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domingo, 4 de junho de 2017

SD 953 : DUNE - A CASA ATREIDE

Príncipe Raphael Corrino


Quando examinou o despenteado cabelo negro de Leto, suas roupas cobertas de pó e os fios de suor que escorriam sobre seu rosto, Rhombur riu. Não pretendia que sua reação fosse ofensiva, mas parecia incapaz de acreditar na história absurda que Leto tinha contado. Retrocedeu e examinou seu amigo. — Infernos carmesins! Não acha que está, er... exagerando um pouco, Leto?
Rhombur se aproximou de uma das amplas janelas. Em nichos distribuídos por toda a parede da habitação se viam curiosidades geológicas recolhidas para seu prazer e orgulho. A coleção de minerais, cristais e gemas agradava muito mais a Rhombur que as comodidades de sua posição como filho do conde. Poderia ter adquirir muitos espécimes mais, mas o príncipe tinha encontrado cada rocha em suas explorações das cavernas e pequenos túneis.
Mas durante todas as suas explorações Rhombur, e de fato toda a família Vernius, tinha permanecido cego ao mal-estar dos trabalhadores.
Agora, Leto compreendia por que o velho duque tinha insistido em que aprendesse a conhecer seus súditos e a conhecer o estado de ânimo do povo. “No fundo, rapaz, governamos às custas de seus sofrimentos —
havia dito Paulus —, embora por sorte a maioria da população não perceba.
Se for um bom governante, ninguém pensará nisso.”
Parecendo desconcertado pelas notícias dramáticas e com a aparência desalinhada de Leto, o jovem de cabelo revolto olhou para as massas de operários que trabalhavam nos estaleiros. Tudo parecia tranqüilo, como de costume.
— Leto, Leto... — Apontou um dedo rechonchudo para as massas inferiores, na aparência satisfeitas, que trabalhavam como parasitas obedientes —. Os subóides nem sequer são capazes de decidir por si mesmos o que vão jantar, muito menos se unir para iniciar uma rebelião.
Isso exige muita... iniciativa.
Leto meneou a cabeça, ainda ofegante. O cabelo suado colava à testa. Sentia-se mais tremulo agora que estava a salvo, sentado em uma cômoda poltrona auto moldável dos aposentos de Rhombur. Durante a fuga, só o instinto o guiara. Agora, enquanto tentava relaxar, não conseguia controlar seu pulso. Tomou um longo gole de um copo de suco que encontrou na bandeja do café da manhã de Rhombur.
— Só estou informando o que vi, Rhombur, e não imagino ameaças.
Experimentei-as o suficiente para saber a diferença. — inclinou-se e seus olhos cinzas cintilaram —. Repito, algo está acontecendo. Os subóides estavam falando de derrubar a Casa Vernius, de destruir tudo e de apoderar-se de IX. Estavam se preparando para ações violentas.
Rhombur vacilou, como se ainda esperasse ouvir o pior. — Bem, o direi ao meu pai. Pode lhe contar sua versão e estou seguro de que, er, ele investigará o assunto.
Os ombros de Leto caíram. E se o conde Vernius ignorasse o problema, até que fosse muito tarde?
Rhombur alisou o manto púrpura e sorriu. Coçou a cabeça, perplexo.
Parecia que abordar o tema de novo lhe exigiria muita energia. Parecia verdadeiramente confuso.
— Mas... se você esteve lá embaixo, Leto, observou que tratamos bem os subóides. Nós lhe damos comida, teto, família, trabalho. Sim, pode ser que fiquemos com a parte do leão, mas as coisas são assim. Nossa sociedade é assim. Mas não oprimimos nossos operários. De que podem se queixar?
— Talvez eles vejam isso de outra maneira. A opressão física não é o único tipo de maus tratos.
Rhombur sorriu, levantou-se e estendeu a mão.
— Venha, meu amigo. Isto pode ser uma mudança interessante em nossas aulas de política de hoje. Podemos utilizá-lo como um caso hipotético.
Leto o seguiu, mais entristecido que decepcionado. Receava que eles enfrentassem o problema como uma simples discussão teórica. Da torre mais alta do Grand Palais, o conde Dominic Vernius governava um império industrial oculto do mundo exterior. O homem passeava pelo piso transparente do seu Escritório Orbital, que pendia como uma magnífica bola de cristal do teto da caverna.
As paredes e o chão do escritório eram de cristal ixiano, sem juntas nem distorções. Pareciam caminhar no ar, flutuando sobre seus domínios.
Em certas ocasiões, Dominic se sentia como uma deidade que observasse seu universo do alto. Passou uma palma calosa sobre seu crânio recém raspado. Ainda sentia um formigamento na pele devido às loções revigorantes que Shando utilizava quando lhe massageava o crânio.
Sua filha Kailea estava sentada em uma poltrona flutuante e o observava. O duque aprovava que se interessasse pelos assuntos ixianos, mas hoje estava muito preocupado para dedicar muito tempo a discutir com ela. Sacudiu migalhas imaginárias do manto sem mangas recém lavado, deu meia volta e voltou a passear ao redor de seu escritório.
Kailea continuou observando-o em silêncio, embora compreendesse o problema que enfrentavam.
Dominic não esperava que o velho “Roody” aceitasse bem a perda de impostos causada pelo desenho do novo Cruzeiro ixiano. Não, o imperador encontraria alguma forma de transformar uma simples decisão comercial em uma afronta pessoal, mas Dominic não tinha nem idéia de que forma adotaria a desforra, nem onde ela aconteceria. Elrood sempre tinha sido imprevisível.
— Tem que ficar sempre um passo por diante dele — disse Kailea
—.Você é perito nisso.
Pensou na forma que seu pai utilizara para roubar a concubina do imperador debaixo do nariz dele... O que Elrood nunca tinha esquecido.
Um toque de ressentimento apenas perceptível em suas palavras. Ela preferia ter crescido na maravilhosa Kaitain, em vez daqui, sob o chão.
— Não posso me antecipar se ignorar a direção em que ele se move
— respondeu Dominic. O conde ixiano parecia flutuar de cabeça para baixo, com o teto de rocha e as Torres do Grand Palais sobre sua cabeça, e o ar sob os pés.
Kailea arrumou uma dobra do seu vestido, alisou o tecido e estudou uma vez mais os registros de embarque e os manifestos comparados, com a esperança de decidir a forma mais proveitosa de distribuir a tecnologia íxiana. Dominic não esperava que ela fizesse melhor que seus peritos, mas deixava que se divertisse. Sua ideia de enviar meks de combate autodidatas para alguns traficantes do mercado negro tinha sido um golpe de mestre.
Deteve-se um momento e um sorriso nostálgico apareceu em seu rosto, de forma que seu comprido bigode mergulhou nas rugas que rodeavam sua boca. Sua filha era de uma beleza extraordinária, uma obra de arte em todos os sentidos, feita para ser um adorno na casa de algum grande senhor... mas também era muito inteligente Kailea era uma mescla estranha: fascinada pelos cerimoniais e maneiras da corte, e por tudo o relacionado com a grandeza de Kaitain, mas também decidida a compreender o funcionamento interno da Casa Vernius. Naquela idade já tinha consciência das complexidades dos negócios de bastidores que constituíam a verdadeira chave para que uma mulher adquirisse poder no Império, a menos que ingressasse na Bene Gesserit.
Dominic acreditava que sua filha não compreendia a decisão de Shando de abandonar a corte imperial e ir com ele para IX. Por que abandonaria a amante do homem mais poderoso do universo todo aquele esplendor, para casar-se com um herói de guerra curtido pela intempérie que vivia em uma cidade subterrânea? Em algumas ocasiões, Dominic se fazia a mesma pergunta, mas seu amor por Shando não conhecia limites, e sua esposa lhe tinha confirmado freqüentemente que jamais se arrependera dessa decisão.
Kailea oferecia um rude contraste com sua mãe em tudo, exceto em seu aspecto. Era impossível que a jovem se sentisse confortável com suas roupas e ornamentos extravagantes, mas sempre estava bem vestida, como se temesse deixar passar uma oportunidade. Talvez se sentisse ofendida pelas possibilidades perdidas de sua vida, e teria preferido estar sob a tutela de um patrocinador no palácio imperial. Dominic tinha observado que brincava com o afeto dos filhos gêmeos do embaixador Pilru, como se casar-se com um deles pudesse lhe facilitar o acesso à embaixada de Kaitain. Mas C'tair e D'murr Pilru iriam se submeter a um exame para ingressar na Corporação Espacial, e se fossem aprovados abandonariam o planeta dentro de uma semana. Em qualquer caso, Dominic estava seguro de que poderia arrumar um matrimônio mais vantajoso para sua única filha.
Talvez até mesmo com Leto Atreides... Um visicom brilhou na parede. Uma mensagem importante, as últimas notícias sobre os alarmantes rumores que se espalhavam como veneno numa cisterna.
— Sim? — disse.
Sem esperar que lhe perguntasse, Kailea atravessou o piso invisível e ficou a seu lado para ler o relatório, que apareceu sobre a superfície do escritório. Seus olhos esmeralda se entreabriram enquanto lia.
O aroma do perfume de sua filha e o brilho de seu cabelo brônzeo escuro provocaram um sorriso paternal em seu rosto. Que jovem era. Tão jovem e tão atenta aos assuntos de Estado.
— Tem certeza de que quer se preocupar com isto, filha? —
perguntou, com o desejo de protegê-la das más notícias. As relações trabalhistas eram mais complicadas que as inovações tecnológicas. Kailea se limitou a olhar para ele, irritada com a pergunta.
O conde leu mais detalhe sobre o que lhe tinham contado antes, embora ainda não acreditasse em tudo que Leto Atreides tinha visto e ouvido. Estavam-se acontecendo distúrbios nas dependências subterrâneas, onde os operários subóides tinham começado a queixar-se: uma situação sem precedentes.
Kailea respirou fundo e ordenou seus pensamentos.
— Se os subóides tem motivos de queixa, por que não escolheram um porta-voz? Por que não entregaram um pedido oficial?
— Oh, só o que fazem é resmungar, filha. Afirmam que estão sendo obrigados a montar máquinas que violam a jihad e não querem realizar
“trabalhos blasfemos”.
A tela escureceu assim que terminaram de ler o relatório, e Kailea se levantou, com os braços cruzados.
— De onde tiraram uma idéia tão ridícula? Como podem sequer começar a questionar os matizes e complexidades que supõem dirigir estas operações? Foram criados e treinados em instalações ixianas. Quem terá metido essas idéias em suas cabeças?
Dominic compreendeu que sua filha tinha formulado uma pergunta muito interessante.
— Tem razão. Os subóides não poderiam chegar a essas conclusões sem ajuda.
Kailea continuava indignada.
— Não percebem tudo que lhes damos e o que isso custa? Olhei os custos e os benefícios. Os subóides não sabem que sua situação é excelente, comparada com os trabalhadores de outros planetas. — Meneou a cabeça com uma expressão de desagrado. Olhou através do chão para as fábricas na caverna,m —. Eles
deveriam visitar Giedi Prime, ou Arrakis. Então não se queixariam de IX.
Mas Dominic não deixou que se desviasse do tema que ela mesma tinha iniciado.
— Os subóides foram criados para alcançar uma inteligência limitada, apenas o suficiente para realizar as tarefas necessárias, e se espera que as executem sem queixas. Faz parte de sua estrutura mental. — Olhou para o piso da gruta, onde os operários formigavam encarregados da construção do Cruzeiro —. Pode ser que nossos bio-engenheiros ignorassem algo importante? Os subóides tem razão? A definição de mentes autômatas abrange um amplo campo, mas poderiam existir zonas cinzentas...
Kailea sacudiu a cabeça e agitou seu caderno de cristal. — Nossos Mentats e assessores legais são meticulosos sobre as proibições precisas da Jihad, e nossos métodos de controle de qualidade são eficazes. Pisamos em terreno sólido, e podemos provar todas as nossas afirmações.
Dominic mordiscou o lábio inferior.
— Não é possível que os subóides possuam dados específicos, já que não existem violações. Ao menos, não cruzamos a fronteira conscientemente, sob nenhuma circunstância.
Kailea observou seu pai.
— Talvez devesse ordenar ao capitão Zhaz e a uma equipe de inspetores que não deixem pedra sobre pedra, que investiguem todos os aspectos de nossos processos de desenho e fabricação. Mostre aos subóides que suas queixas são infundadas.
Dominic considerou a idéia.
— Não quero ser muito duro com os operários. Detesto as medidas enérgicas, e não desejo nenhuma revolta. Temos que tratar bem os subóides, como sempre fizemos. — Olhou para sua filha, e lhe pareceu que era já uma pessoa adulta.
— Sim — disse Kailea —. Assim eles trabalham melhor. Assim como o conhecimento de seu próprio ser, o sietch forma uma base firme, da qual salta para o mundo e para o universo. Ensinamento Fremen
Pardot Kynes estava tão fascinado pela cultura, religião e rotina diária dos
Fremen que tinha esquecido o debate sobre seu destino. O naib Heinar lhe havia dito que podia explicar suas idéias, assim ele falava e falava em qualquer oportunidade.
Durante todo um ciclo de luas, os Fremen discutiram suas opiniões em privado e nas assembléias a portas fechadas dos anciões do sietch.
Alguns deles até simpatizavam com aquele estranho forasteiro.
Embora sua sorte ainda não estivesse decidida, Kynes não perdeu tempo. Os guias do sietch o levaram a todas as partes e lhe ensinaram muitas coisas que poderiam lhe interessar, mas o planetólogo também fazia perguntas para as mulheres que trabalhavam nas fábricas de trajes destiladores, aos velhos que cuidavam das provisões de água, e para as avós que se encarregavam dos fornos ou juntavam os refugos e pedaços de sucata.
A frenética atividade das cavernas o assustava. Alguns trabalhadores pisoteavam resíduos de especiaria para extrair combustível, outros coalhavam especiaria para que fermentasse. Os tecelões que trabalhavam com teares mecânicos utilizavam seu próprio cabelo, o pelo de ratos mutantes, molhos de algodão do deserto, e até mesmo tiras de pele de animais selvagens para fabricar seus tecidos resistentes. E, é obvio, nas escolas se treinava os jovens Fremen nas habilidades necessárias para sobreviver no deserto, assim como em técnicas de combate desumanas.
Uma manhã, Kynes despertou descansado, apesar de ter passado a noite sobre uma palhinha no chão duro. Durante grande parte de sua vida tinha dormido ao relento, sobre terrenos incômodos. Seu corpo encontrava descanso quase em qualquer parte. Tomou o café da manhã, fruta desidratada e tortas secas que as mulheres Fremen tinham preparado em fornos térmicos. Uma barba incipiente cobria seu rosto.
Uma jovem chamada Frieth lhe levou uma bandeja com café de especiaria em uma cafeteira ornamentada. Durante todo o ritual manteve seus olhos azuis cravados no chão, como tinha feito todas as manhãs desde a chegada de Kynes ao sietch. O planetólogo não tinha dado atenção aos seus cuidados frios e eficientes até que alguém lhe sussurrara: “Ela é a irmã solteira de Stilgar, cuja vida você salvou dos cães Harkonnen.”
Frieth tinha um rosto formoso e uma suave pele bronzeada. Seu cabelo parecia comprido o bastante para chegar até sua cintura se algum dia o liberasse de seus anéis de água e o deixasse cair. Seu caráter era aprazível mas observador, ao estilo dos Fremen. Corria para satisfazer qualquer desejo que Kynes expressasse
sem que ele se desse conta. Se não estivesse tão concentrado em observar tudo que o rodeava, teria reparado em como ela era bela.
Depois de tomar até a última gota do café impregnado de melange, Kynes tirou sua caderneta eletrônica para tomar notas. Ouviu um ruído, levantou a vista e viu o robusto Turok na porta. — Vou levá-lo para onde desejar, planetólogo, desde que não saia do sietch.
Kynes assentiu e sorriu, indiferente às restrições de ser um cativo. Não o aborreciam. Subentendia-se que nunca sairia vivo do sietch a menos que os Fremen o aceitassem e confiassem nele. Se se unisse à comunidade, não haveria segredos entre eles. Por outro lado, se os Fremem decidissem executá-lo, seria absurdo ocultar segredos de um morto.
Previamente, Kynes tinha visto os túneis, as câmaras onde armazenavam os mantimentos, as provisões de água e até mesmo os destiladores de mortos Huantti. Tinha contemplado fascinado às famílias de homens endurecidos pelo deserto, cada um com várias esposas. E os tinha visto rezar para Shai-Hulud. Tinha começado a compilar um esboço mental desta cultura e dos vínculos políticos e familiares no seio do sietch, mas seriam necessárias décadas para decifrar as relações sutis e os matizes das obrigações que tinham recaído sobre seus parentes muitas gerações antes.
— Eu gostaria de ir ao alto da rocha — disse, recordando seus deveres de planetólogo imperial —. Se pudéssemos recuperar parte do equipamento que estava em meu veículo, porque suponho que os guardaram, eu gostaria de estabelecer uma estação meteorológica aqui. É
fundamental reunir dados climatológicos: variações de temperatura, umidade atmosférica e comportamento dos ventos, de todos os lugares isolados possíveis.
Turok se virou para ele, surpreso. Deu de ombros.
— Como quiser, planetólogo. Como conhecia os hábitos conservadores dos anciões do sietch, Turok era pessimista sobre a sorte daquele homem entusiasta mas, não muito brilhante. Era um esforço inútil para Kynes prosseguir seu trabalho.
Mas se o deixava feliz em seus últimos dias...
— Vamos — disse Turok —. Ponha o traje destilador.
— Só ficarei fora alguns minutos.
Turok olhou para ele com o cenho carregado.
— Um só hálito de umidade significa água desperdiçada no ar. Não somos tão ricos para nos permitir esse luxo.
Kynes deu de ombros, vestiu seu uniforme de superfície e ajustou os fechos desajeitadamente. Turok suspirou e o ajudou, ao mesmo tempo em que explicava a forma mais eficaz de usar o traje e ajustar os fechos para otimizar sua eficiência.
— Você comprou um traje destilador decente. É de manufatura Fremen — observou —. Ao menos, nisto escolheu bem.
Kynes o seguiu até a câmara de armazenamento onde guardavam seu veículo terrestre. Os Fremen tinham retirado os acessórios, e seu equipamento se encontrava distribuído em caixas abertas sobre o chão da caverna, inspecionado e catalogado. Não havia dúvida de que os habitantes do sietch tinham tentado descobrir como podiam utilizar aquelas coisas.
Eles pensam em me matar, compreendeu Kynes. Será que não escutaram nenhuma palavra do que eu disse? Por estranho que parecesse, a idéia não o deprimiu nem assustou. Aceitou a certeza como um desafio.
Não estava disposto a se render. Ainda havia muito por fazer. Teria que fazê-los compreender.
Entre as peças desordenadas encontrou seu aparelho meteorológico e encaixou os componentes, mas sem fazer comentários sobre o que tinha acontecido com suas posses. Sabia que os Fremen tinham uma mentalidade comunal: tudo o que um indivíduo possuía era propriedade de toda a comunidade. Como tinha passado quase toda sua vida sozinho, dependendo unicamente de suas próprias habilidades, era-lhe difícil assimilar aquela mentalidade.
Turok não se ofereceu para carregar o equipamento, mas o precedeu por alguns degraus no muro de pedra. Kynes ofegava, mas não se queixou.
Seu guia ia afastando os defletores de umidade e selos de porta. Turok olhou por cima do ombro para ver se o planetólogo o seguia, e depois caminhou com mais rapidez.
Saíram por uma fenda para o pico arredondados. O jovem Fremen se refugiou à
sombra das rochas, enquanto Kynes se expos ao sol. A pedra era de uma cor parda acobreada, com manchas de liquens. Bom sinal pensou.
Plantas precursoras de sistemas biológicos.
Enquanto contemplava a ampla vista da Grande Concha, viu dunas de rochas recém desintegradas, assim como areia antiga e oxidada.
A julgar pelos vermes de areia que tinha visto e pelo plâncton que abundava nas areias ricas em especiaria, Kynes sabia que Dune já possuía a base de um complexo ecossistema. Estava seguro de que bastaria um empurrãozinho na direção correta para fazer aquele lugar adormecido florescer.
Os Fremen poderiam fazê-lo.
— Homem imperial — disse Turok —, o que vê quando olha para o deserto dessa maneira?
Kynes respondeu sem olhar.
— Um sem-fim de possibilidades. Em uma câmara selada situada nas profundidades do sietch, o naib Heinar estava sentado à cabeceira de uma mesa de pedra, e seu único olho brilhava. O naib do sietch, que tentava manter-se à margem da discussão, olhava para os anciões do conselho enquanto gritavam uns com aos outros.
— Conhecemos a lealdade desse homem — disse Jerath —. Trabalha para o Império. Já viram seu curriculum. Está em Dune como hóspede dos Harkonnen. — Usava um aro de prata no lóbulo esquerdo, um tesouro arrebatado de um contrabandista que tinha matado em duelo.
— Isso não significa nada — disse Avalanche —. Como Fremen, não tomamos emprestadas outras roupas, outras máscaras, e fingimos nos adaptar? É um método de sobrevivência em determinadas circunstâncias.
Vocês, mais que ninguém, deveriam saber que não se pode julgar às pessoas unicamente pela aparência.
Garnah, um ancião de aspecto fatigado e cabelo comprido, apoiou seu longo queixo sobre os dedos.
— Estou furioso com esses três jovens idiotas pelo que fizeram depois que o
planetólogo os ajudou a derrotar os Harkonnen. Qualquer adulto sensato teria dado de ombros e feito a sombra desse homem se reunir com as dos seis insetos na terra... com certo remorso, é obvio, mas isso é o que deveriam ter feito. — Suspirou —. São jovens inexperientes.
Nunca deveriam ter se aventurado sozinhos no deserto.
Heinar soprou.
— Não pode culpá-los, Garnah. Existia a obrigação moral. Pardot Kynes tinha salvo suas vida. Até esses jovens imprudentes tiveram consciência da carga de água que tinha recaído sobre seus ombros. — E o que me diz de suas obrigações para com o sietch e nosso povo? — insistiu o cabeludo Garnah —. A dívida contraída com um simples servidor imperial pesa mais que sua lealdade para nós?
— Ele é louco — disse Jerath —. Já ouviram o diz? Quer árvores, quantidades enormes de água, irrigação, colheitas... Imagina um vergel onde existe um deserto. — Soprou e se tocou o aro de sua orelha —.
Afirmo que está louco.
Avalanche apertou a boca em sinal de ceticismo.
— Depois de milhares de anos errando de um lado para outro, o que por fim nos trouxe para cá e fez de nosso povo o que somos, como podem desprezar um homem por sonhar com o paraíso?
Jerath franziu o sobrecenho, mas aceitou o raciocínio.
— Talvez Kynes esteja louco — disse Garnah —, mas só o suficiente para ser um santo. Talvez esteja louco o bastante para ouvir as palavras de Deus de uma forma que nós não podemos.
— Essa é uma questão que não nós decidiremos — disse Heinar, utilizando por fim a voz de comando de um naib, afim de reconduzir a discussão para o tema tratado —. A escolha que enfrentamos não está relacionada com a palavra de Deus, mas com a sobrevivência de nosso sietch. Pardot Kynes viu nossos costumes, viveu em nosso lugar secreto.
Por ordem imperial, envia relatórios a Kaitain sempre que chega a uma cidade. Pensem no perigo que isto nos coloca.
— Mas e tudo o que disse sobre o paraíso no Dune? — perguntou Avalanche, que ainda tentava defender o estrangeiro —. Água em qualquer parte, dunas rodeadas de erva, altas palmeiras, qanats3 abertos através do deserto.
— Fantasias — grunhiu Jerath —. O homem sabe muito sobre nós e sobre Dune. Não podemos permitir que conheça tantos segredos.
Avalanche insistiu de novo. — Mas matou os Harkonnen. Isso não trás para nós, para nosso sietch, uma dívida de água? Salvou três membros de nossa tribo.
— Desde quando devemos algo ao Império? — perguntou Jerath.
— Qualquer um pode matar os Harkonnen — acrescentou Ganath com um encolhimento de ombros, apoiando o queixo sobre o outro punho
—. Eu mesmo já o fiz. 3 Canais ao ar livre para transportar água sob condições controladas (veja-se Teminologia do Império de DUNE): (N. do T.)
Heinar se inclinou.
— De acordo, Avalanche. O que opina sobre esse renascimento de Dune? Onde está a água para tudo isso? Existe alguma possibilidade de que o planetólogo possa conseguir o que diz?
— Você o ouviu? — replicou Garnah em tom zombeteiro —. Diz que a água está aqui, em uma quantidade muito superior a que possuem nossos estoques miseráveis.
Jerath arqueou as sobrancelhas e soprou.
— Esse homem está em nosso planeta há um mês ou dois, e já sabe onde encontrar o grande tesouro que nenhum Fremen conseguiu descobrir em gerações e gerações no deserto. Provavelmente encontrará um oásis no Equador? Oras!
— Ele salvou três dos nossos — insistiu Avalanche.
— Três idiotas que cruzaram o caminho dos cães Harkonnen. Não me sinto ligado a ele por tê-los salvado. Além disso, viu nossas facas crys.
Vocês conhecem nossa lei: quem vê essa faca tem que ser purificado ou sacrificado...
— Isso é verdade — admitiu Avalanche.
— Todos sabem que Kynes viaja sozinho e explora zonas inóspitas
— disse Heinar com um dar de ombros —. Se desaparecer, desapareceu.
Nem os Harkonnen, nem as autoridades imperiais suspeitarão de nós.
— Interpretarão isso como um simples acidente. Nosso planeta não é um lugar acolhedor — disse Garnah.
Jerath se limitou a sorrir.
— Para falar a verdade, é possível que os Harkonnen fiquem satisfeitos por se livrarem desse intrometido. Se o matarmos, não correremos nenhum risco.
O silêncio pesou no ar poeirento durante um momento.
— O que tem deve ser, será — sentenciou Heinar ao mesmo tempo em que ficava em pé —. Todos sabemos. Não pode haver outra resposta, não podemos mudar de opinião. Devemos proteger o sietch acima de tudo, custe o que custar, sem nos importar com o peso em nossos corações. —
Cruzou os braços sobre o peito —. Está decidido. Kynes tem que morrer. Duzentos e trinta e oito planetas explorados, muitos quase inabitáveis (ver cartas estelares anexas). Estudos de recursos enumeram materiais brutos valiosos. Muitos destes planetas merecem uma segunda visita, seja para exploração de minerais ou para possível colonização. Não obstante, como em outros relatórios, não se encontrou especiaria. Relatório do perito independente, terceira expedição, entregue ao imperador Corrino III
Hasimir Fenring subornara os guardas e criados do velho Elrood afim de preparar o que tinha chamado de “um encontro secreto com um importante, embora inesperado, diplomata”. O homem com cara de doninha utilizara sua língua de ouro e sua vontade de ferro para manipular os horários do imperador e conseguir um espaço. Fenring, como um acessório do palácio durante mais de três décadas, em virtude de sua amizade com o príncipe herdeiro Shaddam, era um homem influente.
Graças a diversos métodos de persuasão, convencia a todos que precisava convencer.
O velho Elrood não suspeitava de nada.
Na hora marcada para a chegada do delegado Tleilaxu, Fenring cuidou para que Shaddam e ele estivessem presentes na sala de audiências, em teoria como estudantes da burocracia, dedicados e concentrados para transformarem-se em líderes úteis do Império. Elrood, que gostava de pensar que estava instruindo seus protegidos em importantes temas de Estado, não imaginava que os dois jovens riam às suas costas.
Fenring se aproximou do príncipe herdeiro e sussurrou: — Isto vai ser muito divertido, hummmm?
— Observe e aprenda — disse Shaddam, para depois erguer o queixo e sorrir em tom zombeteiro. As enormes portas esculpidas se abriram, cintilantes e com pedras soo e cristais de chuva. Os guardas Sardaukar, imóveis com seus uniformes cinza e negro, ficaram firmes para receber o recém-chegado.
— O espetáculo começa — disse Fenring. Shaddam e ele riram.
Pajens vestidos com librés se adiantaram para apresentar o visitante de outro planeta e lhe ofereceram uma pompa processada e traduzida eletronicamente.
— Meu senhor imperador, Alteza de Um milhão de Mundos, o professor Hidar Fen Ajidica, representante dos Bene Tleilax, para celebrar um encontro privado.
Um anão de pele cinzenta entrou orgulhoso no salão, ladeado por guardas de rosto pálido e seus próprios servidores. Seus pés calçados em sapatilhas deslizaram sobre as pedras polidas do chão.
Uma onda de surpresa e desagrado percorreu os cortesãos. O chambelán Aken Hesban, com os bigodes caídos, ergueu-se indignado atrás do trono e cravou a vista nos conselheiros de audiências do imperador, como se fosse uma espécie de brincadeira.
Elrood IX se inclinou em seu enorme trono e pediu para ver sua agenda.
Assim, pego de surpresa, talvez o velho idiota fique surpreso o bastante para
escutar, pensou Fenring. Com surpreendente astúcia, os olhos de águia do chambelán Hesban pousaram sobre ele, mas Fenring lhe devolveu o olhar com uma expressão de inocência.
Ajidica, o representante Tleilaxu, esperou paciente, deixando que os sussurros e murmúrios fluíssem a seu redor. Tinha uma cara estreita, nariz largo e barba negra bicuda, que sobressaía de seu queixo partido. Roupas marrons lhe concediam um ar de certa importância. Sua pele parecia curtida pela intempérie, e em suas mãos, sobretudo nas palmas e nos dedos, destacavam-se manchas pálidas e descoloridas, como se a freqüente exposição a produtos químicos virulentos tivesse neutralizado a melanina.
Apesar da sua diminuta estatura, o Professor Tleilaxu avançou como se tivesse todo direito de estar na sala do trono de Kaitain.
Shaddam estudou Ajidica, e seu nariz se enrugou, devido ao aroma de comida tão característico dos Tleilaxu.
— Que o único e verdadeiro Deus o ilumine de todas as estrelas do Império, meu senhor imperador — disse Hidar Fen Ajidica, ao mesmo tempo em que juntava as mãos, fazia uma reverência e citava a Bíblia Católica Laranja. Deteve-se em frente ao enorme trono de quartzo de Hagal.
Os Tleilaxu eram famosos por manipular os mortos e conservar cadáveres para aproveitar os recursos das células, mas ninguém podia negar que eram geneticistas brilhantes. Uma de suas primeiras criações tinha sido um notável recurso alimentício novo, o bacer (“a carne mais saborosa deste lado do paraíso”), um cruzamento entre uma lesma gigante e um porco terráqueo. A população ainda imaginava que eram mutações engendradas em depósitos, seres horríveis que excretavam resíduos viscosos e fedorentos, e cujas múltiplos bocas trabalhavam incessantemente remexendo lixo. Este era o contexto no qual as pessoas imaginavam os Bene Tleilax, mesmo enquanto saboreavam medalhões de bacer macerados em molhos preparados com saborosos vinhos de Caladan.
Elrood ergueu seus ombros ossudos. Olhou com o cenho carregado para o visitante.
— O que... isto faz aqui? Quem deixou este homem entrar? — O
velho imperador passeou a vista pela sala, com olhos cintilantes —.
Nenhum Mestre Tleilaxu entrou em minha corte para celebrar uma audiência privada. Como posso saber que não é um Dançarino Facial? —
Elrood olhou para seu secretário pessoal e depois para seu chambelán —. E
como foi incluído em minha agenda, como posso saber que você não é um Dançarino Facial? Isto é revoltante.
O secretário pessoal retrocedeu, ofendido pela insinuação. O
diminuto Ajidica olhou para o imperador, sem deixar que o ressentimento transparecer, sem deixar se afetar por eles.
— Meu senhor Elrood, pode nos testar e comprovar que nenhum de nossos metamorfos assumiu a identidade de um membro de sua corte.
Asseguro-lhe que não sou um Dançarino Facial. Nem tampouco um assassino, nem um Mentat.
— Para que veio? — perguntou Elrood.
— Minha presença foi solicitada, por ser um dos principais cientistas dos Bene Tleilax. — O anão não se moveu nem um centímetro, e continuou imóvel ao pé do Trono do Leão de Ouro, envolto em suas roupas marrons
—. Desenvolvi um ambicioso plano que pode beneficiar à família imperial e também o meu povo.
— Não estamos interessados — replicou o imperador Padishah.
Desviou o olhar para seus Sardaukar e ergueu uma mão enrugada para ordenar uma expulsão forçosa. Os servos da corte contemplavam a cena, divertidos e ansiosos.
Hasimir Fenring se adiantou, consciente de que só tinha um instante para interceder.
— Posso falar, imperador Elrood? — Não esperou para receber permissão, mas tentou adotar uma expressão inocente e interessada —. A incrível audácia deste delegado Tleilaxu despertou minha curiosidade.
Gostaria de saber o que veio nos dizer.
Cravou a vista no inexpressivo rosto de Hidar Fen Ajidica. O Mestre de pele cinzenta parecia indiferente ao tratamento grosseiro que recebia.
Nada em seu comportamento traía sua relação com Fenring, que lhe sugerira a
idéia da especiaria sintética, uma idéia que não demorara a encontrar apoio entre os cientistas Tleilaxu.
O príncipe herdeiro Shaddam olhou para seu pai com expressão inocente e ansiosa.
— Pai, você me ordenou que aprendesse tudo que puder do exemplo de sua liderança. Seria muito útil para mim observar como lida com esta situação com imparcialidade e firmeza.
Elrood ergueu uma mão adornada com anéis que tremia por causa de espasmos tênues mas incontroláveis.
— Muito bem, escutemos o que este Tleilaxu veio dizer. Um momento apenas, sob pena de receber um severo castigo se decidirmos que esbanjou nosso precioso tempo. Observe e aprenda. — O imperador olhou de esguelha para Shaddam, e depois tomou um gole da cerveja de especiaria que tinha ao lado —. Será breve.
Tem razão, pai. Não resta muito tempo, pensou Shaddam, sem apagar seu sorriso inocente.
— Minhas palavras exigem privacidade, meu senhor imperador —
disse Ajidica —, assim como a maior discrição.
— Eu decidirei sobre isso — replicou Elrood —. Fale de seu projeto.
O Professor Tleilaxu enlaçou suas mãos dentro das volumosas mangas de suas vestimentas marrons.
— Os rumores são como uma epidemia maligna, senhor. Se escapam, propagam-se de pessoa a pessoa, freqüentemente com efeitos mortíferos. É melhor tomar algumas precauções iniciais, que ver-se obrigado a adotar medidas de erradicação mais tarde.
Ajidica permaneceu imóvel e se negou a falar até que a sala de audiência ficasse vazia.
O imperador, impaciente, despediu todos com um gesto, funcionários, pajens, embaixadores, bufões e guardas. Os homens de segurança Sardaukar se postaram em frente as portas, das quais podiam proteger o trono, mas todos os outros presentes partiram, murmurando e arrastando os pés. Ergueram-se telas de intimidade para impedir que ninguém escutasse.
Fenring e Shaddam se sentaram perto do trono, fingindo ser estudantes absortos, embora ambos ultrapassassem os trinta anos. O velho imperador, de aspecto frágil e doentio, indicou que ficassem como observadores, e o Tleilaxu não protestou.
Durante todo o tempo, o olhar de Ajidica não se afastou de Elrood O
imperador olhou para o anão e fingiu aborrecimento. Satisfeito por fim as precauções, e ignorando o asco que o imperador sentia dele e da sua raça, Hidar Fen Ajidica falou.
— Nós, os Bene Tleilax, realizamos experimentos em todos os campos da genética, química orgânica e mutações. Em nossas fábricas desenvolvemos recentemente técnicas heterodoxas para sintetizar, digamos, substâncias pouco usuais. — Suas palavras eram concisas e eficientes, sem proporcionar mais detalhes do que o necessário —. Nossos resultados iniciais indicam que poderíamos criar um produto sintético que, em todas as suas propriedades químicas importantes, seria idêntico a melange.
— Especiaria? — Elrood dedicou a Tleilaxu toda a sua atenção. Shaddam observou um tic na bochecha direita do seu pai, debaixo do olho
— Criada em laboratório? Impossível!
— Não é impossível, meu senhor. Contando com tempo e condições adequadas para seu desenvolvimento, esta especiaria artificial poderia fornecer uma reserva inesgotável, produzida em quantidades industriais e...
destinada com exclusividade à Casa Leitão, se assim o desejar.
Elrood se inclinou como um ave de rapina mumificada.
— Isso nunca foi possível.
— Nossas análises demonstram que a especiaria é uma substância de base orgânica. Graças a experimentos minuciosos, acreditamos que nossos depósitos de axlotl podem ser modificados para produzir melange. — Da mesma forma que criam gholas a partir de células humanas mortas? — disse o imperador com cara de asco —. E clones? Shaddam, intrigado e surpreso, olhou para Fenring. Depósitos de axlotl?
Ajidica não afastou a vista de Elrood.
— Sim... com efeito, meu senhor.
— Por que veio a mim? — perguntou Elrood —. Imaginava que os diabólicos Tleilaxu criariam um substituto da especiaria para seu uso exclusivo, e deixariam o Império a sua mercê.
— Os Bene Tleilax não são uma raça poderosa, senhor. Se descobríssemos a forma de produzir nossa própria melange e guardássemos segredo, desencadearíamos sobre nós a ira do Império. O senhor enviaria os Sardaukar, arrancaria-nos o segredo e nos destruiria. A Corporação Espacial e a CHOAM lhe dariam sua colaboração de bom grado e, por outro lado, os Harkonnen defenderiam seu monopólio de especiaria a todo custo.
Ajidica lhe dedicou um leve sorriso desprovido de humor.
— Fico feliz em saber que compreendem sua posição subordinada —
disse Elrood, e descansou seu cotovelo ossudo sobre o braço do trono —.
Nem sequer a Grande Casa mais rica desenvolveu uma força militar capaz de opor resistência a meus Sardaukar.
— Por isso, decidimos prudentemente nos aliar a mais poderosa presença da galáxia: a Casa Imperial. Dessa forma colheremos os maiores benefícios de nossa nova pesquisa.
Elrood apoiou um longo dedo sobre seus lábios, magros como papel, enquanto refletia. Esses Tleilaxu eram preparados, e podiam fabricar a substância com exclusividade para a Casa Corrino, a preço de custo, o imperador contaria com uma poderosa moeda de mudança.
A diferença econômica seria enorme. Poderia levar a Casa Harkonnen a bancarrota. O planeta deserto de Arrakis perderia quase todo seu valor, porque era muito caro extrair o produto da areia.
Se aquele anão pudesse fazer o que insinuava, o Landsraad, a CHOAM, a Corporação Espacial, os Mentats e a Bene Gesserit se veriam obrigados a suplicar o favor do imperador afim de conseguir fornecimentos. Quase todos os membros importantes das famílias nobres eram viciados em melange, e o próprio Elrood poderia transformar-se em seu fornecedor. Sentiu-se entusiasmado.
Ajidica interrompeu os pensamentos de Elrood.
— Permita-me salientar que não será uma tarefa simples, senhor. É
extraordinariamente difícil analisar a estrutura química concreta da melange, e temos que separar os componentes necessários dos irrelevantes.
Para alcançar este objetivo, os Tleilaxu necessitam de enormes recursos, assim como liberdade e tempo para prosseguir nossas investigações.
Fenring se remexeu sobre os degraus e olhou para o imperador.
— Meu senhor, compreendo agora que o Mestre Ajidica teve razão ao solicitar que a audiência fosse privada. Essa pesquisa ser realizada em segredo, se a Casa Corrino desejar a exclusividade. Certos poderes do Império fariam o impossível por impedir que criassem um fornecimento independente e inesgotável de especiaria, hummmm?
Fenring percebeu que o ancião compreendia as enormes vantagens políticas e econômicas que a proposta de Ajidica podia proporcionar, apesar do aborrecimento instintivo para com os Tleilaxu. Percebeu que a balança estava se inclinando, que o imperador senil estava chegando à conclusão que Fenring desejava. Sim, ainda é possível manipular o velho caduco.
O próprio Elrood tinha consciência das numerosas forças postas na balança. Dado que os Harkonnen eram ambiciosos e intratáveis, preferia ter posto à frente de Arrakis uma outra Grande Casa, mas o barão conservaria o poder durante muitas décadas ainda. Por razões políticas, o imperador se viu forçado a conceder aquele valioso semifeudo a Casa Harkonnen, depois de descartar os Richese, e os novos proprietários do feudo se obstinado a ele. Muito. Nem sequer a derrota do período de governo de Abulurd (nomeado a pedido de seu pai, Dmitri Harkonnen) obtivera o resultado desejado. De fato, o efeito tinha sido o contrário, quando o barão se instalou no poder mediante manobras de todo tipo.
Mas o que faremos com Arrakis depois?, pensou Elrood. Eu gostaria de conseguir seu controle total. Sem seu monopólio da especiaria, seria um lugar barato. Ao preço justo, seria útil para outras coisas... Uma zona de manobras militares incrivelmente dura, talvez?
— Expor suas idéias a nós foi muito acertado, Hidar Fen Ajidica. —
Elrood enlaçou as mãos sobre o regaço, com um tinido de anéis de ouro, mas se negou a pedir desculpas por sua grosseria anterior —. Faça o favor de nos
entregar um resumo detalhado de suas necessidades.
— Sim, meu senhor imperador. — Ajidica se inclinou de novo, sem tirar as mãos das mangas —. O mais importante é que meu povo necessitará de equipamentos e recursos... e de um lugar para realizar as pesquisas. Eu estarei no comando do projeto, mas os Bene Tleilax necessitam de uma base tecnológica apropriada e instalações industriais. Se possível, que já funcionem e que estejam bem protegidas.
Elrood refletiu. Entre todos os planetas do Império, tinha que existir algum lugar, um planeta com alta tecnologia e aptidões industriais...
As peças do quebra-cabeças encaixaram, e ele viu com muita clareza: uma forma de apagar do mapa a seu velho rival, a Casa Vernius, vingar-se de Dominic por lhe ter roubado sua concubina, e pelo novo desenho dos Cruzeiros, que ameaçava causar prejuízos nos lucros do Império. Oh, isto será magnífico!
Hasimir, que seguia continuava nos degraus do pedestal de cristal do trono, não entendeu por que o imperador sorria com tanta satisfação. O
silêncio se prolongou por um longo momento. Perguntou-se se aquela pausa estava relacionada com os lentos efeitos do chaumurky, que lhe devorava o cérebro. Dentro de pouco, o velho se transformaria em um ser irracional e paranóico. E depois morreria. De uma forma horrível, espero.
Mas antes, todos os mecanismos estariam em movimento.
— Sim, Hidar Fen Ajidica. Temos o lugar que necessitam para seus trabalhos — disse Elrood —. Um lugar perfeito.
Dominic não precisa saber até que seja muito tarde, pensou o imperador. E depois tem que saber quem é o responsável, pouco antes de morrer.
O momento, como em tantos assuntos do Império, tinha que ser preciso. A Corporação Espacial trabalhou durante séculos para rodear nossa elite de Navegantes de um halo místico. Somos reverenciados, do Piloto mais inferior ao Timoneiro de maior talento. Vivem em contêineres de gás de especiaria, vêem todos os caminhos que percorrem o espaço e o tempo, guiam naves até os limites do Império. Mas ninguém sabe o custo humano ao transformar-se em Navegante. Temos que conservá-lo em segredo, porque se soubessem a verdade, se compadeceriam de nós.
Manual de Treinamento da Corporação Espacial para Timoneiros (secreto).
O austero edifício da embaixada da Corporação contrastava com o resto do esplendor ixiano na cidade das estalactites. Era de cor parda, funcional, muito diferente das deslumbrantes e ornamentadas torres da caverna. As prioridades da Corporação Espacial não estavam precisamente na ornamentação e a ostentação.
Naquele dia, C'tair e D'murr Pilru seriam examinados, com a esperança de se tornarem em Navegantes da Corporação. C'tair não sabia se estava emocionado ou aterrorizado.
Enquanto os gêmeos atravessavam ombro a ombro uma passarela acristalada que desembocava do Grand Palais, C'tair considerou tão repulsivo esteticamente o edifício da embaixada, que sopesou a possibilidade de desistir. Tendo em conta a enorme riqueza da Corporação, a falta de luxo lhe pareceu estranha, ao ponto de incomodá-lo.
Como se pensasse o mesmo, mas para chegar a uma conclusão diferente, seu irmão se virou para C'tair e disse:
— Uma vez que as maravilhas do espaço se abram para a mente de um Navegante, que outros adornos são necessários? Pode qualquer ornamentação rivalizar aos prodígios que um Navegante vê durante um só trajeto através da dobra-espacial? O universo, irmão! Todo o universo.
C'tair assentiu.
— Tem razão, a partir de agora temos que utilizar critérios diferentes. Abra sua mente. Lembre-se do que nos dizia o velho Davee Rogo? As coisas vão ser muito... diferentes.
Se fossem aprovados nos exames teria que partir, embora não sentisse nenhum desejo de abandonar a bela cidade subterrânea do Vernii.
Sua mãe, S'tina, era uma importante banqueira da Corporação, seu pai era um respeitado embaixador, e, com a ajuda do próprio conde Vernius, tinham concordado em dar aos gêmeos aquela oportunidade. IX se sentiria orgulhoso dele. Talvez erigissem uma estátua em sua honra algum dia, ou dariam o nome dele e de seu irmão a uma gruta...
Enquanto seu pai cumpria seus deveres diplomáticos com o imperador e um milhar de funcionários em Kaitain, seus filhos gêmeos se preparavam na cidade
subterrânea para coisas mais importantes. Durante sua infância, que tinham passado clandestinamente, C'tair e seu irmão tinham ido a sede da Corporação para ver sua mãe. Sempre tinham sido convidados no edifício, mas desta vez os gêmeos iam ao encontro de uma prova muito mais dura.
Dentro de algumas horas o futuro de C'tair seria decidido.
Banqueiros, interventores e peritos em comércio eram seres humanos, burocratas. Mas um Navegante era muito mais.
Por mais que tentasse se animar, C'tair não estava seguro de superar as provas. Quem era ele, para pensar que podia se tornar um Navegante da Corporação? Seus pais só tinham concedido aos gêmeos uma oportunidade, não uma garantia. Poderia conseguir? Era tão especial? Alisou seu cabelo escuro e sentiu o suor nos dedos.
“Se superarem a prova se transformarão em representantes importantes da Corporação Espacial — havia dito sua mãe, sorrindo com orgulho —. Muito importantes.”
C'tair sentiu um nó na garganta, e D'murr se ergueu em toda sua estatura.
Kailea Vendos, a princesa da casa de IX, também lhes desejara o melhor. C'tair suspeitava que a filha do conde estava zombando deles, mas tanto seu irmão como ele gostavam de flertar com ela. de vez em quando até fingiam ficar enciumados quando Kailea mencionava o jovem Leto, herdeiro da Casa Atreides. Tentava que os gêmeos competissem por seu afeto, e eles se rendiam de bom grado a seu desejo. De qualquer forma, C'tair duvidava que suas famílias concordassem em consentir com um matrimônio, assim não via nenhum futuro nesse caminho.
Se C'tair ingressasse na Corporação, seus deveres o levariam para longe de IX e da cidade subterrânea que tanto amava. Se se transformasse em um Navegante, muitas coisas mudariam...
Chegaram à sala de espera da embaixada com meia hora de antecipação. D'murr passeou atrás de seu irmão, que estava nervoso, absorto e nada comunicativo, concentrado em seus pensamentos e desejos.
Embora o aspecto dos dois irmãos fosse quase idêntico, D'murr parecia muito mais forte, mais entregue ao desafio, e C'tair se esforçava por imitá
lo.
Engoliu em seco na sala de espera, enquanto repetia as palavras que seu irmão e ele compartilharam como um mantra naquela manhã, em suas habitações. Quero ser Navegante. Quero ingressar na Corporação. Quero abandonar IX e sulcar os caminhos estelares, com minha mente vinculada ao universo.
Aos dezessete anos, ambos se sentiam capazes de suportar um processo de seleção tão rigoroso, que os ligaria permanentemente a uma forma de vida, mesmo que se arrependessem. A Corporação queria mentes flexíveis e maleáveis, dentro de corpos amadurecidos. Os Navegantes treinados na adolescência tinham demonstrado ser os melhores, e alguns alcançavam a patente maior de Timoneiros. Não obstante, esses candidatos aceitos tão cedo podiam se transformar em sombras fantasmagóricas, aptas unicamente para tarefas secundárias. Aplicava-se eutanásia aos fracassados.
— Está preparado, irmão? — perguntou D'murr. C'tair extraía integridade e entusiasmo da confiança de seu irmão.
— Totalmente — disse —. Você e eu seremos Navegantes da Corporação.
C'tair deixou de lado seus receios e se convenceu que desejava aquele destino. Seria um reconhecimento ao seu talento, uma honra para a família... mas não podia afastar o espectro da dúvida que o atormentava.
No fundo do seu coração, não desejava abandonar IX. Seu pai, o embaixador, tinha inculcado em seus dois filhos um profundo afeto pelos prodígios da engenharia subterrânea, as inovações e a acuidade tecnológica deste planeta. IX era um planeta sem comparação em todo o Império.
E é obvio, se partisse, perderia Kailea para sempre.
Quando indicaram que entrassem no labirinto da embaixada, os gêmeos atravessaram o portal sentindo-se muito sozinhos. Não tinham acompanhantes, ninguém que os aclamassem no triunfo ou os consolasse no fracasso. Nem sequer seu pai estava presente para oferecer apoio. O
embaixador tinha partido para Kaitain, afim de preparar outra reunião do subcomitê do Landsraad.
Aquela manhã, enquanto o relógio debulhava os minutos de forma ominosa, C'tair e D'murr tinham se sentado na residência do embaixador para tomar o café da manhã, havia uma mesa repleta de bolos coloridos, enquanto sua mãe reproduzia uma mensagem que seu pai havia hologravado. Tinham pouco apetite, mas escutaram as palavras de Cammar Pilru. C'tair tentou captar algo
especial nelas, algo que fosse útil, mas a imagem do embaixador se limitou a transmitir ânimo e trivialidades, como eco de um discurso muito usado que tivesse utilizado muitas vezes durante sua carreira diplomática.
Em seguida, depois de um abraço final, sua mãe tinha beijado a ambos antes de sair a toda pressa para a sede do Banco da Corporação, uma parte do aborrecido edifício que agora estava a frente deles. S'tina manifestara o desejo de acompanhar seus filhos durante as provas, mas a Corporação tinha proibido. Os exames de Navegante significavam algo muito íntimo e pessoal. Os gêmeos tinham que enfrentá-los sozinhos e separados, usando apenas as suas capacidades. Sua mãe estaria em seu escritório, provavelmente preocupada com eles.
Quando S'tina se despediu, conseguiu apagar quase todo o desespero e horror de seu rosto. C'tair tinha percebido um brilho, mas D'murr não.
Perguntou-se o que sua mãe teria oculto durante os preparativos para a prova. Não deseja que triunfemos?
Os Navegantes constituíam a matéria que compõe as lendas, rodeados de segredos e superstições transpiradas pela Corporação. C'tair escutara rumores sobre deformações corporais, danos que a imersão constante e intensa na especiaria podia infligir à mente humana. Nenhum forasteiro jamais tinha visto um Navegante, então como eram essa gente e quais as mudanças que aconteciam no corpo de alguém provido de capacidades mentais tão fenomenais? Seu irmão e ele riam daquelas especulações estúpidas, e se convenceram de que tais idéias eram mentiras.
Mas serão? O que minha mãe teme?
— Concentre-se, C'tair! Parece preocupado — disse D'murr.
C'tair respondeu sarcástico:
— Preocupado? É claro que sim. Pergunto-me por que. Estamos a ponto de passar pela prova mais importante de nossa vida, e ninguém sabe como preparar-se para ela. Acredito que ainda estamos um pouco verdes.
D'murr olhou para ele com enorme preocupação e apertou seu braço.
— Seu nervosismo pode ser a chave do seu fracasso, irmão. O exame de Navegante não tem nada a ver com a preparação ou com os estudos, apenas a vocação natural, e a capacidade de expandir nossas mentes.
Temos que atravessar o vazio sãs e salvos. Agora lembre-se do que nos disse o velho Davee Rogo: só conseguirá se deixar que sua mente supere as limitações que os outros se impõem. C'tair, abra sua imaginação e supere essas limitações comigo.
A confiança do seu irmão parecia inquebrantável, e C'tair se viu obrigado a assentir. Davee Rogo. Fazia anos que não pensava no aleijado e excêntrico inventor ixiano. Quando tinham dez anos, os gêmeos tinham conhecido o famoso inventor Rogo. Seu pai os apresentara, gravando hologramas de ambos com o cientista para o álbum de lembranças da embaixada, e depois se afastou para saudar outros personagens importantes.
Os dois moços tinham seguido falando com o inventor, e ele lhes tinha convidado a visitar seu laboratório. Durante os dois anos seguintes, Rogo se transformara em uma espécie de tutor extra-oficial de C'tair e D'murr, até sua morte. Agora, os gêmeos só conservavam de Davee Rogo suas lembranças, e a confiança que triunfariam.
Rogo brigaria comigo por minhas dúvidas, pensou C'tair.
— Pense, irmão. Como alguém se prepara para a tarefa de transportar naves enormes de um sistema para outro em um abrir e fechar de olhos? — Para demonstrar, D'murr piscou um olho —. Você assará. Nós dois passaremos. Prepare-se para mergulhar no contêiner de especiaria.
Enquanto caminhavam para o mostrador de recepção interior da embaixada, C'tair olhou para a cidade subterrânea de Vernii, além das fileiras rutilantes de globos luminosos que onde estavam construindo outro Cruzeiro. Talvez algum dia pilotasse aquela mesma nave. Ao pensar na forma como aquele Navegante vindo de outros mundos tinha saído com o novo Cruzeiro para o espaço, o jovem se sentiu tomado de entusiasmo.
Gostava de lX, queria ficar no planeta, queria ver Kailea uma última vez...
mas também desejava ser Navegante.
Os irmãos se identificaram e esperaram em silêncio em frente ao mostrador de marmolplaz, cada um absorto em seus pensamentos, como se estivessem em transe para aumentar suas possibilidades de triunfo.
Manterei minha mente completamente aberta, preparada para tudo.
Uma bela examinadora veio encontrá-los, vestida com um traje cinza folgado. O
símbolo do infinito da Corporação costurado na sua lapela, mas não usava jóias nem adornos.
— Bem-vindos — disse sem apresentar — a Corporação procura os melhores talentos porque nosso trabalho é de uma importância decisiva.
Sem nós, sem as viagens espaciais, a malha do Império se rasgaria. Pensem nisto, e compreenderão por que temos que ser tão exigentes.
Seu cabelo era de um castanho avermelhado, muito curto. C'tair a consideraria atraente em outro momento, mas agora só podia pensar no exame iminente.
A examinadora checou suas identificações de novo e depois os acompanhou até câmaras de exame.
— Trata-se de um exame individual, que devem encarar sozinhos.
Não há forma de atrapalhar nem de se ajudar mutuamente — disse.
C'tair e D'murr, alarmados pela separação, olharam-se, e depois se desejaram sorte em silêncio.
A porta da câmara se fechou atrás de D'murr com um ruído estrondoso e aterrador. Notou nos ouvidos a diferença de pressão de ar.
Sentia-se sozinho, muito sozinho, mas sabia que estava à altura do desafio.
A confiança significa ter metade da batalha ganha.
Observou as paredes couraçadas, as gretas seladas, a falta de ventilação. Um gás surgia de uma abertura no teto... Nuvens espessas de cor alaranjada, com um aroma picante que queimou suas fossas nasais.
Veneno? Drogas? Então, D'murr compreendeu o que a Corporação lhe tinha reservado.
Melange!
Fechou os olhos e percebeu o inconfundível aroma da estranha especiaria. Melange, uma incrível quantidade no ar, que enchia a câmara e impregnava todos os seus poros. D'murr, que conhecia o valor da especiaria de Arrakis devido ao meticuloso trabalho de sua mãe no Banco da Corporação, aspirou outra grande baforada. O que custava aquilo! Não sentiu estranhou que a Corporação examinasse só a uns poucos escolhidos.
O custo de um só exame seria suficiente para comprar o complexo de uma sede em outro planeta.
A riqueza controlada pela Corporação Espacial (em bancos, transporte e explorações) assombrava-o. A Corporação chegava a todas as partes, tocava tudo. Queria ser membro dela. Para que necessitavam de ornamentações frívolas, se tinham tanta melange?
Sentiu que as possibilidades giravam como um detalhado mapa topográfico, com ondulações e intercessões, um aglomerado de pontos, e atalhos que entravam e saíam do vazio. Abriu sua mente para que a especiaria pudesse transportá-lo para qualquer ponto do universo.
Quando a névoa alaranjada rodeou D'murr, não pôde mais ver as paredes monótonas da câmara. Notou que a melange se introduzia em todos os seus poros e células. Uma sensação maravilhosa! Imaginou que era um Navegante reverenciado, que expandia sua mente até os limites do Império e abrangia tudo...
D'murr continuou sulcando o espaço, sem abandonar a câmara de provas, ou ao menos pensou.
O exame foi muito pior do que C'tair imaginara.
Ninguém havia dito o que devia fazer. Não teve a menor chance.
Engasgou-se com o gás de especiaria, enjoou, lutou por conservar o controle de sua mente. A overdose de melange o aturdiu, até o ponto de não recordar quem era ou que fazia ali. Esforçou-se por concentrar-se, mas foi inútil.
Quando recuperou a consciência, com a roupa limpa e o cabelo e a pele recém lavados (talvez para que a Corporação pudesse recuperar até a última partícula de melange?), a curvilínea examinadora estava olhando para ele. Dedicou a C'tair um sorriso triste e meneou a cabeça.
— Você bloqueou sua mente para a ação do gás de especiaria, e reintegrou ao mundo normal. — Suas próximas palavras soaram como uma sentença de morte —: Não é de utilidade para a Corporação.
C'tair se levantou e tossiu. Inspirou pelo nariz, que ainda ardia devido ao potente aroma de canela.
— Sinto muito. Ninguém me explicou o que devia...
A mulher o ajudou a levantar-se, disposta a acompanhá-lo para fora da embaixada.
Sentia uma enorme angústia no coração. A examinadora não teve necessidade de responder quando lhe tirou da zona de recepção. C'tair passeou a vista ao redor, procurando seu irmão, mas a sala de espera estava vazia.
Então, percebeu que seu fracasso não era o pior acontecimento que devia enfrentar.
— Onde está D'murr? Ele passou?
A examinadora assentiu.
— Admiravelmente.
Indicou-lhe a saída, mas o jovem olhou para o corredor interior e a câmara selada onde seu irmão tinha entrado. Precisava felicitar D'murr, embora a vitória fora agridoce. Ao menos, um dos dois seria Navegante.
— Nunca mais voltará a ver seu irmão — disse a examinadora —.
Agora, D'murr Pilru é nosso.
Depois de um breve instante de confusão, C'tair correu para a porta da câmara selada. Golpeou-a com os punhos e gritou, mas não recebeu resposta. Em seguida, guardas da Corporação o tiraram dali com eficácia e rapidez. Ainda enjoado pela overdose de melange, C'tair não percebeu para onde o conduziam. Piscando e desorientado, encontrou-se na passarela de cristal da embaixada. Abaixo dele, outras ruas e passarelas buliam de tráfico e pedestres que iam de um edifício a outro.
Agora estava mais sozinho que nunca.
A examinadora se plantou na escalinata da embaixada para impedir que C'tair entrasse novamente. Embora sua mãe trabalhasse ali, C'tair sabia que as portas daquele edifício, assim como as portas do futuro que tinha imaginado, tinham se fechado para sempre.
— Alegre-se por seu irmão! — exclamou a examinadora, e sua voz expressou por fim um pouco de vida —. Ele entrou em outro mundo.
Viajará para lugares inimagináveis.
— Eu o verei novamente, ou poderei falar com ele? — perguntou C'tair, como se tivessem roubado uma parte de seu ser.
— Duvido — disse a examinadora, ao mesmo tempo em que cruzava os braços sobre o peito. Franziu o sobrecenho —. A menos que... sofra uma regressão. Seu irmão mergulhou tão completamente no gás de especiaria que começou o processo de conversão no mesmo momento A Corporação não pode renunciar esse talento. Já começou a mudança.
— Devolvam-no ao que era antes — disse C'tair com lágrimas nos olhos —. Apenas por alguns minutos.
Queria sentir-se feliz por seu gêmeo, e orgulhoso. D'murr tinha superado a prova que tanto tinha significado para ambos.
Os gêmeos sempre tinham estado muito unidos. Como poderiam viver separados? Talvez sua mãe pudesse usar suas relações na Corporação para permitir que se despedissem. Ou talvez seu pai usasse seus privilégios de embaixador para conseguir recuperar D'murr.
Mas C'tair sabia que isso nunca ocorreria. Agora compreendia. Sua mãe sabia, e temera perder seus dois filhos.
— Na maioria de casos, o processo é irreversível — disse a examinadora.
Guardas de segurança saíram e a flanquearam.
— Acredite — disse a examinadora —. Você não gostaria de voltar a ver seu irmão. O corpo humano é uma máquina, uma mistura de elementos químicos orgânicos, condutores de fluidos e impulsos elétricos. Um governo é como uma máquina de sociedades interativas, leis, culturas, recompensas e castigos, normas de conduta. E no final, o universo é como uma máquina, planetas ao redor de sóis, estrelas reunidas em amontoados, amontoados e outros sóis que formam galáxias inteiras... Nosso trabalho é manter a máquina em funcionamento. Escola Interior Suk, doutrina fundamental O príncipe herdeiro Shaddam e o chambelán Aken Hesban, ambos carrancudos, viram se aproximar um homem diminuto e esquelético que, não obstante, caminhava como se fosse um gigante mutelliano. Depois de anos de adestramento e condicionamento, todos os médicos Suk pareciam propensos a
levar-se muito a sério.
— Este Yungar me recorda mais um artista de circo que um respeitado profissional da medicina — disse Shaddam, enquanto tomava nota das sobrancelhas arqueadas, os olhos negros e o acréscimo de um cinza resistente —. Espero que saiba o que faz. Só quero os melhores cuidados para meu pobre pai doente.
A seu lado, Hesban deu um puxão em seu longo bigode, mas não disse nada. Usava um comprido manto azul com adornos dourados.
Durante anos, Shaddam tinha detestado aquele homem pomposo sempre à sombra de seu pai, e tinha jurado nomear um novo chambelán depois de ser nomeado. E enquanto aquele médico Suk não encontrasse explicações para a piora progressiva de Elrood, a preponderância de Shaddam estaria assegurada.
Hasimir Fenring insistia que nem sequer todos os recursos da famosa Escola Interior Suk conseguiriam deter o que se pôs em marcha. Nenhum detector de venenos era capaz de localizar o elemento químico catalisador implantado no cérebro do ancião, já que na realidade não era um veneno, mas se transformava numa substância perigosa com a presença da cerveja de especiaria. E à medida que se sentia pior, Elrood consumia cada vez mais cerveja.
O diminuto medico, que não media mais de um metro de estatura, tinha a pele suave mas os olhos de um ancião, devido aos imensos conhecimentos médicos armazenados em seu cérebro. Um diamante negro tatuado marcava o centro de sua mente enrugada. Seu cabelo, recolhido na nuca com um aro de prata Suk, era mais comprido que a de uma mulher, e chegava quase até o chão.
Is Yungar fez o cumprimento característico de sua profissão. — Têm o pagamento? — Olhou para o chambelán e depois para o príncipe herdeiro —. Precisa saldar as contas antes de iniciar o tratamento.
Tendo em conta a idade do imperador, nossos cuidados podem ser muito prolongados... e infrutíferos à longo prazo. Tem que pagar suas faturas, como qualquer outro cidadão. Rei, mineiro, artesão, isso não nos importa.
Todos os humanos querem estar sadios, e não podemos tratar todo mundo.
Nossos cuidados estão a disposição unicamente dos que querem e podem pagar. Shaddam apoiou uma mão na manga do chambelán.
— Claro, não pouparemos em gastos com a saúde de meu pai, Alten.
Tudo está arrumado.
Encontravam-se dentro da porta arqueada da sala de audiências imperial, sob os afrescos pintados no teto que representavam acontecimentos épicos da história da família Corrino: o sangue da Jihad, a desesperada resistência na ponte do Hreihgir, a destruição das máquinas pensantes. Shaddam sempre tinha considerado pesada e aborrecida a história imperial antiga, de pouca relevância para seus atuais objetivos.
Pouco importava o que tivesse acontecido séculos e séculos atrás. Só esperava que não fosse necessário tanto tempo para que acontecesse uma mudança no palácio.
Na sala povoada de ecos, o magnífico trono encravado de jóias do imperador Padishah se elevava tentadoramente vazio. Funcionários da corte e algumas Bene Gesserit vestidas com seus hábitos negros vagavam em nichos e passadiços laterais, procurando passar desapercebidos. Um par de guardas Sardaukar armados até os dentes estavam imóveis ao pé da escalinata, atentos a tudo que acontecia ao redor. Shaddam se perguntou se o obedeceriam naquele instante, sabendo que seu pai se encontrava encerrado em seus aposentos, doente. Decidiu não tentar descobrir. Muito em breve saberia.
— Todos estamos familiarizados com essas promessas — disse o médico —. Em qualquer caso, desejo receber o pagamento antecipadamente.
Tom obstinado, olhar impertinente que não se afastava de Shaddam, desde que o príncipe herdeiro tinha falado. Yungar gostava de praticar estranhos jogos de poder, mas logo seria expulso de sua fraternidade. — Pagar antes de ver o paciente? — exclamou o chambelán —.
Quais são suas prioridades, homem?
Por fim, o doutor Yungar se dignou a olhar para ele. — Já tratou conosco em ocasiões anteriores, chambelán, e sabe o que custa formar um médico Suk , totalmente condicionado e treinado.
Como herdeiro do Trono do Leão Dourado, Shaddam estava familiarizado com o Condicionamento Imperial Suk , que garantia absoluta lealdade ao paciente. Em séculos de história médica ninguém tinha conseguido corromper um graduado da
Escola Interior.
A certos membros da corte real era muito difícil conciliar a lendária lealdade Suk com sua cobiça inesgotável. Os médicos jamais tinham renunciado a sua postura de não tratar ninguém, nem sequer um imperador, em troca da simples promessa de uma remuneração. Os médicos Suk não confiavam. O pagamento devia ser em dinheiro e no ato.
Yungar falou com uma choramingação irritada. — Embora não sejamos tão importantes como os Mentats ou as Bene Gesserit, a Escola Suk continuas sendo uma das maiores do Império.
Apenas minha equipe é mais cara que uma dúzia de planetas. — Yungar indicou uma maleta que flutuava a seu lado —. Não recebo seu pagamento para meu benefício particular, é obvio. Só sou um médico, uma pessoa de confiança. Quando retornar, seus créditos irão comigo para a Escola Suk, em benefício da humanidade.
Hesban olhou-o com ódio. Seu rosto avermelhou e seus bigodes tremeram.
— Digamos em benefício da parte de humanidade que pode permitir-se seus serviços. — Correto, chambelán.
O ar de importância que se dava o médico fez Shaddam estremecer.
Quando ocupasse o trono, seria capaz de iniciar mudanças que colocassem aqueles Suk em seu devido lugar? Tudo no seu devido tempo.
Suspirou. Seu pai tinha permitido que muitos fios lhe escapassem entre os dedos. Embora Shaddam detestasse manchar as mãos de sangue, tirar do caminho o imperador ancião era uma ação necessária.
— Se os gastos do tratamento constituírem sua preocupação fundamental — disse o médico Suk, ao mesmo tempo em que aguilhoava com discrição o chambelán —, podem contratar um médico mais barato para o imperador do Universo Conhecido.
— Chega de discussões — interrompeu Shaddam —. Venha comigo, doutor. Yungar assentiu e deu as costas ao chambelán, como se ele fosse um ser desprezível.
— Agora sei por que usam uma tatuagem em forma de diamante em suas testas — grunhiu Hesban enquanto os seguia —. Carregam tesouros em suas mentes.
O príncipe herdeiro os precedeu até uma câmara protegida e atravessou uma cortina elétrica para entrar em uma cripta interior. Sobre uma mesa de ouro situada no centro da estadia havia broncos de opafogo, danikins de melange e bolsas entreabertas que revelavam pedras soo cintilantes.
— Isto será suficiente — disse o Suk —. A menos que o tratamento seja mais complicado do que supomos. — O médico voltou sobre seus passos, flanqueado por sua maleta flutuante —. Já conheço o caminho para a habitação do imperador.
Sem dar mais explicações, Yungar atravessou uma porta e subiu uma escalinata que conduzia aos aposentos onde descansava o imperador.
Guardas Sardaukar permaneceram ante o campo de força que protegia a cripta do tesouro, enquanto Shaddam e Hesban seguiam o médico. Fenring já estava esperando junto ao leito do doente, emitindo seus ruídos irritantes e procurando que o tratamento não sortisse efeito.
O enrugado imperador jazia em uma ampla cama imperial, sob um dossel das melhores seda merh, bordadas seguindo o antigo método terráqueo. Os postes eram de ucea esculpida, uma madeira dura nativa da Elacca. Fontes relaxantes, dispostas em nichos das paredes, jorravam água fresca, que sussurrava e borbulhava. Globos luminosos perfumados, acesos ao mínimo, flutuavam nos rincões da habitação.
Enquanto Shaddam e Fenring observavam, o médico Suk despediu com um gesto um criado vestido com libré e subiu os dois estreitos degraus que conduziam ao leito. Três formosas concubinas imperiais espreitavam atrás do doente, como se suas presenças pudessem revitalizá-lo. O fedor do ancião impregnava o ar, mesmo com a ventilação e o incenso.
O imperador Elrood vestia roupas de cetim e um gorro de dormir antiquado que cobria seu crânio, salpicado de manchas de idade. Estava deitado sobre os lençóis, já que se queixava de um calor excessivo. O
homem tinha um aspecto gasto e mal podia manter os olhos abertos.
Shaddam se sentiu satisfeito ao ver quanto tinha piorado a saúde do seu pai desde a visita do embaixador Tleilaxu. De qualquer modo, Elrood tinha dias bons e maus, além do irritante hábito de recuperar sua vitalidade depois de uma recaída
importante como esta. Deve estar sedento, pai, pensou Shaddam. Beba um pouco mais de cerveja.
O médico abriu sua maleta e mostrou vários instrumentos brilhantes, sensores e frascos coloridos para analisar líquidos. Yungar introduziu a mão na maleta e extraiu um pequeno aparelho branco, que entregou a Elrood.
Depois de lhe tirar o gorro de dormir e revelar uma calva suarenta, o doutor Yungar escaneou o crânio de Elrood e levantou a cabeça do ancião para examiná-la. O imperador grunhiu, seu aspecto frágil, fraco e velho.
Shaddam se perguntou que aspecto teria ele mesmo depois de viver cento e cinqüenta anos... preferivelmente ao fim de um longo e glorioso reinado.
Durante o exame reprimiu um sorriso e conteve o fôlego. A seu lado, Fenring permanecia tranquilo e reservado. Só o chambelán presenciava a cena com semblante preocupado.
O medico guardou seu equipamento e depois estudou o cubo que continha o histórico médico do paciente. Por fim, anunciou para o atordoado ancião:
— Nem mesmo a melange pode conservá-lo jovem eternamente, senhor. Na sua idade é natural que a saúde comece a declinar. Às vezes com grande rapidez.
Shaddam exalou um suspiro inaudível de alívio.
Elrood se levantou com dificuldade, e suas concubinas dispuseram travesseiros borlas que apoiasse as costas. Profundas rugas apareceram em seu rosto cinzento e inchado.
— Mas a poucos meses me sentia muito melhor.
— A velhice não é uma linha perfeita num gráfico. Há picos e quedas, recuperações e recaídas. — O médico teve a audácia de utilizar um tom de prepotente, como se insinuasse que o imperador não podia compreender conceitos tão complicados —. O corpo humano é uma sopa química e bioelétrica, e acontecimentos aparentemente inconseqüentes podem provocar grandes mudanças. esteve submetido a tensões ultimamente?
— Sou o imperador! — replicou Elrood como se o Suk fosse terrivelmente estúpido —. Tenho muitas responsabilidades. Isto provoca tensões, é obvio.
— Nesse caso, comecem a delegar mais funções ao príncipe herdeiro e seus
ajudantes de confiança, como Fenring. O senhor não vai viver eternamente. Nem mesmo um imperador pode fazê-lo. Planeje o futuro. —
O médico fechou a maleta. Shaddam sentiu vontade de abraçá-lo —.
Deixarei uma prescrição e aparelhos para que se sinta melhor.
— A única prescrição que desejo é mais especiaria em minha cerveja.
Elrood deu um longo e ruidoso gole de sua jarra.
— Como preferir — disse o esquelético doutor Suk . Tirou uma bolsa da maleta e a deixou na mesa —. Estes aparelhos servem para descansar os músculos, se necessitar. Cada aparelho contém instruções para que suas concubinas os utilizem para diminuir suas dores.
— De acordo, de acordo — disse Elrood —. Deixe-me de uma vez.
Tenho trabalho a fazer.
O doutor Yungar desceu os degraus da cama e fez uma reverência.
— Com sua permissão, senhor.
O imperador, impaciente, agitou uma mão nodosa em sinal de despedida. As concubinas sussurraram entre si, com os olhos totalmente abertos. Duas delas agarraram os aparelhos para descansar os músculos e brincaram com os controles. Shaddam sussurrou a um servente que acompanhasse o médico e o chambelán Hesban, que se encarregaria de pagá-lo. Era evidente que Hesban queria ficar no hall e falar de certos documentos, tratados e outros assuntos de Estado com o ancião, mas Shaddam, convencido de que era capaz de cuidar desses assuntos, queria afastar o pesado conselheiro.
Quando o Suk se foi, Elrood disse para seu filho:
— Talvez o médico tenha razão, Shaddam. Há um assunto que quero discutir com você e com Hasimir. Um projeto político que desejo levar adiante, com independência de minha saúde. Eu lhes contei sobre meus planos sobre IX, e da tomada de poder pelos Tleilaxu? Shaddam virou os olhos. Claro, velho idiota! Fenring e eu nos ocupamos de quase todo o trabalho. Foi nossa idéia enviar Dançarinos Faciais a IX, para que se
infiltrassem entre a classe trabalhadora.
— Sim, pai. Conhecemos os planos.
Elrood indicou que se aproximassem, e as feições do ancião se nublaram. Shaddam viu pela extremidade do olho que Fenring expulsava às concubinas, e que depois se aproximava para escutar as palavras do imperador.
— Esta manhã recebi uma mensagem cifrada de nossos agentes em IX. Já conhece a inimizade que nutro pelo conde Vernius.
— Ah, sim... Nós sabemos, pai — disse Shaddam. Pigarreou —.
Uma velha afronta, uma mulher roubada...
Os olhos úmidos de Elrood se iluminaram.
— Ao que parece nosso audaz Dominic esteve brincando com fogo, treinando seus homens com meks de batalha móveis que analisam os competidores e processam dados, talvez usando um cérebro informatizado.
Também vendeu estas “máquinas inteligentes” no mercado negro.
— Sacrilégio, senhor — murmurou Fenring. — Isso é contrário aos regulamentos da Grande Convenção.
— Exato — corroborou Elrood —, e esta não é a única infração. A Casa Vernius também está desenvolvendo sofisticadas otimizações cyborg.
Reposições corporais mecânicas. Podemos utilizar isso em nosso benefício.
Shaddam franziu a testa, aproximou-se mais do ancião e sentiu o aroma amargo da cerveja de especiaria em seu hálito. — Cyborgs? São mentes humanas acopladas a corpos robóticos, e portanto não violam a Jihad.
Elrood sorriu.
— Mas nós entendemos que existiram certos... compromissos. Certo ou não, é o tipo ideal de desculpa que nossos impostores necessitam para terminar a tarefa. O momento de agir é agora. A Casa Vernius se encontra à beira da destruição, e um empurrãozinho a derrubará.
— Hummmm, isso é interessante — disse Fenring —. Então, os Tleilaxu se apoderarão das sofisticadas instalações ixianas para suas pesquisas.
— Isto é muito importante, e vocês verão como cuido desta situação
— disse Elrood —. Observe e aprenda. Já pus meu plano em marcha. Os trabalhadores subóides ixianos estão, digamos, preocupados, com estes desenvolvimentos, e nós estamos... — fez uma pausa para provar sua jarra de cerveja de especiaria e estalou os lábios — inspirando seu descontentamento por meio de nossos representantes.
Elrood deixou a jarra vazia e mergulhou numa letargia repentina.
Acomodou seus travesseiros, deitou-se de costas e dormiu.
Shaddam trocou um olhar de cumplicidade com Fenring e pensou na conspiração dentro da conspiração: sua participação secreta nos acontecimentos de IX, Fenring e ele tinham sido os responsáveis por colocar o Professor Tleilaxu em contato com Elrood. Agora, os Bene Tleilax, utilizando seus metamorfos geneticamente modificados, estavam açulando o ardor religioso e o descontentamento entre as classes inferiores de IX. Para os fanáticos Tleilaxu, qualquer ameaça de uma máquina pensante, e dos ixianos que as criavam, era obra de Satanás.
Quando os dois jovens abandonaram a habitação do imperador, Fenring sorriu, absorto em pensamentos similares. Observe e aprenda, havia dito o velho idiota.
Elrood, bastardo condescendente, você sim que tem que aprender... e não lhe resta muito tempo para isso. Os líderes da Jihad Butleriana não definiram com precisão a inteligência artificial, mas previram todas as possibilidades de uma sociedade imaginativa. Em conseqüência, contamos com zonas cinzentas substanciais para manobrar. Opinião legal Ixiana - confidencial
Embora a explosão fosse longínqua, a onda de choque fez tremer a mesa em que Leto e Rhombur estavam sentados, estudando. Fragmentos de plasmento do teto, onde tinha aparecido uma larga rachadura, choveram sobre eles. Um raio se desenhou em uma das amplas janelas de plaz, que se partiu imediatamente.
— Infernos carmesins! O que foi isso? — exclamou Rhombur.
Leto se pôs em pé de um salto. Atirou os livros para um lado e procurou a origem
da explosão. Viu o lado oposto da gruta subterrânea, onde vários edifícios se transformaram em escombros. Os dois jovens trocaram olhares de perplexidade.
— Prepare-se — disse Leto, alarmado.
— Para que?
Leto o ignorava. Tinham assistido juntos a uma das aula do Grand Palais, primeiro para estudar Filosofia dos Cálculos e as bases do Efeito Holtzman, e depois sistemas de fabricação e distribuição ixianos. Das paredes pendiam quadros antigos dentro de molduras fechadas hermeticamente, incluindo obras dos velhos mestres terráqueos Claude Monet e Paul Gauguin, com placas interativas que permitiam a artistas ixianos ampliá-los. Desde que Leto informara sobre sua aventura nos túneis dos subóides, não ouvira nada sobre discussões ou investigações posteriores. Talvez o conde imaginasse que o problema se resolveria por si só.
Outra onda de choque fez a habitação vibrar, e esta foi mais potente e próxima. O príncipe de IX agarrou a mesa para impedir que caísse. Leto correu para a janela rachada.
— Olhe, Rhombur!
Alguém gritou em uma das ruas que comunicavam com os edifícios de estalactites. À esquerda, uma cápsula de transporte fora de controle se chocou contra o chão, entre uma nuvem de cristais estilhaçados e membros mutilados de passageiros.
A porta da sala-de-aula se abriu com estrépito, o capitão Zhaz da Guarda Imperial irrompeu como um louco, armado com um dos novos rifles laser modulados por impulsos, Seguiram-no quatro subordinados, todos armados da mesma forma, todos uniformizados com o branco da Casa Vernius. Ninguém em lx, em especial o conde, tinha pensado que Leto ou Rhombur necessitariam de proteção de um guarda-costas.
— Venha conosco, jovens amos! — disse Zhaz, quase sem fôlego.
Os olhos escuros do homem, emoldurados por sua barba castanha, brilharam de assombro quando reparou nos fragmentos de pedra caídos do teto, e depois na janela rachada. Embora estivesse disposto a lutar até a morte, era evidente que Zhaz não entendia o que estava ocorrendo na cidade de Vernii, geralmente tão pacífica.
— O que está acontecendo, capitão? — perguntou Rhombur, enquanto os guardas os acompanhavam no corredor, onde as luzes piscavam. Sua voz se quebrou por um momento, e depois soou com mais energia, como era de esperar do herdeiro do conde —. Diga-me, minha família está a salvo?
Outros guardas e membros da corte ixiana corriam de um lado para outro, gritando estridentemente, em contraponto com outra explosão. De baixo ouviram o tumulto de uma multidão enfurecida, tão longínqua que parecia um murmúrio profundo. Então, Leto distinguiu o zumbido de disparos de fuzis laser. Antes que o capitão respondesse a Rhombur, Leto adivinhou a origem dos distúrbios.
— Há problemas com os subóides, meus senhores! — gritou Zhaz
—. Não se preocupem, logo os controlaremos. — Tocou um botão em seu cinturão, e uma porta invisível até esse momento se abriu na parede recoberta de mármore. O capitão e a guarda da Casa se prepararam durante tanto tempo contra ataques externos, que não sabiam como lutar contra uma revolta interna —. Sigam-me e os porei a salvo! Estou certo de que sua família estará esperando.
Quando ambos os jovens se agacharam para passar pela meia porta oculta atrás dos cristais, o portal se fechou a suas costas. À luz amarela dos globos luminosos de emergência se acendeu, Leto e Rhombur correram junto a uma via eletromagnética, enquanto o capitão do guarda gritava freneticamente por um comunicador manual. O instrumento projetava uma luz lavanda, e Leto ouviu o som metálico da voz que respondia.
— A ajuda está à caminho!
Segundos depois, um carro blindado apareceu na via e parou. Zhaz subiu com os dois jovens herdeiros e um par de guardas, enquanto os outros homens da segurança ficavam para defender sua fuga. Leto se deixou cair em um assento, enquanto Zhaz e Rhombur se apertavam diante.
O carro começou a mover-se.
— Os subóides derrubaram duas colunas de diamante — disse Zhaz, enquanto consultava a tela do comunicador —. Parte da casca superior caiu. — Seu rosto empalideceu de incredulidade. Coçou a barba. — Isso é impossível.
Leto, que tinha visto os sinais da tormenta que se aproximava, sabia que a situação devia ser ainda pior do que o capitão imaginava. Os problemas de IX não iriam ser resolvidos em uma hora.
Ouviu-se um relatório emitido por uma voz metálica, que parecia desesperada.
Os subóides estão subindo em massa dos níveis inferiores! Como é...
Como é possível que se organizaram tão bem?
Rhombur amaldiçoou, e Leto dirigiu um olhar significativo para seu amigo corpulento. Tinha tentado avisar os ixianos, mas a Casa Vernius se negara a considerar a gravidade da situação.
Uma rede de segurança caiu sobre Leto assim que se acomodou, e o veículo continuou acelerando com um zumbido, enquanto subia por cavernas ocultas no teto de rocha. O capitão Zhaz ativou um teclado de comunicações na parte dianteira do compartimento, e seus dedos dançaram sobre as teclas. Um brilho azul rodeou suas mãos. A seu lado, Rhombur observava o capitão com muita atenção, consciente de que se esperava que assumisse o comando.
— Estamos em uma cápsula de fuga — explicou um guarda a Leto
—. Por enquanto ambos estão a salvo. Os subóides não conseguirão atravessar nossas defesas superiores, uma vez que as tenhamos ativado.
— Mas e meus pais? — perguntou Rhombur —. E Kailea?
— Temos um plano para este caso. Você e sua família devem encontrá-los em um ponto de reunião. Por todos os santos e pecadores, espero que meus homens lembrem do que devem fazer. É a primeira vez que não se trata de um exercício.
O veículo mudou várias vezes de via, acelerou ainda mas e subiu no escuro. Ao fim de pouco tempo, a via se nivelou e uma luz iluminou o carro, quando passou em frente a uma imensa janela de plaz blindado unidirecional. Puderam ver rapidamente os distúrbios que aconteciam no chão: os brilhos de incêndios e as manifestações que invadiam a cidade.
Outra explosão, e uma das passarelas transparentes superiores estalou em mil pedaços, que caíram para o fundo da caverna. Figuras diminutas de pedestres se precipitaram para seu fim.
— Pare aqui, capitão! — gritou Rhombur —. Tenho que ver o que está acontecendo.
— Por favor, senhor, não demore mais de alguns segundos —
suplicou o capitão —. Os rebeldes poderiam abrir uma brecha nessa parede.
Leto custou a acreditar o que estava ouvindo. Rebeldes? Explosões?
Evacuações de emergência? IX tinha parecido ser tão sofisticado, tão pacífico, tão... alheio às discórdias. Como os insatisfeitos com sua sorte, os subóides, tinham planejado um ataque tão maciço e coordenado? De onde tinham obtido os recursos?
Através do painel unidirecional, Leto viu que os soldados de Vernius lutavam uma batalha perdida contra enxames de inimigos no chão da caverna. Os subóides lançavam explosivos caseiros ou bombas incendiárias, enquanto os ixianos repeliam as turbas com tiros púrpura de seus fuzis laser.
— O comando diz que os subóides estão se rebelando em todos os níveis — disse Zhaz sem acreditar no que ouvia —. Gritam “Jihad” quando atacam.
— Infernos carmesins! — exclamou Rhombur —. O que isso tem a ver com a Jihad? O que tem a ver conosco?
— Temos que nos afastar da janela — insistiu Zhaz, ao mesmo tempo que puxava a manga de Rhombur —. É preciso chegar ao ponto de encontro.
Rhombur se afastou da janela, no momento em que parte de uma rua laje caia abaixo ela, e ondas de subóides surgiam dos túneis.
O veículo acelerou e girou à esquerda na escuridão, para depois subir mais uma vez. Rhombur assentiu para si, com o rosto tenso e decomposto.
— Temos centros de comando secretos nos níveis superiores.
Tomamos precauções para este tipo de situações, e a esta altura nossas unidades militares devem ter rodeado os centros de fabricação vitais. Não demorarão muito para sufocar a sublevação.
O filho do conde falava como se tentasse convencer a si mesmo.
Zhaz se inclinou sobre o teclado, e a luz pálida banhou seu rosto.
— Olhem, teremos problemas mais adiante, senhor!
Mexeu nos controles. O veículo oscilou e Zhaz tomou uma via lateral. Os outros dois guardas prepararam suas armas, ao mesmo tempo em que esquadrinhavam a escuridão que os rodeava.
— A Unidade Quatro foi aniquilada — disse o capitão Zhaz —. Os subóides abriram caminho através das paredes laterais. Vou chamar a Três!
— Aniquilada? — disse Rhombur, e seu rosto avermelhou de vergonha ou medo —. Como os subóides conseguiram isso?
— O comando diz que os Tleilaxu estão envolvidos, e também alguns de seus dançarinos faciais. Estão armados até os dentes. — Soltou uma exclamação quando viu os relatórios que chegavam —. Deus nos proteja!
Uma avalanche de perguntas assaltou Leto. Os Tleilaxu? Por que atacam IX? É um planeta mecanizado... e os Tleilaxu são fanáticos religiosos. Temem tanto às máquinas ixianas que utilizaram seus metamorfos criados em contêineres para infiltrar-se entre o proletariado subóide? Isso explicaria a coordenação. Mas por que tanto interesse?
Enquanto o veículo avançava, Zhaz mantinha a vista fixa no tabuleiro de comunicações, onde recebia os relatórios da batalha.
— Por todos os santos e pecadores! Engenheiros Tleilaxu explodiram as tubulações que transmitem calor do núcleo do planeta.
— Mas precisamos dessa energia para que as fábricas funcionem —
gritou Rhombur.
— Também destruíram as linhas de reciclagem que servem para transportar os refugos industriais e os gases de escape no manto. — A voz do capitão ficou indignada —. Estão atacando o coração de IX, paralisando nossa capacidade de fabricação.
Enquanto Leto pensava no que tinha aprendido durante os meses passados no planeta, as peças do quebra-cabeças começaram a encaixar em sua mente.
— Pense bem — disse —, tudo isto pode ser reparado. Sabiam exatamente onde golpear para enfraquecer IX sem causar danos permanentes... — Leto assentiu com ar sombrio, agora que tinha compreendido tudo —. Os Tleilaxu querem este planeta e suas instalações intactas. Querem tomar o controle.
— Não seja ridículo, Leto. Jamais entregaríamos IX para os repugnantes
Tleilaxu.
Rhombur parecia mas perplexo que irritado.
— Pode ser que não haja outra alternativa, senhor — disse Zhaz.
Quando Rhombur ladrou uma ordem, um guarda abriu o compartimento e extraiu um par de pistolas de dardos e cinturões escudo, que entregou para os dois príncipes.
Leto prendeu o cinturão sem fazer perguntas e tocou um botão para confirmar se o aparelho funcionava. Sentiu o contato frio da arma de projéteis em sua mão. Checou o carregador de dardos mortíferos, aceitou dois que o guarda lhe deu e os embutiu em compartimentos do cinturão.
O veículo mergulhou em um túnel comprido e escuro. Leto viu luz ao fundo. Recordou o que seu pai lhe havia dito a respeito dos Tleilaxu:
“Destroem tudo aquilo que se parece com uma máquina pensante.” IX era um objetivo natural para eles.
A luz o deslumbrou, e penetraram nela como uma exalação. A religião e a lei que governam a as massas têm que ser uma. Um ato de desobediência tem que constituir um pecado, e exige um castigo religioso. Isto produzirá o duplo beneficio de gerar maior obediência e maior valentia. Temos que depender nem tanto da valentia individual, mas da valentia de toda a população. Pardot Kynes, discurso dirigido aos representantes dos sietches mais importantes
Indiferente ao destino que tinham decidido para ele, Pardot Kynes passeava pelos túneis, acompanhado de seus agora fiéis seguidores Ommun e Turok. Os três foram visitar Stilgar, que descansava e se restabelecia nos aposentos familiares.
Assim que viu seu visitante, Stilgar se sentou na cama. Embora sua ferida pudesse ter sido fatal, o jovem Fremen se recuperou quase por completo em um espaço muito curto de tempo.
— Devo-lhe a água de minha vida, planetólogo — disse, e cuspiu ritualmente no chão da caverna.
Kynes se sobressaltou um momento, mas depois acreditou compreender.
Conhecia a importância da água para aquela gente, sobretudo da apreciada umidade contida no corpo de uma pessoa. Para Stilgar sacrificar uma gota de saliva significava lhe render uma grande honra.
— Eu... agradeço sua água, Stilgar — disse Kynes com um sorriso forçado —. Mas pode conservar o resto. Quero que se restabeleça.
Frieth, a silenciosa irmã de Stilgar, estava junto à cama do jovem, sempre ocupada, e seus olhos de um azul muito profundo se moviam de um lugar para outro, em busca de algo novo para fazer. Olhou por um longo momento para Kynes, como se lhe estivesse analisando, mas sua expressão era indecifrável. Depois saiu em silêncio para trazer mais ungüentos que acelerariam a recuperação do seu irmão. Mais tarde, enquanto Kynes passeava pelos passadiços do sietch, muitos curiosos se reuniram para ouvir o que ele dizia. Envolvidos em suas tarefas cotidianas, a presença do alto e barbudo planetólogo continuava a ser uma novidade interessante. Suas loucas mas, visionárias palavras talvez soassem ridículas, como uma absurda fantasia, mas até os meninos do sietch seguiam o forasteiro.
A multidão ruidosa acompanhou Kynes enquanto soltava seu discurso, fazia gestos e olhava para o teto como se pudesse ver o ciclo. Por mais que se esforçassem, os Fremen eram incapazes de imaginar as nuvens que se aglomeravam para verter água sobre o deserto. Gargantas de umidade que caem do céu vazio? Absurdo!
Alguns meninos riram só de pensar que podia chover em Dune, mas Kynes continuou falando, explicando os passos de seu procedimento para extrair vapor de água do ar. Recolheria até a última gota de orvalho dos lugares sombreados, afim de remodelar Arrakis de forma precisa e preparar o caminho de uma ecologia nova e brilhante.
— Precisam pensar neste planeta em termos de engenharia — disse Kynes, com o tom de um professor que se dirige aos alunos. Gostava de ter um público tão atento, embora não estivesse seguro de que entendessem muito —. Em seu conjunto, este planeta é uma mera expressão da energia, uma máquina impulsionada por seu sol. — Baixou a voz e olhou para uma menina que o observava com os olhos totalmente abertos —. Precisamos remodelá-lo de maneira que se adapte a nossas necessidades. Temos a capacidade de fazer isso em... Dune. Mas contamos com a energia e a auto-disciplina necessárias?
Levantou a vista e olhou para outro ouvinte.
— Só nós podemos dizer.
Àquelas alturas, Ommun e Turok tinham escutado quase todas as conferências de Kynes, e suas palavras tinham se enraizado. Agora, quanto mais descobriam de seu entusiasmo transbordante e sua absoluta sinceridade, mais começavam a acreditar. Por que não sonhar? A julgar pela expressão de seus ouvintes, era evidente que outros Fremen também começavam a considerar as possibilidades. Os anciões do sietch qualificavam estes conversos de crédulos e otimistas. Kynes, inabalável, continuava propagando suas idéias, por mais extravagantes que parecessem. O naib Heinar, com expressão sombria, entreabriu seu único olho e estendeu o crys sagrado, ainda embainhado. O corpulento guerreiro que se erguia imóvel a frente dele ergueu as mãos para receber o presente. O naib entoou as palavras rituais. — Uliet, Liet maior, foste eleito para a tarefa pelo bem de nosso sietch. É um cavalheiro da areia e um dos maiores guerreiros Fremen.
Uliet, um homem de meia idade e feições duras inclinou a cabeça.
Continuou com as mãos estendidas. Esperou sem pestanejar. Embora fosse um homem de profundas convicções religiosas, procurou dissimular seu ardor. — Pegue este crys consagrado, Uliet.
Heinar empunhou o cabo esculpido e extraiu a larga folha branca de sua capa. A faca era uma relíquia sagrada para os Fremen, fabricado a partir do dente de cristal de um verme de areia. Aquele arma em particular se adaptava ao corpo de seu proprietário, de forma que quando este morria, a faca se dissolvia. — Sua folha foi impregnada na venenosa Água da Vida, e benta pelo Shai-Hulud — continuou Heinar —. Tal como manda nossa tradição, a sagrada folha não pode ser embainhada de novo até que tenha provado sangue.
Uliet pegou a arma, aflito de repente pela importância da tarefa para a qual tinha sido eleito. De natureza muito supersticiosa, tinha observado os gigantescos vermes do deserto e montado sobre eles muitas vezes. Mas nunca tinha chegado ao extremo de familiarizar-se com aqueles seres fabulosos. Não podia esquecer que eram manifestações do grande criador do universo. — Obedecerei a vontade do Shai-Hulud.
Uliet aceitou a faca envenenada e a segurou no alto. Outros anciões estavam reunidos atrás do naib, firmes em sua decisão.
— Leve dois coletores de água — disse Heinar — para recolher a água do planetólogo e utilizá-la em benefício de nosso sietch.
— Talvez devêssemos reservar uma pequena quantidade para plantar um arbusto em sua honra — propôs Avalanche, mas ninguém o apoiou.
Uliet saiu da câmara ereto em toda sua estatura e com ar orgulhoso, um verdadeiro guerreiro Fremen. Não tinha medo do planetólogo, embora o forasteiro falasse com ardor de seus planos ridículos e extravagantes, como se fosse guiado por uma visão divina. Um estremecimento percorreu a espinha dorsal do assassino.
Uliet entreabriu seus olhos azuis e afastou esses pensamentos enquanto percorria os corredores escuros. Dois coletores de água o seguiam, carregando garrafões vazios para recolher o sangue de Kynes, e com panos absorventes para secar até a última gota que caísse no chão da caverna.
Não foi difícil encontrar o planetólogo. Um séquito o seguia com expressão de entusiasmo ou ceticismo tingido de assombro. Kynes, que sobressaía sobre outros, caminhava sem rumo, falava e movia os braços.
Seu rebanho o seguia a uma prudente distância. Alguns faziam perguntas, mas a grande maioria se limitava a escutar.
— A grande pergunta do homem não é quantos sobreviverão dentro do sistema — estava dizendo Kynes quando Uliet se aproximou esgrimindo a faca bem visível e a missão estampada em seu rosto —, mas um tipo de existência será possível para os sobreviventes.
Uliet avançou pela multidão. Os ouvintes do planetólogo viram o assassino e sua faca. Afastaram-se e trocaram olhares astutos, alguns decepcionados, outros atemorizados. Emudeceram. Assim eram os costumes do povo Fremen.
Kynes não se deu conta de nada disso. Riscou um círculo no ar com um dedo.
— Aqui é possível encontrar água na superfície, mediante uma mudança leve mas viável. Poderemos conseguir se me ajudarem. Pensem nisso: caminhar ao ar livre sem um traje Destilador. — Apontou para dois meninos mais próximos. Eles se afastaram envergonhados —. Imaginem isto: tanta umidade no ar que os
trajes destiladores não serão necessários.
— Quer dizer que haverá água nos lagos e poderemos beber dela sempre que quisermos? — ironizou um dos observadores mais céticos.
— Certamente. Vi isso em muitos planetas, e nada impedirá que também façamos isso aqui, em Dune. Graças a armadilhas de vento poderemos retirar a água do ar e utilizá-la para plantar erva, arbustos, algo que armazene a água nas células e raízes, e a conserve. De fato, por trás desses lagos poderemos plantar pomares de árvores frutíferas.
Uliet continuou avançando, em transe. Os coletores de água se atrasaram. Não seriam necessários até que o assassinato se consumasse.
— Que tipo de fruta? — perguntou uma menina.
— Oh, a que quiser — disse Kynes —. Primeiro, teríamos que examinar o estado do chão e a umidade. Uvas, possivelmente, nas encostas rochosas. E portyguls, laranjas redondas. Ai, como eu gosto! Meus pais tinham uma árvore em Salusa Secundus. Os portyguls têm uma casca dura e enrugada, mas fácil de cortar. O fruto fica nos galhos, doces e suculentos, e de um laranja mais intenso que possam imaginar.
Uliet só via uma neblina avermelhada. Tinha sua missão gravada a fogo no cérebro, e obscurecia todo o resto. As ordens do naib Heinar ressoavam em seu cérebro. Entrou na zona vazia onde as pessoas tinham retrocedido para escutar as palavras do planetólogo. Uliet procurava não escutar os sonhos, procurava não pensar nas visões que Kynes pregava.
Estava claro que aquele homem era um demônio enviado para perverter as mentes dos seus ouvintes...
Uliet cravou a vista à frente, enquanto Kynes continuava percorrendo o corredor, alheio a tudo. Descrevia com gestos exuberantes pastos, canais e bosques. Pintava quadros em sua imaginação. O planetólogo umedeceu os lábios, como se já estivesse saboreando o vinho de Dune.
Uliet se plantou à frente dele e ergueu a faca envenenada.
No meio de uma frase, Kynes reparou no desconhecido. Parecendo irritado pela distração, piscou uma vez e se limitou a dizer:
— Afaste-se.
Passou ao lado e continuou falando.
— Ai, os bosques! Verdes e exuberantes até perder-se de vista, cobrem colinas, baixios e vales. Nos velhos tempos, a areia invadia as plantas e as destruía, mas no novo Dune será o contrário: o vento transportará as sementes por todo o planeta, e crescerão mais plantas e árvores, como crianças.
O assassino estava imóvel, estupefato pelo fato de ter sido descartado com tanta espontaneidade. Afaste-se. A importância de sua missão o paralisava. Se matasse esse homem, as lendas Fremen o chamariam de Uliet o Destruidor de Sonhos.
— Não obstante, antes temos que instalar armadilhas de ar nas rochas — continuou Kynes, sem fôlego —. São sistemas simples, fáceis de construir, e coletarão a umidade, canalizando-a até lugares onde possamos utilizá-la. Claro, teremos imensas cisternas subterrâneas para toda a água, um passo para devolver a água à superfície. Sim, eu disse devolver. Em outro tempo, a água corria livremente por Dune. Vi os sinais.
Uliet contemplou desolado a faca envenenada, incapaz de acreditar que aquele homem não o temesse. Afaste-se. Kynes tinha enfrentado a morte e a ignorado. Guiado Por Deus.
Uliet continuava quieto, com a faca na mão, e as costas desprotegidas do servidor imperial zombava dele. Seria muito fácil afundar a faca na sua coluna.
Mas o assassino não podia se mover.
Viu a confiança do planetólogo, como se algum guardião sagrado o protegesse. A visão do grande futuro que aquele homem pregava para Dune já tinha cativado aquela gente. E os Fremen, por sua vida dura e as gerações de inimigos que os expulsara de planeta em planeta, necessitavam de um sonho.
Talvez tivesse recebido, por fim, um guia, um profeta. A alma de Uliet se condenaria para sempre se ousasse matar o mensageiro enviado por Deus, esperado durante tanto tempo! Mas tinha aceito a missão encomendada pelo líder do sietch, e sabia que a faca não podia voltar a ser embainhada sem que tivesse provado sangue. Neste caso, o dilema não podia ser resolvido com um corte sem importância, porque a folha estava envenenada. Um simples arranhão o mataria.
Eram feitos irreconciliáveis entre si. A mão do Uliet tremeu sobre o punho da faca esculpida.
Sem perceber que todos tinham emudecido a seu redor, Kynes continuou falando sobre a colocação de armadilhas de vento, mas seu público, consciente do que ia acontecer, olhava para o reputado guerreiro.
Então, a boca de Uliet se encheu de água. Tentou não pensar nisso, mas, como num sonho, teve a impressão de que saboreava o doce e pegajoso suco de portyguls, fruta fresca que podia ser colhida de uma árvore... um pedaço de polpa luxuriosa mudado de um lugar a outro com água pura de um lago. Água para todo mundo.
Uliet retrocedeu um passo, e depois outro, com a faca erguida em um gesto cerimonioso. Retrocedeu um terceiro passo, enquanto Kynes falava de trigo, planícies cobertas de centeio e pancadas de chuva na primavera.
O assassino deu meia volta, aturdido, pensando na palavra que o mensageiro havia dito: Afaste-se.
Contemplou a faca que segurava. Então Uliet se balançou, parou, e voltou a balançar-se para frente, e de forma deliberada caiu sobre sua faca.
Seus joelhos não se dobraram, nem tampouco se encolheu nem tentou evitar seu destino, enquanto se deixava cair de bruços sobre a faca. A ponta envenenada se afundou por baixo do esterno até atingir seu coração. Seu corpo tremeu, estendido no chão. Ao fim de poucos momentos, Uliet morreu. Sangrou muito pouco.
Os Fremen gritaram, impressionados pelo presságio que acabavam de presenciar, e se afastaram. Agora, quando olharam para Kynes com ardor religioso, o planetólogo vacilou e se calou por fim. Virou-se e viu o sacrifício que aquele Fremen acabara de fazer por ele, o derramamento de sangue.
— O que aconteceu aqui? — perguntou —. Quem era este homem?
Os coletores de água se apressaram para recolher o cadáver de Uliet.
Cobriram o assassino caído com mantas, toalhas e panos, e se afastaram para levá-lo aos destiladores de mortos e começar o processo.
Os outros Fremen olharam para Kynes com reverência.
— Olhem! Deus nos indicou o que temos que fazer — exclamou uma mulher —. Ele guiou Uliet. Ele falou a Pardot Kynes. — Umma Kynes — disse alguém. Profeta Kynes.
Um homem se levantou e olhou para os outros congregados.
— Seríamos loucos se não o escutássemos agora. Algumas pessoas saíram correndo em todas direções do sietch.
Como não compreendia a religião Fremen, Kynes não entendia nada.
Entretanto, a partir desse momento pensou que não seria difícil encontrar ouvintes. Nenhum forasteiro jamais conheceu uma mulher Tleilaxu e viveu para contar. Considerando a propensão dos Tleilaxu para a manipulação genética (vejam-se, por exemplo, informes anexos sobre clones e gholas), esta simples observação levanta um sem-fim de perguntas adicionais. Análise da Bene Gesserit
Uma mulher ixiana sem fôlego, provida dos créditos de Correio, chegou a Kaitain com um importante comunicado para o imperador. Entrou no palácio como um furacão. Nem mesmo Cammar Pilru, embaixador oficial de IX, estava informado da mensagem nem das terríveis notícias sobre a revolta dos subóides.
Como as comunicações fotos instantâneas de dobra-espacial não existiam entre planetas, os Correios oficiais embarcavam em Cruzeiros rápidos, portadores de comunicações memorizadas imediatamente para entregá-las em pessoa a seus destinatários. O resultado era imensamente mais veloz que por rádio ou outras ondas eletrônicas, que demorariam anos para cruzar um espaço tão imenso.
Escoltada por dois homens da Corporação, a Correio Yuta Brey solicitou uma entrevista imediata com o imperador. A mulher se negou a revelar do que se tratava, nem mesmo seu próprio embaixador, que soube do vôo e correu para a sala de audiências. O magnífico Trono do Leão Dourado estava vazio. Elrood voltara a sentir-se doente e fatigado.
— Só posso entregar esta mensagem ao imperador, uma solicitação urgente do conde Dominic Vernius — disse Brey ao embaixador Pilru. A Corporação e a CHOAM utilizavam diversas técnicas de choque para doutrinar os Correios oficiais, afim de garantir precisão e lealdade —.
Entretanto, não se afaste muito, embaixador. Também trago notícias vitais referentes a possível queda de IX. Deve estar informado da situação.
O embaixador Pilru soltou uma exclamação afogada e suplicou por mais informação, mas a mulher guardou silêncio. Deixou a suas escoltas da Corporação e o diplomata ixiano na sala de audiências. Guardas de elite Sardaukar examinaram seus créditos e a conduziram a um hall adjacente ao dormitório do imperador.
O imperador, com aspecto gasto e envelhecido, usava um manto com o emblema imperial na lapela. Estava sentado em uma poltrona de respaldo alto, com os pés apoiados sobre um aquecedor. A seu lado se erguia um homem alto de bigodes caídos, que se identificou como o chambelán Aken Hesban.
Brey se surpreendeu ao ver o ancião sentado daquela forma tão vulgar, e não no majestoso no trono. Seus olhos tintos de azul estavam invadidos pela enfermidade, e mal podia manter a cabeça erguida sobre seu pescoço esquelético. Parecia que poderia falecer a qualquer momento.
Apresentou-se com uma breve reverência.
— Sou a Correio Yuta Brey de IX, senhor, com uma importante solicitação do conde Dominic Vernius.
O imperador franziu o sobrecenho quando ouviu o nome de seu rival, mas não nada disse, preparado para dar seu golpe. Tossiu e cuspiu em um lenço.
— Estou ouvindo.
— Somente o imperador pode ouvir — replicou a mulher, e olhou com insolência para Hesban,
— Ah, sim? — disse Elrood com um sorriso tenso —. Ultimamente não ouço muito bem, e este distinto cavalheiro é meu ouvido. Ou deveria dizer meus ouvidos? Se utiliza o plural nestes casos? O chambelán se inclinou e sussurrou algo ao imperador.
— Acabo de ser informado que é meus ouvidos — disse Elrood com um firme assentimento.
— Como quiser — disse Brey.
Recitou as palavras memorizadas, utilizando as entonações empregadas pelo conde Dominic Vernius.
— Estamos sendo atacados pelos Bene Tleilax, sob a falsa alrgação de distúrbios
internos. Através de dançarinos faciais infiltrados, os Tleilaxu fomentaram uma insurreição entre nossa classe operária. Graças a estes meios traiçoeiros, os rebeldes contaram com a vantagem da surpresa.
Muitas de nossas instalações defensivas foram destruídas ou sitiadas. Como dementes, gritam Jihad! Jihad!
— Guerra Santa? — perguntou Hesban —. Por que? O que estão fazendo agora em IX? — Não temos idéia, senhor chambelán. É bem sabido que os Tleilaxu são fanáticos religiosos. Nossos subóides são criados para seguir instruções, do que se desprende que é fácil manipulá-los. — Yuta Brey vacilou —. O conde Dominic Vernius solicita respeitosamente a imediata intervenção dos Sardaukar do imperador contra este ato ilegal.
Expôs muitos detalhes sobre as posições militares ixianas e Tleilaxu, incluindo o alcance da rebelião, as fábricas inutilizadas e os cidadãos assassinados. Uma das vítimas mais importantes era a esposa do embaixador, uma banqueira, morta por causa de uma explosão no edifício da embaixada da Corporação.
— Eles foram muito longe. — Hesban, indignado, parecia disposto a dar a ordem de defender IX. A solicitação da Casa Vernius era razoável.
Olhou para o imperador —. Senhor, se os Tleilaxu desejam acusar IX de violar as normas da Grande Convenção, que o façam em um tribunal do Landsraad.
Apesar do incenso e das bandejas de canapés com especiaria, Brey ainda sentiu um aroma de enfermidade no ar viciado do hall. Elrood se remexeu sob seu pesado manto. Entreabriu os olhos.
— Tomaremos em consideração sua solicitação, Correio. Neste momento, preciso descansar um pouco, ordens dos médicos, como sabe.
Falaremos do assunto amanhã. Rogo-lhe que tome um refresco e escolha uma câmara nos aposentos de nossos dignitários visitantes. Pode ser que também deseje se reunir com o embaixador ixiano.
Um olhar de alarme apareceu nos olhos da mulher.
— Esta informação é de poucas horas atrás, senhor. Nossa situação é desesperada. Tenho instruções de lhe dizer que o conde Vernius considera fatal qualquer atraso.
Hesban respondeu em voz alta, ainda confuso pela falta de iniciativa de Elrood.
— O imperador não lhe diz nada, jovem. Solicita, e pronto.
— Minhas mais sinceras desculpas, senhor. Rogo-lhe que perdoe minha agitação, mas hoje vi meu planeta receber um golpe mortal. Que resposta devo dar ao conde Vernius?
— Tenha paciência. Entrarei em contato com ele no seu devido tempo, quando tiver considerado minha resposta.
A cor abandonou o rosto de Brey.
— Posso perguntar quando?
— Não! — trovejou Elrood —. Sua audiência acabou. — Fulminou-a com o olhar. O chambelán Hesban se encarregou da situação: apoiou uma mão no ombro de Brey e a conduziu para a porta, enquanto olhava para o imperador.
— Como quiser, senhor.
Brey fez uma reverência, e os guardas de elite a acompanharam para fora da habitação.
Elrood tinha visto ira e desespero na expressão da Correio quando compreendeu que sua missão tinha fracassado.
Mas tudo tinha funcionado perfeitamente. Assim que a Correio ixiana e o chambelán da corte saíram, o príncipe herdeiro Shaddam e Fenring entraram na sala de espera. Elrood sabia que estavam escutando às escondidas.
— Pouca educação estão adquirindo, não é? — disse —. Observe e aprenda.
— O senhor administrou a situação como um mestre, pai. Os acontecimentos estão se desenrolando exatamente como previu.
Com uma boa ajuda invisível do Fenring e eu.
O imperador sorriu, e depois teve um acesso de tosse.
— Meus Sardaukar seriam mais eficientes que os Tleilaxu, mas não podia correr
o risco de que minha mão fosse notada logo no início. Um protesto oficial de IX ao Landsraad provocaria problemas. Temos que nos livrar da Casa Vernius e pôr em seu lugar os Tleilaxu como nossos marionetes, com legiões Sardaukar para encarregar-se da repressão e garantir a conquista. — Hummmm, possivelmente seria preferivel referir-se a isso como procurar uma transição suave e organizada. É melhor evitar a palavra
“repressão”.
Elrood sorriu com seus lábios exangues e exibiu os dentes, de tal forma que sua cabeça pareceu mais que nunca com uma caveira.
— Muito bem, Hasimir, está aprendendo a ser um político... apesar de seus métodos bastante diretos.
Embora os três conhecessem os verdadeiros motivos da rebelião em IX, nenhum falou dos benefícios que receberiam depois que Hidar Fen Ajidica tivesse iniciado as pesquisas para obter a especiaria artificial. O chambelán Hesban invadiu a habitação.
— Desculpe-me, senhor. Quando deixei a Mensageira com suas escoltas da Corporação, ela informou ao embaixador que o senhor tinha se negado a agir, conforme mandam os regulamentos imperiais. Ela se reuniu com o embaixador Pilru para solicitar uma audiência com os membros do Conselho do Landsraad. — Hummmm, ela está se adiantando, senhor — disse Fenring.
— Absurdo — replicou o velho imperador, e depois procurou sua onipresente jarra de cerveja —. O que uma mensageira sabe de regulamentos imperiais?
— Embora não recebam o treinamento completo de um Mentat, os Mensageiros Licenciados têm uma memória perfeita, senhor — disse Fenring, ao mesmo tempo em que se aproximava do imperador para situar-se na posição que sempre ocupava o chambelán Hesban —. Não pode processar os conceitos, mas é muito possível que tenha acesso em seu cérebro a todas os regulamentos e códigos.
— Ah, sim, mas como pode opor-se à decisão do imperador se ele nem sequer a expressou? — perguntou Shaddam.
Hesban retorceu o bigode, e franziu o cenho em direção ao príncipe herdeiro, mas se absteve de repreender Shaddam por sua ignorância da lei imperial.
— Por mútuo acordo entre o Conselho Federado do Landsraad e a Casa Corrino, o imperador tem que prestar auxílio imediato, ou convocar uma reunião urgente do Conselho de Segurança para tratar o assunto. Se seu pai não agir antes de uma hora, o embaixador ixiano tem pleno direito de convocar o Conselho sem esperar.
— O Conselho de Segurança? — Elrood fez uma careta e olhou para o chambelán Hesban, e depois para Fenring —. Que regulamento essa mulher infernal está citando?
— Volume trinta, seção seis ponto três, da Grande Convenção.
— O que diz?
Hesban respirou fundo.
— Está relacionada com situações de guerra entre Casas, nas quais uma das partes em litígio apela ao imperador. O regulamento foi redigido para proibir que os imperadores tomassem partido. Nesses casos, devem agir como arbitro neutro. Neutro, sim, mas... devem agir. — Moveu os pés
—. Senhor, temo que não compreendo seu desejo de atrasar a intervenção.
Não pretende condenar os Tleilaxu?
— Há muitas coisas que você não compreende, Aken — disse o imperador —. Limite-se a cumprir meus desejos. O chambelán pareceu ofendido. — Hummmm. — Fenring passeou por trás da poltrona de encosto alto, e depois agarrou uma massa de fruta caramelizada de uma bandeja —.
Tecnicamente, a Mensageira tem razão, senhor. Não pode atrasar a decisão em um ou dois dias. O regulamento também diz que, se é convocada, a reunião do Conselho de Segurança não pode terminar sem uma decisão firme. — Fenring apoiou um dedo sobre seus lábios enquanto pensava —.
Os grupos hostis e seus representantes têm direito a assistir. No caso dos ixianos, seu representante poderia ser tanto a Corporação Espacial quanto o embaixador Pilru, que, devo acrescentar, tem um filho ameaçado pela revolta de IX, e outro filho que acaba de ingressar na Corporação.
— Lembre-se também que a esposa do embaixador foi assassinada durante os
distúrbios — acrescentou Hesban —. Há gente morrendo.
— Levando em conta nossos planos para utilizar as instalações de IX, seria melhor manter a Corporação à margem dos acontecimentos —
disse Shaddam. — Planos? — O chambelán pareceu alarmado ao descobrir que certas decisões importantes tinham sido ocultas dele. Virou-se para Elrood
—. Que planos são esses, senhor?
— Mais tarde, Aken. — O imperador franziu o sobrecenho e puxou o manto sobre seu peito fundo —. Maldita seja essa mulher!
— Os homens da Corporação estão esperando no salão — insistiu Hesban —. O embaixador Pilru solicitou uma audiência com o senhor.
Dentro de pouco tempo, outras Casas serão informadas dos acontecimentos, sobretudo as que têm diretórios na CHOAM. Os distúrbios de IX provocarão graves conseqüências econômicas, ao menos em um futuro imediato. — Traga-me os regulamentos e dois Mentats para que efetuem análise independentes. Encontrem alguém que nos tire desta confusão! —
O imperador pareceu reanimar-se de repente, animado pela crise —. A Casa Corrino não vai interferir na conquista de IX pelos Tleilaxu. Nosso futuro depende disso.
— Como quiser, senhor.
Hesban fez uma reverência e saiu rapidamente, ainda perplexo, mas disposto a obedecer as ordens.
Minutos depois um criado entrou na sala de espera com um projetor e uma tela oval de plaz negro. O criado montou o aparelho sobre uma mesa. Fenring a moveu para que o imperador a visse bem. Hesban retornou, flanqueado por dois Mentats, com os lábios manchados de suco de safo. Guardas Sardaukar impediram que vários representantes se introduzissem na estadia. Dançaram imagens sobre a mesa, palavras negras impressas em galach. Shaddam, ao lado de seu amigo, esquadrinhou os meandros da lei, como se tentasse localizar algo que tivesse passado desapercebido a todos.
Os dois Mentats se mantiveram imóveis, com os olhos cravados na distância, enquanto realizavam análises diferentes da lei e seus códigos.
— Para começar — disse um deles —, analisem o parágrafo seis ponto três.
As palavras desfilaram pelo projetor, e depois pararam em uma página concreta. Um parágrafo estava sublinhado em vermelho, e uma segunda holocópia da mensagem apareceu no ar. A cópia flutuou até pousar sobre o regaço do imperador, para que ele e outros pudessem lê-la. — Não funcionará resultado — disse o segundo Mentat — Remete a setenta e oito ponto três, volume doze.
Elrood leu o regulamento e passou uma mão sobre a página, que desapareceu.
— Maldita Corporação — resmungou —. Nós os obrigaremos a ajoelhar assim que...
Fenring pigarreou para impedir que o imperador terminasse. O holoprojetor começou a procurar de novo, enquanto os Mentats aguardavam em silêncio. O chambelán Hesban se aproximou para estudar as páginas que passavam a sua frente ele.
— Malditas sejam estes regulamentos! Eu gostaria de dinamitar todas as leis. — Elrood não conseguia se acalmar—. Sou eu o governador do Império, ou não? Tenho que agradar ao Landsraad, tenho que respeitar os caprichos da Corporação... Um imperador não deveria inclinar-se ante outros poderes.
— Tem razão, senhor — reconheceu Hesban —, mas estamos presos em um matagal de tratados e alianças.
— Pode ser que aqui haja algo — disse Fenring —. Apêndice Jihad dezenove zero zero e quatro. — Fez uma pausa —. Em questões relacionadas com a Jihad Butleriana e as proibições estabelecidas com posterioridade, concede-se ao imperador a faculdade de tomar decisões referentes ao castigo dos que desobedecem a proibição contra as máquinas pensantes.
Os olhos fundos do imperador se iluminaram.
— Ah, e como se suscitou certa dúvida sobre possíveis violações ixianas, talvez possamos proceder legalmente com as devidas precauções.
Sobretudo porque recebemos relatórios inquietantes sobre certas máquinas novas.
— Sim? — respondeu o chambelán. — Realmente. Lembra-se dos meks de combate autodidatas que são vendidos no mercado negro? Isso merece uma investigação minuciosa.
Shaddam e Fenring trocaram um sorriso. Todos sabiam que essa atividade não resistiria a uma investigação prolongada, mas no momento bastava para que Elrood atrasasse sua decisão. Em um dia ou dois, os Tleilaxu consolidariam sua conquista. Sem apoio externo, a Casa Vernius estava perdida.
Hesban assentiu enquanto estudava o texto.
— Segundo este apêndice, o imperador Padishah é o “Santo Guardião da Jihad, encarregado de protegê-la e a todos os seus representantes.
— Ah, sim. Neste caso, poderíamos pedir as supostas provas do embaixador Tleilaxu, e depois conceder um tempo limitado a Pilru para responder. — Shaddam fez uma pausa e olhou para Fenring em busca de apoio —. Quando acabar o dia, o imperador poderia pedir um afastamento temporário das hostilidades. — Mas então será muito tarde — disse o chambelán Hesban.
— Exato. IX cairá e não poderemos fazer nada para impedir.
Como muitas delícias culinárias, a venganxa é um prato que se saboreia melhor lentamente, depois de uma preparação longa e minuciosa.
Imperador Elkood IX Reflexões em seu leito de morte Meia hora depois, Shaddam viu entrar no hall do imperador os dois embaixadores inimigos para celebrar uma audiência privada destinada a solucionar o problema. Por sugestão de Fenring, estava vestido com uma vestimenta mais oficial, adornada com ornamentos militares, de modo que enquanto seu pai exibia um aspecto desalinhado e doentio, ele tinha a aparência de um líder.
O embaixador ixiano tinha o rosto largo, com a pele lisa e bochechas rosadas. Todo seu corpo parecia enrugado em um macacão de estamena, com lapelas largas e pescoço fraco. Como admitia que não conhecia a situação de IX detalhadamente, trouxe consigo a Mensageira Yuta Brey, como testemunha ocular.
O único delegado Tleilaxu que conseguiram encontrar, Mofra Tooy, era um homem de pouca estatura, cabelo laranja emaranhado e pele cinzenta. O
homem projetava uma raiva contida, e seus pequenos olhos escuros fulminaram seu colega ixiano. Tooy tinha recebido instruções precisas sobre o que devia dizer.
O embaixador Pilru continuava consternado e confuso pela situação, e só agora começava a assimilar a morte de sua esposa, com a conseguinte dor. Todo lhe parecia muito irreal. Um pesadelo. Remexeu-se em seu lugar, preocupado com seu planeta, seu cargo e seu filho desaparecido, C'tair. O
olhar do embaixador vagava pela sala em busca de apoio entre os conselheiros e funcionários do imperador. Sentiu um calafrio ao ver seus olhares inflexíveis.
Dois agentes da Corporação, de aspecto inexpressivo, esperavam na parte posterior do hall. Um deles tinha o rosto corado e cheio de cicatrizes.
A cabeça do outro era disforme, arredondada na nuca. Shaddam tinha visto gente semelhante em ocasiões anteriores, gente que tinha enfrentado a preparação para Navegantes da Corporação mas que não tinha suportado os rigores do processo de seleção.
— Primeiro escutaremos Mofra Tooy — disse o imperador com a voz rouca —. Quero que explique as suspeitas do seu povo.
— E o motivo para terem iniciado uma ação tão violenta e sem precedentes! — interveio Pilru. Os outros ignoraram seu desabafo.
— Nós descobrimos atividades ilegais em IX — começou o Tleilaxu com voz aguda —. Os Bene Tleilax consideram fundamental deter esta calamidade, antes que outra insidiosa inteligência mecânica se propague pelo Império. Se tivéssemos esperado, possivelmente a raça humana teria padecido por outro milênio de escravidão. Não tivemos outra alternativa senão agir como fizemos.
— Mentiroso! — rugiu Pilru —. Por que se dizem defensores da lei e da ordem sem se submeter ao procedimento legal exigido? Carecem de provas, porque não aconteceram atividades ilegais em IX. Nós respeitamos todas as diretrizes da Jihad.
Com notável calma para um Tleilaxu, Tooy manteve o olhar fixo nos presentes, como se o embaixador nem sequer fosse merecedor de seu desprezo.
— Nossas forças iniciaram uma ação necessária antes que as provas pudessem ser destruídas. Por acaso não aprendemos com a Grande Revolução? Uma vez ativada, uma inteligência mecânica adquire tendências vingativas, e é capaz de
desenvolver a capacidade de autocopiar-se e espalhar-se como um incêndio incontrolado. IX é a origem de todas as mentes mecânicas. Nós, os Tleilaxu, continuamos a Guerra Santa com o objetivo de libertar o universo deste inimigo. — Embora o embaixador ixiano o sobrepujasse por duas cabeças, Tooy gritou —: Jihad!
Jihad!
— Estamos vendo, senhor — disse Pilru, retrocedendo vários passos
—. Este comportamento é inqualificável.
— “Não construirás nenhuma máquina a semelhança da mente humana” — citou o Tleilaxu —. Você e a Casa Vernius serão destruídos por seus pecados.
— Acalme-se.
Elrood conteve um sorriso, e indicou a Tooy que retornasse a sua posição anterior. O diminuto delegado obedeceu a contra gosto.
Pilru e a Mensageira ixiana conferenciaram em voz baixa antes que o embaixador voltasse a tomar a palavra.
— Peço ao imperador que exija provas dessas violações. Os Bene Tleilax, agindo como bandidos, destruíram nossa base comercial sem primeiro apresentar suas acusações ao Landsraad. — E se apressou a acrescentar —. Nem ao imperador.
— Estamos reunindo as provas — replicou Tooy —. Incluirão o verdadeiro motivo dos atos criminosos cometidos pelos ixianos. Seus margens de lucros são falsas, e põem em perigo sua condição de membros da CHOAM. Viva, pensou Shaddam, e trocou um olhar de cumplicidade com Fenring. Os relatórios que falsificamos com tanta mestria! Ninguém manipulava os documentos melhor que Fenring.
— É mentira — disse Pilru —. Nossos lucros são maiores que nunca, graças ao novo desenho dos Cruzeiros. Perguntem à Corporação. Seu povo não tem direito a incitar a violência...
— Tínhamos todo o direito de proteger o Império de outro período de domínio das máquinas. Seus subterfúgios não enganam sobre o motivo de fabricar mentes mecânicas. Seus lucros são mais valiosos que o bem-estar da humanidade? Estão vendendo suas almas!
As veias se marcaram nas têmporas de Pilru, que perdeu toda sua calma de diplomata.
— Está mentindo, bastardo, isto não é uma farsa monstruosa! —
Virou-se para Elrood —. Senhor, peço-lhe que envie os Sardaukar a lX
para proteger nosso povo de uma invasão ilegal realizada pelas forças dos Bene Tleilax. Não violamos nenhuma lei.
— Violar a Jihad Butleriana é uma acusação muito grave — disse o imperador pensativo, embora tudo aquilo nada lhe importasse. Tampou a boca quando voltou a tossir —. Não podemos ignorar uma acusação dessas.
Pense nas conseqüências...
Elrood falava com deliberada lentidão, coisa que Shaddam achou divertida. O príncipe herdeiro não podia deixar de admirar algumas facetas de seu pai, mas Elrood já não era jovem, e tinha chegado o momento de sangue novo tomar as rédeas do poder.
A Mensageira falou.
— Imperador Elrood, os Tleilaxu tentam ganhar tempo enquanto as batalhas acontecem em lX. Utilize seus Sardaukar para impor um afastamento das hostilidades, e depois cada lado apresentará seu caso e as provas ante o tribunal.
O imperador arqueou as sobrancelhas e olhou para ela.
— Como simples Mensageira, não está qualificada para discutir comigo —. Dirigiu-se aos Sardaukar —: Expulsem esta mulher.
O desespero transpareceu na voz da mulher.
— Perdoe-me, senhor, mas conheço muito de perto a crise de lX, e meu senhor Vernius me instruiu para que desse todos os passos necessários. Exigimos que os Bene Tleilax apresentem provas imediatamente ou retirem suas forças. Não estão reunindo provas. Trata-se de uma tática difamatória!
— Quando poderão apresentar as provas? — perguntou o imperador, olhando para Tooy.
— Supostas provas — corrigiu Pilru.
— No prazo de três dias imperiais, senhor.
Os ixianos protestaram.
— Mas senhor, nesse tempo podem fortalecer suas conquistas militares e falsificar provas. — Os olhos do Pilru cintilaram —. Já assassinaram minha esposa, destruíram edifícios... Meu filho desapareceu.
Não permita que continuem nos saqueando durante três mais dias!
O imperador refletiu enquanto os reunidos a guardavam em silêncio.
— Tenho certeza que exageram a gravidade da situação para me obrigar a tomar uma decisão precipitada. Levando em conta as acusações, inclino-me por esperar as provas, ou a sua ausência. — Olhou para seu chambelán —. O que me diz, Aken? Isto está dentro da lei imperial?
Hesban murmurou sua aprovação.
Elrood se inclinou em direção a Pilru. como se lhe estivesse concedendo um favor incrível.
— Não obstante, as provas devem ser apresentadas em dois dias, não três. Pode conseguir isso, embaixador Tooy?
— Será difícil, senhor, mas... como quiser.
Pilru avermelhou de cólera.
— Meu senhor, como é possível que esteja do lado destes Tleilaxu asquerosos? — Embaixador, seus comentários não são bem recebidos em meu hall imperial. Tenho o maior respeito por seu conde... e por sua dama Shando, é óbvio.
Shaddam olhou para os agentes da Corporação, no fundo da sala.
Estavam conversando em sua linguagem secreta. Uma violação da Jihad Butleriana era algo muito sério para eles.
— Mas dentro de dois dias meu planeta estará perdido.
Pilru dirigiu um olhar suplicante para os homens da Corporação, mas os agentes permaneceram em silêncio e não olharam para ele.
— Não pode fazer isto, senhor! Condenará nosso povo à destruição!
— gritou Yuta Brey a Elrood.
— Mensageira, você é muito impertinente, assim como Dominic Vernius. Não ponha mais a prova minha paciência. — Elrood olhou severamente para o representante dos Tleilaxu —. Embaixador Tooy, me traga provas incontestáveis em de dois dias, ou retire suas forças de IX.
Mofra Tooy fez uma reverência. Um sorriso se insinuou nos cantos de sua boca.
— Muito bem — disse o embaixador ixiano, tremulo de raiva —.
Solicito agora mesmo que o Conselho de Segurança do Landsraad se reúna imediatamente.
— E assim será, conforme ditam as leis — replicou Elrood —. Agi da maneira que, em minha opinião, serve melhor ao Império. Mofra Tooy se dirigirá ao Conselho em um prazo de dois dias, e vocês poderão fazer o mesmo. Se nesse período quiser retornar ao seu planeta, um Cruzeiro estará à disposição, advirtolhes, porém, que se estas acusações forem verdadeiras, embaixador, a Casa Vernius terá que responder a muitas coisas.
Dominic Vernius, com a calva coberta de suor, estudou seu embaixador em Kaitain. Pilru acabara de transmitir um relatório estarrecedor ao conde e sua esposa. Era evidente que o homem estava ansioso por sair à procura do seu filho, perdido no caos da cidade subterrânea, embora fizesse menos de uma hora que chegara ao planeta.
Encontravam-se em um dos centro de operações subterrâneo, nas profundezas do teto de rocha, pois o Despacho Orbital transparente era muito vulnerável em tempos de guerra. ouviam-se ruídos de maquinaria, transportes de tropas e equipamentos através das catacumbas da casca planetária.
Os ataques defensivos não tinham sortido efeito. Graças a sabotagens bem planejadas e a barricadas erguidas estrategicamente, os Tleilaxu controlavam a maior parte do mundo subterrâneo, e os ixianos foram sendo abandonados em zonas cada vez menores. O número dos subóides rebeldes ultrapassava em muito ao dos defensores ixianos, vantagem que os invasores Tleilaxu aproveitavam ao máximo, já que manipulavam com facilidade os operários.
— Elrood nos traiu, meu amor — disse Dominic, abraçando sua esposa. Só conservavam as roupas que vestiam e alguns objetos que tinham conseguido resgatar. O conde compreendera finalmente a magnitude da conspiração —. Sabia que o imperador me odiava, mas nunca esperei um comportamento tão vil,
nem sequer dele. Oxalá eu tivesse provas.
A dama Shando, pálida e frágil, embora seus olhos cintilassem com determinação de ferro, respirou fundo. Delicadas rugas circundavam sua boca e olhos deliciosos, a única indicação de sua idade avançada, sutis avisos que serviam a Dominic para amar cada dia mais sua beleza, amor e caráter. A mulher puxou seu braço.
— E se eu fosse vê-lo e me entregasse a sua mercê? Talvez se mostrasse razoável devido às lembranças que conserva de mim...
— Não permitirei que faça isso. Ele agora te odeia, e a mim por me casar com você. Roody desconhece o significado da palavra compaixão. —
Dominic fechou os punhos e escrutinou o rosto do embaixador Pilru, mas não descobriu a menor esperança. Olhou para Shando de novo disse —.
Conhecendo-o como conheço, não há dúvida de que se acha imerso em intrigas tão complexas que não poderia recuar mesmo que quisesse. Nunca receberemos compensações de guerra, mesmo que saíssemos vitoriosos. A fortuna de minha família será confiscada, e o poder me será arrebatado. —
Baixou a voz e tentou dissimular seu desespero —. E tudo para vingar-se de mim por ter roubado sua mulher há tanto tempo atrás.
— Farei o que me pede, Dominic — disse Shando em voz baixa —.
Me fez sua esposa em vez de sua concubina. Sempre lhe disse…
Sua voz emudeceu.
— Eu sei, meu amor. — Apertou sua mão —. Eu também faria tudo por você. Valeu a pena... apesar disto.
— Espero suas ordens, meu senhor — disse o embaixador Pilru, muito agitado. C'tair tinha que estar em algum lugar, escondido, lutando, talvez morto.
Dominic mordiscou o lábio.
— É evidente que ele ordenou a destruição da Casa Vernius, e só há uma alternativa. Todas essas acusações inventadas não significam nada, assim como o papel em que estão escritas as leis. O imperador tenta nos destruir, e não podemos lutar contra a Casa Corrino, sobretudo contra traições como esta. O Landsraad vai ignorar o assunto, e depois se precipitará sobre os despojos da
guerra. — Ergueu os ombros e se elevou em toda sua estatura —. Pegaremos as armas atômicas e escudos da família e fugiremos para onde o Império não possa nos alcançar.
Pílru gritou.
— Transformar-se em... um renegado, meu senhor? O que será de nós?
— Infelizmente, não há opção, Cammar. É a única forma de escapar com vida. Ponha-me em contato com a Corporação e peça um transporte de emergência. Cobre qualquer favor que nos devam. Os homens da Corporação estiveram presentes durante sua audiência com o imperador, de modo que conhecem nossa situação. Diga-lhes que queremos levar nossas forças militares, as poucas que restaram. — Dominic inclinou a cabeça —.
Nunca imaginei que chegaria este momento... expulsos de nosso palácio e de nossas cidades...
O embaixador assentiu e abandonou a estadia.
Uma parede do centro administrativo cintilou e apareceram quatro projeções, em outros tantos painéis, das batalhas que aconteciam em todo o planeta, cenas transmitidas por visicoms. As baixas ixianas continuavam aumentando.
Dominic meneou a cabeça.
— Devemos falar com nossos amigos e colaboradores mais íntimos e lhes informar dos perigos que enfrentarão se nos acompanharem. Será mais difícil e perigoso fugir conosco que ser subjugados pelos Tleilaxu.
Ninguém será obrigado a nos acompanhar, só voluntários. Sendo uma Casa renegada, todos os nossos familiares e partidários serão alvo dos caçadores de glória.
— Caçadores de recompensas — corrigiu Shando com voz afogada pela pena e ira —. Teremos que nos separar, Dominic, para apagar nossa pista e aumentar nossas chances de sobreviver.
Na parede, a imagem de dois painéis desapareceu quando os Tleilaxu destruíram os visicoms.
Dominic suavizou sua voz.
— Mais tarde, quando tivermos recuperado nossa Casa e nosso planeta,
recordaremos o que fizemos aqui e o que se disse. Isto é história.
vou contar-lhe um conto, um caso para Leto ao que nos visita.
— Eu gosto de seus contos — disse a mulher, com um doce sorriso em seu rosto enérgico mas delicado. Seus olhos cor avelã cintilaram —.
Muito bem, o que contaremos a nossos netos?
Por um momento, o conde Vernius se concentrou em uma rachadura que surgira no teto e na água que escorria por uma parede.
— Em tempos remotos Salusa Secundus era a capital do Império.
Sabe porquê a mudaram para Kaitain?
— Algum problema com as armas atômicas? — respondeu Shando
—. Salusa ficou destruída.
— Segundo a versão imperial, foi um acidente, mas a Casa Corrino diz isso porque não quer dar idéias às pessoas. A verdade é que outra família renegada, uma Grande Casa cujo nome foi apagado dos arquivos históricos, conseguiu aterrissar em Salusa com as armas atômicas de sua família. Durante um audaz ataque bombardearam a capital e provocaram uma catástrofe ecológica. O planeta ainda não se recuperou.
— Um ataque com armas atômicas? Não sabia.
— Depois, os sobreviventes transportaram o trono imperial de Kaitain, em um sistema diferente, mais seguro, onde o jovem imperador Hassik III reconstruiu o governo. — Ao perceber preocupação no rosto de sua mulher, abraçou-a com força —. Nós não fracassaremos, meu amor.
Os outros painéis se apagaram quando os Tleilaxu desativaram os últimos visicoms. No Império existe o princípio do individual, nobre mas poucas vezes utilizado, pelo qual uma pessoa que viola uma lei escrita em uma situação de extremo perigo ou necessidade pode solicitar uma sessão especial da corte de jurisdição, afim de explicar e sustentar a necessidade de seus atos. Certo número de procedimentos legais derivam deste princípio, entre eles o Jurado Drey, o Tribunal Cego e o Julgamento de Confisco.Príncipe Raphael Corrino
Quando examinou o despenteado cabelo negro de Leto, suas roupas cobertas de pó e os fios de suor que escorriam sobre seu rosto, Rhombur riu. Não pretendia que sua reação fosse ofensiva, mas parecia incapaz de acreditar na história absurda que Leto tinha contado. Retrocedeu e examinou seu amigo. — Infernos carmesins! Não acha que está, er... exagerando um pouco, Leto?
Rhombur se aproximou de uma das amplas janelas. Em nichos distribuídos por toda a parede da habitação se viam curiosidades geológicas recolhidas para seu prazer e orgulho. A coleção de minerais, cristais e gemas agradava muito mais a Rhombur que as comodidades de sua posição como filho do conde. Poderia ter adquirir muitos espécimes mais, mas o príncipe tinha encontrado cada rocha em suas explorações das cavernas e pequenos túneis.
Mas durante todas as suas explorações Rhombur, e de fato toda a família Vernius, tinha permanecido cego ao mal-estar dos trabalhadores.
Agora, Leto compreendia por que o velho duque tinha insistido em que aprendesse a conhecer seus súditos e a conhecer o estado de ânimo do povo. “No fundo, rapaz, governamos às custas de seus sofrimentos —
havia dito Paulus —, embora por sorte a maioria da população não perceba.
Se for um bom governante, ninguém pensará nisso.”
Parecendo desconcertado pelas notícias dramáticas e com a aparência desalinhada de Leto, o jovem de cabelo revolto olhou para as massas de operários que trabalhavam nos estaleiros. Tudo parecia tranqüilo, como de costume.
— Leto, Leto... — Apontou um dedo rechonchudo para as massas inferiores, na aparência satisfeitas, que trabalhavam como parasitas obedientes —. Os subóides nem sequer são capazes de decidir por si mesmos o que vão jantar, muito menos se unir para iniciar uma rebelião.
Isso exige muita... iniciativa.
Leto meneou a cabeça, ainda ofegante. O cabelo suado colava à testa. Sentia-se mais tremulo agora que estava a salvo, sentado em uma cômoda poltrona auto moldável dos aposentos de Rhombur. Durante a fuga, só o instinto o guiara. Agora, enquanto tentava relaxar, não conseguia controlar seu pulso. Tomou um longo gole de um copo de suco que encontrou na bandeja do café da manhã de Rhombur.
— Só estou informando o que vi, Rhombur, e não imagino ameaças.
Experimentei-as o suficiente para saber a diferença. — inclinou-se e seus olhos cinzas cintilaram —. Repito, algo está acontecendo. Os subóides estavam falando de derrubar a Casa Vernius, de destruir tudo e de apoderar-se de IX. Estavam se preparando para ações violentas.
Rhombur vacilou, como se ainda esperasse ouvir o pior. — Bem, o direi ao meu pai. Pode lhe contar sua versão e estou seguro de que, er, ele investigará o assunto.
Os ombros de Leto caíram. E se o conde Vernius ignorasse o problema, até que fosse muito tarde?
Rhombur alisou o manto púrpura e sorriu. Coçou a cabeça, perplexo.
Parecia que abordar o tema de novo lhe exigiria muita energia. Parecia verdadeiramente confuso.
— Mas... se você esteve lá embaixo, Leto, observou que tratamos bem os subóides. Nós lhe damos comida, teto, família, trabalho. Sim, pode ser que fiquemos com a parte do leão, mas as coisas são assim. Nossa sociedade é assim. Mas não oprimimos nossos operários. De que podem se queixar?
— Talvez eles vejam isso de outra maneira. A opressão física não é o único tipo de maus tratos.
Rhombur sorriu, levantou-se e estendeu a mão.
— Venha, meu amigo. Isto pode ser uma mudança interessante em nossas aulas de política de hoje. Podemos utilizá-lo como um caso hipotético.
Leto o seguiu, mais entristecido que decepcionado. Receava que eles enfrentassem o problema como uma simples discussão teórica. Da torre mais alta do Grand Palais, o conde Dominic Vernius governava um império industrial oculto do mundo exterior. O homem passeava pelo piso transparente do seu Escritório Orbital, que pendia como uma magnífica bola de cristal do teto da caverna.
As paredes e o chão do escritório eram de cristal ixiano, sem juntas nem distorções. Pareciam caminhar no ar, flutuando sobre seus domínios.
Em certas ocasiões, Dominic se sentia como uma deidade que observasse seu universo do alto. Passou uma palma calosa sobre seu crânio recém raspado. Ainda sentia um formigamento na pele devido às loções revigorantes que Shando utilizava quando lhe massageava o crânio.
Sua filha Kailea estava sentada em uma poltrona flutuante e o observava. O duque aprovava que se interessasse pelos assuntos ixianos, mas hoje estava muito preocupado para dedicar muito tempo a discutir com ela. Sacudiu migalhas imaginárias do manto sem mangas recém lavado, deu meia volta e voltou a passear ao redor de seu escritório.
Kailea continuou observando-o em silêncio, embora compreendesse o problema que enfrentavam.
Dominic não esperava que o velho “Roody” aceitasse bem a perda de impostos causada pelo desenho do novo Cruzeiro ixiano. Não, o imperador encontraria alguma forma de transformar uma simples decisão comercial em uma afronta pessoal, mas Dominic não tinha nem idéia de que forma adotaria a desforra, nem onde ela aconteceria. Elrood sempre tinha sido imprevisível.
— Tem que ficar sempre um passo por diante dele — disse Kailea
—.Você é perito nisso.
Pensou na forma que seu pai utilizara para roubar a concubina do imperador debaixo do nariz dele... O que Elrood nunca tinha esquecido.
Um toque de ressentimento apenas perceptível em suas palavras. Ela preferia ter crescido na maravilhosa Kaitain, em vez daqui, sob o chão.
— Não posso me antecipar se ignorar a direção em que ele se move
— respondeu Dominic. O conde ixiano parecia flutuar de cabeça para baixo, com o teto de rocha e as Torres do Grand Palais sobre sua cabeça, e o ar sob os pés.
Kailea arrumou uma dobra do seu vestido, alisou o tecido e estudou uma vez mais os registros de embarque e os manifestos comparados, com a esperança de decidir a forma mais proveitosa de distribuir a tecnologia íxiana. Dominic não esperava que ela fizesse melhor que seus peritos, mas deixava que se divertisse. Sua ideia de enviar meks de combate autodidatas para alguns traficantes do mercado negro tinha sido um golpe de mestre.
Deteve-se um momento e um sorriso nostálgico apareceu em seu rosto, de forma que seu comprido bigode mergulhou nas rugas que rodeavam sua boca. Sua filha era de uma beleza extraordinária, uma obra de arte em todos os sentidos, feita para ser um adorno na casa de algum grande senhor... mas também era muito inteligente Kailea era uma mescla estranha: fascinada pelos cerimoniais e maneiras da corte, e por tudo o relacionado com a grandeza de Kaitain, mas também decidida a compreender o funcionamento interno da Casa Vernius. Naquela idade já tinha consciência das complexidades dos negócios de bastidores que constituíam a verdadeira chave para que uma mulher adquirisse poder no Império, a menos que ingressasse na Bene Gesserit.
Dominic acreditava que sua filha não compreendia a decisão de Shando de abandonar a corte imperial e ir com ele para IX. Por que abandonaria a amante do homem mais poderoso do universo todo aquele esplendor, para casar-se com um herói de guerra curtido pela intempérie que vivia em uma cidade subterrânea? Em algumas ocasiões, Dominic se fazia a mesma pergunta, mas seu amor por Shando não conhecia limites, e sua esposa lhe tinha confirmado freqüentemente que jamais se arrependera dessa decisão.
Kailea oferecia um rude contraste com sua mãe em tudo, exceto em seu aspecto. Era impossível que a jovem se sentisse confortável com suas roupas e ornamentos extravagantes, mas sempre estava bem vestida, como se temesse deixar passar uma oportunidade. Talvez se sentisse ofendida pelas possibilidades perdidas de sua vida, e teria preferido estar sob a tutela de um patrocinador no palácio imperial. Dominic tinha observado que brincava com o afeto dos filhos gêmeos do embaixador Pilru, como se casar-se com um deles pudesse lhe facilitar o acesso à embaixada de Kaitain. Mas C'tair e D'murr Pilru iriam se submeter a um exame para ingressar na Corporação Espacial, e se fossem aprovados abandonariam o planeta dentro de uma semana. Em qualquer caso, Dominic estava seguro de que poderia arrumar um matrimônio mais vantajoso para sua única filha.
Talvez até mesmo com Leto Atreides... Um visicom brilhou na parede. Uma mensagem importante, as últimas notícias sobre os alarmantes rumores que se espalhavam como veneno numa cisterna.
— Sim? — disse.
Sem esperar que lhe perguntasse, Kailea atravessou o piso invisível e ficou a seu lado para ler o relatório, que apareceu sobre a superfície do escritório. Seus olhos esmeralda se entreabriram enquanto lia.
O aroma do perfume de sua filha e o brilho de seu cabelo brônzeo escuro provocaram um sorriso paternal em seu rosto. Que jovem era. Tão jovem e tão atenta aos assuntos de Estado.
— Tem certeza de que quer se preocupar com isto, filha? —
perguntou, com o desejo de protegê-la das más notícias. As relações trabalhistas eram mais complicadas que as inovações tecnológicas. Kailea se limitou a olhar para ele, irritada com a pergunta.
O conde leu mais detalhe sobre o que lhe tinham contado antes, embora ainda não acreditasse em tudo que Leto Atreides tinha visto e ouvido. Estavam-se acontecendo distúrbios nas dependências subterrâneas, onde os operários subóides tinham começado a queixar-se: uma situação sem precedentes.
Kailea respirou fundo e ordenou seus pensamentos.
— Se os subóides tem motivos de queixa, por que não escolheram um porta-voz? Por que não entregaram um pedido oficial?
— Oh, só o que fazem é resmungar, filha. Afirmam que estão sendo obrigados a montar máquinas que violam a jihad e não querem realizar
“trabalhos blasfemos”.
A tela escureceu assim que terminaram de ler o relatório, e Kailea se levantou, com os braços cruzados.
— De onde tiraram uma idéia tão ridícula? Como podem sequer começar a questionar os matizes e complexidades que supõem dirigir estas operações? Foram criados e treinados em instalações ixianas. Quem terá metido essas idéias em suas cabeças?
Dominic compreendeu que sua filha tinha formulado uma pergunta muito interessante.
— Tem razão. Os subóides não poderiam chegar a essas conclusões sem ajuda.
Kailea continuava indignada.
— Não percebem tudo que lhes damos e o que isso custa? Olhei os custos e os benefícios. Os subóides não sabem que sua situação é excelente, comparada com os trabalhadores de outros planetas. — Meneou a cabeça com uma expressão de desagrado. Olhou através do chão para as fábricas na caverna,m —. Eles
deveriam visitar Giedi Prime, ou Arrakis. Então não se queixariam de IX.
Mas Dominic não deixou que se desviasse do tema que ela mesma tinha iniciado.
— Os subóides foram criados para alcançar uma inteligência limitada, apenas o suficiente para realizar as tarefas necessárias, e se espera que as executem sem queixas. Faz parte de sua estrutura mental. — Olhou para o piso da gruta, onde os operários formigavam encarregados da construção do Cruzeiro —. Pode ser que nossos bio-engenheiros ignorassem algo importante? Os subóides tem razão? A definição de mentes autômatas abrange um amplo campo, mas poderiam existir zonas cinzentas...
Kailea sacudiu a cabeça e agitou seu caderno de cristal. — Nossos Mentats e assessores legais são meticulosos sobre as proibições precisas da Jihad, e nossos métodos de controle de qualidade são eficazes. Pisamos em terreno sólido, e podemos provar todas as nossas afirmações.
Dominic mordiscou o lábio inferior.
— Não é possível que os subóides possuam dados específicos, já que não existem violações. Ao menos, não cruzamos a fronteira conscientemente, sob nenhuma circunstância.
Kailea observou seu pai.
— Talvez devesse ordenar ao capitão Zhaz e a uma equipe de inspetores que não deixem pedra sobre pedra, que investiguem todos os aspectos de nossos processos de desenho e fabricação. Mostre aos subóides que suas queixas são infundadas.
Dominic considerou a idéia.
— Não quero ser muito duro com os operários. Detesto as medidas enérgicas, e não desejo nenhuma revolta. Temos que tratar bem os subóides, como sempre fizemos. — Olhou para sua filha, e lhe pareceu que era já uma pessoa adulta.
— Sim — disse Kailea —. Assim eles trabalham melhor. Assim como o conhecimento de seu próprio ser, o sietch forma uma base firme, da qual salta para o mundo e para o universo. Ensinamento Fremen
Pardot Kynes estava tão fascinado pela cultura, religião e rotina diária dos
Fremen que tinha esquecido o debate sobre seu destino. O naib Heinar lhe havia dito que podia explicar suas idéias, assim ele falava e falava em qualquer oportunidade.
Durante todo um ciclo de luas, os Fremen discutiram suas opiniões em privado e nas assembléias a portas fechadas dos anciões do sietch.
Alguns deles até simpatizavam com aquele estranho forasteiro.
Embora sua sorte ainda não estivesse decidida, Kynes não perdeu tempo. Os guias do sietch o levaram a todas as partes e lhe ensinaram muitas coisas que poderiam lhe interessar, mas o planetólogo também fazia perguntas para as mulheres que trabalhavam nas fábricas de trajes destiladores, aos velhos que cuidavam das provisões de água, e para as avós que se encarregavam dos fornos ou juntavam os refugos e pedaços de sucata.
A frenética atividade das cavernas o assustava. Alguns trabalhadores pisoteavam resíduos de especiaria para extrair combustível, outros coalhavam especiaria para que fermentasse. Os tecelões que trabalhavam com teares mecânicos utilizavam seu próprio cabelo, o pelo de ratos mutantes, molhos de algodão do deserto, e até mesmo tiras de pele de animais selvagens para fabricar seus tecidos resistentes. E, é obvio, nas escolas se treinava os jovens Fremen nas habilidades necessárias para sobreviver no deserto, assim como em técnicas de combate desumanas.
Uma manhã, Kynes despertou descansado, apesar de ter passado a noite sobre uma palhinha no chão duro. Durante grande parte de sua vida tinha dormido ao relento, sobre terrenos incômodos. Seu corpo encontrava descanso quase em qualquer parte. Tomou o café da manhã, fruta desidratada e tortas secas que as mulheres Fremen tinham preparado em fornos térmicos. Uma barba incipiente cobria seu rosto.
Uma jovem chamada Frieth lhe levou uma bandeja com café de especiaria em uma cafeteira ornamentada. Durante todo o ritual manteve seus olhos azuis cravados no chão, como tinha feito todas as manhãs desde a chegada de Kynes ao sietch. O planetólogo não tinha dado atenção aos seus cuidados frios e eficientes até que alguém lhe sussurrara: “Ela é a irmã solteira de Stilgar, cuja vida você salvou dos cães Harkonnen.”
Frieth tinha um rosto formoso e uma suave pele bronzeada. Seu cabelo parecia comprido o bastante para chegar até sua cintura se algum dia o liberasse de seus anéis de água e o deixasse cair. Seu caráter era aprazível mas observador, ao estilo dos Fremen. Corria para satisfazer qualquer desejo que Kynes expressasse
sem que ele se desse conta. Se não estivesse tão concentrado em observar tudo que o rodeava, teria reparado em como ela era bela.
Depois de tomar até a última gota do café impregnado de melange, Kynes tirou sua caderneta eletrônica para tomar notas. Ouviu um ruído, levantou a vista e viu o robusto Turok na porta. — Vou levá-lo para onde desejar, planetólogo, desde que não saia do sietch.
Kynes assentiu e sorriu, indiferente às restrições de ser um cativo. Não o aborreciam. Subentendia-se que nunca sairia vivo do sietch a menos que os Fremen o aceitassem e confiassem nele. Se se unisse à comunidade, não haveria segredos entre eles. Por outro lado, se os Fremem decidissem executá-lo, seria absurdo ocultar segredos de um morto.
Previamente, Kynes tinha visto os túneis, as câmaras onde armazenavam os mantimentos, as provisões de água e até mesmo os destiladores de mortos Huantti. Tinha contemplado fascinado às famílias de homens endurecidos pelo deserto, cada um com várias esposas. E os tinha visto rezar para Shai-Hulud. Tinha começado a compilar um esboço mental desta cultura e dos vínculos políticos e familiares no seio do sietch, mas seriam necessárias décadas para decifrar as relações sutis e os matizes das obrigações que tinham recaído sobre seus parentes muitas gerações antes.
— Eu gostaria de ir ao alto da rocha — disse, recordando seus deveres de planetólogo imperial —. Se pudéssemos recuperar parte do equipamento que estava em meu veículo, porque suponho que os guardaram, eu gostaria de estabelecer uma estação meteorológica aqui. É
fundamental reunir dados climatológicos: variações de temperatura, umidade atmosférica e comportamento dos ventos, de todos os lugares isolados possíveis.
Turok se virou para ele, surpreso. Deu de ombros.
— Como quiser, planetólogo. Como conhecia os hábitos conservadores dos anciões do sietch, Turok era pessimista sobre a sorte daquele homem entusiasta mas, não muito brilhante. Era um esforço inútil para Kynes prosseguir seu trabalho.
Mas se o deixava feliz em seus últimos dias...
— Vamos — disse Turok —. Ponha o traje destilador.
— Só ficarei fora alguns minutos.
Turok olhou para ele com o cenho carregado.
— Um só hálito de umidade significa água desperdiçada no ar. Não somos tão ricos para nos permitir esse luxo.
Kynes deu de ombros, vestiu seu uniforme de superfície e ajustou os fechos desajeitadamente. Turok suspirou e o ajudou, ao mesmo tempo em que explicava a forma mais eficaz de usar o traje e ajustar os fechos para otimizar sua eficiência.
— Você comprou um traje destilador decente. É de manufatura Fremen — observou —. Ao menos, nisto escolheu bem.
Kynes o seguiu até a câmara de armazenamento onde guardavam seu veículo terrestre. Os Fremen tinham retirado os acessórios, e seu equipamento se encontrava distribuído em caixas abertas sobre o chão da caverna, inspecionado e catalogado. Não havia dúvida de que os habitantes do sietch tinham tentado descobrir como podiam utilizar aquelas coisas.
Eles pensam em me matar, compreendeu Kynes. Será que não escutaram nenhuma palavra do que eu disse? Por estranho que parecesse, a idéia não o deprimiu nem assustou. Aceitou a certeza como um desafio.
Não estava disposto a se render. Ainda havia muito por fazer. Teria que fazê-los compreender.
Entre as peças desordenadas encontrou seu aparelho meteorológico e encaixou os componentes, mas sem fazer comentários sobre o que tinha acontecido com suas posses. Sabia que os Fremen tinham uma mentalidade comunal: tudo o que um indivíduo possuía era propriedade de toda a comunidade. Como tinha passado quase toda sua vida sozinho, dependendo unicamente de suas próprias habilidades, era-lhe difícil assimilar aquela mentalidade.
Turok não se ofereceu para carregar o equipamento, mas o precedeu por alguns degraus no muro de pedra. Kynes ofegava, mas não se queixou.
Seu guia ia afastando os defletores de umidade e selos de porta. Turok olhou por cima do ombro para ver se o planetólogo o seguia, e depois caminhou com mais rapidez.
Saíram por uma fenda para o pico arredondados. O jovem Fremen se refugiou à
sombra das rochas, enquanto Kynes se expos ao sol. A pedra era de uma cor parda acobreada, com manchas de liquens. Bom sinal pensou.
Plantas precursoras de sistemas biológicos.
Enquanto contemplava a ampla vista da Grande Concha, viu dunas de rochas recém desintegradas, assim como areia antiga e oxidada.
A julgar pelos vermes de areia que tinha visto e pelo plâncton que abundava nas areias ricas em especiaria, Kynes sabia que Dune já possuía a base de um complexo ecossistema. Estava seguro de que bastaria um empurrãozinho na direção correta para fazer aquele lugar adormecido florescer.
Os Fremen poderiam fazê-lo.
— Homem imperial — disse Turok —, o que vê quando olha para o deserto dessa maneira?
Kynes respondeu sem olhar.
— Um sem-fim de possibilidades. Em uma câmara selada situada nas profundidades do sietch, o naib Heinar estava sentado à cabeceira de uma mesa de pedra, e seu único olho brilhava. O naib do sietch, que tentava manter-se à margem da discussão, olhava para os anciões do conselho enquanto gritavam uns com aos outros.
— Conhecemos a lealdade desse homem — disse Jerath —. Trabalha para o Império. Já viram seu curriculum. Está em Dune como hóspede dos Harkonnen. — Usava um aro de prata no lóbulo esquerdo, um tesouro arrebatado de um contrabandista que tinha matado em duelo.
— Isso não significa nada — disse Avalanche —. Como Fremen, não tomamos emprestadas outras roupas, outras máscaras, e fingimos nos adaptar? É um método de sobrevivência em determinadas circunstâncias.
Vocês, mais que ninguém, deveriam saber que não se pode julgar às pessoas unicamente pela aparência.
Garnah, um ancião de aspecto fatigado e cabelo comprido, apoiou seu longo queixo sobre os dedos.
— Estou furioso com esses três jovens idiotas pelo que fizeram depois que o
planetólogo os ajudou a derrotar os Harkonnen. Qualquer adulto sensato teria dado de ombros e feito a sombra desse homem se reunir com as dos seis insetos na terra... com certo remorso, é obvio, mas isso é o que deveriam ter feito. — Suspirou —. São jovens inexperientes.
Nunca deveriam ter se aventurado sozinhos no deserto.
Heinar soprou.
— Não pode culpá-los, Garnah. Existia a obrigação moral. Pardot Kynes tinha salvo suas vida. Até esses jovens imprudentes tiveram consciência da carga de água que tinha recaído sobre seus ombros. — E o que me diz de suas obrigações para com o sietch e nosso povo? — insistiu o cabeludo Garnah —. A dívida contraída com um simples servidor imperial pesa mais que sua lealdade para nós?
— Ele é louco — disse Jerath —. Já ouviram o diz? Quer árvores, quantidades enormes de água, irrigação, colheitas... Imagina um vergel onde existe um deserto. — Soprou e se tocou o aro de sua orelha —.
Afirmo que está louco.
Avalanche apertou a boca em sinal de ceticismo.
— Depois de milhares de anos errando de um lado para outro, o que por fim nos trouxe para cá e fez de nosso povo o que somos, como podem desprezar um homem por sonhar com o paraíso?
Jerath franziu o sobrecenho, mas aceitou o raciocínio.
— Talvez Kynes esteja louco — disse Garnah —, mas só o suficiente para ser um santo. Talvez esteja louco o bastante para ouvir as palavras de Deus de uma forma que nós não podemos.
— Essa é uma questão que não nós decidiremos — disse Heinar, utilizando por fim a voz de comando de um naib, afim de reconduzir a discussão para o tema tratado —. A escolha que enfrentamos não está relacionada com a palavra de Deus, mas com a sobrevivência de nosso sietch. Pardot Kynes viu nossos costumes, viveu em nosso lugar secreto.
Por ordem imperial, envia relatórios a Kaitain sempre que chega a uma cidade. Pensem no perigo que isto nos coloca.
— Mas e tudo o que disse sobre o paraíso no Dune? — perguntou Avalanche, que ainda tentava defender o estrangeiro —. Água em qualquer parte, dunas rodeadas de erva, altas palmeiras, qanats3 abertos através do deserto.
— Fantasias — grunhiu Jerath —. O homem sabe muito sobre nós e sobre Dune. Não podemos permitir que conheça tantos segredos.
Avalanche insistiu de novo. — Mas matou os Harkonnen. Isso não trás para nós, para nosso sietch, uma dívida de água? Salvou três membros de nossa tribo.
— Desde quando devemos algo ao Império? — perguntou Jerath.
— Qualquer um pode matar os Harkonnen — acrescentou Ganath com um encolhimento de ombros, apoiando o queixo sobre o outro punho
—. Eu mesmo já o fiz. 3 Canais ao ar livre para transportar água sob condições controladas (veja-se Teminologia do Império de DUNE): (N. do T.)
Heinar se inclinou.
— De acordo, Avalanche. O que opina sobre esse renascimento de Dune? Onde está a água para tudo isso? Existe alguma possibilidade de que o planetólogo possa conseguir o que diz?
— Você o ouviu? — replicou Garnah em tom zombeteiro —. Diz que a água está aqui, em uma quantidade muito superior a que possuem nossos estoques miseráveis.
Jerath arqueou as sobrancelhas e soprou.
— Esse homem está em nosso planeta há um mês ou dois, e já sabe onde encontrar o grande tesouro que nenhum Fremen conseguiu descobrir em gerações e gerações no deserto. Provavelmente encontrará um oásis no Equador? Oras!
— Ele salvou três dos nossos — insistiu Avalanche.
— Três idiotas que cruzaram o caminho dos cães Harkonnen. Não me sinto ligado a ele por tê-los salvado. Além disso, viu nossas facas crys.
Vocês conhecem nossa lei: quem vê essa faca tem que ser purificado ou sacrificado...
— Isso é verdade — admitiu Avalanche.
— Todos sabem que Kynes viaja sozinho e explora zonas inóspitas
— disse Heinar com um dar de ombros —. Se desaparecer, desapareceu.
Nem os Harkonnen, nem as autoridades imperiais suspeitarão de nós.
— Interpretarão isso como um simples acidente. Nosso planeta não é um lugar acolhedor — disse Garnah.
Jerath se limitou a sorrir.
— Para falar a verdade, é possível que os Harkonnen fiquem satisfeitos por se livrarem desse intrometido. Se o matarmos, não correremos nenhum risco.
O silêncio pesou no ar poeirento durante um momento.
— O que tem deve ser, será — sentenciou Heinar ao mesmo tempo em que ficava em pé —. Todos sabemos. Não pode haver outra resposta, não podemos mudar de opinião. Devemos proteger o sietch acima de tudo, custe o que custar, sem nos importar com o peso em nossos corações. —
Cruzou os braços sobre o peito —. Está decidido. Kynes tem que morrer. Duzentos e trinta e oito planetas explorados, muitos quase inabitáveis (ver cartas estelares anexas). Estudos de recursos enumeram materiais brutos valiosos. Muitos destes planetas merecem uma segunda visita, seja para exploração de minerais ou para possível colonização. Não obstante, como em outros relatórios, não se encontrou especiaria. Relatório do perito independente, terceira expedição, entregue ao imperador Corrino III
Hasimir Fenring subornara os guardas e criados do velho Elrood afim de preparar o que tinha chamado de “um encontro secreto com um importante, embora inesperado, diplomata”. O homem com cara de doninha utilizara sua língua de ouro e sua vontade de ferro para manipular os horários do imperador e conseguir um espaço. Fenring, como um acessório do palácio durante mais de três décadas, em virtude de sua amizade com o príncipe herdeiro Shaddam, era um homem influente.
Graças a diversos métodos de persuasão, convencia a todos que precisava convencer.
O velho Elrood não suspeitava de nada.
Na hora marcada para a chegada do delegado Tleilaxu, Fenring cuidou para que Shaddam e ele estivessem presentes na sala de audiências, em teoria como estudantes da burocracia, dedicados e concentrados para transformarem-se em líderes úteis do Império. Elrood, que gostava de pensar que estava instruindo seus protegidos em importantes temas de Estado, não imaginava que os dois jovens riam às suas costas.
Fenring se aproximou do príncipe herdeiro e sussurrou: — Isto vai ser muito divertido, hummmm?
— Observe e aprenda — disse Shaddam, para depois erguer o queixo e sorrir em tom zombeteiro. As enormes portas esculpidas se abriram, cintilantes e com pedras soo e cristais de chuva. Os guardas Sardaukar, imóveis com seus uniformes cinza e negro, ficaram firmes para receber o recém-chegado.
— O espetáculo começa — disse Fenring. Shaddam e ele riram.
Pajens vestidos com librés se adiantaram para apresentar o visitante de outro planeta e lhe ofereceram uma pompa processada e traduzida eletronicamente.
— Meu senhor imperador, Alteza de Um milhão de Mundos, o professor Hidar Fen Ajidica, representante dos Bene Tleilax, para celebrar um encontro privado.
Um anão de pele cinzenta entrou orgulhoso no salão, ladeado por guardas de rosto pálido e seus próprios servidores. Seus pés calçados em sapatilhas deslizaram sobre as pedras polidas do chão.
Uma onda de surpresa e desagrado percorreu os cortesãos. O chambelán Aken Hesban, com os bigodes caídos, ergueu-se indignado atrás do trono e cravou a vista nos conselheiros de audiências do imperador, como se fosse uma espécie de brincadeira.
Elrood IX se inclinou em seu enorme trono e pediu para ver sua agenda.
Assim, pego de surpresa, talvez o velho idiota fique surpreso o bastante para
escutar, pensou Fenring. Com surpreendente astúcia, os olhos de águia do chambelán Hesban pousaram sobre ele, mas Fenring lhe devolveu o olhar com uma expressão de inocência.
Ajidica, o representante Tleilaxu, esperou paciente, deixando que os sussurros e murmúrios fluíssem a seu redor. Tinha uma cara estreita, nariz largo e barba negra bicuda, que sobressaía de seu queixo partido. Roupas marrons lhe concediam um ar de certa importância. Sua pele parecia curtida pela intempérie, e em suas mãos, sobretudo nas palmas e nos dedos, destacavam-se manchas pálidas e descoloridas, como se a freqüente exposição a produtos químicos virulentos tivesse neutralizado a melanina.
Apesar da sua diminuta estatura, o Professor Tleilaxu avançou como se tivesse todo direito de estar na sala do trono de Kaitain.
Shaddam estudou Ajidica, e seu nariz se enrugou, devido ao aroma de comida tão característico dos Tleilaxu.
— Que o único e verdadeiro Deus o ilumine de todas as estrelas do Império, meu senhor imperador — disse Hidar Fen Ajidica, ao mesmo tempo em que juntava as mãos, fazia uma reverência e citava a Bíblia Católica Laranja. Deteve-se em frente ao enorme trono de quartzo de Hagal.
Os Tleilaxu eram famosos por manipular os mortos e conservar cadáveres para aproveitar os recursos das células, mas ninguém podia negar que eram geneticistas brilhantes. Uma de suas primeiras criações tinha sido um notável recurso alimentício novo, o bacer (“a carne mais saborosa deste lado do paraíso”), um cruzamento entre uma lesma gigante e um porco terráqueo. A população ainda imaginava que eram mutações engendradas em depósitos, seres horríveis que excretavam resíduos viscosos e fedorentos, e cujas múltiplos bocas trabalhavam incessantemente remexendo lixo. Este era o contexto no qual as pessoas imaginavam os Bene Tleilax, mesmo enquanto saboreavam medalhões de bacer macerados em molhos preparados com saborosos vinhos de Caladan.
Elrood ergueu seus ombros ossudos. Olhou com o cenho carregado para o visitante.
— O que... isto faz aqui? Quem deixou este homem entrar? — O
velho imperador passeou a vista pela sala, com olhos cintilantes —.
Nenhum Mestre Tleilaxu entrou em minha corte para celebrar uma audiência privada. Como posso saber que não é um Dançarino Facial? —
Elrood olhou para seu secretário pessoal e depois para seu chambelán —. E
como foi incluído em minha agenda, como posso saber que você não é um Dançarino Facial? Isto é revoltante.
O secretário pessoal retrocedeu, ofendido pela insinuação. O
diminuto Ajidica olhou para o imperador, sem deixar que o ressentimento transparecer, sem deixar se afetar por eles.
— Meu senhor Elrood, pode nos testar e comprovar que nenhum de nossos metamorfos assumiu a identidade de um membro de sua corte.
Asseguro-lhe que não sou um Dançarino Facial. Nem tampouco um assassino, nem um Mentat.
— Para que veio? — perguntou Elrood.
— Minha presença foi solicitada, por ser um dos principais cientistas dos Bene Tleilax. — O anão não se moveu nem um centímetro, e continuou imóvel ao pé do Trono do Leão de Ouro, envolto em suas roupas marrons
—. Desenvolvi um ambicioso plano que pode beneficiar à família imperial e também o meu povo.
— Não estamos interessados — replicou o imperador Padishah.
Desviou o olhar para seus Sardaukar e ergueu uma mão enrugada para ordenar uma expulsão forçosa. Os servos da corte contemplavam a cena, divertidos e ansiosos.
Hasimir Fenring se adiantou, consciente de que só tinha um instante para interceder.
— Posso falar, imperador Elrood? — Não esperou para receber permissão, mas tentou adotar uma expressão inocente e interessada —. A incrível audácia deste delegado Tleilaxu despertou minha curiosidade.
Gostaria de saber o que veio nos dizer.
Cravou a vista no inexpressivo rosto de Hidar Fen Ajidica. O Mestre de pele cinzenta parecia indiferente ao tratamento grosseiro que recebia.
Nada em seu comportamento traía sua relação com Fenring, que lhe sugerira a
idéia da especiaria sintética, uma idéia que não demorara a encontrar apoio entre os cientistas Tleilaxu.
O príncipe herdeiro Shaddam olhou para seu pai com expressão inocente e ansiosa.
— Pai, você me ordenou que aprendesse tudo que puder do exemplo de sua liderança. Seria muito útil para mim observar como lida com esta situação com imparcialidade e firmeza.
Elrood ergueu uma mão adornada com anéis que tremia por causa de espasmos tênues mas incontroláveis.
— Muito bem, escutemos o que este Tleilaxu veio dizer. Um momento apenas, sob pena de receber um severo castigo se decidirmos que esbanjou nosso precioso tempo. Observe e aprenda. — O imperador olhou de esguelha para Shaddam, e depois tomou um gole da cerveja de especiaria que tinha ao lado —. Será breve.
Tem razão, pai. Não resta muito tempo, pensou Shaddam, sem apagar seu sorriso inocente.
— Minhas palavras exigem privacidade, meu senhor imperador —
disse Ajidica —, assim como a maior discrição.
— Eu decidirei sobre isso — replicou Elrood —. Fale de seu projeto.
O Professor Tleilaxu enlaçou suas mãos dentro das volumosas mangas de suas vestimentas marrons.
— Os rumores são como uma epidemia maligna, senhor. Se escapam, propagam-se de pessoa a pessoa, freqüentemente com efeitos mortíferos. É melhor tomar algumas precauções iniciais, que ver-se obrigado a adotar medidas de erradicação mais tarde.
Ajidica permaneceu imóvel e se negou a falar até que a sala de audiência ficasse vazia.
O imperador, impaciente, despediu todos com um gesto, funcionários, pajens, embaixadores, bufões e guardas. Os homens de segurança Sardaukar se postaram em frente as portas, das quais podiam proteger o trono, mas todos os outros presentes partiram, murmurando e arrastando os pés. Ergueram-se telas de intimidade para impedir que ninguém escutasse.
Fenring e Shaddam se sentaram perto do trono, fingindo ser estudantes absortos, embora ambos ultrapassassem os trinta anos. O velho imperador, de aspecto frágil e doentio, indicou que ficassem como observadores, e o Tleilaxu não protestou.
Durante todo o tempo, o olhar de Ajidica não se afastou de Elrood O
imperador olhou para o anão e fingiu aborrecimento. Satisfeito por fim as precauções, e ignorando o asco que o imperador sentia dele e da sua raça, Hidar Fen Ajidica falou.
— Nós, os Bene Tleilax, realizamos experimentos em todos os campos da genética, química orgânica e mutações. Em nossas fábricas desenvolvemos recentemente técnicas heterodoxas para sintetizar, digamos, substâncias pouco usuais. — Suas palavras eram concisas e eficientes, sem proporcionar mais detalhes do que o necessário —. Nossos resultados iniciais indicam que poderíamos criar um produto sintético que, em todas as suas propriedades químicas importantes, seria idêntico a melange.
— Especiaria? — Elrood dedicou a Tleilaxu toda a sua atenção. Shaddam observou um tic na bochecha direita do seu pai, debaixo do olho
— Criada em laboratório? Impossível!
— Não é impossível, meu senhor. Contando com tempo e condições adequadas para seu desenvolvimento, esta especiaria artificial poderia fornecer uma reserva inesgotável, produzida em quantidades industriais e...
destinada com exclusividade à Casa Leitão, se assim o desejar.
Elrood se inclinou como um ave de rapina mumificada.
— Isso nunca foi possível.
— Nossas análises demonstram que a especiaria é uma substância de base orgânica. Graças a experimentos minuciosos, acreditamos que nossos depósitos de axlotl podem ser modificados para produzir melange. — Da mesma forma que criam gholas a partir de células humanas mortas? — disse o imperador com cara de asco —. E clones? Shaddam, intrigado e surpreso, olhou para Fenring. Depósitos de axlotl?
Ajidica não afastou a vista de Elrood.
— Sim... com efeito, meu senhor.
— Por que veio a mim? — perguntou Elrood —. Imaginava que os diabólicos Tleilaxu criariam um substituto da especiaria para seu uso exclusivo, e deixariam o Império a sua mercê.
— Os Bene Tleilax não são uma raça poderosa, senhor. Se descobríssemos a forma de produzir nossa própria melange e guardássemos segredo, desencadearíamos sobre nós a ira do Império. O senhor enviaria os Sardaukar, arrancaria-nos o segredo e nos destruiria. A Corporação Espacial e a CHOAM lhe dariam sua colaboração de bom grado e, por outro lado, os Harkonnen defenderiam seu monopólio de especiaria a todo custo.
Ajidica lhe dedicou um leve sorriso desprovido de humor.
— Fico feliz em saber que compreendem sua posição subordinada —
disse Elrood, e descansou seu cotovelo ossudo sobre o braço do trono —.
Nem sequer a Grande Casa mais rica desenvolveu uma força militar capaz de opor resistência a meus Sardaukar.
— Por isso, decidimos prudentemente nos aliar a mais poderosa presença da galáxia: a Casa Imperial. Dessa forma colheremos os maiores benefícios de nossa nova pesquisa.
Elrood apoiou um longo dedo sobre seus lábios, magros como papel, enquanto refletia. Esses Tleilaxu eram preparados, e podiam fabricar a substância com exclusividade para a Casa Corrino, a preço de custo, o imperador contaria com uma poderosa moeda de mudança.
A diferença econômica seria enorme. Poderia levar a Casa Harkonnen a bancarrota. O planeta deserto de Arrakis perderia quase todo seu valor, porque era muito caro extrair o produto da areia.
Se aquele anão pudesse fazer o que insinuava, o Landsraad, a CHOAM, a Corporação Espacial, os Mentats e a Bene Gesserit se veriam obrigados a suplicar o favor do imperador afim de conseguir fornecimentos. Quase todos os membros importantes das famílias nobres eram viciados em melange, e o próprio Elrood poderia transformar-se em seu fornecedor. Sentiu-se entusiasmado.
Ajidica interrompeu os pensamentos de Elrood.
— Permita-me salientar que não será uma tarefa simples, senhor. É
extraordinariamente difícil analisar a estrutura química concreta da melange, e temos que separar os componentes necessários dos irrelevantes.
Para alcançar este objetivo, os Tleilaxu necessitam de enormes recursos, assim como liberdade e tempo para prosseguir nossas investigações.
Fenring se remexeu sobre os degraus e olhou para o imperador.
— Meu senhor, compreendo agora que o Mestre Ajidica teve razão ao solicitar que a audiência fosse privada. Essa pesquisa ser realizada em segredo, se a Casa Corrino desejar a exclusividade. Certos poderes do Império fariam o impossível por impedir que criassem um fornecimento independente e inesgotável de especiaria, hummmm?
Fenring percebeu que o ancião compreendia as enormes vantagens políticas e econômicas que a proposta de Ajidica podia proporcionar, apesar do aborrecimento instintivo para com os Tleilaxu. Percebeu que a balança estava se inclinando, que o imperador senil estava chegando à conclusão que Fenring desejava. Sim, ainda é possível manipular o velho caduco.
O próprio Elrood tinha consciência das numerosas forças postas na balança. Dado que os Harkonnen eram ambiciosos e intratáveis, preferia ter posto à frente de Arrakis uma outra Grande Casa, mas o barão conservaria o poder durante muitas décadas ainda. Por razões políticas, o imperador se viu forçado a conceder aquele valioso semifeudo a Casa Harkonnen, depois de descartar os Richese, e os novos proprietários do feudo se obstinado a ele. Muito. Nem sequer a derrota do período de governo de Abulurd (nomeado a pedido de seu pai, Dmitri Harkonnen) obtivera o resultado desejado. De fato, o efeito tinha sido o contrário, quando o barão se instalou no poder mediante manobras de todo tipo.
Mas o que faremos com Arrakis depois?, pensou Elrood. Eu gostaria de conseguir seu controle total. Sem seu monopólio da especiaria, seria um lugar barato. Ao preço justo, seria útil para outras coisas... Uma zona de manobras militares incrivelmente dura, talvez?
— Expor suas idéias a nós foi muito acertado, Hidar Fen Ajidica. —
Elrood enlaçou as mãos sobre o regaço, com um tinido de anéis de ouro, mas se negou a pedir desculpas por sua grosseria anterior —. Faça o favor de nos
entregar um resumo detalhado de suas necessidades.
— Sim, meu senhor imperador. — Ajidica se inclinou de novo, sem tirar as mãos das mangas —. O mais importante é que meu povo necessitará de equipamentos e recursos... e de um lugar para realizar as pesquisas. Eu estarei no comando do projeto, mas os Bene Tleilax necessitam de uma base tecnológica apropriada e instalações industriais. Se possível, que já funcionem e que estejam bem protegidas.
Elrood refletiu. Entre todos os planetas do Império, tinha que existir algum lugar, um planeta com alta tecnologia e aptidões industriais...
As peças do quebra-cabeças encaixaram, e ele viu com muita clareza: uma forma de apagar do mapa a seu velho rival, a Casa Vernius, vingar-se de Dominic por lhe ter roubado sua concubina, e pelo novo desenho dos Cruzeiros, que ameaçava causar prejuízos nos lucros do Império. Oh, isto será magnífico!
Hasimir, que seguia continuava nos degraus do pedestal de cristal do trono, não entendeu por que o imperador sorria com tanta satisfação. O
silêncio se prolongou por um longo momento. Perguntou-se se aquela pausa estava relacionada com os lentos efeitos do chaumurky, que lhe devorava o cérebro. Dentro de pouco, o velho se transformaria em um ser irracional e paranóico. E depois morreria. De uma forma horrível, espero.
Mas antes, todos os mecanismos estariam em movimento.
— Sim, Hidar Fen Ajidica. Temos o lugar que necessitam para seus trabalhos — disse Elrood —. Um lugar perfeito.
Dominic não precisa saber até que seja muito tarde, pensou o imperador. E depois tem que saber quem é o responsável, pouco antes de morrer.
O momento, como em tantos assuntos do Império, tinha que ser preciso. A Corporação Espacial trabalhou durante séculos para rodear nossa elite de Navegantes de um halo místico. Somos reverenciados, do Piloto mais inferior ao Timoneiro de maior talento. Vivem em contêineres de gás de especiaria, vêem todos os caminhos que percorrem o espaço e o tempo, guiam naves até os limites do Império. Mas ninguém sabe o custo humano ao transformar-se em Navegante. Temos que conservá-lo em segredo, porque se soubessem a verdade, se compadeceriam de nós.
Manual de Treinamento da Corporação Espacial para Timoneiros (secreto).
O austero edifício da embaixada da Corporação contrastava com o resto do esplendor ixiano na cidade das estalactites. Era de cor parda, funcional, muito diferente das deslumbrantes e ornamentadas torres da caverna. As prioridades da Corporação Espacial não estavam precisamente na ornamentação e a ostentação.
Naquele dia, C'tair e D'murr Pilru seriam examinados, com a esperança de se tornarem em Navegantes da Corporação. C'tair não sabia se estava emocionado ou aterrorizado.
Enquanto os gêmeos atravessavam ombro a ombro uma passarela acristalada que desembocava do Grand Palais, C'tair considerou tão repulsivo esteticamente o edifício da embaixada, que sopesou a possibilidade de desistir. Tendo em conta a enorme riqueza da Corporação, a falta de luxo lhe pareceu estranha, ao ponto de incomodá-lo.
Como se pensasse o mesmo, mas para chegar a uma conclusão diferente, seu irmão se virou para C'tair e disse:
— Uma vez que as maravilhas do espaço se abram para a mente de um Navegante, que outros adornos são necessários? Pode qualquer ornamentação rivalizar aos prodígios que um Navegante vê durante um só trajeto através da dobra-espacial? O universo, irmão! Todo o universo.
C'tair assentiu.
— Tem razão, a partir de agora temos que utilizar critérios diferentes. Abra sua mente. Lembre-se do que nos dizia o velho Davee Rogo? As coisas vão ser muito... diferentes.
Se fossem aprovados nos exames teria que partir, embora não sentisse nenhum desejo de abandonar a bela cidade subterrânea do Vernii.
Sua mãe, S'tina, era uma importante banqueira da Corporação, seu pai era um respeitado embaixador, e, com a ajuda do próprio conde Vernius, tinham concordado em dar aos gêmeos aquela oportunidade. IX se sentiria orgulhoso dele. Talvez erigissem uma estátua em sua honra algum dia, ou dariam o nome dele e de seu irmão a uma gruta...
Enquanto seu pai cumpria seus deveres diplomáticos com o imperador e um milhar de funcionários em Kaitain, seus filhos gêmeos se preparavam na cidade
subterrânea para coisas mais importantes. Durante sua infância, que tinham passado clandestinamente, C'tair e seu irmão tinham ido a sede da Corporação para ver sua mãe. Sempre tinham sido convidados no edifício, mas desta vez os gêmeos iam ao encontro de uma prova muito mais dura.
Dentro de algumas horas o futuro de C'tair seria decidido.
Banqueiros, interventores e peritos em comércio eram seres humanos, burocratas. Mas um Navegante era muito mais.
Por mais que tentasse se animar, C'tair não estava seguro de superar as provas. Quem era ele, para pensar que podia se tornar um Navegante da Corporação? Seus pais só tinham concedido aos gêmeos uma oportunidade, não uma garantia. Poderia conseguir? Era tão especial? Alisou seu cabelo escuro e sentiu o suor nos dedos.
“Se superarem a prova se transformarão em representantes importantes da Corporação Espacial — havia dito sua mãe, sorrindo com orgulho —. Muito importantes.”
C'tair sentiu um nó na garganta, e D'murr se ergueu em toda sua estatura.
Kailea Vendos, a princesa da casa de IX, também lhes desejara o melhor. C'tair suspeitava que a filha do conde estava zombando deles, mas tanto seu irmão como ele gostavam de flertar com ela. de vez em quando até fingiam ficar enciumados quando Kailea mencionava o jovem Leto, herdeiro da Casa Atreides. Tentava que os gêmeos competissem por seu afeto, e eles se rendiam de bom grado a seu desejo. De qualquer forma, C'tair duvidava que suas famílias concordassem em consentir com um matrimônio, assim não via nenhum futuro nesse caminho.
Se C'tair ingressasse na Corporação, seus deveres o levariam para longe de IX e da cidade subterrânea que tanto amava. Se se transformasse em um Navegante, muitas coisas mudariam...
Chegaram à sala de espera da embaixada com meia hora de antecipação. D'murr passeou atrás de seu irmão, que estava nervoso, absorto e nada comunicativo, concentrado em seus pensamentos e desejos.
Embora o aspecto dos dois irmãos fosse quase idêntico, D'murr parecia muito mais forte, mais entregue ao desafio, e C'tair se esforçava por imitá
lo.
Engoliu em seco na sala de espera, enquanto repetia as palavras que seu irmão e ele compartilharam como um mantra naquela manhã, em suas habitações. Quero ser Navegante. Quero ingressar na Corporação. Quero abandonar IX e sulcar os caminhos estelares, com minha mente vinculada ao universo.
Aos dezessete anos, ambos se sentiam capazes de suportar um processo de seleção tão rigoroso, que os ligaria permanentemente a uma forma de vida, mesmo que se arrependessem. A Corporação queria mentes flexíveis e maleáveis, dentro de corpos amadurecidos. Os Navegantes treinados na adolescência tinham demonstrado ser os melhores, e alguns alcançavam a patente maior de Timoneiros. Não obstante, esses candidatos aceitos tão cedo podiam se transformar em sombras fantasmagóricas, aptas unicamente para tarefas secundárias. Aplicava-se eutanásia aos fracassados.
— Está preparado, irmão? — perguntou D'murr. C'tair extraía integridade e entusiasmo da confiança de seu irmão.
— Totalmente — disse —. Você e eu seremos Navegantes da Corporação.
C'tair deixou de lado seus receios e se convenceu que desejava aquele destino. Seria um reconhecimento ao seu talento, uma honra para a família... mas não podia afastar o espectro da dúvida que o atormentava.
No fundo do seu coração, não desejava abandonar IX. Seu pai, o embaixador, tinha inculcado em seus dois filhos um profundo afeto pelos prodígios da engenharia subterrânea, as inovações e a acuidade tecnológica deste planeta. IX era um planeta sem comparação em todo o Império.
E é obvio, se partisse, perderia Kailea para sempre.
Quando indicaram que entrassem no labirinto da embaixada, os gêmeos atravessaram o portal sentindo-se muito sozinhos. Não tinham acompanhantes, ninguém que os aclamassem no triunfo ou os consolasse no fracasso. Nem sequer seu pai estava presente para oferecer apoio. O
embaixador tinha partido para Kaitain, afim de preparar outra reunião do subcomitê do Landsraad.
Aquela manhã, enquanto o relógio debulhava os minutos de forma ominosa, C'tair e D'murr tinham se sentado na residência do embaixador para tomar o café da manhã, havia uma mesa repleta de bolos coloridos, enquanto sua mãe reproduzia uma mensagem que seu pai havia hologravado. Tinham pouco apetite, mas escutaram as palavras de Cammar Pilru. C'tair tentou captar algo
especial nelas, algo que fosse útil, mas a imagem do embaixador se limitou a transmitir ânimo e trivialidades, como eco de um discurso muito usado que tivesse utilizado muitas vezes durante sua carreira diplomática.
Em seguida, depois de um abraço final, sua mãe tinha beijado a ambos antes de sair a toda pressa para a sede do Banco da Corporação, uma parte do aborrecido edifício que agora estava a frente deles. S'tina manifestara o desejo de acompanhar seus filhos durante as provas, mas a Corporação tinha proibido. Os exames de Navegante significavam algo muito íntimo e pessoal. Os gêmeos tinham que enfrentá-los sozinhos e separados, usando apenas as suas capacidades. Sua mãe estaria em seu escritório, provavelmente preocupada com eles.
Quando S'tina se despediu, conseguiu apagar quase todo o desespero e horror de seu rosto. C'tair tinha percebido um brilho, mas D'murr não.
Perguntou-se o que sua mãe teria oculto durante os preparativos para a prova. Não deseja que triunfemos?
Os Navegantes constituíam a matéria que compõe as lendas, rodeados de segredos e superstições transpiradas pela Corporação. C'tair escutara rumores sobre deformações corporais, danos que a imersão constante e intensa na especiaria podia infligir à mente humana. Nenhum forasteiro jamais tinha visto um Navegante, então como eram essa gente e quais as mudanças que aconteciam no corpo de alguém provido de capacidades mentais tão fenomenais? Seu irmão e ele riam daquelas especulações estúpidas, e se convenceram de que tais idéias eram mentiras.
Mas serão? O que minha mãe teme?
— Concentre-se, C'tair! Parece preocupado — disse D'murr.
C'tair respondeu sarcástico:
— Preocupado? É claro que sim. Pergunto-me por que. Estamos a ponto de passar pela prova mais importante de nossa vida, e ninguém sabe como preparar-se para ela. Acredito que ainda estamos um pouco verdes.
D'murr olhou para ele com enorme preocupação e apertou seu braço.
— Seu nervosismo pode ser a chave do seu fracasso, irmão. O exame de Navegante não tem nada a ver com a preparação ou com os estudos, apenas a vocação natural, e a capacidade de expandir nossas mentes.
Temos que atravessar o vazio sãs e salvos. Agora lembre-se do que nos disse o velho Davee Rogo: só conseguirá se deixar que sua mente supere as limitações que os outros se impõem. C'tair, abra sua imaginação e supere essas limitações comigo.
A confiança do seu irmão parecia inquebrantável, e C'tair se viu obrigado a assentir. Davee Rogo. Fazia anos que não pensava no aleijado e excêntrico inventor ixiano. Quando tinham dez anos, os gêmeos tinham conhecido o famoso inventor Rogo. Seu pai os apresentara, gravando hologramas de ambos com o cientista para o álbum de lembranças da embaixada, e depois se afastou para saudar outros personagens importantes.
Os dois moços tinham seguido falando com o inventor, e ele lhes tinha convidado a visitar seu laboratório. Durante os dois anos seguintes, Rogo se transformara em uma espécie de tutor extra-oficial de C'tair e D'murr, até sua morte. Agora, os gêmeos só conservavam de Davee Rogo suas lembranças, e a confiança que triunfariam.
Rogo brigaria comigo por minhas dúvidas, pensou C'tair.
— Pense, irmão. Como alguém se prepara para a tarefa de transportar naves enormes de um sistema para outro em um abrir e fechar de olhos? — Para demonstrar, D'murr piscou um olho —. Você assará. Nós dois passaremos. Prepare-se para mergulhar no contêiner de especiaria.
Enquanto caminhavam para o mostrador de recepção interior da embaixada, C'tair olhou para a cidade subterrânea de Vernii, além das fileiras rutilantes de globos luminosos que onde estavam construindo outro Cruzeiro. Talvez algum dia pilotasse aquela mesma nave. Ao pensar na forma como aquele Navegante vindo de outros mundos tinha saído com o novo Cruzeiro para o espaço, o jovem se sentiu tomado de entusiasmo.
Gostava de lX, queria ficar no planeta, queria ver Kailea uma última vez...
mas também desejava ser Navegante.
Os irmãos se identificaram e esperaram em silêncio em frente ao mostrador de marmolplaz, cada um absorto em seus pensamentos, como se estivessem em transe para aumentar suas possibilidades de triunfo.
Manterei minha mente completamente aberta, preparada para tudo.
Uma bela examinadora veio encontrá-los, vestida com um traje cinza folgado. O
símbolo do infinito da Corporação costurado na sua lapela, mas não usava jóias nem adornos.
— Bem-vindos — disse sem apresentar — a Corporação procura os melhores talentos porque nosso trabalho é de uma importância decisiva.
Sem nós, sem as viagens espaciais, a malha do Império se rasgaria. Pensem nisto, e compreenderão por que temos que ser tão exigentes.
Seu cabelo era de um castanho avermelhado, muito curto. C'tair a consideraria atraente em outro momento, mas agora só podia pensar no exame iminente.
A examinadora checou suas identificações de novo e depois os acompanhou até câmaras de exame.
— Trata-se de um exame individual, que devem encarar sozinhos.
Não há forma de atrapalhar nem de se ajudar mutuamente — disse.
C'tair e D'murr, alarmados pela separação, olharam-se, e depois se desejaram sorte em silêncio.
A porta da câmara se fechou atrás de D'murr com um ruído estrondoso e aterrador. Notou nos ouvidos a diferença de pressão de ar.
Sentia-se sozinho, muito sozinho, mas sabia que estava à altura do desafio.
A confiança significa ter metade da batalha ganha.
Observou as paredes couraçadas, as gretas seladas, a falta de ventilação. Um gás surgia de uma abertura no teto... Nuvens espessas de cor alaranjada, com um aroma picante que queimou suas fossas nasais.
Veneno? Drogas? Então, D'murr compreendeu o que a Corporação lhe tinha reservado.
Melange!
Fechou os olhos e percebeu o inconfundível aroma da estranha especiaria. Melange, uma incrível quantidade no ar, que enchia a câmara e impregnava todos os seus poros. D'murr, que conhecia o valor da especiaria de Arrakis devido ao meticuloso trabalho de sua mãe no Banco da Corporação, aspirou outra grande baforada. O que custava aquilo! Não sentiu estranhou que a Corporação examinasse só a uns poucos escolhidos.
O custo de um só exame seria suficiente para comprar o complexo de uma sede em outro planeta.
A riqueza controlada pela Corporação Espacial (em bancos, transporte e explorações) assombrava-o. A Corporação chegava a todas as partes, tocava tudo. Queria ser membro dela. Para que necessitavam de ornamentações frívolas, se tinham tanta melange?
Sentiu que as possibilidades giravam como um detalhado mapa topográfico, com ondulações e intercessões, um aglomerado de pontos, e atalhos que entravam e saíam do vazio. Abriu sua mente para que a especiaria pudesse transportá-lo para qualquer ponto do universo.
Quando a névoa alaranjada rodeou D'murr, não pôde mais ver as paredes monótonas da câmara. Notou que a melange se introduzia em todos os seus poros e células. Uma sensação maravilhosa! Imaginou que era um Navegante reverenciado, que expandia sua mente até os limites do Império e abrangia tudo...
D'murr continuou sulcando o espaço, sem abandonar a câmara de provas, ou ao menos pensou.
O exame foi muito pior do que C'tair imaginara.
Ninguém havia dito o que devia fazer. Não teve a menor chance.
Engasgou-se com o gás de especiaria, enjoou, lutou por conservar o controle de sua mente. A overdose de melange o aturdiu, até o ponto de não recordar quem era ou que fazia ali. Esforçou-se por concentrar-se, mas foi inútil.
Quando recuperou a consciência, com a roupa limpa e o cabelo e a pele recém lavados (talvez para que a Corporação pudesse recuperar até a última partícula de melange?), a curvilínea examinadora estava olhando para ele. Dedicou a C'tair um sorriso triste e meneou a cabeça.
— Você bloqueou sua mente para a ação do gás de especiaria, e reintegrou ao mundo normal. — Suas próximas palavras soaram como uma sentença de morte —: Não é de utilidade para a Corporação.
C'tair se levantou e tossiu. Inspirou pelo nariz, que ainda ardia devido ao potente aroma de canela.
— Sinto muito. Ninguém me explicou o que devia...
A mulher o ajudou a levantar-se, disposta a acompanhá-lo para fora da embaixada.
Sentia uma enorme angústia no coração. A examinadora não teve necessidade de responder quando lhe tirou da zona de recepção. C'tair passeou a vista ao redor, procurando seu irmão, mas a sala de espera estava vazia.
Então, percebeu que seu fracasso não era o pior acontecimento que devia enfrentar.
— Onde está D'murr? Ele passou?
A examinadora assentiu.
— Admiravelmente.
Indicou-lhe a saída, mas o jovem olhou para o corredor interior e a câmara selada onde seu irmão tinha entrado. Precisava felicitar D'murr, embora a vitória fora agridoce. Ao menos, um dos dois seria Navegante.
— Nunca mais voltará a ver seu irmão — disse a examinadora —.
Agora, D'murr Pilru é nosso.
Depois de um breve instante de confusão, C'tair correu para a porta da câmara selada. Golpeou-a com os punhos e gritou, mas não recebeu resposta. Em seguida, guardas da Corporação o tiraram dali com eficácia e rapidez. Ainda enjoado pela overdose de melange, C'tair não percebeu para onde o conduziam. Piscando e desorientado, encontrou-se na passarela de cristal da embaixada. Abaixo dele, outras ruas e passarelas buliam de tráfico e pedestres que iam de um edifício a outro.
Agora estava mais sozinho que nunca.
A examinadora se plantou na escalinata da embaixada para impedir que C'tair entrasse novamente. Embora sua mãe trabalhasse ali, C'tair sabia que as portas daquele edifício, assim como as portas do futuro que tinha imaginado, tinham se fechado para sempre.
— Alegre-se por seu irmão! — exclamou a examinadora, e sua voz expressou por fim um pouco de vida —. Ele entrou em outro mundo.
Viajará para lugares inimagináveis.
— Eu o verei novamente, ou poderei falar com ele? — perguntou C'tair, como se tivessem roubado uma parte de seu ser.
— Duvido — disse a examinadora, ao mesmo tempo em que cruzava os braços sobre o peito. Franziu o sobrecenho —. A menos que... sofra uma regressão. Seu irmão mergulhou tão completamente no gás de especiaria que começou o processo de conversão no mesmo momento A Corporação não pode renunciar esse talento. Já começou a mudança.
— Devolvam-no ao que era antes — disse C'tair com lágrimas nos olhos —. Apenas por alguns minutos.
Queria sentir-se feliz por seu gêmeo, e orgulhoso. D'murr tinha superado a prova que tanto tinha significado para ambos.
Os gêmeos sempre tinham estado muito unidos. Como poderiam viver separados? Talvez sua mãe pudesse usar suas relações na Corporação para permitir que se despedissem. Ou talvez seu pai usasse seus privilégios de embaixador para conseguir recuperar D'murr.
Mas C'tair sabia que isso nunca ocorreria. Agora compreendia. Sua mãe sabia, e temera perder seus dois filhos.
— Na maioria de casos, o processo é irreversível — disse a examinadora.
Guardas de segurança saíram e a flanquearam.
— Acredite — disse a examinadora —. Você não gostaria de voltar a ver seu irmão. O corpo humano é uma máquina, uma mistura de elementos químicos orgânicos, condutores de fluidos e impulsos elétricos. Um governo é como uma máquina de sociedades interativas, leis, culturas, recompensas e castigos, normas de conduta. E no final, o universo é como uma máquina, planetas ao redor de sóis, estrelas reunidas em amontoados, amontoados e outros sóis que formam galáxias inteiras... Nosso trabalho é manter a máquina em funcionamento. Escola Interior Suk, doutrina fundamental O príncipe herdeiro Shaddam e o chambelán Aken Hesban, ambos carrancudos, viram se aproximar um homem diminuto e esquelético que, não obstante, caminhava como se fosse um gigante mutelliano. Depois de anos de adestramento e condicionamento, todos os médicos Suk pareciam propensos a
levar-se muito a sério.
— Este Yungar me recorda mais um artista de circo que um respeitado profissional da medicina — disse Shaddam, enquanto tomava nota das sobrancelhas arqueadas, os olhos negros e o acréscimo de um cinza resistente —. Espero que saiba o que faz. Só quero os melhores cuidados para meu pobre pai doente.
A seu lado, Hesban deu um puxão em seu longo bigode, mas não disse nada. Usava um comprido manto azul com adornos dourados.
Durante anos, Shaddam tinha detestado aquele homem pomposo sempre à sombra de seu pai, e tinha jurado nomear um novo chambelán depois de ser nomeado. E enquanto aquele médico Suk não encontrasse explicações para a piora progressiva de Elrood, a preponderância de Shaddam estaria assegurada.
Hasimir Fenring insistia que nem sequer todos os recursos da famosa Escola Interior Suk conseguiriam deter o que se pôs em marcha. Nenhum detector de venenos era capaz de localizar o elemento químico catalisador implantado no cérebro do ancião, já que na realidade não era um veneno, mas se transformava numa substância perigosa com a presença da cerveja de especiaria. E à medida que se sentia pior, Elrood consumia cada vez mais cerveja.
O diminuto medico, que não media mais de um metro de estatura, tinha a pele suave mas os olhos de um ancião, devido aos imensos conhecimentos médicos armazenados em seu cérebro. Um diamante negro tatuado marcava o centro de sua mente enrugada. Seu cabelo, recolhido na nuca com um aro de prata Suk, era mais comprido que a de uma mulher, e chegava quase até o chão.
Is Yungar fez o cumprimento característico de sua profissão. — Têm o pagamento? — Olhou para o chambelán e depois para o príncipe herdeiro —. Precisa saldar as contas antes de iniciar o tratamento.
Tendo em conta a idade do imperador, nossos cuidados podem ser muito prolongados... e infrutíferos à longo prazo. Tem que pagar suas faturas, como qualquer outro cidadão. Rei, mineiro, artesão, isso não nos importa.
Todos os humanos querem estar sadios, e não podemos tratar todo mundo.
Nossos cuidados estão a disposição unicamente dos que querem e podem pagar. Shaddam apoiou uma mão na manga do chambelán.
— Claro, não pouparemos em gastos com a saúde de meu pai, Alten.
Tudo está arrumado.
Encontravam-se dentro da porta arqueada da sala de audiências imperial, sob os afrescos pintados no teto que representavam acontecimentos épicos da história da família Corrino: o sangue da Jihad, a desesperada resistência na ponte do Hreihgir, a destruição das máquinas pensantes. Shaddam sempre tinha considerado pesada e aborrecida a história imperial antiga, de pouca relevância para seus atuais objetivos.
Pouco importava o que tivesse acontecido séculos e séculos atrás. Só esperava que não fosse necessário tanto tempo para que acontecesse uma mudança no palácio.
Na sala povoada de ecos, o magnífico trono encravado de jóias do imperador Padishah se elevava tentadoramente vazio. Funcionários da corte e algumas Bene Gesserit vestidas com seus hábitos negros vagavam em nichos e passadiços laterais, procurando passar desapercebidos. Um par de guardas Sardaukar armados até os dentes estavam imóveis ao pé da escalinata, atentos a tudo que acontecia ao redor. Shaddam se perguntou se o obedeceriam naquele instante, sabendo que seu pai se encontrava encerrado em seus aposentos, doente. Decidiu não tentar descobrir. Muito em breve saberia.
— Todos estamos familiarizados com essas promessas — disse o médico —. Em qualquer caso, desejo receber o pagamento antecipadamente.
Tom obstinado, olhar impertinente que não se afastava de Shaddam, desde que o príncipe herdeiro tinha falado. Yungar gostava de praticar estranhos jogos de poder, mas logo seria expulso de sua fraternidade. — Pagar antes de ver o paciente? — exclamou o chambelán —.
Quais são suas prioridades, homem?
Por fim, o doutor Yungar se dignou a olhar para ele. — Já tratou conosco em ocasiões anteriores, chambelán, e sabe o que custa formar um médico Suk , totalmente condicionado e treinado.
Como herdeiro do Trono do Leão Dourado, Shaddam estava familiarizado com o Condicionamento Imperial Suk , que garantia absoluta lealdade ao paciente. Em séculos de história médica ninguém tinha conseguido corromper um graduado da
Escola Interior.
A certos membros da corte real era muito difícil conciliar a lendária lealdade Suk com sua cobiça inesgotável. Os médicos jamais tinham renunciado a sua postura de não tratar ninguém, nem sequer um imperador, em troca da simples promessa de uma remuneração. Os médicos Suk não confiavam. O pagamento devia ser em dinheiro e no ato.
Yungar falou com uma choramingação irritada. — Embora não sejamos tão importantes como os Mentats ou as Bene Gesserit, a Escola Suk continuas sendo uma das maiores do Império.
Apenas minha equipe é mais cara que uma dúzia de planetas. — Yungar indicou uma maleta que flutuava a seu lado —. Não recebo seu pagamento para meu benefício particular, é obvio. Só sou um médico, uma pessoa de confiança. Quando retornar, seus créditos irão comigo para a Escola Suk, em benefício da humanidade.
Hesban olhou-o com ódio. Seu rosto avermelhou e seus bigodes tremeram.
— Digamos em benefício da parte de humanidade que pode permitir-se seus serviços. — Correto, chambelán.
O ar de importância que se dava o médico fez Shaddam estremecer.
Quando ocupasse o trono, seria capaz de iniciar mudanças que colocassem aqueles Suk em seu devido lugar? Tudo no seu devido tempo.
Suspirou. Seu pai tinha permitido que muitos fios lhe escapassem entre os dedos. Embora Shaddam detestasse manchar as mãos de sangue, tirar do caminho o imperador ancião era uma ação necessária.
— Se os gastos do tratamento constituírem sua preocupação fundamental — disse o médico Suk, ao mesmo tempo em que aguilhoava com discrição o chambelán —, podem contratar um médico mais barato para o imperador do Universo Conhecido.
— Chega de discussões — interrompeu Shaddam —. Venha comigo, doutor. Yungar assentiu e deu as costas ao chambelán, como se ele fosse um ser desprezível.
— Agora sei por que usam uma tatuagem em forma de diamante em suas testas — grunhiu Hesban enquanto os seguia —. Carregam tesouros em suas mentes.
O príncipe herdeiro os precedeu até uma câmara protegida e atravessou uma cortina elétrica para entrar em uma cripta interior. Sobre uma mesa de ouro situada no centro da estadia havia broncos de opafogo, danikins de melange e bolsas entreabertas que revelavam pedras soo cintilantes.
— Isto será suficiente — disse o Suk —. A menos que o tratamento seja mais complicado do que supomos. — O médico voltou sobre seus passos, flanqueado por sua maleta flutuante —. Já conheço o caminho para a habitação do imperador.
Sem dar mais explicações, Yungar atravessou uma porta e subiu uma escalinata que conduzia aos aposentos onde descansava o imperador.
Guardas Sardaukar permaneceram ante o campo de força que protegia a cripta do tesouro, enquanto Shaddam e Hesban seguiam o médico. Fenring já estava esperando junto ao leito do doente, emitindo seus ruídos irritantes e procurando que o tratamento não sortisse efeito.
O enrugado imperador jazia em uma ampla cama imperial, sob um dossel das melhores seda merh, bordadas seguindo o antigo método terráqueo. Os postes eram de ucea esculpida, uma madeira dura nativa da Elacca. Fontes relaxantes, dispostas em nichos das paredes, jorravam água fresca, que sussurrava e borbulhava. Globos luminosos perfumados, acesos ao mínimo, flutuavam nos rincões da habitação.
Enquanto Shaddam e Fenring observavam, o médico Suk despediu com um gesto um criado vestido com libré e subiu os dois estreitos degraus que conduziam ao leito. Três formosas concubinas imperiais espreitavam atrás do doente, como se suas presenças pudessem revitalizá-lo. O fedor do ancião impregnava o ar, mesmo com a ventilação e o incenso.
O imperador Elrood vestia roupas de cetim e um gorro de dormir antiquado que cobria seu crânio, salpicado de manchas de idade. Estava deitado sobre os lençóis, já que se queixava de um calor excessivo. O
homem tinha um aspecto gasto e mal podia manter os olhos abertos.
Shaddam se sentiu satisfeito ao ver quanto tinha piorado a saúde do seu pai desde a visita do embaixador Tleilaxu. De qualquer modo, Elrood tinha dias bons e maus, além do irritante hábito de recuperar sua vitalidade depois de uma recaída
importante como esta. Deve estar sedento, pai, pensou Shaddam. Beba um pouco mais de cerveja.
O médico abriu sua maleta e mostrou vários instrumentos brilhantes, sensores e frascos coloridos para analisar líquidos. Yungar introduziu a mão na maleta e extraiu um pequeno aparelho branco, que entregou a Elrood.
Depois de lhe tirar o gorro de dormir e revelar uma calva suarenta, o doutor Yungar escaneou o crânio de Elrood e levantou a cabeça do ancião para examiná-la. O imperador grunhiu, seu aspecto frágil, fraco e velho.
Shaddam se perguntou que aspecto teria ele mesmo depois de viver cento e cinqüenta anos... preferivelmente ao fim de um longo e glorioso reinado.
Durante o exame reprimiu um sorriso e conteve o fôlego. A seu lado, Fenring permanecia tranquilo e reservado. Só o chambelán presenciava a cena com semblante preocupado.
O medico guardou seu equipamento e depois estudou o cubo que continha o histórico médico do paciente. Por fim, anunciou para o atordoado ancião:
— Nem mesmo a melange pode conservá-lo jovem eternamente, senhor. Na sua idade é natural que a saúde comece a declinar. Às vezes com grande rapidez.
Shaddam exalou um suspiro inaudível de alívio.
Elrood se levantou com dificuldade, e suas concubinas dispuseram travesseiros borlas que apoiasse as costas. Profundas rugas apareceram em seu rosto cinzento e inchado.
— Mas a poucos meses me sentia muito melhor.
— A velhice não é uma linha perfeita num gráfico. Há picos e quedas, recuperações e recaídas. — O médico teve a audácia de utilizar um tom de prepotente, como se insinuasse que o imperador não podia compreender conceitos tão complicados —. O corpo humano é uma sopa química e bioelétrica, e acontecimentos aparentemente inconseqüentes podem provocar grandes mudanças. esteve submetido a tensões ultimamente?
— Sou o imperador! — replicou Elrood como se o Suk fosse terrivelmente estúpido —. Tenho muitas responsabilidades. Isto provoca tensões, é obvio.
— Nesse caso, comecem a delegar mais funções ao príncipe herdeiro e seus
ajudantes de confiança, como Fenring. O senhor não vai viver eternamente. Nem mesmo um imperador pode fazê-lo. Planeje o futuro. —
O médico fechou a maleta. Shaddam sentiu vontade de abraçá-lo —.
Deixarei uma prescrição e aparelhos para que se sinta melhor.
— A única prescrição que desejo é mais especiaria em minha cerveja.
Elrood deu um longo e ruidoso gole de sua jarra.
— Como preferir — disse o esquelético doutor Suk . Tirou uma bolsa da maleta e a deixou na mesa —. Estes aparelhos servem para descansar os músculos, se necessitar. Cada aparelho contém instruções para que suas concubinas os utilizem para diminuir suas dores.
— De acordo, de acordo — disse Elrood —. Deixe-me de uma vez.
Tenho trabalho a fazer.
O doutor Yungar desceu os degraus da cama e fez uma reverência.
— Com sua permissão, senhor.
O imperador, impaciente, agitou uma mão nodosa em sinal de despedida. As concubinas sussurraram entre si, com os olhos totalmente abertos. Duas delas agarraram os aparelhos para descansar os músculos e brincaram com os controles. Shaddam sussurrou a um servente que acompanhasse o médico e o chambelán Hesban, que se encarregaria de pagá-lo. Era evidente que Hesban queria ficar no hall e falar de certos documentos, tratados e outros assuntos de Estado com o ancião, mas Shaddam, convencido de que era capaz de cuidar desses assuntos, queria afastar o pesado conselheiro.
Quando o Suk se foi, Elrood disse para seu filho:
— Talvez o médico tenha razão, Shaddam. Há um assunto que quero discutir com você e com Hasimir. Um projeto político que desejo levar adiante, com independência de minha saúde. Eu lhes contei sobre meus planos sobre IX, e da tomada de poder pelos Tleilaxu? Shaddam virou os olhos. Claro, velho idiota! Fenring e eu nos ocupamos de quase todo o trabalho. Foi nossa idéia enviar Dançarinos Faciais a IX, para que se
infiltrassem entre a classe trabalhadora.
— Sim, pai. Conhecemos os planos.
Elrood indicou que se aproximassem, e as feições do ancião se nublaram. Shaddam viu pela extremidade do olho que Fenring expulsava às concubinas, e que depois se aproximava para escutar as palavras do imperador.
— Esta manhã recebi uma mensagem cifrada de nossos agentes em IX. Já conhece a inimizade que nutro pelo conde Vernius.
— Ah, sim... Nós sabemos, pai — disse Shaddam. Pigarreou —.
Uma velha afronta, uma mulher roubada...
Os olhos úmidos de Elrood se iluminaram.
— Ao que parece nosso audaz Dominic esteve brincando com fogo, treinando seus homens com meks de batalha móveis que analisam os competidores e processam dados, talvez usando um cérebro informatizado.
Também vendeu estas “máquinas inteligentes” no mercado negro.
— Sacrilégio, senhor — murmurou Fenring. — Isso é contrário aos regulamentos da Grande Convenção.
— Exato — corroborou Elrood —, e esta não é a única infração. A Casa Vernius também está desenvolvendo sofisticadas otimizações cyborg.
Reposições corporais mecânicas. Podemos utilizar isso em nosso benefício.
Shaddam franziu a testa, aproximou-se mais do ancião e sentiu o aroma amargo da cerveja de especiaria em seu hálito. — Cyborgs? São mentes humanas acopladas a corpos robóticos, e portanto não violam a Jihad.
Elrood sorriu.
— Mas nós entendemos que existiram certos... compromissos. Certo ou não, é o tipo ideal de desculpa que nossos impostores necessitam para terminar a tarefa. O momento de agir é agora. A Casa Vernius se encontra à beira da destruição, e um empurrãozinho a derrubará.
— Hummmm, isso é interessante — disse Fenring —. Então, os Tleilaxu se apoderarão das sofisticadas instalações ixianas para suas pesquisas.
— Isto é muito importante, e vocês verão como cuido desta situação
— disse Elrood —. Observe e aprenda. Já pus meu plano em marcha. Os trabalhadores subóides ixianos estão, digamos, preocupados, com estes desenvolvimentos, e nós estamos... — fez uma pausa para provar sua jarra de cerveja de especiaria e estalou os lábios — inspirando seu descontentamento por meio de nossos representantes.
Elrood deixou a jarra vazia e mergulhou numa letargia repentina.
Acomodou seus travesseiros, deitou-se de costas e dormiu.
Shaddam trocou um olhar de cumplicidade com Fenring e pensou na conspiração dentro da conspiração: sua participação secreta nos acontecimentos de IX, Fenring e ele tinham sido os responsáveis por colocar o Professor Tleilaxu em contato com Elrood. Agora, os Bene Tleilax, utilizando seus metamorfos geneticamente modificados, estavam açulando o ardor religioso e o descontentamento entre as classes inferiores de IX. Para os fanáticos Tleilaxu, qualquer ameaça de uma máquina pensante, e dos ixianos que as criavam, era obra de Satanás.
Quando os dois jovens abandonaram a habitação do imperador, Fenring sorriu, absorto em pensamentos similares. Observe e aprenda, havia dito o velho idiota.
Elrood, bastardo condescendente, você sim que tem que aprender... e não lhe resta muito tempo para isso. Os líderes da Jihad Butleriana não definiram com precisão a inteligência artificial, mas previram todas as possibilidades de uma sociedade imaginativa. Em conseqüência, contamos com zonas cinzentas substanciais para manobrar. Opinião legal Ixiana - confidencial
Embora a explosão fosse longínqua, a onda de choque fez tremer a mesa em que Leto e Rhombur estavam sentados, estudando. Fragmentos de plasmento do teto, onde tinha aparecido uma larga rachadura, choveram sobre eles. Um raio se desenhou em uma das amplas janelas de plaz, que se partiu imediatamente.
— Infernos carmesins! O que foi isso? — exclamou Rhombur.
Leto se pôs em pé de um salto. Atirou os livros para um lado e procurou a origem
da explosão. Viu o lado oposto da gruta subterrânea, onde vários edifícios se transformaram em escombros. Os dois jovens trocaram olhares de perplexidade.
— Prepare-se — disse Leto, alarmado.
— Para que?
Leto o ignorava. Tinham assistido juntos a uma das aula do Grand Palais, primeiro para estudar Filosofia dos Cálculos e as bases do Efeito Holtzman, e depois sistemas de fabricação e distribuição ixianos. Das paredes pendiam quadros antigos dentro de molduras fechadas hermeticamente, incluindo obras dos velhos mestres terráqueos Claude Monet e Paul Gauguin, com placas interativas que permitiam a artistas ixianos ampliá-los. Desde que Leto informara sobre sua aventura nos túneis dos subóides, não ouvira nada sobre discussões ou investigações posteriores. Talvez o conde imaginasse que o problema se resolveria por si só.
Outra onda de choque fez a habitação vibrar, e esta foi mais potente e próxima. O príncipe de IX agarrou a mesa para impedir que caísse. Leto correu para a janela rachada.
— Olhe, Rhombur!
Alguém gritou em uma das ruas que comunicavam com os edifícios de estalactites. À esquerda, uma cápsula de transporte fora de controle se chocou contra o chão, entre uma nuvem de cristais estilhaçados e membros mutilados de passageiros.
A porta da sala-de-aula se abriu com estrépito, o capitão Zhaz da Guarda Imperial irrompeu como um louco, armado com um dos novos rifles laser modulados por impulsos, Seguiram-no quatro subordinados, todos armados da mesma forma, todos uniformizados com o branco da Casa Vernius. Ninguém em lx, em especial o conde, tinha pensado que Leto ou Rhombur necessitariam de proteção de um guarda-costas.
— Venha conosco, jovens amos! — disse Zhaz, quase sem fôlego.
Os olhos escuros do homem, emoldurados por sua barba castanha, brilharam de assombro quando reparou nos fragmentos de pedra caídos do teto, e depois na janela rachada. Embora estivesse disposto a lutar até a morte, era evidente que Zhaz não entendia o que estava ocorrendo na cidade de Vernii, geralmente tão pacífica.
— O que está acontecendo, capitão? — perguntou Rhombur, enquanto os guardas os acompanhavam no corredor, onde as luzes piscavam. Sua voz se quebrou por um momento, e depois soou com mais energia, como era de esperar do herdeiro do conde —. Diga-me, minha família está a salvo?
Outros guardas e membros da corte ixiana corriam de um lado para outro, gritando estridentemente, em contraponto com outra explosão. De baixo ouviram o tumulto de uma multidão enfurecida, tão longínqua que parecia um murmúrio profundo. Então, Leto distinguiu o zumbido de disparos de fuzis laser. Antes que o capitão respondesse a Rhombur, Leto adivinhou a origem dos distúrbios.
— Há problemas com os subóides, meus senhores! — gritou Zhaz
—. Não se preocupem, logo os controlaremos. — Tocou um botão em seu cinturão, e uma porta invisível até esse momento se abriu na parede recoberta de mármore. O capitão e a guarda da Casa se prepararam durante tanto tempo contra ataques externos, que não sabiam como lutar contra uma revolta interna —. Sigam-me e os porei a salvo! Estou certo de que sua família estará esperando.
Quando ambos os jovens se agacharam para passar pela meia porta oculta atrás dos cristais, o portal se fechou a suas costas. À luz amarela dos globos luminosos de emergência se acendeu, Leto e Rhombur correram junto a uma via eletromagnética, enquanto o capitão do guarda gritava freneticamente por um comunicador manual. O instrumento projetava uma luz lavanda, e Leto ouviu o som metálico da voz que respondia.
— A ajuda está à caminho!
Segundos depois, um carro blindado apareceu na via e parou. Zhaz subiu com os dois jovens herdeiros e um par de guardas, enquanto os outros homens da segurança ficavam para defender sua fuga. Leto se deixou cair em um assento, enquanto Zhaz e Rhombur se apertavam diante.
O carro começou a mover-se.
— Os subóides derrubaram duas colunas de diamante — disse Zhaz, enquanto consultava a tela do comunicador —. Parte da casca superior caiu. — Seu rosto empalideceu de incredulidade. Coçou a barba. — Isso é impossível.
Leto, que tinha visto os sinais da tormenta que se aproximava, sabia que a situação devia ser ainda pior do que o capitão imaginava. Os problemas de IX não iriam ser resolvidos em uma hora.
Ouviu-se um relatório emitido por uma voz metálica, que parecia desesperada.
Os subóides estão subindo em massa dos níveis inferiores! Como é...
Como é possível que se organizaram tão bem?
Rhombur amaldiçoou, e Leto dirigiu um olhar significativo para seu amigo corpulento. Tinha tentado avisar os ixianos, mas a Casa Vernius se negara a considerar a gravidade da situação.
Uma rede de segurança caiu sobre Leto assim que se acomodou, e o veículo continuou acelerando com um zumbido, enquanto subia por cavernas ocultas no teto de rocha. O capitão Zhaz ativou um teclado de comunicações na parte dianteira do compartimento, e seus dedos dançaram sobre as teclas. Um brilho azul rodeou suas mãos. A seu lado, Rhombur observava o capitão com muita atenção, consciente de que se esperava que assumisse o comando.
— Estamos em uma cápsula de fuga — explicou um guarda a Leto
—. Por enquanto ambos estão a salvo. Os subóides não conseguirão atravessar nossas defesas superiores, uma vez que as tenhamos ativado.
— Mas e meus pais? — perguntou Rhombur —. E Kailea?
— Temos um plano para este caso. Você e sua família devem encontrá-los em um ponto de reunião. Por todos os santos e pecadores, espero que meus homens lembrem do que devem fazer. É a primeira vez que não se trata de um exercício.
O veículo mudou várias vezes de via, acelerou ainda mas e subiu no escuro. Ao fim de pouco tempo, a via se nivelou e uma luz iluminou o carro, quando passou em frente a uma imensa janela de plaz blindado unidirecional. Puderam ver rapidamente os distúrbios que aconteciam no chão: os brilhos de incêndios e as manifestações que invadiam a cidade.
Outra explosão, e uma das passarelas transparentes superiores estalou em mil pedaços, que caíram para o fundo da caverna. Figuras diminutas de pedestres se precipitaram para seu fim.
— Pare aqui, capitão! — gritou Rhombur —. Tenho que ver o que está acontecendo.
— Por favor, senhor, não demore mais de alguns segundos —
suplicou o capitão —. Os rebeldes poderiam abrir uma brecha nessa parede.
Leto custou a acreditar o que estava ouvindo. Rebeldes? Explosões?
Evacuações de emergência? IX tinha parecido ser tão sofisticado, tão pacífico, tão... alheio às discórdias. Como os insatisfeitos com sua sorte, os subóides, tinham planejado um ataque tão maciço e coordenado? De onde tinham obtido os recursos?
Através do painel unidirecional, Leto viu que os soldados de Vernius lutavam uma batalha perdida contra enxames de inimigos no chão da caverna. Os subóides lançavam explosivos caseiros ou bombas incendiárias, enquanto os ixianos repeliam as turbas com tiros púrpura de seus fuzis laser.
— O comando diz que os subóides estão se rebelando em todos os níveis — disse Zhaz sem acreditar no que ouvia —. Gritam “Jihad” quando atacam.
— Infernos carmesins! — exclamou Rhombur —. O que isso tem a ver com a Jihad? O que tem a ver conosco?
— Temos que nos afastar da janela — insistiu Zhaz, ao mesmo tempo que puxava a manga de Rhombur —. É preciso chegar ao ponto de encontro.
Rhombur se afastou da janela, no momento em que parte de uma rua laje caia abaixo ela, e ondas de subóides surgiam dos túneis.
O veículo acelerou e girou à esquerda na escuridão, para depois subir mais uma vez. Rhombur assentiu para si, com o rosto tenso e decomposto.
— Temos centros de comando secretos nos níveis superiores.
Tomamos precauções para este tipo de situações, e a esta altura nossas unidades militares devem ter rodeado os centros de fabricação vitais. Não demorarão muito para sufocar a sublevação.
O filho do conde falava como se tentasse convencer a si mesmo.
Zhaz se inclinou sobre o teclado, e a luz pálida banhou seu rosto.
— Olhem, teremos problemas mais adiante, senhor!
Mexeu nos controles. O veículo oscilou e Zhaz tomou uma via lateral. Os outros dois guardas prepararam suas armas, ao mesmo tempo em que esquadrinhavam a escuridão que os rodeava.
— A Unidade Quatro foi aniquilada — disse o capitão Zhaz —. Os subóides abriram caminho através das paredes laterais. Vou chamar a Três!
— Aniquilada? — disse Rhombur, e seu rosto avermelhou de vergonha ou medo —. Como os subóides conseguiram isso?
— O comando diz que os Tleilaxu estão envolvidos, e também alguns de seus dançarinos faciais. Estão armados até os dentes. — Soltou uma exclamação quando viu os relatórios que chegavam —. Deus nos proteja!
Uma avalanche de perguntas assaltou Leto. Os Tleilaxu? Por que atacam IX? É um planeta mecanizado... e os Tleilaxu são fanáticos religiosos. Temem tanto às máquinas ixianas que utilizaram seus metamorfos criados em contêineres para infiltrar-se entre o proletariado subóide? Isso explicaria a coordenação. Mas por que tanto interesse?
Enquanto o veículo avançava, Zhaz mantinha a vista fixa no tabuleiro de comunicações, onde recebia os relatórios da batalha.
— Por todos os santos e pecadores! Engenheiros Tleilaxu explodiram as tubulações que transmitem calor do núcleo do planeta.
— Mas precisamos dessa energia para que as fábricas funcionem —
gritou Rhombur.
— Também destruíram as linhas de reciclagem que servem para transportar os refugos industriais e os gases de escape no manto. — A voz do capitão ficou indignada —. Estão atacando o coração de IX, paralisando nossa capacidade de fabricação.
Enquanto Leto pensava no que tinha aprendido durante os meses passados no planeta, as peças do quebra-cabeças começaram a encaixar em sua mente.
— Pense bem — disse —, tudo isto pode ser reparado. Sabiam exatamente onde golpear para enfraquecer IX sem causar danos permanentes... — Leto assentiu com ar sombrio, agora que tinha compreendido tudo —. Os Tleilaxu querem este planeta e suas instalações intactas. Querem tomar o controle.
— Não seja ridículo, Leto. Jamais entregaríamos IX para os repugnantes
Tleilaxu.
Rhombur parecia mas perplexo que irritado.
— Pode ser que não haja outra alternativa, senhor — disse Zhaz.
Quando Rhombur ladrou uma ordem, um guarda abriu o compartimento e extraiu um par de pistolas de dardos e cinturões escudo, que entregou para os dois príncipes.
Leto prendeu o cinturão sem fazer perguntas e tocou um botão para confirmar se o aparelho funcionava. Sentiu o contato frio da arma de projéteis em sua mão. Checou o carregador de dardos mortíferos, aceitou dois que o guarda lhe deu e os embutiu em compartimentos do cinturão.
O veículo mergulhou em um túnel comprido e escuro. Leto viu luz ao fundo. Recordou o que seu pai lhe havia dito a respeito dos Tleilaxu:
“Destroem tudo aquilo que se parece com uma máquina pensante.” IX era um objetivo natural para eles.
A luz o deslumbrou, e penetraram nela como uma exalação. A religião e a lei que governam a as massas têm que ser uma. Um ato de desobediência tem que constituir um pecado, e exige um castigo religioso. Isto produzirá o duplo beneficio de gerar maior obediência e maior valentia. Temos que depender nem tanto da valentia individual, mas da valentia de toda a população. Pardot Kynes, discurso dirigido aos representantes dos sietches mais importantes
Indiferente ao destino que tinham decidido para ele, Pardot Kynes passeava pelos túneis, acompanhado de seus agora fiéis seguidores Ommun e Turok. Os três foram visitar Stilgar, que descansava e se restabelecia nos aposentos familiares.
Assim que viu seu visitante, Stilgar se sentou na cama. Embora sua ferida pudesse ter sido fatal, o jovem Fremen se recuperou quase por completo em um espaço muito curto de tempo.
— Devo-lhe a água de minha vida, planetólogo — disse, e cuspiu ritualmente no chão da caverna.
Kynes se sobressaltou um momento, mas depois acreditou compreender.
Conhecia a importância da água para aquela gente, sobretudo da apreciada umidade contida no corpo de uma pessoa. Para Stilgar sacrificar uma gota de saliva significava lhe render uma grande honra.
— Eu... agradeço sua água, Stilgar — disse Kynes com um sorriso forçado —. Mas pode conservar o resto. Quero que se restabeleça.
Frieth, a silenciosa irmã de Stilgar, estava junto à cama do jovem, sempre ocupada, e seus olhos de um azul muito profundo se moviam de um lugar para outro, em busca de algo novo para fazer. Olhou por um longo momento para Kynes, como se lhe estivesse analisando, mas sua expressão era indecifrável. Depois saiu em silêncio para trazer mais ungüentos que acelerariam a recuperação do seu irmão. Mais tarde, enquanto Kynes passeava pelos passadiços do sietch, muitos curiosos se reuniram para ouvir o que ele dizia. Envolvidos em suas tarefas cotidianas, a presença do alto e barbudo planetólogo continuava a ser uma novidade interessante. Suas loucas mas, visionárias palavras talvez soassem ridículas, como uma absurda fantasia, mas até os meninos do sietch seguiam o forasteiro.
A multidão ruidosa acompanhou Kynes enquanto soltava seu discurso, fazia gestos e olhava para o teto como se pudesse ver o ciclo. Por mais que se esforçassem, os Fremen eram incapazes de imaginar as nuvens que se aglomeravam para verter água sobre o deserto. Gargantas de umidade que caem do céu vazio? Absurdo!
Alguns meninos riram só de pensar que podia chover em Dune, mas Kynes continuou falando, explicando os passos de seu procedimento para extrair vapor de água do ar. Recolheria até a última gota de orvalho dos lugares sombreados, afim de remodelar Arrakis de forma precisa e preparar o caminho de uma ecologia nova e brilhante.
— Precisam pensar neste planeta em termos de engenharia — disse Kynes, com o tom de um professor que se dirige aos alunos. Gostava de ter um público tão atento, embora não estivesse seguro de que entendessem muito —. Em seu conjunto, este planeta é uma mera expressão da energia, uma máquina impulsionada por seu sol. — Baixou a voz e olhou para uma menina que o observava com os olhos totalmente abertos —. Precisamos remodelá-lo de maneira que se adapte a nossas necessidades. Temos a capacidade de fazer isso em... Dune. Mas contamos com a energia e a auto-disciplina necessárias?
Levantou a vista e olhou para outro ouvinte.
— Só nós podemos dizer.
Àquelas alturas, Ommun e Turok tinham escutado quase todas as conferências de Kynes, e suas palavras tinham se enraizado. Agora, quanto mais descobriam de seu entusiasmo transbordante e sua absoluta sinceridade, mais começavam a acreditar. Por que não sonhar? A julgar pela expressão de seus ouvintes, era evidente que outros Fremen também começavam a considerar as possibilidades. Os anciões do sietch qualificavam estes conversos de crédulos e otimistas. Kynes, inabalável, continuava propagando suas idéias, por mais extravagantes que parecessem. O naib Heinar, com expressão sombria, entreabriu seu único olho e estendeu o crys sagrado, ainda embainhado. O corpulento guerreiro que se erguia imóvel a frente dele ergueu as mãos para receber o presente. O naib entoou as palavras rituais. — Uliet, Liet maior, foste eleito para a tarefa pelo bem de nosso sietch. É um cavalheiro da areia e um dos maiores guerreiros Fremen.
Uliet, um homem de meia idade e feições duras inclinou a cabeça.
Continuou com as mãos estendidas. Esperou sem pestanejar. Embora fosse um homem de profundas convicções religiosas, procurou dissimular seu ardor. — Pegue este crys consagrado, Uliet.
Heinar empunhou o cabo esculpido e extraiu a larga folha branca de sua capa. A faca era uma relíquia sagrada para os Fremen, fabricado a partir do dente de cristal de um verme de areia. Aquele arma em particular se adaptava ao corpo de seu proprietário, de forma que quando este morria, a faca se dissolvia. — Sua folha foi impregnada na venenosa Água da Vida, e benta pelo Shai-Hulud — continuou Heinar —. Tal como manda nossa tradição, a sagrada folha não pode ser embainhada de novo até que tenha provado sangue.
Uliet pegou a arma, aflito de repente pela importância da tarefa para a qual tinha sido eleito. De natureza muito supersticiosa, tinha observado os gigantescos vermes do deserto e montado sobre eles muitas vezes. Mas nunca tinha chegado ao extremo de familiarizar-se com aqueles seres fabulosos. Não podia esquecer que eram manifestações do grande criador do universo. — Obedecerei a vontade do Shai-Hulud.
Uliet aceitou a faca envenenada e a segurou no alto. Outros anciões estavam reunidos atrás do naib, firmes em sua decisão.
— Leve dois coletores de água — disse Heinar — para recolher a água do planetólogo e utilizá-la em benefício de nosso sietch.
— Talvez devêssemos reservar uma pequena quantidade para plantar um arbusto em sua honra — propôs Avalanche, mas ninguém o apoiou.
Uliet saiu da câmara ereto em toda sua estatura e com ar orgulhoso, um verdadeiro guerreiro Fremen. Não tinha medo do planetólogo, embora o forasteiro falasse com ardor de seus planos ridículos e extravagantes, como se fosse guiado por uma visão divina. Um estremecimento percorreu a espinha dorsal do assassino.
Uliet entreabriu seus olhos azuis e afastou esses pensamentos enquanto percorria os corredores escuros. Dois coletores de água o seguiam, carregando garrafões vazios para recolher o sangue de Kynes, e com panos absorventes para secar até a última gota que caísse no chão da caverna.
Não foi difícil encontrar o planetólogo. Um séquito o seguia com expressão de entusiasmo ou ceticismo tingido de assombro. Kynes, que sobressaía sobre outros, caminhava sem rumo, falava e movia os braços.
Seu rebanho o seguia a uma prudente distância. Alguns faziam perguntas, mas a grande maioria se limitava a escutar.
— A grande pergunta do homem não é quantos sobreviverão dentro do sistema — estava dizendo Kynes quando Uliet se aproximou esgrimindo a faca bem visível e a missão estampada em seu rosto —, mas um tipo de existência será possível para os sobreviventes.
Uliet avançou pela multidão. Os ouvintes do planetólogo viram o assassino e sua faca. Afastaram-se e trocaram olhares astutos, alguns decepcionados, outros atemorizados. Emudeceram. Assim eram os costumes do povo Fremen.
Kynes não se deu conta de nada disso. Riscou um círculo no ar com um dedo.
— Aqui é possível encontrar água na superfície, mediante uma mudança leve mas viável. Poderemos conseguir se me ajudarem. Pensem nisso: caminhar ao ar livre sem um traje Destilador. — Apontou para dois meninos mais próximos. Eles se afastaram envergonhados —. Imaginem isto: tanta umidade no ar que os
trajes destiladores não serão necessários.
— Quer dizer que haverá água nos lagos e poderemos beber dela sempre que quisermos? — ironizou um dos observadores mais céticos.
— Certamente. Vi isso em muitos planetas, e nada impedirá que também façamos isso aqui, em Dune. Graças a armadilhas de vento poderemos retirar a água do ar e utilizá-la para plantar erva, arbustos, algo que armazene a água nas células e raízes, e a conserve. De fato, por trás desses lagos poderemos plantar pomares de árvores frutíferas.
Uliet continuou avançando, em transe. Os coletores de água se atrasaram. Não seriam necessários até que o assassinato se consumasse.
— Que tipo de fruta? — perguntou uma menina.
— Oh, a que quiser — disse Kynes —. Primeiro, teríamos que examinar o estado do chão e a umidade. Uvas, possivelmente, nas encostas rochosas. E portyguls, laranjas redondas. Ai, como eu gosto! Meus pais tinham uma árvore em Salusa Secundus. Os portyguls têm uma casca dura e enrugada, mas fácil de cortar. O fruto fica nos galhos, doces e suculentos, e de um laranja mais intenso que possam imaginar.
Uliet só via uma neblina avermelhada. Tinha sua missão gravada a fogo no cérebro, e obscurecia todo o resto. As ordens do naib Heinar ressoavam em seu cérebro. Entrou na zona vazia onde as pessoas tinham retrocedido para escutar as palavras do planetólogo. Uliet procurava não escutar os sonhos, procurava não pensar nas visões que Kynes pregava.
Estava claro que aquele homem era um demônio enviado para perverter as mentes dos seus ouvintes...
Uliet cravou a vista à frente, enquanto Kynes continuava percorrendo o corredor, alheio a tudo. Descrevia com gestos exuberantes pastos, canais e bosques. Pintava quadros em sua imaginação. O planetólogo umedeceu os lábios, como se já estivesse saboreando o vinho de Dune.
Uliet se plantou à frente dele e ergueu a faca envenenada.
No meio de uma frase, Kynes reparou no desconhecido. Parecendo irritado pela distração, piscou uma vez e se limitou a dizer:
— Afaste-se.
Passou ao lado e continuou falando.
— Ai, os bosques! Verdes e exuberantes até perder-se de vista, cobrem colinas, baixios e vales. Nos velhos tempos, a areia invadia as plantas e as destruía, mas no novo Dune será o contrário: o vento transportará as sementes por todo o planeta, e crescerão mais plantas e árvores, como crianças.
O assassino estava imóvel, estupefato pelo fato de ter sido descartado com tanta espontaneidade. Afaste-se. A importância de sua missão o paralisava. Se matasse esse homem, as lendas Fremen o chamariam de Uliet o Destruidor de Sonhos.
— Não obstante, antes temos que instalar armadilhas de ar nas rochas — continuou Kynes, sem fôlego —. São sistemas simples, fáceis de construir, e coletarão a umidade, canalizando-a até lugares onde possamos utilizá-la. Claro, teremos imensas cisternas subterrâneas para toda a água, um passo para devolver a água à superfície. Sim, eu disse devolver. Em outro tempo, a água corria livremente por Dune. Vi os sinais.
Uliet contemplou desolado a faca envenenada, incapaz de acreditar que aquele homem não o temesse. Afaste-se. Kynes tinha enfrentado a morte e a ignorado. Guiado Por Deus.
Uliet continuava quieto, com a faca na mão, e as costas desprotegidas do servidor imperial zombava dele. Seria muito fácil afundar a faca na sua coluna.
Mas o assassino não podia se mover.
Viu a confiança do planetólogo, como se algum guardião sagrado o protegesse. A visão do grande futuro que aquele homem pregava para Dune já tinha cativado aquela gente. E os Fremen, por sua vida dura e as gerações de inimigos que os expulsara de planeta em planeta, necessitavam de um sonho.
Talvez tivesse recebido, por fim, um guia, um profeta. A alma de Uliet se condenaria para sempre se ousasse matar o mensageiro enviado por Deus, esperado durante tanto tempo! Mas tinha aceito a missão encomendada pelo líder do sietch, e sabia que a faca não podia voltar a ser embainhada sem que tivesse provado sangue. Neste caso, o dilema não podia ser resolvido com um corte sem importância, porque a folha estava envenenada. Um simples arranhão o mataria.
Eram feitos irreconciliáveis entre si. A mão do Uliet tremeu sobre o punho da faca esculpida.
Sem perceber que todos tinham emudecido a seu redor, Kynes continuou falando sobre a colocação de armadilhas de vento, mas seu público, consciente do que ia acontecer, olhava para o reputado guerreiro.
Então, a boca de Uliet se encheu de água. Tentou não pensar nisso, mas, como num sonho, teve a impressão de que saboreava o doce e pegajoso suco de portyguls, fruta fresca que podia ser colhida de uma árvore... um pedaço de polpa luxuriosa mudado de um lugar a outro com água pura de um lago. Água para todo mundo.
Uliet retrocedeu um passo, e depois outro, com a faca erguida em um gesto cerimonioso. Retrocedeu um terceiro passo, enquanto Kynes falava de trigo, planícies cobertas de centeio e pancadas de chuva na primavera.
O assassino deu meia volta, aturdido, pensando na palavra que o mensageiro havia dito: Afaste-se.
Contemplou a faca que segurava. Então Uliet se balançou, parou, e voltou a balançar-se para frente, e de forma deliberada caiu sobre sua faca.
Seus joelhos não se dobraram, nem tampouco se encolheu nem tentou evitar seu destino, enquanto se deixava cair de bruços sobre a faca. A ponta envenenada se afundou por baixo do esterno até atingir seu coração. Seu corpo tremeu, estendido no chão. Ao fim de poucos momentos, Uliet morreu. Sangrou muito pouco.
Os Fremen gritaram, impressionados pelo presságio que acabavam de presenciar, e se afastaram. Agora, quando olharam para Kynes com ardor religioso, o planetólogo vacilou e se calou por fim. Virou-se e viu o sacrifício que aquele Fremen acabara de fazer por ele, o derramamento de sangue.
— O que aconteceu aqui? — perguntou —. Quem era este homem?
Os coletores de água se apressaram para recolher o cadáver de Uliet.
Cobriram o assassino caído com mantas, toalhas e panos, e se afastaram para levá-lo aos destiladores de mortos e começar o processo.
Os outros Fremen olharam para Kynes com reverência.
— Olhem! Deus nos indicou o que temos que fazer — exclamou uma mulher —. Ele guiou Uliet. Ele falou a Pardot Kynes. — Umma Kynes — disse alguém. Profeta Kynes.
Um homem se levantou e olhou para os outros congregados.
— Seríamos loucos se não o escutássemos agora. Algumas pessoas saíram correndo em todas direções do sietch.
Como não compreendia a religião Fremen, Kynes não entendia nada.
Entretanto, a partir desse momento pensou que não seria difícil encontrar ouvintes. Nenhum forasteiro jamais conheceu uma mulher Tleilaxu e viveu para contar. Considerando a propensão dos Tleilaxu para a manipulação genética (vejam-se, por exemplo, informes anexos sobre clones e gholas), esta simples observação levanta um sem-fim de perguntas adicionais. Análise da Bene Gesserit
Uma mulher ixiana sem fôlego, provida dos créditos de Correio, chegou a Kaitain com um importante comunicado para o imperador. Entrou no palácio como um furacão. Nem mesmo Cammar Pilru, embaixador oficial de IX, estava informado da mensagem nem das terríveis notícias sobre a revolta dos subóides.
Como as comunicações fotos instantâneas de dobra-espacial não existiam entre planetas, os Correios oficiais embarcavam em Cruzeiros rápidos, portadores de comunicações memorizadas imediatamente para entregá-las em pessoa a seus destinatários. O resultado era imensamente mais veloz que por rádio ou outras ondas eletrônicas, que demorariam anos para cruzar um espaço tão imenso.
Escoltada por dois homens da Corporação, a Correio Yuta Brey solicitou uma entrevista imediata com o imperador. A mulher se negou a revelar do que se tratava, nem mesmo seu próprio embaixador, que soube do vôo e correu para a sala de audiências. O magnífico Trono do Leão Dourado estava vazio. Elrood voltara a sentir-se doente e fatigado.
— Só posso entregar esta mensagem ao imperador, uma solicitação urgente do conde Dominic Vernius — disse Brey ao embaixador Pilru. A Corporação e a CHOAM utilizavam diversas técnicas de choque para doutrinar os Correios oficiais, afim de garantir precisão e lealdade —.
Entretanto, não se afaste muito, embaixador. Também trago notícias vitais referentes a possível queda de IX. Deve estar informado da situação.
O embaixador Pilru soltou uma exclamação afogada e suplicou por mais informação, mas a mulher guardou silêncio. Deixou a suas escoltas da Corporação e o diplomata ixiano na sala de audiências. Guardas de elite Sardaukar examinaram seus créditos e a conduziram a um hall adjacente ao dormitório do imperador.
O imperador, com aspecto gasto e envelhecido, usava um manto com o emblema imperial na lapela. Estava sentado em uma poltrona de respaldo alto, com os pés apoiados sobre um aquecedor. A seu lado se erguia um homem alto de bigodes caídos, que se identificou como o chambelán Aken Hesban.
Brey se surpreendeu ao ver o ancião sentado daquela forma tão vulgar, e não no majestoso no trono. Seus olhos tintos de azul estavam invadidos pela enfermidade, e mal podia manter a cabeça erguida sobre seu pescoço esquelético. Parecia que poderia falecer a qualquer momento.
Apresentou-se com uma breve reverência.
— Sou a Correio Yuta Brey de IX, senhor, com uma importante solicitação do conde Dominic Vernius.
O imperador franziu o sobrecenho quando ouviu o nome de seu rival, mas não nada disse, preparado para dar seu golpe. Tossiu e cuspiu em um lenço.
— Estou ouvindo.
— Somente o imperador pode ouvir — replicou a mulher, e olhou com insolência para Hesban,
— Ah, sim? — disse Elrood com um sorriso tenso —. Ultimamente não ouço muito bem, e este distinto cavalheiro é meu ouvido. Ou deveria dizer meus ouvidos? Se utiliza o plural nestes casos? O chambelán se inclinou e sussurrou algo ao imperador.
— Acabo de ser informado que é meus ouvidos — disse Elrood com um firme assentimento.
— Como quiser — disse Brey.
Recitou as palavras memorizadas, utilizando as entonações empregadas pelo conde Dominic Vernius.
— Estamos sendo atacados pelos Bene Tleilax, sob a falsa alrgação de distúrbios
internos. Através de dançarinos faciais infiltrados, os Tleilaxu fomentaram uma insurreição entre nossa classe operária. Graças a estes meios traiçoeiros, os rebeldes contaram com a vantagem da surpresa.
Muitas de nossas instalações defensivas foram destruídas ou sitiadas. Como dementes, gritam Jihad! Jihad!
— Guerra Santa? — perguntou Hesban —. Por que? O que estão fazendo agora em IX? — Não temos idéia, senhor chambelán. É bem sabido que os Tleilaxu são fanáticos religiosos. Nossos subóides são criados para seguir instruções, do que se desprende que é fácil manipulá-los. — Yuta Brey vacilou —. O conde Dominic Vernius solicita respeitosamente a imediata intervenção dos Sardaukar do imperador contra este ato ilegal.
Expôs muitos detalhes sobre as posições militares ixianas e Tleilaxu, incluindo o alcance da rebelião, as fábricas inutilizadas e os cidadãos assassinados. Uma das vítimas mais importantes era a esposa do embaixador, uma banqueira, morta por causa de uma explosão no edifício da embaixada da Corporação.
— Eles foram muito longe. — Hesban, indignado, parecia disposto a dar a ordem de defender IX. A solicitação da Casa Vernius era razoável.
Olhou para o imperador —. Senhor, se os Tleilaxu desejam acusar IX de violar as normas da Grande Convenção, que o façam em um tribunal do Landsraad.
Apesar do incenso e das bandejas de canapés com especiaria, Brey ainda sentiu um aroma de enfermidade no ar viciado do hall. Elrood se remexeu sob seu pesado manto. Entreabriu os olhos.
— Tomaremos em consideração sua solicitação, Correio. Neste momento, preciso descansar um pouco, ordens dos médicos, como sabe.
Falaremos do assunto amanhã. Rogo-lhe que tome um refresco e escolha uma câmara nos aposentos de nossos dignitários visitantes. Pode ser que também deseje se reunir com o embaixador ixiano.
Um olhar de alarme apareceu nos olhos da mulher.
— Esta informação é de poucas horas atrás, senhor. Nossa situação é desesperada. Tenho instruções de lhe dizer que o conde Vernius considera fatal qualquer atraso.
Hesban respondeu em voz alta, ainda confuso pela falta de iniciativa de Elrood.
— O imperador não lhe diz nada, jovem. Solicita, e pronto.
— Minhas mais sinceras desculpas, senhor. Rogo-lhe que perdoe minha agitação, mas hoje vi meu planeta receber um golpe mortal. Que resposta devo dar ao conde Vernius?
— Tenha paciência. Entrarei em contato com ele no seu devido tempo, quando tiver considerado minha resposta.
A cor abandonou o rosto de Brey.
— Posso perguntar quando?
— Não! — trovejou Elrood —. Sua audiência acabou. — Fulminou-a com o olhar. O chambelán Hesban se encarregou da situação: apoiou uma mão no ombro de Brey e a conduziu para a porta, enquanto olhava para o imperador.
— Como quiser, senhor.
Brey fez uma reverência, e os guardas de elite a acompanharam para fora da habitação.
Elrood tinha visto ira e desespero na expressão da Correio quando compreendeu que sua missão tinha fracassado.
Mas tudo tinha funcionado perfeitamente. Assim que a Correio ixiana e o chambelán da corte saíram, o príncipe herdeiro Shaddam e Fenring entraram na sala de espera. Elrood sabia que estavam escutando às escondidas.
— Pouca educação estão adquirindo, não é? — disse —. Observe e aprenda.
— O senhor administrou a situação como um mestre, pai. Os acontecimentos estão se desenrolando exatamente como previu.
Com uma boa ajuda invisível do Fenring e eu.
O imperador sorriu, e depois teve um acesso de tosse.
— Meus Sardaukar seriam mais eficientes que os Tleilaxu, mas não podia correr
o risco de que minha mão fosse notada logo no início. Um protesto oficial de IX ao Landsraad provocaria problemas. Temos que nos livrar da Casa Vernius e pôr em seu lugar os Tleilaxu como nossos marionetes, com legiões Sardaukar para encarregar-se da repressão e garantir a conquista. — Hummmm, possivelmente seria preferivel referir-se a isso como procurar uma transição suave e organizada. É melhor evitar a palavra
“repressão”.
Elrood sorriu com seus lábios exangues e exibiu os dentes, de tal forma que sua cabeça pareceu mais que nunca com uma caveira.
— Muito bem, Hasimir, está aprendendo a ser um político... apesar de seus métodos bastante diretos.
Embora os três conhecessem os verdadeiros motivos da rebelião em IX, nenhum falou dos benefícios que receberiam depois que Hidar Fen Ajidica tivesse iniciado as pesquisas para obter a especiaria artificial. O chambelán Hesban invadiu a habitação.
— Desculpe-me, senhor. Quando deixei a Mensageira com suas escoltas da Corporação, ela informou ao embaixador que o senhor tinha se negado a agir, conforme mandam os regulamentos imperiais. Ela se reuniu com o embaixador Pilru para solicitar uma audiência com os membros do Conselho do Landsraad. — Hummmm, ela está se adiantando, senhor — disse Fenring.
— Absurdo — replicou o velho imperador, e depois procurou sua onipresente jarra de cerveja —. O que uma mensageira sabe de regulamentos imperiais?
— Embora não recebam o treinamento completo de um Mentat, os Mensageiros Licenciados têm uma memória perfeita, senhor — disse Fenring, ao mesmo tempo em que se aproximava do imperador para situar-se na posição que sempre ocupava o chambelán Hesban —. Não pode processar os conceitos, mas é muito possível que tenha acesso em seu cérebro a todas os regulamentos e códigos.
— Ah, sim, mas como pode opor-se à decisão do imperador se ele nem sequer a expressou? — perguntou Shaddam.
Hesban retorceu o bigode, e franziu o cenho em direção ao príncipe herdeiro, mas se absteve de repreender Shaddam por sua ignorância da lei imperial.
— Por mútuo acordo entre o Conselho Federado do Landsraad e a Casa Corrino, o imperador tem que prestar auxílio imediato, ou convocar uma reunião urgente do Conselho de Segurança para tratar o assunto. Se seu pai não agir antes de uma hora, o embaixador ixiano tem pleno direito de convocar o Conselho sem esperar.
— O Conselho de Segurança? — Elrood fez uma careta e olhou para o chambelán Hesban, e depois para Fenring —. Que regulamento essa mulher infernal está citando?
— Volume trinta, seção seis ponto três, da Grande Convenção.
— O que diz?
Hesban respirou fundo.
— Está relacionada com situações de guerra entre Casas, nas quais uma das partes em litígio apela ao imperador. O regulamento foi redigido para proibir que os imperadores tomassem partido. Nesses casos, devem agir como arbitro neutro. Neutro, sim, mas... devem agir. — Moveu os pés
—. Senhor, temo que não compreendo seu desejo de atrasar a intervenção.
Não pretende condenar os Tleilaxu?
— Há muitas coisas que você não compreende, Aken — disse o imperador —. Limite-se a cumprir meus desejos. O chambelán pareceu ofendido. — Hummmm. — Fenring passeou por trás da poltrona de encosto alto, e depois agarrou uma massa de fruta caramelizada de uma bandeja —.
Tecnicamente, a Mensageira tem razão, senhor. Não pode atrasar a decisão em um ou dois dias. O regulamento também diz que, se é convocada, a reunião do Conselho de Segurança não pode terminar sem uma decisão firme. — Fenring apoiou um dedo sobre seus lábios enquanto pensava —.
Os grupos hostis e seus representantes têm direito a assistir. No caso dos ixianos, seu representante poderia ser tanto a Corporação Espacial quanto o embaixador Pilru, que, devo acrescentar, tem um filho ameaçado pela revolta de IX, e outro filho que acaba de ingressar na Corporação.
— Lembre-se também que a esposa do embaixador foi assassinada durante os
distúrbios — acrescentou Hesban —. Há gente morrendo.
— Levando em conta nossos planos para utilizar as instalações de IX, seria melhor manter a Corporação à margem dos acontecimentos —
disse Shaddam. — Planos? — O chambelán pareceu alarmado ao descobrir que certas decisões importantes tinham sido ocultas dele. Virou-se para Elrood
—. Que planos são esses, senhor?
— Mais tarde, Aken. — O imperador franziu o sobrecenho e puxou o manto sobre seu peito fundo —. Maldita seja essa mulher!
— Os homens da Corporação estão esperando no salão — insistiu Hesban —. O embaixador Pilru solicitou uma audiência com o senhor.
Dentro de pouco tempo, outras Casas serão informadas dos acontecimentos, sobretudo as que têm diretórios na CHOAM. Os distúrbios de IX provocarão graves conseqüências econômicas, ao menos em um futuro imediato. — Traga-me os regulamentos e dois Mentats para que efetuem análise independentes. Encontrem alguém que nos tire desta confusão! —
O imperador pareceu reanimar-se de repente, animado pela crise —. A Casa Corrino não vai interferir na conquista de IX pelos Tleilaxu. Nosso futuro depende disso.
— Como quiser, senhor.
Hesban fez uma reverência e saiu rapidamente, ainda perplexo, mas disposto a obedecer as ordens.
Minutos depois um criado entrou na sala de espera com um projetor e uma tela oval de plaz negro. O criado montou o aparelho sobre uma mesa. Fenring a moveu para que o imperador a visse bem. Hesban retornou, flanqueado por dois Mentats, com os lábios manchados de suco de safo. Guardas Sardaukar impediram que vários representantes se introduzissem na estadia. Dançaram imagens sobre a mesa, palavras negras impressas em galach. Shaddam, ao lado de seu amigo, esquadrinhou os meandros da lei, como se tentasse localizar algo que tivesse passado desapercebido a todos.
Os dois Mentats se mantiveram imóveis, com os olhos cravados na distância, enquanto realizavam análises diferentes da lei e seus códigos.
— Para começar — disse um deles —, analisem o parágrafo seis ponto três.
As palavras desfilaram pelo projetor, e depois pararam em uma página concreta. Um parágrafo estava sublinhado em vermelho, e uma segunda holocópia da mensagem apareceu no ar. A cópia flutuou até pousar sobre o regaço do imperador, para que ele e outros pudessem lê-la. — Não funcionará resultado — disse o segundo Mentat — Remete a setenta e oito ponto três, volume doze.
Elrood leu o regulamento e passou uma mão sobre a página, que desapareceu.
— Maldita Corporação — resmungou —. Nós os obrigaremos a ajoelhar assim que...
Fenring pigarreou para impedir que o imperador terminasse. O holoprojetor começou a procurar de novo, enquanto os Mentats aguardavam em silêncio. O chambelán Hesban se aproximou para estudar as páginas que passavam a sua frente ele.
— Malditas sejam estes regulamentos! Eu gostaria de dinamitar todas as leis. — Elrood não conseguia se acalmar—. Sou eu o governador do Império, ou não? Tenho que agradar ao Landsraad, tenho que respeitar os caprichos da Corporação... Um imperador não deveria inclinar-se ante outros poderes.
— Tem razão, senhor — reconheceu Hesban —, mas estamos presos em um matagal de tratados e alianças.
— Pode ser que aqui haja algo — disse Fenring —. Apêndice Jihad dezenove zero zero e quatro. — Fez uma pausa —. Em questões relacionadas com a Jihad Butleriana e as proibições estabelecidas com posterioridade, concede-se ao imperador a faculdade de tomar decisões referentes ao castigo dos que desobedecem a proibição contra as máquinas pensantes.
Os olhos fundos do imperador se iluminaram.
— Ah, e como se suscitou certa dúvida sobre possíveis violações ixianas, talvez possamos proceder legalmente com as devidas precauções.
Sobretudo porque recebemos relatórios inquietantes sobre certas máquinas novas.
— Sim? — respondeu o chambelán. — Realmente. Lembra-se dos meks de combate autodidatas que são vendidos no mercado negro? Isso merece uma investigação minuciosa.
Shaddam e Fenring trocaram um sorriso. Todos sabiam que essa atividade não resistiria a uma investigação prolongada, mas no momento bastava para que Elrood atrasasse sua decisão. Em um dia ou dois, os Tleilaxu consolidariam sua conquista. Sem apoio externo, a Casa Vernius estava perdida.
Hesban assentiu enquanto estudava o texto.
— Segundo este apêndice, o imperador Padishah é o “Santo Guardião da Jihad, encarregado de protegê-la e a todos os seus representantes.
— Ah, sim. Neste caso, poderíamos pedir as supostas provas do embaixador Tleilaxu, e depois conceder um tempo limitado a Pilru para responder. — Shaddam fez uma pausa e olhou para Fenring em busca de apoio —. Quando acabar o dia, o imperador poderia pedir um afastamento temporário das hostilidades. — Mas então será muito tarde — disse o chambelán Hesban.
— Exato. IX cairá e não poderemos fazer nada para impedir.
Como muitas delícias culinárias, a venganxa é um prato que se saboreia melhor lentamente, depois de uma preparação longa e minuciosa.
Imperador Elkood IX Reflexões em seu leito de morte Meia hora depois, Shaddam viu entrar no hall do imperador os dois embaixadores inimigos para celebrar uma audiência privada destinada a solucionar o problema. Por sugestão de Fenring, estava vestido com uma vestimenta mais oficial, adornada com ornamentos militares, de modo que enquanto seu pai exibia um aspecto desalinhado e doentio, ele tinha a aparência de um líder.
O embaixador ixiano tinha o rosto largo, com a pele lisa e bochechas rosadas. Todo seu corpo parecia enrugado em um macacão de estamena, com lapelas largas e pescoço fraco. Como admitia que não conhecia a situação de IX detalhadamente, trouxe consigo a Mensageira Yuta Brey, como testemunha ocular.
O único delegado Tleilaxu que conseguiram encontrar, Mofra Tooy, era um homem de pouca estatura, cabelo laranja emaranhado e pele cinzenta. O
homem projetava uma raiva contida, e seus pequenos olhos escuros fulminaram seu colega ixiano. Tooy tinha recebido instruções precisas sobre o que devia dizer.
O embaixador Pilru continuava consternado e confuso pela situação, e só agora começava a assimilar a morte de sua esposa, com a conseguinte dor. Todo lhe parecia muito irreal. Um pesadelo. Remexeu-se em seu lugar, preocupado com seu planeta, seu cargo e seu filho desaparecido, C'tair. O
olhar do embaixador vagava pela sala em busca de apoio entre os conselheiros e funcionários do imperador. Sentiu um calafrio ao ver seus olhares inflexíveis.
Dois agentes da Corporação, de aspecto inexpressivo, esperavam na parte posterior do hall. Um deles tinha o rosto corado e cheio de cicatrizes.
A cabeça do outro era disforme, arredondada na nuca. Shaddam tinha visto gente semelhante em ocasiões anteriores, gente que tinha enfrentado a preparação para Navegantes da Corporação mas que não tinha suportado os rigores do processo de seleção.
— Primeiro escutaremos Mofra Tooy — disse o imperador com a voz rouca —. Quero que explique as suspeitas do seu povo.
— E o motivo para terem iniciado uma ação tão violenta e sem precedentes! — interveio Pilru. Os outros ignoraram seu desabafo.
— Nós descobrimos atividades ilegais em IX — começou o Tleilaxu com voz aguda —. Os Bene Tleilax consideram fundamental deter esta calamidade, antes que outra insidiosa inteligência mecânica se propague pelo Império. Se tivéssemos esperado, possivelmente a raça humana teria padecido por outro milênio de escravidão. Não tivemos outra alternativa senão agir como fizemos.
— Mentiroso! — rugiu Pilru —. Por que se dizem defensores da lei e da ordem sem se submeter ao procedimento legal exigido? Carecem de provas, porque não aconteceram atividades ilegais em IX. Nós respeitamos todas as diretrizes da Jihad.
Com notável calma para um Tleilaxu, Tooy manteve o olhar fixo nos presentes, como se o embaixador nem sequer fosse merecedor de seu desprezo.
— Nossas forças iniciaram uma ação necessária antes que as provas pudessem ser destruídas. Por acaso não aprendemos com a Grande Revolução? Uma vez ativada, uma inteligência mecânica adquire tendências vingativas, e é capaz de
desenvolver a capacidade de autocopiar-se e espalhar-se como um incêndio incontrolado. IX é a origem de todas as mentes mecânicas. Nós, os Tleilaxu, continuamos a Guerra Santa com o objetivo de libertar o universo deste inimigo. — Embora o embaixador ixiano o sobrepujasse por duas cabeças, Tooy gritou —: Jihad!
Jihad!
— Estamos vendo, senhor — disse Pilru, retrocedendo vários passos
—. Este comportamento é inqualificável.
— “Não construirás nenhuma máquina a semelhança da mente humana” — citou o Tleilaxu —. Você e a Casa Vernius serão destruídos por seus pecados.
— Acalme-se.
Elrood conteve um sorriso, e indicou a Tooy que retornasse a sua posição anterior. O diminuto delegado obedeceu a contra gosto.
Pilru e a Mensageira ixiana conferenciaram em voz baixa antes que o embaixador voltasse a tomar a palavra.
— Peço ao imperador que exija provas dessas violações. Os Bene Tleilax, agindo como bandidos, destruíram nossa base comercial sem primeiro apresentar suas acusações ao Landsraad. — E se apressou a acrescentar —. Nem ao imperador.
— Estamos reunindo as provas — replicou Tooy —. Incluirão o verdadeiro motivo dos atos criminosos cometidos pelos ixianos. Seus margens de lucros são falsas, e põem em perigo sua condição de membros da CHOAM. Viva, pensou Shaddam, e trocou um olhar de cumplicidade com Fenring. Os relatórios que falsificamos com tanta mestria! Ninguém manipulava os documentos melhor que Fenring.
— É mentira — disse Pilru —. Nossos lucros são maiores que nunca, graças ao novo desenho dos Cruzeiros. Perguntem à Corporação. Seu povo não tem direito a incitar a violência...
— Tínhamos todo o direito de proteger o Império de outro período de domínio das máquinas. Seus subterfúgios não enganam sobre o motivo de fabricar mentes mecânicas. Seus lucros são mais valiosos que o bem-estar da humanidade? Estão vendendo suas almas!
As veias se marcaram nas têmporas de Pilru, que perdeu toda sua calma de diplomata.
— Está mentindo, bastardo, isto não é uma farsa monstruosa! —
Virou-se para Elrood —. Senhor, peço-lhe que envie os Sardaukar a lX
para proteger nosso povo de uma invasão ilegal realizada pelas forças dos Bene Tleilax. Não violamos nenhuma lei.
— Violar a Jihad Butleriana é uma acusação muito grave — disse o imperador pensativo, embora tudo aquilo nada lhe importasse. Tampou a boca quando voltou a tossir —. Não podemos ignorar uma acusação dessas.
Pense nas conseqüências...
Elrood falava com deliberada lentidão, coisa que Shaddam achou divertida. O príncipe herdeiro não podia deixar de admirar algumas facetas de seu pai, mas Elrood já não era jovem, e tinha chegado o momento de sangue novo tomar as rédeas do poder.
A Mensageira falou.
— Imperador Elrood, os Tleilaxu tentam ganhar tempo enquanto as batalhas acontecem em lX. Utilize seus Sardaukar para impor um afastamento das hostilidades, e depois cada lado apresentará seu caso e as provas ante o tribunal.
O imperador arqueou as sobrancelhas e olhou para ela.
— Como simples Mensageira, não está qualificada para discutir comigo —. Dirigiu-se aos Sardaukar —: Expulsem esta mulher.
O desespero transpareceu na voz da mulher.
— Perdoe-me, senhor, mas conheço muito de perto a crise de lX, e meu senhor Vernius me instruiu para que desse todos os passos necessários. Exigimos que os Bene Tleilax apresentem provas imediatamente ou retirem suas forças. Não estão reunindo provas. Trata-se de uma tática difamatória!
— Quando poderão apresentar as provas? — perguntou o imperador, olhando para Tooy.
— Supostas provas — corrigiu Pilru.
— No prazo de três dias imperiais, senhor.
Os ixianos protestaram.
— Mas senhor, nesse tempo podem fortalecer suas conquistas militares e falsificar provas. — Os olhos do Pilru cintilaram —. Já assassinaram minha esposa, destruíram edifícios... Meu filho desapareceu.
Não permita que continuem nos saqueando durante três mais dias!
O imperador refletiu enquanto os reunidos a guardavam em silêncio.
— Tenho certeza que exageram a gravidade da situação para me obrigar a tomar uma decisão precipitada. Levando em conta as acusações, inclino-me por esperar as provas, ou a sua ausência. — Olhou para seu chambelán —. O que me diz, Aken? Isto está dentro da lei imperial?
Hesban murmurou sua aprovação.
Elrood se inclinou em direção a Pilru. como se lhe estivesse concedendo um favor incrível.
— Não obstante, as provas devem ser apresentadas em dois dias, não três. Pode conseguir isso, embaixador Tooy?
— Será difícil, senhor, mas... como quiser.
Pilru avermelhou de cólera.
— Meu senhor, como é possível que esteja do lado destes Tleilaxu asquerosos? — Embaixador, seus comentários não são bem recebidos em meu hall imperial. Tenho o maior respeito por seu conde... e por sua dama Shando, é óbvio.
Shaddam olhou para os agentes da Corporação, no fundo da sala.
Estavam conversando em sua linguagem secreta. Uma violação da Jihad Butleriana era algo muito sério para eles.
— Mas dentro de dois dias meu planeta estará perdido.
Pilru dirigiu um olhar suplicante para os homens da Corporação, mas os agentes permaneceram em silêncio e não olharam para ele.
— Não pode fazer isto, senhor! Condenará nosso povo à destruição!
— gritou Yuta Brey a Elrood.
— Mensageira, você é muito impertinente, assim como Dominic Vernius. Não ponha mais a prova minha paciência. — Elrood olhou severamente para o representante dos Tleilaxu —. Embaixador Tooy, me traga provas incontestáveis em de dois dias, ou retire suas forças de IX.
Mofra Tooy fez uma reverência. Um sorriso se insinuou nos cantos de sua boca.
— Muito bem — disse o embaixador ixiano, tremulo de raiva —.
Solicito agora mesmo que o Conselho de Segurança do Landsraad se reúna imediatamente.
— E assim será, conforme ditam as leis — replicou Elrood —. Agi da maneira que, em minha opinião, serve melhor ao Império. Mofra Tooy se dirigirá ao Conselho em um prazo de dois dias, e vocês poderão fazer o mesmo. Se nesse período quiser retornar ao seu planeta, um Cruzeiro estará à disposição, advirtolhes, porém, que se estas acusações forem verdadeiras, embaixador, a Casa Vernius terá que responder a muitas coisas.
Dominic Vernius, com a calva coberta de suor, estudou seu embaixador em Kaitain. Pilru acabara de transmitir um relatório estarrecedor ao conde e sua esposa. Era evidente que o homem estava ansioso por sair à procura do seu filho, perdido no caos da cidade subterrânea, embora fizesse menos de uma hora que chegara ao planeta.
Encontravam-se em um dos centro de operações subterrâneo, nas profundezas do teto de rocha, pois o Despacho Orbital transparente era muito vulnerável em tempos de guerra. ouviam-se ruídos de maquinaria, transportes de tropas e equipamentos através das catacumbas da casca planetária.
Os ataques defensivos não tinham sortido efeito. Graças a sabotagens bem planejadas e a barricadas erguidas estrategicamente, os Tleilaxu controlavam a maior parte do mundo subterrâneo, e os ixianos foram sendo abandonados em zonas cada vez menores. O número dos subóides rebeldes ultrapassava em muito ao dos defensores ixianos, vantagem que os invasores Tleilaxu aproveitavam ao máximo, já que manipulavam com facilidade os operários.
— Elrood nos traiu, meu amor — disse Dominic, abraçando sua esposa. Só conservavam as roupas que vestiam e alguns objetos que tinham conseguido resgatar. O conde compreendera finalmente a magnitude da conspiração —. Sabia que o imperador me odiava, mas nunca esperei um comportamento tão vil,
nem sequer dele. Oxalá eu tivesse provas.
A dama Shando, pálida e frágil, embora seus olhos cintilassem com determinação de ferro, respirou fundo. Delicadas rugas circundavam sua boca e olhos deliciosos, a única indicação de sua idade avançada, sutis avisos que serviam a Dominic para amar cada dia mais sua beleza, amor e caráter. A mulher puxou seu braço.
— E se eu fosse vê-lo e me entregasse a sua mercê? Talvez se mostrasse razoável devido às lembranças que conserva de mim...
— Não permitirei que faça isso. Ele agora te odeia, e a mim por me casar com você. Roody desconhece o significado da palavra compaixão. —
Dominic fechou os punhos e escrutinou o rosto do embaixador Pilru, mas não descobriu a menor esperança. Olhou para Shando de novo disse —.
Conhecendo-o como conheço, não há dúvida de que se acha imerso em intrigas tão complexas que não poderia recuar mesmo que quisesse. Nunca receberemos compensações de guerra, mesmo que saíssemos vitoriosos. A fortuna de minha família será confiscada, e o poder me será arrebatado. —
Baixou a voz e tentou dissimular seu desespero —. E tudo para vingar-se de mim por ter roubado sua mulher há tanto tempo atrás.
— Farei o que me pede, Dominic — disse Shando em voz baixa —.
Me fez sua esposa em vez de sua concubina. Sempre lhe disse…
Sua voz emudeceu.
— Eu sei, meu amor. — Apertou sua mão —. Eu também faria tudo por você. Valeu a pena... apesar disto.
— Espero suas ordens, meu senhor — disse o embaixador Pilru, muito agitado. C'tair tinha que estar em algum lugar, escondido, lutando, talvez morto.
Dominic mordiscou o lábio.
— É evidente que ele ordenou a destruição da Casa Vernius, e só há uma alternativa. Todas essas acusações inventadas não significam nada, assim como o papel em que estão escritas as leis. O imperador tenta nos destruir, e não podemos lutar contra a Casa Corrino, sobretudo contra traições como esta. O Landsraad vai ignorar o assunto, e depois se precipitará sobre os despojos da
guerra. — Ergueu os ombros e se elevou em toda sua estatura —. Pegaremos as armas atômicas e escudos da família e fugiremos para onde o Império não possa nos alcançar.
Pílru gritou.
— Transformar-se em... um renegado, meu senhor? O que será de nós?
— Infelizmente, não há opção, Cammar. É a única forma de escapar com vida. Ponha-me em contato com a Corporação e peça um transporte de emergência. Cobre qualquer favor que nos devam. Os homens da Corporação estiveram presentes durante sua audiência com o imperador, de modo que conhecem nossa situação. Diga-lhes que queremos levar nossas forças militares, as poucas que restaram. — Dominic inclinou a cabeça —.
Nunca imaginei que chegaria este momento... expulsos de nosso palácio e de nossas cidades...
O embaixador assentiu e abandonou a estadia.
Uma parede do centro administrativo cintilou e apareceram quatro projeções, em outros tantos painéis, das batalhas que aconteciam em todo o planeta, cenas transmitidas por visicoms. As baixas ixianas continuavam aumentando.
Dominic meneou a cabeça.
— Devemos falar com nossos amigos e colaboradores mais íntimos e lhes informar dos perigos que enfrentarão se nos acompanharem. Será mais difícil e perigoso fugir conosco que ser subjugados pelos Tleilaxu.
Ninguém será obrigado a nos acompanhar, só voluntários. Sendo uma Casa renegada, todos os nossos familiares e partidários serão alvo dos caçadores de glória.
— Caçadores de recompensas — corrigiu Shando com voz afogada pela pena e ira —. Teremos que nos separar, Dominic, para apagar nossa pista e aumentar nossas chances de sobreviver.
Na parede, a imagem de dois painéis desapareceu quando os Tleilaxu destruíram os visicoms.
Dominic suavizou sua voz.
— Mais tarde, quando tivermos recuperado nossa Casa e nosso planeta,
recordaremos o que fizemos aqui e o que se disse. Isto é história.
vou contar-lhe um conto, um caso para Leto ao que nos visita.
— Eu gosto de seus contos — disse a mulher, com um doce sorriso em seu rosto enérgico mas delicado. Seus olhos cor avelã cintilaram —.
Muito bem, o que contaremos a nossos netos?
Por um momento, o conde Vernius se concentrou em uma rachadura que surgira no teto e na água que escorria por uma parede.
— Em tempos remotos Salusa Secundus era a capital do Império.
Sabe porquê a mudaram para Kaitain?
— Algum problema com as armas atômicas? — respondeu Shando
—. Salusa ficou destruída.
— Segundo a versão imperial, foi um acidente, mas a Casa Corrino diz isso porque não quer dar idéias às pessoas. A verdade é que outra família renegada, uma Grande Casa cujo nome foi apagado dos arquivos históricos, conseguiu aterrissar em Salusa com as armas atômicas de sua família. Durante um audaz ataque bombardearam a capital e provocaram uma catástrofe ecológica. O planeta ainda não se recuperou.
— Um ataque com armas atômicas? Não sabia.
— Depois, os sobreviventes transportaram o trono imperial de Kaitain, em um sistema diferente, mais seguro, onde o jovem imperador Hassik III reconstruiu o governo. — Ao perceber preocupação no rosto de sua mulher, abraçou-a com força —. Nós não fracassaremos, meu amor.
Os outros painéis se apagaram quando os Tleilaxu desativaram os últimos visicoms. No Império existe o princípio do individual, nobre mas poucas vezes utilizado, pelo qual uma pessoa que viola uma lei escrita em uma situação de extremo perigo ou necessidade pode solicitar uma sessão especial da corte de jurisdição, afim de explicar e sustentar a necessidade de seus atos. Certo número de procedimentos legais derivam deste princípio, entre eles o Jurado Drey, o Tribunal Cego e o Julgamento de Confisco.

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