Eu tinha lido com avidez relatos na Blackwood’s Magazine sobre o trabalho do Sr. Humphry Davy, e tinha conseguido obter em Oxford um exemplar dos Proceedings of the Royal Society em que ele explicava o processo pelo qual galvanizara um gato. Por puro acaso abri um exemplar da Gentleman’s Magazine, dois ou três dias após chegar em Londres, e vi nela anunciada uma série de palestras do Sr. Davy na Sociedade para o Encorajamento das Artes e Manufaturas com o título “Eletricidade sem mistérios”. Quando fui à primeira palestra, tendo comprado um ingresso para a série inteira, fiquei surpreso ao ver que o salão da Sociedade estava praticamente lotado. O Sr. Davy era mais novo do que eu imaginara, de aparência jovem, sem barba, ansioso e rápido em todos os seus movimentos; os homens jovens na plateia seguravam os chapéus sobre os joelhos e se inclinavam para a frente para observá-lo. Ele estava preparando algumas baterias galvânicas sobre a mesa enquanto, no lado oposto do palco elevado, havia um dispositivo cilíndrico que reluzia com a luz das lamparinas. O Sr. Davy parecia ter o temperamento de um artista. Ele falou sobre a corrente elétrica como a concretização da asserção dos filósofos gregos de que há fogo dentro de todas as coisas. Ele chamou tal chama de centelha da vida, fogo prometeico e luz do mundo. — Por favor, não se alarmem — pediu ele. — Nada os atingirá ou machucará de nenhuma forma. Então ele conectou o equipamento galvânico e, ao toque de sua mão, um grande arco de luz atravessou como um raio de uma mesa a outra. Duas ou três damas deram gritinhos, só para serem reprovadas pelas risadas de seus acompanhantes, mas havia um fervor e uma empolgação geral no salão. Eu pisquei, contudo ainda havia uma imagem do clarão em minha retina; parecia que eu tinha olhado fundo no coração da criação. — Acabou — anunciou o Sr. Davy para tranquilizar as damas. — Foi-se. Mas é infinitamente repetível. — Havia um leve cheiro de queimado no ar. — Nada nos aconteceu
porque a eletricidade é a força mais natural do mundo. Na verdade, é a força natural. No meu entender, como o ar e a água, ela é um dos constituintes da vida. Talvez seja um dos principais meios de dar vida. O fluido elétrico é infinitamente sensível e sutil. Age com um efeito milagroso no éter e, no entanto, flui através do corpo humano de maneira silenciosa e invisível. O Dr. Darwin, que muito sensatamente propôs a diferenciação entre a eletricidade vítrea e a resinosa conforme o seu local de operação, manteve um pedaço de aletria num estojo elétrico até que começasse a apresentar movimentos autônomos. O que então não poderia ser conseguido com órgãos humanos em condições similares? O Sr. Davy seguiu descrevendo as experiências curiosas de James Macpherson, galvanista escocês, a quem tinha sido dada permissão especial pela Companhia dos Cirurgiões para estar presente na dissecção de um criminoso no Salão dos Cirurgiões. O corpo tinha sido trazido imediatamente do cadafalso em Newgate e entregue enquanto ainda estava quente; o homem enforcado era jovem, havia assassinado a própria mãe, e não houve execração popular contra o uso de seu corpo. O cadáver jazia na plataforma de madeira no meio do salão. Estudantes interessados estavam sentados em volta dela, no que só poderia ser descrito como o teatro das operações. Eu comecei a sentir uma sensação de arrepio em minhas costas: julgava que podia ver a cena toda perante meus olhos. O Sr. Macpherson anexou fios elétricos, bem finos e flexíveis, às extremidades do cadáver. Quando o equipamento galvânico foi posto em operação, o corpo estremeceu e então, sem nenhum princípio de movimento aparente, enrolou-se em si mesmo numa bola apertada. A cabeça, segundo o Sr. Davy, ficou entre as pernas do jovem e as mãos firmemente fechadas. Ele o comparou à imagem de um bebê abortado ao sair do útero. Como muitos outros na plateia, tenho certeza, escutei com horror o Sr. Davy explicando como o corpo não pôde ser desdobrado e como, em sua posição contraída e antinatural, ele foi destinado ao poço de cal na prisão de Newgate. Tal era o poder da corrente elétrica. Fui embora quando começaram a fazer perguntas ao Sr. Davy, indo direto para a rua. Fosse pela atmosfera do lugar, fosse pela influência da corrente elétrica no éter, me sentia sufocado. Caminhava rapidamente, mas logo me pus de fato a correr. Eu sabia que tinha de escapar para os confins da cidade. Foi o impulso mais estranho que já experimentei, tão alarmante e tão urgente que meu coração parecia bater mais rápido a cada passo que eu dava. Eu parecia estar fugindo de alguém, ou de alguma coisa, mas a natureza de meu perseguidor não me era conhecida. Teria sido um episódio de loucura? Talvez eu até tenha olhado para trás, por sobre o ombro, em uma ou duas ocasiões. Não me lembro direito. Continuei minha fuga saindo da Oxford Road e indo na direção norte. Houve quem gritasse para mim, presumindo que eu estava tentando escapar da polícia ou coisa parecida; gritavam encorajamento. Ao passar pelo pátio de uma madeireira, algumas crianças correram comigo por um tempo, vaiando e debochando, mas logo me largaram. E então, quando passei por um pub e um pedágio no limiar dos campos, tive a curiosa sensação de que alguém estava correndo ao meu lado. Eu não podia vê-lo ou ouvi-lo, mas estava inteiramente consciente de sua presença enquanto eu corria numa trilha irregular. Não poderia ter sido a minha sombra, porque a lua estava oculta por nuvens. Era alguma imagem, algum fantasma — não sabia ao certo — que insistia em acompanhar meus passos rápidos. Eu corri ainda mais rápido para me livrar dessa sensação extraordinária, e contornei uma grande lagoa antes de atravessar um campo de olarias com detritos fumegantes. Eu estava agora bem no limiar da cidade, onde há algumas habitações pobres, valas fétidas e chiqueiros. Ainda assim, não reduzi minha velocidade, e ainda o outro corria bem perto de mim. O chão agora fazia um aclive e, ao passar ao lado de algumas árvores enfermas e decrépitas, tropecei numa raiz ou galho; eu estava para cair no chão quando, para o meu espanto e medo, algo pareceu me erguer e me salvar da queda. Ocorreu-me mesmo então que eu devia estar acometido de alguma febre nervosa, e reduzi meu passo um pouco. Fui na direção de um carvalho, sua forma uma silhueta na escuridão, e descansei encostado nele. Sentei-me ali, recobrando o fôlego; coloquei a mão na testa atrás de algum sinal de febre, mas não notei nenhum. Não acho que tenha dormido, ou em algum momento perdido minha consciência, mas o medo me deixou sem nenhuma indicação de que estava passando. Era como se eu estivesse voltando a mim; mas com uma sensação de resignação que quase parecia extenuação. Tive uma curiosa sensação de aceitação — não de alívio ou gratidão — e, embora não percebesse, um fardo estava sendo retirado das minhas costas. Eu acreditei ter sido marcado de uma maneira que não podia então compreender. Gradualmente, fui me dando conta de um som, como o de uma avalanche ou desabamento; endireitei-me alarmado, lembrando dos desastres de minha própria região, mas logo percebi que era o ruído de Londres, um murmúrio confuso, mas não de todo desarmonioso, como se a cidade estivesse falando dormindo. Eu podia ver algumas luzes tênues, mas a impressão predominante era a de uma escuridão inquieta, um rumor incipiente de uma vasta vida momentaneamente detida. Levantei-me de onde me encostava no carvalho e parti em direção a ela.
***
Estava chovendo quando eu cheguei ao limiar da cidade, uma chuva tranquila e contínua que baixava um véu sobre as ruas. Numa noite assim há pouca gente nas ruas, e meus passos ecoavam distintamente nas pedras do calçamento enquanto eu ia para a Oxford Street. Eu não queria voltar à Berners Street, não ainda. Eu estava com a absurda superstição de que algo poderia estar esperando para me receber lá e, em vez disso, decidi ir até a Poland Street, onde tinha a esperança de encontrar Bysshe ainda acordado. Era costume dele escrever ou conversar à luz de velas e então contemplar as primeiras manifestações da aurora se insinuando em sua janela. E, sem dúvida, quando passei por seus aposentos no primeiro andar, vi as luzes acesas. Joguei alguns pedregulhos contra a vidraça, e ele afastou a cortina; vendo-me ali embaixo na rua estreita, ele abriu a janela e me jogou as chaves. — Você ouviu as badaladas da meia-noite — gritou para mim. — Suba! Ao abrir sua porta no fim do primeiro lance de degraus, perguntou: — Você está se sentindo bem, Victor? — Eu devia estar ofegante. — Você parece estar suando frio. — Chuva. Nada mais. É uma noite de tempo ruim. — Entre e se aqueça. — Então ele falou para alguém por sobre o ombro. — Temos uma visita. Daniel Westbrook levantou-se para me cumprimentar quando eu entrei na sala. — Estávamos justamente falando de você, Sr. Frankenstein — disse ele. — Por favor, me chame de Victor. — Eu estava curioso sobre os seus estudos. — Ah, é mesmo? — Eu contei a ele, Victor, que você estuda o galvanismo. Que está interessado nos princípios da vida. — Estou interessado nas nascentes da vida — repeti. — É verdade. — De onde ela vem? — perguntou Westbrook. — De onde quer que venha. Do que mais estavam falando? Eu não devo ser um tópico muito atraente. — Estávamos discutindo, Victor, o futuro da irmã de Daniel. — O Sr. Shelley foi conversar com o meu pai. — É mesmo? E quando foi isso? — A conversa na taverna, em que Bysshe jurara educar Harriet Westbrook a suas expensas, tinha ocorrido três dias antes. — Eu fiz uma visita à família Westbrook ontem de manhã — respondeu Bysshe. — Julguei que o domingo seria, para o pai de Daniel, o único dia adequado.
— O Sr. Shelley... — começou Westbrook. — Bysshe — corrigiu. — Apenas Bysshe e Victor. — Bysshe foi implacável. Ele admoestou meu pai por permitir que Harriet conviva com mulheres de moral frouxa. — Eu exagerei. Para convencê-lo. Harriet já tinha saído da sala. — Ele implorou que permitisse que ela se entregasse ao estudo de autores edificantes. — Eu sei que ela é capaz de ler. Ela me disse. — E então, num arroubo final, ele ofereceu dinheiro a meu pai. — Isso resolveu a questão. Eu prometi pagar a ele a quantia exata que Harriet ganha, com mais um guinéu por semana. Esses homens religiosos adoram o lucro. Fique perto do fogo, Victor, você ainda está tremendo. — Meu pai — disse Westbrook — é um homem pobre, além de religioso. — Não o estou culpando por sua pobreza. Estou culpando-o por sua negligência em relação a Harriet. — Onde você vai matriculá-la? — perguntei a Bysshe. — Eu não pretendo matriculá-la em lugar algum. Não. Isso não é verdade. Pretendo matriculá-la aqui. — Você quer dizer... — Olhei ao redor para a massa de livros e papéis; suas acomodações estavam no mesmo grau de confusão que os seus aposentos em Oxford. — Pretendo educá-la eu mesmo. Daniel e eu estávamos discutindo a questão da educação das mulheres como o pré-requisito necessário para o voto feminino. Eu apresentarei Harriet a Platão, Voltaire, ao divino Shakespeare. — É uma dieta pesada para uma jovem garota. — Daniel me garantiu que ela é ávida para aprender, por conta própria. Eles aprenderam a ler com a mãe deles. — Ela agora está morta — acrescentou Westbrook. — E Daniel empresta livros para Harriet, que os lê aos domingos em meio às páginas da Bíblia dela. — Então ela virá aqui? — perguntei. — Qual o problema? — Ela não terá nenhuma mulher como acompanhante? — Você ainda é o sólido cidadão de Genebra, Victor. Não há convenções assim em Londres. Nesta parte de Londres. E, se houvesse, eu ficaria muito feliz em romper com elas! — Ele olhou para Westbrook. — Eu tenho inteira consideração pelos interesses de Harriet.
Eu lerei para ela. Veja. — Ele foi até uma pilha de livros, emborcada no tapete, e catou um deles. — A ruína dos impérios, de Volney. Você o conhece, Victor? — Confirmei. — Com este ela irá aprender como o poder injusto está condenado e como todos os tiranos apodrecem. — Imagino que será do gosto dela — comentei. — E o que você acha que eu deveria ler para ela? Os romances de Fanny Burney? São os grilhões que acorrentam as jovens mulheres em sua servidão. Eu vou emprestar este livro para Daniel. — Ele voltou à pilha e mostrou Uma defesa dos direitos da mulher, de Mary Wollstonecraft. — Quando ele o tiver assimilado inteiramente, eu o apresentarei à irmã dele. Você concorda, Daniel? — Qual foi a frase que usou para mim? — perguntou Westbrook. — “Precisamos preparar o terreno.” — Precisamente. Falamos em reforma radical, mas radical significa raiz. Raiz e ramo. Precisamos levar a reforma a todas as esferas de atividade. Victor está interessado na atividade voltaica. Eu estou interessado na alma de Harriet. São precisamente comparáveis. — Ele se entusiasmara ao longo dessa conversa e abriu a janela para respirar o ar frio e úmido. — Que noite — exclamou ele. — Numa noite como essa eu imagino fantasmas aquosos vagando pelas ruas de Londres. Mas pode-se ver fantasmas nas neblinas? Eu fui até Westbrook. — Sua irmã está satisfeita com o novo arranjo? — Ela está jubilante, Sr. Frankenstein. Ela tem uma sede de conhecimento. — Então que assim seja. — Eu me voltei para Shelley. — Nunca imaginei que você pudesse ser um professor, Bysshe. — Todo poeta é um professor. Daniel concorda comigo nesse aspecto. Ele venera os poetas do Lake District. É capaz de citar de memória “Tintern Abbey”. — Sei os últimos versos — murmurou Westbrook para mim. — Nunca os esqueci. — Quando a Srta. Westbrook começa os seus estudos com você? — questionei Bysshe. — Amanhã de manhã. Ela vai chegar aqui cedo. Eu lhe dei um exemplar de Moral Tales da Sra. Barbauld para impressionar o pai dela, mas vamos descartá-lo. Gostaria que ela lesse um pouco de Esopo para começar. Ele encanta a fantasia e instrui a mente. Haverá algumas palavras difíceis, também, que eu interpretarei. — Eu virei buscá-la às 18 horas amanhã — anunciou Daniel Westbrook. — Mas assim você não poderá ver a peça.
— A peça? Qual peça? — Melmoth, o Viandante. É a última de Cunningham. Estreia amanhã à noite. Mas espere. Se você a levar para casa num coche, Daniel, poderá encontrar conosco na frente do teatro. — Não estou acostumado a coches — disse Westbrook. — Tome. — Bysshe tirou do bolso um soberano. — Você não pode perder o drama. Ficou evidente para mim que Westbrook não queria aceitar a moeda; ele estava constrangido e envergonhado. Bysshe compreendeu isso imediatamente e se arrependeu do que tinha sido um gesto instintivo. — Ou talvez você prefira passar a noite com a sua irmã? — Acho que sim. Sim. — Westbrook devolveu o soberano para Bysshe. — É generoso da sua parte, senhor, mas não estou realmente acostumado à generosidade. Minha irmã é mais digna dela. — Todos nós somos indignos — corrigiu Shelley. — E, claro, você precisa ir, Victor. Nós vamos nos fartar de horrores. Concordei e me despedi logo depois, terrivelmente cansado pelos eventos da noite. Westbrook me acompanhou até a Berners Street já que, como ele disse, eu precisava de um nativo para me guiar pelo Soho. Eu podia ouvir o som da farra por perto, e instintivamente me retraía em relação a ela. — É um apreciador de Londres? — perguntou. — Eu mal a conheço. Ela me emociona. — De que forma? — Por sua vida enérgica. É possível sentir aqui que se é parte do movimento da época. Parte de um grande empreendimento. Eu venho de uma região isolada onde coisas assim são desconhecidas. — Ouvi o senhor dizer que vinha de Genebra. — Em certo sentido, sim. Mas Genebra é uma cidade pequena. Eu realmente sou da região dos Alpes, onde caminhamos entre as montanhas. Somos solitários por natureza. — Eu o invejo de verdade. — É mesmo? Nunca considerei esse um estado digno de ser invejado. — Dá poder às pessoas, Sr. Frankenstein. Dá determinação. Fiquei surpreso com isso e permaneci em silêncio enquanto atravessávamos a Oxford Road. — Em Genebra, não temos lampiões de gás.
— São uma novidade. E, no entanto, é surpreendente quão rápido se fica acostumado à sua luz. Viu as sombras intensas que projetam? Veja a sua sombra estendendo-se pela parede! Aqui está a sua rua. — Em que direção segue, Sr. Westbrook? — Leste. Aonde mais? — Ele riu. — É onde está o meu destino. Logo nos veremos de novo. Uma boa noite. Observei-o seguindo apressado pela Oxford Road, e então entrei na Berners Street. Eu me aproximei da porta com algum receio, ainda mais poderoso por ser indefinível, mas então entrei e subi rapidamente a escada. Meus aposentos estavam escuros, e acendi com um fósforo uma pequena lamparina a óleo. No bruxulear de seu pavio, a sala pareceu mudar de forma e de tamanho antes de assumir suas dimensões habituais. Sentei numa poltrona de braço antiquada, ao lado de minha cama, e busquei refletir sobre as experiências daquela noite. Eu estava consciente de ter sido tocado por algum poder, mas não sabia o que pensar disso. No silêncio, pude ouvir passos vindo pela Berners Street de uma só pessoa caminhando, mas muito destacados e desajeitados, como se estivesse carregando algum peso. Os passos então pararam, bem sob a minha janela. Eu fiquei inteiramente imóvel, todas as minhas faculdades num suspense absoluto. Então, depois de um minuto ou mais, os passos voltaram a se ouvir nas pedras do calçamento, mas com um pisar mais leve do que antes. Fui até a janela, mas não consegui ver ninguém. Deitado em minha cama naquela noite, sonhei que estava sendo enterrado e que o meu caixão estava sendo lentamente baixado à terra. Eu parecia estar consciente disso sem nenhuma sensação evidente de horror. Mas então, quando meu caixão chegou ao solo na sepultura, me dei conta de que não estava sozinho. Havia alguém deitado ao meu lado.


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