Três dias mais tarde, Obi-Wan Kenobi estava de pé num pequeno aposento no templo de
Theed onde a morte de heróis era lamentada e suas vidas celebradas. O corpo de Qui-Gon
Jinn jazia sobre uma carreta funerária na praça ao lado de fora, aguardando cremação. Os
cidadãos de Naboo e o povo Gungan estavam reunidos para homenagear o Mestre Jedi.
Muita coisa havia mudado na vida daqueles que lutaram pela soberania de Naboo. Com o
colapso do exército de dróides, o controle da Federação de Comércio sobre Naboo havia
sido quebrado. Todos os transportes terrestres, tanques, ST$Ps, armas e suprimentos
estavam em poder da República. O vice-rei Nute Gunray, seu tenente Rune Haako e o
restante do conselho de ocupação Neimoidian haviam sido enviados como prisioneiros para
Coruscant para aguardar julgamento. O senador Palpatine havia sido eleito chanceler
supremo da República e havia prometido ação rápida no julgamento dos prisioneiros.
A rainha Amidala havia ludibriado os Neimoidians uma última vez fingindo entregar-se para
conseguir se aproximar do vice-rei antes que ele tivesse tempo de fugir. Ela havia se
comunicado com Sabé para escapar da luta que acontecia vários andares abaixo e para
usar as passagens de serviço para chegar aos aposentos da rainha e, depois, aparecer para
o vice-rei. Foi um risco calculado, e Sabé poderia não ter conseguido chegar a tempo. Se
não tivesse, Amidala teria acionado o compartimento secreto e lutado por sua liberdade de
qualquer maneira. Ela era jovem, mas não lhe faltavam coragem e ousadia. Ela havia
demonstrado inteligência e percepção desde o início quando os Jedi vieram em seu
socorro. Obi-Wan achou que ela seria uma ótima rainha.
Mas foi um garoto de nove anos quem os salvou. Mesmo sem saber exatamente o que
estava fazendo, Anakin Skywalker havia voado uma nave de combate para o centro de
defesa da Federação, penetrado seus escudos, aterrissado nas entranhas da nave
Neimoidian, torpedeado o reator da nave e começado uma reação em cadeia de explosões
que destruíram a estação de controle. Foi a destruição do transmissor central que fez os
dróides congelarem no lugar, com suas comunicações efetivamente em curto-circuito.
Anakin disse que havia atacado sem nenhum tipo de plano em mente ou que atirou seus
torpedos sem nenhuma expectativa de atingir o reatar. Mas, após ouvir o conto do garoto
e questioná-lo minuciosamente, Obi-Wan concluiu que Anakin foi guiado por algo mais que
o pensamento dos homens comuns. Aquela quantia extraordinária de midi-chlorians dava
ao garoto uma conexão com a Força que mesmo um Mestre Jedi da ordem de Yoda nunca
atingiria. Qui-Gon, ele agora acreditava, havia estado correto. Anakin Skywalker era o
escolhido.
Ele caminhou pelo quarto vestido com roupas limpas para o funeral: um manto de
Cavaleiro Jedi cor de areia, macio e folgado, e o sabre de luz de Qui-Gon, que agora lhe
pertencia, pendurado no bolso. O Conselho Jedi havia vindo a Naboo para o funeral e para
falar novamente com Anakin. Eles estavam fazendo isso agora, ali perto, uma análise final
do que havia aparecido desde sua última sessão com o menino. Obi-Wan pensou que o
resultado de suas deliberações era o previsto. Ele não poderia imaginar, agora, que não
seria.
Ele interrompeu seus passos e olhou para o nada por um momento, pensando em Qui-Gon
Jinn, seu Mestre, seu professor, seu amigo. Ele havia falhado com Qui-Gon em vida. Mas
poderia agora prosseguir com o trabalho dele, honrando-o em morte, cumprindo, de
qualquer maneira, sua promessa de treinar o garoto.
Ouçam-me, ele sorriu infeliz. Estou falando como ele.
A porta se abriu e Yoda apareceu. Ele entrou no aposento arrastando-se lentamente,
apoiando-se em seu bastão para caminhada, com a face enrugada sonolenta e
contemplativa.
–Mestre Yoda — saudou Obi-Wan, aproximando-se rapidamente para encontrá-lo e
inclinando a cabeça de modo respeitoso.
O Mestre Jedi acenou a cabeça. — A você o grau de Cavaleiro Jedi, o Conselho confere.
Decidido sobre o garoto, o Conselho está, Obi-Wan — ele disse solenemente.
–Ele será treinado?
As orelhas grandes se movimentaram para frente e as pálpebras daqueles olhos
sonolentos se alugaram. — Tão impaciente, você é.
Tão certo do que foi decidido?
Obi-Wan mordeu a língua e ficou em silêncio, esperando obedientemente pelo outro. Yoda
o estudou cuidadosamente. — Um grande guerreiro, foi Qui-Gon Jinn. — Ele gargarejou
suavemente com a voz triste. — Mas tão mais ele poderia ter sido, se não tão depressa
tivesse corrido. Mas devagar, você deve prosseguir, Obi-Wan.
Obi-Wan manteve sua posição. — Ele entendia o que nós não entendemos sobre o garoto.
Mas Yoda sacudiu a cabeça. — Não seja tão rápido em julgar. Nem tudo é compreensível.
Nem tudo de uma vez, é revelado. Anos, precisam, para se tornar um Jedi. Anos mais,
para se tornar um com a Força.
Ele caminhou para um local onde a luz fraca, suave e dourada brilhava através de um
janela. O pôr-do-sol se aproximava: a hora marcada para o adeus a Qui-Gon.
O olhar de Yoda estava distante quando falou. — Decidido, o Conselho está — repetiu. —
Treinado, o garoto será.
Obi-Wan sentiu uma onda de alívio e alegria o invadir e um sorriso de gratidão lhe
escapou.
Yoda viu o sorriso. — Contente, você está? Tanta certeza de que isso é correto? — A face
enrugada ficou tensa. — Obscuro, o futuro desse menino permanece, Obi-Wan. Um erro
treiná-la, isso é.
–Mas o Conselho...
–Sim, decidido. — Os olhos sonolentos levantaram. — Não concordar com essa
decisão, eu devo.
Houve um longo silêncio enquanto os dois trocavam um olhar, ouvindo os sons das
preparações para o funeral acontecendo à sua volta. Obi-Wan não sabia o que dizer. Estava
claro que o Conselho havia decidido contra os conselhos de Yoda. Somente aquilo já era
incomum.
Que o Mestre Jedi escolhesse enfatizar isso naquele momento destacava a extensão de
suas preocupações sobre Anakin Skywalker.
Obi-Wan escolheu bem as palavras. — Eu tomarei o menino como meu jovem Padawan,
Mestre. Eu o treinarei da melhor maneira que puder. Mas manterei em mente o que o
senhor me disse aqui. Irei com cuidado. Eu prestarei atenção a seu alerta. Ficarei atento
ao progresso dele.
Yoda o observou por um momento e, então, assentiu. — De sua promessa, portanto,
lembre-se bem, jovem Jedi — disse ele suavemente. — Suficiente é, se lembrar.
Obi-Wan se inclinou em reconhecimento. — Eu me lembrarei. Juntos, eles saíram para a
luz intensa.
A pira funerária estava acesa, o fogo crescendo calmamente em volta do corpo de QuiGon Jinn, as chamas lentamente começando a envolvê-lo e a consumi-lo. Aqueles que
decidiram homenageá-lo estavam em volta da pira. A rainha Amidala estava com suas
aias, o chanceler supremo Palpatine, o governador Sio Bibble, capitão Panaka e uma guarda
de honra de cem soldados Naboo. Chefe Nass, Jar Jar Binks e vinte guerreiros Gungans
estavam parados de pé à frente deles. No meio dos dois grupos
estavam os membros do Conselho Jedi, incluindo Yoda e Mace Windu. Outro grupo de
Cavaleiros Jedi — aqueles que melhor e por mais tempo conheceram Qui-Gon —
completava o círculo. Anakin Skywalker estava ao lado de Qui-Gon, o rosto jovem dele
intenso enquanto tentava segurar as lágrimas.
Uma batida longa de tambor acompanhava a passagem das chamas que reduziam Qui-Gon
a espírito e cinzas. Quando o fogo o havia consumido, soltou-se uma revoada de pombas
brancas no vermelho-carmim do poente. Os pássaros levantaram numa agitação de asas e
um esguicho de brilho pálido, voando para longe rapidamente.
Obi-Wan estava se lembrando. Por toda a vida, ele havia estudado com os Jedi e Qui-Gon
Jinn em particular. Agora, Qui- Gon se fora, e Obi-Wan havia passado de uma antiga para
uma nova vida. Ele agora era um Cavaleiro Jedi, não um Padawan. Tudo que acontecera
antes foi deixado para trás de uma porta que, para sempre, havia se fechado para ele. Foi
duro de aceitar e, ao mesmo tempo, deu-lhe uma sensação estranha de liberdade. Ele
baixou o olhar para Anakin. O menino fitava as cinzas da carreta funerária, chorando
baixinho.
Ele pôs a mão sobre um ombro frágil. — Ele é um só com a Força, Anakin. Deve deixá-lo
ir.
O menino sacudiu a cabeça. — Sinto falta dele.
Obi-Wan assentiu. — Eu também. E sempre me lembrarei dele. Mas ele se foi.
Anakin enxugou as lágrimas do rosto. — O que acontecerá comigo agora?
A mão apertou o ombro do menino. — Eu vou treiná-la exatamente como Qui-Gon o teria
feito — disse Obi-Wan Kenobi suavemente. — Sou seu novo Mestre, Anakin. Você vai
estudar comigo e se tornará um Cavaleiro Jedi, prometo-lhe.
O menino se endireitou num movimento quase imperceptível. Obi-Wan assentiu para si
mesmo. Em algum lugar, ele pensou, Qui-Gon Jinn estaria sorrindo.
Do outro lado, Mace Windu estava parado ao lado de Yoda, sua face escura e forte
contemplativa enquanto assistia a Obi- Wan colocar sua mão sobre o ombro de Anakin
Skywalker.
–Uma vida termina e uma nova se inicia na ordem Jedi — ele murmurou quase para si
mesmo.
Yoda se inclinou para a frente, apoiando-se em seu bastão curvo, e sacudiu a cabeça. —
Não tão certo dessa vida como a de Qui-Gon, eu me sinto. Com problemas, ele está.
Embrulhado em sombras e escolhas difíceis.
Mace Windu meneou a cabeça. Ele sabia dos sentimentos de Yoda sobre o assunto, mas o
Conselho havia tomado sua decisão.
–Obi-Wan fará um bom trabalho com ele — disse ele, mudando de assunto.
–Qui-Gon estava certo, ele está pronto.
Eles sabiam o que o jovem Padawan havia feito para se salvar do Sith Lord no poço de
fundição depois que Qui-Gon foi derrubado.
Precisou de uma coragem extraordinária e força de vontade. Somente um Cavaleiro Jedi
totalmente em sintonia com a Força poderia se salvar de tal adversário. Obi-Wan Kenobi
havia se mostrado além das expectativas de todos naquele dia.
–Pronto desta vez, ele estava — Yoda reconheceu com relutância.
–Pronto para treinar o garoto, ele pode não estar.
–Derrotar um Sith Lord em combate é um forte teste de sua preparação para
qualquer coisa — pressionou o líder do Conselho, com os olhos fixos em ObiWan e Anakin. — Não há dúvida. Aquele que o testou foi um Sith.
Os olhos sonolentos de Yoda piscaram. — Sempre dois deve haver. Não mais, não menos.
Um mestre e um aprendiz.
Mace Windu assentiu com a cabeça. — Então qual dos dois foi destruído, o senhor acha —
o mestre ou o aprendiz?
Eles se entreolharam, mas nenhum podia dar uma resposta à pergunta.
Naquela noite Darth Sidious ficou sozinho de pé num balcão de onde se avistava a cidade,
uma figura sombria entre a multidão de luzes que cintilavam, seu semblante escuro e
enraivecido enquanto meditava sobre a perda de seu aprendiz. Anos de treinamento havia
passado na preparação de Darth Maul como Sith Lord. Ele havia sido mais que um igual
para os Cavaleiros Jedi que enfrentou e deveria ter sido capaz de derrotá-los facilmente.
Foi o azar e o destino que levaram à sua morte, uma combinação que nem mesmo o lado
escuro da Força podia sempre vencer.
Não a custo prazo, afinal.
Sua testa franziu. Seria necessário substituir Darth Maul. Ele precisaria treinar outro
aprendiz. Alguém que não seria fácil encontrar.
Darth Sidious caminhou para a balaustrada e pôs a mão sobre o metal frio. Uma coisa era
certa. Os responsáveis pela morte de Darth Maul pagariam por isso. Todos que se
opuseram a ele não seriam esquecidos. Todos seriam obrigados a pagar.
Seus olhos brilharam. Ainda assim, ele havia conseguido o que mais queria deste negócio.
Mesmo a morte de Darth Maul valeu a pena por aquilo. Ele seria paciente. Ele aguardaria
sua oportunidade. Ele montaria as bases para o que era necessário. Um sorriso brincou em
seus lábios finos. O dia do ajuste de contas chegaria em breve.
Houve um grande desfile no dia seguinte para o reconhecimento público da nova aliança
firmada entre os povos Naboo e Gungan, celebrando a dura vitória conseguida sobre os
invasores da Federação de Comércio e homenageando aqueles que lutaram para assegurar
a liberdade do planeta. Multidões enchiam as ruas de Theed enquanto colunas de guerreiros
Gungans montados em kaadus e soldados Naboo a bordo de speeders desfilavam pela
cidade ao som de saudações e música. Fambaas caminhavam pesadamente pelas
avenidas, enrolados em ricas sedas e armaduras bordadas, as cabeças ondulando de um
lado para o outro sobre os pescoços compridos. Aqui e lá, um tanque da Federação
capturado circulava entre os participantes da marcha, bandeiras Naboo e Gungans
esvoaçando sobre tanques e escotilhas. Jar Jar Binks e o General Ceel lideravam os
Gungans, ambos montados em seus kaadu. Jar Jar tentando, desta vez, permanecer sobre
o kaadu por todo o desfile, apesar de demonstrar para a platéia que estava tendo
problemas para fazê- lo.
O capitão Panaka e os guardas particulares da rainha estavam de pé sobre os degraus de
pedra da praça central, assistindo à aproximação do desfile. O uniforme de Panaka estava
vincado, a insígnia de metal em sua dragona brilhando, orgulhoso e forte. Anakin Skywalker
estava ao lado de Obi-Wan próximo à rainha. Ele se sentia fora do lugar e encabulado. Ele
achou o desfile maravilhoso e apreciou ser homenageado com os outros, mas sua mente
estava em outro lugar.
Estava com Qui-Gon, que partiu para junto da Força.
Estava com Padmé, que mal havia falado com ele desde que foi aceito para treinamento
pelo Conselho Jedi.
Estava em sua casa, para onde talvez nunca retornasse.
Estava com sua mãe, que ele gostaria que pudesse vê-lo agora.
Ele vestia os trajes de um Jedi Padawan, seu cabelo cortado curto ao estilo Padawan, um
estudante em treinamento para se tornar um Cavaleiro da Ordem. Ele havia conseguido
tudo isso ao vir com Qui-Gon para Coruscant. Mas sua felicidade e satisfação eram
ofuscadas pela tristeza da qual não conseguia se livrar por ter perdido Qui-Gon e sua mãe.
Eles estavam perdidos para ele, de maneiras diferentes, na verdade, mas eles haviam
saído de sua vida. Qui-Gon havia fornecido a estabilidade de que ele precisava para deixar
sua mãe. Com a morte do Mestre Jedi, Anakin foi deixado à deriva. Não havia ninguém que
pudesse dar ao menino a estrutura que precisava — nem Obi-Wan, nem mesmo Padmé.
Um dia, talvez. Um dia, cada um deles desempenharia um papel em sua vida que o
transformaria para sempre. Ele podia sentir isso. Mas, no momento, quando mais
importava, ele se sentiu completamente sozinho.
Então ele sorriu, mas estava doente no espírito e perdido em seu coração.
Talvez sentindo seu desconforto, Obi-Wan colocou uma mão encorajadora em seu ombro.
— E o começo de uma nova vida para você, Anakin — ele arriscou.
O menino sorriu obsequioso, mas não disse nada.
Obi-Wan olhou para a multidão diante deles. — Qui-Gon sempre desprezou festejos. Mas
entendia, também, sua necessidade. Imagino o que ele teria feito com esse aqui.
Anakin encolheu os ombros.
O Jedi sorriu. — Ele teria ficado orgulhoso de ver você como parte disso.
O menino olhou para ele . — Você acha?
–Eu acho. A sua mãe ficaria orgulhosa também.
A boca de Anakin se apertou e ele olhou para outro lado. — Queria que ela estivesse aqui.
Eu sinto saudade dela.
A mão do Jedi apertou o ombro dele. — Um dia você a verá novamente. Mas quando o
fizer, será um Cavaleiro Jedi.
O desfile serpenteou pela praça central em direção ao local onde a rainha e seus
convidados assistiam à parada. Ela estava de pé com suas aias, o governador Sio Bibble, o
chanceler supremo Palpatine, Chefe Nass, os Gungans e os doze membros do Conselho
Jedi.
R2-D2 ocupava um espaço logo abaixo das aias e junto a Anakin e Obi-Wan; a cabeça
arredondada girando de um lado a outro e as luzes piscando enquanto seus sensores
assimilavam tudo. R2 emitiu um bip para o menino, e Anakin tocou gentilmente a casca do
pequeno dróide.
Chefe Nass deu um passo adiante e segurou o Globo da Paz, elevando-o sobre a cabeça. —
Isso grande festa! — gritou um Jar Jar exuberante, mais alto que as saudações e os
aplausos. —
Gungans e Naboo, eles ser amigos para sempre, né?
O entusiasmo dele fez Anakin sorrir apesar de tudo. O Gungan estava dançando para baixo
e para cima, as longas orelhas abanando, as pernas e braços desajeitados se torcendo para
os lados enquanto dava os passos. Jar Jar nunca permitiria que as coisas ruins da vida o
deixassem triste, pensou o menino. Talvez houvesse uma lição para se aprender nisso.
–Nós heróis bombásticos, Annie! — gargalhava Jar Jar, erguendo seus braços acima da
cabeça e mostrando todos os dentes.
O menino sorriu. Ele pensou que talvez fossem mesmo.
Na avenida larga, logo abaixo, formando um longa corrente de vida, o desfile que os
trouxera para este local e para este tempo prosseguia.


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