Eu já havia retomado os meus experimentos com entusiasmo renovado após a longa ausência de meus estudos. Minha raiva de Bysshe me fazia trabalhar ainda mais arduamente e evitar toda a companhia humana, de modo a me entregar inteiramente a minhas atividades. Eu me sentia verdadeiramente sozinho, tendo sido tão ostensivamente traído pelo único que tinha como amigo e companheiro. Comprei aparelhos elétricos de um manufatureiro em Mill Street, mas logo me dei conta de que a escala de trabalho dele não era suficiente. Fiz alguns progressos. Conheci o médico-legista de Oxford, um ex-aluno de minha faculdade. Expliquei a ele que meus estudos requeriam o uso de espécimes humanos e, após alguma reflexão, concordou em me ajudar pela causa do avanço da ciência. Ele mesmo era um explorador de fenômenos naturais, tendo ficado interessado em especulações geológicas e na estrutura da Terra, de modo que compreendeu o meu desejo de procurar as origens da vida no corpo humano. Prometi trazer a ele algumas rochas alpinas na ocasião de minha visita seguinte a Genebra. Eu ainda usava o celeiro em Headington para os meus experimentos e, na calada da noite, os dois criados do médico-legista traziam para mim os cadáveres — ou, em certas ocasiões, as partes dos cadáveres — que ele examinara naquele dia. Os criados esperavam enquanto eu trabalhava neles noite adentro, e então os retornavam ao escritório do médicolegista na Clarendon Street. Eu pagava generosamente por eles — um guinéu para cada um — em cada visita. Realmente acredito que os ingleses fazem qualquer coisa por dinheiro. Consegui algumas descobertas surpreendentes com esse trabalho. Descobri um método de passar eletricidade através do corpo humano inteiro de forma que o fizesse tremer e se arrepiar. Também consegui transmitir uma corrente elétrica através da espinha de uma criança, fazendo com que os olhos e a boca se abrissem. Tive esperança de que algum som se manifestasse nas cordas vocais, mas nisso fui desapontado. O Sr. Franklin já sugerira que a eletricidade poderia ser usada para reviver o coração em pacientes que tinham acabado de expirar, e eu não tinha razões para duvidar dele. Ramos verdes podem brotar de uma árvore destruída. Lembrei do caso em Genebra, alguns anos antes, em que uma jovem fora declarada morta depois de cair da janela do primeiro andar; e no entanto foi restaurada à vida pelo uso do aparelho elétrico conhecido como a garrafa de Leyden. Os pacientes que o médico-legista me enviava tinham em geral morrido fazia tempo demais para que houvesse alguma chance de revivê-los, embora eu tenha alimentado uma esperança estranha e insensata quando me apresentaram um bebê que se afogara no Tâmisa. Eu lera sobre homens afogados sendo trazidos de volta à vida pela fricção ou socos no peito, e acreditei que o corpo do bebê ainda continha o fogo primal ou o princípio da vida. Drenei o excesso de líquido por um pequeno orifício no abdômen e depois coloquei a criança sobre uma folha de estanho, servindo de bom condutor. Então a cerquei com garrafas hermeticamente seladas, montando assim o maquinário de Leyden; houve um estrondo, como o de uma trovoada de verão e, para o meu horror, a criança ficou terrivelmente queimada. Mas não havia vida. Creio ter dito ao médico-legista que as queimaduras eram a descoloração resultante do afogamento. Eu não poderia permanecer em Oxford sem despertar suspeitas, mesmo trabalhando no mais remoto confim de Headington. Eu subornara os porteiros para ignorar as minhas saídas noturnas, antes que os portões da universidade fossem fechados, e meu retorno para os meus aposentos depois de os portões terem sido abertos. Eles acreditavam que havia uma mulher no caso e eu optei por não os desiludir. Mas eles iriam falar. Quando o diretor convocou-me ao seu escritório, para o que ele chamou de uma conversa, suspeitei do pior. Mas eu já tinha chegado à conclusão de que era hora de partir. Não iria obter meu diploma; mas com o meu pai morto e a fortuna independente que herdara, eu realmente não tinha necessidade das iniciais após o meu nome. O diretor me cumprimentou com suficiente calor, e entabulamos o que os ingleses chamam de “papo”. — O seu tutor me diz que o senhor está em busca dos princípios da ciência natural, Sr. Frankenstein. — Essa é a minha meta, senhor. — E por acaso eles o levam em direção ao místico e transcendental? — Não estou compreendendo. — Há um aspecto espiritual? — Sou um estudante do cérebro e do corpo, não da alma. — Esta é uma universidade cristã, Sr. Frankenstein. Precisamos sempre considerar a
alma. Ele era um homem alto, com a cabeça calva e suíças avantajadas; ofereceu-me um copo de rum, o qual aceitei. — Alguma vez o senhor considerou o crescimento dos membros? — perguntei a ele. — Perdão? — Há algum poder que os forma no embrião. Há uma semente que eles contêm em seu próprio âmago. — O que tem isso a ver com a alma? — É uma pergunta que eu gostaria de fazer ao senhor. O que tem a ver com a alma? Se possuímos tal entidade, ela com certeza deve ter sua parte na formação do corpo. Diz-se com frequência que os olhos são a janela da alma. O professor Stokes provou que os olhos são formados no útero. — Nosso conhecimento é finito, Sr. Frankenstein. — Ah, mas eu quero estendê-lo. Eu quero ir mais longe em todos os sentidos. — Não sei se o compreendo. — Não há outra maneira de lhe dizer isso. Estou decidido a partir de Oxford. Devo agradecer a sua gentileza, e posso dizer com alguma certeza que esta foi a época mais construtiva de minha vida. Apertamos as mãos. Confesso que nunca estive mais contente em sair da presença de alguém; o diretor representava todo o peso do conhecimento morto do qual eu queria me livrar. Uma semana depois eu tinha feito as malas, dado uma gorjeta a uma chorosa Florence e contratado uma carruagem para Londres. Parti no mais elevado ânimo, convicto de que estava para criar um novo mundo. Na solidão da carruagem, recitei alguns versos de Lorde Byron quando passávamos pela aldeia de Acton:
É criar, e em criar que vive Um ser mais intenso, que dotamos De forma e fantasia, ganhando ao darmos A vida que imaginamos...
Em minha busca pela vida, eu acreditava que estava prestes a me recriar.
***
Ao chegar à Jermyn Street, contratei um jovem carregador, cujo ponto era na passagem ao lado da igreja, para levar meus pacotes e demais pertences para os meus aposentos no terceiro andar. Ficava no pavimento superior do prédio, mas ele desempenhou a tarefa sem as reclamações e resmungos habituais dos trabalhadores ingleses. Descobri que o nome dele era Frederick, ou Fred, e fiquei tão encantado por sua maneira animada e entusiasta que quis saber a seu respeito. Ele não devia ter mais do que 13 ou 14 anos. — Bem, Fred, como anda o seu serviço? — Assim, assim, senhor. Podia ser pior. Podia ser melhor. Difícil dizer. — Ele tinha uma maneira pesarosa de falar, mas então sorriu como se tudo fosse uma grande comédia. — Como entrou nele? — Por herança, senhor. Meu pai foi carregador aqui a vida toda. Ele caiu duro quando soltava um asno de seus tirantes. Uma tragédia. — E então ele sorriu de novo. — Quando foi isso? — Três meses atrás, senhor. Eu fiquei no posto dele na mesma tarde. Minha mãe me disse que era a minha posição na vida. Ela diz que passa de pai para filho. — Você tem um irmão que poderia ficar no seu lugar? — Vários deles, senhor. Todos dispostos. — Então gostaria de lhe oferecer outro posto. — Noutra rua, senhor? — Não, eu quis dizer que gostaria de lhe oferecer outro serviço. Você se interessaria em ser meu criado aqui? — Ele olhou para mim e tirou o boné. — Seus deveres serão leves. Sou sozinho no mundo. — Onde eu dormiria, senhor? — Há um pequeno quarto no fim deste corredor. Com vista para a viela. — A mui amada viela. — Ele pareceu aliviado com a minha resposta. — Eu seria o que se chama de um menino de serviços gerais, senhor? — Você prepararia minhas refeições. Arrumaria minhas roupas. E assim por diante. — Eu levaria mensagens, senhor? — Naturalmente. — Ele sorriu largamente. — Você seria o meu factótum, Fred. — Não sei se seria capaz disso. — Você vai ser capaz de tudo. Um guinéu por semana. Ele sorriu, e pareceu estar a ponto de rir. — E isso seria todas as semanas, correto? — Todas as semanas.
— Nessas circunstâncias, senhor, eu ficaria contente em aceitar. Só preciso ir lá dizer para a minha mãe. A mãe voltou com ele uma hora depois. Era uma mulher de pernas fracas e um tanto desleixada; o xale tinha uns restos de rapé, e havia um distinto cheiro de álcool no seu hálito. Teve dificuldades em se recuperar depois de subir os lances de escada, e ofereci a ela meu frasco de aguardente. A oferta foi aceita imediatamente, e a mulher tragou quase tudo o que continha antes de pôr a mão na cabeça do filho. — Ele é um bom menino — anunciou. — Vale o guinéu. — Mãe... — Ouvi dizer que o senhor é um cavalheiro estrangeiro, senhor. — Sim. Sou da Suíça. — É mesmo? É bonito o bastante para ser um inglês, se me permite dizer. — É muita gentileza da sua parte. O tempo todo ela estava examinando o apartamento. — Fred — chamou —, você precisa cuidar daquela lareira. Está podre, no canto. E essas janelas precisam ser limpas. — A senhora tem razão, Sra... — ... Shoeberry. — Quando ela sorriu para mim, pude distintamente ver que faltavam alguns dentes. — O senhor ouviu falar do Sr. Shoeberry e o asno? — De fato. — Foi um duro golpe na vizinhança, senhor. Mas eu ainda sou lavadeira. Essa é a minha profissão. Ela pareceu estar esperando que eu falasse. — Seria muito gentil da sua parte, Sra. Shoeberry, se lavasse as minhas roupas. — Um xelim pelas roupas. Seis centavos pelos lençóis. — É bastante razoável. — Espero que sim, senhor. Tem lavadeiras na Suíça, senhor? — Não sei. Acredito que sim. — Elas não devem ser mais baratas do que eu, posso lhe garantir. Agora, Fred, seja esperto e escove o casaco do cavalheiro. Ele chegou de viagem. E foi assim que Fred Shoeberry e sua mãe se encarregaram de minha vida na Jermyn Street. Fiquei contente que o fizessem, já que nada mais me interessava a não ser o meu trabalho. Eu queria começar de imediato, mas obviamente não havia possibilidade de empreendê-lo num bairro tão chique de Londres. Eu precisava do máximo de sigilo e
isolamento que pudesse conseguir, de modo que percorri as áreas menos respeitáveis da cidade em busca de um local adequado. As seções a leste, dando no rio, pareciam as mais promissoras. Inspecionei Wapping e Rotherhite em pleno dia, onde, vestido em roupas comuns, eu passava despercebido em meio à multidão de nacionalidades e negócios. Era notável ver a variedade de trajes e faces, de turcos a chineses, passando pelas estreitas ruelas ao longo do Tâmisa. Nunca tinha visto tanta vida humana congregada antes, e me veio à cabeça o provérbio segundo o qual Londres é uma bebida contendo a borra de todas as nações. Foi então que encontrei uma estrutura perfeitamente adequada para os meus propósitos. Era uma antiga manufatura de cerâmica em Limehouse, com o seu próprio pátio e cais no rio. Os prédios em volta eram armazéns dos mais variados e, como imaginei, desertos de noite. Investiguei nas tavernas vizinhas e descobri que os empregados tinham partido vários meses antes — depois que o proprietário tinha declarado falência. Mais investigações me levaram a um agente comercial na Baltic Street que tinha um “interesse” na propriedade. Logo descobri que ele era o proprietário que falira, de modo que foi um assunto relativamente fácil comprar a sua fábrica abandonada pelo que considerei uma quantia relativamente modesta. E assim me tornei um proprietário legítimo em Limehouse.
***
Eu escrevera a Daniel Westbrook alguns dias depois de minha chegada, anunciando minha intenção de ficar em Londres e pedindo notícias de sua irmã. Por vários dias nada ouvi dele, mas, ao voltar à Jermyn Street certa noite, depois de uma inspeção em minha propriedade, eu o encontrei numa conversa intensa com Fred, na porta de minha casa. — Meu caro Daniel — saudei-o —, entre imediatamente. — Esse moleque ficou latindo para mim como um Cérbero. — Ele diz que conhece o senhor. — É claro que ele me conhece, Fred. — Mas ele não tem cartão de visitas, Sr. Frankenstein. — Ele não precisa de um cartão. O Sr. Westbrook é um velho amigo. Agora que já o conhece, poderia lhe dar as boas-vindas? — Ouviu isso, meu velho? — perguntou Daniel a ele. — Meu latido é pior que a minha mordida, Sr. Westbrook. — Fred tinha uma expressão irresistivelmente tola em seu rosto, que fez nós dois rirmos.
— Bom, eles estão devidamente casados — contou-me Daniel assim que nos instalamos no apartamento. — Harriet me escreveu de Edimburgo. Ela é agora a Sra. Shelley. — Você não ficou contente? — Teria preferido circunstâncias melhores. Mas, sim, estou satisfeito por ela. As perspectivas dela na vida são agora incomensuravelmente melhores. Até o meu pai vê a vantagem disso. — Ela discutiu seus planos com você? — Eles estão se mudando para Cumberland por alguns meses. O Sr. Shelley tem um interesse pelos poetas do Lake District, creio. O senhor os conhece? — Eu os li. — Ele já está se correspondendo com um deles, de acordo com Harriet, e lhe ofereceram o aluguel de um chalé junto a um lago. Ela não lembra qual. — Parece delicioso. — Espero que seja. Eles me convidaram a passar um tempo com eles lá. — Excelente. Harriet falou alguma coisa sobre Bysshe? — Ele passa o tempo todo lendo livros emprestados de uma biblioteca e compondo cartas para o pai. Eu suspeitava que muito pouco proveito resultaria de ambas as atividades, mas nada disse. Não queria ofender as expectativas felizes de Daniel quanto ao casamento, embora eu pudesse ver poucas razões para otimismo. Se fosse uma aliança equivocada, como eu julgava, pouco de bom resultaria dela. Falamos de outros assuntos. Ele me deu notícias da Liga da Reforma Popular e de uma reunião recente em Clerkenwell Green em que o exército foi chamado; tinham recebido ordens de reprimir quaisquer distúrbios, mas o encontro fora bastante pacífico. Segundo Daniel, o exército em todo o caso mostrara-se singularmente relutante em intervir. — Eles são trabalhadores, também — afirmou. — Não vão derramar o nosso sangue. — Naturalmente eu fiquei contente e aliviado no que dizia respeito a ele, mas o meu entusiasmo pela causa havia diminuído. Eu estava tão interessado em meus próprios estudos que tinha pouca inclinação para outras atividades. O que pode deter um coração determinado e a vontade resoluta de um homem? Eu estava tão decidido quanto o destino.
***
Agora que eu adquirira a manufatura de cerâmica em Limehouse, tinha de instalar nela
todos os equipamentos e aparelhos de que precisaria para criar e armazenar o fluido elétrico. Visitei muitas oficinas até me ver, uma tarde, no laboratório do Sr. Francis Hayman, um engenheiro civil que tinha sido contratado pela Convex Lights Company para investigar novos métodos de iluminação. Ele ficava situado em Bermondsey, ao lado de uma companhia de chapéus, não muito longe do outro lado da água da própria Limehouse. Assim que ele soube a natureza de minha missão, ficou contente em me mostrar sua oficina, como ele a chamava, onde havia uma variedade de motores, molas e frascos que imediatamente despertaram o meu interesse. — O que o senhor realizou até agora? — perguntou-me ele. Eu contei que estava interessado em reanimar a vida em tecidos animais por meio da eletricidade. — Comecei a experimentar — expliquei — por pequenos choques. — Não há dúvida de que o fluido pode ser um composto curativo. Então por que não empregá-lo para animar órgãos dormentes? Por acaso o senhor leu, nos diários de Wesley, que seu aleijamento foi curado quando ele foi eletrificado de manhã e de noite? — Não sabia disso — respondi. — Mas não me surpreende nem um pouco. — Mas o senhor notou a diferença entre as duas eletricidades? — Ele era um homem alto que adquirira uma curvatura, sem dúvida por causa das baixas portas inglesas. — Sei que Franklin as chamou de eletricidade vítrea e resinosa... — Bem, Sr. Frankenstein, eu prefiro a minha própria terminologia. Há a eletricidade friccional, a eletricidade magnética e a eletricidade térmica. A derivação é óbvia. — É claro. — Eis o que é interessante. Eu acredito que o fluido elétrico também é produzido por meio da ação química. Eu a chamei de eletricidade galvânica. É uma grande força da natureza. — O senhor a criou aqui? — De fato. Agora a minha tarefa é fazer todos esses vários fluidos se unirem. Observe os meios. — Ele me levou a uma pequena bancada de madeira onde estavam dispostos quatro tubos alongados de vidro, com fios passando entre eles. — Isso parece a balança elétrica de Coulomb, Sr. Hayman. — O senhor a conhece? O senhor é mais bem-instruído do que imaginei. — Ele tinha uma maneira brusca, quase ríspida, de falar. — Também fiz experiências com anguiliformes elétricos. — Perdão?
— A enguia. E também com algumas arraias-elétricas. É notável como o peixe plano emite o fluido. — Nem tão notável assim — retruquei. — Examinei um espécime desse peixe em meus trabalhos. Sob suas nadadeiras há colunas de discos, firmemente presos juntos, que devem agir como uma forma de bateria natural. Eles possuem órgãos elétricos. — Precisamente a minha conclusão, senhor. — Creio — afirmei — que o fluido elétrico está depositado num estado latente em quantidade ilimitada na terra, na água e na atmosfera. Está nos relâmpagos do verão. Está no pingo de chuva. — No senhor. E em mim. — Ele apertou a minha mão. — Fico feliz em cumprimentar um amigo elétrico. Permita-me que eu lhe mostre algo mais. Ele me levou para o outro lado do laboratório até uma pequena alcova, separada da sala principal. Dentro dela havia um instrumento cilíndrico, de 1,8 metro de altura, com camadas de vidro e metal. — Esta é a minha invenção — explicou. — É construída de zinco, pechisbeque e mercúrio. Contém quase um milhar de pequenos discos, junto com placas de cera e resina. — Ele passou a mão pelo lado do aparato. — Eu a chamei de coluna elétrica. — Qual é o poder dela? — Imenso. — Ele arregalou muito os olhos. — Quando é usada em conexão com a bateria elétrica na outra sala. Está vendo todas essas garrafas conectadas? Bem... — É um nervo gigante, Sr. Hayman. — É uma boa maneira de descrever. Meus empregadores têm ideias fixas nesses assuntos. Eles querem que eu examine novas modalidades de iluminação para as ruas. Mas com engenhos tais como esse, poderíamos ver a nação inteira num estado elétrico! Soube então que a minha busca obtivera sucesso. Eu encontrara precisamente o equipamento de que iria necessitar para transmitir o fluido elétrico para o corpo humano. Não me foi difícil persuadir o Sr. Hayman a construir uma máquina idêntica para mim, com todos os seus vários complementos; a quantia que ofereci a ele iria mais do que compensar seu trabalho, e lhe daria fundos para prosseguir em suas pesquisas. Ficou acertado que as várias partes da coluna elétrica seriam embrulhadas em lona e então transportadas para o outro lado do Tâmisa em barcaças, de Bermondsey para Limehouse, onde ele me ajudaria a montá-las em minha própria oficina. Fiquei num estado de intensa empolgação. Ter os meios de transmitir a vida em meu poder — ser capaz de criar a centelha vital — me emocionava desmesuradamente.
Com a assistência de dois trabalhadores locais, montei uma série de bancadas e estantes na oficina, suficientes para os materiais que estava reunindo. Eu queria também algum meio de refrigeração, de modo que eles construíram para mim o tipo de câmara de gelo que se encontra nos porões do Billingsgate Market. As mulheres dos trabalhadores limparam tudo impecavelmente. Eu disse a eles que estava estudando o lento desaparecimento dos peixes que antes eram tão abundantes no Tâmisa, e eles me aplaudiram por desenvolver um trabalho tão útil para a região. Eu disse a eles que queria ser deixado em paz, já que meu trabalho exigia estudos demorados e pacientes, e que eu era obrigado a trabalhar de noite, quando o movimento no rio diminuía. Eu sabia muito bem que minhas palavras iriam ser amplamente distribuídas pela vizinhança. Em seis ou sete semanas, Hayman começou a entregar o equipamento que ele fabricara para mim. Durante várias noites, dois barqueiros o atravessaram pelo Tâmisa. Eles usaram a minha área de desembarque na margem do rio, bem em frente à oficina, e na noite final, sob o manto da escuridão, carregaram a preciosa coluna elétrica para dentro do prédio. Assim que os barqueiros partiram, Hayman começou a tarefa árdua de montar a sua invenção. — Estive pensando — comentei. — Gostaria de ter mais uma. — Outra coluna? É desnecessária, Frankenstein. O poder dessa máquina é incomparável. — Mas e se... quero dizer, e se... ela parar de funcionar por alguma razão? — Isso não vai acontecer. Dou-lhe a minha palavra. — Confio em você inteiramente, Hayman, mas e se por algum erro da minha parte a coluna parar de funcionar? Meu trabalho iria ficar paralisado. — É algo a considerar. — Ele permaneceu em silêncio por algum tempo, e eu podia ouvir o movimento da maré contra um barco; houve um grito em algum lugar rio abaixo, e uma corrente caiu na água. — Você precisa me prometer uma coisa. Você não deve jamais usar as duas colunas ao mesmo tempo. O efeito seria incalculável. Sabemos tão pouco da natureza do fluido elétrico que ninguém pode predizer o seu curso. Poderia ser fatal. — Eu lhe prometo, Hayman. Com isso, o assunto estava resolvido. Ele concordou em construir outra coluna, nas mesmas bases da primeira, e entregá-la dali a algumas semanas. Creio que ele também foi dobrado pela promessa de uma quantia equivalente. Como escrevi antes, os ingleses fazem qualquer coisa pelo lucro. Fiquei exultante. Teria sob meu controle as energias de um vasto poder — talvez um poder maior do que qualquer homem já tenha dominado —, e através desse poder eu iria criar uma nova forma de ciência. Ao restaurar a vida humana, eu estava para começar um empreendimento que iria transformar a própria consciência humana! Eu
estava determinado a provar que a natureza podia ser uma força moral, um agente do bem e da transformação benevolente. Obter vida da morte, restaurar os espíritos e as funções perdidas do corpo humano... o que poderia ser mais beneficente?
***
Restava-me encontrar os pacientes. Eu ainda lembrava muito bem a conversa que tivera em Paris com Armitage, o oculista, cujo pai conhecera os ressuscitadores; o pai trabalhara como assistente de John Hunter, um cirurgião muito talentoso que necessitara de um fornecimento de espécimes frescos para treinar suas habilidades. Armitage me dera o seu cartão, mas eu o perdera estupidamente, de modo que chamei Fred. — Você já ouviu falar, Fred, de algum oculista? — Não, senhor. Se eu vivesse até os 100 anos, nunca teria ouvido falar dele. — Um óptico? Oftalmologista? — É o mesmo cavalheiro? — Similar. — Então ele poderia muito bem ser o homem na lua. Não o conheço. — Diga-me então o seguinte, Fred. Em suas extensas viagens na metrópole... — Perdão, Sr. Frankenstein, eu sempre viajo a pé. — ... Você passou por alguma loja com um enorme par de óculos pendurados na frente? — Ah, sim. Muitas vezes. Eu achei que eram telescópios, senhor. Como o que tem no Strand. Sei de um em Holborn, ao lado da loja de queijos. — Então ele deu um tapa na testa, e fez uma pequena mímica de incredulidade. — Como eu sou estúpido, senhor. Há um aqui em Picadilly. Tocado por um sujeito de nome Wilkinson. — Você poderia ir a esse Wilkinson, Fred, e perguntar se ele conhece um fabricante de óculos chamado Armitage? — Posso tentar, senhor. Não sei se o velho doido vai falar comigo. — E por que não? — Ele é um bárbaro com meninos como nós. — Se ele não for ajudá-lo, então vá a Holborn. Onde quer que haja a placa dos óculos, pergunte por um Armitage. E assim Fred partiu. E voltou menos de uma hora depois, trazendo triunfante um pequeno pedaço de papel. — Vinho, vidro, vício — anunciou. Devo ter parecido surpreso. — Isso foi Júlio César, senhor. Quando ele venceu. — Ele me entregou o papel, no qual estavam escritos um nome e um endereço: A. A. Armitage e filho, 14 Friday Street, Cheapside. Tais eram a minha impaciência e urgência que fui até lá na mesma tarde. Era uma propriedade de fachada estreita, com uma porta pequena na rua e uma janela afilada que ia até o teto do térreo. Quando entrei um sino tocou sobre mim, e em poucos momentos ouvi o som de passos se arrastando. A janela alta parecia ter sido projetada de forma a deixar entrar o máximo de luz possível da Friday Street, e nas estantes em minha volta eu podia ver todos os tipos possíveis de óculos: verdes, azuis, convexos, côncavos, com vidro na frente, com vidro do lado e por aí afora. Um velho entrou na loja, apoiando-se numa bengala. O topo de sua cabeça estava bem calvo, e sua boca chupada sugeria que ele perdera os dentes, mas eu notei no mesmo instante o brilho de seus olhos. — Em que posso lhe servir, senhor? — Estou procurando pelo Sr. Armitage. — Está vendo-o. — Eu creio que o senhor tem um filho. — Tenho. — Eu tive a boa sorte de conhecê-lo em Paris, e prometi fazer-lhe uma visita ao voltar a Londres. — Como é o nome do senhor? — Frankenstein. Victor Frankenstein. — Alguma coisa... — Ele pôs a mão na testa. — Estou lembrado. — Ele foi até o corredor interno da loja e chamou: — Selwyn! Então veio o som de passos apressados em degraus sem carpete, e o meu conhecido entrou na sala. — Bom Deus — exclamou. — Eu tinha esperança de voltar a vê-lo. Este é o Sr. Frankenstein, pai, que está estudando como funciona a vida humana. Eu lhe contei sobre ele. O pai voltou seus olhos brilhantes para mim, parecendo satisfeito. — Diga à sua mãe para nos trazer chá verde — pediu. — O senhor toma chá verde, Sr. Frankenstein? É muito bom para os nervos ópticos. — Terei o maior prazer em provar, senhor. — Selwyn o bebe de manhã e de noite. Eu testei os olhos dele. Ele pode ver o Monument de Temple Bar, se não há casas no meio. De Millbank, ele consegue ler um letreiro numa loja em Lambeth.
— Impressionante. A Sra. Armitage entrou na loja, trazendo uma bandeja com um bule de chá e xícaras. Ela parecia consideravelmente mais nova que o marido; usava um vestido de cetim verde que mal ocultava seus seios fartos, e tinha arrumado os cabelos no estilo em cachos da moda. — O senhor vai aceitar? — perguntou-me. — Com prazer. — Vai estar bem quente, senhor. A água precisa estar fervendo para revelar a beleza das folhas. Enquanto bebíamos o chá, Selwyn Armitage lembrou ao pai os detalhes do nosso encontro na estalagem das diligências em Paris. Expliquei então a eles o curso de meus estudos em Oxford, tomando o cuidado de evitar qualquer referência a experimentos humanos; em vez disso, eu os entretive com descrições da eficácia do fluido elétrico. Quando mencionei um gato morto cujo pelo se eriçara e cuja boca se abrira após uma breve descarga do fluido, a Sra. Armitage pediu licença e voltou para o apartamento no andar de cima. A luz estava começando a diminuir e a noite a se aproximar, quando os dois homens me convidaram a compartilhar uma garrafa de vinho do Porto com eles. Os Armitage pareciam relutantes em dispensar a minha companhia. Depois do primeiro copo, me aventurei nos assuntos que mais me interessavam. — Selwyn mencionou — comecei — que o senhor trabalhou com o Sr. John Hunter. — Abençoada seja a memória dele, senhor. Era o melhor cirurgião da Europa. Ele podia desbloquear uma estrutura em minutos. Não havia ninguém como ele para uma hérnia. — Conte a ele sobre a sua fístula, pai. — Ele consentiu em me tratar, senhor, quando tive esse problema. Começou e terminou antes que eu pudesse me dar conta. — Mas deve ter sentido dor, Sr. Armitage. — A dor não foi nada para mim, Sr. Frankenstein. Não quando estava nas mãos do mestre. — O mundo inteiro ficou sabendo dos experimentos dele — comentei. — Eles eram maravilhosos de se assistir, senhor. — Ele não tentou congelar criaturas e então revivê-las? — Ele tentou com ratos silvestres, sem sucesso. Mas me lembro de que uma vez ele congelou a crista de um galo. Elas caem, sabe, em geadas fortes. — Mas ele acreditava que poderia seguir o mesmo procedimento com humanos, não? — Agora essa, Sr. Frankenstein, é uma pergunta interessante. — O velho Sr. Armitage foi até a porta interna e chamou sua esposa, que nos trouxe outra garrafa de vinho do Porto. — Ele era da mesma opinião que o senhor, em alguns assuntos. Foi por isso que meu filho me contou sobre o senhor, para começo de conversa. O Sr. Hunter tinha fé no que chamava de princípio vital. Era da opinião de que poderia permanecer no corpo por uma hora ou mais após a morte. — E poderia então ser revivido. — Isso mesmo. — Eu li um relato curioso na Gentleman’s Magazine sobre a tentativa de restaurar o Dr. Dodd. — Aquele relato não era preciso, se bem me lembro. Nós não o colocamos num banho quente. Isso teria tido pouco efeito. — Mas o Sr. Hunter tentou outros meios de restaurá-lo à vida, não? — Quando foi retirado do cadafalso, ele foi trazido a galope para a casa do Sr. Hunter em Leicester Square. Nós friccionamos o corpo para reavivar seu calor natural, enquanto o Sr. Hunter tentou inflar os pulmões usando um fole. Mas ele tinha sido deixado balançando em Tyburn por tempo demais. Então, Sr. Frankenstein, ele tentou o seu método. Ele deu ao corpo uma série de choques intensos de uma garrafa de Leyden. Mas Dodd ficou inerte. — Creio, Sr. Armitage, que o nível do poder elétrico que empregaram foi muito baixo. Nenhuma garrafa poderia produzir uma restauração da vida. É necessário força maior para ter resultados. — O senhor tem esse poder? Eu fiquei mais cauteloso. — Um dia espero obtê-lo — respondi. — Ah. Um sonho. O Sr. Hunter costumava dizer que um experimentador sem um sonho não era um experimentador de verdade. — E ele nunca desistiu de fazer experiências? — Não. Ele tirava o dente de uma criança saudável e o plantava na gengiva de alguém que precisava dele. Ele o amarrava com alga marinha. — Essa deve ter sido uma operação notável. — Ah, isso não era nada. Ele podia colocar os testículos de um galo na barriga de uma galinha e vê-los crescer. — Eu ouvi dizer — comentei — que a sala de dissecção dele estava sempre repleta de observadores. — Lotada, senhor. Ele era uma grande atração para os estudantes. Ele era capaz de abrir um paciente em segundos. — Devia ser muito gratificante. — Era um prazer de se ver. Ele era um homem incrível com uma faca. — O senhor precisa me esclarecer um aspecto, Sr. Armitage. Quantos pacientes ele... — Havia um fornecimento regular. — Ele tomou outro copo de vinho do Porto e olhou para o filho. — O senhor pode contar a ele, pai. — Em Londres sempre há mais gente morrendo do que nascendo. Isso é um fato. Não há lugar para todos eles. Os cemitérios estão abarrotados. — No entanto, ele devia ter um fornecimento. — Eu vou lhe contar isso no mais absoluto sigilo, Sr. Frankenstein. O Sr. Hunter era o cirurgião residente no Hospital St. George. Você poderia nos trazer outra garrafa, Selwyn? Ele tinha as chaves do aposento dos mortos lá. Terei dito o bastante? — Mas ele deve ter dissecado alguns milhares. Imagino que não vieram todos de um só lugar... — O senhor está inteiramente correto. Não poderiam ser todos de lá. — Eu esperei impacientemente Selwyn Armitage voltar à sala com uma nova garrafa e começar a servir vinho no copo do pai. Declinei a oferta. — O senhor ouviu falar dos Homens do Saco? — Creio que não. Não. — Ressuscitadores. Homens do Juízo Final. — Eu sabia precisamente do que ele estava falando, é claro, mas fingi ignorância para poder ter maiores esclarecimentos. — São os homens que roubam as sepulturas dos mortos. Ou entram nas capelas mortuárias e furtam suas vítimas. Não é um ofício delicado, Sr. Frankenstein. — Ainda assim é necessário, Sr. Armitage. Não tenho dúvidas quanto a isso. — De que outra maneira poderíamos progredir? Teria o Sr. Hunter algum outro jeito de terminar seu trabalho sobre o cordão espermático? — Creio que não. — Eles eram muito caros. — Ele secou seu copo e o ergueu para o filho. — Um guinéu ou mais por um corpo. O preço de uma criança era estabelecido por polegadas. Será que você poderia me servir, Selwyn? No entanto, os melhores eram bastante eficientes. O paciente tinha de ser entregue depois de o rigor cadavérico ter passado, mas antes da decomposição geral. E eles tinham de fugir à atenção da turba. — A turba — disse Selwyn — era pior, então. — Eles teriam sido mortos no ato, Sr. Frankenstein. Esquartejados. A turba odiava os ressuscitadores. — O senhor fala deles no passado, Sr. Armitage. Mas suponho que eles sigam em seu ofício? O mercado deve ser tão próspero como sempre foi. — Não duvido. As escolas médicas cresceram e são enormes agora. — Eles frequentam os mesmos lugares? — Os cemitérios? É claro. Há um cemitério de indigentes em Whitechapel... — Não. Eu me referi aos seus locais de negócios. Onde encontram seus clientes. Onde são pagos. — Eles são pagos na porta dos fundos, Sr. Frankenstein. Todo hospital tem uma. — Contudo, eles devem se encontrar. — Encontram-se para beber. A bebida é a vida deles. Nenhum deles poderia fazer o trabalho sóbrio. Já vi alguns deles, meu senhor, sentados numa taverna do anoitecer até a aurora. — Que taverna era essa? — A mais notória de todas, Sr. Frankenstein. — Ele bebeu lentamente o copo inteiro e o estendeu para mais. — Fica em Smithfield. Bem em frente ao St. Bartholomew’s. Isso sim é que é um mercado de carne.

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