Na noite do dia seguinte fui visitar Bysshe na Poland Street. Ele estava de muito bom humor e me abraçou quando entrei. — A primeira aula terminou — disse ele. — A Srta. Westbrook já foi? — Daniel acabou de sair para levá-la para casa. A pé. — Ele riu. — Ela vai ser a mais maravilhosa das alunas, Victor. Falei a ela hoje sobre a poesia de Chaucer e dos trovadores, e recitei para ela alguns versos de Guillaume de Lorris. — Eu supus que você fosse ensinar Esopo a ela. — Achei-o muito árido. Gostaria que você tivesse visto a expressão dela quando li O romance da rosa. Ficou radiante. Era como se a alma dela estivesse espiando por meio de seus olhos! Eu suspeitei que o interesse de Bysshe por Harriet Westbrook era mais forte do que o de um mestre por seu discípulo. — Você leu um romance de cavalaria francês para ela? — É claro. Preciso começar de algum lugar. Onde mais se não num jardim medieval? E então prosseguiremos com Spenser. E aí Shakespeare. Eu a cobrirei de deleites! — Deve ser estranho para ela estar livre do trabalho. — Acredito que a aterroriza e delicia em igual medida. Sabe o que ela disse para mim? Disse que era como ter morrido e estar ressuscitando. Viu que alma que ela tem? — Vejo que ela o impressionou. Onde é a peça? — Drury Lane. Você não está acostumado a nossos teatros, Victor. Tudo começa e termina em Drury Lane. Precisamos ir agora. A rua estava repleta de carruagens quando chegamos, mas seguimos nosso caminho sem dificuldades até o Theatre Royal, onde fomos abordados por doceiros, vendedores de frutas e as mulheres de rua.
— Ficaremos no fosso — disse Bysshe. — Um camarote não se conseguia por preço algum. Eu nunca tinha visitado um teatro londrino antes e fiquei imediatamente espantado com a desordem da aglomeração. Fomos obrigados a ficar de pé, perto da pequena orquestra logo abaixo do palco, e poderíamos muito bem estar num mercado de frutas ou numa feira de cavalos. — Olhe lá — gritou Bysshe em meio à barulheira. — Aquele é o Sr. Hunt. Está vendo? Com o chapéu violeta? Um grande homem, Victor. Um campeão da era vindoura. — Quando Leight Hunt enxergou Bysshe, deu um amplo sorriso e ergueu o chapéu. — Sabe por que ele está aqui, Victor? O Sr. Hunt é amigo de Cunningham. Nosso autor é um filho da liberdade. Não me surpreenderia se houvesse alguma manifestação contra o governo esta noite. Bysshe olhou em volta com satisfação enquanto o fosso enchia até as bordas, os assentos atrás de nós e os camarotes em nossa volta logo ficando lotados. Eu nunca tinha visto uma multidão londrina, se posso chamá-la assim, e devo dizer que estava com certo medo dela. Apesar das risadas e do clima geral de animação, parecia uma criatura inquieta em busca de uma presa. Poderiam muitas vidas somar-se numa só? A orquestra tocou uma ária, uma melodia sem dúvida composta para a ocasião, e as cortinas se abriram para revelar uma paisagem de gelo e rochedos e montanhas. — Você reconhece? — sussurrou Bysshe. — Estamos na Suíça. Então entrou no palco uma figura com um capuz, toda trajada de preto; andou para a frente num passo rápido como o de uma criatura selvagem, tão estranha e ameaçadora que reduziu a plateia ao silêncio. — Céu imortal, o que é o homem? — exclamou numa voz insolitamente alta. — Um ser com a ignorância, mas não o instinto, do animal mais fraco! — Este é Nugent — murmurou Bysshe. — Um ator muito talentoso. A figura então virou-se para a plateia e tirou seu capuz. Houve uma involuntária exclamação de surpresa, ou pasmo, com seus traços pálidos e esquálidos — parecia emaciado, devastado e trêmulo. — Os artistas da maquiagem andaram ocupados — comentou Bysshe. No entanto, eu mal lhe dei ouvidos. Havia algo tão desafortunado, tão horrível, naquela figura que exigia toda a minha atenção. — Há um carvalho ao lado da lagoa onde antigamente, como tantas vezes ouvi, uma mulher desesperada, uma infeliz como eu, terminou seus infortúnios. Seus infortúnios não
eram como os meus. E os meus nunca terminarão. — Ele parecia estar buscando pela plateia, avaliando cada face e cada olho, e eu tive o mais irracional dos medos de que ele iria encontrar os meus! — Eu cometi o grande pecado angélico: orgulho e soberba intelectual. Agora estou condenado a errar. Melmoth tornou-se Caim, um proscrito sobre a face da Terra! — Eu não tinha noção, então, do porquê de essas palavras me afetarem tão poderosamente. — O segredo de meu destino jaz comigo. Se tudo que o medo inventou, e a incredulidade acredita de mim ser verdade, em que isso resulta? Que os meus crimes excederam aqueles da mortalidade, e assim a minha punição. Tenho sido na Terra um terror... Alguém gritou “Liverpool”, que era então o primeiro-ministro, e as pessoas a minha volta se puseram a rir. Nugent pareceu surpreso por um momento, mas, com a mão sobre o peito e o olhar voltado para o cenário de montanhas distante, esperou o tumulto cessar. Então ele era mais uma vez Melmoth. — Eu sigo amaldiçoando e para amaldiçoar. Eu sigo conquistando e para conquistar. — Eu nunca antes vira a arte da representação tão de perto, e estava atônito com a aparente facilidade com que Nugent assumia a identidade de Melmoth; ele era ainda mais vívido por ser duas pessoas, ele próprio e o homem desesperado. — Eu sigo condenado por todo coração humano, e no entanto intocado por uma só mão humana. Ali está a ruína. — Ele apontou com a mão trêmula para a pilha de pedras no lado do palco. — E mais além está a capela onde eu casarei com a minha noiva escolhida. Eu fiquei impressionado pela representação e pelo espetáculo, mais do que pela trama. Eu nunca tinha visto antes um palco tão grande ou uma produção tão suntuosa, e mal tinha me habituado com o brilho particular das luminárias a gás. O efeito das sombras intensas, da riqueza das cores e da simetria da composição no palco se combinava para formar uma imagem mais real do que a própria realidade. Eu me lembrei do livro de iluminuras que era mantido na sacristia da Virgem Maria em Oxford; podia ser visto apresentando uma carta de um professor da universidade, e eu passara uma manhã encantadora folheando as páginas azuis e douradas, decoradas com as imagens luzidias de santos e demônios. Assim foi em Drury Lane naquela noite. Aquilo não era nenhuma região montanhosa em meu país, mas uma visão maravilhosamente intensificada da desolação árida. Havia algumas pedras e pedregulhos de verdade, tanto quanto eu podia ver, mas notei que as pedras maiores eram feitas de tecido esticado que tinha sido pintado de cinza e azul. O riacho que corria atrás não era de água, mas uma longa tira de papel prateado que estava sendo agitada por mãos invisíveis.
Era o fim do primeiro ato. A pequena orquestra tocou uma melodia, e Bysshe pôs o braço em volta dos meus ombros. — Isso é a verdade — disse ele com grande animação. — Isso é o sublime! — Eu nada respondi. — O proscrito, o errante sobre a face da Terra, é onde todos vagamos! Só o exilado tem uma língua de fogo! A imaginação pode formar mil homens e palavras diferentes. É ela o verdadeiro criador. É a semente de vida nova. — Ela pode fazer tanto? — É claro. A imaginação é a centelha divina saltando sobre o caos. — O riacho era feito de papel prateado. — Ah, isso não é nada. Homens mortais fabricam a cena, mas a visão... — Ele parou para comprar uma garrafa de cerveja e a bebeu sem uma pausa. Então passou a mão pela boca. O interlúdio musical tinha parado e o segundo ato começou no cenário da capela em ruínas. No entanto, uma vez mais fui distraído. Havia alguém falando para a sua companhia, imediatamente atrás de mim, com uma voz bem audível. — Eu me pergunto se o monstro morre ou continua vivo. Será que ele sente remorso pelo que fez? Qual é a sua opinião? — Houve silêncio por alguns momentos. — Quem o criou, o que você acha? Que homem e mulher deram nascimento a ele? — Ele fez outra pausa. — Eu jamais poderia perdoar a pessoa que criou tal ser. — Eu podia sentir o hálito quente do homem em meu pescoço. — Eu jamais poderia consentir com a criação de uma vida condenada. Mereceria uma punição terrível e condigna. Uma punição sem fim. — Eu me voltei, mas aqueles perto de mim pareciam estar envolvidos com o drama e não ter falado. A acústica do teatro era sem dúvida peculiar. As cortinas foram fechadas para um breve intervalo e, então, abertas de novo para revelar um dique, ou o que os escoceses chamam de lago, no topo de uma montanha. Melmoth agora estava na frente de uma perspectiva evanescente de cumes e fendas de montanhas, e agarrava pelos pulsos sua noiva relutante. — O sêmen de uma criatura assim será estéril. — Era a mesma voz de novo, falando distintamente atrás de mim. — Por seu próprio relato, ele envelheceu mais do que um século. Ainda assim, se ele se elevou acima dos confins da vida comum, então quem pode saber? — A garota se desvencilhou dos braços dele e se jogou na água. Eu esperei um barulho de água, ou algum movimento nela, mas em vez disso ela desceu lentamente com os braços erguidos sobre a cabeça. Evidentemente era parte do mecanismo do palco. Bysshe agarrou meu braço e sussurrou para mim. — Não posso suportar isso. É muito perturbador. Forte demais.
— Você quer ir embora? — Sim. Estou com um medo terrível. Eu sempre julgara que Bysshe era muito sensível para suportar os golpes do mundo, e esse sinal de sua natureza trêmula não me surpreendeu de todo. — Vamos embora, então — respondi. — Se conseguirmos abrir caminho em meio a essa multidão. Quando saímos no vestíbulo ele se deteve e, pegando de novo o meu braço, riu. — Sou um tolo — falou. — Desculpe-me. Fui tomado por algum pânico. Agora passou. Você parece surpreso. — Você me deixou curioso. — Quando a jovem se jogou no lago e ergueu os braços sobre a cabeça. Aquilo me assolou com um temível ímpeto de terror. Não faço ideia do porquê. — Vamos voltar, então? — Eu já vi o bastante. A menos que você, Victor... — Oh, não. Tínhamos chegado à rua e, no mesmo instante, ouvimos alguém chamando. — Sr. Shelley! Sr. Shelley! — Era Daniel Westbrook correndo em nossa direção. — Graças a Deus cheguei a tempo! — O que aconteceu? — É Harriet. Ela caiu doente. Ela está perguntando pelo senhor. — O quê? O que aconteceu? O que há com ela? — Ela desmaiou um pouco antes de chegarmos em casa. Estava falando desvairadamente. Bysshe correu para a rua e fez sinal para um coche que tinha acabado de entrar na Drury Lane. Apressadamente entramos, enquanto Daniel dava um endereço na Whitechapel High Street, e o súbito solavanco da carruagem jogou a nós todos no banco traseiro. — Esse é o seu braço ou o meu? — perguntou Bysshe enquanto se desvencilhava e sentava no banco de madeira na nossa frente. — Ela está com febre? Precisamos arranjar gelo. A febre cairá. Não podemos ir mais rápido? — O tempo todo ele estava olhando pela janela, que era coberta com pano em vez de vidro, como se estivesse estimando a velocidade de nossa jornada. — Conte-me exatamente o que aconteceu. Daniel explicou que ele e Harriet tinham saído da Poland Street e caminhado na direção leste ao longo da Oxford Road. Daniel estivera contando a Harriet que nós dois estávamos para ir a Drury Lane para a apresentação de Melmoth, o Viandante, e ela também expressara o desejo de assistir ao teatro. “Há tantas coisas”, ela disse para o irmão, “que eu agora gostaria de ver!” Ele disse que os olhos dela se encheram de lágrimas, mas que ele tinha segurado sua mão; juntos, atravessaram a cidade através da St. Paul’s e da Canon Street e tinham chegado à Aldgate High Street. Ela parara junto ao chafariz lá, ele disse, e exclamara para ele: “Estou tão contente, Daniel! Eu poderia morrer agora!” Eles tinham seguido pela Aldgate High Street e atravessaram para Whitechapel — para a rua principal, conforme ele disse. Estavam a cem jardas da casa deles quando, olhando em volta as lojas e as habitações, ela exclamara para Daniel: “Eu me sinto como se estivesse sufocando. Receio que meu coração vai explodir!” Então ela desmaiou nos braços dele. Em sua aflição e alarme, ele conseguiu carregá-la pela curta distância até a casa deles. Ela foi deitada na sala, onde começou uma falação confusa das mais inusitadas na qual chamou o “Sr. Shelley” várias vezes. “Se o Sr. Shelley vier”, ela disse, “então eu poderei descansar.” Naturalmente, Daniel partiu de imediato, e correu todo o caminho até a Drury Lane na esperança de que a peça ainda não tivesse acabado. Por sorte, ele nos vira no momento em que saíamos do teatro. Bysshe ainda olhava impacientemente pela janela. — Este é o leste, Victor. — Ele ficou em silêncio por um tempo, enquanto o coche chacoalhava ruidoso nas pedras do calçamento. — É aqui que eu moro. — Daniel apontou para um pequeno beco sem saída dando na rua principal, e então avisou o cocheiro: — Chegamos! Bysshe pulou da carruagem e entregou um soberano ao homem antes que tivéssemos chance de desembarcar; ele estava, creio, tomado por uma ansiedade furiosa e inquieta de ver Harriet. Dei uma olhada para a rua principal e um relance foi o bastante para revelar a sua pobreza para mim; devia ter havido uma feira nela uma hora ou mais antes, porque a área estava agora cheia de balcões e plataformas improvisadas, com um abundante sortimento de frutas e folhas de verdura estragadas e papéis descartados no meio. Bysshe correra para a casa e batera na porta, sem esperar que Daniel se juntasse a ele. A porta se abriu rapidamente e, no mesmo instante, Bysshe teve permissão de entrar. — Eu confio nele — disse Daniel. — Ele pode ter mais eficácia do que qualquer cirurgião ou boticário. — Ao menos em relação a sua irmã. — Sim. Foi isso o que eu quis dizer. Seguimos Bysshe para o interior da casa, pequena, estreita e impregnada com um leve
odor de palha úmida que eu percebera noutras habitações londrinas. Há uma expressão em inglês — sem espaço até para balançar um gato. Bysshe entrara numa pequena sala que tinha vista para a rua, e se juntara a duas jovens que presumi serem as irmãs de Harriet. Daniel e eu entramos na sala, agora bastante apinhada, onde Bysshe já estava se ajoelhando junto à garota prostrada. — Ela ficou falando do senhor, Sr. Shelley — sussurrou uma das irmãs. — Mas está bastante combalida. Bysshe se inclinou e murmurou para ela: — Harriet, Harriet, está me ouvindo? A voz dele pareceu animá-la. — Eu fiquei bastante feliz, Sr. Shelley. Ah, tão feliz. — E você ficará feliz de novo. Aqui. Deixe-me colocar esta almofada debaixo de sua cabeça. — Foi por ter sido tão súbito. Eu fiquei surpresa. — Súbito? — Surpreendido pela alegria. Não é essa a frase do Sr. Wordsworth? Ele se inclinou e beijou a mão dela. Eu estava parado junto à porta e, com um leve ruído, virei a cabeça. Um homem de meia-idade estava parado na escada. Usava um antiquado fraque de um preto desbotado, e sua gravata estava desfeita. Notei, também, que seus punhos estavam cerrados. Ele desceu o resto dos degraus muito lentamente, como se sequer percebesse a minha presença, e parou ouvindo os sons da sala. Bysshe estava pedindo que trouxessem água. — Ele vai ter de ir ao chafariz — disse o homem. — Não há água aqui. — Então ele se virou para mim. — Seu criado, senhor. Veja o que o senhor trouxe para esta casa. — Eu não entendi o que ele quis dizer, mas ele me olhou com o que julguei ser um ar ameaçador. Uma das jovens veio da sala. — Papai, não há tempo a perder. O senhor poderia buscar o balde enquanto eu ponho o meu xale? — Seus filhos também serão despedaçados perante seus olhos; suas casas serão destruídas, e suas esposas, violadas. — Não há tempo para isso, papai. Ah, onde está o meu xale? — Ela tinha pegado um grande recipiente de madeira sob a escada, e saiu correndo pela rua. Eu a segui, não querendo permanecer na soturna presença do pai dela. — Deixe que eu a ajude — ofereci.
— Não há necessidade de ajuda, senhor. Estou indo até o chafariz para a pobre Harriet. — Você é uma das irmãs dela? — Sou. Emily. Ela nos deu um susto e tanto, mas agora está mais calma. O Sr. Shelley falou com ela. — Parecia que por consenso geral Bysshe se tornara o salvador da casa. — Viramos aqui. — Tínhamos chegado a um pátio, cercado por todos os lados com habitações das mais pobres, remendadas e descascadas, com um vaso de flores perdido aqui e ali num parapeito. O chafariz tinha o seu complemento de velhas senhoras e crianças. — Deixem-me passar, por favor. — Emily estava obviamente acostumada à situação. — Minha irmã ficou doente. — Não lhe dê essa água então, Em — gritou uma anciã, para considerável diversão de suas companheiras. — Ou vai matá-la, com certeza. — É só para resfriá-la, Sra. Sykes. — Fria é mesma, com isso eu concordo. Mas é sempre tão suja. Muitos aqui ficaram esquisitos com ela. — Quem é o homem elegante, Em? — A pergunta veio de um menino, que estava com os olhos fixos em mim, como se estivesse ao mesmo tempo impressionado e prestes a rir. Eu tentava me vestir como um inglês, mas havia alguma indefinível diferença em meus trajes ou maneiras que sempre proclamava que eu era um estrangeiro. — A mãe dele sabe que ele está na rua? — Isso produziu mais risadas das senhoras ali reunidas, mas a essa altura Emily já enchera seu balde e dera as costas para o chafariz. — Peço desculpas por eles, senhor — disse ela, enquanto saíamos do pátio. — Não estão acostumados com estrangeiros. Não sei o nome do senhor... — Victor Frankenstein. — Veio como um amigo do Sr. Shelley? — Sim, de fato. E do seu irmão. Você disse que Harriet está melhor? — Ela está mais calma. Não está falando tanta besteira. Não. Não quis dizer isso. Ela está descansando. Fiquei surpreso com a compostura de Emily, tão similar à de sua irmã, num lugar tão pouco promissor. Ela não tinha sido contaminada pela imundície geral. Aquela era uma família incomum. — Você tem outra irmã, creio? — Tenho. Jane está conosco. Ela mora com o marido em Bethnal Green, mas aconteceu de estar fazendo uma visita ao nosso pai. — Então você e Harriet moram com o pai de vocês?
— Jane casou alguns meses depois que mamãe morreu. Nós cuidamos da casa. — O seu pai ainda trabalha? — Ah, não. Ele foi obrigado a se aposentar. Seus nervos estão muito mal. Devo admitir que estava perturbado de desejo por Emily, mas todo sentimento como esse era então uma fonte de desgosto para mim. A pureza de meu propósito não podia ser posta em risco pelas luxúrias da carne. Eu mantive minha distância. — O seu sobrenome me confundiu — disse ela. — Acontece com frequência. Deixe-me ajudá-la com a água. — Estou acostumada com isso. Emily levou o balde pela entrada e foi para a sala onde Harriet estava agora sentada num sofá. Ajoelhou-se ao lado da irmã e começou a passar a água na testa e têmporas dela com tal ternura fraternal que eu mais uma vez fiquei maravilhado com a presença daquela família num bairro tão ruim e grosseiro. — Ela se recuperou — contou-me Bysshe. — Era uma febre. — Então não precisamos ficar. — Eu me sentia bem pouco à vontade naquela pequena habitação. Era limpa e arrumada tanto quanto podia, mas a qualidade das cercanias a maculava como aquele leve odor de palha; deixava-me com um sentimento de depressão, ou mesmo fastio, que eu não conseguia dominar. — Há tão pouco espaço aqui. Vamos sufocar Harriet. — É claro. Você tem razão. Ela precisa de ar. Iremos embora imediatamente. — Bysshe pôs a mão no ombro de Daniel e lhe disse que pretendíamos voltar ao Soho. Daniel insistiu em nos acompanhar até um cruzamento movimentado, um pouco depois de Whitechapel, onde havia coches indo para a cidade. — Foi muita bondade da sua parte, Sr. Shelley — disse ele. — E da sua, Sr. Frankenstein. Os senhores restauraram a saúde dela em menos tempo do que eu julgara possível. — Não nós, Daniel. A força natural dela a apoiou. Ela tem estrela própria. — Fizemos sinal para um coche, e Daniel acenou despedindo-se. Então Bysshe pôs a cabeça para fora da janela e gritou: — Garanta a ela que eu a verei amanhã! — Ele recostou-se de volta com um suspiro. — Fizemos uma boa ação — disse ele. — Ainda assim, tenho pena dela. — Por qual razão? — Olhe em volta. Está vendo a miséria? Seria fácil, num lugar assim, ceder ao crime e ao mal. — Sim, é de fato bastante miserável. — Bysshe parecia muito cansado.
— Miserável? É monstruoso. E irá criar monstros. Você já vira antes tamanha imundície? Bysshe murmurara algo em resposta, mas eu não ouvira. — O que foi? — Eu perguntei se você tinha visto o pai. — Ele estava na escada. Não é uma ameaça. — Ameaça? — Perdoe-me — respondi. — A minha mente está dispersa. — No entanto, eu acreditava que o Sr. Westbrook me considerou um inimigo de sua família.
***
Eu comparecia todas as manhãs às aulas na sala de dissecção do St. Thomas Hospital. Obtivera admissão, como um estudante voluntário, pagando uma taxa modesta por uma série de palestras a que nunca assistia. Eu queria apenas o trabalho prático da dissecção. Teoria e conjectura não eram suficientes para mim. O único caminho para o conhecimento estava no exame dos mortos. Sentia-me obrigado a observar, e experimentar, antes de chegar a alguma opinião razoável. A sala de dissecção não era um lugar para os medrosos ou fracos de coração. Os cadáveres jaziam em mesas, no meio da sala, com seis ou sete estudantes aplicados em remexer em seus ossos e entranhas. Alguns se concentravam num braço, outros, numa perna ou intestino. Muitos dos corpos ficavam lá vários dias antes de serem enterrados, e muitos tinha sido escavados do solo num estado de decomposição parcial. No entanto, ainda que a carne estivesse enferma, os ossos em geral ainda estavam bons. Havia recipientes de vidro ao longo das paredes com amostras de partes do corpo de todos os tipos imagináveis. Num grande fogão, de um dos lados da sala, ficava um tacho de cobre que era usado para ferver os corpos quando o trabalho da faca ficava muito lento. Os ossos podiam então ser destacados da carne fervida com facilidade. Eu ainda não havia me acostumado ao cheiro de carne podre ou apodrecendo, mas seu odor não me repugnava. Quando misturado ao cheiro das substâncias usadas na preservação, tinha um aroma pungente que permanecia nas mãos, nos braços e até nas roupas dos dissecadores, bem depois que a aula acabava. Havia alguns que se esquivavam do odor quando o detectavam em nossos trajes. Outros que, ao entrar na sala de dissecção pela primeira vez, desmaiavam no mesmo instante. E ainda os que vomitavam violentamente e deixavam o conteúdo de seus estômagos no chão em meio às entranhas e fezes dos mortos. O fedor da morte é
equivalente à própria morte. É a escuridão do medo, a agência desconhecida, a dissolução da esperança. Entretanto, se eu fosse capaz de derrotar a morte, o que aconteceria então? O fedor da morte poderia se tornar um perfume maravilhoso! Entre os meus colegas na sala de dissecção havia um jovem de olhos brilhantes e compleição corada. Pelo que ele dizia, inferi que era um menino de Londres, mas que abandonara seu ofício de cavalariço na City Road para se tornar aprendiz de cirurgião. — Estou acostumado com o fedor dos cavalos e das estalagens de Londres — disse. — Os mortos não me incomodam. Bebíamos juntos no pub local onde os outros dissecadores se reuniam; o bar, em consequência, tinha o cheiro de um matadouro e não era frequentado por muitos outros fregueses. Jack Keat e eu sentávamos a uma mesa de madeira baixa e comentávamos os eventos do dia. — Você tinha nas mãos, Victor, um câncer muito bom. — Do intestino. Decomposição extraordinária. Foi difícil mantê-lo nas mãos. — Você tem de usar o polegar e o indicador. Desse jeito. Alguma coisa pode ficar presa sob a unha. Mas se você lavar, sai. — Você estava de muito bom humor. — Encontrei um tumor abrindo caminho através de um cérebro. Estava supurando. Eu o limpei e fiquei com ele. — Deu um tapinha no bolso. Ele era baixinho, e um ou dois drinques o levavam, como ele dizia, “Monumento acima”. Ele então declamava palestras e discursos que lera. Recitava trechos das poesias que mais admirava. Lembro que tinha uma paixão especial por Shakespeare. — É aqui que o futuro está sendo forjado — anunciou uma noite. — Aqui. Na sala de dissecção. É onde iremos encontrar melhorias. Progresso. É aqui que podemos aliviar o sofrimento humano e a doença. Você e eu, e todos os nossos colegas, precisamos trabalhar com ardor pela causa comum! Precisamos ser enérgicos, Victor. Precisamos ser confiantes. — E então ele foi interrompido por um ataque de tosse.


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