Face às desastrosas perdas militares durante a revolta inesperada, em IX continuavam existindo muitos lugares secretos. Séculos atrás, durante os tempos paranóicos posteriores ao momento em que a Casa Vernius se encarregou das operações mecânicas, engenheiros chamados em segredo tinham construído uma colméia secreta de habitações impermeáveis a transmissões, câmaras de algas e esconderijos impossíveis de descobrir graças ao notável engenho ixiano. Um inimigo demoraria séculos para encontrá-los. Até a Casa governante tinha esquecido a metade deles.
Guiados pelo capitão Zhaz e os guarda-costas privados, Leto e Rhombur se ocultaram em uma câmara cujas paredes estavam cobertas de algas, onde se entrava por um túnel que mergulhava na casca do planeta.
Os sensores do inimigo só detectariam os sinais de vida das algas, já que potentes campos de desativação rodeavam o resto da câmara.
— Teremos que ficar aqui por alguns dias — disse Rhombur, que se esforçava por recuperar seu habitual otimismo —. Até então, forças do Landsraad ou do Império terão vindo em nosso resgate, e a Casa Vernius começará a reconstruir lX. Tudo acabará bem.
Leto guardou silêncio. Se suas suspeitas estavam certas, poderia demorar muito mais que isso. — Esta câmara é um simples ponto de reunião, maese Rhombur —
disse o capitão Zhaz —. Esperaremos o conde e seguiremos suas ordens.
Rhombur assentiu.
— Sim, meu pai saberá o que fazer. Ele já esteve em muitas situações militares difíceis. — Sorriu —. Em algumas delas com seu pai, Leto.
Este apoiou uma mão firme no ombro do príncipe, como amostra de solidariedade. Mas ignorava quantas vezes Dominic Vernius tinha participado de campanhas defensivas desesperadas como esta. Leto tinha a impressão de que todas as vitórias passadas de Dominic tinham consistido em ataques contra grupos de rebeldes dispersos.
Recordando o que seu pai tinha lhe ensinado (“estude os detalhes em seu entorno em qualquer circunstância difícil, Leto inspecionou o esconderijo. Procurou rotas
de fuga, pontos vulneráveis. A câmara tinha sido escavada em cristal de rocha maciço, com uma capa exterior da vegetação espessa que dotava ao ar de um acre toque orgânico. A cavidade contava com quatro apartamentos, uma ampla cozinha com provisões de sobrevivência e uma nave de emergência capaz de alcançar uma órbita planetária baixa.
Silenciosas máquinas atrito controlavam recipientes de entropia nula no núcleo da caverna, encarregados de manter comida e bebida frescos.
Esses recipientes continham roupas, armas, videolivros e jogos ixianos, para que os refugiados se distraíssem. A interminável espera podia ser a parte mais difícil daquele refúgio, mas os ixianos haviam tomado todas as precauções necessárias.
Já era noite segundo seus relógios. Zhaz situou seus guardas nos corredores exteriores e na porta camuflada. Rhombur o metralhou com um sem-fim de perguntas, a maioria das quais o capitão não soube responder: O que estava acontecendo lá fora? Podiam ter esperança de serem libertados por ixianos leais, ou os invasores Tleilaxu os prenderiam, ou fariam algo ainda pior? Algum ixiano viria informar a morte de seus pais?
Por que ninguém tinha aparecido no ponto de reunião? Tinha idéia de quanta extensão da capital permanecia intacta? Se não, quem poderia descobrir?
Um alarme o interrompeu. Alguém tentava entrar na câmara.
O capitão Zhaz ativou um monitor manual, apertou um botão que iluminou a sala e ativou uma videojanela. Leto viu três rostos conhecidos muito perto dos visicoms do corredor secundário: Dominic Vernius e sua filha Kailea, com o vestido rasgado e o cabelo desalinhado. Entre os dois seguravam a dama Shando, que parecia semi consciente, com os braços e o corpo enfaixados grosseiramente.
— Permissão para entrar — disse Dominic com uma voz que soou metálica pelos alto-falantes —. Abra, Rhombur. Zhaz! Necessitamos atenção médica para Shando. — Seus olhos estavam sombrios.
Rhombur Vernius se precipitou para os controles, mas o capitão da guarda o deteve com um gesto imperioso.
— Por iodos os Santos e pecadores, lembre-se dos dançarinos faciais, amo!
Leto se lembrou que os metamorfos Tleilaxu eram capazes de assumir aparências familiares e penetrar nas áreas mais seguras. Leto agarrou o braço ao
príncipe ixiano, enquanto Zhaz interrogava e recebia uma contra-senha. Por fim, apareceu uma mensagem procedente do sensor biométrico. Confirmado: conde Dominic Vernius.
— Permissão concedida — disse Rhombur pelo transmissor de voz
—. Entre. Mãe, o que aconteceu?
Kailea parecia aflita, como se ainda não acreditasse na repentina destruição de todos os seus planos de futuro. Os recém chegados cheiravam a suor, fumaça e medo.
— Sua irmã estava repreendendo os subóides e lhes dizendo que voltassem a trabalhar — disse Shando com uma sombra de alegria apesar da dor —. Uma estupidez.
— E alguns deles estavam a ponto de fazê-lo... — disse a jovem, e suas bochechas se ruborizaram de ira.
— Até que alguém tirou uma pistola maula e abriu fogo. Menos mal que tinha má pontaria.
Shando tocou o braço e o flanco, e se encolheu de dor.
Dominic afastou os guardas e abriu um estojo de primeiro socorros para curar as feridas de sua mulher.
— Não é grave, meu amor. Beijarei suas cicatrizes mais tarde. Não deveria ter se exposto tanto.
— Nem mesmo para salvar Kailea? — Shando tossiu, e lágrimas brilharam em seus olhos —. Você teria feito o mesmo para me proteger mim ou seus filhos, até mesmo Leto Atreides. Não tente negar.
Dominic evitou seu olhar e assentiu a contragosto.
— Mas ainda estou transtornado... Como esteve perto de morrer.
Não teria me restado nada por que lutar.
— Engana-se, Dominic. Ainda teria restado muito.
Leto desconfiou do que tinha impulsionado uma jovem e bela concubina a abandonar seu imperador, e por que um herói de guerra tinha incorrido na ira do
Elrood para casar-se com ela.
No corredor oculto exterior, meia dúzia de soldados armados tomaram posições em frente a porta fechada. Pelo monitor exterior, Leto viu que os outros (tropas de choque para o caso de uma incursão violenta dos rebeldes) tinham canhões laser, sensores e equipamentos sônicos de defesa no túnel de acesso à câmara.
Rhombur, aliviado ao ver que sua família estava a salvo, abraçou seus pais e a sua irmã.
— Tudo sairá bem — disse —. Já verão.
Apesar da sua ferida, a dama Shando se mostrava orgulhosa e valente, embora ao redor de seus olhos avermelhados houvesse traços de lágrimas. Kailea olhou envergonhada para Leto. Parecia derrotada e frágil, sem seu habitual comportamento altivo. Leto sentiu vontade de consolá-la, mas vacilou. Tudo parecia muito inseguro, muito aterrador.
— Não temos muito tempo, crianças — disse Dominic, secando o suor da testa —, e desta vez serão necessárias medidas desesperadas. —
Seu crânio raspado estava manchado de sangue. Aliada ou inimiga?, perguntouse Leto. O emblema esmigalhado da hélice pendia de sua lapela.
— Nesse caso, não é momento para nos chamar de crianças —
respondeu Kailea para surpresa de todos —. Nós também devemos lutar.
Rhombur se ergueu em toda sua estatura, majestoso ao lado de seu pai corpulento, em vez de malcriado e rechonchudo.
— E estamos dispostos a ajudá-lo a reconquistar IX. Vernii é nossa cidade e voltará para nossas mãos.
— Não, vocês três ficarão aqui. — Dominic ergueu uma mão calosa para sossegar os protestos de Rhombur —. Primeiro é preciso salvar os herdeiros. Não admito discussões. Cada momento de discussão me afasta de meu povo, e neste momento eles necessitam de minha liderança desesperadamente.
— Vocês são muito jovens para combater — disse Shando, e uma expressão dura e inflexível apareceu em seu rosto delicado —. São o futuro de suas respectivas Casas.
Dominic se plantou a frente de Leto e olhou-o nos olhos pela primeira vez, como
se por fim o considerasse um homem.
— Leto, seu pai nunca me perdoaria se algo acontece com seu filho.
Já enviamos uma mensagem ao velho duque e o informamos da situação.
Em resposta, seu pai prometeu ajuda limitada e enviou uma missão de resgate para levar você, Rhombur e Kailea sãos e salvos a Caladan. —
Dominic apoiou suas mãos sobre os ombros de seus dois filhos —. O
duque Atreides os protegerá, vai conceder-lhes asilo. É tudo que pode fazer no momento.
— Isso é ridículo — disse Leto, e seus olhos cinzas cintilaram —.
Vocês também deveriam se refugiar na Casa Atreides, meu senhor. Meu pai nunca lhes daria as costas.
Dominic sorriu.
— Não tenho dúvida de que Paulus faria o que diz, mas não posso, porque isso significaria condenar meus filhos.
Rhombur olhou para sua irmã, alarmado. A dama Shando assentiu e continuou. Seu marido e ela já tinham discutido as diversas possibilidades.
— Rhombur, se Kailea e você viverem exilados em Caladan, estarão a salvo. Ninguém se preocupará com isso. Suspeito que esta sangrenta revolta foi planejada com apoio e influência do Império, e todas as peças encaixaram em seu lugar.
Rhombur e Kailea trocaram um olhar de incredulidade.
— Apoio do Império?
— Ignoro o que o imperador deseja de IX — disse Dominic —, mas a aversão de Elrood está dirigida a mim e a sua mãe. Se os acompanhar à Casa Atreides, os caçadores nos perseguirão. Encontrarão alguma desculpa para atacar Caladan. Não, sua mãe e eu temos que encontrar uma maneira de desviar esta luta de vocês.
Rhombur estava indignado. Sua pele pálida avermelhou.
— Podemos resistir aqui por uma temporada, pai. Não quero abandoná-lo.
— Tudo já dito, meu filho. Além da operação de resgate dos Atreides, não receberemos nenhuma ajuda. Nem Sardaukar imperiais, nem exércitos do Landsraad que rechacem os Tleilaxu. Os subóides são simples peões. Enviamos pedidos a todas as Casas Maiores e ao Landsraad, mas ninguém reagirá com a rapidez necessária. Alguém estava mais preparado que nós...
A dama Shando mantinha a cabeça erguida, apesar da dor e da sua aparência desalinhada. Havia sido a dama de uma Grande Casa, e concubina imperial antes disso, mas nascera de classe humilde. Shando seria feliz mesmo sem as riquezas de um governo ixiano.
— Mas o que será de vocês dois? — perguntou Leto, pois nem Rhombur nem Kailea tinham coragem para perguntar.
— A Casa Vernius se declarará... renegada.
Shando baixou a voz por um segundo no silêncio que surgiu.
— Infernos carmesins! — disse Rhombur, e sua irmã soltou uma exclamação afogada.
Shando beijou seus filhos.
— Levaremo-nos o que pudermos salvar, e depois Dominic e eu nos separaremos e nos esconderemos. Talvez durante anos. Alguns dos mais leais nos acompanharão, outros fugirão, e outros ficarão aqui, para bem ou para mau. Começaremos uma nova vida, e talvez a sorte nos sorrirá.
Dominic deu um apertão de mãos desajeitado em Leto, não ao estilo imperial mas sim como na Velha Terra, já que o Império, do imperador a todas as Casas Maiores, tinha abandonado à Casa Vernius. Uma vez que se declarasse renegada, a família Vernius já não pertenceria ao Império.
Shando e Kailea soluçaram em silêncio e se abraçaram, enquanto Dominic segurava seu filho pelos ombros. Pouco depois, o conde Vernius e sua esposa saíram pelo túnel de acesso à câmara, acompanhados por um contingente de guardas, enquanto Rhombur e sua irmã os observavam pelo monitor do visicom.
Na manhã seguinte, os três refugiados estavam sentados em incômodas mas eficientes poltronas flutuantes, comendo barrinhas energéticas, bebendo suco de Ixap e esperando.
Kailea falava pouco, como se tivesse perdido a energia necessária para se opor às circunstâncias. Seu irmão maior tentava animá-la, sem o menor êxito. Isolados, não sabiam nada do que acontecia no exterior, ignoravam se tinham chegado reforços, se a cidade continuava queimando...
Kailea tinha se lavado, feito um grande esforço para reconstruir seu vestido rasgado e exibia sua aparência alterada como um símbolo.
— Esta semana eu devia participar de um baile — disse com a voz inexpressiva —. O solstício de Dur, um dos acontecimentos sociais mais importantes em Kaitain. Minha mãe disse que poderia ir quando fosse maior. — Olhou para Leto e emitiu uma triste gargalhada —. Como este ano poderiam me prometer a um marido apropriado, suponho que já sou maior para assistir a um baile. Não acha?
Beliscou sua manga rasgada. Leto não sabia o que dizer. Tentou imaginar o que teria respondido Helena à filha de Vernius.
— Quando chegarmos ao Caladan, direi a minha mãe que celebre um grande baile para lhes dar as boas-vindas. Você gostaria, Kailea? Sabia que lady Helena desconfiava dos ixianos devido a suas crenças religiosas, mas tinha certeza que sua mãe concordaria, tendo em conta as circunstâncias. Ao menos, jamais cometeria uma estupidez social.
Os olhos de Kailea cintilaram, e Leto se encolheu.
— Com os pescadores dançando uma giga obscena e os arrozeiros entregues a algum rito de fertilidade?
Suas palavras eram ácidas, e Leto pensou que seu planeta e sua herança eram inadequados para alguém como ela. Não obstante, Kailea se abrandou e tocou o braço de Leto.
— Sinto muito, Leto. Sinto muitíssimo. É que tinha muita vontade de ir a Kaitain, de ver o palácio imperial, as maravilhas da corte.
Rhombur falou com semblante áspero.
— Elrood nunca teria permitido, mesmo que fosse porque ainda está zangado com nossa mãe.
Kailea se levantou e passeou de um lado a outro.
— Por que ela o deixou? Poderia ter ficado no palácio, rodeada de luxos... E em
vez disso escolheu esta... pocilga. Uma pocilga invadida agora por insetos. Se nosso pai a tivesse amado de verdade, teria pedido que se sacrificasse tanto? É absurdo.
Leto tentou consolá-la.
— Não acredita no amor, Kailea? Vi a forma que seus pais se olhavam.
— É claro que acredito no amor, Leto. Mas também acredito no bom senso, e em sopesar os prós e os contras.
Kailea procurou nos arquivos de entretenimento algo que a distraísse. Leto decidiu não insistir e se virou para Rhombur.
— Deveríamos aprender a pilotar o ornitóptero. Para o caso de precisarmos.
— Não é preciso. Eu se pilotá-lo — disse Rhombur.
Depois de tomar um gole do suco, Leto apertou os lábios.
— Mas e se o ferirem, ou algo pior? O que faremos então?
— Ele tem razão — disse Kailea, sem levantar seus olhos esmeralda dos arquivos de entretenimento. Sua voz soava frágil e cansada —. Vamos ensiná-lo, Rhombur.
O herdeiro da Casa Vernius olhou para Leto.
— Bem, você sabe como funciona um ornitóptero ou uma lançadeira?
— Aprendi a pilotar ornitópteros quando tinha dez anos, mas as únicas lançadeiras que vi eram automáticas.
— Máquinas descerebradas que realizam funções prefixadas. Odeio essas coisas... embora nós as fabricamos. — Agarrou um pedaço de barra energética —. Ou melhor, fabricávamos. Antes que os Tleilaxu chegassem.
Levantou a mão direita e esfregou o anel que o identificava como herdeiro da casa ixiana.
Ao seu sinal, um amplo quadrado desceu do teto e pousou sobre o chão. Leto olhou pelo oco e viu uma esbelta forma chapeada armazenada.
— Acompanhem-me. — Rhombur subiu sobre o painel e Kailea o imitou —.
Vamos testar os sistemas.
Quando Leto subiu, sentiu um puxão para cima. Os três atravessaram o teto e subiram pelo flanco de uma nave chapeada, até uma plataforma montada sobre a fuselagem.
O ornitóptero recordou a Leto uma lancha espacial, um pequeno aparelho de corpo estreito e janelas de plaz. A ornave, uma combinação de ornitóptero e espaçonave, podia funcionar no planeta ou em órbita baixa.
Como violavam o monopólio da Corporação sobre as viagens espaciais, as ornaves estavam entre os segredos mais zelosamente guardados de IX, e só eram empregadas como último recurso.
Abriu-se uma escotilha no flanco do aparelho, e Leto ouviu que os sistemas da nave o rodeavam com um zumbido de maquinaria e aparelhos elétricos. Rhombur os precedeu até um centro de comando provido de dois assentos de respaldo alto e brilhantes painéis situados a frente de cada um deles. Acomodouse em um assento, e Leto no outro. O flexível material sensiforme se amoldou a seus corpos. Tênues luzes verdes brilharam sobre os painéis tateantes. Kailea se sentou atrás do seu irmão, com as mãos apoiadas sobre o respaldo da poltrona.
— Porei o seu em modo tutelar. A própria nave o ensinará a pilotá
la.
O painel de Leto adquiriu um tom amarelo. Enquanto se interrogava a respeito dos tabus sobre as mentes mecânicas da Jihad Butleriana, enrugou o rosto, confuso. Até que ponto aquela nave podia pensar por si mesma? Sua mãe lhe advertira que não acreditasse em muitas coisas, sobretudo coisas ixianas. Através do pára-brisa de plaz, via apenas a rocha cinza na superfície interior da câmara de algas. — Pensa com sozinha, como os meks de treinamento que me ensinou?
Rhombur fez uma pausa.
— Sei o que está pensando, Leto, mas esta máquina não imita os processos de pensamento humanos. Os subóides não entendem nada. Assim como nosso mek de combate autodidata, que analisa o adversário para tomar decisões, não pensa, apenas reage à velocidade da luz. Lê seus movimentos, antecipa-se e reage.
— A mim isso parece o mesmo que pensar.
No painel que havia a frente de Leto dançavam miríades de luzes.
Kailea suspirou, frustrada.
— Faz milhares de anos que a Jihad Butleriana acabou e a humanidade ainda se comporta como se fôssemos roedores aterrorizados que se escondem das sombras. Existem movimentos antiixianos em todo o Império porque construímos máquinas complexas. As pessoas não compreendem o que fazemos, e os malentendidos alimentam as suspeitas.
Leto assentiu.
— Pois então me ajude a entender. Comecemos.
Olhou para o painel de controle e procurou não se impacientar.
Depois dos acontecimentos dos últimos dias, todos sofriam os efeitos da tensão acumulada.
— Coloque seus dedos sobre as placas de identificação — disse Rhombur —. Não toque no painel. Deixe os dedos alguns centímetros acima.
Depois de fazer isso, Leto ficou rodeado de um pálido brilho amarelado que provocou um formigamento em sua pele.
— Está assimilando os componentes de seu corpo: a forma do sua rosto, cicatrizes diminutas, digitais, folículos de cabelo, marcas retinianas.
Ordenei à máquina que aceite seus dados. — A luz diminuiu —. Já está autorizado. Ative o tutorial passando seu polegar direito sobre a segunda fileira de luzes.
Leto obedeceu, e uma tela de realidade virtual apareceu a frente de seus olhos, mostrando uma vista aérea que mostrava montanhas escarpadas e gargantas rochosas.
A mesma paisagem que tinha visto meses atrás, no dia em que desembarcara da lançadeira da Corporação.
De repente viu faíscas na câmara oculta de baixo. Explosões e estalos de estática o ensurdeceram. A imagem sintética da paisagem se tornou imprecisa, voltou a entrar em foco e desapareceu. Seus ouvidos retumbavam.
— Sente-se — disse Rhombur —. Isto não é uma simulação.
— Eles nos localizaram!
Kailea se deixou cair em um assento baixo, atrás de Leto, e um campo de segurança pessoal a rodeou imediatamente. Leto sentiu que o calor de outro campo o envolvia, enquanto Rhombur tentava imobilizar-se no assento do piloto.
Rhombur viu na tela de vigilância da ornave que soldados Tleilaxu e subóides armados invadiam o túnel de acesso à câmara oculta, ao mesmo tempo em que disparavam seus fuzis laser para destruir as portas escondidas. Os atacantes já tinham ultrapassado a segunda barreira. O
capitão Zhaz e alguns de seus homens jaziam no chão, formando montículos fumegantes.
— Talvez seus pais tenham conseguido fugir — disse Leto —.
Espero que estejam a salvo.
Rhombur se preparou para a decolagem. Leto se apertou contra o assento, enquanto tentava conservar a calma. A simulação externa ainda enchia seus olhos, distraía-o com visões das antigas paisagens ixianas.
Uma luz azul cintilou no exterior da nave. Uma explosão os sacudiu.
Rhombur soltou um grito ao mesmo tempo em que caía do seu assento. Um fio de sangue escorria por seu rosto.
— Que demônios aconteceu? — gritou Leto —. Rhombur!
— Isto é real, Leto! — gritou Kailea —. Tire-nos daqui.
Leto operou o painel para passar de modo tutorial para ativo, mas Rhombur ainda não tinha terminado de preparar a nave. Outra explosão destruiu a parede da câmara, e fragmentos de rocha cobertas de algas voaram pelos ares. Várias figura apareceram na sala principal.
Rhombur gemeu. Abaixo, os subóides gritaram e apontaram para a nave dos três fugitivos. Disparos de fuzil laser atingiram as paredes de pedra e o casco da ornave. Leto ativou a seqüência de auto lançamento.
Apesar de suas preocupações anteriores, desejava que a mente mecânica da nave funcionasse com absoluta eficácia.
A ornave subiu por um canal, atravessou um pico rochoso, uma capa de neve e
saiu por fim para céu aberto, semeado de nuvens. Leto se esquivou de um feixe de raios laser, defesas automáticas em poder dos rebeldes. Entreabriu os olhos para protegê-los da luz solar.
Leto avistou um Cruzeiro numa órbita planetária baixa. Dois jorros de luz surgiram da nave, como dois vs, um sinal familiar para Leto: naves Atreides.
Leto enviou um sinal de identificação na linguagem de guerra especial que seu pai e seus professores tinham ensinado. Naves de resgate apareceram de cada lado da ornave, para escoltá-lo. Os pilotos fizeram sinais de que o tinham reconhecido. Um jato purpúreo disparado da nave de estibordo pulverizou uma nuvem sob onde se ocultavam aparelhos inimigos.
— Você está bem, Rhombur?
Kailea examinou as feridas do seu irmão.
O jovem se remexeu, levou uma mão a cabeça e grunhiu. Uma caixa de componentes eletrônicos montada no teto tinha caído em sua cabeça.
— Infernos carmesins! Não ativei a tempo o maldito CSP.
Piscou e enxugou o sangue do rosto.
Leto seguiu à escolta até a segurança do Cruzeiro, onde viu duas grandes fragatas de batalha Atreides. Enquanto a ornave entrava no hangar, chegou uma mensagem em galach pelo sistema de comunicações, mas reconheceu o acento caladano.
— Menos mal que esperamos uma hora mais do que o combinado.
Bem-vindo a bordo, príncipe Leto. seus acompanhantes estão bem? Há quantos sobreviventes?
Olhou para Rhombur, que acariciava o crânio dolorido.
— Três, mais ou menos ilesos. Tirem-nos de IX.
Uma vez a bordo, a ornave ficou estacionada entre os escolta Atreides, dentro do imenso hangar do Cruzeiro, Leto olhou para cada lado pelas portas de embarque das naves maiores viu soldados Atreides uniformizados de verde e negro, com o emblema do falcão. Exalou um profundo suspiro de alívio e olhou para Rhombur, cuja irmã estava ajudando-o a se recuperar.
— Bem — disse o príncipe ixiano —, esqueça as simulações, amigo.
Sempre é melhor aprender na prática.
Então perdeu a consciência e caiu para um lado. Até a Casa mais pobre pode ser rica em lealdade. A lealdade comprada com subornos ou salários é vazia e fraca, e pode falhar no pior momento. Entretanto, a lealdade que surge do coração é mais forte que o diamante e mais valiosa que a melange mais pura. Duque Paulus Atreides
Nos limites da galáxia, no interior do hangar de carga de outro Cruzeiro, um transporte espacial ixiano anônimo descansava entre as naves abarrotadas. O transporte fugitivo tinha saltado de uma rota de carga para outra, e em cada ocasião tinha mudado de nome.
Dentro da nave, Dominic e Shando estavam sentados como passageiros entre os restos de suas forças armadas. Muitos guardas da família tinham morrido, e muitos não tinham chegado a tempo à nave.
Outros tinham decidido ficar e enfrentar as conseqüências da revolução.
O criado pessoal da dama Shando, Omer, remexeu-se e encolheu seus ombros estreitos. Usava o rígido cabelo negro cortado pela linha do pescoço, mas agora, tanto o cabelo como o pescoço pareciam um pouco desalinhados. Omer era o único criado da dama que tinha escolhido acompanhar a família ao exílio. Homem tímido, o aborrecia a perspectiva de começar uma nova vida entre os Tleilaxu.
Os relatórios sucintos do embaixador Pilru tinham deixado claro que não podiam esperar ajuda das forças militares do Landsraad ou do imperador. Ao declararem-se renegados, tinham cortado todos os laços e obrigações com a lei imperial.
Os assentos, contêineres e armários da nave renegada estavam cheios de jóias e objetos de valor, coisas que podiam ser vendidas por dinheiro em metálico. Seu exílio talvez durasse muito tempo.
Dominic, sentado ao lado de sua esposa, segurava sua mão pequena e delicada. Rugas de preocupação se desenhavam em sua face.
— Elrood enviará comandos em nossa perseguição — disse —. Eles nos caçarão
como animais.
— Por que não nos deixa em paz de uma vez? — murmurou Omer
—. Já perdemos tudo.
— Não é suficiente para Roody — disse Shando, e se virou para seu criado. Estava sentada com as costas retas, majestosa —. Nunca me perdoou por convencê-lo a me deixasse partir. Nunca menti, mas pensa que o enganei.
Olhou pela janela estreita, ladeada de sercromo cintilante. A nave ixiana era pequena, sem distintivos da Casa Vernius. Um veículo simples utilizado para subir carga ou transportar passageiros de terceira classe.
Shando apertou a mão do seu marido e tentou não pensar em como tinham caído.
Recordou o dia em que partiu da corte imperial, banhada, perfumada e engalanada com flores recém cortadas nas estufas de Elrood. As outras concubinas tinham lhe dado broches, jóias, lenços coloridos que brilhavam com o calor corporal. Era então jovem e entusiasta, e seu coração estava cheio de gratidão pelas lembranças e experiências, e também ansioso por iniciar uma nova vida junto ao homem que amava.
Shando tinha guardado seu romance com o Dominic em segredo, e se separado de Elrood de uma forma que ela considerava amistosa. O
imperador lhe tinha dado sua bênção. Elrood e ela tinham feito amor pela última vez, falado com afeto das lembranças que compartilhavam. Elrood não compreendera seu desejo de abandonar Kaitain, mas possuía muitas outras concubinas. A perda de Shando significava pouco para ele... até que descobriu que ela o deixara pelo amor de outro homem.
Agora, o vôo errante de Shando desde lX era muito diferente daquele que a tinha afastado de Kaitain. Suspirou amargurada.
— Depois de um reinado de século e meio, Roody aprendeu a esperar o momento da vingança.
Dominic, sem o menor indício de ciúmes, riu ao ouvir a frase.
— Bem, agora ele saldou contas conosco. Teremos que ser pacientes e encontrar alguma forma de recuperar a fortuna de nossa Casa. Se não por nós, por nossos filhos.
— Confio em Paulus Atreides, ele cuidará bem deles — disse Shando — É um bom homem.
— Entretanto, não podemos confiar que ninguém cuide de nós —
recordou Dominic —. vai ser uma prova muito dura de enfrentar.
Dominic e Shando não demorariam para separar-se, adotar novas identidades e esconder-se em planetas isolados, com a esperança de reunir-se algum dia. Tinham pago um suborno enorme à Corporação, de modo que não existiam registros de seus respectivos destinos. Marido e mulher se abraçaram, conscientes de que a partir desse momento não haveria nada seguro em suas vidas.
A frente deles se estendia um espaço inexplorado.
Sozinho entre os restos da martirizada IX, C'tair Pilru se escondeu em uma pequena habitação a prova de transmissões. Tinha certeza que os subóides não o encontrariam. Acreditava que era sua única possibilidade de sobreviver à carnificina.
Sua mãe tinha lhe mostrado este lugar escondido atrás da parede de uma masmorra do Grand Palais, escavado na rocha. Como membros da corte de Vernius, e filhos do embaixador em Kaitain, atribuiu-se a C'tair e D'murr um lugar para sua segurança pessoal em caso de emergência. Com a mesma metódica eficácia que mostrava diariamente como banqueira da Corporação, S'tina o preparara para qualquer eventualidade e tendo certeza que seus filhos recordassem. Suado, faminto e aterrorizado, C'tair tinha experimentado um imenso alívio ao descobrir o esconderijo secreto intacto entre o caos, disparos e explosões.
Depois, a salvo e aturdido, a comoção do que sua cidade estava padecendo, seu planeta, o golpeara com toda força. Não podia acreditar em tudo o que se perdera, quanta grandeza transformada em pó, sangue e fumaça.
Seu irmão gêmeo tinha desaparecido, arrebatado pela Corporação para ser treinado como Navegante. Em seu momento tinha lamentado a perda, mas ao menos isso significava que D'murr estava a salvo da revolução. C'tair não desejava aquilo a ninguém... mas esperava que seu irmão tivesse recebido a notícia. Os Tleilaxu a teriam ocultado?
C'tair tentara entrar em contato com seu pai, mas o embaixador tinha ficado preso em Kaitain em plena crise. Entre incêndios, explosões e bandos de subóides
assassinos, C'tair se vira com poucas opções, exceto esconder-se e sobreviver. O jovem de cabelo escuro morreria se tentasse chegar aos centros administrativos da Casa Vernius.
Sua mãe já tinha morrido.
C'tair se escondia em sua pequena habitação com os globos luminosos apagados, e ouvia o barulho dos combates longínquos e os sons, muito mais retumbantes, de sua própria respiração, dos batimentos do coração de seu coração. Estava vivo.
Três dias antes, tinha visto os revolucionários destruir uma asa do edifício da Corporação, a seção do bloco cinzento que mantinha todas as instalações bancárias ixianas. Sua mãe estava ali. D'murr e ele tinham visitado seus escritórios muitas vezes durante sua infância.
Sabia que S'tina havia caído das abóbadas dos registros, incapaz de escapar e reticente em acreditar que os subóides rebeldes ousariam atacar uma sede neutra da Corporação. Mas os subóides não entendiam de política nem das sutis ramificações do poder. S'tina tinha enviado a C'tair uma transmissão final, aconselhando-o a se esconder, não se arriscar, e marcado um encontro para quando a violência diminuísse. Nenhum dos dois tinha acreditado que a situação pudesse piorar.
Mas enquanto C'tair olhava, explosivos colocados pelos subóides rebeldes tinham destruído parte do edifício, que se desprendeu de seus alicerces no teto da caverna e caiu ao chão da gruta, matando centenas de rebeldes, assim como banqueiros e funcionários da Corporação. Todos que estavam ali dentro.
O ar se encheu de fumaça e gritos, e as escaramuças continuaram.
Compreendeu que seria inútil procurar sua mãe, e ao dar-se conta de que todo seu mundo estava vindo abaixo, correu para o único refúgio que conhecia.
Escondido em sua guarida, dormiu em posição fetal e despertou com uma vaga sensação de determinação, embotada em parte pela raiva e dor.
C'tair encontrou as provisões guardadas nas câmaras de armazenamento de entropia nula e fez um inventário. Verificou o estado das armas antiquadas que estavam num pequeno armário. Ao contrário das câmaras de algas, maiores, este lugar secreto não possuía uma ornave. Esperava em que o cubículo não estivesse incluído em nenhum mapa, secreto ou não. Do contrário, os Tleilaxu e seus seguidores subóides o localizariam.
C'tair, atordoado e apático, escondia-se e deixava passar o tempo, inseguro de quando poderia escapar, ou ao menos enviar uma mensagem.
Não acreditava que nenhuma ação militar externa chegasse a tempo de salvar IX. Isso já deveria ter acontecido. Seu pai tinha partido a tempo.
Alguns rumores afirmavam que a Casa Vernius tinha fugido, e se declarado renegada. O Grand Palais estava abandonado e saqueado, e logo se transformaria no quartel geral dos novos senhores de IX.
Kailea teria conseguido partir com sua família, fugindo da destruição? C'tair assim esperava, para seu bem, caso contrário, teria sido um dos alvos preferidos dos enfurecidos revolucionários. Era uma jovem muito bela, educada para bailes e jantares, luxos e intrigas palacianas, não para lutar pela sobrevivência com unhas e dentes.
Punha-o doente pensar em sua amada cidade, saqueada e arrasada.
Lembrou dos passadiços de cristal, os edifícios em forma de estalactite, os magníficos lucros conseguidos na construção de Cruzeiros, naves que podiam desaparecer como por arte de magia graças aos poderes dos Navegantes da Corporação. Freqüentemente ele e D'murr tinham explorado os túneis largos, as grutas enormes, observando a prosperidade que desfrutavam todos os habitantes de IX. Agora, os subóides tinham destruir tudo. E por quê? Duvidava que eles mesmos compreendessem.
Talvez C'tair descobrisse uma passagem que conduzisse à superfície, entraria em contato com uma nave de transporte, utilizaria créditos roubados para comprar uma passagem de IX e partiria para Kaitain, onde localizaria seu pai. Era ainda o embaixador Pilru, de um governo no exílio?
Provavelmente não.
Não, C'tair não podia partir e abandonar o planeta a sua sorte. IX era seu lar, e se negou a fugir. Jurou que sobreviveria de algum jeito. Faria o que fosse preciso. Assim que o pó se assentasse, vestiria roupas velhas e fingiria ser mais um dos ixianos derrotados, subjugado pelos novos senhores do planeta. Entretanto, duvidava de estar a salvo.
Não, se tentasse continuar a luta...
Durante as semanas seguintes, C'tair conseguiu sair de seu esconderijo durante as noites subterrâneas programadas, graças a um rastreador de vida ixiano que lhe
permitia se esquivar dos guardas Tleilaxu e demais inimigos. Desolado, viu a magnífica Vernii ruir ante seus olhos. O Grand Palais estava ocupado agora por anões repugnantes, traiçoeiros usurpadores, de pele cinza que tomaram todo um planeta ante os olhos indiferentes do Império. Seus representantes furtivos tinham invadido a cidade subterrânea. Patrulhas de invasores semelhantes a furões revistavam os edifícios em forma de estalactites em busca de nobres ocultos. Os pelotões de Dançarinos Faciais demonstravam uma eficácia muito superior a das classes inferiores.
Abaixo, os subóides vagueavam pelas ruas, sem saber o que fazer.
Logo se aborreceram e voltaram com semblante ásperos para seus antigos trabalhos. Corno os Dançarinos Faciais já não lhes diziam o que deviam desejar ou exigir, os subóides não organizavam assembléias e não tomavam decisões. Suas vidas retornaram à antiga rotina, sob a direção de senhores diferentes, com cotas de produção mais rígidas. C'tair observou que os novos capatazes Tleilaxu tinham que obter enormes lucros para compensar os custos materiais da conquista.
C'tair vagava pelas ruas da cidade subterrânea sem que ninguém se importasse com ele, entre o povo derrotado, supervisores e famílias de trabalhadores de classe média que tinham sobrevivido às purgações e não tinham para onde ir. Vestido em farrapos, percorria passarelas deterioradas, entrava nos níveis superiores da cidade e tomava elevadores que desciam até os escombros dos centros de fabricação. Não podia esconder-se eternamente, mas tampouco podia permitir que o vissem.
C'tair se negava a aceitar que a batalha estivesse perdida. Os Bene Tleilax tinham poucos amigos no Landsraad, e não poderiam resistir ao embate de uma resistência coordenada. Não obstante, parecia que não existia algo semelhante em IX.
Um dia, camuflado entre um pequeno grupo de transeuntes acovardados em uma passarela lateral, viu desfilar uma coluna de soldados loiros, de feições cinzeladas. Vestiam uniformes cinzas com adornos chapeados e dourados. Não eram ixianos ou subóides, nem tampouco Tleilaxu. Altos e musculosos, os altivos soldados carregavam atordoantes, coletes anti-motim negro, e mantinham a ordem. Uma nova ordem.
Reconheceu-os, horrorizado.

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