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quinta-feira, 22 de setembro de 2016

SD 116 A CADERNETA DE VICTOR FRANKENSTEIN 19 AO 22

— Os criados me informam — contou Byron quando nos sentamos para tomar café da manhã no dia seguinte — que um monstro marinho tem sido vislumbrado no lago. Com certeza isso é uma contradição, não? — Que tipo de monstro? — perguntou Bysshe. — Suponho que um monstro é muito parecido com qualquer outro. Li sobre as grandes serpentes que habitam as profundezas, mas elas nunca eram claramente descritas. — Byron pôs o garfo no prato. — Eis o que faremos. Vamos lançar uma expedição através do lago. Vamos caçar o monstro! Vai ser uma aventura! — Isso é sensato? — Mary estava visivelmente perplexa. — Se eu fizesse o que é sensato, nunca faria nada. Meu barco é seguramente equipado, se é isso que você quer dizer. — Não. Eu quis dizer caçar uma serpente... — Não há serpente, Sra. Shelley. Tenho bastante certeza disso. Mas ainda assim será uma aventura. Vamos avançar bravamente como os argonautas, enfrentando as ondas para caçar uma criatura lendária. Será esplêndido. Fiquei em silêncio durante essa conversa, mas, depois que a refeição terminou, concordei em ir com eles no barco de duas velas que Byron comprara em Genebra. Mary declinou o convite, preferindo, conforme disse, observar os lagartos que habitavam o muro sul do jardim. — Eu prefiro monstros menores — explicou ela. E assim partimos, animados pelo excelente humor de Byron, para o centro do lago. Atravessamos para a outra margem, para que pudéssemos ver a Quinta Diodati tendo como pano de fundo as montanhas; era uma vista que eu conhecia bem, mas Bysshe e Polidori declararam-se encantados. Além das margens havia encostas de vinhedos, com algumas outras quintas com seus jardins em meio a eles. Atrás disso havia várias cordilheiras de montanhas pretas, e se elevando atrás de todas elas ficava o Monte Branco, ocultando o seu cume entre nuvens. O lago estava tão azul quanto o céu, com reflexos e cintilações à luz variada da manhã. Eu olhei para a água, cuja transparência me permitia ver os seixos no fundo e os ocasionais cardumes de peixinhos formando-se e reformando-se numa dança galvânica. Tudo era puro e límpido. Deixei minha mão na água por um instante. Subitamente Byron começou a cantar — ou melhor, a uivar uma nota longa que ecoou sobre a água. Então deu uma risada. — Esta é a minha canção albanesa — falou. — Aprendi-a com os próprios homens das tribos. É um uivo feroz, não? Quem sabe possa atrair a serpente marinha de seu esconderijo? Seguimos pelo lago, afastando-nos mais da margem; Shelley e Polidori discutiam os méritos respectivos de Alexandre e Napoleão quando nossa atenção foi atraída por gritos e chamados na margem norte. Um grupo de pessoas se juntara num rochedo que avançava na água, e estavam apontando para o meio do lago. Para a minha grande consternação, Byron deu um grito de alegria, ou de empolgação, e começou a manobrar o barco para aquele lado. — Os bons cidadãos — exclamou — viram alguma maravilha. Precisamos investigar. Um grupo de nuvens escuras descera das montanhas, trazidas por um desses repentinos ventos fortes que são tão comuns na região; Byron e Bysshe não deram atenção à mudança no tempo, em vez disso olharam atentamente à frente. — Há alguma coisa — alertou Bysshe com impaciência. — Precisamos chegar perto dela. Ali. — Eu não vi nada na superfície escura da água cada vez mais turbulenta. — Está vendo agora, Byron? — Vejo uma forma — respondeu o outro. — Tem um movimento peculiar. Parece estar se contorcendo na água. — É a luz incomum do lago — falei. — Projeta sombras insólitas. Prosseguimos velejando. E então se abateu sobre nós uma súbita tormenta, feroz, que balançou o barco, quase virando-o. Eu já tinha, é claro, ouvido falar dessas tempestades lacustres, caindo e passando em minutos, mas nunca antes tinha estado no meio de uma delas. Então, da maneira mais estranha, o barco começou a girar em círculos cada vez menores; o vento tomara suas velas e o estava fazendo girar. Ainda mais estranho foi que comecei a ouvir o som de raspar ou arranhar no lado de baixo do barco. — Vocês ouviram isso? — gritei. — Há alguma coisa debaixo do barco! Os outros estavam distraídos pelo uivo do vento e o rápido girar do barco. Estávamos desamparados ante o perigo da tempestade. — Segurem-se bem! — berrou Byron. — Ainda não acabou!
Com força bruta e agilidade ele conseguiu agarrar o mastro e soltar a vela, segurando a lona enquanto o barco ainda corria o risco de virar. Seus dedos eram rechonchudos, com as unhas roídas até o sabugo. Quando a vela se soltou, o ímpeto do barco foi detido. A tempestade passou, e nós nos deixamos levar para a margem. Tinha sido um momento de súbito e intenso perigo que deixara todos exaustos. Alguns trabalhadores do vinhedo próximo correram em nossa direção. Eu falei com um deles, que descreveu como ele e seus companheiros tinham visto une forme se movendo na água. Ele teve um involuntário calafrio de horror enquanto descrevia para mim a sua forma incomum. No entanto, eu ainda persistia em minha crença de que essa “forma” nada mais era do que o efeito acidental da luz e das sombras, interpretadas equivocadamente pelos camponeses supersticiosos. Assegurei a mim mesmo também que os sons que ouvira sob o barco eram o arranhar de seixos jogados para cima pela tempestade no lago. A súbita tormenta era o presságio de uma tempestade maior. Quando chegamos à quinta, algumas horas depois, o céu já se tornara muito escuro. Mary e Lizzie tinham ficado sentadas no jardim, maravilhadas com as nuvens, mas já haviam se retirado para dentro. — Foi a mais extraordinária sensação! — Byron estava contando a Mary quando entramos na sala de estar. — O barco jogou e girou na água como se não tivesse peso nenhum. Eu pude sentir o poder selvagem da natureza. É cheia de caprichos, como uma mulher. Como eu gostaria de ser consumido por ela! — A natureza é uma ação, não uma atitude — disse Polidori. — Não tem uma intenção pessoal. — Você na realidade não acredita nisso — retrucou Byron. — Você acha que está certo. Mas sabe que está errado. — Muito pelo contrário. O meu conhecimento e a minha crença coincidem. Ah, eis o chá. — Lizzie tinha trazido uma chaleira de cobre para colocar no fogo. — É notável — apontou Bysshe — como o calor de nossos corpos secou inteiramente as nossas roupas. Eu estava ensopado até a pele. Cada um de nós deve ter uma fornalha no interior. — Energia — falei. — Energia elétrica. Pulsa em todas as coisas vivas. É a força da vida. — É ela — perguntou-me Polidori, com o vestígio de um sorriso — o mesmo que o espírito humano? — Ah, não. Eu acho que não. Esse se ocupa com valores e morais. O pulso elétrico é energia pura. É uma força cega. — Mas a energia pode ser alegre — replicou Bysshe. — Um bebê ri, não ri?
— O bebê está experimentando a vida — retorqui. — Só isso. Não tem virtude ou vício. Ri ou chora por instinto. O instinto não possui tais qualidades. Naquele momento houve um trovão. Bysshe riu. — Você tem os elementos ao seu lado, Victor. Eles o aplaudem. A temporada da escuridão se inicia. — O trovão é elétrico também, não? — perguntou-me Mary. Ela estava pegando a chaleira com um pano e despejando água fervente num bule. — Como se distingue a energia da natureza da força elétrica dentro do corpo? — Não há distinção. Não é diferente em essência. Ela anima toda a matéria. Mesmo as pedras no jardim podem ser eletrificadas. — Estamos cercados por ela, então? — Receio que sim. — Por que o receio? — indagou-me Bysshe. — O que há para temer na natureza primal do mundo? Tinha ficado bastante escuro, e Lizzie estava ocupada acendendo velas. Era uma sala de jantar grande, indo da frente aos fundos da casa, e algumas partes ainda ficaram em sombra. — Numa noite como esta — propôs Bysshe —, é o caso de nos divertirmos depois do jantar contando histórias de elfos e demônios. Se houver uma tempestade com relâmpagos será ainda melhor. O cozinheiro, que era da casa, preparou uma refeição de vitela e repolho cozido; era um prato típico da região, mas não agradou muito aos nossos poetas ingleses. Eles reclamaram do excesso de manteiga e da pimenta no molho. Contudo, instalamo-nos com bastante conforto depois do jantar, e Byron trouxe de seu quarto uma coletânea de contos alemães traduzidos para o inglês. Ele nos disse que eram todos de uma natureza maravilhosamente mórbida e insólita, tendo como título geral Fantasmagoriana. À luz das velas colocadas de ambos os lados de sua poltrona, Byron começou a ler uma das histórias em voz alta. Mas então pôs o livro de lado. — Isso é tudo muito interessante — falou. — Mas não é o certo. O artigo genuíno. O que eu quero dizer é o seguinte: nós devíamos contar nossas próprias histórias nestas noites. Nós devíamos entreter-nos uns aos outros; com verdades, com invenções, o que vocês quiserem. Será um acompanhamento maravilhoso para as tempestades. — Ele se virou para Bysshe. — Quero dizer, isso se você puder suportar... — Ah, sim. Não tenho um temperamento nervoso. Ficarei perfeitamente contente de tomar parte.
Ficou acertado entre nós que, durante os dois ou três dias seguintes, cada um de nós iria preparar um conto de terror, que então seria lido para os outros. Eu me retirei para o meu quarto, naquela noite, num estado de certa perplexidade. Eu tinha uma história que iria deixá-los horrorizados, atingi-los no âmago, mas como poderia eu narrar a história de meus últimos meses sem meu coração bater violentamente como um testemunho de sua verdade? Pareceria a eles uma coisa amaldiçoada, um maníaco ou um pária — não importava qual. Não, não poderia ser feito. De modo que no café da manhã no dia seguinte, pedi para ser dispensado da tarefa coletiva. — Não sou um poeta — disse a Bysshe. — Não sou um escritor de histórias. Sou apenas um mecânico e um experimentador. Não consigo divisar os segredos da alma. — Você se menospreza injustamente — respondeu ele. — Os grandes experimentadores são poetas a seu modo. Eles são viajantes em territórios desconhecidos. Eles exploram os limites do mundo. — Mas não em palavras, Bysshe. É nisso que irei fracassar. Mary estivera escutando com atenção. — Eu tenho as palavras — interrompeu-nos. — Pensei numa história. Permaneci na sala depois que vocês se retiraram, quando subitamente me veio pronta uma ideia bem mais poderosa do que qualquer devaneio. Uma sequência de imagens ergueu-se perante mim, espontaneamente... — Conheço essa sensação — Bysshe disse. — Na primeira delas, um pálido estudante das artes ímpias estava ajoelhado junto a um homem deitado, mas que ainda não era de todo um homem... Nesse instante Byron entrou na sala. — Perdi as costeletas? — perguntou ele a Lizzie, que estava parada de pé atrás da cadeira de Mary. — Seja uma boa menina e resgate uma para mim da cozinha. — Sentou-se então ao lado de Shelley. — Onde está o bom Dr. Polidori? — Ainda não se levantou — respondi. — Fred me disse que o ouviu roncando. — Só se ele encostou o ouvido na porta, suspeito. Fred é incorrigível. Nesse momento, Polidori entrou na sala. Sua camisa estava amarfanhada, e seu colete, aberto. — Você não lavou o rosto, Polidori — disse Byron como cumprimento. — Bom dia para você. — Estou atrasado, receio. Passei metade da noite acordado pensando. — Pensando em quê? — perguntou Byron.
— Num horror. — Ele olhou para mim por um momento. — Para o nosso banquete de histórias, suponho? — Mary também estava me olhando estranhamente. — Acho que pode ser muito pavoroso para ser contado. — É? — Alguma vez vocês já estiveram em meio ao desenvolvimento de um pensamento, ou mesmo de um sonho, quando uma face emergiu na sua frente? Uma face apavorante. Cheia de terror e de malevolência. E ao ver essa face os seus mais secretos e intensos temores se manifestam; o medo da morte, o medo do que pode acontecer depois da morte. O medo do próprio medo, todas essas sensações convergem nessa face maligna. — Isso é tudo? — indagou Byron. — Não. De forma alguma. Eu tenho uma história. — Vá em frente. — Eu a chamo “O vampiro”. — Você tem um bom começo — elogiou Byron. — Mas tem também um meio e um fim? — Eu a situei ao longo da romântica costa de Whitby. Alguém a conhece? — Há uma abadia lá — disse Mary. — Da abadessa Hilda. — Precisamente. A igreja da abadia se empoleira sobre rochedos íngremes. As pedras lá embaixo são traiçoeiras, e a espuma do mar batendo atinge bem alto as superfícies laterais dos rochedos. Eu já vi. Lá, numa noite escura no fim do século passado, uma escuna estava procurando seu arriscado caminho em meio às ondas encapeladas. Havia uma tempestade forte, e todas as habitações em Whitby estavam fechadas, com as janelas barradas e trancadas. De modo que ninguém viu o barco chegando cada vez mais perto das pedras. Então uma grande onda ergueu o barco mais alto do que antes; ele foi carregado pelo mar turbulento, e com um suspiro de agonia encalhou nas pedras na base do rochedo. Lá ficou suspenso, tremendo como uma coisa ferida. “Ao raiar do dia, depois que a tempestade passara, o grito de naufrágio se espalhou. Os habitantes de Whitby se reuniram avidamente nos topos dos rochedos e olharam para o seu butim lá embaixo; cordas foram jogadas, e os jovens da cidade desceram para o convés da nau partida e destroçada. Mas não havia tripulação nenhuma para ser encontrada. Não havia capitão, imediato ou comissário. O navio estava deserto. Eles relataram um achado notável. Quatro caixões estavam presos no convés principal com cordas grossas. Eles tinham sido presos tão seguramente que sobreviveram à tempestade e ao naufrágio. Era verdadeiramente uma nau dos mortos. Os caixões foram levados num bote para o pequeno porto, onde foram colocados em fila na costa...” — Chega! — exclamou Byron. — Você é todo conteúdo e nada de estilo. É muito aborrecido. Percebi que Polidori ficara com raiva, ainda que tenha permanecido em toda a sua aparência externa bastante controlado. Eu ri, e ele me deu um olhar de tal malevolência que eu devia ter me precavido. — Quando um dos caixões foi aberto — prosseguiu —, ergueu-se uma voz, gritando: “O que mais vocês querem de nós?” Nesse momento, Shelley deu um grito estridente e correu para fora da sala. Mary o seguiu consternada. Ela nos chamou pedindo auxílio e, ao entrarmos na sala, encontramos Bysshe desmaiado, estendido no tapete. Com muita presença de espírito, Polidori, trazendo um jarro da mesa do café da manhã, despejou cerveja preta sobre o rosto dele. Isso o reviveu um pouco. — Eu tenho um restaurador — contou Polidori a Mary. — Por favor, dê-me o seu lenço. Ele trouxe uma pequena valise de seu quarto e, tirando dela um frasco com um líquido verde, despejou um pouco no lenço. Polidori o colocou no nariz de Bysshe; para nossa grande surpresa, Bysshe então espirrou e sentou-se ereto. — Desculpe ter causado tal comoção — falou. — A verdade é que... eu tive uma experiência muito similar à que Polidori acabou de nos contar! — Ele se levantou do tapete e segurou a mão de Mary. — Vamos voltar à sala de jantar? — perguntou ele com considerável tranquilidade. — Estou bem recuperado. Retomamos nossos assentos, e Bysshe, já com a compostura inteiramente retomada, contou-nos sua história: — Eu estava em meu último ano em Eton, morando na casa do Dr. Bethel. O nome nada dirá para vocês, mas eu o menciono por um desejo de ser acurado. Numa noite, em um de meus irrequietos passeios, deixei a escola e a cidade bem para trás e me vi caminhando ao longo do rio nas proximidades de Datchet. Cheguei a uma pequena casa de barcos, que tinha uma galeria aberta de ambos os lados; era uma construção das mais curiosas, da qual ainda tenho uma nítida lembrança. Estava totalmente deserta, e o próprio barco não estava nela; presumi que o proprietário decidira embarcar numa jornada noturna, e sentei na galeria para desfrutar do silêncio e da solidão desse local tranquilo. Quem sabe que sonhos se apossaram de mim? Só sei que, nesse pedaço da minha vida, eu me deliciava com fantasias extravagantes e apenas ideias incompletamente concebidas. Minha mente era o céu por onde nuvens passavam. Então, após algum tempo entretido nesse ocioso mas inexprimivelmente delicioso passatempo, ouvi o som de remos na água. Desci da galeria e fui até a margem; o som da embarcação chegou mais perto, e pus a mão por cima dos olhos para vê-la mais claramente quando passava numa ilhota no meio do rio. Era um barco branco, tão puramente branco como eu jamais vira. Seu remador tinha se desviado, olhando corrente acima; ele parecia mover distraído os remos, com o barco suavemente deixando-se vir para a margem. E então ele se virou para me encarar. Era a minha própria imagem, meu duplo, meu alter ego, olhando fixamente para mim. Ele abriu a boca, e suas palavras foram: “por quanto tempo você pretende permanecer satisfeito?” Eu desmaiei na margem. Quando acordei o barco e seu ocupante tinham se ido. A casa de barcos desaparecera. Eu estava deitado numa parte completamente desabitada do rio. De modo que foi por isso, vejam, que gritei ao ouvir as palavras do caixão em Ahitby. Lembrou-me tão poderosamente daquele momento de minha vida. — Você nunca tinha me contado isso — protestou Mary. — Eu nunca tinha contado para ninguém, e não sei por que estou contando a vocês todos agora. Deve ter sido a surpresa, eu acho. — Ora, ora estão vendo — disse Byron — como nossas próprias histórias são mais interessantes do que os contos alemães? — Ele foi até Bysshe. — Esse é o caso mais interessante de doppelganger que já ouvi. Você lembra se, no momento em que ele estava mais nítido, você se sentiu fraco? — Eu estava a ponto de desmaiar. E então desmaiei. — Precisamente. A imagem do duplo sempre suga a energia de sua fonte. Sem dúvida irá lhe aparecer de novo, Shelley. Poderá lhe oferecer advertência ou conselho. Não o ouça. Com certeza o estará enganando. — Ele não tem sombra — acrescentou Mary. — Ao menos foi o que eu li. — Tenha cuidado de não o confundir com o seu marido. — Byron estava rindo. — Daria uma briga dos diabos. — Quem pode dizer o que é verdadeiro e o que é falso? — questionou ela. — Mary estava para nos descrever a sua história — falei. — Tinha como assunto as artes ímpias. Não é isso, Mary? — Não. Não vou dizer mais nada sobre ela. Vou pensar mais a respeito, Victor. Vou alimentá-la em segredo, até estar pronta para entrar no mundo. — Ela levantou-se da mesa e foi até a janela. — Essas tempestades nunca cessarão. — Você pode sentar sob o toldo na varanda — replicou Bysshe. — Então a chuva será encantadora. Você a verá alimentando a terra. O jardim aqui será reabastecido.
Nesse momento, Polidori se debruçou sobre mim e disse, em voz baixa: — Era minha intenção informá-lo ontem. Mas não surgiu ocasião adequada. Eu descobri as palavras para você. Soube no mesmo instante o que ele queria dizer, mas não a sua intenção. — As palavras para o golem? — Estive me correspondendo com o meu velho mestre em Praga. Ele não queria escrevêlas, mas o persuadi de que, no interesse da ciência, seria um gesto nobre. Aqui está. — Do bolso do colete ele tirou um pedaço de papel. Eu o coloquei no interior do meu paletó. Não queria vê-lo. Ainda não.

Vinte

Algumas manhãs depois, Mary confessou uma sensação alarmante em seu estômago: ela se queixou de uma grande dor acompanhada de um formigamento. Bysshe e Byron ainda não tinham aparecido, de modo que Polidori e eu estávamos sozinhos com ela na sala de jantar. Ela não conseguiu comer, e sentou num pequeno sofá próximo às janelas. — Há um bloqueio em algum lugar — disse Polidori a ela. — Os fluidos estão obstruídos. Você me permitirá que eu a ajude? — Com certeza — respondeu ela. — Lorde Byron me contou de sua magnetização. — Posso sentar à sua frente? Aqui. — Ele pegou uma cadeira da mesa do café da manhã e a levou até onde ela estava. — Agora, você poderia se permitir ficar bastante inerte? Deixe seus braços caírem ao longo do corpo. Deixe a cabeça pender. Ótimo. Você está relaxada agora? — Posso falar? — É claro. — Sim. Estou relaxada. Polidori arrastou a cadeira para mais perto de Mary, de modo que os joelhos dos dois ficaram encostados. Então ele se inclinou e pegou o braço dela. — Estou aplicando uma fricção suave — disse ele. — Já está sentindo alguma coisa? — Não. Ainda não. Sim. Agora sim. Estou sentindo um calor na forma de um círculo. Uma moeda pequena. — Agora, Mary, não estou sendo indelicado. Quero que você ponha seus joelhos entre os meus para que, de certa maneira, fiquemos conectados. Você faria isso? — Desde que meu marido não nos veja. — Shelley já conhece e aprova o meu trabalho. Nada tema. Onde exatamente é a dor? — Aqui. Logo acima do abdômen. — Esse é o local do órgão hipocondríaco. Não preciso colocar minhas mãos aí. Eu as colocarei em suas têmporas. Elas serão o bastante. Se você fizer a gentileza de baixar a cabeça. Só isso. — Ele pôs os dedos na cabeça dela e começou uma série de movimentos circulares. — O que você está sentindo agora? — Há um calor no dedão do pé. No pé direito. — Muito bem. Visualize esse calor se movendo para cima em seu corpo. Veja-o como um fogo. Ele vai queimar as impurezas em seu progresso. — Eu ia dizer algo, mas com um olhar Polidori exigiu que eu me mantivesse em silêncio. — O corpo — falou para ela — é constituído de pequenos centros magnéticos, formando o grande magneto da forma humana. — Ele olhou para mim como que buscando confirmação. — De modo que o fluido elétrico está começando a fluir livremente através de mim? É isso? — Precisamente. Você não está sentindo, Mary, o calor da corrente? — Oh, sim. Suspirou. — A dor está passando. — Ela logo passará completamente. — Eu preciso dormir — disse ela. — Eu quero dormir. — Ela se levantou e, sem olhar para nós, saiu da sala. Polidori me espiou quase matreiramente. — Ela está atraída a um sono magnético — afirmou. — Todos sentem a necessidade de dormir. — Acredito, Polidori, que você está no caminho errado. O sono magnético não é a causa. É o efeito. A consequência de poderes bem maiores. — Não o estou compreendendo. — Há forças sobre as quais você nada sabe. — Então ficaria agradecido se você me esclarecesse sobre elas. — É ainda prematuro, Polidori. Creio que, a partir desse momento, ele decidiu me perseguir com toda a sutileza e dissimulação de que dispunha. Ele se tornou o caçador, e eu, a sua presa. — Seja como for, Frankenstein, você me permitiria indicar os pulsos em seu próprio corpo? — Se assim deseja — respondi. — Ah, sim. Com certeza. Quando Byron desceu para o café da manhã, encontrou Polidori debruçado sobre mim com as mãos em minhas coxas. — Costumávamos fazer isso em Harrow — comentou, aparentemente nem um pouco surpreso. — Estou instruindo Frankenstein nos mistérios do magnetismo. — É mesmo? Eu pensei que você estava disposto a enrabá-lo. Onde estão os rins? — Byron inspecionou alguns pratos servidos no aparador. — E nenhuma resposta veio. — Ele empilhou alguns pedaços de bacon num prato e o levou para mesa. — Para onde viajaremos hoje? Onde nesta região desbravaremos um caminho? Diga-nos, Frankenstein. — Bem, meu lorde, poderíamos escalar. Temos montanhas. — Na presença de Byron era impossível Polidori continuar sua instrução, de modo que fui até a janela. — Acho que não. — Eu tinha esquecido, por um momento, seu pé deformado. Ele nunca aludia a isso, mas creio que era uma fonte de constrangimento para ele. Eu sabia, também, que pessoas deformadas com frequência nascem com paixões intensas. — Agora que estamos próximos a um lago, devemos aproveitá-lo. A água é o meu elemento. Você sabia que uma vez atravessei a nado o Helesponto? — Há um pequeno castelo um pouco mais adiante nas margens — falei. — Talvez lhe interesse visitá-lo. Foi outrora uma fortaleza e uma prisão. — Como o famoso Castelo de Chillon? — Não tão impressionante — respondi. — Mas é pitoresco. Há rumores de que é malassombrado. — Você acredita em fantasmas? — perguntou Polidori a Byron. — Eu nada nego. Mas duvido de tudo. Precisamos encontrar esses fantasmas, cavalheiros. Shelley irá desmaiar. — Mary poderá ampará-lo — zombou Polidori. — Sim — replicou Byron. — Ela é a mais forte dos dois, eu acho. É um caso da galinha fodendo o galo. — Fiquei chocado com a linguagem dele, mas cuidei de não demonstrar. — Pode contar com isso, aquela garota tem aço em seu âmago. — Ela tem a força elétrica dentro de si — afirmou Polidori. — Acabei de acalmá-la por meio dela. — Você acariciou as coxas dela? — Apliquei alguma fricção em sua pele. Byron estava prestes a dizer mais alguma coisa, mas se interrompeu quando Shelley entrou na sala, desgrenhado e zonzo de sono. — Ora, Shelley — cumprimentou Byron —, um bom-dia para você. Vamos partir numa expedição a uma prisão. Como se chama o tal lugar, Frankenstein? — É o Castelo de Marmion. Pertencia a uma família com esse nome. Não sei quem é o proprietário agora. — Deixaremos nossos cartões de visita, de todo modo. Coma logo, Shelley, estou ansioso por partir. Retirei-me para uma pequena alcova, onde fiquei fora da vista deles por um biombo que separava a mesa do café da manhã de algumas cadeiras e mesas espalhadas ao léu, nas quais jornais e revistas estavam empilhados. Shelley logo levantou-se da mesa, admitindo que precisava se aliviar, de modo que Byron e Polidori ficaram sozinhos. Iniciei a leitura de um ensaio sobre os méritos da seita de Clapham, ignorando o murmúrio das vozes deles. Mas então comecei a escutá-los. — Ela tem dois defeitos imperdoáveis numa mulher — dizia Byron. — Ela sabe ler e sabe escrever. Não consegui ouvir a réplica murmurada de Polidori. — Perdoe-me — desculpou-se o lorde. — Eu sou tão antissocial quanto um lobo fora da matilha. — Pareceu-me que eles não tinham consciência da minha presença. — Você parece ser sociável o bastante — replicou Polidori. — Faço o melhor que posso para ocultar os meus sentimentos. Não quero desperdiçá-los com ninguém mais a não ser comigo mesmo. — Você é muito magnânimo. — Tenho minhas raivas silenciosas, entretanto, quando para o mundo pareço indiferente. Você sabe disso. — Ah, sim. Testemunhei as suas contorções. Você fica de um vermelho muito vivo. Mas algumas de suas raivas, Lorde Byron, não são tão silenciosas assim. Lembra daquela noite em Haymarket, em que derrubou aquele homem? — Meu caro Polidori, sempre tenho explosões e insultos sob o meu controle. Você sabia que posso chorar quando quero? Observe. Vou lhe mostrar. — Houve um silêncio por alguns segundos. — Bravo — exclamou Polidori. — Parecem inteiramente genuínas. — São inteiramente genuínas. Só o que me falta é uma razão para elas. Não ouvi as palavras seguintes entre eles; acho que Byron foi até o aparador para se servir de mais café. Quando voltou, deve ter ficado de pé, porque sua voz ficou mais clara. — Sabe, quando eu era criança, não podia ler poesia em voz alta sem um profundo desgosto. Agora estou incompreensivelmente preso a esse hábito. — Desde que seja a sua própria poesia. — Não. Não necessariamente. Diga-me quem escreveu isso. — Sua voz então
transformou-se em uma mais profunda e melodiosa:
Acaso a vós pedi, Criador, de meu barro Moldar-me em homem? A vós solicitei Da escuridão ser assim promovido?
— Milton! — exclamei por trás do biombo. — O quê? Você está aí? — Sim. Paraíso perdido.

***
Mais tarde naquela manhã zarpamos. Mary expressou o desejo de juntar-se a nós, declarando-se bastante bem; de modo que éramos cinco viajantes no Alastor, como ele chamara o barco. O castelo ficava a uns 3 quilômetros de distância, ao longo da margem leste, e, enquanto velejamos lentamente em direção a ele com uma brisa intermitente, lembrei de minhas perambulações quando criança pela mesma região do lago. Muitas vezes caminhei entre os pinheiros ou me deitei na terra, num êxtase de comunhão com o mundo. Esses remotos dias felizes agora voltavam a mim. — Lá está — indiquei para eles, inclinando-me na proa e apontando a margem. Era uma velha fortaleza de pedra escurecida, se erguendo sobre uma escarpa junto ao lago; tinha havido alguma sublevação ali, em eras mais antigas da terra, pois a margem naquele ponto era feita de pedras e rochas há muito tempo depositadas. — Olhem só a solidão dele — disse Bysshe. — Vai ser bem complicado amarrar o barco. — Byron estava de pé na proa, com a corda nas mãos. — Não tem onde prender a corda nessas pedras. — Há um píer ali — observou Polidori. — Onde a pedra avança. Em poucos minutos estávamos em terra. Havia um caminho que saía do píer e subia para o castelo; eu fui na frente, para apresentar nosso grupo aos atuais moradores. Quando eu bati, a porta foi aberta por um jovem de aparência não muito simpática; tinha o olho esquerdo vesgo e a mancha púrpura de uma marca de nascimento na bochecha esquerda. Com certeza, um lado deixara o outro na mão. Apresentei-me como fazendo parte de um grupo de viajantes, entre os quais um famoso lorde inglês de uma família importante. O lorde tinha demonstrado interesse em visitar a fortaleza. Seria possível nosso grupo ser recebido? Ele respondeu em francês que ele e sua mulher eram os caseiros e que o
proprietário, um homem de negócios alemão, estava longe de casa. No mesmo instante soube qual língua ele entenderia melhor. Peguei minha bolsa e o ofereci um luís francês, que ele aceitou de bom grado. A essa altura, os outros já tinham chegado à porta. O jovem nos conduziu aos aposentos do senhor, conforme os chamou, um suíte de cômodos em dois andares cujas janelas davam para o lago e as montanhas do Jura. — Não viemos ver a vista — protestou Byron comigo. — Você poderia pedir a ele para nos levar às masmorras? O caseiro reconhecera a última palavra e, com um relance para Byron, fez sinal para que o seguíssemos descendo uma escada de pedra. Havia dois andares na parte inferior da fortaleza. No mais alto deles havia três celas, lado a lado, cada uma com uma janela estreita cavada na rocha. Estavam tão conservadas que ainda tinham os grilhões de ferro nas paredes. Shelley pareceu que ia desmaiar, e Mary segurou a mão dele. — Já passou — consolou-o. — Não. Não passou — replicou ele. — O flagelo ainda está no ar. Byron entrou em uma das celas e examinava meticulosamente os grilhões. — Estão enferrujados. O que você acha, Polidori? Resultado da água ou de sangue? — Uma mistura de ambos, eu diria. — E aqui há marcas no chão — observei —, onde as correntes arranharam a pedra. Estão vendo esses sulcos? — São as marcas da desgraça. — Bysshe tinha ido até a última cela e estava segurando as grades com uma expressão meio trêmula, meio expectante. — Estou tentando invocá-los — anunciou quando fui até ele. — Estou tentando encontrá-los. — Há muito se foram, Bysshe. Por que desejariam ficar aqui? Entre todos os lugares possíveis? — Onde o sofrimento foi mais intenso, encontramos vestígios deles. — Eu me pergunto em quem consistia essa feliz população — exclamava Byron para Polidori. — Envenenadores? Heréticos? Dá tudo na mesma agora. Os prisioneiros e os que os aprisionaram são todos pó agora. E onde você está indo, Mary? — Para os níveis mais baixos. Há outra escada aqui. Eu a segui nos degraus estreitos de pedra, que levavam a um espaço fechado. Não havia celas ali, mas me veio uma sensação indescritível de ameaça e privação assim que vi as paredes e o chão de pedra. O caseiro desceu atrás de nós. — Esse era o local das execuções — contou-me ele em francês. — Está vendo isso? — Havia uma viga de madeira enegrecida que ia de um lado a outro sob o teto. — Ali a corda
era presa. Traduzi para Mary. — E isso? — perguntou ela. — O que é isso? — Apontou para um alçapão de madeira no meio do piso. — As águas do lago eram mais altas na época — explicou-me o caseiro. — Eu acho que isso era um sumidouro para os corpos dos condenados — comuniquei a ela. — Vivos ou mortos — acrescentou ele. — Os vivos eram amarrados com cordas. — Ele me disse que eram jogados na água. — Então esse é o local condenado. — Ela me olhou com firmeza. — Abandonai a esperança. — Eu acho — repliquei — que devíamos nos juntar aos outros. Subimos a escada de pedra, encontrando Byron e Bysshe discutindo a palavra em inglês antigo para os grilhões que acorrentavam os prisioneiros à parede. — Gyve é um verbo — dizia Bysshe. — É um substantivo — retorquiu Byron. — São chamados de gyves. — Ele se voltou para Mary. — Esteve nas profundezas? — Eu me sinto como uma sonâmbula — respondeu ela. — Uma sonâmbula entre os mortos. — Então precisamos acordá-la. Por que não sobe com Frankenstein para a mansão lá em cima? Com certeza deve haver vinho para você. Perguntei ao zelador se podíamos descansar nos aposentos habitados por um breve tempo, e ele concordou de bom grado; sem dúvida estava antecipando mais um luís. Ele nos trouxe dois copos do vinho doce da região, e sentamos junto a uma janela que tinha vista de cima do vinhedo da propriedade. — Não poderia dizer que gosto deste lugar — comentou Mary. — A bem da verdade, me desagrada. — Byron deleita-se com ele. — Ah, ele tem uma paixão por emoções fortes. Visitaria o próprio inferno, só pela empolgação de estar lá. — Ele poderá não ter escolha quanto a isso. — Fico surpresa com você, Victor. — Sinto muito. Não devia falar de um amigo dessa maneira. — Não. Não isso. Eu não sabia que você acreditava no inferno.
— Tanto quanto eu saiba, Mary, o inferno está à nossa volta. Vivemos num mundo abrasador. Byron e Bysshe entraram na sala, seguidos por Polidori. — O que estavam falando sobre brasas? — indagou-me Byron. — Precisamos de fogo aqui. Seria possível acender um? — Devia ser muito frio naquelas masmorras. — Bysshe tinha ido até a janela. — E há outra tempestade vindo. Graças a Deus não estamos no lago. Houve um súbito clarão seguido por um trovão. Byron pediu vinho, e mostrou todos os sinais de uma expectativa jubilante. As nuvens de tempestade que se acumulavam escureceram a sala em que estávamos sentados, e o jovem caseiro, depois de acender a lareira, espalhou velas por cantos esparsos, em um efeito que Mary chamou de “lívido bruxulear”. — Tive uma ideia — anunciou Byron. — Devíamos aproveitar esse clima lúgubre, como Mary acha. Devíamos fazer uma sessão espírita. — Aqui? — questionou Polidori. — É o melhor lugar no mundo. Shelley sem dúvida alguma concluiu que há fantasmas na masmorra. — Não é exatamente o que pensei. — Onde melhor para invocar os espíritos? — Os suíços são um povo prático — falei. — Eles não abrigam fantasmas. — Todos os lagos são assombrados, Frankenstein. Grandes corpos de água atraem almas perdidas. — Talvez elas não queiram ser chamadas — retorquiu Mary. — Estarão então lutando contra isso. Prontos para uma escaramuça com os vivos. Não fique alarmada, Mary, sempre tenho uma arma de fogo em meu bolso. Vamos sentar nesta mesa no canto. Traga as cadeiras, Polidori. Byron então fechou as pesadas cortinas de veludo nas janelas, de modo que a luz trêmula das velas ficou mais intensa. A tempestade estava violenta lá fora, como se todos os elementos estivessem em contenda. — Você está agindo — disse Bysshe — como se fosse o diretor de palco do caos. — Eu sei disso. Nasci para a minha própria ruína. Precisamos de mais uma cadeira, Polidori. Assim, sentamos em volta da mesa, nossas mãos abertas num círculo com as pontas dos dedos se tocando. A mesa estava num canto escuro da sala, mas era favorecida pelo calor do fogo. Senti-me pouco à vontade no começo, em boa parte pela intensidade de meus companheiros. Eu imaginara que Byron fosse um cético quanto a todos os assuntos espirituais, mas ele tomou parte com todo o entusiasmo de um devoto fervoroso. Eu suspeitava fazia muito tempo que os ingleses, apesar de seu ar de diligência e pragmatismo, eram uma nação inteiramente crédula e supersticiosa. Por que outra razão eles adoram os contos de horror, como os chamam? Todos ficamos esperando na escuridão enquanto Byron tentava se dirigir aos “espíritos”. Depois que ele terminou sua conjuração, julguei ter ouvido algo se mexendo sob a mesa. Mary também ouviu, e deu um relance para mim. Byron falou em voz alta mais uma vez, e houve um sibilar. Eu senti algo rastejando em meu pé. Gritei e então essa... coisa pulou sobre mim. Tudo se tornou uma confusão. Polidori acendeu outra vela, cuja luz revelou sua face como uma máscara de terror, e então ele apontou para o meu colo. — Um gato! — anunciou. — Incomodamos o gato que estava dormindo debaixo da mesa! Bysshe ficara sentado durante o ocorrido com a mais estranha expressão de apreensão no rosto. Mary estava olhando para ele, sem dúvida lembrando de sua reação à história de Polidori. Mas ele não recaiu no mesmo estado. Começou a rir, uma risada quieta e convulsiva que sacudia todo o seu corpo. Mary foi até Bysshe e pôs o braço em volta de seu ombro. — Estou calmo — falou. — Não há nenhum problema. Polidori abriu as cortinas. — Estou vendo umas partes de um azul tênue aparecendo sobre as montanhas. A tempestade está passando. — Por Deus, espero que não. — Byron se pôs de pé. — Eu prospero em tempestades. Creio que foi nesse momento que decidi que deixaria os meus companheiros. Eu já os prevenira de que, em algum momento, visitaria a propriedade de minha família em Chamonix. Eu queria visitar os túmulos de meu pai e minha irmã, onde não estivera desde a morte deles; mas na verdade também estava ansioso por solidão e silêncio. A conversa sem fim dessa jornada tinha me cansado. Quando anunciei minha decisão naquela noite, ao voltarmos à quinta, Mary olhou para mim com algo como ressentimento; creio que ela me invejava por estar partindo para as regiões alpinas de gelo e neve. Bysshe insistiu que eu ficasse, argumentando comigo nos termos mais lisonjeiros da amizade, mas eu não estava para ser demovido nem mesmo por suas persuasões. Byron nada disse, obviamente considerando a minha decisão como sendo de pouca ou nenhuma consequência para ele. Eu, na realidade, desenvolvera certa antipatia pelo lorde. Ele dava a impressão de ser um grande predador, tanto espiritual quanto moralmente, que iria se alimentar da substância de alguém antes de descartá-lo casualmente. Ele era um ator nato, também, que o tempo todo tinha prazer com a sua performance. Homens assim são perigosos. Retirei-me para o meu quarto, onde Fred tinha disposto minhas roupas de dormir, e me deitei. Devo ter dormido por uma hora, quando fui acordado por alguém batendo em minha janela.

Vinte e um

A criatura estava olhando para mim. Com a sua habitual agilidade e velocidade, devia ter subido até o balcão em frente ao meu quarto, e estava agora esperando que eu abrisse a janela. Hesitei, e ele bateu com bastante violência na janela. Temendo que ele fosse descoberto, permiti que entrasse. E lá estava ele diante de mim, me olhando com o que parecia ser uma expressão de infinita pena. — Por que você está aqui? — perguntei. — Aonde mais posso ir, se quero companhia? Fui avassalado no mesmo instante por uma sensação de infelicidade e mau agouro. — Eu não esperava vê-lo. Não depois de... — Marlow? — Ele pôs a mão sobre o rosto, num gesto de humilhação. — Eu preferia ser um pedaço de barro em vez do que sou. Qualquer coisa sem sensação alguma. — Você está sentindo tristeza, então? E arrependimento? — Eu não sei o que sinto. Sei apenas o que não sinto. Sim. Outrora eu senti alegria. Na primeira expressão de minha nova vida, senti contentamento e gratidão. E estava livre. Olhava para o mundo com uma percepção renovada de sua glória. Eu era recém-nascido, e nesse estado senti o júbilo de toda a criação. A esperança e o júbilo se foram. Essa coisa se insinuou no meu coração, recurvando-me até o chão com o seu peso. — Culpa pelos seus crimes. — Se você assim diz. — Você assassinou duas jovens, por nenhuma outra razão a não ser elas estarem em minha companhia. Ele se voltou e caminhou de volta até a janela. — Gostaria que eu tivesse me juntado a elas. — Você quer dizer que gostaria de morrer? — Olhe para mim. Está me vendo claramente? Por que eu desejaria viver?
— Deixe-me entendê-lo melhor. — Não encontro repouso na noite mais escura, ou conforto no dia mais brilhante. A morte não fica fácil, em comparação? Não devo desejá-la? — Você deseja romper o pacto que temos? O pacto da vida? — Para que eu não mais exista. Para que possa jazer na escuridão e no espaço vazio. Curvei a cabeça, pensando no que ele poderia ter sido e no que realmente se tornara. E havia também alguma culpa a ser atribuída a mim? — De todas as criaturas, não sou eu quem deveria ser salvo da morte. — Se você quer cessar de existir, então com certeza poderia se atirar do cume de uma montanha alta ou se incendiar, não? — Você bem sabe que não é o caso. Você mesmo me disse. Aquele que já morreu uma vez nunca morre de novo. Deitei-me no fundo do rio, e meus pulmões se encheram de água, e no entanto não consegui sucumbir. Atirei-me de um penhasco no mar bravio, mas emergi incólume. Por isso voltei a você. A fonte. A origem de meu infortúnio. — Ele se voltou de novo, me encarando. — Eu sei que você consertou as máquinas elétricas. — Uma vez você as tentou destruir. — Agora elas poderiam ser a minha libertação. — Como assim? — Estive refletindo sobre a minha sina. Não sei quais precisamente foram os meios pelos quais você me restaurou à vida, mas andei especulando. Passei dias e noites meditando. Tenho conhecimento da força galvânica e do fluido elétrico. Esse deve ter sido o seu método, de uma forma ou outra. Com certeza você pode alterar o fluido devidamente e reverter o processo da animação, não? Com certeza você pode neutralizar a força? Fiquei atônito por a criatura ter chegado a conclusões tão similares às minhas; era como se houvesse uma conexão entre nós que superava os poderes ordinários da empatia. Surpreendeu-me, e deleitou-me também, que ele parecesse agora abraçar a perspectiva de sua própria destruição. Não haveria razão para enganá-lo com promessas de uma parceira fêmea. — Eu posso trabalhar nesse sentido — repliquei. — Posso estudar e experimentar. — Não demore muito. — Trabalharei com expediência, quando voltar à Inglaterra, mas vou precisar que você seja paciente. Você ainda mora no estuário? — Em minha pequena cabana? Sim. Ninguém chega perto de mim. — Você vai voltar para lá, enquanto eu persevero em meus estudos?
— Onde mais posso repousar a minha cabeça? Sou um andarilho pálido na noite, mas na noite e na escuridão permanecerei. — Eu o encontrarei. — Não. Eu saberei quando você estiver pronto. Eu estarei lá. — Com essas palavras, ele me deixou. Foi até a janela e pulou no balcão antes de desaparecer na noite tranquila.

***
Eu não consegui dormir. Quando supus que os outros tinham se recolhido, desci e saí no jardim. Eu estava refletindo sobre as palavras da criatura quando alguém sentou ao meu lado. Era Mary. — Eu gostaria que você não nos deixasse, Victor. Preciso da sua companhia. — Você tem os outros. — Quem? Byron? Polidori? Eles são muito preocupados consigo mesmos para me levarem em conta. — Ela ficou em silêncio por um momento. — Estou receosa quanto a Bysshe. Lembre-se de sua histeria no café da manhã. Quando eu o conheci, tal comportamento teria sido impensável. Você não acha? Alguma coisa o está enfraquecendo. Você poderia pensar que é o casamento dele comigo — acrescentou rapidamente. — Eu não acho isso. — Isso nunca me passou pela cabeça, Mary. — E isso também é estranho. Ele nunca mencionara a história de seu duplo antes. Alguma coisa está oprimindo a sua mente. Ele está ficando distraído por causa da ansiedade. Por algum medo. Ou premonição, talvez. — De seu destino? — É. Precisamente isso. Eu soube então que ela temia a morte prematura dele; Mary acreditava que Bysshe estava agindo estranhamente porque tinha algum pressentimento da própria morte. Por que outra razão se tornara tão interessado em sessões e histórias de fantasmas? Tentei confortála. — Com certeza ele está empolgado com suas viagens — falei. — E, mais especialmente, pela companhia de Byron. Bysshe nunca viveu em tal proximidade com outro poeta. Isso deve afetá-lo. — Você acha mesmo? Gostaria que isso fosse verdade. — Ele é um organismo delicado, Mary. Um pequeno toque...
— Sim. Eu sei. Mas há algo mais. Eu também temo um desastre! Todo este mês tenho vivenciado as mais intensas sensações de apreensão nervosa. Julgo que o infortúnio está próximo de nós. — Não diga isso. — Coloquei a mão em seu braço. — Também percebi uma mudança em Bysshe. Mas acho que você está errada, Mary. Não é medo. É frustração. Anseios insatisfeitos. Ele se considera um bom poeta... — ... Um grande poeta. — Concedo isso. Mas a sua obra é conhecida por muito poucos. Ele não tem uma plateia para encantar. Não ainda. Na companhia de Byron, cujos volumes vendem aos milhares, é alguma surpresa que ele se sinta desconfortável? Que ele tenha momentos de comportamento extravagante? Seria mais surpreendente se não fosse assim. — Eu pensei nisso. Mas Bysshe não tem um caráter mundano, Victor. Ele é todo fogo e ar. Não há terra nele. Nenhum ciúme. — Eu não estava falando em ciúmes. Sei que ele não é um homem invejoso. Mas, veja você, suas palavras não estão sendo recebidas. Ele escreve sobre o amor e a liberdade, mas ninguém o ouve. Você pode imaginar como isso deve exasperá-lo. Ser compreendido por tão poucos. — Sim, eu de fato compreendo isso. Talvez você tenha razão. Pode ser que a amizade dele com Byron não lhe faça bem. O lorde é de muitos modos bastante insensível. Você percebeu isso? Ele trata Polidori como se fosse um criado. E Polidori se ressente disso. Ele se ressente amargamente. Eu não ficaria nada surpresa se eles logo se separassem. — E quanto a você e Bysshe? Ela pareceu horrorizada. — Não estamos para nos separar! — Não. Eu quis dizer, para onde vocês irão em seguida? Se não estão satisfeitos na quinta. — Falamos na Itália. Ah, estou tão cansada de viajar, Victor. Sinto saudades da Inglaterra. Queria tanto ter uma casa com Bysshe. E meu pai. Uma casinha em Camden seria perfeita. — Houve um súbito movimento entre as árvores, e um farfalhar das folhas caídas. Ela se levantou e espiou na escuridão. — Detesto ratos — comentou. — Você se importaria em voltar à casa?

***
Na manhã seguinte, eu os deixei. Viajei com Fred numa carruagem alugada para Chamonix, bem alto nas montanhas. Observamos as rochas e as geleiras, passamos pelos desfiladeiros. Eu apontei para Fred uma grande cachoeira. — Está vendo — falei — como o vento a carrega para longe das pedras? A espuma fina dela caindo passa em frente à montanha como uma neblina. — Estou vendo, senhor. Lembra-me de hidrantes. Nós subimos o vale do Arve, de Bonneville a Creveaux, onde as cataratas faziam um estrondo no rio. Fred olhava sem se impressionar muito. Os cumes da montanha ali estavam ocultos pelas nuvens, mas havia momentos em que seus picos eram visíveis no céu, como monumentos entalhados por uma raça de gigantes antes do Dilúvio. — Imagine estar lá em cima — sugeri a Fred. — Imagine olhar das alturas o abismo lá embaixo. — Eu acho, Sr. Frankenstein, que é melhor o senhor não fazer isso. O senhor nunca iria voltar. — Você não tem poesia, Fred. — Se ela me fizer subir montanhas, senhor, então estou melhor sem ela. Depois da jornada de dois dias, chegamos à velha casa de minha família em Chamonix; estava fechada e trancada, sob os cuidados de um antigo zelador, Eugene, mas consegui acordá-lo depois de bater repetidamente nas portas e janelas. Ele ficou atônito de me ver, chegando sem anunciar depois de uma ausência tão longa, e começou a falar de uma maneira aflita sobre o desejo de meu pai de que algum dia eu voltasse a viver ali. — Isso é para o futuro — expliquei a ele. — No presente, você poderia arrumar as camas? O meu menino irá dormir nos seus aposentos. Ele pareceu se dar bem com Fred, e eu os observei naquela noite alimentando os esquilos. Vi Eugene apontando a geleira acima de Chamonix, que a cada ano avançava vários metros, deixando um rastro de pinheiros partidos e derrubados. Eu observava aquela geleira desde quando era criança, e ela se tornou para mim um símbolo de cataclismo avassalador. Como estudante, eu lera a profecia de Buffon de que em algum período futuro o mundo se transformaria numa massa de gelo. Quem poderia negar o poder de um mundo congelado? A natureza tinha dentro de si as sementes da destruição, extremamente vasta e árida. Eu crescera em meio à desolação.

***
Na manhã seguinte, fui sozinho até o pequeno cemitério de Chamonix, onde minha irmã e meu pai estavam enterrados. Eles tinham sido postos na mesma sepultura, com “Frankenstein” entalhado na lápide de mármore. Baixei a cabeça com tristeza, mas não pude deixar de considerar a paz da morte. Era próxima à inocência. Tudo em minha volta era a brancura das montanhas, com o Monte Branco se sobressaindo acima delas; a luz do sol atingiu seu pináculo, e o brilho tornou-se intenso, quase intolerável. Fechei os olhos por um instante. Naquele momento, a morte e a luz se reuniram. Voltei do cemitério com a minha fé renovada no poder do sublime. Eu estava tomado por um sentido de determinação. Iria voltar a Londres e testar o fluido elétrico. Avaliaria o sofrimento da criatura fazendo-a retornar à não existência. — Vamos voltar — anunciei para Fred assim que entrei na casa. — Para a quinta? — Ele pareceu consternado. — Não. Para Londres. Eu o vi mais tarde dançando no jardim.

***
A jornada foi lenta e laboriosa. No fim da primeira semana, estávamos completamente exaustos. Então enfrentamos os rigores do mar, onde ficamos parados numa calmaria por dois dias até um vento amigável nos enviar em direção à Inglaterra. Eu nunca ficara tão agradecido como quando passamos pelo Nore e começamos nossa breve viagem Tâmisa acima. As terras planas do estuário se estendiam nas duas margens, e é claro que olhei com muita atenção na direção da região em que eu achava que a criatura habitava. Mas tudo parecia ermo e selvagem. O contraste com a região dos Alpes de que tínhamos vindo ficou mais marcante: não havia grandiosidade ali, nada de sublime, apenas enfado e melancolia. Talvez fosse por isso que a criatura, exilada nos pântanos, cansara da vida. Passamos por Limehouse, e pude ver a oficina na luz tênue do crepúsculo. A maré estava subindo, e flutuamos com ela até a London Bridge. Ao chegarmos na Jermyn Street, Fred desfez as malas e preparou para mim uma tigela de sassafrás, que, ele disse, era um restaurador depois de uma viagem. Devo dizer que senti o bem-vindo alívio do leite quente, mas minha paz foi subitamente perturbada por uma exclamação estridente dele. — O quê? — gritou. — O que você quer? — Fred então jogou uma de minhas botas num canto. — Um rato! — exclamou. — Entrou aqui quando estávamos fora! — Ele foi até o canto e espiou o chão. — Eu o matei.
— Bom, jogue-o pela janela. — Não gosto da ideia de tocá-lo. — Você não teve problemas para matá-lo. Mas está com medo de tocar nele. Qual é o seu problema? — Eu não gosto da ideia de coisas mortas voltando à vida, Sr. Frankenstein. Pode parecer morto, mas e se começar a se contorcer nas minhas mãos? Eu abri a janela e olhei a noite lá fora. Podia sentir o cheiro do carvão mineral e vegetal dos fogos domésticos. Então fui até o canto, catei o rato e o joguei na rua. — Pronto. Todo o seu terror se foi. Você poderia preparar a minha cama?

***
Na manhã seguinte eu estava prestes a sair para Limehouse, ansioso por testar a minha nova teoria a respeito da carga elétrica, quando Fred anunciou uma visita. Polidori entrou na sala, visivelmente aflito, e se jogou numa poltrona sem ser convidado. — Está surpreso de me ver, Frankenstein? Eu tinha esperança de encontrá-lo aqui. Você não voltou à quinta, de modo que supus que tinha retornado para casa. Eu não conseguia suportar mais. Byron tornou-se intolerável, e o pobre casal Shelley parece segui-lo em tudo. Voltei ontem à noite. — Falava de uma maneira confusa. — Você sabia que Byron é um perigo? — Eu tinha minhas dúvidas quanto a ele. — Dúvidas? Certezas. Ele seduziu uma das garotas da vizinhança da quinta, e o povo de lá está disposto a linchá-lo. Seu humor tornou-se insuportável. Ele gritou com os criados, e insultou Shelley na cara dele. — De que modo? — Ele o chamou de um diletante e um escrevinhador desconhecido. — E como Shelley reagiu? — Ele ficou pálido. Então se virou e saiu da sala. Eu não conseguia suportar mais, Frankenstein. Saí sem avisar ninguém, para o caso de Byron tentar me impedir. Quando o vi pela última vez, ele estava numa de suas bebedeiras, perambulando pelo jardim e fustigando as árvores com a sua bengala. — O seu láudano o teria acalmado. — Não se pode dar um opiato a um louco. Alimenta a sua loucura. — Você acha que ele está insano?
— Transtornado. Degradado. Qualquer palavra que você quiser. — Não, Polidori. A loucura é silenciosa e secreta. Você não acha? Essa ebulição do humor é o sinal de uma constituição hipersensível. Nada mais. — Qualquer que seja a causa do seu frenesi, eu não queria testemunhá-lo. Assim, voltei. — Você tem acomodações? — Não. — Ele me olhou de um jeito quase desafiador. — Onde você vai ficar? — Eu estava com a esperança, Frankenstein, de poder ficar aqui em sua casa. Não consegui pensar em nenhuma desculpa conveniente naquele momento. — Aqui? — É aqui que você mora, não? Sei que você tem espaço vago. Ao longo daquele dia, então, o ousado e empreendedor Polidori se mudou para a Jermyn Street. Havia um quartinho nos fundos que ele disse que lhe convinha admiravelmente bem. Quando dei a notícia a Fred, ele apenas olhou para o alto e suspirou. — O doutor será bem-vindo, não? — perguntei a ele. — Ah sim, senhor. Muito bem-vindo. Espero que ele coma costeletas.

***
Quando Polidori estava instalado, disse a ele que precisava voltar ao meu trabalho. Ele concordou. Pareceu não requerer nenhuma explicação adicional. Dessa forma, no crepúsculo, fui para Limehouse. Eu tinha fechado e trancado a oficina, para evitar a intrusão de vizinhos, e bloqueara as janelas para desencorajar olhos inquisitivos. Assim, tudo permanecera intocado. Comecei imediatamente a carregar as colunas elétricas, e fiquei feliz em vê-las brilhar com vida nova. Em poucas horas, estava em condições de começar os meus experimentos para alterar a direção do fluido elétrico; observei, por exemplo, que ao mudar a posição das placas metálicas e circuitos que cercavam as colunas, havia uma momentânea deflação do fluido. Continuei esse trabalho até tarde da noite, mas não consegui obter nada mais. Precisava de uma força maior que a que eu poderia obter. Suspeitava, também, que precisaria descobrir outra fonte de atração elétrica que pudesse dobrar o fluido com a sua força. Tudo isso ainda me esperava. Decidi voltar a pé para a Jermyn Street, esperando arejar a mente na hora tranquila antes do amanhecer. Todavia, um forte vento começara. Enquanto caminhava pelas ruas, cada folha que caía parecia projetar a sua sombra ao ser jogada ao chão pelo vento. Eu podia ver a minha própria sombra, também, projetada nas paredes de tijolos. Estava inclinada para a frente, apressando-me adiante como se tivesse uma existência própria. E então, mais uma vez, ele estava andando ao meu lado. Nada me disse, mas me acompanhou passo a passo. — Eu mantive a minha promessa — anunciou por fim naquela voz clara e melodiosa que eu viera a conhecer tão bem. — Veja, sempre estarei mais perto de você do que você é capaz de imaginar. — Ele se deteve, e esperou enquanto eu dava mais alguns passos na rua. Quando me voltei, ele tinha se ido.

***
Quando cheguei na Jermyn Street, fiquei surpreso de encontrar Polidori em meu escritório. — Peço desculpas, Victor. Eu entrei neste cômodo por puro acaso. Estava com vontade de perambular. — Ele parecia incomodado. — Você pode entrar onde quiser. Eu não tenho segredos. — De verdade? — Ele me olhou desconfiado, e não sem um traço de malícia. — Por que eu mentiria para você? — Você é profundo, Victor. Muito profundo. Não acho que alguma vez alcançarei as suas profundezas. — Nunca haverá razão para tentar. — Eu com certeza sei que você sofre de um medo nervoso. — Ah, eu sofro de muitas coisas. — Limpei a garganta. — Admito que há momentos em que sinto medo. — Você está com medo agora? — De quê? — De mim. — Qual é a sua razão para dizer algo assim? — Você suspeita de mim por alguma razão. — Suspeito? — Você me diz que não tem segredos. Mas você tem medo de que eu os descubra. — Ele riu, mas estava me olhando firmemente. — Alguma vez você fez alguma coisa má, Victor? Só para provar que era capaz de fazê-lo? — Byron me fez exatamente a mesma pergunta. — Ele é obcecado pela ideia. Ele me contou a história de certo Monro, um clérigo nas ordens sagradas. Ele a contou para você?
— Não. — Foi há alguns anos. Antes de você e eu termos chegado aqui. O clérigo tinha perdido totalmente a sua fé. Ele declarou em seu coração que Deus não existia. No entanto, ele ainda tomava parte dos serviços, dava o vinho e a hóstia a seus paroquianos, fazia sermões do púlpito sobre o Julgamento Final e a salvação. — Um hipócrita dos mais rematados. — Ele sabia disso. E se recriminava com amargura. Chorava. Cortava-se com facas. Tudo isso ele confessou depois. Ele tinha um grande desejo de se libertar de seus tormentos. Mas como poderia se libertar? Aos poucos concebeu um plano... não, deve ter acontecido num só instante. Ocorreu-lhe um ato da mais extrema falta de razão. — Prossiga. — Se ele cometesse um crime de diabólica maldade, sem motivo, seria capaz de se redimir. Digamos que fosse matar uma criança, por exemplo. Ele não teria prazer nisso; iria escolher uma ao acaso, e então sufocá-la. Assim, ele estaria livre de Deus. E se tivesse prazer no ato? Ele se tornaria, foi como disse a si mesmo, um deus. Não haveria força no universo maior do que ele mesmo. Não haveria consequências para a sua ação: nenhuma punição, nenhuma vergonha, nenhuma culpa, nenhum inferno. Ele teria ido além dos portões do bem e do mal. Provaria que tudo era permitido. Isso foi o que ele disse para si mesmo. — E ele cometeu o crime que concebeu? — Assassinou uma velha. Conforme o seu depoimento, ele a escolheu em meio à multidão em um fim de tarde, quando o crepúsculo chegava, e a seguiu até a casa dela. Tinha tirado seus trajes clericais, e usava um casaco e calças comuns. Ela morava sozinha numa casinha logo depois de Hammersmith. Foi lá que ele a matou. Esfaqueou-a repetidamente com uma faca que pegou na própria cozinha dela, e então escapou protegido pela escuridão. O crime foi amplamente noticiado, mas não se conseguiu descobrir o assassino. O clérigo, enquanto isso, continuou a sua vida normal na igreja. Mas ele estava exultante. Conduzia o serviço divino com grande fervor, e pregava com mais eloquência do que nunca. Tinha encontrado a sua salvação num único ato irracional. — Mas então, como ele foi pego? — Essa é a parte curiosa. Ele não sentia remorso algum. Não sentia culpa alguma. Nem mesmo vergonha. Ao contrário, sentia-se orgulhoso. De modo que, com as semanas se passando, ele sentiu um desejo avassalador de contar o seu crime. Queria anunciar a parte que tivera nele. Queria colocá-lo em palavras. Ele tentou se conter. Mas o desejo de falar, de exprimir o capítulo final, por assim dizer, provou-se avassalador. Numa manhã de domingo, em sua igreja, ele subiu ao púlpito e divulgou o seu feito para os fiéis. Ele tirou a faca das dobras de sua batina. — E então? — Ele foi preso e interrogado. Foi apresentado à Comissão de Insanidade. Agora está no asilo para insanos St. Luke. A história me impressionou de uma maneira estranha. Eu pedi licença e me retirei para a minha cama, mas não consegui dormir. Fiquei tomado de um súbito medo que baniu qualquer esperança de repouso: e se eu sentisse uma necessidade avassaladora de falar e confessar? Foi exatamente ao ter esse pensamento que plantei a semente. Sim. É claro que eu queria divulgar todos os horrores pelos quais eu era responsável. Livrar-me do fardo de ter dado vida àquela criatura. Mas terei eu sentido dentro de mim o triunfo em vez da culpa? Disso eu não tinha certeza. Creio que ardi com uma febre súbita, e, quando por fim dormi, meus sonhos foram aterradores.

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Acordei tarde na manhã seguinte. Eu ouvi Polidori conversando com Fred na cozinha, e me pus a escutar com mais atenção. Polidori estava perguntando a ele sobre a rotina habitual de meus dias — minhas refeições, meus horários e assim por diante —, e tive a sensação de que Fred estava relutando em lhe responder. Toquei o meu sino e esperei. — Sim, senhor? — Fred abriu a porta e pôs a cabeça. — O de sempre — falei. Ele me trouxe chá, e começou a preparar o sabão e a lâmina de barbear. — Você estava fazendo sala para o nosso hóspede, Fred. Sobre o que conversavam? — Nada, senhor. — Nada pode ficar no nada. — Perdão, senhor? — Diga o que está na sua cabeça. — Ele diz que está preocupado com o senhor. Médicos, ele diz, estão sempre preocupados com os outros. Então ele diz alguma coisa sobre equações. De equações eu nada entendo, e eu disse isso a ele. — E o que mais você disse a ele? — Eu nada disse que fosse uma mentira, Sr. Frankenstein. Mas também nada disse que fosse uma verdade. — Você fez bem, Fred. A partir de agora, vigie o Dr. Polidori quando eu não estiver em casa.

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Eu me vesti e fui a pé até Covent Garden. Era o dia que os londrinos chamam de “Festa da Chaminé”, e, para a minha inquietação, vi um bando de meninos escaladores do outro lado da Piazza. Era uma visão esquisita. Suas roupas eram trapos, tão pretas e cheias de fuligem que indicavam a profissão deles no ato: poderiam ter acabado de sair de uma chaminé, exceto por estarem usando fitas brancas, amarradas em seus braços e pernas. Havia um enfeite prateado no cabelo deles, e seus rostos estavam pintados. Quando me aproximei, pude ver pedaços de papel prateado e dourado grudados em suas roupas e rostos sujos; era no todo um espetáculo dos mais desoladores. Então, ao som de tambores, os meninos começaram a sua marcha. Eles acenavam com suas ferramentas de escalar, seus bastões e escovas no ar acima de suas cabeças; cantavam alguma canção horrível, cheia de imprecações e execrações, da qual os espectadores riam. Então vi Polidori, bem junto ao pórtico da igreja ali. Ele estava olhando em volta com grande atenção, e soube no mesmo instante que estava me procurando. Ele estivera me seguindo. Virei na primeira esquina e fiz sinal para um coche, para me levar a Limehouse.

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Já era bem depois da meia-noite quando voltei à Jermyn Street. Chamei Fred, mas não houve resposta. Fui até a janela e olhei a rua escura lá embaixo; por um momento achei que havia algum movimento em meio às sombras, mas então a sensação passou, e assim fui para a cama. Ao acordar na manhã seguinte, notei que minhas roupas não tinham sido arrumadas. Levantei-me imediatamente e saí do meu quarto; a porta da cozinha estava aberta, mas não havia sinal de Fred. Ele nunca faltara ao serviço antes, e não me ocorria nada que pudesse tê-lo detido pela noite toda. Vesti-me e saí na rua, sem ter um plano definido de ação, e caminhei até Picadilly. Havia uma barraca de café lá, na esquina da Swallow Street, da qual eu sabia que Fred era freguês. — Você viu o meu criado? Fred Shoeberry? — perguntei à garota que servia café em canecos de lata. — Fred? O do cabelo ondulado com um dente faltando? — Ele mesmo. — Eu não o vejo desde ontem de manhã, senhor, quando ele comentou sobre o estado do tempo. Estava bem ruim. Segui adiante, levado tanto pela multidão quanto pela minha própria vontade. Claro, eu não tinha a menor chance de encontrá-lo. Londres pode ser uma selva para alguém que procura um rosto em particular. E, embora eu soubesse que Fred era experiente em todos os costumes da cidade, eu também sabia o quanto era fácil para um menino desaparecer completamente como se arrancado das ruas para o esquecimento. Creio que muitos eram forçados a se tornarem marinheiros conscritos; quanto ao destino dos demais, não tinha a menor ideia. É claro que eu temia que a criatura poderia tê-lo pego; mas em nosso último encontro ele tinha demonstrado tamanha vergonha e arrependimento, tinha tão decididamente renunciado a qualquer violência a mais, que descartei tal especulação. Que possível motivo teria para perpetrar um ato assim, quando estava ansiosamente antecipando o fim de sua vida na Terra? Voltei desanimado à Jermyn Street. Muitos teriam tratado a súbita partida de um criado sem grandes emoções, mas não tinha percebido o quanto me afeiçoara a Fred. E então lembrei da Sra. Shoeberry. Era possível que ela estivesse doente, ou enferma, e que Fred tivesse sido obrigado a ficar com ela. Eu sabia por ele que ela morava num dos becos que saíam da Drury Lane, na parte alta da rua, e fui até lá a pé. Todo mundo conhecia a Sra. Shoeberry naquele local, e me informaram que eu devia ir aos cômodos de aluguel em Short’s Rents, onde me asseguraram que ela estaria “enxaguando”. Havia outra lavadeira no chafariz, com sabão e pedra-pomes, e supus que a água corria mais abundante ali. Perguntei a ela onde a Sra. Shoeberry morava, e ela apontou para uma janela aberta no segundo andar. — Ela — respondeu, enfatizando a palavra — está lá dentro. Subi a escada, não tão limpa quanto deveria estar, e encontrei o apartamento da Sra. Shoeberry. A porta estava entreaberta, e eu já estava sentindo o odor acre dos serviços de lavanderia em Londres. Bati na porta e a abri, mas não vi nenhum sinal da própria lavadeira. Lençóis e roupas brancas estavam pendurados em profusão por todo o cômodo. — Quem é? — a voz da Sra. Shoeberry veio detrás de um lençol. — Victor Frankenstein. — Ora, Sr. Frankenstein. Com licença. — Ela apareceu, segurando um feixe de pregadores e uma calandra. — O que o Fred aprontou agora?
— Ele não aprontou nada, Sra. Shoeberry. Tinha a esperança de encontrá-lo aqui. — Ele não esteve aqui, Sr. Frankenstein. Ele só vem aos domingos, quando preciso dele para um levantamento. — Não fazia ideia do que ela queria dizer. — Ele se foi, então? — Não o vejo desde ontem à noite. Ela considerou a questão por um instante. — Isso não é coisa do Fred. — Eu sei. Ela me olhou com firmeza. — Ele se meteu em alguma encrenca, Sr. Frankenstein? — Não que eu saiba. — Deve ter alguma coisa na cabeça dele. Conheço aquele menino. Quando o finado Sr. Shoeberry faleceu, Fred se escondeu por dois dias. Disse que andou dormindo nos barcos. Ele nunca mencionou isso de novo. Ele é sério, aquele menino. — Ela foi para trás dos lençóis, de onde veio o som de um espirro enorme. Depois de alguns momentos, ela se recuperou. — Não se preocupe com isso, Sr. Frankenstein. Ele vai voltar até o domingo. Ele não vai me deixar sozinha no levantamento. Eu parti alguns minutos depois, tendo dado a ela um florim por seu “problema”, e voltei à Jermyn Street. Eu ficara de certa forma tranquilizado pela confiança dela de que Fred retornaria até domingo, de modo que voltei a me dedicar a meus experimentos. Fui à oficina todos os dias, onde refinei o mecanismo galvânico de acordo com as minhas pesquisas adicionais; o problema da inversão ainda era um que me extenuava, e me levou a mil diferentes variações nas baterias e máquinas. Eu tinha confiança de que chegaria a uma solução, todavia, e não esmoreci em meus esforços.

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Fred não voltou até domingo. A Sra. Shoeberry veio à Jermyn Street num estado de consternação, e me perguntou se devíamos alertar os guardas da paróquia. Eu não punha muita fé nos policiais, ou em sua patrulha, mas concordei em ir com ela até o ofício deles na St. James Street. Claro, não tinha havido nenhum informe de um menino desaparecido, mas ela sentiu que de alguma forma tinha cumprido o seu dever. No entanto, ela não estava num estado mental confortável. Temia alguma coisa. Perguntou-me se eu queria que algum dos seus outros filhos substituísse Fred, mas eu declinei da oferta. Com o passar dos dias, eu estava tão concentrado em meu trabalho que pouca atenção
prestei às circunstâncias externas. Polidori continuou hospedado em meus aposentos, e com frequência me perguntava sobre o estado de minhas pesquisas. Eu não podia, como um cavalheiro, pedir a ele que partisse. Nunca mencionei sua súbita aparição na “Festa da Chaminé”, mas tomei o cuidado de nada revelar a ele. Ficávamos, em decorrência disso tudo, pouco à vontade na companhia um do outro. Duas semanas após o desaparecimento de Fred, recebi uma carta de Mary Shelley, informando que a família (na qual ela incluía Lorde Byron) partira da Suíça indo para o sul em Pisa, onde tinham achado acomodações no Lungarno.
São suficientemente cômodas, e pagamos apenas 13 sequins por mês. Temos um excelente mezanino, e três quartos no quarto andar. Daqui temos vista dos pores do sol, que Shelley considera incomparáveis. Lorde Byron instalou sua residência numa casa muito mais imponente, mas ele se digna a jantar conosco todas as noites. Ele está no momento lendo para Shelley algum trecho de um poema que compôs recentemente. Eu não estou ouvindo as palavras. Ele quer nos mudar a todos para o golfo de Spezia, mas a perspectiva de mais uma viagem me desconsola.
Quando li isso para Polidori, ele fez uma careta. — O homem é um demente — comentou. — Ele é capaz de levar um santo à loucura. Ele tem um demônio dentro de si que não deixa ele e ninguém ao seu redor em paz. — Mas espere. Você não leu o pós-escrito de Mary. Ela deve tê-lo escrito alguns dias depois. — Eu li para ele a desolada mensagem com a qual ela terminava a carta:
Nós agora nos mudamos para uma casa construída na costa em Lerici. É conhecida como a Casa Magni, e, embora seja de fato grande, mal merece ser chamada de casa. É mais como uma fortaleza assediada pelo mar e pelos ventos marinhos. Há uma trilha rústica que nos leva à pequena aldeia de San Terenzo, onde só podemos comprar as provisões mais rudimentares. E só há uma chaminé para cozinhar! Não há jardim, e os fundos da casa dão para um mato cerrado. É o lugar mais lúgubre que se possa imaginar, e só a vista do mar melhora o meu ânimo. Ah, como eu queria estar em Londres agora!
Coloquei a carta na mesa. — Ela está cansada de viajar. — Ela está cansada de Byron, também, eu suponho — disse Polidori.

***
Então, duas semanas depois, recebi outra carta. Reconheci a letra no envelope como sendo de Mary, mas estava tão contorcida e tensa que eu soube que continha notícias terríveis:
Há algo que eu não consigo dizer. E mal posso expressar em palavras. Shelley está morto. Ele se afogou no mar. Ele morreu com um companheiro, num barco que ainda não foi encontrado. Eles zarparam de Livorno para o golfo de Spezia, onde segundo todos os relatos foram surpreendidos por uma súbita tempestade de verão.
A carta dela se interrompia neste ponto, mas depois, em algum momento posterior, ela a retomou numa outra folha.
Ontem ele foi encontrado. Fora levado à costa perto da foz do rio Serchio, a 2 quilômetros daqui. Lorde Byron reconheceu formalmente o corpo. Eu não poderia fazer isso. Bysshe estava usando o paletó de lapela dupla e a calça de nanquim que comprara em Genebra. Você lembra dela? Os policiais aqui exigiram que ele fosse enterrado onde foi encontrado, com a sua sepultura sendo preenchida com cal viva, mas Byron e eu nos revoltamos contra esse procedimento tão grosseiro. Ao menos dessa vez fiquei grata por Byron ter assumido os modos e a autoridade de um lorde. Recebemos a permissão de cremar o pobre Bysshe à beira-mar. Dois criados da casa, junto com Byron, construíram uma pira funerária na praia. Era um dia de um sol brilhante. Como eu gostaria que você tivesse estado comigo, Victor, durante esse rito final. Colocamos Bysshe nas chamas, e Byron despejou vinho, sal e incenso na conflagração. Eu não consegui olhar, mas Byron enfiou a mão no fogo e pegou o coração de Shelley ainda intacto. Ele pretende enterrar as cinzas no cemitério protestante de Roma, mas eu não consigo suportar nem mais um momento neste país. Preciso partir. E há um fim para tudo, exceto o desespero.

***
A morte de meu companheiro me afetou tão completamente que por dois dias eu perdi toda a sensação de estar vivo. Não sei como me comportei, ou aonde fui; acordava em lençóis sujos e, tanto quanto saiba, nada comi. Creio que Polidori me evitou, em respeito ao meu luto, mas na terceira manhã ele bateu na porta de meu escritório.
— Mary estará de volta na semana que vem — anunciou. — Aqui está um bilhete de Byron. O iminente retorno de Mary despertou-me de meu estupor. Por alguma razão inexplicável para mim mesmo, desejei destruir a criatura antes que ela chegasse à Inglaterra: não me permiti supor que houvesse alguma ameaça real a ela, como tinha havido para Harriet e Martha, mas queria estar livre desse fardo impuro antes de ver Mary de novo. Eu desejava protegê-la em seu luto — e talvez consolá-la. Como eu poderia desempenhar tal tarefa com a criatura ainda viva? Eu tinha em todo caso chegado ao ápice de meus experimentos, em que o sucesso me parecia garantido. Pelo uso de cabos condutores, e uma série de placas de metal posicionadas em graus e níveis variáveis de inclinação, por fim, eu tinha conseguido alterar a direção e a força do fluido elétrico. Eu tentara o experimento com um cachorro vira-lata, tranquilizado com éter, e ele tinha imediatamente expirado sob a descarga. Por uma soma extravagante eu havia agora comprado um macaco do Norte da África de um marinheiro em Wapping; não podia testar a minha teoria em meus semelhantes, e acreditava que o macaco era o mais próximo de nossa espécie para os propósitos da experiência. Eu o tranquilizei com éter, como antes, e, depois de prendê-lo à mesa com correias de couro, eu o submeti à carga elétrica. Ele entrou em convulsões graves, com muitos espasmos e contorções, e expirou após 16 segundos. Então apliquei a carga de novo; enquanto observava, o corpo começou a se decompor, a pele se enrugando, a carne se dissolvendo. O fedor foi terrível, mas eu estava determinado a ir até o fim do experimento. Administrei mais um choque, e não demorou para o corpo se reduzir a um esqueleto; e então os próprios ossos começaram a se fragmentar até se desfazerem em pó. Eu tinha sido bem-sucedido.

Vinte e dois

Parti de Limehouse num estado de exaltação. Eu tinha certeza de que a minha longa servidão à criatura estava agora no fim. Andei até a via principal, passando pelas ruas menores onde aqueles em busca de vistas e sensações estranhas sempre podem ser encontrados. Caminhava em perfeita segurança. Dobrei uma esquina e, dando um rápido relance à direita, vi Polidori. Ele estava parado nas sombras, mas perfeitamente reconhecível para mim. Em meu ânimo de triunfo, decidi entrar no jogo da perseguição dele. Fiquei parado na rua, dando a ele tempo de sobra para me notar. Então saí andando a passos rápidos na direção de Ratcliff e Whitechapel, e tracei meu caminho através das ruas estreitas daquele bairro. Julguei estar ouvindo passos atrás de mim, de modo que entrei numa travessa e aguardei. Quando Polidori passou por mim, avancei e peguei-o pelo braço. — Boa noite — cumprimentei. — Vejo que frequentamos o mesmo bairro. Ele se voltou para mim e ficou imóvel. — Talvez estarei atrás de aventuras? — Não. Você está atrás de mim. Ele ficou em silêncio por um instante. — Você me interessa, Victor. Eu admito. Você tem uma compreensão bem mais vasta que o mero... — Então você examinou os meus papéis, como eu suspeitava. Não é verdade? — Eu não me importava mais em esconder o que fosse. — O que você viu? — Coisas maravilhosas. Mas não consegui encontrar a chave. — E eu a detenho. É por isso que você está me seguindo. Ele tinha recobrado o autocontrole. — Eu disse a você que queria saber os seus segredos. Creio que você está conduzindo, realizando, como devo dizer, algo fora do comum? Ele me encontrara no momento apropriado. Meu entusiasmo e a minha sensação de realização eram tamanhos que eu poderia declará-la aos brados na rua. — É um caso estranho o meu — falei. — Eu sabia disso. — Você não vai acreditar em mim. — Há convicção em seu rosto. É o bastante para mim. — Não convicção. Mas triunfo. Não podemos falar aqui. — Eu devia estar transpirando abundantemente, pois minhas roupas estavam úmidas. Fiz sinal para um coche e fomos para a Jermyn Street. Sentamos em meu escritório. Eu mal podia esperar para contar a história de meu sucesso. — É um caso estranho o meu. Não acho que alguma vez coisa mais estranha tenha acontecido. Creio que seja única. — Você está falando sério, Frankenstein? — Ouso dizer que você irá rir de mim. — De forma alguma. Eu quero compreendê-lo. — Ah, então você precisa voltar muito para trás. — Contei a ele a história completa de meus experimentos. Durante o longo relato, ele nada disse. Estava me observando da maneira mais insólita. — Posso lhe assegurar, Polidori, que o que eu lhe contei é verdadeiro e exato. Cada estágio do processo foi como eu descrevi. Quando fiz uma pausa, tendo contado a ele do primeiro despertar da criatura, ele se inclinou para a frente e sussurrou: — Então essa coisa viveu? É isso que você está me dizendo? — Ele pôs a mão na testa, num gesto de extremo aturdimento. Seus olhos estavam muito arregalados. Eu assenti. Então acrescentei, em voz baixa: — Ainda está viva. — Polidori olhou o quarto em volta com terror. — Não. Não aqui. Mora no estuário do rio. Longe de qualquer habitação humana. — Você o viu de novo? — Espere eu chegar ao fim de minha história. — Então contei a ele a história de Harriet Westbrook, e da condenação injusta de seu irmão pelo assassinato dela. Chorei durante a narrativa, pois na realidade eu fizera tudo o que pudera para suprimir isso de meus pensamentos. Relatei também o rapto e o assassinato da criada, Martha, junto ao rio em Marlow. Comecei a contar a ele a história das visitas subsequentes da criatura. — Ela me ameaçou — confessei — com tão terrível... — interrompi-me, tremendo. Polidori levantou-se da poltrona num movimento involuntário. — Isso é possível, Frankenstein? — De novo ele olhou o quarto em volta. — Como isso não foi apregoado pela imprensa? Como pode viver entre nós? Por que não foi caçado? — Deseja viver oculto e incógnito. Não quer ser caçado, como você colocou. Ele tem maneiras de se esconder da visão pública. — Você precisa de mais vinho — disse Polidori. Ele estava tão inteiramente com medo quanto eu, mas me serviu outro copo, que bebi de uma só vez. — Está mais calmo agora? — Sim, muito calmo. E você? — Calmo o bastante. — Depois de um tempo, a criatura parou de ameaçar, e começou a me implorar. Ele queria ser libertado de suas misérias. Acho que ele sentia vergonha, remorso, horror. Tudo isso. Às vezes acho que ele cometeu mais algum ato vil, e que isso oprimia a sua mente. Disso não posso ter certeza. Mas ele veio me pedir por seu fim. — Graças a Deus. — E eu posso conceder o seu desejo. — Descrevi a ele o experimento com o macaco do Norte da África não omitindo nada que fosse interessante, e então compartilhei com ele o meu plano de destruição da criatura. — Ele vai vir ter comigo agora. Eu sei disso. Ele tem uma estranha suscetibilidade a mim. Ele compreenderá que o momento chegou para a sua libertação. Amanhã eu o verei pela última vez. — Posso lhe sugerir, Frankenstein, que você me convide também? — Eu não acho que ele vá querer qualquer outra testemunha. — No entanto, no caso de um fracasso ou só um sucesso parcial... — Não haverá fracasso. — Você lembra da palavra secreta para o golem? Eu não lhe contei uma coisa. Precisa ser dita ao golem por um judeu. Caso contrário não prevalecerá. — Ele fez uma pausa. — Pertenço a essa fé. — Ah, estou compreendendo-o agora. Você quer dizer a palavra de anátema. Você irá pronunciar a maldição judaica contra ele. Não será necessário. — Permita-se a possibilidade, ao menos. — Se você assim deseja. Mas ele ficará perturbado com a sua presença. Eu sei disso. — Então esperarei em algum lugar, em segredo, por uma mensagem. — E como encontrarei um mensageiro? Não. Eu acredito que a criatura virá ter comigo no crepúsculo. O crepúsculo é a sua hora. Deixe-me a sós com ele por algumas horas. Ele pode querer fazer uma confissão final para mim, ou falar de outras coisas. Venha à meia noite.

***
Eu não consegui dormir. Estava exausto, mas em tal estado febril de expectativa que não tive como repousar. Eu era despertado assim que tentava, com uma nova imagem da criatura. Só perto do amanhecer cochilei um pouco, sendo acordado pelo som de Polidori descendo a escada e abrindo a porta para a rua. Levantei-me imediatamente, lavei-me e preparei-me para o que acreditava ser um dia conclusivo em minha vida terrível. Assim que cheguei a Limehouse, abri a porta que dava para o rio. Esperei por três ou quatro horas, olhando com expectativa para a água; no fim da tarde, fui até o pequeno cais e inalei o cheiro de lama e alcatrão que emanava da margem. Eu não estava impaciente. Eu sabia, mesmo quando me apressara a vir da Jermyn Street, que ele não viria até o crepúsculo. Lentamente o ar ficou mais escuro. Uma brisa leve agitava a água, fluindo constantemente com a maré subindo, e pude ver um bando de estorninhos voando para os pântanos do outro lado do rio. Havia uma leve luz no horizonte, com o sol se pondo em meio às nuvens. E então eu o vi movendo-se na água; ele se ergueu para fora da água ao se aproximar de mim, e então mergulhou de volta no rio. Virei-me e fui para a oficina; estava bastante calmo quando ele apareceu na porta. — Eu o estava esperando — anunciei. — Sabia que você viria. — Como eu poderia ficar longe, se a minha libertação está próxima? — Você sabe que os meus experimentos tiveram sucesso? Que a minha ambição se realizou? — Ele fez que sim. — Então. O que você quer que eu faça? — Você sabe o que quero. Morte. Esquecimento. Esquecimento e escuridão. — Eu posso lhe prometer essas coisas. Venha. Ele entrou sob a luz do lampião a óleo. Vestia um par de calças de lona, como as que os marinheiros usam, e um paletó marrom; estava com uma camisa, mas sem cachecol, e eu podia ver os pelos amarelos em seu peito. Ele estava descalço, também. Desconfiei que ele andara levando uma vida mais dura no estuário. — Você quer dizer alguma coisa antes? Há algo que queira me dizer? — Só que sofro por meus crimes. E desejo que esse sofrimento termine. — Você se arrepende? — Certamente não é você que deveria se arrepender? Eu não pedi para vir a este mundo. Não quis me levantar de novo nesta forma. Serei eu monstruoso? Ou é você monstruoso? O mundo é monstruoso? — Ele ficou parado na luz tremeluzente, numa infelicidade em que eu jamais o vira, e pareceu estar examinando o equipamento elétrico. — Devo me deitar aqui? Foi aqui que nasci, não foi? — Se puder tirar as roupas. — Senão elas poderão se queimar? — É possível. Sim. E então tome o seu lugar na mesa, com a cabeça para este lado. — Ele se despiu e se deitou na posição que eu indiquei. Eu prendi seus pulsos e tornozelos com as correias de couro. Dele vinha o cheiro de lama e maresia. — O cheiro dos pântanos — falou como se tivesse adivinhado meus pensamentos. — Eu ficarei bem imóvel. Você não precisa apertar muito as correias. Quando ele estava preparado, coloquei os terminais elétricos em suas têmporas e na base de sua espinha. Olhei para ele, para assegurar-lhe que tudo estava pronto. Ele fechou os olhos e suspirou. Quando liberei o fluido elétrico, seu corpo inteiro sacudiu-se violentamente, e então arqueou-se para cima, rompendo uma das correias nos pulsos; ele pareceu que ia gritar, mas o som que veio dele foi o de uma tosse rouca. Pó saiu de sua boca. Então seu corpo ficou imóvel. Para o meu horror ele abriu os olhos. Não conseguiu falar, mas me tocou com a mão livre. Recuei bruscamente, com o conhecimento de que ele não tinha sido destruído. — Nem tudo está perdido — disse. Percebi que podia me compreender. Ele fez que sim. — Vou aumentar o nível do fluido. Está preparado para isso? — Ele fechou os olhos assentindo. A segunda tentativa foi pavorosa. De novo seu corpo tremeu e se convulsionou; houve um chamuscamento em sua perna esquerda, e o cheiro de carne queimada tomou a sala. Ele pareceu ficar inconsciente, com uma respiração pesada e estertorosa. Mas ainda não estava morto. Sem pedir sua permissão, tentei uma terceira vez; de novo sua carne foi chamuscada, mas todos os sinais vitais permaneciam. Eu nada mais podia fazer. Soltei as correias que o prendiam sem verificar se ele iria se levantar. Sentei numa cadeira voltada para a janela que dava para o rio. Estava totalmente exaurido e derrotado. Eu fracassara em destruí-lo: essa coisa, esse fardo, ainda pesava sobre a minha vida. Depois de um tempo, ele se juntou a mim, sentando na cadeira ao lado da minha; eu podia sentir o cheiro de sua carne queimada, mas não senti desgosto ou desdém. Era eu, afinal, quem tinha sido o responsável. Ele tentou falar. Sua voz não era mais melodiosa como no passado, mas um murmúrio baixo. — Eu não posso morrer — falou. — Ficarei no mundo até o fim dos tempos. É assim? — Eu não sei. — Você sabe. — Não tenho coragem para pensar no futuro.
— Ainda assim, o que faremos? A minha carne logo ficará curada. Isso não foi nada. No entanto, a minha mente e meu espírito jamais se curarão. — Iremos compartilhar essa sina então. Ele ficou ali sentado, balançando para a frente e para trás. — Faça parar — pediu. — Faça parar. Eu baixei a minha cabeça, também. Não sei quanto tempo ficamos ali, lado a lado, mas por fim fomos despertados pelo som de passos. Era Polidori que tinha vindo pela margem do rio, e estava passando pelo cais. Ele veio até a porta da oficina e se deteve na soleira. Havia uma expressão de perplexidade em sua face. — Agora você está vendo a minha obra — falei. Ele entrou, segurando um lampião, e parou na nossa frente. — Contemple a criatura. Foi isso o que eu criei. — Onde? — Aqui. Na sua frente. — Não há ninguém aqui — protestou. — Você perdeu a razão? Olhe aqui. Ao meu lado. Aqui está ele, sentado. — Não há nada ao seu lado a não ser uma cadeira vazia. — Nada? Eu não acredito em você. Eu sei que você está mentindo. — Por que eu mentiria, Victor? — Para me enganar. Para me trair. Para me enraivecer. — Não há nada aqui. Ninguém está com você. Não há criatura. — Ele andou até os equipamentos elétricos. — Isso é muito triste, Victor. — O que você está dizendo? Diga-me uma coisa, então. Diga-me quem matou Harriet e Martha. Ele olhou atentamente para mim. — Eu não sei quem as matou. — Aí está. Você não tem uma resposta. — Você está vivendo em sua imaginação, Victor. Você sonhou isso tudo. Inventou tudo. — Como assim? — Talvez você quisesse rivalizar com Bysshe. Ou Byron. Você tinha anseios pelo sublime e pelo poder. — Basta. Você está me deixando sem esperanças. — E que mal você pode ter feito! — Ele fez uma pausa. — O que aconteceu com Fred? — Quem é Fred? — indagou a criatura num sussurro.
Eu não sabia como responder. Como eu poderia explicar o desaparecimento do menino que me amara? Como eu poderia dizer que o corpo dele seria encontrado no poço de cal na margem do rio? Polidori olhou para mim e então me perguntou: — Você destruiu Fred também? — Eu disse basta! Eu o ataquei. Investi contra ele e o destruí. Não, eu não. A criatura despedaçou-o com as mãos nuas. Então nós saímos, a criatura e eu, para o mundo, onde fomos presos pelos guardas.
Entregue a mim pelo paciente Victor Frankenstein, quarta-feira, 15 de novembro de 1822. Assinado por Fredrick Newman, Superintendente do Asilo Mental para Incuráveis de Hoxton.

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