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sexta-feira, 21 de abril de 2017

SD 508 : A CANÇÃO DE TRÓIA

Capítulo Vigésimo Terceiro   Narrado por Heitor .

Não tínhamos notícias de Pentesiléia; a rainha das Amazonas tardava nos seus longínquos e selvagens domínios, enquanto Tróia desesperava. O destino de uma cidade estava dependente dos caprichos de uma mulher! Amaldiçoei-a e amaldiçoei os deuses por permitirem que uma mulher continuasse sentada num trono depois da morte da Velha Religião. O domínio absoluto da Mãe Kubaba acabara. No entanto, Pentesiléia continuava a reinar sem que ninguém a contestasse. Demétrios, o escravo grego que fugira do acampamento inimigo, informou-me de que a rainha nem sequer convocara ainda as mulheres das suas inúmeras tribos; não viria antes que o Inverno enchesse de neve os caminhos das montanhas. Todos os augúrios diziam que a guerra acabaria naquele Décimo ano; apesar disso, o meu pai continuava a recear abandonar as muralhas, humilhando-se e humilhando Tróia, pois não era uma humilhação terrível deixar que a nossa sorte dependesse daquela mulher? Rangiam os meus dentes perante a injustiça das suas decisões, criticava-o abertamente nas assembléias. Mas o meu pai tomara uma decisão e não se desviava do caminho escolhido. Vezes sem conta garanti-lhe que Aquiles não representava para mim nenhum perigo, que as nossas melhores tropas conseguiriam repelir os Mirmidões, que nós chegaríamos à vitória sem Menão ou Pentesiléia. Mesmo depois de lhe ter transmitido as informações de Demétrios sobre a demora de Pentesiléia, o meu pai permaneceu intransigente, comentando que se a rainha das Amazonas só vinha depois do Inverno, então esperaria de bom grado pelo início do Décimo primeiro ano. Agora que todo o exército grego se encontrava de novo na praia, tínhamos voltado às nossas ameias, daí apreciando as diversas bandeiras que flutuavam no alto das casas gregas. Junto ao Escamandro, num local onde uma muralha interna separava alguns dos alojamentos, flutuava uma bandeira que não havia visto antes, uma bandeira com uma formiga branca sobre um fundo negro. A formiga segurava na boca um raio vermelho. Aquela era a bandeira dos Mirmidões, a bandeira de Aquiles de Éaco. O rosto de Medusa não poderia ter instilado um medo tão profundo nos corações
troianos. Obrigado a ouvir discussões sem a mínima importância quando todo o meu ser ansiava pela guerra, assistia a todas as assembléias. Alguém tinha de estar lá para protestar que o exército estava cansado de esperar e de treinar, alguém tinha de estar lá para ver o rei fazer ouvidos de mercador a todos os meus protestos, para ver Antenor, o inimigo de toda e qualquer ação positiva, sorrindo displicentemente. Não me apercebi de nada de especial naquele dia que iria mudar as nossas vidas. Contrariado como sempre, desloquei-me à assembléia. A corte tagarelava na maior confusão, ignorando o estrado do trono, aos pés do qual um queixoso estava apresentando o seu caso—um problema de uma importância extraordinária, relacionado com os esgotos que levavam as águas da chuva e os excrementos de Tróia para o poluído Escamandro. Tinham recusado o acesso aos esgotos ao novo bloco de apartamentos do queixoso, e ele, proprietário e senhorio, muito naturalmente, estava furibundo. - Tenho coisas mais importantes a fazer do que vir aqui contestar o direito de um bando de burocratas impenitentes a frustrar as aspirações dos cidadãos honestos que pagam os seus impostos! - gritou ele para Antenor, o qual, na sua qualidade de chanceler, defendia os responsáveis pelos esgotos da cidade. - Você não apresentou o pedido a quem devia!—atirou-lhe Antenor . - Mas quem somos nós? Egípcios?—perguntou o senhorio, erguendo os braços. Eu falei com o homem do costume, que me disse que sim! Só que, antes de eu ter feito a ligação, apareceu-me um esquadrão de guardas que me impediu de fazer o que quer que fosse! Teria muito menos problemas se vivesse em Nínive ou Karkemish! Ou em qualquer outro lugar do mundo que os burocratas não tivessem conseguido paralisar com os seus estúpidos regulamentos! Porque a verdade é esta: Tróia está quase tão paralisada como o inerte Egito! Vou emigrar! Vou emigrar! Antenor já dera início ao discurso de defesa dos seus muito queridos burocratas quando um homem irrompeu arquejante pela sala, encaminhando-se imediatamente na direção do estrado do trono. Não o reconheci, mas Polidamas sabia quem era. - Que se passa?—perguntou-lhe Polidamas. O homem, por um momento, não conseguiu dizer nada, de tão ofegante que vinha. Molhou os lábios, tentou de novo falar, mas acabou apontando
desvairadamente para o meu pai, o qual, esquecido o problema dos esgotos, não tirava os olhos dele. Polidamas ajudou o homem a sentar-se no degrau superior do estrado e pediu que lhe trouxessem um copo de água. Até o irado senhorio percebeu que aquele caso era mais importante do que o seu e afastou-se um pouco—embora se mantivesse perto o suficiente para ouvir o que o homem tinha a dizer . A água e uns breves momentos de descanso eram os remédios de que o homem precisava. Logo falou: - Meu rei e senhor, trago grandes notícias! O meu pai pôs um ar céptico. - Que notícias?—perguntou. - Rei Príamo, hoje, ao nascer do dia, assisti, no acampamento grego, a um augúrio pedido por Agamêmnon, que queria saber a causa da peste que matou dez mil homens! Dez mil mortos devido à peste no acampamento grego?! Aproximei-me do trono, quase correndo. Dez mil homens! Se o meu pai não entendesse o significado de tão pesadas baixas, então só poderia estar louco—e, se ele estava louco, Tróia pereceria! Menos dez mil gregos, mais dez mil troianos! Ah, pai, deixa-me sair com o exército! Estava prestes a dizer-lhe isto quando percebi que o homem não acabara ainda. Havia mais notícias. Esperei. - Houve uma discussão terrível entre Agamêmnon e Aquiles. O exército está dividido. Aquiles retirou do exército grego os seus mirmidões e o resto dos homens da Tessália. Aquiles não combaterá por Agamêmnon! A guerra ainda não começou e obtivemos já uma vitória! Agarrei-me às costas do trono para me apoiar, o senhorio desatou a dar vivas, o meu pai ficou paralisado e lívido, Polidamas fitava incrédulo o seu espião, Antenor encostou-se a uma coluna como se de repente tivesse perdido as forças, os outros participantes na assembléia mais pareciam estátuas. No meio do silêncio, ressoou um riso estridente. - Assim caem os poderosos!—berrou o meu irmão Deífobo.—Assim caem os poderosos! - Silêncio!—atirou-lhe o meu pai. Depois, virando-se para o homem, perguntou-lhe:—Qual foi a causa da altercação entre Agamêmnon e Aquiles?
- Meu rei, foi tudo por causa de uma mulher—disse o homem, já mais calmo.—Calcas exigiu que Criseida, uma cativa de Lirnesso oferecida ao rei supremo, fosse enviada para Tróia. Apolo ficou tão furioso com a captura de Criseida que espalhou a peste pelo acampamento grego. E anunciou que o seu castigo só terminaria quando Agamêmnon desistisse da cativa. Agamêmnon tinha de obedecer . Aquiles riu do rei supremo. Escarneceu dele. Por isso, Agamêmnon ordenou a Aquiles que o compensasse—que lhe entregasse a mulher que capturara em Lirnesso, Briseida. Aquiles entregou Briseida ao rei supremo, mas retirou todos os seus homens do exército grego! Deífobo achou isto ainda mais divertido. - Uma mulher! Um exército dividido ao meio por causa de uma mulher! - Ao meio, não!—replicou Antenor .—Os soldados que se retiraram não são mais de quinze mil. E se uma mulher pode dividir um exército, não nos esqueçamos de que foi uma mulher que trouxe esse mesmo exército para as portas de Tróia! O meu pai bateu com o cetro no chão. - Antenor, calado! Deífobo, está bêbado! Cale-se também!—Depois, concentrando-se de novo no mensageiro, perguntou-lhe:—Ouve-me com atenção: essas suas notícias são mesmo seguras? - Não poderiam ser mais seguras, rei Príamo. Eu ouvi e vi tudo. Ouviu-se na sala um imenso suspiro; num ápice, a pesada atmosfera clareou. Onde antes reinavam a apatia e o desânimo, viam-se agora sorrisos radiantes. Mãos apertaram mãos, um murmúrio deliciado elevou-se no ar . Só eu estava triste. Aparentemente, Aquiles e eu estávamos condenados a nunca nos enfrentarmos no campo de batalha. Páris avançou na direção do trono. - Meu querido pai, quando eu estive na Grécia, contaram-me que a mãe de Aquiles—uma deusa mergulhara todos os seus filhos nas águas do rio Estige a fim de que eles se tornassem imortais. Quando Aquiles nasceu, ela quis dar-lhe a mesma sorte. Porém, enquanto pegava nele pelo calcanhar direito, deuse conta, para seu grande espanto, de que cometera um erro—esquecera-se de pegar nele também pelo calcanhar esquerdo. É por isso que Aquiles é um homem mortal. Mas nunca pensei que o seu calcanhar direito pudesse ser uma mulher! Briseida... Lembro-me bem dela: é um espanto de mulher . O rei explodiu. — Eu já tinha mandado calar a todos! Quando repreendo um filho, a
repreensão dirige-se a todos os meus filhos! Não estamos aqui para perder tempo com anedotas! O caso em discussão é demasiado importante para isso! Páris pareceu abatido com a reação do nosso pai. Senti pena dele. Nos últimos dois anos, envelhecera; agora que estava na casa dos quarenta, a idade começava a deixar marcas inexoráveis na sua pele; o vigor e a beleza da juventude começavam a definhar . Aquele que outrora fascinara Helena, agora a aborrecia. Toda a corte estava a par disso. Tal como estava a par da ligação que ela mantinha com Enéias. Bom, não creio que a troca compensasse Helena: o grande amor de Enéias chamava-se Enéias. Mas nunca era possível saber o que se passava na bela cabeça de Helena. Depois do meu pai ter repreendido Páris, limitou-se a puxar pela mão do marido e a afastar-se com ele um pouco. Nem sinal de emoção nos seus olhos ou no seu rosto! Depois, percebi que, afinal, o seu rosto não era propriamente um enigma. De fato, havia nos seus lábios uma sombra de um sorriso—um sorriso como que de superioridade, um sorriso irônico... Porquê? Ela conhecia bem os reis gregos. Sendo assim... porquê aquele sorriso? Ajoelhei diante do trono. — Pai—disse eu, com uma voz forte e controlada—,se os deuses realmente querem que expulsemos os Gregos da nossa terra, o tempo de o fazer só poderá ser este. Se eram Aquiles e os Mirmidões que te impediam de tomar uma decisão, então, agora, a razão para a tua relutância desapareceu. Além disso, eles têm menos dez mil homens devido à peste. Nem mesmo com a ajuda de Pentesiléia e Menão disporíamos de uma oportunidade tão extraordinária como esta. Por isso te peço, meu pai: dá ordem de batalha ao teu filho e ao teu exército! Antenor avançou. Antenor ... ! Sempre Antenor ... ! — Antes que tomes uma decisão, rei Príamo, rogo-te que me conceda um favor . Permita-me que eu envie um dos meus homens ao acampamento grego, a fim de que ele possa confirmar se aquilo que o homem de Polidamas diz é verdade. Polidamas aquiesceu de bom grado. — Concordo inteiramente, rei Príamo—disse ele.—Deveríamos confirmar estas informações. — Nesse caso, Heitor—disseme o meu pai—,terá de esperar um pouco mais pela minha resposta. Antenor, envia imediatamente o teu homem ao acampamento grego.
Convocarei uma nova assembléia para esta noite. Enquanto esperávamos, levei Andrômaca até às ameias da grande torre virada a noroeste, a qual dava diretamente para a praia ocupada pelos Gregos. A minúscula bandeira flutuava ainda no acampamento mirmidão. Porém, era tão escasso o movimento na base de Aquiles que poderíamos facilmente concluir não haver qualquer contacto entre o acampamento mirmidão e os seus vizinhos. Incapazes de pensar em comer, vigiamos os Gregos toda a tarde; aquela prova evidente de desunião no seio do acampamento grego era todo o sustento de que precisávamos.

Ao cair da noite, regressamos à cidadela, mais esperançosos agora na confirmação das notícias. O enviado de Antenor chegou antes de termos tempo para ficar inquietos e, com meia dúzia de breves frases, repetiu aquilo que o homem de Polidamas nos dissera. Houvera uma discussão terrível, Aquiles e Agamêmnon nunca se reconciliariam. Helena encontrava-se ao fundo da sala, muito longe de Páris, acenando abertamente para Enéias, a sua máscara sorridente perfeitamente tranqüila, já que ela sabia que, por ora, todos os boatos sobre a sua ligação com o dardaniano seriam eclipsados pelas escaldantes notícias da dissensão grega. Quando Enéias se aproximou dela, Helena segurou-lhe no braço e os seus olhos enormes fitaram-no num claro convite. Mas eu estava certo a respeito dele. Enéias ignorou-a. Pobre Helena. Se Enéias tivesse de escolher entre os encantos dela e os encantos de Tróia, eu sabia qual seria a sua decisão. Um homem admirável, sem dúvida, mas também um homem que tinha de si mesmo uma imagem demasiado dourada. Contudo, Helena não pareceu desconcertada com a inopinada partida de Enéias. Uma vez mais, dei comigo a meditar no que pensaria ela acerca dos seus concidadãos. Ela conhecia tão bem Agamêmnon... Por um momento, perguntei-me se não seria melhor interrogá-la, mas Andrômaca estava comigo e Andrômaca odiava Helena. As poucas informações que Helena poderia me fornecer—decidi—não justificariam a sova verbal que Andrômaca me daria, se viesse a saber que eu me tinha encontrado com a esposa de Páris. — Heitor! Encaminhei-me na direção do trono e ajoelhei diante do meu pai. — Meu filho: confio-te o comando dos nossos exércitos. Envia arautos
tendo em vista a mobilização para a batalha dentro de dois dias, ao alvorecer . Diz aos guardas da Porta Ceia que oleiem a pedra e preparem os bois. Há dez anos que estamos encarcerados, mas agora sairemos da nossa prisão para expulsarmos os Gregos de Tróia! Enquanto lhe beijava a mão, a sala explodiu em ensurdecedores vivas. Eu era o único que não sorria. Aquiles não estaria no campo de batalha. Seria vitória, uma vitória sem Aquiles? Os dois dias passaram com a rapidez da sombra de uma nuvem na encosta de uma montanha. Todo o meu tempo foi preenchido com encontros com oficiais e com as ordens que tinha de dar a armeiros, engenheiros, condutores de carros e oficiais de infantaria. Enquanto não estivesse tudo em andamento, não conseguiria pensar em descansar . Por isso, só pude ver Andrômaca na noite anterior à batalha. — Chegou o momento que eu tanto temia—disse ela mal eu entrei no nosso quarto. — Andrômaca, por favor, não fale nesse tom. Ela limpou as lágrimas impacientemente. — É mesmo amanhã? — Ao alvorecer . — Não teve um momento que fosse para mim?      - Tenho-o agora. — Depois de dormir, partirá.—Os dedos dela agarravam-se à minha blusa.—Não consigo encarar com ânimo o que vai se passar, Heitor . Há algo de muito errado nisto tudo. — Errado?—exclamei, obrigando-a a erguer o queixo.—Que há de errado em combater contra os Gregos? Por todos os deuses, já não era sem tempo! — Que há de errado? Tudo. Tenho a sensação de que as peças estão todas demasiado bem encaixadas umas nas outras...—Ergueu a mão direita, cerrou parcialmente o punho, deixando o dedo mindinho e o dedo indicador espetados: o sinal que nós fazíamos para esconjurar das nossas vidas todo o mal. Depois, muito nervosa, tremula, disseme:—Cassandra não tem parado um só momento, desde que o homem de Polidamas chegou com a notícia da disputa entre os reis gregos. Desatei a rir . — Oh, Cassandra! Por amor de Apolo, mulher, será possível que não veja? A minha irmã Cassandra é uma louca varrida! Ninguém dá ouvidos
aos seus funestos presságios! — Ela pode ser louca—disse Andrômaca, decidida a que eu a ouvisse —,mas as suas predições nunca falharam! A pobre moça não pára de gritar que os Gregos nos armaram uma cilada—ela insiste que foi Ulisses quem elaborou tudo, ela assegura que os Gregos urdiram tudo isto para que nós saíssemos das muralhas! — Começa a aborrecer-me com as tuas superstições!—disse-lhe e agarreia e abanei-a—algo que nunca lhe fizera em tantos anos de casados.—Eu não estou aqui para discutir a guerra com Cassandra. Estou aqui para passar contigo esta noite. Magoada, olhou para a cama e encolheu os ombros. Depois, abriu a cama, despiu a túnica e apagou as lamparinas, o seu corpo—tão alta que ela era!— tão firme e encantador como na noite do nosso casamento. A gravidez não havia deixado no seu corpo um único vestígio; a sua pele quente brilhava à luz da única lamparina que deixara acesa. Deitei-me e abracei-a e, por um momento, esquecime do que a manhã traria. Depois, decidi entregar-me ao sono, o corpo saciado, a mente sossegada. Porém, antes do véu da inconsciência ter caído inteiramente sobre mim, ouvi Andrômaca chorar . — Que se passa agora?—perguntei, erguendo-me sobre um ombro.— Continua a pensar em Cassandra? — Não, estou pensando no nosso filho. Estou pedindo aos deuses para que, depois de amanhã, ele continue a conhecer a alegria de ter o pai vivo. Como é possível que as mulheres se comportem sempre assim? Como é possível que acabem sempre por dizer aquilo que os homens não querem nem precisam ouvir? — Deixa de choro e dorme!—gritei-lhe. Ela afagou-me a testa, percebendo que tinha ido demasiado longe. — Bom, talvez seja pessimismo a mais da minha parte... Aquiles não combaterá... Portanto, você não tem nada a temer ... De súbito, irado, afastei-me dela e dei um murro na almofada. — Cale-se, mulher! Eu não preciso que me lembre que o homem com quem eu anseio combater não estará no campo de batalha! Ela fitou-me assombrada. — Heitor, Heitor, será possível que tenha enlouquecido? Será possível que Aquiles seja mais importante para você do que Tróia? Do que eu? Do que o nosso filho? — Há certas coisas no mundo que só os corações dos homens podem
entender . Astianacte me compreenderia melhor do que você. — Astianacte não passa de um rapazinho... Desde que nasceu que os seus olhos não têm visto outra coisa senão guerra, que os seus ouvidos não têm ouvido falar de outra coisa senão da guerra! Vê os soldados treinando, segue ao lado do seu pai num magnífico carro de guerra à frente do cortejo militar - vive num mundo de ilusões! Mas nunca viu o campo de batalha depois da batalha terminada! — O nosso filho não tem medo de aspecto nenhum da guerra! — O nosso filho tem apenas nove anos! Não permitirei que ele se transforme num desses guerreiros insensíveis e cruéis em que a tua geração se transformou! — Pois eu não permitirei os seus excessos—disse-lhe, num tom tão cortante como o gelo.—Não permitirei que interfira na educação futura de Astianacte. Logo que regresse do campo de batalha, retirarei o meu filho e confiarei a sua instrução e educação aos meus homens. — Faça isso e te matarei!—rosnou ela, fora de si. — Experimente e logo verá quem morre primeiro! A resposta dela foram lágrimas e soluços. Sentia-me demasiado furioso para a afagar ou para tentar qualquer tipo de reconciliação. Passei por isso o resto da noite escutando o seu choro frenético, incapaz de incutir alguma brandura no meu coração. A mãe do meu filho tinha-me dito que preferia fazer dele um rapaz efeminado a transformá-lo num guerreiro. Levantei-me da cama quando a luz do dia não tingira ainda a penumbra. Olhei para ela; estava deitada com o rosto virado para a parede, recusava-se a olhar para mim. A minha armadura estava pronta. Tomado de uma excitação ímpar, num instante esqueci Andrômaca. Bati palmas e os escravos vieram num ápice. Vestiram-me a túnica almofadada, apertaram as correias das botas, encaixaram as grevas e afivelaram-nas. Reprimi a extrema ansiedade que sempre se apoderava de mim antes de qualquer combate, enquanto os escravos me vestiam o saiote de cabedal reforçado, a couraça, as proteções dos braços, as cintas dos antebraços e as tiras de cabedal para os pulsos e a testa. Colocaram-me nas mãos o elmo, o cinto sobre o ombro esquerdo para suportar a espada que me roçava a anca direita; por fim, suspenderam do meu ombro direito o escudo enorme, com uma cintura muito fina a meio, e ajustaram-no ao meu lado esquerdo. Um criado deu-me a minha maça, outro me ajudou a enfiar o elmo sob o antebraço direito. Estava pronto para a batalha.
— Andrômaca, adeus—disse-lhe eu, num tom que não indiciava qualquer perdão. Mas ela permaneceu imóvel, o rosto virado para a parede. Os corredores estremeciam, os chãos de mármore ecoavam os sons do bronze e das botas ferradas; sentia o ruído dos meus passos espraiando-se diante de mim como se fosse uma onda. Aqueles que não iam combater saíram a saudar-me. De cada porta, saíam também os guerreiros que logo encontravam o seu lugar atrás de mim. As nossas botas atacaram as lajes: sob o impacto dos calcanhares revestidos de bronze, faíscas elevavam-se do chão. Ao longe, ouvíamos já tambores e trombetas. À nossa frente, estava já o grande pátio, para lá do pátio, as portas da cidadela. Helena esperava-nos no pórtico. Parei, acenando para que os outros avançassem sem mim. — Boa sorte, cunhado—disse ela. — Como pode desejar-me boa sorte, se vou combater contra os teus concidadãos? — Eu não tenho país, Heitor . — A nossa pátria é sempre a nossa pátria. — Heitor, nunca subestime um grego!—Recuou um pouco, parecendo surpreendida com as suas próprias palavras. – Te dei um bom conselho, Heitor: não merecia tanto. — Os Gregos são iguais a todos os outros homens. — Serão mesmo?—Os seus olhos verdes assemelhavam-se a jóias.—Não estou de acordo contigo. Preferia um inimigo troiano a um inimigo grego. — Será uma batalha aberta, frontal. Vamos vencer .—talvez. Mas não parou para pensar por que razão Agamêmnon se irritou tanto por causa de uma mulher, quando ele tem centenas delas? — O que conta é que Agamêmnon se irritou realmente por causa de uma mulher . A razão é irrelevante. — Pois eu creio que a razão é tudo. Não subestime nunca a astúcia grega. E, acima de tudo, não subestime nunca Ulisses. — Oh! Ulisses não passa de uma ficção! — É precisamente isso que ele quer que você pense dele. Mas eu o conheço melhor do que você, Heitor . Virou-me costas e foi para casa. De Páris, nem sinal. Bom. de qualquer modo, o meu irmão não combateria – se limitaria a observar .
Setenta e cinco mil soldados de infantaria e dez mil carros esperavam por mim, devidamente formados ao longo das ruas secundárias e das pequenas praças que conduziam à Porta Ceia. Aqui, aguardava-me o primeiro destacamento de cavalaria, os homens que conduziriam os meus carros. Os seus gritos ressoaram como trovões mal eu apareci na praça, erguendo bem alto a minha maça para saudá-los. Subi para o meu carro e enfiei cuidadosamente os meus pés nos estribos de vime que permitiriam que me equilibrasse sempre que o carro guinasse, especialmente quando os cavalos fossem num galope desabrido. Depois, os meus olhos atentaram naqueles muitos milhares de elmos encimados por plumas cor de púrpura; a cintilação do bronze era sangue e rosa sob o imenso ouro do sol, a porta erguia-se já diante de mim. Os chicotes estalaram. Os bois atrelados à enorme pedra que suportava a Porta Ceia bramiram aflitos logo que começaram a puxar . A vala fora já oleada e engordurada; os focinhos dos animais quase chegavam ao chão. Muito lentamente, a porta foi abrindo, chiando e atroando enquanto a pedra deslizava ao longo do fundo da vala; a porta parecia ficar mais pequena à medida que se abria; ao mesmo tempo, a vastidão de céu e planície parecia tornar-se ainda mais imensa. Depois, os ruídos que marcavam a abertura da Porta Ceia pela primeira vez em dez anos foram sufocados pelos gritos de alegria que romperam das gargantas de milhares e milhares de soldados troianos. Logo que as tropas começaram a descer na direção da praça, as rodas do meu carro começaram também a rodar; eu avançava, estava na planície com os meus aurigas atrás de mim. O vento penetrou-me o rosto, pássaros voavam na pálida abóbada do céu, os meus cavalos empinaram as orelhas e deram às suas pernas elegantes o ritmo de um galope, enquanto o meu condutor, Quebríones, enrolava as rédeas à volta da sua cintura e executava os movimentos com que costumava controlá-los. Finalmente a batalha! Aquela, sim, era a verdadeira liberdade! Meia légua após a Porta Ceia, parei e virei-me para organizar as minhas tropas, fazendo da frente uma linha reta com carros na posição mais avançada; a Guarda Real—dez mil soldados de infantaria troianos e mil carros de guerra formava o centro da minha vanguarda. Tudo foi feito rápida e primorosamente, sem pânico nem confusão. Quando tudo estava em ordem, atentei na muralha inimiga, erigida sobre a planície entre os dois rios, isolando assim a extensa praia ocupada
pelos Gregos. As passagens em cada extremidade das muralhas brilhavam de um milhão de reflexos: os invasores gregos abandonavam as muralhas e avançavam na direção da planície. Entreguei a minha lança a Quebríones e pus o elmo na cabeça, ajustando depois a pluma de crina de cavalo escarlate. Os meus olhos encontraram-se com os de Deífobo, a meu lado na linha da frente; um a um, tanto quanto os meus olhos conseguiam enxergar, atentei nos rostos daqueles que faziam parte da linha da frente. O meu primo Enéias comandava o flanco esquerdo, o rei Sarpédon o direito. Eu comandava a linha da frente. Os Gregos aproximavam-se cada vez mais, o sol refulgia nas suas armaduras de uma forma mais e mais intensa; tentei ver quem ficaria de frente para mim, perguntando-me se seria o próprio Agamêmnon, ou Ájax, ou qualquer outro dos grandes chefes gregos. O meu coração batia menos depressa porque não seria Aquiles. Depois, voltei a olhar para a linha da frente e fiquei pasmado. Páris estava lá! Estava, com o seu precioso arco e a aljava, à frente do destacamento de Guardas Reais que lhe havia sido atribuído havia uma eternidade. Perguntei-me que artimanhas Helena não teria usado para o convencer a abandonar a segurança dos seus aposentos.

Capítulo Vigésimo Quarto   Narrado por Nestor

Rezei uma breve oração ao deus que as nuvens amontoa no céu; embora tivesse combatido em mais campanhas do que qualquer outro homem vivo, nunca enfrentara um exército como o de Tróia. E também era verdade que a Grécia nunca havia organizado um exército como o de Agamêmnon. Os meus olhos ergueram-se para os diáfanos e majestosos picos do distante Ida e perguntei-me se os deuses não teriam abandonado o Olimpo para se sentarem nas alturas do Ida a fim de assistirem à batalha. Aquela era uma guerra digna do seu interesse: nunca os meros mortais haviam sonhado com uma guerra capaz de envolver tantos meios—tão-pouco os deuses, que apenas travavam pequenas guerras entre si e com hostes muito limitadas. Se reunissem no Ida para assistir à batalha, não haveria entre eles unanimidade: todos sabiam que Apolo, Afrodite, Ártemis e outros eram adeptos fervorosos de Tróia, ao passo que Zeus, Poseidon, Hera e Palas Atena eram a favor da Grécia. Ninguém sabia ao certo de que lado estava Ares, o Senhor da Guerra, pois embora os Gregos fossem o povo que mais havia espalhado o seu culto, a verdade é que Afrodite, a secreta amante de Ares, apoiava Tróia. Hefaísto, o marido de Afrodite, era, muito naturalmente, favorável à Grécia. O que era bom para nós, pois Hefaísto presidia à fundição dos metais e a outros mesteres aparentados; os nossos artífices teriam desse modo algum apoio divino. Se havia algum homem feliz naquele dia, esse homem era eu. Uma única coisa toldava o meu prazer: o rapaz que me acompanhava no meu carro, um rapaz que estava muito nervoso e impaciente pois queria ter um carro só para si, pois queria ser um guerreiro e não um condutor . Mirei-o de relance. O meu filho Antíloco... Pouco mais do que um menino desmamado, o meu filho mais novo e também o mais querido, o fruto do crepúsculo da minha vida. Quando deixei Pilos, tinha ele apenas doze anos, Muitos foram aqueles que me pediram que o deixasse partir comigo para Tróia: a todos respondi que não, nem pensar! E o resultado foi este: Antíloco embarcou clandestinamente! Escondeu-se num dos navios e, quando dei por isso, o patife estava em Tróia! Então, pediu ajuda a Aquiles e, depois de muita conversa, conseguiram convencer-me a deixá-lo ficar . Aquela era a sua primeira batalha, mas eu daria tudo para que ele não estivesse ali a meu
lado, para que ele tivesse ficado na arenosa Pilos, entretido a compilar listas de mantimentos! Colocamo-nos em ordem de batalha diante dos Troianos. A linha tinha uma légua de comprimento; constatei, sem surpresa, que Ulisses tinha razão. Os Troianos eram muito mais do que os Gregos. Mesmo que toda a Tessália tivesse vindo conosco, eles seriam sempre mais. Perscrutei as hostes inimigas, procurando os homens que as conduziam, e vi imediatamente Heitor no centro da linha da frente. As tropas de Pilos integravam a nossa linha da frente, juntamente com as forças dos dois Ájax e de dezoito reis menores. Agamêmnon, chefe da nossa vanguarda, estava de frente para Heitor . O nosso flanco esquerdo era comandado por Idomeneu e Menelau e o direito por Ulisses e Diomedes, esse tão estranho par de amantes. Um tão quente, o outro tão frio! Quem sabe, talvez os dois juntos fossem a perfeição. Heitor conduzia uma equipe soberba de cavalos, tão negros como azeviche, e erguia-se no seu carro como o próprio Ares Eniálios. Tão grande e tão ereto como Aquiles. Contudo, não via uma única barba branca entre os troianos; Príamo e outros da sua idade tinham ficado no palácio. Eu era o homem mais velho naquele campo de batalha. Os tambores rufaram, as trombetas e os címbalos soaram estridentes anunciando a refrega, que, de fato, não tardou. Com efeito, a batalha começou quando nos encontrávamos ainda a cem passos uns dos outros. Lanças voaram como folhas ao sabor do medonho sopro do Inverno, setas caíram rapidamente sobre as suas presas como se águias fossem, soldados de infantaria investiram e foram rechaçados. Agamêmnon dirigia a nossa linha da frente com um vigor e uma vigilância que nunca suspeitara que tivesse. Na realidade, muitos de nós nunca haviam combatido juntos. Podíamos agora, pela primeira vez, avaliar as capacidades bélicas uns dos outros. E foi reconfortante verificar que Agamêmnon se revelou competente o bastante para enfrentar Heitor naquela primeira manhã. Heitor, aliás, não fez qualquer tentativa para travar um duelo com o nosso rei supremo. Heitor berrou e vituperou, lançou vezes sem conta os seus carros contra a nossa linha da frente, mas a verdade é que não conseguiu rompê-la uma só vez. Conduzi algumas investidas durante a manhã; Antíloco soltava o grito de guerra de Pilos, mas eu poupava os meus pulmões, um instrumento precioso para a batalha. Vários foram os troianos que morreram sob as rodas do meu carro, pois Antíloco era um bom condutor, evitando-me problemas e
sabendo sempre qual era o momento certo para recuar . Ninguém poderia dizer que o filho de Nestor punha em perigo a integridade do seu velho pai só porque queria combater em vez de conduzir um carro. A minha garganta começou a ficar seca e a armadura estava branca de poeira; acenei para o meu filho e retiramos para as linhas da retaguarda a fim de bebermos água e de recuperarmos algum alento. Quando olhei para o céu, verifiquei espantado que o Sol se abeirava já do seu zênite. Regressamos imediatamente à linha da frente e, com forças renovadas, guiei os meus homens na direção das hostes troianas. Fizemos algum trabalho rápido aproveitando o fato de Heitor estar ocupado com outras porções do seu exército. Depois, ordenei a retirada e recuamos em segurança para a nossa própria linha sem perdermos um único homem. Heitor perdera mais de uma dúzia naquela breve refrega. Suspirando de satisfação, sorri silenciosamente para Antíloco. O que ambos queríamos era a armadura de um chefe, mas não tínhamos encontrado nenhum. Ao meio-dia, Agamêmnon ordenou a um arauto que soasse a trombeta das tréguas. Contrariados, os dois exércitos baixaram as armas; pela primeira vez, a fome e a sede, o medo e o cansaço tornavam-se realidades desde que a batalha começara. Quando vi que todos os chefes se encaminhavam na direção de Agamêmnon, disse a Antíloco que me conduzisse também ao rei supremo. Ulisses e Diomedes chegaram ao mesmo tempo em que eu. Todos os outros lá estavam. Os escravos andavam numa azáfama, trazendo vinho misturado com água, pão e bolos. — Que se passa, Agamêmnon?—perguntei. — Os homens precisam descansar . Este é o primeiro dia de combates intensos ao fim de muitas luas—por isso enviei um mensageiro a Heitor, propondo-lhe um encontro para negociações. — Excelente!—disse Ulisses.—Com alguma sorte, poderemos prolongar esse encontro o tempo suficiente para que os homens recuperem forças e comam. Agamêmnon fitou-o com um sorriso imenso. — Como o estratagema serve para os dois lados, Heitor não recusará a minha oferta. Os não combatentes retiraram mortos e feridos da faixa que separava os dois exércitos; mesas e bancos não tardaram a surgir e os chefes dos dois lados avançaram para a faixa de separação a fim de conferenciarem. Comigo, seguiram Ájax, Ulisses, Diomedes, Menelau, Idomeneu e
Agamêmnon; com grande interesse e maior curiosidade, preparamo-nos para assistir ao primeiro encontro entre o rei supremo e o herdeiro de Tróia. Heitor era um homem de tez muito escura. Cabelos negros espreitavam sob o elmo e caíam-lhe pelas costas numa trança. Os olhos que nos miravam— tão astutamente como nós o mirávamos a ele—eram também negros. Apresentou-nos os outros chefes: Enéias da Dardânia, Sarpédon da Lícia, Acamas, filho de Antenor, Polidamas, filho de Agenor, Pandaros, o capitão da Guarda Real, e os seus irmãos Páris e Deífobo. Menelau emitiu uma rosnadela quase inaudível e lançou um olhar furioso a Páris; no entanto, tanto ele como Páris temiam demasiado os seus régios irmãos para se permitirem criar problemas. Os troianos pareceram-me um belo grupo de homens, todos eles guerreiros consumados, à exceção de Páris, que parecia perfeitamente deslocado—bonitinho, entediado, amaneirado. Enquanto Agamêmnon fazia as suas apresentações, observei atentamente Heitor, procurando detectar a sua reação aos nomes que ia ouvindo. Quando chegou a vez de Ulisses, examinou o mais inteligente dos nossos chefes com uma atenção muito particular; havia um brilho de perplexidade no seu olhar . Contudo, não me diverti nada ao constatar o dilema que ia na mente de Heitor; de fato, até tive pena dele. Os homens que não conheciam Ulisses, a Raposa de Ítaca, tinham tendência a subestimá-lo devido às estranhas proporções do seu corpo e ao aspecto imundo, quase que ignóbil, que ele cultivava sempre que achava adequado. Dei comigo a pedir-lhe silenciosamente: Olhe para os olhos dele, Heitor, olhe para os olhos dele! Mas a natureza de Heitor preferia Ájax, que vinha logo a seguir a Ulisses; para Heitor, Ájax era muito mais interessante e atraente do que Ulisses. Pior para ele: não entendera a importância da Raposa. Heitor atentou com espanto nos músculos poderosos do nosso segundo maior guerreiro; pela primeira vez na sua vida, pensamos nós, Heitor teve de erguer a cabeça para olhar para o rosto de outro homem. — Não houve entre nós qualquer conferência nestes últimos dez anos, filho de Príamo—disse Agamêmnon.—Julgo que chegou a hora de discutirmos. — Que quer discutir?      - Helena. — Esse assunto está encerrado. — De modo nenhum! Nega que Páris, filho de Príamo e teu irmão
germano, raptou a esposa do meu irmão Menelau, rei da Lacedemônia, e a trouxe para Tróia, insultando desse modo toda a nação grega?      - Nego. — Helena pediu-me que a trouxesse—acrescentou Páris. — Claro que não admite que usou a força. — Isso é evidente: não foi preciso usar força nenhuma.—Heitor bufava que nem um touro.—Que proposta pretende fazer, nessa tua linguagem tão formal, rei supremo? — Que devolva Helena e todos os seus bens ao seu único e verdadeiro marido, que nos indenize pelo tempo que perdemos e pelos problemas que tivemos, reabrindo o Helesponto aos mercadores gregos, e que não se oponha ao estabelecimento de colônias gregas na Ásia Menor . — Os termos da tua proposta são inaceitáveis. — Porquê? Tudo o que nós pedimos é o direito a uma coexistência pacífica. Eu não combateria se pudesse alcançar pacificamente os meus objetivos, Heitor . — A satisfação das tuas exigências seria a ruína de Tróia, Agamêmnon. — A guerra será muito mais ruinosa para Tróia. Você está defendendo-se, Heitor—e essa nunca é uma posição vantajosa. Ao passo que nós desfrutamos dos lucros de Tróia há dez anos—e também dos lucros da Ásia Menor . A conferência prosseguiu: palavras sem qualquer peso efetivo atiradas a esmo, enquanto os soldados descansavam na erva pisada e fechavam os olhos devido à intensidade do sol. — Muito bem. Nesse caso, faço uma última proposta, príncipe Heitor disse Agamêmnon algum tempo depois.—Encontram-se entre nós os dois homens diretamente envolvidos no episódio que deu origem a isto tudo. Menelau e Páris. Proponho que Menelau e Páris travem um duelo nesta mesma faixa onde nos encontramos agora, entre os dois exércitos. O vencedor ditará os termos de um acordo de paz. Se Páris não parecia um duelista brilhante, que dizer de Menelau? Heitor não precisou de muito tempo para decidir que Páris seria um vencedor fácil. — De acordo—disse ele.—O meu irmão Páris travará um duelo com o teu irmão Menelau. O vencedor ditará os termos de um tratado. Olhei de relance para Ulisses, que estava a meu lado. — Esperemos que seja um troiano a interromper o duelo—segredou-me
ele. Caso contrário, a reputação de Agamêmnon sofrerá horrores nos anos mais próximos. Retiramos para as nossas linhas e deixamos os cem passos de terreno vago aos dois homens. Menelau começou por testar o escudo e a lança, ao passo que Páris se pôs a ajeitar a armadura com um ar displicente. Por fim, foi dada a ordem para que o duelo principiasse. Os dois homens lançaram-se em círculos lentos à volta um do outro, Menelau investindo com a lança, Páris desviando-se para evitar o golpe. Alguém do exército grego gritou um comentário escarninho a propósito do modo como Páris se desviava da lança: milhares de gargantas troianas rosnaram furiosas, mas Páris ignorou o insulto e continuou a esquivar-se com delicados movimentos. Nunca considerara Menelau capaz fosse do que fosse, mas era óbvio que Agamêmnon sabia o que estava fazendo ao propor o duelo. Eu pensara que Páris seria um vencedor fácil, mas estava redondamente enganado. Embora não possuísse nem o instinto nem o arrojo que fazem de um homem um chefe, Menelau aprendera a arte do duelo tão escrupulosamente como qualquer outra coisa. Faltava-lhe o ardor, mas não a coragem, o que era uma vantagem enorme num combate singular . A certa altura, arremessou a sua lança com tal violência que conseguiu arrancar o escudo de Páris; vendo-se perante a espada de Menelau, Páris preferiu fugir a empunhar a sua própria espada. Menelau foi no seu encalço. Todos sabiam quem ia vencer; os Troianos remeteram-se a um profundo silêncio, os nossos homens desataram num alarido ensurdecedor . Os meus olhos não largavam Heitor, que avaliara mal as possibilidades do irmão e que, por outro lado, era um homem de princípios. Se Menelau matasse Páris, Heitor teria de aceitar o tratado. Ah! Sem que Heitor lhe tivesse feito sinal nenhum, Pandaros, o capitão da Guarda Real, pôs uma flecha no seu arco. Com um grito, avisei Menelau, que parou e se desviou. Demasiado tarde. Enquanto as nossas hostes berravam de indignação, a flecha alojou-se no flanco de Menelau. Um uivo de pesar do lado troiano saudou o fato de ter sido um troiano a quebrar a tréguas. Por causa de Pandaros, Heitor via a sua honra manchada. Os exércitos embrenharam-se então na luta com uma fúria que estivera ausente durante a manhã; um dos lados defendia a honra manchada, o outro vingava uma ofensa, e ambos os lados ceifavam e golpeavam num frenesi histérico.
Muitos homens pereceram num breve espaço de tempo; os cem passos que haviam separado as linhas depressa minguaram; num instante, foram ocupados por uma sólida massa de corpos e pelas nuvens de pó que nos cegavam e sufocavam. O culpado, Heitor, estava em todo o lado ao mesmo tempo, percorrendo o centro da batalha no seu carro, desferindo fatais golpes de lança. Nenhum de nós conseguia aproximar-se dele o suficiente para tentar abatê-lo; em contrapartida, muitos eram os homens que, com gritos de puro terror, morriam sob os cascos dos seus três cavalos negros. Não consegui entender, naquele primeiro dia, como conseguia Heitor conduzir os seus cavalos no meio daquela medonha confusão humana; mais tarde, porém, os seus processos, de tão estudados e imitados, converteram-se num verdadeiro lugar-comum, de tal modo que eu próprio os segui e considerei que não tinham nada de especial. Vi Enéias aproximando-se do centro com um bando de dardanianos na sua esteira e perguntei-me como é que ele conseguira deslocar-se da sua ala no meio daquele caos. Abandonei a lança em favor da espada, juntei os meus homens e conduzi-os para o grosso da batalha, derrubando, do alto do meu carro, tudo o que me aparecesse pela frente, golpeando a esmo rostos imundos de suor, não perdendo de vista Enéias enquanto pedia reforços. Agamêmnon mandou mais homens, comandados por Ájax. Enéias viu-o e chamou os seus cães de guarda, mas não antes de eu ter o privilégio de ver aquela verdadeira torre desferindo golpes tremendos, o braço convertido numa foice incansável que cortava o joio inimigo. Ájax não trazia o machado, pois, naquele primeiro dia de batalha, preferira a espada, dois cúbitos e meio de morte sob a forma de uma dupla lâmina. Embora a usasse como um machado, erguendo-a bem alto e cravando-a no inimigo com um grito de júbilo capaz de aterrorizar o mais destemido dos homens. Empunhava o seu enorme escudo melhor do que qualquer outro homem vivo; o escudo nunca vacilava enquanto ele o erguia a escassa distancia do chão, uma massa de bronze e estanho cobrindo-o da cabeça aos pés. Atrás dele vinham seis corpulentos chefes de Salamina e, sob a proteção do próprio escudo de Ájax, ocultava-se Teucro com o seu arco, disparando setas atrás de setas, numa série de movimentos tão fluidos que pareciam até contínuos, impecavelmente rítmicos. Vi soldados gregos que estavam demasiado longe de Ájax para poderem ver os movimentos da torre humana sorrindo uns para os outros e recobrando ânimo só de ouvirem o
famoso grito com que Ájax saudava Ares e a Casa de Éaco. Rodeado pelos meus próprios homens, saudei-o mal o vi avançar na minha direção; Antíloco abrandara as rédeas do nosso carro e, boquiaberto de espanto, fitava a torre humana. — Desapareceram, velho!—rosnou Ájax. — Nem mesmo Enéias quis te enfrentar—disse eu. — Zeus transformou-os em sombras! Porque é que eles não combatem como verdadeiros guerreiros? Mas está descansado que eu apanharei Enéias! Onde está Heitor? — Tenho andado à procura dele a tarde toda. Ou ele é uma miragem ou então sou eu que fico sempre para trás. Mas eu não vou largá-lo. Mais tarde ou mais cedo havemos de nos encontrar . Ouviram-se gritos estridentes de aviso; voltamos a formar num ápice, pois Enéias regressara, trazendo consigo Heitor e uma parte da Guarda Real. Olhei para Ájax. — Eis a tua grande oportunidade, filho de Télamon! — Dou graças a Ares!—Abanou os ombros couraçados para melhor distribuir o peso da armadura e, com a ponta da enorme bota, afastou afetuosamente Teucros. — Vá embora, irmão. Este é só para mim. Protege Nestor e mantém Enéias à distância. Teucro abandonou a proteção do escudo e correu para perto de mim. Nos seus olhos brilhantes, devotados, não havia qualquer sinal de preocupação. Nunca ninguém pusera em causa a sua lealdade, apesar de a sua mãe ser Hesíona, a irmã de Príamo. — Vamos, rapaz—disse ele para o meu filho—,conduz-nos através destas carcaças e vê se consegue alcançar Enéias. Temos de mantê-lo ocupado. Rei Nestor, preteje-me enquanto eu uso o arco? — De bom grado, filho de Télamon—disse eu. — Porque é que Enéias está na linha da frente, pai?—perguntou-me Antíloco enquanto avançávamos.—Pensava que ele comandava uma ala. — Também eu—respondeu Teucro em vez de mim. Os meus homens e alguns dos salaminianos de Ájax foram conosco e conseguimos manter Enéias afastado o suficiente de Heitor, de forma a que Ájax conseguisse obrigar o herdeiro a travar um duelo. Logo que o duelo começou, a batalha amainou drasticamente; os homens seguiam com tanta atenção os
movimentos de Heitor e Ájax que nem reparavam para onde arremessavam setas ou lanças. Ájax nunca usava carros de guerra, provavelmente porque não havia carro de guerra que suportasse o seu peso, mais o de Teucro e o do condutor . Na realidade, Ájax fazia de conta que ele próprio era um carro de guerra. O bronze retiniu contra o bronze. Uma proteção de um braço saltou sob a súbita expansão dos músculos e caiu para logo ser esmagada pelos pés dos contendores. Ájax e Heitor eram adversários à altura um do outro. Enquanto à sua volta a batalha se desvanecia, as duas torres continuavam a investir e a aparar golpes. Enéias chamou-me a atenção com um assobio estridente. — Um duelo destes não se pode perder, velho guerreiro! Prefiro ver a combater! E você? Enéias da Dardânia pede trégua! — Concordo com a trégua até ao final do duelo. Se for Ájax o vencido, defenderei o seu corpo e a sua armadura com a minha própria vida! Mas se for Heitor o vencido, ajudarei Ájax a roubar o corpo e a armadura de Heitor! Nestor de Pilos está de acordo com a trégua! — Assim seja, então! No círculo que então se juntou, todos os soldados baixaram as armas. À volta do nosso limitado território, a batalha prosseguia, violenta, implacável. Nós, em contrapartida, nem nos mexíamos, nem falávamos. O meu coração inflamava-se só de ver Ájax combatendo. Não havia a menor falha na sua guarda, não havia a menor exposição do seu corpo por detrás daquele escudo colossal. Heitor dançava como uma chama viva em torno daquela massa, desferindo golpes, cortando grossas fatias da superfície do escudo. Nenhum deles parecia dar-se conta da passagem do tempo, nenhum deles dava mostras de fadiga; a todo o momento, os seus braços erguiam-se e arremetiam com uma energia que não diminuía. Por duas vezes, Heitor quase perdia o seu escudo; contudo, aparou os golpes de Ájax com a sua própria espada e continuou a combater, mantendo em seu poder o escudo e a espada apesar de tudo o que Ájax pudesse fazer . Aquela seria uma batalha longa e ferocíssima. Quando um deles via uma aberta, logo investia; e quando investia, logo se deparava a espada inimiga; nenhum deles, porém, perdia o ânimo e o duelo prosseguia tão furioso como de início. Senti mexerem-me no braço: era um mensageiro de Agamêmnon. — O rei supremo quer saber por que razão a batalha está parada neste local, rei Nestor . — Concordei com trégua temporária. Vê com os teus próprios olhos,
mensageiro! Combateria se houvesse um duelo destes na tua secção? O homem atentou nos contendores. — Reconheço o príncipe Ájax, mas... quem é o outro? — Diga ao rei supremo que Ájax e Heitor estão travando um combate de morte! O mensageiro desapareceu imediatamente, deixando-me à vontade para continuar a assistir ao duelo. Ájax e Heitor continuavam a golpear e a justar furiosamente—há quanto tempo durava aquilo? Não precisei proteger os olhos quando olhei para a bola amarelo-pálida do Sol, para lá das nuvens de poeira. Sim, o Sol abeirava-se do horizonte! Por Ares, quanta energia, quanta resistência! Agamêmnon parou o seu carro ao lado do meu. — Pode prescindir do teu comando, Agamêmnon? — Ulisses substituiu-me. Por todos os deuses! Há quanto tempo dura o duelo, Nestor? — Já passou quase uma oitava parte da tarde. — Em breve terão de parar . O Sol está a pôr-se! — Inacreditável, não é? — Ordenou trégua? — Os homens não queriam combater . Nem eu. Como vão as coisas no resto do campo? — Estamos fazendo melhor do que resistir, apesar de sermos muito menos do que eles. Diomedes tem sido um verdadeiro titã. Matou Pandaros, o chefe troiano que quebrou a trégua, e foi embora com a armadura do inimigo nas barbas de Heitor . Ali! Ali está Enéias! Não admira que ele quisesse trégua ... ! — Diomedes atingiu-o no ombro com uma lança e crê que Enéias está bastante ferido. — Então foi por isso que ele deixou a ala e veio para cá... O dardaniano é, entre todos os homens de Príamo, o mais astucioso. Mas, segundo se diz, é também o mais egoísta. Como está Menelau? A flecha atingiu algum lugar vital? Não. Macáon fez-lhe uma ligadura e mandou-o de novo para o campo de batalha. — Portou-se muito bem, o teu irmão. — Foi uma surpresa para você, não foi? Por sobre a poeira e o clamor do campo de batalha, ouviu-se o longo e
desalentado toque da trombeta que anunciava a noite. Os homens baixaram as armas e, arquejantes, procuraram um lugar para descansar . Escudos eram arrastados pelo chão, espadas eram desajeitadamente embainhadas, mas Heitor e Ájax continuavam combatendo. No fim de tudo, foi a noite o vencedor; os dois colossos mal viam as armas diante deles quando desci do meu carro e corri para separá-los. — Nem leões como vocês conseguem ver de noite—disse-lhes eu. – Ninguém venceu, ninguém foi derrotado. Portanto, agora que chegou a noite, dêem trégua às suas espadas. Heitor tirou o elmo com uma mão tremula. — Confesso que não lamento que o duelo tenha chegado ao fim. Não agüentaria muito mais. Ájax deu o seu escudo a Teucro, que mal se agüentava de pé sob tão pesada carga. — Nem eu, nem eu...—disse a torre humana. — É um grande homem, Ájax—disse Heitor, estendendo-lhe o braço direito. Ájax entrelaçou os seus dedos à volta do pulso do príncipe troiano. Com um sorriso, comentou:—O mesmo posso dizer de você, Heitor . — Custa-me a crer que Aquiles seja melhor do que você... Olha, toma, ofereço-te a minha espada! Ájax fitou a lâmina com um prazer evidente, após o que a ergueu bem alto.—A partir de agora, a usarei sempre, seja em que batalha for! Em troca, ofereço-te o meu boldrié. Segundo o meu pai, o meu avô dizia que o recebera das mãos de seu pai, que era o próprio Zeus Imortal.—Baixou a cabeça e retirou a preciosa relíquia; era um objeto raro, de um cabedal púrpura brilhante decorado com um padrão de ouro. — Eu o usarei em vez do meu—disse Heitor, deliciado. Encantado, deime conta da intensa satisfação que ambos sentiam, da afeição mútua e do respeito que haviam ganho um pelo outro em tão terríveis circunstâncias. Até que as asas geladas de uma premonição deixaram a minha mente cheia de medo: aquela era uma troca aziaga! Naquela noite, acampamos no lugar onde estávamos, sob as muralhas de Tróia, com o exército de Heitor entre nós e a imensa Porta Ceia, aberta de par em par . As fogueiras foram acesas, os caldeirões suspensos sobre elas; escravos corriam para trazer enormes bandejas de pão de cevada e carne; o vinho, misturado com água, não faltava. Por um momento, reparei no vaivém dos archotes por alturas da Porta Ceia; os escravos troianos
andavam na mesma azáfama que os nossos, assistindo o exército de Heitor . Depois, fui comer com Agamêmnon e os outros, em torno de uma fogueira. Mal avancei para a luz que a fogueira desenhava, os rostos deles viraram-se para me saudar—e eu vi o tremendo vazio que sempre se apodera dos homens depois de uma batalha duramente travada. — Não avançamos sequer um dedo—disse eu para Ulisses. — Eles também não—retorquiu Ulisses tranqüilamente, a boca meio cheia de carne de porco. — Quantos homens perdemos?—perguntou Idomeneu. — Mais ou menos os mesmos que Heitor, talvez menos—disse Ulisses. As baixas que houve não chegam para alterar a correlação de forças. — Nesse caso, creio que amanhã será um dia decisivo—comentou Meríona, bocejando. — Sim, amanhã será um dia decisivo—concordou Agamêmnon, bocejando também. Pouco mais conversas houve. Os corpos queixavam-se das dores e das feridas, as pálpebras caíam pesadas, as barrigas estavam cheias. Era tempo de nos enrolarmos em peles à volta do fogo. Contemplei as muitas centenas de pequenas luzes de fogo semeadas por toda a planície, cada uma delas uma fonte de conforto e segurança na imensidão da noite. Plumas de fumo erguiam-se na direção das estrelas, o fumo de dez mil fogueiras sob as muralhas de Tróia. Deitei-me e, por um momento, mirei as muitas estrelas cuja cintilação ora se avivava, ora se esbatia, ao sabor daquele nevoeiro de fumo que os homens haviam erguido, até que todas elas se dissolveram no sono, que é aquele que traz a escuridão da mente. O segundo dia foi muito diferente do primeiro. Não houve tréguas que aplacassem a carnificina, não houve duelos que nos prendessem a atenção, não houve magníficos atos de heroísmo que elevassem a refrega acima do nível do comum dos homens. A lida era penosa e amargamente obstinada. Os meus ossos ansiavam por um merecido descanso, os meus olhos estavam cegos pelas lágrimas que todos os homens choram quando vêem um filho morrer . Antíloco chorou também pelo seu irmão; depois, pediu-me que o deixasse tomar o lugar do irmão na linha da frente. Não pude recusar . Tive de chamar um dos meus homens para conduzir o meu carro. Imune a todos os cercos e tão mortífero como o próprio Ares, Heitor estava no seu elemento, atravessando constantemente o campo de batalha,
acicatando as suas tropas com uma voz portentosa que não dava tréguas aos soldados nem a si mesmo. Ájax não teve tempo para persegui-lo; Heitor fez avançar toda a Guarda Real sobre os homens de Ájax e Diomedes; dispondo de muito mais soldados do que os seus dois mais perigosos inimigos, impediu que estes avançassem. Sempre que Heitor usava a sua lança, era certo e sabido que um homem morreria: com a lança, Heitor era tão bom como Aquiles. Se abria uma brecha na nossa linha, Heitor empurrava os seus homens para dentro dela; logo que a brecha se tornava um fato consumado, enviava mais e mais homens para dentro dela, como uma serra cravando os seus dentes cada vez mais fundo num gigante da floresta. Ah, o sofrimento, a crueldade, a dor! De novo as lágrimas me cegaram quando outro dos meus filhos tombou, as entranhas dilaceradas por uma lança que Enéias arremessara. Escassos momentos depois, Antíloco por pouco não era decapitado por uma espada! Ah, não! Não o mais amado dos meus filhos! Por favor, misericordiosa Hera, onipotente Zeus, não me levem o meu querido Antíloco! De vez em quando, mensageiros vinham informar-me da situação em outras partes do campo; dei graças aos deuses pelo fato de pelo menos os nossos chefes estarem sãos e salvos. Talvez porque os nossos homens estavam cansados, ou porque não tínhamos conosco os quinze mil homens de Aquiles, ou por qualquer outra mais obscura razão, começamos a perder terreno. Lenta e imperceptivelmente, fomos nos afastando cada vez mais das muralhas de Tróia, fomos nos aproximando cada vez mais das nossas próprias muralhas. Dei comigo no meio das hostes da primeira linha. O meu condutor soluçou de raiva quando se viu obrigado a fazer recuar os cavalos. Heitor abateu-se sobre nós; pedi freneticamente por ajuda, pois o carro do príncipe troiano avançava na minha direção, erguendo-se já sobre o caos humano que me rodeava. A sorte estava comigo. Diomedes e Ulisses, não sei como, ocuparam o centro da nossa linha da frente, colocando os seus homens ao lado dos meus. Diomedes não fez qualquer tentativa para travar um combate singular com Heitor; em vez disso, concentrou-se no condutor do príncipe, o qual, pelos vistos, não era o condutor habitual de Heitor, pois revelava uma inesperada inexperiência. Diomedes arremessou a sua lança e trespassou o homem que, caindo para trás agarrado às rédeas, obrigou os cavalos a pararem. Com a ajuda de Ulisses, conseguimos afastar-nos em segurança, enquanto Heitor cuspia imprecações e serrava as rédeas com uma faca.
Procurei voltar a juntar a minha secção da linha da frente, mas já não era possível. O medo apossara-se dos homens, muitos eram os que falavam de sinais aziagos. Nenhum de nós poderia alimentar mais ilusões: o nosso exército retirava. Percebendo isso, Heitor, com um grito de triunfo, mandou avançar o resto das suas linhas de reserva. Ulisses acabou por salvar o dia. Saltou para um carro vago—onde estava o carro dele?—e deteve os Beócios quando estes começavam a debandar; obrigou-os a enfrentarem o inimigo por algum tempo, até que, por fim, lhes ordenou que recuassem lentamente e em perfeita ordem. Agamêmnon seguiu imediatamente o seu exemplo; aquilo que ameaçara ser uma verdadeira derrocada—e uma derrota fragorosa—transformou-se numa retirada com um mínimo de perdas. Diomedes carregou, com os seus homens de Argos, sobre os dentes dos troianos que continuavam a avançar, e eu segui-o com Idomeneu, Euripilo, Ájax e todos os seus homens. Os nossos flancos tinham convergido para a linha da frente; o exército transformara-se numa cerrada formação com uma delgada frente suportando a investida de Heitor e o grosso dos nossos homens atrás de nós, recuando. Teucro não largava o seu esconderijo atrás do escudo do irmão, as flechas voando constantemente e acertando sempre nos seus alvos. Heitor aproximava-se; Teucro viu-o, sorriu e pôs uma nova flecha no seu arco. Mas Heitor era demasiado esperto para se deixar abater por uma flecha que estava certamente à espera. Uma após outra, Heitor aparou com o escudo as flechas. Teucro ficou furioso—e a raiva levou-o a cometer um erro fatal: saiu do seu esconderijo. Heitor estava à espera dele. Já não tinha consigo nenhuma lança, mas encontrara uma pedra que, nas suas mãos, valia tanto como uma lança. Atingiu Teucro no ombro direito e o irmão de Ájax caiu por terra como um touro num sacrifício. Demasiado ocupado para reparar no que acontecera, Ájax continuou a combater . Ah, ali, ali! O meu grito de alívio ecoou numa dúzia de gargantas quando a cabeça de Teucro se elevou no meio dos cadáveres. Vimo-lo depois rastejando por entre mortos e feridos na direção de Ájax. Agora, porém, Teucro era apenas mais um peso que o irmão teria de arrastar; os troianos continuavam a carregar . Olhei desesperadamente para a retaguarda, para ver a que distância estávamos das nossas muralhas; fiquei assustado: as nossas últimas linhas penetravam no acampamento.
Ulisses e Agamêmnon conseguiram que a retirada terminasse sem pesadas baixas. Finalmente, podíamos refugiar-nos na nossa cidade de pedra. Além disso, estava demasiado escuro para que Heitor se atrevesse a perseguir-nos. Deixamo-los do outro lado do fosso e da paliçada, escarnecendo de nós e rosnando como cães furiosos colados às nossas pernas.

Capítulo Vigésimo Quinto   Narrado por Ulisses

Não foi uma reunião muito alegre aquela que tivemos nessa noite em casa de Agamêmnon; pouco mais fizemos do que entregarmo-nos à entediante tarefa de recuperar as forças para o dia seguinte. Doía-me a cabeça, a minha garganta estava ferida de tanto gritar, os meus flancos estavam em carne viva devido ao atrito da couraça e apesar da proteção almofadada que usava por baixo. Todos nós apresentávamos pequenas feridas—peles esfoladas, escoriações diversas, cortes dos tipos mais variados - e o sono apoderava-se já de nós. — Um tremendo revés—disse Agamêmnon, no meio de um silêncio exausto. Tremendo, Ulisses. Diomedes correu a defender-me. — Tal como Ulisses previra!—exclamou. Nestor aquiesceu. Pobre Nestor . Pela primeira vez, parecia ter a idade que realmente tinha e não era para admirar . Perdera dois filhos naquele dia. Com uma voz que o esgotamento tornara aguda, disse:—É cedo para desesper, Agamêmnon. A hora da vitória chegará para nós—e tornará doces todas as derrotas. — Eu sei, eu sei!—exclamou Agamêmnon. — Seria melhor que alguém fosse contar a Aquiles—disse Nestor, num murmúrio apenas audível para aqueles que conheciam o nosso plano.—Ele está cumprindo o prometido, mas, se não o mantivermos informado, pode muito bem avançar antes do tempo. Agamêmnon trespassou-me com o seu olhar . — Ulisses, a idéia foi tua: vá visitar Aquiles. Arrastei-me exausto na direção do acampamento de Aquiles. Obrigar-me a atravessar todo o acampamento grego (já que a base de Aquiles ficava num dos extremos) fora a maneira que Agamêmnon encontrara para se desforrar de mim. Contudo, enquanto caminhava, descansado e tranqüilo, a energia começou lentamente a voltar aos meus músculos. Acabei por me sentir mais retemperado depois deste pequeno esforço do que me sentiria se tivesse dormido a noite inteira. Quem me visse pensaria por certo que Agamêmnon me mandara insistir junto de Aquiles para que mudasse de idéia. Os soldados não ficaram por certo surpreendidos quando me viram atravessar a porta do acampamento mirmidão. Os homens de Aquiles—tanto os
mirmidões como todos os outros soldados da Tessália—miraram-me com um ar triste. Estavam ávidos de guerra—e reduzidos à mais absoluta impotência. Quando entrei na casa de Aquiles, estava este aquecendo as mãos junto ao trípode de fogo, tão esgotado e nervoso como qualquer um dos chefes que haviam combatido durante aqueles dois dias. Pátrocles estava sentado diante dele: diria que o seu rosto não era feito nem de carne nem de pele, mas sim de granito. Creio que não fiquei surpreendido com a atitude de Pátrocles: a causa era evidente e tinha um nome de mulher, Briseida. O meu relacionamento com Diomedes era tão amistoso quanto sensual, uma ligação que fazia todo o sentido naquelas circunstâncias e que nos proporcionava um prazer extremo. Porém, se ele ou eu quisesse dormir com uma mulher, não havia mal nenhum. Não era nenhuma catástrofe, nenhum de nós se sentia traído. Pátrocles amava e imaginara-se em segurança, permanentemente livre de rivais. Ao passo que Aquiles, como todos os homens que ardem por outras coisas que não a carne, não se entregara verdadeiramente ao seu amante. Sentindo-se atraído apenas por homens, Pátrocles considerava que fora cruelmente traído. Pobre Pátrocles... Pobre, apenas porque amava. — Que te traz ao meu acampamento?—perguntou Aquiles num tom o mais azedo possível. - Pátrocles, pede aos escravos que tragam comida e vinho para o rei. Suspirando grato, sentei-me numa cadeira enorme e esperei que Pátrocles saísse. — Ouvi dizer que as coisas correram mal—disse Aquiles logo que o amigo saiu. — Como se esperava, Aquiles. Não se esqueça disso—retorqui.—Heitor conseguiu que os seus soldados lutassem duramente durante todo o dia, mas Agamêmnon não conseguiu o mesmo dos nossos. A retirada começou logo que começaram os murmúrios—todos os augúrios estavam contra nós, o céu estava cheio de águias voando do lado esquerdo, uma luz dourada banhava a cidadela de Tróia e outras coisas do gênero. Quando os homens desatam a falar de sinais aziagos, não há nada a fazer . De maneira que recuamos e Agamêmnon teve de nos conduzir para o interior das fortificações a fim de passarmos a noite. — Disseram-me que Ájax e Heitor tinham travado um duelo. — Sim, um duelo que durou mais de uma oitava parte da tarde—e que,
mesmo assim, não chegou ao seu desfecho. Mas não se preocupe, Aquiles. Heitor será para você! — O problema não é esse, Ulisses: o problema é que há homens morrendo sem qualquer necessidade! Deixe-me combater amanhã! Por favor! — Não—retorqui eu, num tom categórico.—Só combaterá quando o nosso exército correr perigo de aniquilamento. Ou quando os navios começarem a arder—caso Heitor consiga entrar no nosso acampamento. Mesmo em tais circunstâncias, dirá a Pátrocles que comande as suas tropas —não deve ser você a sair com elas.—Fitei-o gravemente.—Não se esqueça do juramento que fez diante de Agamêmnon. — Fique tranqüilo, Ulisses, eu cumpro sempre aquilo que juro. Aquiles baixou a cabeça e caiu num silêncio que parecia interminável. Quando Pátrocles voltou, foi assim que nos viu: Aquiles todo curvado e eu olhando, com um ar ausente, para a sua cabeleira dourada. Pátrocles ordenou aos criados que pusessem a comida e o vinho na mesa. Depois, ficou tão parado e frio como uma coluna de gelo. Aquiles lançou-lhe um breve olhar e logo se virou para mim. — Diga a Agamêmnon que não volto atrás na minha palavra—disseme ele num tom perfeitamente formal.—Diga-lhe que arranje outro para o salvar dos apuros em que se meteu. Ou então que me devolva Briseida. Bati na coxa, fingindo que estava exasperado. — Como quiser, Aquiles. — Fique e coma, Ulisses. Pátrocles, vá deitar-se. Nunca naquela casa! Pátrocles deu meia volta e disparou porta fora. Podia ser que dormisse mais tarde; porém, quando deixei o acampamento mirmidão, sentime tão cheio de vida, tão cheio de energia, que desejei fazer uma maldade qualquer . Foi por isso que me encaminhei para o pequeno vale onde a minha colônia de espiões continuava alojada. Muitos dos meus agentes que tinham ficado no acampamento (outros tantos estavam a viver em Tróia) estavam acabando de jantar; Tersita e Sinão saudaram-me calorosamente. — Novidades?—perguntei, enquanto me sentava. — Uma novidade muito interessante—disse Tersita.—Ia procurá-lo por causa dela. — Ah! Sou todo ouvidos, Tersita! — Quando a batalha terminou, chegou a Tróia um novo aliado—um primo distante de Príamo, chamado Reso.
— Quantos soldados trouxe? Sinão riu-se. — Nenhum! Reso não passa de um fanfarrão. Se o picarmos, só sai vento! Intitula-se aliado de Tróia, mas, de fato, é um refugiado! Foi corrido pelo seu próprio povo... — Sim senhor, sim senhor!—disse eu, e esperei pelo resto. — Reso possui um trio de magníficos cavalos brancos que são referidos num oráculo troiano—disse Tersita.—Diz esse oráculo que os cavalos de Reso são os filhos imortais do alado Pégaso, tão velozes como Bóreas e tão selvagens como Perséfona antes de Hades a ter possuído. Se esses cavalos beberem água do Escamandro e comerem erva troiana, Tróia nunca cairá. Uma promessa, diz o oráculo, de Poseidon, o qual, no entanto, parece que está do nosso lado. — Eu sei que Poseidon está do nosso lado, mas diga-me uma coisa: os cavalos já beberam água do Escamandro e já comeram erva troiana? — A erva, já comeram, mas na água do Escamandro ainda não tocaram. — Não sou eu quem os vai censurar!—retorqui, divertido.—Eu também não beberia daquela água! — Príamo ordenou que lhe trouxessem um ou dois baldes de água do Escamandro, mas de um local mais próximo da nascente...—disse Sinão, tão divertido como eu.—O rei de Tróia decidiu transformar a coisa numa cerimônia pública. Os cavalos vão beber dos baldes amanhã ao alvorecer . Entretanto, coitados dos cavalos, vão passar uma sede horrível! — Muito interessante...—Levantei-me, esticando braços e pernas.— Tenho de ver essas fabulosas criaturas com os meus próprios olhos. Creio que, se tivesse um trio de cavalos brancos, poderia dar à minha imagem um pouco mais de... como dizer?... elegância. — Sim, de fato um bocadinho mais de elegância não lhe ficaria nada mal zombou Sinão. — Um bocadinho? Um bocadão!—ajudou Tersita. — Muito grato pelas vossas apreciações, meus senhores! Digam-me: onde é que eu posso encontrar esse trio imortal? — Isso nós não conseguimos saber—respondeu Tersita, franzindo o sobrolho.—Sabemos apenas que se encontram na planície, com o resto do exército troiano. Diomedes, Agamêmnon e Menelau estavam à minha espera nas proximidades da minha casa; avancei descontraidamente na direção deles como se estivesse a dar um passeio higiênico. Sorri para Diomedes, um
sorriso cujo significado ele conhecia bem e que o encheu de entusiasmo. — Aquiles está calmo—disse eu para Agamêmnon. — Os deuses sejam louvados! Assim posso ir deitar-me. Logo que Menelau e Agamêmnon partiram, entrei na minha casa com Diomedes e chamei um criado. — Traga-me um traje de cabedal leve e dois punhais—disse eu. — Então o melhor é eu ir equipar-me de igual modo—disse Diomedes. — Encontramo-nos na ponte do Simoente. — E quando é que dormimos? — Mais tarde, mais tarde! Envergando um cabedal macio e escuro, e com dois punhais no cinto, Diomedes foi ter comigo à ponte do Simoente. Protegidos pelas sombras, atravessamos silenciosamente a ponte; logo a seguir à ponte, vinham os fossos e a paliçada. — Qual é o nosso objetivo?—murmurou ele. — Apetecia-me ter um trio de cavalos brancos imortais... — Com um trio desses, vais melhorar muito a tua imagem... Lancei-lhe um olhar desconfiado. — Não me diga que esteve falando com Sinão e Tersita! — Não, não estive—retorquiu ele com o ar mais inocente deste mundo. Onde é que estão os cavalos? — Não faço idéia. É algum lugar no meio desta escuridão. — É o mesmo que procurar uma pulga na pele de um urso. Apertei-lhe o braço. — Cale-se! Vem alguém. Mentalmente, saudei a minha protetora: a minha querida Palas Atena, a Dama Coruja, trazia-me sempre sorte. Escondemo-nos no fosso junto à ponte e esperamos. Saído da escuridão da noite, um homem avançou rapidamente na direção da ponte. Ouvia-se a armadura dele a tilintar: para andar de armadura naquelas circunstâncias, só poderia ser um espião amador . E nem sequer se lembrou de se furtar ao luar—extraordinário! Os raios da lua banharam-no por um longo momento, revelando um homem baixinho e gordo, envergando uma armadura que lhe devia ter custado bom dinheiro. Coroando o elmo, lá estava a pluma púrpura de Tróia. Deixamo-lo aproximar-se de nós e só depois saltamos sobre ele. Tapei-lhe a boca, sufocando-lhe o grito; Diomedes prendeu-lhe os braços atrás das costas; depois, atiramo-lo violentamente para o chão. O homem fitou-nos com uns
olhos que, de tão esbugalhados, quase lhe saíam das órbitas; tremia tanto como uma alforreca. Não, não era um dos espiões de Palamedes. Com certeza trabalhava por conta própria. — Quem é você?—rosnei-lhe eu num murmúrio feroz. — Dólon—conseguiu ele dizer . — Que faz aqui, Dólon? — O príncipe Heitor pediu voluntários para irem ao acampamento grego, porque queria saber se Agamêmnon tenciona sair amanhã. Estúpido Heitor! Por que raio é que ele não deixava a espionagem nas mãos de profissionais como Palamedes? — Um homem chegou esta noite. Reso. Onde fica o acampamento dele? perguntei, afagando a lâmina do meu punhal. O homem engoliu em seco e desatou numa tremedeira. — Não sei, não sei!—baliu o desgraçado. Diomedes aproximou-se dele e, calmamente, cortou-lhe uma orelha. Depois, mostrou-lhe o apêndice que acabara de perder, enquanto eu lhe tapava a boca para ele não gritar . Só lhe tirei a mordaça da minha mão quando ele percebeu que tinha mesmo que falar . — Fala, serpente!—atirei-lhe. O homem falou. E quando acabou de falar partimos-lhe o pescoço. — Olhe só para estas jóias, Ulisses!—exclamou o meu amigo. — Um homem muito rico... Talves, era daqueles que se dedicam a roubar os mortos depois da batalha. Enfim, um homem que não era digno das atenções de Heitor . Tira-lhe as bugigangas todas que ele traz e esconde-as. Quando voltarmos, leve-as para o seu baú. Será a tua parte dos despojos desta noite, pois eu quero ficar com os cavalos. Diomedes pôs-se a apreciar uma enorme esmeralda. — Não posso me queixar, Ulisses... Só com esta esmeralda, poderei comprar cem cabeças de gado para povoarem a planície de Argos. Encontramos o acampamento de Reso exatamente no lugar que Dólon indicara. Numa elevação próxima, paramos para combinar a nossa estratégia. — Que idiota!—murmurou Diomedes.—Porque é que está tão isolado? — Deve sentir-se superior aos outros... Quanto vê? — Uma dúzia. Mas não sei dizer quem é Reso. — Sim, também contei uma dúzia. Primeiro matamos os homens, depois levamos os cavalos. Sem barulho.
Com os punhais entre os dentes, deslizamos silenciosamente, Diomedes na direção da fogueira, eu na direção oposta. Em operações deste gênero, a prática é muito útil; a escassa corte de Reso morreu enquanto dormia, e os cavalos, vagas formas brancas no negrume da noite, não chegaram a assustar-se. Foi fácil descobrir quem era Reso. Também ele era um colecionador de jóias. Era o que estava mais perto da fogueira; as jóias cintilavam ao sabor das chamas. — Olha só para esta pérola!—sussurrou Diomedes, erguendo-a à luz da lua. — Mais mil cabeças de gado—disse eu, sussurrando ainda mais baixo do que ele, pois havia sempre o perigo de alguém aparecer inesperadamente. Os cavalos tinham sido amordaçados, não fossem romper as cordas e desatar a correr para o Simoente a fim de matarem a sede. Melhor para nós; desse modo, não haveria relinchos. Enquanto eu procurava os cabrestos e saudava o meu novo trio de cavalos, Diomedes procedeu à colheita de tudo o que valesse a pena levar para o nosso acampamento; depois, colocou a carga no dorso de uma mula. E foi assim que regressamos à ponte do Simoente, onde o meu amigo de Argos juntou aos seus tesouros as jóias de Dólon. Agamêmnon não ficou nada satisfeito por eu tê-lo acordado. Mas desatou a rir mal lhe contei a história de Reso e dos seus cavalos. — Percebo que queira ficar com os filhos do alado Pégaso, Ulisses, mas...e o pobre Diomedes? Com que é que ele fica? — Estou satisfeito com o que tenho—respondeu o astuto Diomedes, com um ar muito nobre. Sim, aquela era a resposta certa. De fato, porque haveria Diomedes de dizer a Agamêmnon—que tinha um baú de guerra para encher—que acumulara uma fortuna formidável apenas numa noite? A história dos cavalos de Resos era já o tema de todas as conversas quando, ao amanhecer, os nossos homens tomaram o desjejum; ficaram deliciados com a novidade e saudaram-me entusiasticamente quando passei com o meu novo trio de cavalos na direção da ponte do Simoente, à frente mesmo de Agamêmnon, que queria que Tróia visse. Tróia viu e não gostou. A batalha foi sangrenta, crudelíssima. Agamêmnon aproveitou uma oportunidade única e cavou uma profunda brecha na linha troiana, obrigando-os a se retirar . Os nossos homens ficaram
entusiasmados com a perspectiva de acabarem com eles e forçaram-nos a recuar até perto das muralhas de Tróia. Aí, porém, os Troianos, em muito maior número do que nós, voltaram a juntar-se e a organizar-se e a nossa sorte mudou por completo. De súbito, os reis começaram a ceder . O primeiro foi Agamêmnon, que nesse dia estava cheio de energia e de ânimo. Quando seguia ao longo da linha, na nossa direção, abateu com uma lança um homem que tentou detê-lo, mas não viu o homem que vinha atrás e que cravou a sua lança na coxa do rei supremo. A ponta da lança era farpada, a ferida sangrava copiosamente; o nosso rei supremo viu-se forçado a deixar o campo de batalha. Depois, foi a vez de Diomedes. Conseguiu atingir o elmo de Heitor com um dardo, deixando-o atordoado por um momento. Radiante, Diomedes avançou para desferir o golpe fatal enquanto eu me concentrava nos cavalos e no condutor de Heitor, procurando imobilizar o carro. Nenhum de nós viu a figura que se ocultava por detrás do carro até que ela se ergueu com o arco preparado para disparar, os dentes brancos cintilando num sorriso quando lançou a flecha. Esta quase se cravava no chão. Mas não era o chão o seu alvo: era o pé do meu amigo de Argos. Preso ao chão pela flecha, Diomedes amaldiçoou o arqueiro e prometeu vingar-se dele. Páris— pois era esse o nome do arqueiro—escapuliu-se num ápice. Não havia dúvida: Tróia também tinha um Teucro. — Abaixa-se e arranquea-a!—gritei para Diomedes, correndo para protegê-lo com alguns dos meus soldados de Ítaca. Diomedes fez o que eu lhe disse enquanto eu brandia um machado que tirara de um morto. Não era a minha arma preferida; o machado era demasiado pesado e difícil de manejar; porém, para rechaçar um anel de inimigos, não havia melhor . Decidido a permitir que Diomedes recuasse em segurança, empunhei ferozmente a medonha arma até que o meu amigo conseguiu afastar-se, coxeando e cheio de dores, demasiado incapacitado para poder continuar num campo de batalha. Nesse exato momento, também eu fui atingido. Alguém arremessou uma lança e com tal pontaria que a maldita lança se cravou na barriga da minha perna, um pouco abaixo dos tendões do jarrete. Os meus soldados rodearamme até eu conseguir arrancá-la, mas a ponta da lança era farpada e levou consigo um grande pedaço de carne. Sangrando abundantemente, tive de perder um tempo precioso estancando a ferida com ligaduras que fiz com a roupa de um morto.
Menelau e os seus espartanos chegaram entretanto para nos ajudar; a muito custo, consegui juntar-me a eles. Ájax apareceu também e ele e Menelau afastaram-se um pouco para que eu pudesse esconder-me atrás do carro de Menelau. Um guerreiro glorioso, Ájax! Com o sangue fervendo, ceifava tudo à sua volta com uma energia que eu nunca poderia ter . E foi assim que conseguiu que os Troianos recuassem. Um dos chefes troianos reagiu, fazendo avançar mais e mais homens e estacando assim o recuo. Por muitos inimigos que os nossos valorosos soldados e o poderoso Ájax conseguissem ceifar, havia sempre soldados troianos prontos a tomarem o lugar dos camaradas mortos, saltando para a batalha como os soldados saltando dos dentes do dragão. Agradecendo aos deuses que Heitor tivesse desaparecido, tratei de fazer alguma coisa de útil, pedindo que se procedesse a uma concentração das nossas forças naquela área. Euripilo era o chefe que estava mais perto e não demorou, avançando por um dos lados: mesmo a tempo de apanhar com uma flecha de Páris num dos ombros. Macáon veio logo a seguir e teve a mesma sorte. Páris. Ah, o verme! Não desperdiçava flechas com soldados; escondia-se num lugar seguro e confortável e esperava que aparecesse um príncipe. Nisso divergia de Teucro, pois Teucro disparava contra qualquer alvo. Por fim, não sei bem como, consegui chegar à retaguarda, onde encontrei Podalírio tratando de Agamêmnon e Diomedes, que aguardavam desconsolados a evolução da lida, tão próximos da batalha quanto a sua ousadia permitia. Foi com horror que viram chegar a mim, logo seguido de Macáon e Euripilo. — Mas porque é que você combate, meu irmão?—perguntou Podalírio, furioso, enquanto deitava Macáon no chão. — Trata primeiro de Ulisses—disse o ofegante Macáon, cuja ferida sangrava lentamente. E foi assim que a minha ferida foi tratada e ligada em primeiro lugar; Podalírio tratou depois Euripilo, preferindo cravar um pouco mais a flecha no ombro antes de tirá-la, pois temia que os danos fossem maiores se a arrancasse com uma força parecida com aquela com que a flecha se cravara. — Onde está Teucro?—perguntei, afundando-me ao lado de Diomedes. — Ordenei-lhe que abandonasse o campo de batalha—disse Macáon, ainda à espera da sua vez. - Por causa do golpe de Heitor, o ombro de Teucro inchou de tal maneira que, agora, mais parece a rocha com que
Heitor o atingiu. Tive de drenar uma parte do fluido que se concentrou no inchaço. Tinha o braço completamente paralisado mas agora já consegue mexê-lo. — As nossas hostes estão minguando—disse eu. — Muito—disse Agamêmnon com um ar pesaroso.—Os soldados também se deram conta disso. Não percebeu a mudança? — Sim, percebi—retorqui, levantando-me e experimentando a minha perna.—Sugiro que regressemos ao acampamento antes que o pânico tome conta dos homens. Os soldados não tardarão a retirar rumo à praia, mesmo que não haja ordens nesse sentido. Apesar de ter sido eu o responsável pela retirada, nem por isso deixei de a considerar um rude golpe. Eram muito poucos os reis que restavam para controlar os homens; dos principais chefes, só Ájax, Menelau e Idomeneu permaneciam no campo de batalha. Uma secção da nossa linha rompeu-se; a brecha alargou com uma velocidade surpreendente. Inopinadamente, todo o exército virou as costas e desatou a fugir para a segurança do acampamento. Eram tão estridentes os gritos de Heitor que conseguia ouvilos do alto das nossas muralhas; pouco tempo depois, os Troianos mais pareciam cães esfomeados perseguindo uma presa. Os nossos homens estavam ainda entrando no acampamento através da ponte do Simoente, com os Troianos atacando a sua retaguarda, quando Agamêmnon, lívido de terror, deu as suas ordens. A porta foi fechada antes que o último—e o mais corajoso—dos homens conseguisse entrar . Tapei os ouvidos e fechei os olhos. A culpa é tua, Ulisses! Tudo por culpa tua! Era demasiado cedo para que uma batalha terminasse. Heitor tentaria assaltar as nossas muralhas. Vagando pelo acampamento, as nossas tropas demoraram algum tempo a juntar-se e a entender que, agora, a sua tarefa consistiria em defender as fortificações. Escravos correram a aquecer caldeirões de água para derramar sobre as cabeças daqueles que tentassem escalar as muralhas; não nos atrevíamos a usar azeite fervendo, pois temíamos que as muralhas acabassem por arder . As pedras já se encontravam empilhadas ao longo das muralhas há vários anos, pois nós sabíamos prever as emergências. Os Troianos, frustrados, concentraram-se ao longo da trincheira, os chefes rodando impacientes nos seus carros, exortando os homens a formarem de novo. Heitor continuava no seu carro dourado, com o seu velho condutor, Quebríones, controlando agora as rédeas. Apesar do
renhido conflito, parecia tão ereto e confiante como sempre. Pois que parecesse. Pousei o queixo sobre as mãos enquanto os nossos homens começavam a preencher os espaços à minha volta no topo das muralhas e preparei-me para ver o que iria Heitor fazer para lançar o seu assalto. Porque, das duas uma: ou estava disposto a sacrificar muitos dos seus soldados ou tinha de definir um plano muito mais perspicaz do que o recurso à simples força bruta.

Capítulo Vigésimo Sexto     Narrado por Heitor

Encurralei-os dentro das suas próprias muralhas como se fossem ovelhas; a vitória, apertava-a já na palma da minha mão—e não me fugiria! Eu, que vivera toda a minha vida dentro de muralhas, sabia, muito melhor do que qualquer outro homem, como lançar um assalto efetivo a fortificações de todo o gênero. Em todo o mundo conhecido, só as muralhas de Tróia eram realmente invulneráveis. Aquele era o meu grande momento. Sentia já a glória de uma vitória sobre Agamêmnon e jurava que, acontecesse o que acontecesse, faria com que esse rei arrogante conhecesse o desespero que nós experimentávamos desde o dia em que os seus mil navios haviam saído de Ténedo. Uma fileira de cabeças erguia-se já na patética muralha, enquanto eu inspecionava as tropas do alto do meu carro, com Polidamas a meu lado. Quebríones fora buscar água para os cavalos. — Que acha?—perguntei a Polidamas. — Bom, é claro que não estamos diante de nenhuma Tróia... No entanto, estas muralhas apresentam alguns perigos. As duas passagens, tão longe uma de outra, foram uma medida inteligente. A trincheira e a paliçada também foram obra de peritos. Já percebeu o erro deles? — Já. O espaço entre a muralha e a trincheira é demasiado amplo— respondi.—Usaremos as passagens deles, mas não para atacar as portas. As usaremos para atravessar a paliçada e a trincheira. Depois, os nossos homens avançarão ao longo da trincheira a fim de atacarem a própria muralha. Esta é uma zona em que a extração de pedra é muito difícil. Daí que eles tivessem de recorrer à madeira, exceto no que toca às torres de vigia e aos contrafortes. Palamedes aquiesceu. — Sim, eu faria exatamente o mesmo, Heitor . Mando homens a Tróia para trazerem combustíveis? — Imediatamente—tudo o que possa arder, mesmo a vulgar gordura usada nos cozidos. Enquanto trata disso, convocarei uma reunião dos meus chefes, disse eu. Quando Páris—o último a chegar, como sempre—apareceu, anunciei ao grupo o que tencionava fazer .
— Dois terços do exército penetrarão através da passagem do Simoente, um terço através da passagem do Escamandro. Vou dividir as tropas em cinco segmentos. Eu comandarei o primeiro, com Polidamas. Páris, você ficará com o segundo. Heleno, você comandará o terceiro, com Deífobo. Os nossos três segmentos se dirigirão para o Simoente. Enéias, você ficará com a quarta seção e rumarás ao Escamandro. Sarpédon e Glauco seguirão também para o Escamandro. Heleno estava radiante porque eu lhe dera o comando de um dos segmentos, preterindo Deífobo, o qual não conseguia decidir se estava mais furioso com essa desconsideração ou com o fato de Páris comandar a sua própria divisão. Enéias também não ficou muito feliz por eu o ter associado a Sarpédon e Glauco: para ele, era como se estivesse a considerá-lo um estrangeiro. — Quando os homens chegarem às extremidades interiores das passagens, mudarão de rumo a fim de caminharem na direção uns dos outros; aqueles que chegarem ao Simoente seguirão na direção do Escamandro e vice-versa, até preencherem todo o espaço ao longo da muralha, entre a própria muralha e a trincheira. Entretanto, os não combatentes desmantelarão a paliçada e usarão as estacas para fazer escadas e achas para o fogo. O fogo será o nosso melhor instrumento. O fogo fará com que a muralha grega desmorone. Por isso, a nossa primeira tarefa consistirá em atear fogo à muralha, de tal modo que os defensores não consigam apagá-lo. Entre os chefes, encontrava-se o meu primo Ásio, uma criatura insuportável pois tinha a mania de pôr sempre em duvida as minhas ordens. — Heitor—disse ele bem alto, para que todos ouvissem—,não vai usar a tua cavalaria? — Claro que não—retorqui, sem a menor hesitação.—De que nos serviria a cavalaria? A última coisa de que precisamos é de cavalos e de carros enfiados num espaço fechado. — Então e não atacamos as portas? — Ásio, os Gregos terão a maior facilidade em defender as portas. — Essa agora ... !—atirou-me Ásio com um ar desdenhoso.—Pois bem: deixa-me mostrar-te como é que se faz! Antes que eu pudesse contrariá-lo, Ásio lançou-se numa corrida imparável, gritando para que os homens do seu esquadrão o seguissem nos
seus carros. E lá foi ele na direção da passagem do Simoente. Embora fosse uma passagem ampla, a verdade é que um trio de cavalos também ocupa muito espaço; os cavalos das pontas ficaram em pânico mal viram as estacas pontiagudas que se projetavam do fosso de cada lado da passagem; ao fim de pouco tempo, esse pânico comunicou-se também ao cavalo do meio. Num abrir e fechar de olhos, os três cavalos empinaram-se e pararam, lançando o caos entre os aurigas que vinham atrás de Ásio. Enquanto o condutor de Ásio fazia um esforço hercúleo para controlar os cavalos, as portas no final da passagem abriram-se um pouco. Pela bandeira, concluí que eram Lápitas; estremeci de medo. Ásio era um homem morto. Um dos dois chefes dos Lápitas arremessou a sua lança, que trespassou o peito do pobre fanfarrão. Sob o impacto da lança, Ásio deu um salto enorme no seu carro e foi esparramar-se em cima das estacas do fosso. O condutor do carro foi a vítima seguinte; os Lápitas esconderam-se atrás do carro e assim atacaram os que vinham atrás de Ásio. Não havia nada que eu pudesse fazer . Terminada a carnificina, os Lápitas retiraram em boa ordem e as portas do Simoente foram fechadas. Agora, antes de fazer avançar os meus homens, teria de limpar a passagem do Simoente de todos aqueles cadáveres. Porém, Enéias, Sarpédon e Glauco demorariam ainda algum tempo para chegar à passagem do Escamandro—a qual, concluí com satisfação, não disporia de defensores. Com efeito, Aquiles era o homem que estava mais próximo das portas do Escamandro—e Aquiles recusara-se a cumprir o seu dever perante Agamêmnon. Para ele, uma moça tonta era mais importante do que os seus concidadãos. Mas que farsante ... ! Os homens avançaram em passo de corrida e viraram para dentro ao longo da base da muralha, saudados por uma tempestade de lanças, flechas e pedras. Com os escudos sobre as cabeças, pouco sofreram com tais mísseis, enquanto se encaminhavam firmemente na direção da passagem do Escamandro, onde as tropas estrangeiras começavam também a virar para dentro. Os não combatentes estavam desmantelando a paliçada de madeira, fazendo escadas com as estacas mais compridas e cortando as outras para que servissem de combustível para a fogueira. Azeite, pez e gordura dos cozidos começavam a chegar de Tróia quando tive a idéia de ordenar aos meus homens que construíssem estruturas sobre as quais poderiam colocar os seus escudos, servindo-lhes estes de telhado.
As fogueiras não tardaram a ser acesas; vi a fumaça começando a subir na direção dos rostos de súbito assustados ao longo do topo da muralha. Cascatas de água desciam do alto das muralhas, mas algumas das minhas coberturas tinham sido adaptadas de forma a protegerem as fogueiras, impedindo a sua extinção; por outro lado, o azeite, de mistura com a água, provocava uma fumarada horrenda, o que era, para nós, uma grande vantagem. Tentamos escalar a muralha com as escadas, mas os Gregos eram demasiado astutos para permitirem que tal acontecesse. Ájax não parava ao longo da seção central, onde eu estava, atroando vigorosamente o seu grito de guerra e derrubando escadas com o poderoso pé. Um desperdício, enfim. Ordenei a cessação do assalto. — Só vamos lá com o fogo—disse eu a Sarpédon, cujas tropas já tinham se encontrado com as minhas. As primeiras fogueiras—as da nossa secção—depressa pegaram, e com que fúria! Arqueiros lícios mantinham as cabeças no parapeito baixo sob as coberturas, enquanto outros lícios e os meus troianos alimentavam as fogueiras. — Deixe-me tentar o assalto às muralhas—pediu Sarpédon. Escudadas pela fumarada, as escadas foram encostadas à muralha e aí ficaram enquanto os arqueiros de Sarpédon disparavam uma chuva de flechas na direção dos defensores. Então, como que por magia, as plumas dos elmos lícios começaram a ondular no topo da muralha; logo encontraram oposição. Ouvi um chefe grego pedir reforços, mas eu não estava à espera de Ájax e dos seus salaminianos. Ao fim de breves momentos, a pequena vitória transformou-se numa derrota fragorosa; corpos caíam aos nossos pés, gritos de guerra lícios transformavam-se em gritos de dor . E Teucro estava atrás do escudo do irmão, disparando os seus dardos, não para a confusão de homens que se encontrava no alto das muralhas, mas para nós, que estávamos em baixo. Depois de um gemido sufocado ao meu lado, senti o peso de alguém que, ao cair, se agarrava desesperadamente a mim; ajudei Glauco a deitar-se na terra; tinha uma flecha espetada no ombro, apesar da armadura. A ferida era demasiado profunda. Olhei para Sarpédon e abanei a cabeça; da boca de Glauco saia já uma espuma rósea, sinal de morte iminente. Sarpédon e Glauco eram como gêmeos: haviam governado juntos e o seu amor permanecia incólume há muitos, muitos anos. A morte de um deles
significaria por certo a morte do outro. Os gritos angustiados de Sarpédon ouviram-se por um breve momento apenas; depois, Sarpédon pegou numa manta que cobria um soldado ferido, envolveu com ela o rosto e os ombros e avançou sem medo por cima de uma das fogueiras. Um pouco acima, havia uma corda suspensa de um gancho, uma corda em que os Gregos não tinham reparado, tal era a sua ânsia em afastarem os Lícios do topo das muralhas. Sarpédon agarrou-se à corda e içou o seu corpo com uma força que parecia sobre-humana, tão grande era a dor que sentia devido à morte de Glauco. A madeira chiou e rangeu, os toros enegrecidos começaram a abrir fendas e a partir-se; de súbito, uma secção enorme da muralha abateu-se diante dos nossos olhos. Os infelizes troianos que se encontravam debaixo dela morreram esmagados; os infelizes gregos que estavam no alto dessa secção afundaram tão rapidamente como a muralha; num instante, toda a secção central da minha linha foi varrida pela destruição. Através do buraco assim aberto, pude ver os altos edifícios de pedra e os alojamentos de madeira dos soldados, e, para lá das construções, as imensas filas de navios, e o cinzento Helesponto. Então, Sarpédon tapou-me a vista; lançou fora a manta, pegou a espada e o escudo e penetrou no acampamento grego, anunciando, com uivos medonhos, a morte dos seus inimigos. Os Gregos dispersaram antes de nós avançarmos; os nossos homens eram como uma torrente invadindo o acampamento inimigo. Momentos depois, porém, os Gregos voltaram a ajuntar-se e enfrentaram-nos. Ájax estava presente e ele era uma peça decisiva na resistência; porém, naquele caos, nunca encontraríamos o espaço necessário para travarmos um duelo. Nenhuma das linhas da frente cedia um passo que fosse; Idomeneu e Meríona trouxeram os seus soldados cretenses e, nesse momento, o meu irmão Alcátoo encontrou a morte. Afastei as lágrimas dos meus olhos e amaldiçoei a minha fraqueza, ainda que esta fosse feita mais de fúria do que de mágoa. Com uma tal fraqueza, combateria ainda melhor . Rostos apareciam e desapareciam—Enéias, Idomeneu, Meríona, Menesteu, Ájax, Sarpédon. Havia agora muitos troianos entre os lícios e os dardanianos; olhei de relance para trás e verifiquei que a brecha na muralha aumentara muito de tamanho. Só as plumas cor de púrpura obstavam a que matássemos os nossos próprios homens, tão apinhado era o campo de batalha, tão violentamente disputado era o terreno. Homens morriam estupidamente, homens morriam corajosamente;
constantemente escorregávamos em seixos que não eram seixos, mas sim cadáveres e, em certos lugares, o amontoado de homens era tal que os mortos ficavam em pé, as bocas escancaradas, o sangue jorrando fervilhante das feridas. Os meus braços e o meu peito estavam forrados de sangue de outros homens, todo o meu corpo escorria sangue. Polidamas apareceu de repente a meu lado. — Heitor, precisamos de você. Um grande número dos nossos soldados já entrou no acampamento através da brecha, mas os Gregos são fortes. Por favor, segue para o Simoente o mais depressa possível! Precisei de algum tempo para retirar sem semear o pânico entre aqueles que ficavam; por fim, porém, consegui recuar até encontrar a muralha grega, junto à qual segui, animando constantemente os homens, lembrandolhes que a vitória só seria nossa quando queimássemos os mil navios e impedíssemos o inimigo de regressar à sua pátria. A meio do meu caminho, houve alguém que me passou uma rasteira. Quase lhe cortava a cabeça; só não lha cortei porque, antes de desferir o golpe fatal, verifiquei que o inimigo era afinal Páris, o meu irmão, que estava perdido de riso! — Por todos os deuses! Não vê onde pões os pés?—perguntou-me ele. Fitei-o abismado. — Páris, você não pára de me surpreender! Há homens morrendo por todo o lado e você aqui escondido, seguro e confortável! Até tem tempo para se divertir, passando-me rasteiras! A minha repreensão não chegava para apagar o sorriso dele. — Bom, se pensa que vou pedir perdão, está muito enganado! Se não fosse eu, você não estaria hoje aqui! Quem é que mandou os chefes gregos para a enfermaria com as suas flechas? Hã? Quem é que obrigou Diomedes a deixar o campo de batalha? Hã? Icei-o pelos seus longos caracóis negros e coloquei-o de pé. — Então mande mais chefes para a enfermaria!—rosnei-lhe.—Porque não experimenta com Ájax? Hã? Lançando-lhe um olhar prenhe de ódio, Páris escapuliu-se num instante; logo descobri que a parte da nossa linha que estava com problemas era precisamente aquela que sofria o ataque de Ájax e de um grande contingente de salaminianos. Toda a frente da batalha mudara de direção. Lutávamos agora por entre as casas, uma lida difícil e perigosa; cada edifício albergava gregos—cada
edifício era uma emboscada. Porém, aqueles que se encontravam no terreno estavam recuando na direção da praia e dos navios. Ájax ouviu o meu grito de guerra e respondeu com o seu famoso «Ai! Ai!». Abrimos caminho por entre os corpos que se erguiam na constante refrega e, por fim, ficamos diante um do outro. A minha lança estava pronta. Então, quando me preparava para lhe desferir o primeiro dos meus golpes, Ájax abaixou-se subitamente e logo se ergueu com uma pedra enorme nas mãos, uma daquelas pedras que serviam de cunho para os navios que estavam na praia. A minha lança era inútil. Desfiz-me dela e empunhei a espada, contando com a minha velocidade, superior à dele, para atingi-lo primeiro. Ájax arremessou a rocha com toda a sua força e à queima-roupa. Senti uma dor dilacerante pois a pedra acertou-me em cheio no peito. Depois, caí inconsciente. Das agitadas trevas da inconsciência, emergi para um mundo de terrível sofrimento; senti o sabor do sangue na minha boca e vomitei, abri os olhos e vi sangue enegrecido no chão perto de mim e logo voltei a perder os sentidos. Quando de novo voltei a mim, a dor já não era tão forte; um dos nossos cirurgiões estava ajoelhado ao meu lado. Convoquei todas as minhas forças para me erguer, o que consegui com a ajuda do médico. — Tem uma forte contusão ao nível das costelas e algumas veias rompidas, mas nada mais sério, príncipe Heitor—disseme ele.—Os deuses hoje estão conosco!—exclamei arquejante, apoiado ainda nele. Quanto mais me movia, menor era a dor; continuei a mover-me. Alguns dos meus homens tinham-me levado para lá da passagem do Simoente e tinham-me deitado junto ao meu carro. Quebríones fitava-me com um sorriso imenso. — Pensamos que estava morto, Heitor . — Leve-me para o campo de batalha—disse eu, subindo para o carro. Não ter de fazer a pé aquele caminho era uma bênção; porém, mal cheguei à retaguarda, tive de descer . Julgando que eu estava morto, o meu exército começara a ceder; porém, logo que souberam que afinal eu estava vivo e que regressara à batalha, os homens ganharam novo ânimo e organizaram-se para resistir e avançar . Os Gregos, ao verem o meu rosto, devem ter sofrido um duro golpe. Dispersaram e fugiram pelos caminhos entre as casas até que um chefe que eu não conhecia conseguiu detê-los sob a proa de um navio que estava isolado dos outros, um navio que era certamente mais importante do que os outros, pois estava muito à frente da
primeira fila de navios, uma fila aparentemente infindável. Dizimamos aqueles soldados gregos pois eles recusavam-se a recuar mais; agora, apenas Ájax, Meríona e uns quantos cretenses permaneciam no campo de batalha para nos enfrentarem. A proa do navio isolado erguia-se sobre a minha cabeça; concluí que o êxito não me fugiria quando Ájax se postou diante de mim e ergueu a sua espada—a minha espada, pois eu a oferecera. Investi e ele aparou brilhantemente o meu golpe; o nosso duelo voltava a ser travado, mas, desta vez, não teríamos espectadores, pois, à nossa volta, todos combatiam com igual ferocidade. — De quem é o navio?—perguntei, ofegante. — Pertenceu a Protesilau!—respondeu ele, tão ofegante como eu. — Vou—incendiá-lo! — Incendeio-te eu primeiro! Mais gregos apareceram para defender aquele que, sem sombra de dúvida, era para eles um precioso talismã; essa onda de homens acabou por me separar de Ájax. Alguns dos meus soldados da Guarda Real estavam agora comigo e os gregos que combatiam contra nós não tinham a qualidade dos salaminianos. Continuamos a avançar, derrubando inimigos atrás de inimigos. Voltei a ver Ájax, mas, desta feita, o grande guerreiro nada fez para que recuássemos. Com uma série de poderosos movimentos, conseguiu subir ao convés do navio de Protesilau, tão rápido e tão ágil como um acrobata. Aí, pegou numa comprida vara e fê-la girar em círculos lentos, derrubando todos os meus homens mal eles assomavam à coberta. Quando o último grego a enfrentar-me morreu sob os meus golpes, empoleirei-me nos ombros de um soldado e escalei a proa do navio de Protesilau. Daí à coberta era um único salto. Diante de mim, Ájax continuava a desafiar-me, ainda invencível. Examinamo-nos atentamente, cada um de nós sentindo nesse exato instante toda a exaustão que a tremenda batalha em provocara. Abanando lentamente a sua enorme cabeça, como que para convencer a si mesmo de que eu não existia, Ájax fez rodopiar a sua vara. Ergui a espada e enfrentei a vara com a lâmina e com tal êxito que depressa a parti ao meio. A súbita perda de equilíbrio quase fazia cair Ájax; endireitou-se, porém, logo procurando a espada. Avancei rapidamente, certo de que ele estava liquidado, mas, uma vez mais, Ájax provou-me que era um grande guerreiro. Em vez de me enfrentar, correu para a popa e, com toda a força
que tinha nos músculos das pernas, saltou do navio de Protesilau para aquele que estava imediatamente atrás, no meIo da primeira fila de embarcações. Abandonei o duelo. Havia uma parte de mim que amava aquele homem e estava certo de que ele também me amava. Amigos ou inimigos, haveria sempre entre nós uma profunda afeição. Eu sabia que os deuses não queriam que nos matássemos um ao outro; nós tínhamos trocado prendas no final de um terrível duelo. Encostei-me na amurada e olhei para baixo: um mar de plumas cor de púrpura, um mar de troianos.Dêem-me um archote! Um homem atirou-me imediatamente um archote. Apanhei-o, avancei para o mastro no meio dos ovéns e deixei que o fogo lambesse sôfrego aquelas cordas gastas, aquela madeira seca e rachada. Ájax observava-me do outro navio, os braços pendendo-lhe flácidos e impotentes junto ao corpo, às lágrimas deslizando-lhe pelas faces. O braseiro ateou num ápice; um lençol de fogo subiu o mastro até aos vaus reais e a coberta desatou a chorar lágrimas de fumo, devido a outros archotes que os homens enfiavam pelas aberturas destinadas aos remos. Corri de novo para a proa, ergui-me sobre ela. — A vitória é nossa!—gritei.—Os navios estão ardendo! Os homens repetiram o meu grito, avançando de novo para enfrentar os Gregos que se concentravam junto aos navios que descansavam na praia, atrás do solitário talismã de Protesilau.

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