O novo dia amanheceu claro e brilhante, os sóis gêmeos de Tatooine ardiam em um céu
azul e claro. A tempestade de areia havia se deslocado para outras regiões, varrendo tudo
do horizonte com exceção das montanhas e rochas do deserto e das construções de Mos
Espa. Anakin estava de pé e pronto antes que seus hóspedes acordasssem, ansioso para ir
até a loja e avisar Watto de seus planos para a próxima corrida. Qui-Gon o aconselhou a
não ser tão impulsivo ao fazer sua sugestão ao Toydarian, mas, a ficar calmo e deixar
Qui-Gon fazer a barganha. Mas Anakin estava tão excitado que mal ouvia o que o outro
dizia. O Mestre Jedi sabia que lhe caberia empregar o necessário grau de astúcia e
diplomacia para atingir seus objetivos.
Ganância era a palavra para se lidar com Watto, claro, a chave que abriria qualquer porta
que o Toydarian mantivesse trancada. Eles deixaram os aposentos dos escravos,
caminhando através da cidade até a loja de Watto, Anakin à frente, Qui-Gon e Padmé logo
atrás, Jar Jar e R2-D2 na retaguarda. A cidade estava desperta e atarefada desde cedo, os
lojistas e feirantes cavando com pás e varrendo partículas e areia, remontando tendas e
barracas e consertando carroças e cercas quebradas. Copies e rontos faziam o trabalho
pesado nos casos onde puxadores e dróides não agüentavam. Vagões já arrastavam
suprimentos frescos e mercadorias vindas de depósitos e contêineres de estocagem, e as
plataformas do porto espacial voltavam a dar boas-vindas às naves oriundas de outros
planetas.
Qui-Gon deixou Anakin ir à frente até a loja quando se aproximaram para dar ao garoto
uma chance de falar com Watto sobre as corridas de Pod. Com os outros seguindo atrás,
Qui-Gon caminhou até uma barraca de frutas do outro lado da rua, convencendo o vendeiro
a dar-lhe uma dúzia de dweezels, procurando ganhar tempo. Quando as dweezels foram
consumidas, ele cruzou a praça com o grupo até à frente da loja de Watto. Jar Jar,
novamente inquieto com toda essa atividade, assumiu uma posição sobre um engradado
próximo à porta da loja, com as costas para a parede, seus olhos se dirigindo de um lado
para outro como se antecipando que algo horrível cairia sobre ele. R2-D2 ficou a seu lado,
emitindo bips suavemente, tentando assegurá-lo de que tudo estava bem.
Qui-Gon pediu a Padmé que se mantivesse atenta ao Gungan.
Ele não queria Jar Jar se metendo em mais encrencas. Ele estava prestes a entrar na loja
quando a garota colocou a mão em seu ombro.
–Tem certeza sobre isso? — ela perguntou, estampando uma dúvida clara em seus
olhos castanhos. — Entregando nosso destino nas mãos de um garoto que nem
conhecemos? — Ela franziu a testa lisa. — A rainha não aprovaria.
Qui-Gon encontrou seu olhar — A rainha não precisa saber.
Os olhos dela brilharam desafiantes. — Bem, eu não aprovo.
Ele lhe lançou um olhar inquisitivo, se afastando em silêncio. Dentro da loja de sucatas, ele
encontrou Watto e Anakin envolvidos em uma discussão acalorada, o Toydarian flutuava a
centímetros do rosto do garoto, suas asas azuis se movendo com confusão, a tromba
curvada para dentro enquanto gesticulava grosseiramente com as mãos.
–Patta go bolla! — gritava em huttese, seu corpo rechonchudo sacudindo com a força
de suas palavras.
O menino piscou, mas manteve sua posição. — No batta!
–Peedunkel! — Watto flutuava para trás e para frente, para baixo e para cima,
tudo se movendo de uma só vez.
–Banjo, banjo! — gritou Anakin.
Qui-Gon se moveu da entrada escura para perto da luz onde podiam vê-la claramente.
Watto se afastou de Anakin imediatamente, com sua boca cheia de dentes trabalhando,
voando até Qui-Gon num frenesi de excitamento mal disfarçado.
–O menino diz que deseja patrociná-la na corrida de amanhã! — as palavras
explodiam de dentro dele. — Você não pode pagar por peças! Como pode colocá-la na
corrida? Não com créditos republicanos, acho!
Ele rompeu numa gargalhada, mas Qui-Gon não perdeu o brilho de curiosidade em seus
olhos.
–Minha nave entrará de graça — informou o Jedi asperamente.
Ele pôs a mão por baixo do ponche e tirou um pequeno holoprojetor. Clicando no botão de
energia, projetou um holograma do transportador da rainha no ar em frente a Watto. O
Toydarian flutuou mais perto, estudando cuidadosamente a projeção.
–Nada mal, nada mal. — Disse ele. — Um Nubian.
–Está em boas condições, exceto pelas peças que precisamos. — Qui-Gon lhe
deu mais um momento, então, desligou o holoprojetor e o guardou novamente
em baixo do ponche.
–Mas o que o garoto vai pilotar? — demandou Watto irritado. — Ele arrebentou
meu Pod na última corrida Vai levar muito tempo para consertar.
Qui-Gon lançou um olhar a Anakin, que estava claramente envergonhado. — Ah, não foi
minha culpa, de verdade. Sebulba me empurrou. Eu na verdade salvei o Pod... a maior
parte.
Watto riu cruelmente. — Isso ele fez. O garoto é bom, sem dúvida! — Ele balançou a
cabeça. — Mas ainda assim...
Eu consegui um Pod num jogo de azar — Qui-Gon interrompeu suavemente, trazendo a
atenção do outro para si. — O mais veloz já construído.
Ele não olhou para Anakin, mas imaginou a expressão do rosto do menino.
–Espero que não tenha matado ninguém que conheço por ele. — Watto disparou.
Ele explodiu novamente na gargalhada antes de se controlar. — Então você
fornece o carro e a entrada gratuita; eu forneço o garoto. Dividimos o prêmio
meio a meio, acho.
–Cinqüenta e cinqüenta? — Qui-Gon varreu a sugestão. — Se é para ser
cinqüenta e cinqüenta, sugiro que você pague a entrada.
Se ganharmos, você fica com tudo, menos o custo das peças que preciso.
Se perdermos, você fica com minha nave.
Watto foi claramente surpreendido. Ele pensou — com suas mãos esfregando a tromba e
as asas batendo com um ruído de abelhas. A oferta era boa demais, e ele estava
desconfiado. Pelo canto do olho, Qui-Gon viu Anakin olhar para ele nervoso.
–Você ganha de qualquer jeito — falou Qui-Gon suavemente. Watto bateu seu pulso na
palma da mão aberta. — Feito! — ele virou para o garoto rindo. — Seu amigo fez um
mau negócio, garoto!
Melhor ensiná-lo o que sabe sobre negociar peças!
Ele ainda estava gargalhando quando Qui-Gon deixou a loja. Qui-Gon reuniu Padmé, Jar Jar,
e R2-D2 e pediu a Anakin que se juntasse a eles após ser liberado por Watto para que
pudesse trabalhar no carro de Pod. Dado que Watto estava mais interessado na corrida que
na loja, ele dispensou o menino imediatamente instruindo-o a verificar se estaria pilotando
um bom carro de corrida e não algum tipo de lixo espacial que faria todo mundo rir do
Toydarian por sua tola decisão de participar da corrida.
Anakin estava em casa um pouco antes dos outros, ansiosamente levando-os para onde o
projeto estava escondido: o pátio das acomodações dos escravos. O carro de Pod possuía
o formato de meio cilindro estreito com um leme para deslizamento acoplado em sua
parte traseira, com a cabine esculpida em seu topo curvado e com cabos de direção nas
laterais. Os motores de caça Sleek Radon-Ulzer com estabilizadores de ar puxavam o Pod
na ponta dos cabos Steelton. O efeito era de como se visse um besouro puxado por dois
banthas.
Trabalhando em grupo, eles ativaram as alavancas antigravidade e guiaram o Pod e seus
enormes motores para o pátio atrás da casa de Anakin. Com o incentivo de Padmé, Jar Jar
e R2-D2, o menino logo começou a preparar o Pod para a corrida.
Enquanto Anakin e seus companheiros estavam ocupados, Qui- Gon subiu ao alpendre da
casa, olhando em volta checando se estava sozinho e puxou o comlink para entrar em
contato com Obi-Wan. Seu pupilo atendeu prontamente, ansioso por notícias, e Qui-Gon o
informou sobre os últimos acontecimentos.
–Se tudo for bem, teremos um gerador hiperpropulsor amanhã à tarde e a
caminho — concluiu. O silêncio de Obi-Wan dizia tudo.
–E se esse plano, Mestre, falhar? Podemos ficar presos aqui ainda por um longo
tempo.
Qui-Gon voltou o olhar para as acomodações dos escravos e para os tetos dos prédios de
Mos Espa mais além, os sóis ardendo acima. — Uma nave sem uma fonte de energia não
nos levará a lugar algum. Não temos escolha.
Ele desligou o comlink e o guardou. — E há algo sobre esse garoto — murmurou para si
mesmo, deixando o pensamento inacabado.
Shmi Skywalker apareceu pela porta dos fundos e veio juntar-se a ele. Ficaram juntos
observando a atividade no pátio abaixo.
–Você deve estar orgulhosa do seu filho — disse Qui-Gon após um momento.
— Ele faz coisas sem pensar em recompensa. Shmi assentiu com um sorriso
em seu rosto desgastado. — Ele não sabe nada sobre a cobiça. Só sobre
sonhos. Ele possui...
–Poderes especiais.
A mulher o olhou apreensiva. — Sim.
–Ele pode ver coisas antes de acontecerem — continuou o Mestre Jedi. — Por isso
parece possuir reflexos tão rápidos. E um traço Jedi.
Os olhos dela estavam fixos nele, e ele percebeu o brilho de esperança neles. — Ele
merece mais que uma vida de escravo — ela disse baixinho.
Qui-Gon manteve o olhar fixo no pátio. — A Força é estranhamente forte nele, isso é
claro. Quem era seu pai?
Houve uma pausa longa, longa o suficiente para que o Mestre percebesse que fez uma
pergunta que ela não estava preparada para responder. Ele lhe deu tempo e espaço para
responder, sem pressioná-la, sem fazer parecer que era necessária uma resposta.
–Não há pai — ela disse finalmente. Ela sacudiu a cabeça vagarosamente. — Eu o
carreguei, dei à luz. Criei-o. Não posso lhe dizer mais que isso.
Ela tocou o braço dele, trazendo seus olhos para os dela. — Pode ajudá-la?
Qui-Gon permaneceu em silêncio por um longo tempo, pensando. Ele sentiu um elo com
Anakin que não conseguia explicar. No fundo, ele sentia que estava destinado a fazer algo
por aquele menino e que precisava tentar. Mas todo Jedi era identificado nos primeiros
seis meses de vida e entregues para o treinamento. Isso ocorreu com ele, com Obi-Wan,
com todos que conhecia ou de quem ouvira falar. Não havia exceções.
–Pode ajudá-la? — Ele não sabia se era possível.
–Não sei — disse ele, mantendo sua voz gentil, mas firme. — Não vim aqui
para libertar escravos. Se ele houvesse nascido na República, o teríamos
identificado cedo e ele poderia ter se tornado um Jedi. E assim. Não sei o que
posso fazer por ele.
Ela balançou a cabeça com resignação, mas seu rosto revelava, por trás da aceitação, um
brilho de esperança.
Enquanto Anakin apertava a fiação dos propulsores, um grupo de amigos dele apareceu. Os
meninos mais velhos eram Kitster e Seek, a menina mais nova era Amee e o Rodian era
Wald. Anakin interrompeu o trabalho para apresentá-los a Padmé, Jar Jar e R2-D2.
–Uau, um dróide astromecânico de verdade! — exclamou Kitster, assobiando. — Como
deu tanta sorte?
Anakin encolheu os ombros. — Isso não é nem a metade — se gabando. — Estarei
correndo em Boonta amanhã.
Kitster fez uma cara e puxou o mantinha de cabelo escuro. — O quê? Com isso?
–Aquela porcaria nunca saiu do chão — disse Wald, cutucando Amee. — E
piada, Annie.
–Você vem trabalhando nessa coisa há anos — observou Amee com o rosto
delicado torcido em desaprovação. Ele balançou o cabelo loiro. — Nunca vai
correr.
Anakin ia dizer algo para se defender, então, resolveu calar. Melhor deixar que pensassem
o que quisessem. Ele lhes mostraria.
–Venha, vamos jogar bola — sugeriu Seek, já se virando com uma expressão de
aborrecimento na voz. — Continue o trabalho, Annie, e vai acabar se dando mal.
Seek, Wald e Amee se retiraram correndo, rindo dele. Mas Kitster era seu amigo e sabia
que não devia duvidar quando Anakin dizia que faria algo. Por isso Kitster ficou, ignorando
os outros. — O que é que eles sabem? — disse baixinho.
Anakin lhe dirigiu um sorriso de apreciação. Então notou Jar Jar mexendo na placa do
projetor de energia do motor esquerdo, a fonte de energia que mantinha os motores juntos,
trabalhando em harmonia, e o sorriso desapareceu de seu rosto.
–Ei, Jar Jar! — gritou em advertência. — Fique longe desses projetores de energia!
O Gungan, debruçado sobre a placa, olhou para cima com ar culpado. — Quem, eu?
Anakin pôs as mãos nos quadris. — Se a corrente pegar a sua mão, você vai ficar
paralisado por horas.
Jar Jar contorceu a face, colocando as mãos atrás das costas e enfiou a cara comprida
novamente na placa. Quase instantaneamente uma corrente elétrica se desviou da placa
para sua boca, fazendo-o saltar em chocante surpresa. As duas mãos se fecharam sobre a
boca enquanto ele olhava incrédulo para o garoto.
–Isso paralisar! — gemeu Jar Jar, sua língua comprida dependurada.
–Minha língua estar inchada. Isto dói.
Anakin sacudiu a cabeça e voltou a trabalhar na fiação.
Kitster se aproximou dele, assistindo silenciosamente, com uma expressão intensa no
rosto escuro. — Você não sabe se isso vai correr, Annie — ele observou com uma careta.
Anakin não olhou para ele. — Vai funcionar.
Qui-Gon surgiu perto dele. — Acho que já é hora de descobrir. — Ele entregou ao menino
um cilindro pequeno e redondo. — Use esse pacote de energia. Peguei hoje cedo. Watto
tem menos necessidade disso que você. — O canto da boca dele torceu numa mistura de
divertimento e embaraço.
Anakin sabia o valor de um pacote de energia. Ele não tinha a mínima idéia de como o Jedi
havia conseguido pegar um debaixo do nariz de Watto. Nem tentou descobrir. — Sim,
senhor! - ele se iluminou.
Ele saltou para a cabine, ajustando o pacote de energia na abertura do painel de controle, e
colocou o ativador na posição ligada. Então colocou seu velho capacete de corrida e luvas.
Enquanto ele fazia isso, Jar Jar, que havia estado remexendo na traseira de uma dos
motores, teve sua mão pegada pelo maçarico. O Gungan ficou pulando aterrorizado, com a
língua ainda dormente pelo choque que recebeu nos projetores de energia, o bico batendo.
Padmé o avistou no último minuto — os braços dele rodando freneticamente — e o puxou
antes que os motores fossem ligados.
A chama explodiu dos maçaricos, e um ronco enorme saiu dos Radon-Ulzers, aumentando
regularmente até Anakin desligar os propulsares, voltando para um ronco leve. Os
espectadores aplaudiram maravilhados, e Anakin acenou com a mão em resposta.
Do alpendre de sua casa, Shmi Skywalker assistia em silêncio, com os olhos distantes e
tristes.
O crepúsculo trouxe um névoa de dourado e vermelho-carmim no rastro dos sóis que se
despediam, um esguicho de cores que varria graciosamente o horizonte de Tatooine. A
noite chegou, escurecendo o céu, trazendo as estrelas como fragmentos de cristal. No
negro profundo, a terra estava silenciosa e atenta.
Um vislumbre de metal brilhante pegou os últimos raios de sol, e um pequeno transporte
deixou o Mar das Dunas em direção a Mos Espa. Com nariz em formato de pá e pontas
em forma de lança, suas asas puxadas para trás e seus estabilizadores verticais
totalmente acoplados por dentro, o transporte abraçava a paisagem enquanto subia e
descia vales — procurando. Escuro e imutável, tinha a aparência de um predador, de um
caçador trabalhando.
Além do Mar das Dunas, seguindo a luz que diminuía de intensidade, a nave se posicionou
agilmente às bordas de um platô de onde se podia observar a área em todas as direções.
%anthas selvagens se assustaram com a aproximação, torcendo suas cabeças peludas e
os enormes chifres, uivando em protesto. A nave parou e os motores se acalmaram. E
permaneceu ali em silêncio — aguardando.
Então a parte traseira da nave se abriu, a escada metálica apareceu e Darth Maul desceu.
O Sith Lord havia descartado seu manto negro e vestia roupas do deserto folgadas, um
sobretudo com colarinho preso à cintura, seu sabre de luz pendurado a seu alcance. Os
chifres atrofiados, totalmente expostos com a remoção do capuz, formavam uma coroa de
maldade sobre sua estranha face vermelha e preta. Ignorando os banthas, ele foi até a
borda do platô, puxando um par de electrobinoculars de luz baixa, e começou a examinar o
horizonte em todas as direções.
Areia deserta e rochas, ele pensava. Terra imprestável. Mas uma cidade de um lado, outra
ainda. E lá, uma terceira.
Ele tirou os elecírobinoculars dos olhos. As luzes das cidades eram claramente visíveis
contra a escuridão. Se havia outras cidades, estavam do outro lado do Mar das Dunas,
onde ele já havia estado, ou além do horizonte muito mais distante, para onde ele seria
enviado mais tarde.
Mas os Jedi, ele acreditava, estavam ali.
Não havia expressão no mosaico de sua face, mas seus olhos amarelos brilhavam em
expectativa. Em breve. Breve.
Ele levantou o braço para acessar o painel de controle atado ao pulso, escolheu os
comandos que queria usar e estabeleceu os cálculos necessários à identificação do
inimigo. Cavaleiros Jedi manifestariam uma presença particularmente forte da Força.
Levou apenas um minuto. Ele voltou para a nave. Dróides de investigação, esféricos,
desceram, um por vez, através da escotilha. Após receberem orientação, partiram em
direção às cidades identificadas por ele.
Darth Maul observou enquanto eles se afastavam, a escuridão se fechando. Ele sorriu.
Breve. Então caminhou para a nave para começar o monitoramento das respostas deles.
A escuridão cobria Mos Espa em camadas profundas enquanto a noite caía. Anakin estava
sentado em silêncio no alpendre enquanto Qui-Gon examinava um corte profundo no braço
do menino. Anakin havia se cortado em algum momento durante o trabalho com o carro de
corrida e, como qualquer garoto, não havia nem notado até agora.
Anakin deu uma olhada de relance para o ferimento enquanto o Jedi se preparava para
limpá-la, então, se inclinou novamente para contemplar o manto negro de estrelas no céu.
–Não se mexa, Annie — instruiu Qui-Gon.
O garoto mal ouviu. — Há tantas! Todas elas possuem um sistema planetário?
–A maioria delas. — Qui-Gon arrumava um pedaço de pano limpo.
–Alguém já esteve em todas elas?
Qui-Gon riu. — Provavelmente não.
Anakin assentiu, ainda olhando para o alto. — Então quero ser o primeiro, o primeiro a
visitá-las todas. Ai!
Qui-Gon limpou o sangue do braço do garoto, depois aplicou um anti-séptico. — Aqui está,
bom como novo.
–Annie, hora de dormir! — chamou Shmi de dentro da casa. Qui-Gon puxou um chip do
comlink, colocando uma amostra do sangue de Anakin. O menino se inclinou
interessado. — O que está fazendo?
O Jedi mal olhou. — Vendo se há infecções.
Anakin fez uma careta. — Nunca vi...
–Annie — chamou a mãe, desta vez, mais insistente. — Não vou mandar
novamente!
–Vá — apressou Qui-Gon, gesticulando para a porta. — Você terá um grande
dia amanhã. — Ele pôs o pano no bolso da túnica.
–Boa noite.
Anakin hesitou, os olhos fixos no Mestre Jedi, intensos e questionadores. Então virou e
disparou para casa. Qui-Gon aguardou um momento, certificando-se de que estava só,
então, deslizou o chip com a amostra de sangue para dentro de uma fenda no comlink e
ligou para Obi-Wan.
–Sim, Mestre? — respondeu o pupilo, alerta apesar da hora.
–Estou transmitindo uma amostra de sangue — informou Qui- Gon, olhando ao
redor enquanto falava. — Faça um teste de midi- chlorian nela.
Ele enviou as amostras pelo comlink para Obi-Wan e aguardou em silêncio. Ele podia sentir
os batimentos de seu coração, rápidos e excitados. Se ele estivesse certo...
–Mestre — Obi-Wan interrompeu seus devaneios. — Deve haver algo errado com a
amostra.
Qui-Gon inspirou longamente e soltou devagar. — O que dizem os resultados, Obi-Wan?
–Dizem que a contagem de midi-chlorian é vinte mil. — A voz do Jedi mais jovem se
apertou. — Ninguém possuiu uma contagem tão alta. Nem mesmo Mestre Yoda.
Ninguém. Qui-Gon ficou imóvel na escuridão, paralisado pelo tamanho de sua descoberta.
Tenso, ele deixou seu olhar se fixar na cabana onde o menino dormia.
Shmi estava parada junto à porta, olhando para ele. Os olhares se cruzaram, e ele sentiu
por um instante o futuro lhe ser inteiramente revelado. Então Shmi se voltou para dentro
envergonhada.
Qui-Gon parou um momento, lembrando do comlink ainda aberto.
–Boa noite, Obi-Wan — disse suavemente e desligou o transmissor.
Era quase meia noite. Anakin Skywalker, sem conseguir dormir, escorregou da cama e se
dirigiu ao pátio para fazer uma checagem final no carro, dos controles, da fiação e das
fontes de energia — de tudo que podia se lembrar. Agora ele estava de pé, olhando para o
carro, tentando determinar o que faltava, o que poderia haver passado despercebido. Ele
não podia errar. Precisava certificar-se de que havia feito tudo o que podia.
Para que amanhã vencesse.
Porque precisava vencer.
Precisava.
Ele assistiu a R2-D2 trabalhando em volta do carro, aplicando tinta ao corpo do carro,
auxiliando por uma lâmpada colocada sob seus sensores de visão e pelos conselhos de C-
3PO. O menino havia ativado o dróide a pedido de Padmé. Muitas mãos fazem a luz
funcionar, ela disse solenemente, depois sorriu. C- 3PO não usava muito as mãos, mas
suas cordas vocais eram incansáveis. De qualquer modo, R2-D2 parecia gostar de tê-lo por
perto, trocando bips e clicks com seu amigo de protocolo enquanto trabalhava no carro. O
pequeno dróide astromecânico trabalhava incessantemente, alegremente e servilmente.
Nada o perturbava. Anakin o invejava. Dróides ou eram bem montados ou não. Diferente de
humanos, não respondiam ao desapontamento, preocupação ou medo...
Ele afastou rapidamente o pensamento e fitou o céu estrelado. Após um momento, sentou
com as costas apoiadas num engradado de peças velhas, seus óculos de proteção e o
capacete de corrida ao seu lado. Sem o que fazer, passou os dedos pela pequena escultura
que estava fazendo para Padmé. Seus pensamentos vaguearam. Ele não podia explicar,
mas sabia que os acontecimentos de amanhã mudariam sua vida. Aquela estranha
capacidade de ver coisas que os outros não viam e que, às vezes, lhe dava
pressentimentos sobre o futuro dizia-lhe isso. Ele sentia seu futuro se aproximar
apressadamente. Estava chegando rápido, não lhe dando tempo de pensar, erguendo-se
com a certeza do nascer do sol. O que viria? A pergunta se escondia nos confins de sua
mente, recusando-se a aparecer. Mudança, mas em que sentido? Qui-Gon e seus
companheiros eram os guardiões daquela mudança, mas ele não sabia nem mesmo se o
Mestre Jedi estava certo do resultado.
Talvez a liberdade que havia sonhado para ele e sua mãe, pensou esperançoso. Talvez uma
fuga para uma nova vida para ambos. Tudo era possível se vencesse o Boonta. Tudo
mesmo.
Aquele pensamento ainda dominava sua mente quando seus olhos fecharam e ele
adormeceu.
Anakin Skywalker sonhou naquela noite e, em seu sonho, ele tinha uma idade diferente,
mas indeterminada. Ainda era jovem, apesar de nem tanto quanto agora, mas velho,
também. Seus pensamentos foram iluminados por uma visão tão aterrorizante que não
conseguia se controlar para entendê-la, deixando-a, apenas, fora de alcance, fervendo num
fogo de ambição e esperança. Ele estava em um local e tempo desconhecidos, num mundo
que lhe era irreconhecível, uma paisagem que nunca vira. Era vaga e obscura no sonho,
plana e enrugada ao mesmo tempo, mudando com a velocidade de uma miragem nas
planícies desérticas de Tatooine.
O sonho estremeceu, e vazes o chamaram, suaves e distantes. Ele se voltou para elas,
afastando-se da onda escura que aparecia à sua frente, para longe do sono que lhe deu o
sonho de sua vida.
–Espero que já esteja quase pronto. — Ouviu Padmé dizer.
Mas Padmé estava à frente da onda negra de seus sonhos, e a onda era um exército,
marchando em sua direção...
R2-D2 assobiou e fez um bip, e C-3PO continuava fazendo afirmações ansiosas, dizendo
que tudo havia sido preparado, tudo pronto e continuava se movimentando agitadamente.
Uma mão lhe tocou as bochechas, acariciando-o suavemente, e o sonho desapareceu.
Anakin piscou desperto, esfregando os olhos, bocejando e se virando para o outro lado. Ele
não estava mais apoiado no engradado em que adormeceu na noite anterior, mas em sua
própria cama.
A mão foi retirada de suas bochechas, e Anakin viu o rosto de Padmé, um rosto que ele
achou tão lindo que sentiu a garganta apertada. Mesmo assim, continuava com os olhos
fixos nela, já que ela foi a figura central de seu sonho, diferente de agora, mais velha,
mais triste... e algo mais.
–Você estava no meu sonho — disse, engolindo com força para que as palavras
saíssem. — Você estava liderando um exército em batalha.
A garota olhou para ele maravilhada e, então, sorriu. — Espero que não. Detesto brigar. —
A voz dela era clara e alegre, disfarçando seu desinteresse de uma maneira que o
incomodou. — Sua mãe quer que se levante agora. Temos que partir em breve. Anakin se
levantou completamente desperto. Ele caminhou até a porta dos fundos e ficou olhando
para o formigueiro representado pelas acomodações dos escravos, para o alvoroço dos
escravos a caminho do trabalho e para o céu claro e brilhante que prometia tempo bom
para a corrida de Boonta Eve. O Pod estava à sua frente pendurado sobre os suportes
antigravidade, recém-pintado e brilhando à luz do sol. R2-D2 se movimentava ao redor com
um pincel e uma lata de tinta, finalizando o trabalho. C-3PO ainda o seguia, apontando
pedaços não- pintados, dando opiniões não-solicitadas e alguns conselhos.
O brusco resfolegar de um eopie o levou a olhar em volta dando com Kitster que vinha na
direção deles sobre uma das duas montarias que havia trazido para ajudar a transportar o
carro até a arena. A face escura de Kitster reluzia em expectativa, e ele acenou
ansiosamente para Anakin enquanto se aproximava. Anakin acenou de volta, gritando. —
Amarre-os, Kitster! — voltando-se para Padmé — Onde está Qui-Gon?
A garota fez um gesto. — Ele saiu com Jar Jar para a arena. Eles foram encontrar Watto.
Anakin foi para seu quarto tomar banho e se vestir.
Qui-Gon caminhou pelo hangar principal da arena de corridas de Mos Espa, olhando para a
atividade com um interesse casual. O hangar era uma construção cavernosa que abrigava
carros de Pod e equipamento durante o ano e que servia como área de exposição para
veículos e embarcações em dias de corrida. Alguns corredores já estavam na plataforma
de saída, dúzias de alienígenas que haviam chegado a Tatooine, vindas de cada canto da
galáxia, fervilhavam em volta dos carros e motores, enquanto patrões e pilotos gritavam
instruções. As batidas e guinchos de metal contra metal ecoavam num barulho
ensurdecedor através do prédio amplo do hangar, forçando as conversações a serem
mantidas em nível de gritaria.
Jar Jar pôs o braço no ombro do Mestre Jedi enquanto Watto zumbia na frente do outro.
Jar Jar estava nervoso e aflito como de costume, os olhos rolando, a cabeça se
contorcendo de um lado para outro com frenesi tal que parecia que ia rolar para o chão.
Watto voava ignorando tudo que não fosse sua conversa — que girava em torno da mesma
coisa.
–Então fica acertado que nosso acordo está selado, estrangeiro — ele repetia pela
terceira vez nos últimos dez minutos. Sua cabeça e sua tromba azul repetiam
enfaticamente. — Quero ver sua nave no momento em que a corrida estiver
terminada.
Ele não fazia esforço para esconder que sabia que a posse do transporte Naboo era apenas
uma questão de tempo. Ele não havia sugerido uma só vez, desde que Qui-Gon o encontrou
no balcão de apostas, que poderia ser diferente.
O Jedi respondeu com um encolher de ombros. — Paciência, meu amigo azul. Você terá
seus prêmios antes dos sóis se porem, e eu e meu grupo estaremos fora daqui.
–Não se sua nave for minha, acho! — Watto bufou, depois deu uma gargalhada
satisfeita. Imediatamente, seus olhos se fixaram friamente no Jedi. — Eu estou te
avisando, nada de jogos estranhos!
Qui-Gon continuou caminhando, seu olhar dirigido para outra direção, cuidadosamente
içando o anzol que havia armado para o Toydarian. — Não acha que Anakin vencerá?
Watto voou em volta dele e fez todos pararem. Com as asas batendo furiosamente, ele se
dirigiu a um carro laranja brilhante estacionado ali perto, seus motores alterados para que,
quando os projetores de energia fossem ligados e os motores conectados, tornassem a
forma de um X. Sentado de um lado do carro estava o Dug que havia atacado Jar Jar dois
dias antes, Sebulba, com os olhos cruéis fixos neles, seus braços esbeltos dobrados em
uma posição levemente ameaçadora. Uma dupla de Twileks ágeis massageava
diligentemente os ombros e pescoço do Dug. Os Twileks eram alienígenas humanóides do
planeta Ryloth; eles possuíam os dentes pontiagudos, a pele azul bem lisa e tentáculos
duplos que caíam graciosamente de suas cabeças carecas para suas costas. Seus olhos
vermelhos se ergueram para Qui-Gon por um instante, com certo interesse e, então, se
voltaram rapidamente para seu Mestre.
Watto resfolegou. — Não me leve a mal — anunciou sacudindo a cabeça e a inclinando
num movimento estranho. — Tenho fé no garoto.
Ele é um crédito à sua espécie. — Ele apertou a boca. — Mas acho que, aqui, Sebulba vai
vencer.
Qui-Gon fingiu examinar o Dug cuidadosamente. — Por quê?
–Porque ele sempre vence! — explodiu o Toydarian numa risada, consumido por
sua própria esperteza. — Estou apostando alto em Sebulba!
–Vou aceitar a aposta — replicou Qui-Gon rapidamente.
Watto parou de rir na hora, se afastando como se escaldado em óleo quente. — O quê? O
que quer dizer?
Qui-Gon avançou um passo, afastando o Toydarian. — Vou apostar meu novo carro de Pod
contra... — Ele parou pensativo, deixando Watto esperar. — Contra, digamos o garoto e sua
mãe. Watto estava em choque. — Um Pod por escravos! Não! — As asas azuis eram uma
mancha confusa enquanto ele esvoaçava de um lado para outro, a cabeça inclinada. —
Bem, talvez. Só um. A mãe, talvez. O garoto não está à venda.
Qui-Gon fez uma careta. — O garoto é pequeno. Não deve valer muito.
Watto sacudiu a cabeça decidido.
–Pelo Pod mais veloz já construído?
Watto sacudiu a cabeça novamente.
–Os dois, ou sem aposta.
Eles estavam próximos à porta da frente do hangar, e o barulho do trabalho havia
diminuído. Mais adiante, a arena se ergueu contra o céu do deserto, um vasto complexo
em forma de arco com camarotes para os Hutts, uma cabine para o anunciador da corrida,
equipamentos e barracas de frutas. A arena já começava a lotar, com a população de Mos
Espa comparecendo em massa para o evento, suas lojas e barracas fechadas e a cidade
em feriado. Bandeiras e faixas voavam, e os corredores que se aproximavam brilhavam
com o reflexo da luz solar e do polimento.
Qui-Gon avistou Anakin entre a multidão, montado num copie com Padmé de pé seguindoo, puxando um dos enormes motores Radon-Ulzer. Seu amigo Kitster seguia num segundo
copie, puxando o outro motor. Os copies eram animais de bando, com trombas compridas
e couraça dura e pelo curto apropriado para o calor do deserto de Tatooine. R2-D2 e C-3PO
fechavam a pequena procissão com o Pod e Shmi. O Mestre Jedi se voltou
deliberadamente para acompanhar a chegada deles, arrastando o olhar de Watto. Os olhos
do Toydarian brilharam com a visão do menino e do carro.
Ele olhou novamente para Qui-Gon, bufando ansiosamente. — Nenhum carro de Pod vale
dois escravos... nem de longe! Um escravo ou nada!
Qui-Gon dobrou os braços sobre o tórax. — O garoto, então. Watto bufou e sacudiu a
cabeça. Ele tremia com a tensão que aquela decisão criava dentro do corpinho azul
atarracado. — Não, não...
Então, abruptamente, colocou a mão no bolso e retirou um cubo pequeno, que ele passava
de uma mão para outra como se fosse muito quente. — Vamos deixar o destino decidir.
Azul, é o garoto. Vermelho, é a mãe.
Watto lançou o cubo para o chão do hangar. Enquanto fazia isso, Qui-Gon fez um gesto
disfarçado com as mãos, invocando seu poder Jedi para produzir uma pequena inflexão na
Força.
O cubo balançou, rolou, e parou, face azul para cima. Watto gesticulou irado, seus olhos
ficando estreitos e frios.
–Você venceu, estrangeiro! — disse ele sarcástico. — Mas não vencerá a
corrida, então, não fará muita diferença.
–Veremos — replicou Qui-Gon calmamente.
Anakin e os outros os alcançaram, entrando no hangar com o Pod e os motores. Watto
irado se afastou de Qui-Gon, parando para disparar para o menino.
–Melhor controlar as apostas de seu amigo — declarou com um bufo irado — ou
também acabarei ficando com ele.
Um dos copies o cheirou, e ele xingou o animal em huttese, tão furioso que o animal deu
um passo atrás. Suas asas batiam loucamente quando saiu, dirigindo a Qui-Gon um olhar
seco antes de sumir nas sombras do hangar.
–O que ele quis dizer? — perguntou Anakin a Qui-Gon enquanto diminuía o passo do
copie ao lado de Qui-Gon e lançando a Watto um olhar.
Qui-Gon deu de ombros. — Eu te conto depois.
Kitster parou ao lado de Anakin com sua face brilhando de excitamento enquanto olhava ao
redor. — Isso é tão mágico! Tenho certeza de que conseguirá desta vez, Annie!
O olhar de Padmé fitou um e outro. — Conseguirá o quê? — ela perguntou desconfiada.
Kitster se iluminou. — Terminar a corrida, claro!
A moça empalideceu. Seus olhos queimavam Anakin. — Você nunca nem terminou uma
corrida? — perguntou incrédula.
O garoto enrubesceu. — Bem... não exatamente. — A boca dele se apertou em
determinação. — Mas Kitster está certo, terminarei desta vez.
Qui-Gon tomou as rédeas do eopie e deu um tapinha nas pernas do garoto. — Claro que
vai. — Concordou.
De cima do eopie, Padmé Naberrie apenas o olhava sem palavras. No centro de Mos Espa,
a multidão começava a diminuir à medida que as população se dirigia, em número cada
vez maior, para a arena de Podracer nos limites do porto espacial. A maioria das lojas e
barracas já estava fechada e o resto também já caminhava para o fechamento.
Proprietários e vendedores fechavam vendas olhando ansiosamente na direção do tráfego
de pessoas.
Em meio à agitação, um dróide Sith de investigação ia devagar, o olho mecânico
cuidadosamente examinando cada loja, cada rosto - procurando.
Mais de cem mil seres haviam lotado a arena até a metade da manhã, apertando-se nas
arquibancadas, lotando as plataformas com melhor campo de visão, preenchendo os
espaços disponíveis. A arena se transformou em um vasto oceano de cores, sons e
movimentos no vazio do deserto. Bandeiras e faixas com a insígnia dos corredores e
patrocinadores acenavam, expressando os favoritos e improvisando áreas de torcida.
Bandas tocavam apoiando alguns pilotos, e cornetas e tambores isolados soavam em
reconhecimento a todos os presentes.
Vendedores caminhavam pelos corredores, carregando comidas e bebidas, vindas das
barracas lá debaixo, para vender à multidão. Por todos os lados, havia crescente excitação
e expectativa.
Então um ronco irrompeu quando os corredores emergiram do hangar principal no lado
oposto à linha de partida. Um por um, os pilotos de Pod foram avistados, alguns puxados
por copies, outros pela mão, todos parte de uma longa procissão de pilotos, equipes
técnicas e ajudantes. Carregadores, cada um portando uma bandeira que identificava o
piloto e o patrocinador, seguiam junto, formando uma fila colorida em frente ao grupo de
corredores. Acima, os dois sóis de Tatooine ardiam com brilho resplandescente.
Enquanto os pilotos se movimentavam para a linha localizada à frente das arquibancadas
da arena, um burburinho no camarote real anunciou a chegada de Jabba the Hutt e
Gardulla, sua amiga. Deslizando para o interior do camarote, os dois Hutts fluíram por
entre a área pavimentada até seus lugares, entre as cortinas de seda brilhante. Jabba
vinha à frente, dirigindo-se diretamente para a plataforma em forma de arco de onde podia
ser visto pelo povo de Mos Espa. levantando seu braço gordo em saudação, ele se aqueceu
sob o murmúrio apreciativo da multidão. Gardulla murmurou sua aprovação, balançando
sua cabeça sem pescoço no topo de um corpo grosso e sem forma, os olhos fundos
brilhando. Atrás dos dois Hutts, havia um grupo de humanos e alienígenas convidados dos
governantes de Mos Espa em dias de corrida. Uma fileira de moças escravas de várias
espécies vinha por último, acorrentadas para o divertimento daqueles que decidiram
comparecer ao evento.
Abaixo, os pilotos formaram uma fileira de frente para o camarote real e, sob comando,
inclinaram a cabeça em reconhecimento e agradecimento a seus benfeitores.
–Chowbaso! — roncou Jabba com sua voz profunda ecoando pelos alto-falantes e para
fora da arena. — Tam ka chee Boonta rulle ya, kee madd ahdrudda du wundee! Bemvindas!
A multidão urrou novamente: eram braços e bandeiras acenando loucamente. Trombones
soaram quando Jabba começou a apresentar os pilotos.
–Kubba te. Sebulba tuta Pixelito!
O Dug, de pé ao lado de Anakin, se levantou em suas patas traseiras e acenou para as
arquibancadas. Uma banda tocou em apoio, e os fãs de Sebulba e os apostadores ansiosos
que dependiam de resultados favoráveis ao Dug saudaram e gritaram em resposta.
Um por um, Jabba apresentou os pilotos: Gasgano, Boles Roor, Ben Quadinaros, Aldar
Beedo, Ody Mandrell, Xelbree, Mars Guo, Clegg Hodfast, Bozzie Baranta, Wan Sandage...
Anakin ouvia os nomes, se mexendo ansioso por começar. Um olhar por cima dos ombros
revelou Kitster trabalhando em atarraxar os Radon-Ulzers ao Pod com os cabos Steelton,
checando com puxões forte o grau de segurança.
–...Mawhonic tuta Hok — Jabba anunciava. — Teemto Pagalies tuta Moonus Mandel.
Anakin Skywalker tuta Tatooine.
Aplausos romperam da multidão, mas não aplausos de entusiasmo como haviam sido para
Sebulba ou Gasgano ou para tantos outros. Anakin acenou em resposta, os olhos passeando
na multidão, a mente já nas planícies.
Quando se virou em direção a seu carro, sua mãe estava de pé na frente dele. Sua face
cansada estava calma e determinada quando se inclinou para dar-lhe um abraço e um
beijo. Os olhos dela estavam firmes quando se afastou dele, suas mãos segurando-lhe os
ombros, mas não conseguia disfarçar a preocupação refletida em seu olhar.
–Tenha cuidado, Annie — ela disse.
Ele assentiu, engolindo. — Terei, mãe. Prometo.
Ela sorriu calorosamente, se afastando. Anakin continuou, vendo Kitster e Jar Jar
desamarrar os copies para que Kitster os levasse dali.
R2-D2 rolou para Anakin e emitiu um bip em aprovação e incentivo.
C-3PO solenemente alertou sobre os perigos de dirigir em velocidade e desejou sorte ao
mestre. Tudo estava bem.
No canto do olho, o menino viu Sebulba observar seu próprio Pod e começar a examinar o
do menino. Dando voltas em suas pernas compridas, ele se aproximou dos Radon-Ulzers
com óbvio interesse. Parando próximo ao motor esquerdo, ele ergueu o braço e,
subitamente, golpeou um estabilizador, olhando em volta checando se alguém havia
percebido.
Padmé apareceu e se inclinou para beijar a bochecha de Anakin. Os olhos escuros dela
eram penetrantes. — Você carrega todas as nossas esperanças. — Ela disse baixinho.
–Não vou desapontá-la. — Disse Anakin.
Ela lhe dirigiu um olhar longo, então, se afastou. Enquanto ela se retirava, Sebulba se
aproximou pela lateral com sua face enrugada bem próxima.
–Você não vai escapar dessa vez, escravo — ele disse ofegante, sorrindo suavemente.
— Você é bantha poodooo.
Anakin manteve sua posição, dando ao Dug um olhar cruel. — Não conte com isso, cara de
lama.
Qui-Gon se aproximou e Sebulba se afastou em direção a seu próprio carro, com a
maldade estampada em seu olhar. Trompetes soaram e um novo uivo ecoou da multidão.
Jabba the
Hutt deslizou para a frente do camarote real, com os braços grossos acenando.
–Kaa ba]]a kundee da tam hdrudda! — rugiu. — Que o desafio se inicie!
O urro da multidão cresceu mais ainda. Qui-Gon ajudou Anakin a entrar no Pod. O garoto
se acomodou no assento, segurando suas correias, colocando seu velho capacete usado e
descendo os óculos de proteção para os olhos.
–Você está pronto, Annie? — perguntou o Mestre Jedi calmamente.
O garoto assentiu com os olhos intensos e firmes. Qui-Gon segurou o olhar dele. —
Lembre-se, concentre-se em seus instintos, concentre-se no momento. Sinta, não pense.
Acredite nos seus instintos.
Ele pôs a mão sobre o ombro do menino e sorriu. — Que a Força esteja com você, Annie.
Então ele se afastou e Anakin Skywalker estava sozinho.
Qui-Gon abriu caminho rapidamente entre a multidão para a platéia onde Shmi, Padmé e
Jar Jar esperavam. Ele olhou para Anakin novamente e viu o garoto calmamente ajeitando
os óculos de proteção. O Jedi assentiu para si mesmo. O garoto vai se sair bem.
Ele subiu à plataforma de observação, com Jar Jar e as mulheres, no momento em que ela
era erguida para o começo da corrida. Shmi lhe lançou um olhar firme e duvidoso.
–Ele está bem — assegurou Qui-Gon, tocando-lhe o ombro. Padmé sacudiu a
cabeça, incerta. — Vocês Jedi são muito impetuosos — ela disse baixo. — A
rainha...
–A rainha confia em meu julgamento, mocinha — Qui-Gon interrompeu
suavemente, dirigindo suas palavras a ela apenas. — Talvez você também
devesse confiar.
Ela lançou um olhar penetrante. — Você assume demais.
A plataforma de observação foi colocada em posição, e todos os olhos se voltaram para
os corredores. Projetores de energia foram ligados, poderosas correntes eletromagnéticas
circulando entre placas coaxiais, travando os dois motores de cada Pod juntos, como uma
unidade. Agora os próprios motores começavam a girar, os roncos ensurdecedores se
misturaram e dominavam o rugido da multidão. Carregadores de bandeiras e equipes
técnicas se moviam apressadamente deixando livre a linha sob o arco que marcava a
chegada e a partida. Acima, uma luz vermelha mantinha os pilotos em suas posições.
Antecipando o verde, os pilotos preparavam os motores. As enormes máquinas
chacoalhavam devido à potência que eles geravam e os cabos que os mantinham colados
aos Pods e a seus pilotos, estavam ansiosos por se libertarem.
De pé ao lado de Qui-Gon, Jar Jar Binks cobria os olhos apavorado. — Afim não ver. Isso
vai ser desastre!
Apesar de não poder dizer, o Mestre Jedi estava inclinado a concordar. Firme, Anakin
Skywalker, ele pensou. Concentre-se.
Então as luzes verdes sobre a faixa de largada acenderam e a corrida começou.
Quando a luz verde apareceu, Anakin Skywalker empurrou as barras de propulsão até o
limite, enviando força máxima aos Radon-Ulzers. Os grandes motores deram um pinote,
rosnaram como um monstro enjaulado e morreram imediatamente.
O menino congelou. A sua volta, os pilotos disparavam numa desarmonia de sons e um
relâmpago de metais brilhantes. Areia levantava no rastro deles, encobrindo o ar com
partículas de poeira. Em segundos, o menino estava só, exceto pelo Quadra-Pod de Ben
Quadrinaros, que empacou na linha de partida exatamente como Anakin.
A mente de Anakin pilotava desesperadamente. Ele havia alimentado o motor com muito
combustível no início. Os motores readaptados não agüentavam toda aquela potência de
uma só vez se o carro já não estivesse em movimento. Ele puxou as barras de propulsão
novamente para trás, voltando-as ao ponto neutro. Girando os botões do canal de
alimentação do motor, ele limpou os canais e os trocou de lado. Inspirando profundamente,
ele apertou os botões de ignição. A chave de partida oscilou e funcionou, e os grandes
Radon-Ulzers voltaram à vida com um ronco estrondoso. Ele alimentou menos os motores
desta vez, tomado de impaciência, e escorregou as barras propulsoras suavemente para
frente. Os motores dispararam levando o Pod e o garoto — arrancando da linha de partida.
Anakin deu partida determinado a não se preocupar com nada a não ser os pontinhos a
distância que marcavam a presença dos outros corredores. Ele disparou pelas planícies,
com o gemido dos motores do Pod aumentando, e a terra embaixo desaparecendo em um
banho de luz e calor. O caminho era plano e aberto no começo, e ele puxou os propulsores
para a frente novamente. Ele acelerava tão rapidamente que tudo em volta se tornou uma
nódoa obscura.
Adiante, o primeiro conjunto de formações rochosas se ergueu no horizonte. Anakin podia
ver, agora, os outros competidores com suas formas metálicas brilhantes disparando
através das planícies — os motores despejando fogo e fumaça. Ele se aproximou deles
rapidamente — os Radon-Ulzers berrando. Numa área aberta, ele sabia que nenhum motor
podia se comparar aos dele.
Um rubor de excitação o percorreu enquanto alcançava os pilotos.
Ele puxou novamente as barras propulsoras enquanto se aproximava deles, dando a si
mesmo espaço para manobrar. Ele passou por dois como se estivessem imóveis,
angulando-se para a esquerda e depois para a direita, costurando a linha de distância que
havia entre eles. Quando estava livre, ele realimentou os motores e foi puxado pela força
gravitacional para trás no assento. O seguinte a ser ultrapassado foi Gasgano, o
multipernas. Diminuindo a velocidade atrás do Pod do Troiken, ele se preparou para a
ultrapassagem. O Arco Canyon estava à frente e ele queria se livrar de todos antes de
navegá-la. Manobrando cuidadosamente, ele se preparou para ultrapassar pela direita. Mas
Gasgano o viu e, rapidamente, se deslocou para cortá-lo. Anakin aguardou e angulou para a
esquerda numa nova investida. Novamente, Gasgano o cortou. Em todas as direções, eles
deslizavam pelo solo do deserto, como um dragão caçando uma ratazana.
Um declive após um planalto baixo surgiu como uma linha desigual no horizonte. Anakin
diminuiu a velocidade, dando impressão a Gasgano de que estava se preparando para
mergulhar. O outro pilo-to, com uma rápida olhada por cima dos ombros, se certificou da
localização do menino mantendo sua posição até a boca do planalto — mergulhando na
frente. No instante em que ele fez isso, Anakin empurrou as barras propulsoras totalmente
para a frente, e seu Pod adquiriu tanta velocidade, que ultrapassou por cima de Gasgano
antes que ele pudesse fazer qualquer coisa para detê-la.
A dobra escura do canyon já aparecia à frente e Anakin ia costurando pela abertura de sua
agulha, com habilidades de costureira, acelerando em direção às sombras frias. Os RadonUlzers zuniam ansiosamente, com os projetores de energia mantendo-os em sincronia, e
os cabos Steelton fornecendo ao Pod a quantidade exata de elasticidade através das curvas
perigosas. Anakin operava as barras propulsoras em movimentos curtos e precisos,
pressentindo todo o percurso em sua mente: cada curva, cada desvio, cada queda e cada
elevação. Tudo estava claro e certo para ele. Tudo estava revelado.
Ele atravessou o canyon, voltando às planícies abertas. A frente, além de uma dúzia de
corredores, Mawhonic e Sebulba lutavam pela liderança. Os conhecidos motores em forma
de X do Dug se ergueram, manobrando para ganhar posição. Mas o carro elegante de
Mawhonic estava gradativamente se afastando.
Então Sebulba acelerou e avançou violentamente para a esquerda, movendo-se rapidamente
na direção do outro piloto. Mawhonic reagiu instintivamente, movendo-se também para a
esquerda e diretamente para uma imensa formação rochosa. Mawhonic desapareceu numa
enorme bola de fogo e fumaça preta.
O próximo era Xelbree, tentando ultrapassar Sebulba por cima, como Anakin havia feito
com Gasgano. Mas o Dug sentiu a presença dele e se elevou, bloqueando a passagem.
Xelbree deslizou para a esquerda, mantendo-se ao lado, mantendo velocidade. Sebulba
pareceu perder terreno, levemente abrindo passagem. Mas, quando Xelbree passou por ele,
o Dug acionou uma ventana lateral em seu exaustor esquerdo. O fogo cuspiu na lateral do
motor de Xelbree cortando o metal como se fosse plástico fino. Xelbree tentou
desesperadamente se afastar, mas estava muito devagar. O fogo pegou e se alastrou. O
motor danificado explodiu, e o restante do Pod e do motor bateu no penhasco e se
despedaçou.
Sem reduzir, Sebulba se afastou do acidente sozinho na liderança.
Na platéia da arena e das plataformas espalhadas por todo o percurso, a multidão
acompanhava o progresso da corrida através de visores portáteis enquanto as imagens dos
pilotos eram transmitidas através de dróides portando câmaras. De uma torre de
monitoramento, o comentarista de duas cabeças que gracejava consigo mesmo anunciava
os líderes. Qui-Gon observava por uma tela com Shmi e Padmé, mas não havia menção ou
sinal de Anakin. As vazes duplas do comentarista se erguiam e baixavam numa cadência
regular, enchendo o ar com suas inflexões, criando um clímax para incitar a multidão já
frenética.
Qui-Gon olhou para as planícies, procurando movimento. A sua direita, Jar Jar brigava com
um alienígena delgado e de expressão ácida chamado Fanta, tentando espiar sobre seus
ombros, assediando-o com perguntas, tentando fazer amizade erroneamente achando que,
por se parecer vagamente com ele, o Poldt seria receptivo à sua aproximação. Não estava
funcionando. Fanta não queria nada com Jar Jar e se manteve deliberadamente de costas
para o Gungan, escondendo a tela de sua vista. Jar Jar estava ficando impaciente.
Qui-Gon desviou o olhar. No setor das equipes, R2-D2, C-3PO e Kitster esperavam
solitários.
Dentro de um camarote privativo localizado atrás e logo abaixo do camarote de Jabba,
Watto ria e contava piadas com os amigos. O Toydarian voava de um lado para outro,
dando olhadas na corrida pelos visares e esfregando as mãos ansiosamente. Ele avistou
Qui-Gon e gesticulou grosseiramente — com o sentido claro.
Abaixo, na linha de partida, Ben Quadrinaros ainda lutava para iniciar os motores de seu
Quadra-Pod.
Qui-Gon fechou os olhos e bloqueou tudo ao redor, tanto sons quanto movimentos, se
unificando com a Força, desaparecendo em seu fluxo, buscando Anakin. Ele permaneceu
perdido em si mesmo enquanto o ronco da multidão se elevou novamente, e o som de
motores aumentou a distância. No horizonte, se erguia um monte de poeira escura.
Na linha de partida, Ben Quadrinaros finalmente conseguiu dar partida em seus motores,
todos os quatro monstros enormes roncando de volta à vida, vibrando selvagemente em
seus compartimentos. Os motores e o Pod balançaram quando Quadrinaros puxou os
propulsores. Mas, no momento seguinte, os cabos projetores de energia arrebentaram, os
conectores estalaram, e os motores se espalharam em quatro direções, explodindo contra
muros de pedra, rochas e bancos baixos de areia. A multidão ofegava chocada, protegendo
olhos e ouvidos enquanto o Pod e Ben Quadrinaros desmoronavam na pista de corrida
numa pilha imprestável.
Quase que instantaneamente, o carro de Sebulba passava pela arena, disparando através
do arco de chegada e voando como um rojão no início da segunda volta. Dois outros
corredores seguiam, seus motores roncando alto enquanto passavam, e seus corpos
coloridos brilhando sob os sóis do meio-dia.
Não havia sinal de Anakin.
Qui-Gon manteve os olhos fechados, buscando sua consciência. A seu lado, Shmi e Padmé
trocaram olhares preocupados. Jar Jar ainda brigava com Fanta, batendo em suas costas
excitado enquanto o outro fazia uma careta tentando se desvencilhar.
Três outros pilotos passaram, o som de suas máquinas diminuindo enquanto se
afastavam. Um quarto, Ody Mandrell, voltou para o box, com os motores de seu Pod
sacudindo e emitindo fumaça à medida que o piloto pedia uma pausa. Dróides vieram
auxiliar o piloto, aglomerando-se sobre os motores. Ody ficou no box, um Er’Kit réptil
enorme e atarracado, com os braços gesticulando. Mas, quando os motores deram
novamente a partida, DUM-4, um dos dróides, estava parado junto ao motor esquerdo que
o sugou, o triturou e o cuspiu fora pelo exaustor — num monte de destroços.
A multidão atenta à corrida se voltou novamente para os visares. Então R2-D2, sentando
com Kitster e C-3PO, fez um bip excitado.
Os olhos de Qui-Gon se arregalaram. — Aí vem ele! — exclamou rapidamente.
Anakin Skywalker surgiu em meio a claridade do meio-dia — os enormes Radon-Ulzers
roncando furiosamente.
Entre os gritos de seus companheiros e da multidão, Qui-Gon apenas sorriu. Anakin havia
começado a tomar a dianteira da corrida.
No início da segunda volta, Anakin estava em sexto. Enquanto a corrida progredia, ele
desaparecia vagarosamente em seu Pod, tornando-se um só com os motores, sentindo a
pressão e a força de cada rebite e parafuso. O vento batia nele num ritmo alucinante, o
trancando em seu barulho branco. Havia somente ele e sua máquina, tudo era velocidade e
resposta. Era o que correr fazia com ele: fundia seu corpo com o Pod e o motor até que
ele fizesse parte dos dois. A cada momento, a simbiose se aprofundava, unindo-os, dandolhe percepções e entendimento que transcendiam seus sentidos e conhecimento,
projetando-o do presente para um local onde outras pessoas não conseguiam atingir.
Quando chegou perto do Canyon Arch, ele se aproximou dos líderes, com a face jovem
séria. Planando sobre as planícies, ele ultrapassou Aldar Beedo e passou pela lateral de
Clegg Holdfast. De um lado, Ody Mandrell, que se acercava rapidamente, bateu muito forte
sobre uma elevação arenosa e atolou o motor na areia. O Pod de Ody rolou num
espetacular movimento de motores e explodiu em pedaços.
Anakin estava a somente quatro carros de distância de Sebulba e podia ver claramente a
nave do Dug a distância.
Tudo aconteceu rápido após isso.
Os pilotos atravessaram o Canyon Arch e formaram do outro lado uma fila irregular, com
Anakin estreitando a distância entre ele e os outros. Tusken Raiders escondidos atrás das
rochas dos penhascos que formavam o limite da Curva Tusken, deram sorte e atingiram
Teemto Pagalies. O transporte de Teemto simplesmente explodiu e desapareceu. Anakin
voou através do vapor causado pelo acidente atrás dos outros. Ele passou em velocidade
por Elan Mak e Haba Kee. Adiante, Mars Guo se aproximava de Sebulba, atento ao Dug,
mantendo-se baixo e distante, tentando passar. Anakin se aproximou dos dois em uma
longa depressão formada por filas de dunas de areia, reduzindo velocidade próximo a Mars
Guo.
De repente, Sebulba pôs a mão para fora da cabine e lançou um pedaço de metal
diretamente na boca do motor esquerdo de Mars Guo. Metal se espatifou violentamente
contra metal, e o motor danificado começou a soltar fumaça e fogo. Mars tentou manter a
máquina firme, mas o motor quase despencava enquanto perdia força, fazendo o Pod se
voltar violentamente para Anakin. Os carros colidiram num guincho metálico, e uma ponta
afiada do estabilizador vertical de Mars Guo atingiu a linha Steelton que ligava o motor
esquerdo de Anakin, soltando a ligação. Instantaneamente o Pod de Anakin começou a
balançar violentamente no final da linha restante, sacolejando para todos os lados. Os
Radon-Ulzers continuavam trabalhando em sintonia, travados juntos pelos projetores de
energia, mas o Pod estava fora de controle. Anakin tocou os pedais estabilizadores com os
pés, lutando para manter o Pod firme enquanto ele balançava como um pêndulo. A linha
solta batia ferozmente no rastro do exaustor do motor, ameaçando enganchar ou enrolar
numa pedra — puxando o Pod para o solo. Anakin tateou o chão da cabine, procurando o
restaurador magnético. Quando o encontrou, ele pressionou o botão de ligar e puxou o
recuperador para fora do lado esquerdo, tentando fazer contato com a linha solta. O
esforço o obrigou a reduzir velocidade e ele ficou atrás de Sebulba novamente. Elan Mak,
Habba Kee e, agora, Obitoki também o ultrapassaram, perseguindo o Dug.
Anakin olhou freneticamente por cima do ombro. O grupo se aproximava dele novamente.
Após uma dúzia de tentativas, ele finalmente se concentrou o suficiente para alcançar a
linha perdida com o recuperador e manobrá-la de volta para o gancho. Suor e poeira lhe
cobriam o rosto e a manga da jaqueta estava rasgada. Guardando o recuperador, ele
empurrou novamente as barras propulsoras para frente. Firme na ponta dos cabos
Steelton, o Pod se manteve em posição enquanto os motores roncavam, acelerando atrás
dos líderes.
Anakin chegou a Elan Mak primeiro e passou por ele facilmente. Ele estava próximo de
Habba Kee quando Obitoki tentou ultrapassar Sebulba. O Dug esperou até que seu rival
estivesse a seu lado, então, usou a mesma estratégia que aplicou contra Xelbree. Abrindo
uma pequena ventana em seu exaustor esquerdo, ele esguichou fogo direto no motor
esquerdo de Obitoki. O combustível nas linhas pegou fogo e explodiu, e o Pod de Obitoki
mergulhou de nariz no deserto, enviando uma nuvem de poeira para todos os lados.
Habba Kee voou para dentro da nuvem de poeira logo à frente de Anakin, baixo e próximo
do solo. Momentaneamente cego, ele desviou para o lado errado e bateu na ponta de um
pedaço do motor de Obitoki enterrado na areia. Motores e Pod se enrolaram e explodiram
selvagemente. Anakin seguia Habba Kee na nuvem de poeira e fumaça. Um pedaço de
metal voou em sua direção no meio da névoa, inclinando-se para seu motor direito e quase
atingindo sua cabeça. Mas Anakin via com algo mais que os olhos, sentindo com sua
mente, calmo e seguro em si mesmo. Ele podia sentir o perigo esperando e puxou as
alavancas propulsoras suavemente, passando pelo acidente.
Então ele estava sozinho novamente, aproximando-se de Sebulba.
Ele alcançou o Dug enquanto passavam pela arena embaixo do arco de chegada, dando
início à terceira e última volta.
Em sua mente, Anakin podia ver Qui-Gon e Jar Jar assistindo; Kitster, sentado no setor
das equipes, torcendo freneticamente; R2-D2 e C-3PO, o primeiro emitindo bips, enquanto
o segundo papeava sem resposta; Padmé, com seu rosto lindo moldado de preocupação, e
sua mãe, com os olhos cheios de terror. Ele podia ver todos assistindo à disputa, como se
estivesse entre eles — fora de seu corpo, assistindo à disputa.
Ele bloqueou as imagens, expulsando-as do pensamento, e se concentrou totalmente em
Sebulba.
Eles estavam saindo do Canyon Arch quando Sebulba resolveu acabar com Anakin de uma
vez por todas. O Dug sabia onde todas as câmaras estavam situadas. Ele sabia os ângulos
de colocação e como evitar ser pegado. Balançando seu Pod perto do de Anakin, ele abriu a
ventana lateral do exaustor e tentou atingir o motor do garoto, como havia feito com os
outros. Mas Anakin havia sido vítima daquele truque antes e o estava esperando desta vez.
Ele se movimentou para cima do jato e ficou fora do alcance. Quando Sebulba tentou
segui-lo, Anakin baixou novamente — rápido demais, perdendo o controle
momentaneamente. Seu carro desviou da pista em direção a uma fila de placas de
sinalização, mandando-as para todos os lados. Desesperado para se recuperar, ele levantou
o nariz de seu transporte para o céu, empurrando as barras de propulsão para frente,
acelerando. Os Radon-Ulzers fizeram um estrondo, o Pod deu uma apavorante guinada
brusca, e ele saltou por cima de Sebulba ganhando a liderança.
Através do primeiro grupo de cavernas e passando pela Curva Tusken, Anakin liderava,
com Sebulba logo atrás. A velocidades muito altas para manter um controle adequado, os
adversários se arriscavam e se nivelavam, como se suas seguranças não fossem
importantes.
E, finalmente, se encontravam novamente em área aberta.
Outra vez, Sebulba procurou recuperar a liderança, tentando uma abertura. Anakin o
manteve atrás, mas, naquele momento, um dos estabilizadores horizontais do motor
esquerdo começou a estremecer violentamente. A visão momentânea de Sebulba golpeando
seu estabilizador pouco antes da corrida atingiu a mente de Anakin. Ele soltou as barras de
propulsão, lançou o estabilizador e o trocou por um acessório. No processo, foi obrigado a
abrir passagem. Sebulba o ultrapassou assumindo novamente a liderança.
O tempo e o espaço estavam escoando para Anakin Skywalker.
Ele empurrou as alavancas de propulsão e disparou atrás do Dug. Sebulba o viu e se
manteve à sua frente, impedindo-o de ultrapassar. Eles dispararam através da pista,
lutando por posição. Anakin tentou tudo que sabia, mas Sebulba era um veterano
experiente e conseguiu impedir cada tentativa. Metta Drop passou por eles enquanto
deixavam as dunas em direção à última faixa de planícies.
Finalmente, Anakin se moveu para a esquerda, depois direita. Mas, desta vez, quando
Sebulba tentou bloquear-lhe a passagem, Anakin fingiu um terceiro movimento, ficando o
Dug à esquerda novamente. No momento em que o Dug tentou bloquear Anakin outra vez,
Anakin moveu seu Pod violentamente para a direita e enfiou o nariz ao lado do Dug.
Pela faixa final de planícies, os corredores disparavam lado a lado, enquanto a arena e
seus blocos de mármore já podiam ser avistados. Sebulba gritou frustrado e
deliberadamente lançou seu Pod contra o de Anakin. Enfurecido pela persistência obstinada
do menino, ele bateu em Anakin, uma, duas vezes. Mas, na terceira batida, as hastes de
direção das duas naves se entrelaçaram, colando-os um ao outro. Anakin lutava com seus
controles, tentando se soltar, mas os Pods estavam fortemente engatados. Sebulba
gargalhava, batendo seu Pod contra Anakin tentando forçá-la a ir para o chão. Anakin
empurrava as barras de propulsão para frente e para trás, tentando se desvencilhar. Os
Radon-Ulzers se desgastavam com o esforço e as hastes da direção vergaram e
dobraram.
Finalmente, a haste de Anakin partiu totalmente, interrompendo bruscamente o ratar e o
estabilizador principal. O Pod do menino dava solavancos e girava na ponta dos cabos
Steelton, tremendo com tanta força que poderia derrubar Anakin, se o garoto não estivesse
seguramente amarrado.
Mas foi pior para Sebulba. Quando a haste de direção de Anakin rompeu, o Pod do Dug se
atirou para frente, como se lançado por um estilingue, arrebentando aos cabos que o
puxavam e fazendo os motores se descontrolarem. Um motor bateu em uma peça de
mármore antigo e se desintegrou em chamas. O segundo motor foi rolando na areia e
acabou explodindo numa imensa bola de fogo. Os cabos se soltaram, e o Pod do Dug
escorregou por entre os destroços dos motores em chamas, torcendo e batendo
violentamente pelo chão do deserto e parando em uma nuvem de fumaça. Sebulba se
soltou num ataque histérico, atirando peças de seu Pod arruinado em todas as direções até
perceber que suas calças pegavam fogo.
Anakin Skywalker voava acima, com os exaustores dos grandes Radon-Ulzers jogando areia
e partículas na cara do Dug. Se segurando para manter o controle enquanto cruzava a linha
de chegada, ele se tornou, aos nove anos de idade, o mais jovem vencedor da corrida de
Boonta Eve.
Enquanto a plataforma de observação que ele ocupava com Shmi, Padmé e Jar Jar baixava,
Qui-Gon observava a multidão se aproximar do Pod de Anakin. O menino havia parado o
carro no centro da pista, desligado os Radon-Ulzers e pulado para fora. Kitster já o havia
alcançado e o abraçava apertado, e R2-D2 e C- 3PO estavam correndo em volta dos dois.
Quando a multidão se aproximou momentos depois, eles ergueram Anakin e o levaram,
cantando e gritando seu nome.
Qui-Gon trocou um sorriso terno com Shmi, demonstrando sua satisfação com o
desempenho do menino. Anakin Skywalker era realmente especial.
A plataforma voltou ao lugar calmamente e os ocupantes desembarcaram em correria
para a pista. Deixando seus companheiros se unirem aos festejos, o Mestre Jedi se dirigiu
para os camarotes. Subindo rapidamente as escadas, ele chegou ao camarote privativo de
Watto em segundos. Um grupo de alienígenas passou por ele, gargalhando e contando
piadas em várias línguas e contando uma pequena quantidade de moedas e créditos. Watto
estava observando a multidão que cantava, pairando sobre a beirada do balcão, com
expressão desanimada na face azul enrugada.
No momento em que avistou Qui-Gon, a face desanimada se transformou e ele voou para
o Mestre Jedi com indisfarçável fúria.
–Você! Você me enganou! — Ele balançava no ar em frente a Qui-Gon, tremendo de
ódio. — Você sabia que o garoto ia vencer! De alguma forma você sabia! Perdi tudo!
Qui-Gon sorriu benévolo. — Sempre que se faz uma aposta, meu amigo, eventualmente
pode-se perder. Hoje não foi seu dia. — O sorriso apagou. — Envie as peças do
hiperpropulsor para o hangar principal imediatamente. Eu irei até a loja mais tarde para
que libere o menino.
O Toydarian empurrou a tromba contra o nariz de Qui-Gon. — Não pode ficar com ele!
Não foi uma aposta justa!
Qui-Gon olhou friamente de cima para baixo. — Gostaria de discutir isso com os Hutts?
Tenho certeza de que ficariam felizes em resolver a questão.
Watto se afastou como se houvesse sido picado por um ferrão com seus olhos redondos
cheios de ódio. — Não, não! Não quero saber de mais nenhum dos seus truques. — Fez um
gesto enfático.
–Leve o garoto! Vá embora!
Ele se afastou e saiu do camarote — o corpo curvado contra as asas que batiam
loucamente. Qui-Gon o observou sair, então, desceu as escadas em direção à pista, com a
mente já ocupada com outras coisas.
Se não estivesse tão preocupado planejando o que faria, talvez tivesse visto o dróide Sith
que o seguia.
Em uma hora, a arena havia se esvaziado, os carros guardados ou enviados para reparos,
deixando o hangar principal quase deserto. Alguns dróides da equipe ainda estavam
ocupados recolhendo peças dos acidentes, indo e vindo, fazendo seu trabalho. Dos pilotos,
apenas Anakin restava, examinando seu Pod danificado. Ele estava sujo e esfarrapado, seu
cabelo espigado e seu rosto manchado de suor e fuligem. Sua jaqueta estava rasgada em
vários lugares, e havia sangue em sua roupa no local em que tinha cortado o braço num
metal durante a luta com Sebulba.
Qui-Gon o observava atentamente, parado ao lado com Padmé e Shmi, enquanto o menino,
Jar Jar, R2-D2 e C-3PO se movimentavam ocupados à volta do Pod e dos motores. Poderia
ser? Ele pensava, talvez, pela centésima vez sobre a maneira com que o menino lidava
com o carro de Pod, a maturidade que exibia e a intuição que possuía. Era possível?
Ele guardou suas perguntas para outra ocasião. Seria responsabilidade do Conselho decidir.
Ele se afastou das mulheres abruptamente, aproximando-se do menino e se ajoelhando a
seu lado.
–Sua aparência não é muito boa, Annie — disse suavemente, colocando a mão no
ombro do garoto e o olhando nos olhos — mas se saiu muito bem. — Sorrindo para
encorajá-lo, ele limpou a sujeira do rosto do menino. — Aí está, novinho em folha.
Ele mexeu no cabelo teimoso do menino e o ajudou a atar o braço machucado. Shmi e
Padmé se juntaram a eles e lhe deram novos beijos e abraços, examinando-o
cuidadosamente, tocando- lhe as bochechas e a testa.
–Ah, puxa! Já chega disso — murmurou o menino constrangido.
A mãe sorriu, balançando a cabeça. — E maravilhoso, Annie, o que fez aqui. Sabe? Você
trouxe esperança para aqueles que não tinham nenhuma. Estou muito orgulhosa de você.
–Devemos tudo a você — completou rapidamente Padmé, lançando-lhe um olhar terno
e intenso.
Anakin ficou vermelho. — Sentir-me bem já vale a pena! — declarou sorrindo também.
Qui-Gon caminhou até onde as peças do hiperpropulsor estavam embarcadas sobre uma
plataforma antigravidade puxada por dois copies. Watto entregou conforme prometido, mas
não sem uma quantidade considerável de resmungas e ameaças veladas. Qui-Gon checou
as correntes do contêiner, dirigiu um olhar para fora onde o calor do meio dia queimava e
voltou para perto dos outros.
–Padmé, Jar Jar, vamos — pediu abruptamente. — Temos que levar estas peças de
volta para a nave.
O grupo se dirigiu para os copies, rindo e conversando. Padmé abraçou e beijou Anakin
novamente, então, montou um dos copies atrás de Qui-Gon, abrançando-o pela cintura. JÁ
Jar saltou para cima do segundo animal e, prontamente, escorregou para o outro lado,
tombando no chão. R2-D2 emitia bips encorajando enquanto ele tentava novamente, desta
vez conseguindo se manter sentado. Despedidas foram trocadas, mas foi um momento
desconfortável para Anakin.
Ele olhou como se quisesse dizer algo a Padmé, aproximando-se dela por alguns instantes,
fitando-a ansioso. Mas tudo que pôde expressar foi um olhar triste e confuso.
Vagarosamente, os copies começaram a se mover, Anakin e sua mãe de pé com C-3PO
acenando.
–Trarei os copies de volta ao meio-dia — prometeu Qui- Gon, gritando por cima do
ombros.
Padmé não olhou para trás.
Qui-Gon e seu grupo deixaram Mos Espa em direção ao deserto, R2-D2 ia primeiro, se
movimentando à frente dos copies num ritmo estável. Os sóis se erguiam rapidamente
para a posição de meio-dia no céu, e o calor atingia a areia em ondas. Mas a jornada de
volta ao transporte Real foi tranqüila e sem incidentes. Obi-Wan os aguardava, descendo a
rampa logo que se aproximaram, sua face jovial intensa. — Estava ficando preocupado. —
Ele anunciou sem rodeios.
Qui-Gon desmontou e, então, ajudou Padmé a descer. — Comece a instalar este
hiperpropulsor — ordenou. — Tenho que voltar. Tenho um negócio inacabado.
–Negócio? — ecoou seu pupilo, arqueando as sobrancelhas.
–Não vou demorar.
Obi-Wan o estudou um momento, então, suspirou. — Por que sinto que pegou outra causa
perdida?
Qui-Gon o tomou pelo braço afastando-o dos outros. — Foi o garoto que nos conseguiu as
peças. — Ele pausou. — O garoto cujo sangue você testou ontem a noite para midichlorian.
Obi-Wan lhe lançou um olhar duro e firme, afastando-se.
De uma elevação de onde se avistava a nave, escondido no clarão dos sóis e nas
elevações das dunas, o dróide Sith parou para uma nova transmissão, então, rapidamente
pôs-se a caminho. Anakin voltou para casa com sua mãe e C-3PO, ainda envolto na euforia
da vitória, mas lutando com a tristeza pela partida de Padmé. Ele não havia pensado no
que aconteceria a ela se ele ganhasse a corrida de Boonta Eve, que isso significaria que
Qui- Gon teria o gerador hiperpropulsor de que necessitava para fazer seu transporte
funcionar. Quando ela se inclinou para beijá-lo e abraçá-la em despedida, foi a primeira vez
que pensou no assunto desde a chegada dela. Ele estava atordoado num misto de emoções
e, de repente, quis lhe pedir que ficasse. Mas não conseguiu dizer as palavras, sabendo
como soaria tolo, sabendo que ela não podia fazer isso.
Então ele ficou ali, como um dróide sem cordas vocais, olhando- a partir atrás de Qui-Gon,
pensando que aquela poderia ser a última vez que a veria e pensando como viveria sem
ela se isso acontecesse.
Sem conseguir se manter quieto após deixar sua mãe em casa, ele pôs C-3PO de volta em
seu quarto, desativando-o, e saiu novamente.
Qui-Gon o avisou que estava liberado do trabalho na loja hoje, então, podia fazer o que
quisesse até que o Jedi retornasse. Ele não pensou mais no que aconteceria, caminhando
em direção a Mos Espa, acenando enquanto chamavam seu nome por todo o caminho, se
aquecendo sob o brilho de seu sucesso. Ele ainda não podia acreditar, mas sentia que
sempre soube que um dia ganharia a corrida. Kitster apareceu; depois, Amee e Wald, e
logo ele estava rodeado por uma dúzia de outros.
Ele estava se aproximando da interligação para Mos Espa quando um jovem Rodian, maior
que ele, lhe bloqueou a passagem. Anakin roubou, acusou. Ele não poderia ter vencido a
corrida de outra forma. Nenhum escravo poderia vencer em nada.
Anakin estava sobre ele tão rápido que o grandalhão mal teve tempo de erguer o braço
para se defender antes de cair no chão.
Anakin o golpeava o mais forte e rapidamente que podia, sem pensar em nada a não ser
em sua raiva, sem se dar conta de que a raiva não tinha nada a ver com sua vítima, mas
tudo a ver com o fato de haver perdido Padmé.
Logo Qui-Gon, já de volta com os copies, estava em cima dele. Ele puxou Anakin,
separando os dois briguentos, e quis saber o que estava acontecendo. Um pouco acanhado
e irado, Anakin contou. Qui-Gon o estudou por um momento, com expressão desapontada.
Ele fixou o olhar no jovem Rodian e lhe perguntou se ainda achava que Anakin havia
trapaceado. O jovem, olhando furiosamente para Anakin, disse que sim.
Qui-Gon pôs a mão sobre o ombro de Anakin afastando-o da multidão — sem dizer uma
palavra até que estivessem longe.
–Sabe, Annie — ele disse, então, com sua voz carinhosa. — A briga não mudou a
opinião dele. A opinião dos outros, quer concorde ou não, é uma coisa que tem que
aprender a tolerar.
Ele levou o menino para casa, aconselhando-o sobre como a vida funcionava, a mão
repousando em seu ombro de uma forma que confortou Anakin. Enquanto se aproximavam
da casa do menino, Qui-Gon tirou do poncho uma algibeira de couro cheia de créditos.
–São seus — ele anunciou. — Vendi o Pod. — Ele apertou os lábios.
–Para um certo Dug rabugento e insistente.
Anakin aceitou os créditos, sorrindo largamente, agora que a luta e a causa estavam
esquecidas.
Ele correu para a porta da casa e entrou, com Qui-Gon seguindo em silêncio. — Mãe, mãe!
— ele gritou quando ela apareceu. — Adivinhe!
Qui-Gon vendeu o Pod! Veja quanto dinheiro temos!
Ele puxou a algibeira e entregou nas mãos dela, feliz com a expressão de surpresa em seu
rosto. — Oh, meu Deus! — ela expirou suavemente, olhando para o que tinha nas mãos. —
Annie, é maravilhoso!
Os olhos dela se ergueram rapidamente para encontrar os de Qui- Gon. O Jedi deu um
passo à frente, mantendo o olhar.
–Annie foi libertado.
Os olhos do menino se arregalaram. — O quê?
Qui-Gon olhou para ele. — Você não é mais um escravo.
Shmi fitava o Jedi incrédula com a expressão rígida na face envelhecida e com seus olhos
espelhando seu choque e incredulidade.
–Mãe? Ouviu isso, mãe? — Anakin dava vivas e pulava o mais alto que podia. Não era
possível! Mas ele sabia que era verdade, que era mesmo verdade!
Ele se controlou. — Foi parte do prêmio ou o quê? — perguntou, sorrindo.
Qui-Gon também sorriu. — Vamos dizer que Watto aprendeu uma grande lição sobre
apostas.
Shmi Skywalker ainda balançava a cabeça, ainda chocada com as notícias e assimilando a
novidade. Mas a visão do rosto de Anakin tornou tudo claro para ela em instantes. Ela o
abraçou forte.
–Agora poderá realizar seus sonhos, Annie — ela suspirou com a face radiante
enquanto lhe tocava o rosto. — Você é livre.
Ela o soltou e virou para Qui-Gon com seus olhos brilhando em expectativa. — Você o
levará? Ele se tornará um Jedi?
Anakin se iluminou com a sugestão e ele se voltou para Qui- Gon, esperando pela
resposta.
O Mestre Jedi hesitou. — Nosso encontro não foi uma coincidência. Nada acontece por
acidente. Você é forte com a Força, Annie, mas poderá não ser aceito pelo Conselho.
Anakin ouviu o queria ouvir, bloqueando todo o resto, vendo possibilidades que alimentavam
suas esperanças e sonhos nascerem naquele momento.
–Um Jedi! Ele engasgou. — Você quer dizer que irei com você em sua nave e tudo!
E estaria com Padmé novamente! O pensamento o atingiu como um raio, envolvendo em
tal expectativa que fez tudo que podia para ouvir o que o Mestre Jedi disse em seguida.
Qui-Gon se ajoelhou em frente ao menino, sua face sombria. — Anakin, tentar ser um Jedi
não será fácil. Será um desafio. E se for bem-sucedido, terá uma vida difícil.
Anakin sacudiu a cabeça rapidamente. — Mas é o que eu quero! É tudo que sempre sonhei!
— ele olhou para a mãe. — Posso ir, mãe?
Mas Qui-Gon trouxe seu olhar de volta com um toque. — Esse caminho foi colocado à sua
frente, Annie. A escolha tem que ser feita somente por você.
Os dois se encaravam. Uma mistura de emoções atravessava Anakin, ameaçando tomá-la
por completo, mas tudo era superado pela felicidade que sentia por estar a seu alcance
aquilo que mais sonhava: ser um Jedi, viajar por todos os cantos da galáxia.
Ele lançou um olhar breve para a mãe, para seu rosto cansado e acolhedor, enxergando
que, como em tudo, também neste caso, ela queria o que fosse melhor para ele.
O olhar dele se voltou para Qui-Gon. — Eu quero ir — disse.
–Então faça as malas — aconselhou o Mestre Jedi. — Não temos muito tempo.
–Oba! — gritou o menino, pulando, já ansioso para se preparar. Ele correu para
a mãe e a abraçou o mais apertado que podia, então, correu para seu quarto.
Ele estava quase na saída quando se deu conta de que se havia esquecido de algo. Um
arrepio lhe percorreu a espinha enquanto se voltava para Qui-Gon. — E quanto à mamãe?
— ele perguntou apressado com seus olhos disparando de um para outro. — Ela também
está livre? Você vem também, não é, mãe? Qui-Gon e a mãe de Anakin trocaram um
olhar preocupado, e ele soube a resposta antes que o Jedi pronunciasse as palavras. — Eu
tentei libertar sua mãe, Annie, mas Watto não aceitou. Escravos dão status e prestígio a
seus senhores em Tatooine.
O menino sentiu o peito e a garganta apertarem. — Mas o dinheiro da venda...
Qui-Gon sacudiu a cabeça. — Não é suficiente...
Um silêncio seguiu, então, Shmi Skywalker caminhou até o filho e se sentando numa
cadeira a seu lado, toma suas mãos e o puxa para perto. Seus olhos estavam firmes
quando olhou para ele.
–Annie, meu lugar é aqui — disse suavemente. — Meu futuro é aqui. E hora de você
deixar... me deixar. Não posso ir com você.
O garoto engoliu seco. — Quero ficar com você, então. Não quero que as coisas mudem.
Ela lhe lançou um olhar, encorajando-o. — Você não pode impedir a mudança assim como
não pode impedir os sóis de se porem.
Ouça seus sentimentos, Annie. Você sabe o que é certo.
Anakin inspirou fundo, devagar, deixando seu olhar cair, a cabeça baixa. Tudo estava se
partindo por dentro, toda a felicidade se derretendo, a expectativa desaparecendo. Então
sentiu as mãos da mãe apertando as suas e, no toque dela, sentiu toda a força que
precisava para fazer o que sabia que devia.
Ainda assim, seus olhos estavam marejados quando levantou o olhar novamente. — Vou
sentir muito a sua falta, mãe — sussurrou.
Sua mãe moveu a cabeça. — Eu o amo, Annie. — Ela soltou as mãos dele. — Agora se
apresse.
Anakin lhe deu um abraço rápido e apertado e correu para o quarto com as lágrimas
escorrendo pelo rosto.
Em seu quarto, Anakin ficou parado olhando em volta em súbita perplexidade. Ele estava
partindo e não sabia quando voltaria. Ele nunca havia estado em outro lugar senão ali,
nunca havia conhecido ninguém fora os habitantes de Mos Espa e aqueles que vinham
fazer negócios com eles. Ele havia sonhado com outros mundos e outras vidas, em se
tornar um piloto de uma nave da frota principal e em se tornar um Jedi. Mas o impacto do
que era realmente estar a um passo de embarcar para essa vida que tanto havia desejado
era avassalador.
Ele se viu pensando no velho piloto, dizendo-lhe que não ficaria surpreso se Anakin
Skywalker se tornasse algo mais que um escravo. Ele havia desejado isso mais que tudo,
havia desejado do fundo do coração que isso acontecesse.
Mas nunca havia nem considerado a hipótese de partir deixando sua mãe.
Ele enxugou as lágrimas dos olhos, lutando para controlar novas lágrimas, ouvindo as
vazes de sua mãe e de Qui-Gon na outra sala.
–Obrigado — disse ela suavemente.
–Vou cuidar dele. Tem minha palavra. — A voz profunda do Jedi estava calma e
segura. — Você vai ficar bem?
Anakin não conseguiu ouvir a resposta dela. Mas, então, ela disse — Ele ficou em minha
vida por tão pouco tempo...
Ela se movimentou distraída. Anakin se forçou a parar de escutar e começou a puxar
roupas e enfiá-las numa mochila. Ele não tinha muito, por isso não demorou. Ele olhou em
volta por algo importante que pudesse ter esquecido, e seus olhos pararam em C-3PO,
deitado sobre a mesa de trabalho imóvel. Ele caminhou até o dróide de protocolo e o
ativou. C-3PO inclinou a cabeça e olhou inexpressivamente para o menino.
–Bem, Ce-trêspeo, estou partindo — Anakin disse solenemente. — Eu estou livre. Vou
embora numa nave espacial...
Ele não sabia mais o que dizer. O dróide inclinou a cabeça. — Bem, mestre Anakin, você é
meu criador, e lhe desejo felicidades. Apesar de que eu desejaria estar menos pelado.
O garoto suspirou e balançou a cabeça. — Sinto muito por não conseguir finalizá-la, Cetrêspeo, dar uma acabamento e tudo. Vou sentir falta de trabalhar em você. Você tem
sido um ótimo amigo. Vou me certificar de que mamãe não venda você ou algo parecido.
Adeus!
Ele pegou sua mochila e saiu correndo do quarto, ouvindo C- 3PO dizer queixoso — Venderme?
Ele se despediu de sua mãe, mais corajoso e determinado agora, e saiu pela porta com
Qui-Gon, com seu plano de ação montado. Ele estava a quase doze metros de casa quando
Kitster, que os seguiu depois da briga, se aproximou correndo.
–Onde vai, Annie? — questionou o amigo.
Anakin inspirou profundamente. — Fui libertado, Kitster. Estou partindo com Qui-Gon numa
nave espacial.
Os olhos de Kitster se arregalaram, sua boca abriu numa exclamação silenciosa. Anakin
mexeu nos bolsos e tirou um punhado de créditos, que deu ao amigo. — Tome, estes são
para você.
A face escura de Kitster olhou para os créditos; depois, para Anakin.
–Você tem que ir, Annie? Tem mesmo? Não pode ficar? Annie, você é um herói!
Anakin engoliu seco. — Eu... — Seu olhar passou de Kitster para sua mãe, ainda em pé na
entrada da casa olhando para ele, depois, para onde Qui-Gon aguardava. Ele sacudiu a
cabeça. — Não posso.
Kitster concordou. — Bem.
–Bem — repetiu Anakin, fitando o amigo.
–Obrigado por tudo, Annie — disse o outro menino. Havia lágrimas em seus
olhos enquanto aceitava os créditos. — Você é meu melhor amigo.
Anakin mordeu os lábios. — Não me esquecerei.
Ele abraçou Kitster impulsivamente, então, se afastou correndo até Qui-Gon. Mas, antes
que o alcançasse, lançou novamente um olhar para a mãe. A visão dela parada na porta o
paralisou. Ele ficou ali indeciso por um momento, as emoções conflitantes se apoderando
dele. Então sua fraca resolução se desmanchou e ele voltou correndo para ela. Quando
chegou até ela, já chorava livremente.
–Não posso fazer isso, mãe — ele sussurrou agarrando-se a ela. — Simplesmente não
posso!
Ele tremia, soluçando, se desmanchando por dentro tão rapidamente que a única coisa que
conseguia pensar era em se agarrar a ela.
Shmi deixou-o fazer isso por um momento, confortando-o com seu calor, depois o afastou.
Ela se ajoelhou na frente dele, o rosto envelhecido solene. — Annie, lembra-se de quando
você subiu aquela duna para espantar os banthas para que não fossem mortos? Você só
tinha cinco anos. Lembra-se de como desabou exausto várias vezes sob o calor, pensando
que não conseguiria fazê-lo, que era muito difícil?
Anakin assentiu com sua face coberta de lágrimas.
Shmi manteve os olhos nele. — Esta é uma daquelas vezes em que você precisa fazer
algo que pensa não ser capaz. Mas eu sei o quanto é forte, Annie. Eu sei que você pode
fazer isso.
O menino engoliu as lágrimas, achando que ela estava errada, que ele não era tão forte,
mas sabendo também que ela havia decidido que ele devia ir, mesmo achando difícil,
mesmo resistindo.
–Eu a verei novamente? — ele perguntou desesperado, expressando com
palavras o pior de seus medos.
–O que o seu coração lhe diz?
Anakin sacudiu a cabeça em dúvida. — Não sei. Sim, eu acho.
A mãe dele assentiu. — Então acontecerá, Annie.
Anakin inspirou profundamente para se acalmar. Ele havia parado de chorar e enxugou a
face molhada.
–Vou tornar-me um Jedi — ele declarou baixinho. — E voltarei para libertar
você, mãe. Prometo.
–Onde quer que você esteja, meu amor estará com você — Shmi disse com a
face amável próxima à dele. — Agora seja forte e não olhe para trás.
–Eu te amo, mãe.
Ela o abraçou pela última vez e, então, o virou de costas para ela.
–Não olhe para trás, Annie — ela sussurrou.
Ela lhe deu um leve empurrão, e ele se afastou decidido, com a mochila nos ombros,
mantendo os olhos num ponto além do local onde Qui-Gon o esperava. Ele continuou
caminhando em direção àquele ponto, passando pelo Mestre Jedi, lutando para controlar as
lágrimas que ameaçavam jorrar novamente. Em apenas alguns minutos, sua casa e sua
mãe ficaram para trás.
Eles foram primeiro até a loja de Watto, onde o Toydarian havia preenchido o formulário
necessário para assegurar a liberdade de Anakin. O transmissor que prendia Anakin à sua
vida de escravo foi desativado permanentemente. Seria removido cirurgicamente mais
tarde. Watto ainda resmungava sobre a injustiça das coisas enquanto eles se retiravam e
voltavam para a rua.
De lá, a pedido de Anakin, eles caminharam até a barraca de frutas de Jira que ficava
próxima. Anakin, já recuperado do trauma de deixar sua mãe, caminhou até a senhora e
colocou um punhado de créditos em suas mãos.
–Fui libertado, Jira — disse com determinação e com o queixo levantado. — Estou
partindo. Use os créditos para aquela unidade refrigeradora que lhe prometi. Se não,
ficarei preocupado.
Jira olhou para os créditos incrédula. Ela balançou a cabeça branca. — Posso te dar um
abraço? — ela perguntou suavemente. Ela o abraçou, puxando-o para seu corpo magro, os
olhos se fechando enquanto o segurava. — Vou sentir saudades, Annie — ela disse,
soltando-o.
–Não existe um menino mais gentil na galáxia. Tenha cuidado. Ele a deixou apressado,
correndo atrás de Qui-Gon, que já se retirava ansioso para partir. Eles caminharam
em silêncio por uma série de ruas laterais, os olhos do garoto fitando lugares
familiares que não veria novamente tão cedo, relembrando sua vida ali, despedindo-se.
Ele estava perdido em seus pensamentos quando Qui-Gon se balançou subitamente,
pegando o menino completamente de surpresa. O sabre de luz do Jedi abriu um arco
brilhante, atravessando as sombras entre dois edifícios, batendo momentaneamente em
algo metálico que fragmentava no rastro da passagem da arma.
Qui-Gon desligou o sabre de luz e ajoelhou para inspecionar um punhado de peças de metal
ainda faiscando e crepitando na areia. O cheiro acre de ozônio e isolador queimado
permanecia no ar seco.
–O que é isso? — perguntou o garoto, espiando sobre seus ombros.
Qui-Gon levantou. — Dróide de investigação. Muito incomum. Não se parece com nada que
eu já tenha visto antes. — Ele olhou em volta apreensivo, os olhos atentos e brilhantes,
enquanto observava a rua.
–Venha, Annie — ele ordenou, e eles se afastaram rapidamente.
Qui-Gon Jinn levou o garoto para fora de Mos Espa rapidamente, apressado por entre as
ruas lotadas em direção aos arredores menos povoados. O tempo todo, seus olhos e sua
mente observando: primeiro, a paisagem de Tatooine e, segundo, a paisagem da Força.
Seus instintos o haviam alertado para a presença do dróide de investigação que os seguia,
e seu treinamento Jedi nos caminhos da Força o alertava sobre algo muito mais perigoso.
Ele podia sentir uma mudança no balanço das coisas que sugeria uma invasão na harmonia
que a Força requeria, um peso escuro caindo como uma pedra imensa.
Já, no deserto, ao ar livre, ele acelerou o ritmo. O transporte Real já podia ser visto, uma
forma escura bem à frente, um paraíso de segurança. Ele ouviu Anakin chamar por ele, o
menino se esforçando para acompanhar seu passo, mas começando a ficar para trás.
Olhando por cima do ombro para responder e encorajar o menino, ele avistou um speeder
e seu piloto vestindo uma capa preta aproximando-se deles.
–Abaixe-se, Anakin! — gritou ele, olhando em volta.
O menino se jogou para o chão, a face voltada para a areia, enquanto o piloto passou,
quase o atingindo, lançando-se para Qui-Gon.
O Mestre Jedi já empunhava seu sabre de luz com a lâmina ativada — a arma segura à
sua frente com as duas mãos. O piloto do speeder se aproximou, um veículo em forma de
sela sem armas aparentes, que fora feito para depender de rapidez e habilidade de
manobra ao invés de poder de fogo. Não se parecia com nada com que o Jedi houvesse
visto antes, mas se assemelhava vagamente a algo morto e desaparecido.
O motorista se desviou dos raios do sol e foi revelado. Marcas destacadas em vermelho e
preto cobriam uma face demoníaca num desenho estranho, sob uma coroa de chifres
atrofiados em volta da cabeça. Com forma de homem e humanóide, seus olhos fundos e
dentes em forma de gancho eram ao mesmo tempo brutais e assassinos e seu urro era
como a ameaça de um caçador à sua presa.
O grito primitivo mal tinha soado, e ele se lançou sobre Qui- Gon, após parar o speeder,
desligar seus propulsares e pular do assento num único movimento rápido. Ele carregava
um sabre de luz de material diferente e a arma estava cortando em direção ao Jedi antes
mesmo que os pés do atacante tocasse o chão. Qui- Gon, surpreso pela rapidez e
ferocidade do adversário, mal conseguiu bloquear o ataque com sua própria arma, as
lâminas se enfrentando com um ruído áspero e estridente. O atacante girou rodopiando o
manto escuro, então, atacou novamente, seu sabre de luz golpeando sua presa, a face
iluminada num frenesi que não prometia misericórdia.
Anakin estava de pé novamente, olhando fixo para os dois, claramente sem conseguir
decidir o que fazer. Tentando manter- se firme, Qui-Gon avistou o menino com o canto
dos olhos.
–Annie, saia daqui! — ele gritou.
Seu atacante se aproximou mais dele, forçando-o a recuar, golpeando-o em todos os
ângulos. Mesmo sem saber nada mais, Qui-Gon sabia que aquele homem havia sido
treinado nas artes marciais Jedi, o que o fazia um adversário hábil e perigoso. Pior, ele era
mais jovem, rápido e forte que Qui-Gon e estava ganhando rápido. O Mestre Jedi o
bloqueou várias vezes, mas não conseguia encontrar uma abertura para escapar.
–Annie! — gritou novamente, vendo o menino imobilizado. — Vá para a nave! Digalhes para levantar vôo! Vá, vá!
Atingindo o adversário com maior determinação, Qui-Gon Jinn viu, finalmente, o garoto
começar a correr. Num ímpeto de emoção dominada por medo e dúvida, Anakin Skywalker
passou correndo pelos adversários em direção à nave Naboo.
A nave estava a menos de trezentos metros de distância, e sua superfície metálica
brilhava sob a luz do sol da tarde. A rampa de embarque estava baixa, mas não havia sinal
de seus ocupantes. Anakin acelerou o passo, o suor banhando seu corpo. Ele podia sentir o
coração disparando no peito quando alcançou a rampa e subiu à nave.
Dentro da escotilha, ele encontrou Padmé e um homem de pele escura vindo em sua
direção. Quando Padmé o avistou, seus olhos se arregalaram.
–Qui-Gon está com problemas! — falou imediatamente o menino, tentando tomar
fôlego. — Ele mandou que decolássemos! Agora!
O homem o fitou com os olhos desconfiados. — Quem é você? - perguntou.
Mas Padmé já estava se mexendo, tomando Anakin pelo braço, puxando-o para a frente da
nave espacial. — Ele é um amigo — ela respondeu, indo na frente. — Rápido, capitão.
Eles correram pela escotilha em direção à cabine, Anakin tentando contar à garota o que
havia acontecido, suas palavras tropeçando umas nas outras, a face ruborizada e ansiosa.
Padmé o acompanhava entendendo perfeitamente o que dizia, assentindo com a cabeça,
pedindo-lhe para se apressar, assumindo o controle de tudo.
Quando chegaram à cabine, encontraram dois outros homens trabalhando nos painéis de
controle da nave. Eles se voltaram com a entrada de Anakin e seus acompanhantes. Um
usava uma insígnia de piloto no peito da jaqueta. O segundo, Anakin tinha certeza pelo
corte de cabelo e por suas roupas, tratava-se de outro Jedi.
–Qui-Gon está com problemas — anunciou Padmé rapidamente.
–Ele pediu que decolássemos — disse Anakin em apoio O Jedi ficou de pé
imediatamente. Ele era muito mais jovem que Qui- Gon, sua face lisa, os olhos
intensos, o cabelo bem curto com exceção de um rabo de cavalo fino trançado
sobre seu ombro direito.
–Onde está ele? — ele perguntou. Então, sem esperar por uma resposta, ele se
voltou para o posto de observação e começou a checar as planícies.
–Não vejo nada — disse o piloto, olhando por sobre os ombros do outro.
–Aqui! — Os olhos atentos do Jedi avistaram um movimento no canto da tela.
— Coloque-nos no ar e bem ali! Agora! Voe baixo!
O homem chamado Ric se atirou no assento do piloto, enquanto os outros, incluindo
Anakin, tornaram seus lugares. A rampa de embarque foi selada com um rugido, e o
transporte reluzente se ergueu sobrevoando a área suavemente.
–Lá — o Jedi expirou, apontando.
Eles podiam avistar Qui-Gon Jinn, ocupado na luta contra a figura demoníaca de manto
escuro. Os adversários se moviam para todos os lados na planície, os sabres de luz
brilhando com cada golpe, a areia e a poeira se espalhando em todas as direções. O longo
cabelo de Qui-Gon balançava atrás da nuca, em forte contraste com a cabeça chifruda e
careca de seu adversário. O piloto Ric dirigiu a nave até eles rapidamente, sobrevoando o
solo um pouco mais alto que uma bicicleta speeder, se aproximando por trás do atacante.
Anakin prendeu a respiração quando chegaram perto dos combatentes. A mão de Ric
escorregou sobre o controle que abaixaria a rampa, empurrando-o para frente
cuidadosamente.
–Fiquem firmes — ele ordenou, congelando os outros nos assentos enquanto navegava.
Os adversários desapareceram novamente dentro de um novo redemoinho de areia sob o
clarão dos sóis gêmeos de Tatooine. Todos os olhos se voltaram rapidamente para as
telas de observação, numa busca desesperada.
Então Qui-Gon surgiu, pulando para a rampa abaixada do transporte, ganhando apoio, uma
mão agarrada em um suporte de apoio.
Mas o atacante chifrudo continuava a perseguição, saindo da nuvem de areia e pulando
para a rampa enquanto a nave começava a subir.
Balançando precariamente devido ao movimento da nave, os olhos cintilando de fúria, ele
lutava para manter o equilíbrio. Qui-Gon atacou de uma só vez, avançando sobre o outro
homem e se aproximando dele na ponta da rampa. Eles estavam a vinte metros no ar, o
piloto mantendo a nave firme enquanto observava os dois adversários se enfrentando
novamente, temendo ganhar altitude enquanto Qui-Gon estivesse exposto. O Mestre Jedi e
seu adversário apareceram no visor da rampa, os rostos determinados banhados em suor.
–Qui-Gon — Anakin ouviu o segundo Jedi dizer baixo, desesperadamente, assistindo à
batalha por mais um momento e, então, afastando os olhos da tela, correu para o
corredor.
Na tela, Anakin viu Qui-Gon dar um passo atrás, nivelar seu sabre de luz e golpear o
atarante com um poderoso golpe de duas mãos. O outro bloqueou o golpe, mas por pouco,
e no processo perdeu o equilíbrio completamente. A força do golpe o lançou para fora da
rampa para o espaço. Ele se desviou para o solo do deserto, pousou agachando-se e ficou
de pé instantaneamente. Ele ficou olhando frustrado, os olhos amarelos inflamados,
enquanto a rampa do transporte Real se fechava e a nave se afastava.
Qui-Gon mal havia conseguido subir a rampa em direção ao interior da nave quando a
escotilha se fechou e o Nubian começou a acelerar. Ele se deitou no chão metálico frio da
entrada com suas roupas empoeiradas e molhadas de suor e o corpo machucado e
exausto.
Ele inspirou profundamente, esperando suas batidas cardíacas se acalmarem. Ele escapou
por pouco com vida e esse simples pensamento o preocupava. Seu oponente era forte e o
testou severamente. Ele estava ficando velho, decidiu, e não gostava da sensação.
Obi-Wan e Anakin vieram correndo pelo corredor ajudá-lo a se levantar e era difícil dizer
qual dos dois parecia mais preocupado. Isso o fez sorrir, a despeito de seu estado.
O menino falou primeiro. — Você está bem? — perguntou com o rosto jovem expressando
preocupação.
Qui-Gon assentiu, retirando a poeira do corpo. — Acho que sim. Aquela foi uma surpresa
de que não me esquecerei tão cedo.
–Que criatura era aquela? — interrogou Obi-Wan com a testa franzindo
sombriamente. Ele quer voltar e terminar com o que deixei sobrando, pensou Qui-Gon.
O Mestre Jedi sacudiu a cabeça. — Não estou certo. Quem ou o quê quer que tenha sido,
foi treinado em artes Jedi. Minha opinião é que estava atrás da rainha.
–Acha que ele vai nos seguir? — perguntou Anakin rapidamente.
–Estaremos a salvo quando estivermos no hiperespaço — respondeu Qui-Gon,
fugindo da pergunta. — Mas não tenho dúvida de que ele sabe qual é o nosso
destino. Se nos encontrou uma vez, pode nos encontrar novamente.
A testa do garoto franziu. — O que vamos fazer sobre isso?
Nesse momento, Obi-Wan se voltou para olhar para o menino, lançando-lhe um olhar que
exigia explicações — O que quer dizer ? nós ??
O garoto recebeu o olhar e o encarou inexpressivo.
–Seremos pacientes — aconselhou Qui-Gon, trazendo a atenção dos dois para si. —
Anakin Skywalker, este é Obi-Wan Kenobi.
O garoto se iluminou. — Prazer em conhecê-lo. Uau! Você é um Cavaleiro Jedi, não é?
O jovem Jedi olhou do menino para Qui-Gon e virou os olhos desanimado.
Da entrada, eles retornaram à cabine, onde Ric Olié trabalhava preparando a nave para
saltar para o hiperespaço. Qui-Gon apresentou Anakin para cada um dos presentes e,
então, se sentou próximo a Ric.
–Pronto — anunciou o piloto por sobre os ombros, com uma sobrancelha curvada em
expectativa.
Qui-Gon assentiu. — Vamos torcer para que o hiperpropulsor funcione e Watto não dê a
última risada.
Parados atrás de Ric, o grupo esperou enquanto ele colocava as mãos nos controles e
acionou o hiperpropulsor. Houve um chiado rápido e intenso e as estrelas que preenchiam o
visor do posto de observação se transformaram de pontinhos prateados em longas faixas
enquanto a nave penetrava suavemente no hiperespaço, deixando Tatooine para trás.
A noite caía sobre o planeta Naboo, mas o silêncio em Theed sobrepujava até o silêncio
que se experimentava, normalmente, pelas pessoas ao se prepararem para dormir. Na sala
enfeitada do trono que antes havia sido domínio exclusivo da rainha Amidala, um estranho
grupo de criaturas estava reunido para assistir à sentença do governador Sio Bibble. O
vice-rei da Federação Comercial, Nute Gunray, havia convocado o grupo, do qual faziam
parte Rune Haako e vários outros Neimoidians, o governador e um punhado de oficiais que
serviam à rainha, e um vasto número de guerreiros dróides armados com dinamitadores
para manter os prisioneiros Naboo na linha’.
O Neimoidian estava sentado em uma cadeira mecânica, um andador robótico que o levava
de uma parte da sala para outra, as pernas metálicas respondendo ao simples toque dos
seus dedos. A cadeira o levava, naquele momento, para Sio Bibble e os oficiais Naboo, as
armações articuladas trabalhando com cuidado e precisão, permitindo-lhe ficar relaxado e
confortável enquanto percebia o medo no olhar dos oficiais de Bibble.
O governador, no entanto, não estava engolindo nada daquilo. Imperturbável mesmo agora,
ele encarava Nute Gunray com raiva e determinação, a cabeça branca erguida, os olhos
desafiadores. O Neimoidian o fitava; Sio Bibble estava se tornando uma fonte de irritação.
–Quando vai desistir dessa greve inútil? — vociferou para o governador,
inclinando-se levemente para frente de modo a enfatizar seu desprazer.
–Vou desistir da greve, vice-rei, quando a rainha...
–Sua rainha está morta; seu povo está morrendo de fome!
Bibble se manteve firme. — Os Naboo não serão intimidados, nem mesmo que nos custe
vidas inocentes.
–Talvez devesse se preocupar mais consigo mesmo, governador!
–Gunray o interrompeu secamente. — Há boas chances de que você morra
muito antes que seu povo! — Ele tremia de fúria, perdendo a paciência de uma
vez. — Chega disso! — explodiu. — Leve-o daqui!
Os guerreiros dróides se movimentaram rapidamente, cercando Sio Bibble e o separando
de seus colegas.
–Esta invasão não vai levar a lugar nenhum! — gritou o governador por cima do
ombro enquanto era arrastado para fora.
–Somos uma democracia! O povo decidiu, vice-rei! Não viverão sob tirania...
O restante do que dizia se perdeu enquanto ele desaparecia pela entrada em direção ao
corredor. Os oficiais Naboo o seguiram silenciosos e abatidos.
O Neimoidian os observou por um momento, então, dirigiu sua atenção a OOM-9 enquanto
o comandante de seu exército de dróides se aproximou com a face metálica impassível e
com a voz sem inflexão.
–Minhas tropas estão posicionadas para começar as buscas nos pântanos para
procurar as tais vilas submersas — relatou OOM-9. — Não ficarão escondidos por
muito tempo.
Nute Gunray assentiu e o dispensou com um aceno de mão. Ele não se preocupava com
esses selvagens que ocupavam os pântanos.
Eles seriam destruídos logo. Em todos os sentidos, o planeta estava controlado.
Ele encostou na cadeira mecânica — uma certa calma voltando.
Tudo que restava eram os Sith Lords trazerem a rainha de volta. Com certeza eles teriam
pouca dificuldade em fazer isso.
Ainda assim, ele sabia que não estaria feliz enquanto este negócio não estivesse resolvido.
A bordo do transportador Real, Anakin Skywalker tremia, sentado em um canto da câmara
central, tentando decidir o que fazer para se aquecer. Todos estavam dormindo, e ele
havia dormido também, mas por pouco tempo, atormentado por seus sonhos. Ele acordou
para o silêncio e não conseguiu se mover, paralisado por algo mais que simplesmente o
frio.
Jar Jar dormia do outro lado numa cadeira com a cabeça para cima, roncando alto. Nada o
impedia de dormir. Ou comer, no caso. O menino sorriu. R2-D2 descansava próximo, o
corpo voltado para cima e silencioso, suas luzes piscando levemente. Anakin fitou a
escuridão, desejando se mexer para se livrar de sua inércia. Mas seus sonhos ainda o
assombravam. Ele pensava em sua mãe e em sua casa, e tudo se fechou dentro dele.
Como sentia a falta dela! Ele pensou que ficaria melhor quando estivesse longe, mas não.
Tudo lembrava ela e, quando fechava os olhos para as lembranças, ele via o rosto dela
esperando por ele, suspenso na escuridão de seus pensamentos, ansioso e abatido.
Lágrimas lhe vieram aos olhos. Talvez ele tenha cometido um erro vindo. Talvez devesse
ir para casa. Exceto que, agora, não podia. Talvez nunca mais.
Uma figura esbelta entrou no aposento e Anakin observou a luz de um visor iluminar o
rosto macio de Padmé. De pé, como se encalhada em pedra, ela ligou um gravador e
assistiu à gravação da súplica de Sio Bibble para a rainha Amidala voltar para casa,
salvando seu povo da fome e ajudá-los neste momento de necessidade. Ela assistiu a toda
a gravação, então, desligou novamente e ficou olhando para o vazio com sua cabeça baixa.
O que ela estava fazendo?
Subitamente, ela pareceu sentir que ele a observava e se voltou rapidamente para onde ele
estava encolhido. O rosto lindo parecia cansado e preocupado enquanto se aproximou e se
ajoelhou a seu lado. Ele se enrijeceu, tentando desesperadamente parar de chorar, mas não
conseguiu esconder as lágrimas ou o tremor no corpo e ficou ali, amontoado à frente dela,
exposto.
–Você está bem, Annie? — ela perguntou suavemente.
–Está muito frio — ele conseguiu sussurrar.
Ela sorriu e tirou o casaco pesado que vestia, embrulhando-o nos ombros dele e cobrindoo. — Você vem de um planeta quente, Annie.
O espaço é frio.
Anakin assentiu, puxando o casaco para mais perto. Ele esfregou os olhos. — Você parece
triste — ele disse.
Se ela percebeu a ironia em seu comentário, não o disse. — A rainha está preocupada. Seu
povo está sofrendo, morrendo. Ela precisa convencer o Senado a interferir ou... — ela se
afastou sem coragem de dizer as palavras. — ...não sei o que acontecerá — concluiu com
a voz distante e seu olhar escapando do dele para se fixar em outra coisa.
–Também não estou certo do que vai me acontecer — admitiu ele preocupado. — Não
sei se um dia verei...
Ele parou, sua garganta apertada, as palavras desaparecendo no silêncio. Ele inspirou
profundamente, franziu a testa e mexeu no bolso.
–Tome — ele disse — Fiz para você. Assim vai se lembrar de mim. Eu o
esculpi em uma madeira antiga. Pegue. Vai lhe trazer sorte. Ele lhe entregou
um pingente de madeira cuidadosamente entalhado. Ela o estudou por um
momento, a cabeça baixa nas sombras, então, o pendurou no pescoço.
–E lindo. Mas não preciso disso para me lembrar de você. — O rosto dela se
ergueu para olhá-la com um sorriso. — Como poderia me esquecer de meu
futuro marido? — Ela olhou para o pingente, passando por seu dedo. — Muitas
coisas mudarão quando chegarmos a Coruscant, Annie. Mas meu carinho por
você não será uma delas.
O menino assentiu, engolindo. — Eu sei. E também não deixarei de gostar de você. Só
sinto falta...
Sua voz parou, e as lágrimas vieram a seus olhos novamente.
–Você sente saudades de sua mãe — a garota concluiu baixinho. Anakin concordou,
secando o rosto, sem conseguir dizer nada enquanto Padmé Naberrie o apertou contra
si.


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