Capítulo Vigésimo Oitavo Narrado por Automedonte
Deixámos despreocupadamente as nossas muralhas, sabendo que íamos enfrentar um exército que quase fora arrasado. Aquiles seguia singularmente sereno a meu lado, mas nem por um momento me interroguei sobre o significado da sua disposição. Erguia-se como um farol na sua armadura de ouro, as belas plumas douradas do elmo flutuando ao vento e beijando-lhe os ombros sempre que o terreno acidentado me obrigava a fazer um súbito desvio. Aguardando o seu habitual sorriso de camaradagem, olhei-o de soslaio e sorri para ele, mas, naquele dia, Aquiles esqueceu-se do nosso breve ritual. Olhava sempre em frente. O que viam os seus olhos? Não poderia saber . Uma paz grave e controlada impregnava aquele rosto de seu natural arrebatado; de súbito, tive a sensação de que a meu lado seguia um estranho. Nem uma só vez falou comigo durante a viagem para o campo de batalha, nem uma só vez vi nos seus lábios um sorriso, qualquer sorriso. Era natural que tivesse ficado triste com o comportamento de Aquiles. Contudo, inexplicavelmente, não senti qualquer tristeza. Pelo contrário: sentime apoiado, encorajado, como se houvesse nele uma indefinível qualidade capaz de me purificar . Combateu melhor do que nunca, parecendo determinado a concentrar toda a sua imensa glória no espaço de um único dia. Porém, em vez de se deixar arrebatar pelo seu habitual furor assassino, Aquiles esforçou-se por assegurar um avanço organizado dos seus Mirmidões. Usou a espada e não o machado, e usou-a no mais absoluto silêncio, um silêncio só comparável ao do rei quando preside ao grande sacrifício anual ao deus. A esta idéia, logo outra se ligou; e logo entendi a diferença que nele havia. Aquiles sempre fora o príncipe e nunca o rei. Naquele dia, ele era o rei. Perguntei-me se não tivera alguma premonição de que o pai, Peleu, teria morrido. Enquanto manobrava o carro, mirei duas ou três vezes o céu, pois não estava gostando nada daquele tempo. Ao alvorecer, o céu estava soturno, prometendo, não frio, mas tempestade. Agora, havia na imensa abóbada um singular matiz acobreado e, a leste e a sul, enormes nuvens negras juntavam-se, disparando já OS seus relâmpagos. Nuvens que formavam um teto sobre o Ida, onde—disso estávamos certos—os deuses se haviam
reunido para assistir à infindável guerra. Para os Troianos, foi uma derrota esmagadora. O exército troiano não conseguia deter-nos, tanto mais que, naquele dia, todos os chefes do nosso exército pareciam possuídos de uma forma inferior da grandeza que aureolava Aquiles como os raios em torno da cabeça de Hélio. É a grandeza solar de Aquiles que contamina os outros, pensei; Aquiles tornou-se o maior de todos os reis. Ao fim de não muito tempo, os Troianos cederam e fugiram. Tentei localizar Enéias, perguntando-me por que razão o dardaniano nada fazia para garantir a coesão do exército aliado. Mas a sorte devia ter abandonado Enéias, pois não havia nem sinal dele em todo o campo de batalha. Mais tarde, vim a saber que o dardaniano se recusara a enviar os seus homens para reforçar as claudicantes linhas troianas. Sabíamos que Tróia tinha um novo herdeiro: Troilo. lembrei-me então de que Aquiles me dissera que Príamo insultara Enéias quando da cerimônia de investidura de Troilo. Pois bem: Enéias mostrara a Príamo que fizera muito mal em insultar um príncipe dardaniano que também era herdeiro. Já tínhamos visto Troilo no campo de batalha, quando Pentesiléia, e posteriormente Menão, se haviam juntado ao exército aliado. Tivera sorte, o jovem herdeiro: não tivera de enfrentar nem Aquiles, nem Ájax. Porém, naquele dia, tudo mudaria. Aquiles perseguia-o implacavelmente, aproximando-se cada vez mais dele. Quando percebeu o inevitável, Troilo pediu ajuda. Os seus homens responderam de imediato, formando uma barreira protetora. Depois, vi-o mandar um mensageiro a Enéias, que se encontrava relativamente perto. Vi o homem falando com Enéias, que o escutou com aparente interesse. Vi o mensageiro afastar-se na direção de Troilo. Mas não vi Enéias erguer um só dedo que fosse para ajudar o herdeiro. Bem pelo contrário: deu meia volta ao seu carro e, com os seus homens, foi para outro lugares. Não faltava valentia a Troilo. Era irmão de Heitor e, com mais uns anos, teria sido outro Heitor . Porém, a sua juventude era um óbice intransponível. Quando me viu já muito perto, ergueu a lança, enquanto o seu condutor mantinha o veículo na posição certa para o arremesso; seria a última lança que Troilo arremessaria antes que nos aproximássemos demais dele. Senti o braço de Aquiles roçando o meu e logo percebi que estava erguendo a Velha Pélion. Com um magnífico arremesso, a soberba lança foi imediatamente disparada,
tão direita e veloz como um dardo lançado pela mão de Apolo. As suas farpas de ferro cravaram-se profundamente na garganta do rapaz, abatendo-o sem um gemido. Para lá das cabeças dos desesperados soldados troianos, vi Enéias observando a cena com uma expressão amarga. Tomamos a armadura de Troilo bem como os seus cavalos e arrasamos o que restava das suas tropas. Após o fim de Troilo, Enéias pareceu reviver . Libertou-se da sua apatia e fez avançar sobre nós todos os soldados aliados. Era possível vê-lo constantemente entre os soldados; contudo, fazia tudo o que estava ao seu alcance para não se aproximar demasiado de Aquiles, de modo que este não pudesse arremessar a sua lança. Astucioso, o dardaniano. Ansiava desesperadamente pela vida; perguntei-me que paixões moveriam aquele homem. pois ele seria tudo menos covarde. O Sol sumira no céu, a tempestade tornava-se uma ameaça cada vez mais nítida. Era tão portentosa a energia que os céus acumulavam que os nossos soldados logo começaram a falar de presságios funestos. As nuvens estavam cada vez mais baixas, os relâmpagos trespassavam os ares cada vez mais perto, o ribombar dos trovões sufocava o clamor da batalha. Em toda a minha vida nunca vira um céu assim, tal como nunca sentira tão estranhos arrepios na espinha, provocados pela violência do Pai Céu. A luz ensombrecera e havia nela um lúgubre brilho sulfuroso e as nuvens eram tão negras como as barbas de Hades, enroscando-se como fumo saindo de uma imensa frigideira cheia de azeite, ganhando um intenso tom azul sempre que os relâmpagos as iluminavam. Ouvi os Mirmidões dizendo que, com aqueles sinais, o Pai Zeus pretendia dizer-nos que a nossa vitória seria total; e imaginei, pela forma como estavam a comportar-se, que os Troianos pensariam exatamente o mesmo. De súbito, um raio de fogo branco caiu mesmo em frente de nós, queimando tudo aquilo em que tocou. Os cavalos empinaram-se e eu tive de tapar os olhos, temendo que tão intensa luz me deixasse sem ver . Logo que me senti menos aturdido, virei-me para Aquiles. — Vamos desmontar—disse eu.—O chão é mais seguro. Pela primeira vez nesse dia os seus olhos encontraram-se com os meus. Fitei-o perplexo. Era como se os raios rodopiassem em torno da sua cabeça; nos seus olhos amarelos, brilhava a luz de uma intensa alegria; Aquiles ria dos meus medos! — Está vendo, Automedonte? Está vendo? O meu bisavô prepara-se para chorar a minha morte! Ele considera-me um descendente digno! Abri a boca de espanto.
— Chorar a sua morte? Aquiles, que quer dizer com isso? Agarrou os meus pulsos com toda a sua força. — O deus chamou-me, Automedonte. Hoje é o dia da minha morte. Comandará os Mirmidões até que o meu filho chegue a Tróia. O Pai Zeus está preparando-se para a minha morte. Não podia acreditar no que acabara de ouvir . Impossível acreditar ! Como se estivesse no meio de um pesadelo, vergastei os cavalos para que avançassem. Quando o meu choque se dissipou um pouco, refleti sobre o que deveria fazer . E tomei uma decisão: aproximei-me o mais possível de Ájax e Ulisses, cujos homens lutavam lado a lado. Não sei se Aquiles reparou no que eu estava fazendo; se reparou, deve ter considerado a minha tática absolutamente irrelevante. Ergui os olhos ao céu e rezei, pedindo ao Pai que levasse a mim e não a ele; mas o deus limitou-se a rugir o seu escárnio, deixando-me tremendo de medo. Os Troianos, de súbito, fugiram na direção das suas muralhas, e nós os seguimos tumultuosamente, decididos a acabar com eles. Ájax estava mais perto agora; continuei a avançar na sua direção até que, a certa altura, consegui segredar-lhe que Aquiles pensava que o deus o tinha chamado. Se havia no mundo um homem capaz de evitar o fim de Aquiles, esse homem só poderia ser Ájax. Estávamos à sombra da Cortina Ocidental, demasiado perto da Porta Ceia para que Príamo pudesse permitir-se abri-la. Aquiles, Ájax e Ulisses tinham encurralado Enéias contra a porta. Aquiles estava decidido a liquidar Enéias; era isso que o seu silêncio me dizia, enquanto eu pedia aos deuses que não lhe dessem a oportunidade de travar um duelo com o mais perigoso de todos os aliados ainda vivos. Ouvi-o dar um grito de satisfação e vi que o dardaniano estava ao alcance das nossas lanças, demasiado ocupado para se dar conta de todos os que assolavam as suas tropas. Naquele momento, Enéias era um alvo perfeito. Aquiles ergueu a Velha Pélion, os músculos do braço inchando portentosos enquanto concentrava todas as suas forças para o arremesso, a axila nua coberta por uma fina penugem dourada. Fascinados, os meus olhos atentaram na linha da lança destinada a Enéias, sabendo que a vida do dardaniano chegara ao fim, que a última ameaça troiana não mais pairaria sobre nós. Tudo pareceu acontecer nesse mesmo instante, ainda que eu jure, diante de todos os deuses e humanos, que não foi o carro que fez com que Aquiles
perdesse o equilíbrio. O seu calcanhar direito vacilou, apesar do pé estar firmemente encaixado no estribo; lutando para se manter direito, Aquiles ergueu bem alto o braço direito. Ouvi um ruído surdo e vi a seta enterrada na axila nua. Quase toda a seta trespassara o corpo de Aquiles: só as penas azuis da ponta assomavam sobre a carne dilacerada. A Velha Pélion caiu no chão sem chegar a ser arremessada, enquanto Aquiles se erguia como um titã; depois, com uma voz triunfal, como se houvesse conquistado a própria mortalidade, lançou pela última vez o grito de guerra de Quíron. O braço caiu e enterrou ainda mais a seta. A arma fatal cravara-se no seu ser mais profundamente ainda do que a morte ou do que toda a ignomínia do mundo. Tive de controlar os cavalos com ambas as mãos, pois Xanto mergulhava aterrorizado e Balio baixava a cabeça desesperado e Podargo desatara a martelar o chão com os seus cascos. Mas Pátrocles não estava lá para falar por eles, para dar ao seu sofrimento e horror palavras humanas. Todos os que ouviram o grito de guerra viraram-se para ver; Ájax gritou como se também ele tivesse sido trespassado. O sangue jorrava já daquela boca sem lábios e de ambas as narinas, caindo em cascata sobre a armadura de ouro. Ulisses estava atrás de Ájax; lançou um grito de raiva e impotência, a mão esticada, apontando. Em segurança perto de uma rocha, ali estava o assassino: Páris. Com o arco na mão. Sorrindo para nós. Breves momentos terão passado antes de Aquiles ter caído sobre o resguardo do carro para logo ser amparado por Ájax, que o deitou no chão com um clangor metálico que ecoou nos nossos corações e que nunca se perderia enquanto fôssemos vivos. Aproximei-me de Ájax e ao lado dele fiquei enquanto Ájax ajoelhou com o primo nos braços, enquanto Ájax lhe tirou o elmo e fitou, vazio de palavras, aquele rosto tingido de escarlate, lívido de morte. Aquiles viu quem o amparava, mas a visão da morte era muito mais forte e estava muito mais próxima. Tentou em vão falar, mas as palavras afogaram-se na sua garganta; por um momento, o derradeiro adeus esteve ali, nos seus olhos. Então, as pupilas dilataram-se e o amarelo da íris deu lugar a um negrume transparente. Três convulsões horrendas que puseram à prova a força de Ájax e tudo estava acabado. Estava morto. Aquiles estava morto. Fitamos as luminosas janelas vazias dos seus olhos e nada vimos. Com uma mão enorme e desajeitada, Ájax cerrou-lhe os olhos; depois, colocou de novo o elmo na cabeça do primo e apertou firmemente as correias; as lágrimas caíam-lhe cada vez mais rápidas, a boca retorcia-se num
esgar aflito. Estava morto. Aquiles estava morto. Alguma vez conseguiríamos suportar a dor da sua morte? Por um largo momento, o choque deve ter reduzido os dois exércitos à mais absoluta imobilidade; de súbito, porém, os Troianos caíram sobre nós como cães lambendo o sangue de homens. Queriam o corpo e a armadura. Ulisses correu de imediato para nós, sem se preocupar com as suas lágrimas. Um silêncio imenso apoderara-se dos Mirmidões: diante dos seus olhos abismados, o impossível tornara-se realidade. Curvando-se, Ulisses pegou na Velha Pélion e brandiu-a defronte dos seus rostos. — Vão deixar que eles o levem?—gritou.—Só os truques de um vilão poderiam ter morto Aquiles! Vão ficar aí parados e deixar que eles roubem o corpo do vosso querido chefe? Em nome de Aquiles, ordeno-vos que o defendam! Os Mirmidões acordaram do estupor em que o choque os deixara e voltaram a formar; nenhum troiano se aproximaria de Aquiles enquanto um único dos seus soldados fosse vivo. Formando diante de nós, agüentaram a carga inimiga com uma mágoa selvagem. Ulisses ajudou Ájax a erguer-se, ajudou-o a erguer nos seus braços a frouxa e pesada forma. As lágrimas continuavam a deslizar pelas faces de Ájax. — Leve-o para tras do campo de batalha, Ájax. Eu não permitirei que eles penetrem nas nossas linhas. Como se de súbito se tivesse lembrado de um pormenor importante, Ulisses enfiou a Velha Pélion na mão direita de Ájax e empurrou-o para que ele não demorase mais. Sempre nutri sérias reservas relativamente a Ulisses, mas a verdade é que Ulisses era um rei. Com a espada na mão, virou-se e fincou os pés na terra ainda fumegante do sangue de Aquiles. Agüentamos a carga troiana e a repelimos. Quando viu Ájax afastando-se, Enéias desatou a uivar como um chacal. Virei-me para Ulisses. — Ájax é forte, mas não suficientemente forte para ir muito longe com Aquiles nos seus braços. Deixe-me ir atrás dele. Poderei depois levar Aquiles no carro. Ulisses concordou. E foi assim que conduzi os cavalos na direção de Ájax, que acabava de abandonar as linhas e se arrastava pesadamente na direção da praia. Estava eu ainda demasiado longe para ajudar, quando um carro passou por mim a toda a velocidade. O seu condutor queria apanhar Ájax. Um dos filhos de Príamo seguia no carro, pois levava as insígnias cor de
púrpura da Casa de Dárdano na sua couraça. Enquanto procurava dar um novo ânimo aos meus cavalos, gritei para Ájax, a fim de o avisar do perigo. Mas Ájax pareceu nada ouvir . O príncipe troiano saltou do seu poleiro, empunhando a espada, sorridente. O que revelava que não conhecia Ájax, que continuou a andar como se nada tivesse acontecido. De súbito, ergueu Aquiles mais alto nos seus braços e trespassou o troiano com a Velha Pélion. Ulisses fizera bem em a entregar . — Ájax, coloque Aquiles no carro—disse eu, aproximando-me dele. — Não. Eu o levo. — É demasiado longe. Vais dar cabo de você. — Eu o levo! — Deixe-me pelo menos lhe tirar a armadura—disse eu, desesperado. Eu a levo no carro. Não faz sentido que leve a armadura. — Sim, tem razão. Desse modo, poderei sentir o corpo do meu querido primo, e não o metal que o envolve. Pode tirar-lhe a armadura. Depois de termos libertado Aquiles daquele peso horrendo, Ájax continuou a sua caminhada, embalando o primo, beijando-lhe o rosto destroçado, falando com ele, cantarolando como uma mãe adormecendo uma criança. O exército seguia-nos lentamente, ao longo da planície; mantive o carro a uma escassa distância de Ájax; as suas pernas imensas arrastavam-se num esforço sublime; parecia que Ájax seria capaz de caminhar cem léguas com Aquiles nos seus braços. O deus contivera a sua dor demasiado tempo. Por fim, deixou-a cair sobre as nossas cabeças, e toda a abóbada celeste rompeu a disparar brancos raios de fogo. Os cavalos estremeceram e pararam, agrilhoados pelo medo; até mesmo Ájax parou, enquanto os trovões ribombavam por sobre as humanas cabeças e os relâmpagos desenhavam nas nuvens um fantástico rendilhado. A chuva libertou-se finalmente, gotas imensas e pesadas descendo à terra nítidas e esparsas, como se o deus estivesse demasiado comovido para chorar abundantemente. Porém, depressa as lágrimas se transformaram em dilúvio e, ao fim de algum tempo, nós chapinhávamos num mar de lama. O exército avançou conosco, agora que o Senhor do Trovão obrigara ao fim de toda a refrega. Todos juntos, passamos com Aquiles o Escamandro, Ájax à frente e o rei imediatamente atrás. Sob o dilúvio,
deitamo-lo num esquife, enquanto o Pai lhe limpava o sangue com lágrimas do céu. Eu e Ulisses nos dirigimos imediatamente à casa de Aquiles, a fim de falarmos com Briseida. Ela estava à porta, parecia esperar-nos. — Aquiles morreu—disse Ulisses. — Onde está ele?—perguntou ela, com uma voz imperturbável. — Diante da casa de Agamêmnon.—Ulisses estava ainda chorando. Briseida afagou-lhe o braço e sorriu. — Não há razão para lágrimas, Ulisses. Aquiles será imortal. Tinha instalado um dossel sobre o esquife para proteger da chuva o corpo de Aquiles; Briseida mergulhou sob o dossel e ficou parada olhando para as ruínas daquele homem magnífico, água e sangue diluindo o brilho do seu cabelo, o rosto lívido e imóvel. Perguntei-me se ela estaria vendo o mesmo que eu: aquela boca sem lábios parecia magnífica na morte, ao contrário do que sempre fora em vida. Com aquela boca, o seu rosto era o rosto do perfeito guerreiro. Porém, o que Briseida pensaria, nunca o cheguei a saber, porque ela não o revelou, nem então, nem nunca. Com ternura extrema, curvou-se e beijou-lhe as pálpebras pegou as suas mãos e juntou-as sobre o peito e só parou de lhe ajeitar a roupa quando achou que Aquiles estava bem. Mas ele estava morto. Aquiles estava morto. Alguma vez conseguiríamos suportar a dor da sua morte? Sete dias choramos a sua morte. No último dia, quando o Sol se despedia da terra, o deitamos no carro fúnebre de ouro e o levamos para a outra margem do Escamandro, para o túmulo no penhasco. Briseida foi conosco, pois ninguém tinha coragem de impedi-la de assistir à cerimônia; vinha no final do longo cortejo, as mãos entrelaçadas, a cabeça curvada. Ájax amparou a cabeça de Aquiles com a palma da mão, enquanto, sobre um escudo, o transportávamos para a câmara fúnebre. Estava vestido de ouro, mas não com a armadura de ouro. A armadura ficara sob a custódia de Agamêmnon. Depois dos sacerdotes terem pronunciado as palavras rituais, colocado a máscara de ouro sobre o rosto de Aquiles e procedido às libações, abandonamos com passos lentos o túmulo que ele partilhava com Pátrocles, Pentesiléia e doze jovens nobres troianos. A atmosfera que reinava no túmulo era mais estranha do que todos os estranhos portentos e eventos a que havíamos assistido naqueles dias; uma atmosfera doce, pura, inefável.
No cálice de ouro, o sangue dos doze jovens continuava líquido, e tão intensamente carmim como no primeiro dia. Virei-me para verificar se Briseida vinha atrás de nós. Não vinha. Estava ajoelhada junto ao carro funerário. Ainda que não pudesse alcançá-la rapidamente, corri para o túmulo, com Nestor a meu lado. Emudecemos ao vê-la enterrar o punhal no peito com as poucas forças que lhe restavam. Num ápice, caiu sem vida. Sim, Briseida tomara a decisão correta! Como poderíamos nós enfrentar a luz de mais um dia sem Aquiles? Curvei-me para apanhar o punhal, mas Nestor deteve-me. — Vamos embora, Automedonte. Eles não querem mais ninguém aqui. Os festejos fúnebres realizaram-se no dia seguinte, mas não houve jogos. Agamêmnon explicou-nos as suas razões. — Duvido que haja alguém com ânimo para disputar jogos, sejam eles quais forem. Mas não é essa a principal razão. A principal razão reside no fato de que Aquiles não queria ser enterrado com a armadura que a mãe— uma deusa—encomendou a Hefaísto. Aquiles queria que essa armadura fosse dada como prêmio ao melhor dos homens do nosso exército. Em vez de jogos fúnebres. Não pus em causa as suas palavras, mas a verdade é que Aquiles nunca me dissera isso. — Como vai decidir quem é o melhor dos nossos homens? Levando em conta os feitos de armas? O problema é que, por vezes, os feitos de armas não constituem uma prova evidente de uma grandeza genuína. — Precisamente—disse o rei supremo.—Foi por isso que decidi fazer um torneio de palavras. Quem achar que é o melhor dos homens que restam no nosso exército, que avance e que apresente as suas razões. Apenas dois contendores avançaram. Ájax e Ulisses. Um combate sem dúvida singular! Eles representavam os dois pólos da grandeza: o guerreiro e o—que haveríamos nós de chamar-lhe? O homem que usava todas as suas faculdades mentais para atingir os seus fins? — Sim, estou de acordo—disse Agamêmnon.—Ájax, você trouxe o corpo de Aquiles para o nosso acampamento. Ulisses, você tornou possível que isso acontecesse. Ájax, falará primeiro. Diga-me porque pensa que merece a armadura. Ájax parecia tão perturbado como seco de palavras; levantou-se, o maior gigante que jamais vira, incapaz de dizer fosse o que fosse. O seu aspecto era também lastimoso; havia algo de errado no seu lado direito, desde o rosto até à perna. Vira-o arrastar essa perna durante o cortejo e o braço direito
também não se movia de uma forma natural. Uma ligeira trombose, pensei. Ájax sofrera uma ligeira trombose. O fato de ter carregado durante tanto tempo o corpo do primo afetara a parte mais frágil de Ájax, a sua mente. Quando finalmente falou, Ájax teve de fazer longas pausas, pois não encontrava as palavras certas. — Imperial rei dos reis, amigos reis e príncipes... Eu sou primo direto de Aquiles. O pai dele, Peleu, e o meu pai, Télamon, eram irmãos germanos. O pai deles, Éaco, era filho de Zeus. É grandiosa, a nossa linhagem. É grandioso, o nosso nome. A armadura deverá ser minha porque a minha linhagem é essa, porque o meu nome é esse. Não posso permitir que a armadura de Aquiles seja dada a um homem que é filho bastardo de um ladrão vulgar . Os vinte homens presentes agitaram-se nas suas cadeiras, franziram o sobrolho intrigados. Que estava Ájax fazendo? Insultando Ulisses? Não que Ulisses reagisse; como que surdo, limitava-se a olhar para o chão. — Eu vim para Tróia voluntariamente, tal como Aquiles. Não havia nenhum juramento a prender-nos. Não fui eu quem foi desmascarado por fingir que estava louco, mas sim Ulisses. Apenas dois homens neste grande exército travaram um duelo com Heitor—Aquiles e eu. Eu não precisei de um Diomedes para fazer o trabalho sujo por mim. Que fará Ulisses com a armadura? De que lhe servirá? A sua frágil mão esquerda nunca poderia arremessar convenientemente a Velha Pélion. A sua cabeça ruiva se afundaria sob o peso daquele elmo. Se duvidam do meu direito à propriedade do meu primo, atirem-na para o meio de um bando de troianos—e verão qual de nós a resgatará! Voltou coxeando para a sua cadeira, sentou-se pesadamente. Agamêmnon parecia embaraçado, mas era evidente que a maior parte dos presentes concordava com o que Ájax dissera. Perplexo, examinei Ulisses. Por que estranha razão ele pretenderia a armadura? Ulisses avançou e postou-se diante de nós, adotando uma atitude descontraída, com as pernas bem separadas, o fogo da cabeleira acentuado pela luz. Ruivo e canhoto, pensei. De certeza que não corre sangue divino naquelas veias. — É verdade que tentei furtar-me à guerra de Tróia—disse Ulisses.—Eu sabia quanto tempo esta guerra iria durar . Se não tivesse havido o juramento, quanto de vocês teriam participado voluntariamente nesta expedição se soubessem que ela iria durar tanto tempo?
— No que toca a Aquiles, eu sou a única razão por que ele veio para Tróia eu, e mais ninguém, descobri o plano que fora urdido para mantê-lo em Ciros. Ájax estava presente, mas não entendeu nada. Perguntem a Nestor: ele confirmará as minhas palavras. — Quanto a linhagens, ignoro as vis insinuações de Ájax. Também eu sou bisneto do onipotente Zeus. No que toca a coragem física, haverá alguém que duvide da minha? Eu não possuo o corpo de um gigante para escorar essa coragem, mas a verdade é que sempre me saí muito bem em todos os campos de batalha. Se duvidarem disso, contem as minhas cicatrizes. O rei Diomedes é meu amigo e amante, não meu lacaio. Fez uma pausa, ainda que por razões diversas das de Ájax. Ulisses não tinha o menor problema com as palavras. — Eu pretendo a armadura para mim por uma única razão—porque quero dar-lhe o destino que Aquiles pretendia que lhe fosse dado. — Se eu não posso envergá-la, poderá Ájax? Se é demasiado grande para mim, certamente que é demasiado pequena para ele. Dêem-me a armadura. Eu mereço-a. Ergueu os braços num gesto largo, como que a dizer que os seus motivos eram incontestáveis, após o que regressou à sua cadeira. Muitos vacilavam agora, mas a nossa opinião pouca importância teria. A decisão caberia sempre a Agamêmnon. O rei supremo olhou para Nestor . — Que acha, Nestor? Nestor suspirou. — Que Ulisses merece a armadura. — Que assim seja, então. Ulisses, a armadura é tua. Ájax gritou logo que ouviu tais palavras. Empunhou a espada, mas não chegou a fazer o que pretendia fazer com ela. Mal se levantou, estatelou-se no chão e aí ficou. Tentamos levantá-lo, mas todos os nossos esforços foram vãos. Por fim Agamêmnon ordenou que trouxessem uma maca e oito soldados levaram-no. Ulisses colocou a armadura num carro de mão enquanto os reis dispersavam, pesarosos e abatidos. Quanto a mim, fui beber vinho, na esperança de que o vinho curasse o azedume que me corroia. Quando Ulisses concluíra o seu breve discurso, ficáramos sabendo o que pretendia ele fazer com a armadura—dála a Neoptolemo. Talvez em Tróia fosse possível oferecer a armadura de um morto, como se de um simples presente se tratasse. Contudo, na nossa região do mundo, a armadura de um morto, ou era enterrada com ele, ou era
disputada nos seus jogos fúnebres. E era pena que assim fosse. Tendo em conta aquele desfecho, era verdadeiramente lamentável. Havia muito tempo que a noite caíra quando desisti de me embriagar . Caminhei pelas ruas desertas, entre os elevados edifícios, procurando uma luz, uma única luz, um lugar qualquer que me pudesse oferecer algum conforto. E ali estava ela, finalmente, uma luz solitária na noite! Era a casa de Ulisses. A cortina da porta não fora ainda baixada e por isso entrei, com um passo vacilante, vergado pela fadiga. Ulisses estava sentado ao lado de Diomedes, os olhos perdidos nas últimas brasas da fogueira, a mente perdida em silenciosas reflexões. Tinha o braço sobre os ombros do rei de Argos, os seus dedos acariciavam lentamente o ombro nu do amante. Eram tão fortes os laços que os uniam que, ao vê-los assim, sentime como um cão sem dono, sentime ainda mais só do que efetivamente estava. Aquiles estava morto. E era eu quem conduzia os Mirmidões, eu que não nascera para comandar . Uma situação verdadeiramente aterradora. Aproximei-me da luz e afundei-me numa cadeira. — Perturbo?—perguntei então, algo tardiamente. Ulisses sorriu. — De modo nenhum. Toma, bebe. O meu estômago todo se revolveu. — Não, obrigado. Tenho andado toda a noite tentando me embriagar, mas sem o menor êxito. — Tão sozinho, Automedonte?—perguntou Diomedes. — Mais só do que jamais quis estar . Como posso eu substituí-lo? Eu não sou Aquiles! — Não se preocupes—murmurou Ulisses.—Há dez dias, enviei um mensageiro a Neoptolemo, dizendo-lhe que viesse. Tomei essa decisão quando vi as sombras da morte enegrecendo o rosto de Aquiles. Se os ventos e os deuses o ajudarem, Neoptolemo não tardará a chegar a Tróia. Senti um alívio tão grande que quase o beijei. — Agradeço do fundo do coração, Ulisses! Os Mirmidões têm de ser comandados pelo sangue de Peleu. — Não me agradeça por ter tomado uma decisão sensata. E ali ficamos sentados, falando disto e daquilo enquanto a noite ia se escoando, cada um de nós encontrando nos outros o consolo de que tanto precisava. A certa altura, tive a sensação de que ouvira um longínquo
tumulto; porém, como o barulho sumiu rapidamente, voltei a concentrarme naquilo que Diomedes estava dizendo. Até que ouvimos um grito imenso; desta feita, todos ouvimos. Diomedes levantou-se de um salto, tão intenso e vigilante como uma pantera, procurando de imediato a sua espada, enquanto Ulisses continuou sentado, sem saber muito bem o que havia de fazer, a cabeça empinada, os ouvidos alerta. O tumulto redobrou de intensidade; saímos imediatamente e avançamos para o local de onde vinham os gritos. Ao fim de pouco tempo, estávamos na margem do Escamandro, onde mantínhamos um curral de animais destinados a sacrifícios—cada um deles individualmente escolhido, consagrado e marcado com um símbolo sagrado. Alguns dos outros reis estavam lá e um guarda impedia o acesso daqueles que eram movidos pela mera curiosidade. Claro que o guarda nos deixou passar imediatamente; juntamo-nos a Agamêmnon e Menelau, que se encontravam ao pé da cerca que rodeava o curral, perscrutando um objeto que pairava em algum lugar no meio da escuridão extrema. Ouvimos gargalhadas dementes, uma voz que dizia coisas perfeitamente incoerentes e que se erguia cada vez mais alto, gritando para as estrelas, berrando a sua raiva e o seu escárnio. — Este golpe é para ti, Ulisses, filho de um ladrão! Morre, verme! Morre, desgraçado! O teu nome é Menelau! E a ladainha prosseguia, enquanto nós sondávamos as trevas sem nada enxergarmos. Até que alguém deu um archote a Agamêmnon, que o ergueu bem alto, espalhando a luz por um vasto espaço. Os meus olhos esbugalharam-se de horror . O meu estômago, que continha apenas vinho pois eu tinha recusado toda a comida, parecia erguer-se em espasmos; afastei-me dos outros e vomitei. A luz do archote iluminava um mar de sangue. Ovelhas, vacas e cabras jaziam em lagos de sangue, os olhos vidrados e fixos, os corpos desmembrados, as gargantas cortadas, as peles exibindo por vezes dezenas de feridas. Ao fundo, Ájax saltava com uma espada ensangüentada na mão. A sua boca só se abria para berrar insultos ou para romper naquelas gargalhadas que nos faziam gelar o sangue. Com o outro braço, agarrava um vitelinho que, aterrado, escoiceava contra a implacável força bruta do gigante. De nada adiantou, pois Ájax encheu-o de golpes. Cada vez que a sua espada penetrava no pobre animal, Ájax chamava ao vitelo Agamêmnon. Por fim, rompeu em novas e dementes gargalhadas.
— Ah, quem me dera ser cego para não ver isto! Ao que ele chegou!— murmurou Ulisses. Conseguindo controlar as ânsias de vomito, perguntei a Ulisses: — O que é que se passa com Ájax? — Loucura, Automedonte. Ájax enlouqueceu. É o resultado de diferentes coisas. Aquela cabeça sofreu demasiados golpes ao longo dos anos —demasiado sofrimento—talvez uma trombose, também. Mas chegar a este ponto ... ! Pobre Ájax! Só espero que ele não recupere o suficiente para entender o que fez. — Temos de detê-lo!—disse eu. — Se quiser, experimente, Automedonte. Mas não peça a mim que enfrente Ájax no meio de um acesso de loucura. — Nem a mim—disse Agamêmnon. Assim, tudo o que fizemos foi ficar ali olhando. Com o amanhecer, a loucura esfumou-se. Ájax recuperou o entendimento no meio de um lago de sangue que lhe chegava aos tornozelos. Pôs-se a olhar à sua volta como se estivesse no meio de um pesadelo—para as dezenas de animais consagrados que os rodeavam, para o sangue que o cobria da cabeça aos pés, para a espada que tinha na mão, para os reis que, em silêncio, o observavam do lado de fora da cerca. Tinha ainda uma cabra numa das mãos, medonhamente mutilada, sem uma gota de sangue nas veias agora mortas. Com um guincho de horror, deixou cair o animal, compreendendo finalmente o que fizera durante a noite. Depois, correu para a cerca e saltou por cima dela e rompeu numa fuga tresloucada, como se as Fúrias estivessem a persegui-lo. Teucro deixou-nos sem demora e foi no seu encalço; quanto aos outros chefes gregos, incluindo eu, ficaram onde estavam, demasiado abalados para fazerem fosse o que fosse. Menelau foi o primeiro a conseguir falar . — Vai permitir que ele escape impune, irmão?—perguntou ele a Agamêmnon. — Que quer que eu faça, Menelau? — Ájax tem de morrer! Ájax matou os animais sagrados! A morte é o único castigo possível! São os deuses que o exigem! Ulisses suspirou. — Os homens que os deuses mais amam são precisamente aqueles que os deuses mais depressa condenam à loucura—disse.—Deixa-o em paz, Menelau.
— Ele tem de morrer!—insistiu Menelau.—Executa-o e não deixe que nenhum homem cave a sua sepultura! — Sim, essa é a punição prevista—murmurou Agamêmnon. — Não, não, não!—exclamou Ulisses.—Deixem-no em paz! Não basta que Ájax tenha se condenado a si mesmo, Menelau? Só por causa do que fez esta noite, a sombra dele nunca mais sairá do Tártaro! Deixem-no em paz! Não lancem mais lenha na fogueira que devasta aquela cabeça desgraçada! — Ulisses tem razão—disse Agamêmnon, afastando-se da carnificina. Ájax está louco, irmão. Ele que expie o seu crime o melhor que puder . Ulisses, Diomedes e eu avançamos pelas ruas e por entre os murmúrios dos homens, gelados de medo com o que se passara. O nosso destino era a casa onde Ájax vivia com a sua primeira concubina, Tecmessa, e com o filho de ambos, Eurísaces. Quando Ulisses bateu à porta trancada, Tecmessa espreitou com medo pela janela. Só depois abriu a porta, com o filho encostado a ela. — Onde está Ájax?—perguntou Diomedes. A mulher secou as lágrimas. — Foi embora, rei Diomedes. Não sei para onde. Ele disse que ia se banhar nas águas do mar, a fim de que Palas Atena pudesse perdoar-lhe.— As lágrimas voltaram, mas logo Tecmessa conseguiu contê-las. — Ájax deu o escudo ao filho. Disse que o escudo era a sua única arma que não fora manchada pelo sacrilégio. Disse-nos ainda que todas as outras armas deveriam ser enterradas com ele. Por fim, deixou-nos entregues aos cuidados de Teucro. Digam-me, por favor: que se passa com ele? O que é que ele fez? — O que ele fez, nunca o compreenderá, Tecmessa. Fique em casa, nós o encontraremos. Estava na praia, no lugar onde as suaves ondas se enrolavam delicadamente, demandando a lagoa, e onde umas quantas rochas se erguiam sobre a areia grossa. Teucro estava ao seu lado, ajoelhado, curvado sobre ele—o firme Teucro, que pouco falava, mas que estava sempre presente quando Ájax precisava dele. Mesmo agora, no derradeiro momento. A cena falava por si mesma: uma rocha plana, uns quantos dedos acima da areia grossa, a superfície fendida por algum golpe do tridente de Poseidon, o punho da espada enfiado numa das fendas, com a lâmina para cima. Ájax despira a armadura e banhara-se no mar; na areia, desenhara
uma coruja, símbolo de Atena, e um olho, símbolo da Mãe Kubaba. Depois, encostara o peito à ponta da espada e caíra sobre ela com todo o seu peso; a espada trespassara-o no centro do peito e saíra pela espinha. Dois cúbitos de lâmina espreitavam por sobre a espinha. O rosto banhava-se no seu próprio sangue, os olhos cerrados, traços de loucura ainda nos seus traços. As mãos enormes caíam moles, os dedos ligeiramente encurvados. Teucro ergueu os olhos e fitou-os com uma expressão amarga. Quando os seus olhos se detiveram em Ulisses, disseram-lhe, muito claramente, que era ele o único culpado. Não sei o que Ulisses pensou nesse momento. Só sei que não vacilou. — Que podemos fazer?—perguntou a Teucro. — Nada—disse Teucro.—Eu próprio o enterro. — Aqui? -perguntou Diomedes, horrorizado.—Não, ele merece melhor! — Sabe que isso não é verdade. Ele também sabia. Eu também sei. Ájax terá aquilo que as leis dos deuses dizem que ele merece—a sepultura de um suicida. É tudo o que eu posso fazer por ele. É tudo o que resta entre mim e ele. Ele terá de pagar na morte, tal como Aquiles pagou em vida. Foi isso mesmo que ele disse antes de morrer . Deixamos os dois irmãos sozinhos. Os dois irmãos que lutavam sempre juntos, o mais pequeno sob o escudo do gigante. Em oito dias, Aquiles e Ájax tinham desaparecido—o espírito e o coração do nosso exército. — Ai! Ai!—exclamou Ulisses, as lágrimas deslizando-lhe pelas faces. Quão estranhos são os caminhos dos deuses! Aquiles arrastou Heitor junto às muralhas de Tróia com o boldrié que Ájax lhe oferecera. Agora, Ájax matouse com a espada que Heitor lhe dera.—O seu rosto desfigurou-se de súbito, moldado pela mais extrema raiva.—Pela Mãe, estou tão farto de Tróia ... ! Odeio até o cheiro do ar de Tróia!
Capítulo Vigésimo Nono
Narrado por Agamêmnon
Os dias de guerra aberta tinham acabado; Príamo fechara a Porta Ceia e espreitava-nos das suas torres. Uma mancheia de chefes troianos e aliados sobrevivera, mas, dos grandes comandantes, só Enéias restava. Mortos os filhos que mais amara, Príamo pouco consolo encontraria agora nos inúteis. Aquele era um tempo de espera, enquanto as nossas feridas cicatrizavam e os nossos espíritos recuperavam lentamente o ânimo. Um fato curioso acontecera, uma prenda dos deuses com que nenhum de nós sequer sonhara: Aquiles e Ájax pareciam ter impregnado de forma indelével o espírito de cada um dos soldados gregos. Não havia um único que não estivesse determinado a conquistar as muralhas de Tróia. Referi o fenômeno a Ulisses, pois gostaria de saber o que pensava ele sobre o assunto. — Não há nisso mistério nenhum—retorquiu Ulisses.—Aquiles e Ájax transformaram -se em heróis e os heróis nunca morrem. O que os homens estão fazendo é muito simples: estão assumindo plenamente as responsabilidades que Aquiles e Ájax lhes deixaram. Além disso, estão desejosos de voltar para casa. Mas não derrotados. A única vingança possível para os acontecimentos destes dez anos de exílio é a queda de Tróia. Pagamos um preço muito elevado por esta campanha—um preço de sangue, de cabelos brancos, de corações dilacerados, de rostos que amamos mas que, agora, muito provavelmente, não seríamos capazes de reconhecer, de lágrimas, de um amargo vazio. Pouco a pouco, Tróia foi nos corroendo. Ninguém se atreverá a regressar à pátria antes de ver as ruínas de Tróia, tal como ninguém se atreverá a profanar os Mistérios da Mãe. — Nesse caso—disse eu—,pedirei conselho a Apolo. — Apolo é muito mais troiano do que grego. — Mesmo assim, lhe pedirei conselho. Apolo é a boca oracular . Perguntarei o que temos nós de fazer para entrar em Tróia. Apolo não pode negar uma resposta sincera aos mais altos representantes de um povo—seja qual for esse povo! O sumo-sacerdote, Taltíbio, examinou as refulgentes entranhas do sagrado fogo e suspirou. Taltíbio em nada se assemelhava a Calcas; sendo grego, usava o fogo e a água para adivinhar, deixando os animais unicamente para os sacrifícios. Por outro lado, também não anunciava as suas descobertas durante o augúrio propriamente dito. Só as revelava
perante a assembléia dos reis. — Que viu, Taltíbio?—perguntei-lhe. — Muitas coisas, rei supremo. O meu entendimento não chegou para algumas delas. Duas houve, porém, que me foram plenamente reveladas. — Que coisas foram essas? — Em primeiro lugar, não poderemos conquistar a cidade com aquilo que temos. Há um objeto e uma pessoa que os deuses muito apreciam e de cujo apoio precisamos. Se eles estiverem conosco, os deuses nos deixarão entrar em Tróia. Caso contrário, o Olimpo se unirá contra nós. — Que objeto e que pessoa são esses, Taltíbio? — Em primeiro lugar, trata-se do arco e das flechas de Heracles. Quanto à pessoa, é Neoptolemo, o filho de Aquiles. — Obrigado, sumo-sacerdote. Pode retirar-se. Observei os rostos dos reis. Idomeneu e Meríona tinham uma expressão tão grave quanto triste; o meu pobre irmão Menelau tinha o mesmo ar de sempre; Nestor estava tão velho que todos nós temíamos por ele; Menesteu continuava a cumprir sem queixas os seus deveres de soldado; Teucro não perdoara a nenhum de nós; Automedonte continuava inconsolável, pois não queria comandar os Mirmidões; e Ulisses—ah, Ulisses! Quem poderia saber o que se passava no fundo daqueles olhos tão belos, tão luminosos? — Não diz nada, Ulisses? Sabe onde estão o arco e as flechas de Heracles. Que possibilidades teremos nós de os reaver? Ulisses levantou-se lentamente. — Ao longo de quase dez anos, não recebemos nenhuma notícia de Lesbos. — Ouvi dizer que ele tinha morrido—disse Idomeneu com um ar sombrio. Ulisses desatou a rir . — Quem? Filoctetes, morto? Nem com o veneno de uma dúzia de víboras! Acredito que Filoctectes está vivo e continua em Lesbos. Temos, pelo menos, de tentar . Quem deverá ir, Agamêmnon? — Você e Diomedes. Vocês eram amigos de Filoctetes. Se ele tem de nós boas recordações, isso se deverá a você e a Diomedes. Partam imediatamente para Lesbos e peçam-lhe o arco e as flechas que herdou de Heracles. Digam-lhe que guardamos a parte que lhe cabe dos despojos e que nunca nos esquecemos dele—disse eu. Diomedes estirou-se. — Um dia ou dois no mar! Uma ótima idéia!
— Mas falta resolver o problema de Neoptolemo—disse eu.—Teremos de esperar mais de uma lua pelo filho de Aquiles—se o velho Peleu o deixar vir . Ulisses, que estava à porta, virou-se para mim. — Não se preocupe, Agamêmnon: eu já tratei disso. Há mais de meia lua que mandei uma mensagem a Neoptolemo, para que viesse sem demora para Tróia. Quanto a Peleu, proponho que façamos oferendas ao Pai Zeus! Oito dias passados, a vela cor de açafrão do navio de Ulisses voltou a surgir no horizonte. O coração num alvoroço, esperei na praia, junto aos ancoradouros vazios. Mesmo supondo que sobrevivera, Filoctetes estava em Lesbos há dez anos e nunca nos mandara uma mensagem que fosse. E os nossos mensageiros também nunca o haviam encontrado. E as doenças podiam devastar implacavelmente a mente de um homem... Bastava pensar no caso do pobre Ájax. Ulisses vinha na proa, acenando-nos alegremente. Suspirei de alívio, um imenso alívio. Ulisses podia ser o mais tortuoso dos homens, mas não sorriria assim se tivesse falhado. Menelau e Idomeneu juntaram-se a mim. Nenhum de nós sabia exatamente o que esperar daquele navio. Tínhamos visto Filoctetes às portas da morte; e, caso tivesse sobrevivido, com certeza que ficara sem a perna. Imaginava Filoctetes mutilado, uma ruína de cabelos brancos; com certeza que não era aquele homem que subira à amurada e que saltara os muitos cúbitos que separavam a amurada do chão tão lépido como um rapaz. Mas era mesmo ele ... ! Não mudara nada! A passagem dos anos não se notava nele! Tinha uma bela barba loura e envergava apenas um saiote. Dependurado do ombro, um arco poderoso e uma velha aljava repleta de flechas. Sabia que Filoctetes tinha pelo menos quarenta e cinco anos, mas o seu corpo rijo e bronzeado parecia ter menos dez e as suas pernas poderosas continuavam perfeitas. A única coisa que podia fazer era olhar para ele boquiaberto. — Porquê, Filoctetes, porquê?—foi tudo o que consegui dizer-lhe quando nos sentamos em minha casa, partilhando o nosso vinho. — A resposta é simples, Agamêmnon... Deixe-me contar a história do princípio ao fim. — Conte-me tudo, te peço—disse eu, pela primeira vez feliz desde que Aquiles e Ájax tinham morrido. Era esse o efeito que Filoctetes tinha em nós; ele enchia de vida e animação as minhas velhas e bolorentas salas. — Precisei de um ano para recuperar todas as minhas faculdades
mentais e o uso da minha perna começou Filoctetes.—Receando que o povo de Lesbos me hostilizasse por eu ser grego, os meus criados levaram-me para o cume de uma montanha e fizeram de uma gruta a minha casa. Era uma montanha a oeste de Termos e Antissa. A aldeia, ou mesmo a quinta, mais próxima, ficava a muitas léguas de distância. Os meus criados eram fiéis e leais: por isso, ninguém sabia quem eu era, nem onde eu estava. Imagina a minha surpresa quando Ulisses me disse que Aquiles saqueara Lesbos quatro vezes nestes últimos dez anos! Eu não sabia de nada! — Bom, é natural que não soubesse: só as cidades são saqueadas—disse Meríona. — Claro, claro. — Mas não se aventurou a sair da sua toca, depois de ter se recuperado? —perguntou Menelau. — Não—retorquiu Filoctetes.—Não me aventurei. Apolo apareceu-me num sonho. Disseme que ficasse onde estava. Foi o que eu fiz e, para ser franco, não me custou nada. Dediquei-me à caça. Matava veados e javalis; depois, na aldeia mais próxima, os meus criados trocavam a carne por vinho ou figos ou azeitonas. Era uma vida idílica, meus amigos! Não tinha preocupações, não tinha nenhum reino para governar, não tinha responsabilidades. Os anos iam passando, eu sentia-me feliz, e nunca me passou pela cabeça que esta guerra pudesse ainda durar . Pensava que já tinham regressado todos à Grécia. — Até que nós subimos ao cume da montanha e te encontramos—disse Ulisses. — Apolo disse que podia vir para Tróia?—perguntou Nestor . — Sim. E estou muito contente por poder participar nesta guerra. Um mensageiro surgira entretanto e segredara qualquer coisa a Ulisses, que se levantou imediatamente para acompanhar o homem à porta. Quando voltou, tinha uma expressão cômica, tão grande era a sua surpresa. — Agamêmnon—disseme ele—,um dos meus agentes informou-me de que Príamo está planejando uma nova batalha. O exército troiano se concentrará junto das nossas muralhas, amanhã, muito antes do amanhecer, com ordens para atacar enquanto estivermos dormindo. Não acham interessante? Uma violação flagrante das leis que governam a guerra.
Aposto que a idéia foi de Enéias. — Francamente, Ulisses!—disse Menesteu, inesperadamente, fazendo um ruído trocista com os lábios.—Quem é você para criticar as violações dos outros? Há anos que você não faz outra coisa! A boca de Ulisses contorceu-se. — Sim, o que diz é verdade, Menesteu. Mas também é verdade que Tróia nunca violou nenhuma dessas leis. — Pelo visto, vão violá-las pela primeira vez—disse eu.—Ulisses, te autorizo a usar todos os meios para que possamos entrar nas muralhas de Tróia. — Nesse caso... proponho que os matemos à fome!—retorquiu ele imediatamente. — Todos os meios... menos esse—disse eu. Era noite cerrada quando formamos; a escuridão demoraria ainda muito a dissipar-se. Enéias depressa concluiu que as suas movimentações haviam sido demasiado lentas. Eu próprio conduzi o assalto. Destroçamos por completo o exército troiano, mostrando-lhes do que éramos capazes mesmo sem Aquiles e Ájax. Constrangidos devido à baixeza dos planos de Enéias, os Troianos entraram em pânico quando caímos sobre eles. Tudo o que tivemos de fazer foi persegui-los e abatê-los às centenas. Filoctetes usou as flechas de Heracles com um efeito devastador . Desenvolvera um novo sistema: os homens corriam para todas as suas vítimas, arrancavam as preciosas flechas, limpavam-nas e devolviam-nas à aljava. Aqueles que escaparam, fugiram para a cidade; a Porta Ceia fechou-se nas nossas barbas. A batalha fora breve. Mal o Sol nasceu, vimos os campos juncados de cadáveres troianos; a derradeira flor de Tróia fora finalmente abatida. Idomeneu e Meríona vieram ter comigo, com Menelau na sua esteira; logo a seguir, surgiram os outros, fazendo um círculo com os carros, a fim de discutirmos a batalha. — Não há dúvida, Filoctetes: as flechas de Heracles possuem uma estranha magia—disse eu. Filoctetes sorriu. — Admito que gostam mais deste trabalho do que da caça ao veado, Agamêmnon. Porém, quando os meus homens contarem as minhas flechas, verificarão que faltam três.—Fitou Automedonte, que se saíra muito bem à
frente dos Mirmidões.—Tenho boas notícias para você e para os Mirmidões. — Boas notícias?—perguntou Automedonte. — Belíssimas notícias!—exclamou Filoctetes.—Consegui forçar Páris a travar um duelo comigo. Um dos nossos soldados indicou-me quem era Páris. Furtivamente, fui me aproximando dele. Por fim, surpreendi-o num local onde não encontraria nenhum esconderijo. Desatei a enaltecer as minhas proezas como arqueiro e a escarnecer do seu pequeno arco, dizendolhe que a sua arma era boa para as mãozinhas delicadas da mais delicada das donzelas... Como, aos olhos dele, eu tanto podia ser um soldado troiano como um mercenário assírio, Páris caiu na armadilha e aceitou o meu desafio. A fim de lhe aguçar o apetite, disparei desajeitadamente a minha primeira flecha. Mas tenho de admitir que ele tem uma pontaria ótima. Se não tivesse erguido rapidamente o escudo, a primeira flecha dele teria me acertado em cheio no diafragma. Depois, tratei-lhe da saúde. A primeira flecha cravou-se na mão que retesava o arco, a segunda no calcanhar direito—pensei que era um alvo adequado, tendo em conta que foi ele quem matou Aquiles—e a terceira no olho direito. Claro que não teve morte imediata: nenhuma das flechas acertou num órgão vital. Mas acabará por morrer, mais cedo ou mais tarde. Pedi ao deus que guiasse a minha mão, que o fizesse ter uma morte lenta.—Dando uma palmadinha no ombro de Menelau, desatou a rir .—Menelau perseguiu-o por algum tempo, mas não gostou do que viu, e com razão: quem é que ia gostar de um rapazinho naquele estado, todo porco e ensangüentado, apesar de ser tão bonitinho? Desatamos todos a rir; ordenei a vários mensageiros que espalhassem a notícia de que o assassino de Aquiles era um homem morto. Sim, Páris, o sedutor, chegara ao fim.
Capítulo Trigésimo Narrado por Helena.
A maior parte do tempo, passava sozinha. Ah, se Penélope, a minha prima, me visse! O que ela não teria rido! O tempo convertera-se num fardo tão insuportável que acabei por me dedicar à tecelagem! Compreendia agora que esposas negligenciadas e tecelagem formavam um par indissolúvel... Páris não se aproximava sequer de mim—literalmente. E Enéias também não. Com a morte de Heitor, a atmosfera do palácio alterara-se drasticamente. Hécuba fora acometida de uma estranha demência. Não parava de criticar Príamo pelo fato do rei não ter feito dela a sua primeira esposa. Perturbado e confuso, o rei protestava que Hécuba era a sua principal esposa, a sua rainha! A reação de Hécuba era sintomática: acocorava-se no chão e desatava a uivar tal qual um cão velho! Completamente louca! Bom, mas pelo menos agora já percebia onde fora Cassandra buscar a sua loucura. Um lugar desesperadamente infeliz. Viúva de Heitor e, por isso mesmo, despojada do seu estatuto de futura rainha, Andrômaca comportava-se como uma sombra. Constava que Andrômaca e Heitor tinham tido uma acesa discussão antes dele ter partido para a última batalha e que ela fora a culpada do triste desfecho. Heitor pedira-lhe que olhasse para ele, que se despedisse dele, mas Andrômaca permanecera deitada na cama, com a cara virada para a parede. Acreditava nessa história; Andrômaca exibia aquela expressão medonha de tremendo sofrimento e implacável remorso que é típica das mulheres apaixonadas e culpadas. Por outro lado, perdera todo o interesse pelo filho, Astianacte. Logo que Heitor descera à sepultura, Andrômaca confiara aos homens a educação do rapaz. O pouco que restava do mundo de Príamo desintegrou-se quando Troilo caiu às mãos de Aquiles. Nem mesmo a morte de Aquiles conseguiu arrancar o rei ao desalento em que caíra. Eu sabia o que se dizia na cidadela—que Enéias não ajudara Troilo porque Príamo o insultara durante a assembléia em que nomeara Troilo seu novo herdeiro. Também acreditava nesta história: com Enéias, os insultos pagavam-se caro.
Foi então que Enéias pediu a Príamo que o deixasse conduzir um ataque de surpresa—pela calada da noite!—ao acampamento grego. O abjeto rei troiano concordou. Não havia nada que conseguisse deter as línguas afiadas da cidadela, mas também não havia nada que se pudesse fazer . Enéias era tudo o que restava a Tróia. Príamo, no entanto, não cedeu completamente: com efeito, acabou por nomear herdeiro o seu filho Deífobo, o porco selvagem, como eu lhe chamava. Um ato de provocação que, no entanto, não perturbou minimamente Enéias. O que não admira, pois Enéias nunca se sentira tão seguro e confiante. Aos meus olhos, aquele rosto moreno do herdeiro dardaniano não apresentava grandes mistérios: eu sabia que fogos lavravam sob aquela aparência fria; eu sabia que, para satisfazer a sua implacável ambição, Enéias seria capaz de tudo. Como um lento rio de lava, Enéias ia avançando inexoravelmente, engolindo, um a um, todos os seus inimigos. Quando solicitou autorização a Príamo para conduzir o ataque noturno ao acampamento grego, Enéias sabia muito bem o que estava pedindo ao rei —estava a pedindo-lhe que violasse as leis dos deuses. E só eu percebi a imensidão do triunfo de Enéias quando Príamo deu o seu consentimento. Finalmente, Enéias conseguira espezinhar Tróia. No dia do ataque, fechei-me nos meus aposentos, os ouvidos bem tapados com pequenos chumaços, para não ouvir o tumulto e os gritos. Andava a tecer uma bela peça de lã, com um padrão muito intrincado e uma infinidade de cores. Graças a uma extrema concentração, conseguia me esquecer que, lá fora, se travava uma batalha. Penélope, a Tecedeira, Penélope, a esposa daquele ruivo de pernas arqueadas que não conhecia a honra e ignorava os escrúpulos, ficaria espantada com a qualidade do meu trabalho! Era capaz de apostar que ela nunca teria tecido uma peça tão bela... Conhecendo-a como eu a conhecia, estava certa de que, agora, a pobre Penélope tinha se dedicado a tecer sudários. “Aquela fingida... Aquela hipócrita... Oh, um poço de virtudes ... ! Vaca maldita, sempre me censurando ... “, eu estava dizendo para mim mesma, lembrando-me de Penélope, quando senti um estranho formigueiro nos meus braços, como se, nesse exato momento, alguém tivesse saído da sepultura para observar o meu trabalho. Seria possível que Penélope, a Tecedeira, tivesse morrido? Não, uma sorte dessas não teria eu! Porém, quando ergui a cabeça, verifiquei que era Páris quem estava nos
meus aposentos e não a sombra de Penélope. Estava encostado ao vão da porta, a boca abrindo-se e fechando-se no mais absoluto silêncio. Páris? Páris encharcado em sangue? Páris com uma flecha cravada num olho? Quando tirei os pequenos chumaços dos ouvidos, o ruído cresceu tão depressa como Ménades descendo uma encosta decididas a matar . O outro olho de Páris fitava-me com o fogo da loucura, enquanto a sua boca cuspia palavras que eu não conseguia entender . Ao fim de breves momentos, o choque que senti de início esbateu-se por completo. Desatei a rir, um riso que era mais forte do que eu, um riso que se transformou em gargalhadas estridentes e que me obrigou a sentar num divã. Vendo-me rir, Páris, desesperado, caiu de joelhos! Começou então a rastejar, com a mão direita arrastando uma cauda carmim ao longo do chão branco, a flecha enfiada no olho balouçando para cima e para baixo, tão ridiculamente que desatei a rir ainda mais. Alcançando os meus pés, envolveu-me as pernas com o braço que estava incólume e encheu de sangue o meu vestido. Enojada, afastei-o com o pé, deixando-o estirado no chão. Depois, corri para a porta. Encontrei Heleno e Deífobo no pátio principal, ambos ainda com a armadura vestida. Como nenhum deles reparasse em mim, toquei no braço de Heleno; no braço de Deífobo é que eu não tocaria, nem que me pagassem! — Perdemos—disse Heleno com uma expressão fatigada.—Eles estavam à nossa espera. - Lágrimas assomaram-lhe aos olhos.—Nós infringimos as leis! A maldição caiu sobre nós! Encolhi os ombros. — Que me interessa isso? Eu não vim saber notícias da vossa estúpida batalha—eu já sabia que vocês iam perdê-la. Vim apenas pedir-lhes ajuda. — Pede o que quiser, Helena—disse Deífobo, com um sorriso cheio de malícia. — Páris está nos meus aposentos—vai morrer, acho eu. Heleno estremeceu. — Páris vai morrer? Páris? Desandei. — Não o quero nos meus aposentos!—gritei-lhes. Logo que me alcançaram, pegaram Páris e deitaram-no num divã. — Eu não o quero nos meus aposentos!—repeti.—Levem-no daqui para fora! Heleno fitou-me com uma expressão estarrecida. — Helena! Não pode expulsar o teu marido neste estado!
— Olhe bem para mim! Que devo eu a não ser a minha ruína? Há anos que ele me ignora! Há anos que ele faz de mim o alvo de todas as piadas de todas as cadelas despeitadas que há em Tróia! E agora, agora que precisa de mim, pensa que eu ainda sou a mesma idiota que ele convenceu a deixar Amiclas! Pois bem, eu já não sou essa Helena! Ele que morra, mas não aqui! Ele que morra nos braços da cadela com quem anda agora! Páris acalmara; o seu olho esquerdo, esbugalhado, não me largava; era um olhar estarrecido, estupefato. — Helena, Helena!—gemia o desgraçado. — Vai gemer na cama da outra!—gritei-lhe. Heleno afagou-lhe os caracóis grisalhos. — Que aconteceu, Páris? — Um caso muito estranho, Heleno! Um homem desafiou-me para um duelo. Aquela distância, só eu ou Teucro conseguiríamos acertar o alvo. Um homem corpulento, com uma barba loura, um aspecto selvagem. Parecia um rei dos bosques do monte Ida. Mas eu não o conhecia, nunca o tinha visto em toda a minha vida! Aceitei por isso o desafio—eu sabia que a vitória seria minha! Mas não foi. Ele venceu-me. E depois desatou a rir, tal como Helena! Estava prestando mais atenção à flecha do que aquela triste história. Com certeza que já tinha visto flechas daquelas... Ou teria ouvido falar delas numa canção qualquer cantada pelo harpista de Amiclas... Uma flecha muito comprida, de madeira de salgueiro tingida com o sumo das amoras, penas brancas de ganso na ponta, salpicadas com a mesma tintura carmim. — O homem que te alvejou chama-se Filoctetes—disse-lhe eu.—Não merecia tamanha honra, Páris! Tem uma das flechas de Heracles enterrada na tua cabeça. Antes de morrer, Heracles deu o seu arco e as suas flechas a Filoctetes. Ouvi dizer que Filoctetes também tinha morrido, devido a uma picada de serpente, mas é óbvio que o rumor era falso. Essa flecha, outrora, pertenceu a Heracles. Heleno fitava-me com o mais feroz dos olhares. — Cale-se, harpia sem coração! Como se atreve a atormentar um homem moribundo só para dar vazão à sua cólera? — Sabe, Heleno – eu lhe atirei—,você ainda é pior do que a louca da sua irmã. Ela, pelo menos, não finge que é boa da cabeça... Mas agora
agradeceria que levassem Páris daqui para fora. Fazem-me esse favor? — Heleno?—disse Páris, puxando com uma mão débil pelo saiote do irmão. Leva-me para o Ida, para a minha querida Oinone. Ela me curará— ela tem os dons de Ártemis. Leva-me para Oinone! Meti-me entre os irmãos, tresloucada de raiva. — Não me interessa saber para onde é que o levam! Só quero que o levem daqui para fora! Levem-no para essa tal Oinone—hah! Será que ele não compreende que está condenado? Arranca a flecha, Heleno, deixe-o morrer! É isso que ele merece! Heleno e Deífobo sentaram-no então na beira do divã. O mais forte dos dois, Deífobo, curvou-se para pegar nele, mas Páris não o ajudava nada; poltrão como era, não fazia outra coisa senão chorar, transito de medo. Quando finalmente se ergueu, Deífobo se deu conta de que tinha nos braços um peso morto. Páris nem sequer se agarrava ao irmão. Heleno foi atrás de Deífobo para ajuda-lo. Ao passar por ele, o seu braço roçou acidentalmente na haste da flecha. Páris entrou em pânico, desatou a gritar e a dar aos braços desvairadamente, o corpo numa convulsão constante. Deífobo perdeu o equilíbrio e os três irmãos caíram no chão num emaranhado de corpos. Ouvi um ronco gorgolejado, sufocado. Então, Heleno ergueu-se e ajudou Deífobo a levantar-se e eu pude ver o que eles não tinham visto. Páris jazia metade de costas, metade sobre o lado esquerdo, uma perna contorcida debaixo da outra, a mão mutilada esticada. Os seus dedos mais pareciam garras, o pescoço e as costas estavam rigidamente arqueados. Devia ter caído de lado, com Deífobo em cima dele. Depois, Heleno, ao cair em cima de ambos, fizera-o girar sobre si mesmo. A flecha estava partida; as penas tingidas da ponta e dois cúbitos do fuste estavam no chão ao pé dele e, do seu olho, ressaltava não mais do que um dedo de madeira lascada. Um fino fio de sangue escuro corria-lhe do olho, formando já um charco no mármore do chão. Devo ter gritado, pois Deífobo e Heleno viraram-se imediatamente para mim. Heleno suspirou. — Está morto, Deífobo. Deífobo abanou desalentado a cabeça. — Páris? Páris morto? Só então o levaram dos meus aposentos. Tudo o que eu tinha para me lembrar que o meu marido havia existido eram as marcas das suas mãos na minha saia e as manchas vermelhas no chão alvíssimo. Por um momento, fiquei imóvel, paralisada; depois, encaminhei
me para a janela e olhei para o mundo lá fora, sem nada ver . Aí fiquei até que a escuridão caiu. Não seria capaz de dizer o que pensei durante todo esse dia, à janela da minha sala. A minha memória não guarda nada. O eterno e odioso vento troiano transformara-se num queixume estridente em torno das torres quando alguém bateu à minha porta. Um mensageiro curvava-se diante de mim. — Princesa, o rei ordena que vá à Sala do Trono. — Obrigada. Diga-lhe que irei o mais depressa que me for possível. A imensa Sala do Trono encontrava-se envolta numa semi-escuridão. Só à volta do estrado do trono havia algumas lamparinas acesas, derramando um lençol de uma suave luz amarela sobre o rei, sentado no trono, e também sobre Deífobo e Heleno, que o rodeavam, trocando olhares furiosos por sobre a cabeleira cristalina de Príamo. Parei junto aos degraus. — Que deseja de mim, rei Príamo? Com o sobrolho muito franzido, Príamo curvou-se um pouco e fitou-me; o seu desagrado ao ver-me suplantava todos os outros sentimentos permanentemente estampados nos seus traços: a dor, o desespero, a desesperança mais absoluta. — Filha, você perdeu o teu marido e eu perdi mais um filho. Já perdi a conta dos filhos que a guerra me roubou—disse ele com uma voz tremula, não mais do que um sussurro na escuridão.—Os deuses me levaram os melhores dos meus filhos. Agora, estes dois que aqui vês, com o corpo do irmão ainda quente, desataram a rosnar um para o outro numa altercação interminável, cada um deles exigindo a mesma coisa, cada um deles determinado a obtê-la. — Mas afinal que história é essa?—perguntei, tão exasperada que até me esqueci das normas de cortesia. — Por que raio é que as divergências entre esses dois me dizem respeito? — Dizem-te respeito e muito!—atirou-me o velho, quase tão grosseiro quanto eu.—Deífobo quer casar contigo. Heleno quer casar contigo. Por isso, terá de me dizer qual deles prefere. — Nenhum!—exclamei, revoltada. — Um deles terá de casar contigo—disse o rei. De súbito, naquele rosto enrugado e mirrado, havia indícios muito claros de que Príamo achava a situação picante, como se aquela disputa fosse para ele uma novidade excitante!—Diga-me o nome daquele que prefere! Casará com ele dentro de seis luas!
— Seis luas!—exclamou Deífobo.—Eu não posso esperar tanto tempo! Eu a quero agora, pai—agora! Príamo ergueu-se. — O corpo do teu irmão ainda não esfriou!—atirou-lhe. — Desculpe-me afligi-lo, rei Príamo—disse eu, antes que Deífobo rompesse num dos seus famosos acessos de fúria.—Eu fui casada duas vezes. Não tenciono casar-me uma terceira vez. Quero dedicar o resto da minha vida ao serviço da Mãe. Por isso, não haverá casamento nenhum. Heleno e Deífobo desataram a cuspir protestos, mas Príamo ergueu a mão e silenciou-os. — Fiquem calados e escutem o que eu tenho a dizer! Deífobo, você é o mais velho dos meus filhos e foi nomeado herdeiro. Dentro de seis luas, casará com Helena. Mas não antes! Quanto a você, Heleno, você pertence a Apolo. O teu amor por Apolo deveria ser mais forte do que qualquer mulher . Mesmo esta. Deífobo não conteve os gritos de satisfação. Heleno parecia aturdido. Porém, enquanto olhava para ele, eu própria aturdida com a súbita decisão, Heleno pareceu crescer e mudar, como se certas partes de si mesmo amolecessem e outras endurecessem. Uma mudança muito estranha. Fitando firmemente o pai, disse-lhe então: — Durante toda a minha vida, tenho visto os outros satisfazerem os seus apetites, enquanto que eu passo fome e sede. Pai, ninguém me perguntou se eu queria servir o deus—eu fui consagrado no próprio dia em que nasci! Quando Heitor morreu, devia ter-me nomeado herdeiro, mas Apolo o impediu de fazê-lo! E depois de Troilo morrer, voltou a preterir-me! Agora, te pedi algo muito menos importante e, uma vez mais, recusou as minhas pretensões.—Fez uma pausa, ergueu-se muito altivo e orgulhoso.—Pois bem, há momentos na vida em que mesmo o mais insignificante dos homens não tem outra saída senão revoltar-se! Esse momento chegou para mim. Vou deixar Tróia. Condeno-me a um exílio voluntário. Prefiro transformar-me num vagabundo que nada vale a permanecer aqui, vendo Deífobo arruinar tudo o que resta de Tróia. Odeio ter de dizer isto, pai, mas a verdade é que você não passa de um idiota. Enquanto Príamo digeria o insulto, fiz mais uma tentativa. — Rei Príamo, suplico-te! Não me obrigue a casar de novo!—exclamei.
Deixe-me consagrar a minha vida à deusa! Mas Príamo abanou a cabeça. — Casará com Deífobo. Não suportava permanecer mais tempo na mesma sala que eles; fugi dali para fora, como se as Filhas de Kore me perseguissem. O que aconteceu a Heleno, não sei. Nem me interessa! Enviei uma mensagem a Enéias, implorando-lhe que se deslocasse aos meus aposentos. Em toda a cidade de Tróia, Enéias era a única criatura que poderia sentir-se tentada a me ajudar . Enquanto esperava, andando nervosa pelo quarto, as dúvidas começaram a atormentar-me. Embora a nossa ligação tivesse acabado havia muito tempo, imaginava que ele sentiria ainda alguma afeição por mim. Mas... sentiria mesmo? Ah, onde estaria ele que nunca mais vinha? O tempo fugia, fugia, fugia, cada momento que passava era mais longo, mais sombrio, mais vazio! Pus-me à escuta dos seus passos fortes, determinados. Em vão. Passo nenhum! Desde a morte de Heitor, os passos de Enéias eram, em toda a cidade de Tróia, os únicos passos que tinham a capacidade de inspirar confiança. Mas onde estaria ele que nunca mais vinha? — Que quer de mim, Helena?—perguntou-me; aproximara-se do quarto tão silenciosamente que eu nem sequer dera pela sua chegada. Rindo e chorando, corri a abraçá-lo. — Pensava que não viria!—disse eu, erguendo o rosto para que ele me beijasse. Enéias afastou-se. — Que quer? Olhei-o nos olhos; quando falei, a minha voz soou nervosa, tremida. — Enéias... ajude-me! Páris morreu! — Eu sei. — Compreende por certo o que isso significa para mim! Páris está morto! Eu estou à mercê deles! Ordenaram-me que casasse com Deífobo! Com aquele cão nojento! Ah, por todos os deuses! Na Lacedemônia, não o deixariam sequer tocar na bainha da minha saia ... ! Mas aqui, aqui, Príamo ordena-me que me case com ele! Enéias, se tem por mim alguma afeição, vai ter com Príamo e digalhe que é verdade que eu não quero casar—não tenho o menor desejo de voltar a me casar! Não, nunca mais! A expressão de Enéias era muito clara: parecia que eu lhe havia proposto
a mais desagradável das tarefas. — Está pedindo-me o impossível, Helena. — O impossível?—disse eu, estupefata.—Enéias, para você, nada é impossível! Você é o homem mais poderoso em Tróia! — Aconselho que cases com Deífobo. Aceite e esquece. — Mas eu... eu pensava... eu pensava... Eu sei que já não me quer, mas... pensava que sentia por mim alguma afeição e que... me defenderia! Riu, enquanto erguia a cortina, preparando-se para sair . — Helena, eu não vou ajudar . Faça um esforço para entender a minha posição. Cada dia que passa cria um novo abismo entre os filhos de Príamo— cada dia que passa é, para mim, um passo em frente rumo ao trono de Tróia. A minha ascensão é um fato, Helena, e não vou pô-la em perigo por tua causa. Entendido? — Sabe qual é o fim de homens ambiciosos como você, Enéias! Voltou a rir . — O fim? O fim é um trono, Helena! Um trono! — Te rogarei uma praga, Enéias!—atirei-lhe.—Gastarei tudo o que tenho para que essa praga se torne realidade! Pedirei aos deuses que nunca sente em trono nenhum—que nunca conheça a paz—que vagueie pelo mundo como um desgraçado—e que acabe os teus dias no meio de selvagens, no meio de um povo miserável, numa miserável cabana! Creio que as minhas palavras o assustaram. A cortina balouçou; Enéias desapareceu. Logo que Enéias partiu, pus-me a pensar naquilo que me esperava: o casamento com um homem que eu odiava, um homem que, só de me tocar, já me causava náuseas. Percebi então de que, pela primeira vez na minha vida, estava reduzida aos meus próprios recursos. De que, se queria libertarme daquela horrível cidade-prisão, teria de fazê-lo sem a ajuda de ninguém. Menelau não estava longe e duas das Portas de Tróia estavam sempre abertas. Porém, as mulheres do palácio não estavam acostumadas a caminhar pelas ruas, nem os seus pés delicados estavam habituados aos sapatos das mulheres do povo, os mais adequados a longas caminhadas. Sair pela Porta Dardaniana, passar sob a Porta Ceia e chegar à praia grega era uma missão impossível. Quer dizer ... a menos que eu fosse montada num animal! As mulheres de Tróia costumavam usar burros; empoleiravam-se no dorso do animal, mas de lado, e não de frente, como as amazonas. Sim, teria
de ser essa a solução! Roubaria um burro e iria até à praia envolta nas sombras da noite. Roubar o burro não foi difícil. Nem montá-lo. Porém, quando cheguei à Porta Dardaniana—muito mais distante da cidadela do que a Porta Ceia—o burro recusou-se a avançar mais. Como era um animal habituado à cidade, desagradavam-lhe os perfumes do campo, os cheiros penetrantes que anunciavam o Outono, a aragem que vinha do mar . Chicoteei-o, mas ele desatou a zurrar—e que zurro triste aquele; quem o ouvisse, pensaria por certo que o asno estava a fugindo! Não se finou ele, finou-me ele a mim. Os guardas da Porta Dardaniana correram investigar . Reconheceram-me e detiveram-me. — Eu quero ir para junto do meu marido!—supliquei, chorosa.—Por favor! Deixem-me voltar para o meu marido! Claro que não me deixaram ir . Em contrapartida, o maldito do burro, depois de tanto zurrar, decidiu que, agora, gostava dos cheiros da planície. Enquanto ele corria para a liberdade dos campos, eu era encerrada no palácio. Mas os guardas não foram acordar Príamo. Quando dei por mim, estava à porta do quarto de Deífobo. Aguardei passivamente que ele se levantasse e assomasse à porta. Quando apareceu, fitei-o calmamente. Agradeceu cortesmente aos guardas e deu-lhes até uma prenda; mal os guardas acabaram de fazer as suas vênias, Deífobo ergueu a cortina do seu quarto. — Entre—disse ele. Não me mexi. — Queria ir para o teu marido, não era? Pois bem, aqui está o teu marido! — O nosso casamento ainda não foi celebrado. Além disso, tanto quanto sei, você tem uma esposa! — Já não tenho. Divorciei-me. — Terá de esperar seis luas—foi o que o teu pai disse! — Mas, minha querida, isso foi antes de você ter tentado fugir para os gregos e, em particular, para os braços de Menelau... Quando o meu pai souber disso, não me imporá nem uma lua, quanto mais seis! Especialmente quando eu o informar de que já consumei a união.... — Não se atreveria ... !—rosnei-lhe. A resposta de Deífobo foi puxar-me por uma orelha com uma mão e pelo nariz com a outra. Foi assim que me arrastou para o seu quarto. Aturdida de dor, incapaz de me libertar da força bruta dos seus braços, caí na cama como um peso morto. Só havia uma
violação pior do que aquela: a morte. A última coisa em que pensei antes de entregar a minha mente nas mãos da Mãe foi que, um dia, violaria Deífobo da mais horrenda das maneiras: o mataria.
Capítulo Trigésimo Primeiro Narrado por Diomedes
Pouco depois do malogrado ataque troiano, Agamêmnon convocou um conselho, apesar de Neoptolemo ainda não ter chegado. Uma atmosfera geral de otimismo impregnava o nosso acampamento. Só as muralhas nos detinham. Agora, porém, Ulisses não pensava noutra coisa senão nas muralhas. Esse era, naquele momento, o seu único objetivo. Quem sabe, talvez Ulisses conseguisse elaborar uma solução... Os conselheiros tagarelavam bem-dispostos enquanto Agamêmnon se demorava a conversar com Nestor, divertido com qualquer coisa que o velho rei lhe segredara. Terminada a conversa, o rei supremo ergueu o cetro e bateu com o bastão, dando assim início à assembléia. — Ulisses, creio que tem novidades.... — É verdade, rei supremo. Primeiro, creio que encontrei já um processo que nos permitirá entrar nas muralhas troianas, embora não possa ainda falar disso. Porém, há também notícias muito interessantes em outras áreas. Fitou Menelau, aproximou-se dele, pôs a sua mão sobre o ombro do irmão de Agamêmnon, afagou-o. — Chegaram aos meus ouvidos certos rumores. Rumores relativos a uma acesa discussão entre Príamo, Heleno e Deífobo. Por causa de uma mulher . Por causa de Helena, para ser mais preciso. Pobre Helena! Após a morte de Páris, solicitou que a deixassem dedicar-se ao serviço da Mãe Kubaba, mas Deífobo e Heleno pediram a Príamo a mão da viúva do irmão. Príamo decidiu a favor de Deífobo, que não esperou pela celebração do casamento para fazer dela sua mulher . A corte ficou furiosa, mas Príamo recusou-se a anular a união. É que, segundo me disseram, Helena foi detida pelos guardas da Porta Dardaniana quando se preparava para fugir de Tróia. Queria vir ter contigo, Menelau. Agitado, ofegante, Menelau disse qualquer coisa que ninguém entendeu e logo escondeu o rosto entre as mãos. Quanto a mim, pensava na bela e altiva Helena reduzida ao nível de uma vulgar concubina de Deífobo. — Heleno ficou tão revoltado com o desfecho deste caso—prosseguiu Ulisses—que resolveu escolher o caminho do exílio. Interceptei-o nos arrabaldes da cidade, esperando que a desilusão que sentia o levasse a confiar-me os oráculos de Tróia. Encontrei-o no altar consagrado a Apolo
Timbreu, o qual, segundo ele, o instruíra para que me revelasse tudo o que eu quisesse saber . Pedilhe que me revelasse os oráculos de Tróia—todos eles. Devo dizer-lhes que há muito tempo que não me sentia tão cansado... Heleno recitou milhares de oráculos! Contudo, obtive aquilo que pretendia. — Teve muita sorte—disse Agamêmnon. — A sorte, rei supremo—replicou Ulisses, num tom neutro, apesar de não ter gostado nada da observação,—é algo que, infelizmente, sobrestimamos. Não é a sorte que conduz ao êxito, mas sim o trabalho duro. A sorte é aquilo que acontece no momento em que os dados caem na mesa. O trabalho duro é aquilo que acontece quando um troféu cai nas mãos de um homem apenas porque ele lutou para obtê-lo. — Claro, claro, claro!—exclamou o rei supremo, arrependido do seu comentário. – Peço que me desculpe, Ulisses! Trabalho duro, sempre trabalho duro! Eu sei que é verdade, admito que é verdade. Mas fale-nos dos oráculos, te peço... — No que nos diz respeito, apenas três dos oráculos de Tróia assumem uma importância evidente. Por sorte, nenhum deles representa um obstáculo intransponível. Muito resumidamente, eis o que rezam esses oráculos: Tróia cairá este ano, se os chefes gregos possuírem a omoplata de Pélops, se Neoptolemo combater e se Tróia perder o Paládio de Palas Atena. Levantei-me de um salto, excitado. — Ulisses, eu tenho a omoplata de Pélops! O rei Piteu me deu após a morte de Hipólito. O velho gostava muito de mim—a omoplata de Pélops era a mais preciosa das suas relíquias. Ou dava a mim, ou a Teseu. Preferiu dá-la a mim. Trouxe-a comigo para Tróia para me dar ... enfim... para me dar sorte. Ulisses arreganhou um sorriso. — É caso para dizer: a sorte está do nosso lado!—disse ele para Agamêmnon.—Quanto a Neoptolemo, o caso já está tratado e nutrimos grandes esperanças de que ele venha combater ao nosso lado. Resta-nos o Paládio de Palas Atena, a qual, por sorte, é a minha protetora. Que tal, hã? — Não estou gostando nada das piadas, Ulisses—disse o rei supremo. — Ah—onde ia eu? No Paládio. Pois bem: essa venerável imagem terá de ser nossa. É a imagem mais venerada em Tróia e a sua perda seria para Príamo o mais rude dos golpes. Tanto quanto sei, a estátua encontra-se em
algum lugar nos subterrâneos da cidadela. Um segredo muito bem guardado... Mas estou certo de que conseguirei descobrir esse segredo... O mais difícil será mover a imagem—dizem que é muito pesada. Diomedes, irá comigo a Tróia? — Vamos já, se quiser! Como não havia mais nada de importante a discutir, Agamêmnon dissolveu o conselho. À saída, Menelau aproximou-se de Ulisses. — Crê que a verá?—perguntou ele, ansioso. — É provável, Menelau, é provável—respondeu-lhe Ulisses, num tom delicado. — Então, diga-lhe que eu vou pedir aos deuses que a ajudem a fugir e a vir ter comigo. — Está bem, eu digo.—Porém, enquanto nos encaminhávamos para a sua casa, virou-se para mim e disseme:—Não digo coisa nenhuma! O destino da cabeça de Helena é o machado, e não o travesseiro de Menelau. Desatei a rir . — Vai uma aposta?—perguntei-lhe. — Entramos pela conduta?—foi a minha primeira pergunta quando começamos a traçar um plano. — Entre você. Eu não posso. Tenho de chegar a Helena sem levantar suspeitas. Portanto, tenho de ir disfarçado. Deixou a sala, mas logo voltou, trazendo um pequeno e terrível chicote. Este chicote era formado por quatro correias e, na ponta de cada correia, havia um globo de bronze eriçado de pequenas pontas. Perplexo, olhei para Ulisses e para o chicote. Até que ele me virou as costas e começou a despir a blusa. — Açoite-me, Diomedes. Recuei, horrorizado. — Mas você enlouqueceu, Ulisses? Eu, te açoitar a você? Não consigo! Ulisses virou-se para mim, manifestamente irritado. — Nesse caso, feche os olhos e faça de conta que eu sou Deífobo. Eu tenho de ser açoitado, Diomedes—tenho de ficar bem marcado! Pus o meu braço sobre os seus ombros nus. — Peça-me o que quiser, mas não isso. Açoitar a você—um rei!—como se fosse um escravo rebelde? Com um riso brando, encostou o seu rosto ao meu braço. — Ora, Diomedes, que importância podem ter mais umas quantas cicatrizes na minha carcaça já tão flagelada? Eu quero que me confundam
com um escravo rebelde, Diomedes. Um escravo que acabou de fugir do acampamento grego terá necessariamente de ter umas boas marcas nas costas... Vá, use o chicote. Abanei a cabeça. — Não. — Use o chicote, Diomedes!—berrou-me ele, com um ar feroz. Sem que o desejasse, peguei no chicote; Ulisses curvou-se. Enrolei as quatro correias na mão, enchi-me de coragem e golpeei-lhe a pele. Cada um dos meus golpes deixava-lhe nas costas quatro vergões róseos; com um misto de repulsa e fascínio, os meus olhos fixavam-se no resultado da minha involuntária violência. — Mais forte, Diomedes! Bata com mais força!—disse ele, impaciente. Sem sangue, não é nada! Fechei os olhos e obedeci. Mais dez vezes o açoitei com aquele cruel objeto de tortura; de cada vez, o chicote arrancou mais sangue à sua carne, deixando-lhe cicatrizes para toda a vida, como se ele não fosse mais do que um escravo rebelde. Quando terminei, beijou-me. — Não fique triste, Diomedes. Para que me serve uma bela pele?— Estremeceu.—Por acaso até nem é desagradável... E o aspecto? Ficou com bom aspecto? Acenei que sim, recusando-me a falar . Despiu o saiote e envolveu o baixo ventre com uma peça de linho muito suja; depois, desatou a mexer e a remexer no cabelo até ficar todo desgrenhado; mas só parou depois de tê-lo escurecido com a fuligem do trípode do fogo. Juro que os seus olhos brilhavam de puro gozo. Por fim, foi buscar um par de grilhetas. — Prenda-me às tuas grilhetas, tirano de Argos!—disseme ele, todo satisfeito. Obedeci de novo às suas ordens, ainda que as chicotadas me tivessem magoado muito, provavelmente mais do que a ele. Para Ulisses, aquilo era muito simplesmente um meio para alcançar um fim. Enquanto eu lhe prendia os tornozelos com as grilhetas de bronze, Ulisses delineava o seu plano. — Tenho de entrar na cidadela logo que chegue a Tróia. Seguiremos juntos no carro de Ájax—é um carro forte, estável e silencioso. Paramos no bosque que fica perto da pequena torre de vigia contígua à Cortina Ocidental. Aí, separamo-nos. Farei o teatro necessário para que me deixem entrar pela Porta Ceia e, depois, pelas portas da cidadela—direi que tenho
de falar com Polidamas com a máxima urgência. Creio que o nome dele me abrirá todas as portas. — Mas—disse eu, erguendo-me—,você não vai falar com Polidamas. — Não. Vou falar com Helena. Imagino que, depois do casamento forçado, Helena terá todo prazer em me ajudar . Com certeza que ela conhece os segredos dos subterrâneos da cidadela. Até pode ser que saiba onde se encontra o Paládio. Passeou-se um pouco pela sala, praticando. — E eu? — Você espera no bosque até que passe metade da noite. Depois, sobe pela conduta e mata todos os guardas que se encontrem nas proximidades da pequena torre de vigia. Eu tratarei de levar a imagem até às muralhas. Quando ouvir o canto da cotovia noturna com esta variação—e assobiou-a três vezes—corre para a conduta, a fim de me ajudares a fazer sair a estátua. Ulisses deixou-me no bosque. Ninguém dera por nós. Trôpego e cambaleante, correu como um louco na direção da Porta Ceia, gritando, guinchando, rojando-se na poeira do chão, transformando-se, por obra e graça do seu teatro, no mais triste espécime humano que alguma vez vira em toda a minha vida. Ulisses sempre gostara de ser outras pessoas muito diversas dele, mas creio que a personagem do escravo fugitivo era precisamente aquela que mais lhe agradava. Quando a noite chegou a meio, aproximei-me da conduta e rastejei lentamente por aquele espaço sinuoso e sufocante, sem fazer barulho. Quando saí da conduta, descansei um pouco e deixei que os meus olhos se habituassem ao luar, enquanto me mantinha alerta aos poucos sons que vinham da passagem superior das muralhas. Estava muito perto da pequena torre de vigia que Ulisses escolhera para o nosso encontro por ela se encontrar muito longe de outros pontos da muralha protegidos por guardas. Cinco guardas estavam de sentinela, bem acordados e alerta; no entanto, tinham-se enfiado todos na guarita! Quem é que comandaria aqueles soldados? Permitiam que eles se refugiassem do frio, negligenciando assim os bastiões? Ah, num acampamento grego, não teriam grande futuro! Envergava um saiote de macio cabedal escuro e uma blusa, tinha um punhal entre os dentes e uma espada pequena na mão direita. Quando me aproximei da janela da guarita, tossi bem alto, para eles ouvirem. — Vá ver quem está lá fora, Maio—disse alguém. Maio saiu, como se
fosse dar um passeio; com efeito, um ataque de tosse não teria nada de alarmante quando ouvido no alto das muralhas mais poderosas do mundo. Não vendo ninguém, Maio ficou nervoso—embora, idiota como era, não tivesse pedido reforços. Era óbvio que, naquele momento, já pensava que a tosse não fora mais do que um produto da sua imaginação. Apesar de tudo, avançou com a lança preparada para o que desse e viesse. Deixei-o passar . Depois, ergui-me silenciosamente, calei-o com uma mão e ceifei-o com a espada que tinha na outra. Calmamente, sem fazer barulho, arrastei-o para um canto escuro. Momentos depois, emergiu outro guarda, à procura de Maio. Cortei-lhe a garganta sem um único ruído: dois já estavam mortos, faltavam ainda três. Então, antes que os três começassem a ficar nervosos, aproximei-me de novo da janela e desatei a soluçar como se estivesse caindo de bêbado. Um dos homens soltou um suspiro exasperado; outro saiu correndo, impaciente. Envolvi-o com os meus braços como se estivesse completamente toldado pela bebida e, quando o bronze deslizou sob as suas costelas do lado esquerdo, o homem nem um ai deu. Mantendo-o direito, com ele rodopiei numa ébria dança, imitando uma voz troiana. Infalível: o quarto dos cinco homens saiu. Atirei-lhe o cadáver com um risinho sumido e, enquanto ele afastava o camarada morto, trespassei-o com a espada. Arrastei-os pelo chão com um ligeiro tinido metálico, como se eles estivessem a internar-se na escuridão da noite. Então, espreitei pela janela. Só faltava o capitão da torre, que estava sentado em uma mesa, resmungando baixinho para si mesmo. Vendo-se obviamente perante um dilema, o capitão estava de olhos fixos num alçapão. Estaria à espera de alguém com quem havia marcado algum encontro? Entrei imediatamente na guarita, saltei sobre ele por trás, detendo-lhe o grito com a mão. Morreu tão rapidamente como os outros e com os outros foi ter ao canto escuro. Depois, sentei-me lá fora à espera; se o visitante o capitão estava esperando aparecesse entretanto, seria preferível que não encontrasse ninguém na torre. Pouco tempo depois, Ulisses assobiou a sua variação sobre o canto da cotovia—era imensa a sua inteligência! Claro que teria de ser uma variação e não o próprio canto da cotovia—pois poderia muito bem acontecer que uma cotovia decidisse desatar a cantar nas proximidades da torre. Em suma: não havia nenhuma cotovia por perto; fazia votos para que também não aparecesse nenhuma visita, pois não poderia avisar Ulisses.
Levantei a porta do alçapão e desci pela escada. Ulisses estava à minha espera no fundo. — Espere!—murmurei, e logo saí para ver se havia alguém por perto. Mas as ruas não podiam estar mais calmas e escuras. — Tenho comigo, Diomedes, mas ela é tão pesada como Ájax!—disseme Ulisses logo que voltei.—Vai ser difícil arrastá-la por uma escada de vinte e cinco cúbitos. Ela—o Paládio—estava precariamente empoleirada sobre o dorso de um burro. Levamo-la para dentro da câmara inferior da torre e mandamos embora o burro. Assombrado, examinei a imagem à luz da lamparina. Oh, era tão antiga! Uma forma feminina, dificilmente reconhecível ao fim de tanto tempo, esculpida a partir de uma madeira escura, demasiado suja e gasta pela passagem de uma eternidade para que pudesse considerá-la bela—ah, bela é que ela não era! Tinha uns pés minúsculos, pontiagudos, umas ancas enormes, uma vulva obscena, uma barriga imensa e flácida, dois seios bulbosos, os braços colados ao corpo, uma cabeça redonda, uma boca saliente. Além disso, era tremendamente gorda. Mais alta do que eu e, de fato, muito pesada. Os pés minúsculos e pontiagudos permitiriam talvez rodopiar como se fosse um daqueles piões com que as crianças brincam; a verdade, porém, é que a estátua não se agüentava sobre aqueles pés; ou seja, não tínhamos alternativa senão pegar nela. — Ulisses, acha que ela cabe na conduta?—perguntei. — Cabe. A barriga dela não é maior do que os seus ombros. Além disso, ela é mais redonda do que você. Tal como a conduta. Então, tive uma idéia brilhante. Fui à procura de uma corda. Felizmente, encontrei-a rapidamente. Depois, atei-a sob os seios da estátua, e ainda fiquei com corda bastante para enrolar nela a minha mão. Comecei a subir a escada, arrastando-a com a corda, enquanto Ulisses a segurava por baixo, com uma mão nas imensas e obesas nádegas e a outra dentro da vulva. — Crê—disse eu, ofegante, quando chegamos à guarita—,crê que ela alguma vez nos perdoará os nossos abusos? — Claro que perdoa—disse ele, descansando no chão ao lado dela.—Ela é a primeira Atena, que é Palas, e eu pertenço-lhe. Fazê-la descer pela conduta revelou-se mais fácil do que fazê-la subir pela escada; Ulisses tinha razão. As suas formas redondas deslizavam melhor
pela conduta do que os meus ombros largos e as minhas angulosidades masculinas. A mantivemos atada com a corda; a corda revelou-se um elemento precioso mal nos fizemos à planície, já que, com ela, pudemos arrastá-la até ao bosque e ao carro de quatro rodas de Ájax. Aí, gemendo baixinho, num derradeiro esforço, içamo-la para dentro do carro e caímos para o lado. A Lua encaminhava-se ainda para oeste, o que significava que dispúnhamos ainda de tempo suficiente para conduzi-la até ao acampamento grego. — Conseguiu, Ulisses!—disse eu, exultante. — Não teria conseguido nada sem a tua ajuda, meu amigo. Quantos guardas teve de matar? — Cinco.—Bocejei.—Estou cansado. — Como é que acha que me sinto? Você, pelo menos, tem as costas em boas condições... — Não me fale mais disso! Conte-me o que aconteceu no interior da cidadela. Esteve com Helena? — Foi fácil enganar os guardas. Ao fim de pouco tempo, já estava dentro da cidade. Nas portas da cidadela só havia um guarda—e estava dormindo. Peguei as correntes e passei por cima dele—parece incrível, mas é verdade. Encontrei Helena sozinha—Deífobo estava não sei onde. Ficou algo surpreendida quando viu um escravo imundo e ensangüentado prostrar-se aos seus pés; só que, um instante depois, viu-me os olhos e reconheceu-me. Quando lhe pedi que me conduzisse aos subterrâneos, não hesitou. Creio que estava à espera de Deífobo. Mas nós escapamos antes que ele chegasse. Logo que encontramos um lugar seguro, Helena ajudou a libertar-me das grilhetas. Depois, descemos aos subterrâneos.—Soltou um risinho malicioso. —Creio que os subterrâneos devem lhe ter dado muito jeito quando andava com Enéias... Helena conhecia aquilo tão bem como as palmas das suas mãos... Mal entramos na úmida e escura cripta, desatou a fazer-me perguntas—como é que estava Menelau—e você—e Agamêmnon—e mais este, e mais aquele... Tudo o que eu lhe pudesse dizer seria pouco... — Mas... e o Paládio? Como é que conseguiu trazer a estátua se só tinhas Helena a para ajudá-lo?—perguntei. Os ombros dele abanaram de riso. — Enquanto eu dizia as orações e pedia o consentimento da deusa para levá-la para outro lugar, Helena desapareceu. Pouco depois, voltou com o
burro! Então, ajudou-me a sair dos subterrâneos, por uma porta que dava diretamente para a rua sob a muralha da cidadela, onde me beijou—um beijo perfeitamente casto, devo dizer!—e me desejou que tudo corresse o melhor possível. — Pobre Helena...—disse eu.—Deífobo é por certo o motivo que a levou a juntar-se a nós na luta contra Tróia. A balança de Helena pende agora para o nosso lado. — Tem toda razão, Diomedes. Agamêmnon mandou erigir um altar magnificente na praça das assembléias e entronizou o Paládio no interior de um nicho de ouro. Depois, convocou todos os homens que pudessem caber naquela área e explicoulhes como eu e Ulisses havíamos raptado a deusa. Agamêmnon havia nomeado um sacerdote especial para Palas Atena e o sacerdote ofereceu-lhe as melhores vítimas que pôde encontrar; o fumo era tão branco como a neve e ergueu-se tão rapidamente na direção dos céus que logo concluímos que a deusa adorava a sua nova casa. Ah, o que a pobre devia ter odiado a sua casa troiana, tão fria, tão úmida, tão escura! Sem a menor hesitação, a cobra sagrada coleou rumo à sua casa sob o altar, após o que esticou a cabeça para lamber o leite do pires e engolir o seu ovo. Uma cerimônia tão feliz quanto imponente. Concluídos os rituais, Ulisses, eu e os outros reis deslocamo-nos a casa de Agamêmnon, a fim de festejarmos. Nenhum de nós recusaria um convite para jantar com o rei dos reis; os seus cozinheiros eram, sem sombra de dúvida, os melhores. Queijos, azeitonas, pães, fruta, carne assada, peixe, doces à base de mel, vinho. A disposição era excelente, a conversação alegre, o vinho magnífico, a alegria muita; a certa altura, Menelau pediu ao harpista que cantasse. Já um pouco sentimentais por obra do vinho, instalamo-nos confortavelmente para ouvi-lo. Estava ainda para nascer um grego que não amasse as canções, os hinos, as baladas do seu país; nós preferíamos ouvir o bardo a ir para a cama com mulheres. O harpista cantou-nos uma das baladas de Heracles, após o que esperou pacientemente até que os veementes aplausos se esbatessem. Era um poeta magnífico e um magnífico músico; Agamêmnon trouxera-o de Áulida dez anos antes, mas era originário do Norte e dizia-se que descendia do próprio Orfeu, o maior de todos os bardos. Alguém pediu o Hino de Guerra de Tideu, outros queriam ouvir o
Lamento de Dánao, Nestor exigia a História de Medeia; porém, a cada pedido, o bardo, com um sorriso terno, respondia que não. Então, ajoelhando diante de Agamêmnon, disse-lhe o seguinte: — Rei supremo, eu compus uma canção que fala de acontecimentos muito mais próximos de nós do que os feitos dos antigos heróis. Permite-me que cante essa composição? Agamêmnon inclinou a imperial cabeça já meio grisalha. — Canta, Alfides de Salmidessos. Alfides passou ternamente com os dedos pelas cordas tensas e logo extraiu da sua lira uma lenta e sofrida melodia; a canção era simultaneamente triste e gloriosa, uma canção sobre Tróia e sobre o exército de Agamêmnon que combatia diante das suas muralhas. Extasiados, escutamos atentamente a longa canção, os queixos descansando nas mãos, os olhos cerrados, as faces molhadas. A composição terminava com a morte de Aquiles. O resto era demasiado doloroso. Apesar de ter passado algum tempo, continuávamos a evitar pensar no triste fim que Ájax tivera. “O ouro da vida vestia-o na morte: Da vida despedido, não mais que uma sombra, A máscara perfeita cobria-lhe o rosto. Juntas, as suas mãos, eram já luvas de ouro; Todo o seu ser mortal em ouro transformado, Toda a sua glória em metal convertida: Aquiles, o Sem-Par, a tua voz calou-se! Ó divina musa, anima meu engenho, Deixa-me dar a vida àquele que morreu! Veste-o de ouro vivo com as minhas palavras, Deixa que os seus passos voltem a retumbar, Espalhando o terror entre os seus inimigos! Deixa que o seu carro atravesse a planície, O medo espalhando na soturna Tróia!” “Deixa que eu o cante e às suas plumas de ouro, Deixa-me lembrá-lo fulgente como o Sol, Incansável correndo pela erva orvalhada, Com as rédeas na couraça o ritmo marcando! Deixa que Aquiles, o filho de Peleu, O nascido sem lábios, a glória reviva!” Com os corações dilacerados, aplaudimos o harpista Alfides de Salmidessos durante longo tempo; o bardo nos fizera entrever a imortalidade, visto que a sua canção viveria muito mais tempo do que nós. Era como se, apesar de vivermos ainda, estivéssemos para lá da vida, inscritos na eternidade através das suas palavras. Uma carga demasiado pesada para os nossos ombros humanos. Quando os aplausos finalmente terminaram, tive vontade de ficar a sós com Ulisses; uma assembléia de homens não me parecia o ambiente mais adequado, depois de o harpista ter instilado em nós tão terríveis emoções.
Olhei para Ulisses, que entendeu imediatamente o meu pedido, sem ter de macular com palavras o recolhimento que as circunstâncias impunham. Levantou-se e caminhou na direção da porta. De súbito, porém, deteve-se, com uma exclamação de puro espanto. Porque pairava sobre a sala o mais intenso dos silêncios, viramos-nos todos para ele. E ficamos tão assombrados como ele. De início, era como se houvesse algo de sobrenatural naquela aparição. O sortilégio em que caíramos devido à canção de Alfides era ainda muito forte: parecia que o bardo chamara um fantasma para ouvir a sua música. Aquiles também veio para o ouvir!, pensei eu. Mas quem lhe dera o sangue para que a sua sombra ganhasse substância? Então, examinei mais atentamente a aparição e concluí que não era Aquiles. Aquele homem era tão alto e corpulento como Aquiles, mas era muito mais jovem. A barba, não mais do que uma penugem, era loura também, mas mais escura; o âmbar dos olhos era também mais forte, mais intenso. E, mais importante que o resto, tinha dois lábios perfeitos. Nenhum de nós sabia há quanto tempo estaria ali o rapaz; porém, pelo sofrimento que o seu rosto traduzia, não havia a menor dúvida de que ouvira pelo menos a parte final da canção. Agamêmnon levantou-se e caminhou para ele de braços abertos. — Você é Neoptolemo, o filho de Aquiles! Seja bem-vindo! O jovem aquiesceu com um ar grave. — Obrigado. Vim para ajudar o exército grego, mas lancei-me ao mar antes de saber que o meu pai tinha morrido. Fiquei sabendo graças à canção. Ulisses juntou-se aos dois. — Haveria melhor maneira de ficar sabendo tão horrenda notícia? Suspirando, Neoptolemo baixou a cabeça. — Tem razão. A canção nos diz tudo o que haveria para dizer . E Páris? Já pagou? Agamêmnon pegou-lhe nas mãos. — Já, Páris já pagou. — Quem o matou? — Filoctetes, com as flechas de Heracles. O rapaz fez um esforço para se mostrar polido, para manter uma expressão impassível. — Lamento muito, mas eu não os conheço. Qual de vocês é Filoctetes? — Sou eu—retorquiu imediatamente Filoctetes.
— Eu não estava aqui para vingar a morte do meu pai. Gostaria, por isso, de te agradecer . — Eu sei, meu rapaz, eu sei. Preferia ter sido você, não é? Mas acontece que eu fiquei frente a frente com o patife por um mero acaso—ou com a conivência dos deuses; quem somos nós para saber? Bom, mas como você não nos conhece, deixe-me lhe apresentar os nossos chefes. O nosso rei supremo foi o primeiro a saudar-te. O segundo foi Ulisses. Quanto aos outros, eis os seus nomes: Nestor, Idomeneu, Menelau, Diomedes, Automedonte, Menesteu, Meríona, Macáon e Euripilo. Tão poucos que nós somos!, pensei nesse momento. Tantos que partiram! Tantos! Ulisses, um extasiado Automedonte e eu conduzimos Neoptolemo à paliçada mirmidã. Era uma caminhada longa e as notícias da sua chegada já tinham se espalhado. Soldados saíam aos montes das casernas e juntavam-se sob os débeis raios de sol para o saudarem tão entusiasticamente como costumavam saudar o seu pai. Descobrimos que a sua semelhança com Aquiles não se limitavam ao físico; Neoptolemo reagia à desvairada alegria dos homens com o mesmo sorriso tranqüilo e o mesmo aceno desatento do pai; tal como o pai, Neoptolemo encerrava-se em si mesmo, evitando toda e qualquer exposição do seu caráter . Enquanto caminhávamos, fomos lhe contando aquilo que a parte final da canção não lhe revelara: o triste fim de Ájax, a morte de Antíloco e de tantos outros. Depois, falamos dos vivos. Os Mirmidões estavam já formados. As aclamações só se ouviram depois do rapaz—teria, quando muito, dezoito anos—lhes ter falado. Depois, desataram a bater com as espadas nos escudos, produzindo um ruído tal que Ulisses e eu desandamos logo, a caminho do nosso acampamento. — Estamos chegando ao fim, Diomedes. — Se os deuses conhecem o significado da palavra “piedade”, a todos peço que esse fim chegue depressa. — Dez anos...—disse Ulisses, afastando dos olhos um cacho de cabelo mais rebelde.—É curioso... Calcas acertou em cheio... Terá sido uma questão de sorte? Ou será que Calcas possuía mesmo a Segunda Visão? Estremeci ao ouvi-lo exprimir tais dúvidas. — Não é correto duvidar-se das faculdades dos sacerdotes. — Talvez, talvez. Ah, daria tudo para não voltar a ter no meu cabelo uma partícula que fosse desta maldita poeira! Para me fazer de novo ao mar!
Para lavar todo o fedor desta planície com límpida água 220 salgada! Para ir para qualquer lugar do mundo em que não haja vento e em que as estrelas não tenham de competir com dez mil fogueiras! Para me purificar de tudo isto! — Os seus anseios são os meus, Ulisses. Embora seja difícil acreditar que o fim se aproxima. — O fim virá com um cataclismo capaz de rivalizar com aqueles que são obra de Poseidon. Fitei-o. — Já traçou o plano final? — Já. — Conte-me tudo! — Antes de tempo? Diomedes, Diomedes! Nem mesmo a você eu contaria! Mas fique tranqüilo que já não terá de esperar muito... — Vamos para dentro. Quero tratar dos vergões. Desatou a rir . — Eles se curam sozinhos—disse. Na noite seguinte, Neoptolemo jantou conosco. — Tenho uma coisa guardada para te dar, Neoptolemo—disse Ulisses logo que a refeição terminou.—É a minha prenda para você. Neoptolemo olhou para mim, confuso. — Que ele quer dizer? Encolhi os ombros. — Ninguém consegue adivinhar o que se passa naquela cabeça, Neoptolemo. Ulisses voltou à sala com um trípode enorme, sobre o qual se erguia a armadura de ouro que Tétis encomendara a Hefaísto. Neoptolemo levantou-se de um salto, murmurando qualquer coisa que não entendi; depois, com dedos delicados, apaixonados, tocou na couraça. — Fiquei furioso—disse ele, com lágrimas nos olhos—quando Automedonte me disse que tinha ganho a armadura a Ájax. Tenho de lhe pedir perdão, Ulisses. Ganhou-a para me dar? Ulisses sorriu. — Esta armadura vai lhe assentar lindamente, rapaz. Ela deve ser usada, e não pendurada numa parede ou entregue aos parentes de um morto, que nunca se serviriam dela. Use-a, Neoptolemo. Que ela te dê sorte, são os meus sinceros votos! No entanto, vai precisar de algum tempo para se habituar a ela. Pesa sensivelmente o mesmo que você. Nos cinco dias seguintes, envolvemo-nos numas quantas escaramuças
menores; Neoptolemo teve o seu primeiro contato com os Troianos e não podia ter ficado mais satisfeito. O filho de Aquiles era um guerreiro, nascera para a guerra, tinha fome de guerra. O seu único inimigo era o tempo—e ele o sabia. Diziam-nos os seus olhos que ele compreendia que desempenharia um papel menor na guerra de Tróia; e que, além disso, iria participar apenas no desfecho dessa mesma guerra; as coroas de louros seriam para aqueles que haviam suportado dez anos de uma luta insana. Contudo, Neoptolemo era afinal o fator decisivo. Renovara a esperança, a fúria, o entusiasmo; os olhos dos soldados, fossem eles de Argos ou da Etólia ou da Tessália, seguiam-no com uma devoção canina sempre que ele subia no carro do pai, envergando a armadura do pai. Para eles, ele era Aquiles. E, enquanto os dias iam passando, eu continuava a observar Ulisses, ansiando pelo próximo conselho. O conselho foi convocado meia lua depois de Neoptolemo ter chegado; segundo um dos arautos imperiais, se realizaria no dia seguinte, após a refeição do meio-dia. Eu sabia que era inútil tentar arrancar fosse o que fosse de Ulisses; por isso, depois de termos ceado, pus um ar completamente desinteressado, enquanto ele saltava de assunto em assunto tão destramente como o melhor dos atletas salta os mais difíceis obstáculos. Reagiu muito bem à minha indiferença; porém, quando eu me despedi dele com um ar algo altivo, rompeu num riso incontrolável. Tive vontade de darlhe um pontapé, mas ainda me doíam as chicotadas com que o marcara (doíam-me mais a mim do que a ele, de fato) e, por isso, contive-me; limiteime a fazer uma acerba apreciação a propósito dos seus antepassados. Todos apareceram bem cedo na casa de Agamêmnon, como cães acorrentados farejando sangue fresco, cuidadosamente vestidos com os seus melhores saiotes e jóias, como se tivessem sido convidados para uma recepção formal na Sala do Leão, em Micenas. O arauto-mor postou-se aos pés da Cadeira do Leão, clamando os nomes dos presentes para um subordinado cuja tarefa consistiria em decorá-los; a memória desse humilde funcionário seria o veículo que conduziria esses nomes à posteridade. “Imperial Agamêmnon, rei supremo de Micenas, rei dos reis; Idomeneu, rei supremo de Creta; Menesteu, rei supremo da Ática; Nestor, rei de Pilos; Menelau, rei da Lacedemônia; Diomedes, rei de Argos; Ulisses, rei das Ilhas; Filoctetes, rei de Hestaiótis; Euripilo, rei de Orménion; Toante, rei da Etólia; Agapenor, rei da Arcádia; Ájax, filho de Oileu, rei da Lócrida; Meríona,
príncipe de Creta, herdeiro do trono de Creta; Neoptolemo, príncipe da Tessália, herdeiro do trono da Tessália; Teucro, príncipe de Salamina; Macáon, cirurgião; Podalírio, cirurgião; Epeu, engenheiro.” O rei dos reis acenou para que os seus arautos se retirassem e entregou a Meríona o Bastão do Debate. Dirigiu-se então a nós na linguagem rebuscada que é característica das declarações formais. — Depois de Príamo, rei de Tróia, ter transgredido as sagradas convenções da guerra, solicitei a Ulisses, rei de Ítaca, que concebesse um plano que nos permita conquistar Tróia, ainda que, para tal, tenhamos de recorrer a estratagemas. Ulisses, rei de Ítaca, comunicou-me que havia concluído o seu plano. Convoquei-os para que ouvissem o que ele tem para nos dizer . Régio Ulisses, tem a palavra. Sorrindo para Meríona, Ulisses levantou-se. — Faça-me um favor, Meríona, fica você com o Bastão.—Pegou depois num rolo de pele clara e macia que estava em cima da mesa no centro da sala e encaminhou-se para a parede defronte de nós. Desdobrou o rolo e pregou-o à parede com quatro pequenos punhais cravejados de jóias, cada um deles num dos cantos. Ficamos todos olhando aquilo sem entender rigorosamente nada, perguntando-nos se não estaríamos sendo vítimas de uma brincadeira de mau gosto. O que tínhamos diante de nós era um esboço a carvão, representando um cavalo enorme, ao lado do qual se erguia uma linha vertical. Tendo em conta os materiais e o autor, até nem se podia dizer que o desenho estivesse mal feito. Mas para que serviria aquilo? Ulisses fitou-nos com um ar enigmático. — É verdade, meus amigos, é o desenho de um cavalo. Devem ter ficado intrigados com o fato de Epeu, o engenheiro, se encontrar hoje entre nós. Pois bem: eu pedi que ele fosse convocado, porque quero fazer-lhe algumas perguntas e ouvir as respostas de um técnico especializado. Virou-se para Epeu, que se sentia tão confuso quanto constrangido na companhia de tão augustas personagens. — Epeu, você é considerado o melhor engenheiro que a Grécia produziu desde a morte de Éaco. Além disso, diz quem sabe que não há, em toda a Grécia, ninguém que trabalhe melhor a madeira do que você. Peço que examine atentamente o desenho. Repare na linha vertical junto ao cavalo. O comprimento dessa linha corresponde à altura das muralhas de Tróia.
Desconcertados, examinamos o desenho tão atentamente como Epeu. — Em primeiro lugar, Epeu, gostaria de saber a sua opinião acerca do seguinte: durante dez anos, pode observar as muralhas de Tróia; crê que existe, em todo o mundo conhecido, algum aríete, algum engenho de cerco, capaz de abater a Porta Ceia? — Não, rei Ulisses. — Muito bem. Uma segunda questão: usando os materiais, os meios e os artífices de que dispõe atualmente no nosso acampamento, seria capaz de construir um grande navio? — Sem dúvida, rei Ulisses. Não faltam no nosso acampamento os carpinteiros navais, os pedreiros, os serralheiros, isto para não falar de trabalhadores não qualificados. E julgo que, num raio de cinco léguas, há madeira suficiente, e da melhor qualidade, para construir, não um navio, mas uma frota. — Excelente! Eis a terceira pergunta: seria capaz de construir um cavalo de madeira do tamanho deste animal que vê desenhado na pele? Repare uma vez mais na linha negra. O comprimento dessa linha equivale aos trinta cúbitos de altura das muralhas troianas. Poderá, portanto, concluir que a altura do cavalo é de trinta e cinco cúbitos. E—quarta questão—poderia montar este cavalo sobre uma plataforma dotada de rodas, capaz de suportar todo o seu peso? E—quinta questão—o cavalo poderia ser oco? Epeu começava a sorrir; era evidente que o projeto lhe agradava sobremaneira. — A minha resposta a todas as suas questões é um “sim”, rei Ulisses. — E quanto tempo levaria executar tal trabalho? — Seria... uma questão de dias, rei Ulisses. Ulisses desprendeu a pele e entregou-a ao engenheiro. — Obrigado, Epeu. Pode retirar-te. Espere-me em minha casa. Estávamos perfeitamente perplexos. Creio que os nossos rostos, naquele momento, exprimiriam apenas desconcerto, apreensão e desconfiança; porém, enquanto esperávamos que Epeu abandonasse a sala, Nestor desatou num risinho, como se, de repente, tivesse ouvido a mais hilariante das anedotas—e Nestor, velho como era, ouvira já muitas. Ulisses abriu muito os braços e parece que cresceu em altura, erguendose como uma torre. A sua corrida começara: nenhum dos atletas presentes poderia detê-lo ou fazê-lo vacilar . Sublinhada por gestos magníficos, a sua voz retumbou na sala.
— E é assim, meus amigos reis e príncipes, que vamos conquistar Tróia! Ficamos parados e calados olhando para ele. — Sim, Nestor, tem razão. E você também, Agamêmnon. Em primeiro lugar, um cavalo com tais dimensões, segundo as minhas estimativas, poderá albergar cerca de cem homens na sua barriga. E se esses cem homens saírem silenciosamente, na calada da noite e sem levantarem suspeitas, não precisaremos de mais ninguém para abrir a Porta Ceia. De todos os cantos da sala, surgiu num ápice um vendaval de perguntas. Os céticos berravam, os entusiastas aplaudiam—e o pandemônio só acabou quando Agamêmnon se levantou da Cadeira do Leão, tirou o Bastão a Meríona e desatou a bater com ele no chão. — Podem fazer todas as perguntas que quiserem, mas, por todos os deuses, com alguma ordem! E só depois de mim! Ulisses, sente-se e beba uma taça de vinho. Depois, explique-nos o seu plano tintim por tintim. Caía a noite quando a assembléia foi dissolvida; acompanhei Ulisses à sua casa. Epeu esperava pacientemente, com o rolo de pele desdobrado diante dele; o engenheiro, enquanto aguardava por nós, fizera um sem-número de pequenos desenhos. A partir desse instante, limitei-me a ouvir, pois só eles falavam... E tudo discutiram: questões técnicas, as coisas de que Epeu precisaria, o tempo aproximado que o trabalho demoraria, a necessidade de um segredo absoluto... — Podes trabalha no pequeno vale que fica por detrás desta casa—disse Ulisses a Epeu.—É uma cova profunda; e, como temos árvores a rodear-nos por todos os lados, ninguém verá a cabeça do cavalo. Por outro lado, das torres de vigia da cidade, também não conseguirão vê-lo. Mas esta localização apresenta outras vantagens. Há tantos anos que nos ocultamos neste vale que os curiosos já deixaram de nos importunar . Poderá recorrer aos homens que aqui vivem como mão-de-obra não qualificada. Os técnicos que vierem de outros locais do acampamento só poderão abandonar o vale quando o trabalho estiver pronto. Está de acordo em trabalhar nestas condições limitadas? Os olhos do engenheiro cintilaram. — Pode confiar em mim, rei Ulisses. Ninguém saberá o que aqui se passa.
Capítulo Trigésimo Segundo Narrado por Príamo.
Vindo da gelada imensidão da Cítia, bóreas, o vento norte, abatia-se, uivante, sobre as terras de Tróia, tingindo as nossas árvores de âmbar e amarelo; o Verão do Décimo ano despedira-se e Agamêmnon continuava na praia, um cão sarnento guardando o osso fétido em que Tróia se havia transformado. Tudo acabara. Pouco antes da morte de Heitor, ordenei que os últimos pregos de ouro fossem arrancados de portas, soalhos, persianas, dobradiças; o cadinho era o seu destino. O tesouro estava vazio; todas as oferendas votivas dos templos haviam sido usadas para fazer lingotes; ricos e pobres queixavam-se dos impostos; e, apesar de tudo isso, eu continuava sem os meios necessários para comprar aquilo de que Tróia precisava para manter acesa a chama da guerra—mercenários, armas, engenhos bélicos. Há dez anos que a fonte de rendimentos que era o Helesponto secara por completo. Não para Agamêmnon, que obrigava todos os navios gregos que se dirigiam para o mar Euxino a pagar uma pesada taxa. Quanto aos navios de outras nações, impedia-os pura e simplesmente de passarem o Helesponto. Não nos faltavam os alimentos, porque as nossas portas sul e nordeste se mantinham abertas e os camponeses tinham podido continuar a cultivar as suas terras; mas havia muito tempo que não tocávamos naqueles legumes e frutos que nas nossas terras não se davam. Quanto aos lendários cavalos de Laomedonte, poucos eram aqueles que ainda pastavam na planície sul de Tróia; fora obrigado a vender a maior parte desses belíssimos exemplares. O mal que fazemos outro mal atrai, verdade mais certa não há. Aquilo que, outrora, Laomedonte e eu havíamos negado aos Gregos, pertencia agora a esses mesmos Gregos, pois vim a saber que quase todos os meus cavalos tinham ido parar às mãos do rei Diomedes de Argos. Ah, a soberba, a vanglória... Quanto mais alto o vôo, maior a queda... Acenderam as lareiras do meu quarto para que a minha carne pudesse aquecer, mas não havia, em toda a terra, um único fogo que fosse capaz de dissolver o desespero que se apegara ao meu coração como um bebê esfomeado se aferra ao seio da mãe. Cinqüenta filhos haviam gerado as minhas mulheres, cinqüenta belos rapazes. Quase todos mortos agora. O deus da Guerra apartara de mim os melhores, deixando-me a escória para
me consolar na velhice: triste consolo... Tinha oitenta e três anos e, quem me visse, diria por certo que eu sobreviveria a todos os filhos que me restavam. As lágrimas molhavam-me as faces sempre que via Deífobo pavoneando-se nos palácios ou nas paradas. Herdeiro do trono, aquilo? Não, não mais do que um pobre farsante, uma imitação barata! Ah, Heitor, Heitor, Heitor! A minha esposa Hécuba enlouquecera; uivava como uma cadela velha a quem não davam sustento; a sua companhia preferida era Cassandra, mais louca ainda do que a mãe. Ainda que, estranho caso este, a beleza de Cassandra tivesse florido tanto como a sua demência. Duas grandes fitas brancas trespassavam-lhe agora a longa cabeleira negra, o rosto emagrecera, revelando os ossos, os olhos surgiam tão grandes e brilhantes que mais pareciam safiras tão negras como azeviche. Por vezes, forçava-me a subir à torre de vigia da Porta Ceia, para ver os incontáveis tufos de fumo erguendo-se na praia, os navios dispostos, fila após fila, ao longo das areias. Os Gregos não se decidiam a lançar o assalto; nós estávamos à beira de um abismo e eles não nos permitiam a esmola de um consolo, pois não sabíamos que intenções eram as suas. Continuavam a dedicar-se às suas misteriosas tarefas como se o tempo não lhes pesasse. O que restava do exército de Tróia estava concentrado na Cortina Ocidental; era aí que Agamêmnon atacaria, se houvesse ataque. Cada noite era para mim um tormento sem sono; cada manhã encontrava-me tão desperto como se, no mundo, nunca tivesse havido noite. Contudo, não estava ainda derrotado. Enquanto, na minha carcaça mirrada, vivesse um espírito, Tróia não cairia. Os dentes de Agamêmnon podiam ferrar-se nas nossas muralhas, mas Tróia seria sempre minha. Nem que tivesse de vender não só o ouro, mas também todas as pessoas que viviam dentro das suas muralhas. Soprava o álgido bóreas há três dias; deitado na cama, os olhos fixos na janela e nos indícios de claridade que começavam a derramar-se sobre o Ida, chorava por Heitor . A luz cinzenta que antecede o dia raiava-se do brilho enevoado das minhas lágrimas. Ouvindo um grito que a distância esbatia, estremeci e obriguei-me a sair da cama. O grito parecia ter vindo da Cortina Ocidental. Vai ver o que se passa, Príamo, vai ver o que se passa, disse baixinho para mim mesmo. Instantes depois, ordenei que me trouxessem o carro. O tumulto crescia, novas e muitas vozes se erguiam, mas eu estava ainda demasiado longe para saber se tal agitação seria causada pelo medo ou pela
dor . Deífobo veio ter comigo, esfregando uns olhos cheios de sono, fazendo uma carranca desagradada. — Vamos ser atacados, pai?—perguntou-me. — Como quer que eu saiba? Vou até às muralhas, para saber o que se passa. O cavalariço-mor surgiu com o meu carro, o condutor avançou trôpego, entorpecido ainda pelo sono; depressa parti, deixando o herdeiro para trás. Ele que fizesse o que muito bem entendesse. Se queria voltar para a cama, que voltasse. Formigava de gente toda a área à volta da Porta Ceia e da Cortina Ocidental; homens corriam em todas as direções, gesticulando e gritando, mas não via ninguém envergando apressadamente a sua armadura. Saltavam, rodopiavam, gritavam a todos que subissem no alto das muralhas e visse o que havia para ver . Um soldado me ajudou a subir as escadas da torre de vigia da Porta Ceia; penetrei silenciosamente na guarita. O capitão vestia não mais do que uma tanga e as lágrimas corriam-lhe pelo rosto, enquanto que o seu lugar-tenente estava sentado numa cadeira, rindo desvairadamente. — Que significa isto, capitão?—perguntei. Demasiado obcecado com aquilo que o afetava—fosse lá o que fosse para se dar conta do que estava fazendo, o capitão pegou-me no braço com toda força e levou-me sem demora, e sem qualquer cerimônia, até à passagem superior das muralhas. Aí chegados, virou-me na direção do acampamento grego e apontou para a praia com um dedo tremulo. — Vê bem, rei Príamo! Apolo ouviu as nossas orações! Franzi os olhos (em muito bom estado, tendo em conta a minha idade) e perscrutei a praia, banhada de luz. Olhei, olhei, olhei! Como entender aquilo? Como acreditar naquilo? As chaminés gregas não deitavam fumo, não pairava no ar cheiro nenhum de madeira queimada; não havia no acampamento uma única formiga—pois era isso o que os Gregos pareciam, vistos dali—que se movesse; e, na praia, uma vasta faixa de seixos brilhava ao sabor do sol. O único indício de que ali houvera navios era aquela série imensa de sulcos profundos que se estendiam até às águas da lagoa. Os navios tinham partido! Os soldados tinham partido! De um exército de oitenta mil homens, restava apenas uma pequena cidade de casas cinzentas. Agamêmnon fizera-se ao mar de noite. Gritei de júbilo. Não conseguia sair dali, não conseguia conter a minha
alegria. Até que as minhas pernas cederam e caí desamparado na pedra da passagem superior da muralha. Rompi a rir e a chorar, a rolar nas duras pedras como se elas fossem tão macias como a lanugem do cardo, balbuciei os meus agradecimentos a Apolo, ri como um menino, como um menino desatei a dar aos braços. O capitão ergueu-me; abracei-o e beijei-o, prometendo-lhe qualquer coisa de que logo me esqueci. Deífobo apareceu correndo, com o rosto transfigurado. Pegou em mim e comigo rodopiou numa dança demente, enquanto os guardas faziam um círculo à nossa volta e marcavam o ritmo. Já não havia na praia nenhum monstro grego emboscado, pronto a lançar sobre nós as suas garras! Tróia estava finalmente livre! Não houve nunca no mundo notícia que se tivesse espalhado tão depressa. Toda cidade estava acordada e bem acordada, toda a cidade corria para as muralhas para aclamar a boa nova, para cantar, para dançar . A luz do Sol ia apagando as sombras e os nossos olhos viam mais claro: sim, não havia qualquer dúvida, Agamêmnon partira, partira, partira! Ah, querido Senhor da Luz, obrigado! Obrigado! Alerta agora, o capitão continuava a meu lado, protegendo-me. Subitamente tenso e apreensivo, puxou-me pela manga. Então, Deífobo se deu conta da ansiedade do capitão e aproximou-se de nós. — Que se passa, capitão?—perguntei, inquieto. — Rei Príamo, há qualquer coisa ali, ao longe, na planície... Já tinha me chamado a atenção antes do Sol nascer . Pensei que fosse uma árvore, pois está junto ao bosque do Simoente. Mas agora, com esta luz, se vê bem que não é uma árvore, mas sim um objeto enorme. Consegue ver, rei Príamo? — Sim, estou vendo, estou vendo—retorqui, com a boca seca. — Sim, há qualquer coisa...—disse Deífobo, lentamente.—Será um animal? Outros homens estavam apontando para o misterioso objeto, discutindo a sua natureza; então, os raios oblíquos do Sol da manhã beijaram-no e revelaram uma superfície castanha e polida. — Vou ver o que é aquilo—disse eu, encaminhando-me para a porta da guarita.—Capitão, mande abrir a Porta Ceia, mas não deixe que o povo saia. Eu próprio examinarei o estranho objeto. Deífobo, venha comigo. Ah, que bem me sabia aquele vento, apesar de tão frio! Atravessar a planície era uma verdadeira panacéia para todos os meus males! Ordenei ao condutor que seguisse pela estrada de seixos. Os solavancos eram
inevitáveis, mas, apesar de tudo, a viagem era agora muito mais suave do que em outros tempos. O progresso incessante de homens e carros gastara uniformemente a pedra e as fissuras entre elas haviam sido preenchidas pela lama em que as chuvas outonais tinham transformado a muita poeira dos campos de Tróia. Claro que todos nós tínhamos percebido de que objeto se tratava; no entanto, nenhum de nós queria acreditar no que os olhos viam. Que estava aquilo fazendo ali? E para que estava ali? Ah, com certeza que não era o que pensávamos! Quando nos aproximassemos dele, verificaríamos por certo que se tratava de outra coisa—um objeto muito mais estranho, completamente diferente. No entanto, quando Deífobo e eu nos acercamos daquilo, com alguns membros da corte na nossa esteira, concluímos que o objeto era efetivamente aquilo que parecia: um gigantesco cavalo de madeira! Erguia-se muito acima das nossas cabeças, uma criatura castanha, de madeira de carvalho, de proporções imensas. Quem o fizera—deuses? Homens?—imitara escrupulosamente a anatomia do cavalo; impossível confundi-lo com uma mula ou um burro; no entanto, e como se tratava de um gigante, as pernas eram muito mais grossas do que as pernas dos vulgares cavalos, e os cascos, mais próprios de um mamute, assentavam sobre uma plataforma de toros. Esta plataforma dispunha de rodas pequenas mas sólidas—doze de cada lado. O meu carro encontrava-se sob a sombra da cabeça do cavalo; estiquei o pescoço o mais que pude para examinar a parte inferior da queixada. Construído com madeira polida, o cavalo era, ao mesmo tempo, corpulento e firme; as juntas entre as pranchas de madeira haviam sido seladas com pez, como se do casco de um navio se tratasse; essas linhas de junção haviam sido disfarçadas com um bonito padrão, pintado num tom ocre. A cauda e a crina tinham sido esculpidas; recuando para melhor examinar a cabeça, verifiquei que os olhos tinham sido incrustados com âmbar e azeviche, que as cavernas das narinas tinham sido pintadas de vermelho e que os dentes, abrindo-se num relincho, eram de marfim. Sim, era de fato uma estátua muito bela. Um destacamento da Guarda Real juntara-se a nós, tal como a maior parte dos membros da corte. — Deve ser oco, pai—disse Deífobo.—Se não fosse oco, as rodas não agüentariam. Apontei para os quartos traseiros do cavalo.
— É um objeto sagrado, Deífobo. Está vendo? Uma coruja, a cabeça de uma serpente, um escudo e uma lança. Pertence a Palas Atena. Alguns dos presentes mostravam-se céticos; Deífobo e Cápis resmungavam desconfiados, mas um outro filho meu, Timeta, não podia estar mais excitado. — Pai, você tem razão! Os símbolos são mais eloqüentes do que todas as línguas. É uma prenda dos Gregos para substituir o Paládio. O sumo-sacerdote de Apolo, Lacoonte, disparou, furioso: — Com as prendas dos Gregos, todo o cuidado é pouco! Cápis envolveuse imediatamente na discussão. — Pai, este cavalo é uma armadilha! Porque haveria Palas Atena de obrigar os Gregos a tão duro trabalho? Palas Atena ama os Gregos! Os Gregos roubaram o Paládio porque ela consentiu que o roubassem! Palas Atena nunca trocaria os Gregos pelos Troianos! O cavalo é uma armadilha! — Acalme-se, Cápis—disse-lhe eu, mais concentrado no cavalo do que nas palavras dele. — Pai, te suplico que me ouça!—teimou ele.—Abra-lhe a barriga e vê o que ela contém! — Não se deixe iludir por prendas gregas—disse Lacoonte.—O cavalo é uma armadilha. — Concordo com Timeta—disse eu.—O cavalo foi construído para substituir o Paládio.—Lancei a Cápis um olhar feroz.—Chega de discussões, Cápis! Entendido? — Seja como for—disse Deífobo, revelando um inusitado espírito prático, o cavalo não foi feito para entrar nas nossas muralhas. É demasiado alto para caber nas portas. Não sei qual foi o objetivo que presidiu à sua construção, mas de uma coisa estou certo: não pode ser uma cilada. O cavalo terá de ficar na planície. Portanto, não representa qualquer perigo para nós ou seja para quem for . — É uma cilada!—exclamaram Cápis e Lacoonte, quase que em uníssono. As discussões continuaram inflamadas, enquanto mais e mais membros da corte de Tróia se juntavam à volta do assombroso cavalo, não só para exprimirem o seu deslumbramento, mas também para exporem as mais diversas teorias e me inundarem de opiniões. Para lhes fugir, decidi não ficar parado e dar voltas e mais voltas ao cavalo, examinando-o minuciosamente, sondando o significado dos símbolos, maravilhando-me com a qualidade do trabalho dos artífices. Encontrava-se exatamente no
meio do caminho entre a praia e a cidade. Mas de onde viera? Se tinham sido os Gregos a construí-lo, nós teríamos percebido isso... Só poderia ser uma prenda da deusa... Sim, era por certo uma prenda da deusa! Lacoonte enviara alguns dos guardas reais ao acampamento grego; eu continuava a dar as minhas voltas, quando dois guardas surgiram num carro de quatro rodas, com um homem entre eles. Os guardas desceram do carro e ajudaram o homem a descer . A pobre criatura tinha os braços e as pernas acorrentados, farrapos eram a sua roupa, todo o seu corpo era uma imundície pegada. Um dos guardas ajoelhou diante de mim. — Rei Príamo, encontramos este homem escondido numa das casas gregas. Estava como o vê agora, acorrentado. Foi açoitado há pouco tempo, como se pode ver pelos vergões ensangüentados. Quando o capturamos, suplicou que lhe poupássemos a vida e pediu-nos que o levássemos à presença do rei de Tróia, a fim de lhe comunicar aquilo que sabe. — Fale, homem, eu sou o rei de Tróia—disse-lhe eu. O homem molhou os lábios, gemeu, fez um esforço para falar mas não conseguiu. Um guarda deu-lhe água; ele bebeu-a avidamente e só então me saudou. — Agradeço a tua bondade, rei Príamo—disse ele. — Quem és você?—perguntou Deífobo. — O meu nome é Sinão. Sou grego, natural de Argos, um nobre da corte do rei Diomedes, de quem sou primo. Mas fiz parte de uma unidade especial do rei supremo de Micenas comandada pelo rei Ulisses de Ítaca.—O homem calou-se, vacilou, teve de ser ajudado pelos guardas. Desci do carro.—Soldado, sente-o na beira do seu carro. Eu vou sentarme ao lado dele. Mas logo houve alguém que me trouxe um banco e por isso ficamos diante um do outro. — Está melhor assim, Sinão? — Obrigado, rei Príamo. Já tenho forças para continuar . — Explique-me por que razão um nobre de Argos como você foi açoitado e acorrentado. — Rei Príamo, eu conhecia o plano que Ulisses tramou para se livrar do rei Palamedes. Pelo visto, Palamedes insultara Ulisses antes da nossa expedição a Tróia ter começado. Diz-se que Ulisses é capaz de esperar uma vida inteira pela oportunidade ideal para se vingar dos seus inimigos. No
caso de Palamedes, esperou apenas oito anos. Há cerca de dois anos, Palamedes foi executado por alta traição. Ulisses elaborou as acusações e fabricou as provas que levaram à condenação de Palamedes. Fiquei sinceramente intrigado. — Mas por que razão haveria um grego de conspirar contra outro, tendo em mente a sua morte? Eram vizinhos rivais? Disputavam algum território? — Não, rei Príamo. Ulisses é rei das ilhas a oeste da ilha de Pélops, Palamedes era rei de uma importante cidade portuária da costa oriental. Tratou-se de um problema pessoal: Ulisses nutria por Palamedes um rancor desmedido. Porquê, não sei. — Estou vendo. Nesse caso, porque te trataram como a um escravo? Se Ulisses foi capaz de fabricar acusações de traição contra outro rei grego, porque não fez o mesmo em relação a você, um mero nobre? — Eu sou primo direto de um rei mais poderoso do que ele e por quem Ulisses nutre grande afeição. Além disso, eu contei a minha história a um sacerdote de Zeus. Se eu vivesse, o sacerdote não diria nada. Mas, se morresse, fosse qual fosse a causa da minha morte, o sacerdote divulgaria tudo o que sabia. Como Ulisses não sabia qual era o sacerdote que conhecia a verdade, julguei que estaria para sempre em segurança. — Quer dizer então que o sacerdote nunca contou a história?— perguntei eu.—É o que posso concluir, visto que está vivo. — Não, rei Príamo, nada disso—disse Sinão, bebendo mais água; parecia menos abatido agora, apesar da desgraça que lhe acontecera.—O tempo passou, Ulisses nada disse e nada fez, e—bom, rei Príamo, a verdade é que eu nunca mais pensei no assunto! Porém, nestes últimos tempos, o exército caiu num profundo desânimo. Após a morte de Aquiles e Ájax, Agamêmnon perdeu todas as esperanças de conseguir entrar em Tróia. Convocou por isso um conselho e propôs uma votação. O resultado da votação foi este: regressariam à Grécia. — Mas esse conselho deve ter-se realizado no meio do Verão! — É verdade, rei Príamo. Contudo, a frota não pôde partir porque os augúrios não eram auspiciosos. O sumo-sacerdote, Taltíbio, explicou-nos porquê. Era Palas Atena quem fazia soprar os ventos contrários.
Ficara muito agastada conosco por causa do roubo do Paládio. E exigia uma compensação. Depois, foi Apolo quem declarou a sua ira. Queria um sacrifício humano. E o sacrificado seria eu! Apolo disse mesmo o meu nome! O sacerdote a quem tinha confiado a minha história já não se encontrava em Tróia: Ulisses tinha-o mandado numa missão a Lesbos. Por isso, quando contei a minha história, ninguém acreditou nela. - O rei Ulisses não tinha esquecido de vcê.... — É verdade, rei Príamo. O rei Ulisses limitou-se a esperar pelo momento certo para desferir o seu golpe. Açoitaram-me e acorrentaram-me e deixaram-me aqui à mercê do seu povo. Bóreas começou a soprar: os navios gregos podiam finalmente partir . A raiva de Palas Atena e de Apolo fora aplacada. Levantei-me, andei um pouco, voltei a sentar-me. — Mas... e este cavalo de madeira, Sinão? Porque está ele aqui? Pertence a Palas Atena? — Sim, rei Príamo. Palas Atena exigiu que o Paládio fosse substituído por este cavalo de madeira. Fomos nós mesmos que o construímos. — Porque é que a deusa não exigiu muito simplesmente que devolvessem o Paládio?—perguntou Cápis, desconfiado. Sinão pareceu surpreendido. — Porque o Paládio fora maculado. — Continue—ordenei-lhe. — Taltíbio profetizou que, a partir do momento em que o cavalo de madeira entrasse na cidade de Tróia, esta resistiria a todos os ataques. Tróia não cairia nunca e recuperaria toda a sua antiga prosperidade. Ulisses sugeriu, por isso, que construíssemos um cavalo demasiado grande, um cavalo que não coubesse nas portas de Tróia. Dessa forma, disse ele, obedeceríamos a Palas Atena, mas faríamos com que a profecia nunca se cumprisse. O cavalo de madeira teria de permanecer na planície.—O pobre homem calou-se, gemeu, mexeu os ombros, tentou sentar-se mais confortavelmente. -Ai! Ai! Retalharam-me todo! — Descanse, Sinão, que em breve trataremos das suas feridas—disse-lhe eu, procurando consolá-lo. — Mas primeiro temos de ouvir a história toda. — Sim, rei Príamo, eu compreendo. Mas não sei que possa fazer . Ulisses é muito esperto. O cavalo é demasiado grande.
— Veremos isso mais tarde—disse-lhe eu com um ar severo.—Termine a sua história. — Já terminou, rei Príamo. Eles partiram e deixaram-me aqui. — Partiram para a Grécia? — É verdade, rei Príamo. Com este vento, chegam lá num instante. — Explique-me uma coisa—disse Lacoonte, ainda muito céptico.— Porque é que puseram rodas no animal? Sinão pestanejou, surpreso. — Está vendo porquê—retorquiu.—Para o tirarmos do nosso acampamento! Impossível duvidar do homem! O seu sofrimento era demasiado real, tal como aqueles vergões, tal como o seu extremo emagrecimento. E a história dele fazia todo o sentido. Deífobo ergueu os olhos para a poderosa massa de madeira e suspirou. — Que pena! Se ao menos pudéssemos levá-lo para dentro da—,Fez uma pausa.—Sinão—disse ele então—,que aconteceu ao Paládio? Foi... maculado? — Depois de o terem levado para o nosso acampamento—Ulisses roubou-o... — Era de esperar!—disse Deífobo, interrompendo o homem. — A deusa foi colocada no seu altar—prosseguiu Sinão—e o exército reuniu-se para vê-la. Porém, quando os sacerdotes lhe fizeram as oferendas, por três vezes as chamas envolveram a deusa. Quando as chamas finalmente se esbateram, Palas Atena começou a transpirar sangue—gotas enormes de sangue ressumavam da sua pele de madeira e rolavam-lhe pelas faces e molhavam-lhe os braços e saíam-lhe dos olhos como se a pobre deusa estivesse chorando. O chão tremeu e, vinda do céu claro, uma bola de fogo caiu sobre as árvores para lá do Escamandro—com certeza que viram. Os homens, desvairados, desataram a dar punhadas no peito e a pedir perdão à deusa—o próprio rei supremo ajoelhou. Descobrimos depois que a deusa prometera um favor à sua irmã Afrodite —se o cavalo de madeira fosse levado para dentro de Tróia, a capital da Tróada conseguiria reunir todas as forças do mundo e conquistar a Grécia. — Hah!—rosnou Cápis.—Tudo se encaixa demasiado bem na sua história! Esse Ulisses decide fazer um cavalo demasiado grande e depois se faz ao mar! Acreditam que os Gregos iam ter tanto trabalho para, logo a seguir, se fazerem ao mar? Porque haveriam eles de se preocupar com o
tamanho do cavalo se, neste momento, estão a caminho de casa? — Porque—disse Sinão, num tom de voz que indicava que estava perdendo a paciência—,na próxima Primavera, pretendem voltar! — A menos que—disse eu, levantando-me—consigamos levar o cavalo para dentro de Tróia. — Não conseguem—disse Sinão, encostando-se contra o resguardo do carro e fechando os olhos. - É muito grande. — Conseguiremos, sim!—exclamei.—Capitão! Traga cordas, correntes, mulas, bois e escravos. A manhã ainda mal começou. Se começarmos agora, o cavalo entrará em Tróia ainda de dia. — Não, não, não!—gritou Lacoonte, um profundo terror estampado no rosto. — Por favor, rei Príamo! Deixe-me ao menos fazer as minhas súplicas a Apolo! — Faça o que lhe aprouver, Lacoonte—disse-lhe eu, afastando-me. — Entretanto, tratemos de cumprir a profecia. — Não!—gritou o meu filho Cápis. Mas todos os outros atroaram, cheios de júbilo: — Sim! Sim! Sim! Passamos quase todo o dia naquela lida. Atamos cordas reforçadas com correntes à dianteira e aos lados da maciça plataforma de toros; depois, atrelamos mulas, bois e escravos; com uma lentidão quase infinita, o cavalo de madeira avançou pela estrada. Um trabalho penoso, frustrante, exasperante. Nenhum grego—homem nenhum!—esperaria de nós tamanha pertinácia, pois aquele era um trabalho para Hércules! A cada curva, o animal tinha de ser cuidadosamente guiado, para que não saísse da estrada de pedra; era essencial que as rodas não tocassem no terreno lamacento, pois poderiam afundar; não haveria no mundo rodas capazes de agüentar convenientemente aquela montanha de peso. Ao meio-dia, tínhamos o cavalo diante da Porta Ceia, onde pudemos constatar que a cabeça tinha mais cinco cúbitos de altura do que a passagem arqueada que encimava a imensa porta de madeira. — Timeta—disse eu para o meu filho, aquele que se mostrara mais entusiasmado com a misteriosa aparição—,diga aos soldados que tragam picaretas e martelos. Vamos deitar abaixo o arco. Uma operação que pareceu durar uma eternidade! As pedras usadas por
Poseidon, Construtor de Muralhas, não cediam facilmente aos golpes dos meros mortais; porém, a pouco e pouco, foram-se fracionando e caindo, até que, por sobre a Porta Ceia, havia já uma ampla abertura. Os animais e os homens que estavam atrelados à criatura puxaram então as correntes presas a cordas; a portentosa cabeça do cavalo voltou a avançar . Vendo os dentes do cavalo aproximando-se mais e mais da entrada de Tróia, sustive a respiração; então, gritei para avisar a todos, mas já era muito tarde. A cabeça não conseguia passar . Demolimos mais uma pequena porção do arco e tentamos de novo. Mas nem mesmo assim passou. Por quatro vezes, a cabeça do cavalo avançou até conseguir atravessar a Porta Ceia. Então, o gigantesco objeto rodou, gemendo, na direção da Praça Ceia. Hah, Ulisses! Os seus intentos haviam sido frustrados! Para que não restassem dúvidas, decidi que o cavalo devia ser levado pela íngreme colina e conduzido para dentro da cidadela. Para executar tal operação, precisamos do dobro dos animais e demoramos o que me pareceu uma eternidade, ainda que o povo também ajudasse. A Porta da Cidadela não tinha qualquer arco a encimá-la; o cavalo coube corretamente. Conduzimo-lo para o verdejante pátio consagrado a Zeus, onde para sempre ficaria. As lajes abriram fendas sob aquele peso imenso e as rodas afundaram no chão, no meio de fragmentos de pedras, mas o substituto do Paládio mantinha-se bem direito. Não havia na terra nenhuma força que pudesse movê-lo agora. Mostráramos a Palas Atena que éramos dignos do seu amor e respeito. Ali mesmo jurei publicamente que o cavalo seria mantido em perfeitas condições e que, na sua base, seria erigido um altar . Tróia estava a salvo. O rei Agamêmnon não regressaria na Primavera com um novo exército. E nós, depois de recuperarmos de dez anos de guerra, conduziríamos as forças do mundo para conquistarmos a Grécia. Mal terminei, ouvi o riso desvairado de Cassandra; correu para mim, o cabelo flutuando livre, os braços estendidos. Uivando, gemendo, guinchando, caiu no chão e agarrou-se aos meus joelhos. — Pai, tire o cavalo da cidade! Leve-o para onde ele estava! Esta criatura é a morte de Tróia! Lacoonte estava presente, acenando gravemente o seu acordo. — Rei Príamo, os augúrios não são bons. Ofereci uma corça e três pombas a Apolo, mas ele rejeitou a todas. Esta coisa atrai a ruína para nossa cidade. — Eu assisti à cerimônia. O que o meu pai diz é verdade—disse o mais velho dos dois filhos de Lacoonte, lívido e tremulo.
Temita logo avançou para me defender; eu já não suportava mais aquelas discussões e o medo começava a conquistar as vozes à minha volta. — Venha comigo, rei Príamo—suplicou Lacoonte.—Venha comigo ao altar e veja com os seus próprios olhos! O cavalo está amaldiçoado! Destrua-o, queime-o, livre-se dele! Com os dois filhos à sua frente, Lacoonte correu para o altar de Zeus. As minhas velhas pernas não me permitiam correr tanto como ele. De súbito, ao chegar ao estrado de mármore, deu um grito horrendo. Tal como os seus filhos. Quando um dos guardas o alcançou, Lacoonte estava caído, um corpo com forças apenas para gemer, as mãos procurando agarrar os filhos, que se contorciam em horrendas convulsões. Então, o guarda recuou num ápice e virou para nós um rosto horrorizado. — Rei Príamo, não se aproxime!—exclamou.—É um ninho de víboras! Eles foram mordidos! Ergui as mãos para o imenso firmamento que o Sol, ao despedir-se, tingia de carmim. — Ó Pai dos Céus, tu nos enviaste um sinal! Abateste Lacoonte diante dos nossos olhos porque ele se opôs à oferenda da tua filha ao povo da minha cidade! O cavalo é bom! O cavalo é sagrado! O cavalo manterá os Gregos longe das nossas portas! Tinham chegado ao fim aqueles dez anos de guerra contra um inimigo poderoso. Tínhamos sobrevivido e continuávamos a ser senhores do nosso próprio destino. O Helesponto e o Euxino voltavam a ser nossos. A cidadela teria de novo pregos de ouro. E nós voltaríamos a sorrir . Conduzi os membros da corte ao meu palácio e ordenei que começassem os festejos; aplacados os derradeiros receios, os nossos corações abriram-se à euforia como se fôssemos escravos a quem o seu amo e senhor acabara de conceder a liberdade. Gargalhadas, canções, tambores, címbalos, clarins, trombetas—o alegre tumulto do povo chegava aos ouvidos da cidadela e a cidadela respondia ao povo com idêntico tumulto. Tróia estava livre! Dez anos, dez anos, dez anos! Tróia vencera! Tróia obrigara Agamêmnon a desaparecer das suas praias—para sempre! No entanto, para mim, o melhor de tudo foi ver a cara de Enéias! O dardaniano não fora ver o cavalo, não saíra sequer do palácio enquanto nós andávamos naquela luta insana. Contudo, lhe seria difícil evitar a festa... Um triste espetáculo, o de Enéias: os dentes cerrados, o sobrolho muito
franzido, os olhos sem brilho... Eu vencera, ele perdera. O sangue de Príamo permanecia vivo. Tróia seria governada pelos meus descendentes e não por Enéias.
Capítulo Trigésimo Terceiro Narrado por Neoptolemo.
Fecharam-nos a porta do alçapão bastante antes do alvorecer, e nós, que conhecíamos a escuridão de tantas e tantas noites, só então descobrimos o que era realmente a escuridão. Eu abria muito os olhos, abria-os até não poder mais, procurando ver, procurando enxergar qualquer coisa, mas não havia nada para ver, nada para enxergar . Nada. Estava completamente cego e o mundo era um negrume tangível e insuportável. Um dia e uma noite dentro disto..., disse eu para mim mesmo. Quer dizer, se a sorte estivesse do nosso lado... Pelo menos um dia e uma noite, agachados no interior daquela prisão, sem uma réstia de luz para nos guiar—não tínhamos o sol para percebermos a passagem do tempo, cada instante era uma eternidade, os ouvidos estavam tão atentos, tão concentrados, que a mera respiração dos homens soava como uma trovoada distante. O meu braço roçou no de Ulisses; o meu corpo todo estremeceu, mais forte do que a mente que o governa. As minhas narinas contraíam-se, e com razão, pois era muito intenso o fedor de suor, de urina, de fezes, apesar dos baldes de couro cobertos que Ulisses distribuíra a cada trio de homens. Compreendia agora por que razão Ulisses se mostrara tão inflexível quanto a esse pormenor que a muitos parecia irrelevante. Se não fossem os baldes, seria impossível não ficarmos sujos de excrementos. Cem homens de súbito atacados de cegueira—como era possível que alguns homens conseguissem sobreviver a toda a uma vida de cegueira? Nunca mais voltarei a ver, pensei eu a certa altura. Os meus olhos se adaptarão à luz? O choque que sofrerão quando de novo virem a luz não os condenará a uma escuridão permanente? Sentia a minha pele retesada, sentia o terror devorando tudo à minha volta, consumindo o ânimo de cem dos mais corajosos homens vivos, agora encarcerados, agora vencidos por um pavor de morte. A minha língua aferrava-se ao céu da boca; procurei o odre para beber um pouco de água, não porque tivesse sede, mas apenas porque era preciso não estar parado, porque era preciso fazer qualquer coisa. Claro que tínhamos ar: abençoado ar, engenhosamente filtrado através de um labirinto de minúsculos orifícios que percorriam todo o corpo do cavalo. No entanto, Ulisses avisara-nos de que não veríamos a luz através
desses orifícios enquanto fosse dia, porque o labirinto fora protegido por várias camadas de panos. Por fim, fechei os olhos. Doíam-me tanto, por causa do muito esforço que fizera para tentar descortinar o que quer que fosse, que, ao fechá-los, me senti profundamente aliviado. Assim, descobri, era mais fácil suportar a escuridão. Ulisses e eu estávamos sentados costas contra costas, como todos os outros. Naquela prisão, os nossos próprios corpos eram os únicos descansos para as costas uns dos outros. Procurando descontrair-me, repousei contra as costas dele e tratei de me lembrar de todas as moças que havia conhecido. Fiz um catálogo meticuloso—a mais bela e a mais feia—a mais alta e a mais baixa—a primeira e a última com quem tinha ido para a cama—uma que desatara num risinho nervoso por causa da minha pouca experiência e outra que quase nem tinha forças para revirar os olhos depois de uma noite nos meus braços. Concluído o capítulo das moças, dei início a um outro, o de todos os animais que tinha caçado, o de todas as caçadas em que havia participado— leões, javalis, veados. Expedições marítimas, em busca de golfinhos e serpentes enormes e muitos outros monstros das profundezas aquáticas, ainda que não tivéssemos apanhado mais do que uns quantos atuns e percas-do-mar . Revivi os meus dias de treino para a guerra com os jovens mirmidões. As pequenas guerras que travei na companhia deles. Os momentos em que conheci grandes homens, e quem eles eram. Contei os navios e os reis que haviam partido para Tróia. Recapitulei os nomes de todas as cidades e aldeias da Tessália. Cantei mentalmente as baladas dos heróis. E assim foi o tempo passando—a passo de caracol. O silêncio tornou-se mais intenso, mais profundo. Devo ter dormido, pois acordei com um estremecimento, logo descobrindo que, nesse mesmo instante, Ulisses me tapara a boca. Descansei a cabeça no seu colo, os olhos quase saindo das órbitas, tal era o meu pânico, até que me lembrei da razão por que não conseguia ver nada. Eu tinha acordado devido a um repentino movimento da imponente construção; ao recuperar a calma, me dei conta de um novo movimento—um suave solavanco. Soergui-me, procurei as mãos de Ulisses e apertei-as com toda a minha força. Ele baixou a cabeça, encostando o cabelo à minha face. Encontrei a orelha dele e segredei-lhe:— Já começaram a puxá-lo? Senti o sorriso dele contra o meu rosto. - Claro. Nunca duvidei que eles levassem o cavalo para Tróia. Como eu
previa, acreditaram piamente na história de Sinão—sussurrou ele. A súbita atividade acabou com a sufocante inércia do nosso cárcere; por um longo tempo, sentimonos mais animados, mais alegres, enquanto o cavalo avançava ao sabor de guinadas e solavancos; pusemo-nos a calcular a velocidade a que iríamos, estimando quanto tempo demoraríamos para chegar às muralhas, a debater o que faria Príamo quando confirmasse que o cavalo era demasiado grande. E, ao longo desse tempo, rejubilamos com o fato de podermos falar uns com os outros, numa voz baixa mas não sumida, pois sabíamos que os ruídos produzidos pela nossa construção não deixariam que as nossas conversas chegassem aos ouvidos troianos. Ouvíamos o cavalo avançando, mas não conseguíamos ouvir nem os homens, nem os bois. Apenas as rodas rodando, atroando, guinchando. Não foi difícil percebermos o momento em que o nosso transporte chegou à Porta Ceia. O cavalo parou, todo o movimento cessou. Não sei quanto tempo estivemos ali parados—eu tive a sensação de que foram vários dias, mas por certo estava errado. Em silêncio, desatamos a rezar a todos os deuses que conhecíamos, pedindo-lhes que convencessem os Troianos a não desistirem; e que os convencessem a destruir o arco que encimava a porta, tal e qual como Ulisses previra. Até que, por fim, o cavalo voltou a mover-se. Um solavanco estridente que nos lançou por terra: com os rostos colados ao chão, deixamo-nos ficar quietos, parados, calados. - Idiotas!—rosnou Ulisses.—Fizeram mal os cálculos. Após quatro solavancos idênticos, o cavalo avançou de novo, rodando normalmente. Quando viu o chão começando a inclinar-se, Ulisses não conseguiu impedir um risinho de puro gozo. - Estamos subindo a colina que conduz à cidadela—disseme ele.— Imagine só! Conduzem-nos ao palácio! Então, uma vez mais, um pesado silêncio caiu sobre tudo. Depois de a construção ter parado com um portentoso gemido, víamo-nos de novo entregues aos nossos próprios pensamentos. O gigantesco cavalo demorou algum tempo a firmar-se no seu novo terreno, como se fosse um animal monstruoso descansando na lama; perguntei-me em que lugar estaríamos realmente. Pelos orifícios, chegava-nos um perfume de flores. Tentei avaliar quanto tempo demorara o cavalo para chegar ali, mas não consegui. Sem vermos o Sol, ou a Lua, ou as estrelas, como poderíamos estimar a passagem do tempo? Decidi encostar-me de novo às costas de Ulisses e envolver os joelhos com os braços. Estávamos mesmo ao pé da porta do alçapão, ao passo
que Diomedes ficara no extremo oposto, a fim de manter a ordem (tínhamos instruções para matar todo e qualquer homem que cedesse ao pânico). Ainda bem que ficara com Ulisses. Ulisses era tão firme como uma rocha; o fato de o ter a meu lado era o bastante para aplacar todos os meus receios. Quando me pus a pensar no meu pai, o tempo voou. Não queria pensar nele, pois temia a dor que o meu coração prenunciava; contudo, o anticlímax da nossa última espera desprendeu-me inexoravelmente o pensamento. E não senti qualquer dor, pois, quando abri as janelas da minha mente para que ele entrasse, senti-o fisicamente comigo. Eu era de novo um menino e ele um gigante erguendo-se muito acima da minha cabeça, um deus e um herói aos olhos de uma criança. Tão belo... Tão estranho, com aquela boca sem lábios... Tenho ainda nos meus lábios aquela cicatriz... Certo dia, tentara cortar os meus lábios, pois pensava que, assim, ficaria mais parecido com ele; o avô Peleu surpreendera-me em flagrante delito e, por castigo, aplicou-me uns valentes açoites. Você não pode ser outra pessoa, disseme ele. Você é você mesmo e mais ninguém. Com ou sem lábios. Ah, e o que eu rezei para que a guerra contra Tróia durasse o suficiente, para que eu pudesse juntar-me a ele! Quando fiz catorze anos e me tornei um homem, supliquei aos meus avós, Peleu e Licomedes, que me deixassem partir para Tróia. Ambos recusaram. Até àquele dia em que o avô Peleu entrou nos meus aposentos, com o rosto abatido de um homem moribundo, e me disse que podia partir . Não me disse mais nada. Apenas que podia partir . Não me falou da mensagem que Ulisses lhe enviara—aquela que dizia que Aquiles tinha os dias contados. Enquanto viver, não esquecerei nunca a balada que o bardo cantou diante de Agamêmnon e dos outros reis. Sem que dessem por mim, entrei e fiquei à porta; bebi sequioso todas as palavras do bardo, deleitando-me com os feitos de meu pai. Até que o bardo falou da sua morte, da minha avó e da escolha que ela lhe oferecera, uma escolha que, para ele, não o era: viver uma longa e próspera vida na mais total obscuridade, ou morrer jovem e coberto de glória. O meu pai escolhera a morte. Mas a morte era um fim que eu nunca conseguira associar ao meu pai. Para mim, Aquiles estava acima do mortal destino dos homens; nenhuma mão humana poderia abatê-lo. No entanto, Aquiles era um homem mortal; Aquiles morrera. Morrera antes que eu pudesse vê-lo, antes que eu pudesse beijar a sua boca sem precisar que ele pegasse em mim, sem precisar de me pôr em ponta de pés enquanto ele
se baixava. Diziam-me os soldados que, agora, eu tinha praticamente a mesma estatura que ele. Ulisses adivinhara as minhas inquietações e contara-me tudo o que sabia ou suspeitava. Contara-me o plano que havia urdido, não poupando ninguém—e muito menos ele mesmo; explicara-me as razões da desavença entre o meu pai e Agamêmnon e da retirada do exército da Tessália. Perguntei-me se teria suportado aquilo que o meu pai suportou: ver a sua reputação para sempre maculada. Talvez eu não tivesse tanta força como ele, tanta determinação, em circunstâncias tão terríveis. Com o coração dilacerado, jurei a Ulisses que não revelaria a ninguém aquele segredo; uma voz dentro de mim dizia-me que o meu pai queria que as coisas ficassem como estavam. Ulisses pensava que era uma expiação para um grande pecado que o meu pai pensava ter cometido. Porém, nem mesmo naquela escuridão eu conseguia chorar pelo meu pai. Os meus olhos estavam secos. Páris, o assassino de Aquiles, estava morto. Teria de matar Príamo. Talvez então conseguisse chorar . Cochilei de novo. O som do alçapão abrindo-se me acordou. Ulisses movia-se como um relâmpago, mas tinha de ser ainda mais rápido. Uma luz desmaiada, estonteante, coava-se pelo buraco no chão do cavalo, fazendo brilhar alguns pares de pernas muito juntas. Ouviram-se sons de um tumulto sumido; então, um dos pares de pernas tombou. Senti um corpo caindo por terra; depois, um ruído surdo. Dentro do cavalo, houvera alguém que não conseguira suportar aquela prisão um momento mais que fosse; quando Sinão, que estava lá fora, puxara a alavanca que abria o alçapão, ninguém dera ordens para avançarmos, mas um dos homens estava já pronto para sair . Ulisses olhou para baixo e logo desenrolou a escada de corda. Avancei para ele. As nossas armaduras estavam guardadas na cabeça do cavalo e tínhamos uma ordem de saída rigorosa; enquanto fazíamos fila para descer do cavalo, a primeira coisa em que as mãos dos homens tocavam era a sua própria armadura. - Eu sei quem caiu—disseme Ulisses.—Levarei por isso a minha armadura e esperarei até que chegue a sua vez; depois, levarei a dele. Caso contrário, os homens que deveriam sair depois dele não receberão a armadura certa. Fui eu o primeiro a pisar terra firme. Não tão firme como isso, afinal: um tapete de flores outonais, cujo perfume deixaria qualquer um estonteado.
Depois de todos terem descido, Ulisses e Diomedes trataram de saudar Sinão com abraços e beijos. O astuto Sinão, que era primo de Ulisses. Como não o vira antes de termos entrado no cavalo, fiquei espantado com a sua presença ali. Não admirava que os Troianos tivessem acreditado na história que ele lhes impingira! Estava imundo, cheio de sangue, tinha um ar miserável, enfermo. Nem o mais rebelde dos escravos seria tratado de forma tão abominável! Ulisses diria mais tarde que Sinão, por sua livre vontade, passara fome durante duas luas, a fim de ficar com um ar verdadeiramente doente. Sinão tinha um sorriso de orelha a orelha; aproximei-me deles quando ele começou a falar . - Príamo acreditou em tudo, primo! E os deuses estavam do nosso lado— Zeus mandou um agouro terrível! Lacoonte e os seus dois filhos morreram ao pisarem um ninho de víboras! Não poderia ter corrido melhor . - Deixaram a Porta Ceia aberta?—perguntou Ulisses. - Claro. Toda a cidade está dormindo, ou melhor, curando a bebedeira—o que eles celebraram! Logo que as festividades no palácio começaram, nunca mais se lembraram da pobre vítima do acampamento grego. Por isso, não tive qualquer dificuldade em chegar ao promontório de Sigeu, onde acendi uma fogueira para avisar Agamêmnon. À minha fogueira, respondeu imediatamente a do rei supremo, nas encostas de Ténedo—neste momento, Agamêmnon deve estar chegando à praia de Sigeu. Ulisses abraçou-o de novo. - Fez um trabalho magnífico, Sinão. Será recompensado! - Eu sei.—Fez uma pausa, pôs um ar inchado de satisfação.—Sabe, primo, creio que teria feito o que fiz mesmo que não houvesse recompensa nenhuma. Ulisses mandou cinqüenta homens para a Porta Ceia: era preciso impedir os Troianos de fecharem a porta antes que Agamêmnon entrasse; os restantes ficaram onde estavam, armados e prontos para a ação, vendo os tons rosa e dourado do alvorecer erguendo-se lentamente por sobre a alta muralha que rodeava o pátio principal, aspirando profundamente o ar da manhã, saboreando o perfume das flores sob os nossos pés. - Quem caiu do cavalo?—perguntei a Ulisses. - Equíon, o filho de Porteu—informou-me ele, sem mais, claramente concentrado em outro problema. Não parava quieto, pigarreava ansioso.
Ulisses, ansioso? Nem parecia dele!—Agamêmnon, Agamêmnon, onde você está?—perguntou ele em voz alta.—Já devia aqui! Nesse exato momento, o som de uma única trombeta espalhou-se pela quietude do alvorecer . Agamêmnon chegara à Porta Ceia. Podíamos finalmente avançar . Dividimo-nos. Ulisses, Diomedes, Menelau, Automedonte e eu, comandando mais uns quantos, avançamos tão suavemente quanto nos era possível na direção da colunata; depois, viramos para um alto e amplo corredor que conduzia à área do complexo de palácios que pertencia a Príamo. Aí, Ulisses, Menelau e Diomedes deixaram-me, seguindo por uma passagem que levava aos aposentos que albergavam Helena e Deífobo. Um grito imenso, solitário, desvairado, rasgou o profundo silêncio em que a cidade se encontrava mergulhada e abateu-se sobre a cabeça de Tróia como uma águia caindo sobre a sua presa. De súbito, os corredores do palácio encheram-se de gente, homens ainda nus, acabados de sair das camas, empunhando espadas, aturdidos devido ao vinho que tinham bebido. O que nos permitia levar a cabo a nossa missão com uma calma extrema; era fácil aparar aquelas investidas tontas e abatê-los logo em seguida. Mulheres uivavam e guinchavam, o mármore debaixo dos nossos pés depressa ficou escorregadio por causa do sangue—não, os Troianos não tinham escapatória possível. Poucos eram aqueles que se davam conta do que estava acontecendo. Alguns, no entanto, estavam despertos o suficiente para me confundirem com o meu pai, tanto mais que eu envergara a armadura dele; desatavam a fugir, gritando a plenos pulmões que Aquiles voltara do mundo dos mortos e comandava aquele exército de sombras. A ânsia de matar era o que me movia: não poupava ninguém. Com o aparecimento dos guardas, a resistência começou a ganhar alguma firmeza; finalmente, tínhamos de enfrentar alguns bons combatentes, ainda que o estilo do combate não fosse o de um campo de batalha. As mulheres contribuíam para o pânico e a confusão, dificultando as manobras dos homens da cidadela. Na minha esteira, vinham alguns dos homens que haviam entrado em Tróia graças ao cavalo; ansiando pelo fim de Príamo, deixei-os chacinar a seu bel-prazer . Só Príamo me interessava: só Príamo poderia pagar a morte de Aquiles. Mas eles adoravam aquele rei velho tonto. Aqueles que haviam acordado com as idéias mais ou menos assentes, tinham envergado uma armadura e corrido por atalhos através daquele labirinto, decididos a protegê-lo. Uma
muralha de homens armados barrava o meu caminho, as lanças apontadas, as suas expressões dizendo-me que estavam dispostos a morrer a serviço de Príamo. Automedonte e alguns outros se juntaram a mim; permaneci quieto por um momento, estudando a situação. Com as pontas das lanças apontadas para o meu peito, esperavam que eu me movesse. Afastei um nada o meu escudo e olhei por cima do ombro. - Vamos a eles! Saltei em frente tão rapidamente que o homem que estava diante de mim, instintivamente, se afastou para o lado, desse modo perturbando todos os outros. Usando o escudo como uma muralha, choquei estrondosamente contra eles. Os soldados de Príamo não poderiam resistir a tremendo peso; ao cair em cima deles, a linha desfez-se, as lanças caíram ao chão, inúteis. Ergui-me, fazendo rodopiar o machado; um homem perdeu um braço, outro metade do peito, um terceiro o cocuruto da cabeça. Aquilo era como abater árvores novas. Em combates corpo a corpo, a minha estatura e o poder do meu braço deixavam-me sem rival. O meu machado não parava de ceifar inimigos. Coberto de sangue da cabeça aos pés, passei por cima dos cadáveres e sai numa colunata que rodeava um pequeno pátio. No centro desse pátio, havia um altar erguido sobre um estrado com degraus; um frondoso loureiro protegia do sol a mesa do altar . Príamo, o rei de Tróia, estava encolhido no degrau superior, a barba e o cabelo brancos brilhando como prata sob a luz que se coava através dos ramos do loureiro, o corpo esquelético envolto na túnica de linho com que se deitara. - Pegue uma espada e morra, Príamo!—gritei-lhe, baixando o machado. Príamo não olhava para mim; aqueles olhos remelosos, molhados de lágrimas, como que fitavam o vazio; não me via, não me ouvia, estava longe, muito longe de mim. O ar estava saturado de ruídos de morte e sangue e a fumaça espalhava-se como uma bruma, baixando as lonjuras do céu. À sua volta, Tróia morria—e Príamo encolhia-se nos degraus do altar de Apolo, a um passo da loucura. Creio que não chegou nunca a compreender que tínhamos entrado em Tróia graças ao cavalo—o deus poupou-o disso. Tudo o que Príamo entendia era que já não havia razão nenhuma para que continuasse vivendo. Uma mulher muito velha estava agachada a seu lado, febrilmente agarrada ao braço dele, a boca aberta numa constante sucessão de uivos.
Digo bem: uivos. Os gritos dela assemelhavam-se mais aos uivos dos lobos do que a qualquer grito humano. Uma jovem com uma longuíssima cabeleira negra estava de costas para mim, junto à mesa do altar, as mãos sobre a laje, a cabeça inclinada para trás em oração. Mais homens surgiram para defender Príamo; enfrentei com desdém aquela investida. Alguns exibiam as insígnias dos filhos de Príamo—um fato que me acicatou ainda mais. Matei-os todos até que só um restava, não mais do que um garoto—seria Ílio? Que me importava quem ele era? Quando tentou me atacar com a sua espada, arranquei-a facilmente; depois, peguei nele pelas longas tranças com a mão esquerda, abandonando o escudo. O rapaz debateu-se, cansou de esmurrar as minhas grevas, mas eu arrastei-o até os degraus do altar . Príamo e Hécuba agarraram-se ainda mais um ao outro; a jovem não se virou para ver . - Aqui está o teu último filho, Príamo! Vai assistir à sua morte! Finquei o calcanhar no peito do jovem, com tanta força que o pobre se viu obrigado a erguer os ombros do chão, para logo morrer com a cabeça esmagada pela pá do machado. De súbito, pela primeira vez, Príamo pareceu se dar conta que eu estava ali. Levantou-se de um salto. Com os olhos fixos no cadáver do seu último filho, procurou uma lança que estava encostada em um dos lados do altar . Hécuba tentou detê-lo, uivando como uma loba. Mas o pobre velho mal conseguia andar . Tropeçou e caiu aos meus pés com a cara enterrada nos braços, oferecendo o pescoço à lâmina do machado. A velha agarrara-se às coxas dele; a jovem virara-se finalmente, mas não era para mim que olhava, era para o rei, uma profunda compaixão estampada no rosto. Ergui o machado. Avaliei bem o golpe: era fundamental que não houvesse o mínimo erro. A lâmina dupla abateu-se tão leve como uma fita tremulando ao sabor do vento e eu senti dentro de mim, naquele instante sublime, o sacerdote que vive nos corações de todos os homens nascidos para reinarem. O machado do meu pai cumpriu a sua parte brilhantemente. O pescoço de Príamo rasgou-se sob a cabeleira cor de prata, a lâmina cravou-se na pedra do chão, a cabeça saltou bem alto. Tróia estava morta. O seu rei morrera como os reis costumavam morrer nos tempos da Velha Religião: decapitados pelo sagrado machado. Quando me virei para ver o que se passava à minha volta, só encontrei gregos. - Procure um quarto que possa trancar bem trancado—disse eu a Automedonte.—Depois, volte aqui e leva as duas mulheres para esse quarto.
Subi os degraus do altar . - O teu rei está morto—disse eu para a jovem—uma mulher extremamente bela.—É minha cativa. Quem é você? - Andrômaca da Cilícia, a viúva de Heitor—disse ela, num tom de voz firme. - Nesse caso, cuida da tua sogra enquanto puder . Em breve serão separadas. - Deixe-me ir ter com o meu filho—disse ela, sem qualquer agitação, perfeitamente controlada. Abanei a cabeça. - Não, Andrômaca, isso não é possível. - Por favor!—exclamou, com uma expressão tão firme e controlada como antes. Os últimos resquícios de fúria evaporaram-se; senti por ela uma imensa compaixão. Agamêmnon nunca permitiria que o rapaz vivesse. As suas ordens eram claras: toda a Casa de Príamo teria de perecer . Antes que eu me visse obrigado a responder-lhe que não uma segunda vez, Automedonte regressou ao pátio de Apolo. As duas mulheres, a mais velha uivando ainda e sempre, a outra implorando serenamente que a deixassem ver o filho, foram levadas dali para fora. Depois disso, abandonei o pátio e tratei de explorar o labirinto de corredores, abrindo cada uma das muitas portas e espreitando para ver se haveria mais troianos que as minhas armas pudessem abater . Mas não encontrei ninguém. Até que cheguei a um outro pátio e abri mais uma porta. Deitado numa cama, dormindo profundamente, estava um homem dotado de uma constituição física poderosa. Um homem bem-apessoado, moreno o suficiente para passar por um filho de Príamo; no entanto, tirando a cor da pele, não havia nele mais nada que fizesse pensar na prole da Casa Real de Tróia. Entrei no quarto sem produzir um único ruído e coloquei-me próximo a ele, com o machado roçando-lhe o pescoço. Nem assim acordou. Então, abanei-o violentamente pelo ombro esquerdo. Os efeitos da bebedeira da noite anterior ainda se faziam sentir—e de que maneira! O homem resmungou qualquer coisa, as suas pálpebras tremeram um nada. Continuaria a dormir se, de repente, os seus olhos não tivessem entrevisto uma inesperada criatura envergando a armadura de Aquiles. Despertou
num ápice e só a lâmina do machado o impediu de correr para a sua espada. Lançou-me um olhar feroz. - Quem é você?—perguntei, com um sorriso. - Enéias da Dardânia. - Sim senhor! Enéias da Dardânia! É meu prisioneiro, Enéias. Eu sou Neoptolemo. Um clarão de esperança iluminou-lhe os olhos. - O quê? Quer dizer que não vão me matar? - Porque haveria eu de querer matá-lo? É meu prisioneiro—e eu não mato os meus prisioneiros. Se os Dardanianos nutrirem ainda alguma estima por você e estiverem, por isso, dispostos a pagar o exorbitante resgate que tenciono exigir, poderá ser de novo um homem livre. Será um prêmio para quem, por vezes, se mostrou... enfim... tão simpático para com o inimigo no campo de batalha. Uma explosão de alegria inundou-lhe o rosto. - Nesse caso... nesse caso serei rei de Tróia! Desatei a rir . - Quando o teu resgate for pago, Tróia já não existirá... Vamos arrasar a cidade e vender os seus habitantes como escravos. Na planície de Tróia, haverá apenas sombras... Creio que, no seu caso, a decisão mais sensata seria emigrar . Desviei o machado.—Levante-se. Virá comigo, nu e acorrentado. Enéias protestou, mas fez exatamente o que lhe mandei. Portou-se como um cordeirinho. Um soldado mirmidão trouxe-me o meu carro por entre a fumarada imensa que se espalhava pelas ruas e as chamas que consumiam as casas. Libertei as duas mulheres da sua prisão e amarrei-lhes os braços com cordas. Por sua própria iniciativa, Enéias estendeu as mãos para que o prendesse. Com os meus três cativos convenientemente amarrados, ordenei a Automedonte que conduzisse o meu carro para fora da cidadela, na direção da Praça Ceia. O saque da cidade consumava-se agora—não era um trabalho digno para o filho de Aquiles. Alguém enganchara o cadáver decapitado de Príamo à traseira do carro, tal como sucedera com o cadáver de Heitor; aquele resto, não mais do que um boneco ensangüentado, deslizava pelas pedras, por entre os pés dos meus três cativos vivos. A cabeça de Príamo estava espetada na Velha Pélion, a cabeleira e a barba prateadas empapadas em sangue, os olhos escuros esbugalhados, petrificados na dor e na ruína, mirando cegos as casas que as chamas devoravam e os corpos mutilados que juncavam as ruas. Crianças pequenas choravam em vão pelas suas mães, mulheres corriam como loucas à procura
dos seus bebês ou fugiam de soldados que só ficariam satisfeitos depois de as violarem e matarem. Impossível conter a fúria irracional do exército. Naquele dia de triunfo, os homens vingavam-se de todo o sofrimento por que haviam passado ao longo de dez anos de exílio, dez longos anos de saudades da pátria e dos seus, de muitos camaradas mortos e de muitas esposas infiéis, de ódio por todas as pessoas e coisas troianas; como animais selvagens, lançavam-se sobre as suas presas no meio daquelas ruas que a fumaça amortalhava. De Agamêmnon, nem sinal. É possível que alguma da minha pressa em deixar a cidade resultasse da relutância que sentia em encontrar-me com ele naquele dia de total devastação. É que aquela vitória era dele—não minha. Não muito longe da cidadela, Ulisses emergiu de uma rua secundária, saudando-me calorosamente. - Já de partida, Neoptolemo? Concordei sem a menor alegria. - Sim, e tão depressa quanto puder . Agora que a minha fúria se foi, creio que o meu estômago não agüenta tanto sangue e devastação. Apontou para a cabeça. - Estou vendo que encontrou Príamo. - Sim. - E os outros, quem são?—Inspecionou os meus prisioneiros, presenteando Enéias com uma vênia muito exagerada.—Não esperava encontrá-lo vivo! Estava certo e seguro de que ia ter muitos problemas com o príncipe Enéias. Não resisti a mirar com escárnio o dardaniano. - Dormia que nem um bebê, enquanto Tróia caía! Encontrei-o a ressonar na cama, tão nu como veio ao mundo! Ulisses desatou a rir; Enéias ergueu-se furioso, os músculos dos braços retesando-se num combate insano contra as cordas que os prendiam. De súbito, dei-me conta de que dera a Enéias o mais mortificante dos destinos. O antigo pretendente ao trono de Tróia era demasiado orgulhoso para suportar o escárnio. No instante em que o acordara, não conseguira pensar em outra coisa senão no trono de Tróia. Agora, começava a entender o que significaria o seu cativeiro—os insultos, a chacota, a hilaridade, a história, vezes sem conta contada, de como fora encontrado dormindo, e ainda bêbado que nem um cacho, enquanto todos os outros combatiam. Desamarrei as cordas que prendiam a velha Hécuba e obriguei-a a avançar . A loba continuava a uivar . Depois, estendi a Ulisses a ponta da
corda. - Uma prenda especial para você, Ulisses. Leva-a contigo e oferece-a a Penélope: dará uma boa criada. Além disso, uma cativa que foi rainha contribuirá, e não pouco, para o prestígio da tua rochosa ilha. Ulisses pestanejou, sinceramente surpreendido. - Para quê, Neoptolemo? Deixe, não é preciso... - Eu quero que ela seja tua serva, Ulisses. Se eu tentasse levá-la comigo, Agamêmnon se oporia e acabaria por ficar com ela. Mas a você, não ousará disputar Hécuba... Não faz sentido que seja só a casa de Atreu a exíbir régios cativos. - E a jovem? Sabe quem ela é, não sabe? - Sei. Mas Andrômaca não me escapará.—Curvei-me para lhe segredar ao ouvido:—Ela queria ir ter com o filho, mas isso era impossível... Que aconteceu ao filho de Heitor? Um calafrio percorreu-lhe o corpo. Fitou-me com uma expressão soturna. - Astianacte está morto. Não podíamos permitir-lhe que vivesse. Fui eu próprio que o encontrei. Atirei-o da torre da cidadela. Filhos, netos, bisnetos—todos tinham de morrer . Mudei de assunto. - Encontraram Helena? A soturnidade logo se esbateu com uma imensa gargalhada. - Claro que encontramos! - Como morreu ela? - Helena, morta? Helena? Ela nasceu para chegar a velhice e morrer serenamente na cama, rodeada por filhos, netos e criados lavados em lágrimas! Consegue imaginar Menelau cravando o seu punhal no coração de Helena? Ou permitindo a Agamêmnon que ordene a execução de Helena? Por todos os deuses, Menelau tem mais amor àquela criatura do que todo o amor que poderia ter por si mesmo! As gargalhadas esbateram-se, mas, de quando em quando, ainda vinha um risinho. - Nós a encontramos nos seus aposentos, rodeada por vários guardas. Deífobo estava pronto para matar o primeiro grego que visse. Mas Menelau mais parecia um touro enraivecido! Enfrentou sozinho os troianos e saiu-se muito bem! Eu e Diomedes não passamos de meros espectadores... Quando acabou com os guardas, desafiou Deífobo para um duelo. Helena estava a
um canto, com a cabeça para trás, os seios muito espetados, os olhos tão brilhantes como sóis verdes. Tão bela como Afrodite! Nunca haverá no mundo uma mulher capaz de lhe fazer sombra, Neoptolemo! Menelau estava pronto para o duelo, mas a verdade é que não houve duelo nenhum... Helena foi mais rápida do que ele: pegou um punhal e cravou-o nas costas de Deífobo, entre as omoplatas. Depois, caiu de joelhos. Com o peito bem espetado. - “Mate-me, Menelau! Mate-me!”—exclamou. “Eu não mereço viver! Mate-me já!” - Claro que ele não a matou. Aqueles seios foram mais fortes do que toda a sua raiva. Abandonaram juntos o quarto, sem sequer olharem para nós! Acabei também por rir . - Que estranha ironia! Pensar que vocês combateram um grupo de nações durante dez anos, decididos a que Helena morresse, para agora a verem partir para Amiclas, tão livre como antes—e de novo rainha ... ! - Bom, a morte não costuma vir quando a esperamos, não é?—disse Ulisses. Os ombros dele vacilaram e, pela primeira vez, me dei conta que Ulisses era um homem com quase quarenta anos, que ele sentia amargamente a sua idade e o seu exílio, que, apesar de todo o seu apetite pela intriga, tudo o que ele queria era voltar para casa. Saudou-me e logo se afastou, levando atrás de si aquela loba velha que continuava a uivar . Acenei para Automedonte e seguimos na direção da Porta Ceia. Os cavalos avançaram lentamente pela estrada que conduzia à praia. Enéias e Andrômaca vinham a pé, atrás de nós, o cadáver de Príamo entre os dois, saltando ao sabor dos acidentes da estrada. No interior do acampamento, contornei a base dos Mirmidões, rumo ao Escamandro, que passamos a pé. Por fim, tomei o caminho que levava aos túmulos. Quando os cavalos não puderam avançar mais, desprendi o cadáver de Príamo da barra a que viera amarrado, peguei nele pela túnica que o cobria e assim o arrastei até ao túmulo do meu pai. Deixei aquela massa mole e sem vida na pose de um suplicante, ajoelhada, e enterrei a base da Velha Pélion no chão, empilhando depois pedras à sua volta, como se fosse um pequeno monumento funerário. Concluído esse trabalho, virei-me para ver Tróia lá em baixo, na planície, as casas jorrando chamas para o céu sombrio, a porta escancarada como a boca de um cadáver depois da sua sombra ter se refugiado nas obscuras vastidões subterrâneas. E então, por fim, chorei por
Aquiles. Tentei imaginá-lo quando estivera em Tróia, mas correra demasiado sangue; uma bruma de morte pairava sobre a terra. No fim de tudo, só um Aquiles consegui evocar: aquele que eu vira muitos anos antes, a pele brilhante depois do banho, os olhos amarelos cintilando de prazer porque era para mim, o seu filho ainda pequeno, que ele estava olhando. Sem me preocupar que vissem as minhas lágrimas, regressei ao carro e subi para junto de Automedonte. - Para os navios, amigo do meu pai! Voltaremos para casa!—disse-lhe eu. - Para casa!—ecoou o fiel Automedonte, que partira de Áulida com Aquiles. Para casa! Na planície, as chamas devoravam Tróia, mas os nossos olhos não viam outra coisa senão o sol que reverberava no mar tão escuro como vinho e que nos dizia que aquele era o caminho para casa.
EPÍLOGO O destino de alguns sobreviventes.
Agamêmnon regressou são e salvo a Micenas, sem saber que a sua esposa, Clitemenestra, usurpara o trono e casara com Egisto. Depois de uma agradável recepção, Clitemenestra convenceu-o a tomar banho. Enquanto ele chapinhava feliz na água quente do banho, a rainha pegou o machado sagrado e matou-o. Depois, matou a concubina de Agamêmnon, Cassandra, a profetisa. Temendo que Egisto matasse Orestes, Electra, a filha mais velha de Agamêmnon e Clitemenestra, levou para bem longe o irmão. Orestes viria a vingar o pai, matando a mãe e o amante desta. Porém, fizesse o que fizesse, Orestes não tinha saída: os deuses exigiram-lhe que vingasse a morte do pai, mas condenaram-no por matricídio. O irmão de Electra acabou por enlouquecer .
Segundo a tradição latina, Enéias fugiu do incêndio de Tróia com o pai, o velho Anquises, empoleirado nos seus ombros, e com o Paládio debaixo do braço. Fez-se depois ao mar, tendo acabado por aportar a Cartago, no norte de África, onde a rainha, Dido, se apaixonou perdidamente por ele. Quando Enéias abandonou Cartago, Dido suicidou-se. O destino final de Enéias teria sido, ainda segundo a mesma tradição, a planície do Lácio, na Itália Central, onde se instalou após ter travado uma guerra. lúlo, filho de Enéias e da princesa Lavínia do Lácio, tornou-se rei de Alba Longa e dele descenderia Júlio César . Contudo, a tradição grega nega tudo isto. Diz que Enéias foi levado como cativo pelo filho de Aquiles, Neoptolemo, o qual, posteriormente, negociou com os Dardanianos o seu resgate; segundo a tradição grega, Enéias teria se instalado mais tarde na Trácia.
Andrômaca, a viúva de Heitor, foi feita prisioneira por Neoptolemo, que fez dela ou sua esposa, ou sua concubina. Andrômaca deu-lhe pelo menos dois filhos.
Antenor, juntamente com a esposa, a sacerdotisa Teano, e os filhos, pôde abandonar livremente Tróia, após a queda da cidade. A família viria a
instalar-se na Trácia—ou, segundo alguns, na Cirenaica, no norte de África. Ascânio, o filho de Enéias e da princesa troiana Creúsa, permaneceu na Ásia Menor depois do seu pai ter partido com Neoptolemo. O trono de Tróia viria a ser seu, mas Tróia havia perdido todo o seu antigo esplendor e poder .
O navio de Diomedes foi afastado da sua rota por uma tempestade e acabou por naufragar na costa da Lícia, na Ásia Menor . Diomedes, no entanto, sobreviveu. Acabou por chegar a Argos, onde descobriu que a mulher cometera adultério e lhe usurpara o trono. Foi derrotado e banido para Corinto, tendo travado depois uma guerra na Etólia. Aparentemente, Diomedes nunca mais teve um reino. O seu último paradeiro conhecido foi a cidade de Luceria, na Apúlia, Itália. Hécuba acompanhou Ulisses ao Quersoneso da Trácia. Os seus uivos perpétuos deixaram tão aterrado o rei de Ítaca que este acabou por abandoná-la na praia. Apiedando-se dela, os deuses transformaram-na numa cadela preta.
Helena participou em todas as aventuras de Menelau.
Idomeneu teve o mesmo problema que Agamêmnon e Diomedes. A rainha usurpou o trono de Creta e partilhou-o com o amante, que expulsou Idomeneu. O antigo rei de Creta viria a instalar-se na Calábria, Itália.
Cassandra, a profetisa, rejeitara na sua juventude as propostas amorosas de Apolo. O deus vingou-se, amaldiçoando-a: Cassandra profetizaria sempre a verdade, mas ninguém acreditaria nela. Foi de início cativa do Pequeno Ájax; contudo, foi-lhe tirada depois de Ulisses ter jurado que a violara no altar de Atena. Agamêmnon também a queria e levou a melhor sobre os outros. Cassandra seguiu para Micenas no navio do rei supremo. A profetisa troiana avisou-o de que a morte os aguardava em Micenas, mas Agamêmnon não acreditou em tais palavras. A maldição de Apolo mantevese até ao fim: Cassandra foi assassinada por Clitemenestra.
O navio do pequeno Ájax naufragou durante a viagem de regresso à Grécia. O príncipe morreu afogado.
O navio de Menelau foi desviado da sua rota pelos ventos e acabou por
aportar ao Egito, onde (com Helena) visitou muitas terras, permanecendo nessa região durante oito anos. Regressou à Lacedemônia no mesmo dia em que Orestes matou a mãe. Menelau e Helena reinaram na Lacedemônia e lançaram as bases do futuro estado de Esparta.
Menesteu não voltou a Atenas. No regresso para casa, aceitou a ilha de Melo como o seu novo reino.
Neoptolemo sucedeu no trono a Peleu, mas, após um conflito com os filhos de Ascasto, abandonou a Tessália e foi viver para Dodona, no Epiro. Viria a ser morto quando saqueava o santuário da pitonisa de Delfos.
Nestor regressou a Pilos rapidamente e em segurança. Passou o resto da sua longuíssima vida no trono de Pilos, na mais absoluta paz e prosperidade.
Como o seu oráculo doméstico previra, Ulisses esteve vinte anos sem ver Ítaca. Depois de ter deixado Tróia, vagou pelo Mediterrâneo e teve um sem-número de aventuras com sereias, feiticeiras e monstros. Quando finalmente chegou a Ítaca, encontrou o palácio cheio de pretendentes à mão de Penélope, desejosos de lhe usurparem o trono através do casamento com a rainha. No entanto, Penélope conseguira protelar um compromisso, insistindo que só voltaria a casar-se quando acabasse de tecer a sua própria mortalha. Todas as noites, Penélope desmanchava o trabalho que tinha feito no dia anterior . Ajudado pelo filho, Telêmaco, Ulisses matou todos os pretendentes. O rei e a rainha de Ítaca viveram felizes até ao fim dos seus dias.
Filoctetes foi expulso do seu reino de Hestaiótis, tendo decidido emigrar para a cidade de Crotona (Lucânia, Itália). Levou consigo o arco e as flechas que tinham pertencido a Heracles. POSFÁCIO
São muitas as fontes da história de Tróia. A Ilíada de Homero é apenas uma delas; abarca apenas cinqüenta e alguns dias de uma guerra que (todas as fontes concordam quanto a este ponto) durou dez anos. O outro poema
épico atribuído a Homero, a Odisséia, contém também muitas informações acerca da guerra e daqueles que a travaram. As outras fontes são freqüentemente fragmentárias e incluem, entre outros, Eurípides, Píndaro, Higino, Hesíodo, Virgilio, Apolodoro de Atenas, Tzetzes, Diodoro Sículo, Dionísio de Halicarnasso, Sófocles, Heródoto. Crê-se que o saque verdadeiramente importante de Tróia (com efeito, houve vários) ocorreu por volta do ano 1184 a. C., uma época de grandes convulsões no extremo oriental do Mediterrâneo, em conseqüência de catástrofes naturais, designadamente terremotos, e da migração de novos povos, tanto para essa zona como de partes dessa zona para outras partes. Das regiões a sul do Danúbio, vários povos deslocavam-se para a Macedônia e para a Trácia, ao passo que alguns povos gregos colonizavam as costas do mar Egeu e do mar Negro da atual Turquia. Estes movimentos convulsivos sucederam-se a migrações mais antigas e precederam outras migrações; viriam, aliás, a persistir até épocas relativamente recentes. Foram eles que deram origem a muitas das mais ricas tradições da história da Europa, da Ásia Menor e da bacia do Mediterrâneo. Os dados arqueológicos surgiram com as descobertas de Heinrich Schliemann em Hissarlik, na Turquia, e de Sir Arthur Evans, em Cnossos, na ilha de Creta. Parecem restar poucas dúvidas de que foi travada uma guerra entre os Gregos Aqueus e os habitantes de Tróia (também chamada Ílio). É praticamente seguro que o objetivo dessa guerra era o controle dos Dardanelos, esse estreito vital entre o mar Negro (Euxino) e o Mediterrâneo (Egeu), já que o controlo dos Dardanelos (o Helesponto) implicava um monopólio do comércio entre os dois mares. Era difícil obter certos produtos importantes, nomeadamente o estanho, sem o qual o cobre não poderia ser transformado em bronze. O comércio, a economia e a necessidade de sobrevivência foram muito provavelmente as razões desta guerra, mas isso não implica que prescindamos de todos aqueles ornamentos que relevam da lenda, como é o caso da história de Helena ou do Cavalo de Madeira. Algumas das personagens deste romance são mais conhecidas pelas versões latinas dos seus nomes: é o caso de Hércules (Heracles), Vênus (Afrodite), Júpiter (Zeus), Vulcano (Hefaísto) ou Marte (Ares). Apesar da existência de tábuas de argila (Linear A, Linear B, etc.) descobertas em Pilos e em outros locais de Micenas, os povos do Egeu do final da Idade do Bronze não eram letrados (no sentido que hoje damos a esta palavra). Entre estes povos, a capacidade de escrita, e não as “listas de mantimentos”, como Ulisses as denomina desdenhosamente (as tábuas acima referidas—que eram uma forma de Grego), só viria a surgir pouco antes do século VII a. C. As moedas pertencem também ao século VII a. C. Portanto, no tempo da guerra de Tróia, o dinheiro enquanto tal não existia, ainda que o ouro, a prata e o bronze fossem usados como instrumentos de permuta. No que toca a unidades de sistemas de medição, escolhi termos como “talento”, “légua”, “passo”, “cúbito” ou “dedo”. Em épocas muito posteriores, a légua viria a equivaler a três milhas; contudo, no âmbito deste livro, a légua poderá ser considerada como equivalendo apenas a uma milha, ou seja, 1,6 quilômetros. O passo era um duplo passo, medindo cerca de cinco pés britânicos, ou seja, 1,6 metros. Quanto ao cúbito, discute-se se seria a distância desde o cotovelo ao pulso, ou desde o cotovelo aos ossos do punho fechado, ou desde o cotovelo às pontas dos dedos. No contexto deste livro, dever-se considerar que um cúbito equivalia a quinze polegadas (375 milímetros). Comprimentos menores eram medidos com o dedo médio (um pouco menos de uma polegada, cerca de 20 mm). Um talento era a carga que um homem podia transportar às costas: cerca de cinqüenta e seis libras modernas (ou 25 quilos). O grão era uma medida de capacidade: considere-se que o recipiente usado para retirar de uma ânfora uma determinada quantidade de grãos (ou de água) continha cerca de quatro pints americanos, ou seja, um litro. Os anos, provavelmente, eram determinados de acordo com os ciclos das estações, ao passo que o mês era medido de acordo com a Lua— corresponderia talvez ao período entre duas luas novas. Horas, minutos e segundos eram desconhecidos.
FIM

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