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domingo, 4 de junho de 2017

SD 966 : DUNE - A CASA ATREIDE

Não restava nada a perder. Não restava nada absolutamente.
O conde renegado e herói de guerra conhecido em outro tempo como Dominic Vernius tinha morrido, apagado dos registros e expulso do seio do Império. Mas o homem continuava vivendo sob diferentes aparências. Era uma pessoa que nunca se rendia.
No passado, Dominic tinha lutado pela glória do seu imperador. Em tempos de guerra tinha matado milhares de inimigos com naves de combate e fuzis laser manuais. Também tinha cheirado o sangue das vítimas quando utilizava espadas, ou suas mãos nuas. Lutava com todas as forças, trabalhava com todas as forças e amava com todas as forças.
E o pagamento pelo investimento de toda sua vida era a desonra, o desterro, a morte de sua esposa, a desgraça de seus filhos.
Apesar de tudo, Dominic era um sobrevivente, um homem com um objetivo. Sabia que devia esperar o momento adequado.
Embora o desalmado Elrood tivesse morrido, Dominic não o perdoara. O poder do trono imperial tinha sido o causador de tantas desgraças e tanta dor. Nem sequer o novo imperador traria uma melhora...
Tinha observado Caladan de longe. Rhombur e Kailea se encontravam a salvo. Seu refúgio era intocável até sem a presença carismática do velho duque. Tinha chorado a morte de seu amigo Paulus Atreides, mas não se atreveu a assistir seu funeral, nem a enviar mensagens codificadas para Leto, o jovem herdeiro.
Entretanto, havia sentido a tentação de apresentar-se em Kaitain durante o Julgamento de Confisco. Rhombur tinha abandonado Caladan e ido a corte imperial para apoiar seu amigo, apesar do risco de ser detido e executado. Se as coisas tivessem saído erradas, Dominic teria ido a corte para sacrificar-se por seu filho.
Mas não tinha sido necessário. Leto tinha sido eximido de toda culpa e posto em liberdade, e, com ele, também Rhombur e Kailea. Como tinha ocorrido? Dominic não conseguia entender. Shaddam em pessoa tinha salvado Leto. Shaddam Corrino IV, filho do desprezível imperador Elrood que destruíra a Casa Vernius, tinha fechado o caso como impulsionado por um capricho. Dominic suspeitava que o veredicto implicava subornos e extorsões, mas era incapaz de imaginar o que teria utilizado um duque inexperiente de dezesseis anos para chantagear o imperador do Universo Conhecido.
Não obstante, Dominic tinha decidido correr um risco. Cego pela dor, vestiu-se com trapos, tingiu sua pele de um tom avermelhado e viajou sozinho a Bela
Tegeuse. Antes de prosseguir sua tarefa, devia ver o lugar onde sua esposa tinha sido assassinada pelos Sardaukar de Elrood.
Utilizou veículos de ar e de terra para explorar o planeta em segredo, sem atrever-se a fazer perguntas, embora muitos informes proporcionassem pistas sobre o ponto onde se cometera o massacre. Por fim, encontrou um lugar onde as colheitas tinham sido arrasadas e o terreno semeado de sal para que nunca mais voltasse a crescer nada. Tinham incendiado uma casa até os alicerces, que cobriram depois com cimento sintético. Não viu nenhuma tumba, mas sentiu a presença de Shando.
Meu amor esteve aqui, pensou.
Sob os dois sóis mortiços, Dominic se ajoelhou sobre a terra arrasada e chorou até perder a noção do tempo. Quando se esvaziou de lágrimas, uma imensa solidão tomou seu coração.
Agora estava preparado para dar o próximo passo.
E assim, Dominic Vernius viajou até os planetas mais afastados do Império e reuniu um punhado de leais que tinham escapado de IX, homens que preferiram acompanhá-lo, sem se importar com seu objetivo, que viver monotonamente em planetas agrícolas.
Entrou em contato com companheiros de armas que tinham lutado com ele durante a rebelião de Ecaz, gente a que devia a vida uma dúzia de vezes. Procurar esses homens trazia um grande perigo, mas Dominic confiava em seus antigos camaradas. devido a generosa recompensa que se oferecia por sua cabeça, sabia que nenhum deles o trairia.
Dominic esperava que o novo imperador Padishah Shaddam IV não percebesse os sutis movimentos e desaparecimentos de homens que tinham lutado sob o comando de Vernius quando Shaddam era apenas um adolescente e nem sequer o herdeiro oficial do trono, quando o príncipe herdeiro Fafnir era o primeiro na linha sucessória.
Tinham transcorrido muitos anos, tempo suficiente para que a maioria daqueles veteranos se sentassem para falar dos dias de glória, convencidos de que a guerra e o derramamento de sangue tinham sido mais emocionantes e gloriosos do que eram na realidade. Cerca de um terço não quis unir-se a sua causa, mas outros aceitaram e esperaram ordens.
Quando Shando se escondeu, tinha apagado todos os registros, mudado seu nome,
utilizado créditos sem registro para adquirir uma pequena propriedade no mundo tenebroso de Bela Tegeuse. Seu único erro fora subestimar a persistência dos Sardaukar.
Dominic não cometeria o mesmo erro. Para alcançar seu objetivo, iria para um lugar onde ninguém pudesse vê-lo, um lugar de onde pudesse acossar o Landsraad e transformar-se em um espinho para o imperador.
Era a única arma que restava.
Preparado para iniciar seu verdadeiro trabalho, Dominic Vernius se sentou no comando de uma nave de contrabandistas tripulada por uma dúzia de homens leais. Os camaradas tinham reunido dinheiro e equipamento para ajudá-lo a dar um golpe mortal pela glória, honra, e talvez pela vingança.
Depois foi procurar a reserva de armas atômicas da família Vernius, armas proibidas mas que todas as Grandes Casas do Landsraad possuíam.
Proibidas pela Grande Convenção, as armas atômicas ixianas tinham sido conservadas em segredo durante gerações, armazenadas na face escura de um pequeno satélite do quinto planeta do sistema Alkaurops. Os repugnantes Tleilaxu não sabiam nada a respeito.
Agora, a nave de Dominic estava carregada com armas suficientes para aniquilar um planeta.
“A vingança está nas mãos do Senhor”, afirmava a Bíblia Católica Laranja. Depois de todo seu sofrimento, Dominic não se sentia muito religioso, nem lhe importavam os detalhes da lei. Era um renegado, fora do alcance do sistema legal.
Imaginava como o maior contrabandista da história, oculto onde ninguém poderia localizar mas capaz de infligir graves prejuízos econômicos a todas as Casas que haviam traído e negado ajuda.
Com aquelas armas atômicas, deixaria sua marca na história.
Dominic utilizou um escudo para passar despercebido pela antiquada rede de satélites meteorológicos mantida pela Corporação, e levou sua nave e seu carregamento atômico a uma região polar desabitada do planeta deserto Arrakis. Um forte vento frio açoitou os uniformes puídos dos seus homens quando pisaram naquela terra desolada. Arrakis. Sua nova base de operações.
Passaria muito tempo antes que se voltasse a ouvir falar de Dominic Vernius. Mas quando estivesse preparado, todo o Império se recordaria dele. Quatro coisas são as escoras de um planeta: os ensinos dos sábios, a justiça dos grandes, as orações dos virtuosos e a coragem dos valentes. Mas todas estas coisas não valem nada sem um governante que conheça a arte de governar. Príncipe Raphah Corrino, Discursos sobre liderança galáctica.
Leto descia sozinho até a borda, ziguezagueando a trilha íngreme no escarpado e a escada que levava aos antigos moles que se elevavam sob o castelo de Caladan.
O sol do meio-dia se filtrava através de capas de nuvens e arrancava brilhos das plácidas águas que se estendiam até o horizonte. Leto se deteve sobre o escarpado de pedra negra e protegeu os olhos para olhar os bosques de algas marinhas, os barcos de pesca com suas tripulações e a linha dos recifes, que esboçavam uma topografia agreste sobre o mar.
Caladan: seu planeta; abundante em mares e selvas, terra cultivável e recursos naturais. Tinha pertencido à Casa Atreides durante vinte e seis gerações. Agora pertencia a ele.
Amava este lugar, o aroma do ar, o sal do oceano, o cheiro de algas e pescado. O povo sempre tinha trabalhado duro para seu duque, e Leto tentava fazer tudo por ele. Se tivesse perdido o Julgamento de Confisco, o que teria sido dos bons cidadãos de Caladan? Teriam observado alguma diferença se estas posses tivessem sido entregues ao governo de, digamos, a Casa Teranos, a Casa Mutelli ou qualquer outro membro respeitável do Landsraad? Talvez sim... talvez não.
Em qualquer caso, Leto não podia imaginar outro lugar para viver, porque aquela era a sede dos Atreides. Mesmo que lhe tivessem tirado tudo, teria retornado a Caladan para viver perto do mar.
Embora Leto soubesse ser inocente, ainda não compreendia o que tinha acontecido às naves dos Tleilaxu dentro do Cruzeiro. Precisava de provas para demonstrar que ele não tinha realizado os disparos que quase desencadearam uma guerra total. Ao contrário, tinha motivos de sobra, e por isso as outras Casas se mostraram reticentes a intervir em sua defesa, fossem aliadas ou não. Nesse caso teriam posto em perigo sua parte do butim se as posses dos Atreides tivessem sido confiscadas e divididas. Não obstante, durante aqueles dias, muitas
Casas tinham expressado em silêncio sua aprovação pela maneira como Leto tinha protegido sua tripulação e seus amigos.
E então, milagrosamente, o imperador Shaddam o salvara.
Durante o vôo desde Kaitain, Leto conversara longamente com Thufir Hawat, mas nem o jovem duque nem o guerreiro Mentat tinham conseguido imaginar os motivos de Shaddam para socorrer os Atreides, ou por que tivera tanto medo do blefe de Leto. Embora fosse um rapaz ainda inexperiente, Leto aprendera a não confiar em uma explicação de puro altruísmo, face ao que Shaddam havia dito ao tribunal. Uma coisa era segura: o imperador ocultava algo. Algo que implicava os Tleilaxu.
A pedido de Leto, Hawat tinha enviado espiões Atreides a muitos planetas, com a esperança de coletar mais informação, mas o imperador, advertido pela mensagem misteriosa e provocadora de Leto, seria mais cuidadoso que nunca.
No conjunto do Império, a Casa Atreides ainda não era muito poderosa e não exercia influência sobre a família Corrino, nem tinha motivos para procurar sua proteção. Os laços de sangue não bastavam.
Embora Leto fosse primo de Shaddam, muitos membros do Landsraad podiam remontar sua linhagem, mesmo que parcial, até os Corrino, sobretudo se voltassem até os dias da Grande Revolução.
E onde se encaixavam as Bene Gesserit? Eram aliadas de Leto, ou inimigas? Por que tinham ajudado? E quem tinha enviado a informação sobre a implicação de Shaddam? Leto suspeitara da existência de inimigos ocultos, mas não de aliados tão discretos. Mas o mais enigmático era quem tinha destruído as naves Tleilaxu.
Afastou-se dos escarpados e atravessou uma colina suave até chegar aos moles silenciosos. Todos os navios tinham zarpado, exceto um pequeno bote e um iate, em cuja bandeira descolorida ondeava o falcão dos Atreides.
O falcão estivera a beira da extinção.
Leto se sentou no final do mole principal, escutou o rumor das ondas e os grasnidos das gaivotas cinzentas. Sentiu o aroma do sal e pescado, e do ar fresco. Recordou a ocasião em que Rhombur e ele tinham ido recolher gemas coralinas, o incêndio acidental e o percalço quase mortal que tinham sofrido naqueles recifes longínquos. Nada importante, comparado com o ocorrido mais tarde.
Viu um caranguejo de rocha grudado a um pilar do mole, mas depois
desapareceu nas águas verde azuladas.
— Está contente de ser duque, ou preferiria ser um simples pescador? — A voz do principe Rhombur soou alegre e bem humorada.
Leto se voltou, e sentiu o calor das pranchas banhadas pelo sol no fundilho das calças. Rhombur e Thufir Hawat caminhavam para ele. Leto sabia que o Mestre de Assassinos o repreenderia por dar as costas à praia, pois o rugido do oceano esconderia o ruído de alguém que se aproximasse furtivamente.
— Possivelmente as duas coisas — disse Leto, enquanto ficava em pé e sacudia a roupa —. O que for melhor para entender meu povo.
— “Compreender seu povo pavimenta o caminho que conduz à compreensão da liderança” — Thufir Hawat recitou a velha máxima Atreides —. Espero que estivesse meditando sobre a arte de governar, pois nos espera muito trabalho, agora que tudo voltou ao normal.
Leto suspirou.
— Normal? Creio que não. Alguém tentou desencadear uma guerra com os Tleilaxu e de passagem culpar minha família. O imperador tem medo do que imagina que eu sei. A Casa Vernius continua renegada, e Rhombur e Kailea estão exilados, embora ao menos tenham sido perdoados. Para ajudar, meu bom nome não foi inocentado. Muita gente pensa ainda que eu ataquei essas naves. — Pegou um calhau e o jogou na água —. Se isto significar uma vitória para a Casa Atreides, Thufir, é agridoce, no máximo.
— Talvez — disse Rhombur, de pé junto ao bote —. Mas isso é sempre melhor que uma derrota. O velho Mentat assentiu, e o sol ardente se refletiu em sua pele enrugada.
— Comportou-se com um verdadeiro porte de honra e nobreza, meu duque, e a Casa Atreides ganhou o respeito de quase todo o Império. Isto é uma vitória que não deve ser menosprezada.
Leto ergueu a vista para as altas toras do castelo de Caladan, que se erguiam sobre o escarpado. Seu castelo, seu lar.
Pensou nas antigas tradições de sua Grande Casa, e em como se apoiaria nelas. Devido a seu cargo, era um eixo ao redor do qual giravam milhões de vidas. A vida de um simples pescador teria sido mais fácil e aprazível, mas não para ele.
Sempre seria o duque Leto Atreides. Tinha seu sobrenome, seu título, seus amigos. E a vida era agradável.
— Venham, jovens senhores — disse Thufir Hawat —. É hora de outra lição.
Leto e Rhombur, muito animados, seguiram o Mestre de Assassinos de volta ao castelo.
EPÍLOGO
Durante mais de uma década correram rumores de que eu escreveria outra novela ambientada no universo de Dune, uma seqüência do sexto livro da série. Casa Capitular de Dune. Tinha publicado certo número de novelas de ficção científica, mas não estava seguro de querer embarcar em algo tão grande e ameaçador. Afinal, Dune é uma obra magna, uma das novelas mais complexas e intrincadas jamais escritas. Versão atualizada do mito do tesouro do dragão, Dune relata a história de gigantescos vermes de areia que guardam o prezado tesouro da melange, a especiaria geriátrica. É
uma pérola magnífica, com camadas de brilho sob a superfície que chegam até o núcleo.
Quando aconteceu a morte prematura de meu pai, em 1986, estava começando a pensar em uma novela que tinha o título provisório de Dune 7, um projeto que tinha vendido a Berkley Books, mas sobre o qual não existiam notas ou rascunhos conhecidos. Meu pai e eu tínhamos falado em termos gerais a respeito de colaborar em uma novela de Dune algum dia, mas não tínhamos fixado data, nem estabelecido detalhes específicos nem diretrizes. Seria depois que terminasse Dune 7 e outros projetos.
Nos anos posteriores pensei na série inacabada do meu falecido pai, sobretudo depois de concluir um projeto que me custou cinco anos, Dreamer Of Dune, uma biografia deste homem complexo e enigmático, uma biografia que me exigiu analisar os origens e temas da série Dune.
depois de muitas reflexões, pareceu-me que seria fascinante escrever um livro sobre os acontecimentos que ele havia descrito de uma forma tão tentadora no Apêndice de Dune, uma nova novela onde eu retrocederia dez mil anos no tempo, até a época da Jihad Butleriana, a lendária Grande Revolução contra as máquinas pensantes. Tinha sido um período mítico de um universo mítico, um período onde se formaram quase todas as Grandes Escolas, incluídas a Bene Gesserit, Mentats e os Mestres Espadachins.
Depois de conhecer meu interesse, escritores famosos me abordaram com ofertas de colaboração, mas ao dar voltas às idéias junto com eles não vi como o projeto pudesse progredir. Eram excelentes escritores, mas em contato com eles não sentia a sinergia necessária para uma tarefa tão monumental. Dediquei-me a outros projetos e deixei de lado o maior.
Ademais, ao mesmo tempo que meu pai tinha deixado muitos cabos soltos estimulantes no quinto e sexto livro da série, tinha escrito um epílogo para Casa Capitular de Dune que constituía uma maravilhosa dedicatória a minha falecida mãe, Beverly Herbert, sua esposa durante quase quatro décadas. Tinham formado uma equipe onde ela corrigia o trabalho dele e agia como caixa de ressonância de sua corrente de idéias. Uma vez os dois falecidos, parecia a conclusão certa abandonar o projeto.
O problema era que um indivíduo chamado Ed Kramer não parava de me perseguir. Editor de êxito e patrocinador de convenções de ficção científica e fantasia, queria recolher uma antologia de relatos breves ambientados no universo de Dune, escritos por autores conhecidos.
Convenceu-me de que seria um projeto interessante e significativo, e falamos de editá-lo. Não concluímos todos os detalhes, já que o projeto apresentava numerosas complexidades, tanto legais como artísticas.
Enquanto estávamos nisso, Ed me disse que tinha recebido uma carta do famoso autor Kevin J. Anderson, que tinha sido convidado a colaborar na antologia. Sugeriu o que ele chamou “uma conjectura aleatória”, e me perguntou pela possibilidade de trabalhar em uma novela longa, se possível uma continuação de Casa Capitular de Dune.
O entusiasmo de Kevin pelo universo de Dune transparecia em sua carta. De qualquer modo, posterguei a resposta durante um mês, pois não estava seguro. Apesar de seu demonstrado talento, eu duvidava. Era uma decisão muito importante. Eu queria me dedicar a fundo no projeto, e precisava participar para garantir a produção de uma novela fiel à série original, junto com O senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien e um punhado de outras obras, Dune se destacava como um dos maiores exercícios criativos de todos os tempos, e o maior exemplo da construção de um universo de ficção científica na história da literatura. Para proteger o legado de meu pai, devia escolher a pessoa adequada. Li tudo de Kevin que caiu em minhas mãos, e fiz mais averiguações sobre ele. Logo ficou claro que era um escritor brilhante, e sua reputação era impecável. Decidi conversar com ele por telefone.
Combinamos imediatamente, tanto no plano pessoal como no profissional. Além de me cair muito bem, sentia uma energia recíproca, um fluxo notável de idéias que beneficiaria a série. Depois de obter a aprovação de minha família, Kevin e eu decidimos escrever uma novela, não ambientada na época antiga, muito antes de Dune, mas centralizar nos acontecimentos ocorridos trinta ou quarenta anos antes do princípio de Dune, a história amorosa dos pais de Paul, o envio do planetólogo Pardot Kynes a Arrakis, os motivos da terrível e destruidora inimizade entre a Casa Atreides e a Casa Harkonnen, e muitos mais.
Antes de escrever um esboço detalhado, relemos os seis livros de Dune, e assumi a tarefa de redigir o Códice de Dune, uma enciclopédia de todos os personagens, lugares e maravilhas do universo de Dune. Era de vital importância determinar para onde meu pai levava a conclusão da série. Estava claro que se propunha a materializar algo transcendental em Dune 7, e tinha nos deixado um grande mistério. Não havia notas nem pistas, só minha lembrança de que ele utilizara um rotulador amarelo nos exemplares de bolso de Hereges De Dune e Casa Capitular de Dune pouco antes de sua morte, livros que ninguém conseguiu localizar depois do seu falecimento.
No início de maio de 1997, quando por fim conheci Kevin J.
Anderson e sua esposa, a autora Rebecca Moesta, novas histórias floresceram em nossas mentes. Como em estado de transe, nós as esboçamos e gravamos em fita. A partir destas notas as cenas começaram a se desenvolver, mas ainda discutíamos sobre a reviravolta que meu pai pensava imprimir à série.
Nos dois últimos livros. Hereges de Dune e Casa Capitular de Dune, introduziu uma nova ameaça, as desprezadas Honoráveis Madres, que devastavam grande parte da galáxia. Ao final de Casa Capitular, os personagens se encontravam encurralados, totalmente derrotados... e depois o leitor descobria que mesmo as Honoráveis Madres fugiam de uma ameaça ainda mais misteriosa, um perigo que espreitava os protagonistas da história, quase todos eles reverendas madres da Bene Gesserit.
Duas semanas depois de nosso encontro, recebi uma chamada telefônica de um advogado que se encarregou de assuntos relacionados a meus pais. Informou-me que duas caixas de segurança pertencentes a Frank Herbert tinham aparecido em um banco do Scattle, caixas cuja existência desconhecíamos. Combinei uma entrevista com os diretores do banco, e as caixas de segurança foram abertas em um ambiente de grande emoção.
Dentro havia papéis e disquetes antigos que incluíam notas amplas para um Dune
7 não publicado, a longamente esperada sequencia de Casa Capitular de Dune. Agora, Kevin e eu sabíamos qual era o objetivo da série e podíamos tecer os acontecimentos de nossa novela.
Nos dedicamos com renovado entusiasmo à tarefa de preparar uma proposta literária que pudesse ser apresentada aos editores. Naquele verão tinha planejado uma viagem a Europa, uma celebração de aniversário que minha esposa Jan e eu planejávamos há muito tempo. Levei meu computador portátil e uma impressora de pouco peso, e Kevin e eu trocamos pacotes por correio urgente durante todo o verão. Quando retornei no final do verão, tínhamos uma proposta de 141 páginas para uma trilogia, a maior que tínhamos visto em nossas vidas. Meu projeto de Dune tinha passado da metade, mas ainda me esperavam meses de intenso trabalho antes de terminá-lo.
Enquanto esperava a resposta de alguma editora, recordei as muitas sessões de escrita que tinha desfrutado com meu pai, e minhas primeiras novelas dos anos oitenta que ele tinha recebido com carinhosas e atentas sugestões para melhorar. Tudo o que aprendera com ele, e mais, seria necessário para o imenso projeto da novela.
Brian Herbert
Não conheci Frank Herbert em pessoa, mas o conhecia bem graças a seus livros. Li Dune quando tinha dez anos, e o reli diversas vezes ao longo dos anos. Depois, reli e gozei todas as sequências. O Imperador Deus de Dune, recém saído da imprensa, foi a primeira novela de capa dura que comprei em minha vida (acabava de entrar na universidade). Depois procurei todas as suas novelas: O cérebro verde, Hellstrom's Hive, A barreira Saniaroga, Os olhos do Heisenberg, Destination: Void, The Jesus Incident e mais e mais e mais.
Para mim, Frank Herbert era o ápice do que a ficção científica devia ser, ambiciosa, com proporções épica, bem investigada e tecida, tudo no mesmo livro. Outras novelas do gênero acertavam em um ou dois destes aspectos, mas Dune conseguiu totalmente. Quando tinha cinco anos, já tinha decidido que queria ser escritor. Quando tinha doze, sabia que queria escrever livros como os de Frank Herbert.
Durante meus anos universitários escrevi um punhado de relatos breves, e depois comecei minha primeira novela, Resurrection Inc., um relato complexo situado em um mundo futuro onde os mortos eram ressuscitados para servir os vivos. A novela estava infestada de comentários sociais, pinceladas religiosas, uma mistura de personagens e um argumento intrincado. Nessa época já tinha reunido
méritos suficientes para ingressar na associação de Escritores de Ficção Científica Norte-americanos, e um dos principais benefícios foi encontrar ali o endereço de Frank Herbert. Prometeu-me que enviaria o primeiro exemplar assinado. A novela foi vendida quase imediatamente a Signet Books, mas Frank Herbert morreu antes de sua publicação.
Tinha lido com avidez os dois últimos livros de Dune, Hereges e Casa Capitular, nos quais Herbert tinha iniciado uma série de novos acontecimentos que alcançavam um clímax febril, destruía literalmente toda vida sobre o planeta Arrakis e deixava à humanidade ao beira da extinção. Aí abandonou a história por causa de sua morte. Sabia que seu filho Brian era também um escritor profissional com várias novelas de ficção científica em seu nome. Esperei, esperançoso, que Brian terminasse o rascunho de um manuscrito, ou ao menos descobrisse um esboço de seu pai. Algum dia, os fiéis leitores de Dune teriam uma solução para este desenlace incerto.
Enquanto isso, minha carreira de escritor florescia. Fui nomeado para o prêmio Bram Stoker e o prêmio Nébula. Estúdios de Hollywood compraram ou formularam opções por dois de meus thrillers. Enquanto continuava escrevendo novelas, encontrei um filão nas sequências de universos estabelecidos, como Star Wars e Arquivo X (ambos eu gostava).
Aprendi a estudar as regras e os personagens, para contar minhas próprias histórias dentro dos limites e expectativas dos leitores.
Depois, na primavera de 1996, passei uma semana no Vale da Morte (Califórnia), que sempre foi um de meus lugares favoritos para escrever. Uma tarde fui de excursão a um canyon isolado e longínquo, absorto no argumento que ia ditando. Ao fim de uma hora descobri que tinha tomado o caminho errado, e tive que andar mais quilômetros do que os calculados para voltar ao meu carro. Durante aquele longo passeio, no meio do deserto, meus pensamentos giravam em torno de Dune.
Haviam se passado dez anos desde a morte de Frank Herbert, e já tinha decidido que Dune ia terminar de uma forma aberta. Ainda queria saber como se desenvolvia a história... mesmo que eu tivesse que escrevê
la.
Não conhecera Brian Herbert, nem sequer tinha motivos para supor que consideraria minha sugestão. Mas Dune era minha novela favorita de ficção científica, e não me ocorria um trabalho melhor. Decidi que perguntar não
custava nada...
Esperamos que tenham desfrutado ao visitar o universo de Dune novamente através de nossos olhos. Foi uma imensa honra examinar milhares de páginas das notas originais de Frank Herbert, afim de recriar alguns dos ambientes que surgiram de sua investigação, sua imaginação e sua vida. Ainda considero Dune tão emocionante e estimulante como a primeira vez que a li, há muitos anos.
Kevin J. Anderson

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