Powered By Blogger

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

SD 112 A CARDENETA DE VICTOR FRANKENSTEIN 6

Quando cheguei a Genebra, estava dolorido e cansado; a jornada através da França tinha sido difícil, tornada infinitamente mais desconfortável pela chuva forte que começou assim que a diligência saiu de Paris. Só a minha vontade de ver minha irmã manteve o meu ânimo. A casa de meu pai ficava na Rue de Purgatoire, logo abaixo da catedral; ele a comprara havia muitos anos, para as suas transações comerciais na cidade, e eu conhecia o bairro muito bem. Um menino local serviu como carregador para mim, e eu me precipitei à frente nas familiares ruas íngremes que subiam do lago. Fui recebido por uma casa em silêncio. Por fim, depois de bater repetidamente à porta, uma jovem criada veio abri-la. Eu não a reconheci, e a menina apalermada não parecia ter noção da existência do filho da família. Por causa de minha longa explicação, em seu dialeto nativo, ela relutantemente permitiu-me a entrada na casa. Talvez ela tenha percebido alguma semelhança entre mim e Elizabeth. Fiquei sabendo por ela que minha irmã estava num sanatório em Versoix, uma cidadezinha junto à margem do lago, e que meu pai alugara uma habitação lá para ficar perto dela. Era muito tarde para pensar em fazer a viagem e, em minha exaustão, escolhi um quarto de dormir quase que aleatoriamente antes de mergulhar num sono profundo. Na manhã seguinte, parti a pé para Versoix. Não ficava a mais do que uns 5 quilômetros ao longo da margem, e eu aproveitei o tempo excelente para saborear meu retorno à minha terra natal. Foi agradável relembrar a tranquilidade e a boa índole dos meus compatriotas, especialmente depois da rabugice dos ingleses. E obviamente a paisagem com as montanhas era infinitamente superior à de Oxford, onde os vaporosos Tâmisa e Cherweell são os únicos aspectos dignos de nota. Eu estava refletindo sobre esses assuntos quando cheguei ao meu destino, cerca de uma hora após sair. Versoix fica acima do lago num pequeno platô natural e o terreno do sanatório se estendia em declive até a água; sempre foi um local restaurador da saúde, e nele foram
encontradas as ruínas de um santuário romano dedicado a Mercúrio. Os habitantes locais acreditam que o deus ainda permanece por lá, mas eu atribuo a plenitude vital do ar às descargas elétricas das montanhas. A atmosfera da região é cheia de espírito. Segui meu caminho até os portões do sanatório, onde a entrada me foi garantida pela força de meu nome: a honra da família Frankenstein é amplamente reconhecida. Eu nunca entrara numa instituição assim antes, e de fato creio que essa foi a primeira de seu tipo construída de acordo com princípios esclarecidos de saúde pública. Fui levado ao quarto de minha irmã e, tão logo o descobrimos vazio, conduziram-me para a margem do lago. Disseram-me que era lá que Elizabeth gostava de ficar sentada, costurando. Eu mal a reconheci. Ela tinha se tornado tão encurvada e magra que parecia muito fraca para se levantar e cumprimentar-me. — Estou contente de vê-lo, Victor. Eu tinha esperança de que você viesse. — Havia tamanha resignação em sua lentidão e incerteza que eu quase chorei. A voz dela também tinha mudado; tornara-se mais aguda e mais queixosa. — Como eu poderia não vir? Parti assim que fiquei sabendo por nosso pai. — Papai preocupa-se demais. — Ele está preocupado. Ela sorriu tão serenamente que mais parecia uma expressão de derrota. — Pensava com frequência sobre você na Inglaterra. Você parecia tão longe... Fui até ela e beijei-a na testa. — Mas agora você está em casa. — Uma vez mais ela tentou se levantar do banco em que estava. — Fique sentada, Elizabeth. Não se canse. — Estou sempre cansada. Estou acostumada a isso. Não é um belo lugar este aqui? — Estávamos junto ao lago, numa pequena península de relva e árvores; um dos ventos frequentes começara a soprar, e a superfície da água estava agitada. Peguei o xale dela, que estava a seu lado no banco de vime, e cobri seus ombros. — Eu gosto do vento, Victor. Faz com que eu sinta que sou parte do mundo. — Seus olhos tinham se tornado mais proeminentes em sua doença; ela parecia olhar para mim com um novo tipo de determinação. — O que você está costurando? — É para você. Uma bolsa de Genebra. — Esse era o nome dado às bolsas pequenas e elaboradamente bordadas que os comerciantes da região usavam. — Estou bordando a imagem de papai nela. Será uma lembrança para você durante as suas viagens.
— Eu preferiria ter uma imagem sua, Elizabeth. — Ah, não sou mais como era. — Ela olhou para as montanhas além do lago. — Ao menos não ficarei velha. — Por favor, não diga... Ela me olhou atentamente mais uma vez. Em seu rosto emaciado, julguei ter um vislumbre da velhice que ela não iria atingir. — Não tenho medo da verdade, Victor. Meu sol está se pondo. Eu sei disso. — Você vai se recuperar aqui. Eles têm remédios para a sua doença. — É chamada de consumpção pulmonar. É um bom termo. Eu estou sendo consumida. — Tentei dizer algumas palavras de consolo, mas ela ergueu a mão. — Não. Estou preparada para isso. Considero a minha maior sorte poder sentar aqui junto a nosso adorado lago. Sabia que ele fala comigo? — Ela teve um súbito ataque de tosse, angustiado e prolongado. Queria pegá-la em meus braços e reconfortá-la, mas julguei que ela não queria consolo. — Ele me anima muito. Lembra-me de todas as felicidades que tive e me conta de suas grandes aventuras na Inglaterra. — E o que mais? — Ele me fala de paz. — Elizabeth... — Baixei a cabeça. — Não há necessidade de lágrimas, Victor. Estou bastante feliz. Às vezes sento aqui à noite... — Os médicos permitem isso? — Eu escapo. Eles nos permitem dormir sem sermos incomodados, e eu sempre volto antes do amanhecer. Então sento aqui na escuridão e observo a água. Alguns dos barcos levam lamparinas a óleo, e de noite são como pedacinhos de fogo incandescente flutuando à minha frente. É muito emocionante. Eu com frequência penso que a morte deve ser como isso... ficar olhando luzes distantes. Oh, aí vem papai. Nosso pai vinha caminhando pelo gramado em nossa direção. Estava vestido formalmente, com uma casaca verde-escura e gravata, mas seus passos rápidos indicavam seu desassossego. — Victor, você devia ter ido me ver. — Cheguei a Genebra tarde da noite, ontem. Não houve tempo. O senhor não recebeu a carta que mandei de Oxford? — Não recebi nada. — Eu sabia que ele estava extremamente aflito com a aparência de Elizabeth: ficou claro para mim que o estado dela piorava dia a dia. — Não tenho ido a
Genebra tratar de negócios. Você comeu hoje, Elizabeth? — Um pedaço de pão molhado no leite, papai. — Você precisa comer. — Ele pôs as mãos sobre a cabeça dela, como se estivesse tentando conceder alguma bênção sobre ela. — Você precisa ficar mais forte. Dormiu bem? — É claro. — Ótimo. Comida e repouso. Comida e repouso. — Ele se inclinou e ajeitou o xale em volta dos ombros dela. — O vento está vindo direto das montanhas, Elizabeth. Posso sugerir que você retorne ao seu quarto? — Os médicos elogiam as virtudes do ar livre, papai. — Sem dúvida que sim. Mas você os vê sentados à beira do lago? Eu mesmo estou sentindo frio. Victor, ajude-me com a sua irmã. — Eu posso andar sozinha, papai. — Claro que pode, Elizabeth. Nós vamos andar ao seu lado. Victor, você poderia pegar o braço de sua irmã? — Quando ela se levantou do banco de vime, percebi que estava muito frágil; parecia ondular levemente com o vento e, por um instante, achei que ela tinha perdido o equilíbrio. Acabou se apoiando em mim e rindo; era como se estivesse rindo da própria incapacidade. Havia um leve aclive em direção ao sanatório e ela agarrou meu braço enquanto subíamos lentamente o caminho de cascalho que saía do lago. Nosso pai seguia pela grama ao nosso lado, mas quando chegamos à porta do prédio ele saiu na frente. Disse-me depois que queria falar com um dos médicos de Elizabeth sem que ela estivesse presente; assim, eu a acompanhei de volta ao quarto. — Papai está muito triste — disse ela. — Conto com você para reconfortá-lo. — Como poderei fazer isso? — Não tenho certeza. — Eu não posso ficar aqui, Elizabeth. Eu não posso morar em Genebra. — Eu sei disso. Este não é um lugar para você. Você sempre foi movido pela ambição. — Não posso me desculpar quanto a isso. — Não espero isso de você. É louvável. Sempre tive orgulho de você, Victor. Eu venho observando-o com admiração desde que você era um menininho. Lembra-se de como me mostrou a vida do pintinho no ovo da galinha? Você tinha observado isso. Você era capaz de dominar qualquer coisa sobre a qual quisesse saber. — Elizabeth ficou mais animada enquanto falava, como se estivesse revivendo a época antes da doença. — Você importunava as pessoas com perguntas para as quais elas não tinham resposta. Por que as nuvens mudam
de forma? Por que a minhoca cortada no meio continua viva? Por que as folhas mudam de cor no outono? — Ela se interrompeu. — Supere-se em seus estudos, Victor. Torne-se uma pessoa importante. Papai entrou no quarto com um jovem que cumprimentou Elizabeth da maneira mais informal possível. Presumi que ele devia ser um dos médicos dela, mas não gostei dele. — Elizabeth — anunciou — é nossa interna com maior paciência. Ela foi tratada com ventosas sem a menor queixa. — Fico contente em saber disso — replicou nosso pai. — E ela tem comido bem? — Está mantendo suas forças. Temos grandes esperanças. Isso me pareceu uma pequena peça teatral arranjada para animar Elizabeth, mas sua expressão enfadada me convenceu de que ela não se deixara impressionar. — Acho que devemos deixá-la agora — falei. — Você está cansada. — Sim — concordou nosso pai. — Ela precisa repousar. O repouso é a cura. — Posso admitir que estou cansada? — Ela olhou de relance para o médico, que a estivera observando atentamente. — É claro. Não esqueça que temos um recital de piano antes do jantar. Vamos ouvir Mozart. — Não gosto mais de ouvir música. Meu pai a abraçou antes de partir, mais uma vez insistindo para ela comer bem e dormir. Duvidei que ela fosse obedecer a essas instruções; já estava muito distanciada do mundo para se importar com coisas assim. Assim que a deixamos, os olhos dele se encheram de lágrimas. Eu nunca o vira chorar antes. — Ela não vai viver — disse ele. — O médico sabe disso. — Mas deve haver alguma esperança, não? — Nenhuma. Os médicos disseram que não haverá remissão alguma. A consumpção tomou os pulmões dela. — Mas médicos podem se enganar. — Você ouviu a respiração dela? O médico me disse que na noite passada a boca de sua irmã estava cheia de sangue arterial. — O que faremos? — Vamos esperar. O que mais se pode fazer? — O sol não vai mais aquecê-la. — O que disse? — Eu tinha falado baixo demais para que ele escutasse. — É um tempo difícil, papai.
— Vai ficar pior. Devemos ser carinhosos com a sua irmã.

***
Elizabeth faleceu dois dias depois. Ela foi encontrada pela manhã, sentada numa poltrona junto à cama. Foi dito que ela não sofrera dor, mas como isso foi estabelecido não faço ideia. Meu pai insistiu que ela fosse enterrada no pequeno cemitério de Chamonix, a aldeia onde ficava a casa da família. Assim, Elizabeth foi colocada num caixão, e junto dela nós percorremos a estrada sinuosa que saía de Genebra rumo às montanhas. Não preciso dizer que essa foi uma jornada melancólica. Só o que me lembro agora era do doce aroma de lenha queimando que nos acompanhou em parte do caminho. Quando chegamos à nossa velha casa, eu ansiava por ver mais uma vez a brancura pura da neve, que ninguém na Terra tocara. Da janela de meu quarto podia ver o Monte Branco e o pico para nós conhecido como Agulha do Midi; a neve no seu cume estava brilhantemente iluminada pelo sol, enquanto o resto da montanha ainda permanecia em sombra com a neve cinzenta e as encostas das árvores descendo até o vale. Nada havia ali para limitar o alcance do olhar. Podia ver recessos de pedra a que nenhuma luz jamais chegara, os leitos de rios que nunca correriam, as pedras talhadas em estranhas formas por forças que eu não podia compreender, tudo envolto por um silêncio eterno. Era o silêncio em que agora Elizabeth entrara. Mas então o canto alto de um pássaro me trouxe de volta à Terra. A tempestade veio na noite antes do funeral. Nuvens grossas encobriram as montanhas, obscurecendo seus cumes com uma neblina cinzenta que tombava sobre eles. Pequenos recortes de luz do sol tocavam o chão e, quando o vento soprava, as folhas das árvores tremulavam como violinos. Quando o relâmpago atingiu as montanhas, foi como um cajado batendo no chão. O fogo veio de várias regiões do céu; o trovão também mudava de direção, e parecia estar viajando entre as montanhas. Logo não se via mais nenhuma montanha. O ar estava pesado com expectativa, o perfume do relâmpago nele. Mas eu vi, no gramado da aldeia, uma menininha brincando com dois cachorrinhos. Eu quis então que Elizabeth estivesse de volta, para contemplar tudo isso comigo. Se eu pudesse trazê-la de volta à vida, eu o faria! Meu pensamento não exprimido foi ecoado pelo clarão de um relâmpago num instante de identidade.

***
Quando os sinos da pequena igreja de Chamonix tocaram, enquanto ela era baixada ao solo, pareceram reverberar entre as pedras e a neve. Fui tomado novamente por uma sensação da infância — de que, de alguma forma, os sinos estavam dentro das montanhas, retinindo através de suas profundezas. Depois do funeral, ao qual comparecera a maioria dos habitantes de Chamonix, eu não conseguia me acalmar ou ficar parado, de modo que voltei para as montanhas. Comecei a subir pelas florestas de abetos que flanqueavam os sopés, tendo dificuldades para achar onde pisar entre as pedras e raízes que continuamente atrapalhavam o meu avanço; havia também pequenas correntes de água, descendo com ímpeto das geleiras nas encostas, mas, por fim, encontrei a trilha sinuosa usada pelos camponeses da região. Eu queria subir mais alto, e ainda mais alto, chegar até o topo da Agulha do Midi. Pude ouvir o grito de uma marmota em algum lugar ali por perto, e em seu estridente chamado percebi a solidão da minha situação. Se eu caísse ali e morresse, meu corpo logo seria coberto pelo gelo e pela neve; poderia perdurar naquele local por muitas gerações como uma relíquia de minha época, já que os experimentos modernos em congelamento indicam que ele não se decomporia. O ar era mais ralo ali, e eu podia sentir o sangue pulsando em meu corpo. Era uma sensação gloriosa, sentir a força da vida, mas aquela enorme solidão com as correntes do mundo circulando a minha volta também induzia um sentimento próximo ao terror — estar consciente do poder da existência, e ao mesmo tempo compreender a sua fragilidade. Deitei na terra congelada, mas não senti frio. Chamei a marmota, imitando o seu grito. A criatura respondeu num tom ainda mais pungente, como se estivesse insegura em sua saudação. Chamei mais uma vez, com a mais completa certeza de que toda a vida é uma só, e a marmota respondeu com um emocionante som de reconhecimento.

***
Depois da morte de Elizabeth, meu pai pareceu se cansar da própria vida; envelheceu muito rapidamente, e não demonstrou mais interesse pelo negócio de exportação que ele tinha criado ao longo de muitos anos. Recusou-se a voltar para Genebra e se trancou em seu escritório em Chamonix, onde ficava sentado do amanhecer ao crepúsculo, observando as montanhas pela janela. Ele se juntava a mim para o jantar à noite, mas quase não havia conversa. Havia vezes, todavia, em que ele falava, com o coração cheio e sobrecarregado. — Você é um estudante das ciências — abordou-me certa noite. — Poderia me dizer por que a criatura mais insignificante possui vida, mas Elizabeth não?
— Não é um dom eterno, pai. — Esta mariposa — continuou — está cheia de vida. Está vendo como ela gira em volta da chama da vela? Você acredita que ela desfruta de sua existência? — Ela parece dançar, pai. Todas as criaturas vivas precisam exercer sua energia. — No entanto essa vida, esse desfrute, não pode durar. — A mariposa não sabe que vai morrer. — Então ela se julga imortal? — O conceito de imortalidade não lhe ocorre. Ela é. Isso basta. Não vive no tempo. — Esse poder de existência que ela possui... pode ser descoberto? — Como assim? — Há alguma essência, alguma centelha vital? — Essa não é uma pergunta que eu possa responder, pai. Foi objeto de muitas discussões, mas sem conclusões muito satisfatórias. — Então não sabemos o que a vida é. — Não pode ser definida, de fato. — Para que servem todas as suas ciências e estudos se essa coisa essencial não é compreendida? — Só podemos partir do conhecido para o desconhecido. — Mas quando o desconhecido é tão vasto... — Incita os meus esforços ainda mais, pai. — A mariposa ainda voejava em volta da vela, e eu a peguei em minhas mãos em concha; podia sentir suas asas pálidas batendo contra a pele de minhas palmas, e experimentei uma súbita sensação de júbilo. — Eu estou em busca desse espírito da vida. — E o que os seus professores de Oxford acham disso? — Ah, eles não sabem. — No mesmo instante me arrependi de minha resposta impensada. — É uma busca secreta, então? — Não é secreta. Muitos outros estão engajados nela. Trabalhamos independentemente em direção ao mesmo objetivo. — Este é um bom século para se estar vivo, não é? — É claro. — Abri as mãos, e a mariposa voejou incerta no ar. — Grandes descobertas acontecerão. Iremos desvelar os segredos do fluido elétrico. Construiremos grandes catedrais de baterias voltaicas de um modo que poderemos recriar o relâmpago. — E criar vida?
— Quem sabe? Quem pode dizer? Pode acontecer tarde demais para mim. — Você sempre foi muito determinado, Victor. Eu acredito que você vai alcançar o que quiser em qualquer tarefa a que se proponha. O que você gostaria de realizar? — Eu gostaria de trazer Elizabeth de volta à vida. Ele baixou a cabeça, mas ficou subitamente alerta para um ruído nas montanhas atrás de nós. — Avalanche — anunciou. — Se você conseguisse controlá-las, Victor, você seria celebrado. — E então ele suspirou.

***
Algumas semanas depois do funeral ele contraiu uma gripe e enfraqueceu dia a dia. Foi uma lição para mim do poder da mente sobre o corpo. A força da vida, além de física, era mental e espiritual e, assim que meu pai perdeu a esperança na vida, seus poderes vitais começaram a falhar. Ele não quis ficar de cama, em vez disso permanecia na poltrona em seu escritório. Tinha tamanha afeição por seus livros que eu acredito que não queria abandoná-los. Ele nunca falava no negócio que deixara nas mãos de seu funcionário de confiança, o Sr. Fabre. Na verdade, ele nunca falava de nada com coerência ou por muito tempo. — Use o dinheiro para progredir — aconselhou uma noite, num momento em que eu achava que ele estava dormindo. — Use-o para o bem. — Eu era o seu único herdeiro, e bastante consciente das responsabilidades financeiras que iriam me caber. — O que quer que seja humano, você é capaz de realizar. — Então ele voltou a ficar em silêncio. Eu estava sentado ao lado dele quando ele morreu. Estivera lendo para ele Os sofrimentos do jovem Werther, um romance que eu sempre pretendera estudar com o maior entusiasmo desde que tinha sido elogiado por meu amigo Bysshe. Meu pai tinha um excelente domínio do alemão, mas eu não tinha certeza se ele estava compreendendo ou mesmo ouvindo as minhas palavras; eu apenas queria tranquilizá-lo com a minha presença ali. Subitamente ele abriu os olhos. — Não é que Werther tenha amado demais — anunciou. — Ele viveu tempo demais. — E então ele se foi. Eu tinha esperado alguma mudança no momento da morte, alguma sensação de partida, mas não do tipo que testemunhei. Era como se sua vida nunca tivesse acontecido; era como se ele tivesse revertido para um estado original, antes de a vida ter sido infundida. Ele tinha voltado. Senti o pulso dele, também no pescoço, mas tudo se fora.

***
Assim, outro Frankenstein foi enterrado na colina atrás da pequena igreja de Chamonix; eu era o único enlutado de minha família, mas fui acompanhado até a sepultura pelos criados da casa, bem como pelos empregados do negócio de meu pai e os mesmos aldeões que tinham comparecido ao funeral de Elizabeth. Chorei descontroladamente, mas talvez estivesse chorando por mim mesmo. Permaneci na Suíça por mais dois meses, período em que coloquei meus negócios em ordem e entreguei a administração da companhia ao Sr. Fabre, que tinha sido sempre da confiança de meu pai. Eu escrevera para o diretor de minha faculdade em Oxford, explicando as razões de minha demora e pedindo dispensa do período letivo seguinte; isso era permitido pelos estatutos e eu estava ansioso por retomar meus estudos com zelo e ambição redobrados. Eu era agora o herdeiro de uma grande fortuna, a qual podia empregar sem controle ou escrutínio, e já tinha decidido devotá-la às minhas buscas na ciência da vida. Eu estava contente de voltar por outras razões. Não ouvira nada de Bysshe por vários meses e estava ansioso para saber tudo sobre seus feitos em Londres. Agora eu contemplava a ideia de alugar uma casa confortável na cidade, onde nós poderíamos morar e manter um relacionamento próximo. Eu tinha outros planos, que se desenhavam em minha mente com tanto realismo que era como se eu tivesse um arquiteto ao meu lado. Pretendia criar um grande laboratório, onde pudesse realizar experiências na maior escala possível. Queria construir uma “galeria da vida”, onde todas as formas emergentes da existência primitiva seriam expostas. Na realidade, eu queria me tornar um benfeitor da humanidade. Assim, no começo do outono daquele ano fatídico, voltei com entusiasmo e muita expectativa para a Inglaterra. Acreditava que em Londres um homem com soberanos no bolso era o senhor de seu próprio destino. Um equívoco que logo me seria provado.

Nenhum comentário:

Postar um comentário