Na ala das concubinas do palácio imperial, máquinas de massagem batiam e amassavam a pele, e aplicavam óleos perfumados em todo o glorioso contorno das mulheres do imperador. Sofisticados engenhos de manutenção física extraíam a celulite, melhoravam o tônus muscular, alisavam abdomens e papadas, e suavizavam a pele com diminutas injeções. Todos os detalhes deviam adaptar-se às preferências de Elrood, embora não parecesse mais muito interessado. Até a mais velha das quatro mulheres, a setuagenária Grera Cary, conservava a aparência de uma mulher com a metade de sua idade, graças em parte a freqüentes libações de especiaria.
A luz da aurora se tingia de âmbar ao filtrar-se pelas grossas janelas de plaz blindado. Quando a massagem de Grera terminou, a máquina a envolveu em uma toalha de khartan morna e cobriu seu rosto com um pano refrescante, empapado em eucalipto e zimbro. A cama da concubina se transformou em uma poltrona sensiforme, que se amoldou perfeitamente a seu corpo.
Um equipamento de manicure desceu do teto, e Grera sussurrou suas meditações diárias enquanto cortavam, poliam e pintavam de verde intenso as unhas dos pés. A máquina voltou para seu compartimento do teto, a mulher se levantou e deixou cair a toalha. Um campo elétrico passou sobre seu rosto, braços e pernas, e eliminou os pêlos quase invisíveis.
Perfeita. Até mesmo para o imperador.
Do contingente atual de concubinas, só Grera era bastante velha para se lembrar de Shando, um brinquedo que tinha abandonado o serviço imperial para casar-se com um herói de guerra e levar uma vida normal.
Elrood não tinha dado muita atenção a Shando quando estava entre suas numerosas mulheres, mas depois que ela partiu tinha esquecido as demais e lamentado sua perda. Durante os anos posteriores, muitas de suas concubinas favoritas eram parecidas com Shando.
Enquanto observava as outras concubinas submeterem-se a procedimentos similares de cuidados corporais, Grera Cary pensou que as coisas tinham mudado muito para o harém do imperador. Menos de um ano antes, estas mulheres se reuniam em poucas ocasiões, pois Elrood estava quase sempre com alguma delas, cumprindo o que ele chamava de seus deveres imperiais. Uma das concubinas, natural de Eleccan, tinha batizado o velho fauno com um apelido que perdurou. Fornicário, uma referência a suas proezas e apetites sexuais. As mulheres só o usavam entre si, em tom de brincadeira.
— Alguma de vocês viu o Fornicário? — perguntou a mais alta das duas concubinas de menor idade, do outro extremo da sala.
Grera trocou um sorriso com ela, e as mulheres riram como colegiais.
— Temo que nosso carvalho imperial se transformou em salgueiro chorão.
O ancião quase não ia a ala das concubinas. Embora passasse tanto tempo na cama como antes, era por um motivo muito diferente. Sua saúde se deteriorara com grande rapidez, e sua libido já tinha morrido. Só faltava sua mente.
De repente, as mulheres emudeceram, e se viraram alarmadas para a entrada principal da ala das concubinas. O príncipe herdeiro Shaddam entrou sem se anunciar, seguido de seu onipresente acompanhante Hasimir Fenring, a quem chamavam o Furão por sua cara estreita e queixo fino. As mulheres cobriram sua nudez rapidamente e ficaram imóveis em sinal de respeito. — Qual é a piada, hummmm? — perguntou Fenring —. Ouvi risadas.
— As garotas estavam brincando — disse Grera. Como era a mais velha, estava acostumada a falar em nome de todas.
Havia rumores que aquele homem de pouca estatura matara a punhaladas duas de suas amantes, e Grera acreditava, devido a seu porte escorregadio. Graças a seus muitos anos de experiência, aprendera a reconhecer um homem capaz de crueldades sem conta. Dizia-se que a genitálias de Fenring era estéril e disformes embora sexualmente funcionais. Nunca tinha se deitado com ele, nem o desejava.
Fenring a estudou com seus olhos grandes e desalmados e depois se aproximou das duas loiras novas. O príncipe herdeiro ficou perto da porta que dava para o solarium. Shaddam, magro e ruivo, usava um uniforme cinza Sardaukar debruado de prata e ouro. Grera sabia que o herdeiro imperial gostava de brincar de soldado.
— Peço-lhe que me conte a piada — insistiu Fenring. Falou com a loira menor, uma adolescente um pouco mais baixa que ele. Seus olhos recordavam os de Shando —. O príncipe Shaddam e eu temos muito senso de humor.
— Era uma conversa privada — respondeu Grera ao mesmo tempo em que avançava com um gesto protetor —. Coisas pessoais.
— Ela não sabe falar? — respondeu Fenring, e cravou os olhos em Grera. Usava um manto negro debruado em ouro e muitos anéis nas mãos
—. Se for escolhida para entreter o imperador Padishah, tenho certeza que saberá contar uma piada, hummmm?
— Grera já disse — insistiu a loira —. Coisas de garotas. Não vale a pena repetir.
Fenring agarrou um extremo da toalha que envolvia seu corpo curvilíneo. Surpresa e temor surgiram no rosto da moça. Fenring puxou a toalha e deixou um dos seus seios descoberto.
— Chega de tolices, Fenring — disse Grera, irritada —. Somos concubinas reais. Só o imperador pode nos tocar.
— Que sorte ele têm.
Fenring olhou para Shaddam. O príncipe herdeiro assentiu.
— O que ela diz é verdade, Hasimir. Se quiser, cederei uma de minhas concubinas.
— Mas não lhe fiz mal, meu amigo. Só estava ajustando sua toalha. — Soltou-a, e a moça voltou a cobrir-se —. E o imperador tem... hummmm, utilizado seus serviços com freqüência nos últimos tempos? Ouvimos dizer que uma de suas partes já morreu.
Fenring olhou para Grera Cary, mais alta que o Furão.
Grera olhou para o príncipe herdeiro em busca de apoio e proteção, mas não os encontrou. Os olhos frios do homem se desviaram dela. Por um momento, a mulher se perguntou como o herdeiro imperial seria na cama, se possuiria os dotes sexuais de seu pai. Duvidava disso. A julgar por seu aspecto frígido, até mesmo o velho prostrado em seu leito de morte seria melhor amante.
— Anciã, você virá comigo, e continuaremos falando de piadas —
ordenou Fenring —. Pode até ser que troquemos algumas. Posso ser um homem muito divertido. — Agora, senhor? — Apontou para a toalha khartan.
Os olhos chamejantes de Fenring se entreabriram ominosamente.
— Uma pessoa na minha posição não tem tempo para esperar que uma mulher se vista. É claro que agora! — Agarrou uma ponta da toalha e a puxou. Grera o seguiu, esforçando-se por manter a toalha ao redor do seu corpo —. Por aqui. Venha, venha.
Enquanto Shaddam os seguia, divertido, Fenring puxou-a para a porta.
— O imperador se saberá disto! — protestou a mulher.
— Fale mais alto, porque a cada dia ele está mais surdo. — Fenring lhe dedicou um sorriso diabólico —. Que vai dizer? Há dias em que nem sequer se lembra do seu nome. Não vai se incomodar com uma harpia como você.
Seu tom provocou um calafrio na espinha dorsal de Grera. As outras concubinas viram, confusas e indefesas, que sua grande representante era tirada sem cerimônias para o corredor.
Àquelas horas da manhã não se viam membros da corte, só guardas Sardaukar em posição de sentido. E com o príncipe coroado Shaddam presente, os guardas não viam nada. Grera olhou para eles, mas no caso poderia ser invisível.
Como parecia que sua voz nervosa irritava Fenring, Grera decidiu que o mais prudente seria guardar silêncio. O Furão se comportava de uma maneira estranha, mas como concubina imperial não devia temer nada dele.
O furtivo homem não ousaria cometer a estupidez de lhe fazer mal.
Olhou para trás e descobriu que Shaddam tinha desaparecido por algum passadiço. assim, estava sozinha com aquele homem malvado.
Fenring atravessou uma barreira de segurança e empurrou Grera para o interior de uma habitação. Caiu sobre um chão de mármolplaz branco e negro. Tratavase de uma estadia ampla, com uma chaminé de pedra e cimento que dominava uma das paredes, destinada em outro tempo como quarto de convidados, mas agora desprovida de móveis. Cheirava a pintura fresca e a abandono.
A porta se fechou. Shaddam ainda não tinha aparecido. O que aquele
homenzinho queria?
Fenring extraiu de seu manto um ovalóide com jóias verdes incrustadas. Depois de apertar um botão no lado, apareceu uma longa folha verde, que cintilou à luz da estadia.
— Não a trouxe aqui para interrogá-la, harpia — disse suavemente.
Ergueu a arma —. De fato, vou provar isto. Nunca gostei de algumas prostitutas do imperador.
O assassinato não era novidade para Fenring, e matava com as mãos com tanta freqüência como tramava acidentes ou pagava assassinos de aluguel. Algumas vezes gostava de derramar sangue, em outras preferia sutilezas e blefes. Quando era mais jovem, logo que completou dezenove anos, saiu do palácio imperial de noite e matou aleatoriamente a dois funcionários só para provar a si mesmo que era capaz. Ainda tentava manter-se em forma.
Fenring sempre soubera que possuía a vontade de ferro necessária para assassinar, mas se surpreendia com o prazer que sentia. Matar Fafnir, o príncipe herdeiro anterior, fora seu maior triunfo, até agora. Assim que o velho Elrood morresse por fim, teria outro motivo de orgulho. Não posso aspirar nada mais alto.
Mas precisava estar atualizado sobre as novas técnicas e inventos.
Quem sabia quando poderiam lhe ser úteis. Além disso, aquela neuronavalha era tão intrigante... Grera arregalou os olhos para a brilhante folha verde.
— O imperador me ama! Não pode...
— Ele a ama? Com uma concubina de três no quarto? Passa mais tempo chorando por culpa de sua amada Shando. Elrood está tão senil que nem sequer perceberá seu desaparecimento, e as outras concubinas se alegrarão por serem promovidas.
Antes que Grera pudesse escapar, Fenring saltou sobre ela e a prendeu.
— Ninguém vai chorar sua perda, Grera Cary.
Ergueu a folha verde e, com um brilho malévolo nos olhos, apunhalou-a repetidas vezes no torso recém hidratado e massageado. A toalha de khartan caiu ao chão.
A concubina gritou de dor, voltou a gritar, sofreu espasmos e estremecimentos e por fim emudeceu. Nem feridas nem sangue, só uma agonia imaginária. Toda a dor, mas nenhuma marca incriminatória. Podia existir uma melhor forma de matar?
Enquanto o prazer ofuscava seu cérebro, Fenring se ajoelhou junto à concubina, examinou seu corpo bem formado, caído sobre a toalha. Bom tom de pele, músculos firmes, distendidos por causa da morte. Custava acreditar que aquela mulher fosse tão velha como afirmava. Seria necessário um montão de melange e muito exercício. Procurou o pulso de Grera, mas não o encontrou. Decepcionante, em certo sentido.
Não havia sangue em seu corpo nem na folha verde, nem feridas profundas, mas a matara a punhaladas. Ao menos assim ela tinha pensado.
Uma arma interessante, o neuropunhal. Era a primeira vez que o utilizava. Fenring gostava de provar as ferramentas de sua profissão, porque não queria que uma crise o surpreendesse.
Chamado Ponta por seu inventor richesiano, era uma das poucas inovações recentes daquele aborrecido planeta que Fenring considerava positivas. A folha verde imaginária deslizou em sua bainha com um estalo muito realista. A vítima não só tinha pensado que a estavam apunhalando, mas também sentira por meio de uma intensa estimulação dos neurônios!
experimentara uma agressão bastante violenta para matá-la. Em certo sentido, tinha sido a mente de Grera que a matara. E agora não havia sinais em sua pele.
Nessas ocasiões, o sangue verdadeiro acrescentava um toque estimulante a uma experiência já por si emocionante, mas limpá-lo era bastante incomodo.
Reconheceu ruídos familiares atrás de si: uma porta que se abria e um campo de segurança desativado. virou-se e viu Shaddam, que o observava.
— Isso era necessário, Hasimir? Que desperdício... De qualquer modos, tinha sido útil por mais tempo que o normal.
— Creio que a pobrezinha sofreu um enfarte. — Fenring extraiu de uma dobra de seu manto outra Ponta, esta adornada com rubis e de folha vermelha —. Deveria testar esta também — disse —. Seu pai está agüentando mais do que imaginávamos, e isto acabaria com ele num abrir e fechar de olhos. Não encontrariam nenhuma marca no seu corpo. Por que esperar que o n´kee faça seu trabalho?
Sorriu.
Shaddam meneou a cabeça, como se algo tivesse lhe ocorrido. Olhou ao redor, estremeceu e tentou aparentar severidade.
— Esperaremos o que for necessário. Concordamos em não dar passos bruscos.
Fenring odiava o príncipe quando tentava pensar muito. — Hummmm? Pensei que estava ansioso! Tomou decisões comerciais terríveis, esbanja o dinheiro dos Corrino sem pensar. — Seus grandes olhos cintilaram —. Quanto mais se conservar neste estado, mais a história o lembrará como um governante patético.
— Não posso lhe infligir mais danos — disse Shaddam —. Temo as conseqüências.
Hasimir Fenring fez uma reverência.
— Como quiser, meu príncipe.
Saíram da habitação, deixando o cadáver da Grera à mercê de quem o encontrasse. Não era a primeira vez que Fenring se comportava com tanto descaramento, mas as outras concubinas não ousariam desafiá-lo. Seria uma advertência para elas, e brigariam entre si para tomar o lugar da favorita do velho impotente, aproveitando a situação.
Quando o imperador descobrisse, nem mesmo se lembraria do nome de Grera Cary. O homem não é mais que um calhau arrojado num lago. E como não é mais que um calhau, suas obras não podem ser superiores a ele. Aforismo Zensunni
Leto e Rhombur treinavam por muitas horas a cada dia, no estilo Atreides. Entregavam-se à rotina com todo seu entusiasmo e determinação.
O corpulento príncipe ixiano recuperou seu vigor, perdeu um pouco de peso e endureceu seus músculos.
Os dois jovens se entendiam muito bem e formavam uma boa dupla de treinamento. Como confiavam um no outro, Leto e Rhombur não se preocupavam com limites, certos de que nada ruim aconteceria.
Embora treinassem com vigor, o velho duque confiava em transformar o príncipe exilado em algo mais que um guerreiro competente.
Também queria que o filho de seu amigo fosse feliz e se sentisse em casa.
Paulus podia apenas imaginar os horrores que os pais renegados de Rhombur sofreriam nos limites da galáxia.
Thufir Hawat permitia que os dois jovens lutassem com imprudência e abandono, para que polissem suas habilidades. Leto não demorou para notar melhora, tanto nele como no herdeiro dos restos da Casa Vernius.
Seguindo os conselhos do Professor de Assassinos a respeito das armas da cultura e diplomacia, tanto como da esgrima, Rhombur se interessou pela música. Testou vários instrumentos antes de decidir-se pelos tons tranqüilizadores mas complicados do baliset de nove cordas.
Apoiado contra um muro do castelo, interpretava canções singelas, melodias que tocava de ouvido, lembranças de sua infância, ou agradáveis toadas que ele mesmo compunha.
Freqüentemente, sua irmã Kailea o escutava tocar enquanto estudava suas lições de história e religião, dedicação tradicional das jovens nobres.
Helena Atreides a ajudava em seus estudos à pedido do duque Paulus.
Kailea estudava com perseverança, resignada com sua situação de prisioneira política no castelo de Caladan, mas também tentava imaginar um futuro melhor.
Leto sabia que o ressentimento de sua mãe sobrevivia sob as águas serenas de sua aparência. Helena era uma professora severa com Kailea, mas a jovem respondia com determinação.
Uma noite, Leto subiu para a habitação da torre depois que seus pais se retiraram. Queria pedir ao seu pai que o deixasse pilotar um veleiro para percorrer a costa. Entretanto, quando se aproximou da porta dos aposentos ducais, ouviu o duque e Helena discutindo violentamente.
— Você tentou encontrar um novo lar para esse par? — Pelo tom de sua mãe, Leto adivinhou a quem se referia —. Não tenho dúvida de que uma Casa Menor os acolheria se pagasse um generoso suborno.
— Não tenho intenção de enviar esses meninos para lugar nenhum, e você já sabe. São nossos convidados e aqui se encontram a salvo dos odiosos Tleilaxu. —
Sua voz se transformou em um grunhido —. Não entendo por que Elrood não envia seus Sardaukar para expulsar esses insetos das cavernas de IX.
— Apesar de suas qualidades desagradáveis — disse Helena com a voz crispada —, os Tleilaxu devolverão as fábricas de lx ao caminho correto, e obedecerão as normas impostas pela Jihad Butleriana.
Paulus bufou de exasperação, mas Leto sabia que sua mãe falava muito sério, e isso o aterrou ainda mais. Sua voz adquiriu um tom mais fervoroso quando tentou convencer seu marido.
— Não consegue entender que tudo estava escrito? Nunca deveria ter enviado Leto a IX. Ele foi corrompido por seus costumes, suas idéias, sua completa ignorância das leis de Deus. Ainda bem que a conquista de IX o trouxe de volta. Não cometa o mesmo erro.
— Erro? Estou encantado com tudo que nosso filho aprendeu.
Algum dia será um duque estupendo. Pare de se preocupar. Não sente pena pelos pobres Rhombur e Kailea?
— Por culpa de seu orgulho, o povo de IX violou a lei, e o pagou caro. Deveria sentir pena deles? Não acredito.
Paulus deu um murro em um móvel e Leto ouviu o grito de uma cadeira empurrada para um lado.
— Devo acreditar que conhece tão bem o funcionamento interno de IX para emitir tais julgamentos? Ou chegou a essa conclusão apoiando-se no que quer escutar, sem se preocupar com a absoluta falta de provas? — O
duque riu, e seu tom se suavizou —. Além disso, parece que está trabalhando bastante bem com a jovem Kailea. Gosta da sua companhia.
Como pode dizer essas coisas da moça, e depois fingir amabilidade com ela?
Helena respondeu em tom razoável:
— Os meninos não podem evitar ser o que são, Paulus. Não pediram para nascer ali nem crescer ali, expostos a ensinos perversos. Acha que leram a Bíblia Católica Laranja alguma vez? Não é culpa dela. São o que são, e não posso odiálos por isso.
— Então o que...
Ela respondeu com tanta veemência, que Leto deu um passo atrás, surpreso.
— Foi você que tomou uma decisão, Paulus. A decisão errada e isso vai custar muito caro, para você e para sua Casa também.
— Não havia outra alternativa, Helena. Por minha honra e por minha palavra, não havia outra alternativa.
— Mas foi você quem tomou a decisão, apesar das minhas advertências e conselhos. Só você. — Sua voz transmitia uma frieza aterradora —. Tem que viver com as conseqüências, e as enfrentar.
— Oh, acalme-se e vá dormir, Helena.
Leto, perturbado, partiu em silêncio, sem esperar que apagassem as luzes.
No dia seguinte, uma manhã calma e ensolarada, Leto e Rhombur apareceram em uma janela e admiraram os moles construídos na base do promontório. O oceano se estendia como uma pradaria verde-azulada que se curvava no horizonte longínquo.
— Um dia perfeito — disse Leto, ao compreender como seu amigo sentia saudades da cidade subterrânea de Vernii, e que talvez estivesse cansado de tanta intempérie —. Acho que chegou o momento de te mostrar Caladan.
Os dois desceram a estreita escada do escarpado e evitaram o musgo escorregadio e as incrustações brancas de espuma salgada.
O duque tinha várias embarcações amarradas no mole, e Leto escolheu seu favorita, uma lancha a motor branca de uns quinze metros de comprimento. Seu casco, largo e reluzente, tinha uma espaçosa cabine na proa e aposentos para dormir abaixo, aos quais se acessava através de uma escada em espiral. Na popa da cabine havia duas cobertas, no meio do navio e na popa, com áreas de carga abaixo. Era uma embarcação excelente para pescar ou navegar. Módulos auxiliares guardados em terra podiam ser instalados para mudar as funções da embarcação: aumentar o espaço da cabine ou transformar as áreas de carga em camarotes adicionais.
Os criados prepararam a comida, enquanto três marinheiros checaram todos os sistemas de bordo, em preparação para a travessia.
Rhombur percebeu que Leto tratava aquela gente como amigos.
— A perna da sua mulher está melhor, Jerrik Terminoy o telhado da sua casa,
Dom?
Enquanto Rhombur contemplava os preparativos com curiosidade e emoção, Leto lhe afagou o ombro.
— Lembra da sua coleção de rochas? Você e eu vamos mergulhar para colher gemas coralinas.
Aquelas pedras preciosas, que se eram encontradas nos recifes de coral, eram muito populares em Caladan, mas de manejo perigoso. Dizia-se que as gemas coralinas continham seres vivos microscópicos, que faziam dançar e brilhar seus fogos internos. Devido ao perigo e ao seu valor, as gemas não eram muito cobiçadas para a exportação, tendo em conta a alternativa mais rentável das pedras soo do Buzzell mas, mesmo assim eram encantadoras.
Leto queria dar uma de presente para Kailea. Devido a riqueza da Casa Atreides, podia se permitir o luxo de comprar para a irmã de Rhombur tesouros de muito maior valor se assim desejasse, mas o presente seria mais significativo se ele o conseguisse por seus próprios meios. De qualquer modo, ela agradeceria.
Quando os preparativos terminaram, Rhombur e ele subiram na embarcação de vime. Enquanto os marinheiros soltavam amarras, um deles perguntou:
— Consegue pilotá-la sozinho, meu senhor?
Leto riu.
— Jerrik, sabe que faz anos que piloto estes barcos. O mar está calmo e levamos a bordo um comunicador. De qualquer modo, obrigado.
Não se preocupe, não iremos muito longe, só até os recifes.
Rhombur tentou ajudar, seguindo as indicações de Leto. Nunca tinha subido em um navio exposto ao ar livre. Os motores os conduziram para longe dos escarpados, até sair a mar aberto. A luz do sol cintilava sobre a superfície frisada da água.
O príncipe de IX se acotovelou na proa, enquanto Leto manipulava os controles. Rhombur, sorridente, saboreava a experiência da água, vento e sol. Aspirou uma profunda baforada de ar.
— Sinto-me tão só e livre aqui.
Rhombur viu massas flutuantes de algas marinhas e frutas redondas parecidas
com cabaças.
— Melões paradan — explicou Leto —. Se quiser um, pegue-o. Não desperdice a oportunidade, embora para mim sejam muito salgados.
Ao longe, a estibordo, um bando de golfinhos nadava com seus troncos peludos. Tratava-se de peixes grandes mas inofensivos, que derivavam com as correntes oceânicas e cantavam para si, como se chorassem.
Leto pilotou a lancha durante uma hora, consultando mapas e planos por satélite, em direção a um grupo de recifes. Entregou binóculos para Rhombur e indicou uma mancha de espuma. Negras cristas rochosas isoladas se sobressaíam entre as ondas, como o lombo de um monstro adormecido.
— Esse é o recife — disse Leto —. Lançaremos âncora a meio quilômetro para não correr riscos. Depois mergulharemos. — Abriu um compartimento e tirou uma bolsa e uma pequena faca em forma de espátula para cada um —. As gemas coralinas não crescem a muita profundidade.
Mergulharemos sem garrafas de oxigênio. — Bateu nas costas de Rhombur
—. Já passou da hora de começar a pagar a hospedagem. — Já faço o bastante evitando que, er, você se meta em confusões —
replicou Rhombur.
Uma vez lançada a âncora, Leto indicou uma sonda que mapeava os contornos dos recifes.
— Olhe isto — disse, e se afastou para que seu amigo observasse a tela —. Está vendo essas rachaduras e pequenas covas? Ali encontraremos as gemas coralinas.
Rhombur assentiu.
— Cada uma está incrustada em uma casca, uma espécie de crosta orgânica que lhe cresce ao redor. Não parece muito atraente até ser aberta e mostre as pérolas mais belas de toda a criação, parecem lágrimas fundidas de estrela. Tem que conservá-las sempre em água, porque o ar as oxida imediatamente e se transformam em bombas incendiárias.
— Ah — disse Rhombur, sem saber o que aquilo significava, mas seu orgulho o impediu de perguntar. Prendeu o cinturão, com a faca e uma pequena lanterna.
— Vou lhe mostrar como fazer quando descermos — disse Leto —.
Quanto tempo você aguenta sem respirar?
— O mesmo que você — disse o príncipe de IX —, naturalmente.
Leto tirou a camisa e as calças, enquanto Rhombur se apressava a imitá-lo. Os dois jovens mergulharam ao mesmo tempo. Leto mergulhou na água morna, até sentir a pressão ao redor do crânio.
O recife formava uma intrincada paisagem submarina. Borlas de coral oscilavam a mercê das suaves correntes, e as diminutas bocas de suas folhas absorviam fragmentos de plâncton. Peixes multicoloridos entravam e saíam pelos buracos do coral.
Rhombur apontou para uma longa enguia purpúrea, que passava agitando uma cauda engalanada com as cores do arco íris. O ixiano tinha um aspecto cômico com as bochechas inchadas, tentando conter o ar.
Leto avançava paralelo à barreira coralina, esquadrinhando as rachaduras com sua lanterna. Quando seus pulmões começaram a doer, chegou por fim a uma protuberância descolorida e fez gestos a Rhombur, que se aproximou. Entretanto, enquanto tirava a faca para desprender a gema coralina, Rhombur agitou os braços e subiu na maior rapidez possível, a ponto de afogar-se.
Leto continuou sob a água, embora seu coração martelasse. Por fim, soltou o nódulo, que devia conter uma gema de tamanho médio e nadou para a superfície, com os pulmões a ponto de explodir. Encontrou Rhombur, ofegante, obstinado na beira da massa coralina.
— Encontrei uma — disse Leto —. Olhe.
Segurou sob a água e a golpeou com a faca até que esta se partiu. Em seu interior, um ovóide disforme projetava uma luz perlífera. Minúsculas manchinhas brilhantes circulavam como areia fundida no interior da massa transparente.
— Maravilhosa — disse Rhombur.
Leto saiu e subiu à coberta, baixou um balde até a água, encheu-o e deixou cair a gema dentro, antes de que secasse em suas mãos.
— Agora você precisa encontrar a sua.
O príncipe assentiu, com o cabelo loiro colado à cabeça por culpa das algas, respirou várias vezes e voltou a mergulhar. Leto o seguiu.
Ao fim de uma hora tinham recolhido meio balde de belas gemas.
— Boa pesca — disse Leto, agachado na coberta ao lado de Rhombur que, fascinado pelo tesouro, mergulhou as mãos no balde —.
Você gosta?
Rhombur grunhiu. Um prazer infantil brilhava em seus olhos.
— Estou com fome — disse Leto —. vou preparar as bolsas alimentícias. — Eu também estou esfomeado. Er, precisa de ajuda?
Leto se levantou e ergueu seu nariz aquilino com ar altivo.
— Senhor, sou o herdeiro do ducado, e um longo histórico a minhas costas testemunha minha capacidade para preparar uma bolsa alimentícia.
Encaminhou-se à cozinha, enquanto Rhombur classificava as gemas, parecendo um menino brincando com bolinhas de vidro.
Algumas eram esféricas, outras disformes e picadas. Rhombur se perguntou por que algumas possuíam brilho interior, enquanto outras pareciam apagadas em comparação. Deixou as três maiores sobre a coberta do meio e viu a luz do sol brilhar sobre elas, uma pálida sombra comparada com o brilho preso em seu interior. Observou suas diferenças e se perguntou o que fariam com aquele tesouro.
Sentia falta de sua coleção de gemas e cristais, ágatas e geodas de IX. Aventurou-se em covas, túneis e poços para encontrá-las. Dessa forma tinha aprendido muita geologia... mas os Tleilaxu tinham expulsado a ele e sua família do planeta. Viu-se obrigado a abandonar tudo. Rhombur decidiu que, se alguma vez voltasse a ver sua mãe, poderia lhe dar um maravilhoso presente.
Leto apareceu na porta da cozinha.
— A comida está pronta. Venha comer antes que esfrie.
Rhombur foi sentar se à pequena mesa, enquanto Leto servia duas terrinas fumegantes de sopa de ostras caladana, regada com vinho dos vinhedos da Casa Atreides.
— Minha avó inventou esta receita. É uma de minhas favoritas.
— Não está nada mal. Embora você a tenha feito. — Rhombur bebeu da terrina e lambeu os lábios —. Estou contente por, er, minha irmã não tet vindo — disse, tentando dissimular o tom zombeteiro —. Com certeza teria vindo com vestido de gala e não poderia nadar conosco.
— Certamente — respondeu Leto, pouco convencido —. Tem razão.
Era evidente para todos que Kailea e ele flertavam, embora Rhombur compreendesse que, devido aos aspectos políticos, um romance entre eles seria imprudente no melhor dos casos, e perigoso no pior.
O sol brilhava sobre a coberta, esquentava as pranchas de madeira, secava a água salpicada... e expunha as frágeis gemas coralinas ao ar oxidante. De súbito, e em uníssono, as três gemas maiores explodiram em labaredas incandescentes.
Leto ficou em pé de um salto, derrubando sua terrina de sopa.
Chamas alaranjadas e azuis se ergueram e atearam fogo à coberta, incluído o bote salva-vidas. Uma das gemas coralinas explodiu e lançou fragmentos incandescentes em todas direções.
Ao fim de alguns segundos, duas gemas mais furaram a coberta e caíram na área de carga, onde devoraram as caixas. Alguma delas fez explodir o depósito de combustível de reserva, enquanto a segunda perfurava o fundo para apagar-se na água. O casco de vime, embora tratado com um produto químico anticombustão, não suportaria esse calor.
Leto e Rhombur saíram da cozinha e gritaram sem saber o que fazer.
— Fogo! Temos que apagar o fogo!
— São as gemas coralinas! — Leto procurou algo que servisse para extinguir as chamas —. Depreendem muito calor e não se apagam com facilidade.
A embarcação oscilou quando algo explodiu na adega. O bote salva-vidas estava rodeado de chamas.
— Poderíamos afundar — disse Leto —, e estamos muito longe da costa.
Agarrou um extintor e espalhou o conteúdo sobre as chamas.
Tiraram mangueiras e bombas de água de um compartimento e molharam o
navio com água marinha, mas a área de carga já estava inundada. Uma fumaça negra e gordurosa surgia pelas rachaduras da coberta superior. Um assobio de alarme indicou que estava entrando muita água.
— Estamos afundando! — gritou Rhombur enquanto lia os instrumentos. Tossiu por causa da fumaça acre.
Leto lhe jogou um colete salva-vidas e prendeu outro ao redor da cintura.
— Está vendo o comunicador. Envia nossa posição e um SOS. Sabe como funciona?
Rhombur assentiu, enquanto Leto utilizava outro extintor químico, sem o menor êxito. Rhombur e ele ficariam presos ali. Tinham que chegar à terra.
Recordou os sermões do seu pai: Quando se encontrar em meio de uma crise, preocupe-se primeiro com o que possa solucionar. Depois, quando tiver esgotado todas as possibilidades, dedique-se aos aspectos mais difíceis.
Rhombur gritava pelo comunicador e repetia a chamada de socorro.
Leto ignorou o incêndio. O navio estava afundando e logo estaria submerso. Olhou para bombordo e viu água espumante ao redor do recife.
precipitou-se para a cabine.
Antes que o fogo chegasse aos motores de popa, colocou a embarcação em movimento, utilizou o cortador de emergência para partir a âncora e se lançou para o recife. A embarcação em chamas parecia com um cometa na água.
— O que está fazendo? — gritou Rhombur — Para onde vamos?
— Para o recife! Tentarei encalhar para não nos afundar. Depois apagaremos o fogo.
— Vai bater o barco contra o recife? Isso é uma loucura!
— Prefere afundar aqui?
Para sublinhar suas palavras, outro pequeno depósito de combustível explodiu, e toda a coberta estremeceu.
Rhombur se agarrou à mesa escorada da cozinha para conservar o equilíbrio.
— Como quiser.
— Recebeu resposta pelo comunicador? — Não. Espero, er, que tenham ouvido.
Leto disse que continuasse tentando, coisa que Rhombur fez, mas em vão.
As ondas se encrespavam ao seu redor, até o corrimão da ponte.
Fumaça negra se erguia para o céu. O fogo chegou ao compartimento de máquinas. A embarcação afundou um pouco mais. Leto forçou as máquinas, sempre em direção as rochas. Ignorava se ia ganhar a aposta.
Como se fossem impulsionadas por um demônio, ergueu-se espuma a frente deles, ameaçando formar uma barreira, mas Leto não mudou o rumo.
— Aguente!
No último momento, o fogo tomou os motores. O navio continuou avançando por inércia e se chocou contra o recife denteado. Leto e Rhombur caíram ao chão. Rhombur recebeu um golpe na cabeça e se levantou, aturdido. Sangrava de um corte na testa, muito perto da velha ferida recebida durante a fuga de IX.
— Vamos! Pela amurada! — Leto gritou.
Agarrou seu amigo e o tirou da cabine aos empurrões. Extraiu do compartimento dianteiro mangueiras e bombas de água portáteis, que atirou para as águas espumantes.
— Afunde a ponta desta mangueira na maior profundidade possível.
Tente não se cortar no recife.
Rhombur subiu para o corrimão, seguido por Leto, que tentou conservar o equilíbrio. O navio estava imobilizado, assim no momento afogar-se estava descartado. Só tinham que se preocupar com o desconforto.
As bombas entraram em ação, e os dois rapazes utilizaram suas mangueiras. Uma espessa cortina de água caiu sobre as chamas. Rhombur secou o sangue que o cegava e continuou trabalhando. Molharam a embarcação com incontáveis correntes, até que por fim as chamas começaram a retroceder.
Rhombur tinha um aspecto patético e maltrapilho, mas Leto experimentava um
estranho júbilo.
— Animo, Rhombur. Pense que em IX tivemos que escapar de uma revolução que quase destruiu o planeta. Em comparação, este pequeno contratempo parece uma brincadeira, não é? — Er, de acordo — disse Rhombur num tom lúgubre —. Fazia séculos que não me divertia tanto.
Os dois se sentaram mergulhados até a cintura em água, enquanto continuavam utilizando as mangueiras. A fumaça se erguia para o céu espaçoso de Caladan como um sinal de auxílio.
Não demoraram a ouvir o longínquo rugido de motores potentes, e momentos depois apareceu à vista uma embarcação de alta velocidade, provida de asas e quilha dupla, capaz de alcançar grandes velocidades sobre a água. Aproximouse, a um distância prudente das rochas. Na coberta de proa, Thufir Hawat meneava a cabeça em sinal de desaprovação, olhando para Leto. Entre as responsabilidades do governo está a necessidade de castigar... mas só quando a vitima assim exige. Príncipe Raphael Corrino, Discursos sobre liderança em um império galáctico, 12.º edição
A mulher, com o cabelo desgrenhado, as roupas rasgadas e inadequadas para o deserto, corria pela areia procurando um meio de escapar.
Janeas Milam olhou para o alto e piscou para conter as lágrimas que escorriam de seus olhos. Quando viu a sombra da plataforma suspensora onde o barão Harkonnen e seu sobrinho Rabban estavam, apertou o passo.
Seus pés afundaram na areia e perdeu o equilíbrio. Cambaleou para a extensão aberta, mais tórrida, mais seca, mais letal.
O martelo de areia enterrado a sotavento de uma duna próxima, vibrava, pulsava... chamava.
Tentou encontrar um refúgio de rochas, cavernas frescas, até mesmo a sombra de um penhasco. Ao menos queria morrer sem que a vissem, para que não pudessem rir dela. Mas os Harkonnen a tinham lançado em meio de muitas dunas.
Da plataforma suspensora, o barão e seu sobrinho observavam os esforços da
mulher, uma diminuta figura humana na areia. Os observadores estavam vestidos com trajes destiladores, com as máscaras baixadas.
Tinham retornado a Arrakis vindo de Giedi Prime umas semanas antes, e Janess tinha chegado na nave prisão do dia anterior. A princípio, o barão havia pensado em executar a traidora em Barony, mas Rabban queria que ela sofresse perante seus olhos, nas areias calcinadas, como castigo por ter ajudado Duncan Idaho a escapar.
— Parece insignificante ali embaixo, não é? — comentou o barão, sem interesse. Às vezes seu sobrinho tinha idéias esplêndidas, embora carecesse da concentração necessária para colocá-las em prática. — Isto é muito mais satisfatório que uma simples decapitação, e benéfico para os vermes. Comida para eles.
Rabban emitiu um som gutural.
— Isso não deve demorar. Estes martelos de areia sempre atraem algum verme.
O barão estava erguido em toda sua estatura sobre a plataforma, sentindo o calor do sol e o suor em sua pele. Seu corpo doía, uma sensação que experimentava fazia vários meses. Impulsionou a plataforma para frente, para poder ver melhor à vítima.
— Esse menino se transformou em um Atreides — murmurou —, pelo que me disseram. Trabalha com os touros salusanos do duque.
— Se voltar a vê-lo, é homem morto. — Rabban secou o suor de sua testa torrada pelo sol —. A ele e a qualquer Atreides que pegar.
— Você age como um boi, Rabban. — O barão apertou o ombro forte do seu sobrinho —. Mas não gaste energias com coisas insignificantes. Nosso verdadeiro inimigo é a Casa Atreides, não um simples menino de quadras. Uma menino de quadras... hummm...
Janess escorregou de bruços pela encosta de uma duna e ficou em pé de novo. O barão riu.
— Nunca conseguirá se afastar do batedor a tempo — comentou.
As vibrações ressonantes continuavam pulsando clandestinamente, como o longínquo tamborilar de uma canção de morte.
— Aqui faz muito calor — grunhiu Rabban —. Podia ter trazido um dossel.
Levou o tubo do traje destilador a boca e tomou um pouco de água.
— Eu gosto de suar. Faz bem para a saúde, limpa os venenos do sistema.
Rabban se remexeu, inquieto. Quando se cansou de contemplar os esforços inúteis da mulher, olhou para a distância em busca do monstro.
— O que aconteceu com o planetólogo que o imperador nos enviou?
Uma vez o levei para caçar vermes.
— Kynes? Quem sabe. — O barão bufou —. Está sempre no deserto, vem a Carthag para enviar relatórios quando lhe dá vontade, e depois desaparece outra vez. Faz tempo que não sei nada dele.
— E se sofrer algum mal? Não poderíamos nos colocar em confusões por perdêlo de vista?
— Duvido muito. A mente de Elrood já não é o que era. — O barão emitiu uma risada depreciativa —. Claro que a mente do imperador não era grande coisa nem em seu melhor momento.
A mulher de cabelo escuro, coberta agora por uma capa de pó, continuava correndo entre as dunas. Caiu e voltou a levantar-se, sem querer se render.
— Isto me aborrece — se queixou Rabban —. Ficar aqui olhando não é nada emocionante.
— Alguns castigos são fáceis — observou o barão —, mas fácil nem sempre é suficiente. Liquidar essa mulher não serve para apagar a mancha que deixou na honra da Casa Harkonnen... com a ajuda da Casa Atreides.
— Pois façamos algo mais — propôs Rabban com um sorriso de orelha a orelha —. Aos Atreides.
O barão sentia o calor em seu rosto descoberto e o silêncio ensurdecedor do deserto. Quando sorriu, a pele de suas bochechas pareceu que ia se rachar.
— Talvez o façamos.
— O que, tio?
— Talvez tenha chegado o momento de nos desfazer do velho duque. Basta de espinhos em nosso flanco.
Rabban gorjeou de impaciência.
Com uma calma estudada para enervar seu sobrinho, o barão focou seus binóculos e varreu a distância com diferentes aumentos. Confiava em localizar o verme, antes dos ornitópteros. Por fim, sentiu os tremores que se aproximavam. Seu pulso se sincronizou com o batedor: tump... tump... turnp.. .
Um montículo móvel se destacou no horizonte, uma crista de areia como se um peixe monstruoso nadasse abaixo da superfície. No ar imóvel e silencioso, o barão captou o som áspero e abrasivo da besta. Agarrou o cotovelo de Rabban e apontou.
A unidade de comunicação chiou no ouvido de Rabban, e uma voz filtrada falou em voz tão alta que o barão ouviu as palavras. Rabban deu um golpe no aparelho.
— Já sabemos! Nós o vimos.
O barão continuou suas meditações enquanto o verme se aproximava como uma locomotiva.
— Fiz contato com... certos indivíduos em Caladan, sabe? O velho duque é uma pessoa apegada a seus hábitos. E os hábitos podem ser perigosos. — Sorriu e entreabriu os olhos para protegê-los do brilho —. Já enviamos alguns agentes, e tenho um plano.
Janess virou-se e correu, tomada pelo pânico. Tinha visto o verme.
O montículo chegou ao batedor. Como se uma onda gigantesca engolisse um mole, o batedor desapareceu em uma imensa boca coberta de dentes de cristal.
— Mova a plataforma — ordenou o barão —. Siga-a!
Rabban manipulou os controles e se ergueu sobre o deserto para ter luma vista melhor.
O verme mudou de direção, para seguir as vibrações dos passos da mulher. A areia se ondulou de novo quando o gigante mergulhou abaixo dela e se lançou como um tubarão em busca de uma nova presa.
Janess se deixou cair no alto de uma duna, tremula. Procurou não fazer o menor ruído. A areia escorregou a seu redor. Conteve o fôlego.
O monstro parou. Janess rezou em silêncio, morta de terror.
Rabban conduziu a plataforma até situar-se acima da mulher, Janess olhou para os Harkonnen, com a mandíbula tensa, os olhos penetrantes como adagas, sentindo-se como um animal encurralado.
O barão Harkonnen agarrou uma garrafa de licor de especiaria, esvaziada durante a longa espera da execução. Ergueu a garrafa de cristal marrom como se fosse brindar, sorridente.
O verme esperava, alerta ao menor movimento.
O barão jogou a garrafa para a mulher. O cristal deu voltas no ar e se chocou com a areia a poucos metros dos pés de Janess.
O verme se precipitou para ela.
Janess correu colina abaixo, enquanto proferia maldições contra os Harkonnen, seguida por uma pequena avalanche de areia, mas a terra se abriu abaixo ela.
A boca do verme se abriu, uma caverna de dentes cintilantes sob a luz do sol, para engolir Janess e tudo que a rodeava. Uma nuvem de pó se levantou quando a gigantesca criatura se enterrou na areia, como uma baleia sob o mar.
Rabban tocou sua unidade de comunicação e perguntou se a nave de rastreamento tinha gravado holos de alta resolução.
— Nem sequer vi seu sangue, não a ouvi gritar. — Parecia decepcionado.
— Pode estrangular um dos meus criados, se isso o consolar —
ofereceu o barão —. Mas só porque estou de bom humor.
Contemplou as dunas pela plataforma, consciente do perigo e da morte escondidos abaixo delas. Desejou que seu velho rival, o duque Paulus Atreides, estivesse no lugar da mulher. Teria utilizado todas as holocâmaras disponíveis, para desfrutar de todos os ângulos e saborear a experiência uma e outra vez, como fazia o verme.
Tanto faz, pensou o barão. Tenho pensado em algo igualmente interessante para o velho. Diga a verdade. Sempre é mais fácil, e com freqüência é o argumento mais poderoso.

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