— Ei, touro!
O duque riu e fez uma finta com a muleta. Um dos chifres se moveu com lentidão suficiente para atravessar o campo Holtzman, e o duque saltou para um lado, de modo que o corno apenas roçou sua armadura.
O público emitiu uma exclamação afogada ao ver como o corno tinha passado perto de seu amado líder. A besta se deteve e chutou a areia.
Paulus sustentou a muleta com uma mão e agarrou uma banderilha.
Deu uma olhada no camarote ducal e levou a ponta da banderilha à testa em sinal de saudação. Leto e o príncipe Rhombur ficaram em pé, mas Helena continuou sentada, com expressão preocupada e as mãos enlaçadas sobre o regaço.
O touro virou-se e voltou a orientar-se. Geralmente, os touros salusanos ficavam
aturdidos depois de errar seu alvo, mas aquele não.
Paulus compreendeu que seu rival possuía mais energia, vista e fúria que todos os anteriores. De qualquer modo sorriu. Derrotar aquele inimigo poderoso proporcionaria seu melhor momento e um tributo apropriado para os exilados ixianos.
O duque efetuou alguns quantos passes mais, sempre longe do alcance dos chifres, afim de agradar os espectadores emocionados. O
escudo parcial brilhava a seu redor.
Quando quase tinha transcorrido uma hora, e perceber que o touro não se cansava e continuava obcecado em matá-lo, o duque decidiu que tinha chegado o momento de encerrar a tourada. Utilizaria seu escudo, um truque que um dos melhores matadores do Império lhe ensinara.
Na próxima vez que o touro atacou, seus chifres ricochetearam no escudo pessoal do duque, e a colisão desorientou o animal.
Paulus cravou uma banderilha no lombo da besta. O sangue jorrou da ferida. O duque soltou a banderilha. Em teoria, o veneno começaria a agir imediatamente e queimaria os neurotransmissores do duplo cérebro do animal.
A multidão prorrompeu em vivas e o touro rugiu de dor, cambaleante quando suas patas pareceram ceder. O duque pensou que era efeito do veneno mas, para sua surpresa, o touro salusano ficou em pé uma vez mais e se lançou sobre Paulus que se esquivou mas, o animal conseguiu prender a muleta entre seus múltiplos chifres e a despedaçou.
O duque entreabriu os olhos ia ser mais difícil que o esperado. O
público soltou um grito de consternação e se viu forçado a lhe dedicar um valente sorriso. Sim, as tarefas difíceis são as melhores, e o povo de Caladan recordaria esta tourada durante muito tempo.
Paulus ergueu sua segunda banderilha, fendeu o ar como se fosse um florete e se virou para o touro. Tinha perdido a muleta, de modo que o principal objetivo da fúria do animal seria seu corpo. Sua única arma era a banderilha, e sua única proteção era o escudo parcial.
Viu que os guardas, inclusive Thufir Hawat, levantavam-se preparados para ajudar. O duque levantou uma mão para detê-lo. Devia fazê-lo sem ajuda. Não
ia permitir que uma turba de soldados fossem resgatá-lo quando as coisas ficavam ruins.
O touro chutou o chão e olhou-o com seus olhos multifacetados, e o duque percebeu um brilho de compreensão neles. O animal sabia muito bem quem ele era, e queria matá-lo. Claro que Paulus tinha intenções semelhantes.
O touro carregou a grande velocidade. Paulus se perguntou porque a neurotoxina ainda não o afetara. Como é possível? Eu mesmo impregnei as banderilhas em veneno. Mas era mesmo veneno?
Enquanto se perguntava se estava sendo vítima de uma sabotagem, ergueu a banderilha para receber o touro, que espumava pelo nariz e boca.
Quando se encontravam a poucos metros de distância, a besta se desviou para a direita. O duque brandiu a banderilha, mas o animal o atacou de uma direção diferente. Desta vez, a banderilha alcançou uma protuberância da pele mas não se afundou, sim caiu sobre a areia.
Por um momento Paulus ficou desarmado. Retrocedeu e recuperou a banderilha. Quando deu as costas ao touro, ouviu que ele se detinha e voltava à carga, mas a uma velocidade tão impossível que lhe veio em cima em um instante, com os chifres dispostos.
Paulus saltou para um lado mas o touro passou a cabeça por seu escudo parcial. Seus chifres, compridos e curvos, afundaram-se nas costas do duque, romperam suas costelas e penetraram em seus pulmões e coração.
O touro emitiu um mugido de triunfo. Para horror da multidão, levantou o duque Paulus e o sacudiu. A areia se tingiu de sangue. O duque se agitou como um boneco empalado nos chifres.
O público guardou um silêncio de morte.
Thufir Hawat e os guardas saltaram para a arena e seus fuzis laser transformaram o touro em um montão de carne chamuscada. Fragmentos de seu corpo voaram em todas as direções. A cabeça decapitada, mas intacta, caiu sobre a areia com um ruído surdo.
O corpo do duque descreveu piruetas no ar e aterrissou na areia pisoteada.
No camarote ducal, Rhombur soltou um grito de incredulidade. Kailea rompeu a chorar. Lady Helena afundou o queixo no peito e soluçou.
Leto ficou em pé, pálido como um morto. Abriu e fechou a boca, mas não encontrou palavras para descrever suas emoções. Esteve a ponto de saltar à arena, mas compreendeu que seria inútil. Não podia fazer nada por seu pai.
O duque Paulus Atreides, aquele magnífico governante, tinha morrido.
Uivos ensurdecedores surgiram dos degraus. Leto sentiu que as vibrações faziam vibrar o camarote ducal. Não podia afastar os olhos de seu pai, destroçado e ensangüentado sobre a areia, e sabia que aquela visão de pesadelo o perseguiria até o fim de seus dias. Thufir Hawat estava de pé junto ao duque, mas nem sequer um Mentat podia fazer algo.
A voz serena de sua mãe se ergueu sobre o clamor da multidão, e Leto ouviu suas palavras com clareza, como punções de gelo.
— Leto, meu filho — disse —. Você agora é o duque Atreides. Princípio da vacina antimáquinas; todo engenho tecnológico contém as ferramentas de seu contrário, e por fim de sua própria destruição. Gian Kana, Czar das Patentes Imperiais
Os invasores não demoraram para provocar mudanças permanentes nas prósperas cidades subterrâneas. Muitos ixianos inocentes morreram e muitos desapareceram, enquanto C'tair esperava que alguém o descobrisse e matasse.
Durante suas breves escapadas, C'tair descobriu que Vernii, a antiga capital de IX, tinha sido rebatizada como Hilacia pelos Tleilaxu. Os fanáticos usurpadores tinham chegado ao extremo de mudar os registros imperiais para chamar o nono planeta do sistema Alkaurops como Xuttuh em lugar de IX.
C'tair desejava estrangular o primeiro Tleilaxu que encontrasse mas decidiu conceber um plano mais sutil.
Os Bene Tleilax estavam destroçando a cidade, para transformá-la em um inferno.
Detestava as mudanças, a ousadia dos Tleilaxu. Além disso, a julgar pelo que via, os Sardaukar imperiais tinham colaborado na abominação.
No momento, C'tair não podia fazer nada a respeito. Tinha que aguardar o momento apropriado. Estava sozinho. Seu pai se exilara em Kaitain e temia retornar, sua mãe tinha sido assassinada e a Corporação se apropriara de seu irmão gêmeo. Só ele permanecia em IX, como um rato, escondido nas paredes.
Mas até os ratos podiam causar danos consideráveis.
Ao longo dos meses, C'tair aprendeu a passar desapercebido, apenas mais um acovardado e insignificante cidadão. Mantinha os olhos baixos, as mãos sujas, a roupa e o cabelo desalinhados. Ninguém podia imaginar que era o filho do exembaixador em Kaitain, que tinha servido fielmente à Casa Vernius, coisa que ainda faria se descobrisse uma maneira. Tinha passeado com inteira liberdade pelo Grand Palais, tinha escoltado a filha do conde. Atos semelhantes, se fossem descobertos, significariam sua sentença de morte.
Sobretudo, não podia permitir que os invasores, inimigos dos avanços tecnológicos, descobrissem seu esconderijo e os aparelhos que ocultava. Talvez constituíssem a última esperança de IX.
Em seus percursos pelas grutas da cidade, C'tair viu que tinham arrancado sinais, rebatizado ruas e bairros, e os anões (todos homens, nenhuma mulher) tinham ocupado todos os centros de pesquisa para adaptá-los a suas operações secretas e nefastas. As ruas, passarelas e instalações estavam guardadas por diligentes Sardaukar disfarçados, ou pelos Dançarinos Faciais invasores.
Pouco depois de consolidar sua vitória, os Tleilaxu tinham aparecido em público para falar aos subóides rebeldes a descarregar sua ira sobre objetivos cuidadosamente selecionados. C'tair tinha visto os operários agruparem-se ao redor da instalação que tinha fabricado os novos meks de combate autodidatas.
— A Casa Vernius foi a responsável por este desastre! — gritou um carismático agitador subóide —. Ressuscitaram as máquinas pensantes.
Destruam este lugar!
Enquanto os ixianos sobreviventes contemplavam horrorizados a cena, os subóides destruíram as janelas de plaz e jogaram bombas térmicas contra a pequena fábrica. Cheios de ardor religioso, uivaram e jogaram pedras.
Um Mestre Tleilaxu, em pé sobre uma plataforma elevada, lançou ordens através de alto-falantes e amplificadores.
— Somos seus novos senhores, e nos encarregaremos de que as fábricas de IX se
adaptem às normas da Grande Convenção. — As chamas continuavam crepitando, e alguns subóides lançaram vivas, mas a maioria dava a impressão de não estar escutando —. Temos que reparar estes danos o quanto antes e devolver este planeta a seu funcionamento normal, com melhores condições para os subóides, é claro.
C'tair viu o edifício em chamas e se sentiu desolado.
— Por conseguinte, toda a tecnologia ixiana será controlada por uma junta religiosa, afim de velar por sua idoneidade. Toda tecnologia questionável será erradicada. Ninguém lhes pedirá que ponham em perigo suas almas trabalhando em máquinas heréticas.
Mais aplausos, mais plaz destroçado, alguns gritos.
O preço da conquista seria enorme para os Tleilaxu, mesmo com apoio imperial. Como IX era um dos motores econômicos mais poderosos do Império, os novos governantes não podiam permitir que as cadeias de produção diminuíram seu ritmo. Os Tleilaxu, como exemplo de suas boas intenções, destruiriam alguns produtos duvidosos, como os meks autodidatas, mas C'tair duvidava que desprezassem os aparelhos ixianos mais produtivos.
Graças as promessas dos novos senhores, os subóides tinham voltado para o trabalho, para o qual tinham sido criados, mas desta vez seguindo só ordens dos Tleilaxu. C'tair compreendeu que muito em breve as fábricas voltariam a vomitar mercadorias, e toneladas de Solaris encheriam as arcas dos Bene Tleilax como recompensa por sua cara aventura militar.
Não obstante, o segredo e as medidas de segurança impostas por gerações da Casa Vernius se tornariam seu contrário. IX sempre estivera envolto em mistério, de modo que quem sentiria a diferença? Assim que os clientes se sentissem satisfeitos com as exportações, ninguém se importaria com a política interna de IX. Todos esqueceriam o acontecido. A tragédia seria apagada.
Os Tleilaxu deviam contar com isso, pensou C'tair. Todo o planeta de IX (nunca se referia a ele como Xuttuh) estava isolado do Império e era considerado um enigma, assim como durante séculos os planetas natais dos Bene Tleilax estiveram.
Os novos senhores proibiram as viagens a outros planetas e impuseram o toque de recolher. Os Dançarinos Faciais localizaram os
“traidores” em esconderijos muito parecidos com os de C'tair, e os executaram
sumariamente. A repressão prosseguia, mas C'tair jurou que não desistiria do seu objetivo. Aquele era seu planeta, e lutaria por sua liberdade com as armas que tivesse a seu alcance.
Não disse a ninguém seu nome, procurou passar desapercebido, mas escutava, absorvia todos os rumores, ao mesmo tempo em que imaginava planos. Como não sabia em quem confiar, acreditava que todos que o rodeavam eram informantes, fossem Dançarinos Faciais ou simples renegados. Às vezes era fácil reconhecer um informante por suas perguntas diretas: “Onde você trabalha? Onde vive? O que está fazendo nesta rua?”
Mas outros não eram tão fáceis de detectar, como a anciã com quem tinha iniciado uma conversa. Só queria perguntar a direção de uma obra para onde tinha sido designado. A mulher não o sondara mas tinha tentado parecer inofensiva... como um menino com uma granada no bolso.
— Uma interessante seleção de palavras — disse, mas C'tair nem sequer recordava sua frase —. E seu acento... Por acaso é da nobreza ixiana?
Dirigiu um olhar significativo para os edifícios estalactite calcinados do teto.
C'tair tinha gaguejado uma resposta.
— Não, mas trabalhei como criado toda mim vida, e talvez seus costumes repugnantes me contagiaram. Rogo que me desculpe.
Partiu rapidamente depois de fazer uma reverência, sem esperar que ela lhe explicasse como chegar ao local que tinha perguntado.
Sua reação tinha sido desajeitada, até mesmo prejudicial para suas intenções, de modo que se livrou das roupas que tinha levado e não voltou a passar por aquela rua estreita. Depois procurou mudar a forma de falar.
Sempre que podia, evitava conversar com desconhecidos. Sentia-se incomodado com o fato de muitos ixianos oportunistas terem entregue sua lealdade aos novos senhores e renegado a Casa Vernius em menos de um ano.
Nos primeiros dias de confusão posteriores à conquista, C'tair tinha procurado fragmentos tecnológicos abandonados, com os quais construíra o transceptor transdimensional de Davee Rogo. Ao fim de pouco tempo, a tecnologia mais primitiva tinha sido confiscada e declarada ilegal. C'tair roubou tudo que pôde. Acreditava que valia a pena correr esse risco.
Sua luta poderia continuar durante anos, talvez décadas.
Pensou na infância compartilhada com D'murr e o inventor aleijado, Davee Rogo, que dedicara sua amizade aos dois meninos. Em seu laboratório privado, oculto em uma nervura de carvão da casca superior, o velho Rogo tinha ensinado aos jovens muitos princípios interessantes, assim como alguns de seus protótipos. O inventor ria, com olhos cintilantes, quando animava os meninos a montar e desmontar alguns de seus inventos. C'tair aprendera muitas coisas sob a tutela do aleijado.
C'tair lembrou da falta de interesse que seu irmão Navegante mostrara quando lhe falara da visão que tivera entre os escombros. Talvez o fantasma de Rogo não tivesse retornado dentre os mortos para lhe dar instruções. Nunca tinha visto uma aparição semelhante, mas a experiência, fora uma mensagem sobrenatural ou uma alucinação, tinha-lhe permitido realizar uma ação muito humana: comunicar-se com seu irmão gêmeo, manter o vínculo fraterno embora D'murr estivesse imerso nos mistérios da Corporação.
C'tair, encurralado em seus diversos esconderijos, tinha que viver de uma forma errática, e entrava em contato com a mente de seu irmão sempre que era possível usando o transceptor. Seguiu com orgulho e emoção as primeiras viagens de D'murr pela dobra espacial, como piloto aprendiz e em sua própria nave da Corporação. Depois, há poucos dias, tinham concedido autorização para a primeira missão comercial de D'murr, ele pilotaria um transporte colonial sem tripulação que dobraria o vazio a grande distância do Império.
Se seu trabalho para a Corporação continuasse se destacando, o Navegante Cadete D'murr Pilru seria promovido, transportaria mercadorias e pessoas entre os principais planetas das Casas Maiores, e talvez pelas cobiçadas rotas de Kaitain. transformaria-se em um Navegante, e talvez chegasse a Timoneiro...
Mas o aparelho de comunicações apresentava problemas constantes.
Os cristais de silicato tinham que ser fatiados com um cortador a laser e montados com precisão. Só funcionavam por poucos minutos antes de desintegrar-se por causa da tensão. Rachaduras finas como cabelos os inutilizavam. C'tair tinha utilizado o artefato em quatro ocasiões para contatar seu irmão, e a cada vez teve que cortar e montar novos cristais depois da comunicação.
C'tair estabeleceu contatos cautelosos com grupos do mercado negro, que lhe forneciam o que necessitava. Os cristais de silicato contrabandeados tinham a aprovação, gravada a laser, da Junta de Supervisão Religiosa. Os grupos do
mercado negro tinham descoberto formas de falsificar as marcas de aprovação, e as gravavam em todas as partes, frustrando assim os esforços das forças de ocupação.
De qualquer modo, tratava com os vendedores o mínimo possível, para diminuir as probabilidades de ser capturado, coisa que, por outro lado, limitava o número de vezes que podia falar com seu irmão.
C'tair esperava atrás de uma barreira com outras pessoas inquietas e suarentas, que se recusavam a reconhecer-se. Olhou para os estaleiros, onde o esqueleto do Cruzeiro inacabado descansava. No alto, fragmentos do ciclo projetado continuavam às escuras e avariados, e os Tleilaxu não pareciam inclinados a repará-lo.
Câmeras e alto-falantes leves flutuavam sobre a multidão, que esperava um anúncio e mais instruções. Ninguém queria perguntar, ninguém queria escutar.
— Este Cruzeiro é de um desenho Vernius não autorizado. — Os alto-falantes flutuantes transmitiram uma voz assexuada que ressoou contra as paredes de rocha —, e não respeita as normas da Junta de Supervisão Religiosa. Seus senhores Tleilaxu vão recuperar o desenho anterior, e esta nave tem que ser desmontada imediatamente.
Sussurros de frustração se ergueram da multidão.
— É preciso recuperar as matérias primas e formar novas equipes de trabalhadores. A construção recomeçará dentro de cinco dias.
A mente de C'tair deu voltas, enquanto organizadores vestidos com mantos marrom passeavam entre a multidão e formavam as equipes. Como filho de um embaixador tinha acesso a informação não disponível para outros jovens de sua idade. Sabia que o Cruzeiro antigo tinha uma capacidade de carga muito menor e funcionava com menos eficácia. Que objeção religiosa podia haver contra o aumento dos lucros? O que os Tleilaxu ganhavam com um transporte espacial menos eficaz?
Então recordou uma história que seu pai tinha lhe contado em épocas mais felizes, sobre como o velho imperador Elrood tinha ficado insatisfeito com a inovação, pois reduzia seus lucros com impostos. As peças começavam a se encaixar. A Casa Corrino tinha enviado tropas Sardaukar camufladas para manter subjugada à população ixiana, e C'tair compreendeu que ao adotar o desenho dos Cruzeiros os Tleilaxu pretendiam agradecer ao imperador pelo apoio militar.
Engrenagens dentro de engrenagens dentro de engrenagens...
Sentiu-se desolado, um motivo insignificante e corriqueiro tinha provocado a perda de milhares de vidas, a destruição das gloriosas tradições de IX, a derrocada de uma nobre família e a erradicação de uma forma de vida planetária. Estava furioso com todos os implicados, inclusive com o conde Vernius, que deveria ter previsto tudo isso e tomado cuidados para não criar inimigos poderosos.
A ordem de começar a trabalhar foi transmitida pelo sistema de megafonia, e C'tair foi atribuído a uma das equipes de subóides encarregadas de desmontar a nave inacabada e recuperar suas peças.
Esforçou-se por manter o rosto inexpressivo. Agarrou um laser para cortar componentes e secou o suor da testa. Sentia vontade de usar o laser contra os Tleilaxu. Outras equipes foram empilhando as vigas mestras e as pranchas metálicas, para serem usadas no novo projeto.
C'tair recordou uma época melhor e mais ordenada, quando estava com Kailea e D'murr na coberta de observação superior. Parecia ter transcorrido uma eternidade desde então. Tinham visto um Navegante partir da gruta no último Cruzeiro construído. Talvez fosse a última nave com essas características, a menos que C'tair pudesse derrotar os invasores.
A magnífica nave foi desmontada pouco a pouco. Os ruídos ensurdecedores e os aromas químicos eram horríveis. Os subóides sempre trabalhavam assim? Nesse caso, começava a compreender por que se rebelaram. O que não acreditava era que a violência tivesse sido incitada pelos próprios trabalhadores.
Fora instigada pelo próprio imperador Elrood, afim de destruir a Casa Vernius e esmagar o progresso? C'tair ignorava como e onde os Bene Tleilax se encaixavam naquela rede de intrigas. De todas as raças, era a mais odiada da galáxia conhecida. Não havia dúvidas de que Elrood poderia ordenar a qualquer Grande Casa que continuasse os trabalhos em IX sem prejudicar a economia do Império. Que mais o imperador Padishah tinha tramado com aqueles fanáticos religiosos? Por que sujava as mãos com eles?
C'tair, enojado, notou outras mudanças na gruta, instalações modificadas, enquanto continuava trabalhando no desmantelamento do Cruzeiro. Os novos senhores Tleilaxu eram seres inquietos que corriam de um lado para outro com movimentos furtivos, montavam operações clandestinas nos edifícios maiores de IX, fechavam antigas instalações, quebravam janelas, erguiam cercas atordoantes e campos minados.
Protegem seus segredos sujos.
C'tair achava que sua missão era descobrir todos aqueles segredos, utilizando os meios que fossem necessários, por mais tempo que levasse.
Os Tleilaxu deviam sucumbir... Pergunta definitiva: por que existe a vida? A resposta: pelo puro prazer de viver. Anônimo, de suposta origem Zenzunni
Duas reverendas mães estavam falando no alto de um montículo desprovido de árvores. Atrás das nuvens, o pálido sol, Laoujin, projetava as longas sombras de seus hábitos negros colina abaixo. Ao longo dos séculos, um número indeterminável de reverendas mães tinham escolhido o mesmo ponto, sob o mesmo sol, para discutir temas graves relacionados com sua época.
Se as duas mulheres o desejassem, podiam revisitar aquelas crises do passado mediante a Outra Memória. A reverenda madre Anirul Sadow Tonkin realizava essas viagens mentais com maior freqüência que as demais. Cada circunstância significava um ínfimo passo adiante no longo e tortuoso caminho. Durante o último ano deixara crescer o cabelo castanho acobreado, e agora seus cachos caiam até o queixo.
Estavam construindo um edifício de cimento branco. Como abelhas, as operárias, cada uma com uma reprodução exata em sua mente, dirigiam a pesado equipamento que colocava em seu lugar os módulos do teto. Para os poucos observadores externos, Wallach IX, com suas bibliotecas e escolas Bene Gesserit, sempre parecia igual, mas a Irmandade vivia uma constante adaptação para a sobrevivência.
— Trabalham muito devagar. Já deveriam ter terminado — disse Anirul enquanto massageava a testa. Sofria de enxaquecas crônicas há um tempo. Agora que Mohiam estava a ponto de dar a luz, as responsabilidades de Anirul como Mãe Kwisatz eram tremendas —.
Percebe como faltam poucos dias para o nascimento?
— Não culpe ninguém além de você mesma, Anirul. Ordenou que ela não fosse para uma sala de partos normal — a madre superiora Hanshka disse com severidade —. Todas as irmãs conhecem a importância do acontecimento. Muitas suspeitam que não se trata de apenas mais uma menina, que não se
perderá na teia dos nossos programas de reprodução. Algumas até falaram em Kwisatz Haderach.
Anirul colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha.
— É inevitável. Todas as irmãs conhecem nosso sonho, mas poucas suspeitam de como ele está perto de transformar-se em realidade. —
recolheu as saias e sentou-se sobre a erva. Apontou a construção, de onde vinham ruídos de carpintaria — Mohiam dará a luz dentro de uma semana, madre superiora, e ainda não temos o telhado.
— Elas terminarão em tempo, Anirul. Acalme-se. Todos se esforçam ao máximo para cumprir suas ordens.
Anirul reagiu como se a tivessem esbofeteado, mas dissimulou o fato. A reverenda madre me considera uma garota incontrolável e impetuosa. Talvez tinha sido muito insistente com as instruções para a instalação, e as vezes a madre superiora olhava para ela com certo ressentimento. Estará com ciúmes porque a Outra Memória me escolheu para dirigir um programa tão ambicioso? Sente-se ofendida pelo alcance de meus conhecimentos?
— Não sou tão jovem como me trata — disse Anirul, sabendo de que era um erro. Poucas Bene Gesserit levavam o peso da história como ela.
Poucas conheciam todas as maquinações, todos os passados do programa do Kwisatz Haderach, todos os fracassos e êxitos durante milênios, todas as alterações do plano durante mais de noventa gerações —. Possuo os conhecimentos necessários para triunfar.
A madre superiora olhou para ela com o cenho franzido.
— Pois tenha mais fé em nossa Mohiam. Já entregou nove filhas à Irmandade. Confio que controle o momento exato que escolher para dar a luz, mesmo que atrase o parto se for necessário. — Alguns cabelos frágeis escaparam de sua toca e bateram sobre a bochecha da anciã —. Seu papel nisto é muito mais importante que qualquer pavilhão de partos.
Anirul não se intimidou pelo tom de reprimenda.
— É verdade, e não vamos enfrentar outro fracasso, como o último.
Nem mesmo uma reverenda madre podia dominar todas as facetas do desenvolvimento embrionário. Podia adaptar seu metabolismo através de seus processos internos, mas não o metabolismo da criança. Escolher o sexo do bebê exigia uma correção da química da mãe, consistente para escolher o óvulo e esperma necessários. Mas assim que o zigoto começava a crescer no útero, o feto se tornava independente e iniciava um processo de separação da mãe.
— Imagino que esta menina será fundamental — disse Anirul —, um ponto crítico.
Ouviu-se um impacto estrondoso, e Anirul fez uma careta. Uma das seções do telhado tinha caído no interior do edifício e as operárias se apressaram a corrigir o erro.
A madre superiora proferiu uma blasfêmia.
Graças a hercúleos esforços, o pavilhão de partos foi terminado a tempo, enquanto a Madre Kwisatz. Anirul passeava de um lado para outro.
Apenas umas horas antes do parto, operárias e robôs deram os últimos toques à construção. Transportaram e conectaram equipamentos médicos.
Globos de luz, camas, mantas... até um reconfortante fogo na arcaica chaminé que Mohiam tinha pedido.
Enquanto Anirul e Harishka inspecionavam a obra que ainda cheirava a pó e materiais de construção, detiveram-se para contemplar a ruidosa entrada de uma maca motorizada que transportava uma Gaius Helen Mohiam a ponto de dar a luz. Estava consciente e já começava a experimentar contrações. As reverendas madres e enfermeiras uniformizadas de branco a acompanhavam, e todas cacarejavam como galinhas.
— Foi por pouco, madre superiora — disse Anirul —. Eu não gosto que surjam tensões adicionais em uma tarefa já por si complexa.
— Estou de acordo — disse Harishka —. As irmãs serão repreendidas por sua letargia. Claro que se seus planos tivessem sido menos ambiciosos...
Anirul, ignorou a madre superiora, tomou nota dos adornos e decoração do quarto, com suas incrustações de pérola e marfim e as talhas de madeira. Talvez devia ter ordenado que se concentrassem mais na funcionalidade que na extravagância...
Harishka cruzou seus braços sobre o peito.
— O desenho desta nova instalação é similar ao anterior. Era realmente necessário?
— Não se parece em nada — replicou Anirul. Seu rosto avermelhou, e eliminou o tom defensivo de suas palavras —. A antiga sala de partos já não servia para nada.
A madre superiora desenhou um sorriso condescendente.
Compreendia a necessidade de um edifício descontaminado, sem lembranças antigas nem fantasmas.
— Anirul, graças a nossa Missionária Protetora manipulamos as superstições dos povos atrasados... mas se supõe que as irmãs não são supersticiosas.
Anirul aceitou o comentário com bom humor.
— Asseguro-lhe, madre superiora, que tal conjectura é ridícula.
Os olhos cor avelã da anciã cintilaram.
— Segundo outras irmãs, você pensava que a sala de partos antiga estava amaldiçoada, e que isso provocou as deformidades na menina... e sua morte misteriosa.
— Não é o momento mais adequado para falar disto, madre superiora.
Examinou os preparativos frenéticos: Mohiam deitada na cama de parto, as irmãs fazendo provisão de toalhas quentes, líquidos e almofadinhas. Os monitores da incubadora piscavam na parede. Parteiras de primeira classe se moviam de um lado para outro, tomando precauções para o caso de surgirem complicações imprevistas.
Mohiam parecia serena, concentrada em sua importante tarefa, mas Anirul observou seu aspecto envelhecido, como se tivesse perdido os últimos vestígios de juventude.
Harishka apoiou uma mão robusta sobre o braço de Anirul, em um desdobramento surpreendente de intimidade.
— Todas carregamos nossas superstições primitivas, mas temos que dominá-las. De momento, não se preocupe com outra coisa que não seja esta menina. A Irmandade necessita de uma filha sã, depositária de um futuro poderoso.
O pessoal médico testou os equipamentos e tomou posições ao redor de Mohiam, que inalou profundamente. Suas bochechas estavam avermelhadas por causa do cansaço. Duas parteiras a colocaram na postura de parto ancestral. Mohiam começou a cantarolar para si, e uma careta de dor apareceu em seu rosto quando as contrações aconteceram com maior velocidade.
Anirul pensou no que a madre superiora acabava de lhe dizer. Em segredo, um mês atrás Anirul tinha consultado um mestre de Feng Shui sobre o antigo pavilhão de partos. Era um homem enrugado de aparência terráquea, e praticava uma antiquísima filosofia Zensunni segundo a qual a arquitetura, a disposição dos móveis e a potência da cor e luz se combinavam para aumentar o bem-estar dos habitantes de uma casa ou instalação. O homenzinho assentiu, afirmou que a antiga instalação não estava harmonizada e ensinou a Anirul o que devia fazer.
Agora, enquanto observava a luz abundante que banhava a cama de Mohiam, vinda de janelas e clarabóias, em vez de globos de luz artificial, Anirul afirmou para si que não tinha sido supersticiosa. O Feng Shui ensinava a harmonizar-se com a natureza e a ter consciência do próprio entorno, uma filosofia que, em último caso, parecia muito com a maneira Bene Gesserit.
Aproximou-se da cama de Mohiam e olhou para a paciente. Anirul confiava que o ancião tivesse razão. Esta filha era sua última chance.
Ocorreu muito depressa, assim que Mohiam se concentrou.
O choro de um bebê invadiu a habitação, e Anirul levantou uma menina perfeita, para que a madre superiora a visse. Até as vozes da Outra Memória se elevaram em um grito de vitória. Todos sorriam, satisfeitos pelo nascimento tão desejado. A menina esperneava e agitava os bracinhos.
As irmãs envolveram mãe e filha em toalhas e deram a Mohiam um grande copo de suco para restaurar seus fluidos corporais. Anirul lhe mostrou a menina. Com a respiração ainda entrecortada devido aos esforços, Mohiam a pegou, olhou para ela e depois se permitiu um sorriso de orgulho.
— Ela deve se chamar Jessica, que significa “saúde” — anunciou Mohiam. Quando as outras irmãs se afastaram, Mohiam olhou para Anirul e Harishka, que estava a seu lado. Disse em um sussurro quase inaudível —: Sei que esta menina é um elemento fundamental do programa Kwisatz Haderach. As vozes da Outra Memória confirmaram. Tive uma visão, e sei que nos espera um futuro horrível se fracassarmos.
Anirul e a madre superiora trocaram um olhar de inquietação.
Harishka respondeu em voz baixa, e olhou de soslaio como se esperasse que a revelação espontânea debilitasse o controle da Mãe Kwisatz sobre o programa. — Tem que guardar segredo. Sua filha será a avó do Kwisatz Haderach.
— Eu suspeitava. — Mohiam se deixou cair sobre os travesseiros e meditou sobre a responsabilidade daquela revelação —. Tão logo...
Ouviram-se aplausos e vivas diante do edifício, pois a notícia tinha se espalhado como um rastro de pólvora. As galerias situadas sobre as seções da biblioteca e as salas de discussão se encheram de acompanhantes e mestras, que festejavam o evento, embora só um punhado conhecesse o verdadeiro significado da menina
no programa de reprodução.
Gaius Helen Mohiam entregou a menina às parteiras, para evitar qualquer tipo de vínculo maternal proibido pela Bene Gesserit. Embora mantivesse a compostura, sentia-se exausta, esgotada até os ossos. Jessica era a décima filha que dava à Irmandade, e esperava que seus deveres nesse sentido tivessem terminado para sempre. Olhou para a reverenda madre Anirul Sadow Tonkin. Não podia fazer nada melhor que o que acabava de fazer. Jessica... Seu futuro.
Na verdade sou afortunada por participar deste acontecimento, pensou Anirul enquanto olhava para a esgotada mãe. Era-lhe estranho que, dentre todas as irmãs que tinham trabalhado por este objetivo durante milhares de anos, dentre todas as que agora observavam ansiosas na Outra Memória, fora ela a encarregada de fiscalizar o nascimento de Jessica. A própria Anirul guiaria a menina durante seus anos de aprendizagem até a transcendental união sexual a que estava destinada, afim de impulsionar o programa de reprodução até o penúltimo degrau.
A menina, envolta em uma manta, tinha parado de chorar por fim e jazia pacificamente na protetora calidez de seu berço.
Anirul olhou pelo plaz protetor e tentou imaginar o aspecto de Jessica quando fosse adulta. Recriou o rosto longo e magro do bebê, e visualizou uma dama alta de grande beleza, com as feições nobres de seu pai, o barão Harkonnen, lábios grossos e pele suave. O barão nunca conheceria sua filha nem saberia seu nome, pois este seria um dos segredos mais zelosamente guardados da Irmandade.
Um dia, quando Jessica fosse maior, receberia a ordem de gerar uma filha, e esta menina seria apresentada ao filho de Abulurd Harkonnen, o meio-irmão menor do barão. Naquele momento, Abulurd e sua esposa só tinham um filho, Kabban, mas Anirul tinha posto em marcha um meio de sugerir que tivessem mais. Isto aumentaria as probabilidades de que um varão sobrevivesse até alcançar a maturidade. Também melhoraria a seleção genética, assim como as probabilidades de um acoplamento sexual positivo.
Anirul contemplava um imenso quebra-cabeças onde cada uma das peças era um acontecimento diferente dentro do incrível programa de reprodução das Bene Gesserit. Agora só faltava encaixar alguns poucos componentes, e o Kwisatz Haderach se transformaria em realidade, o homem todo-poderoso que saltaria os abismos do espaço e do tempo, a ferramenta definitiva da Bene Gesserit.
Anirul se perguntou, como em tantas ocasiões anteriores, se um homem semelhante poderia fazer as Bene Gesserit recuperarem o verdadeiro ardor
religioso, como o fanatismo da família Butler. E se outros o reverenciassem como a um Deus?
Imagine, pensou. As Bene Gesserit, que utilizavam a religião para manipular, seduzidas por seu próprio líder messiânico. Duvidava que isso fosse acontecer.
A reverenda madre Anirul foi juntar-se à celebração com as outras irmãs. O método mais seguro de guardar um segredo é convencer as pessoas de que todos sabem. Antiga sabedoria Fremen
— Você conseguiu muitas coisas, Umma Kynes — disse o caolho Heinar.
Os dois homens estavam sentados sobre um promontório rochoso que dominava o sietch. O naib o tratava de igual para igual, usava até mesmo um respeito exagerado. Kynes tinha parado de discutir com as gentes do deserto a cada vez que o chamavam Umma, que queria dizer
“profeta”.
Heinar e ele contemplavam o ocaso acobreado, que se esparramava sobre as dunas do Grande Erg. Ao longe, uma neblina imprecisa pendia sobre o horizonte, os últimos restos da tormenta de areia do dia anterior.
Potentes ventos tinham varrido as dunas, aplanado sua superfície e voltado a perfilar a paisagem. Kynes se apoiou contra a rocha e bebeu sua taça de café de especiaria picante. Quando viu que seu marido se dispunha a sair do sietch, uma grávida Frieth se deslocara atrás dos dois homens. Um trabalhado serviço de café descansava entre ambos sobre uma pedra Lisa. Frieth preparara o café junto com uma seleção dos pasteizinhos crocantes que Kynes tanto gostava.
Quando se lembrou de lhe agradecer por sua amabilidade, Frieth já tinha desaparecido como uma sombra na caverna. Depois de uma longa pausa, Kynes concordou com o comentário do naib.
— Sim, consegui muitas coisas, mas ainda há muito por fazer.
Pensou nos complicados planos necessários para realizar seu sonho de um Dune renascido, um nome que logo seria conhecido no Império.
O Império. Quase nunca pensava no velho imperador. Suas próprias prioridades, a ênfase de sua vida, tinham mudado de uma forma radical.
Kynes nunca poderia voltar a ser um simples planetólogo imperial, sobretudo depois de viver com o povo do deserto.
Heinar segurou a mão do seu amigo.
— Dizem que o ocaso é um momento adequado para a reflexão e análise. Falemos do que conseguimos, e não permitamos que o abismo vazio do deserto nos sobressalte. Está neste planeta a pouco mais de um ano, mas já encontrou uma nova tribo e uma nova esposa. — Heinar sorriu
—. E logo terá seu primeiro filho, talvez um varão.
Kynes lhe devolveu o sorriso com expressão ofegante. Faltava muito pouco para que Frieth desse a luz. De algum jeito, surpreendia-se com o fato dela ter ficado grávida, porque se ausentava com muita freqüência.
Ainda não estava seguro de como reagiria diante de seu iminente papel de pai. Nunca tinha pensado nisso.
Entretanto, o nascimento encaixava-se perfeitamente com o plano que desenvolvera para este planeta surpreendente. Seu filho, que seria o líder dos Fremen depois que ele morresse continuaria seus esforços. O
plano mestre se prolongaria durante séculos.
Como planetólogo, tinha que pensar a longo prazo, coisa que os Fremen não faziam, embora, tendo em conta seu passado longo e tortuoso, deveriam estar acostumados a isso. O povo do deserto contava com uma história oral que remontava a milhares de anos. No sietch se contavam histórias que descreviam suas intermináveis peregrinações de planeta em planeta, um povo escravizado e açoitado, até que por fim decidiram fundar um lar onde ninguém suportava viver.
Os costumes Fremen eram conservadores, tinham mudado pouco de geração em geração, e este povo não estava habituado a pensar em termos de progresso. Como davam por certo que seu entorno era inalterável, transformaram-se em seus prisioneiros, quando deveriam ser seus senhores.
Kynes confiava em mudar tudo isso. Tinha delineado seu grande plano, incluindo cronogramas para plantar árvores e acumular água, pedras angulares de cada
avanço sucessivo. Dune seria resgatado do deserto, hectare por hectare.
Suas patrulhas exploravam a superfície, colhiam amostras do Grande Bled, amostras geológicas do Pequeno Erg e da Planície Funeral, mas muitos fatores de terraformação continuavam sendo variáveis desconhecidas.
A cada dia encaixavam algumas peças. Quando expressou o desejo de contar com mapas mais detalhados da superfície do planeta, ficou estupefato ao descobrir que os Fremen tinham planos topográficos detalhados, inclusive estudos sobre o clima.
— Por que não me foram enviados antes? — perguntou —. Era o planetólogo imperial, e os mapas cartográficos efetuados por satélite eram do mais imprecisos.
O velho Heinar sorrira e piscado o seu único olho.
— Pagamos um suborno generoso à Corporação Espacial para impedir que nos observem com muita atenção. O custo é alto, mas os Fremen são livres e os Harkonnen continuam na pobreza, junto com o resto do Império.
Kynes ficou atônito, mas lhe agradou saber que contava com a informação geográfica que necessitava. Enviou imediatamente comerciantes para que chegassem a um acordo com os contrabandistas e obtiveram sementes modificadas geneticamente de plantas do deserto resistentes. Tinha que desenhar e construir todo um ecossistema a partir de nada.
Durante as assembléias do conselho, os Fremen perguntaram a seu profeta qual seria o próximo passo, quanto duraria o processo, quando Dune se transformaria em um lugar verde e exuberante. Kynes tinha examinado seus cálculos. Como um professor quando responde à pergunta absurda de um menino, Kynes dera de ombros e respondido:
— Demorará entre trezentos e quinhentos anos. Talvez demore um pouco mais.
Alguns Fremen emitiram gemidos de desespero, enquanto o resto escutava com estoicismo o Umma, para depois começar a satisfazer seus pedidos. Entre trezentos e quinhentos anos. Não viveriam para vê-lo. Os Fremen tinham que mudar seus hábitos.
Como se tivesse recebido uma visão de Deus, Uliet tinha se sacrificado por aquele homem. Desde aquele momento, os Fremen se convenceram da inspiração divina de Kynes. Só tinha que apontar o dedo, e os Fremen do sietch
obedeciam.
Outra pessoa teria abusado daquela posição de poder, mas Pardot Kynes se limitou a continuar trabalhando. Imaginava o futuro em termos de eras e planetas, não de indivíduos ou territórios.
Agora, enquanto o sol desaparecia por trás das areias em uma sinfonia de cor, Kynes tomou seu café de especiaria e passou o braço pela barba. Apesar do que Heinar havia dito, considerava difícil refletir com paciência sobre o último ano... As exigências dos séculos vindouros lhe pareciam muito mais importantes.
— Heinar, quantos Fremen existe? — perguntou com a vista cravada na distância. Tinha ouvido histórias a respeito de outros sietch, tinha visto os Fremen isolados em cidades e povoados Harkonnen, mas pareciam fantasmas de uma espécie em vias de extinção —, Quantos há em todo o planeta? — Quer que contemos nossos números, Umma Kynes? — perguntou Heinar, não com incredulidade mas para esclarecer uma ordem.
— Preciso saber a extensão da população para projetar nossas atividades de terraformação. Tenho que saber quantos trabalhadores temos disponíveis.
Heinar se levantou. — Assim se fará. Contaremos nossos sietchs e a seus habitantes. Enviarei cavaleiros da areia e ciélagos distrans a todas as comunidades, e logo terá os números.
— Obrigado.
Kynes pegou sua taça, mas antes que pudesse recolher os pires, Frieth saiu correndo da cova e recolheu todas as peças do serviço de café.
A gravidez não tinha diminuído sua velocidade.
O primeiro censo Fremen, pensou Kynes. Uma ocasião histórica.
Stilgar, com expressão ofegante, apresentou-se nos aposentos de Kynes na manhã seguinte. — Estamos fazendo as malas para sua longa viajem, Umma Kynes.
Muito ao sul. Temos que lhe ensinar coisas importantes.
Desde que tinha se recuperado da ferida, Stilgar se convertera em um dos seguidores mais devotos de Kynes. Parecia que sua relação com o planetólogo, seu cunhado, aumentava seu prestígio social. Em qualquer caso, Stilgar não trabalhava em benefício próprio, mas para o de todos os Fremen.
— Quanto tempo durará a viagem? — perguntou Kynes —. Para onde vamos?
O jovem sorriu de orelha a orelha.
— É uma surpresa! Deve ver com seus próprios olhos, do contrário não acreditaria. Considere um presente.
Kynes, curioso, olhou para seu canto de trabalho. Levaria suas notas para documentar a viagem.
— Mas quanto durará?
— Vinte batedores — respondeu Stilgar na terminologia do deserto profundo, e depois gritou por cima do ombro enquanto saía —: Muito para o sul!
Frieth, a esposa de Kynes, a quem faltava muito pouco para dar a luz, dedicava longas horas trabalhando nos teares e nos bancos de reparo de trajes destiladores. Kynes terminou o café da manhã, sentado a seu lado, embora falassem pouco entre si. Frieth se limitava a olhar, e Kynes pensava que ela não entendia nada.
Ao que parecia, as mulheres Fremen viviam em seu mundo particular, possuíam seu próprio lugar na sociedade daqueles moradores do deserto, sem nenhuma relação com a interação que Kynes tinha presenciado no Império. Não obstante, dizia-se que as mulheres Fremen eram as combatentes mais implacáveis no campo de batalha, e que se um inimigo ferido ficasse a sua mercê mais valia matar-se no ato. Por outro lado, existia o mistério das Sayyadinas, as mulheres santas do sietch. Até o momento, Kynes só tinha visto uma, vestida com um longo hábito negro como as Bene Gesserit, e nenhum Fremen parecia gostar de falar delas. Diferentes mundos, diferentes mistérios.
Kynes pensava que algum dia seria interessante compilar um estudo sociológico sobre como reagiam e se adaptavam as diferentes culturas a ambientes extremos. Perguntava-se como as cruéis realidades de um planeta afetariam os instintos naturais e os relacionamentos tradicionais dos sexos. Mas já tinha bastante trabalho. Além disso, não era um sociólogo mas um planetólogo.
Kynes finalizou o café da manhã e beijou sua mulher. Afagou seu ventre volumoso.
— Stilgar diz que devo acompanhá-lo em uma viagem. Voltarei o mais rápido possível.
— Quanto tempo demorará? — perguntou Frieth, pensando no nascimento iminente do menino. A que parecia, obcecado com sua visão de longo prazo dos acontecimentos para o planeta, Kynes não tinha tomado nota da data do parto, e não o incluíra em seus planos.
— Vinte batedores — disse, embora ignorasse o que significava aquela distância.
Frieth arqueou as sobrancelhas em sinal de surpresa. Depois baixou a vista e começou a limpar a mesa.
— Até a viagem mais longa transcorre rapidamente quando o coração está contente. — Seu tom traía certa decepção —. Esperarei sua volta, meu marido. — Vacilou —. Escolha um bom verme.
Kynes não sabia a que se referia.
Momentos depois, Stilgar e dezoito jovens, com a indumentária típica do deserto, guiaram Kynes por tortuosos passadiços até sair para o enorme mar oriental de areia. Kynes sentiu uma pontada de preocupação. A extensão árida parecia imensa e perigosa. Alegrava-se por não estar sozinho. — Cruzaremos o Equador e seguiremos para o sul, Umma Kynes, até as terras de outros Fremen, onde ocultamos nossos projetos secretos. Logo verá.
Os olhos de Kynes se arregalaram. Tinha ouvido relatos terríveis e arrepiantes sobre as desabitadas regiões do sul. Cravou a vista na distância, enquanto Stilgar checava o traje destilador do planetólogo, apertava os fechos e ajustava os filtros até ficar satisfeito.
— Mas como viajaremos? Kynes sabia que o sietch tinha seu próprio ornitóptero, que na realidade era um simples transportador, sem capacidade para carregar tanta gente. — Iremos montados, Umma Kynes. — Indicou com uma sacudida de cabeça para o jovem que tinha transportado Stilgar, depois de ser ferido, no carro terrestre de Kynes —. Hoje, Ommun se transformará em nosso cavaleiro de areia. É um grande acontecimento para nosso povo.
— Tenho certeza disso — disse Kynes, picado pela curiosidade.
Os Fremen avançaram em fila indiana. Sob os mantos usavam trajes destiladores, e calçavam botas temag para o deserto. Seus olhos de um azul anil olhavam de um passado muito remoto.
Uma figura escura se adiantou ao grupo e correu sobre a crista de uma duna. Agarrou uma estaca larga e a afundou na areia, manipulou os controles, e Kynes ouviu o tump retumbante de uma vibração repetida.
Kynes já tinha escutado aquele som durante a caçada de vermes de Glossu Rabban.
— Ele tenta atrair um verme?
Stilgar assentiu.
— Se Deus quiser.
Ommun, ajoelhado na areia, extraiu um pacote de ferramentas envolto em tecido. Selecionou-as e as separou com supremo cuidado.
Longos ganchos de ferro de ferro, pontas afiadas e cilindros de corda.
— O que ele está fazendo? — perguntou Kynes.
O batedor continuava seu ritmo regular. Os Fremen, carregados com mochilas e provisões, esperavam. — Venha. Precisamos estar preparados para a chegada do Shai-Hulud.
Stilgar indicou ao planetólogo que o seguisse, enquanto tomavam posições. Os Fremen sussurraram entre si.
Ao pouco, Kynes percebeu o que só tinha experimentado uma vez, o vaio inesquecível, o rugido veloz de um verme de areia que se aproximava, atraído inexoravelmente pela vibração do batedor.
Ommun se agachou sobre a duna, segurando os ganchos e as pontas.
Grossos rolos de corda pendiam de sua cintura. Mantinha uma imobilidade absoluta. Seus companheiros esperavam sobre uma duna próxima.
— Ali! Consegue ver? — disse Stilgar, incapaz de conter a emoção.
Apontou para o sul, onde a areia ondulava como se uma nave de guerra subterrânea se dirigisse em linha reta para o batedor.
Kynes não sabia o que estava acontecendo. Ommun tentaria lutar com a grande besta! Era uma espécie de cerimônia ou sacrifício pela sua longa viajem através do deserto?
— Prepare-se — disse Stilgar, e apertou o braço de Kynes —. Nós o ajudaremos em tudo que pudermos.
Antes que o planetólogo pudesse fazer outra pergunta, um enorme vórtice de areia se formou ao redor do batedor. Ommun se retesou, preparado para saltar.
Então, a enorme boca do verme de areia emergiu das profundezas e engoliu o batedor. O enorme lombo do animal surgiu do deserto.
Ommun correu atrás do verme e saltou sobre seu lombo arqueado e com os ganchos de ferro se içou sobre um de seus segmentos.
Kynes contemplava a cena estupefato, incapaz de organizar seus pensamentos ou compreender o que aquele jovem ousado estava fazendo.
Isto não pode estar acontecendo, pensou. É impossível.
Ommun fincou um de seus ganchos na fenda que separava dois segmentos e depois puxou com força, separando os bem protegidos anéis e deixando a descoberto a pele abaixo.
O verme se retorceu, mas Ommun subiu e plantou outro gancho, de forma que o verme se viu obrigado a emergir mais do subsolo. No ponto mais elevado do lombo, atrás de sua cabeça, o jovem Fremen cravou uma estaca e deixou cair as longas cordas, para que pendessem pelos lados.
Ergueu-se orgulhoso sobre o verme e indicou aos outros que se aproximassem.
Os Fremen lançaram vivas e correram para o verme, junto com Kynes, que fazia o possível para não perder o equilíbrio. Três jovens escalaram as cordas e cravaram mais ganchos de ferro para impedir que o verme mergulhasse. O enorme animal começou a avançar, confuso, como se não entendesse o que estavam fazendo aqueles seres molestos.
Enquanto os Fremen corriam, jogavam as provisões para o alto. As mochilas foram subidas para o lombo do verme com mais cordas. Os primeiros cavaleiros montaram uma estrutura o mais rápido possível.
Açulado por Stilgar, um perplexo Kynes corria junto ao verme descomunal.
O planetólogo sentiu o calor de fricção que surgia de debaixo do animal, e tentou de imaginar que improváveis fogos químicos formavam um forno nas vísceras do verme. — Vamos, Umma Kynes! — gritou Stilgar ao mesmo tempo que lhe ajudava a introduzir os pés nos laços das cordas. Kynes subiu desajeitadamente, e suas botas encontraram apoio na pele áspera do verme. Subiu e subiu. A energia interna do Shai-Hulud o fazia perder o fôlego, mas Stilgar o ajudou a reunir-se com os outros Fremen, agrupados atrás da cabeça do verme.
Tinham improvisado uma tosca plataforma com um assento, um palanquim. Outros Fremen seguravam as cordas para conter o animal, como se fosse um cervo furioso. Kynes, agradecido, deixou-se cair no assento e cruzou os braços. Experimentava uma desconcertante sensação, como se fosse cair de um momento para outro e quebrar a cabeça. O
movimento ondulante do verme revirou seu estômago. — Geralmente, estes assentos se reservam para nossas Sayyadinas — explicou Stilgar —. Mas sabemos que ainda é incapaz de montar no ShaiHulud, de modo que este será um lugar de honra para nosso profeta.
Não há do que envergonhar-se.
Kynes assentiu e olhou para frente. Outros Fremen felicitaram Ommun, que tinha coroado com êxito aquele importante rito de iniciação. Agora, era um respeitável cavaleiro da areia, um verdadeiro homem no sietch.
Ommun puxou as cordas e os ganchos de ferro para guiar o verme. — Haioyoh!
A enorme criatura acelerou o passo em direção ao sul...
Kynes viajou durante todo o dia, enquanto o vento açoitava seu rosto e o sol se refletia na areia. Não tinha forma de calcular a velocidade do verme, mas sabia que devia ser impressionante.
Percebeu o aroma de correntes de oxigênio e pedra queimada que o verme deixava ao passado. Dada a escassez de vegetação em Dune, o planetólogo compreendeu que os vermes deviam gerar grande parte do oxigênio atmosférico.
Era tudo que podia fazer, hospedado em seu palanquim. Não podia tirar suas notas e cadernos, que guardava na mochila pendurada nas costas.
Que magnífico relatório resultaria daquele lance, embora soubesse que jamais poderia enviar tal informação ao imperador. Só os Fremen conheciam este segredo, e assim continuaria. Estamos montados em um verme! Agora tinha outras obrigações, lealdades novas e mais importantes.
Séculos antes, o Império tinha convocado centros de análise biológicas em pontos estratégicos da superfície do Dune, mas essas instalações não funcionavam mais. Kynes as havia reaberto e utilizado algumas forças imperiais destinadas ao planeta para manter as aparências.
A maioria de centros estavam ocupados por seus próprios Fremen. Assombrava-lhe a facilidade dos irmãos do sietch para infiltrar-se no sistema, descobrir coisas e usar a tecnologia. Era uma raça que se adaptava maravilhosamente, e adaptar-se era a única forma de sobrevivência em um lugar como Dune.
Sob a direção de Kynes, os operários Fremen desmontavam o equipamento das estações biológicas isoladas, voltavam com as peças necessárias para os sietch e enchiam formulários para informar a perda ou deterioração dos materiais. O Império, ignorante do que acontecia, substituía os instrumentos perdidos por outros novos, e os encarregados das estações podiam continuar seu trabalho.
Depois de horas de rápida viagem através da Grande Extensão, o enorme verme começou a mostrar-se remisso, muito fatigado, e Ommun custou para controlálo. O verme parecia querer enterrar-se no chão, embora isso exporia sua pele sensível às areias escaldantes.
Por fim, Ommun o obrigou a parar. Os homens do deserto saltaram para o chão, enquanto Kynes descia pouco a pouco. Ommun jogou as mochilas e desmontou, deixando que o verme, muito cansado para atacá
los, afundasse-se na areia. Os Fremen tiraram os ganchos de ferro para que o verme, seu Shai-Hulud, pudesse recuperar-se.
Os homens correram para uma linha de rochas, onde havia covas e refúgio, assim como um pequeno sietch que lhes deu as boas-vindas e a promessa de comida e conversa para a noite. Rumores sobre o propósito do planetólogo se espalharam por todos os lugares secretos de Dune, e o líder do sietch lhes disse que era uma grande honra receber ao Umma Kynes.
No dia seguinte, o grupo retomou a marcha no lombo de outro verme, e depois de outro. Kynes, pouco a pouco, começou a compreender o que significava uma viagem de vinte batedores.
O vento era fresco a areia brilhante, e os Fremen desfrutavam muito com seu grande aventura. Kynes ia sentado em seu palanquim como um imperador, sem deixar de contemplar a paisagem. Para ele as dunas eram um espetáculo fascinante. Um mês antes, perto do sietch de Heinar, Kynes tinha saído em seu pequeno ornitóptero imperial para explorar sem rumo fixo. Uma pequena tormenta o desviara de seu curso. Recuperou o controle, face às fortes rajadas de vento, mas ficou atônito ao olhar para o ponto em que a tormenta tinha deixado descoberto uma depressão plaina e branca: uma salina.
Kynes tinha visto salinas em outros planetas, mas nunca em Dune. A formação geológica se assemelhava com um ovóide branco que refletia o sol, e apontava as fronteiras do que, milhares de anos antes, tinha sido um mar aberto. Emocionou-se ao pensar que, no passado, aquela salina talvez tinha sido um grande oceano interior.
Kynes aterrissara para examinar o pó. Ajoelhou-se e afundou os dedos na superfície branca. Lambeu um dedo para confirmar suas suspeitas. Sal amargo. Agora não havia mais dúvida de que em outros tempos havia extensões de água mas, por algum motivo, tinham desaparecido.
À medida que vários vermes os transportavam até cruzar a linha do Equador e entravam no hemisfério sul do planeta, Kynes viu muitas outras coisas que recordavam suas descobertas: depressões deslumbrantes que talvez eram os restos de antigos lagos. Mencionou isto a seus guias Fremen, mas só explicaram sua existência mediante mitos e lendas carentes de rigor científico. Seus companheiros de viagem pareciam mais interessados em destino.
Por fim, depois de dias longos e exaustivos, abandonaram o último verme e entraram nas paisagens rochosas das regiões mais austrais de Dune, perto do círculo antártico, aonde os enormes Shai-Hulud se negavam a viajar. Embora alguns mercadores de água tivessem explorado as calotas polares do norte, as
latitudes mais baixas continuavam quase desabitadas, envoltas no mistério. Ninguém até lá, exceto estes Fremen.
Cada vez mais entusiasmado, o grupo caminhou durante um dia sobre cascalho, até que Kynes viu o fim o que seus companheiros desejam tanto lhe mostrar. Ali, os Fremen tinham criado um imenso tesouro.
Não longe da diminuta calota polar, em uma região onde se dizia que o clima era muito frio e inóspito para a vida, os Fremen de vários sietch tinham montado um acampamento secreto. Seguindo o leito de um riacho, entraram em um canyon escarpado. O solo era composto de pedras arredondadas pela água que tinha passado por ali milênios antes. O ar era frio, mas mais quente do que o planetólogo supunha no círculo antártico.
De um penhasco abrupto, onde o gelo e o vento frio que soprava na cúpula davam lugar a um ar mais suave no fundo, escorria água pelas rachaduras da rocha que, quando chegava a estação, corria pelo leito do riacho que tinham seguido para chegar àquele ponto. Os Fremen tinham instalado cristais e amplificadores nas paredes do penhasco para esquentar o ar e derreter o gelo do chão. E ali, no chão rochoso, plantas tinham crescido.
Kynes ficou sem fala. Era seu sonho, diante de seus próprios olhos!
Perguntou-se se a fonte poderia vir de águas termais, mas ao tocá-la percebeu que era muito fria. Provou-a, e descobriu que não era sulfurosa, mas fresca, a melhor que tinha bebido desde que chegara a Dune. Água pura, não reciclada mil vezes com filtros e trajes destiladores. — Aqui está nosso segredo, Umma Kynes — disse Stilgar —. Nós fizemos isso em menos de um ano.
Moitas de erva robusta cresciam espalhadas pelo leito do riacho, girassóis do deserto de um amarelo brilhante, e até mesmo as trepadeiras de uma aboboreira. Mas o mais assombroso eram as fileiras de palmeiras jovens, que se aferravam à vida, absorviam a umidade que se filtrava entre as rachaduras da rocha e subia de um nível freático enterrado sob o chão do canyon.
— Palmeiras! — exclamou —. Vocês já começaram. — Sim, Umma — assentiu Stilgar —. Aqui se vê o futuro de Dune.
Tal como nos prometeu, pode ser feito. Fremens de todo o planeta já começaram a tarefa de dispersar erva nas ladeiras favorecidas pelo vento das
dunas.
Kynes resplandecia. Eles tinham acreditado, apesar de tudo! Aquela erva dispersa desdobraria suas raízes, armazenaria água e estabilizaria as dunas. Com equipamento roubado das estações de análise biológicas, os Fremen poderiam continuar o trabalho de criar ralos, eruer armadilhas de vento e descobrir novas formas de apoderar-se de cada gota de água transportada pelo vento... O grupo permaneceu no canyon por vários dias, e o que viu ali aturdiu Kynes. Fremen de outros sietch apareciam a intervalos regulares. O
lugar parecia um novo ponto de encontro do povo escondido. Chegaram emissários para contemplar com reverência as palmeiras e as plantas que cresciam ao ar livre, para aspirar o tênue aroma de umidade que se desprendia das rochas.
Uma noite chegou um cavaleiro de areia com suas ferramentas, em busca do Umma Kynes. O recém-chegado, sem fôlego, baixou os olhos respeitosamente.
— Seguindo suas ordens, a contagem terminou — anunciou —. recebemos informação de todos os sietch e agora sabemos quantos Fremen há.
— Estupendo — disse Kynes sorridente —. Necessito de um número aproximado para planejar nosso trabalho.
Esperou. O jovem ergueu a vista e olhou-o nos olhos. — O número de sietch supera os quinhentos.
Kynes suspirou. Muito mais do que esperava!
— E os Fremen que vivem em Dune são, aproximadamente, dez milhões. Necessita das cifras exatas, Umma Kynes?
Kynes soltou uma exclamação afogada. Incrível! Os cálculos imperiais e os informes dos Harkonnen diziam que não passavam de algumas centenas de milhares, um milhão no máximo.
— Dez milhões! — Abraçou o mensageiro estupefato, jubiloso. —
Com este exército de operários poderemos remodelar todo o planeta.
O mensageiro sorriu e retrocedeu com uma reverência, para agradecer a honra
que o planetólogo lhe concedera. — E há mais notícias, Umma Kynes — disse o jovem —. Me ordenaram lhe comunicar que sua esposa Frieth deu a luz a um menino forte e são, que sem dúvida será algum dia o orgulho do sietch.
Kynes emitiu outra exclamação de júbilo. Era pai! Olhou para Ommun, Stilgar e outros membros de sua expedição. Os Fremen ergueram as mãos e o encheram de felicitações. Não permitira que a idéia revoasse em sua mente até agora, mas sentiu que uma onda de orgulho se impunha para sua surpresa.
Enquanto pensava em sua felicidade, Kynes olhou para as palmeiras, a erva e as plantas, e depois para o fragmento de céu azul emoldurado entre as paredes do canyon. Frieth lhe dera um filho!
— Agora, os Fremen são dez milhões um — disse. O ódio é um sentimento tão perigoso quanto o amor. A capacidade de experimentar um significa a capacidade de experimentar seu contrário. Instruções tutelares para a Irmandade,

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