de Naboo e ouvia pacientemente, enquanto o governador Sio Bibble protestava contra a
presença da Federação de Comércio. Rune Haako estava a seu lado. Ambos vestiam suas
roupas oficiais e mantinham uma expressão impenetrável. Duas dúzias de guerreiros
dróides mantinham os ocupantes da sala sob a mira de uma arma.
A cidade havia sido tomada logo após o amanhecer. Houve pouca resistência; os Naboo
eram um povo pacífico. A invasão da Federação de Comércio foi uma surpresa, e o
exército de dróides entrou pelos portões da cidade antes que qualquer defesa substancial
houvesse sido montada.
As poucas armas que haviam foram confiscadas e os Naboo enviados para campos de
detenção. Guerreiros dróides ainda varriam a cidade para erradicar quaisquer sinais de
resistência. Gunray prendeu um sorriso. Aparentemente, a rainha acreditou desde o início
que negociações prevaleceriam e que o Senado daria proteção ao povo de Naboo.
–Já é demais, vice-rei, que você tenha ousado interromper as transmissões entre a
rainha e o senador Palpatine enquanto ele está tentando discutir nossa causa ante o
Senado da República; é demais que você tenha fingido que este bloqueio é uma ação
legal; mas aterrissar um exército em nosso planeta e ocupar nossas cidades é tão
abominável que não pode ser traduzido em palavras.
Sio Bibble era um homem alto, calvo com uma barba afiada e uma língua mais ainda. Nute
estava ficando cansado de ouvi-lo. Ele lançou um olhar para os outros prisioneiros. Capitão
Panaka, o chefe da segurança da rainha e quatro dos guardas pessoais da rainha,
desarmados e indefesos. Panaka tinha uma expressão de pedra e olhos fixos enquanto
observava os
Neimoidians. Ele era um homem grande, de constituição física poderosa, rosto suave e
olhos rápidos. O Neimoidian não gostou da maneira como aqueles olhos o fitavam.
A rainha estava sentada em seu trono, cercada por suas aias. Ela estava serena e distante
de tudo, como se o que estava acontecendo não a afetasse, como se nada pudesse tocá-
la. Ela vestia preto, seu rosto pintado de branco contrastava fortemente com o chapéu de
penas pretas que o emoldurava. Uma corrente de ouro pendia em sua testa real e uma
marca cosmética vermelha dividia seu lábio inferior.
Ela era considerada bonita, Gunray ouviu dizer, mas ele não tinha noção de beleza humana
e para os padrões Neimoidians ela parecia pequena e sem cor.
O que o interessava era a juventude dela. Ela mal tinha saído da infância, certamente
ainda não era uma mulher feita e, ainda assim, foi escolhida pelo povo de Naboo para ser
sua rainha. Essa não era uma daquelas monarquias onde o sangue determinava direito de
governar e onde dinastias dominavam. O povo Naboo escolheu a mais inteligente entre
eles como rainha e Amidala reinava com a permissão do povo.
Porque eles escolheriam alguém tão jovem e ingênuo ainda era um mistério para ele.
Deste ponto de vista isso não os havia ajudado neste caso.
A voz do governador Sio Bibble ecoou através da câmara fechada, erguendo-se até o teta,
indo de encontro às paredes iluminadas pelo sol. Theed era uma cidade próspera e
opulenta e a sala do trono refletia essa história de sucesso.
–Vice-rei, eu pergunto definitivamente. — Sio Bibble concluía seu discurso. — Como
pretende explicar esta invasão ao Senado?
A fisionomia de réptil expressou um toque de humor. — Os Naboo e a Federação de
Comércio irão forjar um documento que legitima nossa ocupação de Theed. Já fui
assegurado de que esse tratado, uma vez realizado, será rapidamente assinado pelo
Senado.
–Um tratado? — O governador exclamou incrédulo. — Após essa ação totalmente
ilegal?
Amidala se levantou do trono e deu um passo à frente, cercada por suas aias
encapuzadas. Os olhos dela faiscavam de raiva. — Eu não vou cooperar.
Nute Gunray trocou um rápido olhar com Rune Haako. — Agora Vossa Majestade — ele
ronronou — não seja tão apressada em seus pronunciamentos. Não vai gostar do que
temos guardado para seu povo. Com o tempo, o sofrimento deles fará com que Vossa
Majestade passe a compartilhar de nosso ponto de vista.
Ele se afastou. — Chega de conversa. — Ele fez um sinal. — Comandante? — O guerreiro
dróide OOM-9 deu um passo à frente com seu nariz metálico comprido baixando
vagarosamente em resposta. — Processe-os — ordenou o vice-rei.
OOM-9 deu um sinal para um de seus sargentos assumir, sua voz metálica orientava que
os prisioneiros deveriam ser levados para o Campo Quatro. Os guerreiros dróides
retiraram a rainha, suas aias, o governador Bibble, o capitão Panaka, e os guardas Naboo
da sala.
Os olhos laranja avermelhados seguiram o grupo que saía, então, se viraram para Haako e
para a sala. Ele sentiu uma profunda sensação de satisfação se apossar dele. Tudo estava
saindo conforme o planejado.
O sargento e doze guerreiros dróides levaram os prisioneiros pelos corredores de pedra
polida do palácio de Theed e para fora do palácio, onde uma série de escadas, que desciam
em meio a vigas e esculturas, levava a uma praça ampla. A praça estava tomada por
tanques e dróides da Federação e não havia cidadãos de Naboo. Os tanques eram veículos
baixos e curtos, com narizes em forma de pá com seus canhões principais acoplados em
uma pequena torre localizada acima. Eles pareciam abelhas devastadoras, enquanto
circulavam no perímetro da praça.
Mais além, as construções de Theed se alinhavam numa vasta e desorganizada seqüência
de muros de pedra, cúpulas vistosas, torres pontiagudas e arcos esculpidos. A luz do sol
banhava os edifícios com sua arquitetura contrastando com o verde exuberante do planeta.
O ímpeto das cachoeiras e o murmúrio das fontes formavam um distante som de fundo
ao estranho silêncio criado pela ausência da população.
Os prisioneiros foram levados através da praça, passando pelas máquinas de guerra da
Federação. Ninguém falava. Até o governador Bibble estava em silêncio com seu rosto de
barba grisalha baixo em contemplação sombria. Eles deixaram a praça e chegaram a uma
avenida larga que levava aos subúrbios da cidade e aos recém-construídos centros de
detenção da Federação. STAPs sobrevoavam a cidade, suas sombras refletindo nas paredes
dos prédios, suas superfícies metálicas brilhando enquanto se afastavam.
Os dróides haviam acabado de desviar seus prisioneiros para uma travessia tranqüila
quando o sargento, que estava liderando o grupo, fê-los parar de forma abrupta. Dois
homens estavam bloqueando o caminho, ambos vestidos em robes folgados sobre túnicas,
o mais alto com seu cabelo longo, e o mais baixo com seu cabelo curto e uma trança fina.
Os braços estavam soltos ao lado do corpo, mas eles não pareciam homens
despreparados.
Por um momento, os dois grupos se entreolharam em silêncio. Então a face estreita de
um Gungan surgiu atrás das duas figuras em robes, seus olhos arregalados e a expressão
assustada. Qui-Gon deu um passo à frente. — Você é a rainha Amidala, de Naboo? —
perguntou à jovem mulher com um chapéu de penas.
A rainha hesitou. — Quem são vocês?
–Embaixadores do chanceler supremo. — O Mestre Jedi inclinou a cabeça levemente.
— Buscamos uma audiência com Sua Majestade.
O sargento dróide subitamente lembrou de onde estava e do que estava fazendo. Ele
gesticulou para seus soldados. — Tirem- nos do caminho!
Quatro dos dróides se moveram obedecendo. Eles já estavam colocando suas armas em
posição de fogo quando os Jedi ativaram seus sabres de luz e os partiram. Enquanto os
dróides destruídos caíam, os Jedi se moveram rapidamente para acabar com os outros.
Raios lasers eram bloqueados, armas eram inutilizadas, e os dróides restantes foram
reduzidos a pedaços de metal.
O sargento se voltou para escapar, mas Qui-Gon levantou a mão, segurando o dróide com
o poder da Força. Em segundos o sargento jazia num monte junto a seu comando.
Rapidamente, os soldados Naboo pegaram as armas caídas. Os Cavaleiros Jedi desligaram
os sabres de luz e conduziram o grupo para a rua e para o abrigo de um aliado entre dois
prédios. Jar Jar Binks seguia, maravilhado com a eficiência com que os Jedi se livraram de
seus inimigos.
Qui-Gon olhou para a rainha. — Alteza, eu sou Qui-Gon Jinn e meu companheiro é Obi-Wan
Kenobi. Somos Cavaleiros Jedi assim como embaixadores do chanceler supremo.
–Suas negociações parecem ter falhado, embaixador — Sio Bibble observou
bufando.
–As negociações nunca ocorreram. — Qui-Gon manteve seu olhar fixo na
rainha. Sua face pintada não demonstrava expressão.
–Sua Alteza — ele continuou — nós temos que fazer contato com a República.
–Não podemos — disse o capitão Tanaka, dando um passo a frente. — Eles
fecharam todas as nossas comunicações.
Um alarme soou vindo de algum lugar próximo, e se ouviu uma correria. Qui-Gon olhou na
dicção da rua, onde os guerreiros dróides estavam caídos. — Vocês têm transportes?
O capitão Naboo assentiu, rápido em perceber o que o Jedi pretendia. — No hangar
principal, por aqui.
Ele levou o grupo até o final da ruela onde ficava o abrigo aliado, onde atravessaram
outras passagens e ruas secundárias, não encontrando ninguém. Eles se moveram rápida e
silenciosamente em meio ao ruído crescente dos alarmes e dos STAPs. A seu beneficio, os
Naboo não discutiram a liderança de Qui-Gon ou sua presença ali. Com Panaka e seus
homens recentemente armados, a rainha Naboo e seus companheiros tinham uma
sensação de estarem no controle de seu próprio destino e se sentiam mais que prontos a
se arriscar junto a seus salvadores.
Não levou muito tempo para que chegassem ao destino. Uma série de edifícios interligados
dominava um lado de uma calçada larga, cada um abobadado e lembrando cavernas, com
entradas em forma de arco e saídas apertadas. Guerreiros dróides estavam posicionados
por todos os lugares, armas prontas para atirar, mas o capitão Panaka conseguiu encontrar
uma entrada vazia no final de um corredor estreito entre dois prédios.
Panaka fez o grupo parar junto a uma porta na lateral do hangar principal. Após uma
olhada rápida para checar a presença de dróides, ele destrancou e abriu a porta do hangar.
Com Qui- Gon logo atrás, ele entrou. Um número de naves Naboo estavam agrupadas no
centro do hangar, transportes brilhantes, com seus narizes apontados para uma larga
abertura na parede oposta. Dróides guardavam cada nave, posicionados por todo o hangar
para cortar qualquer aproximação.
O dróide era um monte de entulho em segundos, retalhado pelo sabre de luz de Qui-Gon.
Mais dróides tentaram deter o Jedi, que lutava sozinho, enquanto seus companheiros
embarcavam na nave real. Panaka e os guardas Naboo formaram um escudo protetor para
a rainha e suas aias enquanto elas subiam a rampa. Jar Jar Binks seguiu, segurando sua
cabeça com os braços longos. Raios lasers eram enviados por todos os lados do hangar, e
mais alarmes ecoavam selvagemente.
No outro lado do hangar, Obi-Wan Kenobi se atirou ferozmente sobre os guerreiros dróides
que mantinham os pilotos Naboo. Qui-Gon observava seu progresso, o cabelo longo
esvoaçando, enquanto detinha uma nova tentativa dos dróides de tomar a nave real,
bloqueando os raios lasers enquanto lutava para proteger a rampa de embarque. Obi-Wan
veio ao seu encontro, trazendo um grupo de Naboo. Em volta deles, tudo explodia.
Raios lasers queimando em metais e carne. Muitos Naboo tombaram, mas os dróides não
conseguiram deter os Jedi. Qui-Gon chamou Obi-Wan quando este passou, pedindo-lhe que
decolasse a nave. Mais dróides apareciam à porta do hangar, armas disparando. Qui-Gon
correu para o interior da nave. A rampa levantou atrás dele e fechou com um chiado.
Os motores Headon-5 dispararam mesmo antes mesmo que o Mestre Jedi chegasse à
cabine principal e se jogasse em uma cadeira.
Raios lasers batiam nos lados da nave, mas o transporte já se movia. O piloto se sentou
debruçado aos controles, sua face com expressão intensa, uma gota de suor escorrendo de
sua fronte, as mãos firmes nos controles. — Segurem-se — ele disse.
O Nubian se atirou através das portas do hangar, atropelando dróides e fogos lasers,
decolando da cidade de Theed para o céu azul. O planeta Naboo foi deixado para trás em
segundos, a nave mergulhando na escuridão do espaço, fazendo um arco em direção a uma
agora visível nave da Federação de Comércio que bloqueava sua passagem.
Qui-Gon deixou sua cadeira e ficou de pé ao lado do piloto.
–Ric Olié — anunciou o outro com uma rápida olhada para o Jedi. — Obrigado pela
ajuda lá trás.
Qui-Gon acenou com a cabeça. Melhor guardar os agradecimentos para depois que
lidarmos com o que vem lá em frente.
O piloto lhe deu um sorriso dissoluto. — Que faremos com esses brinquedões? Nossas
comunicações ainda estão embaralhadas.
–Passamos do estágio de conversações. Apenas mantenha a nave no curso. —
Qui-Gon se voltou para Obi-Wan. — Certifique- se de que todos estão a salvo.
— Seus olhos se voltaram para onde Jar Jar Binks estava já de pé e remexendo
as coisas. O jovem Jedi se movimentou rapidamente, tomando o Gungan pela
mão, levando-o à força através da porta da cabine principal até a parte de trás.
Ignorando os protestos de Jar Jar, ele olhou em volta procurando um lugar para
colocar a irritante criatura. Avistando uma abertura baixa e apertada onde se
lia: DRÓIDES ASTROMECANICOS, ele soltou o lacre e empurrou o Gungan para
dentro.
–Fique aqui — ele disse com um olhar significativo. — E não cabe problemas.
Jar Jar Binks observou a porta fechar atrás de si, depois olhou em volta. Junto à parede
havia uma fíieira composta de cinco dróides astromecânicos R2. Eram dróides baixos,
coloridos, para vários serviços. Havia cinco unidades idênticas, cada corpo robusto
posicionado entre dois braços robustos, não dando indicação de sentir sua presença. O
Gungan andava lentamente à frente, esperando para ser notado. Talvez não estivessem
ativados, ele pensou. Talvez nem estivessem vivos.
–Ei, ei, vocês — ele tentou com as mãos gesticulando. — Vai ser longa viagem
para algum lugar, hein? Nenhuma resposta. Jar Jar deu uma batida de leve na
cabeça da unidade R2 mais próxima, um dróide vermelho brilhante. A batida
produziu um som oco, e a cabeça pulou do corpo cilíndrico.
–Oa! — disse Jar Jar, surpreso. Ele olhou em volta, imaginando porque os Jedi o
tinham colocado ali embaixo, enquanto todos estavam lá em cima, pensou
desconsolado. Nada demais acontecia.
Curioso, ele gentilmente levantou a cabeça do dróide vermelho. Cordões e fios saltaram
fazendo uma bagunça. Jar Jar rapidamente bateu na cabeça do dróide vermelho tentando
colocá- la de volta no lugar.
–Oh, ob, ob! — ele murmurou, olhando em volta e checando se alguém o vira, se
abraçando preocupado.
Ele andou ao longo da fileira de dróides, ainda procurando algo para ocupar seu tempo. Ele
não queria estar naquele quarto, mas achava que não devia tentar sair. O jovem Jedi, o
que o meteu ali, já não gostava muito dele. O Jedi iria gostar muito menos dele, se o
visse tentando escapulir.
Explosões ocorriam perto do transporte. Fogo de canhão. A nave balançava em resposta.
Jar Jar olhou em volta desesperado, subitamente não apreciando aquele lugar. Então, as
luzes começaram a piscar, e o transporte sacolejou violentamente. JÁ Jar choramingava e
se agachou num canto. Mais explosões ocorriam, e a nave estava sendo golpeada por
todos os lados.
–Estamos perdidos — o Gungan murmurava assustado. — Isso p mau negócio, isso.
A nave começou a girar abruptamente, como se presa num redemoinho de água. Jar Jar
chorava, apertando os braços contra um suporte para não ser jogado contra a parede. As
luzes do compartimento acenderam e os dróides foram abruptamente ativados. Um por
um, eles começaram a assobiar e zumbir. Livres da alavanca que os segurava, eles
deslizaram em direção a um tubo de ar no outro lado do compartimento — todos menos o
R2 vermelho, que rolou diretamente para a parede e caiu, suas peças se espalhando.
A unidade R2 azul parou, enquanto passava por seu companheiro vermelho, então, passou
por Jar Jar, soltando um guincho alto que o fez se afastar apavorado. Um por um, os R2
entraram no elevador do tubo de ar e foram sugados para cima em direção ao topo da
nave.
Deixado sozinho no compartimento com o dróide que sem querer havia estragado, Jar Jar
Binks gemia desesperado.
Obi-Wan Kenobi havia acabado de entrar na cabine do transporte quando as explosões
começaram a atingir a nave. Ele conseguia ver uma imensa nave de guerra da Federação
de Comércio através do observatório com seus canhões atirando. O transporte real
balançava tão violentamente pelas rajadas que foi lançado de sua trajetória. As mãos de
Ric Olié, cobertas por uma luva, estavam travadas na direção, lutando para trazer a nave
novamente a seu prumo.
— Deveríamos abortar, senhor. — gritou o piloto a Qui-Gon, que estava sentado a seu lado,
olhos fixos na nave de combate. — Nossos escudos defletores não agüentam mais!
–Mantenha-se no curso — ordenou calmamente o Mestre Jedi. Então olhou para
os controles. — Você tem um dispositivo de disfarce?
–Esta não é uma nave de combate! — disparou o capitão Panaka, parecendo
irado e ofendido. — Não temos armas, embaixador! Somos um povo pacífico,
motivo que levou a Federação a ser tão valente para nos atacar!
Uma série de explosões chacoalharam o Nubian, fazendo tremer as luzes do painel de
controle. Um alarme soou agudo e raivoso. O transporte estremeceu, enquanto seu drive
de potência encrencou momentaneamente e fez um chiado agudo.
–Nada de armas — Qui-Gon suspirou. Obi-Wan estava a seu lado e sentiu o peso de
seu olhar, quando se virou e o encontrou, firme e decidido. Uma mão repousava nos
ombros de Ric Olié. — A Federação usa detetores de pulso em suas armas. Gire a
nave. Isso vai dificultar que nos detectem.
O piloto empurrou uma série de alavancas e colocou o Nubian num giro lento. A frente, a
nave de combate ocupou o visor e, depois, perdeu foco. O transporte da rainha acelerou
em direção à nave inimiga, passando por torres e plataformas armadas, compartimentos e
estabilizadores, se arremessando sobre um monte de fuselagem e tiros de canhão. Um
raio laser os atingiu, explodindo um dos controles em faíscas e chamas, fazendo a nave
girar. Por um momento, eles giraram sem controle. Então Ric Olié puxou os controles com
força e a nave de combate recuou.
–Algo está errado — sussurrou o piloto, lutando com a direção, sentindo a nave
tremer por baixo. — Os escudos caíram! Eles continuavam girando, próximos à
fuselagem cavernosa da nave de combate da Federação de Comércio, tão perto
que as armas maiores ficaram inutilizadas e apenas as menores podiam ser
usadas contra eles. Mas sem os escudos até mesmo um golpe leve poderia ser
desastroso.
–Enviando a tripulação de reparos! — berrou Olié, levantando uma válvula.
Na tela, um tubo de ar se abriu e uma série de dróides astromecânicos pularam para fora
em direção à fuselagem da nave. O transporte se endireitou e nivelou, parando de girar.
Os dróides se moveram rapidamente através da fuselagem, checando os estragos,
enquanto Ric Olié se apertou na sombra da nave de guerra, num esforço para protegê-los.
Mas, agora, havia uma nova ameaça. Incapacitado de usar suas armas eficientemente, o
comando da Federação despachou uma esquadrilha de caças. Naves-robô para ataque,
pequenas e brilhantes que consistiam em compartimentos duplos ligados a uma cabeça
redonda, voltada para trás. Enquanto saíam de dentro da nave de combate, seus
compartimentos se abriam em longas fendas que mostravam suas armas lasers. Voavam
por toda a extensão da nave mãe, em busca da nave da rainha. Rápidos e ágeis nas
manobras, eles não apresentavam dificuldades em mover-se próximos à fuselagem da
nave de combate.
Em segundos, eles estavam sobre o transporte, as armas disparando.
Ric Olié lutava para se proteger enquanto ganhava velocidade. Duas das unidades R2 foram
destruídas: uma por um golpe direto; a segunda, quando o cabo que a prendia à fuselagem
do transporte foi destruído.
Na tela, a unidade R2 azul podia ser vista trabalhando ferozmente em conectar uma série
de fios expostos por uma das placas da fuselagem. Fogo laser era lançado à sua volta,
mas o dróide continuava seu esforço. O quarto dróide, trabalhando ao lado, desapareceu
numa nuvem de metal e fogo incandescente.
Agora somente restava a unidade azul, ainda ocupada em meio ao ataque dos caças da
nave de combate quando algo mudou no displaj da cabine da nave da rainha e Ric Olié deu
um grito em aprovação. — Os escudos estão em pé novamente! O pequeno dróide
conseguiu! — Ele empurrou os propulsares totalmente para a frente, e o transporte se
afastou em velocidade máxima para longe da nave de guerra e dos caças, deixando o
bloqueio da Federação de Comércio e o planeta Naboo para trás.
A unidade R2 se virou e voltou para o tubo, desaparecendo de vista.
Quando estavam bem longe de qualquer presença da Federação de Comércio, Ric Olié
checou cuidadosamente os controles, avaliando os estragos, tentando determinar o que era
necessário. Obi-Wan estava sentado a seu lado e o ajudava. Qui- Gon e o capitão Panaka
se mantinham atrás deles, aguardando seu parecer. A rainha e o resto dos Naboo estavam
seguros em outros compartimentos.
Ric Olié sacudiu a cabeça em dúvida. — Não podemos ir longe.
O hiperpropulsor está vazando.
Qui-Gon Jinn assentiu. — Teremos que aterrissar em algum lugar para fazer os reparos. O
que existe à frente?
Ric Olié puxou um mapa estelar e se debruçou sobre ele, estudando-o.
–Aqui, Mestre — disse Obi-Wan, seus olhos atentos captando a única escolha
que fazia sentido. — Tatooine. E pequeno, pobre e fora do caminho. Atrai pouca
atenção. A Federação de Comércio não tem ninguém lá.
–Como pode estar certo? — perguntou rapidamente o capitão Panaka.
Qui-Gon olhou para ele. — E controlado pelos Hutts.
Panaka ficou alarmado. — Os Hutts?
–E arriscado — concordou Obi-Wan — mas não há alternativa.
O capitão Panaka não estava convencido. Você não pode levar Sua Majestade Real para lá!
Os Hutts são bandidos e escravocratas!
Se eles descobrirem quem ela é...
–Não seria diferente se aterrissássemos num planeta controlado pela Federação —
interrompeu Qui-Gon — exceto que os Hutts não estão procurando a rainha, o que nos
dá uma certa vantagem.
O chefe de segurança da rainha ia dizer mais alguma coisa, porém pensou melhor. Ao
invés disso, inspirou profundamente, a frustração estampada em seu rosto escuro, e se
retirou.
Qui-Gon Jinn bateu nos ombros de Ric Olié. — Ajuste o curso para Tatooine.
Numa distante sala de reunião da Federação de Comércio, Nute Gunray e Rune Haako
estavam sentados lado a lado em uma mesa comprida, observando nervosamente um
holograma de Darth Sidious posicionado à cabeceira da mesa. O holograma tremia com os
movimentos do manto negro de Sith Lord, numa combinação de nuanças que os
Neimoidians não conseguiam entender.
O Sith Lord não havia sido convocado e os Neimoidians teriam ficado felizes se ele não os
tivesse contatado naquele dia. Mas, como sempre, pressentindo quando as coisas não iam
bem, ele apareceu voluntariamente. Após demandar um relatório sobre o progresso da
invasão, ele ouviu a narrativa de Nute Gunray e ficou em silêncio.
–Nós estamos com o controle de todas as cidades na parte norte e oeste do
território Naboo. — O vice-rei relatava — E estamos procurando por outros
locais onde a resistência...
–Sim, sim — interrompeu Darth Sidious repentinamente, sua voz soando
vagamente impaciente. — Você fez bem. Agora, então, destrua todos os
oficiais de alto escalão. Faça-o em silêncio, mas completamente. — Ele deu
uma pausa. — E a rainha Amidala? Assinou o tratado?
Nute Gunray inspirou profundamente e soltou devagar. — Ela desapareceu, senhor. Houve
uma fuga.
–Uma fuga? — O Sith Lord disse as palavras com um sibila.
–Um cruzador Naboo passou a barricada...
–Como ela escapou, vice-rei?
Nute Gunray olhou para Rune Haako pedindo ajuda, mas seu companheiro estava paralisado
de terror. — Os Jedi, senhor. Eles conseguiram encontrá-la, armaram os guardas reais...
Darth Sidious se moveu sob seu manto como um enorme gato, sombras vislumbrando por
baixo de capuz. — Vice-rei, encontre-a!
Quero o tratado assinado!
–Senhor, ainda não conseguimos localizar a nave em que ela fugiu — admitiu o
Neimoidian, desejando poder afundar no chão imediatamente.
–Vice-rei!
–Quando os avistamos, nós os perseguimos, mas conseguiram escapar! Agora
estão fora do alcance.
Um aceno de um braço o interrompeu. — Não para um Sith — murmurou o outro.
Algo tremeu por trás do holograma e uma figura apareceu atrás de Darth Sidious. Nute
Gunray congelou. Era um segundo Sith Lord. Mas, enquanto Darth Sidious era uma vaga e
sombria presença, esse novo Sith era aterrorizante. Sua face era uma máscara de listas
pretas e vermelhas, o desenho marcado em sua pele, em seu crânio careca havia uma
coroa de chifres curtos e tortos. Seus olhos amarelos brilhantes estavam fixos nos
Neimoidians, quebrando suas defesas, fazendo com que eles se sentissem nus e os
considerando criaturas tolas e insignificantes.
–Vice-rei — Darth Sidious falou suavemente, em meio ao silêncio — este é meu
aprendiz, Lord Maul. Ele encontrará sua nave perdida.
Nute Gunray inclinou sua cabeça levemente em resposta, desviando os olhos da presença
assustadora. — Sim, meu senhor.
O holograma tremeu e desapareceu, deixando a sala de reuniões silenciosa. Os
Neimoidians permaneciam sentados, imóveis, sem se olharem, olhos de répteis fixos no
espaço antes ocupado pelo holograma.
–Isso está ficando fora de controle — disse, finalmente, Nute Gunray, sua voz alta e
apertada, pensando que seus planos de sabotar as rotas comerciais não incluíam
arriscar a vida no processo.
Rune Haako tentou um rápido aceno com a cabeça. — Não devíamos ter feito esse
negócio. O que acontecerá quando os Jedi descobrirem que estamos fazendo negócios com
esses Sith Lords?
Nute Gunray, com as mãos apertadas à sua frente, nem tentou dar uma resposta.
A bordo do transporte da rainha, os Jedi ficaram com o capitão Panaka e a última unidade
R2, enquanto o capitão passou à rainha um relatório sobre os acontecimentos relacionados
à fuga através da barricada da Federação de Comércio. Amidala estava sentada, com suas
três aias em volta, sua face branca emoldurada pelo chapéu preto, seus olhos escuros
calmos, ouvindo, enquanto o capitão concluía.
–Temos sorte por termos este aqui a nosso serviço, Alteza — Panaka olhou para o
pequeno dróide astromecânico. — E um dróide extremamente bem-montado. Sem
dúvida, ele salvou a nave lá atrás, sem mencionar nossas vidas.
Amidala assentiu, olhando para o dróide. — Será condecorado. Qual o número dele?
O pequeno dróide azul, com suas luzes piscando enquanto processava a conversa, fez uma
série de bips. O capitão Panaka se abaixou e retirou uma mancha da superfície metálica
do dróide, então, se endireitou.
–Erredois-Dedois, Alteza.
A rainha Amidala se curvou para a frente e estendeu sua mão fina e branca para tocar o
dróide. — Obrigada, Erredois-Dedois. Você se mostrou leal e corajoso. — Ela olhou por
sobre o ombro.
–Padmé.
Uma das aias se aproximou. Qui-Gon Jinn, ouvindo a tudo sem prestar muita atenção,
enquanto pensava no que viria pela frente em Tatooine, notou que tratava-se da jovem que
apoiou a rainha em sua decisão de escapar de Naboo. Ele franziu a testa. A não ser que
não tenha sido exatamente assim...
–Providencie a limpeza desse dróide. — A rainha dizia para a moça.
–Erredois-Dedois merece nossa gratidão. — Ela se voltou para Panaka.
–Por favor, continue seu relatório, capitão.
Panaka olhou desconfortavelmente para os Cavaleiros Jedi. — Alteza, estamos nos
dirigindo para um pequeno e remoto planeta chamado Tatooine. — Ele se interrompeu, sem
vontade de prosseguir com o assunto.
–E um sistema muito além do alcance da Federação de Comércio. — Qui-Gon
acrescentou suavemente. — Uma vez lá, poderemos fazer os reparos
necessários e, então, partir para Coruscant completando nossa jornada.
–Alteza — disse rapidamente o capitão Panaka, recapturando suas impressões
sobre o assunto. — Tatooine é muito perigoso. E controlado pelos Hutts. Os
Hutts são bandidos e possuem escravos. Eu não concordo com a decisão dos
Jedi de aterrissar lá.
A rainha fitou Qui-Gon. O Jedi não vacilou. — Tem que confiar em meu julgamento, Alteza.
— Tenho? — Ela perguntou baixinho. Ela voltou seu olhar para suas aias; Padmé por
último. A garota não se moveu do lado da rainha, mas pareceu lembrar-se subitamente de
que havia recebido uma tarefa para realizar. Ela assentiu brevemente para a rainha e se
moveu para tomar R2-D2 pela mão.
Amidala fitou novamente Qui-Gon Jinn. — Estamos em suas mãos — e o assunto estava
resolvido.
JÁ Jar Binks havia sido deixado no compartimento de estocagem até que a unidade R2
voltasse pelo tubo e os Naboo viessem retirá-la. Eles não pareciam ter ordens com relação
ao Gungan, então, o deixaram sair. A princípio, Jar Jar ficou relutante em se aventurar
sozinho fora do compartimento ainda pensando no alerta do jovem Jedi para que ficasse
quieto e longe de confusão. Ele conseguiu uma das duas ordens, mas não estava certo de
que devia tentar o destino.
Mas, no final, sua curiosidade e inquietação o venceram. O transporte já não girava, o
ataque da Federação havia cessado, e os alarmes estavam silenciosos. Tudo estava calmo
e o Gungan não viu motivo para que ficasse naquela salinha apertada por mais tempo.
Então, ele abriu a porta, pondo sua face bicuda para fora e deu uma olhada em volta, os
olhos observando cuidadosamente. Não vendo ninguém, tomou sua decisão. Ele saiu do
compartimento e caminhou pelos corredores da nave, escolhendo uma direção que o levava
para longe da cabine do piloto, onde os Jedi estariam. Ele esperou alguém mandá-lo de
volta para o lugar de onde tinha vindo, mas como ninguém o fez, ele começou a remexer
em tudo com cuidado, mas se sentindo incapaz de parar a investigação.
Ele estava seguindo um corredor estreito que subia do nível inferior da nave até a cabine
principal onde pôs a cabeça por uma passagem de ar e encontrou uma das aias da rainha
esfregando um pano velho, tentando limpar o dróide astromecânico R2.
–Ei. Oh! — ele chamou.
A aia começou a choramingar e a unidade R2 começou a fazer um bip alto. Jar Jar pulou,
então, passou o corpo pela abertura, embaraçado por tê-los assustado tanto.
–Mim desculpe — ele se desculpou. — Mim não querer assustar vocês. Okl A garota
sorriu. — Tudo bem. Venha cá.
Jar Jar se aproximou alguns passos, estudando as condições do dróide. — Mim achar lata
de óleo lá atrás. Vocês precisar isso/A moça assentiu. — Ajudaria muito. O mocinho está
uma bagunça.
Jar Jar voltou pela abertura, remexeu um pouco, encontrando a lata de óleo, trazendo-a
para a garota. — Isso ajuda.? — Obrigada — ela disse, pegando a lata. Ela abriu a tampa e
derramou um pouco do óleo no pano, então, começou a esfregar a cabeça do dróide.
–Eu Jar Jar Binks — disse Jar Jar após um momento, aproveitando a chance de
entabular uma conversa. Ele gostou da garota Naboo.
–Eu sou Padmé — respondeu a moça. — Sirvo a Sua Alteza, a rainha Amidala.
Este é Erredois-Dedois. — Ela removeu uma mancha preta do braço do dróide.
— Você é Gungan, não é? — Jar Jar assentiu, suas longas orelhas balançando
sobre o pescoço. — Como veio parar aqui conosco?
Jar Jar pensou por um minuto. — Mim não sabe exatamente. O dia começa com nascer do
sol. Mim comia marisco. Daí, bum! Eles em todo lugar, voava, atirava, mim com medo.
Mim agarrou Qui-Gon, então, derrubar eles, então, nós ir dentro do lago até Chefe Nass...
Ele parou, sem saber o que dizer. Padmé balançava a cabeça encoranjando-o. R2-D2 fez
um bip. — Mais ou menos isso. Antes de mim saber, mim aqui!
Ele sentou novamente sobre suas coxas encolhendo os ombros.
–Mim ar muito, muito medo!
Ele olhou da garota para o dróide. Padmé sorriu novamente.
R2-D2 fez um bip novamente. Jar Jar se sentiu ótimo.
Na cabine, Ric Olié dirigia o transporte para um grande planeta amarelado que aparecia no
visor, enquanto se aproximavam de sua superfície. Os Jedi e o capitão Panaka estavam
atrás dele, observando por sobre seus ombros os mapas de superfície que havia colocado
sobre os monitores.
–Tatooine — confirmou Obi-Wan Kenobi, sem dirigir-se a ninguém em particular.
Ric Olié apontou para um dos mapas. — Há uma cidade aqui onde deveremos encontrar o
que procuramos... um porto espacial, parece. Mos Espa. — Ele olhou para o Jedi.
–Pouse próximo aos arredores da cidade — Qui-Gon ordenou.
–Não queremos chamar atenção.
O piloto assentiu e dirigiu o transporte para dentro do planeta. Levou apenas um momento
para guiá-la através da atmosfera do planeta até uma área do deserto de onde se avistava
a cidade. O Nubian aterrissou levantando poeira, se acoplando confortavelmente em um
local elevado próximo às suas marcas de aterrissagem. A distância, Mos Espa brilhava sob
o calor do meio-dia.
Qui-Gon pediu a seu protegido que soltasse o hiperpropulsor e ao capitão Panaka que
informasse a rainha sobre a aterrissagem. Ele estava indo até o porto espacial sozinho
quando saiu da cabine para procurar novas roupas e encontrou Jar Jar Binks, a aia Padmé,
e a pequena unidade R2.
Ele reduziu o passo, considerando que ir sozinho poderia chamar mais atenção. — Jar Jar
— disse finalmente. — Apronte-se. Você vai comigo. O dróide também.
Ele continuou sem olhar para trás. O Gungan o olhou incrédulo, depois ficou horrorizado.
Quando recuperou a razão, o Jedi já estava fora de alcance. Lamentando-se em desânimo,
ele correu para alcançá-lo quando encontrou Obi-Wan içando o hiperpropulsor do interior da
nave.
–Obi-Wan, senhor! — atirando-se aos pés do jovem Jedi. — Por favor, mim não vai
com Qui-Gon!
Obi-Wan se sentia inclinado a concordar, mas sabia que era melhor não dizer. — Desculpe,
mas Qui-Gon está certo. Aquele é um porto espacial multinacional, um porto de comércio.
Você vai ajudá-lo a chamar menos atenção indo com ele. — Sua testa franziu enquanto se
voltava para o hiperpropulsor. — Assim espero. — Ele murmurou para si.
Jar Jar deu um salto e caminhou desconsolado até R2-D2, sua boca numa careta de
desespero. O dróide fez um bip em simpatia, então, fez uma série de clicks de incentivo.
Qui-Gon reapareceu, desta vez, vestido como um fazendeiro em túnicas, calças legging e
um poncho. Ele passou por eles em direção a Obi-Wan que checava o hiperpropulsor. — O
que encontrou?
O rosto jovem de Obi-Wan ficou sombrio. — O gerador foi atingido. Precisaremos de
outro.
–Foi o que pensei. — O Mestre Jedi se ajoelhou ao lado de seu protegido. — Bem, nós
não podemos arriscar uma comunicação com Coruscant desta parte tão distante da
galáxia. Pode ser interceptada e nossa posição revelada. Teremos que nos arranjar
sozinhos. — Ele baixou a voz para um sussurro. — Não deixe ninguém enviar uma
transmissão, enquanto eu estiver fora. Fique atento, Obi-Wan. Sinto uma perturbação
na Força.
Os olhos de Obi-Wan encontraram os dele. — Também sinto isso, Mestre. Terei cuidado.
Qui-Gon se ergueu, reuniu Jar Jar e a unidade R2 e desceu a rampa da nave para o solo do
planeta. Um tapete de areia vazio que se espalhava em todas as direções, quebrado
apenas por imensas formações rochosas e pela faixa de céu distante de Mos Espa. Os
sóis que davam vida ao planeta batiam na superfície com ferocidade tal que pareciam
determinados a tomar aquela vida de volta. O calor se erguia da areia formando uma onda
brilhante, e o ar era tão seco que sugava a umidade de suas gargantas e orifícios nasais.
Jar Jar olhou para o céu, seus olhos levantando e a face anfíbia bicuda enrugando em
desânimo. — Este sol vai matar pele do Gungan — murmurou.
A um sinal de Qui-Gon, eles começaram a caminhar, ou, no caso de R2, a rolar. Uma
estranha caravana de animais e andarilhos, carroças e trenós surgiram contra o horizonte
como uma imagem obscura, toda disforme e ameaçando sumir num piscar de olhos. Jar
Jar murmurava mais um pouco, mas ninguém prestava atenção.
Eles não haviam ido longe quando um grito os chamou. Duas figuras corriam a seu
encontro vindas do transporte. Enquanto se aproximavam, Qui-Gon reconheceu o capitão
Panaka e um garota vestida em roupas gastas. Ele parou e aguardou até que fossem
alcançados, uma ruga marcando suas feições leoninas.
Panaka suava. — Sua Alteza ordena que leve a aia com você. Ela deseja que Padmé dê seu
próprio relatório do que o senhor poderá...
–Chega de comandos de Sua Alteza por hoje, capitão — Qui-Gon interrompeu
rapidamente, sacudindo a cabeça negativamente. — Mos Espa não será um
lugar agradável para...
–A rainha assim o deseja — Panaka interrompeu imediatamente, com a face
irada e decidida. — Ela é enfática. Deseja saber mais sobre esse planeta.
A garota deu um passo à frente. Seus olhos escuros encontraram os de Qui-Gon. — Fui
treinada em defesa pessoal. Falo muitas línguas.
Não tenho medo. Sei me cuidar.
O capitão Panaka suspirou, olhando por sobre os ombros para a nave. — Não me faça
voltar e dizer que se recusou.
Qui-Gon hesitou, preparando-se para dizer exatamente isso. Então olhou novamente para
Padmé, vendo força em seus olhos e mudou de idéia. Ela poderia ser útil. Viajando com
uma moça poderia dar a impressão de serem uma família de passagem, dando uma
impressão menos agressiva.
Ele assentiu. — Não tenho tempo para discutir o assunto, capitão. Ainda acho que é uma
má idéia, mas ela pode vir. — Ele deu a Padmé um olhar de advertência. — Fique perto de
mim.
Ele recomeçou a caminhar, os outros seguindo. O capitão Panaka ficou observando com
indisfarçável alívio, enquanto a estranha procissão do Mestre Jedi, aia, Gungan e dróide
astromecânico mergulhava no cenário abrasador em direção a Mos Espa.
Era antes do meio da tarde quando a pequena comitiva comandada por Qui-Gon alcançou
Mos Espa e tomou a direção do porto espacial. Mos Espa era grande e comprida parecendo
uma serpente se retorcendo na areia, tentando escapar do calor. As construções tinham
um formato de abóbadas, com as paredes grossas e curvadas que protegiam da luz solar,
sendo que suas tendas e lojas dispunham de toldos e varandas que forneciam alguma
sombra aos negociantes. As ruas eram largas e abarrotadas de criaturas de vários
formatos e tamanhos, a maioria de outros planetas. Algumas montavam animais do
deserto. Banthas domesticadas, enormes e chifrudas, e pesados dewbaks arrastando
carroças, trenós, e vagões de carga que usavam rodas ou que eram rebocadas
mecanicamente, em uma mistura de comércio que trafegava entre os pequenos portos de
Tatooine e planetas em sistemas distantes.
Qui-Gon manteve a atenção para evitar problemas. Havia Rodians e Dugs, além de outros
cujas intenções eram sempre suspeitas. A maioria dos passantes não lhes deu atenção.
Um ou dois se viraram para olhar Jar Jar, mas perderam o interesse por ele logo após darlhe uma boa olhada. Como um grupo, eles se misturavam bem. Havia tanta combinação de
criaturas de todas as espécies que a aparência de um a mais não fazia diferença.
–Tatooine é o lar de Jabba the Hutt, que controla o montante do tráfico de
mercadorias ilegais, pirataria e tráfico de escravos que gera a maior parte da riqueza
do planeta — Qui-Gon explicava a Padmé. Ele havia estado em Tatooine antes, anos
atrás. — Jabba controla os portos e cidades, todas as áreas povoadas. O deserto
pertence aos Jawas, que catam no lixo tudo que encontram para vender ou trocar, e
aos Tuskens, que são nômades e se sentem no direito de roubar de todos.
O Jedi manteve a voz baixa e em tom de conversa. A moça caminhava silenciosa a seu
lado, segurando-lhe o cotovelo, com seus olhos perspicazes assimilando tudo. Speeders
passaram perto deles, e dróides de todos os tamanhos trabalhavam arduamente a serviço
de alienígenas em trajes do deserto.
–Também existe um número de fazendas, desempenhando operações favorecidas pelo
clima — fazendas de hidratação na maior parte, operadas por estrangeiros não
pertencentes às tribos locais e catadores de lixo, sem ligações diretas com os Hutts.
— Seus olhos varreram a rua à frente. — Este é um lugar duro e perigoso. Tem que
evitá-la. Seus pequenos portos viraram verdadeiros paraísos para aqueles que não
querem ser encontrados.
Padmé olhou para ele. — Como nós — disse.
Uma dupla de banthas domesticados descia a avenida larga, com seus corpos peludos
abrindo caminho para um trem carregando blocos de pedra e peças de metal, com suas
cabeças chifrudas balançando sonolentas e com suas patas fofas espalhando areia e poeira
em nuvens grossas a cada passo pesado. Seus condutores iam no topo da primeira
carreta, pequenos e insignificantes à sombra dos animais.
Jar Jar Binks ficou o mais próximo que podia do Jedi e da moça, seus olhos se movendo
rapidamente para a esquerda e para a direita, a cabeça girando como se fosse girar para
fora dos ombros. Nada do que via era familiar ou bem-vindo. Olhares pesados o seguiam.
Olhos atentos o mediam por coisas que ele nem imaginaria. Os olhares eram na melhor
das hipóteses desafiadores e, na pior, descorteses. Ele não gostava daquele lugar. Ele
desejou estar em qualquer outro lugar.
–Isso muito mal. — Ele engoliu, sentindo uma secura na garganta causada por
algo mais que o calor. — Nada bom este lugar.
–Ele deu um passo descuidado e se achou com o tornozelo mergulhado numa
poça imunda. — Oh, ob! Isso gosmento!
R2-D2 rolava alegremente a seu lado, fazendo bips e tagarelando em um esforço inútil de
assegurar o Gungan de que tudo ia bem.
Eles caminharam até o final da rua principal e viraram para uma rua lateral que levava a
uma pequena praça lotada de traficantes e lojas de sucata. Qui-Gon olhou para os entulhos
de peças de motor, painéis de controle e chips de comunicação recuperados de naves e
speeders.
–Vamos primeiro tentar um desses negociantes menores — ele sugeriu, virando a
cabeça na direção de um negociante, onde havia uma pilha grande de transportes
velhos e peças amontoadas.
Eles passaram através da porta baixa da loja e foram recebidos por uma criatura azul
atarracada que voava à frente deles como um sonda descontrolada, as asinhas batendo tão
rápido que mal podiam ser vistas .— Hi chubba da nago? — disparou, numa voz frisada e
gutural, querendo saber o que desejavam.
Um Toydarian, pensou Qui-Gon. Ele sabia o suficiente para reconhecer um, mas nada mais.
— Preciso de peças para um Nubian tipo J 327 — ele informou.
O Toydarian sorriu levemente, deliciado, sua tromba se curvando sobre sua boca dentuça e
fazendo estranhos ruídos.
–Ah, claro! Nubian! Temos muitas peças. — Os olhos astutos e redondos
corriam de um rosto para outro, parando no Gungan.
–O que é isso?
Jar Jar tremeu de medo atrás de Qui-Gon. — Não importa. — Respondeu o Jedi ignorando a
pergunta. — Pode nos ajudar ou não?
–Pode me pagar ou não, essa é a questão! — os braços esqueléticos se
cruzaram desafiantes em frente ao torso redondo enquanto o Toydarian os
olhava com desdém. — Que tipo de coisa está procurando, fazendeiro?
–Meu dróide tem uma lista do que preciso — Qui-Gon o informou dando uma
olhada para R2.
Ainda voando a poucos centímetros do chão na frente do nariz de Qui-Gon, o Toydarian
olhou por cima do ombro. —
Peedunkel!
Naba de unko!
Um garoto pequeno e desalinhado entrou correndo vindo do quintal, parando incerto. Suas
roupas estavam esfarrapadas e grossas de sujeira, e ele tinha a expressão de alguém que
estava prestes a ser surrado. Ele recuou quando o Toydarian se voltou e levantou uma
mão em advertência.
–Por que demorou tanto?
–Mel tass cho pas kee — o menino respondeu rapidamente, seus olhos azuis
observando os recém-chegados com uma rápida olhada.
–Eu estava limpando o cesto como pediu.
–Chut, chu! — O Toydarian levantou as mãos com raiva. — Esqueça o cesto!
Vigie a loja! Tenho uma venda para fazer!
Ele se voltou para os clientes. — Então, deixe-me levá-los lá fora. Logo acharão o que
precisam.
Ele se dirigiu para o quintal, acenando ansiosamente para QuiGon. O Jedi seguiu, com R2-
D2 truncando atrás. Já Jar foi até uma prateleira e pegou um estranho pedaço de metal,
intrigado por sua forma, imaginando o que seria.
–Não toque em nada — disse Qui-Gon por sobre os ombros, o tom de sua voz era
ácido.
Jar Jar largou a peça e fez uma careta pelas costas de Qui- Gon, pondo a língua para fora
em desafio. Quando o Jedi estava fora de vista, ele pegou a peça novamente.
Anakin Skywalker não conseguia tirar os olhos da garota. Ele a notou desde o momento em
que ela entrou na loja de Watto, antes mesmo de Watto dizer qualquer coisa, e não
conseguiu, desde então, tirar os olhos dela. Ele mal ouviu o que Watto lhe disse sobre
cuidar da loja. Ele mal notou a estranha criatura que entrou com ela e que estava
remexendo na estantes e cestos. Mesmo depois que Padmé notou que ele a observava, ele
não conseguiu se controlar.
Ele se mudou para um espaço aberto no balcão, endireitou seu corpo e se sentou
observando a moça, enquanto fingia limpar uma célula transmissora. Ela estava olhando
para ele agora, o embaraço se transformando em curiosidade. Ela era pequena e esbelta
com um longo cabelo castanho trançado, e um rosto que ele achou tão lindo que não havia
nada a que pudesse ser comparado. Ela vestia um traje grosseiro de camponesa, mas
parecia muito altiva.
Ela lhe deu um sorriso divertido e ele se sentiu derreter em confusão e encantamento. Ele
tomou ar. — Você é um anjo? — ele perguntou baixinho.
A garota perguntou. — O quê?
–Um anjo. — Anakin se endireitou um pouco. — Eles vivem nas luas de lego, acho.
Eles são as criaturas mais lindas do Universo. Eles são bons e gentis, e tão belos que
fazem até os piratas do espaço chorarem como crianças.
Ela olhou confusa. — Nunca ouvi falar de anjos — disse.
–Você deve ser um deles — Anakin insistiu. — Talvez apenas não saiba.
–Você é um garotinho engraçado. — O sorriso divertido voltou.
–Como sabe de tudo isso?
Anakin sorriu e encolheu os ombros. — Eu escuto a todos os mercadores e pilotos que
passam por aqui. — Ele voltou os olhos para o quintal. Sabe, eu sou um piloto. Um dia, vou
voar para longe desse lugar.
A garota caminhou até uma ponta do balcão, olhou para fora e depois para ele. — Está
aqui há muito tempo?
–Desde bem pequeno; três anos, acho. Minha mãe e eu fomos vendidos para Gardulla
the Hutt, mas ela nos perdeu para Watto, apostando nas corridas de Pod. Watto é um
mestre bem melhor, acho.
Ela olhou para ele chocada. — Você é um escravo?
A maneira como ela falou fez Anakin se sentir envergonhado e com raiva. Ele olhou para
ela desafiante. — Eu sou uma pessoa!
–Desculpe — disse ela rapidamente, parecendo aborrecida e atrapalhada. — Não
entendo muito bem. Esse é um mundo estranho para mim.
Ele a estudou cuidadosamente por um momento, pensando em outras coisas, querendo
contar-lhe a respeito. — Você é uma garota estranha para mim — disse, ao invés disso.
Ele balançou as pernas por cima do balcão. — Meu nome é Anakin Skywalker.
Ela mexeu no cabelo. — Padmé Naberrie — disse.
A criatura esquisita que a acompanhava foi até a porta da loja e se curvou diante de um
pequeno dróide robusto com um nariz em forma de bulbo. Esticando o braço curiosamente,
ele empurrou o nariz com um dedo. No mesmo instante, rotores pularam de todas as
direções, membros metálicos girando. Os motores do dróide zumbiam e chiavam e ele se
sacudiu, movendo-se para frente. O companheiro esquisito de Padmé o seguiu, gemendo de
temor, tentando agarrá-lo num esforço de deter a máquina, mas o d»ide continuou
marchando dentro da loja, derrubando tudo que tocava.
–Bata no nariz! — Anakin gritava, rindo incontrolavelmente.
A criatura fez o que ele disse, esmurrando o nariz do dróide. O dróide parou
imediatamente, braços e pernas recolhidas, motores desligados e ficou quieto. Anakin e
Padmé estavam rindo agora, e a gargalhada aumentava enquanto olhavam para a
expressão na face bicuda da infeliz criatura.
Anakin olhou para Padmé e a garota para ele. O riso morreu. A garota passou a mão no
cabelo, mas não desviou o olhar.
–Vou me casar com você! — o garoto disse subitamente.
Houve um momento de silêncio, e ela começou a rir de novo, um som doce e musical com
o qual ele não se importava. A criatura que a acompanhava girou os olhos.
–Falo sério — ele insistiu.
–Você é estranho — ela disse, sua risada diminuindo. — Porque diz isso?
Ele hesitou. — Acho que porque é aquilo em que acredito
O sorriso dela era deslumbrante. — Bem, eu acho que não posso me casar com você... —
ela parou, procurando se lembrar do nome dele.
–Anakin — ele disse.
–Anakin. — Ela inclinou a cabeça. — Você é só um garotinho.
Seu olhar era intenso quando a fitou. — Não serei para sempre — ele disse calmamente.
No depósito, Watto estudava a tela de um banco de dados que segurava em uma das
mãos, rastreando seu inventário. Qui- Gon, com os braços dobrados sob o poncho,
esperava pacientemente — com a unidade R2 a seu lado.
–Ah! aqui está. Um gerador hiperpropulsor T-14! — As asas do Toydarian
batiam selvagemente, enquanto ele flutuava em frente do Jedi, com os dedos
em forma de garra apontando para a tela. — Você está com sorte. Eu sou o
único por aqui com um desses. Mas você faria melhor comprando outra nave.
Seria mais barato.
–Falando nisso, como vai pagar por isso, fazendeiro?
Qui-Gon pensou. — Tenho vinte mil dataries da República para pagar.
–Créditos republicanos? — Wattto explodiu em repugnância. — Créditos republicanos
não valem nada por aqui! Preciso de algo melhor que isso, algo de valor...
O Jedi sacudiu a cabeça. — Não tenho mais nada. — Uma mão se ergueu casualmente em
frente ao rosto do Toydarian. — Mas créditos servirão.
–Não, não servirão! — disparou Watto com raiva.
Qui-Gon franziu a testa, então, passou a mão novamente em frente ao rosto da criatura
atarracada, trazendo toda a força do poder Jedi de sugestão. — Créditos servirão —
repetiu.
Watto olhou com desprezo. — Não, não servirão! — repetiu. — O que pensa estar fazendo,
balançando sua mão assim? Pensa que é algum tipo de Jedi? Sou um Toydarian! Truques
com a mente não funcionam comigo — só dinheiro! Sem dinheiro, sem peças, sem
negócio! E ninguém mais tem um gerador hiperpropulsor T-14, eu posso assegurar!
Mortificado, Qui-Gon retornou à loja, a unidade R2 o seguia. O Toydarian gritou para que
eles voltassem somente quando tivessem algo valioso para efetuar o pagamento, ainda
xingando o Mestre Jedi por lhe haver oferecido créditos republicanos. Qui- Gon entrou na
loja no momento que Jar Jar puxava uma peça de uma pilha grande e fez o arranjo inteiro
cair no chão. Seus esforços para consertar o estrago causaram um segundo acidente. O
garoto e a aia da rainha estavam entretidos numa discussão e não prestavam atenção ao
Gungan.
–Vamos embora — Qui-Gon anunciou para a garota, indo para a entrada da loja, a
unidade R2 rodando atrás.
Jar Jar foi rápido em segui-lo, ansioso por escapar de sua última trapalhada. Padmé deu
um sorriso carinhoso ao garoto. — Foi um prazer conhecê-la, Anakin — disse ela,
seguindo-os.
–Foi um prazer conhecê-la também — ele disse, sua voz demonstrando relutância.
Watto entrou voando vindo do pátio de estocagem, sacudindo a cabeça em repugnância. —
Estrangeiros! Pensam que, porque moramos longe de tudo, não sabemos nada!
Anakin estava imóvel olhando com saudade para Padmé, seu olhar fixado na porta vazia. —
Eles pareceram gentis.
Watto bufou e voou para a sua frente. — Limpe essa bagunça e, então, pode ir para casa!
Anakin se iluminou, deu um pequeno sorriso e voltou rapidamente ao trabalho.
* * *
Qui-Gon levou suas companhias de volta através da pequena praça com as lojas de sucata
em direção à avenida principal. Num ponto onde dois edifícios se dividiam, formando um
local adequado, o Jedi afastou todos e puxou seu comlink de baixo de seu poncho. Padmé e
a unidade R2 esperavam pacientemente, mas Jar Jar perambulava no local como se preso,
os olhos fixos nervosamente na rua movimentada.
Obi-Wan respondeu ao pulso do comlink, Qui-Gon rapidamente o informou a situação. —
Tem certeza de que não existe nada de valor na nave? — ele perguntou.
Houve uma pausa do outro lado. — Alguns contêineres com comida, o guarda-roupa da
rainha, algumas jóias, talvez. Não o suficiente para você negociar. Não na quantidade que
está pedindo.
–Tudo bem — respondeu Qui-Gon franzindo o rosto. — Outra solução se apresentará.
Vou checar novamente.
Ele guardou o comlink embaixo do poncho e fez um sinal para os outros. Ele ia na direção
da rua principal novamente quando Jar Jar o agarrou pelo braço.
–De novo não, senhor — pediu o Gungan. — As pessoas aqui loucas. Nós ser
roubados e triturados!
–Não é provável — respondeu Qui-Gon com um suspiro, soltando-se. Não temos
nada de valor, esse é o problema.
Eles continuaram descendo a rua, Qui-Gon pensando no que fariam agora. Padmé e R2-D2
ficaram juntos enquanto atravessavam por entre a multidão, mas Jar Jar começou a ficar
para trás, distraído com os aromas e novidades. Eles passaram em frente a um café,
cujas mesas estavam ocupadas por um grupo de alienígenas de aparência rude, entre eles
um Dug contando vantagem sobre as corridas de Pod.
Jar Jar correu para alcançar os companheiros, mas foi distraído por um cordão de sapos
pendurados por um fio em frente a uma tenda próxima. O Gungan reduziu a velocidade,
com a boca salivando. Ele não comia nada a algum tempo, então, desdobrou sua língua
comprida e pegou um dos sapos. O sapo desapareceu na boca de Jar Jar num piscar de
olhos.
Infelizmente, o sapo ainda estava preso ao fio. Jaz Jar ficou lá parado, o fio pendurado em
sua boca, incapaz de se mover.
O vendedor responsável pela tenda saiu. — Ei, isso vai custar sete truguts!
Jar Jar lançou um olhar desesperado para a rua, em busca de seus companheiros, mas
eles já estavam fora do alcance. Desesperado, ele largou o sapo, que pulou de sua boca
como se estivesse nocauteado, dependurado pelo fio. Ele se sacudiu, soltando-se
finalmente e indo direto para a sopa do Dug, espirrando o líquido gosmento sobre ele.
O Dug se colocou de pé num pulo, furioso, avistando o infeliz Jar Jar enquanto tentava
fugir do vendedor de sapos. Saltando de quatro por sobre a mesa, ele estava sobre o
Gungan num segundo, agarrando-o pelo pescoço.
–Chubba! Você! — Rosnava o Dug através da tromba comprida.
–Isso é seu?
O Dug esfregou o sapo ameaçadoramente na face do Gungan.
Jar Jar não conseguia falar, tentando ganhar fôlego, lutando para se soltar. Outras
criaturas se aproximaram rodeando, entre eles, alguns Rodians. O Dug empurrou Jar Jar
para o chão, gritando com ele, pairando sobre ele, humilhando-o. Desesperado, o Gungan
tentava ganhar liberdade.
–Não, não — ele gemia queixoso enquanto buscava um jeito de escapar. — Por que
mim sempre.? — Porque você tem medo — respondeu uma voz calma.
Anakin Skywalker abriu caminho por entre a multidão, parando na frente do Dug. O garoto
parecia não temer a criatura, sem se intimidar com os olhares frios da multidão,
firmemente decidido. Ele deu ao Dug um olhar, avaliando-o. — Chess ka, Sebulba — ele
disse. — Cuidado. Esse aí é bem-relacionado.
Sebulba se virou para encarar o garoto, sua face cruel se retorcendo em desprezo assim
que avistou o recém-chegado. — Tooneji rana dunko,shag? — ele disparou, exigindo saber o
que o garoto queria dizer.
Anakin encolheu os ombros. — Bem-relacionado, como em Hutts.
–Os olhos azuis estavam fixos no Dug, notando uma faísca de medo na face do outro.
— Muito bem conectado, este aqui,
Sebulba. E eu odiaria te ver cortado em cubos antes de corrermos novamente.
O Dug cuspiu furioso. — Neek me chawa! Da próxima vez que corrermos, wermo, será
seu fim! — ele gesticulou violentamente. — Uto notu u wo sbag! Se você não fosse um
escravo, eu o amassaria aqui e agora!
Lançando um último olhar a Jar Jar, Sebulba se retirou, levando consigo seus companheiros
de volta para a sua mesa com comida e bebida. Anakin se dirigiu para o Gungan. — E,
seria uma pena se você tivesse que pagar por mim — disse suavemente.
Ele ainda estava ajudando Jar Jar a se levantar quando Qui- Gon, Padmé, e R2-D2,
voltavam correndo por entre a multidão, após darem pela falta do Gungan.
–Oi. — Cumprimentou alegremente, feliz por rever Padmé tão cedo. — Seu
amiguinho aqui estava prestes a virar suco. Ele puxou uma briga com um Dug.
Um Dug perigoso.
–Não senhor, não senhor! — insistia o Gungan aflito, espanando poeira e areia.
— Mim odiar briga. Isto p última coisa que mim quer. Qui-Gon lançou um olhar
para Jar Jar, depois para a multidão, tomando o Gungan pelo braço. — Mesmo
assim, o garoto te salvou de apanhar. Você tem tendência de se meter em
encrencas, Jar Jar. — Ele acenou para Anakin. — Obrigado, meu jovem amigo.
Padmé dirigiu um olhar caloroso a Anakin e o garoto se sentiu enrubescer de orgulho.
–Mim fazer nada! — insistia Jar Jar, ainda tentando se defender, com suas
mãos gesticulando para enfatizar.
–Você tem medo — disse o garoto, fitando solene a face comprida. — O medo
atrai aquilo que se teme. Sebulba estava tentando superar o medo machucando
você. — Ele inclinou a cabeça para o Gungan.
–Você pode se ajudar tendo menos medo.
–E isso funciona com você? — Padmé perguntou sem acreditar, dirigindo-lhe
um olhar torto.
Anakin sorriu e encolheu os ombros. — Bem... até certo ponto.
Ansioso por passar o maior tempo possível com a garota, ele convenceu o grupo a segui-la
até uma barraca de frutas, um negócio montado em ruínas formado provisoriamente por
uma tenda esfarrapada apoiada sobre estacas inclinadas. Havia, em exposição, caixas com
frutas coloridas arrumadas sobre uma rampa virada para a rua.
Uma senhora grisalha e curvada, vestindo roupas simples e usadas, se ergueu de um
banquinho para saudá-los.
–Com está se sentindo hoje, Jira? — perguntou Anakin, dando-lhe um rápido abraço.
A senhora sorriu. — Como sabe, o calor nunca foi gentil comigo.
–Advinhe! — respondeu rapidamente o garoto, sorridente. — Achei a unidade de
resfriamento que estava procurando . Está bem estragada, mas eu a consertarei para
você num instante, eu prometo. Acho que vai ajudar.
Jira extendeu o braço e tocou a bochecha rosada dele com a mão enrugada, o sorriso se
ampliando. — Você é um bom garoto, Annie.
Anakin recebeu o elogio e começou a olhar as frutas. — Vou levar quatro pallies, Jira. Ele
olhou para Padmé ansiosamente. — Você vai gostar deles.
Ele procurou no bolso os truguts que vinha juntando, mas, quando os retirou para pagar,
um deles caiu no chão. O fazendeiro, parado a seu lado, se curvou para pegá-lo. Assim que
o fez, o poncho se abriu, permitindo ao garoto ver o sabre de luz que trazia à cintura. Os
olhos do menino se arregalaram, mas ele disfarçou a surpresa prestando atenção nas
moedas. Ele só tinha três, descobriu. — Opa! pensei que tinha mais — disse sem olhar
para cima. — Dê-me três pallies, Jira. Não estou com tanta fome.
A senhora deu os pallies a Qui-Gon, Padmé e Jar Jar, pegando as moedas. Uma corrente de
vento varreu a rua, balançando as estacas e fazendo a barraca chacoalhar. Uma segundo
golpe de ar e, de repente, havia poeira voando em todas as direções. Jira esfregou os
braços com as mãos ásperas. — Meu Deus! meus
ossos estão arqueando. Vem por aí uma tempestade, Annie. Melhor você ir para casa
rápido.
O vento soprava bruscamente fazendo voar areia e entulhos. Anakin olhou para o céu,
depois, para Qui-Gon. — Vocês têm abrigo? - perguntou.
O Mestre Jedi assentiu. — Voltaremos para nossa nave, obrigado novamente por...
–Sua nave está longe? — interrompeu o apressado garoto. Em volta deles,
vendedores fechavam portas e janelas, carregando mercadorias e produtos para
dentro, cobrindo caixas e expositores.
–Está nos arredores da cidade — respondeu Padmé, tentando se livrar dos
golpes de areia.
Anakin lhe tomou a mão rapidamente, puxando-a. — Vocês nunca chegarão lá a tempo. As
tempestades de areia são muito, muito perigosas. Venham comigo. Podem esperar em
minha casa. Não é longe. Minha mãe não se importará. Rápido!
Com o vento uivando ao redor e o ar formando nuvens de poeira, Anakin Skywalker gritou
até logo para Jira e levou o grupo recém-adotado pela rua.
Nos arredores de Mos Espa, Obi-Wan Kenobi estava de pé próximo ao nariz do Nubian
enquanto o vento ganhava força, chicoteando seu manto e varrendo toda a expansão do
deserto de Tatooine.
Seus olhos preocupados observavam Mos Espa a distância, enquanto a cidade começava a
desaparecer atrás de uma cortina de areia. Ele se voltou quando o capitão Panaka desceu a
rampa da nave para se juntar a ele.
–Essa tempestade vai atrasá-los — observou o Jedi apreensivo. Panaka assentiu. —
Parece bem ruim. Melhor selarmos a nave antes que a situação piore.
O eomlink do capitão deu um sinal. Panaka puxou o comunicador do cinto. — Sim?
Ouviram, então, a voz de Ric Olié. — Estamos recebendo uma mensagem de casa.
Panaka e Obi-Wan se entreolharam. — Já vamos. — Disse o capitão.
Eles subiram a rampa rapidamente, fechando-a atrás de si. A transmissão havia sido
recebida nos aposentos da rainha. Sob a orientação de Ric Olié, encontraram a rainha e as
aias Eirtaé e Rabé assistindo a um holograma tremido de Sio Bibble cuja voz estava sendo
interrompida pela transmissão.
—...cortaram todo o suprimento de comida até seu retorno... índice de mortalidade
aumentando, catástrofes... temos que obedecer, Alteza...
–A voz e a imagem de Sio Bibble desapareceram. A rainha fitava o espaço vazio com
a face perturbada. Suas mãos se moviam calmamente no colo, traindo o nervosismo
que não conseguia esconder.
Seu olhar se voltou para Obi-Wan. O Jedi sacudiu a cabeça rapidamente. — E um truque.
Não envie nenhuma resposta, Alteza. Não envie nenhum tipo de transmissão.
A rainha olhou para ele em dúvida por um momento e, então, concordou com a cabeça.
Obi-Wan deixou seus aposentos sem mais comentários, desejando ardentemente ter
tomado a decisão correta.
A tempestade de areia rasgava as ruas de Mos Espa com um vento cortante que rasgava
as roupas e deixava a pele à mostra com força implacável. Anakin segurava a mão de
Padmé para não perdê-la, com o fazendeiro, a criatura anfíbia e a unidade R2 seguindo
atrás, todos lutando para chegar à casa de Anakin enquanto ainda havia tempo. Outros
visitantes e moradores passavam por eles, também lutando, as cabeças baixas, os rostos
cobertos, os corpos curvados como se levassem o peso da idade. Em algum lugar a
distância, um eopie mugia assustado.
A luz havia adotado uma tonalidade incomum de amarelo acinzentado, obscurecida pela
areia e pelas partículas de pó, e os prédios da cidade desapareciam em uma profunda e
impenetrável neblina.
Mesmo enquanto lutava através da tempestade, os pensamentos de Anakin estavam
voltados para outra coisa. Ele pensava em Padmé, na chance de levá-la para conhecer sua
mãe e de poder lhe mostrar seus projetos, segurando suas mãos um pouco mais. Isso lhe
provocou uma sensação pelo corpo que era ao mesmo tempo gostosa e amedrontadora.
Aquilo o fez se sentir bem. Ele também pensava no fazendeiro — se era aquilo mesmo
que ele era, algo que Anakin estava certo de que não. Ele carregava um sabre de luz, e só
Jedi carregavam sabres de luz. Era demais esperar que um Jedi de verdade fosse a sua
casa visitá-la. Mas o instinto de Anakin lhe dizia que estava certo, e que algo misterioso e
excitante havia trazido aquele pequeno grupo até ele. Por último, ele pensava em seus
sonhos e nas esperanças para ele e sua mãe, pensando que, talvez algo maravilhoso
aconteceria desse encontro inesperado, algo que mudaria sua vida para sempre.
Eles chegaram aos aposentos dos escravos, uma coleção de choupanas montadas umas
sobre as outras lembrando formigueiros, cada conjunto interligado por paredes comuns e
por escadarias, e a praça em frente quase vazia enquanto o vento chicoteava os
passantes. Anakin levou seus protegidos através da escuridão até a porta da frente de sua
casa e entrou.
–Mãe, mãe! cheguei! — ele chamava excitado.
As paredes eram de tijolo, esbranquiçadas e polidas, com um brilho fosco em meio à luz
escurecida da tempestade que entrava pelas janelas em forma de arco. Eles pararam no
aposento principal, um pequeno espaço dominado por uma mesa e cadeiras. Uma cozinha
ocupava um lado da parede e uma área para trabalhos ocupava o outro.
Aberturas levavam a recantos menores e aos quartos de dormir. Do lado de fora, o vento
batia as portas e janelas, levantando camadas do revestimento da superfície dos muros.
Jar Jar Binks olhava em volta num misto de alívio e surpresa. — Isso aconchegante —
murmurou.
A mãe de Anakin entrou passando as mãos no vestido. Vinha de uma área de trabalho
localizada do outro lado da casa. Era uma mulher de quarenta anos, o cabelo castanho
comprido puxado para trás de seu rosto envelhecido, as roupas simples. Ela havia sido
bonita e Anakin diria que ainda o era, mas o tempo e as exigências da vida a
desgastavam. O sorriso era caloroso e jovial enquanto saudava o filho, mas desapareceu
quando avistou as pessoas atrás de Anakin.
–Oh! — ela exclamou suavemente, olhando incerta para cada rosto. — Annie, o que é
isso?
Anakin se iluminou. — São meus amigos, mãe. — Ele sorriu para Padmé. — Esta é Padmé
Naberrie. E este é... — Ele parou. — Xi, acho que não sei o nome de vocês — admitiu.
Qui-Gon deu um passo. — Sou Qui-Gon e este é Jar Jar Binks. — Ele apontou o Gungan,
que fez um gesto nervoso com as mãos. A unidade R2 fez um bip.
–E nosso dróide, Erredois-Dêdois — completou Padmé — Estou construindo um
dróide — Anakin anunciou rapidamente, ansioso por mostrar seu projeto a
Padmé. — Quer ver?
–Anakin! — a voz de sua mãe o deteve. Seu rosto decidido. — Anakin, por que
eles estão aqui?
Ele olhou para a mãe confuso. — Há uma tempestade, mãe. Ouça. Ela olhou para a porta
e, então, foi à janela. O vento zunia: um rio de areia e partículas.
–Seu filho foi gentil nos oferecendo abrigo — explicou Qui-Gon.
–Nos conhecemos na loja onde ele trabalha.
–Venha! — insistiu Anakin, tomando Padmé pela mão. — Deixe- me mostrar
meu dróide.
Ele levou Padmé para seu quarto, começando uma explicação detalhada sobre o que estava
fazendo. A garota seguiu sem argumentar, ouvindo interessada. R2-D2 os acompanhou,
fazendo bips em resposta às palavras do menino.
Jar Jar ficou onde estava, olhando em volta, parecendo querer que alguém lhe dissesse o
que fazer. Qui-Gon permaneceu olhando para a mãe do garoto num silêncio desconfortável.
Grãos de areia batiam no vidro grosso das janelas com um som rápido e oco.
–Sou Shmi Skywalker — ela disse, estendendo a mão. — Anakin e eu estamos felizes
em tê-los como hóspedes.
Qui-Gon já havia analisado a situação e determinado o que era necessário. Ele pôs a mão
por baixo do poncho e tirou cinco cápsulas pequenas de uma bolsa no cinto. — Sei que isso
é inesperado. Pegue.
Há o suficiente para uma refeição.
Ela aceitou as cápsulas. — Obrigada. — Seus olhos levantaram e baixaram novamente. —
Muito obrigada. Desculpe se fui rude. Eu acho que nunca me acostumarei às surpresas de
Anakin.
–Ele é um garoto muito especial — disse Qui-Gon.
Os olhos de Shmi se ergueram novamente e o olhar que dirigiu a Qui-Gon sugeria que eles
dividiam um importante segredo.
–Sim — ela disse suavemente — Eu sei.
Em seu quarto, Anakin estava mostrando C-3PO a Padmé. O dróide estava sobre a tábua
de trabalho, desativado naquele momento porque o menino estava trabalhando em sua pele
de metal. Ele havia completado a fiação interna, mas o dorso, braços e pernas ainda
estavam descobertas. Um olho estava fora da cabeça também, caído no canto onde o
menino havia deixado na noite anterior, depois de acoplar o refrator visual.
Padmé se inclinou sobre seu ombro, examinando o dróide cuidadosamente.
–Ele não é ótimo? — Anakin perguntou ansioso para saber a reação dela. —
Ainda não está pronto, mas estará logo.
–Ele é maravilhoso — a garota respondeu verdadeiramente impressionada.
O garoto enrubesceu orgulhoso. — Gosta mesmo dele? Ele é um dróide de protocolo... para
ajudar minha mãe. Veja!
Ele ativou C-3PO com um toque em seu botão e o dróide se sentou imediatamente. Anakin
procurava em sua mesa apressado pelo olho que faltava, encaixando-o no lugar certo. C-
3PO olhou para eles. — Como vai? Sou um dróide de protocolo treinado e adaptado a
aspectos robóticas... tradições e...
–Opa! — disse Anakin rapidamente — ele está um pouco confuso. Ele pegou
uma ferramenta longa com um designador eletrônico e o encaixou
cuidadosamente em um setor da cabeça de C-3PO, então, atarraxou com a
ferramenta, checando o ajuste. Quando estava como queria, ele puxou um
botão. C-3PO balançou várias vezes em resposta. Quando Anakin removeu o
designador, o dróide ficou de pé na mesa e olhou para Padmé.
–Como vai? Sou Ce-Trêspeo, relações humano-cyborg. Em que posso servir?
Anakin encolheu os ombros. — Eu o dei um nome outro dia, mas me esqueci de codificá-la
em seu banco de memória para que ele pudesse se apresentar sozinho.
Padmé sorriu para Anakin deliciada. — Ele é perfeito!
R2-D2 se aproximou emitindo uma série de bips; clicks e assobios. C-3PO olhou para ele
curiosamente. — Perdão... como disse, estou pelado?
R2-D2 fez um bip de novo.
–Nossa mãe! Que vergonha! — C-3PO olhou rapidamente para seus membros
expostos. — Minhas partes estão aparecendo? Nossa mãe!
Anakin apertou os lábios. — Mais ou menos. Mas não se preocupe, vou consertar isso logo.
— Ele colocou o dróide deitado na mesa, olhando para Padmé por cima dos ombros. —
Quando a tempestade acabar, você vai ver meu carro de corrida. Estou construindo um
carro de Pod. Mas Watto não sabe. E segredo. Padmé sorriu. — Tudo bem. Sou muito boa
em guardar segredos. A tempestade continuou pelo resto do dia, engolindo Mos Espa, a
areia vinda do deserto se empilhava contra os prédios fechados, formando rampas contra
as portas e muros, escurecendo o ar e impedindo a luz. Shmi Skywalker usou as cápsulas
alimentares oferecidas por Qui-Gon para o jantar. Enquanto preparava a refeição e
enquanto Padmé estava com Anakin no quarto, Qui-Gon se moveu para um canto de onde
ligou para Obi-Wan de seu comlink. A conexão estava ruim, mas conseguiram
comunicação suficiente para que o Mestre Jedi soubesse da transmissão recebida de
Naboo.
–Você tomou a decisão correta, Obi-Wan — ele garantiu a seu jovem pupilo,
mantendo a voz baixa.
–A rainha está muito aborrecida — o outro informou, e sua resposta foi ouvida
em meio à tempestade.
Qui-Gon olhou para onde Shmi estava de costas, cozinhando. — Aquela transmissão teve a
intenção de nos rastrear. Tenho certeza.
–Mas... e se o governador Bibble estiver dizendo a verdade e o povo Naboo estiver
morrendo?
Qui-Gon suspirou. — De qualquer forma, temos pouco tempo — ele disse baixinho e
concluiu a transmissão.
Eles se sentaram para comer um pouco depois, a tempestade uivando sem cessar,
emoldurando sinistramente o silêncio dentro da casa. Qui-Gon e Padmé ocuparam as
pontas da mesa, enquanto Anakin, Jar Jar e Shmi se sentaram aos lados. Anakin, como
todo garoto pequeno, começou a contar sobre sua vida como escravo, sem se sentir
envergonhado disso, enxergando aquilo apenas como um fato de sua vida que estava
ansioso para compartilhar como os novos amigos.
Shmi, mais defensiva sobre a situação do filho, tentava expressar aos convidados a
gravidade de sua situação.
–Todos os escravos possuem transmissores dentro do corpo — Shmi explicava.
–Tenho trabalhado num scanner para tentar achá-los, mas até agora nada —
disse Anakin solenemente.
Shmi sorriu. — Qualquer tentativa de fuga...
–...e eles te explodem! — concluiu o menino. — Pou!
Jar Jar havia se mantido satisfeito tomando sua sopa, sem prestar muita atenção na
conversa enquanto devorava o alimento delicioso.
Ele ouviu o que o menino disse e fez um barulho tão alto que a conversa parou. De
repente, todos os olhos se voltaram para ele. Ele baixou a cabeça envergonhado e fingiu
não perceber.
Padmé se voltou para Shmi. — Não posso acreditar que ainda se permite escravidão nesta
galáxia. As leis antiescravocratas da República deviam...
–A República não existe por aqui — interrompeu Shmi rapidamente, com a voz dura.
— Temos que sobreviver por nossa conta.
Houve um silêncio desconfortável enquanto Padmé olhava para outro lado, sem saber o que
dizer.
–Você já viu uma corrida de Pod? — perguntou Anakin, tentando aliviar seu
desconforto.
Padmé fez que não. Ela lançou um olhar para Shmi, notando a súbita preocupação no rosto
marcado. Jar Jar lançou a língua para um bocado de comida no fundo da panela no outro
lado da mesa, agilmente puxando-o para fora, arrastando para si, engolindo-o e fazendo
barulhinhos com o lábio — satisfeito. Um olhar reprovador de Qui-Gon o silenciou.
–Eles tem corridas de Pod em Malastare — observou o Mestre Jedi. — Muita
velocidade, muito perigo.
Anakin sorriu — Sou o único humano que faz isso! — um olhar duro de sua mãe varreu o
sorriso de sua face. — Mãe, o que foi? Não estou contando vantagem. E verdade! Watto
diz que nunca soube de um humano que fizesse isso.
Qui-Gon o estudou cuidadosamente. — Se pilota Pods, você deve ter reflexos de Jedi.
Anakin sorriu largamente ao elogio. A língua de Jar Jar já estava se voltando para a panela
numa tentativa de pegar outro pedaço, mas desta vez Qui-Gon estava esperando. Sua mão
se moveu rápido e, num piscar de olhos, ele havia segurado a língua de Jar Jar entre o
polegar e o indicador. Jar Jar congelou, sua boca aberta, sua língua esticada e os olhos
arregalados.
–Não faça isso de novo — Qui-Gon aconselhou com um tom ameaçador em sua voz
suave.
Jar Jar tentou dizer algo, mas o que saiu foi um murmúrio ininteligível. Qui-Gon soltou a
língua do Gungan, que a pôs de volta no lugar. Jar Jar massageou magoado sua boca
bicuda.
Anakin ergueu sua face jovem para o homem mais velho e disse com a voz hesitante. —
Você é um Cavaleiro Jedi, não é? Houve um longo silêncio enquanto os dois se encaravam.
— O que o faz pensar assim? — perguntou Qui-Gon finalmente. Anakin engoliu. — Vi seu
sabre de luz. Só Cavaleiros Jedi carregam esse tipo de arma.
Qui-Gon continuou a fitá-la, então, se encostou de volta em sua cadeira e sorriu. — Talvez
eu tenha matado um Jedi e roubado dele.
Anakin balançou a cabeça. — Não acho, ninguém pode matar um Jedi.
O sorriso de Qui-Gon desapareceu e havia tristeza em seus olhos escuros. — Gostaria que
fosse assim...
–Sonhei que era um Jedi — disparou o menino, ansioso para falar sobre o assunto. —
Eu voltei para cá e libertei todos os escravos. Tive esse sonho há poucos dias, quando
estava no deserto. — Fez uma pausa com sua face jovem ansiosa. — Você veio nos
salvar?
Shmi ia dizer algo, talvez ralhar com o filho por sua ousadia, mas Qui-Gon falou antes,
debruçando-se sobre ele, em tom conspiratório.
–Posso ver que você não é nada bobo, Anakin. Mas você não pode contar a ninguém
sobre nós. Estamos a caminho de Coruscant, o sistema central da República, numa
missão muito importante. E secreta.
Os olhos de Anakin se arregalaram. — Coruscant? Uau! Como acabou neste fim de
mundo?
–Nossa nave foi danificada. — Respondeu Padmé. — Estamos presos aqui até
consertá-la.
–Eu posso ajudar! — exclamou o menino, ansioso por ajudá-los.
–Posso consertar qualquer coisa!
Qui-Gon sorriu de seu entusiasmo. — Acredito que pode, mas nossa principal tarefa, como
viu em nossa visita a Watto, é achar as peças de que precisamos.
Padmé olhava para Qui-Gon especulativamente. — Esses negociantes de sucata devem
possuir alguma fraqueza.
–Jogo — disse Shmi imediatamente. Ela levantou e começou a limpar a mesa. — Tudo
em Mos Espa circula em volta das apostas naquelas horríveis corridas de Pod.
Qui-Gon levantou, indo até a janela, e olhou para fora através do vidro difuso. — Corridas
de Pod — murmurou. — A cobiça pode ser uma grande aliada, se usada corretamente.
Anakin se levantou de um salto. — Eu construí um carro! — declarou triunfante. Sua face
de garoto brilhava orgulhosa. — E o mais rápido que já existiu! Haverá uma corrida depois
de amanhã em Boonta Eve. Você pode usar meu Pod! Está quase pronto.
–Anakin, se acalme! — repreendeu a mãe, interrompendo-o. Os olhos dela
estavam preocupados. — Watto não vai deixá-la correr!
–Watto não tem que saber que o carro é meu! — replicou o garoto, sua mente
resolvendo o problema. Voltando-se para QuiGon — você pode fazer com que pense que o Pod é seu! Você pode fazer Watto me deixar
pilotar para você!
O Mestre Jedi tinha captado os olhos de Shmi. Ele encontrou o olhar dela que,
silenciosamente, expressava preocupação e esperou paciente por sua resposta.
–Não quero que corra, Annie. — Ela disse baixinho, sacudindo a cabeça para enfatizar
suas palavras. — E horrível. Eu morro cada vez que Watto manda você fazer isso.
Todas as vezes.
Anakin mordeu os lábios. — Mas, mãe, eu adoro! — Ele gesticulou para Qui-Gon. — E eles
precisam da minha ajuda. Estão com problemas. O dinheiro do prêmio vai ser mais que
suficiente para pagar as peças que precisam.
Jar Jar assentiu em apoio. — Nós estar na encrenca.
Qui-Gon caminhou até Anakin e o fitou. — Sua mãe está certa. Vamos nos esquecer do
assunto. — Ele manteve o olhar em Anakin por alguns momentos, então, se voltou para a
mãe do menino. — Sabe de algum simpatizante da República que possa nos ajudar?
Shmi ficou em silêncio, imóvel como se pensando no assunto. Então balançou a cabeça em
negativa.
–Temos que ajudá-los, mãe — insistiu Anakin, sabendo estar com razão e que ele
estava destinado a ajudar o Jedi e seus amigos. — Lembra-se do que disse? Você
disse que o maior problema do Universo é que ninguém se ajuda.
Shmi suspirou. — Anakin, não...
–Mas você disse, mãe. — O garoto se recusava a recuar, mantendo os olhos fixos na
mãe.
Shmi Skywalker não disse nada desta vez: a testa franzida e o corpo imóvel.
–Tenho certeza de que Qui-Gon não quer colocar seu filho em perigo. — Interrompeu
Padmé repentinamente, sentindo-se desconfortável com o confronto entre mãe e filho
e tentando suavizar a tensão. — Acharemos outra forma...
Shmi olhou para a moça e sacudiu a cabeça vagarosamente. — Não, Annie está certo. Não
há outro jeito. Posso não gostar disso, mas ele pode ajudar vocês. — Ela parou. — Talvez
ele esteja destinado a ajudá-los.
Ela disse aquilo como se fosse algo que havia sido até então um mistério para ela, como
se descobrisse uma verdade que, apesar de dolorosa, era óbvia.
A face de Anakin se iluminou. — Isso é um sim? — Ele bateu palmas de alegria. — Isso é
um sim!
A noite cobria o céu de Coruscant, vestindo o horizonte sem fim em espirais de veludo
negro. Luzes brilhavam das janelas, como pontos brilhantes contra o negro. Até onde a
vista alcançava, até o ponto onde uma criatura podia viajar, os edifícios da cidade
saltavam como agulhas de liga de metal e vidros refletores. Tempos atrás, a cidade havia
consumido o planeta com seu tamanho e, agora, havia apenas uma cidade — o centro da
galáxia, o coração do poder da República.
Um poder que alguns queriam acabar de uma vez por todas. Um poder que alguns
desprezavam.
Darth Sidious estava de pé no alto de uma sacada com vista para Coruscant, seu manto
negro fazendo-o parecer uma criatura da noite. Ele ficou olhando a cidade, os olhos
dirigidos para as luzes e para o movimento calmo do tráfego aéreo, sem prestar atenção
ao aprendiz a seu lado, Darth Maul.
Seus pensamentos estavam na história do Sith e sua Ordem.
O Sith surgira quase dois mil anos atrás. Eles eram um culto ao lado negro da Força,
acatando totalmente o conceito de que poder negado é poder desperdiçado. Um Cavaleiro
Jedi trapaceiro fundou o Sith, ele foi um dissidente de uma Ordem harmoniosa de
seguidores, um rebelde que entendeu imediatamente que o real poder da Força não estava
na luz, mas na escuridão. Sem sucesso em suas tentativas de obter apoio do Conselho, ele
quebrou a Ordem, saindo com suas habilidades e conhecimentos, jurando em silêncio que
derrotaria aqueles que o rejeitaram.
Ele estava sozinho no início, mas outros da Ordem Jedi que acreditavam nele o seguiram
em seus estudos sobre o lado negro da Força. Outros foram recrutados e, logo, o número
de participantes do grupo aumentou para mais de cinqüenta. Desprezando o conceito de
cooperação e consenso e baseados na crença de que aquisição de poder de qualquer forma
gera mais força e controle, os Sith passaram a construir seu culto em oposição aos Jedi.
Sua Ordem não foi criada para servir; sua Ordem foi feita para dominar.
A luta contra os Jedi era uma vingança feroz e predestinada. O Jedi trapaceiro que fundou
a Ordem dos Sith era considerado como seu líder, mas sua ambição excluiu quaisquer
divisões de poder. Seus discípulos passaram a conspirar entre si e contra ele praticamente
desde o início, provocando guerras instigadas não somente entre os membros do grupo
com também contra seu líder.
No final, os Sith se destruíram. Destruíram primeiro seu líder, depois cada membro. Os
poucos que sobraram do banho de sangue eram rapidamente eliminados por Jedi. Em
questão de semanas, todos estavam mortos.
Todos menos um.
Darth Maul mudou de posição impaciente. O Sith mais jovem ainda não havia aprendido a
paciência de seu Mestre; isso viria com o tempo e treinamento. Foi a paciência que salvou
a Ordem Sith no final. Era a paciência que lhes daria a vitória final sobre os
Jedi.
O Sith que sobreviveu quando todos os outros morreram entendeu isso. Ele adotou a
paciência como uma virtude quando outros a abandonaram. Ele havia adotado astúcia,
segredo e subterfúgio como fundamentos próprios — virtudes Jedi antigas que os outros
desprezaram. Ele ficou de lado, enquanto os Sith se dividiram e foram destruídos. Quando
a carnificina terminou, ele aguardou escondido, ganhando tempo e esperando por sua
chance.
Quando se pensava que todos os Sith estavam destruídos, ele emergiu de seu esconderijo.
No começo, trabalhou sozinho, mas estava envelhecendo e era o último Sith.
Eventualmente, saiu em busca de um aprendiz. Tendo encontrado um, ele o treinou para
ser um Mestre e, mais tarde, encontrar um aprendiz, dando continuidade assim a seu
trabalho. Mas somente deveria haver dois de cada vez. Não seriam repetidos os mesmos
erros da Ordem antiga, não haveria lutas entre Siths pelo poder dentro do culto. Seus
inimigos comuns eram os Jedi, não um ao outro. Era por causa de sua guerra contra os
Jedi que precisavam viver.
O Sith que reinventou a Ordem se autodenominava Darth Bane. Mil anos haviam se
passado desde que os Sith foram dados como destruídos e o tempo que vinham esperando
havia finalmente chegado.
–Tatooine é pouco habitado. — A voz dura de seu aluno interrompeu seus
pensamentos, e Darth Sidious ergueu os olhos para o holograma. — Os Hutts
governam. A República não está presente.
Se a pista está correta, Mestre, eu os encontrarei rapidamente e sem impedimentos.
Os olhos amarelos brilharam em excitamento e antecipação em meio ao estranho mosaico
na face de Darth Maul enquanto aguardava impacientemente por uma resposta. Darth
Sidious estava satisfeito.
–Ataque os Jedi primeiro — disse suavemente, — então, não terá nenhuma dificuldade
em trazer a rainha de volta a Naboo, onde assinará o tratado.
Darth Maul exalou secamente. A satisfação clara em sua voz. — Finalmente, vamos nos
revelar aos Jedi. Finalmente, nos vingaremos.
–Você foi bem treinado, meu jovem aprendiz — Darth Sidious acalmou. — Os Jedi não
serão adversários à sua altura. E muito tarde para nos deterem agora. Tudo está
saindo conforme o planejado. A República logo estará sob meu controle.
No silêncio que se seguiu, o Sith Lord podia sentir um calor negro levantar-se dentro de
seu peito, consumindo-o com um prazer feroz.
Na casa de Anakin Skywalker, Qui-Gon Jinn estava parado silenciosamente à porta do
quarto do menino observando-o dormir. Sua mãe e Padmé ocupavam o outro quarto, e Jar
Jar Binks, curvado em posição fetal, roncava alto na cozinha.
Mas Qui-Gon não conseguia dormir. Era esse garoto, esse garoto! Havia algo nele. O
Mestre Jedi observava o suave subir e descer do peito do menino enquanto dormia
pesadamente sem saber da sua presença. O garoto era especial, ele havia dito a Shmi
Skywalker e ela concordou. Ela sabia também. Ela sentia isso como ele. Anakin Skywalker
era diferente.
Qui-Gon levantou o olhar para uma janela escura. A tempestade havia diminuído, o vento
enfraquecido. Tudo estava quieto, a noite agradável e em paz. O Mestre Jedi pensou por
um momento em sua própria vida. Ele sabia o que se falava sobre ele no Conselho. Ele era
obstinado, precipitado até em suas escolhas. Ele era forte, mas dissipa-va essa força em
causas que não mereciam sua atenção. Mas as regras não foram feitas somente para
governar o comportamento. As regras foram criadas para servir como um mapa para o
entendimento da Força. Não era carreto para ele dobrar essas regras quando sua consciência lhe dizia que devia?
O Jedi dobrou os braços sobre o peito largo. A Força era um conceito complexo e difícil. A
Força estava enraizada no equilíbrio de todas as coisas, e todo movimento dentro de seu
fluxo arriscava um desequilíbrio nessa harmonia. Um Jedi busca manter o equilíbrio,
movendo-se em consonância com seu ritmo e desejo. Mas a Força existia em mais de um
nível, e adquirir maestria em suas múltiplas passagens era trabalho para uma vida. Ou
mais. Ele conhecia suas próprias fraquezas. Ele esteve muito próximo da Força da vida
quan-do devia ter sido mais atento à Força unificadora. Ele se importou em encontrar
pessoas do presente, aquelas vivendo aqui e agora. Ele se interessou menos com o
passado ou com o futuro, ou com as criatu-ras que haviam ou iriam ocupar aqueles
tempos e espaços.
Foi a Força da vida que o cativou, que lhe deu coração, mente e espírito.
Por isso, ele compreendia Anakin Skywalker de uma maneira que outros Jedi
desencorajariam, vendo nele uma promessa que não podia ignorar. Obi-Wan veria o garoto
e Jar Jar sob a mesma luz - cargas inúteis, projetos sem sentido, distrações
desnecessárias. Obi-Wan estava preso à necessidade de focalizar no quadro maior, na
Força unificadora. A ele faltava a natureza intuitiva de Qui-Gon. Ele não possuía o
interesse e compaixão de seu Mestre por todas as criaturas vivas. Ele não via as mesmas
coisas que Qui-Gon enxergava.
Qui-Gon suspirou. Não eram críticas, somente observações. Quem deveria dizer qual era o
melhor baseado na forma com que cada um interpretava as demandas da Força? Mas isso,
às vezes, os colocava em desacordo e, na maioria das vezes, o Conselho apoiava a
posição de Obi-Wan, não a de Qui-Gon. Seria assim novamente, ele sabia. Muitas vezes.
Mas isso não o impediria de fazer aquilo que acreditava que devia fazer. Ele descobriria a
verdade sobre Anakin Skywalker. Ele descobria o lado dele dentro da Força, tanto viva
quanto unificadora. Ele descobriria o que aquele garoto estava destinado a se tornar.
Minutos mais tarde, ele estava estirado no chão, dormindo.


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