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quinta-feira, 22 de setembro de 2016

SD 111 A CADERNETA DE VICTOR FRANKENSTEIN 5

Eu voltei para Oxford dois dias antes do recomeço do período letivo; Bysshe insistiu para que eu ficasse em Londres, mencionando o empreendimento radical ao qual ele se associara e me recriminando por minha falta de fervor pela causa (como ele colocava). Mas, na verdade, eu estava ansioso por retomar os meus estudos. Tinha visto e ouvido muito em Londres, mas nada me impressionara tanto quanto as demonstrações elétricas do Sr. Davy. Eu morria de impaciência de poder consultar todos os volumes de ciência física, antiga e moderna, para descobrir as nascentes secretas da vida; queria me dedicar a esse propósito, deixando todo o resto de lado, e acreditava que nenhum poder na Terra seria capaz de me desviar de meu propósito. Quando entrei na universidade, cumprimentei os porteiros como velhos conhecidos, embora eles tenham me recebido de forma ligeiramente fria. Minha imagem ainda estava muito associada à de Bysshe para que eu fosse plenamente aceito. Entretanto, minha criada da faculdade pareceu genuinamente satisfeita com a minha volta. — Ah, Sr. Frankenstreng — disse ela —, já não era sem tempo. — Ela tinha muita dificuldade para pronunciar o meu sobrenome, e tentava diferentes soluções ao longo de uma conversa. — Tive tanto trabalho com as suas garrafas. — Espero não ter lhe criado problemas, Florence. — Tinha garrafas cheias, meio cheias e nem um pouco cheias. Eu não sabia o que fazer com elas na faxina. Ela estava se referindo ao laboratório experimental que eu instalara em meu quarto de dormir. Era um coisa modesta — alguns cadinhos, tubos e um queimador portátil —, mas ela tinha pavor de qualquer coisa que considerasse “medicinal”. Por alguma razão, lembrava a ela a morte prematura de seu marido, um evento que tinha muito prazer em descrever com todos os detalhes. — Deixei-as onde estavam — afirmou. — Não toquei nelas, Sr. Frankentino.
— Foi muita consideração da sua parte. — Eu nunca toco os pertences de meus patrões. Ah, não. O senhor fez uma boa viagem da Velha Fumarenta? — Ela era londrina de nascimento, como ela nunca cessava de me informar, mas se casara com o homem de Oxford que não durara muito e, desde então, não se mudara mais. — Imagino que havia um bocado de neblina. — Receio que muita chuva, Florence. — É uma pena. — Ela pareceu encantada em saber que a cidade continuava a padecer de um mau clima. — Mas limpa a neblina, sabe? — Ela baixou a voz para um sussurro. — Como vai o Sr. Shelley? — Vai muito bem. Ele prospera em Londres. — Falam muito dele por aqui. — Ela ainda estava sussurrando, embora não houvesse ninguém que pudesse nos ouvir. — Ele é considerado doido. — Ele nada tem de louco, Florence. É muito sensato. — É assim que o senhor chama? Certo. — Ela pegou a minha mala e carregou-a para o quarto de dormir, onde começou a guardar minhas camisas e demais roupas. — Que raios é isso? Ouvi a pergunta, e soube no mesmo instante do que se tratava. Por segurança, eu tinha colocado em meio às roupas um pequeno modelo de cerâmica esmaltada; era um simulacro do cérebro humano, perfeito em todos os detalhes, que eu comprara de um boticário na Dean Street. Ele me dissera que era uma cópia do cérebro de um tal Davy Morgan, um notório bandoleiro que tinha sido enforcado alguns meses antes. — Não é nada, Florence. Coloque-o na mesa. — Eu não vou tocar nisso, Sr. Frankensino. Está comido por vermes. Fui até o quarto e catei o modelo. — Não são vermes. São as fibras do cérebro. Está vendo? São como os canais e as correntes do oceano. — Quão ínfimo era o conhecimento do organismo humano! Não havia uma pessoa em mil, em 100 mil, que tivesse parado para pensar como funcionavam a mente e o corpo. — Não é natural — retrucou ela. — É como é a própria natureza, Florence. Creio que esse seja o lobo óptico. — Não é bom ficar me dizendo essas coisas, senhor. — Ela me olhou com horror. — Não quero ter nada a ver com isso. — Se pudéssemos estimular essa área, poderíamos ver a muitos quilômetros de distância. Não seria uma vantagem?
— Não seria, não. Com seus olhos saltando da cabeça? Credo, não. Coloquei o modelo na mesa instalada junto à janela do quarto. — Receio que você vai permanecer na ignorância, Florence. — Ao menos, senhor, ficarei feliz. Não me ocorreu então que as palavras de Florence expressavam uma verdade instintiva; os sentimentos naturais da humanidade, ainda que expressos de forma grosseira, têm uma justiça toda própria. Mas eu já tinha me separado para sempre dos empreendimentos comuns dos homens. Minha mente estava tomada por um só pensamento, uma só concepção, um só propósito. Eu queria realizar mais, bem mais que aqueles à minha volta, e realmente acreditava que iria abrir um novo caminho, explorar poderes desconhecidos e desvelar ao mundo os mistérios mais profundos da criação. Eu li de tudo nas bibliotecas de Oxford, me distanciando muito das instruções de meu tutor moral, que parecia nada conhecer além de Galeno e Aristóteles. Uma vez por semana eu subia as escadas até os aposentos do professor Saville, no lado oposto do quadrilátero em relação aos meus, onde sempre o encontrava sentado numa poltrona de encosto alto, com um copo de conhaque com água ao lado. Minha educação anterior em Genebra me garantira proficiência em grego e latim, de modo que as tarefas semanais de tradução não me causavam dificuldades. Eu já tinha informado a ele que meu interesse estava no crescimento e desenvolvimento do corpo humano, o que pareceu deixá-lo genuinamente atônito. — Não é um objetivo — contestou — que eu associaria a um cavalheiro. — Mas se cavalheiros não se dedicarem a ele, professor, quem o fará? — Não há anatomistas no mundo? — Estou interessado em como funciona a vida humana. Que outro assunto tem mais importância? — Não crê que Galeno e Avicena tenham nos informado de tudo o que é preciso saber sobre esses assuntos? — Saville tinha o hábito de se erguer da poltrona depois de fornecer uma opinião e então andar pela sala antes de voltar a se sentar. Só então tomava um gole do conhaque. — Eu creio, professor, que Galeno se baseou na anatomia de um macaco do Norte da África. — De forma mais que satisfatória. — Ele deu outra volta na sala. — O senhor não está sugerindo que se profane o templo humano, está? — De que outra forma poderemos aprender de onde provém o princípio da vida? — O senhor precisa apenas abrir a Bíblia, Sr. Frankenstein, para ter certeza quanto a
esses assuntos. — Conheço bem a Bíblia, professor... — Eu realmente espero que sim. — Mas me confesso ignorante quanto ao mecanismo efetivo. — Mecanismo? O que o senhor quer dizer? — Ficamos sabendo no Gênesis, professor, que Deus formou o homem do pó da terra e então soprou em suas narinas o sopro da vida. — Sim, e daí? — A minha questão é: em que consistia esse sopro? — O senhor esteve tempo demais em companhia do Sr. Shelley. — Ele começou outra perambulação pela sala e, ao voltar para a poltrona, sorveu um grande gole do conhaque com água. — Está começando a duvidar das Sagradas Escrituras. — Estou simplesmente curioso. — Nunca seja curioso. É o caminho da perdição. Agora, vamos voltar ao assunto em questão? — Ele começou a examinar minha tradução em grego de um editorial do Times sobre as perspectivas da independência dálmata, e eu fui embora de seus aposentos logo depois.

***
Dessa forma, não haveria esclarecimento para mim em Oxford. Eu já tinha decidido estudar o bastante para obter o meu diploma, principalmente pensando em meu pai, mas, como um peregrino, já me preparava para a próxima jornada. A mente que é ambiciosa se constrói por conta própria. Eu achei um pequeno celeiro nos arredores de Oxford, na pequena aldeia de Headington; aluguei-o de um camponês por uma quantia insignificante, sob o pretexto de que era um estudante de medicina que estava misturando produtos e combinações químicas tóxicas que precisavam ser preparados longe das habitações humanas. O celeiro era cercado por campos abertos, mas tinha a vantagem de ter uma estradinha que conduzia até ele. Era, como eu disse a ele, ideal para os meus propósitos. E foi o que de fato se provou. Comecei os meus experimentos no reino animal sem, espero, ter infligido dor desnecessária ou excessiva. Eu me informara, através de meus estudos de Priestley e Davy, da eficácia do óxido nítrico como um anestésico, e já conhecia o efeito sedativo de meimendro quando administrado em grandes doses. Ainda assim, comecei com as menores criaturas. Mesmo a humilde minhoca e o besouro são capazes de maravilhar o estudioso da
natureza. Sob o microscópio, a mosca se tornava uma câmara de deleites: os vasos dos olhos eram luzidios e palpitantes de vida, cristais com múltiplos reflexos. Tão complexa, e no entanto tão vulnerável! Tudo era mantido em tão delicado equilíbrio e estabilidade que a largura de um cabelo separava vida e luz de escuridão e não existência. Eu comprei rolinhas e outros pássaros no mercado na Corn Street e, quando sentia a respiração rápida e cálida em meus dedos, percebia o pulso elusivo da vida. Era aquele o mesmo calor que infundia o mecanismo das baterias voltaicas? Calor significava movimento e agitação, e movimento, visível ou invisível, era a própria condição da vida. Julguei que estava no limiar de uma grande descoberta. Se eu pudesse criar movimento, não iria ele se reproduzir em sequência, como as ondas quebrando na costa se acumulam num harmonioso conjunto? O mundo seguia uma só dança. Eu estava tomado de tamanha esperança e entusiasmo, nesses dias de Oxford, que com frequência corria nos campos em volta do celeiro por simplesmente transbordar energia. Eu podia olhar para as nuvens passando sobre mim e ver nelas os padrões que discernia na iridescência perolada de uma asa de mosca ou as cores cambiantes no olho de uma pomba expirando. Eu me considerava um redentor da humanidade, libertando o mundo da filosofia mecânica de Newton e Locke. Se eu conseguisse descobrir um único princípio a partir da observação de todos os tipos de organismos, se no estudo das células e tecidos eu conseguisse detectar um elemento dominante, então poderia ser capaz de formular a fisiologia geral de todas as coisas vivas. Há só uma vida, um só modo de viver, um só espírito energético. E, no entanto, havia épocas em que, nos últimos momentos da noite, eu acordava apavorado. As primeiras horas da madrugada me alarmavam, e eu saía da cama e caminhava pelas ruas escuras como se fossem a minha prisão. Com o primeiro sinal da aurora, todavia, eu ficava calmo. A luz baixa e uniforme, ao longo dos prados, enchia-me de uma sensação similar à coragem. Eu precisava dela mais do que nunca. Eu começara a minha anatomia dos cães e gatos, comprados sem gastar muito das pessoas mais pobres de Oxford. Eu dizia a cada uma delas que precisava do animal para caçar os ratos de meus aposentos, e elas os vendiam sem hesitação. Era fácil sedar o animal com óxido nitroso, e eu calculava que o coração iria bater por trinta minutos antes de falhar numa morte sem dor. Nesses poucos minutos eu começava o processo de dissecção, transformando o chão de meu teatro de experiências numa poça de sangue. Mas perseverava em minha intenção. Eu queria provar que os órgãos da criatura não eram entidades distintas, mas precisavam da interdependência entre todos para funcionar com eficácia. Assim, eu obstruía o funcionamento de um e os outros seriam prejudicados ou danificados de algum modo. E foi o que se provou. Eu estava dando
tamanhos passos em minha filosofia experimental que podia ver todas as dificuldades sendo vencidas.

***
Na semana antes do fim do período letivo, recebi uma carta de meu pai em Genebra me informando que minha irmã tinha ficado gravemente doente. Elizabeth era a minha gêmea em tudo, a não ser de nascimento. Tínhamos crescido na companhia um do outro. Brincávamos juntos desde a mais tenra infância, e, embora não tivéssemos estudado juntos, eu a inteirara do conteúdo de meus livros escolares. Diziam que parecíamos um com o outro na fisionomia, também, e ambos possuíamos o mesmo temperamento nervoso e inquieto. Eu fiz planos para retornar para casa imediatamente. Havia um paquete partindo para Le Havre da London Bridge na segunda-feira seguinte, e eu fui para Londres duas noites antes para providenciar minha passagem. Esperava ver Bysshe, é claro. Ele não se comunicara comigo desde a minha partida da cidade, e eu estava ansioso por saber de suas aventuras durante a minha ausência. Fui até a Poland Street logo após a minha chegada, mas não havia luz em sua janela. Eu o chamei, mas não houve resposta. Eu reservara uma pequena cabine no barco para Le Havre, mas ele cheirava tão forte a conhaque e cânfora que me dei por satisfeito em passar a maior parte da viagem no convés aberto. A jornada rio abaixo foi bastante monótona, fora a visão do grande número de naus que pareciam uma floresta de mastros passando lentamente, mas fiquei deveras impressionado com os pântanos no estuário perto da foz do Tâmisa. O isolamento e a solidão dessa região (que, conforme me disse um passageiro, era evitada por causa dos ataques de febre) incitaram o meu espírito. Acho que já então eu tinha algumas tênues sugestões do meu trabalho futuro, e da necessidade de trabalhar em segredo e em silêncio, bem distante dos lugares frequentados pelos homens. Não tinha eu começado esse caminho nos campos nos arredores de Oxford? E, no entanto, enquanto navegava para longe da Inglaterra, mal poderia eu prever que estava destinado a me tornar o mais miserável dos seres humanos. Minha jornada levou-me por terra de Le Havre para Paris; de lá eu viajei para Dijon, e então para Genebra. Estava impaciente para ver minha irmã, mas fui obrigado a trocar de cavalos e passar a noite em Paris. Cheguei no começo da noite numa estalagem na Rue St. Sulpice, e, após o recente período de interdição das viagens entre a França e a Inglaterra, o proprietário estava encantado de receber meus companheiros ingleses. Ele juntou um pequeno grupo de músicos que tocou no pátio, enquanto sua esposa e filhas dançaram uma
mazurca polonesa para nós. Tal é o calor da hospitalidade gaulesa, sobre a qual tantas calúnias são espalhadas nos países vizinhos. Eu dividiria o quarto com um inglês viajando a negócios, o Sr. Armitage. Ele vendia óculos, lentes e afins. Fora ele quem me advertira sobre a febre no estuário e me regalou com várias histórias relativas ao comércio de produtos ópticos até eu decidir tomar ar. Sai à rua, onde minha atenção foi imediatamente atraída por uma fila de parisienses parados de pé e impacientes junto a um par de portões. Alguns eram obviamente pobres, outros, opulentos, e alguns, daquela natureza mista conhecida pelos ingleses como os remediados. Mas a variedade me interessou. Ficavam nervosos e incertos perante os portões, sem nada falar e evitando os olhos uns dos outros. Eu perguntei ao proprietário, que estava na varanda da estalagem, o que significava aquilo. — Ah, monsieur, não se fala disso. — Perguntei por quê. — Traz má sorte para a estalagem. C’est la maison des morts. La Morgue. A casa dos mortos? Julguei que sabia a que ele estava se referindo. Era uma instituição bem conhecida na cidade, onde os corpos dos mortos não identificados eram mostrados em certos períodos estabelecidos do dia para que pudessem ser reconhecidos por seus amigos e parentes. Sem dúvida há quem consideraria um espetáculo desagradável, mas eu fiquei deliciado com a boa sorte que o colocara em meu caminho. Eu nada podia ver de odioso na natureza. Do mesmo modo que existem aqueles que amam passear em ruínas, saboreando os vestígios e sensações dos tempos passados, eu não fazia objeção a caminhar entre os mortos e os decompostos. O corpo humano está num contínuo estado de decomposição, dia a dia; seus tecidos e fibras se desgastam, mesmo quando ainda os usamos, e eu não via nada a temer na observação próxima desse processo. Se eu devia dominar a arte e o método da anatomia, precisava também observar a decomposição natural do corpo humano. De modo que me juntei aos parisienses em sua espera e, quando os portões foram abertos por um guarda, entrei na Morgue. No mesmo instante, tive consciência de um odor peculiar e não de todo desagradável, muito parecido com o de guarda-chuvas úmidos ou da palha molhada que em geral se encontra no chão de uma carroça. O ar estava úmido, como se um braseiro de carvão tivesse sido introduzido na sala. Era uma longa câmara de teto baixo com janelas pequenas, muito similar ao interior de um café em Londres. Onde as mesas e cadeiras estariam, havia várias divisórias ocas, com plataformas nas quais tinham sido colocados os corpos dos mortos, com suas roupas penduradas junto a eles como um elemento adicional para a identificação. Cada um estava protegido da aglomeração inquisitiva por uma vidraça, como se estivessem expostos na vitrine de uma loja. Havia cinco
na ocasião de minha visita, três homens e duas mulheres, e era um exercício interessante determinar a causa de suas mortes. Um homem atarracado de meia-idade, com um queixo largo e a cabeça raspada, parecia ter sido queimado; mas as lívidas feridas vermelhas e os membros inchados me convenceram de que ele tinha se afogado. Minha conjectura foi confirmada quando vi a poça de água se acumulando sob o corpo. A face de uma mulher adjacente estava quase irreconhecível, parecendo mais um cacho de uvas amassadas e muito maduras; eu não conseguia pensar em nenhuma razão para o selvagem desfiguramento do rosto dela, exceto por um terrível acidente. No entanto, ela me interessava. O resto do corpo estava praticamente intocado, com exceção de algumas manchas de sangue e sujeira, e ocorreu-me que, com uma nova cabeça, ela poderia ser um objeto de luxúria. Agora só poderia ser identificada por um amante, ou talvez um pai ou mãe. Eu não abordava essas visões com leviandade, mas tampouco sentia a menor repulsa; minha principal sensação era de fascínio com a curiosa imobilidade dos corpos. Uma vez que o princípio da vida os deixara, eles se tornavam receptáculos vazios, mais destituídos de animação do que qualquer boneco de cera ou manequim. Era possível imaginar que um boneco de cera fosse capaz de respiração e movimento, mas nenhum ato de imaginação empática poderia conceder àqueles membros frios a vida. Eu estava olhando para objetos que nunca seriam capazes de me devolver o olhar. Noutra divisória, encontrei o corpo de um homem velho que não tinha qualquer marca. Eu podia dizer pelas botas rotas colocadas ao seu lado que era um artesão ou operário. Havia uma característica curiosa nele, porém. Percebi uma leve umidade em seus olhos, e o que parecia uma lágrima se imobilizara em sua bochecha. O resíduo da emoção, no que agora era um semblante vazio, afetou-me da maneira mais estranha. Virei-me para partir e fiquei momentaneamente imobilizado pela multidão em volta. Olhei de relance para a porta aberta, do outro lado da sala, e por um momento vislumbrei um velho parado junto a ela. Parecia ser exatamente o homem que eu vira atrás do vidro, como se por alguma intervenção de magia negra ele tivesse enxugado a lágrima e voltado à vida. Então ele sorriu para mim. Eu sabia que não passava de uma ilusão momentânea, mas isso não diminuiu o meu horror. Caminhei lentamente até a porta, onde o guarda da Morgue estendeu a mão para um pourboire, mas a figura do velho tinha sumido. Fiquei aliviado de me ver ao ar livre na rua, e tentei tirar o incidente de minha cabeça, mas ele permaneceu comigo até mesmo enquanto eu subia a escada para o quarto na estalagem. Meu companheiro de viagem, Armitage, estava deitado em sua cama inteiramente vestido. Depois de tudo que eu vira na Morgue, por um momento ele me assustou.
— Então, Sr. Frankenstein — chamou-me. — Vai jantar comigo? O vinho aqui é muito barato. — Ele tinha uma voz grave, profunda, que por nenhuma razão em especial me irritava. — Vou dormir cedo, receio. A diligência para Dijon parte ao amanhecer. Vai ser uma longa jornada. — Portanto, o senhor precisa de sustança. — Ele era mais velho do que eu, com cerca de uns 30 anos, mas tinha modos indefinivelmente antiquados. — É sabido que os cavalheiros de Oxford passam fome. — Como sabe que sou de Oxford? — Está impresso em sua bagagem. Olhos, compreende? Bons olhos. — Eu já tinha ficado sabendo que ele era um comerciante de produtos ópticos. — O olho é um organismo delicado — falou devagar e com grande ênfase. — Nada dentro de um mar de água. — Perdoe-me corrigi-lo, mas não é o caso. — Como? — Tem raízes e tendões. É como uma planta aquática conectada ao solo do cérebro. — Pode-se dizer que é como um lírio? Nada na superfície? — Sim, o senhor pode dizer isso, Sr. Armitage. Ele deu um largo sorriso, considerando a resolução do assunto satisfatória, e me deu um tapa nas costas, como se estivesse me congratulando por concordar com ele. — Precisamos conseguir pão para o senhor. E carne. E vinho. Durante a refeição simples que a camareira trouxe para nós, trocamos os comentários de costume. Ele morava na Friday Street, perto de Cheapside, com o pai, que manufaturava as lentes e os óculos numa oficina no térreo da propriedade deles, enquanto trabalhava como caixeiro-viajante. Ele se aproveitara da paz para vir para a França, com exemplares do trabalho mais recente de seu pai. — O senhor não vai encontrar lentes mais finamente polidas — afirmou. — Dá para ver o campanário de uma igreja distante com a luz do luar. — Ele constrói microscópios? — Claro que sim. No momento, ele tem em mãos um projeto que tem olhos cilíndricos, por assim dizer, que deixarão nítido o menor dos objetos. — Eu teria muito interesse nisso. — Teria? O que o senhor estuda em Oxford, Sr. Frankenstein? — Estou interessado em como funciona a vida humana. — É só isso? — Ele sorriu para mim. Eu não conseguia imaginá-lo dando uma risada.
— Foi assim que fiquei sabendo sobre as fibras nervosas do olho. — É um anatomista, então? — Ele subitamente ficou muito sério, como se eu tivesse me intrometido em algum assunto particular. — Não exatamente. Não essencialmente. Não posso alegar nenhuma grande proficiência. — O senhor sabe quanto tempo o olho sobrevive quando é tirado de sua órbita? — Não faço ideia. Minutos, talvez... — Trinta e quatro segundos. Até sua luz ser extinguida para sempre. — Como sabe disso? — Eles secam muito rápido quando saem da órbita. Não me pergunte como sei. — Mas, e se eles fossem mantidos numa solução aquosa, o que aconteceria? — Então, Sr. Frankenstein, o que acontece é que o senhor terá perguntado demais. — Ele começou a comer bem devagar a carne e o pão em seu prato. Eu lembrei da frase de Terêncio. — Nada do que é humano me é estranho, Sr. Armitage. Ele não respondeu, apenas continuou a mastigar sua carne. Era vitela, se bem me lembro, coberta com farinha de rosca, à maneira de meus compatriotas. Eu estava com muito pouco apetite por ela. Ocasionalmente ele erguia os olhos para mim, sem nenhuma outra expressão no olhar além de uma observação tranquila. Por fim, ele disse: — Meu pai teve uma aprendizagem interessante. Dos 14 anos em diante ele trabalhou para o Dr. John Hunter. O senhor já ouviu falar dele? — De fato. Muito bem. — A reputação de Hunter como cirurgião e anatomista tinha chegado até mim em Genebra, onde a sua História natural dos dentes tinha sido traduzida para o francês. — O Dr. Hunter era um grande observador do corpo, Sr. Frankenstein. Ele fez disso a sua profissão. — Foi o que li. — Sua competência cirúrgica não tinha rivais. Meu pai o viu remover uma pedra da bexiga em menos de três minutos. — Sério? — E o paciente não morreu. — Armitage concentrou-se mais uma vez em seu prato, onde agora ele deliberadamente raspava a farinha de rosca com um pedaço de pão embebido em vinho. — Meu pai ainda tem a pedra. — O paciente não a quis? — Não. O Dr. Hunter a chamou de tesouro.
— Mas o que aconteceu com os olhos? — Eu já disse. O paciente ainda estava vivo, para surpresa dele. — Não a dele. Os outros olhos que tinham sido preservados em água. Eu presumo que tinham sido tirados dos corpos dos menos afortunados. Armitage me encarou com o mesmo olhar curiosamente desapaixonado. — Se o paciente morreu no teatro de operações, então a quem ele pertence? — Eu nada respondi, julgando que já havia falado demais. — O Dr. Hunter era da opinião de que, tendo sido posto aos seus cuidados, o corpo era responsabilidade dele. Tornava-se, em certo sentido, propriedade dele. — Eu não discordaria. — Excelente. Estou agora falando com o senhor na mais perfeita harmonia do bom companheirismo. Esses fatos não são amplamente conhecidos fora dos meios das escolas médicas. — Minha boca tinha ficado seca, e eu bebi um copo inteiro de vinho. — O Dr. Hunter acreditava que os membros e órgãos do paciente falecido tinham mais valor para os seus estudantes do que para o solo, onde do contrário seriam enterrados. Havia um jovem, um dos assistentes do Dr. Hunter, que era particularmente interessado no baço. De modo que... — Armitage deteve-se, e me surpreendeu com um largo sorriso. — Como dizemos em Cheapside, Sr. Frankenstein, passou por baixo do pano. — E o seu pai era particularmente interessado em olhos? — Ele sempre teve uma visão perfeita. Era algo que observavam para ele desde a mais tenra idade. Ele ficou interessado no assunto, como acontece com meninos. Eu não sei se em seu país vocês têm o telescópio ambulante. — Balancei a cabeça negativamente. — São instalados nas ruas, e por uma pequena quantia você pode fazer uso dele por cinco minutos. Sempre havia um no Strand. Quando menino, meu pai o adorava. De modo que aos poucos ele ficou interessado na relação entre a lente e o olho. O senhor sabe que o olho tem sua própria lente, tão permeável quanto uma bolha de gás? — Tenho conhecimento disso. — Ela é coberta por uma película extremamente fina e delicada de uma substância transparente que meu pai chamou de tecido orbital. — O seu pai então é um experimentalista? — Não sei se essa é a palavra, Sr. Frankenstein. — Armitage nos serviu mais um copo de vinho. — Vou lhe contar outro segredo. Havia ocasiões em que o paciente não morria, é claro. Isso era fonte de uma grande satisfação para o Dr. Hunter. Mas trazia um outro problema.
— De que natureza? — Escassez, senhor. — Acho que compreendi. Escassez de cadáveres. Os disponíveis. — Não é um assunto que normalmente surge nas conversas. Mas era um tópico Constante entre o Dr. Hunter e seus assistentes. — Como ele foi resolvido? — O senhor já ouviu falar em ressuscitadores, imagino? — Só por alto. — Eles não são muito mencionados na imprensa hoje em dia. Mas ainda atuam. Eu tinha conhecimento das atividades desses ladrões de sepultura, ou “ressuscitadores”, como eram mais conhecidos. Tinha havido informes ocasionais de sua atividade até em Oxford, mas sem maiores consequências. Eram mais ativos em Londres, onde desenterravam corpos frescos dos mortos mais recentes e os vendiam por grandes quantias para as escolas médicas. — O Dr. Hunter foi obrigado a usar os serviços deles? Armitage fez que sim. — Relutantemente. Ele disse a meu pai que, se esses corpos sequestrados ajudassem a restaurar a vida de outros, então ele não podia lamentar inteiramente que fossem usados. — A vida pela morte é uma boa barganha. — O senhor seria bem-vindo em Cheapside, Sr. Frankenstein. Meu pai concordava com o senhor, e ajudava nas negociações com os homens do ramo da ressuscitação. Ele acabou conhecendo-os muito bem. Disse que nem um deles sequer estava sóbrio alguma vez. — O senhor diria que eles ainda estão em atividade? — É claro. É um ofício que passa de pai para filho. Eles frequentam certas estalagens, onde podem ser persuadidos a... — Ele ergueu a mão para os lábios, sugerindo o gesto de beber. — Infelizmente um deles acabou indo a julgamento, pelo roubo de um crucifixo de prata de um dos corpos. Ele soltou o nome do Dr. Hunter. — E então? — O assunto morreu logo. Mas houve um panfleto com o nome dele associado a vampiros. O senhor já ouvi falar nessa entidade, Sr. Frankenstein? — É uma superstição dos magiares. Sem a menor importância. — Fico feliz de ouvir isso. Preocupou o Dr. Hunter na época, mas o trabalho dele o fez seguir adiante. — O trabalho era a vida dele.
— Sim, de fato. O senhor é muito perceptivo, se me permite dizer. — Ele tomou mais vinho. — O senhor disse que estava estudando como funciona a vida humana. Posso perguntar que aspecto em particular o interessa? Creio que hesitei por um instante. — Estou interessado na estrutura de todos os animais dotados de vida. — Com qual propósito? — Eu quero descobrir a fonte dessa vida. — Mas isso incluiria o corpo humano? — Estou decidido a proceder passo a passo, Sr. Armitage. — Em tamanho empreendimento, isso é o que convém. Creio que só um jovem poderia conceber tal plano. É grandioso. Eu gostaria muito de apresentá-lo a meu pai. — Com certeza. Eu gostaria muito de ver os olhos dele. Ele riu alto com isso, e me deu um tapa nas costas como se eu fosse o melhor companheiro do mundo. — E verá. Mas cuidado. O olhar dele é muito aguçado.

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