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domingo, 4 de junho de 2017

SD 949 : DUNE - A CASA ATREIDES

DUNE 

A CASA ATREIDES 

Este livro é para nosso mentor, Frank Herbert, que foi tão fascinante e complexo como o maravilhoso universo de Dune ele que criou. Transmissão da Corporação Espacial à corporação mercantil galáctica Combine Honnete Ober Advanced Mercantis. “Nossa responsabilidade específica nesta missão extra-oficial consistiu em explorar os planetas desabitados com o objetivo de encontrar outra fonte da preciosa especiaria melange, da qual tanto depende o Império. documentamos as viagens de muitos de nossos Navegantes e Pilotos, que inspecionaram centenas de planetas. Entretanto, até a data não obtivemos o menor êxito. A única fonte de melange que existe no universo conhecido continua a ser o planeta deserto Arrakis. A Corporação, a CHOAM e todos os outros elementos dependentes têm que continuar sujeitos ao monopólio dos Harkonnen. Não obstante, o esforço de explorar territórios longínquos em busca de novos sistemas planetários e novos recursos dá seus frutos. As explorações detalhadas e os mapas orbitais contidos nas folhas de cristal riduliano anexas serão de grande importância comercial para a CHOAM. “Depois de cumprir as especificações do contrato assinado previamente, solicitamos a CHOAM que deposite a quantia acordada em nossa sede oficial do Banco da Corporação. A sua Alteza Real o imperador Padishah Elrood IX, regente do Universo Conhecido” “De seu fiel súdito o barão Siridar Vladimir Harkonnen e Senhor Supremo de Giedi Prime, Lankiveil e planetas aliados. “Senhor, permita-me uma vez mais reafirmar o compromisso de servi-lo com lealdade no planeta deserto Arrakis. Durante os sete anos posteriores à morte de meu pai, envergonha-me dizer que meu incompetente meio-irmão Abulurd permitiu que a produção de especiaria se reduzisse. As perdas de equipes foram elevadas, e as exportações desceram a níveis abismais. Devido à dependência do Império pela especiaria melange, este fato poderia trazer graves conseqüências. Não duvidem que minha família tomou medidas para corrigir tão desafortunada situação: Abulurd foi afastado de suas funções e deportado ao planeta Lankiveil Seu título de nobreza foi retirado, embora seja possível que algum dia reclame o governo de algum distrito.
“Agora que a supervisão direta de Arrakis depende de mim, permita-me dar minha garantia pessoal de que utilizarei todos os meios necessários (dinheiro, dedicação e mão de ferro) para conseguir que a produção de melange alcance ou exceda nossos níveis de produção anteriores. Como ordenou sabiamente, a especiaria tem que fluir. A melange é o elemento econômico primitivo das atividades da CHOAM. Sem a especiaria, as reverendas madres da Bene Gesserit não poderiam realizar suas experiências de observação e controle humano, os Navegadores da Corporação não poderiam localizar caminhos seguros através do espaço, e milhares de cidadãos imperiais morreriam devido à síndrome de abstinência. Qualquer néscio sabe que a dependência de apenas uma substância degenera em abusos. Todos corremos um grave perigo. Análise econômica de circulação de materiais da CHOAM
O barão Vladimir Harkonnen, esbelto e musculoso, estava inclinado para frente, ao lado do piloto do ornitóptero. Esquadrinhou com olhos negros através do cristal côncavo, ao mesmo tempo que seu olfato sentia o aroma da areia e do pó onipresentes.
Enquanto o ornitóptero couraçado voava a considerável altura, o sol branco de Arrakis arrancava reflexos das areias infinitas. A visão das dunas, que brilhavam devido ao calor do dia, feriu suas retinas. A paisagem e o céu eram de um branco cegante. Nada conseguia distrair o olho humano.

Um lugar infernal

O barão desejava retornar à placidez industrializada e a complexidade civilizada de Giedi Prime, o planeta central da Casa Harkonnen. Tinha melhores coisas a fazer no quartel general da família, situado na cidade de Carthag, e seus gostos exigentes desejavam outras diversões.
Mas a especiaria tinha prioridade absoluta. Sempre. Sobretudo quando surgia uma greve tão selvagem como seus rastreadores tinham informado.
Na cabine lotada, o barão apresentava um ar de confiança absoluta, indiferente às oscilações produzidas pelas turbulências de ar. As asas mecânicas do ornitóptero batiam ritmicamente, como as de uma vespa. O
couro negro de seu casaco se ajustava perfeitamente sobre seus peitorais bem
desenvolvidos. Com mais de quarenta anos, era atraente, com um ar de fanfarronice em suas feições. Usava o cabelo vermelho-dourado cortado e penteado conforme instruções precisas, para que destacasse seu penteado característico. O rosto do barão era imberbe, as maçãs do rosto altas e bem esculpidas. Ao longo do seu pescoço e mandíbula destacavam músculos muito pronunciados, dispostos a deformar seu rosto em uma expressão raivosa ou em um duro sorriso, segundo as circunstâncias.
— Quanto falta?
Olhou de esguelha para o piloto, que dava sinais de nervosismo.
— O lugar fica nas profundezas do deserto, barão. Tudo indica que se trata de uma das mais ricas concentrações de especiaria jamais escavada.
O aparelho estremeceu quando passaram sobre um afloramento de lava negra. O piloto engoliu em seco e se concentrou nos controles do ornitóptero.
O barão relaxou em seu assento e reprimiu a impaciência. Estava satisfeito porque o novo tesouro estava a salvo de olhos inquisidores, longe de funcionários imperiais ou da CHOAM que pudessem levar registros chatos. O senil imperador Elrood IX não tinha por que saber nada sobre a produção de especiaria dos Harkonnen em Arrakis. Graças a informes falsificados com supremo cuidado e livros de contas manipulados, para não falar dos subornos, o barão contava aos supervisores extra planetários somente o que queria que soubessem.
Passou a mão pelo suor que cobria seu lábio superior, e ajustou os controles da cabine do ornitóptero para uma temperatura mais fresca e um ambiente mais úmido.
O piloto, nervoso por ter sob sua responsabilidade um passageiro tão importante e de caráter tão mutável, aumentou a velocidade. Olhou para a projeção cartográfica do console, e estudou os contornos do terreno deserto que se estendia até perder-se de vista.
Depois de examinar as projeções cartográficas, sua escassez de detalhes desagradou o barão. Como alguém podia orientar-se naquele planeta deserto? Como era possível que um planeta vital para a estabilidade econômica do Império nunca tivesse sido cartografado? Outra falha de seu fraco meio-irmão, Abulurd.
Mas Abulurd se fora, e o barão estava no comando. Agora que Arrakis é meu, porei tudo em ordem. Assim que retornasse a Carthag, poria gente a trabalhar
em novos mapas e planos, se os malditos Fremen não matassem uma vez mais os exploradores, ou destruíssem os pontos cartográficos.
Durante quarenta anos este mundo deserto tinha sido o semi-feudo da Casa Harkonnen, um acordo político garantido pelo imperador, com a bênção da poderosa CHOAM. Embora sórdido e desagradável, Arrakis era uma das jóias mais importantes da coroa imperial, em virtude da preciosa substância que fornecia.
Entretanto, depois da morte do pai do barão, Dimitri Harkonnen, o velho imperador tinha concedido o poder, devido a alguma deficiência mental, ao fraco Abulurd, que conseguira arruinar a produção de especiaria em apenas sete anos. Os lucros caíram, e perdeu o controle graças a contrabandistas e sabotagem. Caído em desgraça, o imbecil tinha sido deposto e exilado sem título oficial em Lankiveil, onde não podia prejudicar muito às atividades baleeiras desenvolvidas no planeta.
Em todo o Império, Arrakis (um inferno que alguns consideravam um castigo) era a única fonte conhecida da melange, uma substância muito mais valiosa que qualquer metal precioso. Neste mundo seco valia mais que seu peso em água.
Sem especiaria, as viagens espaciais seriam impossíveis... e sem viagens espaciais, o Império cairia. A especiaria prolongava a vida, protegia contra doenças e acrescentava vigor à existência. O barão, que a consumia com moderação, agradecia sobremaneira a sensação que produzia. Claro que a melange, em contrapartida, era ferozmente aditiva, o que mantinha seu preço alto...
O ornitóptero couraçado sobrevoou uma cordilheira que parecia uma mandíbula cheia de dentes podres. Ao longe, o barão viu uma nuvem de pó que se estendia como uma bigorna até o céu.
— São os trabalhos de coleta, barão.
Ornitópteros de ataque semelhantes a falcões apareceram como pontos negros no céu monocromático e se precipitaram para eles. O
comunicador soou, e o piloto enviou um sinal de identificação. Os defensores, mercenários com ordem de manter afastados moradores indesejáveis, descreveram um círculo e adotaram uma posição protetora no céu.
Enquanto a Casa Harkonnen alimentasse a ficção de progresso e benefícios, a Corporação Espacial não tinha por que ser informada de nenhuma descoberta de
especiaria. Nem o imperador nem a corporação de comércio galáctico CHOAM. O barão ficaria com a melange e aumentaria seus já enormes depósitos.
Depois dos anos de decadência, se o barão conseguisse ao menos a metade do que era capaz, a CHOAM e o Império notariam uma grande melhora. Sim isso os contentaria, não reparariam em suas consideráveis manobras, nunca suspeitariam da existência de suas reservas secretas. Um estratagema perigoso, se fosse descoberto... mas o barão sabia como tratar os olhos curiosos.
Enquanto se aproximavam da nuvem de pó, pegou um binóculo e regulou as lentes. A ampliação lhe permitiu ver a fábrica de especiaria em funcionamento. Com seus gigantescos pneumáticos e enorme capacidade de carga, a monstruosidade mecânica era incrivelmente cara, e valia todos os Solaris que sua manutenção custava. Suas escavadoras expulsavam pó avermelhado, areia cinza e lascas de pedra à medida que afundavam e cavavam a superfície do deserto, em busca da especiaria.
Unidades terrestres móveis percorriam a areia estripada nas vizinhanças da fábrica, afundavam sondas sob a superfície, recolhiam amostras, riscavam o plano do veio de especiaria enterrada. No céu, maquinaria mais pesada transportada por ornitópteros jumbo dava voltas, esperando. Na periferia, aparelhos de observação percorriam as areias de um lado a outro, com vigias a bordo concentrados em encontrar sinais de vermes. Qualquer dos gigantescos vermes de areia de Arrakis podia engolir todo o complexo.
— Senhor barão — disse o piloto ao mesmo tempo que lhe estendia o comunicador —, o capitão da equipe de trabalho deseja falar com o senhor.
— Fala o barão. Informe. Quanta especiaria encontrou?
O capitão respondeu com voz áspera, pelo visto indiferente à importância do homem com quem estava falando.
— Faz dez anos que dirijo equipes de especiaria, e este depósito supera tudo que vi até agora. O problema e que está enterrada a grande profundidade. Geralmente, os elementos deixam a especiaria descoberta, e assim a encontramos. Desta vez está muito concentrada, mas...
O barão só aguardou um momento.
— Sim, o que acontece?
— Está acontecendo algo estranho, senhor. Nos aspectos químicos, quero dizer. Há dióxido de carbono que se filtra de baixo, uma espécie de bolha formada sob nossos pés. O coletor está escavando através de capas exteriores de areia para acessar à especiaria, mas também há vapor de água.
— Vapor de água!
Era algo inédito em Arrakis, onde a de umidade do ar era mínima, mesmo no melhor dos dias.
— Talvez encontramos um antigo aquífero, senhor, sepultado sob uma capa de rocha.
O barão jamais tinha imaginado que se encontraria água sob a superfície de Arrakis. Considerou a possibilidade de explorar um curso de água e vendê-la à população. Isso irritaria sem dúvida aos mercadores de água existentes, que já se davam ares de importância excessiva.
Sua voz de baixo retumbou.
— Acha que está poluindo a especiaria?
— Não sei, senhor — disse o capitão —. A especiaria é uma matéria estranha, mas nunca tinha visto uma jazida semelhante. Não parece...
normal.
O barão olhou para o piloto do ornitóptero.
— Ponha-me em contato com os rastreadores. Pergunte se localizaram sinais de vermes.
— Não há sinais de vermes, meu senhor — disse o piloto ao ver a resposta na tela. O barão observou gotas de suor na testa do homem.
— Ha quanto tempo o coletor esta lá embaixo?
— Quase duas horas normais, senhor.
O barão franziu o cenho. Já deveria ter aparecido um verme.
Sem perceber, o piloto tinha deixado aberto o sistema de comunicações, e o capitão da equipe confirmou a circunstância pelo alto-falante.
— Nunca demoraram tanto, senhor. Os vermes sempre vêm. Sempre.
Mas algo está acontecendo ali embaixo. Os gases estão aumentando.
Cheira-se no ar.
O barão absorveu o ar reciclado da cabine e detectou o aroma almiscarado de canela da especiaria bruta recolhida do deserto. O
ornitóptero se encontrava a algumas centenas de metros do coletor principal.
— Também detectamos vibrações subterrâneas, uma espécie de ressonância. E não gosto disso, senhor.
— Você não é pago para gostar — replicou o barão —. É um verme profundo?
— Não acredito, senhor.
Examinou os cálculos estimados que o coletor de especiaria emitia.
As cifras nublaram sua mente.
— O que estamos obtendo desta escavação equivale à produção mensal das outras jazidas.
Tamborilou com os dedos sobre sua coxa.
— Entretanto, senhor, sugiro que nos preparemos para recolher tudo e abandonar a jazida. Poderíamos perder...
— De maneira alguma, capitão — disse o barão —. Não há sinais de vermes, e quase recolheu a carga de toda uma feitoria. Se precisar, baixaremos um coletor vazio. Não vou abandonar uma fortuna em especiaria porque esta ficando nervoso... só porque tem uma sensação estranha. Ridículo!
Quando o chefe da equipe tentou defender seu ponto, o barão o interrompeu.
— Capitão, se é um covarde nervoso, escolheu mal a profissão e a Casa que lhe dá emprego. Continue.
Fechou o comunicador e tomou nota mentalmente de despedir aquele homem o quanto antes.
No alto flutuavam os transportadores preparados para recolher o coletor de especiaria e a sua tripulação assim que aparecesse um verme.
Mas por que demoravam tanto? Os vermes sempre protegiam a especiaria.
A especiaria. Saboreou a palavra em seus pensamentos.
A substância, rodeada de superstições, existia em uma quantidade desconhecida, como um chifre de unicórnio moderno. Por outro lado, Arrakis era tão inóspito que ninguém tinha descoberto ainda a origem da melange. Na imensa extensão do Império, nenhum explorador nem prospector tinha encontrado melange em nenhum outro planeta, nem ninguém tinha conseguido sintetizar um substituto, apesar de séculos de tentativas. Desde que a Casa Harkonnen detinha o governo de Arrakis, e portanto controlava toda a produção de especiaria, o barão não desejava que se desenvolvesse um substituto ou se encontrasse outra fonte.
Equipes do deserto peritas localizavam a especiaria, e o Império a utilizava mas, alem disso, os detalhes não eram conhecidos. Sempre existia risco para os trabalhadores, o perigo de um ataque de verme muito cedo, de que um transportador se danificasse, de que uma feitoria de especiaria não fosse içada a tempo.
Tormentas de areia inesperadas surgiam com surpreendente velocidade. Os números de baixas e de perdas de equipes eram estarrecedores... mas a melange pagava quase qualquer custo, em dinheiro ou sangue.
Enquanto o ornitóptero descrevia círculos a um ritmo constante, o barão estudou o espetáculo industrial. O sol abrasador se refletia no casco poeirento da feitoria de especiaria. Os rastreadores continuavam sulcando o ar, enquanto veículos terrestres coletavam amostras.
Ainda não se viam sinais de nenhum verme, e cada momento que passava permitia à equipe recolher mais especiaria. Os trabalhadores receberiam bonificações, exceto o capitão, e a Casa Harkonnen se enriqueceria ainda mais. Os registros seriam alterados mais adiante.
O barão se voltou para o piloto.
— Chame a base mais próxima. Ordene que preparem outro transportador e outra fabrica de especiaria. Este veio parece inesgotável. —
Baixou a voz —. Se ainda não apareceu nenhum verme talvez haja tempo...
O capitão da equipe de terra voltou a chamar, retransmitindo em uma freqüência geral desde que o barão tinha fechado seu receptor.
— Senhor, nossas sondas indicam que a temperatura está se elevando abaixo do solo... Um pico drástico! Algo está acontecendo lá embaixo, uma reação química. Além disso, um de nossos grupos de exploração terrestre acaba de encontrar um ninho de trutas de areia.
O barão grunhiu, furioso com o homem porque se comunicou mediante um canal não codificado. E se espiões da CHOAM estivessem escutando? Além disso, ninguém se importava com as trutas de areia.
Aqueles animais gelatinosos que viviam sob a areia eram tão irrelevantes para ele como um enxame de moscas ao redor de um cadáver.
Tomou nota mental de castigar o homem com algo mais que a demissão e lhe negar a bonificação. Abulurd em pessoa deve ter escolhido esse bastardo afeminado.
O barão viu as diminutas figuras dos exploradores avançando pela areia, brincando de correr como formigas enlouquecidas por vapor ácido.
Correram de volta para a fabrica de especiaria principal. Um homem saltou de seu veículo encravado na areia e se precipitou para a porta aberta da enorme máquina.
— O que esses homens estão fazendo? Estão abandonando seus postos? Desça um pouco para vê-los melhor.
O pilotou inclinou o ornitóptero e desceu como um escaravelho detestável para a areia. Os homens se agacharam, tossiram, enquanto tentavam colocar filtros sobre o rosto. Dois caíram sobre a areia. Outros retrocederam depressa para a fabrica de especiaria.
— Tragam o transportador! Tragam o transportador! — gritou alguém.
Todos os rastreadores informaram.
— Não vejo sinais de vermes.
— Ainda nada.
— Tudo limpo por aqui.
— Por que estão evacuando? — perguntou o barão, como se o piloto soubesse.
— Algo está acontecendo! — chiou o capitão —. Onde está o transportador?
Precisamos dele já!
A terra oscilou. Quatro operários caíram de bruços na areia antes de chegar à rampa da fabrica de especiaria.
— Olhe, meu senhor! — O piloto apontou para baixo, com voz trêmula de terror. Quando o barão deixou de concentrar-se nos homens acovardados, viu que a areia tremia ao redor da jazida, e vibrava como um tambor.
O coletor de especiaria se inclinou e escorregou para um lado. Abriu-se uma rachadura na areia, e toda a jazida começou a erguer-se no ar como uma bolha de gás em uma panela de barro salusana fervendo.
— Tire-nos daqui! — gritou o barão. O piloto olhou para ele por uma fração de segundo, e o barão lhe deu um tapa na bochecha com a mão esquerda, veloz como o raio —. Mexa-se!
O piloto puxou os comandos e iniciou a subida. As asas articuladas bateram furiosamente.
Abaixo deles, a bolha subterrânea alcançou seu ponto máximo e explodiu. O coletor de especiaria, as equipes móveis e todo o resto saltou pelos ares. Uma gigantesca explosão de areia se elevou para o ar, arrastando rocha destroçada e a volátil especiaria alaranjada. A gigantesca fabrica foi feita em pedacinhos, que foram espalhados como trapos perdidos em uma tormenta Coriolis.
— Que diabos aconteceu ali?
Os olhos escuros do barão se arregalaram, incrédulos, ao contemplar a magnitude do desastre. Toda a preciosa especiaria desaparecida, engolida em um instante. Toda a equipe destruída. Não pensou na perda de vidas, apenas nos gastos para treinar outras equipes.
— Segure-se, meu senhor! — gritou o piloto. Os nódulos dos seus dedos ficaram brancos sobre os comandos.
Uma potente rajada de vento os alcançou. O ornitóptero couraçado perdeu sua posição no ar, enquanto as asas se agitavam freneticamente. Os motores zumbiram e grunhiram, ao mesmo tempo em que tentavam manter a estabilidade. Projéteis de areia se chocaram contra as janelas de plaz.
Obstruídos pelo pó, os motores do ornitóptero falharam. O aparelho perdeu altitude e caiu para o revolto estômago do deserto.
O piloto gritou palavras ininteligíveis. O barão agarrou seus protetores contra colisões, e viu que a terra se precipitava para ele rapidamente, disposto a esmagá-lo como um inseto.
Como cabeça da Casa Harkonnen, sempre tinha pensado que morreria nas mãos de um assassino traidor... mas ser vítima de um desastre natural imprevisível lhe pareceu quase divertido.
Enquanto caíam, viu a areia aberta como uma ferida. As correntes de convecção e as reações químicas absorviam o pó e a melange bruta. O rico veio de especiaria se transformou em uma boca leprosa disposta a engoli-los.
Mas o piloto, que tinha parecido fraco e distraído durante o vôo, adotou uma rigidez total, devida à concentração e a determinação. Seus dedos voavam sobre os comandos, aproveitando as correntes, mudava o fluxo de um motor para outro afim de aliviar o estrangulamento produzido pelo pó nos tubos de recepção de ar.
Por fim, o ornitóptero nivelou, estabilizou-se e voou a baixa altura sobre a planície de dunas. O piloto emitiu um suspiro de alívio.
O barão viu sombras translúcidas reluzentes no grande desfiladeiro aberto na areia, sombras similares a vermes sobre uma carcaça: trutas de areia que corriam para a explosão. Não demorariam para surgirem os gigantescos vermes. Aqueles monstros não resistiriam a tentação.
Por mais que tentasse, o barão não conseguia compreender a especiaria.
O ornitóptero ganhou altitude e os conduziu para os rastreadores e transportadores, que tinham sido tomados de surpresa. Não tinham conseguido recuperar a fabrica de especiaria e seu precioso carregamento antes da explosão, e não podia culpar ninguém por isso. Só a si mesmo. O
barão tinha dado ordens explícitas para se manterem afastados.
— Acabou de salvar minha vida, piloto. Como se chama?
— Kyrubi, senhor.
— Muito bem, Kyrubi. Já tinha visto algo semelhante? Que aconteceu ali embaixo? Qual foi a causa da explosão?
O piloto respirou fundo.
— Ouvi os Fremen falarem a respeito de algo que chamam explosão de
especiaria. — Agora parecia uma estátua, como se o terror o tivesse transformado em algo muito mais forte —. Ocorre nas profundezas do deserto, onde muito pouca gente pode presenciar.
— Quem se importa com o que dizem os Fremen? — Seu lábio se curvou desdenhoso quando pensou nos sujos nômades indígenas do grande deserto —. Todos ouvimos falar de explosões de especiaria, mas ninguém viu nenhuma. Superstições estúpidas.
— Sim, mas as superstições sempre tem uma base. Eles viram muitas coisas no deserto.
O barão admirou o homem por sua determinação em falar, embora Kyrubi devia conhecer seu temperamento e espírito vingativos. Talvez seria prudente promovê-lo...
— Dizem que uma explosão de especiaria é uma explosão química
— continuou Kyrubi —, talvez o resultado de uma massa de pré-especiaria sob as areias.
O barão pensou na informação recebida. Não podia negar a evidência de seus próprios olhos. Algum dia, possivelmente alguém descobriria a verdadeira natureza da melange e seria capaz de evitar desastres como este.
Até o momento, como a especiaria parecia inesgotável para aqueles dispostos a levar a cabo o esforço, ninguém tinha se incomodado em efetuar análises detalhadas. Para que perder tempo em testes, quando uma fortuna aguardava? O barão tinha o monopólio de Arrakis, mas era um monopólio apoiado na ignorância.
Apertou os dentes e compreendeu que, assim que voltasse para Carthag, seria obrigado a relaxar um pouco, liberar suas tensões acumuladas com algumas diversões, talvez com mais vigor de imaginação.
Desta vez teria que encontrar um candidato especial, em vez de um de seus amantes habituais, alguém a quem nunca mais voltaria a utilizar. Isso o liberaria das travas.
Já não é preciso ocultar esta jazida do imperador, pensou. Seria registrada, como se fosse um achado, e documentaria a destruição dos equipamento e da equipe. Tampouco seria necessário manipular os registros. O velho Elrood não se sentiria nada satisfeito, e a Casa Harkonnen deveria assumir o prejuízo econômico.
Enquanto o piloto voltava, os sobreviventes da patrulha examinavam os danos sofridos, e mais tarde informaram pelo comunicador sobre a perda de homens, equipamento e a carga de especiaria. O barão sentiu a raiva ferver em seu interior.
Maldito Arrakis. Maldita seja a especiaria, e maldita seja nossa dependência dela! Somos generalistas. Não se pode delimitar com nitidez problemas de alcance planetário. A planetologia é uma ciência feita sob medida. Pardot Kynes, Tratado sobre a recuperação ambiental da Salusa Secundus depois do holocausto
No planeta imperial Kaitain, imensos edifícios beijavam o céu.
Magníficas esculturas e opulentas fontes, como visões de um sonho, flanqueavam as avenidas de chão acristalado. Uma pessoa podia contemplar o espetáculo durante horas.
Pardot Kynes só conseguiu vislumbrar o espetáculo urbano, enquanto os guardas reais escoltavam-no até o palácio. Não tinham paciência para a curiosidade de um simples planetólogo, nem tampouco nenhum interesse nas maravilhas da cidade. Seu trabalho consistia em escoltá-lo ao imenso salão abobadado do trono, e sem mais demora. Não se podia fazer o imperador do Universo Conhecido esperar por uma tolice.
Os membros da escolta de Kynes usavam uniformes cinza e negro, impecavelmente limpos e cobertos de galões e medalhas, todos os botões e adornos reluzentes, até a última cinta alisada e engomada. Quinze dos homens escolhidos em pessoa pelo imperador, os Sardaukar, rodeavam-no como um exército.
Mesmo assim, o esplendor da capital do planeta sobressaltava Kynes. Voltou-se para o guarda mais próximo e disse:
— Estou acostumado a trabalhar ao ar livre, ou atravessando pântanos de planetas onde ninguém mais quer ir. Nunca tinha visto, ou imaginado, nada parecido a isto nas paisagens selvagens e afastadas que estudei.
Os guardas não responderam ao forasteiro gorducho. Os Sardaukar eram treinados para serem máquinas de combate, não anfitriões.
— Aqui me esfregaram até a terceira capa e me vestiram como um nobre.
Kynes tocou o grosso tecido trançado de sua jaqueta azul escuro, cheirou o sabão e o aroma de sua pele. Sua face estava limpa, com o cabelo escasso e loiro penteado para trás.
A escolta subiu a toda pressa uma escada, que parecia interminável, com degraus de pedra adornados com filigranas de ouro e pedras soo cintilantes de cor nata.
Kynes se virou para o guarda da esquerda.
— Esta é minha primeira viagem ao planeta. Suponho que quando se trabalha aqui, depois de um tempo nem se repara na paisagem.
Suas palavras se apoiaram em um sorriso ofegante, mas uma vez mais caíram em ouvidos surdos.
Kynes era um perito e respeitado ecologista, geólogo e meteorologista, especializado em botânica e microbiologia. Era um prazer para ele desentranhar os mistérios de planetas inteiros, mas as pessoas eram muito freqüentemente um mistério insondável para ele, como estes guardas.
— Kaitain é muito mais... confortável que Salusa Secundus. Cresci ali — continuou —. Também estive na Bela Tegeuse, e é quase tão espantoso, iluminado por sóis anões.
Por fim, Kynes olhou à frente e murmurou para si:
— O imperador me fez vir da outra metade da galáxia. Eu gostaria de saber por que.
Nenhum dos homens lhe ofereceu a menor explicação.
O cortejo passou sob uma arcada de rocha de lava carmesim, que suportava a pesada opressão de uma idade muito avançada. Kynes ergueu a vista, e com sua experiência de geólogo reconheceu a curiosa e imensa pedra: uma antiga arcada do planeta destruído Salusa Secundus.
Surpreebdeu-o que alguém conservasse uma relíquia tão antiga do austero planeta onde Kynes tinha passado muitos anos, um planeta prisão isolado com um ecossistema destruído. Mas então se lembrou, e sentiu-se como um idiota por ter esquecido que Salusa tinha sido em outro tempo a capital imperial, milênios antes... antes do desastre que o alterou. Sem dúvida a Casa Corrino havia trazido intacta a arcada como uma lembrança de seu passado, ou como uma espécie de
troféu para demonstrar que a família imperial tinha superado a adversidade da devastação do seu planeta.
Enquanto o cortejo atravessava o arco de lava e entrava no ressoante esplendor do palácio, soou uma fanfarra executada por instrumentos de sopro que Kynes não reconheceu. Nunca tinha dedicado muito tempo ao estudo da música e das artes, nem sequer quando criança. Para que, quando havia tanta ciência natural para assimilar?
Pouco antes de passar sob o teto resplandecente de jóias da imensa estrutura real, Kynes contemplou uma vez mais o céu espaçoso e azul.
Durante a viagem, dentro de uma seção fechada do Cruzeiro da Corporação, Kynes tinha aproveitado o tempo para aprender algo sobre o planeta capital, embora nunca tivesse aplicado seus conhecimentos sobre planetas a um lugar tão civilizado. Kaitain fora planejada e construída com gosto primoroso, e contava com avenidas flanqueadas por árvores, arquitetura esplêndida, jardins bem regados, muralhas de flores e muito mais.
Os relatórios imperiais afirmavam que o clima era sempre temperado. As tormentas não existiam. Nenhuma nuvem manchava o céu.
A princípio pensava que a informação era pura propaganda turística, mas quando a bela nave escolta da Corporação aterrissou, observou a flotilha de satélites meteorológicos, a tecnologia que, mediante força bruta, dominava o clima e conservava Kaitain como um lugar plácido e sereno. Os engenheiros do clima podiam modificar o tempo, para que se ajustasse ao que um louco tinha decidido como ótimo, mas estavam expostos a outro perigo ao criar um habitat que, a longo prazo, afetava negativamente a mente, o corpo e o espírito. A família imperial nunca tinha entendido.
Continuava relaxada sob seus céus ensolarados e passeava por seus esplêndidos viveiros, indiferente à catástrofe ecológica que algum dia desabaria ante seus olhos. Seria um desafio ficar no planeta e estudar os efeitos, mas Kynes duvidava que o imperador Elrood IX o tivesse convocado para isso.
A escolta entrou no palácio, passaram em frente a estátuas e pinturas clássicas. A ampla sala de audiências poderia ser uma arena de antigas lutas de gladiadores. O chão se estendia a frente deles como uma planície de quadrados de pedra polida e multicolorida, cada um procedente de um dos planetas do Império. Foram acrescentando nichos e quadros à medida que o Império crescia.
Os funcionários da corte, adornados com vestimentas deslumbrantes e plumas
brilhantes, iam de um lado para outro exibindo tecidos feitos com fios de metal precioso. Carregados com documentos, dedicavam-se a assuntos inimagináveis, corriam para realizar reuniões, sussurravam entre si como se só eles compreendessem suas funções reais.
Kynes era um estranho neste mundo político. Preferia a desolação.
Embora o esplendor o fascinasse, desejava a solidão, as paisagens inexploradas, e os mistérios da flora e da fauna. Aquele lugar tão ocupado ia lhe dar dor de cabeça de um momento para outro.
Os guardas Sardaukar o conduziram por um longo caminho sob luzes prismáticas, com enérgico passo marcial que ressoava em uníssono. Os tropeções de Kynes causavam a única dissonância.
Mais adiante, sobre um estrado elevado de cristal verde-azulado, descansava o Trono do Leão Dourado translúcido, esculpido em uma só peça de quartzo de Hagal. E sobre a deslumbrante cadeira estava sentado o velho em pessoa: Elrood Corrino IX, regente imperial do Universo Conhecido.
Kynes observou-o. O imperador era um homem muito fraco, quase esquelético, com uma cabeça enorme sobre um pescoço magro. O regente ancião, rodeado de um luxo tão incrível e uma riqueza tão imensa, parecia insignificante. Entretanto, com um movimento mínimo de seu dedo, o imperador podia condenar planetas inteiros à aniquilação e matar milhões de pessoas. Elrood ocupava o Trono do Leão Dourado durante quase um século e meio.
Quantos planetas havia no Império? Quantas pessoas aquele homem governava? Kynes se perguntou se era possível que alguém possuísse tal quantidade de informação.
Enquanto era guiado até a base do estrado, Kynes sorriu hesitante para Elrood; depois engoliu em seco, desviou a vista e abaixou a cabeça.
Ninguém tinha explicado qual era o protocolo no palácio, e não conhecia os costumes e frivolidades sociais. O tênue aroma de canela da melange chegou ao seu nariz, procedente de uma jarra de cerveja de especiaria que o imperador tinha sobre uma mesinha ao lado do trono.
Um pajem se adiantou, saudou o chefe da escolta Sardaukar com um movimento de cabeça, virou-se e trovejou em galach, o idioma comum:
— O planetólogo Pardot Kynes!
Kynes empertigou-se, enquanto perguntava a si mesmo por que fora apresentado de forma tão ostensiva, quando era evidente que o imperador sabia quem ele era. Do contrário não o teria convocado. Kynes ficou em duvida se devia dizer olá, mas decidiu deixar que a corte determinasse o desenrolar dos acontecimentos.
— Kynes — disse o velho imperador com voz aguda e áspera, afligida por muitos anos de ordens firmes —, vem a mim muito bem recomendado. Nossos conselheiros estudaram muitos candidatos, e o escolheram. O que tem a dizer?
O imperador se inclinou e arqueou as sobrancelhas, de forma que sua fronte se enrugou até o alto do crânio.
Kynes murmurou algo a respeito de sentir-se honrado e lisonjeado, depois pigarreou e formulou a verdadeira pergunta.
— Mas, senhor, para que fui escolhido exatamente?
Elrood estalou a língua e se reclinou no trono.
— Me agrada ver alguém mais preocupado em satisfazer sua curiosidade que seguir a etiqueta, ou adular estes bajuladores estúpidos e bufões. — Quando sorriu, o rosto de Elrood pareceu adquirir a textura da borracha e as rugas se alargaram. Sua pele possuía, o tom cinzento do pergaminho —. O relatório diz que cresceu em Salusa Secundus, e que escreveu relatórios complexos e definitivos sobre a ecologia do planeta.
— Sim, senhor... majestade. Meus pais eram funcionários, enviados para trabalhar em sua prisão imperial. Eu era muito pequeno e me levaram com eles.
Na verdade, Kynes tinha ouvido rumores de que seu pai ou sua mãe tinham aborrecido o imperador e tinham sido exilados naquele planeta. Mas Pardot Kynes tinha achado aquela desolação fascinante. Depois que os professores terminaram sua educação, passava seus dias explorando as terras ermas, tomava notas, estudava os insetos, as ervas e os animais que tinham conseguido sobreviver ao antigo holocausto atômico.
— Sim, eu sei — disse Elrood —. Depois de um tempo seus pais foram transferidos para outro planeta.
Kynes assentiu.
— Sim, senhor. Foram para Harmonthep.
O imperador agitou a mão para desprezar a referência.
— Mas mais tarde retornou a Salusa. Por vontade própria?
— Bem, tinha muitas coisas que aprender em Salusa — respondeu, e reprimiu um dar de ombros.
Kynes passara anos em ambientes desertos, decifrando os mistérios do clima e dos ecossistemas. Tinha sofrido muitas privações, suportado muitos desconfortos. Em uma ocasião, foi atacado por tigres Laça e sobrevivido. Depois, Kynes publicara um longo tratado sobre seus anos ali, abrindo notáveis janelas de compreensão sobre o planeta capital imperial, antes tão encantador e agora abandonado.
— A desolação selvagem do planeta estimulou meu interesse pela ecologia. É muito mais interessante estudar um... mundo desolado. Tenho dificuldade em aprender algo em um lugar muito civilizado.
Elrood riu do comentário e olhou ao redor, para que outros membros da corte o imitassem.
— Como Kaitain, quer dizer?
— Bem, estou seguro de que também tem que cobrir lugares interessantes, senhor — disse Kynes, rogando não ter cometido uma estupidez indesculpável.
— Muito bem dito! — trovejou Elrood —. Meus conselheiros agiram com sabedoria ao escolhe-lo, Pardot Kynes.
Sem saber o que dizer nem fazer, o planetólogo executou uma reverência desajeitada.
Depois dos anos passados em Salusa Secundus, tinha viajado para os pantanosos e intrincados terrenos do obscuro Bela Tegeuse, e depois a outros lugares que o interessavam. Podia sobreviver em qualquer lugar.
Suas necessidades eram escassas. O mais importante para ele era acumular conhecimentos científicos, estudar as rochas e ver que segredos os processos naturais tinham escondido.
Mas agora a curiosidade o espicaçava. Por que tinha chamado a atenção de uma forma tão grande?
— Se me permite perguntar de novo, majestade... Que missão me destinam? — E se apressou a acrescentar —: É obvio, sinto-me muito honrado em servi-lo no que desejar.
— Você, Kynes, foi reconhecido como um homem capaz de analisar complexos ecossistemas afim de aproveitá-los para as necessidades do Império. Nos o escolhemos para ir ao planeta deserto Arrakis e usar sua magia ali.
— Arrakis! — Kynes não pôde dissimular seu estupor e júbilo —.
Acredito que os habitantes nômades Fremen o chamam de Dune.
— Chame-se como for — disse Elrood com certa brutalidade —, é um dos planetas mais desagradáveis, embora importantes, do Império.
Como deve saber, Arrakis é a única fonte da especiaria melange.
Kynes assentiu.
— Sempre me perguntei por que nenhum explorador encontrou especiaria em outros planetas. E por que ninguém sabe como ela surge.
— Você descobrirá isso para nós — disse o imperador —. Agora é a hora.
De repente, Kynes compreendeu que talvez tivesse se excedido, e sentiu um leve temor. Encontrava-se no salão do trono mais importante de um milhão de planetas, e estava falando com o imperador Elrood IX
pessoalmente. Outros membros da corte olhavam para ele, alguns com desaprovação, outros com horror, e alguns poucos com expressão de perversa alegria, como se intuíssem seu castigo iminente.
Mas Kynes imaginou imediatamente a paisagem de areias calcinadas pelo sol, dunas majestosas e monstruosos vermes de areia, imagens que só tinha visto em videolivros. Esqueceu sua insignificante falta de tato, conteve o fôlego e esperou para escutar os detalhes da missão.
— É de vital importância para o futuro do Império que conheçamos os segredos da melange. Até hoje, ninguém dedicou tempo nem esforços para desvendar seus mistérios. As pessoas pensam que Arrakis é uma fonte inesgotável de riquezas, e ninguém se preocupa com a mecânica ou os detalhes. Crasso engano. — Fez uma pausa —. Este é o desafio que enfrentará, Pardot Kynes. Eu o nomeio planetólogo imperial oficial de Arrakis.
Enquanto Elrood falava, examinou aquele homem maduro, curtido pela intempérie. Compreendeu que Kynes não era um homem complicado.
Seus sentimentos e afinidades transpareciam em seu rosto. Os conselheiros da
corte tinham dito que Pardot Kynes não tinha ambições políticas e obrigações. Seu único interesse verdadeiro residia em seu trabalho e na compreensão da ordem natural do universo. Nutria uma fascinação quase infantil pelos planetas longínquos e os ambientes hostis. Executaria sua tarefa com um entusiasmo ilimitado, e proporcionaria respostas sinceras.
Elrood tinha passado quase toda sua vida política rodeado de lacaios néscios, aduladores descerebrados que diziam o que, em sua opinião, ele queria escutar. Mas este homem tosco, pouco acostumado às convenções sociais, era diferente.
Nesse momento era fundamental que compreendessem os fatos inerentes à especiaria, com o objetivo de melhorar a eficácia das operações, operações que eram vitais. Depois de sete anos do governo inepto de Abulurd Harkonnen, e dos acidentes e enganos cometidos pelo ambicioso barão Vladimir Harkonnen, preocupava ao imperador que a produção e distribuição de especiaria se paralisasse. A especiaria devia fluir.
A Corporação Espacial precisava de enormes quantidades de melange para encher as câmaras herméticas de seus Navegadores mutantes.
Ele, e o conjunto da alta classe do Império, necessitavam de (cada vez mais) doses diárias de melange para conservar a vitalidade e prolongar suas vidas. A Ordem da Bene Gesserit precisava da especiaria para criar e treinar mais reverendas mães. Os Mentat necessitavam dela para concentrar sua mente.
Mesmo desaprovando a desastrada administração do barão Harkonnen, Elrood não podia se apoderar de Arrakis. Depois de décadas de manipulações políticas, a Casa Harkonnen tinha tomado o controle depois de expulsar a Casa Richese.
Há mil anos o Império concedia o governo de Arrakis a uma família escolhida, para que arrancasse as riquezas da areia durante um período que não devia exceder um século. Cada vez que o feudo mudava de mãos, um dilúvio de súplicas e petições inundava o palácio. O apoio da Landsraad implicava muitos compromissos, alguns dos quais eram muito caros para Elrood.
Embora fosse o imperador, seu poder dependia de um equilíbrio, cauteloso e instável, com numerosas forças, incluídas as Grandes e Menores Casa do Landsraad, a Corporação Espacial e monopólios comerciais como a CHOAM. Era ainda mais difícil lutar com outras forças, forças que preferiam agir na sombra.
Tenho que desequilibrar a balança, pensou Elrood. Este assunto de Arrakis durou muito.
O imperador se inclinou para frente e percebeu que Kynes estava cheio de alegria e entusiasmo. Estava ansioso para ir ao planeta deserto.
Melhor assim.
— Descubra tudo que puder sobre Arrakis e me envie informações regularmente, planetólogo. A Casa Harkonnen receberá instruções de dar todo o apoio e a colaboração que necessitar. Embora não sintam nenhum prazer em ter um observador imperial farejando em seu território.
Nesse momento, como o barão Harkonnen acabava de assumir o governo do planeta, dependia completamente do imperador.
— Forneceremos tudo que for necessário para sua viagem. Faça uma lista e entrega-a a meu chambelán. Quando chegar a Arrakis, os Harkonnen receberão ordens de atender todos os seus pedidos.
— Minhas necessidades são escassas — disse Kynes —. Só necessito de meus olhos e minha mente.
— Sim, mas espero que o barão possa lhe oferecer algumas comodidades a mais.
Elrood sorriu de novo e se despediu do planetólogo com um gesto. O
imperador observou que ao sair da sala de audiências Kynes andava com um passo muito mais vivo. Não construirá uma máquina a semelhança da mente humana. Primeiro Mandamento da Jihad Butleriana, tal como consta na Bíblia Católica Laranja
O sofrimento é o grande professor dos homens, ditava o coro de velhos atores no cenário. Embora os cômicos fossem simples cidadãos do povo que vivia à sombra do castelo do Caladan, prepararam-se bem para a representação anual da obra oficial da Casa. Os trajes eram coloridos, embora não fossem totalmente autênticos. Os cenários (a fachada do palácio do Agamenon, o pátio lajeado) exibiam um realismo apoiado só no entusiasmo e em algumas seqüencias filmadas da antiga Grécia.
Já fazia algum tempo que se representava a longa peça de Tosquio, e fazia calor no teatro. Globos de luz iluminavam o cenário e algumas filas de assentos, mas as
tochas e os braseiros que rodeavam os atores perfumavam o edifício com uma fumaça aromática.
Face aos ruídos de fundo, os roncos do velho duque ameaçavam chegar aos ouvidos dos atores.
— Acorde, pai! — sussurrou Leto Atreides, ao mesmo tempo em que dava uma cotovelada nas costelas do duque Paulus —. Nem sequer chegamos na metade da peça.
Paulus se remexeu no assento do seu camarote, e sacudiu migalhas de pão imaginárias de seu peito largo. Sombras dançaram sobre seu rosto fino e enrugado e sua barba grisalha. Usava o uniforme negro dos Atreides, com o emblema do falcão vermelho.
— Tudo se reduz a falar e posar, rapaz. — Piscou em direção ao cenário, onde os anciões apenas se moveram —. E cada ano vemos o mesmo.
— Essa não é a questão, Paulus, querido. — Do outro lado do duque estava sentada a mãe de Leto, lady Helena, vestida com seus melhores ornamentos e concentrada nas palavras solenes do coro grego —. Preste atenção ao contexto. Afinal, é a história de sua família, não da minha.
Leto passeou o olhar entre seus pais, consciente de que a história familiar da Casa Richese de sua mãe possuía tanta grandeza e miséria como a da Casa Atreides. Richese tinha caído de uma idade de ouro para sua atual fragilidade econômica.
A Casa Atreides se gabava de que suas raízes remontavam a mais de doze mil anos de antigüidade, até os filhos de Atreus na Velha Terra. A família se orgulhava de sua longa história, face aos numerosos incidentes, trágicos e desonrosos, que a balizavam. Os duques tinham transformado em uma tradição anual a representação da tragédia clássica Agamenon, o filho mais famoso do Atreus e um dos generais que tinham conquistado Tróia.
Leto Atreides, de cabelo negro como asa de corvo e nariz aquilino, parecia-se muito com sua mãe. Assistia a peça, vestido com roupas incômodas, vagamente consciente do fundo extraterrestre da história. O
autor da obra tinha dado como certo que o público captaria as referências esotéricas. O general Agamenon tinha sido um grande militar de uma das guerras lendárias da história humana, muito antes da criação das máquinas pensantes que tinham escravizado à humanidade, muito antes que a Jihad Butleriana tivesse libertado à humanidade.
Pela primeira vez em seus quatorze anos, Leto sentiu o peso da lenda sobre seus ombros. Intuiu uma relação com os rostos e personalidades do desafortunado passado de sua família.
— É melhor a fortuna não invejada — recitaram em coro os anciões
—. Preferível a saquear cidades, melhor que seguir as ordens de outros.
Antes de zarpar para Tróia, Agamenon tinha sacrificado sua própria filha para que os deuses lhe concedessem ventos favoráveis. Sua desventurada esposa, Clitemnestra, dedicou os dez anos de ausência de seu marido a planejar sua vingança. Agora, depois da batalha final da guerra da Tróia, acendeu-se uma fileira de fogueiras ao longo da costa, para comunicar a vitória ao país.
— Toda a ação acontece fora do cenário — murmurou Paulus, embora nunca tivesse sido um bom leitor ou crítico literário. Vivia o momento, espremia cada gota da experiência e do êxito. Preferia passar o tempo com seu filho ou seus soldados —. Todo mundo fica quieto ante o cenário, à espera da chegada de Agamenon.
Paulus se aborrecia com a falta de ação, sempre repetia para seu filho que era melhor uma decisão errada que não tomar nenhuma. Na obra, Leto pensava que o velho duque se identificava com o grande general, um homem de seu agrado.
O coro de anciões continuou recitando, Clitemnestra saiu do palácio para pronunciar um discurso, e o coro continuou de novo. Um arauto, que fingia ter desembarcado, chegava ao cenário, beijava o chão e recitava um longo solilóquio.
— Agamenon, glorioso rei! Merece nossas boas-vindas por ter aniquilado Tróia e a pátria dos troianos. Os altares de nossos inimigos jazem em ruínas, seus deuses já não os confortam e seus terrenos estão ermos.
Guerra e destruição. Leto pensou na juventude de seu pai, quando tinha lutado pelo imperador, esmagando uma sangrenta rebelião em Ecaz e vivido aventuras com seu amigo Dominic, agora conde da Casa Vernius, de IX. Quando se encontrava a sós com Leto, o velho duque falava freqüentemente daqueles tempos com nostalgia indissimulada.
Nas sombras de seu camarote, Paulus exalou um suspirou sem ocultar seu aborrecimento. Lady Helena fulminou-o com o olhar, voltou sua atenção à obra e compôs um sorriso mais plácido ainda, se por acaso alguém olhasse. Leto dedicou a seu pai uma careta de compaixão, e Paulus piscou um olho. O duque e
sua esposa interpretavam seus papéis à perfeição.
Por fim, o vitorioso Agamenon chegou ao cenário em um carro, acompanhado por sua amante, a profetisa meio louca Cassandra. Enquanto isso, Clitemnestra se preparava para a aparição de seu odiado marido, ao mesmo tempo em que fingia amor e devoção.
O velho Paulus ameaçou afrouxar o colarinho do uniforme, mas Helena puxou sua mão. Seu sorriso não mudou em nada.
Leto sorriu para si ao presenciar aquele ritual, tão freqüente entre seus pais. Sua mãe se esforçava sempre por conservar o que chamava
“sentido de decoro”, enquanto o velho se comportava com muito menos formalidade. Enquanto seu pai lhe ensinara muitas coisas sobre a arte de governar e liderança, lady Helena educara seu filho em protocolo e estudos religiosos. Richese por nascimento, lady Helena Atreides tinha nascido em uma Casa importante que perdera quase todo seu poder e prestígio por culpa de ambições econômicas fracassadas e intriga políticas. Depois de ter sido expulsa do governo de Arrakis, a família da Helena tinha salvara parte de sua respeitabilidade graças a um matrimônio de conveniência com os Atreides. Várias de suas irmãs tinham contraído matrimônio com membros de outras Casas.
Apesar de suas diferenças, em certa ocasião o velho duque confessou a Leto que a amara com todo seu coração durante os primeiros anos de sua união. Com o tempo, a relação se degradou, e tivera muitas amantes e talvez alguns filhos ilegítimos, embora Leto fosse seu único herdeiro oficial. À medida que transcorriam as décadas, estabeleceu-se uma inimizade entre marido e mulher, o que provocou profundas desavenças.
Agora, o matrimônio era apenas uma questão política.
— Para começar, casei-me por política, rapaz — havia dito —.
Nunca me teria ocorrido outra coisa. Em nossa posição, o matrimônio é uma ferramenta. Se tentar acrescentar amor a isso, tudo se estraga.
Às vezes Leto se perguntava se Helena amara o duque em algum momento, ou só sua posição e título. Ultimamente parecia que tinha assumido o papel de assessora de imagem oficial de Paulus. Sempre se esforçava em mantê-lo elegante e apresentável. Significava muito, tanto para sua reputação como para a
dele.
No cenário, Clitemnestra deu as boas-vindas ao seu marido e estendeu tapeçarias púrpura sobre o chão para que caminhasse sobre elas.
Rodeado de uma grande pompa, ao som das fanfarras, Agamenon entrou em seu palácio, enquanto a profetisa Cassandra, muda de terror, negava-se a entrar. Previa sua própria morte e o assassinato do general. Ninguém a ouviu, é obvio.
Por meio de canais políticos cultivados com supremo tato, a mãe de Leto mantinha contatos com outras Casas poderosas, no entanto o duque Paulus tecia sólidos vínculos com o povo de Caladan. Os duques Atreides se dedicavam ao serviço de seus súditos, e cobravam só o que era justo, a partir de seus negócios familiares. Era uma família enriquecida, embora não em excesso, e não espoliava seus cidadãos.
Na obra, quando o general recém-chegado ia ao banho, sua traiçoeira esposa o vestiu com uma túnica púrpura e lhe deu muitas facadas, junto com sua amante.
— Deuses! Deram-me uma punhalada mortal! — lamentava-se Agamenon de fora do cenário. O velho Paulus sorriu e se inclinou para seu filho.
— Matei muitos homens no campo de batalha, mas nunca ouvi nenhum deles dizer isso enquanto morria.
Helena o fez se calar.
— Os deuses me protejam, outra punhalada! Morrerei! — gritava Agamenon.
Enquanto o público estava absorto na tragédia, Leto tentou analisar a situação e como se relacionava com sua vida. Afinal, supunha-se que era a herança familiar.
Clitemnestra admitiu o assassinato, proclamou o direito a vingar-se de seu marido pelo sangrento sacrifício de sua filha, por deitar-se com prostitutas em Tróia e por ter trazido sua amante, Cassandra, para sua própria casa.
— Glorioso rei — choramingou o coro —, nosso afeto é ilimitado, nossas lagrimas intermináveis. A aranha o apanhou na sinistra rede da morte.
O estômago do Leto se revolveu. A Casa Atreides tinha cometido horríveis maldades no passado longínquo. Mas a família tinha mudado, talvez instigada pelos fantasmas da história. O velho duque era um homem de honra, respeitado pelo Landsraad e amado por seu povo. Leto esperava estar a sua altura quando
chegasse o momento de tomar as rédeas da Casa Atreides.
Recitaram os últimos versos da obra, os atores se adiantaram até a beira do cenário e fizeram uma reverência aos líderes políticos e econômicos reunidos, vestidos com seus melhores ornamentos.
— Bom, fico feliz que tenha terminado — suspirou Paulus, enquanto se acendiam as luzes do teatro. O velho duque ficou em pé e beijou a mão de sua esposa, enquanto saíam do camarote real —. Vá na frente, querida.
Tenho que falar com Leto. Espere-nos na sala de recepções.
Helena olhou um momento para seu filho e se afastou pelo corredor do antigo teatro de pedra e madeira. Seu olhar denotava que sabia muito bem as intenções de Paulus, mas se rendia à arcaica tradição de que os homens falavam de assuntos importantes enquanto as mulheres se ocupavam de outras coisas.
Mercadores, homens de negócios importantes e outros respeitados membros da comunidade começaram a invadir o corredor, enquanto bebiam vinho de Caladan e comiam canapés.
— Por aqui, rapaz — disse o duque, se dirigindo para um passadiço que corria por trás do cenário.
Leto e ele passaram em frente a dois guardas que saudaram. Depois subiram quatro pisos no elevador, até chegar a um camarim dourado.
Globos de cristal de Balut flutuavam no ar e projetavam um quente brilho alaranjado. Em outro tempo moradia de um lendário ator caladano, a câmara estava reservada agora para o uso exclusivo dos Atreides e seus conselheiros mais íntimos, em momentos que exigiam privacidade.
Leto se perguntou por que seu pai o levara ate ali.
Depois de fechar a porta a suas costas, Paulus se acomodou em uma poltrona flutuante verde e negra, e indicou a Leto que se sentasse a frente dele. O jovem obedeceu e ajustou os controles para que a poltrona se elevasse no ar, até que seus olhos ficassem à mesma altura dos de seu pai.
Leto só fazia isto em privado, nem sequer diante de sua mãe, que teria tachado aquele comportamento de inapropriado e desrespeitoso. Por outro lado, o velho duque considerava que a audácia de seu filho constituía um divertido reflexo de sua personalidade quando era jovem.
— Você já é maior, Leto — começou Paulus, e extraiu uma trabalhado cachimbo de madeira de um compartimento no braço da poltrona. Não perdeu o tempo com amenidades —. Tem que aprender mais coisas do que há aqui. portanto, vou enviá-lo para IX para estudar.
Examinou o jovem de cabelo negro tão parecido a sua mãe, mas de uma pele mais olivácea. Tinha o rosto estreito, de ângulos pronunciados e profundos olhos cinzas.
IX! O pulso de Leto se acelerou. O planeta máquina. Um lugar estranho e misterioso. Todo o Império conhecia a incrível tecnologia e inovações do intrigante planeta, mas poucos forasteiros tinham pisado nele.
Leto se sentiu desorientado, como se estivesse de pé sobre a ponte de um navio em plena tormenta. Seu pai adorava surpreendê-lo dessa forma, para ver como Leto reagia ante uma situação inesperada.
Os ixianos guardavam segredo a respeito de suas atividades industriais. Havia rumores que operavam nos limites da legalidade, que fabricavam aparelhos que quase violavam as proibições do Jihad contra as máquinas pensantes. Por que meu pai me envia para esse lugar, e como o acertou isso? Por que ninguém pediu minha opinião?
Uma robomesa emergiu do chão ao lado do Leto, com um copo cristalizado de ácido cítrico. Os gostos do jovem eram conhecidos, da mesma maneira que se sabia que o velho duque só desejava o cachimbo.
Leto tomou um gole da bebida e franziu os lábios.
— Estudará ali por um ano — prosseguiu Paulus —, conforme as tradições das Grandes Casa aliadas. Viver em IX significará um contraste com nosso bucólico planeta. Aprenda com ele.
Contemplou o cachimbo que segurava. Esculpido em madeira da Jacarandá elaccana, era de um marrom intenso e cintilava à luz dos globos.
— O senhor esteve ali? — Leto sorriu quando recordou —. Para ver seu camarada Dominic Vernius, não é?
Paulus tocou o botão de combustão em um lado do cachimbo, o que acendia o fumo, que era na realidade uma alga marinha rica em nicotina.
Deu uma longa baforada e exalou a fumaça.
— Em muitas ocasiões. Os ixianos formam uma sociedade isolada e desconfiam dos forasteiros. Em conseqüência, você terá que suportar muitas medidas de segurança, interrogatórios e varreduras de scanner.
Sabem que se baixarem a guarda, sequer um instante, poderia ser fatal.
Tanto as Grandes Casas como as Menores cobiçam o que IX possui, e desejariam tomar-lhe.
— Richese, por exemplo — disse Leto.
— Não diga isso a sua mãe. Richese é só uma sombra do que foi, porque IX os derrotou em uma guerra econômica total. — inclinou-se para frente — Os ixianos são professores da sabotagem industrial e apropriações de patentes. Na atualidade, os richesianos só sabem fazer cópias pobres carentes de inovações.
Leto refletiu sobre estes comentários, que eram novos para ele. O
velho duque exalou a fumaça, com as bochechas inchadas e um tremor na barba.
— Em respeito a sua mãe, rapaz, filtramos a informação que acaba de ouvir. A Casa Richese foi uma perda muito trágica. Seu avô, o conde Libam Richese, tinha uma família numerosa, e passava mais tempo com sua prole que vigiando os negócios. Não é surpreendente que seus filhos crescessem muito mimados e dilapidassem sua fortuna.
Leto assentiu, atento como sempre às palavras de seu pai. Não obstante, já sabia mais do que Paulus imaginava. Tinha visto em privado hologravações e videolivros que seus professores tinham deixado a seu alcance por descuido. Entretanto, agora pensou que talvez tudo se tratava de um plano preconcebido para lhe abrir a história da família de sua mãe como uma flor, de pétala em pétala.
Junto com seu interesse familiar por Richese, Leto sempre tinha considerado IX igualmente intrigante. Em outro tempo adversário industrial de Richese, a Casa Vernius de IX tinha sobrevivido como centro tecnológico. A poderosa família real de IX era das mais ricas do Império, e ele ia estudar ali.
As palavras de seu pai interromperam seus pensamentos.
— Seu companheiro de aprendizagem será o príncipe Rhombur, herdeiro do nobre título de Vernius. Espero que se dêem bem. São da mesma idade.
O príncipe de IX. Tomara que não fosse um pirralho mimado, como tantos filhos das poderosas famílias do Landsraad. Por que não podia ser uma princesa, com a aparência da filha do banqueiro da Corporação que tinha conhecido no mês anterior no Baile do Solstício da Maré?
— Bem... como é o príncipe Rhombur? — perguntou.
Paulus riu, insinuando toda uma vida de anedotas picantes.
— Não sei. Faz muito tempo que não vejo Dominic nem sua esposa Shando. — Sorriu, como se lembrasse de uma piada privada —. Ah, Shando... Era uma concubina imperial, mas Dominic a roubou do velho Elrood debaixo de seu nariz. — Soltou uma sonora gargalhada —. Agora têm um filho... e também uma filha. Chama-se Kailea.
O duque continuou, com um sorriso enigmático.
— Tem muito que aprender, meu filho. Dentro de um ano, os dois deverão estudar em Caladan, um intercâmbio de serviços pedagógicos. Rhombur e você serão transportados aos campos de arroz pundi nos pântanos do sul, viverão em cabanas e trabalharão nos arrozais. Viajarão sob o mar em uma câmara de Nells, e mergulharão para extrair gemas coralinas. — Sorriu e deu tapinha no ombro de seu filho —. Há coisas que as salas-de-aula e os videolivros não ensinam.
— Sim, senhor.
Inalou a doçura do tabaco de alga marinha. Franziu o cenho, e esperou que a fumaça tivesse ocultado sua expressão. Aquela drástica e inesperada mudança em sua vida não tinha nenhuma graça, mas respeitava seu pai. A base de muitas lições duras, Leto tinha aprendido que o velho duque sabia muito bem do que falava, e que só desejava que seu filho seguisse seus passos.
O duque se reclinou em sua poltrona flutuante, que oscilou no ar.
— Filho, sei que isto não o agrada, mas será uma experiência vital para você e para o filho do Dominic. Aqui, em Caladan, aprenderão nosso maior segredo: como ganhar a total lealdade de nossos súditos, por que confiamos em nosso povo implicitamente, ao contrário dos ixianos.
Paulus ficou sério.
— Meu filho, isto é mais essencial que algo que tenha aprendido em um mundo
industrial: as pessoas são mais importantes que as máquinas.
Era um adágio que Leto tinha escutado com freqüência, uma frase tão importante para ele como respirar.
— Por isso nossos soldados lutam tão bem.
Paulus se inclinou e deu uma última baforada.
— Um dia você será duque, rapaz, patriarca da Casa Atreides e respeitado representante na Landsraad. Sua voz será igual a de qualquer outro governante das Grandes Casas. É uma grande responsabilidade.
— Estarei à altura.
— Estou seguro disso, Leto... mas relaxe um pouco. O povo sabe quando não é feliz, e quando seu duque não é feliz, a população não é feliz.
Tem que deixar que a pressão flua por cima e através de você. Dessa forma não poderá se prejudicar. — Estendeu um dedo em advertência —. Divirta-se mais.
Divirta-se. Leto pensou uma vez mais na filha do banqueiro da Corporação, imaginou o contorno de seus seios e quadris, seus lábios úmidos, a forma provocante como tinha falado com ele.
Talvez não fosse tão sério como seu pai pensava...
Tomou outro gole de suco.
— Senhor, com sua lealdade demonstrada, com a reconhecida fidelidade dos Atreides a seus aliados, por que os ixianos nos submetem a seus procedimentos de interrogatório? Acham que um Atreides, com tudo o que foi inculcado nele, poderia transformar-se em um traidor? Poderíamos chegar a ser algum dia como... como os Harkonnen?
O velho duque franziu o sobrecenho.
— Em uma época não fomos muito diferentes deles, mas há histórias que ainda não está preparado para escutar. Lembra da peça que acabamos de ver. — Ergueu um dedo —. As coisas mudam no Império. As alianças se formam e dissolvem conforme seu capricho.
— Nossas alianças não.
Paulus olhou para os olhos cinzas do jovem, e depois desviou o olhar para o lugar onde a fumaça de seu cachimbo redemoinhava, Leto suspirou. Queria saber muitas coisas, e o quanto antes, mas forneciam as informações em pequenas doses, como os petit fours que sua mãe oferecia nas festas.
Ouviram às pessoas abandonar o teatro antes da próxima representação de Agamenon. Os atores descansariam, trocariam de vestimenta e se preparariam para outro público.
Leto, sentado na sala privada com seu pai, sentiu-se mais homem que nunca. Talvez da próxima vez também acendesse um cachimbo. Talvez bebesse algo mais forte que suco de cidrit. Paulus olharia com orgulho nos seus olhos.
Leto sorriu e tentou se imaginar como duque Atreides, mas experimentou um intenso sentimento de culpa quando reparou que seu pai teria que morrer antes de herdar o anel de selo ducal. Não desejava isso, e sentiu-se satisfeito porque ainda faltava muito tempo para pensar nisso. Corporação Espacial: uma coluna do trípode político que sustenta a Grande Convenção. A Corporação foi a segunda escola de treinamento físico-mental (veja-se Bene Gesserit) depois do Jihad Butleriano. O monopólio da Corporação sobre as viagens e transportes espaciais, assim como do banco internacional, considera-se o ponto inicial do Calendário Imperial. Terminologia do Império
Da posição privilegiada que lhe dava o Trono do Leão Dourado, o imperador Elrood IX olhou sério para o homem de costas largas e expressão contrariada que se erguia ao pé do estrado real com uma bota apoiada no primeiro degrau. Calvo como a bola de mármore de uma balaustrada, o conde Dominic Vernius ainda se comportava como um herói de guerra popular e condecorado, apesar de que seus dias de glória tinham acontecido há muito tempo. Elrood duvidava que alguém os recordasse. O chambelán imperial, Aken Hesban, plantou-se junho ao visitante e ordenou com tom brusco que afastasse o pé ofensor. Hesban tinha o rosto gasto, e a boca emoldurada por um longo bigode. Os últimos raios do sol do entardecer lançavam franjas sobre a parte superior de uma parede, brilhantes rios dourados que penetravam pelas estreitas janelas em forma de prisma.
O conde Vernius de IX afastou o pé, tal como lhe fora ordenado, mas continuou olhando com cordialidade para Elrood. O emblema ixiano, uma hélice púrpura e
cobre, adornava o pescoço do manto de Dominic. Embora a Casa Corrino fosse muito mais poderosa que a família regente de IX, Dominic tinha o costume irritante de tratar o imperador como a um igual, como se sua história passada (boa e má) lhe permitisse dispensar as formalidades. O chambelán Hesban não aprovava isso de forma alguma.
Décadas atrás, Dominic tinha comandado legiões de tropas imperiais durante as cruéis guerras civis, e depois não tinha respeitado o imperador como era devido. Mais tarde, Elrood tinha se metido em problemas políticos com seu impulsivo matrimônio com Fala, sua quarta esposa, e vários líderes do Landsraad se viram obrigados a utilizar o poderio militar de sua Casa para impor de novo a estabilidade. A Casa Vernius de IX
estava entre esses aliados, assim como os Atreides.
Dominic sorriu sob seu extravagante bigode e olhou para Elrood com expressão cansada. O velho abutre não ganhara o trono por obra de grandes façanhas nem por compaixão. Em certa ocasião, o tio avô do Dominic, Gaylord, havia dito: “Se tiver nascido para manter o poder, tem que demonstrar que o merece mediante boas obras... ou renunciar. Fazer menos é agir sem consciência.”
Dominic, plantado sobre o chão de quadrados de pedra polidos, que em teoria vieram de todos os planetas do Império, aguardava com impaciência que Elrood falasse. Um milhão de planetas? É impossível que haja tantas pedras aqui, embora não seja possível contá-las. O chambelán olhou para ele como se sua dieta tivesse sido reduzida a leite azedo. Não obstante, o conde Vernius conhecia as regras do jogo e se negou a impacientar-se, negou-se a perguntar o motivo de lhe terem convocado. Manteve-se imóvel e sorriu para o ancião. A expressão e os olhos faiscantes de Dominic insinuavam que conhecia mais segredos vergonhosos do ancião do que sua mulher, Shando, tinha-lhe confessado, mas suas próprias suspeitas irritavam Elrood, como se tivesse um espinho de Elaccan fincado no corpo.
Algo se moveu à direita, e Dominic distinguiu nas sombras de uma porta arqueada uma mulher vestida de negro, uma daquelas bruxas Bene Gesserit. Não viu seu rosto, oculto em parte por um capuz. Famosas monopolizadoras de segredos, as Bene Gesserit sempre espreitavam nas cercanias dos centros de poder, espiavam e manipulavam sem cessar.
— Não perguntarei se é verdade, Vernius — disse por fim o imperador —. Minhas fontes são de absoluta confiança, e sei que cometeu este ato terrível. Tecnologia ixiana!
Fingiu cuspir. Dominic não se intimidou. Elrood sempre superestimava a eficácia de seus gestos melodramáticos.
Dominic não apagou seu sorriso, uma esplêndida demonstração de bons dentes.
— Não me lembro de ter cometido nenhum “ato terrível”, senhor.
Pergunte a sua Reveladora da Verdade, se não acreditar em mim. — Olhou para a Bene Gesserit vestida de negro.
— Pura retórica. Não se faça de idiota, Dominic.
Ele se limitou a esperar, para que o imperador se visse obrigado a acusá-lo de algo concreto. Elrood soprou, e o chambelán o imitou.
— Maldito seja, o desenho de seu novo Cruzeiro permitirá que a Corporação, graças a seu abusivo monopólio do transporte espacial, aumente o volume de seus carregamentos em dezesseis por cento!
Dominic fez uma reverência sem deixar de sorrir.
— De fato, meu senhor, conseguimos um aumento de dezoito por cento. Trata-se de uma melhora substancial sobre o desenho anterior, que não só implica um casco novo mas também uma tecnologia dos escudos que pesa menos e ocupa menos espaço. Portanto, aumento de eficácia. Esse é a medula da inovação ixiana, que pelo resto cimentou a grandeza da Casa Vernius ao longo dos séculos.
— Sua alteração reduz o número de vôos que a Corporação precisa fazer para transportar a mesma quantidade de carregamento.
— Naturalmente, senhor. — Dominic olhou para o ancião como se sua estupidez fosse infinita —. Se aumentarem a capacidade de cada Cruzeiro, reduzem o número de vôos necessários para transportar a mesma quantidade de material. Uma simples questão de matemática.
— Seu novo desenho causou grandes contratempos à Casa Imperial, conde Vernius — disse Eleven Hesban, enquanto segurava o colar de seu cargo oficial como um lenço. Seus bigodes caídos pareciam as presas de uma morsa.
— Bem, imagino que sou capaz de compreender os motivos míopes de sua preocupação, senhor — respondeu Dominic, sem dignar-se a olhar para o pomposo chambelán. Os impostos imperiais se apoiavam no número de vôos, não
no volume da carga, e o novo desenho do Cruzeiro aparelharia uma redução nos ganhos da Casa Corrino.
Dominic abriu suas mãos sulcadas de cicatrizes, ao mesmo tempo que compunha sua expressão mais razoável.
— Como pode pedir que detenhamos o progresso? IX não violou os termos da Grande Revolução. Contamos com o apoio total da Corporação Espacial e da Landsraad.
— Fez isso mesmo sabendo que incorreria em minha ira?
Elrood se inclinou para frente, cada vez mais parecido com um abutre.
— Por favor, senhor! — sorriu Dominic, desdenhando as preocupações do imperador —. Os sentimentos pessoais não podem interferir na marcha do progresso.
Elrood se levantou do trono. Suas roupas oficiais cairam como toldos sobre seu corpo esquelético.
— Não posso voltar a negociar com a Corporação um imposto apoiado na tonelagem métrica, Dominic. Como você já sabe!
— E eu não posso mudar as leis de mercado. — Dominic sacudiu sua cabeça reluzente e deu de ombros —. Se trata de negócios, Elrood.
Os funcionários da corte soltaram uma exclamação afogada, devido à familiaridade com que Dominic Vernius tratava o imperador. — Tenha cuidado — advertiu o chambelán.
Dominic não lhe deu atenção e continuou.
— Esta modificação de desenho afeta muita gente, e a quase todos de maneira positiva. Só o que nos preocupa são nossos progressos e trabalhar o melhor possível para nosso cliente, a Corporação Espacial. O
custo do novo Cruzeiro equivale a mais do que muitos sistemas planetários ganham em um Ano Padrão.
Elrood fitou-o fixamente.
— Talvez chegou o momento de meus administradores e concessionários de
licenças inspecionarem suas fábricas — disse em tom ameaçador —. Recebi informes que os cientistas ixianos estão desenvolvendo máquinas pensantes ilegais, que violam o Jihad. E também recebi queixa da repressão contra sua classe operária subóide. Não é assim, Aken? O chambelán assentiu com semblante sombrio.
— Sim, alteza.
— Não correram semelhantes rumores — sorriu Dominic, embora com certa vacilação —. Tampouco existem provas.
— Recebemos relatórios anônimos, mas não se guardaram os registros. — O imperador estalou seus dedos longos, enquanto um sorriso sincero cruzava seu rosto —. Sim, acredito que o melhor seria uma inspeção surpresa de IX, antes que possa ordenar que se oculte tudo.
— O acesso às instalações internas de IX está proibido, segundo um antigo acordo assinado entre o Império e a Landsraad.
Dominic estava furioso, mas tentava conservar a compostura.
— Eu não assinei esse acordo. — Elrood olhou para as unhas —. E
sou imperador há muito tempo.
— Seu antecessor o assinou, e isso o compromete.
— Possuo o poder de fazer e desfazer acordos. Talvez não se lembre que sou o imperador Padishah, e que posso fazer o que quiser. — A Landsraad terá a última palavra a respeito, Roody. — Dominic se arrependeu de ter utilizado o apelido, mas já era muito tarde.
O imperador, vermelho de fúria, ficou em pé de um salto e estendeu um dedo, tremulo e acusador, para Dominic.
— Como se atreve?
Os guardas Sardaukar prepararam suas armas.
— Se insistir em uma inspeção imperial — disse Dominic com um gesto desdenhoso —, apresentarei um protesto oficial ante o tribunal da Landsraad. Precisa de argumentos, e sabe disso. — Fez uma reverência e retrocedeu —.
Estou muito ocupado, senhor. Se me perdoar, preciso partir.
Elrood fulminou-o com o olhar, furioso pelo apelido que Dominic tinha utilizado. Roody. Ambos os homens sabiam que aquele apelido só era usado por uma exconcubina de Elrood, a formosa Shando... que agora era lady Vernius.
Depois da rebelião dos Ecazi, o imperador Elrood tinha condecorado o valente e jovem Dominic, além de lhe conceder uma expansão de seu feudo que incluía outros planetas do sistema Alkaurops. A convite de Elrood, o jovem conde Vernius tinha passado muito tempo na corte, um herói de guerra utilizado como adorno em banquetes imperiais e solenidades estatais. O fogoso Dominic tinha sido muito popular, um convidado recebido com prazer, um companheiro orgulhoso e divertido.
Mas ali foi onde Dominic conheceu Shando, uma das numerosas concubinas do imperador. Naquele tempo, Elrood não estava casado com ninguém. Sua quarta e última esposa Fala, havia falecido cinco anos antes, e já tinha dois herdeiros varões (embora o mais velho, Pamir, morreria envenenado naquele mesmo ano). O imperador sempre estava rodeado de belas mulheres, principalmente para manter as aparências, já que em poucas ocasiões se deitava com Shando ou as outras concubinas.
Dominic e Shando se apaixonaram, mas conservaram sua relação em segredo durante muitos meses devido ao perigo que a situação os colocava.
Estava claro que Elrood tinha perdido todo interesse nela depois de cinco anos, e quando solicitou que a exonerassem do serviço para abandonar a corte imperial, Elrood, embora perplexo, concordou. Ele a apreciava, e não encontrou motivos para recusar um pedido tão simples.
As outras concubinas tinham pensado que Shando era uma néscia por renunciar a uma vida de luxos e caprichos, mas ela estava farta daquela existência e desejava um verdadeiro matrimônio e ter filhos.
Assim que foi liberada do serviço imperial, Dominic Vernius se casou com ela, e fizeram seus votos com o mínimo de pompa e cerimônia, mas dentro da mais estrita legalidade.
Depois de descobrir que outro homem a desejava, o orgulho masculino de Elrood o impulsionou a mudar de idéia, mas já era muito tarde. Tinha guardado rancor de Dominic desde aquele momento, paranóico pelos segredos de quarto que Shando confessaria a seu marido.
Roody.
A bruxa Bene Gesserit que espreitava perto do trono mergulhou nas sombras, atrás de uma coluna salpicada de granito de Canidar. Dominic ficou em dúvida se os acontecimentos a agradavam ou não.
Dominic se obrigou a não acelerar o passo nem a vacilar. Passou com ar decidido pelos dois guardas Sardaukar e saiu para o vestíbulo exterior. A um sinal de Elrood, eles o executariam imediatamente.
Dominic caminhou mais depressa.
Os Corrino eram conhecidos por seu temperamento explosivo. Em mais de uma ocasião se viram obrigados a pagar por suas reações precipitadas e mau aconselhadas, usando a imensa riqueza familiar. Matar o chefe da Casa Vernius durante uma audiência imperial poderia ser mais um desses atos irrefletidos... a não ser pela implicação da Corporação Espacial. A Corporação tinha favorecido IX com cuidados crescentes e benefícios e tinha adotado o desenho do Cruzeiro, e nem sequer o imperador e seus brutais Sardaukar podiam opor-se a ela.
Era uma circunstância irônica, tendo em conta o poderio militar da Casa Corrino, porque a Corporação não possuía forças armadas, nem armamento próprio. Mas sem a Corporação e seus Navegadores, que se orientavam com segurança pelas dobras espaciais, não existiriam as viagens espaciais, nem os bancos interplanetários, nem império a governar.
Em um abrir e fechar de olhos, a Corporação podia recusar seus favores, dissolver exércitos e pôr fim às campanhas militares. De que serviriam os Sardaukar se ficassem restringidos a Kaitain?
Dominic chegou por fim à saída principal do palácio imperial, passou sob o arco de lava salusano e esperou que três guardas o submetessem a uma varredura de segurança.
Por azar, a proteção da Corporação só chegava até ali.
Dominic sentia pouco respeito pelo imperador. Tinha tentado dissimular seu desprezo pelo patético regente de um milhão de planetas, mas cometera o engano de pensar que se tratava de um homem simples, o antigo amante de sua esposa. Elrood, humilhado, era capaz de aniquilar todo um planeta em um ataque de ira. O imperador era um indivíduo vingativo. Como todos os Corrino.
Tenho meus contatos, pensou Elrood, enquanto se afastava de seu adversário.
Posso subornar alguns dos operários que estão fabricando componentes para esses Cruzeiros otimizados, embora seja difícil, porque se diz que esses subóides são imbecis. E se isso não funcionar, Dominic, posso localizar outras pessoas com as quais se indispôs. Seu engano será não lhes dar importância, Elrood recriou mentalmente a encantadora Shando, e recordou os momentos mais íntimos que tinham compartilhado, fazia décadas. Lençóis de seda merh púrpura, a enorme cama, os incensários, os globos de luz acristalados. Como imperador, podia possuir todas as mulheres que desejasse, e tinha escolhido Shando.
Durante dois anos tinha sido sua concubina favorita, inclusive durante a vida de sua esposa Fala. Pequena e de silhueta delicada, tinha uma aparência frágil, parecendo uma boneca de porcelana, que a jovem tinha cultivado durante os anos passados em Kaitain. Não obstante, também possuía uma grande energia e adaptabilidade. Tinham se divertido compondo juntos quebra-cabeças gramaticais multilíngües. Shando tinha sussurrado Roody em seu ouvido quando a convidara para o leito imperial, e o tinha gritado durante os momentos de paixão.
Ouviu sua voz na memória. Roody... Roody... Roody...
Entretanto, como era uma plebéia não podia se casar com o Shando.
Nem sequer tinha pensado nessa possibilidade. Os chefes das Casas reais poucas vezes contraíam matrimônio com suas concubinas, e um imperador nunca. O jovem e arrojado Dominic tinha obtido, com seus ardis, que Shando obtivesse a liberdade, que enganasse Elrood, e depois a tinha levado para IX, onde se casaram em segredo. A estupefação se estendeu mais tarde a Landsraad, e apesar do escândalo tinham continuado casados durante todos estes anos. E a Landsraad, face à petição de Elrood, negou-se a fazer qualquer coisa a respeito. Afinal, Dominic tinha se casado com a moça, e o imperador não demonstrava a menor intenção de fazê-lo. Tudo de acordo com a lei. Apesar de seus ciúmes, Elrood não podia afirmar que Shando tivesse cometido adultério.
Mas Dominic Vernius conhecia seu apelido íntimo. Que mais ela teria contado? Isso o corroia como uma chaga.
Viu Dominic na tela do monitor de segurança preso ao punho. Tinha chegado à porta principal, e uma série de pálidos raios de segurança o percorriam, raios vindos de um scanner que era outra máquina sofisticada ixiana.
Se enviasse um sinal, as sondas apagariam a mente do homem, transformariamno em um vegetal. Um aumento de potência inesperado, um terrível acidente... Seria irônico que Elrood utilizasse um scanner ixiano para matar o conde de IX.
Desejava muito fazê-lo. Mas agora não. Não era o momento apropriado, perguntas incomodas surgiriam, talvez uma investigação fosse aberta. Tal vingança exigia sutileza e planejamento. Dessa forma, a surpresa e a vitória seriam muito mais satisfatórias.
Elrood apagou o monitor. De pé junto ao trono, o chambelán Aken Hesban não perguntou por que o imperador sorria. A principal função da ecologia é a compreensão das conseqüências. Pardot Kynes. Ecologia de Bela Tegeuse, relatório inicial ao Império Sobre o horizonte, afiado como uma navalha, as cores do amanhecer tingiam a atmosfera. Ao fim de um breve momento, uma luz cálida iluminou a paisagem de Arrakis, um repentino banho de calor e luminosidade. O sol esbranquiçado surgia sobre o horizonte, permitindo que aquele brilho se insinuasse na árida atmosfera.
Agora que por fim tinha chegado ao planeta deserto, Pardot Kynes respirou fundo, e depois recordou que devia usar a máscara para impedir a perda de umidade. Uma leve brisa agitava seu ralo cabelo loiro. Estava em Arrakis a apenas uma semana e já intuíra que aquele planeta ermo escondia mais mistérios do que poderia decifrar em toda uma vida.
Teria preferido que o abandonassem a seus próprios recursos.
Ansiava por vagar sozinho pelo Grande Bled com seus instrumentos e cadernos de cálculo, para estudar as características da rocha de lava e as capas estratificadas das dunas.
Entretanto, quando Glossu Rabban, sobrinho do barão e herdeiro teórico da Casa Harkonnen, anunciou sua intenção de entrar no deserto para caçar um dos lendários vermes de areia, Kynes não quis perder semelhante oportunidade.
Como simples planetólogo, um cientista em vez de um guerreiro, sentia-se deslocado. As tropas do deserto dos Harkonnen se muniram com armas e explosivos da fortaleza blindada central. Subiram em um transporte de tropas conduzido por um homem, Lunado Thekar, que afirmava ter vivido em uma aldeia do deserto, embora agora fosse um mercador de água de Carthag. Parecia mais um Fremen do que admitia, embora desse a impressão de que nenhum Harkonnen percebesse.
Rabban não tinha pensado em nenhum plano concreto para seguir o rastro daqueles enormes animais. Não queria ir a nenhuma jazida de especiaria, se por acaso sua equipe atrapalhasse os trabalhos. Queria capturar e matar uma dessas bestas com seus próprios meios. Havia se provido de todas as armas imagináveis, e confiava em seu talento instintivo para a destruição.
Dias antes, Kynes tinha chegado a Arrakis a bordo de uma lançadeira diplomática, e aterrissado na poeirenta cidade, de construção bastante recente. Ansioso por começar, tinha apresentado seus títulos imperiais ao barão em pessoa. O homem magro e ruivo tinha examinado os documentos de Kynes com atenção, e depois verificado o selo imperial. Umedeceu seus grossos lábios, antes de prometer sua colaboração a contra gosto.
— Deve sempre ter a prudência de se manter afastado dos lugares onde se trabalha.
Kynes fez uma reverência.
— Não tenho outro desejo além de ficar sozinho e afastado das atividades trabalhistas, meu senhor barão.
Tinha passado os dois primeiros dias na cidade, dedicado a comprar indumentária apropriada para o deserto, a falar com gente das aldeias fronteiriças, a aprender tudo que pôde sobre as lendas do deserto, as advertências, os costumes, os mistérios inexplorados. Como compreendia a importância dessas coisas, Kynes tinha investido uma soma substancial na aquisição do melhor traje destilador para sobreviver no deserto, assim como uma para-bússola, tendas destiladoras e aparelhos de funcionamento certificado para guardar notas.
Se dizia que muitas tribos dos enigmáticos Fremen viviam no coração do deserto. Kynes queria falar com eles, compreender como sobreviviam em um ambiente tão hostil. Não obstante, os Fremen pareciam incômodos dentro dos limites de Carthag, e fugiam sempre que tentava falar com eles.
Kynes não se entusiasmava muito com a cidade. A Casa Harkonnen tinha construído excessivas sedes oficiais quando, quatro décadas antes, as manipulações da Corporação lhes tinha conferido Arrakis em semi-feudo.
Carthag tinha sido construída com a rapidez própria da mão de obra humana inesgotável, sem dar atenção aos detalhes: blocos de edifícios eretos com materiais de segunda mão, para propósitos estritamente funcionais. Nem uma gota de elegância.
Parecia que Carthag tinha sido transportada sem o menor escrúpulo para aquele ambiente. Sua arquitetura ofendia a sensibilidade de Kynes. O
planetólogo possuía uma capacidade inata para perceber as bases de um ecossistema, para compreender como as peças se encaixavam em um ambiente natural. E aquele centro demográfico era um erro, como uma pústula na pele do planeta.
Arraken, outro posto fronteiriço situado no sudoeste, era uma cidade mais primitiva que tinha crescido pouco a pouco, com naturalidade, construída sob uma barreira montanhosa chamada Muralha Escudo. Talvez Kynes devesse tê-la visitado em primeiro lugar, mas as conveniências políticas o obrigaram a estabelecer sua base com os governantes do planeta.
Ao menos, isso tinha lhe concedido a oportunidade de caçar um dos gigantescos vermes de areia. O amplo ornitóptero que transportava à equipe de caça de Rabban decolou, e Kynes não demorou para vislumbrar o verdadeiro deserto. Olhou pela janela para a paisagem ondulada. Graças a sua experiência em outros ambientes desérticos, pôde identificar formações de dunas, formas e curvas sinuosas que revelavam ventos sazonais, correntes de ar dominantes e a severidade das tormentas. Havia muito que aprender das linhas e ondulações, como rastros digitais do clima. Apoiou a testa contra o cristal. Nenhum outro passageiro parecia interessado na paisagem.
Os soldados Harkonnen se remexiam, mortos de calor dentro de seus pesados uniformes blindados azuis. Suas armas matraqueavam entre si e arranhavam as pranchas do chão. Os homens pareciam incomodados com seus escudos corporais, mas a presença de um escudo e seu campo Holtzman despertaria os instintos assassinos dos vermes próximos. Hoje, Rabban queria encarregar-se da matança.
Glossu Rabban, vinte e um anos, filho do desafortunado governador anterior do planeta, estava sentado muito ereto perto do piloto, e esquadrinhava a areia em busca de objetivos. Era um jovem de cabelo castanho muito curto, de ombros largos, voz profunda e mau gênio. Os pálidos olhos azul claro olhavam de um rosto bronzeado. Parecia fazer todo o possível por ser o contrário de seu pai.
— Veremos rastros de vermes do céu? — perguntou. Thekar, o guia do deserto, estava muito perto dele, como se quisesse compartilhar o espaço pessoal de Rabban.
— As areias mudam de forma e ocultam o rastro de um verme.
Quase sempre se movem a grande profundidade. Não o verão aproximar-se até que saia para a superfície e decida atacar.
O alto e anguloso Kynes escutava com atenção e tomava nota mentalmente. Queria gravar todos os detalhes em seu caderno, mas teria que esperar um pouco.
— Então, como vamos encontrar um?
— Não é tão simples, meu senhor Rabban — respondeu Thekar —.
Os grandes vermes têm seus próprios domínios, alguns dos quais abrangem centenas de quilômetros quadrados. Dentro dessas fronteiras, caçam e matam os intrusos.
Rabban, cada vez mais impaciente, virou-se em seu assento. Seu semblante se escureceu.
— Saberemos encontrar o domínio de um verme?
Thekar sorriu e seus olhos escuros e profundos adotaram um olhar longínquo. — Todo o deserto é propriedade dos Shai-Hulud.
— Quais? Pare de me enrolar.
Kynes pensou que Rabban ia esbofetear o homem do deserto.
— Tanto tempo vivendo em Arrakis, e não sabia disto, meu senhor Rabban? Os Fremen pensam que os vermes de areia são deuses — Thekar respondeu em voz baixa —. São chamados de Shai-Hulud.
— Então hoje mataremos um deus — anunciou Rabban com orgulho, o que provocou as brincadeiras de outros caçadores que viajavam na parte posterior do compartimento. Virou-se para o guia —. Dentro de dois dias parto para Giedi Prime e quero levar um troféu. Nossa caçada será um êxito.
Giedi Prime, pensou Kynes. O planeta natal da Casa Harkonnen. Ao menos não terei que me preocupar com ele depois que tiver partido.
— Conseguira seu troféu, meu senhor — prometeu Thekar.
— Não duvido — disse Rabban em um tom mais detestável.
Kynes, sentado a sós na parte posterior do transporte de tropas e embutido em sua indumentária do deserto, sentia-se incomodado em semelhante companhia. Não lhe interessavam as ambições gloriosas do sobrinho do barão, mas se a excursão lhe permitisse dar uma boa olhada em um dos monstros, compensaria meses de esforços solitários.
Rabban mantinha o olhar cravado à frente. Grossas dobras de pele rodeavam seus olhos. Escrutinava o deserto, sem ver nenhuma das belezas paisagísticas que Kynes observava.
— Tenho um plano, e vamos colocá-lo em prática.
Rabban se virou para os soldados e abriu o sistema de comunicação com os ornitópteros que voavam em formação ao redor do transporte. As dunas ondulavam abaixo deles como rugas na pele de um ancião.
— Esse afloramento — ele apontou e leu em voz alta as coordenadas
— será nossa base. Aterrissaremos na areia a uns trezentos metros da rocha. Thekar baixará com um aparelho batedor. Depois procuraremos refúgio nos afloramentos rochosos, aonde o verme não se aproximará.
O homem do deserto ergueu a vista, alarmado.
— Vai me deixar ali? Mas, meu senhor, eu não...
— Você me deu a idéia. — O jovem se voltou para as tropas uniformizadas —. Thekar diz que este engenho Fremen, o batedor, atrai os vermes. Cravaremos um no chão, junto com explosivos suficientes para dar conta do monstro quando chegar. Thekar, nós o deixaremos ali para que prepare os explosivos e ative o batedor. Será capaz de correr e se refugiar entre nós antes que um verme chegue, não é?
Rabban lhe dedicou um sorriso satisfeito.
— Eu... eu... — balbuciou Thekar —. Parece que não há outra alternativa.
— Embora não creia, é muito provável que o verme se dirija antes ao batedor. Os explosivos se encarregarão dele antes que você se transforme em seu próximo objetivo.
— Isso me consola, meu senhor — disse Thekar.
Kynes, intrigado pelo aparelho Fremen, pensou que devia conseguir um. Oxalá
pudesse presenciar de perto como aquele nativo escapava do verme. Não obstante, o planetólogo teve a prudência de guardar silêncio para não chamar a atenção de Rabban, com a esperança de que o fogoso Harkonnen não o convocasse como voluntário para ajudar Thekar. No compartimento de pessoal, situado na parte posterior da nave, o bator — chefe de um pequeno destacamento —, e seus subordinados se armavam com fuzis laser. Montaram explosivos no engenho similar a uma estaca que Thekar havia trazido. O batedor.
Kynes viu que se tratava de um simples mecanismo de relojoaria provido de mola que emitia uma forte vibração rítmica. Uma vez na areia, o batedor enviava seus ecos até os limites do deserto, onde os Shai-Hulud podiam ouvi-los.
— Assim que aterrissarmos, será melhor que conecte esses explosivos rapidamente — disse Rabban a Thekar —. Os motores desses ornitópteros bastarão para atrair o verme, sem a ajuda de seu brinquedo Fremen.
— Sei muito bem, meu senhor — disse Thekar. Sua pele olivácea se tingiu de um tom cinzento e oleoso de terror.
As aletas dos ornitópteros beijaram a areia e levantaram nuvens de pó. A escotilha se abriu, Thekar agarrou o batedor e saltou. Dirigiu um olhar ofegante ao aparelho, antes de encaminhar-se para a duvidosa segurança da linha de rocha sólida, a uns trezentos metros de distância.
O bator estendeu os explosivos ao desventurado homem do deserto, enquanto Rabban indicava com um gesto que se apressassem.
— Espero que não se transforme em comida de verme, meu amigo
— disse com uma gargalhada.
Antes que as portas do ornitóptero voltassem a fechar, o piloto elevou o vôo e Thekar ficou sozinho.
Kynes e outros soldados Harkonnen se precipitaram para o lado do transporte, o para presenciar os desesperados movimentos do guia.
Enquanto olhavam, o homem do deserto se transformou em um ser humano diferente, primitivo.
— Perdoe-me. Que quantidade de explosivos é necessária para matar um verme? — perguntou Kynes.
— Thekar deve ter de sobra, planetólogo — respondeu o bator —.
Lhe demos o suficiente para explodir uma pequena cidade.
Kynes voltou sua atenção ao drama que estava se desenvolvendo na areia. Enquanto o aparelho se erguia, Thekar trabalhava com frenesi, concentrado em conectar os explosivos através de cabos de linho shiga.
Kynes viu que pequenas luzes piscavam. Depois, o homem esquelético afundou o batedor na areia, junto à mortífera armadilha, como se cravasse uma estaca no coração do deserto.
O ornitóptero se dirigiu em linha reta para o baluarte rochoso onde o grande caçador Rabban esperaria são e salvo. Thekar acionou o mecanismo do batedor e pôs-se a correr.
Os soldados fizeram apostas sobre o resultado.
Ao fim de alguns momentos o aparelho aterrissou sobre uma rocha enegrecida e cheia de buracos, que se assemelhava a um recife no deserto.
O piloto desligou os motores, e as portas do transporte se abriram. Rabban afastou seus soldados aos empurrões para ser o primeiro a descer. Outros o seguiram. Kynes esperou que chegasse sua vez.
Os guardas ocuparam suas posições e dirigiram seus prismáticos para a pequena figura que corria. Rabban estava imóvel, segurando seu fuzil laser de alta potencia, embora Kynes ignorasse o que pretendia fazer com a arma. O sobrinho do barão centrou a lente telescópica no batedor e os explosivos acumulados.
Um dos ornitópteros de rastreamento informou de possíveis sinais de um verme de areia a uns dois quilômetros ao sul.
Thekar corria freneticamente, levantando pequenas nuvens de areia.
Avançava para a segurança, as ilhas rochosas no mar de areia, mas ainda se encontrava a boa distância.
Kynes se fixou na estranha maneira de correr de Thekar. Parecia que saltava e dançava de uma forma errática, como um inseto espasmódico.
Kynes se perguntou se se tratava de uma espécie de ardil para enganar o verme de areia que se aproximava. Era uma técnica que os viajantes do deserto aprendiam? Nesse caso, quem poderia ensiná-la a Kynes? Era preciso que
descobrisse todo o concernente a esse lugar e essa gente, os vermes, a especiaria e as dunas. Não apenas pela ordem imperial. Pardot Kynes queria saber. Assim que se envolvia em um projeto, detestava as perguntas sem resposta.
O grupo esperou, e o tempo transcorreu com lentidão. Os soldados conversavam. O homem do deserto continuava sua fuga peculiar, e se aproximava muito lentamente. Kynes notou que as microcapas de seu traje destilador absorviam as gotas de suor.
Ajoelhou-se e estudou a rocha âmbar que havia a seus pés. Era lava basáltica e continha bolsas de erosão formadas a partir de bolhas refrigerantes restantes na rocha fundida, ou de uma pedra mais frágil corroída pelas lendárias tormentas do Coriolis de Arrakis.
Kynes recolheu um punhado de areia e deixou que escorresse entre seus dedos. Comprovou, sem surpreender-se, que os grãos de areia eram partículas de quartzo e cintilavam ao sol junto com algumas partículas de um material mais escuro, talvez magnetita.
Tinha visto em outros lugares colorações avermelhadas na areia, estrias de tons torrados, laranja e coral, o que revelava a existência de diversos óxidos. Alguns tons talvez se deviam a depósitos da especiaria melange, mas Kynes nunca tinha visto especiaria sem processar no deserto.
Ainda não.
Por fim, os ornitópteros de rastreamento confirmaram que um verme se aproximava. Grande e veloz.
Os guardas ficaram em pé. Kynes percebeu uma ondulação na areia, como se um dedo gigantesco se movesse sob a superfície e alterasse as capas superiores. O tamanho o assombrou.
— Um verme se aproxima pelo flanco! — anunciou o bator.
— Dirige-se em linha reta para Thekar! — gritou Rabban com prazer cruel —. O homem se acha entre o batedor e o verme. Que azar.
Mesmo daquela distância, Kynes viu que Thekar abandonava seu curso errático e começava a correr como um possesso, ao perceber que o verme se precipitava para ele a toda velocidade. Kynes imaginou sua expressão de horror e desespero.
Então, com sombria resolução, Thekar parou e caiu de bruços sobre a areia,
completamente imóvel, com a vista cravada no ciclo, talvez rezando com ardor aos Shai-Hulud.
Agora que as ínfimas vibrações dos passos tinham parado, o longínquo batedor parecia tão estrondoso como uma banda imperial. Tump, tump, tump. O verme parou, e depois se desviou para os explosivos acumulados.
Rabban deu de ombros, como se aceitasse com indiferença uma derrota irrelevante.
Kynes ouviu o rugido das areias, a chegada do monstro. Cada vez estava mais perto, como um ferro atraído por um ímã mortífero. À medida que se aproximava do batedor, o verme se afundava mais no subsolo, para logo descrever um círculo, emergir e engolir o que lhe tinha atraído, irritado ou despertado qualquer outra reação instintiva que experimentassem aqueles colossos cegos.
Quando o verme surgiu da areia, deixou a descoberto uma boca grande o bastante para engolir uma espaçonave, enquanto suas fauces se abriam como as pétalas de uma flor. Ao fim de um instante tragou o insignificante ponto negro do batedor e todos os explosivos. Seus dentes de cristal brilharam como diminutos espinhos aguçados que desciam em espiral por sua garganta sem fundo.
De trezentos metros de distância, Kynes viu colinas de pele arcaica, pregas superpostas de blindagem que protegiam o monstro quando se movia clandestinamente. O verme engoliu a isca carregada de explosivos e começou a desaparecer na areia.
Rabban se ergueu com um sorriso diabólico no rosto e manipulou os pequenos controles de transmissão. Uma brisa quente cobriu de pó seu rosto, salpicou seus dentes de grãos de areia. Apertou um botão.
Um estrondo longínquo fez tremer o deserto. Diminutas avalanches de areia se desprenderam das dunas. A bomba seqüenciada rasgou os condutos internos do verme, destroçou suas vísceras e rachou seus segmentos blindados.
Quando o pó se dispersou, Kynes viu a monstruosidade agonizante que se retorcia em um atoleiro de areia, como uma baleia peluda.
— Essa coisa mede mais de duzentos metros de comprimento! —
gritou Rabban, entusiasmado pelo tamanho da sua presa.
Os guardas o aclamaram. Rabban se virou e deu um tapa nas costas de Kynes com força suficiente para deslocar um ombro.
— Isso sim é um troféu, planetólogo. Levarei-o para Giedi Prime.
Thekar chegou por fim, quase despercebido, suado e ofegante, e se içou até a segurança das rochas. Olhou para trás com sentimentos desencontrados, para a criatura estendida na areia.
Quando o verme deixou por fim de retorcer-se, Rabban dirigiu a expedição. Guardas impacientes correram entre gritos e exclamações de júbilo. Kynes, ansioso por ver de perto o espécime, também correu atrás dos soldados.
Minutos depois, ofegante e acalorado, Kynes se deteve ante a massa imponente do verme ancião. Tinha a pele escamosa, coberta de cascalho, coberta de calos a prova de erosões. Entre os segmentos rasgados pelas explosões viu uma pele tenra e rosada. A boca do verme parecia o poço de uma mina, flanqueada por facas de cristal.
— É o animal mais temível deste miserável planeta! — grasnou Rabban —. E eu o matei!
Os soldados observavam de uma distância segura, pouco desejosos de correr riscos desnecessários. Kynes se perguntou como o sobrinho do barão pensava levar o troféu. Considerando a propensão à extravagância dos Harkonnen, supôs que Rabban imaginaria uma forma.
O planetólogo se virou e viu que o esgotado Thekar se materializou junto a eles. Seus olhos emitiam um brilho prateado, como se um fogo ardesse em seu interior. Talvez por ter estado tão perto da morte, e de ter visto o deus do deserto aniquilado pelos explosivos dos Harkonnen, sua perspectiva do mundo houvesse mudado. — Shai-Hulud — sussurrou. E se voltou para Kynes, como se sentisse uma alma gêmea —. Este é muito velho. Um dos vermes mais velhos.
Kynes avançou para examinar a pele perebenta, os segmentos, e se perguntou como ia analisar e diseccionar o espécime. Supôs que Rabban não se oporia. Caso fosse necessário, Kynes invocaria a missão recebida do imperador para fazê-lo ceder.
Mas quando se aproximou mais, com a intenção de tocá-lo, viu que a pele do velho verme se movia. A besta já não vivia, suas funções nervosas tinham
cessado, mas suas capas exteriores tremiam e mudavam de forma, como se estivessem se fundindo.
Enquanto Kynes contemplava o espetáculo, assombrado, uma chuva de fragmentos celulares translúcidos se desprenderam do corpo do verme, como escamas entregues à areia ardente, onde desapareceram.
— O que está acontecendo? — gritou Rabban.
Parecia que o verme estava evaporando ante seus olhos. A pele se transformava em diminutos pedaços similares a amebas, que se agitavam e depois se aglutinavam com a areia. O colosso ancião se fundiu com o deserto. Ao final só restaram costelas cartilaginosas e dentes de leite.
Depois, até esses restos foram afundando pouco a pouco até dissolverem-se em pequenos montões de gelatina coberta de areia.
Os soldados Harkonnen retrocederam alguns metros.
Kynes teve a sensação de ter presenciado mil anos de putrefação em poucos segundos. Entropia acelerada. O faminto deserto parecia ansioso por apagar até o último sinal, por ocultar o fato de que um humano tinha derrotado um verme de areia.
Enquanto Kynes pensava nestes termos, cada vez mais confuso e estupefato, apesar de ter perdido a oportunidade de diseccionar o espécime, pensou que o ciclo vital daquelas bestas devia ser muito estranho.
Tinha muito que aprender sobre Arrakis...
Rabban se ergueu, furioso. Seu pescoço se esticou como um cabo de ferro.
— Meu troféu!
Virou-se, fechou os punhos e derrubou Thekar com um golpe. Por um momento Kynes pensou que o sobrinho do barão ia matar o homem do deserto, mas Rabban desviou sua fúria para os restos do verme, que foram afundando na areia.
Amaldiçoou-o aos gritos. Depois, enquanto Kynes observava, uma expressão decidida apareceu nos olhos frios e ameaçadores de Rabban. Seu rosto torrado pelo sol avermelhou um pouco mais.
— Quando retornar a Giedi Prime, caçarei algo muito mais satisfatório.
E ato seguido, como se tivesse esquecido o verme, deu meia volta e se afastou. Quem observa os sobreviventes, aprende com eles.

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