Os Sardaukar do imperador!
C'tair se enfureceu ao ver que tropas imperiais colaboravam com os usurpadores, e compreendeu mais detalhes da conspiração, mas dissimulou seus sentimentos. Não podia permitir que ninguém prestasse atenção nele.
Ouviu os grunhidos dos ixianos nativos. Face a presença dos Sardaukar, nem sequer as classes médias estavam contentes com a nova situação. O
conde Vernius tinha sido um governante bondoso, embora algo despreocupado. Os Bene Tleilax, por sua vez, eram fanáticos religiosos com normas brutais. Muitas das liberdades que os ixianos tinham garantidas desapareceriam rapidamente sob o governo Tleilaxu.
C'tair desejava se vingar daqueles invasores traiçoeiros. Jurou que se dedicaria àquela tarefa todo o tempo que fosse preciso.
Enquanto caminhava pelas ruas tristes e deterioradas do chão da gruta, se entristeceu ao ver edifícios enegrecidos e caídos do teto. A cidade superior tinha sido destruída. Duas das colunas de diamante que sustentavam o imenso teto de rocha tinham voado aos pedaços, e as avalanches tinham sepultado blocos inteiros de moradias subóides.
C'tair reprimiu um gemido, consciente de que quase todas as obras de arte públicas ixianas tinham sido destruídas, incluindo o estilizado modelo do Cruzeiro da Corporação que embelezava a Praça da Cúpula. Até mesmo o formoso céu de fibra óptica que recobria o teto de rocha tinha sido prejudicado, e as projeções eram imprecisas agora. Era do conhecimento comum que os austeros e fanáticos Tleilaxu nunca tinham apreciado a arte. Para eles isso era um simples estorvo.
Recordou-se que Kailea Vernius era aficionada pela pintura e esculturas móveis. Tinha falado com C'tair a respeito de determinados estilos que faziam furor em Kaitain, e tinha assimilado ansiosamente todas as imagens turísticas que seu pai trazia dos lugares para onde o levavam seus deveres de embaixador. Mas agora a arte tinha desaparecido, e Kailea também.
Uma vez mais, C'tair se sentiu paralisado pela solidão.
Enquanto deslizava entre as ruínas de uma dependência do que fora um jardim botânico, C'tair se deteve de repente, estupefato. Vislumbrou algo e forçou a vista. Dos escombros fumegantes emergiu a imagem imprecisa de um ancião, pouco visível. C'tair piscou. Era imaginação, um holograma tremulo de um disco diário... ou outra coisa? Não tinha comido em todo o dia, e estava tenso, muito cansado. Mas a imagem continuava ali.
Entre a fumaça e os vapores acres reconheceu a forma frágil do velho inventor Davee Rogo, o gênio aleijado amigo dos gêmeos, aos quais tinha ensinado durante algum tempo. Quando C'tair soltou uma exclamação afogada, a aparição começou a sussurrar com voz fraca e entrecortada. Era um fantasma, uma visão, uma alucinação? Parecia que o excêntrico Rogo dizia a C'tair o que fazer, os componentes tecnológicos que precisava e como montá-los.
— Você é real? — sussurrou C'tair, ao mesmo tempo em que se aproximava —. O que está dizendo?
Por algum motivo, a imprecisa imagem do velho Rogo não respondeu a suas perguntas. C'tair não o entendeu, mas escutou. A seus pés havia cabos e peças metálicas, pertencentes a uma máquina destruída por explosivos. Estes são os componentes que preciso.
Agachou-se, procurou com a vista observadores indesejáveis e recolheu as peças que perduravam em sua mente, junto com outros restos tecnológicos: fragmentos de metal, cristais de plaz e células eletrônicas. O
velho lhe tinha proporcionado uma espécie de inspiração.
C'tair guardou o material nos seus bolsos e debaixo da roupa. IX
mudaria muito sob a nova ditadura Tleilaxu, e qualquer resto do precioso passado de civilização poderia ser valioso. Se os Tleilaxu o parassem, confiscariam tudo...
Durante os próximos dias de explorações obsessivas, C'tair não voltou a ver a imagem do ancião, não conseguiu compreender muito bem o que tinha acontecido, mas se esforçou para aumentar sua coleção tecnológica, seus recursos. Continuaria a batalha... sozinho, se fosse necessário.
A cada noite passava debaixo do nariz do inimigo. Saqueava seções vazias, tanto da cidade superior como da inferior, antes que equipes de reconstrução se desfizeram de relíquias incomodas.
Com a lembrança do que a visão de Rogo tinha sussurrado em sua imaginação, começou a construir...
Quando as naves de resgate Atreides retornaram a Caladan e se aproximaram do espaçoporto de Baía City, o velho duque preparou uma recepção pouco espetacular. Os tempos e as circunstâncias eram muito tristes para que os ministros de protocolo, a orquestra e os porta-estandartes oferecessem um grande espetáculo.
O duque Atreides se erguia ao ar livre, e forçou a vista quando as naves aterrissaram. Usava sua capa favorita de pele para se proteger do vento. Todos os criados e soldados convocados aguardavam em posição de sentido junto à plataforma, mas pouco importava seu traje ou a impressão que causasse. Paulus estava alegre por seu filho ter voltado para casa são e salvo. Lady Helena estava ao seu lado, com as costas bem rígida, vestida com traje e capa oficiais, impecável. Quando a fragata se imobilizou na zona de aterrissagem do espaçoporto, Helena olhou para seu marido com uma expressão de superioridade, como se lhe dissesse “eu avisei”, e depois exibiu um sorriso de boas-vindas. Nenhum observador suspeitaria que tiveram em várias discussões aos gritos enquanto o Cruzeiro estava à caminho, com seu filho a bordo.
— Não entendo como pode oferecer asilo a esses dois — disse a mulher, em voz baixa mas fria. Seus lábios continuavam sorrindo —. Os ixianos violaram as proibições da Jihad, e agora estão pagando o preço, É
perigoso interferir nos castigos de Deus.
— Os filhos de Vernius são inocentes, e serão hóspedes da Casa Atreides todo o tempo necessário. Por que continua me contrariando? Já tomei a decisão.
— Pouco importa que grave em pedra suas decisões. Se me escutar, talvez tire o véu dos olhos e veja o perigo que enfrentamos por causa da sua presença. — Helena estava tão perto do seu marido como era de esperar —.
Estou preocupada por nós e por nosso filho.
A nave estendeu suas escoras e se imobilizou. Paulus, exasperado, virou-se para sua mulher.
— Helena, estou em dívida com Dominic Vernius mais do que imagina, e eu não fujo das minhas obrigações. Até sem a dívida de sangue que nos uniu para sempre depois de Ecaz, ofereceria asilo a seus filhos.
Faço isso tanto por amor como por sentido de dever. Abrande seu coração, mulher. Pense no que esses meninos sofreram.
Uma rajada de vento alvoroçou seu cabelo castanho avermelhado, mas Helena nem sequer se alterou. Ironicamente, foi a primeira a levantar a mão para saudar quando a porta da nave se abriu. Falou por um canto da boca.
— Paulus, você está oferecendo seu pescoço para o verdugo imperial, e sorri
enquanto isso. Pagaremos por esta loucura de formas inimagináveis. Só quero o melhor para todo mundo.
Os guardas que os rodeavam fingiam não ouvir a discussão. Uma bandeira verde e negra ondeou na brisa. A rampa da nave se estendeu.
— Por acaso sou o único que pensa na honra de nossa família, em vez de em política? — grunhiu Paulus. — Shhh! Não erga a voz.
— Se apoiasse minha vida só em decisões prudentes e alianças vantajosas, não seria um homem, e muito menos um homem merecedor de ser duque.
Os soldados formaram um corredor para os desterrados de IX passar.
Leto foi o primeiro a sair. Respirou fundo, para absorver o ar fresco vindo do mar, e piscou sob o sol nebuloso de Caladan. Havia se lavado e posto roupas limpas, mas seus movimentos ainda denotavam cansaço. Sua pele parecia cinzenta, tinha o cabelo revolto, e as lembranças desenharam rugas na testa que se elevava sobre seus olhos perspicazes.
Leto aspirou outra profunda baforada de ar, como se não tivesse absorvido bastante o aroma salobro do mar próximo, o aroma de pescado e fumaça de lenha. Olhou para seu pai, que estava alegre por ver seu filho de novo, mas cheio de raiva e indignação pela sorte da Casa Vernius.
Rhombur e Kailea se situaram junto a Leto, vacilantes, no alto da rampa. Os olhos esmeralda de Kailea estavam inquietos, e passeou o olhar pelo novo mundo, como se o céu fosse muito grande. Leto quis consolá-la.
Uma vez mais, reprimiu-se, desta vez devido a presença de sua mãe.
Rhombur se ergueu em toda sua estatura e fez um esforço visível por erguer os ombros e afastar seu cabelo loiro rebelde. Sabia que agora era o que restava da Casa Vernius, o rosto que todos os membros do Landsraad veriam, enquanto seu pai, o conde renegado, ocultava-se em algum lugar.
Sabia que a luta acabava de começar. Leto apoiou uma mão forte no ombro de seu amigo e o animou a caminhar para a plataforma de recepção.
Ao fim de um momento de imobilidade, Leto e Paulus avançaram um para o outro ao mesmo tempo. O duque apertou sua barba manchada de cinza contra a cabeça de seu filho. Abraçaram-se, sem dizer uma palavra.
Separaram-se, e Paulus pousou suas mãos largas e calosas sobre os bíceps de seu filho, sem deixar de olhar para ele.
Leto viu sua mãe atrás deles, com um cálido, embora forçado, sorriso de boasvindas. O olhar da mulher se desviou um segundo para Rhombur e Kailea, e depois voltou para ele. Leto sabia que lady Helena Atreides receberia os dois exilados com todo o cerimonial reservado para as visitas de dignitários importantes. Não obstante, reparou que tinha escolhido jóias e cores resplandecentes com as insígnias da Casa Richese, rival de IX, para dar uma punhalada nos exilados. O duque Paulus parecia não perceber.
O velho duque dedicou uma vigorosa saudação a Rhombur, que ainda tinha a ferida da cabeça enfaixada.
— Bem-vindo, rapaz, bem-vindo — disse —. Tal como prometi ao seu pai, você e sua irmã ficarão conosco, protegidos pelo poder da Casa Atreides, até que tudo se solucione.
Kailea olhava para as nuvens como se nunca tivesse visto o céu.
estremeceu, como se estivesse perdida.
— Se algum dia se solucionar. Lady Helena, conforme a suas obrigações, avançou para segurar a filha de Vernius pelo braço.
— Venha, filha. Vamos ajudá-los a se instalar.
Rhombur apertou a mão do velho duque ao estilo imperial.
— Não sei como expressar meu agradecimento, senhor. Kailea e eu temos consciência do perigo que correm ao nos conceder asilo.
Helena olhou para seu marido, que a ignorou.
Paulus apontou para o castelo sobre os penhascos.
— A Casa Atreides coloca a lealdade e a honra muita acima da política. — Olhou preocupado para seu filho. Leto exalou um profundo suspiro, enquanto recebia a lição como uma estocada —. Lealdade e honra
— repetiu Paulus —. Assim tem que ser, sempre.
Só Deus pode criar seres vivos e conscientes. Bíblia Católica Laranja
Na Sala de Partos número um do complexo do Wallach IX, uma menina recémnascida chorava sobre uma mesa. Uma filha com a estirpe genética do barão Vladimir Harkonnen. O cheiro de sangue e desinfetante impregnava o ar, envolto no rangido de roupas limpas e esterilizadas.
Globos luminosos projetavam sua luz forte, que se refletia nas toscas paredes de pedra e nas superfícies metálicas polidas. Muitas filhas tinham nascido aqui, muitas novas irmãs.
Com mais emoção do que as Bene Gesserit costumavam exibir, as reverendas madres de hábito escuro examinaram a menina com seus instrumentos, e falaram dela com preocupação. Uma irmã extraiu uma amostra de sangue com uma hipoagulha, enquanto outra raspava uma zona de pele com uma cureta. Ninguém erguia a voz. Tom de pele estranho, bioquímica pobre, raquítica...
Gaius Helen Mohiam, empapada em suor, tentava recuperar o controle sobre seu corpo mal-tratado. Embora sua aparência dissimulasse sua idade real, parecia muito velha para ter filhos. O parto a havia enfraquecido muito, mais que os oito anteriores. Agora se sentia velha e acabada.
Duas acolitas correram para sua cama e a empurraram até um lado do portal arqueado. Uma delas pôs um pano úmido sobre sua testa , e a outra aproximou uma esponja molhada de seus lábios, para espremer algumas gotas de líquido em sua boca seca. Mohiam já tinha feito sua parte, a Irmandade se encarregaria do resto. Embora desconhecesse os planos traçados para a menina, sabia que sua filha tinha que sobreviver.
Na mesa de inspeção, mesmo antes de secar o sangue e o muco em sua pele, viraram o bebê e o apoiaram contra a superfície do escaner embutido na parede. A menina, aterrorizada, gritou, e sua voz ficava mais fraca a cada momento.
Sensores eletrônicos enviaram os biorresultados para uma unidade central, que mostrava uma coluna de dados no monitor, dados que foram analisados pelas peritas Bene Gesserit. As reverendas madres estudaram os resultados, e os compararam com uma segunda coluna que mostrava as cifras ideais.
— Esta disparidade é muito surpreendente — disse Anirul em voz baixa, com os olhos totalmente abertos em seu rosto de cerva. A decepção da jovem mãe Kwisatz pendia sobre seus ombros como um peso sólido.
— E muito inesperada — disse a madre superiora Harishka.
Seus olhos de pássaro brilhavam entre as rugas em seu rosto. junto com os tabus que impediam às Bene Gesserit de utilizar meios artificiais de fertilização em seus programas de reprodução, outros tabus as proibiam de inspecionar ou manipular fetos no útero. A anciã meneou a cabeça com amargura e olhou de esguelha para Mohiam, que ainda continuava sua recuperação sobre a mesa próxima à porta.
— Os dados genéticos são corretos, mas esta... menina não.
Cometemos um engano.
Anirul se inclinou sobre a menina para examiná-la com atenção. O
bebê tinha uma palidez doentia e ossos faciais disformes, assim como um ombro deslocado ou malformado. Demorariam mais em localizar outras deficiências, talvez crônicas. E se supõe que tem que ela deva ser a avó do Kwisatz Haderach? A fraqueza não gera força.
Anirul queimava os miolos tentando decidir o que tinha saído errado.
As projeções dos registros de reprodução tinham sido precisas, e conforme a informação da Outra Memória. Embora gerada por Vladimir Harkonnen, a menina não era o que se esperava. O raquítico bebê não podia ser o próximo passo no caminho genético que devia culminar, tão somente duas gerações mais tarde, no Santo Graal do programa de reprodução das Bene Gesserit, seu superser.
— Podia existir algum erro no índice genético? — perguntou a madre superiora, ao mesmo tempo que desviava os olhos do bebê —. Ou se trata de uma aberração?
— A genética nunca é segura, madre superiora — disse Anirul, enquanto se afastava alguns passados do bebê. Sua confiança, esfumou-se, mas procurou não se desculpar. Passou uma mão nervosa sobre seu curto cabelo vermelho —. As projeções estão corretas. Temo que, desta vez, a linhagem não colaborou.
A madre superiora olhou para as doutoras, para as outras irmãs. Todo comentário e todo movimento seria registrado e armazenado nos arquivos de Wallach IX, assim como na Outra Memória, para que as gerações posteriores os
examinassem.
— Está sugerindo que voltemos a tentar com o barão? Não foi um sujeito muito colaborador.
Anirul apenas sorriu. Que forma mais suave de se expressar.
— Nossas projeções nos proporcionam a probabilidade mais alta.
Tem que ser o barão Harkonnen, e tem que ser Mohiam. Milhares de anos de cuidadosa seleção conduziram a este ponto. Temos outras opções, mas nenhuma tão boa como esta... assim devemos tentar de novo. — Tentou falar com ar filosófico —. Já ocorreram outros equívocos antes, madre superiora. Não podemos permitir que uma falha signifique o final de todo o programa.
— É obvio que não — replicou Harishka —. Temos que contatar outra vez o barão. Envie nossa melhor e mais persuasiva representante enquanto Mohiam se recupera.
Anirul olhou para a menina deitada na mesa. Esgotada, guardava silêncio, flexionando as mãozinhas e esperneando. Nem sequer podia chorar durante muito tempo. Material de reprodução
Mohiam fez um esforço para levantar-se e olhou com os olhos brilhantes para a recém-nascida. Reparou imediatamente na deformidade, na fraqueza. Gemeu e se deixou cair sobre os lençóis.
A madre superiora Harishka foi consolá-la.
— Necessitamos da sua força agora, irmã, não seu desespero. Terá outra chance com o barão.
Cruzou os braços sobre o peito, e saiu com uma revoada do hábito da sala de partos, seguida por suas assessoras.
Em seus aposentos na fortaleza Harkonnen, o barão se admirava nu em frente ao espelho, algo que fazia com freqüência. Havia muitos espelhos em sua extensa asa de apartamentos, e muita luz, de modo que desfrutava constantemente da perfeição de formas que a Natureza lhe concedera. Era magro e musculoso, com um bom tom de pele, sobretudo quando seus amantes a esfregavam com ungüentos perfumados. Passou os dedos sobre seu abdômen liso. Magnífico.
Não era de estranhar que as bruxas tivessem pedido que procriasse com elas pela segunda vez. Afinal, sua beleza era extraordinária. Com seus programas de
reprodução, era natural que desejassem os melhores genes. O
primeiro filho que gerado com aquela reverenda madre devia ser tão perfeito que desejavam outro. Embora a perspectiva não o agradasse, imaginou se na verdade era tão horrível.
Desejava saber se sua origem encaixava nos projetos a longo prazo daquelas mulheres tortuosas e reservadas. Tinham múltiplos programas de reprodução, e ao que pareci só uma Bene Gesserit era capaz de entendê-los.
Podiam utilizá-lo para seu proveito, ou mantinham a intenção secreta de voltar sua filha contra ele mais adiante? Tivera a cautela de não gerar nenhum herdeiro bastardo, afim de evitar disputas dinásticas, embora de qualquer modo dava no mesmo. Mas o que ganhava ele com tudo isto?
Nem sequer Peter de Vries tinha conseguido oferecer alguma explicação.
— Não nos deu sua resposta, barão — disse a irmã Margot Rashino Zea. Sua nudez não parecia incomodá-la.
Olhou pelo espelho para a bela irmã de cabelo loiro. Acreditavam que sua beleza, seu corpo bem feito, sua aparência esplêndida, poderiam tentá-lo? Preferiria copular com ela que com a outra? Nenhuma das perspectivas o atraía.
Margot, como representante da Irmandade, acabava de falar da necessidade» de copular pela segunda vez com a bruxa Mohiam. Nem sequer tinha passado um ano. Que desfaçatez daquelas criaturas! Ao menos, Margot oferecia palavras elegantes e distintas, em vez das exigências brutais que Mohiam lhe tinha espetado naquela longínqua noite.
Ao menos, desta vez as bruxas tinham enviado uma porta-voz melhor.
Recusou cobrir sua nudez em frente a formosa mulher, sobretudo depois de escutar o pedido. Nu, exibiu-se diante dela, mas fingiu não perceber. Tenho certeza que esta beleza adoraria deitar-se com alguém como eu.
— Mohiam era muito vulgar para meu gosto — disse quando se virou para a emissária da Irmandade —.Diga-me, bruxa, meu primogênito foi uma filha, tal como me prometeu?
— Faria alguma diferença para você?
Os olhos verdes de Margot continuavam cravados nos seus, mas adivinhou que desejava contemplar seu corpo, seus músculos e sua pele dourada.
— Eu não disse isso, estúpida, mas sou de linhagem nobre e fiz uma pergunta. Responda ou morra.
— As Bene Gesserit não temem à morte, barão — disse Margot em tom sereno. Sua calma o irritava e intrigava ao mesmo tempo —. Sim, seu primogênito foi uma menina, barão —continuou —. As Bene Gesserit podem influir nestas coisas. Um filho varão não teria servido de nada.
— Entendo. Por que voltaram?
— Não estou autorizada a revelar nada mais.
— Considero o segundo pedido das Bene Gesserit profundamente ofensivo. Disse à Irmandade que não voltasse a me incomodar. Poderia matá-la por me desafiar. Estou em meu planeta e em minha fortaleza.
— Recorrer à violência não seria prudente. — Um tom firme, tingido de ameaça. Como podia ser tão forte e monstruosa, com aquele corpo adorável?
— Da última vez ameaçaram revelar minhas supostas reservas de especiaria. Imaginaram algo novo, ou vão utilizar a mesma chantagem de antes?
— Se desejarmos, as Bene Gesserit sempre podem encontrar novas ameaças, barão, embora as provas de seus relatórios fraudulentos sobre a produção de especiaria bastariam para desatar a fúria do imperador.
O barão arqueou uma sobrancelha e agarrou um manto negro do respaldo de uma cadeira.
— Sei de boa fonte que várias Grandes Casas possuem suas próprias reservas de melange. Alguns dizem que até o imperador Elrood não desdenha essa prática.
— Ultimamente o imperador não goza de boa saúde nem de bom humor. Pelo visto, está muito preocupado com IX.
O barão Harkonnen meditou por alguns instantes. Seus espiões na corte imperial de Kaitain lhe tinham informado que o velho Elrood se mostrava cada vez mais instável e colérico, com sintomas de paranóia. Sua mente divagava e sua saúde piorava, e isto o tornava mais maldoso que nunca, como demonstrava a destruição da Casa Vernius.
— O que acha que sou? — perguntou o barão —. Um touro reprodutor salusano?
Não tinha nada a temer, porque as bruxas já não possuíam provas suficientes
contra ele. Tinha espalhado suas reservas de especiaria em esconderijos perdidos nas montanhas isoladas do Lankiveil, e ordenado a destruição de todas as provas que existiam em Arrakis. A operação foi executada com grande perícia, sob o comando de um ex-auditor da CHOAM empregado a seu serviço. O barão sorriu. Ex-empregado, de fato, já que De Vries se encarregara dele.
Aquelas Bene Gesserit podiam ameaçar o quanto quisessem, mas precisavam de prova. A certeza lhe proporcionava um novo poder, uma nova forma de lhes opor resistência.
A bruxa olhando-o. Sentiu vontade de apertar a bela garganta de Margot e sossegá-la para sempre. Mas isso não solucionaria seu problema, mesmo que sobrevivesse ao treinamento faria que não esquecessem.
— Se insiste, me envie sua irmã geradora. Estarei preparado para ela. Sabia muito bem o que ia fazer. Seu Mentat Piter De Vries, e talvez seu sobrinho Rabban, ficariam muito satisfeitos em ajudá-lo.
— Muito bem. A reverenda mãe Gaius Helen Mohiam partirá cá dentro de quinze dias.
Dito isto, Margot saiu. Seu resplandecente cabelo loiro e sua pele leitosa pareciam muito radiantes para ser manchados pelo hábito da Irmandade.
O barão chamou De Vries. Tinham que trabalhar. Sem um objetivo, a vida não vale nada. Às vezes, o objetivo se transforma na vida do homem, uma paixão devastadora. Mas quando se alcança o objetivo, o que acontece? Oh, pobre homem, o que acontece então? Diário pessoal de lady Helena Atreides
Depois dos duros anos de infância passados em Giedi Prime, o jovem Duncan Idaho considerou o exuberante planeta de Caladan um paraíso. Tinha aterrissado sem plano algum em uma cidade que se encontrava na parte do planeta oposta ao castelo de Caladan. O amigo de Janess, o imediato Renno, livrou-se do menino, abandonando-o nas ruas do espaçoporto.
Sem se importar com ele, a tripulação desembarcou seu carregamento de produtos recicláveis e resíduos industriais, e depois embarcou um carregamento de arroz pundi em bolsas feitas de fibras de grão. Renno retornara ao Cruzeiro em órbita sem se despedir, sem lhe oferecer conselhos nem lhe desejar boa
sorte.
Duncan não podia queixar-se: ao menos tinha escapado dos Harkonnen. Só o que devia fazer agora era encontrar o duque Atreides.
O menino, abandonado entre desconhecidos em um mundo desconhecido viu que a nave subia para o céu nublado. Caladan era um planeta de aromas intensos e atrativos, com o ar impregnado de umidade e salitre, do aroma de pescado e a fragrância de flores silvestres. Nunca tinha conhecido algo semelhante quando vivia em Giedi Prime.
No moderado sul, as colinas eram altas, cobertas de erva verde e jardins terraplanados, esculpidos nas ladeiras como degraus construídos por um bêbado. Grupos de agricultores trabalhavam sob o sol amarelado, pobres mas felizes. Vestidos com roupas velhas, transportavam ao mercado as frutas e verduras frescas sobre plataformas antigravitacionais.
Enquanto Duncan olhava com olhos famintos para os agricultores que passavam, um bondoso ancião lhe deu um pequeno melão paradan, e o menino o comeu com voracidade. Entre seus dedos escorreu o suco doce.
Era o manjar mais delicioso que jamais tinha provado.
Ao ver a energia e desespero do menino, o agricultor lhe perguntou se quereria trabalhar nos campos de arroz durante alguns dias. O ancião não lhe ofereceu nenhum pagamento, somente um lugar onde dormir e um pouco de comida. Duncan aceitou de bom grado.
No caminho, o menino contou ao ancião a história de suas batalhas contra os Harkonnen, a detenção e assassinato de seus pais, sua escolha para a caçada de Rabban, sua fuga do planeta.
— Agora devo me apresentar ao duque Atreides — terminou Duncan
—. Mas não sei onde ele está e nem como encontrá-lo.
O velho agricultor escutou com atenção e assentiu com gravidade.
Os caladanos conheciam as lendas que rodeavam seu lendário duque, tinham testemunhado sua mais arriscada tourada como comemoração da partida de seu filho Leto para IX. O povo honrava seu líder, e lhes parecia razoável que qualquer cidadão pudesse lhe pedir uma audiência.
— Vou explicar onde o duque vive — disse o ancião —. O marido de minha irmã
tem um mapa de todo o planeta. O que não sei é como chegará ali. Está muito longe.
— Sou jovem e forte. Vou conseguir.
O agricultor assentiu e o conduziu até os campos de arroz.
Duncan se hospedou quatro dias com a família do ancião, e trabalhou mergulhado até a cintura em campos de arroz. Vadeou a água, abriu canais e semeou sementes no barro. Aprendeu as canções e cânticos dos plantadores de arroz pundi.
Uma tarde, observadores postados nos ramos inferiores das árvores golpearam suas frigideiras, em sinal de alarme. Momentos depois, ondulações nas águas turvas anunciaram a aproximação de um banco de peixes pantera, habitantes dos pântanos que nadavam em busca de presas.
Podiam esfolar um homem em segundos.
Duncan subiu no tronco de uma árvore para unir-se a outros agricultores, tomados pelo pânico. Ficou em um ramo baixo, e afastou para um lado o saco de sementes enquanto contemplava os ondulações que se aproximavam. Sob a água viu seres de enormes, providos de numerosas presas e grandes escamas. Vários dos peixes deram voltas ao redor do tronco onde Duncan tinha procurado refúgio.
Alguns animais se elevaram sobre seus braços cobertos de escamas, braços rudimentares com aletas frontais que se transformaram em garras desajeitadas. Os peixes carnívoros se impulsionavam para cima, grandes e mortíferos, procurando alcançar o menino que se mantinha a poucos centímetros fora de seu alcance. Duncan subiu para um ramo mais alto. Os peixes pantera mergulharam de novo e desapareceram entre os campos de arroz.
No dia seguinte, Duncan tomou a frugal refeição que a família do agricultor tinha preparado e partiu em direção à costa, onde encontrou trabalho como manipulador de redes em um navio de pesca que fundeava nos mares do sul. Por fim, o navio o conduziu ao continente onde estava o castelo de Caladan.
Trabalhou durante semanas com as redes, estripou pescado e comeu até saciarse na cozinha. O cozinheiro utilizava muitas especiarias desconhecidas para Duncan, pimentas e mostardas de Caladan que subiam ao nariz e aos olhos. Todos riam de seus problemas, e lhe disseram que não seria um homem até que fosse capaz de comer pescado condimentado daquela maneira. Ante sua surpresa, o jovem Duncan aceitou o desafio, e não demorou para pedir a comida
mais temperada. Ao fim de pouco tempo, suportava as comidas picantes mais que qualquer outro membro da tripulação. Os pescadores pararam zombar dele e começaram a elogiá-lo.
Antes que a viagem acabasse, o grumete do beliche do lado calculou sua idade em nove anos e seis semanas.
— Sinto-me muito mais velho — respondeu Duncan.
Não tinha esperado demorar tanto tempo para chegar a seu destino, mas sua vida tinha melhorado, apesar do exaustivo trabalho que realizava.
sentia-se a salvo, mais livre que nunca. Os homens da tripulação eram sua nova família.
Abaixo dos céus carregados, o navio atracou por fim no porto, e Duncan se despediu do mar. Não pediu pagamento algum, nem se despediu do capitão. Apenas partiu. A travessia do oceano tinha sido apenas um passo em sua viagem. Nem em um só momento se desviou de seu objetivo principal de apresentar-se ao velho duque. Não se aproveitou de ninguém e trabalhou até a extenuação em troca da hospitalidade recebida.
Em uma ocasião, um marinheiro de outro navio tentou sodomizá-lo em uma ruela do porto, mas Duncan o repeliu com músculos de aço e reflexos velozes como o raio. O agressor fugiu, derrotado pela força selvagem do menino.
Duncan pediu carona e foi recolhido por veículos terrestres e carros, e penetrou sem pagar em trens e ornitópteros de carga. Atravessou o continente em direção ao oeste, em direção ao castelo de Caladan, cada vez mais próximo à medida que os meses transcorriam.
Durante as freqüentes chuvas, refugiava-se sob as árvores, mas mesmo molhado e faminto não se sentia tão mal, porque recordava a terrível noite passada no Posto do Guarda Florestal. Depois disso, estava seguro de sobreviver a estes pequenos infortúnios.
Às vezes puxava conversa com outros viajantes e escutava histórias sobre seu popular duque, fragmentos da história dos Atreides. Em Giedi Prime ninguém falava desses assuntos. A pessoas guardavam suas opiniões e não ofereciam a menor informação. Aqui, entretanto, os habitantes falavam sem rodeios de sua situação. Uma tarde em que viajava com três atores, Duncan chegou à surpreendente conclusão de que o povo do Caladan amava seu líder.
Em compensação, em relação aos Harkonnen só tinha ouvido histórias espantosas. Conhecia o medo do povo e as brutais conseqüências de qualquer resistência, real ou imaginária. Neste planeta, não obstante, o povo respeitava mais que temia seu líder. Contaram a Duncan que o velho duque passeava com a única companhia de um guarda de honra pelos povoados e mercados, visitava as pessoas sem medo de que o atacassem.
Nem o barão Harkonnen nem Glossu Rabban teriam ousado realizar tamanha façanha.
Possivelmente eu vou gostar deste duque, pensou Duncan uma noite, encolhido sob uma manta emprestada por um dos atores.
Por fim, depois de meses de viagem, chegou ao povoado situado ao pé do promontório sobre o qual se erguia o castelo de Caladan. O
magnífico edifício se erguia como uma sentinela vigiando o mar sereno.
Em seu interior vivia o duque Paulus Atreides, que já se transformara em uma figura lendária para o garoto.
O frio da manhã fez Duncan estremecer e respirar fundo. A névoa se elevava sobre a costa, e transformava o sol nascente em uma bola de intensa cor laranja. Abandonou o povoado e iniciou a longa subida para o castelo, seu ponto de destino.
Enquanto andava, fez o que pôde para adquirir uma aparência apresentável: sacudiu o pó da roupa e meteu sua camisa enrugada para dentro das calças. Sentia-se confiante, apesar de seu aspecto, porque o duque o aceitaria ou o expulsaria. De qualquer jeito, Duncan Idaho sobreviveria.
Quando chegou às portas do grande pátio, os guardas o impediram de entrar, convencidos de que era um mendigo.
— Não sou um pedinte — disse Duncan orgulhoso —. Vim do outro limite da galáxia para ver o duque e lhe contar minha história.
Os guardas romperam em gargalhadas.
— Nós lhe traremos algumas sobras da cozinha, mas nada mais.
— Seria muito amável de sua parte, senhores — admitiu Duncan, enquanto seu estômago grunhia de fome —, mas não vim para isso. Façam o favor de enviar uma mensagem ao castelo. — Tentou recordar a frase que um dos cantores
ambulantes tinha lhe ensinado—. Diga que Duncan Idaho solicita uma audiência com o duque Paulus Atreides.
Os guardas voltaram a rir, mas o menino percebeu certo respeito reticente em sua expressão. Alguém se foi e voltou com ovos esquentados para Duncan, que os devorou, lambeu os dedos e se sentou no chão para esperar. Passaram-se horas.
Os guardas olhavam para ele e sacudiam a cabeça. Alguém lhe perguntou se carregava armas, ou dinheiro, ao que Duncan respondeu que não. Enquanto uma constante fila de peticionários entravam e saíam, os guardas conversavam entre si. Duncan os ouviu falar de uma revolta ocorrida em IX, e da preocupação do duque com a Casa Vernius, sobretudo porque o imperador tinha oferecido uma recompensa por Dominic e Shando Vernius. Ao que parecia Leto, o filho do duque, tinha escapado de IX com dois refugiados reais. O castelo estava muito alvoroçado.
Duncan continuou esperando.
O sol desapareceu atrás do horizonte do grande mar. O moço passou a noite encolhido em uma esquina do pátio, e quando na manhã seguinte houve a troca da guarda, repetiu sua história e solicitou audiência. Desta vez contou que tinha escapado de um planeta Harkonnen e que desejava oferecer seus serviços à Casa Atreides. O nome Harkonnen chamou a atenção dos guardas, que o revistaram em busca de armas uma vez mais.
Na primeira hora da tarde, depois de ter sido revistado e sondado, primeiro por um escâner eletrônico que localizava dispositivos letais ocultos e depois por um detector de venenos, Duncan foi conduzido ao interior do castelo, um antigo edifício de pedra cujos corredores e salas estavam adornados com ricas tapeçarias, recoberto por uma pátina de história e elegância decadente. As pranchas de madeira rangiam sob seus pés.
Ao chegar a uma ampla arcada de pedra, dois guardas o obrigaram a passar através de escâneres mais sofisticados, que tampouco revelaram nada suspeito. Era um menino, sem nada a ocultar. Finalmente indicaram a Duncan que entrasse em uma ampla sala de tetos abobadados, sustentados por vigas escuras e pesadas.
O velho duque examinou seu visitante. Paulus, um homem forte e com aparência de urso, barba cheia e brilhantes olhos verdes, estava sentado em uma poltrona de madeira, não em um trono luxuoso. Era um lugar onde se sentia confortável durante horas enquanto cuidava dos assuntos de Estado. O respaldo, acima da
cabeça do patriarca, tinha uma cabeça esculpida de falcão.
A seu lado se sentava seu filho Leto, pele olivácea, magro e com aspecto de cansaço, como se ainda não tivesse se recuperado de sua odisséia. Duncan olhou para os olhos cinzas de Leto, e pensou que os dois tinham muito que contar, muito que compartilhar.
— Temos aqui um menino muito insistente, Leto — disse o velho duque ao seu filho.
— A julgar por seu aspecto, deseja algo diferente de todos os peticionários que escutamos hoje. — Leto arqueou as sobrancelhas. Era apenas cinco ou seis anos mais velho que Duncan mas dava a impressão de que ambos tinham sido lançados pela força na maturidade —. Não parece faminto.
A expressão de Paulus se suavizou quando se inclinou para frente em sua poltrona.
— Desde quando está esperando, garoto?
— Oh, isso não importa, meu senhor duque — respondeu Duncan, confiando em utilizar as palavras adequadas —. Agora estou aqui. — coçou o queixo, nervoso.
O velho duque lançou um olhar mal-humorado para o guarda que tinha escoltado o menino.
— Deram de comer a este jovem?
— Deram-me muitas coisas, senhor. Obrigado. E também dormi muito bem em seu pátio confortável.
— No pátio? — Olhou para o guarda de novo, desta vez com o sobrecenho franzido —. Para que veio até aqui, jovenzinho? Veio de algum povoado de pescadores?
— Não, meu senhor. Venho de Giedi Prime.
As mãos dos guardas se esticaram sobre suas espadas. O duque e seu filho trocaram um olhar de incredulidade.
— Nesse caso, é melhor nos contar sua história — disse Paulus, e seu rosto escureceu quando Duncan o fez sem omitir detalhes.
Os olhos do duque se arregalaram. Viu a expressão de inocência do menino e
olhou para seu filho, convencido de que o relato não era fictício.
Leto assentiu. Nenhum menino de nove anos podia inventar uma história semelhante.
— E assim cheguei aqui, senhor — terminou Duncan —, para vê-lo.
— Em que cidade de Caladan aterrissou? — perguntou o duque —
Descreva-a.
Duncan não recordava seu nome, mas explicou o que tinha visto, e o velho duque admitiu que devia vir do outro extremo do planeta.
— Disseram-me que viesse vê-lo, meu senhor, e lhe pedisse trabalho. Odeio os Harkonnen, senhor, e juraria lealdade à Casa Atreides se pudesse ficar aqui.
— Acredito nele, pai — disse Leto em voz baixa, enquanto estudava os olhos verde-azulados do menino —. Ou se trata de uma lição que tenta me ensinar?
Paulus se reclinou na poltrona, com as mãos enlaçadas sobre o regaço, e seu peito sofreu espasmos. Duncan percebeu que estava reprimindo uma risada. Quando o velho duque já não pôde mais conter-se, riu a plenos pulmões e deu palmadas nos joelhos.
— Garoto, admiro o que fez. Um jovem com bolas tão grandes tem que entrar forçosamente a meu serviço!
— Obrigado, senhor — disse Duncan.
— Estou seguro de que lhe encontraremos algum trabalho, pai —
disse Leto com um sorriso. Considerava aquele valente e teimoso menino um bom presságio, comparado com tudo o que tinha visto nos últimos tempos.
O velho duque se levantou de sua poltrona e chamou os criados.
Ordenou que déssemos ao menino roupas novas, banho e comida.
— Pensando bem — disse, ao mesmo tempo em que levantava uma mão —, preparem um banquete. Meu filho e eu desejamos compartilhar a mesa com o jovem maese Idaho.
Entraram em um salão adjacente, onde apressados garçons corriam para
preparar tudo. Um criado escovou o cabelo escuro e encaracolado do menino, e passou um aspirador sobre suas roupas empoeiradas. Paulus Atreides ocupou a cabeceira da mesa, com Duncan a sua direita e Leto a sua esquerda.
— Tenho uma idéia, garoto. Se foi capaz de lutar com esses monstruosos Harkonnen, acha que pode com um simples touro salusano?
— Claro, senhor — disse Duncan. Tinha ouvido falar dos grandes espetáculos do duque —. Se desejar que eu toureie, farei-o com muito prazer.
— Tourear? Não é isso o que tenho em mente. — O duque se reclinou em sua cadeira com um amplo sorriso e olhou para Leto.
— Acho que encontramos um emprego para você aqui no castelo de Caladan, jovem — disse Leto —. Trabalhará nos estábulos, sob o comando do chefe de quadras Yresk. Irá ajudará-lo a cuidar dos touros do meu pai.
Os alimentará e se puder os escovará. Eu faço isso. Vou apresentá-lo ao chefe de quadras. — Olhou para seu pai —. Lembra-se que me deixava acariciar os touros quando tinha a idade de Duncan?
— Oh, este menino fará algo mais que acariciar essas bestas — disse o velho duque. Arqueou uma sobrancelha grisalha quando chegaram à mesa bandejas de apetitosos manjares. Observou a expressão ávida de Duncan —. E se fizer um bom trabalho nos estábulos — acrescentou —, possivelmente eu lhe reserve tarefas mais interessantes. A história foi poucas vezes clemente com aqueles que têm que ser castigados. Os castigos das Bene Gesserit são inesquecíveis. Máxima Bene Gesserit
Uma nova delegação Bene Gesserit, que acompanhava Gaius Helen Mohiam, chegou a Giedi Prime. Mohiam, que acabava de dar a luz à filha disforme do barão Harkonnen, encontrou-se pela segunda vez na fortaleza do barão no intervalo de um ano.
Desta vez chegou durante o dia, embora a capa de nuvens e as colunas de fumaça que se elevavam das fábricas carentes de filtros dotassem o céu de uma aparência doentia, que apagava até o último raio de sol.
A lançadeira da reverenda mãe pousou no mesmo espaçoporto, com a mesma solicitação de serviços especiais. Mas nesta ocasião o barão jurou que as coisas seriam muito diferentes.
Um regimento de soldados saiu ao encontro da lançadeira, em número mais que suficiente para intimidar às bruxas. O burseg Kryubi, antigo piloto em Arrakis e agora responsável por segurança da Casa Harkonnen, plantou-se em frente a rampa de desembarque, dois passos a frente de seus soldados. Todos estavam uniformizados de azul, cor reservada para as recepções oficiais.
Mohiam apareceu no alto da rampa, envolta em seu hábito e flanqueada por acompanhantes, guardas pessoais e outras irmãs. Franziu o sobrecenho com desdém ao ver o burseg e seus homens.
— Que significa esta recepção? Onde está o barão? O burseg Kryubi olhou para ela.
— Não tente utilizar a Voz manipuladora comigo, ou acontecerá uma reação desagradável por parte de meus homens. Recebi ordens, só você poderá ver o barão. Nem guardas, nem serventes, nem acompanhantes. —
Apontou para as pessoas que aguardavam atrás dela —. Ninguém mais poderá entrar.
— Ridículo — replicou Mohiam —. Exijo cortesia diplomática oficial. Todo meu séquito tem que ser recebido com o respeito que merece.
Kryubi não se alterou. “Sei muito bem o que a bruxa deseja — havia dito o barão —. Se acredita que pode vir aqui toda vez que tiver vontade, está muito enganada”, fosse qual fosse o significado dessas palavras. O burseg olhou para ela sem pestanejar.
— Pedido negado. — Os castigos do barão a assustavam mais que as artes daquela mulher —. Está livre para partir se as condições não o satisfizerem.
Mohiam soprou e desceu pela rampa depois de dirigir um olhar fugaz para seus acompanhantes.
— Apesar de todas as suas perversões, o barão se mostra muito dissimulado — ironizou mais para os ouvidos dos Harkonnen que para os seus —. Sobretudo no que se refere a questões de sexualidade.
A referência intrigou Kryubi, que não tinha sido informado da situação, mas decidiu que era melhor desconhecer certas coisas.
— Diga-me, burseg — disse a bruxa com tom irritado —, como saberia se utilizo a Voz em você?
— Um soldado nunca revela suas defesas.
— Entendo. — O tom da mulher era sensual.
Kryubi não se sentiu impressionado, mas se perguntou se seu blefe tinha funcionado.
Aquele estúpido soldado ignorava, mas Mohiam era uma Reveladora da Verdade, capaz de reconhecer matizes de falsidade e mentira. Permitiu que o presunçoso burseg a conduzisse por um túnel até o interior da fortaleza. Uma vez lá dentro, a reverenda madre adotou seu melhor porte de confiança altiva e caminhou com afetada indiferença. Entretanto, todos os seus sentidos se intensificaram para captar a menor anomalia. O barão despertava seus maiores receios. Sabia que estava tramando algo.
O barão Harkonnen, que passeava de um lado para outro do Grande Salão, olhou ao redor com olhos reluzentes. O salão era amplo e frio, e a luz que os globos luminosos alojados nas esquinas e no teto projetavam, muito brilhante. Enquanto caminhava com suas botas negras bicudas, seus passos ressoavam, de forma que o salão parecia vazio. Um bom lugar para uma emboscada.
Embora a parte residencial da fortaleza parecesse abandonada, o barão tinha postado guardas e visicoms eletrônicos em diversos nichos.
Sabia que não poderia enganar à puta Bene Gesserit durante muito tempo, mas pouco importava. Embora descobrisse que a observavam, talvez isso impedisse que utilizasse truques insidiosos. A precaução podia lhe proporcionar alguns segundos de vantagem.
Como desta vez não pensava em perder o controle, o barão desejava que sua gente contemplasse a cena. Proporcionaria-lhes um bom espetáculo, algo de que falariam nos quartéis e naves durante os anos vindouros. Melhor ainda, poria as bruxas em seu lugar. Chantagear a mim!
Piter De Vries deslizou atrás dele, com tanto silêncio e discriçao que assustou o barão.
— Não faça isso, Piter! — Trouxe o que pediu, barão. — O retorcido Mentat estendeu a mão e lhe
mostrou dois pequenos transmissores de ruído branco —. Introduza em seus canais auditivos. Foram desenhados para distorcer qualquer Voz que ela tente utilizar. Ouvirá a conversa normal, mas os aparelhos desmodularão qualquer som indesejável e impedirão que chegue a seus ouvidos.
O barão emitiu um profundo suspiro e flexionou os músculos. Os preparativos tinham que ser perfeitos.
— Cuide da sua parte, Peter. Eu sei o que faço.
Aproximou-se de um pequeno nicho, pegou uma garrafa de conhaque kirano e bebeu. Depois de sentir o ardor do líquido em seu peito, secou a boca e o gargalo da garrafa.
O barão já tinha bebido mais álcool do que o habitual, talvez mais do que o prudente, considerando o mau momento que o esperava. De Vries, consciente da angústia de seu amo, observou-o com ar reprovador. O barão enrugou a testa e tomou outro gole, só para chateá-lo. O Mentat revoou ao seu redor, desfrutando antecipadamente de seu plano conjunto, ansioso por participar.
— Talvez, barão, a bruxa tenha retornado porque seu primeiro encontro lhe proporcionou grande prazer. — Soltou uma risadinha —.
Acha que ela o deseja?
O barão olhou carrancudo para ele uma vez mais, com tal intensidade que o Mentat temeu ter ido muito longe, mas a lábia de De Vries sempre o salvava de reprimendas. — Esta é a melhor projeção que meu Mentat pode me oferecer?
Pense, maldito seja! Por que as Bene Gesserit querem outro filho meu?
Tentam aprofundar a ferida para que as odeie ainda mais? — Bufou e se perguntou se aquela teoria era plausível.
Possivelmente necessitavam de duas filhas por algum motivo, Ou talvez algo tivesse saido errado com a primeira... Os grossos lábios do barão se curvaram em um sorriso desdenhoso. Esta víbora será a última, sem dúvida.
Já não haviam provas que as Bene Gesserit pudessem utilizar para chantageá-lo. As montanhas de Lankíveil ocultavam agora o maior tesouro de melange
Harkonnen, debaixo do nariz de Abulurd. O idiota não tinha a menor ideia de que o utilizavam para encobrir as atividades secretas do barão. Entretanto, apesar de ser brando e tolo, Abulurd ainda era um Harkonnen. Mesmo que descobrisse, não se atreveria a revelá-lo peli temor de destruir as propriedades da família. Abulurd reverenciava muito a memória de seu pai.
O barão se afastou do conhaque kirana, e o sabor doce e abrasador se tornou amargo em sua garganta. Cobria-se com um largo pijama marrom e negro, apertado na cintura. Sobre o lado esquerdo do peito se destacava o emblema da Casa Harkonnen, um grifo azul pálido. Usava manga curta para exibir seus bíceps. O curto cabelo vermelho revolto para lhe conferir um aspecto sedutor. Olhou fixamente para De Vries. O Mentat tomou um gole de uma garrafinha de suco de safo.
— Estamos prontos, barão? A mulher espera lá fora.
— Sim. — Se reclinou em sua cadeira. As calças de seda eram folgadas, e os olhos agudos da reverenda mãe não detectariam o vulto de nenhuma arma... de nenhuma arma previsível. Sorriu —. Faça-a entrar. Quando Mohiam entrou no salão principal da fortaleza, o burseg Kryubi e seus soldados fecharam a porta atrás dela e ficaram lá fora. Os fechos se fecharam com um clique. A mulher ficou em guarda de imediato, e percebeu que o barão tinha preparado todos os detalhes do seu encontro.
Os dois estavam sozinhos em uma larga sala, austera e fria, banhada por uma luz cegante. Toda a fortaleza transmitia a impressão de esquinas quadradas e dureza sem rachaduras que tanto agradava os Harkonnen. A estadia era mais uma sala de conferências industrial que o salão de um suntuoso palácio.
— Saudações uma vez mais, barão Harkonnen — disse Mohiam com um sorriso que impunha cortesia ao seu desprezo —. Vejo que antecipou nosso encontro. Talvez estivesse ansioso? — olhou para os dedos —. É
possível que desta vez lhe proporcione um pouco mais de prazer.
— Talvez.
A resposta não agradou Mohiam. Qual era o jogo? Mohiam olhou ao redor, percebeu as correntes de ar, esquadrinhou as sombras e tentou escutar o batimento do coração de alguma pessoa escondida. Havia alguém mais... mas onde? Pensavam em assassiná-la? Ousariam? Controlou seu pulso para evitar que
se acelerasse.
O barão tinha em mente algo mais que uma simples colaboração.
Jamais esperara uma vitória fácil, sobretudo na segunda vez. Os chefes de algumas Casa Menores podiam ser esmagados ou manipulados (a Bene Gesserit sabia fazê-lo muito bem), mas esse não, era o chefe da Casa Harkonnen.
Escrutinou os olhos tenebrosos do barão, utilizou suas habilidades de Reveladora da verdade, mas foi incapaz de descobrir seus planos. Mohiam sentiu uma pontada de medo. Até onde os Harkonnen se atreveriam a ir? O
barão não podia opor-se às exigências da Irmandade, em virtude da informação que a Bene Gesserit possuía. Correria o risco de incorrer na ira imperial? Ou o risco de ser castigado pela Bene Gesserit? Não era um risco pequeno.
Em outro momento ela teria gostado de seguir o jogo, porque era um adversário poderoso, tanto física como mentalmente. Era escorregadio, e podia torcer e dobrar com mais facilidade que romper. Mas agora, o barão era apenas um reprodutor a seu serviço, porque a Irmandade necessitava de seus genes. Mohiam ignorava por que, ou a importância desta filha, mas se retornasse a Wallach IX sem ter completado sua missão, receberia uma severa reprimenda de suas superioras.
Decidiu não perder mais tempo. Convocou os talentos da Voz absoluta que as Bene Gesserit lhe tinham ensinado, manipulações de tom e registro ao qual nenhum ser humano sem treinamento podia resistir, e disse:
— Colabore comigo. — Era uma ordem que devia ser obedecida.
O barão se limitou a sorrir. Não se moveu, mas seus olhos se desviaram. Mohiam ficou tão estupefata pela ineficácia da Voz que compreendeu, muito tarde, que o barão lhe tinha armado uma armadilha.
Piter De Vries saiu disparado de um nicho oculto. A irmã se virou, disposta a defender-se, mas o Mentat se moveu com a mesma rapidez de uma Bene Gesserit.
O barão contemplou a cena, satisfeito.
De Vries segurava uma arma tosca mas eficaz em suas mãos. O
demodulador neurônico se comportou como um brutal atordoante de alta potência. Lançou uma descarga antes que a mulher pudesse se mover. As ondas
crepitantes explodiram contra ela e cortaram o controle de sua mente e músculos.
Mohiam cambaleou sacudida por violentos espasmos, cada centímetro de sua pele devorado por formigas imaginárias.
Um efeito delicioso, pensou o barão enquanto observava.
A mulher caiu sobre o chão de pedra polida, com os braços e pernas abertos, como se um pé gigantesco a tivesse derrubado. Sua cabeça golpeou os ladrilhos, e seus ouvidos zumbiram em conseqüência do impacto. Seus olhos se cravaram no teto abobadado, sem piscar. Estava incapaz de se mover, apesar do controle muscular pranabindu.
Por fim, o gesto zombeteiro do barão se abateu sobre ela. Impulsos nervosos sacudiram seus braços e pernas. Sentiu uma umidade morna, e compreendeu que sua bexiga se afrouxara. Um fio de saliva escorreu por sua bochecha até a base da orelha.
— Bem, bem, bruxa — disse o barão —, o atordoante não lhe causará danos irreversíveis. De fato, recuperará o controle corporal dentro de vinte minutos. Tempo suficiente para nos divertirmos.
Caminhou ao seu redor, sorridente.
Ergueu a voz. para que os fonocaptores eletrônicos transmitissem suas palavras aos observadores ocultos.
— Conheço o material fraudulento que reuniram contra a Casa Harkonnen, e meus advogados estão preparados para rebater as acusações em qualquer tribunal do Império. Ameaçaram utilizá-lo se não lhes concedesse outra filha, mas se trata de uma ameaça inofensiva de bruxas inofensivas.
Fez uma pausa e sorriu, como se acabasse de ocorrer-lhe uma idéia.
— De qualquer modo, não me importo em conceder-lhe a segunda filha que desejam. Estou falando sério. Mas entenda bem, bruxa, e transmita minha mensagem a sua Irmandade: não podem pretender dobrar o barão Vladimir Harkonnen aos seus caprichos sem sofrer as conseqüências.
O barão reprimiu seu asco e rasgou a saia da mulher. O que o repugnava era sua forma, carente dos músculos masculinos que tanto admirava.
— Ora, ora, parece que ocorreu um pequeno acidente — disse ao ver o tecido
molhado de urina.
De Vries se colocou atrás dela, e a observou com seu rosto largo e lânguido. Mohiam viu os lábios manchados de vermelho e o brilho demente dos olhos do Mentat. O barão separou suas pernas e esfregou seu membro.
Não viu o que estava fazendo, nem tampouco desejava isso.
Embriagado pelo êxito do seu plano, não teve dificuldades em alcançar a ereção. Estimulado pelo conhaque, olhou para a mulher e pensou que acabara de sentenciar a velha bruxa ao mais brutal dos poços de escravos dos Harkonnen. Esta mulher, que se imaginava tão importante e poderosa, estava agora a sua mercê... a sua completa mercê!
Violá-la lhe proporcionou um prazer indescritível. Era a primeira vez que gozava com uma mulher, embora fosse pouco mais que um pedaço de carne flácida.
Durante aqueles breves momentos Mohiam jazeu imóvel, furiosa e impotente. Sentia cada movimento, cada roçar, cada investida dolorosa, mas ainda não tinha recuperado o controle de seus músculos. Seus olhos estavam abertos.
Em vez de esbanjar suas energias, a reverenda mãe se concentrou em sua bioquímica e a alterou. O efeito do atordoante não tinha sido completo.
Uma coisa eram os músculos, e a química interna de seu corpo outra muito diferente. O barão Vladimir Harkonnen se arrependeria disto.
Antes de empreender a viagem tinha manipulado sua ovulação afim de alcançar o pico de sua fertilidade nesta hora exata. Mesmo com a violação, nada a impediria de conceber uma nova filha com o esperma do barão. Isto era o mais importante.
Tecnicamente, não necessitava de nada mais daquele canalha, mas a reverenda mãe Gaius Helen Mohiam tinha a intenção de lhe dar algo em troca, uma vingança lenta que não jamais esqueceria.
Ninguém esquecia um castigo das Bene Gesserit.
Mesmo paralisada, Mohiam era uma reverenda mãe totalmente treinada. Seu corpo possuía armas que estavam ao seu dispor mesmo naquele momento, apesar da sua aparência indefesa.
Graças às funções sensíveis de seus corpos, as Bene Gesserit podiam criar antídotos para os venenos introduzidos em seus sistemas. Eram capazes de
neutralizar as enfermidades mais espantosas assim como destruir os piores vírus patogênicos... ou conservá-los latentes em seus corpos como recurso para utilizar mais adiante. Mohiam levava em seu interior alguns deles, e podia ativá-los mediante o controle de sua bioquímica.
O barão, estendido sobre ela, grunhia como um animal, com a mandíbula tensa e um sorriso zombeteiro no rosto. Gotas de suor pegajoso molhavam seu rosto avermelhado. Mohiam olhou para ele. Seus olhos se encontraram, e o barão investiu com ímpeto renovado.
Foi naquele momento que Mohiam escolheu uma enfermidade em especial, uma vingança muito gradual, uma desordem neurológica que destruiria o belo corpo do seu adversário. Era evidente que o barão obtinha um grande prazer de seu físico, do qual estava muito orgulhoso. Mohiam poderia tê-lo contagiado um sem número de enfermidades fatais e supurantes, mas esta aflição seria um golpe muito mais doloroso para ele, e de progressão muito mais lenta. O barão deveria enfrentar sua aparência dia após dia, cada vez mais obeso e fraco. Seus músculos degenerariam, seu metabolismo enlouqueceria. Em poucos anos nem sequer poderia caminhar sem ajuda.
Não custou nada fazê-lo, mas os efeitos se prolongariam até o fim de seus dias. Mohiam imaginou o barão tão obeso que nem sequer poderia se manter em pé sem ajuda, padecendo dores terríveis.
Uma vez finalizado o ato, convencido de que tinha dado uma lição na bruxa, o barão se levantou.
— Piter, me traga uma toalha para me secar dos líquidos desta bruxa. O Mentat saiu rapidamente da sala, ao mesmo tempo em que soltava um risinho. As portas se abriram de novo. Guardas uniformizados entraram para contemplar como Mohiam recuperava o controle de seus músculos, pouco a pouco.
O barão dedicou à reverenda mãe um sorriso cruel.
— Diga às Bene Gesserit que não voltem a me incomodar com suas intrigas genéticas.
Mohiam se apoiou sobre um braço, recolheu suas roupas rasgadas e ficou em pé com uma coordenação quase absoluta. ERgueu seu queixo com orgulho mas não pôde dissimular sua humilhação. E o barão não pôde ocultar seu prazer ao percebe-la.
Ele acredita que ganhou, pensou a reverenda mãe. Isso logo veremos.
Mohiam, satisfeita da inevitabilidade de sua vingança terrível, saiu da fortaleza Harkonnen. O burseg do barão a acompanhou parte do caminho, e depois deixou que retornasse sem escolta até a lançadeira, como um cão fustigado. Havia guardas em posição de sentido ao pé da rampa.
Mohiam se acalmou enquanto se aproximava da nave, e ao final se permitiu um leve sorriso. Apesar do acontecido, agora tinha em seu útero outra filha Harkonnen. E isso era tudo que as Bene Gesserit desejavam ... Como as coisas eram simples quando nosso Messias não era mais que um sonho. Stilgar, naib do sietch Tabr
Para Pardot Kynes a vida nunca voltaria a ser igual desde que tinha sido aceito no sietch.

Nenhum comentário:
Postar um comentário