. Decidi que Neste era muito capaz de ter razão. Eu era, nesse particular, muito afortunada; os meus mamilos eram de um belo tom rosa e, pela sua forma, faziam lembrar um botão de rosa, os meus seios eram cheios e ereto. Que dissera Teseu? Dois gordos cachorrinhos brancos com uns narizes cor-de-rosa. A minha disposição mudou por completo mal pensei nele; afastei-me bruscamente da minha imagem, e toda a saia tilintou e cintilou. Ah, daria tudo para voltar a estar nos seus braços ... ! Teseu, meu querido Teseu! A boca dele, as mãos, o modo como atormentava o meu corpo até que este já não agüentava mais e suplicava que ele o saciasse... Até ao dia em que os meus mui respeitáveis irmãos, Castor e Pólux, resolveram aparecer e levar-me de Atenas. Ah, se ao menos ele estivesse em Atenas quando eles chegaram! Mas Teseu estava em Cirios, com o rei Licomedes, e por isso ninguém ousou opor-se aos filhos de Tíndaro. Deixei que as criadas traçassem uma linha de pó negro à volta dos meus olhos e pintassem de ouro as pestanas, mas recusei o carmim para as faces e os lábios. Não precisava de carmim nenhum—fora o que Teseu dissera. Depois, encaminhei-me para a Sala do Trono. O meu pai estava sentado numa espreguiçadeira junto à janela. Levantou-se imediatamente. — Vem para cá, que há mais luz—disse ele. Obedeci sem protestar; Tíndaro era o meu indulgente pai, mas também era o rei. Quando me viu banhada de sol, recuou uns passos e olhou-me como nunca havia olhado. — Não há dúvida—disse ele.—Os olhos de Teseu viram mais e melhor do que todos os olhos da Lacedemônia! A tua mãe tinha razão: já é uma mulher . Portanto, temos de fazer qualquer coisa antes que apareça outro Teseu. O meu rosto ardia, mas nada disse. — É tempo de se casar, Helena.—Refletiu por um momento.—Que idade tens?
— Catorze anos, pai.—Casamento! Mas que interessante! — Não é demasiado cedo—disse ele. A minha mãe entrou nesse momento. Evitei os olhos dela: era uma sensação muito estranha, estar ali diante do meu pai, enquanto ele me apreciava com os olhos de um homem, e não com os de pai. Mas a minha mãe ignorou-me. Foi para junto dele e também ela tratou de me apreciar . Depois, trocaram um olhar demorado, conclusivo. — Eu já te tinha dito, Tíndaro—disse ela. — Eu sei, Leda. Ela precisa de um marido. A minha mãe desatou a rir: um riso sonoro, musical, que (diziam os rumores) deixara o onipotente Zeus extasiado. Leda tinha mais ou menos a minha idade quando a encontraram nua e abraçada a um cisne, gemendo de prazer . A minha mãe arranjara rapidamente uma explicação para tão estranho caso. O cisne era Zeus! Zeus tinha-a desflorado! Mas eu, que era sua filha, não acreditava em tais histórias e imaginava o prazer que aquelas deliciosas penas brancas lhe teriam proporcionado. O pai dela casara-a com Tíndaro três dias depois e Leda dera à luz dois pares de gêmeos: Castor e Clitemenestra, primeiro, Pólux e eu, depois. Ainda que, agora, aparentemente, toda as pessoas achassem que Castor e Pólux é que eram gêmeos. Ou que tínhamos nascido todos do mesmo parto. Se assim fosse, quais seriam os filhos de Zeus e quais os de Tíndaro? Um mistério. — As mulheres da minha casa amadurecem cedo e sofrem muitíssimo— disse Leda, rindo ainda. O meu pai não riu. Limitou-se a dizer que sim, num tom bastante triste. — Não será difícil encontrar-lhe um marido. Serão tantos os pretendentes que terás de corrê-los com o teu bastão. — Ora essa! A nossa filha pertence a uma nobre estirpe e o seu dote é muito valioso: poucos ousarão pedir a sua mão. — Tolices, Tíndaro, tolices! Ela é tão bonita que nem precisa de dote. O rei supremo da Ática fez-nos um grande favor—espalhou louvores à sua beleza desde a Tessália a Creta. Não é todos os dias que um homem tão velho e gasto como Teseu faz uma loucura como raptar e deflorar uma moça de doze anos. Os lábios de meu pai franziram-se de raiva. — Preferia que esse assunto não fosse mencionado—disse ele, categórico. — Só é pena que seja mais bela do que Clitemenestra. — Clitemenestra está bem para Agamêmnon.
— Então é pena que não haja dois reis supremos de Micenas. — Há outros reis supremos na Grécia—disse ele, num tom mais prático e eficiente. Afastei-me sub-repticiamente da luz, pois não queria que reparassem que eu ainda ali estava e que me mandassem embora. O assunto—ou seja, eu própria era demasiado interessante. Gostava de ouvir as pessoas dizerem que eu era bela. Especialmente quando acrescentavam que era mais bela do que Clitemenestra, a minha irmã mais velha, que se casara com Agamêmnon, rei supremo de Micenas e rei supremo de toda a Grécia. Nunca gostara dela. Quando eu era pequena, ficava aterrorizada com os seus famosos acessos de cólera. Desatava a andar de um lado para o outro, o seu cabelo cor de fogo parecia eriçar-se de fúria, os seus olhos negros pareciam dardejar . Sorri um imenso sorriso só de pensar nela. O marido -rei supremo ou não—devia andar numa dança constante por causa das fúrias dela! No entanto... no entanto Agamêmnon parecia capaz de controlá-la. De fato, era tão prepotente como Clitemenestra. Os meus pais continuavam a debater o meu casamento. — O melhor será mandar mensageiros a todos os reis—disse o meu pai. — Sim—e quanto mais depressa, melhor . Embora a Nova Religião não veja com bons olhos a poligamia, há muitos reis que ainda não escolheram rainha. Idomeneu, por exemplo. Imagina só! Uma filha no trono de Micenas, e a outra no trono de Creta! Seria um verdadeiro triunfo! — Creta não é já a potência de outros tempos—objetou o meu pai.—As duas posições não são equivalentes. —Filoctetes? — Sim, é um homem brilhante, e esperam-no grandes feitos, segundo se diz. Contudo, Filoctetes é um dos reis da Tessália o que significa que deve vassalagem a Peleu, bem como a Agamêmnon. Estou mais inclinado para Diomedes, que acaba de regressar da campanha de Tebas, coberto de riquezas e glória. Gosto da idéia de a nossa filha ficar em Argos, um reino tão perto do nosso. Se Peleu fosse mais jovem, tê-lo-ia escolhido sem pensar duas vezes, mas, segundo consta, Peleu recusa voltar a casar-se. — Não vale a pena perdermos tempo com aqueles que não estão disponíveis—retorquiu a minha mãe.—Há sempre uma outra hipótese... Menelau.
— Eu não me esqueci dele. Quem poderia esquecer-se de Menelau? — Envia convites a todos, Tíndaro. Para além de reis, também há herdeiros. Ulisses, de Ítaca, é agora o rei, pois o velho Laertes está senil. E Menesteu é um rei supremo da Ática muito mais estável do que Teseu jamais foi—agradeçamos a todos os deuses o fato de não termos de lidar com Teseu! — Que quer dizer com isso, mãe?—perguntei eu, sentindo já um formigueiro percorrendo-me a pele. A minha esperança, a esperança que o meu coração acalentava, era que Teseu viesse buscar-me e desposar-me. Desde que voltara de Atenas que não ouvia falar de Teseu. A minha mãe pegou nas minhas mãos, apertou-as com firmeza. — Bom, Helena, é melhor que sejamos nós a dar-te a notícia. Teseu morreu. Foi morto no seu exílio em Ciros. Afastei-me dela e corri dali para fora. Os meus sonhos estavam reduzidos a cinzas. Morto? Teseu estava morto? Teseu estava morto e uma parte de mim morrera também. O meu cunhado Agamêmnon chegou duas luas mais tarde e trazia consigo o seu irmão Menelau. Eu estava presente quando entraram na Sala do Trono—uma novidade para mim, mas uma novidade que me deixava eufórica; de súbito, todas as discussões giravam em torno de mim. Mensageiros tinham-nos avisados da sua chegada; por isso, o rei supremo de Micenas e de toda a Grécia entrou no palácio ao som de trombetas e os seus imperiais pés pisaram, não as vulgares lajes, mas uma passadeira de ouro. Não conseguia decidir se gostava dele ou não; compreendia, no entanto, o temor que ele inspirava. Muito alto e direito e tão disciplinado como um soldado profissional, Agamêmnon caminhava como se fosse o dono do mundo. No seu cabelo preto, espreitavam já alguns salpicos grisalhos; os olhos negros, faiscantes, podiam tornar-se de súbito ameaçadores; o nariz era altivamente adunco; os lábios finos encrespavam-se nos cantos, numa constante expressão de desdém. Homens tão escuros eram invulgares na Grécia, uma terra de homens tão atléticos quanto brancos. Porém, em vez de ter vergonha da sua tez escura, Agamêmnon exibia-a cheio de vaidade. Ainda que a moda ditasse que os homens rapassem a
barba, o meu cunhado usava uma longa barba negra que havia sido transformada num sem-número de tranças apertadas e realçadas com fios de ouro; o cabelo, usava-o exatamente do mesmo modo. Envergava uma túnica de lã púrpura bordada com um complicado padrão de fio de ouro e, na mão direita, empunhava o cetro imperial de ouro maciço—e com tanta facilidade como se o cetro fosse feito de greda. O meu pai levantou-se do trono e ajoelhou para lhe beijar a mão, prestando-lhe a homenagem que todos os reis gregos deviam ao supremo rei de Micenas. A minha mãe avançou para se juntar a eles. Por ora, todos me ignoravam, o que me dava tempo para apreciar Menelau, um dos meus pretendentes. Oh, oh! A expectativa deu lugar a uma profunda decepção. Metera na cabeça que Menelau seria uma réplica de Agamêmnon, mas aquele homem nada tinha em comum com o irmão. Seria mesmo irmão germano do supremo rei de Micenas, filho de Atreu e da mesma mãe? Francamente: tal não parecia possível. Era pequeno. Atarracado. As pernas eram tão grossas e disformes que, enfiadas naqueles calções apertados que ele trazia, davam-lhe uns ares profundamente ridículos. Os ombros eram redondos e curvados. Uma criatura mansa e tímida. Traços vulgaríssimos. O cabelo era igual ao da minha irmã: cor de fogo. Até era capaz de gostar um bocadinho mais dele se o cabelo fosse de outra cor . O meu pai acenou-me. Avancei meio embaraçada e dei-lhe a minha mão. O visitante imperial fitou-me: um olhar escaldante, prenhe de admiração. Pela primeira vez, senti algo que viria a tornar-se muito comum: eu era muito simplesmente um animal valioso oferecido em leilão a quem pudesse pagar mais. — É perfeita—disse Agamêmnon ao meu pai.—Como é que consegue produzir filhos tão belos, Tíndaro? O meu pai riu-se, enquanto abraçava a minha mãe pela cintura. — Eu sou só responsável por metade—disse. Afastaram-se então e deixaram-me a conversar com Menelau, mas ainda pude ouvir a questão decisiva. — Digam-me: afinal o que é que se passou realmente com Teseu?— perguntou Agamêmnon. Leda adiantou-se ao marido: — Ele raptou-a, Agamêmnon. Felizmente, os Atenienses chegaram no momento certo: apanharam-no antes que ele conseguisse deflorá-la. Castor e Pólux trouxeram-na virgem.
Mentirosa, mentirosa! Menelau não tirava os olhos de mim; retoquei um pouco o meu aspecto. — Nunca tinha estado em Arniclas—disse-lhe por fim. Ele murmurou qualquer coisa e baixou a cabeça, muito triste.—Que disseste?—perguntei. — Na-na-na-nada—disse ele, e, desta feita, ouvi. Menelau ficara gago! Os pretendentes acorreram a Amiclas. Menelau era o único que podia residir no interior do nosso palácio, graças à sua relação com a nossa família —e à influência do irmão. Os outros ficaram nas casas dos nobres da corte e no palácio destinado aos convidados. Uma centena de pretendentes. A descoberta mais animadora que fiz foi que nenhum deles era tão maçador ou insípido como o gago e ruivo Menelau. Filoctetes e Idomeneu chegaram juntos; o corpulento e louro Filoctetes parecia a energia personificada, ao passo que o altivo Idomeneu se comportava com a arrogância consciente de quem nascera na Casa de Minos e que, depois de Catreu, seria o supremo rei de Creta. Quando Diomedes entrou, concluí estar perante o melhor de todos os meus pretendentes. Um verdadeiro rei e guerreiro. Tinha o mesmo ar de experiência mundana que encontrara em Teseu, ainda que fosse moreno, ao passo que Teseu era louro; de fato, Diomedes era tão escuro como Agamêmnon. Que belo que ele era! Alto e ágil, uma pantera negra. Os olhos dele cintilavam de um humor impudente, a boca parecia estar sempre rindo. E eu soube, nesse exato instante, que seria ele o meu eleito. Quando falou comigo, o seu olhar arrebatou-me; a faca do desejo cravou-se bem funda dentro de mim, o meu sexo ansiava por aquele homem. Sim, eu escolheria o rei de Argos—para mais, como dissera o meu pai, Argos ficava tão perto... Logo que chegou o último dos pretendentes, o meu pai ofereceu um monumental banquete. Sentei-me no estrado como se fosse já uma rainha, fazendo de conta que não reparava nos cem pares de ardentes olhos que constantemente me espreitavam. Quanto aos meus olhos, sempre que a ousadia me permitia, procuravam Diomedes. O qual, inopinadamente, deixou de olhar para mim, para atentar num homem que avançava por entre os bancos, um homem cuja chegada foi saudada por vivas de alguns e carrancas de outros. Diomedes levantou-se de um salto, o desconhecido virou-se e abraçaram-se calorosamente. Após um rápido diálogo, o desconhecido seguiu na direção do estrado a fim de saudar o meu pai e Agamêmnon, os quais se encontravam já de pé. Agamêmnon levantara-se?
O rei supremo de Micenas não se levantava nunca perante homem nenhum! Era diferente, o recém-chegado. Era um homem alto, mas seria consideravelmente mais alto se as suas pernas fossem proporcionais ao resto do corpo. Mas não eram. Eram anormalmente curtas e algo arqueadas; a sua constituição musculosa era demasiado imponente para estar empoleirada em cima de suportes tão atrofiados. O rosto era inegavelmente belo: os traços eram muito corretos e os olhos cinzentos eram grandes, luminosos, eloqüentes. O cabelo era ruivo, o ruivo mais brilhante e mais agressivo que jamais vira; as cabeleiras de Clitemenestra e Menelau não eram nada ao pé daquele fogo que lhe adornava a cabeça. Quando os seus olhos me fitaram, senti muito claramente todo o seu poder . Até estremeci. Quem era aquele homem? O meu pai acenou impaciente para um criado, que correu a colocar uma cadeira régia entre ele e Agamêmnon. Quem poderia ser aquele homem, para ser objeto de tantas honrarias? E para ficar tão pouco impressionado com essas honrarias? — Apresento-te Helena—disse o meu pai. — Não admira que quase toda a Grécia esteja aqui, Tíndaro—disse ele jovialmente, após o que pegou numa perna de galinha, cravando imediatamente na carne os seus dentes brancos.—Não há dúvida, os boatos eram verdadeiros—ela é de fato a mais bela mulher do mundo. Vai ter problemas com esta multidão de homens enfeitiçados, pois só poderá agradar a um e terá de desiludir todos os outros. Agamêmnon e o meu pai riram-se do comentário. — Ulisses: estava à espera de que resumisse brilhantemente o problema logo que chegasse—disse o rei supremo. Sentime uma parva, agora que a minha surpresa e admiração se tinham esfumado. Claro: só poderia ser Ulisses. Que outro homem se atreveria a falar com Agamêmnon como se este fosse um igual? Que outro homem poderia ter direito a uma cadeira especial no estrado régio? Muita coisa ouvira acerca de Ulisses. O seu nome vinha à baila sempre que se falava de leis, de decisões, de novos tributos, de guerra. O meu pai, em tempos, chegara mesmo a deslocar-se a Ítaca—uma viagem particularmente fatigante -só para consultá-lo. Era considerado o homem mais inteligente do mundo, mais inteligente ainda do que Nestor e
Palamedes. E não era só inteligente; também era sábio. Não admira que, na minha imaginação, Ulisses fosse um venerável ancião de barbas brancas, todo curvado sob o peso de um século de existência, tão velho como o rei Nestor de Pilos. Quando Agamêmnon tinha assuntos importantes a discutir mandava chamar Palamedes, Nestor e Ulisses, mas, normalmente, era Ulisses quem tinha a última palavra. Dizia-se tanta coisa sobre a Raposa de Ítaca, como lhe chamavam os homens. Dizia-se que o seu reino era formado por quatro pequenas ilhas rochosas e estéreis ao largo da costa ocidental, um pobre e desprezível domínio se comparado com a maior parte dos outros reinos. O palácio dele era modesto; o próprio Ulisses era agricultor, já que os seus nobres não podiam pagar-lhe os tributos adequados à posição de um rei; no entanto, o seu nome tornara famosas as quatro pequenas ilhas—Ítaca, Leucádia, Zaquinto e Cefalónia. Por essa altura, Ulisses não teria muito mais do que vinte e cinco anos—e, quem sabe, talvez fosse até mais novo, pois a sabedoria sempre envelhece o rosto de um homem. Continuaram a conversar, esquecidos talvez de que eu estava à esquerda do meu pai e poderia ouvir tudo o que eles diziam, fingindo que não estava escutando. Como do outro lado tinha Menelau, não havia conversas susceptíveis de me distraírem. — Tenciona pedir a mão de Helena, meu astuto amigo? Ulisses pôs um ar malicioso. —Você me conheces, Tíndaro. — Claro que conheço, mas... porquê? Não estava à espera que tentasse conquistar uma beldade estonteante, mas a verdade é que Helena tem um belíssimo dote. Ulisses fitou o meu pai com uma expressão algo decepcionada. — A minha curiosidade, Tíndaro—não se esqueça de que sou muito curioso! Acha que eu perderia um espetáculo destes? Agamêmnon sorriu, mas o meu pai riu bem alto. — Espetáculo é mesmo a palavra certa! Mas que hei de fazer, Ulisses? Olha só para eles! Cento e um reis e príncipes rosnando todos uns para os outros e perguntando-se quem será o felizardo—e decididos a contestar a escolha, por muito lógica ou política que esta seja. Agamêmnon resolveu finalmente falar . — Isto transformou-se numa espécie de concurso. Quem será o preferido do supremo rei de Micenas e do seu sogro Tíndaro da Lacedemônia? Eles
sabem que Tíndaro seguirá os meus conselhos! Creio que esta situação só poderá produzir uma coisa—uma inimizade duradoura. — Sem dúvida. Reparem em Filoctetes: o modo como ele ergue o seu arrogante pescoço, o desprezo com que olha para os outros. Isto para não falar de Diomedes e Idomeneu. Ou de Menesteu. Ou de Euripilo. E assim por diante. — Que havemos de fazer?—perguntou o rei supremo. — Esse é um pedido formal de conselho, Agamêmnon? — Muito formal, Ulisses. Furiosa, dei-me conta de quão insignificante era o meu papel em todo aquele teatro. De súbito, apetecia-me chorar . Quem escolhia? Eu? Nem pensar! Eles—Agamêmnon e o meu pai—escolheriam por mim. Ainda que, apercebia-me disso agora, fosse nas mãos de Ulisses que estava o meu destino. E Ulisses, gostaria de mim? Nesse exato momento, Ulisses piscou-me o olho. Sentime desolada. Não, ele não gostava de mim. Não havia sombra de desejo naqueles belos olhos cinzentos. Ulisses não viera disputar a minha mão; viera porque sabia que precisavam dos seus conselhos. Viera unicamente para consolidar ainda mais o seu prestígio. — Como sempre, terei muito gosto em ajudá-los—disse ele num tom insinuante, fitando agora o meu pai.—No entanto, Tíndaro, antes de abordarmos o problema do casamento de Helena, um casamento que deverá ser politicamente adequado, tenho um pequeno favor a pedir . Agamêmnon pareceu ofendido; perplexa, perguntei-me que subtil negócio iria sair dali. — Quer Helena para ti?—perguntou o meu pai. Que maneira mais grosseira de pôr as coisas!, disse para mim mesma. Ulisses desatou numa tal risada que, por um momento, todo o salão se calou. — Não, não! Não me atreveria a disputar a mão de Helena, pois a minha fortuna é desprezível e o meu reino vive numa eterna penúria! Pobre Helena! Imagina só: uma mulher tão bela confinada a uma rocha, no meio do mar Jónio! Não, eu não quero desposar Helena. É outra que eu quero. — Ah!—disse Agamêmnon, mais tranqüilo.—Quem é a felizarda? Ulisses preferiu dar a resposta ao meu pai. — A filha do teu irmão Icário, Tíndaro. Penélope. — Não será difícil—disse o meu pai, surpreendido. — Icário detesta-me e é natural que haja pretendentes muito melhores
que eu. — Eu tratarei disso—disse o meu pai. — Está descansado que Penélope será tua—disse Agamêmnon. Fiquei estupefata! Era possível que eles entendessem o que Ulisses via em Penélope, mas eu não entendia. Conhecia-a bem; era minha prima direita. Para além de ser uma herdeira rica, não era feia; no entanto, era cá uma maçadora! Certa vez, surpreendera-me com um nobre da minha casa, a quem eu deixara que me beijasse os seios—claro que não o deixaria fazer mais do que isso!—,e pregara-me uma tal homilia! Que os desejos da carne eram baixos e degradantes, disseme ela com aquela voz que ela tem, fria, comedida, sem sombra de emoção. E que deveria interessar-me pelas artes verdadeiramente femininas, como a tecelagem. Fiquei pasmada a olhar para Penélope, como se ela estivesse louca. A tecelagem! Ulisses começara a falar; abandonei os meus pensamentos sobre a prima Penélope e pus-me à escuta. — Julgo saber a quem tenciona conceder a mão da tua filha, Tíndaro, e compreendo as tuas razões. Contudo, o fato de escolher este ou aquele pretendente é irrelevante. O que é relevante é que salvaguarde os teus próprios interesses, bem como os de Agamêmnon—e o teu relacionamento com os cem infelizes, depois de ter anunciado a tua escolha. Creio que conseguiremos salvaguardar tudo isso— mas é preciso que façam exatamente aquilo que vou lhes dizer . Agamêmnon respondeu: —Faremos. — Nesse caso, o primeiro passo a dar consistirá em devolver todas as prendas que os pretendentes ofereceram e em agradecer as suas generosas intenções do modo mais elegante possível. É essencial que nenhum destes homens te considere um ganancioso, Tíndaro. O meu pai olhava-o com um ar pesaroso. — É mesmo necessário? — Não é necessário, Tíndaro: é imperioso. — As prendas serão devolvidas—disse Agamêmnon. — Ótimo.—Ulisses inclinou-se um pouco para frente, os dois reis fizeram o mesmo.—Anunciará a tua escolha de noite, na Sala do Trono. É preciso que o palácio esteja mal iluminado—esperemos que a Lua colabore—e que haja na atmosfera uma forte presença sagrada. Ordena a todos os sacerdotes que venham. Manda queimar grandes quantidades de incenso. O meu objetivo é oprimir os espíritos dos pretendentes e isso só pode ser alcançado
através de cerimônias rituais. Não pode correr o risco de provocar reações intempestivas da parte de guerreiros consideravelmente inflamados. — Como quiser—disse o meu pai com um suspiro; Tíndaro detestava minúcias. — Isto, Tíndaro, é só o princípio. No teu discurso, informarás os pretendentes de que idolatras a valiosa jóia que é a tua filha e que passaste horas sem fim rezando aos deuses para que te guiassem na difícil escolha. A tua escolha – lhes dirá então—foi aprovada no Olimpo. Os augúrios são auspiciosos e os oráculos claros. Porém, o onipotente Zeus impôs uma condição, a saber: antes que qualquer homem—exceto tu mesmo—saiba o nome do feliz vencedor, todos os homens terão de pronunciar um juramento a fim de apoiarem a tua escolha. Mas há mais. Todos os homens deverão também jurar que darão ao marido de Helena todo o apoio e cooperação de que este precisar . E que, se for preciso, todos eles irão para a guerra, a fim de defenderem os direitos e prerrogativas do marido de Helena. Agamêmnon ficou calado, o olhar perdido no espaço, mordendo os seus lábios e ardendo visivelmente de um qualquer fogo interior . O meu pai parecia simplesmente espantado. Ulisses recostou-se na cadeira, debicando mais uma perna de galinha, obviamente satisfeito consigo mesmo. De súbito, Agamêmnon virou-se para ele e agarrou-o pelos ombros, as juntas dos dedos pálidas devido à violenta pressão das mãos, o rosto pressagiando ameaças. Ulisses, porém, sem qualquer receio, olhou para ele tranqüilamente. — Pela Mãe Kubaba, Ulisses, tu és um gênio!—O rei supremo virou-se depois para o meu pai.—Tíndaro, sabe o que significa isto? Quem casar com Helena, disporá de alianças permanentes e irrevogáveis com quase todas as nações da Grécia! O futuro desse homem estará garantido! A sua posição será reforçada um milhar de vezes! O meu pai, embora profundamente aliviado, franziu o sobrolho. — Mas que juramento lhes hei de eu impor?—perguntou.—Que juramento será capaz de os obrigar a algo que abominam? — Só há um juramento capaz disso—disse Agamêmnon lentamente.—O Juramento do Cavalo Esquartejado. Por Zeus, o Senhor dos Trovões, por Poseidon, o Senhor dos Terremotos, pelas filhas de Kore, pelo rio e pelos mortos. As palavras caíam como gotas de sangue da cabeça de Medusa; o meu pai estremeceu, escondeu o rosto entre as mãos. Nada impressionado,
Ulisses mudou abruptamente de assunto. — Que acontecerá no Helesponto?—perguntou ele a Agamêmnon como se estivesse a ter a mais normal das conversas. O supremo rei franziu o sobrolho. — Não sei. Oh, mas afinal o que é que se passa com o rei Príamo de Tróia? Porquê a sua cegueira perante as vantagens que obteria se deixasse os mercadores gregos entrarem no mar Euxino? — Creio—disse Ulisses, escolhendo um bolo de mel para sobremesa—que Príamo tem muito a ganhar ao excluir os mercadores gregos. Ele já está rico com os tributos do Helesponto. Além disso, firmou tratados com os outros reis da Ásia Menor e estou certo de que fica com uma parte dos exorbitantes preços que nós temos de pagar pelo estanho e pelo cobre da Ásia Menor . A exclusão dos Gregos do Euxino significa mais dinheiro para Tróia, não menos. — Télamon fez-nos muito mal quando raptou Hesíona!—disse o meu pai, furioso. Agamêmnon abanou a cabeça. — Télamon fez o que estava certo. Tudo o que Héracles pediu foi que lhe pagassem o grande serviço que prestou a Tróia. Quando Laomedonte, aquele miserável sovina, se recusou a pagar-lhe, até mesmo um idiota saberia prever o desfecho. — Héracles morreu há mais de vinte anos—disse Ulisses, deitando água no seu vinho.—Teseu também está morto. Só Télamon vive ainda. Télamon nunca aceitaria que o separassem de Hesíona, mesmo que Hesíona o desejasse. Essas histórias de rapto e violação já não convencem ninguém— prosseguiu Ulisses calmamente. Pelos vistos, nunca ouvira falar da história de Helena e Teseu.—Além disso, pouco têm a ver com política. A Grécia está a crescer . A Ásia Menor sabe disso. Portanto, que melhor política poderiam seguir Tróia e as outras nações da Ásia Menor senão recusar à Grécia aquilo que a Grécia tem de ter—o estanho e o cobre com que se faz o bronze? — Sem dúvida—disse Agamêmnon, afagando as tranças da barba.— Nesse caso... o que acontecerá se o embargo comercial de Tróia se mantiver? — A guerra—retorquiu tranqüilamente Ulisses. Mais tarde ou mais cedo, terá de haver uma guerra. Quando a situação se tornar insustentável—quando os nossos mercadores desatarem a exigir justiça em todas as Salas do Trono entre Cnossos e lolcos—quando já não tivermos estanho suficiente para
transformarmos o nosso cobre em bronze e para produzirmos espadas e escudos e pontas de flechas—então haverá guerra. A conversa ficou ainda mais maçadora do que já estava; bom, também é verdade que eu deixara de ser o tema central. Além disso, já não podia mais com aquele Menelau ao meu lado. O vinho começava a perturbar a reunião: era cada vez menor a quantidade de rostos que se viravam para me adorar . Levantei-me e escapei por uma porta que havia por detrás da cadeira do meu pai. Meti então pela passagem que seguia paralela ao salão: infelizmente, trazia aquela barulhenta saia e cada passo meu produzia uma música insuportável. A escadaria que dava acesso à ala das mulheres ficava no final dessa passagem; subi as escadas correndo sem que ninguém desse por mim e me ordenasse que regressasse ao salão. Agora, teria apenas de passar pelos aposentos da minha mãe. De cabeça baixa, afastei a cortina. De repente, senti os meus braços dominados por vigorosas mãos. O meu grito de alarme foi imediatamente sufocado por uma dessas mãos. Diomedes! Com o coração batendo desvairadamente, fitei-o. Até então, não tivera oportunidade de estar a sós com Diomedes, e a conversa que mantivera com ele resumira-se a umas quantas saudações formais. A luz da lamparina cintilava na sua pele e dava-lhe um brilho de âmbar; na coluna da sua garganta, uma corda batia veloz; permiti que os meus olhos beijassem os seus olhos escuros transbordantes de desejo e senti a mão dele afastando-se da minha boca. Que belo que era aquele homem! E eu amava tanto a beleza! Mas a beleza que eu mais amava era sem dúvida a dos homens. — Vem ter comigo ao quintal—segredou-me. Abanei energicamente a cabeça. — Deve estar louco! Largue-me que eu não contarei a ninguém que estava à entrada dos aposentos da minha mãe! Largue-me! O branco dos seus dentes cintilou: ria silenciosamente. — Não saio daqui enquanto não me prometer que vai ter comigo ao quintal. O banquete ainda está para durar—ninguém dará pela nossa falta. Eu te desejo, moça! As suas decisões, os seus subterfúgios, não me demoverão. Te quero para mim e vai ser minha! Tinha ainda a cabeça tonta da excitação do banquete; levei a mão à cabeça e esta, como se tivesse ganho vida própria, acenou que sim! Diomedes largou-me imediatamente e eu corri para os meus aposentos. Neste estava à minha espera para me despir .
— Vai para a cama, velha! Eu dispo-me sozinha! Habituada como estava ao meu mau gênio, Neste recolheu de bom grado ao seu quarto, deixandome a desapertar os inúmeros laços com os mais trêmulos dos dedos, a tirar o corpete e a blusa, a libertar-me da saia. Arranquei sinos, braceletes e anéis e, por fim, peguei o meu roupão de banho e vesti-o. Depois, corri pelo corredor, desci depressa as escadas das traseiras e respirei fundo o ar fresco da noite. O quintal, dissera ele: com um sorriso, enxerguei na escuridão as couves e os outros legumes. Ninguém se lembraria de nos procurar no meio dos legumes! Diomedes estava nu sob um loureiro. Despi o roupão, longe dele o suficiente para que pudesse apreciar-me sob a chuva do luar . Um momento depois, ele estava ao meu lado, colocando o roupão no chão para que servisse de leito; por fim, abraçou-me e deitou-me sobre a Mãe Terra, aquela Mãe que, conforme as leis dos deuses, fortalece as mulheres e enfraquece os homens. — Só dedos e línguas, Diomedes—murmurei.—Quero ir para o casamento com o hímen intacto. Diomedes sufocou o seu riso entre os meus seios. — Foi Teseu quem te ensinou a preservar a virgindade?—perguntou-me. —Eu não preciso que me ensinem isso—retorqui, afagando os braços e os ombros dele, suspirando. — Não sou muito velha, mas sei que a minha cabeça é o preço que terei de pagar, se perder a virgindade com outro homem que não o meu marido. Creio que, quando nos separamos, Diomedes partiu satisfeito, ainda que as suas expectativas não tivessem sido totalmente cumpridas. Porque nutria por mim verdadeiro amor, respeitara as minhas condições—tal e qual como Teseu. Não que eu tivesse ficado muito preocupada com a satisfação ou a insatisfação de Diomedes. O que contava realmente é que eu tinha ficado satisfeita. Satisfação bem visível na noite seguinte, quando me sentei ao lado do trono do meu pai, caso tivesse havido olhos para a ver . Diomedes estava com Filoctetes e Ulisses no meio da multidão—demasiado longe de mim para que eu pudesse perceber o que o seu rosto dizia. Para mais, a Sala do Trono, embelezada por frescos representando guerreiros dançando e por colunas escarlates, havia mergulhado numa imensa escuridão. Os sacerdotes surgiram então, trazendo consigo uma densa e enjoativa fumarada de incenso; silenciado todo o eventual alvoroço, a Sala do Trono ganhou a
atmosfera solene, opressiva, de um verdadeiro templo. Ouvi o meu pai dizer as palavras que Ulisses preparara; a opressão apoderou-se da sala como se fosse uma coisa viva. Trouxeram então o cavalo sacrificial, um belíssimo garanhão de uma alvura absoluta e com uns olhos cor-de-rosa, os cascos escorregando nas velhas lajes, a cabeça serpeando no cabresto dourado. Agamêmnon pegou no enorme machado de cabeça dupla e brandiu-o com mãos experientes. O cavalo caiu por terra, mas muito lentamente, a crina e a cauda flutuando como algas ao sabor da corrente, enquanto o sangue jorrava abundante. Enquanto o meu pai informava a audiência do juramento exigido, segui com horror os movimentos dos sacerdotes, que dividiam em quatro partes o cadáver do belíssimo animal. Não esquecerei nunca essa cena: os pretendentes avançando um a um, equilibrando os seus dois pés sobre quatro peças de carne quente, pronunciando o terrível juramento de lealdade e obediência ao meu futuro marido. As vozes soavam débeis e apagadas, pois o poder e a masculinidade não resistiam ao pavor que a cerimônia infundia nas mentes daqueles homens. Rostos pálidos e suados surgiam para logo se esfumarem, ao sabor da luz dos archotes; um vento vindo não sei de onde soprava incessante, gritando como uma sombra perdida. A cerimônia chegou ao fim. A carcaça fumegante do cavalo jazia ignorada, os pretendentes erguiam os seus olhos, como que drogados, para o rei Tíndaro da Lacedemônia. — Dei a mão da minha filha a Menelau—anunciou o meu pai. Ouvi um enorme suspiro, nada mais. Ninguém gritou um rápido protesto. Nem sequer Diomedes se ergueu furioso da sua cadeira. Os meus olhos encontraram-se com os dele quando os criados começaram a acender as lamparinas; os nossos olhos despediram-se, com meia centena de cabeças de permeio, sabendo que tínhamos sido derrotados. Creio que as lágrimas me corriam pelas faces enquanto o fitava, mas ninguém reparou nas minhas lágrimas. Por fim, a minha mão flácida deixou que a mão úmida de Menelau pegasse nela.

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