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sexta-feira, 21 de abril de 2017

SD 506 : A CANÇÃO DE TRÓIA

Capítulo Décimo Primeiro  

Narrado Por Aquiles

Todos os dias, com chuva e com frio, exercitava os meus soldados, aquecendo-os com trabalho duro. Outros chefes permitiriam que os seus homens vadiassem, mas os Mirmidões sabiam que eu não era desses. Adoravam as condições em que viviam, gostavam da disciplina rígida e sentiam-se superiores aos demais soldados, pois sabiam que eram mais profissionais do que todos os outros. Não me dava sequer ao trabalho de comparecer no quartel-general imperial. Francamente, achava que não valia a pena. E quando surgiu a segunda lua, não mais do que um pavio aceso no céu, todos nós começamos a pensar que a expedição a Tróia não se concretizaria. Para dizer a verdade, contávamos já que, mais dia menos dia, surgisse a ordem de desmobilização. Na primeira noite de lua cheia, Pátrocles saiu com Ájax, Teucro e o Pequeno Ájax. Eu também fora convidado, mas preferi declinar do convite, pois não estava com disposição para frivolidades, quando tudo apontava para o ignominioso fim da grandiosa empresa. Por um momento, toquei melodias na minha lira e cantei; depois, deixei-me arrastar para uma espécie de inércia sonolenta. O ruído produzido por alguém que entrara na minha tenda me fez erguer a cabeça. De súbito, vi uma mulher abrindo a porta da tenda, uma mulher que envergava um manto úmido, fumegante. Fiquei perplexo olhando para aquela visão, mal crendo no que os meus olhos viam. Então, a mulher avançou, afastou a cortina da entrada, baixou o capuz do manto e abanou a cabeça para libertar a longa cabeleira de umas quantas gotas de chuva. — Aquiles!—exclamou ela, os olhos brilhando como âmbar acastanhado. — Eu a vi em Micenas quando espreitei pela porta atrás do trono do meu pai! Oh, estou tão feliz! Nesse momento, eu me tinha levantado; porém, continuava boquiaberto de espanto. A jovem não tinha mais de quinze ou dezesseis anos: cheguei a essa conclusão ainda antes dela ter despido o manto e de me ter mostrado uma pele que fazia lembrar um mármore leitoso tenuemente percorrido por veios e dois nédios seios. A boca era de um suave rosa e meigamente encurvada, o
cabelo era da cor do fogo mais brilhante. Tão viva era ela que o ar à sua volta parecia quebrar-se; havia um fresco riso no seu rosto e uma força oculta sob a sua extrema juventude. — A minha mãe nem precisou de me convencer—prosseguiu ela, já que eu nada dizia.—Não consegui esperar até amanhã para te dizer quanto me sinto feliz! Era contigo que Ifigênia queria casar-se! Senti um estranho sobressalto. Ifigênia? A única Ifigênia que eu conhecia era a filha de Agamêmnon e Clitemenestra! Mas que estranha conversa era aquela? Por quem ela me teria tomado? Continuei de olhos fixos nela como um idiota chapado, sem dizer nada, como se me tivesse esquecido de todas as palavras do mundo. O meu silêncio e o puro espanto do meu rosto acabaram por transformar a expressão da jovem: um prazer ardente dava agora lugar a uma ansiedade cheia de incertezas. — Que fazes tu em Áulida?—consegui finalmente dizer . Nesse preciso instante, Pátrocles entrou, viu-nos e parou. — Uma visita, Aquiles?—Piscou-me o olho.—Eu vou embora. Atravessei rapidamente o espaço que nos separava e segurei-o pelo braço. — Pátrocles, a moça diz que é Ifigênia!—murmurei.—Deve ser a filha de Agamêmnon! E, pelo que diz, pensa que eu mandei um mensageiro a Micenas e que a pedi em casamento! — Por todos os deuses!—exclamou Pátrocles, agora muito pouco divertido.—Será uma conspiração para te desacreditarem? Um teste à tua lealdade? — Não sei. — E se a levássemos à tenda do pai? Mais calmo agora, ponderei essa hipótese. — Não. É óbvio que ela escapuliu da sua tenda. Ninguém sabe que ela está aqui. Vamos fazer o seguinte: eu a detenho na minha tenda, enquanto tu espias a tenda de Agamêmnon, procurando saber o que se passa. Tens de ser quase tão rápido como o relâmpago. Pátrocles desapareceu nesse mesmo instante. — Sente-se, Ifigênia—disse eu para a visitante, e logo me deixei cair numa cadeira.—Posso te oferecer água? Bolos? Não me respondeu. Um momento depois, já estava sentada no meu colo, os braços enroscados no meu pescoço, a cabeça encostada ao meu ombro.
Inclinei-me um pouco com a intenção de levantá-la, mas os meus olhos detiveram-se nos tumultuosos caracóis da sua cabeleira e logo mudei de idéia. Era uma criança—e estava apaixonada por mim. Aos olhos dela, eu era velho: uma sensação nova para mim. Há cerca de meio ano que não via Deidamia e aquela moça despertava em mim emoções muito diferentes. A minha preguiçosa e convencida esposa tinha mais sete anos do que eu—fora ela quem me cortejara, não eu. Para um rapaz de treze anos, que acabava de despertar para as funções sexuais do seu corpo, ser iniciado por uma mulher mais velha era maravilhoso. Agora, dava comigo muitas vezes a perguntarme o que sentiria por Deidamia quando regressasse de Tróia, pois deixaria de ser um rapaz para passar a ser um homem endurecido pela guerra. Ah, era tão agradável ter Ifigênia nos meus braços, sentir não os perfumes que as mulheres mais velhas usavam, mas sim o doce e natural odor da juventude! Sorridente e satisfeita, ergueu a cabeça para me fitar; depois, voltou a pousá-la no meu ombro. Senti os seus lábios acariciando-me a garganta; os seios, colados ao meu peito, queimavam como brasas. Pátrocles, Pátrocles, seja rápido! Depois, disseme palavras que não consegui ouvir; afaguei-lhe a densa cabeleira cor de fogo e ergui-lhe a cabeça para que pudesse ver o seu rosto encantador . — Que disse?—perguntei. Ela corou. — Só perguntei se não ia me beijar . Fiquei aflito. — Não. Olhe para a minha boca, Ifigênia. A minha boca não foi feita para beijar . Só pode beijar quem tem lábios. — Então, deixa-me beijar-te todo. Deveria tê-la afastado de mim nesse exato momento, mas não consegui. Em vez disso, deixei que os seus lábios, tão suaves como as penas de um cisne, vagueassem pelo meu rosto, roçassem as minhas pálpebras fechadas, se aninhassem no meu pescoço, onde os nervos têm sobre o coração de um homem uma ação mágica, pois põem-no a martelar desordenadamente. Ansiando estreitá-la contra mim até que ela pedisse trégua para respirar, tive de lutar contra mim mesmo para lhe ordenar que parasse e para a olhar nos olhos com o ar mais sério deste mundo. — Já chega, Ifigênia. Fique quieta agora.—E mantive-a quieta até que, finalmente, Pátrocles chegou. O meu amigo permaneceu à porta. Os seus olhos escarninhos interrogavam-me. Afastei dela os meus braços e os ergui no ar, dividido
entre o riso e a irritação. Não era costume de Pátrocles troçar de mim. Com suaves afagos, a fiz sair do meu colo e sentei-a na cadeira. No rosto de Pátrocles, não havia já sinal de troça; pelo contrário, havia sombras e muita fúria no seu rosto. Quando me aproximei dele, disseme que só falaria quando tivesse certeza de que ela não conseguiria ouvir . — Combinaram uma bela conspiração, Aquiles. — Era o que eu pensava. Que conspiração? — Tive sorte, Aquiles. Agamêmnon e Calcas estavam sozinhos na tenda do rei supremo. Consegui me esconder e ouvir quase tudo o que diziam.— Respirou fundo. Tremia.—Aquiles, eles usaram o teu nome para convencerem Clitemenestra a deixar partir a filha! Disseram-lhe que tu querias casar com Ifigênia antes de partirmos para Tróia. Mas a realidade é bem diferente: amanhã, Ifigênia vai ser sacrificada a Ártemis, a fim de expiar um delito qualquer—não sei qual—que Agamêmnon cometeu contra a deusa. A raiva é algo que todos os homens sentem, embora alguns mais do que outros. Não me imaginava presa fácil dessa emoção, mas a verdade é que, logo que Pátrocles terminou, sentime invadido por uma raiva tão grande que, de um momento para o outro, esqueci tudo o que me haviam ensinado sobre bom senso, ética, princípios ou decência. Os deuses no Olimpo deviam ter tremido. A minha boca pareceu desligar-se dos meus dentes e todo o meu corpo se agitava como se o sortilégio tivesse voltado a atormentar-me. Estou certo de que, se Pátrocles não me tivesse agarrado com uma força que lhe desconhecia, teria corrido naquele mesmo instante à tenda de Agamêmnon e cortado ao meio o rei supremo e o sacerdote com o meu machado!      - Aquiles, pense!—disseme ele muito baixinho.—Pense! Acredita que ganhará algo se os matar? O sangue deles é preciso para que a frota parta! Pelo que pude ouvir, pareceu-me evidente que o nosso rei supremo só tomou esta decisão depois de ter sido muito atormentado e intimidado! Cerrei com tanta força os punhos que consegui libertar-me dele. — Está à espera de que eu me limite a assistir a tudo e a aplaudir? Eles usaram o meu nome para perpetuarem um crime que é proibido pela Nova Religião! Um crime bárbaro! Um crime que suja o próprio ar que respiramos! E, além disso, usaram o meu nome!—Abanei-o tanto que os seus dentes começaram a bater uns nos outros.—Repara na pobre moça, Pátrocles! Será capaz de ficar parado e de assistir ao seu sacrifício como se ela fosse um
cordeiro? — Não, tu não me entendeste, Aquiles!—disse ele, aflito.—O que eu queria dizer era que deveríamos examinar o caso com a cabeça fria, e não com a fúria que sempre cega os homens! Aquiles, pense! Pense! Tentei pensar . Lutei contra mim mesmo para pensar . O demônio da loucura fervia dentro de mim com tal violência que, para dominá-lo, quase me matava. Até que, por entre a confusão, a lógica, com passos titubeantes, regressou ao meu espírito. Tínhamos de enganá-los! Haveria por certo uma maneira de os enganar! As minhas mãos envolveram as mãos de Pátrocles. — Pátrocles: seria capaz de fazer qualquer coisa que eu te pedisse? — Qualquer coisa, Aquiles. Tudo. — Então, procura Automedonte e Alquimos. Podemos confiar sempre neles, seja qual for a empresa: eles são Mirmidões. Diz a Alquimos que tem de encontrar um veado ainda novo e de pintar os seus chifres de ouro. Terá de ter o animal amanhã de manhã, bem cedo! Pode confiar inteiramente em Automedonte. Você e ele devem esconder-se atrás do altar antes de o sacrifício começar . Terá o veado contigo, preso a uma corrente de ouro. Calcas costuma usar muita fumaça nos seus rituais. Quando Ifigênia estiver no altar e as nuvens de fumaça se tornarem muito espessas—o sacerdote só lhe cortará a garganta se a fumaça impedir Agamêmnon de ver—retire a moça do altar e deixe o veado no seu lugar . Calcas, como é evidente, perceberá que alguém o enganou. Mas Calcas gosta viver . Não dirá que houve ali mão humana: dirá apenas que se trata de um milagre! — Sim, pode dar certo... Mas diga-me: depois de a termos tirado do altar, o que é que fazemos?—Há um pequeno esconderijo atrás do altar: o local onde costumam guardar a vítima. Esconde-a ali até todos partirem. Depois, tragá-a para a minha tenda. A mandarei para a mãe, com uma mensagem explicando tudo o que se passou. Consegue fazer o que te peço? — Sim, Aquiles. E tu? Que vais tu fazer? — Há muito que não assisto aos augúrios de Calcas, mas, amanhã, chegarei a tempo para assistir à cerimônia. Por ora, a mandarei de volta para a sua tenda. Não sei como é que ela veio aqui sem ninguém perceber, mas é absolutamente necessário que ela regresse à sua tenda sem que ninguém a veja. Eu próprio a levarei. — Talvez a tivessem deixado vir—disse Pátrocles. — Não. Nunca permitiriam que ela passasse comigo tempo suficiente
para perder a virgindade. Ártemis gosta de virgens. Pátrocles franziu o sobrolho. — Aquiles, não seria melhor se a mandássemos de volta para a mãe imediatamente? — Não posso, Pátrocles. Isso implicaria uma confrontação aberta com Agamêmnon. Se tudo correr bem amanhã no sacrifício, teremos partido para Tróia antes de Clitemenestra estar a par de tudo. — Acredita então que a morte de Ifigênia é necessária para que o tempo melhore?—perguntou ele num tom muito peculiar . — Não. Creio que o tempo melhorará por si mesmo dentro de um ou dois dias. Pátrocles, eu não me atrevo a correr o risco de uma confrontação aberta com Agamêmnon. Será possível que não entende? Eu quero estar presente em Tróia! — Sim, eu entendo.—Encolheu os ombros.—Bom, tenho de ir . O pobre Alquimos morrerá de susto quando eu lhe disser que tem de encontrar um veado novo! Ficarei com Automedonte o resto da noite. Se não receber nenhuma mensagem dizendo que o plano correu mal, pode estar certo de que amanhã, ao meio-dia em ponto, estaremos atrás do altar! — Ótimo. Furtivamente, Pátrocles saiu para a noite chuvosa. Ifigênia tinha estado a ver-nos, os olhos muito abertos. — Quem era?—perguntou ela, curiosa. — O meu primo Pátrocles. Há problemas com os homens. — Ah.—Pensou um pouco e disse:—É muito parecido contigo. Mas os olhos dele são azuis. E é mais pequeno. — E tem lábios. Ela riu. — Isso torna-o um homem igual aos outros. Eu gosto da tua boca tal e qual como ela é, Aquiles. Peguei nela, obrigando-a a levantar-se. — Agora precisa ir para a sua tenda, antes que alguém descubra a tua escapadela. — Ainda não—disse ela, com um ar sedutor, afagando-me o braço.      - Imediatamente, Ifigênia. — Nós nos casamos amanhã. Porque é que não me deixa passar contigo a noite? — Porque você é filha do supremo rei de Micenas e a filha do supremo rei de Micenas tem de se casar virgem. A sacerdotisa confirmará essa
virgindade antes do casamento. E depois, eu terei de mostrar os lençóis do tálamo nupcial para provar que sou teu marido em todos os aspectos—disse eu firmemente. Ela fez beicinho. — Mas eu não quero ir! — Se quiser ou não, terá de ir, Ifigênia.—Envolvi-lhe o rosto nas minhas mãos.—Antes de levá-la para a tenda, quero que me prometa uma coisa. — A ti prometo tudo—disse ela, sorridente, animada. - Não conte ao teu pai, nem a qualquer outra pessoa, que veio ver-me. Se contar, desconfiarão da tua virgindade.  Ela sorriu. — Só mais uma noite, então! Acho que consigo suportar . Leve-me para a minha tenda, Aquiles. Pátrocles não me mandou nenhuma mensagem dizendo que havia problemas. Muito antes do meio-dia, vesti a minha armadura, aquela que o meu pai me dera e que provinha do tesouro de Minos, e encaminhei-me para o altar sob o plátano. Tudo parecia correr bem; suspirei de alívio. Pátrocles e Automedonte já deviam estar a postos. Oh, as expressões dos reis quando me viram! Ulisses deu imediatamente o braço a Agamêmnon, Nestor encolheu-se entre Diomedes e Menelau, ao passo que Idomeneu parecia atemorizado e constrangido. Era óbvio: todos eles estavam envolvidos naquilo. Saudei-os muito informalmente e perambulei um pouco pelo recinto, como se estivesse ali por mero acaso. Atrás de nós, ouviu-se o som de passos na erva encharcada; Ulisses encolheu os ombros, percebendo que já não havia tempo para me convencerem a partir . Não que eu adivinhasse os seus pensamentos. Em Ulisses, a própria simpatia e normalidade eram resultado da sua sutileza. O homem mais perigoso do mundo. Ruivo e canhoto: claros indícios do mal. Como que movido por uma vaga curiosidade, virei-me para ver Ifigênia aproximando-se lenta e orgulhosamente do altar, o queixo bem erguido; porém, uma tremura ocasional dos lábios traía o profundo terror que lhe ia na alma. Quando me viu, recuou como se eu tivesse feito menção de lhe bater; fitei as janelas dos seus olhos e vi perderem as suas ultimas esperanças. O choque transformou-se em ira, uma emoção amarga e corrosiva que nada tinha a ver com o tipo de raiva que eu sentira quando Pátrocles me revelara a conspiração. Ela me odiava, ela me abominava, ela me fitava tal e qual a minha mãe. Enquanto os meus olhos imperturbáveis se
viravam para o altar, ansiando pelo momento em que pudesse explicar-lhe tudo. Diomedes juntara-se a Ulisses. De fato, ajudavam Agamêmnon a manter-se de pé, os braços sob as axilas dele. As feições do rei supremo eram um límpido espelho do horror que sentia, o seu rosto ganhara uma lividez cadavérica. Calcas empurrou Ifigênia, espetando-lhe um dedo nas costas. A filha de Agamêmnon não vinha acorrentada. Podia imaginar o desprezo que sentia por eles—ela era a filha de Agamêmnon e Clitemenestra e o seu orgulho era uma fortaleza inexpugnável. Aos pés do altar, virou-se para nos olhar e era apenas desprezo o que havia nos seus olhos; depois, subiu os poucos degraus e, com um movimento suave, deitou-se sobre a mesa, as mãos juntas sob os seios, o perfil delineado contra o mar lúgubre, alteroso. Não chovera nessa manhã; o leito de mármore da morte estava seco. Calcas atirou um sortido de substâncias pulverizadas para as chamas que se erguiam em três trípodes colocados em torno do altar; nuvens de fumo verde e outras de fumo tão amarelo como a bílis ergueram-se imediatamente, espalhando um fedor insuportável de enxofre e podridão. Empunhando uma grande faca ornamentada com jóias, Calcas desatou a andar de um lado para o outro como um enorme e obsceno morcego. Quando o seu braço se ergueu e a faca faiscou, permaneci tão imóvel como uma estátua, horrorizado e, no entanto, fascinado. A cintilação da lâmina deslocou-se então para baixo; nuvens de fumo engoliram o sacerdote, ocultaram-no. Alguém gritou, um grito estridente, gorgolejante, que logo se transformou num estertor . Os corpos dos presentes pareciam ter-se transformado em pedra. Então, uma rajada de vento varreu a fumarada. Ifigênia jazia no altar, o sangue correndo por um sulco que havia no mármore, deslizando a caminho de uma enorme taça que Calcas segurava. Agamêmnon desatou a vomitar . Até mesmo Ulisses se sentiu nauseado com o miserável espetáculo. Mas eu não conseguia desprender os meus olhos de Ifigênia, daquele corpo que a morte levara. A minha boca abriu-se num único uivo de tortura. A loucura inundou-me as veias. A minha espada estava já na minha mão quando corri para Agamêmnon; se Ulisses e Diomedes não estivessem ali para o proteger, o teria degolado num ápice; o vomitado escorria-lhe agora pela barba que tantos cuidados lhe merecia. Deixaram-no cair como uma pedra para me deterem; desesperados, procuravam arrancar-me a espada, mas eu obrigava-os a dançar à minha
volta como se eles não fossem mais do que títeres. Idomeneu e Menelau correram para ajudá-los; até o velho Nestor avançou trôpego para o meio da briga. Por fim, os cinco conseguiram agarrar-me e deitar-me no chão. O meu rosto ficou a uma pequena distância do de Agamêmnon. Amaldiçoei-o até que a minha voz se transformou num mero grito. De súbito, porém, toda a minha força se escoou. Desatei a chorar . Só assim conseguiram arrancar a espada às garras dos meus dedos. Por fim, ergueram-nos aos dois do chão. — Usou o meu nome para cometer este crime hediondo, Agamêmnon! exclamei, o rosto lavado em lágrimas, o coração já sem raiva mas impregnado do ódio mais profundo.—Permitiu que a sua filha fosse sacrificada! E para quê? Apenas para satisfazer o teu orgulho! Com este crime, o rei supremo transformou-se, aos meus olhos, no mais vil dos escravos! Não é melhor do que eu. No entanto, eu sou pior do que você. Se não tivesse cedido à minha ambição, poderia ter impedido que isto acontecesse. Mas ouve bem o que te digo, rei dos reis! Vou enviar uma mensagem a Clitemenestra, informando-a do que aconteceu aqui. Não pouparei ninguém—e muito menos a mim mesmo! A nossa honra foi irremediavelmente maculada. Este crime é, para todos nós, uma maldição! — Eu tentei impedir que isto acontecesse...—protestou Agamêmnon.— Mandei uma mensagem a Clitemenestra, mas o mensageiro foi assassinado. Eu tentei, Aquiles, eu tentei... Ao longo de dezesseis anos, tentei impedir que este dia chegasse. A culpa é dos deuses. Caímos na sua armadilha. Cuspi para os pés dele. — Não culpe os deuses pelos seus próprios erros, rei supremo! Nós é que somos fracos! Nós somos mortais!. Não sei como, cheguei à minha tenda; a primeira coisa para onde olhei foi a cadeira onde eu a abraçara. Pátrocles estava sentado na outra e chorava. Quando me ouviu entrar, pegou numa espada e ajoelhou diante de mim, estendendo-me a arma. — Que é isto?—perguntei, sem saber se o meu coração suportaria novas angústias. Com a ponta da espada encostada à garganta, Pátrocles oferecia-me o punho. — Mate-me, Aquiles, mate-me! Eu te traí! Eu manchei a tua honra! — Eu próprio me traí, Pátrocles. Eu próprio manchei a minha honra.
— Mate-me!—implorou. Peguei a espada e atirei-a para o chão. — Não!—respondi-lhe. — Eu mereço morrer! — Todos nós merecemos morrer, mas não será esse o nosso destino—disse eu, soltando as correias da minha couraça. Pátrocles tratou de me ajudar: os hábitos não se perdem nunca, mesmo quando a dor nos despedaça o coração. — Eu sou o único culpado, Pátrocles. Ah, o meu orgulho e ambição ... ! Como pude deixar que a sorte dela ficasse dependente de fios tão tênues, tão finos? Começava já a amá-la, teria casado com ela de bom grado. Não teria qualquer vergonha em divorciar-me de Deidamia—o meu casamento com ela não foi mais do que o resultado de um astucioso plano tramado pelo meu pai e por Licomedes. Disseste-me que mandasse imediatamente Ifigênia para o palácio da mãe. Um conselho sensato, Pátrocles. Eu te respondi que não porque não quis pôr em perigo a minha posição neste exército. Dei ouvidos ao meu orgulho e à minha ambição, cedi à minha fraqueza. Despira já toda a armadura. Pátrocles tratou de guardá-la no seu baú. Meu criado, do princípio ao fim. — Que aconteceu afinal?—perguntei-lhe enquanto enchia de vinho os nossos copos. — De início, tudo correu bem—disse ele, sentando-se diante de mim. Não foi difícil arranjar o veado. — Sombras percorreram os seus olhos, anunciando lágrimas.—Mas decidi não partilhar a glória com Automedonte. Queria que todos os seus elogios fossem só para mim. Por isso, fui sozinho para trás do altar . De repente, porém, o veado começou a ficar agitado e desatou a balir . Tinha-me esquecido de droga-lo! Se Automedonte estivesse comigo, teríamos conseguido calá-lo. Mas eu estava sozinho e não consegui dominá-lo. Calcas, entretanto, me descobriu. Ele é um guerreiro, Aquiles! Mal me viu, pegou no cálice e deu-me uma pancada forte na cabeça. Quando recuperei os sentidos, estava amarrado e com um pano enfiado na boca. É por isso que quero que me mate. Se eu tivesse levado comigo Automedonte, o desfecho teria sido outro. — Matar-te, Pátrocles, implicaria que me matasse a mim mesmo. São soluções demasiado fáceis... Temos de viver: só vivendo, poderemos cumprir inteiramente o nosso
castigo. Mortos, não sentiríamos nada, seríamos apenas sombras—e as sombras desconhecem tanto a dor como a alegria. Não seria um castigo justo, Pátrocles—disse eu, bebendo um vinho que parecia fel. Pátrocles aquiesceu. — Sim, eu compreendo. Enquanto for vivo, não poderei esquecer nunca os meus ciúmes. E você, enquanto viver, não poderá esquecer nunca a tua ambição. Um destino muito pior do que a morte. Mas Pátrocles não vira o seu olhar, não vira o desprezo. Não viveria a vida toda atormentado por esse olhar . Que pensamentos teriam desfilado pela sua mente entre o momento em que lhe contaram a verdade e o momento em que a faca de Calcas encontrou a sua garganta? Que teria ela pensado de mim—daquele que fingira ser o seu amado e que, depois, impiedosamente, a abandonara? A sombra de Ifigênia me perseguiria até ao fim dos meus dias. Que esse fim não tardasse!, era tudo o que eu pedia. Que a minha vida fosse curta e gloriosa! — Quando partimos para lolcos?—perguntou Pátrocles. — Iolcos? Nós vamos partir, Pátrocles, mas para Tróia. — Depois disto? — Tróia é uma parte da minha punição. E Tróia significa que não terei de enfrentar o meu pai, pois em Tróia morrerei. Que pensaria ele de mim se soubesse do meu miserável comportamento? Que os deuses o poupem a tão grande desgosto!
   

 Capítulo Décimo Segundo

Narrado por Agamêmnon

A noite ia já alta quando mandei que enterrassem a minha filha numa cova funda, sob um monte de rochas junto ao mar . Nada identificava a sua derradeira morada. Nem na morte lhe dei eu um dote condigno, pois tudo o que Ifigênia tinha para levar consigo era um belo vestido e o seu pequeno tesouro de jóias de menina. Aquiles prometera enviar uma mensagem à minha esposa, atribuindonos as culpas pela morte de Ifigênia; podia tentar impedir que isso acontecesse; bastaria que o meu mensageiro chegasse primeiro. No entanto, não conseguia encontrar as palavras necessárias, tão pouco um mensageiro. Os mensageiros em quem podia confiar iam partir todos comigo. E não havia no mundo palavras capazes de atenuar o golpe que eu desferira em Clitemenestra. Haverá porventura palavras capazes de mitigarem o desgosto que é a perda de um filho? Se elas existem, não são por certo humanas. Por maiores que fossem as nossas divergências, a minha esposa sempre me considerara um grande homem—um homem digno de ser seu marido. Contudo, Clitemenestra era da Lacedemônia e, nessa nação, a influência de Mãe Kubaba era ainda muito forte. Logo que soubesse da morte de Ifigênia, a rainha suprema tentaria reinstaurar a Velha Religião e substituir-me no trono. O poder passaria para as suas mãos. Nesse momento, lembrei-me de um membro da minha comitiva que poderia dispensar: o meu primo Egisto.A história da nossa Casa—a Casa de Pélops—é horrenda. O meu pai, Atreu, e o pai de Egisto, Tiestes, disputaram o trono de Micenas após a morte de Euristeu; Héracles deveria ter sido o herdeiro, mas foi assassinado. Muitos crimes foram cometidos por causa do Trono do Leão de Micenas. O meu pai cometeu o mais horrível desses crimes: matou os sobrinhos, cozinhou-os e serviu-os a Tiestes, dizendo-lhe que era um prato digno de um rei. Mesmo sabendo isso, o povo escolheu Atreu como rei supremo, e baniu Tiestes. Egisto nasceu da união de Tiestes com uma mulher pelópida. Uma mulher com quem Atreu se casaria depois. Tiestes procurou então vingar a versão de que Egisto era filho de Atreu. Mas a triste história não terminou aí. Tiestes colaborou no assassínio de meu pai e voltou a sentar-se no trono supremo: até o momento em que, já adulto, o derrubei e bani.
No entanto, eu sempre gostara do meu primo Egisto, que era muito mais novo do que eu. Um homem bem-parecido e encantador com quem me dava melhor do que com o meu próprio irmão, Menelau. Contudo, a minha esposa não gostava de Egisto, nem confiava nele, porque Egisto era filho de Tiestes e tinha legítimas pretensões a um trono que, aos olhos de Clitemenestra, só poderia ser herdado por Orestes. Mandei-o chamar logo que decidi o que havia de lhe dizer . A sua situação na corte dependia inteiramente de mim; daí que lhe conviesse tudo fazer para me agradar . E foi assim que enviei Egisto ao palácio de Clitemenestra, perfeitamente industriado e carregado de presentes. Ifigênia estava morta, mas não fora eu quem dera a ordem. Ulisses planejara tudo—e executara. Ela acreditaria nisso. — Não estarei muito tempo longe da Grécia—disse eu a Egisto antes dele partir—,mas é indispensável que Clitemenestra não peça o apoio do povo para reinstaurar a Velha Religião. Egisto, você será o meu cão de guarda. — Ártemis sempre foi tua inimiga—disse ele, ajoelhando para me beijar a mão.—Não se preocupe, Agamêmnon. Farei tudo o que for necessário para controlar Clitemenestra.—Pigarreou.—Claro que perderei os despojos de Tróia. Continuarei tão pobre como antes. — Terá o teu quinhão dos despojos, Egisto—assegurei-lhe.—Agora vai. Na manhã seguinte ao sacrifício, acordei de um sono que só muito vinho pudera induzir e deparei-me com um dia tão claro como calmo. As nuvens e o vento tinham-se dissipado durante a noite; só as gotas de água que caíam das abas das tendas falavam das várias luas de tempestade que tivéramos de suportar . Obriguei-me a agradecer a cooperação de Ártemis, mas nunca mais pediria ajuda à arqueira. A minha querida filha estava morta e, na sua cova, não havia sequer uma pedra que a arrancasse do anonimato. Não conseguia olhar para o altar . Fênix estava na minha tenda, desejoso de partir sem demora; considerava eu que deveria esperar mais um dia, não fosse a tempestade voltar . — O tempo vai continuar bom por muito tempo—disseme o velho Fênix, cheio de confiança nos elementos.—Os mares entre Áulida e Tróia permanecerão tão calmos como leite numa tigela. — Nesse caso—disse-lhe eu, lembrando-me de repente das críticas de Aquiles aos meus planos de abastecimento—,faremos uma oferenda a Poseidon e correremos o risco. Entretanto, Fênix, quero os navios cheios de
comida! Abastece-te nos campos próximos. Todos os alimentos que houver, tragá-os para os navios. Fênix pareceu espantado, mas logo pôs um sorriso imenso. — É para já, rei Agamêmnon, é para já! Aquiles perseguia-me. As suas maldições ecoavam na minha memória, o seu desprezo era uma espada cravada no meu peito. Por que razão culpava a si mesmo, era algo que eu não entendia; ele era tão pouco capaz de desafiar os deuses como eu. Contudo, e ainda que não o desejasse, sentia por ele admiração. Aquiles tivera a coragem de proclamar a sua culpa diante dos seus superiores. Daria tudo para que Ulisses e Diomedes não estivessem tão preocupados com a minha segurança. Daria tudo para que Aquiles me tivesse cortado a cabeça diante do cadáver da minha filha. Daria tudo para que a minha vida tivesse terminado ali, naquele exato momento. Na manhã seguinte, quando a primeira luz começou a tingir de rosa o pálido céu, a nau capitânia deslizou pela rampa rumo ao mar . Com as mãos cravadas na amurada, mantive-me na proa, sentindo-a mergulhar e tremer nas quietas águas. Finalmente a partida! Segui depois até à popa, onde os costados do navio pareciam erguer-se num capuz e a carranca de Anfitrião tudo vigiava. Virei as costas aos remadores, satisfeito com o fato de o meu navio possuir uma coberta—os remadores sentavam-se na coberta, deixando, desse modo, suficiente espaço livre para a minha bagagem, para os meus criados, para o tesouro de guerra e para todos os equipamentos de que um rei supremo precisava. Os meus cavalos estavam num cercado juntamente com mais uma dúzia de outros, perto do lugar onde me encontrava, e o mar corria suavemente não muito abaixo da coberta. Era muito pesada a nossa carga. Atrás de mim, grandes navios vermelhos e negros deslizavam nas águas como centopéias que tivessem remos em vez de pernas, rastejando ao longo da superfície dos eternos e implacáveis abismos de Poseidon. Um total de mil e duzentos navios; oitenta mil guerreiros e vinte mil ajudantes de todo o tipo. Alguns dos navios levavam apenas cavalos e remadores; nós somos um povo que usa os cavalos para puxarem os carros, tal como os Troianos. Continuava convencido de que a campanha seria breve, mas também sabia que não veríamos os fabulosos cavalos troianos enquanto Tróia não caísse. Fascinado, contemplei a extraordinária cena; custava-me a crer que fosse minha a mão que ia ao leme daquela portentosa força, que o rei supremo de
Micenas viesse realmente a ser o supremo rei do Império Grego. Mas nem um Décimo dos navios chegara ainda ao mar e já a nau capitânia atravessava o estreito de Eubeia e a praia, ao longe, parecia um ponto minúsculo. Senti um pânico momentâneo, perguntando-me como é que uma tão vasta frota conseguiria manter-se unida e coesa ao longo das muitas léguas que nos separavam de Tróia. Contornamos a ilha Eubeia sob um sol escaldante, passamos entre Eubeia e Andros, e, enquanto o monte Oca se esbatia à popa, apanhamos as brisas que sempre sopram no Egeu. Os remadores, aliviados e gratos, prenderam os remos aos suportes, uma multidão de marinheiros rodeou o mastro e logo a vela escarlate de cabedal da nau capitânia imperial ganhou vida, sob o impulso de um vento sudoeste, quente e suave. Dei mais uma volta pela coberta, entre os bancos dos remadores, e subi os curtos degraus que conduziam à coberta de proa, onde fora construído o meu camarote especial. Na nossa esteira, muitos navios navegavam já a boa velocidade, vencendo as altas vagas que as suas proas bicudas transformavam em minúsculas ondinhas. Pelos vistos, não era assim tão difícil mantermo-nos juntos; Télefo encontrava-se no extremo da proa, virando de quando em quando a cabeça para gritar instruções aos dois homens que manobravam o leme e nos faziam seguir a rota previamente definida. A certa altura, Télefo olhou-me com um imenso sorriso de satisfação. — Excelente, rei supremo! Se o tempo se agüentar assim, conseguiremos manter esta velocidade. Não precisaremos aportar em Quios, nem em Lesbos. Não demoraremos muito a chegar a Ténedo. Fiquei satisfeito com a informação. Télefo era o melhor navegador de toda a Grécia, o único homem que poderia levar-nos até Tróia sem corrermos o risco de ficarmos encalhados numa praia qualquer, longe do nosso destino. Télefo era o único homem a quem eu podia confiar os destinos daqueles mil e duzentos navios. Helena, disse para mim mesmo, será muito breve a tua liberdade! Antes que dê por isso, estará regressando a Amiclas—e acredite que será para mim um prazer imenso ordenar que te cortem a tua bela cabeça com o sagrado machado! Os dias foram passando sem qualquer problema. Avistamos Quios, mas seguimos viagem. Não precisávamos de reabastecimentos e o tempo estava tão bom que nem Télefo, nem eu, queríamos abusar da nossa boa sorte
demorando em terra. A costa da Ásia Menor encontrava-se agora praticamente à vista e Télefo conhecia bem todos os pontos de referência indispensáveis, pois subira e descera aquela costa centenas de vezes durante a sua longa carreira. Jubilosamente, chamou-me a atenção para a vasta ilha de Lesbos, certo e seguro do seu rumo; virou então a oeste, de modo a que, de terra, ninguém nos visse. Os Troianos não saberiam que rumávamos para Tróia. Aportamos à zona sudoeste de Ténedo, uma ilha muito próxima do continente e de Tróia, no Décimo primeiro dia depois de termos deixado Áulida. Não havia espaço naquela praia para tantos navios; o melhor que podíamos fazer era deixarmos ficar fundeados o mais perto possível da praia e fazer votos para que a clemência do tempo se mantivesse por mais uns dias. Ténedo era uma ilha fértil, mas eram poucos os seus habitantes e a razão para este fato era só uma: Ténedo ficava muito perto da cidade que era considerada a maior do mundo. Quando nos viram, os Tenedenses concentraram-se na praia: os seus gestos de desamparo revelavam bem o terror que sentiam. Aproximei-me de Télefo e dei-lhe umas amistosas palmadinhas no ombro. — Muito bem, piloto! Merece um quinhão principesco dos despojos! Inchado de triunfo, Télefo desatou a rir, mas logo desceu correndo os degraus que conduziam à meia-nau, onde, momentos depois, se viu rodeado pelos cento e trinta homens que haviam partido comigo. Ao cair da noite, chegaram os últimos navios da frota; todos os grandes chefes da Grécia vieram ter comigo no meu quartel-general temporário na cidade de Ténedo. Já havia feito o mais importante: reunira todas as humanas criaturas que viviam na ilha e comunicara-lhes a proibição de se deslocarem a Tróia. Pouco era o mar que separava Ténedo de Tróia e era preciso impedir que um tenedense mais afoito fosse informar o rei Príamo do que se passava na ilha. Quanto a mim, acreditava sinceramente que os deuses estavam todos com a Grécia. Na manhã seguinte, fui até ao alto das colinas que coroavam o centro da ilha; alguns dos reis foram comigo a fim de exercitarem as pernas, contentes por terem reencontrado a solidez da terra. Ali estivemos no alto das colinas por um longo período, os mantos esvoaçando ao sabor do vento, mirando as águas tranqüilas e muito azuis que nos separavam do continente e de Tróia.
Daquela posição, até uns olhos velhos e cansados veriam Tróia; devo confessar que, mal os meus olhos se fixaram na lendária cidade, um choque percorreu-me o corpo, um choque de espanto e desolação. Claro que eu imaginara Tróia de acordo com parâmetros meus conhecidos: Micenas no cume do monte do Leão; o portentoso porto comercial de lolcos; Corinto, erguendo-se dos dois lados do istmo; a fabulosa Atenas. Mas todas essas cidades eram insignificantes quando comparadas com Tróia! Para além de se erguer imponente nas alturas, Tróia espalhava-se por muitas e muitas léguas, como uma espécie de gigantesco zigurate, tão vasto, tão amplo, que seria difícil descortinar os pormenores. — Então?—perguntei a Ulisses. Parecia absorto nos seus pensamentos, os olhos cinzentos fixos num ponto qualquer . Porém, ao ouvir a minha pergunta, como que despertou. Virou-se para mim com um sorriso arreganhado e logo me respondeu: — O meu conselho é este: façamos a travessia esta noite, cobertos pela escuridão; ao amanhecer, coloquemos o exército em ordem de batalha e ataquemos Príamo sem que ele espere—antes que ele possa fechar as portas da cidade. Amanhã à noite, rei supremo, Tróia será tua!. Nestor desatou numa berraria indecifrável, Diomedes e Filoctetes fitaram horrorizados Ulisses. Eu limitei-me a sorrir . Palamedes também, ainda que no seu sorriso houvesse alguma ironia. Nestor falou, poupando-me trabalho. — Ulisses, Ulisses, será possível que não é capaz de distinguir entre o bem e o mal?—perguntou ele, indignado.—Tudo no mundo é governado por leis —incluindo a guerra! E eu não participarei numa aventura em que as devidas formalidades não sejam cumpridas! Honra, Ulisses, é uma questão de honra! Onde está a honra nesse teu plano? O fedor dos nossos nomes chegaria ao Olimpo! Nós não podemos infringir as leis!—Virou-se para mim. —Não lhe dê ouvidos, Agamêmnon! As leis da guerra são inequívocas. Temos de lhes obedecer! — Acalme-se, Nestor: eu conheço as leis tão bem como você.—Segurei Ulisses pelos ombros e abanei-o ligeiramente.—Ulisses: não estava esperando que eu desse ouvidos a tão ímpio conselho, não é verdade? A resposta dele começou veio numa boa gargalhada. E logo acrescentou: — Não, Agamêmnon, claro que não! Mas você me pediu uma opinião. E eu me senti na obrigação de partilhar contigo um excelente fragmento da minha sabedoria. Se os ouvidos à minha volta são surdos, para quê queixar
me? Eu não sou o supremo rei de Micenas. Sou apenas um dos seus súbditos leais—Ulisses, da rochosa Ítaca, onde um homem, se por acaso quiser sobreviver, terá, por vezes, de esquecer de coisas como a honra. Eu te disse como conquistar Tróia num só dia—e lhe garanto que não há outra maneira. Porque há uma coisa que deve ter presente—se Príamo tiver oportunidade de fechar as suas portas, passará dez anos uivando às muralhas de Tróia—,os dez anos que Calcas profetizou. — Mas as muralhas podem ser escaladas e as portas derrubadas— contrapus. — Podem?—Desatou de novo a rir e, de um momento para o outro, pareceu ficar muito longe de nós, imerso nos seus próprios pensamentos. A sua mente era uma entidade prodigiosa; num ápice, era capaz de captar a mais intrincada das verdades. Intimamente, eu sabia que o seu conselho fazia todo sentido; mas sabia também que, se o seguisse, ninguém me seguiria. Se atendesse ao seu conselho, estaria transgredindo as leis de Zeus e da Nova Religião. Eram ímpias as idéias de Ulisses, mas ele conseguia sempre escapar à punição que tais idéias implicavam. Era isso que eu achava fascinante. Como explicar a sua impunidade? Claro que se dizia que Palas Atena o amava mais do que a qualquer outro homem e que intercedia sempre a favor de Ulisses junto do onipotente Pai. Dizia-se que a deusa o amava precisamente pela excelência da sua mente. — Alguém terá de ir a Tróia levar os símbolos da guerra a Príamo e exigir o regresso de Helena - disse eu. Todos pareciam dispostos a fazer parte da delegação, mas eu já tinha feito a minha escolha. — Menelau, você é o marido de Helena. Terá de ir, evidentemente. Ulisses, você e Palamedes irão também. — E eu?—perguntou Nestor, francamente aborrecido. — Você não vai, Nestor, porque eu preciso ter por perto um dos meus conselheiros—disse eu, esperando que tal explicação soasse convincente. Se Nestor imaginasse que eu pretendia protegê-lo de novas fadigas, desataria aos berros contra mim. É certo que me lançou um olhar desconfiado, mas creio que a longa viagem por mar devia tê-lo deixado realmente extenuado, pois não discutiu as minhas ordens. Ulisses abandonou finalmente os seus estranhos devaneios. — Rei Agamêmnon, se eu vou participar nesta missão, terei de pedir um favor . É preciso que não haja o menor indício de que as nossas tropas se
encontram aqui, ocultas pelos montes centrais de Ténedo. É preciso que o velho Príamo fique com a impressão de que estamos ainda na Grécia, preparando-nos para a guerra. A lei nos obriga apenas a notificá-lo formalmente do estado de guerra antes de atacarmos. Não temos de fazer rigorosamente mais nada. Além disso, Menelau deveria exigir uma indenização adequada para os danos psicológicos que sofreu em conseqüência do rapto da mulher . Creio que Menelau deveria exigir de Príamo a reabertura do Helesponto aos nossos mercadores e a abolição dos embargos comerciais. Aquiesci. — Muito bem visto, Ulisses. Começamos a descer a encosta na direção da cidade; os mais jovens e enérgicos iam à minha frente, Ulisses e Filoctetes à frente de todos, à conversa e à gargalhada como dois rapazes. Eram ambos homens excelentes, mas Filoctetes era melhor guerreiro do que Ulisses. O próprio Herácles, no seu leito de morte, dera a Filoctetes o seu arco e flechas, apesar de Filoctetes ser ainda um garoto. Saltavam sobre tufos de erva, tonificados por aquele ar tão lavado; Ulisses saltou bem alto sobre uma moita e bateu com os calcanhares um no outro para demonstrar a sua agilidade. Filoctetes tratou de imitá-lo, com pernas ligeiras e ágeis. Um momento depois, porém, deu um penetrante grito de alarme. O seu rosto contorcia-se de dor; ajoelhou com uma das pernas, mantendo a outra estendida. Imaginando que teria partido a perna, corremos para o local. Ofegante, curvado, Filoctetes segurava na perna estendida com ambas as mãos. Ulisses pegara a sua faca. — Que foi?—perguntou Nestor . — Pisei uma serpente!—disse Filoctetes, com a voz entrecortada. Fiquei paralisado de medo. As serpentes mortíferas eram raras na Grécia: uma espécie muito diversa das cobras que nós tínhamos em casa e nos altares, cobras de que gostávamos e que honrávamos porque elas caçavam toda a sorte de ratos. Ulisses fez cortes profundos nos dois lugares onde a serpente mordera; depois, abaixou-se e colou os lábios aos cortes, sugando o que neles havia, ou seja, tanto o sangue como o veneno. Depois, acenou para Diomedes. — Diomedes, pegue-o no colo e leve-o a Macáon. Leve-o o mais quieto possível, para evitar que o veneno chegue aos órgãos vitais. Meu amigo— disse ele para Filoctetes—,tem de ficar muito quieto. E anime-se: não se esqueça que Macáon é filho de Asclépio. Ele saberá o que fazer .
Diomedes seguiu à nossa frente, levando a pesada carga como se Filoctetes não fosse mais do que uma criança pequena; corria suave e facilmente, o que não era para mim uma novidade, pois já o vira correr assim com a armadura completa vestida. Claro que fomos imediatamente para a tenda dos cirurgiões. Dera uma boa tenda a Macáon e ao seu irmão, o tímido Podalírio; os homens adoecem mesmo antes de as guerras começarem. Filoctetes estava deitado num divã, os olhos fechados, a respiração convertida num estertor . — Quem tratou a mordida?—perguntou Macáon. — Fui eu—respondeu Ulisses. — Fez muito bem, Ulisses de Ítaca. Se não tivesse agido desse modo tão rápido, Filoctetes teria tido morte imediata. Mesmo agora poderá morrer . O veneno deve ser extremamente letal. Filoctetes já teve quatro convulsões e pus-lhe a mão sobre o coração e senti uma arritmia nítida. — Quando poderemos saber qualquer coisa?—perguntei. Tal como todos os físicos, também Macáon detestava os prognósticos fatais. Abanou a cabeça e respondeu-me: — Não faço idéia, rei Agamêmnon. Alguém apanhou a serpente—ou a viu, pelo menos? Abanamos as nossas cabeças. — Nesse caso, é impossível prever um desfecho. No dia seguinte, a delegação partiu para Tróia, num grande navio com a coberta na maior desordem, a fim de que os Troianos pensassem que a embarcação acabara de fazer a longa viagem desde a Grécia sem qualquer companhia. Ficamos calmamente aguardando o seu regresso. Nos mantínhamos tão silenciosos quanto possível, evitávamos que a fumaça das nossas fogueiras se erguesse mais alto do que as colinas, enfim, fazíamos tudo o que acreditávamos necessário para que a nossa presença não fosse detectada por eventuais vigilantes postados no continente. Os Tenedenses não nos causavam o menor problema: estavam ainda aturdidos com a magnificência da frota que, inopinadamente, aportara às suas praias. Pouco falava com os chefes jovens. Haviam eleito Aquiles como seu chefe—para eles, o exemplo a seguir era Aquiles, não Agamêmnon. O filho de Peleu evitava-me desde o dia em que Ifigênia morrera. Vira-o mais de uma vez, mas ele fingira não dar por mim e seguira o seu caminho. Quanto aos métodos que seguia com os Mirmidões, só um cego não daria por eles: Aquiles não perdia tempo e não os deixava descansar, ao
contrário do que sucedia com o resto do exército. Treinava-os e exercitava-os todos os dias; aqueles sete mil soldados eram os homens mais capazes e resistentes que jamais vira. Ficara um pouco surpreendido ao saber que Aquiles trouxera apenas sete mil mirmidões, mas percebia agora que Peleu e o filho haviam preferido a qualidade à quantidade. Nenhum daqueles soldados tinha mais de vinte anos e todos eles eram profissionais e não voluntários (e os voluntários, como era sabido, estavam mais habituados a lavrar a terra e a colher as uvas do que a manejar armas). Nenhum daqueles homens—diziam os rumores—era casado. Uma medida muito inteligente. Só os jovens sem mulher nem filhos correm para o fragor da batalha sem cuidarem do seu destino. Sete dias depois de ter partido, a delegação regressou. O navio chegou à praia já era noite e os meus três embaixadores seguiram imediatamente para a minha tenda. Os seus rostos me disseram que a missão fora mal sucedida. Esperei contudo por Nestor para ouvir o que tinham a dizer . Quanto a Idomeneu, não havia necessidade de convocá-lo. — Recusaram-se a nos entregar Helena, Agamêmnon!—disse o meu irmão, dando um murro na mesa. — Acalma-se, Menelau! Não estava esperando que isso acontecesse. Mas digam-me: o que é que se passou? Alguém viu Helena? — Não. Eles a mantêm escondida. Fomos escoltados até à cidadela—eles me conheciam da minha visita anterior . Até em Sigeu me reconheceram. Príamo estava sentado no trono e perguntou-me o que eu queria desta vez. Respondi-lhe que queria Helena e ele desatou a rir na minha cara! Ah, se o biltre do filho dele estivesse lá, podem crer que o teria morto ali mesmo!— Sentou-se, as mãos cobrindo o rosto. — Matava o biltre do filho dele e depois te matavam. Prossiga. — Príamo disse que Helena fora para Tróia por sua livre vontade, que não pretendia regressar à Grécia, que considerava Páris seu marido e que preferia manter o seu tesouro em Tróia, pois o tesouro impediria que ela se transformasse numa carga financeira para o seu novo país. Chegou mesmo a insinuar que eu usurpara o trono da Lacedemônia! Disse que, depois dos irmãos de Helena, Castor e Pólux, terem morrido, ela é que deveria ter subido ao trono! Ela é que era filha de Tíndaro! Ao passo que eu, disse ele, eu não passava de um títere nas mãos de Micenas! — Sim senhor ...—disse Nestor, com um risinho.—Pelo visto, mesmo que tivesse preferido ficar contigo em Amiclas, Helena acabaria por conspirar
contra ti. O meu irmão virou-se para o velho com um ar feroz. Bati com o bastão no chão e ordenei: - Prossiga, Menelau! — Entreguei então a Príamo a tabuinha vermelha com o símbolo de Ares e ele se pôs a olhar para aquilo como se nunca tivesse visto nada de parecido em toda a sua vida. A mão dele tremia tanto que a tabuinha caiu no chão e partiu-se. Um sobressalto percorreu a sala. Depois, Heitor pegou os pedacinhos da tábua e levou-os dali para fora. Tudo isso deve ter passado há alguns dias. Porque é que não voltaram logo?—perguntei. Menelau baixou a cabeça e não me respondeu. Tanto eu como Nestor ficamos logo sabendo a razão da demora: Menelau retardara a partida, na esperança de ver Helena. — Não contou como terminou essa primeira audiência—disse Palamedes. — Conto já, se me deixarem!—atirou-lhe Menelau.—O filho mais velho de Príamo, Deífobo, rogou em público ao pai que nos matasse. Depois, Antenor avançou para o estrado e ofereceu-nos alojamento. Invocou Zeus Hospitaleiro e proibiu todos os Troianos de nos tocarem com um só dedo que fosse. — Uma reação interessante, tanto mais que Antenor é da Dardânia. Afaguei Menelau, procurando aliviar-lhe o sofrimento.—Anime-se, irmão! Em breve será vingado. Vá, agora vai deitar-se. Só quando Nestor e eu ficamos a sós com Ulisses e Palamedes é que descobri aquilo que realmente queria saber . Menelau fora o único que alguma vez estivera em Tróia; porém, durante o ano em que nos preparamos para a guerra, o meu irmão não conseguira fornecer-nos uma única informação minimamente útil. Qual era a altura das muralhas? Eram muito altas, dizia ele. De quantos homens poderia Príamo dispor? De muitos. Eram firmes os laços que uniam Tróia às outras nações da Ásia Menor? Muito firmes. Fora uma missão quase tão impossível como tentar obter informações junto de Calcas, ainda que o meu irmão não pudesse usar a desculpa do sacerdote—é que, segundo Calcas, Apolo tinha-lhe atado a língua. — Temos de ser rápidos, Agamêmnon—disse Palamedes.      - Porquê? — Tróia é uma cidade curiosa, dominada por homens inteligentes e idiotas em igual número. Ambos podem ser perigosos. Príamo é uma mistura
de inteligência e idiotice. Entre os seus conselheiros, Antenor e um jovem chamado Polidamas são aqueles que me merecem maior respeito. O filho que Menelau referiu, Deífobo, não passa de um fanfarrão. Contudo, ele não é o herdeiro. A sua posição é tão importante como a de qualquer outro dos filhos imperiais—os filhos de Príamo e de Hécuba. — Mas devia ser ele o herdeiro, visto que é o mais velho. — Príamo foi, na sua juventude, um bode insaciável. Gaba-se de ter cinqüenta filhos, um número verdadeiramente incrível—filhos da rainha, das outras esposas, das muitas concubinas. Quanto a filhas, parece que tem mais de cem—disseme que a sua semente faz mais moças do que rapazes. Perguntei-lhe por que não abandonara algumas das moças. Desatou a rir e disseme que as mais belas davam boas esposas para os seus aliados, ao passo que as feias teciam tecido suficiente para manter o magnífico aspecto do palácio. — Como é o palácio? — Enorme, Agamêmnon. Tão grande, me parece, como a velha Casa de Minos em Cnossos. Cada um dos filhos casados de Príamo dispõe de aposentos privados e vivem todos no maior dos luxos. Há outros palácios no interior da cidadela. Antenor tem um, por exemplo. Tal como o herdeiro. — Quem é o herdeiro afinal? Menelau mencionou Heitor, mas, muito naturalmente, pensei que ele fosse o mais velho. — Heitor é um dos filhos mais novos da rainha Hécuba. Estava presente quando chegamos, mas pouco tempo ficou, pois tinha uma missão urgente na Frigia. Devo dizer que ele pediu ao pai que o substituísse nessa missão, mas Príamo não atendeu aos seus pedidos. Como é Heitor que chefia o exército de Tróia, os soldados troianos não dispõem, por ora, de um comandante-chefe. O que me leva a concluir que Heitor é mais inteligente do que o pai. É jovem—não terá mais de vinte e cinco anos. Um homem corpulento, enorme. Para dizer a verdade, fisicamente, não anda longe de Aquiles. Virei-me para Ulisses, que afagava lentamente o rosto. — E você, Ulisses, que tem para me dizer?      - Quanto a Heitor, acrescentaria que os soldados e o povo o adoram. — Estou vendo: não limitou as suas atividades ao palácio, não é? — Não. Palamedes tratou do palácio, eu da cidade. Um exercício muito útil e instrutivo. Tróia é uma nação com muralhas, rei Agamêmnon. Duas séries de muralhas. As que rodeiam a cidadela são imponentes—mais altas do que as muralhas de Micenas ou Tirinte. Porém, as muralhas exteriores,
aquelas que rodeiam toda a cidade, são verdadeiramente gigantescas. Tróia é uma cidade no verdadeiro sentido da palavra, Agamêmnon. Toda a cidade se encontra dentro das muralhas exteriores e não espalhada pelos arredores, como acontece com as nossas. O povo não precisa fugir para dentro das muralhas quando um inimigo ataca, porque todos vivem dentro das muralhas. Há muitas ruas estreitas e casas muito altas, a que eles chamam edifícios de apartamentos, cada um dos quais alberga várias dezenas de famílias. — Antenor me disse—interrompeu Palamedes—que, segundo o último censo, havia na cidade cento e setenta mil cidadãos. Tendo em conta esse número, julgo que Príamo poderia mobilizar um exército de quarenta mil bons soldados, apenas dentro dos limites da cidade—ou cinqüenta mil, se recorresse também aos homens mais velhos. Pensando nos meus oitenta mil homens, sorri. — Não chegam para nos deter—disse. — Chegam e sobram—disse Ulisses.—A cidade é quase uma circunferência—de fato, é mais oblonga do que redonda—e tem um perímetro de várias léguas. As muralhas externas são verdadeiramente fantásticas. Medi uma pedra usando como referência a distância que vai dos ossos do meu punho até ao cotovelo e contei depois as várias carreiras de pedras. Concluí que as muralhas têm uma altura de trinta cúbitos e, na base, uma grossura de pelo menos vinte cúbitos. São tão velhas que ninguém se lembra quando foram construídas, nem porquê. Diz a lenda que estão amaldiçoadas e que terão de desaparecer da vista dos humanos para sempre, e tudo por causa do pai de Príamo, Laomedonte. Mas duvido que desapareçam da vista dos humanos devido ao nosso assalto. Apresentam uma ligeira inclinação e as pedras são regularmente polidas. Ou seja, não servem para escalar, seja com escadas de corda, seja com arpéus. — Mas não há nas muralhas nenhum ponto fraco?—perguntei eu, dando-me conta do desânimo que se havia instalado.—Nenhuma muralha mais baixa? Ou as portas? — Há de fato um ponto fraco, Agamêmnon—mas creio que seria melhor não contarmos com ele. Uma seção das muralhas originais, no lado ocidental, ruiu devido, julgo eu, ao mesmo terremoto que arrasou Creta. Éaco reparou a brecha e, a essa parte da muralha, os Troianos chamam agora a Cortina Ocidental. Tem cerca de quinhentos passos de comprimento e, em comparação com o resto da
muralha, a sua construção é francamente grosseira. A pedra foi mal talhada, pelo que apresenta muitas frestas e saliências, ótimas para os nossos arpéus. Quanto às portas, existem apenas três: uma que fica perto da Cortina Ocidental e a que chamam a Porta Ceia; outra, no lado sul, chamada a Porta Dardaniana; e uma última, a nordeste, a que chamam a Porta Ida. Quanto a outras entradas, só escoadouros e condutas, que são muito fáceis de guardar, além de permitirem apenas a passagem de um homem de cada vez. As portas, devo acrescentar, são maciças. Têm uma altura de vinte cúbitos e são encimadas pela passagem que corre ao longo do topo das muralhas exteriores e que permite uma rápida transferência de tropas de uma seção para outra. As portas foram construídas com toros reforçados com pregos e chapas de bronze. Um aríete, quando muito, as faria apenas tremer . Em suma: se as portas não estiverem abertas, precisará de um milagre para entrar em Tróia. Bom, Ulisses sempre fora pessimista e não era agora que ia se curar de tal doença. — Não percebo como é que os Troianos poderão resistir a uma força tão portentosa como a nossa - disse-lhe eu. Palamedes pôs-se a examinar o vinho que tinha no copo e nem uma palavra disse; a disposição de Nestor também não era muito diferente. Ulisses prosseguiu. — Agamêmnon—disse ele, com um ar extremamente sério—,se as portas de Tróia permanecerem fechadas, os soldados deles chegarão perfeitamente para deter os nossos. Quanto a escaladas, só vejo um lugar possível: a Cortina Ocidental. Mas a Cortina Ocidental tem apenas quinhentos passos de comprimento. Acredite no que digo: os Troianos poderão agüentar o cerco durante anos! Tudo depende de uma coisa—do fato de acreditarem ou não que nos encontramos ainda na Grécia. Mas bastará que um dos seus barcos de pesca venha para este lado de Ténedo para que todos os nossos planos vão por água abaixo. Julgo que terá de contar com uma campanha longa.—De súbito, havia uma expressão maliciosa nos seus olhos.—Claro que poderia obrigá-los a passar fome—a fome seria uma arma decisiva. Nestor ficou boquiaberto de indignação.      - Ulisses, Ulisses!—atacou ele.—Recomenda de novo que transgridamos as leis? Sabe qual seria o castigo para tal transgressão? A loucura! De um momento para o outro, ficaríamos todos loucos! Impenitente como sempre, Ulisses meneou comicamente as ruivas
sobrancelhas. — Eu sei, Nestor . Porém, tanto quanto a minha mente consegue divisar, todas as normas da guerra parecem favorecer o inimigo. É pena, mas é assim mesmo. Em tais circunstâncias, creio que a fome dos Troianos faria todo o sentido. De súbito cansado, levantei-me. — Não gostaria de ser um dos seus soldados, Ulisses, pois muitas seriam as Punições divinas que teria de sofrer por causa das tuas ímpias ações. Vá deitar-se. Amanhã de manhã, convocarei um conselho geral. Depois de amanhã, partiremos ao alvorecer . Quando se preparava para sair, Ulisses virou-se para mim. — Como está Filoctetes?—perguntou-me. — Nenhuma esperança de recuperação. — Lamento ouvir isso. Que vamos fazer com ele? — Que podemos fazer, Ulisses? Terá de ficar aqui. Seria o cúmulo da loucura levá-lo para o campo de batalha. — Concordo que ele não pode vir conosco, Agamêmnon, mas penso que não deveríamos deixá-lo aqui. Mal viremos costas, os Tenedenses lhe cortam a garganta. Manda-o para Lesbos. Os Lesbianos são um povo mais culto e educado, não farão mal a um homem doente. — Filoctetes não sobreviveria à viagem—protestou Nestor . — Mesmo assim, seria o menor dos males. — Tem razão, Ulisses—disse eu.—Ele irá para Lesbos. — Agradeço-te muito, Agamêmnon. Vale a pena fazer tudo o que esteja ao nosso alcance para salvar um homem como Filoctetes.—De súbito, Ulisses pareceu mais animado.—Vou ter com ele. Vou dizer-lhe que irá para Lesbos. — Ele não entenderia as tuas palavras, Ulisses. Está em coma há três dias disse-lhe eu.

Capítulo Décimo Terceiro  

Narrado por Aquiles

Calcas fez outra profecia. Por causa dessa profecia, Agamêmnon mudou de idéia: não seria ele o primeiro dos reis gregos a pisar o solo troiano; com efeito, segundo o sacerdote, o primeiro rei que pisasse o solo troiano morreria na primeira batalha. Olhei de relance para Pátrocles e encolhi os ombros. Se os deuses já tinham me condenado, porque haveria eu de me preocupar? Me cobriria de glória, se fosse eu o eleito. Foram finalmente dadas as ordens relativas à partida e ao desembarque. Sabíamos em que altura deveríamos manobrar na direção da praia e desembarcar os nossos homens. Pátrocles e eu instalamo-nos na coberta de proa da minha nau capitânia, contemplando os navios que iam à nossa frente, muito menos do que aqueles que vinham atrás de nós, pois nós, os de lolcos, seríamos os primeiros a chegar . A nau capitânia de Agamêmnon seguia em frente, com o imponente comboio de navios de Micenas à sua esquerda e os navios de um dos reis vassalos do meu pai, Iolau de Fílace, à sua direita. Eu vinha logo a seguir; atrás de mim, vinham Ájax e todos os demais. Antes de partirmos, Agamêmnon indicou que não estava à espera de ser saudado por homens hostis empunhando armas; esperava poder atacar a cidade sem que houvesse ainda em Tróia uma oposição organizada. Porém, naquele dia, os deuses não estavam conosco. Logo que o sétimo navio do comboio de Agamêmnon contornou a ponta de Ténedo, grandes nuvens de fumaça elevaram-se no promontório que flanqueava o porto de Sigeu. Os Troianos tinham sabido da nossa presença em Ténedo e estavam prontos para o ataque. As nossas ordens diziam que devíamos conquistar Sigeu e seguir imediatamente na direção da cidade. Mal o meu navio se fez ao estreito, pude ver as tropas troianas colocando-se em ordem de combate ao longo da praia. Até mesmo os ventos estavam contra nós. Tivemos de colher as velas e de usar os remos, o que implicava que metade dos nossos soldados chegariam à praia demasiado cansados para combaterem em condições. Para cúmulo do infortúnio, as correntes vindas do Helesponto faziam-se sentir no mar alto.
Também o mar estava contra nós. Demoramos uma manhã inteira para percorrer a curta distância que separava Ténedo do continente. Com um sorriso amargo, reparei que a ordem de precedência havia sido alterada; Iolau de Fílace ia agora à frente de Agamêmnon; os seus quarenta navios seguiam a uma escassa distância da nau capitânia de Iolau e a poderosa frota do rei supremo vinha à sua esquerda. Como encararia Iolau o seu destino?, perguntei-me. A amaldiçoaria ou a receberia de braços abertos? Para se saber quem pisaria primeiro solo troiano, procedera-se a uma eleição; e o eleito fora Iolau de Fílace; segundo a profecia de Calcas, Iolau morreria. Mandava a honra que exigisse aos meus remadores um maior esforço; contudo, aconselhava a prudência que poupasse os Mirmidões, pois esperava-os uma batalha. — Impossível apanhar Iolau—disse Pátrocles, lendo os meus pensamentos. Deixa tudo nas mãos dos deuses, Aquiles. Aquela não era a minha primeira batalha, pois combatera várias vezes ao lado de meu pai desde que abandonara o Pélion e os ensinamentos de Quíron; porém, essas campanhas eram insignificantes, se comparadas com o que nos esperava na praia de Sigeu. Milhares e milhares de troianos—cada vez mais - encontravam-se já alinhados, preparados para o combate, e os poucos navios que, no dia anterior, estavam na praia, haviam sido recolhidos e encontravam-se agora em terrenos situados para lá da aldeia. Quando toquei no braço de Pátrocles, senti que o meu amigo tremia; olhei para os meus braços: tão firmes como o metal da minha espada. — Pátrocles, vai à popa e chama Automedonte, que vem no navio imediatamente atrás do nosso. Diga-lhe que ordene aos seus timoneiros que diminuam ao máximo a distância que nos separa e que passe esta mensagem não apenas aos nossos navios, mas também a todos os outros. Quando a praia já estiver perto, pouco mais poderemos fazer do que flutuar na água e, portanto, os esporões de uns não destruirão os cascos dos outros. Diz a Automedonte que os seus homens deverão passar pela minha coberta antes de chegarem à praia e que todos os outros deverão fazer o mesmo. Caso contrário, nunca conseguiremos ter em terra homens suficientes para impedir um massacre. Pátrocles correu ao convés de ré e fazendo com as mãos uma taça à volta da boca, gritou as minhas instruções para o vigilante Automedonte, cuja armadura cintilava ao sol enquanto respondia. O seu navio depressa se aproximou do nosso, ficando o seu esporão a escassa distância do nosso
costado. Os navios que conseguia ver estavam fazendo o mesmo: tínhamonos transformado numa ponte flutuante. Entretanto, os meus homens haviam deixado os remos e tinham começado a se armar; o nosso impulso chegaria para nos levar para terra. Agora, havia apenas dez navios à minha frente, e o primeiro desses navios era o de Iolau. O navio de Iolau mergulhou o esporão nos seixos da praia e, como que percorrido por uma convulsão, deteve-se; por um momento, Iolau hesitou; depois, deu o grito de guerra de Fílace e correu para a parte central do navio. Desceu o costado com os seus soldados atrás dele; ao fim de pouco tempo, formavam já uma pequena multidão entoando os seus cânticos guerreiros. O inimigo, contudo, dispunha de muito mais soldados que Iolau —e os danos não tardaram. A certa altura, um corpulento guerreiro com uma armadura de ouro desferiu em Iolau o golpe fatal; com uma violenta machadada, abriu-o ao meio. Outros desembarcavam agora. Os navios à minha esquerda deslizavam rumo à praia e os seus homens saltavam das amuradas diretamente para o fragor da batalha, incapazes de esperarem pelas escadas. Atei as correias do meu elmo, enfiei a minha couraça de bronze revestida de ouro e endireiteia, peguei o meu machado com ambas as mãos. Era uma bela arma, aquele machado; pertencera aos despojos de guerra de Minos, que o trouxera de uma campanha em terras estrangeiras; era muito maior e muito mais pesado do que qualquer machado cretense. A espada roçava-me a perna, mas a Velha Pélion ficava no navio, pois de nada me serviria em combates corpo a corpo. Aquela era uma batalha para machados e os meus braços eram capazes de erguer e baixar aquela dupla lâmina o dia inteiro, sem se cansarem. Só Ájax e eu escolhemos o machado para o combate corpo a corpo; um machado suficientemente grande pode ser mais útil do que uma espada; contudo, para um homem vulgar, é certamente um empecilho. Não admira, pois, que estivesse ansioso por defrontar o gigante vestido de ouro que matara Iolau. Muito concentrado na praia, muito interessado em captar tudo o que estava se passando, nem sei o que pensei naqueles breves e derradeiros momentos. Um estremecimento em todo o navio disseme que tínhamos atracado; seguiu-se um outro, mais forte ainda do que o primeiro, e quase perdi o equilíbrio. Olhei de relance para trás e verifiquei que Automedonte unira o seu navio ao meu e que os seus homens estavam saltando para a
minha coberta. Como um macaco mimado, daqueles que as mulheres cretenses costumam ter em suas casas, cheguei à proa com meia dúzia de saltos e na proa fiquei por um instante, mirando uma tão desvairada confusão de cabeças que dificilmente distinguiria entre os nossos soldados e os do inimigo. Mas era necessário que eu fosse visto por todos os homens que vinham dos outros navios, tanto os do navio de Automedonte como os do navio de Alquimos, que atravessavam a coberta de Automedonte, como os dos navios que vinham atrás; cada vez mais homens chegavam à minha coberta, enquanto o meu navio sofria os espasmos cada vez mais tênues provocados pelas colisões que ocorriam cada vez mais longe. Então, brandi o meu machado muito acima da minha cabeça, gritei o grito de guerra dos Mirmidões com uma voz poderosa e saltei da proa diretamente para aquela fervilhante massa de cabeças. A sorte estava comigo; uma cabeça troiana foi esmagada pelo impacto dos meus calcanhares. Caí em cima do soldado inimigo, agarrando com toda a força o machado, sem escudo, pois o escudo era um empecilho numa batalha daquele tipo. Num ápice, endireitei-me, berrando o grito de batalha com toda a força que tinha nos pulmões; um momento depois, todos os Mirmidões repetiram o meu grito; no ar, ressoava já o medonho grito dos Mirmidões—tão medonho como a sua fúria de matar . Os Troianos usavam plumas cor de púrpura nos elmos, um pormenor que vinha mesmo a calhar naquela extrema confusão; com efeito, entre os Gregos, só os quatro reis supremos—e Calcas—poderiam usar essa cor na indumentária ou em quaisquer acessórios do vestuário. Olhares faiscantes rodeavam-me, uma dúzia de espadas ameaçavamme, mas empinei-me e desferi o machado com tal força que cortei um homem ao meio, desde o crânio até aos rins. O meu golpe os fez recuar . Um bom conselho do meu pai, que o ensinara a todos os Mirmidões: nos combates corpo a corpo, a agressão deveria ser o mais feroz possível, pois isso levaria o inimigo a recuar instintivamente. Voltei a usar o machado, desta feita contra um círculo de soldados inimigos, como se fosse uma vareta numa roda; aqueles que haviam tido a louca ousadia de se aproximar de mim sentiram a lâmina do machado dilacerando-lhe as barrigas sob a frágil armadura, que era de bronze. Não, os Troianos não usavam armaduras de cabedal, o que não admirava, pois eram eles quem detinha o monopólio do bronze. Ah, quão rica deveria ser a cidade de Tróia!
Pátrocles estava atrás de mim com o seu escudo para me proteger as costas e, atrás de nós, um sem-número de Mirmidões saltavam dos navios para a praia. A velha equipe estava de novo em ação. Avancei, o machado varrendo os soldados que apareciam à frente como se fosse uma vara sacerdotal, abatendo todos aqueles que usavam no elmo uma pluma de cor púrpura. Aquilo nada tinha a ver com um verdadeiro teste de força; não havia tempo nem espaço para escolher um príncipe ou um rei para comigo se confrontar; não havia sequer espaço algum para separar as forças inimigas. Aquilo mais não era do que uma multidão de guerreiros, convertidos em iguais pela batalha, peito anônimo contra peito anônimo. Muitos anos antes—ou assim me parecia—jurara contar todos os inimigos que viesse a abater; agora, contudo, estava demasiado excitado para contar fosse o que fosse, demasiado fascinado com a súbita fragilidade da carne macia sob a dureza do bronze, sempre que a lâmina do machado a dilacerava. Para mim, nada mais existia a não ser sangue e rostos, terror e fúria, homens corajosos que tentavam aparar o machado com as suas espadas e que por isso mesmo morriam, covardes que, ao sentirem o abraço da morte, desatavam a tagarelar de pavor, e aqueles que eram piores do que covardes, aqueles que viravam as costas e tentavam fugir . Sentia-me invencível, eu sabia que não havia nada naquele campo de batalha que pudesse me vencer . E era com um prazer extremo que via aqueles rostos escancarados golfando sangue; o desejo ardente de matar fazia vibrar todo o meu ser . Sentia uma espécie de loucura enquanto ceifava um campo de peitos e barrigas e cabeças, o machado escorrendo sangue, sangue que escorria pelo cabo e empapava as grossas fibras de corda que envolviam o seu punho a fim de que as minhas mãos não escorregassem. De tudo me esquecera. Tudo o que queria era ver plumas cor de púrpura tingidas de vermelho. Se alguém tivesse posto um elmo troiano na minha cabeça e me tivesse empurrado contra os meus próprios homens, mesmo assim teria massacrado todos os que me aparecessem pela frente. O mal e o bem não existiam, apenas o desejo ardente de matar . Esse era o sentido de todos os meus anos sob o sol, esse era o meu destino de homem mortal: ser uma máquina de matar perfeita. Reduzimos a pó o solo de Sigeu sob a violência das nossas botas; a poeira erguia-se muito acima das nossas cabeças e demandava a abóbada celeste.
Embora em batalhas posteriores viesse a comportar-me com mais lógica (e a pensar nos meus soldados), naquela batalha de Sigeu, o bem-estar dos meus homens foi coisa que nunca me ocorreu. Tanto me fazia quem estava vencendo ou quem estava perdendo: a única coisa que me interessava era que eu estivesse vencendo. Se o próprio Agamêmnon estivesse combatendo a meu lado, eu não teria dado por isso. Nem mesmo Pátrocles abalava o meu furor, ainda que fosse ele a razão por que sobrevivi à batalha, pois foi ele quem repeliu os Troianos que tentavam atacar-me pelas costas. De súbito, um escudo surgiu no meu caminho. Desferi-lhe um golpe portentoso, pois queria ver o rosto que o escudo ocultava. Porém, tal uma seta, o guerreiro desviou-se e a ponta da sua espada roçou-me o braço direito. Como se tivesse mergulhado num tanque de água gelada, tratei de recobrar o alento; depois, tremi de exultação pois o meu inimigo baixou o seu escudo para me ver melhor . Finalmente um príncipe! Todo vestido de ouro. O machado que ele usara para abater Iolau desaparecera e fora substituído por uma espada. Rosnando de intenso prazer, enfrentei-o sofregamente. Era um homem enorme e tudo nele revelava que estava acostumado a vitórias—além do que era o primeiro homem que ousara desafiar-me. Descrevemos cautelosamente um círculo, o meu machado açoitando o chão até ao momento em que ele me deu uma abertura. Quando saltei e girei sobre ele, o príncipe troiano desviou-se num ápice; mas eu também fui rápido: esquivei-me da sua espada tão facilmente como ele fugiu do meu machado. Compreendendo ambos que havíamos encontrado um inimigo valoroso, decidimos entregar-nos ao duelo com igual dose de paciência e firmeza. O bronze retinia contra o bronze revestido de ouro, parada atrás de parada; nenhum de nós conseguia ferir o outro e cada um de nós estava consciente de que os soldados, tanto troianos como gregos, se haviam afastado para que os dois gigantes tivessem o espaço de que precisavam. Sempre que eu falhava o alvo, ele desatava a rir, ainda que, em quatro lugares, o seu escudo dourado revelasse já o bronze e o estanho que havia por debaixo do bronze. Tinha de combater a minha raiva tão duramente como combatia contra ele—como era possível que ousasse rir? Os duelos eram uma coisa sagrada, os homens não podiam ridicularizá-los! Ele não sentia esse caráter sagrado dos duelos e isso deixava-me raivoso. Duas investidas fiz e ambas falhei. Então, o príncipe troiano falou. — Como é que se chamas? Príncipe Canhestro?—perguntou-me ele,
rindo. — Aquiles!—respondi, os dentes quase cerrados de fúria. Desatou a rir ainda com mais gozo. — Nunca ouvi falar de ti, príncipe Canhestro! Eu sou Quicnos, filho de Poseidon das Profundezas. — Filho de Poseidon: todos os homens mortos fedem ao mesmo, sejam os seus pais deuses ou homens!—gritei-lhe. Uma resposta que o fez rir ainda mais. Senti erguer-se dentro de mim a mesma raiva que experimentara quando vira Ifigênia morta no altar e esquecime de todas as regras de combate que Quíron e o meu pai me haviam ensinado. Com um grito agudíssimo, lancei-me sobre ele, enfrentando a ponta da sua lâmina e erguendo o meu machado. Ele recuou de um salto e tropeçou; a espada caiu e eu desfila numa centena de fragmentos. Logo surgiu à minha frente o seu escudo, tão grande como um homem e com uma cintura fina; protegia assim as suas costas enquanto corria, abrindo caminho por entre os soldados troianos, movido por tresloucado desespero, gritando para que lhe dessem uma lança. Alguém lhe atirou a arma que pedira, mas eu estava demasiado perto das suas costas para que ele a pudesse usar . O meu inimigo não tinha outra alternativa senão manter a retirada. Mergulhei por entre as hostes troianas sempre no seu encalço. Não houve um único soldado que ensaiasse sequer desferir-me um golpe, fosse porque estavam demasiado assustados, fosse porque respeitavam os tradicionais princípios do duelo (na verdade, nunca cheguei a saber por que me deixaram passar incólume). A multidão de guerreiros diminuia; a certa altura, as hostes combatentes ficaram definitivamente para trás; por fim, um rochedo que se erguia na praia obrigou Quicnos, o filho de Poseidon, a parar . Com a lança descrevendo lentos círculos, virou-se para me enfrentar . Parei também, esperando que ele arremessasse a lança; contudo, Quicnos preferia não a usar como um dardo. Uma opção inteligente, visto que eu tinha ainda na minha posse tanto o machado como a espada. Desviei-me num ápice quando ele tentou pela primeira vez espetar-me a ponta da lança. Vezes sem conta investiu contra o meu peito, mas eu era jovem e as minhas pernas tão ágeis como as de um homem muito mais leve do que eu. Por fim, a oportunidade surgiu e não a deixei escapar: investi contra ele e quebrei-lhe a lança. Tudo o que ele tinha agora era o punhal. Não se dando ainda por derrotado, as suas mãos tateavam a armadura à procura da última
arma. Nunca desejara tanto ver uma criatura morta como aquele bufão— contudo, não queria abatê-lo com o machado ou a espada. Deixei cair o machado e desfiz-me do pesado cinto que suportava a minha espada. Por fim, atirei para o chão o meu punhal. O sorriso de gozo apagou-se finalmente no seu rosto. Encarava-me finalmente com o respeito que eu jurara arrancar-lhe. Apesar disso, porém, ainda ousava dirigir-me a palavra! — Como disse que se chama, príncipe Canhestro? Aquiles? Consumia-me uma raiva dolorosa; não consegui responder-lhe. Ele não estava suficientemente perto do deus para entender que um duelo entre dois membros da realeza seria sempre algo de tão silencioso como sagrado. Avancei para ele e deitei-o por terra antes que conseguisse pegar o punhal; ergueu-se trôpego e recuou até que os seus calcanhares chocaram contra o cume do rochedo. Tropeçou e todo o seu corpo se esparramou sobre o leito rochoso para lá do cume. Perfeito. Peguei no seu queixo com uma mão e usei a outra como se fosse um martelo, esmagando-lhe a cara até esta se transformar numa massa indistinta, quebrando-lhe todos os ossos que houvesse por debaixo da pele ou da carne, sem me preocupar minimamente com os danos que pudesse infligir a mim mesmo. O elmo dele saltara-lhe da cabeça, desfeito; peguei nas compridas correias que agora pendiam frouxas e arrastei-as com toda a força sob o queixo e as fiz descer até ao pescoço e com elas lhe cingi e apertei o mesmo enquanto punha o meu joelho sobre a barriga dele; e tanto lhe apertei o pescoço que o seu rosto ficou negro e os seus olhos ressaltaram das órbitas como se fossem enormes bolas raiadas do sangue do horror . O príncipe troiano já devia estar morto há algum tempo quando as minhas mãos largaram as correias; tinha aos meus pés algo que se assemelhava mais a um objeto do que a um homem. Por um momento, sentime enojado, pois me dei conta de toda a imensidão do meu desejo de matar; venci porém essa fraqueza e ergui Quicnos sobre os meus ombros, dependurando depois o seu escudo sobre as minhas costas a fim de protegêlas, já que teria ainda de passar pelas hostes troianas. Queria que os meus Mirmidões e todos os outros Gregos vissem que eu não perdera o duelo com Quicnos, nem a batalha. Um pequeno destacamento conduzido por Pátrocles esperava-me no limite extremo do campo de batalha; regressamos às nossas linhas sem sofrer
sequer um arranhão. Mas parei para deitar por terra Quicnos, aos pés dos seus próprios soldados, a língua inchada espreitando por entre os lábios dilacerados, os olhos ainda esbugalhados. — O meu nome—gritei—é Aquiles! Os Troianos romperam a fugir nesse instante; o homem que consideravam um imortal era afinal tão mortal como eles. Seguiu-se então o ritual que coroa um duelo de morte entre membros da realeza; retirei-lhe a armadura, que passaria a fazer parte dos meus despojos de guerra, e mandei a carcaça dele para a vala do lixo de Sigeu, onde seria comida pelos cães da cidade. Antes, porém, cortei-lhe a cabeça e enfiei-a numa lança: uma estranha visão, com aquele rosto medonhamente deformado e as belas tranças douradas absolutamente intactas. Dei-a a Pátrocles, que a cravou na haste da lança como se fosse uma bandeira. De súbito, todo o exército de Tróia debandou. Como os soldados troianos sabiam para onde fugir, seria praticamente impossível apanhá-los. A retirada processou-se, aliás, de uma forma perfeitamente disciplinada. Porém, o campo de batalha e Sigeu eram nossos. Agamêmnon ordenou o fim da perseguição, uma ordem a que eu não queria obedecer e por isso continuei a marcha; até que Ulisses me deteve e, com violência, me obrigou a virar-me para ele. Que forte que ele era! Muito mais forte do que parecia! — Deixe as coisas como estão, Aquiles—disse ele.—As portas estarão fechadas—poupe as suas energias e os seus homens para amanhã, caso os Troianos tentem nos atacar de novo. Temos ainda de tratar de muitas coisas antes que escureça. Constatando o bom senso das suas palavras, regressei com ele à praia, Pátrocles a meu lado como sempre, os Mirmidões atrás de nós, entoando o canção da vitória. Ignoramos as casas da aldeia: se havia mulheres lá dentro, não as queríamos. Logo que os nossos pés pisaram os seixos da praia, paramos estupefatos. Por toda a praia jaziam homens, mortos, moribundos, feridos. De todos os lados vinham gritos, berros, gemidos, súplicas aflitas. Alguns dos corpos mexiam-se ainda; outros jaziam inertes, esvaídos de vida: as suas sombras demandavam já as desoladas paragens do Reino da Escuridão, os domínios de Hades. Ulisses e Agamêmnon mantiveram-se à parte enquanto os homens se lançavam numa azáfama por causa dos navios, afastando todos aqueles cujos esporões haviam fendido os costados de outras embarcações;
entretanto, a praia estava limpa e os nossos homens transferidos para os navios. Quando ergui os olhos para o Sol, verifiquei que declinava já; restava-nos apenas um terço do dia. Os meus músculos pareciam exaustos, o meu braço demasiado pesado; o machado, arrastava-o pelo chão, a correia presa na minha mão. Não poderia fazer outra coisa senão juntar-me a Agamêmnon, que me fitava boquiaberto. Era óbvio que o rei supremo não evitara a batalha, pois a sua couraça tinha as correias atadas e o seu rosto estava sujo de sangue e porcaria. E agora que podia vê-lo calmamente, verifiquei que Ulisses tinha a couraça fendida ao meio, de tal modo que se via o peito; no entanto, a sua pele não apresentava um único ferimento.— Esteve tomando um banho de sangue, Aquiles?—perguntou o rei supremo. —Está ferido? Abanei a cabeça, como que aturdido; a reação à tempestade de emoções que experimentara começava a fazer-se sentir e aquilo que eu aprendera acerca de mim mesmo ameaçava abrir as portas da minha mente às Filhas de Kore. Poderia eu viver com tal fardo e não enlouquecer? Então, pensei em Ifigênia e compreendi que não perder a razão fazia parte do meu castigo. — Com que então o homem do machado era você!—disse Agamêmnon. —Pensei que fosse Ájax. Mas não há dúvida: você merece a nossa gratidão. Quando trouxe o cadáver do homem que matou Iolau, os Troianos perderam todo o ânimo. — Duvido que fosse eu o responsável, rei supremo—consegui responderlhe.—Os Troianos já tinham sofrido muitas baixas—e continuavam a sofrêlas. Quicnos foi apenas uma questão pessoal: ele escarneceu da minha honra. Ulisses pegou-me de novo no braço, mas desta vez suavemente. — O teu navio está ali, Aquiles. Embarque antes que ele parta. — Partir? Para onde?—perguntei, perplexo. — Não sei. A única coisa que sei é que não podemos continuar aqui. Deixe que Tróia enterre os seus cadáveres. Télefo diz que há uma boa praia junto a uma lagoa, logo à entrada do Helesponto. Vamos dar uma olhada no local. Pode ser que sirva. Afinal, a maior parte dos reis seguiu no navio de Agamêmnon; a frota rumou a norte, ao longo da costa, até que atingimos a foz do Helesponto; os primeiros navios gregos a entrarem nessas águas numa geração enfrentaram serenamente as altas ondas. Só ao fim de uma ou duas léguas, as colinas de
água que envolviam os seus costados deixaram ver uma praia muito mais extensa e ampla do que a de Sigeu, com mais de uma légua de comprimento. Em ambas as pontas da praia, rios corriam para o mar, os seus bancos de areia envolvendo uma lagoa quase completamente cercada de terra. A única entrada para a salgada lagoa era uma estreita passagem a meio; as águas da lagoa eram de uma serenidade absoluta. A margem mais longínqua de cada rio era coroada por um promontório e, no topo do promontório que coroava o maior e mais sujo dos rios, havia uma fortaleza, deserta agora, pois os seus homens deveriam por certo ter fugido para Tróia. Nenhuma cabeça espreitava para ver a nau capitânia de Agamêmnon avançando rumo à praia. Por outro lado, todos os pequenos navios que eram usados na cobrança dos tributos permaneciam parados na praia. Enquanto nos concentrávamos na amurada, Agamêmnon virou-se para Nestor e perguntou-lhe: — Nestor, crê que este local serve?—Aos meus olhos inexperientes nestas coisas, parece-me esplêndido. Mas julgo que será melhor ouvir a opinião de Fênix. — É um bom lugar, rei supremo—disse eu, timidamente.—Não será fácil nos atacarem aqui. Os rios os impedirão de nos flanquearem, embora as forças mais próximas de cada um dos rios fiquem mais vulneráveis do que as outras. — Nesse caso, preciso de voluntários para se instalarem junto aos rios— disse o rei supremo, após o que acrescentou, um tanto envergonhado:—Os meus navios terão de ficar no centro da praia—por uma questão de facilidade de acesso. — Eu ficarei com o rio maior—disse eu rapidamente—e fortificarei o meu campo com uma paliçada para o caso de sermos atacados. Uma defesa no interior de outra defesa. O rei supremo fitou-me com cara de poucos amigos. — Pelas tuas palavras, até parece que vamos ficar muito tempo por estas paragens, filho de Peleu. Olhei-o bem nos olhos. — E vamos, rei supremo. É um fato que tem de aceitar . Mas Agamêmnon nunca aceitaria esse fato. Desatou imediatamente a dar ordens quanto aos locais a que aportariam os diversos navios, enfatizando sempre o caráter temporário de tais medidas.
A nau capitânia permaneceu no meio da lagoa, enquanto, um a um, todos os navios avançavam lentamente na direção da praia; porém, antes da noite cair, um terço dos navios não tinha ainda aportado. Os meus próprios navios continuavam nas águas do Helesponto, tal como os de Ájax, do Pequeno Ájax, de Ulisses e Diomedes. Seríamos os últimos de todos. Felizmente, o tempo continuava bom e o Helesponto não estava demasiado agitado. Enquanto o Sol se despedia nas minhas costas, atentei friamente, pela primeira vez, no lugar escolhido, e devo dizer que fiquei satisfeito. Com uma boa muralha para lá das filas de navios descansando na praia, o nosso acampamento seria quase tão invulnerável como Tróia. A qual se erguia a leste como uma montanha, mais próxima de nós aqui do que em Sigeu. íamos precisar de uma boa muralha defensiva; Agamêmnon estava errado. Tróia não cairia num dia, tal como não fora construída num só dia. Logo que todos os navios se distribuíram convenientemente pela praia, com os calços sob os cascos e os mastros baixados—havia quatro séries de mastros—enterramos o rei Iolau de Fílace. O cadáver foi trazido da sua nau capitânia e colocado num esquife elevado no alto de um outeiro verdejante; um a um, os homens das nações da Grécia marcharam diante dele e os sacerdotes entoaram os seus cânticos e os reis derramaram as libações. Como fora eu quem matara o homem que roubara a vida a Iolau, era meu dever pronunciar a oração fúnebre; lembrei ao silencioso exército a serenidade com que Iolau aceitara o seu destino, a coragem com que combatera antes do golpe fatal, e a identidade daquele que o matara, um filho de Poseidon. Sugeri depois que a sua coragem fosse celebrada por algo mais perene do que um elogio fúnebre e perguntei a Agamêmnon se poderíamos dar a Iolau um novo nome, o nome de Protesilau, que significava “o primeiro entre o povo”. Foi-me concedido o seu solene consentimento; a partir desse momento, o povo de Fílace chamar-lhe-ia Protesilau. Os sacerdotes cobriram o seu rosto adormecido com a máscara mortuária de ouro e despiram-lhe o sudário para revelarem a opulência de um traje tecido a ouro. Depois, o colocamos numa barca que atravessou o maior dos rios, aportando ao local onde os pedreiros haviam trabalhado dia e noite para escavarem o seu túmulo nas pedras do promontório. O carro mortuário foi conduzido para dentro do túmulo e este foi finalmente tapado e os pedreiros começaram a deitar terra pela pedregosa abertura; dentro de uma ou duas estações, olho nenhum—nem mesmo o mais penetrante—conseguiria localizar o túmulo do rei Protesilau.
Iolau, ou Protesilau, cumprira a profecia e enchera de orgulho o seu povo.

Capítulo Décimo Quarto

Narrado por Ulisses

As operações de aportagem e distribuição pela praia de mais de mil e cem navios ocuparam todo o meu tempo e mobilizaram todas as minhas energias nos dias que se seguiram à primeira batalha em solo troiano. O total de embarcações diminuíra um pouco, pois alguns dos pretendentes mais pobres à mão de Helena não podiam se dar ao luxo de construir navios tão capazes como, por exemplo, os de Agamêmnon. Várias dezenas de navios tinham afundado, devido a rombos provocados por choques, durante a frenética corrida para a praia de Sigeu. Contudo, não tínhamos perdido nenhum dos navios de abastecimento, nem aqueles que transportavam cavalos para os nossos carros. Para minha grande surpresa, os Troianos não se aventuraram sequer a aproximar-se do nosso acampamento, um fato que Agamêmnon interpretou como um sinal seguríssimo de que a resistência troiana sofrera um golpe decisivo. Assim, com toda a frota convenientemente instalada na praia, a fim de que os seus cascos não inchassem e abrissem fendas por absorverem demasiada água, o nosso rei supremo tratou de convocar um conselho. Agamêmnon estava tão entusiasmado com o êxito alcançado em Sigeu que não faria sentido tentar levá-lo a ver as evidências; aquilo que ele interpretava como um feito grandioso se revelaria em breve uma ação menor . Resolvi deixá-lo expender à vontade as suas opiniões, perguntandome quem ousaria pôr em causa uma tão efervescente confiança. Como era de regra, Agamêmnon pronunciou o seu discurso no meio do mais absoluto silêncio; porém, mal entregou o Bastão a Nestor (não sei porquê, Calcas não estava presente), Aquiles já estava de pé pedindo a Nestor que lhe passasse o Bastão. Sim, claro: só Aquiles ousaria. Não procurei sequer esconder o meu sorriso. O rei Leão fora já obrigado a digerir uma farta dose de contestação por parte do rapaz de lolcos; pelos sulcos que agora se vincavam na sua testa, imaginei que o leonino Agamêmnon estivesse sofrendo de cruciantes dores de indigestão. Teria havido na história do mundo uma empresa tão valorosa e ousada como a nossa que tivesse começado tão mal? Tempestades, um sacrifício humano, ciúmes, ganância, uma extrema antipatia entre
indivíduos que, muito provavelmente, acabariam por precisar uns dos outros. E o que é que passara pela cabeça de Agamêmnon para mandar o seu primo Egisto para Micenas, a fim de controlar os movimentos de Clitemenestra? Uma ação que considerei tão temerária como a partida de Menelau para Creta, deixando Páris na sua casa. É que Egisto tinha legítimas pretensões ao trono de Micenas! Provavelmente, os filhos de Atreu tinham esquecido do que Atreu fizera aos filhos de Tiestes. Cozinhara-os e servira-os ao próprio pai durante um banquete! Egisto, então muito pequeno, escapara ao horrendo destino dos seus irmãos mais velhos. Bom, mas isso não era problema meu. Em contrapartida, o abismo que continuava a cavar-se entre Agamêmnon e Aquiles era, sem a menor dúvida, o maior dos meus problemas. Se Aquiles fosse uma simples máquina de combate como o seu primo Ájax, nunca teria havido abismo nenhum. Mas Aquiles era tão bom pensando como combatendo. O sorriso esfumou-se no meu rosto quando dei comigo a pensar que, se tivesse nascido num berço tão magnífico como o daquele jovem e com a mesma força física que ele, mantendo embora todas as peculiaridades da minha mente, seria muito possível e natural que tivesse acabado por conquistar o mundo. O fio que me ligava à vida era mais forte do que o dele; parecia-me plausível que viesse a estar presente quando os sacerdotes cobrissem o rosto sem lábios de Aquiles com uma máscara de ouro também sem lábios; contudo, haveria nos feitos do rapaz de lolcos uma glória que eu nunca alcançaria. Experimentei uma sensação semelhante à perda, ao compreender que Aquiles possuía uma chave qualquer para o sentido da vida que, não obstante todos os meus esforços, sempre me escapara. Seria realmente uma coisa boa um homem ser tão cerebral, tão frio? Ah, se ao menos eu pudesse arder uma única vez, tal e qual como Diomedes ansiava por uma só vez gelar! — Se os Troianos não saírem da cidade para lutar—disse o filho de Peleu, num tom perfeitamente sereno—,duvido que consigamos conquistar Tróia. Os meus olhos alcançam distâncias que a maior parte dos outros olhos não enxergam sequer e, nestes últimos dias, tenho estudado aquelas muralhas que, em tua opinião, nós superestimamos. Não posso concordar contigo, Agamêmnon. Pelo contrário: eu creio que as subestimamos. Só haverá uma maneira de esmagarmos Tróia: atrair os Troianos para a planície defronte das
muralhas e derrotá-los em campo aberto. E isso não será fácil. Teremos de flanqueá-los, teremos de impedir que se retirem para a cidade e que voltem no dia seguinte para combater . Não acha que seria sensato se, ao discutirmos a conquista de Tróia, tivéssemos sempre em mente tal possibilidade? Seremos nós incapazes de urdir uma artimanha qualquer que leve os Troianos a abandonarem as suas muralhas? Desatei a rir . — Aquiles, se você estivesse dentro de muralhas tão altas e grossas como as de Tróia, as abandonaria para se envolveres numa batalha? No que toca a batalhas, Sigeu foi para os Troianos a melhor das oportunidades, pois combateram contra um inimigo que acabava de desembarcar . No entanto, nem mesmo em Sigeu conseguiram vencer-nos. Se eu fosse Príamo, manteria os soldados no alto das muralhas, onde podem escarnecer de nós à vontade. Aquiles não ficou nada impressionado com os meus argumentos. — Aquilo que exprimi, Ulisses, não era mais do que uma vaga esperança. contudo, não consigo ver como é que poderemos tomar de assalto àquelas muralhas ou abater aquelas portas. E você, consegue? — Oh, mas eu nem sequer queria falar!—retorqui.—Já falei demais sobre este assunto. Quando houver ouvidos preparados para me escutarem, voltarei a falar . Por ora, me calo. — Os meus ouvidos estão preparados para te escutar—replicou ele rapidamente. — Os teus ouvidos, Aquiles, não são suficientemente importantes. Os ouvidos de Agamêmnon é que não gostaram nada do que ouviram. — Tróia não conseguirá resistir!—exclamou. — Nesse caso, rei supremo—teimou Aquiles—,se não houver amanhã nenhum sinal das tropas troianas na planície diante das muralhas, está de acordo que nos desloquemos a Tróia, a fim de inspecionarmos mais de perto essas mesmas muralhas? — Claro—retorquiu, altivo, o rei supremo. Quando o conselho terminou (sem decidir nada mais significativo do que um passeio até às muralhas de Tróia), acenei para Diomedes. Pouco depois, o tinha na minha tenda. Servido o vinho e dispensados os criados, Diomedes permitiu que a sua curiosidade se exprimisse; começava a aprender a controlar o seu ardente fogo. — O que é que se passa?—perguntou ele, sôfrego de novidades.
— Tem de se passar alguma coisa? Eu te pedi que viesse porque gosto da tua companhia. — Da nossa amizade, eu já sei, Ulisses... O que eu estranhei foi a expressão com que me acenaste... Alguma coisa está em marcha. O quê? — Sim senhor ... Cada vez conhece melhor as minhas peculiaridades... — Os mecanismos da minha mente podem ter sido muito maltratados pela guerra, mas a verdade é que ainda sei distinguir o cheiro de um junquilho do fedor de um cadáver . — Bom, nesse caso, te proponho que consideremos esta nossa reunião como um conselho privado. De todos nós, você é quem mais sabe de guerra. De todos nós, você é quem melhor sabe tomar de assalto uma fortaleza. Você conquistou Tebas e construiu um templo com os ossos dos teus inimigos—por todos os deuses, a paixão que não te terá consumido para fazeres uma coisa dessas! — Tróia não é Tebas—retorquiu ele calmamente.—Tebas é uma cidade grega, uma parte das nossas nações unidas. Esta é uma guerra contra a Ásia Menor . Porque é que Agamêmnon não quer ver isso? No Egeu, há apenas duas grandes potências—a Grécia e a Federação da Ásia Menor, a qual inclui Tróia. Babilônia e Nínive estão muito pouco preocupadas com o que acontece no Egeu, e o Egito está tão longe que os Ramsés não se preocupam rigorosamente nada. Parou, com um ar embaraçado. — Mas quem sou eu para te dar lições? — Não se subestime, Diomedes. Esse teu sumário é magnífico. Oxalá houvesse no conselho de hoje mais umas quantas cabeças que pensassem com metade da lógica com que você pensa! Diomedes bebeu um gole de vinho para disfarçar o intenso prazer que o meu comentário provocara. — Eu conquistei Tebas, é verdade, mas só depois de uma batalha campal. Entrei em Tebas por cima dos cadáveres dos seus homens. É provável que Aquiles estivesse pensando nisso quando falou da eventualidade de atrair os Troianos à planície. Mas Tróia? Em Tróia, uma dúzia de mulheres e crianças chegarão para nos manter eternamente a ladrar às portas da cidade... — A solução é fácil: os deixamos morrer de fome—disse eu. Diomedes desatou a rir . — Ulisses, você é incurável! Sabe perfeitamente que as leis de Zeus
Hospitaleiro proíbem isso. Como enfrentaria as Fúrias se submetesse uma cidade pela fome? — As filhas de Kore não me metem medo. Já as enfrentei, há uns anos atrás. Seria aquela mais uma prova da minha irreligiosidade?, foi a pergunta que li na expressão de Diomedes. Contudo, o meu amigo não chegou a verbalizar essa pergunta. Em vez disso, perguntou-me: — Então? A que conclusões chegou? — Até agora, só uma. Esta campanha vai ser muito longa—vai durar anos. Por isso, tomarei as minhas decisões tendo isso em mente. O meu oráculo caseiro disse que eu estaria fora vinte anos. — Como pode acreditar tão piamente num humilde oráculo caseiro, se, ao mesmo tempo, cometeu a impiedade de advogar a fome para submeter um inimigo? — O oráculo caseiro—expliquei-lhe, pacientemente—pertence à Mãe. À Terra. Ela está muito próxima de nós em todas as coisas. É ela que nos lança neste mundo e é ela quem nos recolhe no seu seio quando a nossa caminhada chega ao fim. Contudo, a guerra é um domínio dos homens. O modo como se faz a guerra deveria depender unicamente da decisão humana. Do meu ponto de vista, todas essas malditas leis que regulamentam a guerra acabam afinal por proteger o inimigo. Um dia, surgirá um homem que, desesperado por obter uma vitória, infringirá todas essas leis—e, depois dele, tudo será diferente! Esse homem submeterá uma cidade pela fome e, depois dele, todos quererão imitá-lo. Eu quero ser esse homem! — Não, Diomedes, eu não sou ímpio! Sou apenas um homem que perde a paciência com todas estas limitações! Não duvido que o mundo cantará os feitos de Aquiles até ao dia em que Cronos volte a casar-se com a Mãe—até ao fim dos tempos! Mas será, da minha parte, uma vaidade desmedida querer que o mundo cante também os meus feitos? Eu não possuo as vantagens de Aquiles—não possuo o seu físico magnífico, nem sou filho de um rei supremo. Tenho de me limitar àquilo que possuo—inteligência, astúcia, sutileza. Não são maus instrumentos. Diomedes estirou-se. — Não, de fato não são nada maus. Mas quais são os teus planos para esta longa campanha? — Começarei amanhã, depois de voltarmos da inspeção às muralhas de Tróia. Tenciono selecionar um pequeno exército só meu, a partir das
gigantescas hostes gregas. — Um exército só teu? — Sim, só meu. Não será um exército igual aos outros, não serão soldados iguais aos outros. Vou recrutar apenas valentões, desordeiros e rebeldes. Ou, mais exatamente, vou recrutar os piores exemplares de cada um desses lotes. Diomedes ficou embasbacado, estupefato. — Só podes estar brincando, Ulisses! Desordeiros? Rebeldes? Valentões? Mas que raio de exército vai ser esse? — Diomedes, ignoremos por ora a questão de saber qual dos oráculos tem razão: se o meu, que fala em vinte anos, se o de Calcas, que fala em dez. Bom, de qualquer modo, dez anos ou vinte anos é sempre muito tempo.— Arrumei a minha taça de vinho e soergui-me no divã.—Numa campanha curta, um bom oficial é capaz de manter os desordeiros ocupados, tal como é capaz de manter os valentões rigorosamente vigiados, de modo a que a sua fanfarronice não prejudique os outros homens. Do mesmo modo, não lhe é difícil impedir que os rebeldes influenciem outros soldados. Porém, numa campanha longa, a discórdia é mais do que certa. Não teremos batalhas todos os dias—nem mesmo todas as luas—ao longo dos próximos dez ou vinte anos. Haverá luas e luas de ociosidade, sobretudo durante o Inverno. E, durante esses períodos de ociosidade, as línguas começarão a trabalhar e farão tantos e tais danos que os murmúrios de descontentamento ganharão as proporções de um berro! Diomedes parecia divertido com a minha exposição. — Então e os covardes? — Oh, os covardes não os quero! Os outros comandantes que fiquem com eles, sempre servem para escavar as fossas! O meu amigo riu. — Muito bem. Depois de ter recrutado o teu pequeno exército, o que é que vai fazer com ele? — O manterei permanentemente ocupado. Atribuirei aos seus membros tarefas em que os seus talentos possam florescer . A categoria de homens em que estou pensando não é a dos poltrões. É a dos perversos, dos maus, daqueles que têm a ruindade na alma. Os desordeiros não querem outra coisa senão causar desordens. Os fanfarrões só ficam contentes quando põem em perigo as vidas dos outros, para além das suas próprias vidas. E os rebeldes seriam capazes de se queixar a Zeus da qualidade do néctar e da
ambrósia do Olimpo. Amanhã, falarei com todos os comandantes e lhes pedirei os três piores exemplares dos seus exércitos, excluindo os covardes. Claro que os comandantes ficarão contentíssimos por se verem livres de tais pestes. Mal concluido o recrutamento, os colocarei para trabalhar . Embora soubesse que eu estava deliberadamente a espicaçá-lo, Diomedes não conseguiu resistir a morder a isca. — A trabalhar em quê?—perguntou. Resolvi continuar a espicaçá-lo. — Nos limites da praia, não muito longe do lugar onde se encontram os meus navios, há um vale natural. Ninguém o vê, embora se encontre perto do acampamento o suficiente para que Agamêmnon o inclua dentro das muralhas que vai ter de erigir para proteger os nossos homens e navios de eventuais ataques troianos. É um vale bastante fundo, e suficientemente grande para conter as casas necessárias para alojar, com extremo conforto, cerca de trezentos homens. O meu exército viverá nessa cova. Aí, no mais absoluto isolamento, os treinarei para o trabalho que irão efetuar . Uma vez recrutados, não voltarão a ter contatos com as suas antigas unidades, nem com o grosso do exército. — Mas que trabalho é esse, Ulisses? — Vou criar uma colônia de espiões, Diomedes. Uma resposta que ele não estava esperando. Ficou olhando para mim, confuso. — Uma colônia de espiões? Mas que raio é isso? O que é que os espiões fazem? Para que é que servem? — Servem para muito, Diomedes, servem para muito—disse eu, entusiasmado.—Pensa um pouco, Diomedes! Mesmo dez anos é muito tempo na vida de um homem—por vezes é um sétimo ou um oitavo dessa vida, mas outras vezes é um terço ou mesmo metade. Entre os meus trezentos homens, haverá alguns com todas as condições para se passearem pelos diversos pisos de um palácio e é isso que eles farão. Ao longo deste primeiro ano, distribuirei alguns desses homens pela própria cidadela de Tróia. A outros que também gostem de representar, os distribuirei por todos os estratos baixos e médios da cidade desde os escravos aos mercadores. Quero ficar a par de todos os movimentos de Príamo. — Pelo Senhor do Trovão!—exclamou Diomedes. Depois, pôs um ar céptico.—Serão detectados imediatamente. — Porquê? Não se esqueça de que, quando entrarem em Tróia, esses homens terão treino de sobra... Creio que não percebeu um aspecto: os meus
trezentos homens possuem todos uma inteligência superior—todos os bons desordeiros, valentões e rebeldes são indivíduos brilhantes. Um homem estúpido nunca é um perigo para as hostes. Eu já estive dentro de Tróia e, enquanto estive lá, memorizei a versão troiana do Grego—o sotaque, a gramática, o vocabulário. Não se esqueça de que sou muito bom em línguas. — Eu sei, eu sei—disse Diomedes, com um sorriso imenso. — Além disso, descobri muitas coisas que não comuniquei ao nosso caro amigo Agamêmnon. Antes de entrarem em Tróia, os meus espiões saberão tudo o que é preciso saber . Alguns deles—aqueles que não têm queda para as línguas—dirão que são escravos e que fugiram do nosso acampamento. Como não precisam esconder que são Gregos, serão particularmente valiosos. Outros que tenham alguma queda para as línguas se disfarçarão de Lícios ou Cários. E isto disse eu, radiante, as mãos atrás da cabeça—é só o princípio! Diomedes respirou fundo. — Agradeço a todos os deuses o fato de estar do nosso lado, Ulisses. Detestaria o ter como inimigo. Toda a cidade de Tróia se encontrava no alto das muralhas para ver desfilar o supremo rei de Micenas à frente de toda a realeza grega. Reparei na crescente vermelhidão que se formou nas faces de Agamêmnon, à medida que os seus ouvidos iam captando os apupos e a chacota que o incessante vento troiano até nós trazia. Fiquei profundamente contente pelo fato de Agamêmnon não ter levado consigo o exército. Doía-me o pescoço de tanto olhar para as alturas; porém, quando chegamos à Cortina Ocidental, examinei-a com todo o cuidado, já que, durante a minha visita a Tróia, não tivera oportunidade de vê-la por fora. Só ali seria possível tentar o assalto. Ainda que o próprio Agamêmnon já tivesse desistido de tal idéia logo que deixamos para trás a Cortina Ocidental. Era uma porção demasiado curta, no que tocava ao comprimento. Quarenta mil troianos estariam no alto das muralhas à nossa espera, lançando azeite fervente para cima das nossas cabeças, pedras acabadas de retirar das fogueiras, carvão em brasa, até mesmo excrementos. Quando ordenou o regresso ao acampamento, Agamêmnon tinha o desânimo estampado no rosto. Não convocou nenhum conselho; os dias foram passando sem ações nem decisões. E eu deixei-o sozinho com as suas angústias, pois tinha mais que fazer do que discutir com ele. Comecei a reunir os homens que iriam formar
a minha colônia de espiões. Os comandantes não se opuseram minimamente às minhas pretensões. Pelo contrário: era com imensa alegria que se viam livres dos seus mais intrincados problemas. Pedreiros e carpinteiros trabalhavam duramente no vale, erigindo trinta sólidas casas de pedra e um edifício mais amplo que seria usado para as refeições, os divertimentos e a instrução. Os meus recrutas começavam também a trabalhar à medida que iam chegando; a partir do instante em que eram escolhidos, eram mantidos no mais absoluto isolamento por uma guarda constituída por soldados de Ítaca, distribuídos à volta dos limites do vale. Quanto aos comandantes, pensavam que eu estava construindo uma prisão onde tencionava encarcerar todos os infratores. Quando veio o Outono, tudo já estava pronto. Reuni os meus recrutas no maior salão do edifício principal. Trezentos pares de olhos seguiam-me atentamente enquanto me encaminhava para o estrado: circunspetos ou curiosos, desconfiados ou apreensivos. Já estavam confinados há bastante tempo para saberem que haviam sido privados de vítimas, pois todos eles eram feitos da mesma matéria. Sentei-me num trono real, com garras esculpidas, Diomedes à minha direita. Quando o silêncio se abateu sobre a sala, pus as minhas mãos nos braços do trono e estendi uma perna, pois era essa a pose de um rei. — Têm-se perguntado certamente por que razão eu os trouxe aqui e o que é que lhes acontecerá. Até agora, têm-se limitado a conjecturas. A partir de agora, conhecerão as respostas às vossas perguntas, porque eu vou satisfazer a vossa curiosidade. Em primeiro lugar, cada um de vós tem certos traços de caráter que vos tornam odiosos aos olhos de qualquer comandante. Nenhum de vós é um bom soldado, ou porque põem em perigo as vidas dos outros, ou porque causam dores de barriga a todos os homens com a vossa maldade ou rebeldia. Não quero que haja dúvidas nas vossas mentes quanto às razões por que foram escolhidos. Foram escolhidos porque são odiados por todos. Parei e esperei, ignorando os rostos estupefatos, a raiva, a indignação. Alguns daqueles rostos, porém, permaneciam impassíveis; procurei não me esquecer deles: aqueles eram os homens dotados de capacidades e de uma inteligência superiores. Tudo havia sido convenientemente preparado. Os meus guardas encontravam-se postados à volta do edifício; o seu chefe, Háquios, era um
homem em quem podia depositar toda a minha confiança. As ordens eram claras: matariam todos os homens que saíssem antes de mim. Aqueles que decidissem que as minhas condições eram inaceitáveis não poderiam voltar para o seio do exército. Teriam de morrer . — Deram-se conta da magnitude do insulto?—perguntei-lhes.—Pensem um pouco: as minhas palavras não poderiam ter sido mais insultuosas! Os defeitos que os homens decentes abominam, eu transformarei em qualidades. Haverá compensações para os homens que me servirem— viverão em aposentos dignos de príncipes, não farão trabalho manual, e as primeiras mulheres que o rei supremo distribuir pelos homens, depois de Tróia ter caído, serão para vocês. Entre as missões que efetuarem, terão períodos de descanso adequados. De fato, vocês formarão um corpo de elite sob o meu único comando. Deixarão de servir os vossos reis respectivos ou o rei supremo. Um rei apenas servirão: Ulisses de Ítaca. disse-lhes depois que o trabalho que lhes estava destinado era muito perigoso e invulgar e concluí esta parte do meu discurso acentuando: — Um dia, os profissionais do vosso ofício serão pessoas famosas. A vitória ou a derrota numa guerra dependerão do vosso trabalho. Aos meus olhos, cada um de vós vale um milhar de soldados de infantaria. Deverão por isso entender que o fato de terem sido escolhidos é algo de grandioso. Agora, antes que prossiga, gostaria que discutissem o assunto entre vós. O silêncio persistiu por um breve período; estavam tão surpreendidos que tinham dificuldade em trocar opiniões. Quando a conversa finalmente começou, tratei de examinar atentamente os seus rostos; havia uma dúzia deles que já tinham decidido rejeitar a minha proposta. Um desses homens levantou-se e saiu, mais uns quantos imitaram-no. Háquios esperava do lado de fora da porta aberta. À sala não chegou ruído nenhum, sinal nenhum de tumulto. Saíram mais oito. E Háquios continuou obedecendo às minhas instruções. Como aqueles homens nunca regressariam às suas companhias, os seus antigos comandantes pensariam que estavam comigo. Por outro lado, os seus colegas pensariam que eles haviam regressado às suas antigas companhias. Só Háquios e os seus homens sabiam a verdade e eles eram de Ítaca e conheciam o seu rei. Havia dois homens que me interessavam mais do que todos os outros. Um deles era primo de Diomedes e um tormento constante para qualquer comandante. Chamava-se Tersita. Para além das suas naturais capacidades,
havia na sua história pessoal um dado que muito me atraía: com efeito, dizia-se que Tersita era filho da tia de Diomedes e de Sísifo. O mesmo se dizia de mim: que Sísifo é que era o meu pai, e não Laertes. Esta eventual mancha no meu nascimento nunca me causou a menor angústia; o sangue de um burlão emérito era provavelmente mais útil do que o sangue de um rei como Laertes. Quanto ao outro homem, conhecia-o muito bem; aliás, entre os meus trezentos soldados, era ele o único que sabia por que razão ali estava. Era o meu primo Sinão, que viera na minha comitiva. Um homem maravilhosamente útil que estava ansioso por dar os primeiros passos na sua nova profissão. Tersita e Sinão estavam quietos e impassíveis, os sombrios olhos fixos no meu rosto, embora, de quando em quando, interrompessem o exame da minha pessoa para virarem a cabeça e avaliarem o calibre dos homens com que haviam sido misturados. De súbito, Tersita pigarreou. — Continue, rei Ulisses, diga-nos o resto—disse ele. disse-lhes o resto. — Agora, creio eu, já percebem por que motivo os considero os homens mais valiosos do exército—acentuei, já perto do final do meu discurso.—As vossas missões serão sempre de uma importância extrema, quer visem a transmissão de informações, quer tenham por objetivo lançar a perturbação entre aqueles que governam Tróia. Será criado um sistema seguro de comunicações. Por outro lado, serão claramente definidos os contactos e os locais de encontro entre aqueles que passarem a residir de um modo mais ou menos permanente no interior de Tróia e aqueles que se limitarem a fazer breves visitas à cidade. Ainda que as vossas missões sejam de fato muito perigosas, a verdade é que, quando começarem a trabalhar, disporão já de tudo o que é preciso para lidarem com esses perigos.—Levantei-me.— Pensem um pouco no que acabei de dizer . Voltarei dentro de breves momentos. Retirei-me com Diomedes para uma antecâmara. Aí conversámos e bebemos enquanto, do outro lado da cortina, o som de vozes se erguia e esbatia para logo se erguer de novo. — Presumo—disse Diomedes—que você e eu também entraremos em Tróia de vez em quando... — Claro que sim. Se quisermos controlar homens deste calibre, temos de mostrar-lhes que estamos dispostos a correr riscos ainda maiores do que aqueles a que os sujeitamos. Nós somos reis, os nossos rostos podem ser
reconhecidos... — Helena—disse ele. — Precisamente. — Quando é que começamos as nossas visitas? — Esta noite—disse eu, calmamente.—Há uma boa conduta na seção noroeste das muralhas. É grande o suficiente para deixar entrar um homem de cada vez. A saída no interior das muralhas não tem guardas e é relativamente escondida. Iremos vestidos de pobres, exploraremos as ruas, conversaremos com as pessoas e escaparemos amanhã à noite pela mesma conduta. Não se preocupe, será uma missão bastante segura. Diomedes riu. — Não duvido, Ulisses, não duvido. Bom, acho que é tempo de ouvirmos os nossos homens—disse eu. Tersita fora eleito porta-voz; estava já de pé à nossa espera. — Fala, primo do rei Diomedes—ordenei-lhe. — Rei Ulisses, nós estamos contigo. Daqueles que ficaram quando deixaste a sala, só dois votaram contra a tua proposta. — Dois votos que não contam—disse eu. Havia no olhar de Tersita um brilho sarcástico: ele sabia o que acontecera aos que haviam rejeitado a minha proposta. — A vida que nos propõe—prosseguiu Tersita—é muito melhor do que aquela que levamos num acampamento montado para um cerco, pois nós não conhecemos a virtude da paciência. Enfim, rei Ulisses: nós somos os seus soldados! — Antes desta sessão terminar, é necessário, porém, que cada um de vós pronuncie um juramento adequado. — Todos juraremos—disse ele, impassível, sabendo que o juramento seria tão terrível que nem mesmo ele teria coragem de o infringir . Depois do último homem ter jurado, informei-os de que viveriam em unidades de dez homens; em cada um desses grupos, haveria um oficial, a ser escolhido por mim depois de os conhecer melhor . Contudo, havia dois homens que eu já conhecia muito bem: por isso nomeei Tersita e Sinão chefes da colônia de espiões. Nessa noite, entramos em Tróia com relativa facilidade. Eu fui o primeiro a rastejar pela conduta; Diomedes veio logo atrás de mim. Para Diomedes, não era tão fácil: os seus ombros eram tão largos como a conduta. Uma vez dentro da cidade, encaminhamo-nos furtivamente para um agradável beco,
onde dormimos até de manhã. Depois, misturamo-nos com a multidão. Na imensa praça do mercado perto da Porta Ceia, compramos bolos de mel e pão de cevada e dois copos de leite de ovelha, e tratamos de escutar . O povo não estava nada preocupado com os Gregos que ocupavam a praia do Helesponto; de um modo geral, o estado de espírito dos populares era animado, jovial. Contemplavam com admiração os seus imponentes bastiões e riam da idéia de o beemote grego estar parado e impotente a poucas léguas dali. Todos pareciam achar que Agamêmnon acabaria por desistir e regressar à Grécia. Comida e dinheiro não faltavam, as Portas Dardaniana e Ida continuavam abertas e o tráfego processava-se normalmente. Só o complicado sistema de guardas e sentinelas no alto das muralhas revelava que a cidade estava preparada para fechar as Portas Dardaniana e Ida mal surgisse uma ameaça. Ficamos sabendo que a cidade possuía muitos poços de água boa para beber e um vasto número de celeiros e armazéns onde eram guardados os alimentos não deterioráveis. Ninguém punha a hipótese de uma batalha campal à saída da cidade; os poucos soldados que vimos, ou preguiçavam ou andavam na companhia de prostitutas, além do que haviam deixado em casa armas e armaduras. Todos riam de Agamêmnon e do seu grandioso exército. Diomedes e eu começámos a trabalhar na colônia de espiões logo que regressamos ao acampamento. E o que nós trabalhamos! Havia homens com grandes aptidões e entusiasmo; outros, porém, desanimaram ao fim de pouco tempo e nunca mais se interessaram pela nova profissão que eu lhes propunha. Discuti serenamente o assunto com Tersita e Sinão, que concordaram comigo: os inaptos deveriam desaparecer . Dos trezentos recrutas iniciais, acabei por ficar com duzentos e cinqüenta e quatro e deime por feliz.


Capítulo Décimo Quinto  

Narrado por Diomedes

Ulisses era um homem verdadeiramente notável. Aprendia-se sempre com ele: até mesmo o modo como lidava com um escravo era, por si só, uma fonte de ensinamentos. Ao fim de uma única lua, havia moldado a seu belprazer aqueles duzentos e cinqüenta e quatro homens, apesar de não os considerar ainda prontos para a ação. Passava quase tanto tempo com ele como com os meus homens de Argos; porém, aquilo que com ele aprendia permitia-me controlar e dirigir melhor as minhas tropas—e em metade do tempo de que normalmente precisava. Deixara de haver sinais de descontentamento no meu contingente sempre que eu me ausentava, deixara de haver discussões entre os oficiais; recorria aos métodos de Ulisses e os resultados estavam à vista. Claro que, de quando em quando, ouvia algumas piadas murmuradas; claro que percebia dos olhares maliciosos dos meus nobres sempre que me viam com Ulisses; mesmo os outros reis começavam a interrogar-se acerca da natureza da nossa amizade. O que não me preocupava rigorosamente nada. Não teria ficado nada afetado se fosse verdade aquilo que pensavam. Por outro lado—façamos-lhes justiça—não havia na sua malícia a menor sombra de reprovação. Todos os homens eram livres para satisfazer os seus apetites sexuais com o sexo que muito bem entendessem. Normalmente com o sexo feminino; porém, uma longa campanha num país estrangeiro significava que havia muito menos mulheres disponíveis. As mulheres estrangeiras nunca estariam em condições de substituir condignamente as esposas e as namoradas, as mulheres da nossa própria terra. Em tais circunstâncias, era preferível procurar o lado mais doce do amor com um amigo que combatia ao nosso lado na batalha e que, com a sua espada, repelia o inimigo, enquanto nós tentávamos recuperar a espada que o inimigo deitara por terra. No meio do Outono, Ulisses disseme que fosse prestar as minhas homenagens a Agamêmnon. Assim fiz, curioso quanto ao que estaria em marcha; nos últimos tempos, houvera uma série de conferências secretas entre Nestor e Ulisses, mas Ulisses nada me dissera quanto aos temas dessas conferências. Durante cinco luas, não víramos nem sinal de soldados troianos e o
estado de espírito no nosso acampamento era francamente sombrio. Os alimentos, afinal, não se tinham revelado um problema difícil, pois a costa a norte da Tróada e o lado de lá do Helesponto abundavam em legumes, fruta e animais. As tribos que aí viviam, mal viam os nossos contingentes, corriam esconder-se. Porém, nada disto poderia alterar o fato de que, estando tão longe da pátria, não poderíamos pôr sequer a hipótese de regressar para um breve período de licença. Do rei supremo, não vinha ordem nenhuma: nem para desmobilizar, nem para atacar, nem para nada. Quando entrei na residência de Agamêmnon, Ulisses já estava lá, com um ar perfeitamente descontraído. — Quando Ulisses apareceu, devia ter concluído que terias forçosamente de estar por perto comentou Agamêmnon. Sorri, mas nada disse. — Que pretende afinal, Ulisses? — Um conselho, Agamêmnon. Há muitas coisas que já deviam ter sido discutidas há muito tempo. — Concordo inteiramente! Por exemplo: o que é que se passa num certo vale e porque é que eu nunca consigo encontrá-los, a você e a Diomedes, durante a noite? A noite passada, pensei precisamente em convocar um conselho. Ulisses livrou-se do desagrado imperial com a sua habitual elegância. Começou com um sorriso, o sorriso que era capaz de vencer inimigos implacáveis, o sorriso que era capaz de encantar criaturas muito mais frias do que Agamêmnon. — Rei Agamêmnon, eu direi tudo—mas apenas num conselho. — Muito bem. Fiquem aqui até que os outros venham. Se os deixo sair, são capazes de não voltar . Menelau foi o primeiro a chegar, tão abjeto como sempre. Saudou-nos timidamente e correu enfiar-se no canto mais escuro da sala. Pobre Menelau, oprimido e humilhado Menelau. Talvez começasse agora a se dar conta de que Helena mais não era do que um elemento muito secundário nos planos do seu poderoso irmão, ou talvez começasse a achar que Helena nunca mais voltaria a ser sua. Estes pensamentos agitaram memórias que tinham já quase nove anos; a criatura cuja mão havia sido disputada por tantos pretendentes revelara-se afinal tão dissoluta como uma mulher da rua. Única e exclusivamente preocupada com a satisfação dos seus desejos,
indiferente àquilo que um homem queria. Tão bela! E tão egoísta! Oh, a rodaviva em que Menelau não teria andado por causa dela! Nunca consegui odiá-lo; era um homem demasiado insignificante, suscitava mais a piedade do que o desprezo. E amava-a como eu nunca poderia ter amado uma mulher . Aquiles chegou na companhia de Pátrocles; Fênix vinha atrás deles— fez-me lembrar o cão de Ulisses, Argos, que, em Ítaca, nunca largava o dono. Tão fiel quanto vigilante, assim era Fênix. Saudaram o rei supremo, Aquiles com óbvia relutância. Uma estranha criatura. Reparara que Ulisses não gostava dele. Quanto a mim sentia por ele pouco mais do que indiferença; daí que tivesse decidido adverti-lo de que deveria mostrar-se mais cortês com Agamêmnon. O rapaz, é certo, comandava os Mirmidões; mas isso não era razão para manifestar, de uma forma tão óbvia, a sua aversão ao rei supremo. Ver-se abandonado numa ala, durante uma batalha, era coisa vulgar e fácil de acontecer—e, normalmente, as culpas recaíam no comandante que se via abandonado. Quando vi a expressão dos olhos de Pátrocles, tive de sorrir - aquela, sim, era uma amizade amorosa! Pelo menos de um dos lados. Aquiles não dava o devido valor à afeição de Pátrocles. Além de o que ansiava mais por uma boa batalha do que pelo prazer que os corpos encerram. Macáon chegou sozinho e, sem dizer palavra, sentou-se. Ele e o irmão, Podalírio, eram os melhores médicos de toda a Grécia, mais importantes para o nosso exército do que uma ala de cavalaria. Podalírio era um verdadeiro recluso: preferia a sua cirurgia aos conselhos de guerra. Macáon, porém, era um homem extremamente ativo que tinha o dom de comando e era capaz de lutar tão bem como dez mirmidões. Idomeneu avançou com o seu passo elegante, e o seu ar não menos elegante, logo seguido pelo seu escudeiro, Meríona. Graças à coroa cretense e à sua posição como co-comandante, Idomeneu limitou-se a fazer uma vênia, em vez de ajoelhar diante do rei supremo. Agamêmnon ficou furioso com a desconsideração, mas a fúria não desceu dos olhos até às cordas vocais; perguntei-me se Agamêmnon não acharia que Creta estava ficando demasiado grande para as suas botas, mas o rosto do rei supremo nada me disse a esse respeito. Idomeneu preocupava-se excessivamente com a sua elegância, com os seus trajes, com os seus adereços; enfim, um escravo da sua própria aparência. Contudo, possuía uma constituição física notável e
era um belíssimo comandante. Meríona, seu primo e herdeiro, era possivelmente o melhor dos dois—adorava festejar ou combater a seu lado. Ambos tinham o mesmo ar, típico dos Cretenses: um ar generoso, aberto. Nestor avançou rapidamente para o seu assento especial, acenando apenas para Agamêmnon, o qual não ficou nada ofendido. Nestor embalara a todos nos seus joelhos quando éramos bebês. Se tinha algum defeito, esse defeito era, sem dúvida, o de se refugiar nas recordações dos “bons velhos tempos” e de considerar a atual geração de reis não mais do que um bando de mariquinhas. Contudo, não havia ninguém que conseguisse resistir aos seus encantos. Ulisses, achava eu, adorava-o. Consigo, Nestor trouxera o seu filho mais velho. Ájax chegou com os seus companheiros, o seu meio-irmão Teucro e o seu primo da Lócrida, o Pequeno Ájax, filho de Oileu. Sentaram-se ao fundo, muito calados, com um ar desconfortável. Ansiava pelo dia em que pudesse ver Ájax num campo de batalha (estivera longe de mim quando a batalha de Sigeu aconteceu), em que pudesse ver com os meus próprios olhos aqueles braços portentosamente musculosos empunhando o seu famoso machado. Menesteu surgiu pouco depois. Era um bom homem, o rei supremo da Ática, mas sensato o suficiente para não imaginar que poderia igualar Teseu. Menesteu não era sequer um Décimo do homem que Teseu fora—mas, sejamos honestos, quem é que poderia rivalizar com Teseu? Palamedes foi o último. Sentou-se entre mim e Ulisses. Seria imprudente da minha parte atrever-me a gostar dele, visto que Ulisses o odiava. Porquê, não sabia, embora desconfiasse que Palamedes o ofendera quando ele e Agamêmnon se haviam deslocado a Ítaca. Ulisses tinha paciência bastante para esperar o tempo que fosse preciso, mas acabaria por vingar-se—disso estava eu certo. Não seria uma vingança violenta, sangrenta. Com Ulisses, a vingança era servida fria. O sacerdote Calcas não estava presente. Uma ausência intrigante. Agamêmnon, com um ar bastante tenso, deu início aos trabalhos. — Este é o primeiro conselho digno desse nome que resolvi convocar desde que desembarcamos em Tróia. Como todos estão a par da situação, creio que não fará sentido descrevê-la. Ulisses falará, eu não. Embora eu seja vosso suserano, vocês me deram as vossas tropas de livre vontade. Do mesmo modo, respeitarei o vosso direito a retirarem esse apoio, não obstante
o Juramento do Cavalo Esquartejado. Pátrocles, toma o Bastão, mas dá-o a Ulisses. Ulisses avançou para o meio da sala (Agamêmnon cedera ao frio e mandara construir uma casa de pedra, ainda que a existência dessa casa sugerisse permanência), a cabeleira ruiva flutuando numa massa de ondas em torno do seu belo rosto, os seus grandes olhos cinzentos despindo-nos até ao mais íntimo de nós mesmos, até à nossa verdadeira estatura: reis, mas ainda assim homens. Nós, os Gregos, sempre respeitamos a presciência e, a Ulisses, não lhe faltava esse poder . — Pátrocles, sirva o vinho—foi assim que o meu amigo começou o seu discurso. Esperou que o jovem servisse todos os presentes.—Há cinco luas que desembarcamos. Fora dos limites de um vale que fica perto dos meus navios, nada aconteceu. A esta afirmação seguiu-se uma rápida explicação: segundo Ulisses, o vale em questão servia para encarcerar os piores soldados do exército, pois era absolutamente necessário que esses elementos não contaminassem o resto das tropas. Eu sabia por que razão Ulisses não queria divulgar o verdadeiro objetivo do vale: Ulisses não confiava em Calcas nem em algumas das línguas dos seus homens, ainda que presas a um juramento. Embora não tenhamos realizado nenhum conselho oficial—prosseguiu ele com a sua voz suave e agradável—,não tem sido difícil adivinhar os sentimentos dominantes dos chefes aqui presentes. Por exemplo: ninguém deseja montar o cerco a Tróia. Respeito os vossos pontos de vista, pelas mesmas razões que Macáon poderá expender: um cerco poderá trazer a peste e outras doenças; uma eventual conquista de Tróia após esse cerco poderá significar pesadas baixas também para as tropas gregas. Por isso, não é minha intenção discutir a questão do cerco. Fez uma pausa para nos sondar . — Diomedes e eu fizemos já várias visitas noturnas à cidade de Tróia e concluímos que, se continuarmos aqui na próxima Primavera, a situação sofrerá uma alteração radical. Príamo mandou enviados a todos os seus aliados ao longo da costa da Ásia Menor e todos eles lhe prometeram apoio militar . Logo que comece o degelo nas montanhas, Príamo terá duzentos mil soldados à sua disposição. E nós seremos corridos daqui para fora: tão simples como isso. Aquiles interrompeu-o. — Está pintando um quadro muito negro, Ulisses. Foi para isso que nós
deixamos as nossas pátrias? Para cairmos, de uma forma absolutamente ignominiosa, às mãos de um inimigo com quem travamos uma única batalha? O que está a dizer-nos, creio eu, é que nos lançamos numa cruzada perfeitamente infrutífera, extremamente onerosa e sem a menor perspectiva de uma recompensa—ou seja, de despojos. Onde está o saque que nos prometeu, Agamêmnon? Que aconteceu à tua guerra que durava apenas dez dias? Que aconteceu à tua vitória fácil? Para onde quer que nos viremos, é a derrota que vemos à nossa frente! Foi para isto que alguns dos homens aqui presentes se mostraram coniventes com um sacrifício humano? Há derrotas piores do que ser batido numa batalha. Ser obrigado a evacuar esta praia e a regressar à Grécia é a pior das derrotas! Ulisses não conteve um risinho. — Digam-me: estão todos tão desanimados como Aquiles? Se estão, lamento muito. No entanto, não posso negar que o filho de Peleu diz a verdade. Além disso, se permanecermos aqui durante o Inverno, os problemas de abastecimento vão aumentar . Por ora, podemos ir buscar à Bitínia aquilo de que precisamos; contudo, segundo dizem, os Invernos aqui são frios e gelados. Aquiles levantou-se num salto, virando-se furioso para Agamêmnon. — Foi isto que eu te disse em Áulida, muito antes de termos partido! Não prestou a devida atenção ao problema do abastecimento de um exército enorme! Será que temos escolha? Poderemos nós escolher entre ficar aqui e voltar para a Grécia? Não me parece. A nossa única alternativa é aproveitar os ventos do início do Inverno e voltar à Grécia para nunca mais regressarmos! É um imbecil, rei Agamêmnon! Um imbecil que se imagina inteligente! Agamêmnon manteve-se muito quieto e calado, mas era visível que estava fazendo um grande esforço para se controlar . — Aquiles tem razão—atacou Idomeneu.—Tudo isto foi muito mal planejado.—Respirou fundo, enquanto fitava ferozmente o seu cocomandante.—Diga-me, Ulisses: o nosso exército pode ou não pode tomar de assalto as muralhas troianas? — As muralhas troianas são inexpugnáveis, Idomeneu. A fogueira da agitação crescia, ateada por Aquiles e alimentada pelo fato de Agamêmnon optar pelo silêncio. Todos estavam desejosos de o atacarem e ele sabia disso.
Mordia os lábios, o corpo tenso curvado pelo esforço tremendo que o domínio da sua própria raiva lhe exigia. — Porque é que nunca admitiu que não eras capaz de planejar uma expedição tão grandiosa como esta?—perguntou Aquiles.—Fosse o teu estatuto inferior—e não fosse você aquilo que é pela graça dos deuses! – te liquidaria neste exato momento! Trouxe-nos para Tróia com um único pensamento na cabeça: a tua glória! Usaste o Juramento para reunires um gigantesco exército e desprezou os desejos e as necessidades do teu irmão— até que ponto pensou realmente em Menelau? Será capaz de dizer que lançou esta empresa por causa do teu irmão? Nunca! Nem sequer te deste ao trabalho de fingir! Desde o princípio que só tem um objetivo: enriquecer com o saque de Tróia e erigir um império para ti mesmo na Ásia Menor! É certo que todos nós enriqueceremos com o saque de Tróia—mas o mais rico de todos será você! Menelau desatou a chorar: as lágrimas que lhe caíam pelas faces falavam de uma terrível desilusão. Vendo-o soluçar como uma criança, Aquiles afagou-lhe o ombro, procurando animá-lo. A atmosfera não podia ser mais explosiva; uma palavra mais e todas aquelas mãos correriam a apertar a garganta de Agamêmnon. Sentindo já um inequívoco formigueiro no meu braço direito, olhei para Ulisses, imóvel no meio da sala, com o Bastão na mão, enquanto Agamêmnon entrelaçava as mãos sobre o colo e olhava para elas. Acabou por ser Nestor a apagar o fogo que alastrara. Virou-se furioso para Aquiles e logo lhe atirou: — Rapaz, a tua falta de respeito merecia uns bons açoites! Que direito tem você de criticar o nosso rei supremo quando homens como eu não o fazem? Ulisses não fez nenhuma acusação—como se atreve a fazê-las? Contenha essa língua,rapaz! Aquiles aceitou a repreensão sem um murmúrio. Apresentou as suas desculpas a Agamêmnon ajoelhando diante dele e sentou-se. Por natureza, Aquiles não era homem que fervesse em pouca água. Porém, desde a morte de Ifigênia que havia entre ele e Agamêmnon uma tremenda animosidade. Compreensível. O seu nome fora usado para que Clitemenestra deixasse partir a moça, mas o rei supremo não pedira o seu consentimento. Aquiles, pelo visto, nunca nos perdoaria—e muito menos perdoaria a Agamêmnon. — Ulisses—disse Nestor-, é evidente que não tem a idade e a experiência
suficientes para dirigir convenientemente esta reunião de nobres autocratas: por isso, passe-me o Bastão e deixe-me falar! Fitou-nos com um ar assanhado. — Esta reunião, até agora, foi uma verdadeira miséria! No meu tempo, ninguém se atreveria a dizer as coisas que aqui foram ditas! Quando eu era jovem e Héracles vivia entre nós, as coisas eram completamente diferentes! Recostamo-nos nas cadeiras e resignamo-nos perante a perspectiva de ouvirmos mais uma das famosas homilias de Nestor . Contudo, quando mais tarde refleti sobre o que se passou, cheguei à conclusão de que o velho começara a divagar deliberadamente; com efeito, o fato de sermos obrigados a escutá-lo produziu uma calmaria geral na sala. — Pensem no exemplo de Héracles—prosseguiu Nestor .—Injustamente submetido a um rei que não merecia usar a sagrada cor púrpura do seu cargo, obrigado a realizar uma série de trabalhos friamente escolhidos para o conduzirem à morte ou à humilhação. Pois Héracles nem sequer protestou! A sua palavra era, para ele, sagrada. Nele, a nobreza de alma rivalizava com o poder físico! Ainda que nas suas veias corresse sangue divino, Héracles era um homem? Você, jovem Aquiles, nunca poderá sequer nutrir a esperança de igualar Héracles! Nem você, jovem Ájax. O rei é o rei. Héracles nunca se esqueceu disso—nem mesmo quando se viu atolado até aos joelhos em esterco de cavalo, nem mesmo quando esteve a um passo do desespero e da loucura! Era isso precisamente o que todos os outros homens admiravam e veneravam nele. Ele sabia quais eram os seus deveres para com os deuses e quais eram os seus deveres para com o rei. Em todas as circunstâncias, cumpriu escrupulosamente esses deveres. Embora me sentisse bem o tratando como a um irmão, Héracles nunca se aproveitou da minha amizade—e eu era o herdeiro de Neleu, ao passo que ele não passava de um escravo. — Foi a consciência que tinha do seu estatuto de escravo, bem como a sua deferência e paciência, que o levaram a suscitar um amor eterno e a ganhar o estatuto de herói. Pobres de nós! Não voltará a haver no mundo um homem como Héracles! Ótimo! Nestor terminara, devolveria o Bastão a Ulisses e o conselho poderia prosseguir . Mas Nestor não tinha terminado; em vez disso, lançouse numa nova homilia. — Teseu!—exclamou.—Pensem também no exemplo de Teseu! Foi a loucura que acabou por vencê-lo e não a ausência de nobreza ou o
esquecimento daquilo que a um rei é devido. Teseu era um rei supremo: pois o Teseu que eu conheci não passava de um homem! Ou pensem no exemplo do pai de Diomedes. Tideu era o maior guerreiro do seu tempo—e morreu diante das muralhas que o filho arrasou uma geração mais tarde. E morreu sem uma única mancha na sua honra! Se eu tivesse sabido que gênero de homens se arroga o título de rei e herdeiro de rei aqui nesta praia de Tróia, nunca teria deixado as areias de Pilos, nunca teria navegado num mar tão escuro como vinho! Pátrocles, enche-me o copo! Pretendo continuar o meu discurso, mas tenho a garganta seca. Pátrocles levantou-se lentamente. Era ele o mais descoroçoado de todos. Estava visivelmente magoado com a repreensão de que Aquiles fora alvo. O velho rei de Pilos bebeu de uma vez só quase todo o conteúdo do copo, lambeu os lábios e foi sentar-se numa cadeira vaga perto da de Agamêmnon. — Ulisses, é minha idéia prosseguir o que você começou. Não se ofenda com esta minha decisão, mas, pelo visto, precisamos de um velho para pôr os jovens insolentes no seu lugar!—disse ele. Ulisses sorriu com todos os seus dentes. — À vontade, rei Nestor! Você exporá o caso tão bem como eu, senão mesmo melhor . Foi nesse instante que as minhas desconfianças ganharam alento. Há vários dias que Ulisses e Nestor mantinham conferências secretas—teriam eles combinado tudo aquilo antecipadamente? — Duvido—disse Nestor, com um brilho muito especial nos seus olhos azuis.—É invulgar um homem tão novo como você possuir uma cabeça tão notável. Mas adiante. Vou esquecer personalidades e cingir-me apenas aos fatos. Temos de abordar este problema desapaixonadamente, temos de compreendê-lo sem confusões nem enganos. Em primeiro lugar, o que está feito, está feito. Não desenterremos o passado. Não devemos permitir que o passado continue a alimentar ressentimentos. Inclinou-se um pouco para a frente e prosseguiu: — Reflitam. Nós temos um exército constituído por mais de cem mil homens, combatentes e não combatentes, acampado a cerca de três léguas das muralhas de Tróia. Entre os não combatentes, dispomos de cozinheiros, escravos, marinheiros, armeiros, cavalariços, carpinteiros, pedreiros e engenheiros. Se a expedição tivesse sido tão mal planejada como o príncipe Aquiles quer fazer crer, não disporíamos por certo de tantos e tão diversos
profissionais experimentados. Muito bem. Este ponto não precisa sequer ser discutido. Temos também de considerar o fator tempo. Calcas, o nosso sacerdote, falou de dez anos: sinto-me inclinado a acreditar na sua profecia. De fato, nós não estamos aqui para derrotar apenas uma cidade! Nós estamos aqui para derrotar muitas nações. Nações que se estendem desde Tróia até à Cilícia. Uma empresa desta magnitude não pode ser feita de um dia para o outro! Mesmo que conseguíssemos derrubar as muralhas de Tróia, a empresa não estaria terminada! Seremos nós piratas? Bandidos? Ladrões de estrada? Se formos, então assaltamos uma cidade e voltamos para casa com os despojos. Mas eu creio que nós não somos piratas. Eu creio que não devemos limitar-nos a Tróia! Temos de ir mais longe —temos de derrotar a Dardânia, a Mísia, a Lídia, a Cária, a Lícia e a Cilícia! Aquiles estava rendido: observava Nestor com uma atenção que nunca lhe vira. Tal como Agamêmnon. — Que aconteceria—disse Nestor, com um ar pensativo—se dividíssemos o nosso exército em dois? Metade ficaria aqui diante de Tróia e a outra metade agiria, digamos, livremente. A força acampada diante de Tróia serviria para conter Tróia: teria de ser pelo menos tão ampla como qualquer exército que Príamo eventualmente enviasse para a combater . A segunda força percorria a costa da Ásia Menor, atacando, pilhando e incendiando todas as povoações entre Andramítios e a longínqua Cilícia. Essa segunda força dizimaria e devastaria, obteria escravos, saquearia cidades, assolaria os campos, apanharia o inimigo desprevenido. Deste modo, alcançaríamos dois objetivos—manteríamos as duas metades do nosso exército convenientemente abastecidas de alimentos e outros produtos necessários—talvez mesmo produtos luxuosos!—e levaríamos os aliados de Tróia a sentir um tão grande e constante medo que nunca se arriscariam a enviar a Príamo ajuda de nenhum tipo. Em nenhum ponto da costa há concentrações populacionais capazes de resistirem a um exército vasto e bem conduzido. Mas duvido muito que os reis da Ásia Menor se lembrem de abandonar as suas terras para se juntarem em Tróia. Não creio que esses reis possuam uma visão das coisas suficientemente profunda. Por isso, não creio que abandonem as suas terras. Claro que Ulisses e Nestor tinham combinado tudo aquilo antecipadamente! As palavras de Nestor deslizavam como mel sobre um bolo. Ulisses sorria de satisfação e aprovação e Nestor estava no seu elemento.
— A metade do exército que ficar diante de Tróia impedirá os Troianos de atacarem o nosso acampamento ou os nossos navios—prosseguiu Nestor .— Por outro lado, contribuirá de uma forma decisiva para que o moral dos soldados e cidadãos de Tróia sofra um rude golpe. Aquilo que temos de fazer é transformar uma proteção numa prisão: no espírito dos habitantes de Tróia, as protetoras muralhas passarão a ser um cárcere! Não entrarei agora em pormenores, mas sempre lhes digo que há muitas maneiras de influenciar o espírito dos Troianos, desde a cidadela à mais humilde choupana. Acreditem no que lhes digo: há muitas maneiras de conseguir isso! A astúcia é absolutamente essencial, mas, com Ulisses, nós possuímos essa arma em abundância. Nestor suspirou e pediu mais vinho; desta feita, porém, Pátrocles serviu com extremo respeito e diligência o idoso rei de Pilos. — Se decidirmos ir para a frente com esta guerra—continuou Nestor haverá uma multidão de recompensas prontas a colher . Tróia é muito mais rica do que nós alguma vez sonhamos. Os despojos enriquecerão todas as nossas nações—tal como nos enriquecerão a nós. Aquiles tinha razão neste ponto. Gostaria de lembrar que Agamêmnon sempre advogou o esmagamento dos aliados da Ásia Menor . Se os esmagarmos, poderemos colonizar todas estas terras, poderemos trazer para cá muitos dos nossos cidadãos e dar-lhes condições de vida muito superiores àquelas de que gozam na Grécia, onde vivem literalmente apinhados. E—prosseguiu ele, a voz baixando de tom, mas crescendo em poder—,mais importante do que tudo o resto, o Helesponto e o mar Euxino serão nossos. Poderemos colonizar também as margens do Euxino. Teremos todo o estanho e cobre de que precisamos para produzir o bronze.     —Teremos o ouro da Cítia. Esmeraldas. Safiras. Rubis. Prata. Lã. Trigo. Cevada. Electro. Outros metais. Outros alimentos. Outras mercadorias. Uma perspectiva verdadeiramente estimulante, não acham? Mexemo-nos nos nossos lugares, começamos a sorrir uns para os outros, enquanto que Agamêmnon parecia ganhar uma nova vida. — As muralhas de Tróia, devemos deixá-las absolutamente em paz— prosseguiu o velho Nestor, tão firme como um jovem.—A metade do exército que ficar diante de Tróia terá uma função meramente irritante— fomentará a perturbação entre os Troianos e deverá limitar-se a escaramuças sem grande importância. O local onde agora estamos é excelente para
acampamentos. Não vejo a menor necessidade de nos mudarmos para outro lugar . Ulisses, como é que se chamam os dois rios? A resposta foi rápida. — O rio maior, o que tem as águas amarelas, é o Escamandro. São os esgotos de Tróia que o poluem—foi por isso que proibimos os nossos homens de se banharem nessas águas ou de molharem sequer os lábios nelas. O rio mais pequeno, o das águas límpidas, é o Simoente. — Obrigado. A nossa primeira tarefa consistirá em construir uma muralha defensiva que vá desde o Escamandro ao Simoente, distante cerca de meia légua da lagoa. Terá de ter uma altura de pelo menos quinze cúbitos. No exterior, colocaremos uma paliçada de estacas pontiagudas e cavaremos uma trincheira com uma profundidade de quinze cúbitos, com mais estacas pontiagudas no fundo. Estes trabalhos manterão ocupados os soldados que aqui ficarem durante o Inverno—e os manterão quentes, pois não há melhor remédio para o frio do que o trabalho. De súbito, Nestor calou-se e acenou para Ulisses. — Já estou cansado. Continue você, Ulisses. Claro que tinham maquinado aquilo tudo! Ulisses prosseguiu como se tivesse estado falando desde o princípio. — Não permitiremos que os exércitos permaneçam inativos. Por isso, as duas metades do nosso exército se revezarão—seis luas diante de Tróia, seis luas atacando ao longo da costa. Deste modo, não haverá nunca cansaço entre as nossas hostes. Nunca será demais acentuar—disse—que temos de criar e alimentar a impressão de que, se preciso for, tencionamos permanecer neste lado do Egeu por toda a eternidade! Quero que os povos da Ásia Menor, à medida que os anos forem passando, se sintam cada vez mais desesperados, debilitados, impotentes. A metade móvel do nosso exército sangrará até à morte Príamo e os seus aliados. O ouro deles acabará nos nossos cofres. Calculo que teremos de esperar dois anos para que a mensagem penetre nas suas consciências—mas penetrará, e para sempre! Tem de penetrar! — Posso concluir, portanto—disse Aquiles, num tom e com uns modos muito educados—,que a metade móvel do nosso exército não viverá aqui. — Não, essa metade terá o seu próprio quartel-general—disse Ulisses, agradado com a polidez de Aquiles.—Mais para sul, talvez na fronteira entre a Dardânia e a Mísia. Há nessa região um porto chamado Assos. Nunca lá estive, mas Télefo garante que é adequado para tais funções. Os
despojos da costa serão trazidos para cá, tal como todos os alimentos e outros artigos. Entre Assos e a nossa praia, operará constantemente uma frota de abastecimento, a qual navegará sempre junto à costa, sejam quais forem as condições meteorológicas, por uma questão de segurança. Fênix é, entre a nossa alta nobreza, o único marinheiro capaz e experiente. Sugiro, por isso, que fique encarregado dessa frota de abastecimento. Sei que ele jurou a Peleu que nunca abandonaria Aquiles, mas, cumprindo essas funções, creio que não estará abandonando-o. Calou-se por um momento e deixou que os seus olhos cinzentos fitassem cada um dos pares de olhos que o observavam. — Terminarei, lembrando a todos que Calcas disse que a guerra durará dez anos. Julgo, efetivamente, que não durará menos de dez anos. E é nisso que todos têm de pensar . Dez anos longe de casa. Dez anos durante os quais os nossos filhos crescerão longe de nós. Dez anos durante os quais as nossas esposas terão de governar . A pátria fica demasiado longe e a nossa missão aqui é demasiado exigente para que possamos dar-nos ao luxo de visitarmos a Grécia. Dez anos é muito, muito tempo.—Virou-se para Agamêmnon e fez-lhe a vênia.—Rei supremo, o plano que eu e Nestor delineamos só será válido com a sua aprovação. Se o reprovar, Nestor e eu nada mais diremos. Somos, como sempre, seus servos. Dez anos longe de casa. Dez anos de exílio. A conquista da Ásia Menor valeria tal preço? Eu, pelo menos, não sabia se valia. Embora creia que, se não fosse Ulisses, teria me feito ao mar no dia seguinte. Porém, era óbvio que ele tomara a decisão de ficar: por isso, nunca dei voz ao desejo que me roia o coração. Agamêmnon suspirou profundamente. — Assim seja, então. Dez anos. Creio que a recompensa vale bem esses dez anos. Teremos muito a ganhar . Contudo, porei a decisão em votação. Os restantes reis deverão apoiar esta empresa tanto como eu. Levantou-se e postou-se diante de nós. — Gostaria de lembrar que a maior parte dos presentes são reis ou herdeiros de reis. Nós, os Gregos, fizemos depender o nosso conceito de realeza dos favores dos deuses do céu. Derrubamos o jugo do matriarcado quando substituímos a Velha Religião pela Nova. Porém, enquanto reinam, os homens têm de pedir o apoio dos deuses do céu, pois os homens não poderão nunca ser férteis, não poderão nunca conhecer os mistérios da concepção das crianças ou das coisas da Mãe Terra. Nós respondemos
perante o nosso povo de uma maneira diferente do que fazíamos nos tempos da Velha Religião. Nós éramos as vítimas sacrificais, as indefesas criaturas que a rainha oferecia para apaziguar a Mãe quando a colheita era escassa, ou quando se perdia a guerra, ou quando descia sobre nós uma praga terrível. A Nova Religião libertou os homens desse destino, elevou-os à condição de verdadeiros soberanos. Respondemos perante o nosso povo diretamente. Portanto, eu sou favorável a esta portentosa empresa. Ela será a salvação do nosso povo, ela espalhará por todo o lado os nossos costumes e tradições. Se voltasse agora à minha pátria, me sentiria humilhado diante do meu povo e teria de admitir a derrota. Como poderia eu resistir, se o povo, partilhando a minha humilhação, decidisse voltar à Velha Religião, decidisse sacrificar-me e devolver à minha esposa o soberano estatuto? Sentou-se na sua cadeira e pôs as mãos brancas e elegantes sobre os joelhos vestidos de púrpura. — Procedamos então à votação. Se algum homem deseja retirar e voltar para a Grécia, que erga a sua mão. Ninguém ergueu mão nenhuma. — Muito bem. Ficamos. Ulisses, Nestor, têm mais sugestões a apresentar? — Não, rei Agamêmnon—disse Ulisses. — Não, rei Agamêmnon—disse Nestor . — Idomeneu? — Estou satisfeito, Agamêmnon. — Nesse caso, seria melhor analisarmos desde já os pormenores. Pátrocles, já que foste nomeado nosso copeiro, diz aos criados que nos tragam comida. — Como dividirá o exército, rei Agamêmnon?—perguntou Meríona. — Como sugeri, através de uma rotação de contingentes. Contudo, gostaria de acrescentar uma cláusula a tais disposições. Creio que o Segundo Exército deveria ter um núcleo duro de homens permanentes, homens que farão parte dele ao longo de toda a guerra. Alguns dos presentes são jovens extremamente promissores. Ficariam aborrecidos de morte se tivessem de permanecer um tempo infindo diante de Tróia. Eu terei de ficar aqui todo o ano, tal como Idomeneu, Ulisses, Nestor, Diomedes, Menesteu e Palamedes. Aquiles, os dois Ájax, Teucro e Meríona, vocês são jovens. É a vocês que confio o Segundo Exército. O alto-comando irá para Aquiles. Aquiles: será responsável tanto perante mim como perante Ulisses. Todas as decisões relativas às atividades do Segundo Exército ou à vida no interior de Assos
serão suas, ainda que possa haver nesse exército homens com um estatuto superior ao seu. Entendido? Aceita o alto-comando? Aquiles levantou-se de um salto, tremendo; custava-me a suportar o brilho que havia nos seus olhos, tão dourado e intenso como o de Hélio. — Juro por todos os deuses que nunca achará motivos para lamentar a confiança que deposita na minha chefia, rei Agamêmnon. — Sendo assim, nomeio-te comandante supremo do Segundo Exército, filho de Peleu. Escolhe os seus lugares-tenente—disse Agamêmnon. Olhei para Ulisses e abanei a cabeça; respondeu-me erguendo uma ruiva sobrancelha e piscando o olho cinzento. Ele havia de ver quando o apanhasse sozinho! Francamente... Maquinações secretas!

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