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sexta-feira, 21 de abril de 2017

SD 505 : A CANÇÃO DE TRÓIA

Capítulo Nono   Narrado por Aquiles

Estava já perto dele: já lhe sentia o cheiro desagradável, já lhe sentia a fúria. Empunhando firmemente a lança, rastejei na sua direção por entre as moitas. Sentia já o seu hálito enquanto ele farejava à sua volta, sentia o pó que as suas patas levantavam ao revolverem o chão. Foi então que o vi. Era tão grande como um touro pequeno, o corpanzil assente em curtas e vigorosas pernas, a cerda negra eriçada, os beiços largos e cruéis abertos, revelando as presas encurvadas e amarelecidas. Os olhos dele eram os olhos de quem estava condenado ao Tártaro; via já as fúrias diante de si; a ira tremenda das brutas feras dominava-o por completo. Velho, selvagem, um assassino de homens. Gritei bem alto para lhe dizer que estava ali. De início, não se mexeu; depois, lentamente, virou para mim a cabeça maciça. Uma nuvem de pó ergueu-se do chão enquanto dava às patas, enquanto baixava o focinho e rasgava um momento de terra com as presas, ganhando forças para a carga. Avancei para ele, mantendo a minha Velha Pélion preparada para o embate, desafiando-o a avançar também. A visão de um homem enfrentando-o com tamanha ousadia era para ele uma novidade; por um momento, pareceu ficar sem saber o que fazer . Depois, desatou num trote portentoso que fazia tremer o chão, um trote que depressa se transformou num verdadeiro galope. Era espantoso, simplesmente espantoso, que uma grande criatura conseguisse correr tão depressa. Calculei a altura a que ele investiria e permaneci onde estava, as mãos cravadas na Velha Pélion, a ponta um pouco para cima, a base no chão. Estava mais perto agora. Impelido por todo o peso que os seus ossos suportavam, poderia ter deitado abaixo um tronco de árvore que lhe atravessasse o caminho. Quando vi as chispas de fogo dos seus olhos, agachei-me e, logo em seguida, arremeti contra ele e enterrei-lhe no peito a Velha Pélion. Ele abraçou-me; caímos os dois no chão e as minhas vestes e o meu corpo logo ficaram encharcados daquele sangue que jorrava fumegante. Porém, depressa me ergui e, com as mãos ferradas na haste da lança, arrastei-o: uma tarefa difícil, já que os meus pés escorregavam naquele sangue lodoso. E foi
assim que ele morreu, assombrado com o fato de ter encontrado alguém mais forte do que ele. Arranquei-lhe do peito a Velha Pélion, cortei-lhe as presas —um belíssimo troféu para adornar o elmo de um guerreiro e ali o deixei ficar: ali morrera, ali apodreceria. Não muito longe, avistei uma pequena enseada. Desci por um caminho de cobras, ao fundo do qual passava um riacho que serpeava a caminho do mar . Ignorando o cintilante convite das águas do riacho, corri pela areia a caminho das ondas. Com a água do mar, limpei o sangue que o javali me deixara nos pés e nas pernas, na minha roupa de caça e na Velha Pélion. Depois de ter despido a roupa e de a ter posto a secar na areia, corri para as ondas e nadei preguiçosamente por um tempo. Por fim, deitei-me na areia, ao pé da lança e das roupas. É possível que tenha dormido por um breve período. Ou, quem sabe, talvez o sortilégio estivesse, nesse momento, produzindo seu efeito. Por muito que tente lembrar-me, não saberei dar uma resposta. Só sei que a minha percepção das coisas se apagou. Quando voltei a mim, o Sol estava já a esconder-se por detrás das copas das árvores e o ar arrefecera um pouco. Tempo de partir: Pátrocles já devia estar ansioso. Levantei-me, decidido a pegar nas minhas coisas e a vestir-me, mas, Com esse simples ato, todo o meu equilíbrio mental se desmoronou. Como explicar o inexplicável? Depois de tudo passado, só encontrei uma palavra para definir aqueles momentos: a palavra “sortilégio”. Um período durante o qual me vi separado da realidade, embora me mantivesse ligado a uma qualquer espécie de mundo, Um cheiro fétido, que associei à morte, invadiu-me as narinas, e a praia toda se encolheu e ficou do tamanho de um grão, ao passo que um templo que havia no promontório se ergueu de súbito, tornando-se tão desmesuradamente grande que cheguei a pensar que as paredes gigantescas se despenhariam e cairiam em cima de mim. Aquele mundo era um mundo de contradições, em que o pequeno se tornava gigantesco e o grande minúsculo. Dei-me conta de que, dos cantos da minha boca, escorria uma água salobra. Então, vencido pelo terror, arrasado por uma desolação solitária feita de lágrimas e impotência, deixei-me cair de joelhos na areia; por outro lado, e apesar de toda a minha juventude e força, nada podia fazer para erradicar o pavor mortal que me invadia. A minha mão esquerda começou a tremer, o lado direito do meu rosto crispava-se em espasmos, a minha espinha endireitava-se para logo se arquear . Apesar de tudo, consegui não
perder a consciência e, com hercúlea força, impedi que as convulsões atingissem um paroxismo do qual por certo não haveria regresso. Quanto tempo terá durado o sortilégio? Não faço idéia. Sei apenas que, quando recuperei a minha força natural, o Sol já tinha se posto e o céu estava tingido de rosa, O ar estava quieto, parado, repleto da música das aves. Tremendo como um homem acometido de febre, levantei-me; na boca, sentia um sabor de coisa podre. Não parei para me vestir ou para pegar na Velha Pélion. Tudo o que queria era regressar ao acampamento, era morrer nos braços de Pátrocles. Mal me viu, Pátrocles correu ao meu encontro. Inquieto com o meu estado, tratou logo de me deitar num leito de peles quentes, junto à fogueira. Bebi um nada de vinho e, momentos depois, comecei a sentir a vida—a normal vida humana—retornando aos músculos, aos tendões, aos ossos; já liberto das garras do pânico, sentei-me no meu leito e, com uma gratidão maior do que o mundo, escutei o martelar ainda nervoso do meu coração. — Que aconteceu?—ouvi Pátrocles perguntar . — Um sortilégio—respondeu a minha voz estrangulada.—Um sortilégio. — O javali te feriu? Deste alguma queda? — Não, nada disso. Matei o javali com a maior facilidade. Depois, fui até à praia a fim de lavar o sangue que o animal derramara. Foi então que o sortilégio tomou conta de mim. Pátrocles caiu de joelhos, os olhos esbugalhados. — Que Sortilégio, Aquiles? — Foi... foi como se a morte tivesse vindo ao meu encontro. Eu cheirei a morte, senti o seu sabor na minha boca. A enseada ficou minúscula, o templo tornou-se gigantesco—o mundo rodopiava e ganhava uma nova forma como se Proteu fosse o mundo. Pensei que ia morrer, Pátrocles! Nunca me senti tão sozinho! Estava tão paralisado como um velho e sentia tanto medo como o mais vil dos covardes! Mas eu não sou velho, nem covarde! Por isso... que terá se passado comigo? Que estranha coisa era aquele sortilégio? Terei eu pecado contra algum deus? Terei eu ofendido o Senhor dos Céus ou o Senhor dos Mares? No seu rosto, lia eu apenas preocupação e apreensão; me diria, mais tarde, que, efetivamente, eu estava com o aspecto de quem dera à morte o beijo de boas-vindas, pois não havia nas minhas faces pingo de sangue e todo eu tremia, como uma árvore nova varrida pelo vento e as feridas e os
arranhões sucediam-se de alto a baixo ao longo do meu corpo nu. — Descanse agora, Aquiles, deixe-me te proteger do frio. Pode não ter sido um sortilégio. Talvez fosse apenas um sonho. — Um sonho, não. Um pesadelo—disse eu. — Coma qualquer coisa e beba mais vinho. Alguns camponeses trouxeram-nos peles, em sinal de reconhecimento por teres morto o javali. Agarrei-me ao braço dele. — Se não te tivesse encontrado, teria enlouquecido, Pátrocles. Não suportaria morrer sozinho. Envolveu as minhas mãos nas suas, beijou-as. — Aquiles, eu sou muito mais teu amigo do que teu primo. Aconteça o que acontecer, eu estarei sempre ao teu lado. A sonolência veio finalmente, uma suave sensação que afugentava o medo. Sorri, estendi o braço para lhe afagar o cabelo. — Tu por mim e eu por ti. Sempre assim foi. — E sempre assim será—respondeu ele. De manhã estava já perfeitamente bem. Pátrocles acordara antes de mim, a fogueira já estava acesa, um coelho crepitava num espeto. E também havia pão, trazido pelas camponesas, que assim agradeciam o meu feito. — Parece completamente recomposto—disse Pátrocles, com um sorriso imenso, passando-me um naco de coelho assado sobre uma fatia de pão. — E estou mesmo—retorqui, pegando na comida.—As tuas recordações do que se passou continuam tão vívidas como ontem à noite? Uma pergunta que me fez estremecer; contudo, o pão e o coelho erradicaram num ápice todo o medo. — Sim e não—respondi.—Foi um sortilégio, Pátrocles. Algum deus falou comigo e eu não entendi a mensagem. — O tempo resolverá esse mistério—disse ele, entregando-se já às pequenas tarefas domésticas de todos os dias. Nunca permitia que eu partilhasse com ele essas tarefas. Por muito que eu fizesse, nunca consegui convencê-lo a desistir desse hábito de me servir como a um amo. Pátrocles tinha mais cinco anos do que eu. O rei Licomedes de Ciros adotara-o como seu herdeiro quando o pai de Pátrocles, Menécio, morrera, muito tempo antes, na ilha. Pátrocles era meu primo, pois Menécio fora filho bastardo do meu avô Éaco; sentíamos profundamente esse elo de sangue, pois ambos éramos filhos varões únicos e também não tínhamos irmãs. Licomedes tinha-o em alta estima, o que não espantava ninguém. Com
efeito, Pátrocles era, entre os homens, uma raridade; ele era um homem verdadeiramente bom. Concluído o desjejum e levantado o acampamento, vesti um saiote, calcei umas sandálias e tratei de encontrar novas armas: um punhal de bronze e uma outra lança.—Espera por mim aqui, Pátrocles. Não demorarei. As minhas roupas e o meu troféu estão ainda na praia, Tal como a Velha Pélion. — Deixa-me ir contigo—disse ele imediatamente, com um ar receoso. — Não. Isto é só entre mim e o deus que quis falar comigo. Pátrocles baixou a cabeça, resignado. — Como quiser, Aquiles. Achando o caminho mais fácil desta vez, cheguei à praia tão depressa como um leão. A enseada pareceu-me perfeitamente inocente. Não, não era a enseada a fonte do sortilégio. Nesse exato instante, os meus olhos, vagueando sem pressas pelo promontório, detiveram-se no templo. O meu coração desatou a bater pesadamente. A minha mãe era uma sacerdotisa não oficial de Nereu e vivia em algum lugar naquele lado da ilha—seria aquele o seu domínio? Teria eu penetrado no seu território por engano, teria eu profanado algum mistério da Velha Religião e sido castigado por isso mesmo? Subi lentamente ao ponto mais alto do promontório e aproximei-me do templo, lembrando-me agora das gigantescas paredes que o sortilégio me fizera ver . Ah! sim, não tinha agora qualquer dúvida: aquele era o domínio de minha mãe! Não me avisara o rei Licomedes de que deveria ter o máximo cuidado com aqueles lugares onde a minha mãe, desafiando o poder do rei, instalara a sua residência? Ela estava à minha espera nas sombras junto ao altar . De súbito, dei-me conta de que precisava usar a Velha Pélion como se ela fosse uma bengala; as minhas pernas haviam perdido toda a força; quase não conseguia manterme direito. A minha mãe! Uma mãe que eu nem sequer conhecia! Tão pequena de estatura! Pouco mais alta do que a minha cintura... O cabelo era uma alvura azulada, os olhos de um tom cinzento-escuro, a pele tão transparente que deixava ver as veias. — Tu és o meu filho: aquele a quem Peleu negou a imortalidade. — Sim, eu sou o teu filho. — Foi ele que te mandou?
— Não. O nosso encontro deve-se a um mero acaso—disse eu, apoiandome na Velha Pélion. Que deveria um homem sentir quando pela primeira vez vê a sua mãe? Édipo sentiu um desejo lascivo e fez da mãe esposa e rainha. Pelos vistos, porém, não havia em mim nada do que movera Édipo, pois não sentia resquício algum de desejo, ou de admiração pela sua beleza ou pela sua visível juventude.      O que eu sentia, julgo que poderia ser resumido pelas palavras espanto, constrangimento e—sim, rejeição. Aquela estranha mulher matara os meus seis irmãos e traíra o meu pai, a quem eu amava. — Odeia-me!—gritou ela, aparentemente ofendida. — Não é ódio. Mas não gosto de ti. — Que nome te deu Peleu? — Aquiles. Ela atentou na minha boca e aquiesceu com desprezo. — Um nome muito apropriado ... !—disse.—Até mesmo os peixes têm lábios... Tu não tens nada que se pareça com lábios. A sua ausência faz com que o teu rosto, que poderia ser belo, se assemelhe a algo de incompleto. Uma saca com uma fenda... Ela tinha razão: eu a odiava. — Que faz em Ciros? Peleu veio contigo? — Não. Todos os anos passo seis luas em Ciros. Sou genro do rei Licomedes. — Casado? Já?—disse ela, com notória maldade. — Casei-me aos treze anos. Já tenho quase vinte. O meu filho tem seis anos. — Lamentável, lamentável... E a tua mulher? Ainda é uma criança, como tu? — A minha mulher chama-se Deidamia e é mais velha do que eu. — Enfim, o melhor dos casamentos para Licomedes. E para Peleu também. Dominaram-te - amansaram-te—com a maior facilidade. Incapaz de encontrar uma resposta, não lhe disse nada. Ela também se manteve calada. Um silêncio interminável. Eu, que fora tão bem ensinado pelo meu pai e por Quíron a mostrar deferência perante os mais velhos, não quebraria o silêncio: seria uma falta de educação. Talvez ela fosse realmente uma deusa, ainda que o meu pai o negasse sempre que bebia um pouco mais do que o costume.
— Deveria ter sido imortal—disse ela por fim. Desatei a rir . — Eu não quero a imortalidade! Eu sou um guerreiro, gosto das coisas humanas! Respeito os deuses, mas nunca desejei ser um deles. — Nunca pensaste no que significa ser mortal. — Que pode significar ser mortal, senão que terei de morrer? — Precisamente—disse ela, num tom brando.—Terá de morrer, Aquiles. E a idéia da morte não te assusta? Dizes que és um homem, um guerreiro. Mas os guerreiros morrem cedo, antes dos homens de paz. Encolhi os ombros. — Em paz ou em guerra, o destino de um homem é sempre a morte. E eu prefiro morrer jovem e em plena glória do que velho e coberto de ignomínia. Por um instante, os seus olhos ganharam um tom azul enevoado e o seu rosto ficou marcado por uma tristeza que não a imaginava capaz de sentir . Uma lágrima deslizou pela face translúcida, mas ela afastou-a impacientemente e de novo se tornou uma criatura destituída de piedade. — É demasiado tarde para discutir estas questões, meu filho. Tu terás de morrer . Mas posso oferecer-te uma escolha, porque eu vejo o futuro. Eu conheço o teu destino. Muito em breve, alguns homens virão e te pedirão que participe numa grande guerra. Se for, morrerá. Se não for, chegará a ser velho e gozará de uma imensa felicidade. Jovem e em plena glória, ou velho e coberto de ignomínia. A escolha é tua. Pestanejei, surpreendido, e desatei a rir . — Mas que raio de proposta é essa? A escolha é óbvia... Já te disse: prefiro morrer jovem e coberto de glória. — Sugiro que penses um pouco no que é a morte... Aquelas palavras penetraram-me como se fossem veneno. Olhei-a nos olhos e vi-os nadarem e dissolverem-se, e vi o rosto dela tornar-se informe, e vi o céu por cima dela diluir-se e flutuar sob os seus pés minúsculos. Tétis crescia imensa, gigantesca. No momento em que a sua cabeça penetrou as nuvens, soube que o sortilégio voltara a dominar-me—e quem me enfeitiçara. Água salobra escorria-me dos cantos da boca, o fedor da podridão enchia-me as narinas, o terror e a solidão fizeram-me cair de joelhos diante dela. A minha mão esquerda começou a tremer, o lado esquerdo do meu rosto contorcia-se em espasmos. Desta feita, porém, o sortilégio foi mais longe: perdi a consciência.
Quando acordei, a minha mãe estava ao meu lado no chão, esfregando ervas docemente fragrantes entre as palmas das mãos. — Levante-se—ordenou-me. Incapaz de pôr um mínimo de ordem nos meus pensamentos, o corpo e a mente debilitados, levantei-me lentamente. — Aquiles, ouça-me com atenção!—exclamou ela com uma voz poderosa. Ouça-me com atenção! Vai pronunciar um Juramento da Velha Religião—um Juramento muito mais grave e terrível do que todos os da Nova Religião. Jurará diante de Nereu, meu pai, o Velho Rei do Mar—diante da Mãe, pois é ela que a todos nós dá vida—diante de Kore, Rainha do Horror, diante dos governantes do Tártaro, lugar de tormento—diante da deusa que eu sou. Jurará agora, sabendo que tal Juramento não poderá ser infringido. Se o infringir, enlouquecerá para toda a eternidade e Ciros afundará sob as ondas, tal como Tera depois do grande sacrilégio.—Apertou-me o braço com uma força impressionante.—Ouviu-me bem, Aquiles? Ouviu-me bem? — Sim—respondi. — Tenho de te salvar de ti mesmo—disse ela, partindo um ovo velho e muito duro em cima de sangue gorduroso e deixando que o sangue se espalhasse pelo altar . Depois, pegou-me na mão direita e mergulhou-a no sangue e no ovo.—Agora jure! Repeti as palavras que ela me ia dizendo. — Eu, Aquiles, filho de Peleu, neto de Éaco e bisneto de Zeus, juro que regressarei imediatamente ao palácio do rei Licomedes e que me vestirei como uma mulher . Permanecerei entre as paredes do palácio durante um ano, sempre vestido de mulher . Quando aparecer alguém perguntando por Aquiles, me esconderei no harém e não falarei com ninguém, nem mesmo através de intermediários. Deixarei que o rei Licomedes fale em meu nome e obedecerei a tudo o que ele disser . E tudo isto eu juro por Nereu, pela Mãe, por Kore, pelos governantes do Tártaro e pela deusa Tétis. Mal concluí o juramento, a minha confusão desvaneceu-se; o mundo reencontrava os seus contornos verdadeiros e as suas cores normais e eu conseguia pensar de novo com clareza. Mas já era demasiado tarde. Nenhum homem poderia abjurar um tal juramento. A minha mãe tinha-me atado de pés e mãos à sua vontade. — Maldita seja!—gritei, começando a chorar .—Maldita seja! Fez de mim uma mulher!
— Há uma mulher em todos os homens—disse ela, com um sorriso malicioso. — Condenou-me à desonra! — Não; impedi que morra cedo—retorquiu ela, e deu-me um empurrão. Vá, agora volta para Licomedes. Não precisará lhe explicar nada. Quando chegar ao palácio, ele saberá de tudo.—Os seus olhos tornaram-se de novo azuis. Fiz isto apenas por amor, Aquiles, meu pobre filho sem lábios. Eu sou a tua mãe. Não disse nada a Pátrocles, quando o encontrei. Peguei minhas coisas e dei início à jornada que havia de nos conduzir ao palácio. E ele, concordando sempre com tudo o que eu queria, não me fez uma única pergunta. Ou talvez já soubesse aquilo que Licomedes seguramente sabia quando chegamos ao seu palácio. Estava à nossa espera no pátio, com um ar abatido, derrotado. — Recebi uma mensagem de Tétis—disse ele. — Nesse caso—disse eu—,já sabe o que temos de fazer . — Sim, já sei. A minha mulher estava sentada à janela quando entrei no seu quarto. Ao ouvir a porta, virou-se para mim. Com um sorriso cansado, abriu muito os seus braços para que eu a abraçasse. Beijei-a na face e logo os meus olhos se fixaram no porto e na pequena cidade que se viam da janela. — É tudo o que tem para me dar depois de tantos dias fora?—perguntou ela, mas sem qualquer sinal de indignação; Deidamia nunca se irritava. — Com certeza que já está a par daquilo que todos sabem—disse eu com um suspiro. — Tem de se vestir como uma mulher e de se esconder no harém do meu pai disse ela.—Mas só quando tivermos visitas, e nós não temos muitas visitas. A madeira de uma das ripas da persiana começou a desfazer-se tal era a força com que eu a agarrava—tal era a minha angústia. — Como é que eu vou fazer isto, Deidamia? Que humilhação! Que vingança perfeita! Aquela cadela escarnece da minha masculinidade! Deidamia, aflita, levou logo a mão direita ao amuleto que afastava o mau olhado. — Aquiles, não a enfureça mais! Ela é uma deusa! Trate-a com respeito! — Nunca!—disse eu cheio de raiva.—Ela não tem qualquer respeito por mim, pela minha masculinidade. Ah, todos rirão de mim!
Deidamia ficou horrorizada com as minhas palavras. — Aquiles, não vejo razão nenhuma para as pessoas se rirem! Não é caso para rirem, bem pelo contrário.
Capítulo Décimo  Narrado Por Ulisses

Os ventos e as correntes seriam sempre mais favoráveis do que o longo e tortuoso caminho por terra; por isso, seguimos por mar rumo a lolcos, sempre perto da costa. Já perto do porto, subi ao convés com Ájax; era a primeira vez que visitava a pátria dos Mirmidões e lolcos pareceu-me uma bela cidade, uma cidade de cristal tremeluzindo sob o sol de Inverno. Não tinha muralhas. Por detrás do palácio, erguia-se o monte Pélion, engrinaldado pela brancura imaculada da neve. Ajeitei melhor as peles sobre os ombros e soprei nas mãos para as aquecer; olhei de relance para Ájax, que estava tão despido como sempre. — Desces tu primeiro, colosso?—perguntei-lhe. Ájax aquiesceu tranquilamente; o gigante não tinha a menor inclinação para a normal conversação humana. Uma perna maciça ergueu-se sobre a amurada, encontrou o primeiro degrau da escada de corda, e o resto do corpo desapareceu rapidamente. O seu vestuário era o mesmo que lhe vira nos salões de Micenas: um saiote. E a sua bela pele não revelava o menor sinal de frio. Deixei-o descer até à praia e chamei-o depois, pedindo-lhe que nos arranjasse um transporte qualquer . Bem conhecido em lolcos, Ájax poderia escolher à vontade o transporte mais adequado. Nestor estava todo atarefado fazendo as suas trouxas no abrigo construído no convés de ré. — Pedi a Ájax que nos arranjasse um carro. Acha que está em condições de descer até à praia ou prefere esperar aqui?—perguntei-lhe eu com um ar irônico. Adorava picar Nestor . — Porquê? Acredita porventura que estou senil?—atirou-me ele, erguendo-se de um salto.—É claro que espero na praia! Resmungando, encaminhou-se decidido para o convés; afastando impacientemente a mão do marinheiro que tentava ajudá-lo, desceu a escada de corda com a agilidade de um rapaz. Ah, o maldito do velho! Peleu estava à nossa espera para nos dar as boas-vindas. Estivera muitas vezes com ele era eu ainda um rapaz e ele um homem no apogeu das suas capacidades. Porém, desde então, nunca mais o vira. Era agora um homem velho, mas, na sua aparência, havia ainda a altivez de um rei. Um homem bem-parecido -e sábio. Pena que tivesse apenas um filho; sendo filho de
Peleu, Aquiles teria de se esforçar muito se quisesse manter a reputação da sua casa. Confortavelmente sentados diante do grande trípode de fogo, com vinho quente e adoçado à discrição, tratei de explanar as razões da nossa visita. Apesar de Nestor ser mais velho, eu fora eleito porta-voz da delegação; se a missão falhasse, o culpado seria eu e o patife do velho teria sempre escapatória. — Peleu, Agamêmnon enviou-nos a lolcos para que te pedíssemos um favor . Os seus astutos olhos examinaram-me atentamente. — Helena—disse ele.—As notícias viajam depressa. — Estava à espera de um mensageiro imperial, mas a verdade é que esperei em vão. No porto de lolcos, ninguém viu passar tal personagem. — Como tu não pronunciaste o Juramento do Cavalo Esquartejado, não faria sentido que Agamêmnon enviasse um mensageiro imperial. Nada te obriga a aderir à causa de Menelau. — Pois ainda bem, Ulisses. Estou demasiado velho para ir para a guerra. Nestor decidiu que eu estava com demasiados rodeios. — Na realidade, meu caro Peleu, não é a ti que procuramos—disse ele. Com efeito, o que pretendemos é assegurar os serviços do teu filho. O rei supremo da Tessália pareceu de súbito abatido. — Aquiles... Bom, eu tinha esperança de que não lhe fizessem tal convite, mas, de certo modo, estava à espera dele... Não duvido, aliás, que Aquiles aceite de bom grado a proposta de Agamêmnon. — Nesse caso, permite que lhe apresentemos o nosso pedido?— perguntou Nestor . — Claro que permito—retorquiu Peleu. Sorri aliviado. — Agamêmnon agradece-te, Peleu. E eu também te agradeço. Do fundo do coração. Fitou-me demorada e fixamente. — Mas tu tens um coração, Ulisses?—perguntou.—Pensava que só possuías uma mente. Uma imagem desfilou por um instante diante dos olhos da minha memória. Era Penélope, pensei, e logo a imagem se esbateu. Fitei Peleu como ele me fitava a mim. — Não, Peleu, eu não tenho coração. Que falta faz o coração aos homens? Ter coração é um perigo, Peleu. — Então sempre é verdade o que se diz de ti.—Pegou no seu copo, que
estava sobre a mesa assente no trípode, um belo exemplar da arte egípcia.— Se Aquiles resolver participar na guerra de Tróia disse ele então—chefiará os Mirmidões. Há mais de vinte anos que o meu povo se prepara para uma dura campanha. Alguém entrou nesse momento; Peleu sorriu e estendeu-lhe a mão. — Ah, Fênix! Meus senhores, apresento-lhes Fênix, meu amigo e camarada de muitos, muitos anos. Temos convidados prestigiosos, Fênix—apresento-te o rei Nestor, de Pilos, e o rei Ulisses, de Ítaca. — Eu vi Ájax lá fora—disse Fênix, fazendo uma respeitosa vênia. A sua idade estaria entre a de Peleu e a de Nestor, mas era ainda um homem poderoso, com uma aparência marcial e o físico típico dos Mirmidões— branco, grande e atlético. — Fênix, acompanhará Aquiles a Tróia—disse Peleu.—Cuidará dele como eu cuidaria. O protegerá do seu destino. — Nem que para tal tenha de dar a vida, rei Peleu. Belas palavras, pensei eu, impaciente, mas já chegava de conversa. — Podemos então falar com Aquiles?—perguntei. Peleu e Fênix fitaramnos espantados. — Não sabiam que Aquiles não está em lolcos?—perguntou Peleu. — Não está? Então onde está ele?—perguntou Nestor . — Em Ciros. Todos os anos, o meu filho passa as seis luas do Inverno na ilha de Ciros—ele está casado com Deidamia, a filha de Licomedes. Irritado, dei uma palmada na coxa. — Nesse caso, teremos de fazer mais uma viagem por mar em pleno Inverno. — Não, de modo nenhum—disse Peleu, muito afável.—Eu mandarei chamá-lo e lhe comunicarei o vosso pedido. Porém—fosse lá pelo que fosse—eu sabia que, se não fôssemos nós a procurá-lo, nunca veríamos Aquiles. Abanei a cabeça e retorqui: — Não, rei Peleu, Agamêmnon não estaria de acordo. Ele disse-nos que deveríamos falar pessoalmente com Aquiles. E foi assim que fizemos nova viagem e demandamos novo porto e, chegados a este porto, demandamos novo palácio; a diferença estava em que este novo palácio pouco mais era do que uma casa grande. Ciros era uma ilha pobre. Licomedes deu-nos as boas-vindas, mas, logo que nos sentamos para comer uma frugal refeição e beber mais frugalmente ainda,
comecei a ter uma insólita sensação que, a um nível mais superficial, se traduzia por aquilo a que chamamos pele de galinha. Havia algo de estranho naquilo tudo—e não apenas no comportamento de Licomedes. Uma tensão muito peculiar impregnava a atmosfera do palácio. Criados—todos eles homens—apareciam para logo desaparecerem sem sequer olharem para nós; a fisionomia de Licomedes não conseguia esconder a pesada pressão do medo; o seu herdeiro, Pátrocles, entrou na sala e saiu tão rapidamente que cheguei a pensar se o rapaz não teria sido inventado pela minha imaginação. Porém, o mais insólito de tudo era que não se ouvia um único som feminino! Não se ouvia uma única mulher—mesmo que distante— rindo ou lamentando-se, ou gritando, ou a desfazer-se em lágrimas. Que coisa mais estranha! Claro que as mulheres não participavam nos assuntos dos homens, mas não era menos verdade que elas tinham plena consciência da sua importância na ordem instituída e que gozavam de liberdades que nenhum homem se atrevia a negar-lhes. Não esqueçamos que, durante a Velha Religião, eram elas quem governavam. A minha pele de galinha transformara-se num inquietante formigueiro, o meu nariz começava a detectar o velho e conhecido cheiro de perigo; olhei de relance para Nestor: sim, ele sentia o mesmo que eu. Ergueu muito as sobrancelhas e suspirou: não, eu não me tinha enganado. Havia ali um problema qualquer ... Pátrocles, o belo herdeiro, regressou entretanto. Examinei-o mais atentamente, perguntando-me qual poderia ser o seu papel naquela estranha situação. Era um rapaz terno e amável e tinha coragem e valentia de sobra; pareceu-me, porém, que os seus apetites de homem iam todos num sentido—e excluíam as mulheres. Bom, a escolha era dele. Ninguém o censuraria por preferir homens. Não se notariam muito esses apetites, naquela noite, pois o belo Pátrocles estava muito apagado. Mais exatamente: tinha um ar infeliz. — Rei Licomedes—disse eu—,a nossa missão é muito urgente. Procuramos o teu genro Aquiles. Houve um silêncio bizarro, intangível; Licomedes quase deixava cair o copo, após o que se levantou desajeitadamente. — Meus senhores, Aquiles não se encontra em Ciros. — Não está aqui?—perguntou Ájax, desanimado. — Não.—Licomedes parecia embaraçado.—Ele—ele teve uma violenta discussão com a sua esposa—com a minha filha—e partiu para o continente,
jurando nunca mais regressar . — Também não está em lolcos—informei eu, afavelmente. — Confesso que esperava que não estivesse, Ulisses. Ele disse que ia para a Trácia. Nestor suspirou. — Por todos os deuses! Parece que estamos condenados a não encontrar nunca o jovem Aquiles, não é verdade? Nestor dirigira-se a mim, mas não lhe respondi imediatamente, pois deime conta de que uma curiosa leveza impregnara de súbito a tensa atmosfera, de que um imenso alívio fizera sossegar os corações de Licomedes e Pátrocles. Sim, o meu instinto não me tinha enganado. Havia ali um problema muito grave e Aquiles estava no centro desse problema. Levanteime. — Visto que Aquiles não está em Ciros, creio que será melhor partirmos sem demora, Nestor . Esperei, sabendo que Licomedes era obrigado, por Zeus hospitaleiro, a brindar-nos com as costumeiras cortesias—se isso não sucedesse, estaria a transgredir as leis divinas. E, enquanto esperava, virei-me de modo a que Nestor pudesse ver-me o rosto; então, lancei-lhe um olhar que era um verdadeiro alerta. Licomedes fez a oferta que dele se esperava. — Passem esta noite no meu palácio. O rei Nestor deveria descansar um pouco. Ainda bem que alertara Nestor; em vez de retorquir que estava com energia suficiente para declarar guerra ao Olimpo, Nestor pôs um ar patético, transformando-se, como que por magia, na encarnação de todas as desgraças da velhice. Mas que malandro, aquele velho! — Agradeço-te muito, rei Licomedes!—exclamei aliviado.—Nestor estava tão cansado esta manhã... O que ele sofre com estes ventos frios ... !—Baixei os olhos.—Espero que a nossa presença não seja para ti um incomodo. Mas era mesmo um incomodo. Nunca ocorrera a Licomedes que eu poderia aceitar o seu convite formal, já que a nossa missão era um fracasso e teríamos de regressar rapidamente a Micenas a fim de transmitirmos as tristes notícias a Agamêmnon. No entanto, tratou de disfarçar com afáveis sorrisos a sua decepção. Tal como Pátrocles. Deixei passar algum tempo e fui ter com Nestor ao seu quarto. Sentei-me no braço de uma cadeira enquanto Nestor repousava num banho
fumegante, e um velho criado—que coisa rara: de novo um homem! — lhe raspava a pele engelhada, retirando-lhe o sal e a sujidade. Logo que Nestor saiu da banheira, todo entrouxado em toalhas de linho, o homem partiu. — Que acha disto tudo?—perguntei a Nestor . — Esta casa está assombrada por alguma sombra—disse ele com a maior das certezas.—Seria lógico que a eventual discussão de Aquiles com a esposa e que a sua eventual partida para a Trácia tivessem provocado uma reação deste gênero. No entanto, creio que não foi isso o que se passou. Seja qual for o problema, não é essa a causa. — Creio que Aquiles está aqui—neste mesmo palácio! Nestor arregalou os olhos. — Não!—replicou.—Escondido, está, mas não aqui. — Está aqui—insisti.—Todos sabem que Aquiles é um jovem tão impulsivo quanto belicoso. Licomedes e Pátrocles só conseguem controlá-lo se ele estiver por perto... Portanto, Aquiles só pode estar neste palácio. — Mas porquê? Aquiles não se submeteu ao Juramento e Peleu também não. A honra deles não seria minimamente afetada se recusassem a combater em Tróia. — Ah, mas Aquiles quer ir! Desesperadamente! Os outros é que não querem que ele vá. E, não sei como, ataram-no de pés e mãos. — Que havemos de fazer então? — Que acha?—contrapus.—Acho que temos de dar umas voltas por este pequeno edifício... Eu, de preferência, durante o dia. Posso fingir que estou senil. Tu poderá investigar quando todos estiverem dormindo. Crê que Aquiles é prisioneiro de Licomedes? Não, isso era impossível. — Licomedes não se atreveria, Nestor . Se Peleu soubesse, se tornaria mais temível do que Poseidon. Arrasaria esta ilha. Não, creio que a prisão de Aquiles é um juramento qualquer . — Lógico—comentou Nestor, começando a vestir-se.—Ainda falta muito para o jantar? — Ainda temos algum tempo. — Então vá descansar um pouco, Ulisses, enquanto eu faço a minha ronda. Nestor veio acordar-me para o jantar . Parecia extremamente irritado. — Que a peste os leve a todos!—resmungou.—Se o esconderam aqui,
esconderam-no muito bem. Percorri o palácio desde o telhado às caves e nem sinal de Aquiles! O único lugar onde não pude entrar foram os aposentos das mulheres. Têm um guarda à porta. — Então é aí que ele está—disse eu, levantando-me.—Hmmm! Descemos juntos à sala de jantar, perguntando-nos se Licomedes teria se tornado um verdadeiro Assírio, pois os homens assírios proibiam as mulheres de jantarem com eles. Um homem cuidando dos banhos? As mulheres do palácio todas escondidas? Um guarda à porta dos seus aposentos? Muito estranho... Licomedes não queria que ouvíssemos mexericos: por isso, era preciso que as suas mulheres se mantivessem longe de nós. Mas havia mulheres na sala de jantar, ainda que atiradas para o canto mais sombrio da sala. Estava esperando que Licomedes deixasse as mulheres do palácio comerem na sala; o palácio e as cozinhas do palácio eram tão pequenos que, se as mulheres fossem servidas nos seus aposentos, haveria um verdadeiro caos culinário que deixaria os convidados muito mal impressionados. Contudo, nem sinal de Aquiles. Nenhuma daquelas indistintas formas femininas era suficientemente corpulenta para pertencer a Aquiles. — Porque é que esconde as mulheres?—perguntou Nestor quando a comida chegou e nos sentamos à mesa de honra com Licomedes e Pátrocles. — As mulheres ofenderam Poseidon—respondeu rapidamente Pátrocles. — E?—perguntei eu. — Poseidon proibiu-as de manterem contato com os homens durante cinco anos. Ergui as sobrancelhas de espanto. — Mesmo os contatos sexuais? — Não, esses não. — Isso parece mais uma exigência da Mãe do que de Poseidon— observou Nestor, bebendo um gole de vinho. Licomedes encolheu os ombros. — A ordem foi de Poseidon, não da Mãe. — Através de Tétis, a sua sacerdotisa?—perguntou o rei de Pilos. — Tétis não é sacerdotisa de Poseidon—retorquiu Licomedes, visivelmente constrangido.—O deus recusou-se a aceitá-la. Por isso, agora, Tétis serve a Nereu.
Depois da comida ter desaparecido (tal como as mulheres), tratei de me juntar a Pátrocles, deixando Licomedes à mercê de Nestor . — Lamento muito não ter podido encontrar-me com Aquiles—disse eu. — Teria gostado dele—disse Pátrocles, num tom perfeitamente inexpressivo. — Imagino que ele teria adorado ir para Tróia. — Sim. Aquiles nasceu para a guerra. — Bom, não tenciono passar a Trácia a pente fino para encontrá-lo! Aquiles ficará por certo muito triste quando souber o que perdeu. — Sim, muito triste. — Fale-me um pouco mais dele, Pátrocles. Do seu aspecto, da sua maneira de ser ...—disse eu no tom mais sedutor possível, pois uma coisa já sabia acerca de Pátrocles: era Aquiles o homem a quem ele havia dado o seu amor . O seu rosto jovem todo se iluminou. — É um pouco menos corpulento do que Ájax... Tão—tão gracioso quando caminha! E é muito belo. — Ouvi dizer que não tinha lábios. Como pode um homem sem lábios ser belo? — Porque—porque—gaguejou Pátrocles, à procura das palavras certas.     —Teria de conhecê-lo para compreender, Ulisses. A boca dele comove-nos até às lágrimas, tão intensa é a dor que ela exprime! Aquiles é a beleza personificada. — Parece-me demasiado bom para ser verdade—disse eu. Pátrocles quase caíra na armadilha. Por pouco não me dizia que eu era um idiota por duvidar dele, por pouco não me dizia que, se eu quisesse, iria naquele preciso momento buscar o seu modelo de excelência física para que eu visse com os meus próprios olhos... Mas cerrou os lábios com toda a sua força—e não chegou a proferir as palavras que o amor ditava. E nem precisava: eu já tinha a resposta que queria. Antes de nos retirarmos, conferenciei com Nestor e Ájax, após o que fomos para a cama dormir o sono dos justos. Mal a manhã se anunciou, fui com Ájax até à cidade. Deixara alojado na cidade o meu primo Sinão; não era sensato exibir todos os tesouros ao mesmo tempo e Sinão era um verdadeiro tesouro. Escutou impassível as minhas instruções, após o que recebeu das minhas mãos um dos vários sacos de ouro que Agamêmnon me entregara para
custear as nossas despesas. Àquilo que era meu, era eu mais agarrado; um dia, todos os meus bens seriam do meu filho. Quanto a Agamêmnon, tinha dinheiro de sobra para pagar por Aquiles. A corte dormia ainda quando regressei ao palácio, embora Ájax não me acompanhasse. Ájax tinha certas tarefas a executar na cidade. Nestor estava acordado e tratando da sua bagagem; não tencionávamos manter Licomedes em suspense. Claro que o rei de Ciros protestou muito cortesmente quando lhe anunciamos que estávamos de partida. Rogou-nos que ficássemos mais tempo, mas, desta feita, declinei educadamente o convite, para seu imenso alívio. — Onde está Ájax?—perguntou Pátrocles. — disse-lhe que desse uma volta pela cidade e que perguntasse às pessoas se sabiam para onde Aquiles tinha ido—retorqui, após o que me virei para Licomedes.—Rei Licomedes, gostaria de te pedir um pequeno favor: é capaz de chamar todas as pessoas livres que vivem no teu palácio à Sala do Trono? Licomedes pareceu espantado, primeiro, e desconfiado depois.     —Bom.... — São ordens de Agamêmnon, caso contrário não o pediria. O rei supremo de Micenas ordenou-me que apresentasse os seus agradecimentos a todas as pessoas livres da corte. Já o fiz em lolcos, terei de fazê-lo também em Ciros. Determinou Agamêmnon que deverão comparecer todos os membros da corte, incluindo as mulheres. A proibição do deus não o impedirá que as convoque. Mal disse estas palavras, alguns dos meus marinheiros entraram, trazendo grandes quantidades dos mais diversos presentes. Pequenas lembranças para as mulheres: contas, roupas, frasquinhos de perfume, boiões de óleos, ungüentos e essências, belíssimas lãs e diáfanos linhos. Pedi que me trouxessem mesas, a fim de que os homens pudessem descarregar as suas pesadas cargas. Mais marinheiros vieram, desta feita com prendas para os homens: proteções para os braços, revestidas de bronze, escudos, lanças, espadas, couraças, elmos e grevas. Mais mesas pedi para que estas prendas fossem descarregadas. A cobiça lutava com a prudência nos olhos do rei; quando Pátrocles o advertiu do perigo, agarrando-lhe no braço, Licomedes libertou-se da mão do herdeiro e bateu as palmas para chamar o chefe dos criados. — Convoca toda a corte para a Sala do Trono. As mulheres não deverão
aproximar-se dos homens, de acordo com a proibição decretada por Poseidon. A sala encheu-se de homens, as mulheres chegaram depois. Nestor e eu tratamos de examiná-las atentamente. Vão esforço: nenhuma delas podia ser Aquiles. — Rei Licomedes—disse eu então—,o rei Agamêmnon deseja agradecerte e à tua corte a hospitalidade e ajuda.—Apontei para os montes de presentes destinados às mulheres.—Aquelas são as prendas para as mulheres—Virei-me para as armas e armaduras.—Estas, são as prendas para os homens. Ambos os sexos desataram num murmurar deliciado, mas ninguém se mexeu enquanto o rei não fez sinal para que avançassem. Depois, correram para as mesas e, com a felicidade estampada nos rostos, desataram a escolher as prendas que mais lhes agradavam. — Esta prenda é para ti, rei Licomedes—disse eu, estendendo-lhe um objeto envolvido em linho. Radiante de prazer, Licomedes desembrulhou o objeto em questão: um machado cretense, a cabeça dupla de bronze, a haste de madeira de carvalho. Nesse preciso momento, ouviu-se nas proximidades do palácio um penetrante grito de alarme. Alguém fizera soar uma trombeta e, ao longe, todos ouvimos Ájax soltando um estridente grito de guerra, típico dos homens de Salamina. Logo a seguir, ouviu-se um barulho inconfundível: o ruído de homens vestindo as suas armaduras. Ájax voltou a gritar, mais perto agora, como se estivesse retirando. As mulheres desataram aos gritos enquanto fugiam aflitas para o vão da porta, os homens desataram numa confusão de perguntas, e o rei Licomedes, com uma lividez de moribundo, esqueceu-se até do seu machado. — Piratas!—gritou o rei, sem saber o que fazer . Ájax gritou uma vez mais, mais alto e muito mais perto, um grito de guerra das encostas do Pélion, um grito de guerra que só Quíron ensinava. Perante a imobilidade expectante que entretanto se instalara na Sala do Trono, peguei no machado e ergui a sua cabeça dupla. Mas houve mais alguém que se mexeu: alguém que irrompeu pela Sala do Trono com tal força e violência que as mulheres, apinhadas no vão da porta, rodopiaram como simples canilhas das tecedeiras. A criatura em
questão parecia ser uma mulher ... Depressa percebemos por que razão Licomedes não se atrevera a mostrá-la à nossa embaixada! Despindo impacientemente a túnica de linho e revelando assim um peito tão magnificamente musculoso que eu próprio fiquei de olhos arregalados de admiração, a valente mulher correu para a mesa onde estavam empilhadas as armas. Finalmente encontráramos Aquiles. Deitou para o chão tudo o que estava em cima de uma mesa, pegou um escudo e uma lança e logo se ergueu pronto para a luta. Encaminhei-me na sua direção, oferecendo-lhe o machado. — Minha senhora, use antes este machado! É uma arma mais adequada para uma mulher tão corpulenta...—Passei-lhe o machado, uma pesada arma para os meus pobres braços.—Estou na presença do príncipe Aquiles, não é verdade? Ah, o jovem Aquiles era realmente uma estranha criatura! Alguém que poderia ter sido o mais belo dos homens, mas que, de fato, não o era—apesar de todos os louvores de Pátrocles. Ainda que a causa não fosse exatamente a boca, ou a ausência dela. Aliás, aquela fenda que tinha no lugar dos lábios conferia à sua expressão um pathos que só lhe ficava bem. Em Aquiles, a ausência de beleza—sempre achei isso, desde o momento em que o conheci —vinha de dentro, não de fora. Os olhos eram um mar de orgulho e suprema inteligência; não, de fato, Aquiles não era um brutamontes como Ájax. — Os meus agradecimentos!—exclamou ele, rindo tanto como eu. Ájax entrou na Sala do Trono empunhando ainda as armas que usara para criar o pânico nas proximidades do palácio; mal viu Aquiles, desatou aos berros. Um instante depois, o abraçava com tal força que, fosse eu o abraçado e teria ficado por certo com a caixa torácica esmagada. Aquiles libertou-se de Ájax aparentemente sem sofrer qualquer dano e pôs um braço por cima dos ombros dele. — Ájax, Ájax! O teu grito de guerra trespassou-me como a mais aguçada das flechas! Eu não podia deixar de responder, não consegui ficar quieto nem mais um momento! Quando deste o grito de guerra do velho Quíron, era a mim que estava chamando—como poderia eu resistir?—Olhou de relance para Pátrocles e estendeu-lhe uma mão.—Vem, Pátrocles, vem para junto de nós! Vamos para a guerra contra Tróia! O meu maior desejo vai ser satisfeito! O Pai Zeus respondeu às minhas súplicas! Licomedes estava fora de si, chorava, contorcia aflito as mãos.
— Meu filho, meu filho, que vai ser de nós? Quebraste o juramento que fizeste diante de tua mãe! Ela vai arrasar-nos! Um pesado silêncio caiu sobre a sala. Num ápice, Aquiles perdeu toda a alegria. Ergui as sobrancelhas para Nestor; suspiramos ambos. Tudo estava explicado. — Não estou percebendo, pai. Como é que eu quebrei o juramento?— disse finalmente Aquiles.—Eu limitei-me a responder a um estímulo... Sem pensar, reagi a um apelo que me foi instilado era eu ainda um menino pequeno. Ouvi Ájax e respondi. Não quebrei nenhum juramento. A astúcia de um outro homem destruiu as grilhetas desse juramento. — Aquiles diz a verdade—disse eu, bem alto.—Eu enganei-o. Nenhum deus poderá considerá-lo culpado da quebra de um juramento. Claro que duvidaram de mim, mas o mal estava feito. Aquiles ergueu exultante os braços e logo se virou para Pátrocles e Ájax, abraçando os dois. — Primos, nós vamos para a guerra!—disse, com um sorriso de tremenda alegria. Depois, lançou-me um olhar grato.—É o nosso destino. Apesar dos seus hediondos sortilégios, a minha mãe nunca conseguiu transformar a minha verdadeira natureza. Eu nasci para ser guerreiro, para lutar ao lado dos maiores homens da nossa época, para alcançar a fama eterna e a glória imortal! Aquilo que ele disse era provavelmente verdade. Olhei de soslaio para aquele esplêndido trio de jovens e lembrei-me da minha mulher e do meu filho, da eternidade que o meu exílio duraria. Aquiles alcançaria sem dúvida a fama eterna e a glória imortal na guerra de Tróia; mas eu trocaria de bom grado o meu quinhão de fama e de glória pelo direito de regressar para casa no dia seguinte.      Afinal, até consegui voltar a Ítaca, sob o pretexto de que tinha de organizar pessoalmente o meu contingente para a guerra de Tróia. Agamêmnon não ficou nada contente quando me viu partir de Micenas; eu representava para ele uma apetecível bengala. Passei três preciosas luas com a minha Penélope tecedeira. Um tempo com que não contáramos, mas que eu não poderia prolongar . Enquanto a minha pequena frota enfrentava o alteroso mar de Pélops, decidi rumar a Áulida por terra. Atravessei rapidamente a Etólia, pois não parei para descansar nem de noite nem de dia. Cheguei finalmente à montanhosa Delfos, onde Apolo, Senhor da Profética Boca, tinha o seu santuário, e onde a sua sacerdotisa, a
pitonisa, pronunciava os seus infalíveis oráculos. Perguntei-lhe se o oráculo de Ítaca estava certo, ou seja, se eu passaria realmente vinte anos longe da minha pátria. A resposta dela não poderia ter sido mais simples e direta:— Sim.—Acrescentou que era essa a vontade da minha protetora, Palas Atena. Perguntei-lhe porquê. A única resposta que me deu foi um risinho. Reduzidas a cinzas as minhas esperanças, avancei na direção de Tebas, onde deveria encontrar-me com Diomedes, que vinha de Argos. Porém, a cidade de Tebas, agora não mais do que ruínas, estava deserta; Diomedes não se atrevera a se demorar naquela cidade sombria. Não lamentei a solidão e iniciei sem demora a última e curta etapa da minha viagem, fazendo-me ao caminho que conduzia ao estreito de Eubeia e à praia de Áulida. O local de lançamento da expedição fora demoradamente debatido; mil ou mais navios precisavam de algumas léguas de espaço e as águas tinham de ser abrigadas. Portanto, Áulida era uma boa escolha. A praia tinha mais de duas léguas de comprido e a ilha de Eubeia, não muito longe do litoral, protegia-a dos ventos e das correntes mais impetuosos. Eu era o último a chegar . Postei-me no alto da colina sobranceira à praia e apreciei o espetáculo. Até mesmo os meus cavalos pareciam se dar conta que havia qualquer coisa ameaçadora no ar, pois pararam, esquivaram-se e desataram a empinar, que é o que os cavalos fazem quando lhes ordenamos que se aproximem de carne putrefata. O meu condutor teve de se esforçar para os controlar . Por fim, porém, conseguiu convencê-los de que não havia perigo nenhum. Diante dos meus olhos, espraiava-se um mar de navios! Aos meus pés, ao longo de toda a praia, estendiam-se duas filas de navios, navios de proas altas, pintados de vermelho e negro, cada um deles construído para levar pelo menos cem homens, com espaço suficiente para cinqüenta homens manobrarem os remos enquanto os outros cinqüenta descansavam, cada um deles com um mastro alto para receber convenientemente a vela. Fiquei pensando em quantas árvores não teriam sido derrubadas para construir aqueles mais de mil navios, na multidão de gotas de suor que não teriam molhado os seus costados até que o último prego tivesse sido pregado, até que cada um daqueles barcos estivesse em condições de enfrentar o mar . Navios, navios, navios. Do alto da colina pareciam pequenos, mas a verdade é que conduziriam a Tróia oitenta mil soldados e várias dezenas de milhar de não combatentes. Mentalmente, aplaudi Agamêmnon. Ele ousara—e
vencera. Ainda que aquelas duas filas de navios não saíssem da praia de Áulida, o esforço já teria valido a pena porque o feito era esplêndido. Esqueci a beleza da terra; as montanhas ficaram de repente muito pequenas, o mar ficou reduzido a um instrumento passivo, existente apenas para que Agamêmnon, o rei dos reis, o usasse a seu bel-prazer . Ri bem alto e gritei, “Agamêmnon, venceste!” Avancei pela pequena aldeia piscatória de Áulida a um rápido trote, ignorando a multidão de soldados que enchia a sua única rua. Quando a aldeia ficou para trás, parei, sem saber o que fazer . No meio de tantos navios, onde ficava o quartel-general? Chamei um oficial. — Qual é o caminho para a tenda de Agamêmnon, o rei dos reis?— perguntei. Examinou-me vagarosamente, palitando os dentes enquanto apreciava a minha armadura, o meu elmo repleto de presas de javali, o portentoso escudo que pertencera ao meu pai. — Quem pergunta?—quis saber o impertinente. — Um lobo que já devorou ratazanas muito maiores do que tu. Surpreso com a resposta, engoliu em seco e respondeu-me educadamente. — Segue por esta estrada e, daqui a pouco, volte a perguntar . — Ulisses de Ítaca te agradece. O quartel-general de Agamêmnon era temporário, constituído por boas tendas de cabedal, razoavelmente grandes e confortáveis. Não construíra nada de sólido ou duradouro, excetuando um altar de mármore sob um solitário plátano, uma pobre e desolada árvore que lutava contra o sal e contra o vento na esperança de que, agora que a Primavera chegara, o verde voltasse a ser a sua cor . Depois de ter deixado o meu condutor e os meus cavalos entregues aos cuidados dos guardas imperiais, fui escoltado até à maior das tendas. Estavam lá todos os homens realmente importantes: Idomeneu, Diomedes, Nestor, Ájax e o seu homônimo, a quem chamávamos o Pequeno Ájax, Teucro, Fênix, Aquiles, Menesteu, Menelau, Palamedes, Meríona, Filoctetes, Eurípilo, Macáon, Podalírio e Toas. O sacerdote albino, Calcas, estava muito sossegado a um canto, os olhos vermelhos saltitando de homem em homem, calculando, avaliando; os seus olhos vesgos não me enganavam. Por um momento, observei-o sem que ele percebesse, tentando perscrutar o que lhe iria na alma. Não gostava dele, não só por causa da sua aparência repulsiva, mas também porque havia algo de menos tangível na
sua máscara que me inspirava uma intensa sensação de desconfiança. Sabia que Agamêmnon sentira o mesmo de início. Porém, depois de muitas luas a espiar o homem, chegara à conclusão de que Calcas era leal. Eu não estava assim tão seguro... Aquele homem era muito esperto. Além de que era troiano. Aquiles saudou-me jubilosamente. — Ulisses, porque demorou tanto? Os teus navios chegaram há meia lua! — Vim por terra. Tive de tratar de algumas coisas. — Chegou mesmo a tempo, meu velho amigo—disse Agamêmnon.— Vamos dar início ao nosso primeiro conselho formal. — Então sou mesmo o último? — O último dos que realmente contam, Ulisses. Sentamo-nos. Calcas saiu do seu cantinho para empunhar, com uma garra frouxa, o Bastão do Debate. Apesar do tempo primaveril e ensolarado, fora preciso acender lamparinas, pois era escassa a luz que entrava pela fresta da porta da tenda. Como era regra num conselho de guerra formal, todos envergávamos armaduras. Agamêmnon tinha uma belíssima armadura de ouro, incrustada com ametistas e lápis-lazúli; fiz votos para que, quando soasse a hora da batalha, tivesse uma armadura mais adequada para o efeito. Recebendo das mãos de Calcas o Bastão do Debate, encarou-nos com uma expressão orgulhosa. — Convoquei este primeiro conselho, obviamente para discutir a viagem e não a campanha. Porém, em vez de ordenar, creio que seria melhor responder às vossas perguntas. Creio que não será necessário um debate formal. Calcas empunhará o Bastão. Contudo, se algum dos presentes desejar fazer um discurso mais demorado, poderá fazê-lo à vontade.—Com um ar satisfeito, passou o Bastão a Calcas. — Quando planeja partir?—perguntou Nestor placidamente. — Na próxima lua nova. Deleguei as principais tarefas de organização em Fênix, que é, entre todos nós, o marinheiro mais experiente. Fênix nomeou já uma equipa especial de oficiais que está estudando a ordem de partida dos navios, quais os contingentes mais rápidos e quais os mais lentos, quais os navios que deverão levar tropas indispensáveis e quais os que deverão transportar cavalos e não combatentes. Sossegue, Nestor: não será o caos quando desembarcarmos. — Quem é o piloto-chefe?—perguntou Aquiles. — Télefo. Viajará comigo na nau capitânia. Cada piloto tem ordens para manter o seu navio à vista de pelo menos uma dúzia de outros. Desse modo,
a frota permanecerá intacta—se as condições de tempo forem favoráveis, é claro. As tempestades dificultarão o nosso avanço, mas esta época do ano é propícia às viagens e Télefo está treinando todos os pilotos com extremo cuidado. — Quantos são os navios de abastecimento?—perguntei eu. Agamêmnon pareceu ficar um pouco melindrado com a pergunta. Não estava à espera de que lhe fizessem perguntas tão práticas. — Cinqüenta navios, Ulisses. A nossa campanha será curta e incisiva. — Só cinqüenta? Para mais de cem mil homens? Vão acabar com a comida em menos de uma lua. — Em menos de uma lua—retorquiu o rei supremo de Micenas— teremos toda a comida de Tróia à nossa disposição.—A sua expressão dizia mais do que as meras palavras: Agamêmnon tomara uma decisão e dela não se desviaria. Ah, mas porquê precisamente naquele ponto—o ponto mais problemático, mais imprevisível? Mas Agamêmnon, por vezes, era assim mesmo—e nada do que eu, ou Nestor, ou Palamedes, lhe disséssemos, poderia ter alguma influência sobre ele. Aquiles levantou-se e pegou o Bastão. — Este problema preocupa-me, rei Agamêmnon. Estou convencido de que deveria prestar tanta atenção aos abastecimentos como às embarcações, à viagem ou mesmo às táticas de batalha. Mais de cem mil homens comerão mais de cem mil canecas de cereais por dia, mais de cem mil nacos de carne, mais de cem mil ovos ou queijos por dia—e beberão mais de cem mil copos de vinho misturado com água por dia. Se os abastecimentos não forem cuidadosamente organizados, o exército passará fome. Cinqüenta navios, como disse Ulisses, não chegarão para mais de uma lua. E se mantivéssemos esses cinqüenta navios em constante trânsito entre a Grécia e a Tróada, trazendo mais mantimentos? Que acontecerá se a campanha for mais longa do que espera? Se Nestor, Palamedes e eu não conseguíamos demovê-lo, que hipóteses teria um rapaz como Aquiles? Agamêmnon tinha os lábios franzidos e cerrados e, em cada face, uma mancha vermelha. — Louvo muito a tua preocupação, Aquiles—disse ele num tom afável. Contudo, sugiro que não se preocupe tanto: eu me encarregarei de tudo. Nada convencido, Aquiles entregou o Bastão a Calcas e sentou-se. Ao sentar-se, porém, comentou, aparentemente para ninguém em particular: — Bom, o meu pai sempre disse que só um chefe tolo deixa aos outros os
cuidados a ter com os seus soldados. Creio, por isso, que levarei mantimentos adicionais para os meus Mirmidões nos meus próprios navios. E vou alugar mais alguns navios mercantes para levar mais. Uma mensagem que teve um efeito imediato: alguns dos outros decidiram, nesse mesmo instante, seguir o exemplo de Aquiles. E Agamêmnon percebeu claramente isso. Vi os seus cismáticos olhos escuros demorando-se no rosto ávido e fresco do jovem Aquiles e suspirei. Agamêmnon estava com ciúmes. Que se passara em Áulida na minha ausência? Estaria Aquiles conquistando partidários e Agamêmnon perdendo-os? Na manhã seguinte nos reunimos para passar revista às tropas. Para irmos de uma ponta à outra da praia, demoramos a maior parte do dia; tremiam-me os joelhos depois de ter passado tanto tempo de pé sobre os estribos de vime do meu carro (e, ainda por cima, levava a armadura vestida). Duas filas de navios erguiam-se acima de nós; navios imponentes, com os costados vermelhos listrados com costuras negras de breu, as proas bicudas pintadas de azul e rosa, os grandes olhos das proas fitando-nos inexpressivamente. Os soldados beneficiavam das sombras projetadas pelos navios. Cada homem envergava uma armadura completa e empunhava um escudo e uma lança prontos para serem usados; filas intermináveis de homens, todos eles leais a uma causa de que nada sabiam, exceto que, num futuro próximo, haveria despojos a dividir por todos. Ninguém saudava os seus soberanos, ninguém corria para melhor ver os seus reis. No extremo da longa linha de homens e navios, encontravam-se as embarcações de Aquiles e os homens de que tanto ouvíramos falar mas que nunca havíamos visto: os Mirmidões. Tinha experiência suficiente para não esperar que eles fossem diferentes—contudo, os Mirmidões eram mesmo diferentes. Altos, brancos e louros, os olhos uniformemente azuis ou verdes ou cinzentos sob belos elmos de bronze, armaduras completas de bronze em vez da habitual armadura de cabedal do comum dos soldados. Cada homem empunhava um feixe de dez lanças em vez das usuais duas ou três; empunhavam ainda pesados escudos, da altura de um homem, não muito inferiores ao meu veterano escudo, e as suas armas eram espadas e punhais, em vez de flechas ou fundas. Sim, não havia dúvida: aquelas eram tropas da primeira linha, as melhores de que dispúnhamos.
Quanto a Aquiles, Peleu devia ter gasto uma fortuna para equipar o seu único filho para a guerra. O carro de Aquiles era decorado a ouro, os cavalos eram indiscutivelmente os melhores do cortejo—três garanhões brancos da Tessália, os arreios cintilando de ouro e jóias. Não sei de onde viera a armadura que Aquiles envergava, mas sei que conhecia apenas uma armadura melhor do que a dele: a que estava guardada no meu cofre-forte. Tal como a armadura de Agamêmnon, também a de Aquiles era revestida de ouro, ainda que sobre um fundo de bronze e estanho: enfim, era tão pesada aquela armadura que, muito provavelmente, só Aquiles e Ájax teriam físico para suportá-la. Toda a armadura fora decorada com símbolos e padrões sagrados e embelezada com âmbar e cristal. Empunhava apenas uma lança: no meio de tanto brilho, a lança marcava um contraste incrível, pois, sobre ser um feio objeto, não possuía brilho nenhum. O condutor do carro era o primo Pátrocles. Ah, que espertos que eles eram! Quando o cortejo dos reis era obrigado a parar, os cavalos de Aquiles começavam a falar! “ As nossas saudações, Mirmidões!”, exclamava o cavalo mais próximo dos soldados, agitando a cabeça até que a sua longa crina branca flutuava como uma bandeira. “Nós os serviremos corajosamente, Mirmidões!”, diziam os lábios do cavalo do meio, o mais calmo. “Não temam por Aquiles enquanto formos nós a puxar o seu carro!”, dizia o mais distante, numa voz mais relinchada que as dos outros. Os Mirmidões olhavam para os cavalos com sorrisos imensos e batiam no chão com os seus feixes de lanças para saudarem os régios cavalos. Em contrapartida, Idomeneu, que seguia no carro à frente de Aquiles, por mais de uma vez se virou para trás boquiaberto, como se estivesse vendo uma assombração. Mas eu percebera o truque, pois vinha mesmo atrás do carro dourado de Aquiles. Era Pátrocles quem falava, reduzindo ao mínimo os movimentos dos seus lábios! Esperto, o amigo de Aquiles! O tempo continuava ensolarado e a brisa suavíssima; tudo apontava para uma partida normal e uma travessia calma. Porém, na noite anterior à largada, não consegui dormir e tive de me levantar para dar um longo e inquieto passeio pela praia, tendo por única companhia as estrelas que no céu brilhavam. Estava contemplando o perfil de um navio próximo quando surgiu alguém por entre as dunas.
— Também não consegue dormir? Não precisei fazer um grande esforço para saber de quem se tratava. Só Diomedes procuraria Ulisses de preferência a qualquer outro. Um bom amigo, o meu camarada de tantas guerras. E tão cheio de cicatrizes dessas guerras ... ! Entre todos os que iam para Tróia, Diomedes era, sem dúvida, o homem mais castigado por armas inimigas. Combatera em todas as campanhas, pequenas ou grandes, desde Creta até à Trácia, e pertencera ao segundo grupo dos Sete contra Tebas, os Sete que haviam conquistado e arrasado a cidade, desse modo realizando aquilo que os seus pais não tinham conseguido fazer . Diomedes era uma criatura apaixonada e implacável, logo, bastante diferente de mim; eu era implacável, sem dúvida, mas não me deixava levar por paixões; o meu espírito era perpetuamente temperado pelo gelo que havia na minha mente. Devo confessar que o invejava, pois Diomedes havia jurado construir um templo com as caveiras dos seus inimigos e cumprira a sua promessa. O pai dele fora Tideu, um rei de Argos particularmente famoso, mas o filho era muito melhor do que o pai. Em Tróia, Diomedes não falharia. Seguira de Argos para Micenas com toda a fogosa ânsia que o seu coração poderia albergar, já que amava loucamente Helena, e, tal como o pobre Menelau, também ele se recusara a acreditar que Helena fugira de livre vontade. Nutria por mim uma elevada estima, um sentimento que, por vezes, me parecia próxima da adoração que se tem pelos heróis. Eu... um herói? Que coisa mais estranha! — Amanhã vai chover—disse ele, erguendo o seu longo pescoço e contemplando as profundezas do céu. — Vai chover? Mas não há nuvens...—objetei. Diomedes encolheu os ombros. — Doem-me os ossos, Ulisses. O meu pai dizia que um homem marcado pela guerra—ossos partidos, a carne dilacerada por lanças ou flechas, enfim, tudo isso—podia prever a chuva e o frio. Esta noite, as dores eram tais que nem consegui dormir . Ouvira falar de um tal fenômeno e devo dizer que fiquei seriamente apreensivo. — Para bem de todos nós, espero que, pelo menos desta vez, os teus ossos se enganem. Mas diga-me, Diomedes, por que razão me procurou? Fitou-me com um sorriso arreganhado. — Eu sabia que a Raposa de Ítaca não dormiria enquanto não sentisse as
ondas sob o seu navio. Queria falar contigo. Pondo o meu braço sobre os seus largos ombros, conduzi-o na direção da minha tenda. — Falemos, então. Tenho vinho e um bom lume no trípode. Nos instalamos em divãs, com o lume entre nós e copos cheios à nossa disposição. A tenda estava quente e mergulhada numa semi-obscuridade e os divãs bem guarnecidos de almofadas; o vinho sem água era também uma boa maneira de atrair o sono. Era altamente improvável que alguém viesse nos incomodar; de qualquer modo, para evitar um eventual importuno, baixei a cortina da porta da tenda. — Ulisses, tu és o homem mais notável e capaz desta expedição a Tróia— disse ele com o ar mais sério deste mundo. Não consegui evitar o riso. — Não, nem pensar! Esse homem é Agamêmnon! Ou então Aquiles. — Agamêmnon? Aquele autocrata presumido e teimoso que nem um burro? Não, de modo nenhum! Ele pode ficar com os louros, mas apenas porque é o rei supremo, e não por ser o maior dos vultos aqui presentes. Quanto a Aquiles, bom, Aquiles não passa de um rapaz. Claro, claro que o rapaz tem tudo para vir a ser um dos grandes! Possui uma inteligência superior . Sim, de fato pode vir a revelar-se um homem formidável. Mas, por enquanto, falta-lhe a experiência. Sabe-se lá... até pode ser que meta o rabo entre as pernas e desate a fugir mal veja sangue derramado. Sorri. — Não, Aquiles não é desses. — Muito bem, admito que não seja. Mas Aquiles nunca poderá ser o vulto mais notável do nosso exército, porque esse vulto és tu, Ulisses. A conquista de Tróia só poderá ser obra tua. — Que disparate, Diomedes!—disse eu, afavelmente.—Que pode a inteligência de um homem fazer em dez dias? — Dez dias?—disse ele, com um ar trocista.—Pela Mãe, é muito mais provável que sejam dez anos! Isto é uma guerra a sério, não uma caçada.—Pôs o copo vazio no chão.— Mas eu não te procurei para falar de guerras. De fato, queria pedir a tua ajuda. — A minha ajuda? Mas tu é que és o guerreiro experimentado, não eu,
Diomedes! — Não, isto não tem nada a ver com campos de batalha! Quanto a batalhas, até posso travá-las de olhos vendados ... ! Não, eu preciso da tua ajuda em outros domínios, Ulisses. Quero ver como trabalha. Quero ver como é que consegue controlar-se.—Inclinou-se um pouco para frente e prosseguiu:—Sabe, eu preciso de alguém que vigie o meu terrível mau gênio, alguém que me ensine a dominar o meu demônio interior, em vez de deixá-lo em total liberdade, como tem sido costume— uma liberdade cujo preço é demasiado elevado para mim. Pensei que talvez pudesse ficar com alguma da tua frieza, se te visse agir, se te visse organizar, comandar, combater . A simplicidade dele comoveu-me. — Nesse caso, Diomedes, a solução é simples: junte-se a mim. Diz aos seus pilotos que mantenham os seus navios perto dos meus, participa comigo em todas as missões, coloca as suas tropas ao lado das minhas quando chegar a hora da batalha. Qualquer homem precisa de um bom amigo que o anime—é o único remédio para a nossa solidão, para a saudade que temos do lar e da pátria. Diomedes estendeu a mão por sobre as vivas chamas, aparentemente sem perceber de que o fogo quase lambia o seu pulso. Os meus dedos envolveram o seu antebraço; assim selávamos o nosso pacto de amizade, assim partilhávamos a nossa solidão, tornando-a menos opressiva. Devemos ter adormecido já a noite ia alta, pois acordei à primeira luz da manhã com o bramido de um vento ameaçador, um vento que cantava nas enxárcias daquela multidão de navios, que chiava sonoro e impiedoso em torno das proas. Do outro lado da fogueira, agora reduzida a cinzas, Diomedes começou a mexer-se, maculando a ágil beleza do seu despertar com um ronco de dor . — Os meus ossos ainda me doem mais do que ontem à noite—disse ele, sentando-se. — E com razão! Temos vendaval! Diomedes levantou-se lentamente, foi até à cortina, espreitou lá para fora e voltou para o seu divã. — É o vento norte, o pai de todas as tempestades. Garanto-lhe que até neve vamos ter . Não, Ulisses, não partiremos hoje. As nossas embarcações iriam parar todas ao Egito. Um escravo surgiu com um trípode com um lume novo, fez as camas e trouxe-nos água quente para nos lavarmos. Não havia razão para pressa;
Agamêmnon ficaria tão desconsolado que não convocaria conselho nenhum antes do meio-dia. A minha cozinheira trouxe-nos bolos de mel ainda quentes e pão de cevada, e queijo de ovelha e vinho quente e adoçado para terminar o repasto. Era uma boa refeição, e ainda melhor porque era partilhada; e assim estivemos um pouco de tempo, aquecendo as mãos no lume, até que Diomedes regressou à sua tenda para vestir a indumentária que o conselho exigia. Quanto a mim, vesti um saiote de cabedal e uma blusa, apertei as correias das botas altas e pus por cima dos ombros um manto forrado de pele. O rosto de Agamêmnon estava tão sombrio e tempestuoso como o dia; a fúria e a humilhação travavam uma guerra sem tréguas nos seus rígidos traços, agora que os seus planos haviam ruído. Havia nele o secreto medo de parecer ridículo aos olhos dos outros chefes, agora que a sua grandiosa aventura se desmoronara antes mesmo de ter começado. — Convoquei Calcas para que realize um augúrio!—exclamou ele repentinamente. Suspirando resignados, e apertando bem os mantos, fizemo-nos ao vendaval. A vítima encontrava-se no altar de mármore sob o plátano, as pernas presas por correias. E Calcas envergava uma túnica púrpura! Púrpura? Mas que raio acontecera em Áulida antes da minha chegada? Agamêmnon devia tê-lo em altíssima consideração para o deixar vestir uma túnica púrpura! Uma coincidência demasiado estranha, pensei eu enquanto aguardava que a cerimônia começasse; duas luas de tempo perfeito e, precisamente no dia previsto para a nossa partida, todos os elementos conspiravam para a atrasar . A maior parte dos reis decidira voltar para as suas tendas, bastante mais quentes e agradáveis do que o vento e a saraiva que teriam de suportar se assistissem à cerimônia. Só os mais velhos ou aqueles que dispunham de mais poder ficaram para apoiar Agamêmnon e testemunhar a mensagem do augúrio: eu próprio, Nestor, Diomedes, Menelau, Palamedes, Filoctetes e Idomeneu. Era a primeira vez que via Calcas realizar um augúrio e tive de admitir que era um especialista. Com umas mãos que, de tão tremula, quase não conseguiam erguer a faca adornada com jóias, o rosto da cor da cera, cortou com um movimento brusco a garganta da vítima, quase virando o grande cálice de ouro enquanto o segurava para apanhar o sangue; quando derramou o sangue
sobre o frio mármore, este pareceu fumegar . Depois, abriu a barriga do animal e começou a interpretar a disposição das entranhas de acordo com a prática dos sacerdotes treinados na Ásia Menor . Os seus movimentos eram rápidos e disrítmicos e a sua respiração tão estertorosa que conseguia ouvi-la sempre que o vento abrandava por um momento. Inopinadamente, rodopiou e ficou de frente para nós. — Escutem a palavra do deus, ó reis da Grécia! Eu vi a vontade de Zeus, o Senhor de Tudo! Ele virou-lhes as costas, ele recusa-se a abençoar esta aventura! A sua cólera obscurece os motivos que o levaram a tomar esta atitude, mas uma coisa eu sei: é Ártemis quem está sentada ao seu colo e que lhe pede que se mostre intransigente! Não consigo ver mais, pois a sua fúria cega-me! Era mais ou menos aquilo que estava à espera, pensei, ainda que a referência a Ártemis constituísse um toque inegavelmente hábil. Contudo, justiça seja feita, Calcas parecia mesmo um homem perseguido pelas Filhas de Kore, um homem que fora despojado de tudo, exceto da sua vida, numa fração mínima de tempo. Havia nos seus olhos uma angústia sincera. Não parava de me surpreender, aquele homem; de fato, era óbvio que ele acreditava em tudo o que dissera, ainda que tivesse preparado antecipadamente toda a sua atuação. Todos os homens que possuem o poder de influenciar os outros me interessam; porém, nunca nenhum sacerdote me interessou tanto como Calcas. Mas a sua atuação ainda não terminou, pensei eu; faltam ainda alguns detalhes. Aos pés do altar, Calcas rodopiou e abriu muito os braços, as mangas enormes adejando, empapadas de sangue, ao sabor do vento, a cabeça inclinada para trás, a linha dessa inclinação revelando que o sacerdote estava olhando para o plátano. Atentei no que os seus olhos viam: os ramos ainda nus, os botões carcomidos ainda por abrir . Um ninho ocultava-se entre dois ramos, um ninho onde um pássaro chocava os seus ovos. Um vulgar pássaro castanho, igual a tantos outros. A cobra do altar coleava já ao longo do ramo, a gula estampada nos frios olhos negros. Calcas juntou os seus braços, ainda erguidos, até que ambas as mãos apontaram para o ninho; com a respiração suspensa, seguimos os movimentos da cobra. Acerta altura, a terrífica boca do réptil abriu-se para, num ápice, engolir o pássaro inteiro; enquanto o devorava, as suas cintilantes escamas castanhas, ao revolverem-se, faziam lembrar uma série de tatuagens vivas. Depois, devorou os ovos um a um: seis, sete, oito, nove,
contei eu. A mãe e os nove ovos, tal fora o repasto. Como é costume entre os animais da sua espécie, a cobra, depois de saciada a gula, ficou parada onde estava, parada e enroscada no fino ramo como se fosse uma estátua arrancada à pedra. Os seus olhos fixavam impassíveis o sacerdote: a frígida penetração do seu olhar não era perturbada pelos movimentos que, nos olhos dos humanos, são normais. Calcas virou-se para nós como se um qualquer deus tivesse espetado uma estaca no seu estômago. Gemia um gemido brando. Então, falou de novo. — Escutem-me, ó reis da Grécia! Acabam de testemunhar a mensagem de Apolo! Ele fala quando o Senhor de Tudo se recusa a falar! A cobra sagrada engoliu a ave e os seus nove ovos. A ave é a estação que ora se avizinha. Os seus nove filhos que morreram nos ovos são as nove estações que a Mãe não deu ainda à luz. A cobra é a Grécia! A ave e os seus ovos são os anos que a Grécia demorará para conquistar Tróia! Dez anos serão precisos para conquistar Tróia! Dez anos! O silêncio que se seguiu era tão profundo que parecia ter vencido o ruído constante da tempestade. Por um longo tempo, ninguém se mexeu ou falou. Nem eu sabia o que pensar de tão espantosa atuação! Seria este sacerdote estrangeiro um verdadeiro vidente? Ou estaríamos perante uma mistificação muito bem elaborada? Olhei para Agamêmnon, perguntando-me quem levaria a melhor: se a sucerteza de que a guerra não duraria mais do que uns breves dias, se a sua fé no sacerdote. Era uma luta violenta, pois Agamêmnon era, do ponto de vista religioso, um homem supersticioso. Mas, no fim, foi o seu orgulho que venceu. Encolhendo os ombros, deu meia volta e foi embora. Fui eu o último a partir . Enquanto ali estive, não tirei os olhos de Calcas. Estava de pé e tão imóvel como uma pedra, os olhos fixos nas costas do rei supremo. Havia nos seus olhos um rancor evidente, o que não admira: a sua primeira exibição de poder fora pura e simplesmente ignorada. Os dias foram seguindo o seu implacável caminho e a Primavera ia já avançada e os ventos fortes e os dilúvios de chuva continuavam. Fustigado pelo vento, o mar levantava-se em ondas tão altas como o convés do mais imponente dos navios; impossível partir em tais condições. Todos aguardávamos, cada um segundo o seu jeito peculiar . Aquiles treinava impiedosamente os Mirmidões, Diomedes enfiava-se na minha tenda e
punha-se a andar de um lado para o outro com uma impaciência cada vez maior, Idomeneu divertia-se nos braços das cortesãs que trouxera de Creta, Fênix cacarejava como uma galinha demente para os pilotos parados em terra, Agamêmnon mordiscava a barba e recusava-se a dar ouvidos a conselhos, enquanto os soldados mandriavam e jogavam aos dados, discutiam e bebiam. Por outro lado, dar de comer a tanta gente estava se tornando uma missão quase impossível, pois as equipes disso encarregadas tinham de vencer léguas e léguas de lama para levar comida suficiente a todas as vorazes bocas. Quanto a mim, tanto me fazia. O meu exílio duraria vinte anos: que me importava o modo como ele começava? Poucos eram aqueles que se reuniam todos os dias, ao meio-dia, para assistirem à interpretação dos augúrios. Nenhum de nós esperava ouvir da boca de Calcas uma razão clara para a hostilidade do grande deus. A lua nova deu lugar à lua cheia que logo se esvaziou e a tempestade sempre sem amainar; começávamos a pôr, muito seriamente, a hipótese de os navios não partirem. Em passando mais uma lua, os ventos se tornariam mais imprevisíveis e, em chegando o fim do Verão, teríamos de nos despedir de Tróia até ao ano seguinte. Mais por causa do fascínio que Calcas me inspirava, do que por nutrir alguma esperança de que o grande deus erguesse o seu véu e nos deixasse entrever os seus motivos, nunca perdia o ritual do meio-dia. Aliás, também não havia nada que sugerisse que aquele dia particular seria diferente de todos os outros. Limitei-me a estar presente, na minha qualidade de observador de Calcas. Apenas Agamêmnon, Nestor, Menelau, Diomedes e Idomeneu me fizeram companhia. Reparara, de passagem, que a cobra do altar emergira da sua gulosa hibernação e voltara ao seu nicho. Mas aquele dia, afinal, foi diferente. Quando estava sondando as entranhas da vítima, Calcas virou-se de repente e apontou a Agamêmnon um longo e ossudo dedo escorrendo sangue. — Aí está aquele que impede a partida!—gritou ele.—Agamêmnon, rei dos reis, tu não deste à arqueira aquilo que lhe era devido! A fúria dela, durante tanto tempo adormecida, acabou por despertar, e Zeus, o seu divino pai, atendeu às suas súplicas de justiça. Rei Agamêmnon: enquanto não deres a Ártemis aquilo que lhe prometeste há dezesseis anos, a tua frota não partirá! Ninguém fazia a mínima idéia do que se tratava. Agamêmnon vacilava sob a violência do choque e o seu rosto, de súbito, parecia o de um cadáver .
Calcas sabia do que estava falando. O sacerdote desceu os degraus, o corpo hirto de ultraje. — De a Ártemis aquilo que lhe negaste há dezesseis anos e então poderás fazer-te ao mar! De outro modo, será impossível! Zeus onipotente falou! Cobrindo o rosto com as mãos, Agamêmnon recuou perante aquela visão fatídica, de púrpura vestida. — Não posso! Não posso!—gritou. — Então, desmobiliza os teus soldados—disse Calcas. — Eu não posso dar à deusa aquilo que ela quer! Ela não tem o direito de mo pedir! Se eu sonhasse que o desfecho seria este—ah, eu nunca teria feito tal promessa! Ela é Ártemis, casta e santa! Como é possível que me exija tal coisa? — Ela exige apenas o que lhe é devido. De-lhe o que ela pede e poderá partir—repetiu Calcas, a voz tão fria como o vento. Se te recusar a cumprir o voto que fizeste há dezesseis anos, a Casa de Atreu mergulhará na escuridão e tu morrerás na mais terrível ruína. Avancei para Agamêmnon e, com toda a minha força, arranquei-lhe as mãos que cravara no rosto. — Que prometeste a Ártemis, Agamêmnon? Com os olhos cheios de lágrimas, o rei supremo agarrou-se aos meus pulsos como um homem prestes a afogar-se se agarra a um cabo do navio. — Um voto estúpido, Ulisses, um voto impensado! Estúpido! Há dezesseis anos, Clitemenestra estava prestes a dar à luz a nossa última filha... Contudo, o trabalho de parto arrastou-se durante três dias sem qualquer resultado... Ela não conseguia dar à luz a criança! Então, pedi a todos os deuses—à Mãe, a Hera, a Misericordiosa, e a Hera, a Estranguladora, aos deuses e deusas do lar, do parto, das crianças, das mulheres. Nenhum me respondeu—nenhum!. As lágrimas continuavam a cair, mas Agamêmnon prosseguiu. — Desesperado, orei a Ártemis, apesar de ela ser virgem e não gostar de mulheres fecundas. Pedilhe que ajudasse a minha mulher a dar à luz uma bela e saudável criança. Em troca, prometi-lhe a mais bela criatura que nascesse nesse ano no meu reino. Pouco depois, Clitemenestra dava à luz Ifigênia. E, no fim desse ano, mandei mensageiros a toda a Micenas, a fim de que me trouxessem as criaturas nascidas nesse ano que considerassem mais belas. Cabritos, vitelos, cordeiros, até mesmo pássaros. Ofereci a Ártemis todos esses belos animais, ainda que, no fundo, soubesse que a deusa não
ficaria satisfeita. E, de fato, Ártemis rejeitou todos os sacrifícios. Seria possível que, no mundo, não houvesse nunca mudança? Sabia já o desfecho daquela horrenda história—era como se ele estivesse pintado numa parede diante dos meus olhos. Porque eram os deuses tão cruéis? Porquê? — Termine, por favor, Agamêmnon—disse-lhe. — Certo dia, estava com a minha mulher e a bebê quando Clitemenestra comentou que Ifigênia era a mais bela criatura de toda a Grécia—mais bela, disse, do que a própria Helena. Antes que ela concluísse a frase, já eu sabia que Ártemis lhe pusera as palavras na boca. A arqueira queria a minha filha. Só com a minha filha ficaria satisfeita. Mas eu não podia fazer isso, Ulisses. Nós abandonamos crianças recém-nascidas, mas os sacrifícios humanos não são praticados na Grécia desde que a Nova Religião baniu a Velha. Pedi por isso à deusa que compreendesse por que razão eu não podia fazer o que ela queria. O tempo foi passando e, como ela nada fazia, pensei que tinha compreendido. Agora, vejo que ela estava apenas à espera de uma oportunidade. Ela quer aquilo que eu não posso dar, a vida que ela permitiu que nascesse, e insiste em que eu lhe dê essa vida ainda virgem. A vida da minha filha é um círculo perfeito. Mas eu não posso permitir um sacrifício humano! Dei ao meu coração a dureza fria do metal: se eu perdera o meu filho (estar longe dele vinte anos não era o mesmo que perdê-lo?), por que haveria ele de poupar a sua filha? Agamêmnon tinha mais duas filhas. A sua ambição obrigara-me a separarme de tudo o que me era querido—por que não haveria ele de sofrer também? Se homens de estatuto inferior eram forçados a obedecer aos deuses, por que não haveria o rei supremo—o representante de todos diante dos deuses—de lhes obedecer também? Agamêmnon fizera uma promessa e adiara o seu cumprimento durante dezesseis anos apenas porque essa promessa o afetava pessoalmente. Se a mais bela criatura nascida nesse ano tivesse sido o filho de outro homem, Agamêmnon teria realizado o sacrifício e não ficaria com nenhum peso na consciência. Por tudo isto, olhei-o bem nos olhos, o coração consumido pela dor do exílio, e sucumbi ao apelo de um demônio que vivia dentro de mim desde o dia em que o oráculo pronunciara o meu destino. — Cometeste uma transgressão terrível, Agamêmnon—disse eu.—Se Ifigênia é o preço que Ártemis exige, então terá de pagá-lo! Oferece à deusa a tua filha! Se não o fizer, o teu reino ruirá e a expedição a Tróia fará de ti o
homem mais ridículo de todos os tempos! Ah, o que ele odiava o ridículo! Para Agamêmnon, nem mesmo o mais querido membro da sua família poderia significar tanto como o seu reino, como o seu orgulho. Vi o conflito desenhando-se claro no seu rosto, vi o desespero e o sofrimento, vi a visão da sua miserável queda na ignomínia e no ridículo. Então, o pobre rei supremo virou-se para Nestor, procurando apoio. — Nestor, Nestor, que hei de fazer? Dividido entre o horror e a piedade, o velho rompeu a chorar . — É um dilema terrível, Agamêmnon! Mas temos de obedecer aos deuses. Se Zeus onipotente te disse que deves dar à arqueira aquilo que ela pede, então não tens alternativa. Lamento muito, mas tenho de concordar com Ulisses. Chorando desolado, o nosso rei supremo pediu o apoio de cada um dos outros; um a um, lívidos e graves, todos lhe deram a mesma resposta que eu. Só eu observava atentamente Calcas, perguntando-me se o velho não teria feito um inquérito discreto sobre o passado de Agamêmnon. Quem poderia esquecer o ódio e o desejo de vingança que encontrei no seu rosto no dia em que a tempestade começara? Um homem muito sutil—para além de troiano. Depois de todos os principais chefes terem se recusado a apoiar Agamêmnon, a resolução do caso não excederia o âmbito da logística. Agamêmnon, convencido—graças a mim—de que não tinha outra alternativa senão sacrificar a sua filha, explicou-nos quão difícil seria separar a jovem da mãe. — Clitemenestra não permitirá que tragam Ifigênia para Áulida, sabendo que ela vai ser vítima da faca do sacerdote—disse ele, de súbito velho e alquebrado. — A rainha pedirá o apoio do povo—e o povo a apoiará. — Há soluções para isso. — Que soluções? — Eu falarei com Clitemenestra, Agamêmnon. Direi-lhe que, devido à tempestade, Aquiles ficou tão impaciente que pretende regressar sem demora a lolcos e levar consigo os Mirmidões. Direi-lhe ainda que tiveste a brilhante idéia de lhe oferecer a mão de Ifigênia desde que ele permaneça em Áulida. Clitemenestra não se oporá. Chegou a dizer-me, aliás, que gostaria muito
que Ifigênia se casasse com Aquiles. — Mas isso será uma desonra para Aquiles!—exclamou Agamêmnon, com um ar desconfiado. Aquiles não consentirá. Já o conheço bem e sei que ele é um homem reto —o que não admira, pois é filho de Peleu! Exasperado, ergui os olhos para o céu. — Agamêmnon, Aquiles nunca saberá! Não tenciona contar esta história a todas as pessoas, não é? Cada um de nós jurará de bom grado um voto de absoluto segredo. O sacrifício humano não conquistaria nenhum coração entre os nossos homens —começariam a pensar em quem seria o próximo. Porém, se nenhum rumor transpirar, tudo correrá bem e Ártemis ficará apaziguada. Aquiles nunca saberá! — Muito bem. Falarás então com Clitemenestra—disse ele. Quando abandonamos o sagrado recinto, tratei de isolar Menelau. — Menelau, quer que Helena volte para ti? Uma onda de dor inundoulhe o rosto. — Por todos os deuses, Ulisses, não conhece a resposta? — Então ajude-me—ou a frota nunca partirá! — Farei tudo o que me pedir, Ulisses! — Agamêmnon vai enviar um mensageiro a Clitemenestra. Esse mensageiro chegará antes de mim. O homem lhe dirá que ignore a minha história e que se recuse a entregarme a moça. Tem de interceptar esse mensageiro. A sua boca transformou-se nesse instante numa linha fina e dura. — Juro, Ulisses, que será o único a falar com Clitemenestra. Fiquei satisfeito. Por Helena, Menelau seria capaz de fazer tudo. A minha missão não poderia ter sido mais fácil. Clitemenestra ficou deliciada com o suposto casamento que Agamêmnon arranjara para a sua querida filha. Além disso, agradava-lhe o fato de Ifigênia ir casar-se com um homem que estava prestes a embarcar para uma guerra no estrangeiro. Clitemenestra adorava Ifigênia; o casamento com Aquiles lhe permitiria manter a moça perto de si até que Aquiles regressasse de Tróia. Rejubilou o Palácio do Leão enquanto Clitemenestra tratava das bagagens da filha sem a ajuda de nenhuma criada e a iniciava nos mistérios da vida das mulheres. Acompanhou a liteira de Ifigênia até esta atravessar a Porta do Leão, enquanto a sua filha mais velha, Crisótemis, que ainda estava solteira,
chorava de frustração e inveja. Ao passo que Electra, a mais velha de todas, uma réplica magra, amarga e muito pouco atraente do pai, assistia à partida do alto das muralhas, com o irmão Orestes, ainda bebê, ao colo. Entre ela e a mãe não havia qualquer laço afetivo—isso era bem visível. Quando a liteira parou na Porta do Leão, Clitemenestra afastou as cortinas e beijou a ampla testa branca de Ifigênia. Tremi. A rainha suprema era uma mulher atreita a amores e ódios extremos; que faria ela quando soubesse a verdade (e acabaria por sabê-la)? Se, um dia, Clitemenestra viesse a odiar Agamêmnon, o rei supremo teria boas razões para temer a sua vingança. Ordenei aos homens que conduzissem a liteira tão rapidamente quanto possível, ansioso como estava por chegar a Áulida. Sempre que parávamos para descansar ou acampar, Ifigênia desatava a conversar comigo—que admirava muito Aquiles, dizia ela, que o apreciara demoradamente, sem que ele desse por nada, no Palácio do Leão, que se apaixonara perdidamente por ele, que seria maravilhoso casar-se com ele, porque esse era o desejo do seu coração. Armara-me para não sentir pena dela, mas, por vezes, confesso que não era fácil; os seus olhos eram tão inocentes, tão felizes! Mas Ulisses era um homem mais forte do que todos os outros naquela parte do ser que aos homens dá resistência e que os leva a vencer a adversidade. Depois da noite ter caído, ordenei que levassem a liteira, com as cortinas baixas, para o acampamento imperial. Sem mais demora, conduzi Ifigênia a uma pequena tenda que ficava perto da do seu pai. Deixei-a com ele. Menelau ficou à porta, já que eu temia que a presença de Ifigênia reduzisse a pó a determinação de Agamêmnon. Considerando que seria mais sensato não chamar a atenção dos reis e das suas tropas para a chegada de Ifigênia, decidi não colocar nenhum guarda de sentinela à tenda dela. A minha sentinela seria Menelau.

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