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domingo, 4 de junho de 2017

SD 961 : DUNE - A CASA ATREIDE

Arquivos Bene Gesserit, Wallach IX

Os dois sóis mortiços do sistema binário do Kuentsing brilhavam nos céus sombrios de Bela Tegeuse. O mais próximo, vermelho como sangue, tingia de púrpura o ciclo do entardecer, enquanto o primário, branco como o gelo, muito longínquo para proporcionar calor ou luz em excesso, pendia como um buraco iluminado no crepúsculo. Um planeta pouco atraente e com a superfície árida, não figurava nas principais rotas espaciais da Corporação e poucos Cruzeiros faziam escala ali.
Naquele lugar tétrico, a senhora fiscalizava suas hortas e se recordava que era seu lar provisório. Mesmo depois de passado quase um ano, ainda se sentia uma estranha.
Olhou para seus empregados. Usando um nome falso tinha utilizado parte de seus bens restantes para comprar uma pequena propriedade, com a esperança de viver ali até poder se reunir com os outros. Desde sua desesperada fuga não os tinha visto nem recebera notícias, e tampouco tinha baixado a guarda por um instante.
Elrood ainda estava vivo, e os caçadores continuavam à espreita.
Globos luminosos banhavam os campos de luz, alimentando as fileiras de plantas e frutas exóticas que seriam disputadas pelos funcionários ricos.
Mais à frente dos campos cultivados, a vegetação nativa de Bela Tegeuse era robusta e áspera, muito pouco promissora. A luz solar de Kuentsing não era suficiente para facilitar a fotossíntese das delicadas plantas da senhora.
Sentiu o frio que agredia seu rosto. Sua pele sensível, que em outros tempos tinha acariciado um imperador, estava agora rachada e esfolada devido à dureza dos elementos. Mas jurara que seria forte, se adaptaria e resistiria. Seria mais fácil se pudesse informar aos seus filhos que estava viva. Ansiava por vê-los, mas não se atrevia a entrar em contato, pelo perigo que existia para ela e para os que a tinham acompanhado na fuga.
Maquinaria de coleta estralava ao longo das filas de cultivos e colhia os frutos. Os globos luminosos estendiam sombras similares a seres furtivos que percorriam os campos. Alguns dos trabalhadores contratados cantavam enquanto colhiam produtos muito frágeis para a coleta mecânica.
Cestas vazias preparadas para o mercado esperavam no centro de recolhimento.
Só alguns de seus criados mais fiéis a seguiram nesta nova vida. Não queria deixar cabos soltos, ninguém que pudesse informar aos espiões imperiais, e tampouco queria pôr em perigo seus fiéis companheiros de exílio.
Só ousava falar com extrema cautela com seus poucos vizinhos. Só conversas furtivas, olhares fugazes e sorrisos. Em qualquer parte podia haver agentes ou visicoms.
A senhora, graças a uma série de documentos de identidade falsificados, transformou-se em uma mulher respeitável chamada Lizett, uma viúva cujo marido fictício (comerciante local e funcionário de baixa patente na CHOAM) tinha-lhe deixado recursos econômicos suficientes para administrar a propriedade.
Toda sua existência tinha mudado: acabaram-se as atividades frívolas na corte, a música, os banquetes, as recepções, seu cargo na Landsraad, até as tediosas reuniões do Conselho. Vivia o dia, sentindo saudades dos velhos tempos, sem outro remédio além de aceitar aquela nova vida da melhor maneira possível.
O pior era a possibilidade de não voltar a ver seus filhos.
Como um general que passa suas tropas em revista, a senhora passeou entre os
cultivos e examinou os frutos espinhosos de cor vermelha que pendiam das trepadeiras. Esforçou-se por memorizar os nomes dos produtos exóticos que cultivava. O importante era mostrar uma fachada convincente e poder manter conversas corriqueiras sem levantar suspeitas.
Sempre que saía de sua casa usava um belo colar de manufatura ixiana, um hologerador camuflado. Cobria seu rosto com um campo que deformava suas belas feições, suavizava as maçãs do seu rosto, alargava seu queixo delicado, alterava a cor de seus olhos. Sentia-se a salvo... até certo ponto.
Viu uma chuva de estrelas cadentes perto do horizonte. Na distância brilhavam as luzes das fazendas e de uma aldeia, mas isto era muito diferente. Foguetes? Transporte ou lançadeiras?
Bela Tegeuse não era um planeta populoso. Seus recursos eram escassos, assim como escuro e sangrento seu legado histórico. Muito tempo atrás tinha albergado colônias de escravos, povos valentes e rebeldes que proporcionavam escravos para outros planetas. Ela também se sentia prisioneira, mas ao menos estava viva e sabia que sua família estava a salvo.
“Aconteça o que acontecer, nunca baixe a guarda, meu amor — seu marido dissera antes que se separassem —. Nunca.”
Neste constante estado de alerta, a dama observou as luzes de alerta de três ornitópteros que se aproximavam do longínquo espaçoporto.
Tinham acionado seus faróis de busca, embora esta fosse a melhor luz do dia que Bela Tegeuse podia oferecer, no zênite do entardecer duplo.
Sentiu medo, mas continuou imóvel, envolta em uma capa azul.
Preferia as cores de sua Casa, mas não se atrevia a guardar esses objetos em seu roupeiro.
Uma voz chamou da casa.
— Madame Lizett! Alguém se aproxima, e se nega a responder nossas saudações!
Voltou-se e viu a figura de ombros estreitos de Omer, um de seus criados dos velhos tempos, um homem que a acompanhara porque não lhe ocorreu nada melhor a fazer. Não havia alternativa mais importante e satisfatória, Omer tinha lhe assegurado, e ela agradecia por sua devoção.
A senhora teve a idéia de fugir dos ornitópteros, mas a desprezou. Se os intrusos eram quem temia, não tinha nenhuma chance de escapar. E se não fossem, não devia temer nada.
Os ornitópteros chegaram com o barulho de motores. Aterrissaram sobre seus campos cultivados, derrubaram os globos luminosos e esmagaram a colheita.
Quando as portas dos três aparelhos se abriram e os soldados saíram, soube que estava condenada.
Como se estivesse em um sonho, pensou em um momento mais feliz, a chegada de outros soldados. Tinha acontecido durante sua juventude na corte imperial, quando a sensação embriagadora de ser uma cortesã real começava a desaparecer. O imperador tinha passado muito tempo com ela durante uma temporada, mas depois seu interesse se dissipou e preferiu outras concubinas, como era de esperar. Mas não havia se sentido repudiada, porque Elrood continuou lhe proporcionando sustento e proteção.
Entretanto um dia, depois que a rebelião de Ecaz foi esmagada, assistira um desfile vitorioso de soldados imperiais pelas ruas de Kaitain.
As bandeiras eram brilhantes, os uniformes perfeitos e imaculados, os homens galhardos. À cabeça da coluna, vislumbrou pela primeira vez seu futuro marido, um guerreiro orgulhoso com ombros largos e sorriso amplo.
Até à distância, sua presença a deslumbrara, e sentiu que sua paixão despertava de novo, e nesse momento o considerou o maior de todos os soldados que retornavam...
Os soldados acabavam de chegar a Bela Tegeuse eram muito diferentes, muito mais aterradores, com o uniforme cinza e negro dos Sardaukar. Um burseg se adiantou e mostrou a insígnia de sua patente. Com um gesto brusco indicou a seus homens que tomassem posições.
A senhora se aferrou à impostura, com apenas um fio de esperança, e se adiantou para recebê-lo com o queixo erguido.
— Sou madame Lizett, a proprietária deste imóvel. — Sua voz adotou um tom de dureza quando desviou a vista para as colheitas esmagadas —. Vocês ou seus superiores repararão todos os danos causados por sua estupidez?
— Cale a boca! — ladrou um soldado, ao mesmo tempo em que apontava seu
fuzil laser.
Idiota, pensou a dama. Poderia usar um escudo. Nesse caso, se o soldado tivesse disparado, aquela parte da Bela Tegeuse teria desaparecido por obra de uma explosão atômica. O comandante burseg ergueu a mão para deter o soldado, e a senhora compreendeu a farsa: um soldado fanfarrão e descontrolado para intimidá
la, e um oficial firme para fazê-la colaborar. O soldado bom e o soldado mau. — Estamos aqui cumprindo ordens imperiais — disse o burseg —.
Estamos investigando o paradeiro dos traidores sobreviventes de certa Casa renegada, apelamos ao direito de conquista e exigimos sua colaboração.
— Desconheço os aspectos legais — disse a senhora —, mas não sei nada de renegados. Só apenas uma viúva que tenta levar adiante uma modesta fazenda. Permita que meus advogados conversem com você. Fico satisfeita em colaborar no que puder, mas temo que se decepcionarão.
— Isso é mentira — grunhiu o soldado fanfarrão.
Os empregados tinham parado suas atividades, petrificados. O burseg avançou e se plantou a frente da mulher, que não se alterou. O
homem estudou seu rosto e franziu o sobrecenho. A senhora sabia que sua aparência camuflada não coincidia com a que o homem esperava encontrar.
Sustentou seu olhar sem pestanejar.
De repente o homem arrancou o colar ixiano, fazendo desaparecer seu disfarce. — Eu prefiro assim — disse o burseg —. Então não sabe nada de renegados, não é? — Soltou uma gargalhada desdenhosa.
Fulminou-o com o olhar. Mais soldados Sardaukar saíram dos três ornitópteros e tomaram posições ao redor. Alguns se dirigiram ao interior da casa, enquanto outros revistavam o celeiro, o silo solar e outros edifícios adjacentes. Será que suspeitavam que escondia todo um exército? Segundo seu estilo de vida habitual, parecia que logo mal poderia permitir-se roupa nova e comida quente.
Outro Sardaukar de rosto sombrio a agarrou pelo braço. Ela tentou escapar, mas
o homem lhe subiu a manga da capa e a roçou com uma pequena cureta. A senhora soltou uma exclamação, pensando que o soldado a envenenara, mas o Sardaukar se limitou a analisar a amostra de sangue que colhera.
— Identidade confirmada, senhor — anunciou para seu comandante —. Lady Shando Vernius de IX.
Os soldados retrocederam, mas Shando não se moveu. Sabia o que a esperava.
Durante mais de um ano, o velho imperador se comportara de uma maneira cada vez mais irracional. Sua mente e seu corpo se deterioravam.
Elrood sofria de mais delírios de grandeza que de costume e acumulava mais ódio do que um corpo podia conter, mas continuava a ser o imperador, e seus decretos eram cumpridos ao pé da letra.
Só o que temia era que a torturassem para lhe arrancar informação sobre o paradeiro de Dominic, o que desconhecia. Talvez se limitassem a terminar a tarefa.
Omer saiu por uma porta lateral da casa, gritando. Brandia uma tosca arma de caça que encontrara em um armário. Que idiota, pensou. Valente, dedicado e leal, mas totalmente idiota.
— Minha senhora! — gritou Omer —. Deixem-na em paz!
Alguns Sardaukar apontaram para os outros trabalhadores, mas a maioria não desviou seus fuzis dela. Olhou para o céu e pensou em seu amado esposo e seus filhos queridos, e esperou que não encontrassem um final similar. Mesmo nesse momento admitiu que, se pudesse escolher, faria tudo igual outra vez. Não lamentava a perda de prestígio e riquezas que abandonar a corte real lhe trouxera. Shando conhecera um amor que poucos membros da nobreza chegavam experimentavam.
Pobre Roody, pensou com uma pontada de pena. Você nunca compreendeu esse tipo de amor. Como de costume, Dominic estava certo.
Visualizou-o mentalmente tal como o conhecera pela primeira vez: um jovem e belo soldado que retornava vitorioso da batalha.
Shando ergueu uma mão para tocar a visão do rosto de Dominic pela última vez...
Então os Sardaukar abriram fogo. Devo governar com unhas e dentes, como um falcão entre aves menores. Duque Paulus Atreides, declaração Atreides
Duque Leto Atreides: Regente do planeta Caladan, membro do Landsraad, chefe de uma Grande Casa... Esses títulos não significavam nada para ele. Seu pai tinha morrido.
Leto se sentia pequeno. Derrotado e confuso, não estava preparado para a carga que tinham recaído sobre ele, de uma forma tão cruel, com apenas quinze anos. Sentado na poltrona desconfortável e muito grande, onde o afável velho duque concedia audiências, Leto se sentia deslocado, um impostor.
Não estou preparado para ser duque!
Tinha decretado sete dias de luto oficial, durante os quais pretendia entender os assuntos mais difíceis como chefe da Casa Atreides. Até receber as condolências das demais Grandes Casa era muito para ele, sobretudo a carta oficial do imperador Elrood IX, escrita sem dúvida por seu chambelán mas assinada pela mão tremula do ancião. “Um grande homem do povo tombou — dizia a nota do imperador —. Receba minhas mais sinceras condolências e preces por seu futuro.”
Por alguma razão, Leto interpretou aquelas linhas como uma ameaça.
Algo sinistro no torcido da assinatura, talvez, ou na eleição das palavras.
Leto tinha queimado a mensagem na chaminé de seus aposentos privados.
O mais importante para ele foi receber as demonstrações de dor do povo de Caladan: flores, cestas de pescado, bandeiras bordadas, poemas e canções escritas por aspirantes a bardos, desenhos e pinturas que mostravam o velho duque em toda sua glória, vitorioso na arena.
Em privado, quando ninguém podia ser testemunha de sua fraqueza, Leto chorava. Sabia como o povo amava o duque Paulus, e recordava a sensação de poder que o invadiu no dia que seu pai e ele ergueram a cabeça de um touro na arena. Naquele momento desejou ser duque, rodeado de amor e lealdade.
Agora desejava qualquer outro destino, menos esse.
Lady Helena se fechou em seus aposentos, ignorando todos os criados que tentavam atendê-la. Leto nunca tinha percebido muito amor ou afeto entre seus pais, e neste momento ignorava se a dor de sua mãe era sincera ou fingida. Só recebia seus sacerdotes pessoais e conselheiros espirituais. Helena se aferrava aos sutis significados que extraía dos versículos da Bíblia Católica Laranja.
Leto sabia que precisava sair daquela confusão. Tinha que tirar forças de fraqueza e entregar-se à tarefa de governar Caladan. O duque Paulus teria zombado da tristeza de Leto, e o teria repreendido por não assumir imediatamente as obrigações de sua nova vida. “Chora em privado, rapaz — haveria dito —, mas nunca exiba nenhum sinal de fraqueza por parte da Casa Atreides.” O jovem jurou esforçar-se ao máximo. Seria o primeiro dos muitos sacrifícios que seu novo cargo exigiria.
O príncipe Rhombur se aproximou de Leto, que continuava sentado no trono da sala de audiências vazia. Leto tinha a vista cravada na parede em frente, onde havia um retrato de seu pai vestido como matador.
Rhombur apertou o ombro de seu amigo.
— Você comeu, Leto? Precisa conservar as energias.
Leto respirou fundo e se virou para seu camarada de IX, cujo rosto largo refletia preocupação.
— Não. Quer tomar o café da manhã comigo?
Levantou-se com movimentos rígidos da poltrona incômoda. Tinha chegado o momento de enfrentar seus deveres.
Thufir Hawat os acompanhou durante um café da manhã que se estendeu durante horas, enquanto traçavam planos e estratégias para o novo regime. Quando se fez uma pausa na conversa, o Mentat inclinou a cabeça e cravou a vista nos olhos de Leto.
— Embora não o tenha expressado com palavras, meu duque, prometo-lhe minha inteira lealdade e renovo meu compromisso com a Casa Atreides. Farei tudo que estiver ao meu alcance para ajudá-lo e aconselhá
lo. — Sua expressão endureceu —. Mas têm que compreender que suas decisões serão suas e só suas. Meus conselhos podem ser contrários à opinião do príncipe Rhombur ou de sua mãe, ou de outros conselheiros.
Nesses casos, você decidirá. É o duque. É a Casa Atreides.
Leto estremeceu e sentiu a responsabilidade que recaía sobre seus ombros como um Cruzeiro da Corporação a ponto de cair.
— Tenho consciência disso, Thufir, e necessitarei de toda a ajuda possível.
Endireitou-se na cadeira e bebeu a calda de açúcar de uma terrina de pudim de arroz pundi quente, preparado por um chef que conhecia suas preferências desde que era menino. Já não parecia igual. Suas papilas gustativas pareciam adormecidas.
— Como vai a investigação sobre a morte de meu pai? Foi um acidente, tal como parece, ou foi preparada? O Mentat franziu o sobrecenho.
— Não me atrevo a afirmar nada, meu duque, mas temo que foi um assassinato. As provas apontam para um plano tortuoso.
— Como? — exclamou Rhombur. Seu rosto se enrijeceu —. Quem atentou contra o duque? Como?
Não sentia afeto apenas por Leto, mas também pelo patriarca Atreides que concedera asilo a ele e sua irmã. Um sentimento visceral sussurrou a Rhombur que talvez tivessem castigado Paulus por sua bondade para com os exilados de IX.
— Eu sou o duque, Rhombur — disse Leto —. Acalme-se. Eu me encarregarei disso.
Leto quase ouviu as engrenagens que zumbiam dentro da complexa mente do Mentat.
— As análises químicas dos tecidos musculares do touro mostraram leves rastros de duas drogas — disse Hawat.
— Pensei que examinavam as bestas antes de cada corrida.
Leto entreabriu os olhos e por um momento não conseguiu afastar lembranças de sua infância, quando ia aos estábulos para olhar os enormes animais, e o responsável, Yresk, tinha-lhe deixado dar de comer aos touros, para horror das meninos de quadras.
— Nosso veterinário é cúmplice do complô?
— Antes da tourada foram feitas as análise costumeiras. — Thufir apertou seus lábios manchados de vermelho e enquanto controlava seus pensamentos e meditava sua resposta —. Infelizmente, não se analisou o que era pertinente. O touro foi enfurecido durante dias com um poderoso estimulante que se acumulou em seu corpo, administrado lenta e incessantemente.
— Isso não devia ser suficiente — replicou Leto —. Meu pai era um bom matador. O melhor. O Mentat sacudiu a cabeça.
— Também administraram ao touro um agente neutralizador, um agente químico que rebateu a neurotoxina contida nas banderilhas do duque e, ao mesmo tempo, liberou o estimulante. O animal se transformou em uma máquina de matar ainda mais poderosa, justo quando o duque começava a sentir os efeitos do cansaço.
Leto foi às nuvens. Levantou-se da mesa e olhou para o onipresente detector de venenos. Passeou de um lado para outro e deixou que o pudim de arroz esfriasse. Depois deu meia volta e falou em tom crispado, recordando as técnicas de liderança que tinha aprendido. — Mentat, me faça uma projeção primária. Quem fez isto? Thufir entrou em modo Mentat. Um jorro de dados passou pelo computador em seu crânio, um cérebro humano que simulava as capacidades dos antigos e odiados inimigos da humanidade.
— A possibilidade mais provável: um ataque pessoal de um inimigo político da Casa Atreides. Tendo em conta o momento, suspeito que castigaram o velho duque por seu apoio à Casa Vernius.
— Exatamente o que eu suspeitava — murmurou Rhombur. O filho de Dominic Vernius parecia já um adulto, endurecido e curtido. Desde sua chegada a Caladan tinha amadurecido, fortalecido seus músculos. Seus olhos tinham adquirido um brilho desumano.
— Mas nenhuma Casa nos declarou inimizade — respondeu Leto
—. O antigo rito da vingança exige requisitos e formalidades, não é assim, Thufir?
— Não podemos confiar que lodos os inimigos do velho duque tenham respeitado essas formalidades — disse Hawat —. Temos que agir com muita cautela.
Rhombur avermelhou de ira e pensou em sua família, expulsa de IX.
— Há quem manipule as formalidades para satisfazer suas necessidades. — Possibilidade secundaria — respondeu o Mentat — O objetivo pôde ser o duque Paulus em pessoa, não a Casa Atreides, o resultado de uma pequena vingança ou ressentimento pessoal. O culpado pôde ser um peticionário local descontentes com uma decisão do duque. Mesmo este assassinato tendo conseqüências galáticas, pode ser que a causa tenha sido algo corriqueiro, embora pareça irônico.
Leto meneou a cabeça.
— Não posso acreditar nisso. O povo amava meu pai. Nenhum de seus súditos teria se rebelado contra ele.
Hawat não se alterou.
— Meu duque, não subestime o poder do amor e da lealdade, e não subestime o poder do ódio pessoal. — Er, qual é a possibilidade mais segura? — perguntou Rhombur.
Hawat olhou para seu duque.
— Um ataque para enfraquecer a Casa Atreides. A morte do patriarca o deixa, meu senhor, em uma posição vulnerável. Ainda é jovem e inexperiente.
Leto respirou fundo mas conteve sua ira.
— Seus inimigos considerarão a Casa Atreides instável, e talvez iniciarão uma manobra contra nós. Pode ser que seus aliados o considerem um problema, e o apóiem com... limitado entusiasmo. É um momento muito perigoso.
— Os Harkonnen? — perguntou Leto.
Hawat deu de ombros.
— É possível. Ou algum de seus aliados.
Leto apertou as têmporas e respirou fundo de novo viu que Rhombur o observava
inquieto.
— Continue suas investigações, Thufir — disse —. Como conhece as drogas injetadas no touro salusano, sugiro que concentre seus interrogatórios nos estábulos.
O menino de quadras Duncan Idaho se erguia frente a seu novo duque. Fez uma reverência orgulhosa, disposto a jurar lealdade de novo.
Tinha sido banhado, embora continuasse usando as roupas próprias de seu ofício e tivesse o cabelo desgrenhado.
Mal era capaz de conter sua raiva. Tinha certeza que a morte do duque Paulus poderia ser evitada se alguém o tivesse ouvido. Sua dor era imensa, e sentia a dúvida de que não se esforçara o bastante. Deveria ter insistido mais, ou falado com alguém mais além do responsável pelos estábulos? Perguntou-se se devia revelar seus esforços, mas se calou.
Leto Atreides, muito pequeno para o grande trono, entreabriu seus olhos cinzas e olhou para Duncan.
— Garoto, lembra-se quando veio a esta casa. — Seu rosto parecia mais magro e muito mais velho que quando o vira pela primeira vez —. Foi logo depois que escapei de IX com Rhombur e Kailea.
Os dois refugiados também estavam sentados no salão do trono, junto com Thufir Hawat e um contingente de guardas. Duncan desviou a vista para eles e depois voltou a atenção para o jovem duque.
— Contaram-me histórias sobre sua fuga dos Harkonnen, Duncan Idaho — continuou Leto —, e sobre as torturas e encarceramento que sofreu. Meu pai confiou em você quando lhe concedeu um emprego no castelo de Caladan. Sabe que não fazia isso com freqüência?
Duncan assentiu.
— Sim, meu senhor. — Sentiu que seu rosto avermelhava, devido à culpa que sentia por ter falhado com seu benfeitor —. Sim, eu sei.
— Mas alguém drogou os touros salusanos antes da última corrida de meu pai, e você foi um dos encarregados de cuidar dos animais. Por que não o vi no passeio quando todos os outros desfilaram ao redor da arena?
Lembro que o procurei com o olhar. — Sua voz tomou um tom muito mais
penetrante— . Duncan Idaho, você foi enviado aqui, todo inocência e indignação, como assassino camuflado a serviço dos Harkonnen?
Duncan retrocedeu, consternado.
— De maneira nenhuma, meu senhor! — exclamou —. Tentei avisar a todo mundo. Sabia que algo acontecia com os touros. Eu disse várias vezes ao mestre Yresk, o chefe dos estábulos, mas ele não fez nada. riu de mim. Discuti com ele. Por isso não estava no passeio. Pretendia avisar o velho duque, mas o chefe dos estábulos me prendeu em um deles durante a corrida. — As lágrimas foram a seus olhos —. Todos os belos objetos que seu pai me deu se sujaram. Nem sequer o vi cair na arena.
Leto, surpreso, ergueu-se no trono. Olhou para Hawat. — Vou averiguar, meu senhor — disse o Mentat.
Leto estudou o menino. Duncan Idaho não demonstrava temor, apenas profunda tristeza. Leto acreditou ler franqueza e devoção em seu rosto jovem. O refugiado de nove anos parecia muito satisfeito em trabalhar no castelo de Caladan, apesar de seu emprego humilde de menino de quadras.
Leto Atreides não tinha muitos anos de experiência na arte de julgar as pessoas e sopesar o coração dos homens, mas intuía que podia confiar naquele menino abnegado. Duncan era teimoso, inteligente e impetuoso, mas não um traidor.
Haja com cautela, duque Leto, disse a si mesmo. O Império utiliza muitas artimanhas, e esta poderia ser uma delas. Pensou no velho chefe de estábulos. Yresk servia a Caladan desde o matrimônio de conveniência dos pais de Leto... Era possível que semelhante plano tivesse permanecido em latente durante tantos anos? Supôs que sim. As implicações lhe produziram calafrios. Lady Helena, sem escolta, entrou na sala de audiências furtivamente.
Havia profundas olheiras sob seus olhos. sentou-se ao lado de Leto, no trono reservado para as ocasiões em que tomava assento junto a seu marido. A mulher, com as costas eretas e em silêncio, examinou o menino que se erguia a frente de ambos.
Momentos depois, o chefe dos estábulos Yresk foi introduzido no salão pelos guardas. Seu cabelo branco estava revolto, e seus olhos inchados pareciam dilatados e inseguros. Quando Thufir Hawat terminou de resumir a história que Duncan Idaho contara, o responsável pelos estábulos riu e seus ombros ossudos se
afundaram com alívio exagerado.
— Depois de todos os anos que o servi, vai acreditar neste rato de estábulo, neste Harkonnen? — Virou os olhos em sinal de aborrecimento
—. Por favor, meu senhor!
Exageradamente dramático, pensou Leto. Hawat também percebeu.
Yresk levou um dedo aos lábios, como se lhe acabasse de ocorrer uma possibilidade.
— Agora que mencionou, meu senhor, é muito possível que o menino tenha envenenado o touro. Não podia vigiá-lo o tempo todo.
— Isso é mentira! — gritou Duncan —. Queria avisar o duque, mas você me prendeu em um estábulo. Por que não fez nada? Eu avisei várias vezes, e agora o duque está morto.
Hawat escutava com olhos distantes, os lábios manchados de vermelho depois de ter tomado um gole de suco de safo. Leto percebeu que tinha entrado em modo Mentat para analisar todos os dados que recordava sobre os acontecimentos relacionados com o jovem Duncan e com Yresk .
— Então? — perguntou Leto ao chefe dos estábulos. Obrigou-se a não pensar nos bons momentos passados com aquele homem gorducho, que sempre cheirava a suor e esterco.
— Pode ser que esse rato de estábulo tenha choramingado um pouco, meu senhor, mas porque tinha medo dos touros. Não posso suspender uma tourada porque um chorão se assusta com os animais. — Bufou depreciativamente —. Cuidei deste cachorrinho, dei-lhe todas as oportunidades...
— Mas o ignorou quando avisou sobre os touros, e agora meu pai está morto — disse Leto. Observou que, de repente Yresk parecia assustado
—. Por que fez isso? — Projeção possível — anunciou Hawat —. Por meio de lady Helena, Yresk trabalhou para a Casa Richese toda sua vida. Richese manteve laços com os Harkonnen no passado, assim como uma relação de inimizade com IX. Possivelmente não tenha consciência de sua participação em um plano global, ele...
— Como? Isto é absurdo! — insistiu Yresk . Coçou seu cabelo branco —. Não tenho nada com os Harkonnen. Desviou a vista para lady Helena, mas ela se negou a olhar para ele. — Não interrompa meu Mentat — advertiu Leto. Thufir Hawat olhou para lady Helena, que o contemplava com expressão gélida. O Mentat cravou a vista em seu filho.
— Resumo: o matrimônio de Paulus Atreides com Helena, da Casa Richese, foi perigoso, mesmo em seu momento. O Landsraad o considerou uma forma de enfraquecer os laços entre os Richese e os Harkonnen, no entanto o conde Libam Richese aceitou o matrimônio como uma última tentativa de salvar parte da fortuna familiar, em um tempo em que estava perdendo Arrakis. Quanto à Casa Atreides, o duque Paulus recebeu um posto de diretor da CHOAM e se transformou em membro do Conselho com direito a voto, algo que esta família não teria obtido de outra forma. Quando o cortejo nupcial chegou aqui com lady Helena, possivelmente nem todos os membros juraram inteira lealdade a Casa Atreides. Pôde estabelecer-se algum tipo de contato entre agentes Harkonnen e o chefe de estábulos Yresk, sem o conhecimento de lady Helena, é obvio. — Isso são conjeturas infundadas, mesmo para um Mentat —
replicou Yresk .
Leto observou que procurava apoio em algum dos pressente, com exceção de Helena, cujos olhos parecia evitá-lo agora.
Leto olhou para sua mãe, sentada em silêncio a seu lado e se fixou na tensão em sua mandíbula. Um calafrio percorreu sua espinha dorsal.
Através da porta fechada de seu dormitório, Leto tinha ouvido suas palavras relativas à política do seu pai. “Foi você que tomou a decisão, Paulus. A decisão errada.” As palavras ressoaram na mente de Leto. “Isso custará caro, para você a para sua Casa também.” — Er, ninguém vigia um chefe de estábulos, Leto — disse Rhombur em voz baixa.
Mas Leto continuou observando sua mãe. Yresk tinha chegado a Caladan com o cortejo nupcial de sua mãe. Teria recorrido a ele? Que tipo de vínculo mantinha
com aquele homem?
Sua garganta secou quando todas as peças se encaixaram em sua mente e alcançou uma certeza que devia ser similar a do Mentat. Ela era a responsável! Lady Helena Atreides tinha colocado o mecanismo em movimento. Talvez contara com alguma ajuda externa, possivelmente dos Harkonnen, e Yresk fora encarregado de por o plano em prática.
Mas era ela quem tinha tomado a decisão de castigar Paulus. Sabia no fundo de sua alma. Com um filho de quinze anos, agora controlaria Caladan e tomaria as decisões que julgasse mais pertinentes.
“Leto, meu filho, você agora é o duque Atreides.” Essas tinham sido as suas palavras, poucos minutos depois que seu marido morrera. Uma curiosa reação para uma mulher afligida pela dor.
— Rogo que não acredite nisso — disse Yresk retorcendo as mãos
—. Eu nunca trairia a Casa que sirvo, meu senhor. — Apontou para Duncan —. E este rato de estábulo é um Harkonnen. Chegou de Giedi Prime não faz muito tempo. Lady Helena estava sentada muito rígida, e quando por fim falou, olhou desafiante para seu filho:
— Você conhece Yresk desde que era um menino, Leto. Por acaso acusa um membro do meu séquito? Não seja ridículo.
— Ainda não acusei ninguém, mãe — disse ele com cautela —. Só estamos discutindo este ponto.
Como chefe da Casa Atreides, devia se esforçar por se distanciar de sua infância, de quando era um menino ansioso que perguntava ao chefe de estábulos se podia ver os touros. Yresk tinha lhe ensinado a domesticar animais, montar em cavalos velhos, fazer nós e prender um arnês. Mas aquele menino de olhos admirados era agora o novo duque da Casa Atreides.
— Temos que estudar as provas antes de extrair conclusões.
O rosto de Yresk refletiu sentimentos desencontrados, e de repente, Leto teve medo do que podia dizer. Encurralado e temeroso por sua vida, implicaria Helena? Os guardas escutavam com atenção. Kailea observava e assimilava cada detalhe. Não havia dúvida de que outras pessoas escutariam e repetiriam o
que fosse dito na sala. O escândalo sacudiria Caladan, e talvez o próprio Landsraad.
Mesmo se sua mãe tivesse tramado o acidente na tourada, mesmo se Yresk tivesse seguido ordens, subornado ou chantageado, Leto não queria que o homem confessasse em público. Necessitava da verdade, mas em particular. Se corresse a notícia de que lady Helena era a instigadora da morte do velho duque, a Casa Atreides se rasgaria. Sua própria autoridade seria prejudicada, e não haveria outra opção senão deixar cair todo o peso da justiça sobre sua própria mãe.
Estremeceu ao pensar na obra sobre Agamenon e na maldição de Atreo, que tinha açoitado sua família desde os primórdios da história.
Respirou fundo, consciente de que devia ser forte.
“Faça o que for necessário, rapaz — havia dito seu pai —. Sempre que tomar decisões justas, ninguém o questionará.” Mas qual era a decisão justa agora?
Helena se levantou e falou com Leto em um frio tom maternal.
— A morte do meu marido não foi uma traição, mas um castigo de Deus. — Apontou para Rhombur e Kailea, que pareciam estupefatos —.
Meu amado duque foi castigado por sua amizade com a Casa Vernius, por permitir que estes meninos vivessem no castelo. Sua família violou os mandamentos, e mesmo assim Paulus os recebeu com os braços abertos.
Meu marido foi vítima de seu orgulho, não de um insignificante chefe de estábulos. É simples assim.
— Já ouvi o suficiente, mãe — disse Leto.
Helena lhe dirigiu um olhar de indignação, como se ainda fosse um menino.
— Não terminei que falar. Ser duque significa mais do que imagina...
Leto procurou conservar a calma em sua voz e em sua compostura.
— Eu sou o duque, mãe, e você guardará silêncio, do contrário ordenarei aos guardas que a retirem da sala e a encerrem sob chave em uma de suas torres.
Helena empalideceu e seus olhos se moveram de um lado a outro enquanto tentava dissimular sua surpresa. Não conseguia acreditar que seu filho tivesse falado daquela maneira, mas preferiu não insistir. Como de costume, esforçou-se
por manter as aparências. Tinha visto uma expressão similar no velho duque, e não ousou desencadear a tormenta.
— Leto, rapaz — disse Yresk, embora fosse mais sábio guardar silêncio —, você não pode acreditar neste rato de estábulo...
Leto olhou para o homem, tão parecido com um espantalho, e comparou seu comportamento com o de Duncan. O rosto de Yresk estava coberto de suor.
— Concedo-lhe mais crédito — disse Leto —. E não volte a me chamar de rapaz.
Hawat se adiantou.
— Poderíamos obter mais informação através de um interrogatório.
Eu interrogarei pessoalmente o chefe de estábulos.
— Será melhor em privado, Thufir — disse Leto —. Com você a sós.
Fechou os olhos por um breve momento e engoliu em seco. Sabia que mais tarde teria que enviar uma mensagem a Hawat para que o chefe de estábulos não sobrevivesse ao interrogatório, por temor do que pudesse revelar. O quase imperceptível assentimento do Mentat informou a Leto que tinha compreendido a insinuação. Toda informação que Hawat extraísse do chefe de estábulos devia ser um segredo entre o duque e ele.
Yresk uivou quando os guardas agarraram seus braços, mas Hawat lhe tampou a boca com a mão.
Então, como se tivesse sido calculado para ocorrer no momento de maior confusão, os guardas abriram as portas principais do salão para dar passagem a um homem uniformizado. Entrou com passo decidido, o olhar cravado em Leto. Sua placa de identificação eletrônica revelava que era um Mensageiro oficial, recém desembarcado de um transporte no espaçoporto de Baía City. Leto ficou tenso, consciente de que aquele homem não podia trazer boas notícias.
— Meu senhor, sou portador de terríveis novas.
As palavras do Mensageiro produziram um arrepiou em todos os presentes. Os guardas continuavam segurando Yresk , e Hawat indicou com um gesto que o tirassem antes dali.
O mensageiro avançou para o trono e ficou imóvel, e depois respirou fundo para preparar-se. Como conhecia a situação de Caladan, com o novo duque e os
ixianos exilados, escolheu suas palavras com cautela. — É meu triste dever informar que lady Shando, marcada como renegada e traidora pelo imperador Elrood IX, foi localizada e, obedecendo ao decreto imperial, executada por tropas Sardaukar em Bela Tegeuse.
Todos os membros de seu séquito também foram justiçados.
Rhombur se deixou cair sobre o degrau de mármore contiguo ao trono real. Kailea, que tinha contemplado a cena em silêncio, rompeu a chorar. apoiou-se contra uma parede e golpeou uma coluna de pedra com seu punho frágil até sangrar.
Helena olhou para seu filho com tristeza e assentiu.
— Está vendo, Leto? Outro castigo. Eu tinha razão. Os ixianos e seus cúmplices estão condenados.
Leto lhe dirigiu um olhar de ódio e se virou para os guardas.
— Acompanhem minha mãe a seus aposentos, e ordenem a seus criados que preparem malas para uma longa viajem. — Controlou o tremor na sua voz —. Acredito que a tensão dos últimos dias exige que seja levada para um lugar tranqüilo, muito longe daqui. Em circunstâncias adversas tudo ser se teansforma em outra coisa, que evolui ou degenera. O que nos faz humanos é saber o que fomos em outro tempo, e recordar, esperemos, a forma de realizar a mudança. Embaixador C’ammar Tilru, Mensagens em defesa de IX
O sistema de alarme silencioso de seu esconderijo despertou uma vez mais. C'tair, coberto de suor por causa dos seus pesadelos recorrentes, levantou-se, preparado para lutar contra os inimigos que o assediavam.
Mas os Bene Tleilax ainda não tinham descoberto seu refúgio secreto, embora estivessem perto graças a seus malditos sensores. Seu cubículo a prova de transmissões estava equipado com um monitor interno automático que funcionaria sem problemas durante séculos, mas os fanáticos utilizavam aparelhos localizadores de tecnologia para detectar o funcionamento de máquinas proibidas. cedo ou tarde o apanhariam.
Agiu com silenciosa eficácia e desconectou tudo: luzes, ventilação e calefação. Depois se sentou na escuridão sufocante, à espera. Não ouviu nada, exceto sua própria respiração. Ninguém forçou a porta camuflada.
Depois de um longo momento se movimentou.
Os sensores aleatórios danificariam seriamente a capacidade de seu escudo para ocultar a ele e seus componentes tecnológicos. C'tair sabia que devia roubar um desses artefatos. Se pudesse analisar o modo de funcionamento da tecnologia Tleilaxu, montaria um sistema que rebatesse seus efeitos. Quase todas as manhãs, os corredores e salas públicas do antigo Grand Palais (agora um edifício de escritórios governamentais Tleilaxu) estavam vazios. C'tair saiu de um poço de ventilação oculto em um armazém próximo ao corredor principal. Dali havia pouca distância até um elevador que saía do edifício, atravessava outros edifícios estalactite e descia aos níveis inferiores. Nada o impedia de manter as aparências e seguir com a vida, mas suas probabilidades aumentariam se pudesse neutralizar os sensores de alta tecnologia.
O investigador podia continuar nesta instalação, ou talvez tivesse mudado para um nível diferente. C'tair saiu e esquadrinhou o corredor. Já tinha descoberto todos os segredos dessa parte do edifício.
Embora carregasse uma pistola atordoante e um fuzil laser, temia que as redes sensoras dos Tleilaxu as detectassem. Então, patrulhas especiais sairiam em sua busca. Por isso empunhava uma faca afiada. Seria eficaz e silencioso. A melhor opção.
Por fim, avistou um Tleilaxu calvo e de rosto magro que se aproximava pelo corredor. Segurava com ambas as mãos uma pequena tela e estava tão absorto em suas leituras que não reparou em C'tair, até este se precipitar sobre ele com a faca.
C'tair quis expressar seu ódio aos gritos, mas se limitou a rugir. A boca do Tleilaxu desenhou um pequen “O”, que deixou a mostra dentes diminutos como pérolas. Antes que pudesse gritar, C'tair lhe cortou a garganta.
O homem caiu sobre uma poça de sangue, mas C'tair se apoderou do exploratório antes que tocasse o chão. Contemplou-o com cobiça, indiferente às convulsões do homem que sangrava sobre as lajes reluzentes do que tinha sido o Grand Palais da Casa Vernius.
C'tair não sentiu o menor remorso. Já tinha cometido numerosos delitos, pelos
quais seria executado se os fanáticos o capturassem. Que importava mais um enquanto sua consciência estivesse tranqüila? Quantas pessoas os Tleilaxu tinham aniquilado? Quanta história e cultura ixianas sua conquista tinha destruído? Quanta sangue tinham derramado?
C'tair arrastou o cadáver até o poço de acesso que conduzia ao seu esconderijo e depois limpou o sangue derramado. Esgotado, deteve-se um momento quando um fragmento de sua vida anterior passou por sua mente.
Olhou para suas mãos ensangüentadas e se perguntou o que pensaria a doce e delicada Kailea se o visse agora. Cada vez que iam visitá-la, C'tair e seu irmão se vestiam impecavelmente.
Dedicou um breve instante a lamentar aquilo que os Tleilaxu o obrigaram a se transformar, e depois se perguntou se Kailea também tinha mudado, que provas atrozes teria padecido. Reparou que ignorava se ainda estava viva.
Mas não sobreviveria muito mais se não apagasse os rastros do crime e desaparecesse em seu esconderijo.
O investigador Tleilaxu pesava muito para seu tamanho, o que sugeria uma estrutura óssea compacta. Jogou o cadáver de pele cinzenta em um coletor de entropia nula. O sol se elevaria no céu muito antes que o corpo começasse a se decompor.
Depois de se lavar e trocar de roupa, C'tair começou a trabalhar na tarefa mais imediata. Transportou o equipamento roubado para seu banco de trabalho. Os comandos do aparelho eram rudimentares: um botão negro e uma tela que identificava máquinas e sinais tecnológicos. Havia marcas em linguagem codificada Tleilaxu, que decifrou sem problemas pronunciando as palavras em frente a um decodificador que tinha levado para seu esconderijo no início da rebelião.
Compreender as complexidades do aparelho Tleilaxu tomou bastante tempo. C'tair teve que trabalhar com muito cuidado, devido à provável existência de um sistema anti manipulação capaz de fundir as peças internas. Não se atreveu a abri-lo com uma ferramenta. Teria que utilizar métodos mais sutis.
Desejou uma vez mais que o espírito do velho Rogo reaparecesse e o aconselhasse. C'tair se sentia muito sozinho naquela habitação secreta, e em várias ocasiões teve que reprimir a tentação de deixar-se levar pela auto compaixão, Extraiu forças da certeza de que estava fazendo algo muito importante. O futuro de lX podia depender das batalhas furtivas que conseguisse
ganhar. E para proteger seu refúgio, C'tair precisava desentranhar o mistério do maldito exploratório Tleilaxu...
Por fim, depois de dias de frustração, utilizou uma sonda com a esperança de criar um esquema do interior do exploratório. Para sua surpresa, ouviu um clique. Deixou o aparelho sobre a mesa de trabalho e o examinou com cautela. Uma juntura se abriu de um lado. Fez pressão em ambos os lados e o exploratório se abriu sem explodir ou fundir-se. Não só descobriu as entranhas do aparelho, mas também um holoprojetor ativado através de uma cavilha que reproduzia no ar uma imagem do Guia do Usuário, um homem holográfico que explicava satisfeito tudo que precisava saber sobre o exploratório.
O Guia do Usuário não se preocupava que alguém roubasse a tecnologia do aparelho, pois dependia de um estranho e caro espelho richesiano que nenhum estrangeiro tinha conseguido duplicar. Construídos a base de minerais e polímeros desconhecidos, acreditava-se que tais cristais continham prismas geodómicos entrelaçados com outros prismas.
Enquanto C'tair examinava o exploratório, admirou sua construção e pela primeira vez suspeitou que Richese estava comprometido no complô contra IX. O ódio era profundo, e os richesianos colaborariam de bom grado na destruição de seus principais rivais...
C'tair devia utilizar seu conhecimento intuitivo, as peças dos componentes e o cristal richesiano para construir um artefato que neutralizasse o exploratório. Depois de repetidas perguntas o fastidiosamente solícito Guia, começou a pensar em uma solução...
A reunião noturna com os contrabandistas do mercado negro tinha destruído seus nervos, com muitos olhares por cima do ombro, mas o que outra coisa podia fazer? Só aqueles comerciantes ilegais podiam procurar os escassos componentes que precisava para seu neutralizador de exploratórios.
Por fim, depois de acabar suas compras, retornou ao silencioso edifício nas alturas, e usou um cartão de confundir identificações biométricas para enganar o posto de entrada e se fazer passar por um técnico Tleilaxu. Enquanto subia no elevador até o antigo Grand Palais, em direção a seu esconderijo, C'tair pensou nos numerosos desenhos que tinha deixado sobre seu banco de trabalho. Estava ansioso por retomar seu trabalho.
Quando saiu para o corredor, viu que errara o andar. Em vez de portas sem janelas e salas de armazenamento, aquele piso possuía numerosos escritórios de plaz transparente. Luzes noturnas alaranjadas brilhavam. Em portas e janelas
escritos em idioma Tleilaxu havia letreiros detestáveis.
Deteve-se e examinou o local. Não tinha entrado muito nas capas de rocha. Em outro tempo, pensou, aquelas habitações tinham sido salas de conferências, escritórios de embaixadas, salas de reuniões para os membros da corte do conde Vernius. Agora seu aspecto era meramente funcional.
Antes que pudesse voltar, C'tair ouviu algo a sua esquerda, um ruído de passos, e deslizou para o elevador para voltar para seu andar. Muito tarde. Tinha sido visto. — Você, desconhecido! — gritou um homem em galach com acento ixiano —. Aproxime-se para que eu possa vê-li.
Devia ser um dos colaboracionistas, um renegado ixiano que tinha vendido sua alma ao inimigo, as custas de seu próprio povo.
C'tair manuseou seu cartão de confundir identidades, e tremeu ao ouvir as pesadas botas que se aproximavam. Passou o cartão pelo leitor do elevador. Ouviram-se mais vozes. Temia que disparassem a qualquer momento.
Depois de um instante interminável o elevador se abriu, mas ao entrar C'tair deixou cair a bolsa com as peças recém compradas. Não tinha tempo para recuperá-las.
Blasfemou e marcou o andar correto, com um sussurro severo e autoritário. A porta se fechou bem a tempo, e as vozes desapareceram.
Receava que os guardas avariassem o elevador ou chamassem os Sardaukar, de modo que precisava fugir rapidamente. O trajeto até seu andar pareceu ser eterno.
A porta se abriu, e C'tair olhou cauteloso para a direita e esquerda.
Nada. Voltou a entrar no elevador e o programou para que parasse nos próximos quatro pisos, e depois o enviou vazio para as alturas.
Segundos mais tarde parou, suado, em frente a porta do seu refúgio, agradecido por ter se salvado, mas irritado consigo mesmo por seu descuido. Tinha perdido os preciosos componentes, e também tinha dado aos Tleilaxu uma pista dos seus propósitos.
Agora iriam procurá-lo. Durante um tempo, todos vivemos à sombra de nossos predecessores. Não

obstante, nós que decidimos o destino dos planetas chegamos a um momento em que não nos transformamos em sombras, mas em luz. 

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