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quinta-feira, 22 de setembro de 2016

SD 107 A CADERNETA DE VICTOR Frankenstein

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Eu nasci na região dos Alpes Suíços. Meu pai era o proprietário de muitas terras entre Genebra e a aldeia de Chamonix, onde minha família residia. Minhas lembranças mais antigas são daqueles picos resplandecentes, e acredito que meu espírito de ousadia e ambição brotou diretamente da visão de altitudes. Eu sentia ali o poder e a grandiosidade da natureza. Os penhascos e os precipícios, as cascatas brumosas e as torrentes furiosas sempre tiveram o efeito de santificar a minha vida, até que, em certa manhã branca e brilhante, eu me senti compelido a proclamar ao Criador do Universo: — Deus das montanhas e geleiras, preserve-me! Eu vejo e sinto a solidão de seu espírito em meio ao gelo e à neve! Como que em resposta ao meu apelo, ouvi o rachar do gelo e o trovejar de uma avalanche num pico distante, mais alto do que os sinos da catedral de St. Pierre nas estreitas ruas da velha Genebra. Eu exultava com as tempestades. Nada me arrebatava mais do que o bramido do vento entre as massas verticais de rocha, as fragas e as cavernas de minha região natal; quando o vento levava embora a neblina, as florestas de pinheiros e carvalhos eram preenchidas por sua música. As nuvens lá pareciam perseguir o ar nas alturas, desejando tocar a origem de tanta beleza. Nesses momentos, minha natureza individual se dispersava. Eu me sentia como se fosse dissolvido no universo em volta, ou como se esse universo fosse absorvido por mim. Como um bebê no útero, eu não tinha consciência de distinção alguma. É o estado que os poetas desejam alcançar, quando todas as manifestações do mundo se tornam “florações numa única árvore”. Mas eu tinha sido abençoado pela poesia da natureza em si mesma. Assim, em meus primeiros anos, minha alma transbordava com um estado de espírito ardente, e minha imaginação rebelde e entusiasta era disciplinada apenas por minha inclinação para o estudo e para a atividade mental. Como eu amava aprender! Eu me embebia de conhecimento como um broto absorve água, crescendo cada vez mais alto. O pior dos meus defeitos já era então a ambição. Eu queria saber tudo sobre o mundo e o grande universo. Para que eu tinha nascido se não para aprender? Eu sonhava com estrelas distantes. Em minha imaginação (e creio que mesmo então eu já compreendia o verdadeiro significado dessa palavra), eu via sob a crosta o núcleo incandescente que produzira as montanhas em minha volta. Eu, Victor Frankenstein, iria solucionar seus mistérios! Iria examinar o besouro e a borboleta em meu desejo sincero de aprender os segredos da natureza. Desejo e deleite — quando esses segredos se desvelavam para mim — estão entre as primeiras sensações que consigo relembrar. Meu pai comprara para mim um microscópio através do qual eu observava a existência oculta do mundo com um interesse indescritível. Quem não quer estudar o invisível e o desconhecido? A força instilada no âmago dos mais minúsculos organismos, fazendo-os mover e se encontrar, deixava-me maravilhado.


Depois de minha formação escolar em Genebra, no padrão calvinista de estudo industrioso e paciente, meu pai me enviou para a renomada Universidade de Ingolstadt, onde comecei as minhas primeiras pesquisas sobre filosofia natural. Mesmo então, creio, eu sabia que iria forjar o meu caminho para a grandeza. No entanto, eu sempre quisera visitar a Inglaterra, onde os mais recentes experimentos em ciência natural estavam sendo realizados por galvanistas e biólogos. Era um lugar de aprendizagem prática. Meu pai, entretanto, não julgava que aquele país fosse favorável à formação de minha moral, mas depois de muitas solicitações ardentes e cartas prementes de Ingolstadt ele finalmente cedeu. Ele me deu permissão de entrar para a Universidade de Oxford, aos meus 18 anos, depois de muitas advertências quanto à frouxidão da juventude inglesa. Eu prometi a ele que nem o meu caráter, nem a minha virtude seriam maculados em qualquer aspecto. Falei isso cedo demais. Foi em Oxford que conheci Bysshe. Ambos chegamos à faculdade no mesmo dia; de forma um tanto confusa para um simples estrangeiro, ela é chamada de Faculdade da Universidade. Meus aposentos eram na esquina sudoeste de um espaço conhecido como o pátio, e os de Bysshe eram na escadaria seguinte. Eu o vira de minha janela e ficara muito impressionado por seus longos cachos castanho-avermelhados, numa época em que o cabelo costumava ser cortado. Ele tinha uma maneira rápida de andar, a passos largos, mas isso era combinado com uma hesitação curiosa, como se ele não estivesse inteiramente seguro quanto ao destino a que se dirigia com tanto ardor; ele oscilava um pouco, guiado pelo vento. Eu o via todas as manhãs na capela, mas não nos falamos até estarmos sentados juntos
durante uma das lamentáveis refeições no salão. Minha opinião da culinária inglesa era muito parecida com a que meu pai tinha da moral daquele país. Bysshe estava ao meu lado, e eu o ouvi comentar com aprovação a respeito de um conto gótico escrito alguns anos antes, O anel fatal, de Isaac Crookenden. — Ah, não — eu disse. — Para sensações novas, você precisa ler os romances de Eisner. É claro que ele percebeu meu sotaque no mesmo instante. — Você admira os contos de terror alemães? — Admiro. Mas não sou alemão. Sou de Genebra. — A guardiã da liberdade! De Rousseau e Voltaire! Por que, então, veio para cá, o lar da tirania e da opressão? — Eu não tinha ouvido opiniões como essas antes, acostumado que era a pensar na Inglaterra como a origem das liberdades políticas, e Bysshe riu de minha expressão de surpresa. — Não está aqui entre nós faz muito tempo, suponho? — Cheguei na semana passada. Mas eu acreditava que as liberdades do povo... Ele pôs as mãos sobre os ouvidos. — Eu não ouvi isso. Tenha cuidado. Pode ser acusado de insubordinação. Ou blasfêmia. Quanto você pensa que esse seu belo corpo vale? — Perdão? — De acordo com o governo, não vale nada. Pode ser manejado sem desculpas e sem explicação. Nós revogamos o habeas corpus, veja você. — Eu fiquei bastante perdido quanto ao que ele se referia, mas então imediatamente ele mudou de assunto. — Você leu O monge enterrado, de Canaris? Essa sim é uma história de diablerie! — Eu lera o livro um mês antes e, para o meu espanto, Bysshe começou a citar de improviso todo o início do primeiro parágrafo: “Nunca havia uma hora tranquila no mosteiro que, para os habitantes simplórios da região, era conhecido como o lugar dos ecos.” — Ele teria continuado, mas a sua companhia no jantar, que depois descobri ser Thomas Hogg, implorou para que ele parasse. — Por que você diz “governo”? — perguntou Hogg a ele. — Por que não? — Não devia ser “o governo”? — Não. Governo é mais poderoso e mais insidioso. Governo é uma força abstrata e avassaladora. Não concorda, pastor de Genebra? Bysshe olhou para mim, ávido e curioso, e eu fiz o melhor que pude para responder. — Se eu fosse um pastor, eu lhes diria que “Deus” é diferente de “o deus”. Ele riu alto. — Bravo! Seremos amigos. Permita que eu o apresente a Shelley. — Ele pôs as mãos sobre o próprio peito e fez uma reverência. — E Hogg. — Meu nome é Victor Frankenstein. — Um belo nome. Victor é romano, não? Victor ludorum e coisas assim. — É um nome antigo em minha família. — Frankenstein é mais perplexo. Você não é um israelita, já que frequenta a capela. — Eu não imaginava que ele me notara lá. — Um stein é um cântaro para cerveja, creio. Talvez seus ancestrais fossem conectados à corte franca na honrada ocupação de ceramistas. Você vem de uma família de artífices, meu caro Frankenstein. Seu nome é digno de aplauso. — A essa altura já tínhamos nos levantado da longa mesa e caminhávamos de volta pelo pátio. — Tenho vinho — disse Bysshe. — Venha se juntar a nós. Assim que entrei nos aposentos dele, eu soube que estava na moradia de um espírito ardente: no chão, no tapete, na escrivaninha, em todas as superfícies disponíveis, havia uma profusão de objetos de toda sorte espalhados. Havia papéis, livros, gravuras e caixas inumeráveis com meias, botas, camisas e outras roupas atulhadas no meio delas. Observei que o tapete já tinha sido manchado e chamuscado em vários lugares, o que instintivamente atribuí a experimentos científicos. Bysshe percebeu o meu olhar e riu. Ele tinha uma risada irreprimível. — Sal amoníaco — explicou ele. — Venha ver o meu laboratório. Eu o segui para o quarto seguinte, onde uma cama estreita estava encostada a um canto. Ele instalara uma bancada, sobre a qual colocara uma máquina elétrica que eu julguei ser uma bateria voltaica. Ao lado dela havia um microscópio solar, bem como vários frascos e garrafas de vidro. — Você é um experimentador — eu disse. — Claro. E assim deveria ser todo inquiridor em busca de conhecimento. Não precisamos ler Aristóteles. Precisamos olhar o mundo. — Eu também tenho um microscópio solar. — É mesmo? Ouviu isso, Hogg? — Tenho estudado os corpúsculos da vida. — E onde os encontrou? — Na água das geleiras. Em meu próprio sangue. O mundo está cheio de energia. — Bravo! — Ele tinha ficado muito interessado, e segurou meu ombro com um aperto firme. — Há outro lugar onde você encontrará vida. Na tempestade! Eu pensei que ele ia me abraçar, mas soltou o meu ombro. Eu reconheci mais tarde que ele era curiosamente, quase sobrenaturalmente, sensível aos pensamentos que passavam pela minha mente. Com algumas pessoas não há necessidade alguma de palavras. Vendo um leve tremor em meus olhos, ele sempre desviaria os dele. — Você viu a bateria voltaica? — perguntou-me então. — Ela recria o clarão do relâmpago. Tenho estado como Isaac Newton. Olhando fixamente para a luz. Bysshe desprezava ostensivamente o regime da universidade e não assistia a nenhuma aula. Eu não tinha certeza, de fato, a que estudos ele deveria estar se dedicando. Para ele, era algo que não importava nem um pouco. Havia uma tarefa que nos era dada maquinalmente, a de traduzir toda semana um ensaio do Spectator para o latim. Isso ele realizava com a maior facilidade, e realmente era capaz de escrever em latim com tanta desenvoltura e fluência quanto em inglês. Ele me disse que o segredo era se imaginar como um orador romano nos primeiros anos da República. Era algo que o inspirava com tal fervor que as palavras vinham naturalmente a ele na ordem adequada. Eu não duvidei disso. Sua imaginação era como a bateria voltaica: emitia relâmpagos. Fazíamos longas caminhadas no campo fora de Oxford, com frequência seguindo o Tâmisa rio acima, passando por Binsey e Godstow, ou rio abaixo até Iffley e a sua curiosa igreja do século XII. Bysshe amava o rio com uma paixão que eu raramente vira igual, e ele louvava seus méritos em detrimento do lânguido Nilo e do turvo Reno. Eu tinha achado que ele era todo fogo, mas havia outros elementos em sua constituição — fluentes, flexíveis, férteis como a água à nossa volta. Nessas expedições, com frequência, ele declamava para mim a poesia de Coleridge sobre os poderes da imaginação. — O poeta sonha aquilo que o cientista considera ser impossível — disse-me ele. — Uma vez que é imaginado, então torna-se verdade. — Ele se agachou para examinar uma pequena flor, cujo nome eu não sabia. — É magnífico aspirar ao que está além do alcance comum do homem. — Em busca de quê? — Quem sabe? Quem pode dizer? Os grandes poetas do passado eram filósofos ou alquimistas. Ou magos. Eles se livraram do traje do corpo e, em seus esforços, tornaram-se espírito puro. Você conhece Paracelso e Alberto Magno? — Eu observei que eram dignos de estudo. — Devíamos fazer uma peregrinação, você e eu, até Folly Bridge, e rezar no santuário de Roger Bacon. Há essa casa lá que dizem que era o laboratório dele. Você conhece a lenda? Se um homem mais sábio do que o frade Bacon alguma vez passar por ali, ela desabará e ficará em ruínas. Nesta cidade de asnos, já faz seiscentos anos que continua de pé. Não deveríamos testá-la? Vamos atravessar a ponte, um de cada vez, e ver qual dos dois realiza o milagre.

— Foi Bacon quem criou a cabeça falante, não foi? — Foi. A cabeça que falou e disse “O tempo é”. Só que falou em latim. Ela tinha estudado os autores clássicos. Isso talvez explique o espírito da animação. — Mas como os lábios se moveram? Eu fazia perguntas a Bysshe simplesmente para me deliciar com a extravagância de suas respostas. Tenho bastante certeza de que ele ia inventando enquanto falava, mas isso não dissipava o encantamento. Na verdade, contribuía para ele. Eu seguia sua linha de raciocínio como um vaga-lume brilhando na escuridão. Ele frequentemente falava sozinho, num murmúrio em voz baixa. Parecia ser alguma forma de comunicação com o seu ser interior, mas, claro, havia quem questionasse a sua sanidade. “O doido do Shelley” era um epíteto muito usado contra ele. Eu nunca vi nenhum sinal de loucura, a menos que seja insanidade possuir um espírito altamente exaltado e sensível, alerta à mais delicada mudança na atmosfera em sua volta. Por diversas vezes, seus olhos se encheriam de lágrimas, quando seus sentimentos eram tocados por algum gesto generoso ou pela história do infortúnio de outra pessoa. Nesse respeito, ao menos, ele não tinha uma sensibilidade comum. Ele tinha o temperamento de um Rousseau ou de um Werther.

Naquela época eu estava mais do que nunca interessado em explorar os segredos da natureza, e me entreguei ao estudo da fonte de onde a vida se originava. Bysshe e eu discutiríamos noite adentro os méritos respectivos dos italianos Galvani e Volta. Ele favorecia a eletricidade animal do signor Galvani, enquanto eu estava profundamente entusiasmado com o sucesso das placas voltaicas. — Você não percebe — eu disse a ele numa noite de inverno — que a bateria elétrica é um novo motor imensamente promissor? — Meu caro Victor, Galvani provou que há eletricidade no mundo à nossa volta. A natureza é, ela própria, eletricidade. Pelo simples expediente de um circuito metálico, ele trouxe a vida de volta a uma rã. Por que ele não conseguiria fazer o mesmo com o corpo humano? — Eu não tinha pensado nisso. — Fui até a janela e olhei a neve caindo lá fora no pátio. Bysshe estava deitado no sofá, e eu o ouvi murmurando para si mesmo alguns versos de poesia:
“Feliz é aquele que vive para compreender Não só a natureza humana, mas que inquire Todas as naturezas, com o fim de descobrir A lei que governa cada uma delas.”

— Você sabe quem escreveu isso, Victor? — Não faço a menor ideia. — Wordsworth. — Ele é um dos seus novos poetas. — Ele é o poeta. Considere o relâmpago — continuou. — De todos os poderes da natureza, é o mais formidável. Em sua luz é possível ver o sopro do fogo do universo! — E como se pode controlar o relâmpago? — Se você mandasse para a atmosfera alguma pipa elétrica, iria extrair do céu um volume imenso de eletricidade. Pense nisto. Toda a munição de uma tempestade poderosa dirigida para um determinado ponto. Você consegue imaginar os resultados estupendos? — Já deixamos bem para trás a humilde rã. — Você não entende? Até a menor das coisas tem vida e energia. — Por que não chamar isso de força espiritual? — Qual a diferença entre corpo e espírito? No relâmpago são a mesma coisa. Incandescentes! Devo admitir que as palavras dele tiveram um efeito tremendo em mim. Mas Bysshe pôsse então a especular a respeito de viagens de balão sobre o continente da África. Sua mente não conseguia se manter numa única direção por muito tempo. Quando voltei para os meus aposentos, no entanto, fiquei ruminando a nossa conversa. E se fosse possível dotar a forma humana de vida através da centelha imortal? Seria considerado sacrilégio? Essa alegação eu descartei. Não. Todos os progressos na ciência elétrica seriam condenados como irreligiosos por aqueles que não têm fé no progresso humano. Se eu pudesse dominar a flama etérea para um uso prático e benigno, eu me consideraria um benfeitor da raça humana. Mais do que isso. Eu seria considerado um herói. Dar vida à matéria morta ou dormente — investir no mero barro o fogo da vida —, isso seria um triunfo admirável e maravilhoso! Foi assim que eu me precipitei rumo à minha destruição.

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