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domingo, 4 de junho de 2017

SD 952 : DUNE - A CASA ATREIDE

Relatório do planetólogo imperial Pardot Kynes, dirigido ao imperador Padishah Elrood IX (não enviado)


Quando os Fremen manchados de sangue pediram a Pardot Kynes que os acompanhasse, já não sabia se era seu convidado ou, ao contrário, seu prisioneiro. Em qualquer caso, a perspectiva o intrigava. Por fim teria a oportunidade de experimentar em pessoa sua misteriosa cultura.
Um dos jovens transportou seu companheiro ferido até o pequeno veículo terrestre de Kynes. O outro Fremen esvaziou os compartimentos posteriores das amostras geológicas que tanto lhe tinham custado recolher, afim de deixar local. O planetólogo estava muito estupefato para protestar.
Além disso, não queria contrariar aquela gente. Queria aprender muito mais sobre eles.
Em questão de momentos guardaram os cadáveres dos soldados Harkonnen nos recipientes, com algum propósito ignorado. Talvez uma profanação ritual de seus inimigos. Descartou a improvável possibilidade de que os jovens queriam enterrar os mortos. Ocultam os cadáveres pelo temor de represálias? Isso tampouco o convencia, não se encaixava com o pouco que sabia sobre os Fremen. Eles os levam para obter algo, talvez a água de suas malhas?
Então, sem perguntar, sem agradecer nem fazer comentários, o primeiro Fremen se afastou a toda velocidade no veículo, com seu companheiro ferido e os cadáveres dos soldados. Kynes o viu partir, junto com seu equipamento de sobrevivência no deserto e os mapas, incluídos muitos que ele tinha esboçado.
Ficou sozinho com o terceiro jovem. Guardião ou amigo? Se os Fremen pretendiam abandoná-lo sem provisões, não demoraria para morrer. Possivelmente poderia orientar-se e voltar a pé para o povoado de Windsack, mas tinha prestado pouca atenção à convocação dos centros de população durante suas recentes vadiagens. Um final ingrato para um planetólogo imperial,
pensou.
Ou talvez os jovens que tinha salvado queriam algo mais dele.
Devido aos sonhos que tinha forjado para o futuro de Arrakis, Kynes desejava conhecer os Fremen e seus costumes heterodoxos. Aquela gente representava um valioso tesouro, oculto dos olhos imperiais. Pensou que lhe dariam boasvindas entusiásticas quando lhes contasse suas idéias.
O jovem Fremen utilizou um pequeno jogo de emplastros para cobrir um rasgão na perna da calça do traje.
— Venha comigo — disse a seguir. voltou-se para uma muralha de rocha que se elevava a pouca distância —. Siga-me, ou morrerá aqui. —
Dirigiu-lhe um breve olhar com seus olhos anil —. Acha que os Harkonnen demorarão muito em querer vingar seus mortos? — ironizou.
Kynes correu para ele.
— Espere! Você ainda não me disse seu nome.
O jovem olhou para ele de uma maneira estranha. Tinha as íris e as córneas azuis, o que revelava um longo vício em especiaria, e uma pele curtida pelas intempéries que o fazia parecer mais velho.
— Vale a pena trocar nomes? Os Fremen já sabem quem você é.
Kynes piscou.
— Bem, acabo de salvar sua vida, a sua e a de seus companheiros.
Isso não é importante para seu o povo? Na maioria das sociedades é.
O jovem se sobressaltou, mas pareceu resignar-se.
— Tem razão. Você forjou um vínculo de água entre nós. Me chamo Turok. Bem, temos que ir.
Um vínculo de água? Kynes seguiu seu acompanhante.
Turok subiu pelas rochas em direção à parede vertical. Kynes o seguia como melhor podia. Só quando se aproximaram o planetólogo observou uma descontinuidade nos estratos, uma fenda que partia a rocha levantada, formando
uma fissura camuflada pelo pó e cores apagadas.
O Fremen mergulhou nas sombras da rachadura com a velocidade de um lagarto do deserto. Kynes seguiu a bom passo, picado pela curiosidade e angustiado pela possibilidade de se perder. Esperava conhecer mais Fremen e aprender seus costumes. Nem sequer perdeu tempo em pensar que talvez Turok o conduzisse a uma armadilha. Do que serviria? O jovem poderia tê-lo matado com facilidade em qualquer momento.
Turok se deteve para que Kynes o alcançasse. Apontou para lugares concretos na parede que se elevava perto.
— Aqui, aqui e aqui.
Sem esperar para ver se seu acompanhante tinha entendido, o jovem apoiou os pés nos lugares indicados.
Apoios para mãos e pés quase invisíveis. O jovem subiu pela parede, e Kynes tentou imitá-lo. Parecia que Turok estava brincando com ele, ou possivelmente o testando.
Mas o planetólogo o surpreendeu. Não era um burocrata repleto de água nem um inepto. Como tinha explorado e percorrido os planetas mais duros do Império, estava em boa forma.
Kynes não ficou para trás, e utilizou as pontas dos dedos para içar seu corpo. Momentos depois, o rapaz Fremem parou e se agachou sobre um saliente estreito. Kynes se sentou a seu lado e procurou não ofegar.
— Aspire pelo nariz e espire pela boca — disse Turok —. Seus filtros são mais eficazes assim. Acho que conseguirá chegar ao sietch. — O que é um sietch? — perguntou Kynes. Reconheceu vagamente o antigo idioma Chakobsa,2 mas não tinha estudado sua arqueologia ou fonética. Sempre o considerara irrelevante para seus estudos científicos.
— Um lugar secreto onde refugiar-se. Ali vive meu povo.
— Quer dizer que é sua casa?
— O deserto é nossa casa.
— Desejo muito falar com os seus — disse Kynes e, incapaz de conter seu entusiasmo, completou —: Formei certas opiniões sobre este planeta e também
desenvolvi um plano que talvez os interesse, que possivelmente interesse a todos os habitantes de Arrakis.
— Dune — replicou o Fremen —. Só os imperiais e os Harkonnen chamam a este lugar de Arrakis.
— De acordo. Que seja Dune.
No coração das rochas um Fremen velho e grisalho, caolho de um olho aguardava. A órbita vazia estava coberta por uma massa enrugada de pálpebras flexíveis. Naib do sietch Fremen, Heinar também tinha perdido dois dedos em um duelo com facas crys, quando era jovem. Mas tinha sobrevivido, e seus inimigos não. Heinar demonstrara ser um líder severo mas competente. Com os anos, o sietch tinha prosperado, a população não tinha diminuído e suas reservas ocultas de água aumentavam com cada ciclo das luas.
Na caverna que servia de enfermaria, duas anciãs atendiam o imprudente Stilgar, o jovem ferido que tinha chegado em um veículo terrestre momentos antes. As anciãs checaram a bandagem que o forasteiro tinha aplicado, e a melhoraram com alguns de seus medicamentos. As bruxas conferenciaram entre si e depois assentiram para o líder do sietch.
— Stilgar viverá, Heinar — disse uma delas —. A ferida seria mortal se não tivesse sido atendido imediatamente. O forasteiro o salvou. — O forasteiro salvou um louco irresponsável — disse o naib com a vista cravada no jovem estendido na cama de armar.
Durante semanas tinham chegado aos ouvidos de Heinar informes preocupantes sobre um forasteiro. Agora, esse homem, Pardot Kynes, era 2 Chamada de “linguagem magnética”, derivada em parte do antigo Bhotani. Um compêndio de antigos dialetos modificados pela necessidade de conservar o segredo, mas principalmente a linguagem de caça dos Bhotani, assassinos mercenários da Primeira Guerra de Assassinos (segundo a Terminologia do Império do Dune). (N. do E.) conduzido até o sietch por uma rota diferente, através de passadiços de rocha. As ações do forasteiro eram desconcertantes. Um servidor imperial que matava Harkonnen? Ommun, o jovem Fremen que tinha acompanhado Stilgar até o sietch, esperava
angustiado junto ao seu amigo ferido nas sombras da cova.
Heinar olhou para o jovem, e deixou que as mulheres continuassem atendendo seu paciente.
— O que íamos fazer, Heinar? — Ommun parecia surpreso—. Eu necessitava do seu veículo para trazer Stilgar aqui.
— Podia ter pego o veículo terrestre e todas as posses desse homem, e doado sua água para a tribo — disse o naib em voz baixa
— Ainda podemos fazê-lo — disse uma das mulheres com voz áspera, — assim que Turok chegar com ele.
— Mas o forasteiro atacou e matou os Harkonnen! Nós três teríamos morrido se não fosse por sua intervenção — insistiu Ommun —. Por acaso não se diz que o inimigo de meu inimigo é meu amigo?
— Não confio na lealdade deste indivíduo, e nem sequer a entendo
— disse Heinar, enquanto cruzava seus robustos braços sobre o peito —.
Sabemos quem é, é obvio. O forasteiro foi enviado pelo Império. Dizem que é planetólogo. Está em Dune porque os Harkonnen se viram obrigados a lhe permitir trabalhar, mas só responde ao imperador... se é que responde para alguém. Há muitas perguntas sem resposta a respeito dele.
Heinar se sentou em um banco de pedra esculpido na parede. Uma tapeçaria de fibras trançadas pendia sobre a abertura da porta, o que proporcionava uma escassa intimidade. Os habitantes do sietch tinham aprendido que a intimidade estava na mente, não no ambiente.
— Falarei com este Kynes e descobrirei o que quer de nós, por que defendeu três jovens estúpidos e despreocupados contra um inimigo que não o incomodava. Depois, levarei o assunto ao Conselho de Anciões e eles decidirão. Temos que adotar as medidas que mais beneficiem o sietch.
Ommun tragou engoliu em seco e recordou a valentia com que Kynes tinha lutado contra os soldados. Não obstante, seus dedos deslizaram até a bolsa guardada em seu bolso, para contar as medidas de água que continha, anéis de metal que indicavam a riqueza acumulada que tinha na tribo.
Se os anciões decidissem matar o planetólogo, Turok , Stilgar e ele dividiriam o tesouro de água em partes iguais, junto com a recompensa pelos seis Harkonnen
mortos.
Quando Turok o guiou por fim através das aberturas dissimuladas e uma porta, e entraram no sietch propriamente dito, Kynes imaginou o lugar como uma cova de infinitas maravilhas. Os aromas eram densos e impregnados de humanidade. Aromas de vida, da população encerrada, a comida, dejetos ocultos, até mesmo da morte aproveitada através de procedimentos químicos. Confirmou suas suspeitas de que os jovens Fremen não haviam roubado os corpos dos Harkonnen para realizar alguma espécie de mutilação supersticiosa, mas que pretendiam se apoderar da água de seus corpos. Do contrário os teriam abandonado...
Kynes tinha suposto que, quando encontrasse por fim um povoado Fremen, este seria primitivo, sem comodidades. Mas ali, nessa gruta secreta, com covas laterais, passadiços de lava e túneis que se estendiam como uma rede através da montanha, Kynes percebeu que o povo do deserto vivia de uma forma austera mas confortável. Os aposentos rivalizavam com aqueles que os funcionários Harkonnen na cidade de Carthag desfrutavam. E eram mais ecológicos.
Enquanto Kynes seguia a seu jovem guia, sua atenção saltava de uma visão fascinante a outra. Magníficas tapeçarias tecidas a mão cobriam partes do chão. Almofadões e mesas baixas feitas de metal e pedra polida adornavam as habitações laterais. Os artigos de madeira extra planetária eram escassos e muito antigos: um verme de areia esculpido e um jogo de mesa fabricado de marfim ou osso. Uma máquina antiga reciclava o ar do sietch, e impedia que escapasse a menor umidade. Percebeu o penetrante aroma de canela da especiaria bruta, como incenso, mas que dissimulava o fedor de corpos suados em estadias estreitas.
Ouviu vozes de mulheres e crianças, e o pranto de um menino, sempre em voz baixa. Os Fremen falavam entre si e olharam para o forasteiro com desconfiança quando passou acompanhado de Turok.
Alguns anciões lhe dedicaram olhares maliciosos. Sua pele parecia ressecada e acartonada. Todos os olhos eram azuis.
Por fim, Turok indicou a Kynes que se detivesse no interior de uma ampla sala de reuniões, uma cripta natural dentro da montanha. A gruta contava com espaço suficiente para albergar centenas de pessoas em pé.
Além disso, bancos e galerias subiam em ziguezague até os muros de apoio. Quanta gente vive neste sietch? Kynes ergueu a vista para um balcão elevado, talvez uma tribuna para discursos.
Ao fim de um momento, um orgulhoso ancião se adiantou e olhou com desdém para o visitante. O homem só tinha um olho e se movia com o porte de um líder.
— Este é Heinar — sussurrou Turok em seu ouvido —, o naib de nosso sietch.
Kynes ergueu uma mão em saudação.
— É um prazer conhecer o líder desta prodigiosa cidade —
proclamou.
— Que quer de nós, homem do Império? — perguntou Heinar, inflexível. Suas palavras ressonaram como aço contra a pedra.
Kynes respirou fundo. Tinha esperado esta oportunidade durante muitos dias. Para que perder tempo? Quanto mais demoravam os sonhos em materializar-se, mais difícil seria transformá-los em realidade.
— Sou Pardot Kynes, planetólogo do imperador. Tive uma visão, senhor, um sonho para você e para seu povo. Desejo compartilhá-lo com todos os Fremen, se me escutarem.
— É melhor escutar o vento quando atravessa um arbusto de creosoto que perder tempo com as palavras de um néscio — replicou o líder do sietch com autoridade, como se se tratasse de um velho adágio daquele povo.
Kynes olhou para ele e, com a esperança de causar boa impressão, replicou:
— Mas se alguém se nega a escutar palavras de verdade e esperança, quem é mais néscio?
O jovem Turok afogou uma exclamação. Alguns curiosos que observavam a cena de corredores laterais olharam para Kynes com os olhos arregalados, assombrados de que falasse com seu naib com tanta audácia.
O rosto de Heinar se endureceu. encolerizou-se e imaginou o planetólogo degolado no chão da caverna. Apoiou a mão sobre o cabo de sua faca.
— Põe em dúvida minha liderança? O naib desembainhou a folha curva e fulminou Kynes com o olhar, mas ele não cedeu.
— Não, senhor. Ponho em dúvida sua imaginação. Vocês são valentes o bastante
para realizar a tarefa, ou estão muito assustados para escutar o que tenho a dizer? — O líder do sietch continuava tenso. Kynes sorriu com expressão sincera —. É difícil falar com você enquanto estiver aí em cima, senhor.
Heinar deu um sorriso e contemplou sua faca. — Uma vez desembainhado, o crys não pode ser guardado de novo sem provar sangue.
Fez um corte no antebraço, onde apareceu uma fina linha vermelha que se coagulou em segundos.
Os olhos de Kynes brilharam de entusiasmo, refletiram a luz projetada pelos cachos de globos luminosos flutuando na ampla sala de reuniões.
— Muito bem, planetólogo. Falará até que o fôlego se esgote em seus pulmões. Como seu destino ainda não está decidido, ficará no sietch até que o Conselho de Anciões decida o que fazer com você.
— Mas antes me escutarão — respondeu Kynes.
Heinar deu meia volta, afastou-se um passo do balcão elevado e falou sem se virar.
— É um homem estranho, Pardot Kynes. Um servidor imperial e um convidado dos Harkonnen. Por definição, é nosso inimigo. Mas também matou os cães Harkonnen. Nos colocou em um pequeno dilema! O líder do sietch ordenou que preparassem uma habitação para aquele alto e curioso planetólogo, que seria seu prisioneiro e convidado ao mesmo tempo.
E enquanto se afastava Heinar pensou: Qualquer homem que deseje dizer palavras de esperança aos Fremen, depois de tantas gerações de sofrimentos e peregrinações... ou está louco ou é muito valente. Acredito que meu pai só teve um verdadeiro amigo. Foi o conde Cachemir Fenring, o eunuco genético e um dos guerreiros mais implacáveis do império. De Na casa de meu pai, pela princesa Irulan.
Mesmo da câmara mas alta do observatório imperial, o brilho da opulenta capital apagava o brilho das estrelas sobre Kaitain. Construído séculos antes pelo culto imperador Padishah Raphael Corrino, seus herdeiros recentes tinham utilizado pouco o observatório, ao menos não para seu propósito de estudar os mistérios do
universo.
O príncipe herdeiro Shaddam percorria com passos breves o frio chão metálico, enquanto Fenring brincava com os controles de um estelarscopio de alta potencia. O eunuco genético cantarolava, e emitia sons insípidos e desagradáveis.
— Quer parar de fazer esses ruídos? — disse Shaddam —.
Concentre-se nas malditas lentes.
Fenring continuou cantarolando apenas mais baixo. — As regulagens têm que conservar um equilíbrio muito preciso, hummmm? Prefere que o estelarscopio seja perfeito em vez de rápido.
Shaddam grunhiu.
— Não me perguntou o que preferia.
— Decidi por você. — Levantou-se e executou uma reverência de uma formalidade irritante —. Meu senhor príncipe, ofereço-lhe uma imagem da órbita. Veja com seus próprios olhos.
Shaddam aplicou o olho ao visor até que uma forma adquiriu uma definição surpreendente. A imagem oscilava entre uma resolução sem mácula e escuras ondulações provocadas pela distorção atmosférica.
O gigantesco Cruzeiro tinha o tamanho de um asteróide. Flutuava sobre Kaitain e aguardava a chegada de uma flotilha de naves pequenas vindas da superfície. Um leve movimento chamou a atenção de Shaddam, que divisou os brilhos de motores quando as fragatas separaram de Kaitain com diplomatas e emissários a bordo, seguidas por transportes repletos de artefatos e carregamento da capital imperial. As fragatas eram imensas, flanqueadas por esquadrilhas de naves menores, mas a curva do casco do Cruzeiro diminuía todo o resto.
Ao mesmo tempo, outras naves abandonaram o Cruzeiro e desceram para a capital.
— Delegações — disse Shaddam —. Trazem tributos a meu pai.
— Impostos, na realidade... De tributos, nada — assinalou Fenring
—. É a mesma coisa, em um sentido passado de moda, é obvio. Elrood ainda é seu imperador, hummmm?
O príncipe herdeiro o fulminou com o olhar. — Mas durante quanto tempo mais? Seu maldito chaumurky vai demorar décadas? — Shaddam se esforçava por falar em voz baixa, embora geradores de ruído branco subsônicos distorcessem suas vozes para frustração de todos os aparelhos de escuta —. Não pôde encontrar um veneno diferente, mais rápido? A espera está me enlouquecendo! Quanto tempo já passou? Não durmo bem há um ano.
— Acredita que teríamos de ter planejado um assassinato mais rápido? Não é aconselhável. — Fenring voltou a postar-se ante o estelarscopio e ajustou os rastreadores automatizados para que seguissem a órbita do Cruzeiro —. Tenha paciência, meu senhor príncipe. Lembre-se que quando sugeri o plano, já tinha se resignado a esperar durante décadas.
Que são um ano ou dois, comparados com a longevidade de seu reinado, hummmm?
Shaddam afastou Fenring com uma cotovelada para não ter que olhar para seu cúmplice na conspiração.
— Agora que por fim pusemos o mecanismo em ação, aguardo com impaciência a morte de meu pai. Não me conceda tempo para refletir a respeito e me arrepender de minha decisão. Morrerei de impaciência antes de subir ao Trono do Leão Dourado. Eu estava destinado a reger os destinos do Império, Hasimir, mas alguns dizem que jamais gozarei dessa oportunidade. Até tenho medo de me casar e ter filhos, por culpa disso.
Se esperava que Fenring tentasse convencê-lo do contrário, seu amigo o decepcionou com um silêncio absoluto.
Fenring voltou a falar ao cabo de alguns segundos. — O n'kee é um veneno lento por definição. Trabalhamos muito para levar a cabo nosso plano. Sua impaciência só pode prejudicá-lo. Uma ação mais precipitada despertaria suspeitas no Landsraad, hummmm?
Aferrariam-se a qualquer fio solto, a qualquer escândalo, para minar sua posição.
— Mas eu sou o herdeiro da Casa Corrino! — disse Shaddam, e baixou a voz até transformá-la em um sussurro rouco —. Como podem duvidar de meu direito?
— E sobe ao trono imperial com toda sua bagagem, todas suas obrigações, antagonismos passados e prejuízos. Não se engane, meu amigo.
O imperador é apenas uma força considerável entre muitas que formam a delicada malha de nosso Império. Se todas as Casas se aliassem contra nós, nem sequer as poderosas legiões Sardaukar de seu pai poderiam contê-las.
Ninguém se atreve a correr esse risco.
— Quando subir ao trono, tenho a intenção de fortalecer meu título.
Shaddam se afastou do estelarscopio.
Fenring meneou a cabeça com tristeza.
— Apostaria um porão de carga cheio de peles de baleia que quase todos os seus predecessores juraram o mesmo a seus conselheiros desde a Grande Revolução. — Respirou fundo e arqueou seus grandes olhos escuros —. Mesmo que o n'kee funcione como planejamos, resta um ano de espera, no mínimo... então é melhor se acalmar. Console-se com os crescentes sintomas de envelhecimento que vimos em seu pai. Incentive-o a beber mais cerveja de especiaria.
Shaddam, irritado, voltou para o aparelho e estudou as articulações do casco ao longo do Cruzeiro, a marca dos estaleiros ixianos e a sigla da Corporação Espacial. O hangar estava cheio de frotas de fragatas de diversas Casas, carregamentos atribuídos a CHOAM e preciosos registros destinados aos arquivos bibliotecários de Wallach IX.
— A propósito, a bordo do Cruzeiro viaja alguém interessante —
disse Fenring.
— Ah, sim?
Fenring cruzou os braços sobre seu peito estreito. — Uma pessoa que aparenta ser um simples vendedor de arroz pundi e raiz de chikarba, a caminho de uma estação de trânsito Tleilaxu. Leva sua mensagem para os Amos Tleilaxu, sua proposta de se reunir com eles e negociar um investimento imperial secreto em um projeto de grande escala destinado a encontrar um substituto para a melange.
— Minha proposta? Eu não propus nada! — Uma expressão de asco cruzou a cara de Shaddam.
— Hummmm, creio que realmente o fez, meu príncipe. A possibilidade de utilizar os heterodoxos Tleilaxu não significa desenvolver uma especiaria sintética? Teve uma magnífica idéia! Mostre a seu pai como é preparado.
— Não me jogue a culpa, Hasimir. A idéia foi sua.
— Não quer receber o reconhecimento?
— Absolutamente.
Fenring arqueou as sobrancelhas.
— Você realmente pretende acabar com o monopólio de Arrakis e proporcionar à Casa Imperial uma fonte de melange particular e ilimitada, não é?
Shaddam sorriu.
— Claro que sim.
— Então traremos um Amo Tleilaxu em segredo para que presente sua proposta ao imperador. Logo saberemos até onde o velho Elrood pretende chegar. A cegueira pode adotar muitas formas, além da incapacidade de ver. Seus pensamentos almejam cegar os fanáticos. Seus corações almejam cegar a todos os líderes. Bíblia Católica Laranja
Durante meses, Leto tinha vivido na cidade subterrânea do Vernii como convidado de honra de IX. Já tinha se acostumado à singularidade de seu novo ambiente, à rotina e à confiante segurança ixiana, o suficiente para esquecer toda precaução.
O príncipe Rhombur sempre acordava tarde, enquanto Leto, justamente o contrário, era um madrugador como os pescadores de Caladan. O herdeiro Atreides vagava sozinho pelos edifícios similares a estalactites, aproximava-se das janelas de observação e contemplava os processos de desenho e manufaturas ou as cadeias de montagem. Aprendeu a utilizar os sistemas de trânsito e descobriu que o cartão de biopasse que o conde Vernius lhe dera abria muitas portas.
Leto aprendeu mais com suas vadiagens e sua voraz curiosidade que nas sessões pedagógicas com seus diversos professores. Como recordava o conselho do seu pai, que devia aprender de tudo, utilizava os tubos de ascensão autoguiado.
Quando não havia nenhum disponível, acostumou-se às passarelas, os elevadores de carga ou as escadas que comunicavam os níveis entre si.
Uma manhã, depois de vagar descansado e inquieto, subiu até um dos átrios superiores e saiu para uma galeria de observação. Embora fossem fechadas hermeticamente, as cavernas de IX eram tão imensas que contavam com suas próprias correntes de ar, embora não resistissem a comparação com as torres do castelo e os penhascos açoitados pelo vento de seu lar. Respirou fundo. O ar sempre cheirava a pó de rocha. Ou talvez fosse sua imaginação?
Leto esticou os braços e olhou para a imensa gruta que tinha guardado o Cruzeiro da Corporação. Entre os restos do andaime e da maquinaria de apoio, distinguiu o esqueleto de outro imenso casco, soldado por equipes de subóides. Reparou que os habitantes dos níveis inferiores trabalhavam com a eficácia de insetos.
Uma plataforma de carga passou sob a galeria em sua descida gradual para a zona de trabalho. Leto se inclinou sobre o corrimão e viu que a superfície da plataforma estava carregada de minerais brutos arrancados da casca do planeta.
Guiado por um impulso, subiu sobre o corrimão e saltou sobre um montão de vigas e pranchas destinadas ao Cruzeiro. Supôs que encontraria uma forma de subir de novo até os edifícios estalactite, utilizando seu cartão de biopasse e seu sentido da orientação. Um piloto, situado sob a plataforma, guiava a carga. Não pareceu reparar em seu passageiro inesperado, ou possivelmente não se importou.
Brisas frescas alvoroçaram o cabelo de Leto enquanto descia para a superfície. Pensou nos ventos dos oceanos e respirou fundo. Sob a imensa abóbada do teto sentiu uma liberdade que lhe recordou a beira do mar, e também uma dolorosa saudade das brisas oceânicas de Caladan, do bulício do mercado, das estentóreas gargalhadas de seu pai e até mesmo das preocupações de sua mãe.
Rhombur e ele passavam muito tempo confinados nos edifícios de IX, e Leto sentia falta da carícia do ar fresco e do vento frio em seu rosto.
Possivelmente pediria a Rhombur que o acompanhasse à superfície de novo. Os dois poderiam vagar pelos territórios desertos e contemplar o céu infinito, e Leto poderia estirar os músculos e sentir o calor do sol, em vez da iluminação holográfica desdobrada no teto da caverna.
Embora o príncipe ixiano não fosse um guerreiro comparável a Leto, tampouco era o típico menino mimado das Grandes Casa. Tinha interesses próprios, e gostava de colecionar rochas e minerais. Rhombur era afável e generoso, e
muito otimista, mas não se devia interpretar mal seu caráter.
Por baixo daquela fachada aprazível havia uma fria determinação e desejo de se destacar em todas as atividades.
Na gigantesca gruta dedicada à fabricação os suportes e gruas elevadoras estavam sendo preparados para o novo Cruzeiro, que já estava tomando forma. Equipamento e maquinaria esperavam perto, e planos holográficos brilhavam no ar. Mesmo com todos os recursos e massas enormes de operários subóides, uma nave de tais características necessitava de quase um ano para sua construção. O custo de um Cruzeiro equivalia ao produto interno bruto de muitos planetas, de maneira que só a CHOAM e a Corporação podiam financiar projetos semelhantes, enquanto a Casa Vernius, como fabricante, recebia benefícios incríveis.
A dócil classe operária de IX superava em muito os administradores e nobres. No chão da gruta, portas baixas construídas na rocha sólida serviam de entrada para as moradias. Leto nunca tinha visitado os subóides, mas Rhombur lhe havia assegurado que as classes baixas eram bem atendidas. Leto sabia que as equipes trabalhavam todo o dia na construção das naves. Os subóides davam a pele pela Casa Vernius.
A plataforma de carga desceu levitando para o chão da caverna, e equipes de trabalhadores foram descarregar os materiais. Leto saltou e aterrissou agachado. Levantou-se e sacudiu a roupa. Os dóceis subóides tinham a pele pálida, salpicada de sardas. Olharam para ele com olhos de cordeiro antes de prosseguir suas tarefas.
Pelo que Rhombur e Kailea lhe tinham contado, Leto imaginava que os subóides eram menos que humanos, musculosos trogloditas sem mente que se limitavam a trabalhar e suar. Mas as pessoas que o rodeavam teriam passado por normais em qualquer lugar. Talvez não fossem cientistas ou diplomatas, mas tampouco pareciam animais.
Com os olhos totalmente abertos, Leto caminhou pela gruta enquanto observava os trabalhos de construção do Cruzeiro de uma distância prudente. Admirou a organização de uma obra tão incrível. O ar estava impregnado do aroma acre de solda laser e materiais fundidos.
Os subóides seguiam um plano preciso, e utilizavam instruções minuciosas como se formassem um organismo múltiplo. Concluíam cada fase do projeto sem se afligir com a quantidade de trabalho que ainda restava. Os subóides não conversavam nem se alvoroçavam como os pescadores, fazendeiros e operários
de Caladan. Estes trabalhadores de pele pálida só se concentravam em suas tarefas.
Imaginou um ressentimento bem dissimulado, uma ira latente abaixo daquelas serenas caras pálidas, mas não teve medo. O duque Paulus sempre tinha animado Leto a brincar com os meninos das aldeias, a sair nos barcos de pesca, a misturar-se com mercadores e tecedores no mercado. Até tinha passado um mês trabalhando nos arrozais pundi. Para saber governar o povo — dizia o velho duque — antes precisa compreendê-lo.
Sua mãe tinha desaprovado essas atividades, é obvio, insistindo que o filho de um duque não devia sujar as mãos com o barro dos arrozais, a roupa com o lodo de uma captura de pescado. “De que servirá para nosso filho saber esfolar e estripar um pescado? Será o governante de uma Grande Casa.” Mas os desejos de Paulus Atreides eram lei.
E Leto devia admitir que, face aos músculos doloridos e a pele queimada pelo sol, aqueles momentos de trabalho duro o tinham satisfeito de uma forma que nem grandes banquetes ou recepções no castelo de Caladan conseguiram. Como resultado, acreditava compreender às pessoas comuns, seus sentimentos e sua dedicação ao trabalho. Leto era grato por isso. O velho duque se sentia muito orgulhoso de seu filho, por compreender algo tão fundamental.
Enquanto passeava entre os subóides, Leto tentou compreendê-los da mesma maneira. Potentes globos luminosos flutuavam sobre o estaleiro. A gruta era tão enorme que os ruídos não despertavam ecos, mas desapareciam na distância.
Viu uma das entradas dos túneis inferiores, e decidiu que séria uma boa oportunidade para descobrir mais coisas sobre a cultura subóide.
Talvez descobrisse algo que até Rhombur ignorava.
Quando uma equipe de operários saiu por uma arcada, vestidos com seus macacões de trabalho, Leto entrou. Vagou pelos túneis descendentes, passeou em frente a moradias escavadas na rocha, dependências idênticas e espaçosas que lhe recordaram as câmaras de uma colméia. de vez em quando, não obstante, percebia toques caseiros: tecidos ou tapeçarias de cores vivas, alguns desenhos nas paredes de pedra. Sentiu o aroma de comida, ouviu conversas em voz baixa, mas nenhuma música e poucas risadas.
Pensou nos dias passados estudando nos arranha-céu invertidos das alturas, com seus pisos polidos e janelas de cristalplaz facetados, as camas macias, as roupas confortáveis e as comidas saborosas.
Em Caladan, os cidadãos comuns podiam pedir audiência ao duque sempre que quisessem. Leto recordou que seu pai e ele passeavam pelos mercados, falavam com os mercadores e artesãos, permitiam que os vissem e o tratassem como a pessoas reais, em vez de governantes sem rosto.
Pensou que Dominic Vernius não tinha consciência das diferenças que existiam entre ele e seu camarada Paulus. O conde calvo e robusto dedicava toda sua atenção e entusiasmo a sua família e aos trabalhadores mais próximos, prestava atenção às operações industriais e na política econômica que escoravam a fortuna de IX, mas Dominic considerava os subóides simples recursos. Sim, cuidava bem deles, do mesmo modo que cuidava da manutenção de sua preciosa maquinaria. Mas Leto se perguntava se Rhombur e sua família tratavam os subóides como pessoas.
Já tinha descido muitos níveis, e notou a incômoda sensação do ar estagnado. Os túneis se tornavam mais escuros e desertos. Os silenciosos corredores conduziam a estadias abertas, zonas comunais onde ouviu vozes e roçar de corpos. Esteve a ponto de se afastar, sabendo que tinha estudos e conferências sobre operações mecânicas e processos industriais. Era muito provável que Rhombur não tivesse tomado o café da manhã ainda.
Leto se deteve na arcada e viu vários subóides em uma sala de descanso. Não havia assentos nem bancos, de modo que todos estavam de pé. Escutou as monótonas e desapaixonadas palavras de um subóide baixo e musculoso que se erguia ao fundo da sala. Em sua voz e no fogo de seus olhos detectou emoções peculiares, tendo em conta o que sabia sobre os subóides, quer dizer, que eram pacíficos e resignados.
— Nós construímos os Cruzeiros — disse o subóide, e ergueu um pouco mais a voz —. Fabricamos os objetos tecnológicos, mas não tomamos nenhuma decisão. Fazemos o que nos ordena, mesmo quando sabemos que os projetos são ímpios.
Os subóides começaram a murmurar.
— Algumas das novas tecnologias violam o que está proibido pela Grande Revolução. Estamos criando máquinas pensantes. Não precisamos compreender os planos e os desenhos, porque sabemos para que servirão.
Leto voltou para as sombras da arcada. Como tinha convivido freqüentemente com gente comum, não sentia medo, mas algo estranho estava acontecendo ali. Sentiu vontade de fugir, mas precisava escutar.
— Como somos subóides não gozamos dos benefícios da tecnologia ixiana.
Vivemos com simplicidade e poucas ambições, mas temos nossa religião. Lemos a Bíblia Católica Laranja e sabemos distinguir o bom do mau. — O orador ergueu um punho —. E sabemos que muitas das coisas que estamos fabricando aqui não são boas!
O público se agitou de novo, a ponto de enfurecer-se. Rhombur tinha insistido que os subóides não eram ambiciosos, pois careciam de capacidade para isso. Mas Leto estava vendo algo muito diferente.
O orador entreabriu os olhos e falou com tom detestável.
— O que vamos fazer? Devemos exigir respostas dos nossos amos?
Devemos fazer algo mais?
Passeou a vista pelos presentes e de repente, como duas flechas afiadas, seus olhos localizaram Leto entre as sombras da arcada.
— Quem é você?
Leto levantou as mãos.
— Sinto muito. Eu me perdi. Não queria incomodar. — Geralmente, sabia causar boa impressão, mas a confusão o atrapalhava.
Os subóides se voltaram para ele, e a compreensão iluminou seus olhos. Assimilaram as implicações do que Leto tinha ouvido.
— Sinto muito — disse Leto —. Não queria me intrometer.
Seu coração palpitava e o suor brilhava sua testa. Sentiu um perigo extremo.
Vários subóides avançaram para ele parecendo autômatos.
Leto lhes dedicou seu sorriso mais cordial.
— Se quiserem, falarei com o conde Vernius em seu nome e exporei suas queixas...
Os subóides não se detiveram. Leto pôs-se a correr pelos corredores de teto baixo, perseguido pelos subóides, que lançavam rugidos de raiva.
Leto não recordava o caminho de volta à caverna...
O fato de ter se perdido o salvou. Os subóides tentavam interceptá-lo nos
corredores que conduziam à superfície, mas Leto ia à deriva e se desviava aleatoriamente. Às vezes se escondia em nichos vazios, até que por fim chegou a uma pequena porta que dava para a câmara iluminada por globos luminosos. Correu para um elevador de emergência, passou seu cartão de biopasse pelo leitor e subiu para os níveis superiores.
Ainda tremulo por causa da descarga de adrenalina, Leto não acreditava no que acabava de escutar, e não sabia o que os subóides teriam feito se tivessem conseguido capturá-lo. Sua indignação o assombrara.
Teoricamente não acreditava que o matassem, o filho do duque Atreides, o hóspede de honra da Casa Vernius. Afinal, tinha oferecido sua ajuda.
Mas estava claro que os subóides guardavam uma profunda violência, um rancor aterrador que tinham ocultado de seus amos indiferentes.
Leto se perguntou se haveria outros grupos de dissidentes, com oradores carismáticos como o que tinha escutado, capazes de entender a insatisfação da imensa população trabalhadora.
Enquanto subia no elevador, olhou para baixo e contemplou os operários, que interpretavam seu papel com total inocência. Devia informar sobre o que tinha ouvido. Alguém acreditaria? Certamente estava aprendendo sobre IX mais do que desejava. A esperança pode ser a arma mais poderosa de um povo massacrado, ou o maior inimigo dos que estão a ponto de fracassar. Temos que estar sempre conscientes de suas vantagens e limitações. Diário pessoal de lady Helena Atreides
Depois de semanas viajando sem destino aparente, a nave de carga saiu do Cruzeiro e descendeu para a atmosfera nebulosa de Caladan.
Para Duncan Idaho, o final de sua longa odisséia parecia próximo.
No hangar, Duncan empurrou uma pesada caixa. Suas quinas metálicas arranharam o chão metálico, mas por fim conseguiu afastá-la e aproximar-se de uma pequena porta. Duncan contemplou o planeta. Por fim, começou a acreditar.
Caladan. Meu novo lar.
Mesmo de uma órbita elevada, o aspecto do Giedi Prime era tenebroso e ameaçador, como uma ferida infectada. Mas Caladan, lar do lendário duque Atreides, inimigo mortal dos Harkonnen, parecia uma safira iluminada pelo sol.
Depois de tudo o que tinha passado, ainda lhe parecia impossível que a amargurada e traiçoeira Janess Milam tivesse cumprido sua palavra. Ela o resgatara por motivos misteriosos, para vingar-se, mas isso não importava a Duncan. Estava ali.
Tinha sido pior que o pesadelo que reviveu durante os dias passados no Cruzeiro a caminho de Caladan.
Na escuridão do Posto de Guarda Florestal, quando se aproximara do misterioso ornitóptero, a mulher o imobilizara. O menino lutou, mas Janess, com uma força surpreendente, o puxara para o interior do aparelho e fechado a escotilha. Duncan se debateu como um animal selvagem, tentando livrar-se de sua captora, mas Janess disse:
— Se não parar agora mesmo, Idaho, eu o entregarei aos caçadores Harkonnen.
E ligou os motores do ornitóptero. Duncan sentiu que um detestável zumbido percorria a pequena nave e vibrava no assento e no chão.
— Você já me vendeu uma vez para os Harkonnen! Foi você que enviou aqueles homens para matar meus pais. Você é o motivo de terem me treinado com tanta crueldade, e de que agora me caçarem. Sei o que fez!
— Sim, mas as coisas mudaram. — voltou-se para os controles —.
depois do que me fizeram, não colaboro tom os Harkonnen.
Duncan, indignado, apertou os punhos. O sangue da ferida manchava sua camisa puída.
— O que lhe fizeram? — Não podia imaginar nada parecido à angústia que sua família e ele tinham suportado.
— Você não entenderia. É apenas um menino, outro de seus peões.
— Janess sorriu enquanto a nave decolava —. Mas graças a você vou me vingar deles.
— Talvez seja só sou um menino, mas passei toda a noite lutando contra os Harkonnen. Vi Rabban matar meus pais. Quem sabe o que fizeram aos meus tios
e primos?
— Duvido que alguém chamado Idaho continue vivo em Giedi Prime, sobretudo depois da humilhação que você lhes causou esta noite.
— Se fizeram isso, desperdiçaram energia em vão. Não conhecia meus parentes.
Janess aumentou a velocidade da nave, que sobrevoou as árvores enquanto se afastava da reserva de caça.
— Eu vou ajudá-lo a fugir dos caçadores, então feche o bico e se alegre. Não há escolha.
Pilotava a nave sem as luzes, com o som dos motores amortecido, mas Duncan não acreditava que pudesse escapar dos Harkonnen. Tinha matado vários caçadores e, ainda pior, tinha humilhado e zombado de Rabban. Duncan se permitiu um sorriso de satisfação e se deixou cair no assento contiguo ao de Janess, que tinha posto o cinto de segurança.
— Por que eu deveria confiar em você?
— Eu lhe pedi que confiasse? — Fulminou-o com o olhar —.
Aproveite a situação.
— Vai me contar algo?
Janess guardou silêncio por alguns momentos antes de responder.
— É verdade, eu denunciei seus pais para os Harkonnen. Tinha ouvido rumores, sabia que seus pais tinham provocado a ira das autoridades, e os Harkonnen não gostam de quem os enfurece. Eu queria prosperar e compreendi que tinha a oportunidade ao alcance da mão. Pensei que receberia uma recompensa por denunciá-los Além disso, foram seus pais que provocaram seus próprios problemas. Cometeram erros. Eu só tentei me aproveitar disso. Não foi nada pessoal. De qualquer forma, se eu não o tivesse feito, outro os denunciaria.
Duncan franziu o sobrecenho e fechou os punhos. Oxalá tivesse a coragem de utilizar a faca contra aquela mulher, mas isso provocaria a queda do aparelho. Era sua única forma de escapar. No momento.
O rosto da mulher ficou irado.
— E o que os Harkonnen me deram em troca? Uma recompensa, uma
promoção? Nada. Nem sequer obrigado. Só um tapa na boca. — Fez uma careta —. Não é fácil fazer algo assim. Acha que eu gostei? Mas em Giedi Prime as boas oportunidades são poucas, e já tinha deixado muitas passarem. Isso devia ter mudado minha situação, mas quando fui rogar um pouco de consideração, me expulsaram e ordenaram que não voltasse.
Tudo por nada, o que é ainda pior. — Suas narinas se dilataram —.
Ninguém faz isso com o Janess Milam sem pagar caro.
— E então você não faz isto por mim — disse Duncan —. Não se sente culpado pelo que fez, nem pela dor que causou a tantos inocentes. Só quer se vingar.
— Ouça, guri, aproveite as oportunidades quando se apresentarem.
Duncan ficou em silêncio e agarrou duas barras de cereal e uma garrafa de suco fechada. Começou a comer. As barras tinham gosto de canela, um potenciador de sabor utilizado para simular a melange.
— De nada — disse Janess com sarcasmo.
O moço não respondeu e continuou mastigando.
Durante toda a noite o ornitóptero sobrevoou as terras em direção a cidade de Barony. Por um momento, Duncan pensou que a mulher pensava em devolvê-lo a prisão, onde tudo recomeçaria. Introduziu a mão no bolso e tocou sua faca. Entretanto, Janess deixou a prisão para trás e continuou para o sul, passando por cima de uma dúzia de cidades e povoados.
Fizeram uma pausa de um dia, ocultaram-se durante a tarde e renovaram suas provisões em uma pequena estação de trânsito. Janess lhe comprou um macacão azul, limpou sua ferida e lhe administrou um tosco tratamento médico. Não o fez com carinho especial, mas para que não chamasse a atenção.
Partiram ao anoitecer, em direção ao sul, para um espaçoporto independente. Duncan ignorava os nomes dos lugares que visitavam, e tampouco perguntou. Nunca lhe tinham ensinado geografia. Sempre que fazia uma pergunta, Janess respondia aos gritos ou o ignorava.
O espaçoporto possuía um estilo mais próprio da classe mercantil e da Corporação que dos Harkonnen. Era funcional e eficiente, sem concessões ao luxo ou a beleza visual. Os corredores e salas eram amplos, a fim de possibilitar o deslocamento dos contêineres herméticos que transportavam os Navegantes da
Corporação.
Janess estacionou o aparelho em um lugar de que seria fácil decolar, e ativou os sistemas de segurança.
— Siga-me — disse para Duncan e mergulhou no caos do espaçoporto —. Tome cuidado, porque se o perder aqui não irei procurá-lo.
— E se ele fugir? Não confio em você.
— Vou te embarcar em uma nave que o levará para longe de Giedi Prime e dos Harkonnen. — Olhou para ele —. Você escolhe, guri. Não quero que me dê mais problemas.
Duncan apertou os dentes e a seguiu sem mais comentários.
Janess parou em frente a um velho cargueiro; vários trabalhadores subiam a bordo pesadas caixas.
— O segundo de bordo é um velho meu amigo — disse Janess —.
Me deve um favor.
Duncan não perguntou que tipo de pessoas uma mulher como Janess podia considerar como amigos, nem o que tinha feito para merecer esse favor.
— Não vou pagar nem um só solar por sua passagem, Idaho. Sua família já pesou bastante sobre minha consciência e não me deu nada em troca. Não obstante, meu amigo Renno diz que você pode viajar no hangar, desde que não coma outra coisa além das rações normais nem lhe custe tempo ou créditos.
Duncan observou as atividades que se desenvolviam a seu redor.
Não tinha nem idéia de como seria a vida em outro planeta. O cargueiro parecia velho e vulgar, mas se o tirasse de Giedi Prime seria como um ave dourada dos céus.
Janess agarrou seu braço e o arrastou para a rampa.
— Estão subindo materiais recicláveis e outras mercadorias que levarão a uma estação de processamento de Caladan. É a sede da Casa Atreides, arqui-inimigos dos Harkonnen. Já ouviu falar da inimizade entre essas Casas? — Duncan negou com a cabeça e Janess riu —. Claro que não. Como um pequeno roedor como você saberia algo sobre o Landsraad e as Grandes Casas?
Deteve um dos operários que guiavam uma plataforma elevadora.
— Onde está Renno? Diga que Janess Milam está aqui e quer vê-lo agora mesmo. — Olhou para Duncan, que esperava muito rígido e tentava compor um aspecto apresentável —. Diga que trouxe o pacote que prometi.
O homem ativou o comunicador que levava na lapela e murmurou algo. Depois, sem olhar para Janess, introduziu sua carga no transportador.
Duncan esperou, observando a atividade que se desenvolvia ao seu redor, enquanto Janess passeava nervosa. Ao fim de pouco tempo um homem de aspecto descuidado saiu, sujo de lubrificantes, sujeira e suor gordurento.
— Renno! — exclamou Janess —. Já era hora!
O homem lhe deu um forte abraço, seguido de um longo beijo.
Janess se afastou assim que pôde e apontou para Duncan.
— É esse. Leve-o para Caladan. — Sorriu —. Não me ocorre melhor vingança que mandá-lo onde menos querem que esteja, e onde menos poderão encontrálo.
— Você se mete em jogos muito perigosos. Janess — disse Renno.
— Eu gosto de jogar. — Deu-lhe um leve murro no peito —. Não diga nada a ninguém.
Renno arqueou as sobrancelhas.
— Que sentido teria voltar para este espaçoporto repugnante, se você não estiver esperando? Quem me faria companhia em minha cama solitária? Não, não me beneficiaria em nada te denunciar. Mas ainda está em dívida comigo.
Antes de ir, Janess cravou seus olhos em Duncan, mostrando certa compaixão.
— Escute, guri, quando chegar a Caladan insista em ver o duque Paulus Atreides em pessoa. O duque Atreides. Fale que escapou dos Harkonnen e peça para entrar a serviço de sua casa.
Renno arqueou as sobrancelhas e murmurou algo ininteligível.
Janess manteve a expressão tensa e concentrada, enquanto pensava que estava pregando uma última peça cruel no menino que tinha traído.
Não existia a menor chance de um moleque sujo e anônimo pudesse pisar no Grande Salão do castelo de Caladan, mas isso não impediria que ele tentasse... possivelmente durante anos.
Já tinha obtido uma vitória ao roubar o garoto do grupo de caça Harkonnen. Tinha descoberto que iriam levá-lo ao Posto do Guarda Florestal e tinha feito um grande esforço para encontrá-lo, salvá-lo e entregá-lo aos maiores inimigos dos Harkonnen. O que seria do menino à partir daquele momento lhe era indiferente, mas se divertia ao imaginar as tribulações que Duncan enfrentaria antes de render-se por fim.
— Vamos — grunhiu Renno, e o agarrou pelo braço —. Vou encontrar um lugar no hangar onde poderá dormir e de esconder.
Duncan não olhou para Janess. perguntou-se se a mulher esperava que se despedisse dela ou lhe agradecesse, mas se negou a fazê-lo. Ela não o ajudara por sentir remorsos. Não, não se rebaixaria, e nunca perdoaria Janess pelo papel que desempenhara na destruição de sua família. Era uma mulher muito estranha.
Subiu à rampa, com a vista à frente, sem saber para onde ia. Confuso e órfão, sem idéia do que faria a seguir, entrou na nave...
Renno não lhe ofereceu consolo nem muitos mantimentos, mas ao menos o deixou em paz. O que Duncan mais necessitava era de tempo para se recuperar, alguns dias para selecionar suas lembranças e aprender a viver com as que não poderia esquecer.
Dormiu sozinho na área de carga do velho transporte, rodeado de sucata e produtos recicláveis. Nenhum era macio, mas dormia bastante bem sobre o chão, que cheirava a metal oxidado, com as costas apoiada contra uma parede fria. Foi sua época mais tranquila nos últimos tempos.
Por fim, quando a nave desceu em Caladan para entregar sua carga e abandonálo em um planeta desconhecido, Duncan estava disposto a enfrentar o que fosse necessário. Contava com seu instinto e sua energia.
Nada o desviaria de seu objetivo.
Agora, só tinha que encontrar o duque Paulus Atreides. A história nos permite ver o evidente, mas, infelizmente, apenas quando já é muito tarde. 

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