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domingo, 4 de junho de 2017

SD 964 : DUNE - A CASA ATREIDE

Impugnação contra o Landsraad, o verdadeiro domínio do intelecto: Propriedade
privada ou riquezas para a galáxia.

O transporte subterrâneo depositou seus dois passageiros nas profundezas da fortaleza Harkonnen e, com programada precisão, impulsionou-os por uma via de acesso. A cápsula, com o barão e Glossu Rabban, precipitou-se para o caos de Harko City, uma mancha fumegante na paisagem onde os edifícios se aglutinavam. Que o barão soubesse, não existia mapa detalhado do subsolo da cidade, pois continuava crescendo como um cogumelo. Não estava muito seguro de onde iam.
Enquanto conspirava contra os Atreides, havia insistido que Piter De Vries encontrasse um espaço amplo para um laboratório e uma fábrica secretos. O Mentat tinha conseguido, e o barão não fez mais perguntas. O
transporte, enviado por De Vries, conduzia-os a essa instalação.
— Quero conhecer todo o plano, tio — disse Rabban, que se remexia inquieto ao seu lado —. Diga o que vamos fazer.
No cubículo dianteiro, um piloto surdo-mudo conduzia o aparelho. O
barão não prestava atenção aos edifícios escuros que deixavam para trás nem nos gases de escapamento e resíduos que as fábricas emitiam. Giedi Prime produzia produtos suficientes para autoabastecer-se, e recebia somas modestas procedentes do comércio de peles de baleia em Lankiveil e das minas de alguns asteróides. Entretanto, os autênticos benefícios da Casa Harkonnen, que diminuíam todos os outros, provinham da exploração da especiaria em Arrakis.
— O plano, Rabban, é simples — respondeu por fim —, e tenho a intenção de lhe oferecer um papel fundamental nele. Se for capaz de executá-lo.
Os olhos do seu sobrinho se iluminaram e seus lábios grossos se torceram num sorriso. De maneira surpreendente, soube guardar silêncio e esperar que o barão continuasse. Talvez, com o tempo aprenda...
— Se tivermos êxito, Rabban, nossa fortuna aumentará de uma forma drástica. Ainda melhor, obteremos satisfação pessoal ao saber que arruinamos por fim com a Casa Atreides, depois de tantos séculos de feudo.
Rabban esfregou as mãos, mas os olhos negros do barão se endureceram quando continuou.
— Se fracassar, me encarregarei de que seja levado a Lankiveil, onde receberá a instrução que seu pai pretende lhe dar, junto com canções e poemas sobre o amor fraternal.
Rabban sorriu.
— Não fracassarei, tio.
O veículo chegou a um laboratório blindado e protegido com medidas de alta segurança, e o surdo-mudo indicou por gestos que saíssem do veículo. O barão não teria sido capaz de voltar a fortaleza Harkonnen nem que sua vida dependesse disso.
— O que é este lugar? — perguntou Rabban.
— Um centro de pesquisa — disse o barão, e indicou que seguisse adiante —. Aqui estamos preparando uma surpresa desagradável.
Rabban se adiantou, ansioso por ver a instalação. O lugar cheirava a solda e residuais, fusíveis queimados e suor. Piter De Vries saiu para recebê-los, com um sorriso em seus lábios manchados. Seu passo afetado e seus movimentos sinuosos lhe davam a aparência de um lagarto.
— Faz semanas que está aqui, Piter. É melhor que tenha algo bom para nos mostrar. Eu lhe disse que não desperdiçasse o tempo. — Não precisa se preocupar, meu barão — respondeu o Mentat, e indicou que entrassem na zona principal do laboratório —. Chobyn, nosso melhor pesquisador, superou a si mesmo.
— Pois eu pensava que os richesianos eram melhores em imitações que em inovações verdadeiras — disse Rabban.
— Sempre há exceções — respondeu o barão —. Vamos ver o que Piter quer nos mostrar.
O que De Vries tinha prometido enchia quase toda a câmara: uma nave de guerra Harkonnen modificada, de cento e quarenta metros de diâmetro. Esbelta e polida, tinha sido utilizada com êxito em batalhas convencionais para golpear duro e fugir a toda velocidade. Agora tinha sido reconvertida seguindo as especificações de Chobyn, com os estabilizadores verticais reduzidos, o motor substituído e uma seção da cabine de tropa eliminada para abrir espaço para a tecnologia necessária. Todos os registros de sua existência tinham desaparecido
dos arquivos Harkonnen. Piter De Vries era um perito em manipulações semelhantes.
Um homem gorducho, calvo e com uma cavanhaque cinzento saiu do compartimento de motores da nave de combate, manchado de graxa e lubrificantes.
— Meu barão, senhor, fico feliz que tenha vindo ver o que construí para o senhor. — Chobyn guardou uma ferramenta no bolso do macacão
—. Esta instalação está terminada. Meu não-campo funcionará perfeitamente. Sincronizei-o com a maquinaria desta nave.
Rabban golpeou com os nódulos o casco, perto da cabine do piloto.
— Por que é tão grande? Cabe de sobra um carro terrestre blindado.
Como vamos trabalhar em segredo com isto?
Chobyn arqueou as sobrancelhas, sem reconhecer o homem corpulento.
— O senhor é..?
— É Rabban, meu sobrinho — disse o barão —. fez uma pergunta interessante. Pedi uma nave menor e discreta.
— É o menor que pude conseguir — respondeu Chobyn bufando —.
Cento e quarenta metros é a menor capa de invisibilidade que um gerador de não acampo pode projetar. As dificuldades são... incríveis. Eu...
O pesquisador pigarreou, impaciente.
— Deve aprender a superar idéias preconcebidas, senhor. A compreender o que temos aqui. A invisibilidade compensa com folga qualquer diminuição na capacidade de manobra. — Enrugou o sobrecenho de novo —. Qual o problema do tamanho, se ninguém pode vê-lo? Esta nave de ataque cabe amplamente na área de carga de uma fragata.
— Assim será, Chobyn — disse o barão —. Se funcionar.
De Vries passeava junto ao flanco da nave.
— Se ninguém souber da existência da nave, Rabban, não correrá nenhum
perigo. Imagine o caos que pode criar! Será um assassino fantasma.
— Oh, sim! — de repente, Rabban compreendeu —. Eu?
Chobyn fechou uma escotilha de acesso atrás dos motores.
— Tudo é simples e funcional. A nave estará pronta amanhã, quando partirem para a coroação do imperador Padishah.
— Eu a testei, barão — disse De Vries.
— Excelente — disse o barão — demonstrou ser muito valioso, Chobyn.
— Eu vou pilotar isso? — perguntou Rabban outra vez, como se ainda não acreditasse na idéia. Sua voz se quebrou de entusiasmo. O barão Harkonnen assentiu. Seu sobrinho, apesar das suas deficiências, era ao menos um piloto e atirador excelente, além de ser o herdeiro do barão.
O inventor sorriu.
— Acredito que tomei a decisão correta quando fui ao senhor diretamente, barão. A Casa Harkonnen compreendeu imediatamente as possibilidades da minha descoberta.
— Quando o imperador souber, pedirá uma não nave para ele —
disse Rabban —. Até é possível que envie os Sardaukar para roubá-la.
— Tomaremos medidas para que Shaddam não descubra por enquanto — respondeu Piter De Vries enquanto esfregava as mãos.
— Você deve ser um homem brilhante, Chobyn — disse o barão —.
Inventar isto!
— De fato, limitei-me a adaptar um campo Holtzman para nossos fins. Há séculos, a matemática de Holtzman foi desenvolvida para campos e motores que dobravam o espaço. Eu só me limitei a levar os princípios alguns passos adiante.
— E agora espera se transformar em um homem mais rico do que jamais sonhou, não é? — murmurou o barão.
— Mereço isso, não acha, senhor? Olhe o que criei para o senhor. Se tivesse ficado em Richese e seguido os canais oficiais, teria que enfrentar anos de
legalismos, autenticação de títulos e pesquisas de patente, depois do que meu governo teria ficado com a maior parte dos lucros derivados de meu invento, para não falar dos plagiadores que tentariam me roubar ao descobrir o que eu estava fazendo. Um ajuste sem importância aqui, outro ali, e aparece alguém com uma patente diferente, que em essência é a mesma.
— Assim guardou o segredo até vir a nós? — perguntou Rabban —.
Ninguém mais conhece esta tecnologia?
— Exato. Possuem os únicos geradores de não-campo do universo.
Chobyn cruzou os braços sobre seu macacão manchado.
— Possivelmente por enquanto — disse o barão —, mas os ixianos eram muito hábeis, e os Tleilaxu também são. Cedo ou tarde alguém conseguirá um artefato como este, se já não o tiverem.
Rabban se aproximou mais do richesiano desprevenido.
— Sei a que se refere, barão — disse Chobyn com um dar de ombros
—. Não sou um homem ambicioso, mas eu gostaria de obter algum lucro do meu invento.
— É um homem prudente — disse o barão, e dirigiu um fugaz mas significativo sorriso para seu sobrinho robusto —. E merece uma boa recompensa.
— É sábio guardar o segredo sobre coisas importantes — respondeu Rabban.
Colocou-se atrás do inventor, que se sentia muito lisonjeado pelos elogios. Rabban agiu rápido. Enlaçou o pescoço de Chobyn com o braço musculoso e depois apertou como uma prensa. O inventor ofegou mas não emitiu o menor som. O rosto de Rabban avermelhou por causa do esforço, mas não retirou o braço até que ouviu o agradável rangido da coluna vertebral ao partir-se.
— Todos temos que ser cautelosos com nossos segredos, Chobyn —
murmurou o barão, sorridente —. Você não foi.
Chobyn desabou como um boneco. A força hercúlea de Rabban o impedira de soltar um grito final ou uma blasfêmia gutural.
— Isso foi prudente, meu barão? — Perguntou De Vries —. Não deveríamos ter
testado a nave primeiro, para nos assegurar de que somos capazes de reproduzir a tecnologia?
— Por que? Não confia em nosso inventor, o finado Chobyn? — Funciona — disse Rabban —. Além disso, estava vigiado por visicons, e temos os planos detalhados e as hologravações que fez durante o processo de construção. — Já cuidei dos operários — disse o Mentat —. Não haverá vazamentos.
Rabban sorriu com ansiedade.
— Reservou algum para mim?
De Vries deu de ombros.
— Bem, eu já me diverti, mas não sou um porco. Deixei alguns. —
Indicou uma fileira de portas sólidas começando pela direita. Há cinco em macas, drogados. Divirta-se. O Mentat deu uns tapinhas no ombro do corpulento Harkonnen.
Rabban avançou um par de passos para a porta, mas depois vacilou e olhou para o seu tio, que ainda não tinha lhe dado permissão para partir. O
barão estava observando De Vries. O Mentat pervertido enrugou o cenho.
— Somos os primeiros a ter uma não nave, barão. Com a vantagem da surpresa, ninguém suspeitará de nossas intenções.
— Minhas intenções — corrigiu o barão. O Mentat assentiu e depois utilizou um transmissor manual para falar com vários trabalhadores do laboratório.
— Limpem este lixo e levem a nave à fragata antes da decolagem de amanhã.
— Quero que confisque todas as notas e registros tecnológicos — ordenou o barão quando o Mentat apagou o comunicador.
— Sim, meu senhor — disse De Vries —. Cuidarei disso pessoalmente.
— Pode ir — disse o barão ao seu impaciente sobrinho —. Uma ou duas horas de relaxamento lhe farão bem para concentrar sua mente no trabalho que nos espera. Demonstram habilidades sutis e muito eficazes nas artes relacionadas da observação e coleta de dados. A informação é seu produto comercial. Relatório imperial sobre as Bene Gesserit, utilizado com propósitos pedagógicos
— Isto impressiona de verdade — disse a irmã Margot Rashino Zea, enquanto olhava para os imponentes edifícios que se erguiam a cada lado do enorme ovalóide que formava a praça compartilhada pelo Império e o Landsraad —. Um espetáculo para todos os sentidos.
Depois de longos anos no nublado e bucólico Wallach IX, tanta beleza feria seus olhos.
Uma névoa refrescante se erguia da fonte situada no centro da praça, uma extraordinária composição artística que media cem metros de altura. A fonte, construída em forma de nebulosa, estava cheia de planetas e outros corpos celestes que projetavam jorros perfumados em miríades de cores.
Finos esguichos criavam cachos irisados que dançavam no ar silencioso.
— Ah, sim, vejo que nunca esteve em Kaitain — disse o príncipe herdeiro Shaddam, que caminhava junto à adorável Bene Gesserit loira.
Guardas Sardaukar seguiam a uma distância prudente, convencidos de que estavam perto o bastante para impedir que algo ocorresse ao herdeiro imperial. Margot reprimiu um sorriso, satisfeita por perceber como as pessoas alheias à Irmandade a subestimavam.
— Eu já o tinha visto antes, senhor, mas a familiaridade não diminui minha admiração pela magnífica capital do Império.
Margot, vestida com um novo hábito negro que ondulava quando se movia, ia flanqueada por Shaddam e Hasimir Fenring. Não escondia seu longo cabelo dourado, seu rosto fresco, sua beleza. As pessoas costumavam esperar que as Bene Gesserit fossem velhas bruxas cobertas com túnicas escuras, mas muitas, como Margot Rashino Zea, eram muito atraentes.
Graças a uma exata liberação de seus feromonas e a flertes seletivos podia utilizar sua sexualidade como uma arma. Mas aqui não, ainda não. A Irmandade tinha outros planos para o futuro imperador.
Margot era quase da mesma altura que Shaddam, e muito mais alta que Fenring. Atrás deles, fora do alcance dos ouvidos, seguia-os um séquito de três reverendas madres, mulheres que tinham sido investigadas e registradas pelo próprio Fenring. O príncipe herdeiro ignorava seu papel naquele encontro, mas Margot ia explicar-lhe os motivos.
— Deveria ver estes jardins de noite — disse Shaddam —. A água parece uma chuva de meteoros.
— Ah, sim — disse Margot com um leve sorriso. Seus olhos verde-acinzentados cintilaram —. É meu lugar favorito a noite. Vim duas vezes desde minha chegada... enquanto esperava esta entrevista privada, senhor.
Embora tentasse manter uma conversa corriqueira com a representante da poderosa Bene Gesserit, Shaddam se sentia inquieto.
Todos queriam algo, todos tinham intenções ocultas, e todos os grupos pensavam que ele lhes devia favores ou que possuíam elementos suficientes de extorsão para modificar suas opiniões. Fenring já se ocupara de alguns desses parasitas, mas chegariam mais.
Sua inquietação atual estava menos relacionada com a irmã Margot que com suas preocupações pela crescente desconfiança e agitação que reinava nas Grandes Casas. Mesmo sem uma autópsia dos Suks, vários membros importantes do Landsraad tinham suscitado perguntas incômodas sobre a misteriosa morte do imperador. As alianças estavam mudando.
Impostos e contribuições de vários planetas ricos se atrasaram, sem causa justificada. E os Tleilaxu afirmavam que demorariam anos para produzir a prometida especiaria sintética.
Shaddam e seu conselho interno voltariam a falar do início da crise nessa manhã, continuação das reuniões que se encadearam durante toda a semana. A duração do reinado de Elrood tinha forçado uma estabilidade (quando não um entancamento) ao longo do Império. Ninguém se recordava de como realizar uma troca ordenada de poderes.
Em muitos planetas as forças militares tinham sido aumentadas e colocadas em estado de alerta. Os Sardaukar de Shaddam não eram exceção. Os espiões
estavam mais ocupados que nunca, em todos os frontes. Em alguns momentos se perguntava se impor um novo destino ao leal chambelán Aken Hesban (confinado em um diminuto escritório de paredes de pedra situado nas vísceras de uma mina asteróide) não havia sido um erro, mas o chamaria imediatamente se a situação piorasse.
Mas fará frio em Arrakis antes que isso aconteça.
A inquietação de Shaddam o tornava assustadiço, até mesmo supersticioso. Seu condenado pai morrera, enviado aos infernos descritos na Bíblia Católica Laranja, mas ainda sentia o sangue invisível em suas mãos.
Antes de sair do palácio para reunir-se com a irmã Margot, Shaddam tinha pego uma capa qualquer, para esquentar os ombros de um frio imaginário. A capa dourada pendia no guarda-roupa, junto com muitos outros objetos que nunca tinha usado. Só agora recordou que era uma das favoritas de seu pai.
Ao perceber isso, sua pele se arrepiou. O fino tecido lhe produzia comichões e o fazia tremer. Sentia que a fina corrente de ouro rodeava seu pescoço como um nó.
Ridículo, pensou. Os espíritos dos mortos não ocupavam objetos inanimados, não podiam lhe fazer mal. Uma Bene Gesserit seria capaz de perceber seu mal-estar, e não podia permitir que aquela mulher acumulasse tanto poder sobre ele.
— Eu gosto dessas obras de arte — disse Margot. Apontou um andaime fixo na fachada do Salão da Oratória do Landsraad, onde um grupo de pintores trabalhavam em um mural que mostravam cenas de belezas naturais e avanços tecnológicos de todas as partes do Império —.
Acredito que seu bisavô, Vutier Corrino II, foi em grande parte responsável.
— Ah, sim... Vutier foi um grande mecenas das artes — disse Shaddam com certa dificuldade. Resistiu ao impulso de tirar a capa e jogá
la no chão, e jurou que a partir daquele momento só usaria os objetos que lhe pertencessem —. Disse que um espetáculo sem calidez ou criatividade não significava nada.
— Acredito que deveria ir direto ao assunto, irmã — sugeriu Fenring ao observar o desconforto de seu amigo, embora não imaginasse a causa
—. O tempo do príncipe herdeiro é muito valioso. Aconteceu muita agitação
depois da morte do imperador.
Shaddam e Fenring tinham assassinado Elrood IX.
O fato nunca poderia ser apagado e, segundo os rumores, não tinham escapado das suspeitas. Havia possibilidades de uma guerra entre o Landsraad e a Casa Corrino, a menos que o príncipe herdeiro consolidasse sua posição, e logo.
Margot insistira tanto na importância de certo assunto, para o qual tinha utilizado toda a sigilosa influência da Bene Gesserit, que lhe tinham concedido audiência ao fim de pouco tempo. O único período disponível era durante os passeios matutinos de Shaddam, hora que reservava para a reflexão pessoal (“para chorar por seu pai morto”, segundo os rumores que Fenring espalhara pela corte).
Margot dedicou um deslumbrante sorriso e um movimento de seu cabelo cor mel ao homem com cara de doninha. Seus olhos verdes o estudaram.
— Sabe muito bem o que quero falar com seu amigo, Hasimir —
disse, empregando um tom familiar que assombrou o herdeiro imperial —.
Não o preparou?
Fenring sacudiu a cabeça e Shaddam viu que se enfraquecia na presença da mulher. O mortífero homem não era o mesmo. Fazia vários dias que a delegação da Bene Gesserit tinha chegado, e Margot Rashino Zea tinha passado muito tempo com Fenring, ambos mergulhados em profundas discussões. Shaddam inclinou a cabeça e intuiu certo afeto, ou ao menos respeito mútuo, entre os dois. Impossível! — Hummmm, pensei que você expressaria isso melhor que eu, irmã
— disse Fenring —. Senhor, a encantadora Margot trouxe uma proposta interessante. Acredito que deveria escutá-la.
A Bene Gesserit olhou para Shaddam de uma forma estranha.
Percebeu meu desconforto? Perguntou-se apavorado. Conhece os motivos de meu estado de ânimo?
O suspiro da fonte afogou suas palavras. Margot agarrou as mãos de Shaddam. Seu tato era suave e quente. O futuro imperador cravou a vista em seus olhos sensuais e sentiu que recuperava a energia.
— Deve ter uma esposa, senhor — disse ela. — E a Bene Gesserit pode lhe proporcionar a melhor candidata para o senhor e para a Casa Corrino.
Shaddam, sobressaltado, olhou para seu amigo e retirou as mãos com brutalidade. Fenring sorriu, inquieto.
— Logo será coroado imperador — continuou Margot —. A Irmandade pode ajudá-lo a consolidar seu poder, mais que com aliança com apenas uma Grande Casa do Landsraad. Quando vivo, seu pai estabelecera alianças matrimoniais com as famílias Mutelli, Hagal e Ecaz, assim como com sua mãe, da Hassika V. Entretanto, nestes tempos difíceis acreditamos que será mais benéfico para o senhor aliar-se com o poder e os recursos da Irmandade Bene Gesserit. — Falava com firmeza e tom convincente.
Shaddam reparou que o séquito de irmãs se deteve e olhava para ele.
Os Sardaukar continuavam vigilantes mas imóveis, como estátuas. Olhou para o rosto perfeito de Margot, seu cabelo dourado, sua presença hipnótica.
Surpreendeu-se quando de repente ela apontou o dedo.
— Está vendo a mulher do centro? A de cabelo brônzeo?
Ao perceber o gesto, uma reverenda madre se adiantou. Shaddam forçou a vista e a achou bastante atraente. Não tão adorável como Margot, infelizmente, mas parecia jovem e fresca.
— Chama-se Anirul, uma Bene Gesserit de Fila Escondida.
— O que significa isso?
— Só um de nosso títulos, senhor, muito comum na Irmandade. Não significa nada fora da ordem e é irrelevante para seu trabalho de imperador.
— Margot fez uma pausa —. Só precisa saber que Anirul é uma de nossas melhores irmãs. Nós a oferecemos em matrimônio.
Shaddam ficou boquiaberto.
— Como?
— As Bene Gesserit são muito influentes, como já sabe. Podemos resolver suas dificuldades atuais com o Landsraad. Isso o deixaria com as mãos livres para se dedicar a seu trabalho de imperador e assegurar um lugar na história. Alguns de
seus avós o fizeram, e com resultados positivos. — Entreabriu seus olhos verdes —. Conhecemos os problemas que enfrenta, senhor.
— Sim, sim, eu sei.
Shaddam olhou para Fenring, como se o homem com cara de doninha pudesse lhe dar explicações. Depois indicou a Anirul que avançasse. Os guardas olharam inquietos, sem saber se deviam acompanhá
la.
O olhar de Margot se tornou mais intenso.
— O senhor agora é o homem mais poderoso do universo, mas o poder político está equilibrado entre o senhor, o Conselho do Landsraad, e as poderosas forças da Corporação Espacial e da Bene Gesserit. Seu matrimônio com uma das irmãs seria... mutuamente benéfico.
— Além disso, senhor — acrescentou Fenring, com os olhos maiores que de costume —, uma aliança com outra Grande Casa criaria certos...
problemas. Sua união com uma família poderia ofender outra. Não queremos provocar outra rebelião.
Embora estivesse surpreso, a sugestão não desagradou Shaddam. Um dos adágios de seu pai sobre a liderança indicava que um governante devia ouvir seus instintos. A capa enfeitiçada pendia sobre seus ombros como um peso. Talvez os poderes da Irmandade pudessem afugentar qualquer força infiltrada no objeto e no palácio.
— Essa Anirul parece muito atraente.
Shaddam observou a mulher quando avançou e parou a frente dele, com os olhos baixos.
— Então, considerará nossa proposta, senhor? — perguntou Margot, e deu um respeitoso passo para trás, à espera da decisão.
— Considerá-la? — Shaddam sorriu —. Já fiz isso. Em minha posição tenho que tomar decisões rápidas. — Olhou para Fenring com os olhos entreabertos —. Não concorda, Hasimir? — Hummmm, isso depende de se escolhe um novo objeto ou uma esposa.
— Sábio conselho na aparência — disse Shaddam —, mas falto de engenho, diria eu. Está claro que é amigo da irmã Margot, e você arrumou este encontro sabendo muito bem o pedido que ela apresentaria. Portanto, devo supor que está de acordo com a teoria da Bene Gesserit.
Fenring fez uma reverência.
— A decisão é sua, senhor, independentemente de minha opinião ou meus sentimentos para com esta bela mulher que tenho ao meu lado.
— Muito bem. Minha resposta é... sim. — A reverenda madre Anirul nem sequer sorriu —. Acha que tomei a decisão correta, Hasimir?
Fenring, pouco acostumado a ser pilhado em falta, pigarreou.
— É uma bela dama, senhor, e não tenho dúvidas que será uma esposa soberba. Por outro lado, a Bene Gesserit seria um aliado excelente, sobretudo nestes difíceis tempos de transição.
O príncipe herdeiro riu.
— Parece um de nossos diplomatas. Diga sim ou não, sem subterfúgios.
— Sim, majestade. Ou seja, digo sim, sem vacilar. Anirul é uma dama de esplêndida educação e disposição... um pouco jovem, mas provida de uma grande sabedoria. — Fenring olhou para Margot —. Tenho certeza que ela é fértil.
— Os herdeiros reais fluirão de sua virilha — respondeu Margot.
— Bela imagem! — exclamou Shaddam com uma gargalhada estentórea —. Tragam-na para que possa conhecê-la.
Margot levantou a mão, e Anirul se aproximou do príncipe herdeiro.
As outras Bene Gesserit emitiram murmúrios de satisfação.
Shaddam examinou a mulher e observou que sua futura esposa possuía um rosto delicado. Reparou em diminutas rugas ao redor dos olhos de corsa, embora o olhar fosse juvenil e os movimentos ágeis. Continuava com a cabeça baixa. Olhou um momento para o príncipe herdeiro, como se estivesse acanhada, e desviou a vista.
— O senhor tomou uma das decisões mais importantes de sua vida,
— disse Margot —. Seu reinado se iniciará sobre uma base firme.
— Isto é motivo de celebração, com toda a pompa e esplendor de que o Império for capaz — disse Shaddam —. De fato, anunciarei que o matrimônio acontecerá no mesmo dia de minha coroação.
Fenring sorriu.
— Será o maior espetáculo da história do Império.
Shaddam e Anirul trocaram um sorriso e pela primeira vez tocaram suas mãos. Quando o centro da tormenta não se move, é que está em seu caminho. Antiga sabedoria Fremem
A fragata Atreides partiu do espaçoporto de Baía City com um carregamento de estandartes, roupas finas, jóias e presentes destinados à coroação do imperador. O duque Leto queria contribuir de maneira visível à magnificência da cerimônia imperial.
— É uma boa tática — disse Thufir Hawat com o semblante sombrio
—. Shaddam sempre gostou do luxo que seu cargo traz. Quanto melhor vestido for e mais presentes lhe oferecer, mais impressionado ficará... e portanto se sentirá mais inclinado a satisfazer seu pedido.
— Pelo visto, valoriza mais a forma que a substância — murmurou Leto —. Mas as aparências enganam, e não me atrevo a subestimá-lo.
Kailea tinha posto seu vestido azul celeste e lilás para se despedir, mas ficaria no castelo, sem que ninguém visse seu belo adorno. Leto sabia quanto ela ansiava ir à corte imperial, mas se negou a mudar de opinião. O
velho Paulus também tinha lhe ensinado as virtudes da teimosia. Rhombur surgiu vestido com calças, uma camisa de seda sintética merh e um ondeante manto púrpura e cobre, as cores da Casa Vernius.
ergueu-se orgulhoso, enquanto Kailea soltava uma exclamação ao ver a valentia de seu irmão, que exibia a herança familiar. Parecia muito mais adulto, musculoso e bronzeado.
— Alguns poderiam considerar isso como arrogância, meu duque —
disse Hawat, e apontou a vestimenta de Rhombur.
— Tudo é um jogo, Thufir. Temos que recuperar a grandeza que se perdeu quando os Tleilaxu obrigaram esta nobre família a declarar-se renegada. Temos que demonstrar a falta de perspicácia da decisão de Elrood. Temos que ajudar Shaddam a compreender que a Casa Vernius poderia ser um grande aliado do trono imperial. Afinal — apontou para o orgulhoso Rhombur —, prefeririam ter como aliado este homem ou os Tleilaxu?
O Mestre de Assassinos lhe recompensou com um leve e contido sorriso.
— Eu não diria isso na cara de Shaddam.
— Diremos sem palavras — replicou Leto.
— Você será um duque formidável, meu senhor — disse Hawat.
Saíram para a pista de aterrissagem, onde o habitual complemento de soldados Atreides, dobrado em número para a ocasião, tinha terminado de subir à fragata que os conduziria ao Cruzeiro que aguardava.
Kailea deu um abraço formal em Leto. Seu vestido colorido rangeu com os movimentos, e Leto apertou a bochecha contra um pente dourado em seu cabelo acobreado escuro. Sentiu a tensão nos braços de Kailea, e intuiu que ambos desejavam fundir-se em um abraço muito mais apaixonado.
Depois, com lágrimas nos olhos, a filha de Dominic e Shando Vernius abraçou seu irmão.
— Tome cuidado, Rhombur. Isto é muito perigoso.
— Talvez seja a única maneira de limpar o nome de nossa família —
respondeu ele —. Temos que nos entregar à misericórdia de Shaddam.
Possivelmente seja diferente de seu pai. Não ganhará nada mantendo a sentença contra nós, e tem muito a perder, sobretudo considerando a agitação que percorre o Império. Necessita do apoio de todos os seus amigos.
Sorriu e produziu um elegante redemoinho com a capa púrpura e cobre.
— Os Bene Tleilax arruinarão IX — observou Kailea —. Não têm nem idéia de como realizar negócios em escala planetária.
Leto, Rhombur e Hawat seriam os representantes de Caladan.
Insolentes, talvez, e impertinentes em demasia... ou tomariam sua atitude como uma demonstração de serenidade e confiança? Leto confiava neste último.
Como duque, sabia que desafiar abertamente a política imperial era imprudente, mas seu coração o impulsionava a jogar se as apostas eram altas, em especial quando tinha a razão do seu lado. Isso também tinha sido ensinado pelo velho duque.
Seu pai lhe ensinara que um blefe executado com coragem costumava dar melhores resultados que um plano conservador e sem imaginação. Por que não este? Faria o velho duque algo similar, ou teria escolhido um método mais seguro, aconselhado por sua esposa? Leto ignorava, mas se alegrava de que agora ninguém se interporia em seu caminho, sobretudo a severa e inflexível lady Helena. Quando decidisse casar-se, sua esposa não se pareceria em nada com ela.
Tinha enviado um Mensageiro oficial ao convento das irmãs do Isolamento, para informar sua mãe que Rhombur e ele iriam a Kaitain. Não explicou seu plano nem comentou os perigos, mas queria que estivesse preparada para o pior. Como não havia mais herdeiros, lady Helena se transformaria na regente da Casa Atreides se as coisas saíssem erradas, se Leto fosse executado ou morresse em um “acidente”. Embora soubesse que ela planejara a morte de seu pai, não havia outra alternativa. Era uma questão de necessidade.
Carregaram para a bordo as últimas peças da bagagem e depois de alguns segundos a fragata sulcou os céus cinzentos de Caladan. Esta viagem seria diferente dos anteriores. Dela dependia o futuro da linhagem de Rhombur... e talvez o seu.
Tendo em conta toda a pompa cerimonial, Leto teria sorte se lhe concedessem uma audiência quatro dias depois da coroação. Nesse momento, ele e Rhombur apresentariam o pedido oficial a Shaddam, explicariam o caso e se entregariam a sua mercê.
Nos primeiros dias do novo regime, o novo imperador Padishah arriscaria-se a turvar as festividades com a confirmação de uma sentença de morte? Muitas Casas ainda viam presságios em cada ação, e havia rumores que Shaddam era tão supersticioso como qualquer outro. Este presságio seria muito claro. Com sua decisão, Shaddam estabeleceria o aspecto de seu reinado. Desejaria começar negando justiça? Leto esperava que não.
A fragata ducal ocupou o lugar designado na enorme e lotada área de carga do Cruzeiro. Lançadeiras cheias de passageiros manobravam com cautela para ocupar seu lugar, junto com transportes e naves de carga que guardavam os produtos comerciais de Caladan: arroz pundi, medicamentos extraídos de algas marinhas, tapeçarias e pescado congelado. Naves particulares ainda estavam carregando mercadorias. A enorme nave da Corporação ia de planeta em planeta em sua rota indireta para Kaitan, e a área de carga estava abarrotada de naves vindas de outros planetas do Império, que iam assistir à coroação.
Enquanto esperavam, Thufir Hawat olhou para o cronômetro montado em uma parede da fragata.
— Ainda faltam três horas antes que o Cruzeiro esteja preparado para a partida. Sugiro que utilizemos esse tempo para treiná-los, meu senhor.
— Você sempre sugere isso, Thufir — disse Rhombur. — Porque são jovens e necessitam de muita instrução — replicou o Mentat.
A luxuosa fragata de Leto contava com tantas diversões, que seu séquito e ele podiam esquecer que estavam fora do planeta, mas já relaxara o bastante, e o nervosismo lhe injetava uma nervosa energia que precisava descarregar.
— Tem algo em mente, Thufir? O que se pode fazer aqui?
Os olhos do Mestre de Assassinos se iluminaram.
— No espaço há muitas coisas que um duque e um príncipe —
apontou para Rhombur — podem aprender.
Uma nave de combate sem asas, do tamanho de um ornitóptero, saiu da fragata e se afastou do Cruzeiro. Leto dirigia os controles, Rhombur estava no assento do co-piloto. Leto recordou por um instante sua breve tentativa de exercitar-se na nave orbital ixiana. Quase um desastre.
Hawat, atrás de ambos os jovens, sustentava um protetor móvel contra colisões. Com seu arnês de segurança parecia um pilar de sabedoria, e olhava com expressão severa para seus dois tutelados. Um painel de emergência flutuava a frente de Hawat.
— Esta nave é diferente de um bote no mar, jovens senhores — disse Hawat —. Ao contrário das naves maiores, aqui temos gravidade zero, com todas as vantagens e restrições que isso trás. Ambos praticaram com as simulações, mas
agora estão a ponto de fazê-lo no espaço real.
— Eu serei o primeiro a disparar — disse Rhombur. Era o acordo ao qual tinham chegado.
— E eu piloto — acrescentou Leto —, mas trocaremos de lugar dentro de meia hora.
— Não é provável, senhor duque — disse Hawat —, que encontre uma situação que exija um combate, mas...
— Sim, sim, sempre devo estar preparado — interrompeu Leto —.
Se me ensinou algo, Thufir, é isso.
— Primeiro têm que aprender a manobrar.
Hawat fez Leto descrever uma série de curvas e arcos pronunciados.
mantinham-se a distância do enorme Cruzeiro, mas perto o bastante para que constituísse um verdadeiro obstáculo àquela velocidade. Em certo momento, Leto reagiu com muita rapidez e lançou a nave em uma incontrolada queda em espiral, que solucionou ajustando os motores de reação em direção contrária como freios.
— Reação e contra-reação — disse Hawat —. Quando você e Rhombur sofreram aquele acidente de navio em Caladan, puderam encalhar em um recife para evitar que a situação piorasse. Aqui, entretanto, não existe rede de segurança. Se perderem o controle, não se recuperarão até tomar as contramedidas necessárias. Poderiam cair e se desintegrar na atmosfera ou, já no espaço, se precipitar no vazio. — Er, hoje não faremos nada disso — disse Rhombur. Olhou para seu amigo —. Gostaria de praticar um pouco de tiro ao alvo, Leto, se puder manter estável este traste por alguns minutos.
— Sem problema.
Hawat se agachou entre os dois jovens.
— Trouxe alvos de treino. Rhombur, tente destruir tantos quantos puder. Pode utilizar as armas que desejar. Raios laser, explosivos convencionais ou projéteis de multifase. Mas antes, meu senhor — apertou o ombro de Leto —, vamos para o outro lado do planeta, onde não corremos o risco de acertar o Cruzeiro se os
disparos de Rhombur falharem.
Leto deu uma risada e voou sobre as nuvens de Caladan em direção à face escura do planeta. Lá embaixo, brilhavam fileiras de luzes das cidades que acompanhavam as costas longínquas. Atrás dele, o brilho do sol de Caladan formava um halo contra o eclipse escuro do planeta.
Hawat lançou uma dúzia de globos brilhantes aleatoriamente.
Rhombur segurou o controle de armas, uma alavanca provida de painéis multicoloridos, e disparou em todas as direções. Quase todos os projéteis erraram, embora volatilizasse um globo com um jorro do canhão multifase.
Mas tinha sido uma casualidade, e Rhombur não se orgulhou disso.
— Paciência e autodomínio, príncipe — disse Hawat —. Deve utilizar cada disparo como se fosse o último. Não despreze sua importância.
Quando tiver aprendido a acertar o alvo, poderá ser mais liberal com as munições.
Leto perseguiu os globos, enquanto Rhombur disparava. Quando conseguiu eliminar por fim todos os alvos, Leto e ele trocaram de posições e continuaram praticando as manobras. Duas horas transcorreram em um abrir e fechar de olhos, e por fim o Mentat ordenou que retornassem ao Cruzeiro da Corporação, afim de acomodarem-se antes que o Navegante dobrasse o espaço e guiasse a nave para Kaitain.
Leto, acomodado em sua poltrona coroada com o símbolo do falcão, contemplou pela janela as numerosas naves que enchiam a área do Cruzeiro. Bebeu um gole de vinho quente, que o fez lembrar Kailea e a noite em que tinham examinado as posses do velho duque. Desejava interlúdios plácidos e companhia carinhosa, embora soubesse que passaria muito tempo antes que sua vida serenasse de novo.
— As naves estão muito juntas — disse —. Isso me deixa nervoso.
Dois transportes Tleilaxu estavam perto da fragata Atreides. Do outro lado dos transportes, uma fragata Harkonnen estava no lugar que a Corporação lhe tinha atribuído.
— Não há nada com que se preocupar, meu duque — disse Hawat
—. Segundo as regras da guerra ditadas pela Grande Convenção, ninguém pode
disparar uma arma dentro de um Cruzeiro. Qualquer Casa que violasse essa norma não voltaria a ter acesso a nenhuma nave da Corporação. Ninguém correria esse risco.
— Nossos escudos estão conectados, para o caso de precisarmos? —
perguntou Leto.
— Infernos carmesins, nada de escudos, Leto! — disse Rhombur, e depois riu —. Você devia ter aprendido algo mais sobre os Cruzeiros em IX... ou passava todo o tempo olhando para minha irmã?
Leto avermelhou.
— A bordo de um Cruzeiro — explicou Rhombur — os escudos interferem com o sistema de propulsão Holtzman, e impedem que o espaço se dobre. Um escudo ativo interrompe o transe de navegação de um Navegante. Morreríamos no espaço.
— Também está proibido por nosso contrato de transporte com a Corporação — acrescentou Hawat, como se esse motivo legal tivesse mais peso.
— De modo que estamos aqui desprotegidos, nus e confiantes —
grunhiu Leto, que continuava olhando para a nave Harkonnen.
— Consegue me fazer lembrar quantas pessoas me desejam ver morto — disse Rhombur com uma careta.
— Todas as naves que estão dentro deste Cruzeiro são igualmente vulneráveis, príncipe — disse Hawat —, mas o maior perigo o aguarda em Kaitain. No momento, eu penso em descansar um pouco. A bordo de nossa fragata estamos a salvo.
Leto olhou para o longínquo teto do Cruzeiro. Em uma minúscula câmara de navegação, um Navegante, em um contêiner de gás de especiaria alaranjado, controlava a gigantesca nave.
Apesar das garantias de Hawat, Leto continuou nervoso. Ao seu lado, Rhombur também se remexia, mas se esforçava por dissimular seu nervosismo. O jovem duque exalou um suspiro e se reclinou no assento, com a intenção de acalmar seus nervos e preparar-se para a crise política que ia desencadear em Kaitain. As tormentas geram tormentas. A raiva gera raiva. A vingança gera vingança. As
guerras geram guerras. Aforismo Bene Gesserit
As escotilhas do casco externo do Cruzeiro estavam seladas, as aberturas fechadas, e a nave preparada para partir. O Navegante não demoraria para cair em transe, e a viagem se iniciaria. O próximo e último destino da rota seria Kaitain, onde representantes das Grandes e Pequenas Casa do Landsraad tinham começado a chegar para assistir a coroação do imperador Padishah Shaddam IV.
O Navegante afastou o gigantesco Cruzeiro do poço gravitacional de Caladan e saiu para o espaço, preparado para ligar os enormes motores Holtzman que o transportariam de salto em salto através da dobra espacial.
Os passageiros das fragatas alojadas na área de carga não sentiram movimento algum, nem vibrações de motores, nem mudança de posição, nem som. As naves apinhadas continuavam em seus espaços isolados como tabuletas de dados no complexo de uma biblioteca. Todas as Casas seguiam as mesmas normas, e depositavam sua fé na capacidade de um único ser mutante para encontrar uma rota segura.
Como ovelhas em um matadouro, pensou Rabban, enquanto subia em sua nave invisível.
Poderia ter volatilizado uma dúzia de fragatas em um abrir e fechar de olhos. Liberado seus instintos. Rabban teria sentido muito prazer com essa matança, a jubilante sensação da violência mais extravagante...
Mas esse não era o plano, ao menos por hora.
Seu tio tinha desenvolvido um estratagema de extrema delicadeza.
“Preste atenção e aprenda”, havia dito. Bom conselho, admitiu Rabban.
Estava descobrindo os benefícios da sutileza e o prazer da vingança saboreada durante longo tempo.
Isso não significava que Rabban renunciasse aos métodos mais ásperos de violência, nos quais era um especialista. Ao contrário, acrescentaria os métodos do barão a seu repertório homicida. Seria uma pessoa muito capacitada quando herdasse a liderança da Casa Harkonnen.
Em certo momento, as escotilhas da fragata Harkonnen se abriram, e o campo
de contenção diminuiu o suficiente para permitir que a esbelta nave de guerra de Rabban descesse ao vazio hermético da área de carga do Cruzeiro.
Antes que alguém pudesse ver a nave, manipulou os controles como Piter De Vries tinha ensinado e conectou o não acampo. Não percebeu a menor diferença, não viu nenhuma mudança nas imagens transmitidas por seus monitores. Mas agora era um fantasma assassino: invisível, invencível.
Para qualquer observador, e para os sensores externos, todos os sinais eletromagnéticos que incidissem no não-campo ricocheteariam e transformariam a nave em um lugar vazio. Os motores da nave de ataque, mais silenciosos que um sussurro, não emitiam sons ou vibrações detectáveis.
Ninguém suspeitaria de nada. Ninguém seria capaz de imaginar uma nave invisível.
Rabban ativou os controles de manobra e afastou em silêncio o mortífero aparelho da fragata Harkonnen, em direção ao veículo Atreides.
A nave de Rabban era muito grande para seu gosto, pouco manejável e excessivamente volumosa para deslocar-se rapidamente, mas sua invisibilidade e silêncio absoluto faziam a diferença.
Seus dedos grossos manipularam os painéis de controle, e experimentou uma mescla de alegria, poder, glória e satisfação. Logo, uma nave cheia de asquerosos e sujos Tleilaxu seria destruída. Centenas de passageiros morreriam.
Antes, Rabban sempre utilizara sua posição na Casa Harkonnen para conseguir o que desejava sem que ninguém contestasse, para manipular e matar os poucos desventurados que se interpunham em seu caminho. Claro que fazia isso apenas para se divertir. Agora estava realizando uma função vital, um ato do qual dependia o futuro da Casa Harkonnen. O barão o escolhera para esta missão, e jurou que o faria bem. Não queria ser enviado de volta para seu pai.
Rabban manobrou a nave com suavidade, sem pressa. Tinha toda a viagem transe espacial para desencadear uma guerra.
Rodeado pelo não campo, sentia-se como um franco-atirador. Claro que este era um tipo de operação diferente, que exigia mais sofisticação que aniquilar vermes de areia em Arrakis, mais delicadeza que caçar crianças na reserva florestal dos Harkonnen. Neste caso, seu troféu seria uma mudança na política imperial. Talvez pendurasse os troféus de maior poder e fortuna para a Casa Harkonnen em sua parede, dissecados e montados. A nave invisível se aproximou da fragata
Atreides. Quase podia tocá-la.
Rabban conectou seus silenciosos sistemas de armas e verificou se todos os seus projéteis de multifase estivessem preparados. Dadas as circunstâncias, a manipulação seria manual. A queima roupa era impossível errar.
Rabban girou sua nave e apontou os canhões para dois transportes Tleilaxu que, graças a um generoso suborno pago pelos Harkonnen à Corporação, estavam estacionados junto à fragata Atreides.
Vindos de Tleilax Sete, não havia dúvida de que as naves carregavam produtos genéticos, a especialidade dos Bene Tleilax. Cada nave estaria sob comando de Mestres Tleilaxu, com uma tripulação de Dançarinos Faciais, seus servos metamorfos. A carga seria carne de bacer, enxertos animais, ou alguns daqueles abomináveis gholas, clones cultivados a partir de seres humanos mortos e alimentados em contêineres de axlotl, para que famílias aflitas pudessem ver de novo seus entes queridos falecidos. Tais produtos eram muito caros, por isso os Tleilaxu eram riquíssimos, apesar de jamais lhes ser concedido a patente de Grande Casa.
Isto era perfeito! Enquanto todo o Landsraad escutava, o jovem duque Leto Atreides tinha jurado vingança contra os Tleilaxu por todas as maldades cometidas contra a Casa Vernius. Leto não fez rodeios. Todos sabiam o quanto odiava os ocupantes daqueles transportes Tleilaxu.
O renegado Rhombur Vernius estava a bordo da fragata Atreides, outra pessoa que seria apanhada na rede Harkonnen, outra vítima da iminente e sangrenta guerra entre os Atreides e os Tleilaxu.
O Landsraad acusaria Leto de ter perdido a cabeça, induzido a cometer atos ofensivos por seus amigos ixianos exilados, e pela inconsolável dor causada pela morte de seu pai. Pobre Leto, um jovem tão pouco preparado para lidar com as pressões a que era submetido...
Rabban sabia muito bem a que conclusão o Landsraad e o Império chegariam, porque seu tio e, De Vries o Mentat pervertido lhe tinham explicado detalhadamente.
Rabban se colocou a frente da fragata Atreides, invisível e protegido pelo anonimato. Apontou para as naves Tleilaxu. Com um sorriso em seus lábios grossos, estendeu a mão para os controles.
E abriu fogo.
Tio Holtzman foi um dos inventores ixianos mais férteis da história. Costumava cair em transes criativos e se fechava durante meses para trabalhar sem interrupções. Às vezes, quando saía, podia ser hospitalizado, e sua prudência e bem-estar sempre eram preocupantes, Holtzman morreu jovem, pouco mais de trinta anos normais, mas os resultados de seus esforços mudaram a galáxia para sempre. Cápsulas biográficas, um videolivro imperial
Quando Rabban partiu na fragata Harkonnen, orgulhoso de sua missão, o barão se sentou em uma cadeira de observação e contemplou a imensa área de carga do Cruzeiro. O Navegante já tinha ligado os motores e enviado a gigantesca nave através da dobra espacial. As naves menores estavam alinhadas, ignorantes do desastre que se abateria sobre elas...
Embora soubesse para onde olhar, não conseguia ver a nave invisível, é óbvio. O barão consultou seu cronômetro e soube que a hora se aproximava. Contemplou a fragata Atreides, silenciosa e arrogante em seu ancoradouro, e cravou a vista na nave Tleilaxu. Repicou com os dedos sobre o braço da cadeira, olhou e esperou.
Passaram-se longos minutos.
Enquanto planejava o ataque, o barão Harkonnen planejara que Rabban utilizasse um canhão laser para atacar às naves Tleilaxu, mas Chobyn, o desenhista richesiano da nave experimental, tinha deixado uma advertência em suas notas. O novo não campo estava relacionado de alguma forma com o Efeito Holtzman primitivo, que dotava os alicerces para os escudos. Até as crianças sabiam que, quando o raio de um canhão laser acertava um escudo, a explosão resultante era semelhante a uma detonação atômica.
O barão não queria correr esse risco, mas como tinha eliminado o inventor richesiano, não podia lhe fazer mais nenhuma pergunta. Talvez devesse ter pensado nisso antes.
Bem, não importava. Não eram necessários canhões laser para infligir danos às naves Tleilaxu, pois as naves transportadas pelos Cruzeiros não podiam ativar seus escudos. Os projéteis de multifase (os projéteis de artilharia de alta potência recomendados pela Grande Convenção para diminuir os danos colaterais) encarregariam-se do trabalho. Esses projéteis penetravam na fuselagem de uma
nave e destruíam seu interior com uma detonação controlada, depois da qual, as explosões das duas fases seguintes extinguiam os incêndios e salvavam os restos da fuselagem. Seu sobrinho não compreenderia os detalhes técnicos do ataque.
Rabban só sabia apontar e disparar. Era tudo que precisava saber.
Por fim, o barão viu uma diminuta explosão de fogo amarelo e branco, e dois mortíferos projéteis de multifase saíram disparados, como se tivessem sido lançados da parte dianteira da fragata Atreides. Os projéteis, parecendo fragmentos de chamas viscosas, acertaram o alvo. Os transportes Tleilaxu bambolearam e um brilho vermelho iluminou seu interior.
Oh, como o barão desejava que outras naves tivessem presenciado a cena!
Um impacto direto incinerou o casco de uma nave em questão de segundos. O outro projétil alcançou a seção de cauda da segunda nave Tleilaxu, e a inutilizou sem matar ninguém. Isso daria as vítimas uma excelente oportunidade de responder ao fogo dos agressores Atreides.
Então começaria a escalada.
— Bem! — sorriu o barão, como se falasse com a frenética tripulação Tleilaxu —. Vocês já sabem o que devem fazer. Sigam seu instinto.
Depois de disparar, a nave de Rabban se afastou entre duas fragatas estacionadas.
Por uma freqüência de emergência, ouviu a nave Tleilaxu transmitindo mensagens de socorro.
— Transportes Bene Tleilax atacados pela fragata Atreides!
Violação da lei da Corporação! Solicitamos ajuda imediata!
Nesse momento, o Cruzeiro se encontrava no vazio, em trânsito entre duas dimensões. Não podiam revidar nem receber intervenção da lei até que saíssem da dobra espacial e chegassem a Kaitain. Mas então já seria muito tarde.
Rabban confiava que aconteceria algo mais que uma simples briga de bar. Seus amigos e ele iam com freqüência a bares dos povoados próximos a Giedi Prime. Armavam confusão, quebravam algumas cabeças e iam embora.
Uma tela do painel de controle mostrou um gráfico da imensa área de carga, onde pontos cinzentos representavam cada nave. Os pontos fixaram laranjas
quando as naves de várias Grandes Casas ligaram suas armas, preparadas para defender-se na iminente guerra total.
Rabban, que se sentia como um camundongo invisível no chão de uma sala de baile abarrotada, guiou sua não-nave por trás de um cargueiro Harkonnen, para que ninguém visse que este abria uma escotilha e deixava entrar um assassino invisível.
Já a salvo dentro da nave, Raban desligou o não campo, e a nave se tornou visível em frente a tripulação Harkonnen. Abriu a escotilha e saltou para a plataforma, enquanto secava o suor da testa. Seus olhos brilhavam de entusiasmo.
— As outras naves já começaram a disparar?
Soaram buzinas. Vozes em pânico eram ouvidas pelo sistema de comunicações, como metralha de uma pistola maula. Vozes frenéticas que falavam em galach imperial e códigos de batalha ressoaram pelos comunicadores do Cruzeiro.
— Os Atreides declararam guerra aos Tleilaxu! Dispararam!
Rabban gritou à tripulação:
— Ativem as armas! Vigiem que ninguém dispare em nós! Esses Atreides são uns canalhas! — Soltou uma risada baixa.
Uma grua depositou a pequena nave entre duas paredes falsas.
Alguns painéis se fecharam, e nem sequer os sensores da Corporação poderiam detectar a nave. De qualquer modo, ninguém procuraria a nave, já que não existiam veículos voadores invisíveis.
— Defenda-se! — gritou outro piloto pelo sistema de comunicação.
A seguir se ouviu uma mensagem Tleilaxu.
— Anunciamos que temos a intenção de responder à agressão.
Estamos em nosso direito. Não houve provocação... aconteceu uma flagrante violação das normas da Corporação.
Outra voz, rouca e profunda:
— Mas não se vêem armas na fragata Atreides. Pode ser que não tenham sido eles os agressores.
— Isso é um truque! — gritou o Tleilaxu —. Uma de nossas naves foi destruída e a outra sofreu avarias graves. Não viram com seus próprios olhos? A Casa Atreides tem que pagar caro por sua ousadia.
Perfeito, pensou Rabban, admirado com o plano do seu tio. A partir desse momento crucial podiam ocorrer várias coisas, mas o plano continuaria funcionando. Todos sabiam que o duque Leto era impetuoso, e acreditavam que tinha cometido um ato covarde. Com sorte, sua nave seria destruída em um ataque de represália, e o sobrenome Atreides afundaria na infâmia graças a ação traiçoeira de Leto.
Ou podia ser o início de uma longa e sangrenta inimizade entre a Casa Atreides e os Tleilaxu.
Em qualquer caso, o jovem duque não escaparia.
Na ponte de comando da fragata Atreides, Leto fez um esforço para acalmar-se. Como sabia que sua nave não tinha disparado, demorou alguns momentos para compreender as acusações.
— Os disparos aconteceram muito perto, meu duque — disse Hawat
—, pouco abaixo de nossa proa.
— Então não foi um acidente? — respondeu Leto, abatido. A nave Tleilaxu destruída ainda emitia um brilho alaranjado, enquanto o piloto da outra nave não parava de vociferar.
— Infernos carmesins! Alguém disparou contra os Bene Tleilax —
disse Rhombur, enquanto olhava por uma janela de plaz —. E já era hora, se quer saber minha opinião.
Leto ouviu a cacofonia da rádio, incluindo as chamadas de auxílio dos Tleilaxu. A princípio se perguntou se devia oferecer ajuda as naves danificadas, mas o piloto Tleilaxu começou a acusar os Atreides e a pedir seu sangue.
Observou o casco danificado da nave Tleilaxu destruída, e viu que os canhões de seu companheiro ferido giravam para ele.
— Thufir! O que ele está fazendo?
O comunicador revelou uma furiosa discussão entre os Tleilaxu e quem se negava a acreditar na culpa dos Atreides. Pouco a pouco, mais vozes foram se
somando à dos Tleilaxu. Alguns afirmavam ter visto a nave Atreides disparar. Isso estava gerando uma situação perigosa.
— Infernos carmesins, acreditam que você fez isso, Leto — disse Rhombur.
Hawat já se precipitara para o painel de armas.
— Os Tleilaxu estão preparados para contra-atacar, meu duque.
Leto abriu um canal do sistema de comunicações. Em questão de segundos, seus pensamentos se aceleraram e comprimiram de um modo que o assombrou porque não era um Mentat. Era como um sonho, em que tudo se comprime, a incrível sucessão de imagens que conforme contavam, passava pela mente de uma pessoa às portas da morte. Um pensamento muito negativo. Tinha que encontrar uma solução
— Atenção! — gritou ao microfone —. Aqui fala o duque Leto Atreides. Não disparamos nas naves Tleilaxu. Nego todas essas acusações.
Sabia que não acreditariam e que não poderia evitar uma explosão de hostilidades que poderia dar lugar a uma guerra total. E então soube o que devia fazer.
Rostos do passado desfilaram por sua mente, e se aferrou a uma lembrança de seu avô paterno, Kean Atreides, que olhava-o com ansiedade, com um rosto sulcado de rugas que parecia um mapa das experiências de sua vida. Seus bondosos olhos cinzentos, iguais aos seus, refletiam uma força que seus inimigos costumavam ignorar, para azar eles.
Oxalá possa ser tão forte como meus antepassados...
— Não dispare — disse ao piloto Tleilaxu, com a esperança de que os outros capitães o escutassem.
Outra imagem se formou em sua mente: seu pai, o velho duque, com os olhos verdes e a mesma expressão, mas em um rosto que tinha a idade de Leto, adolescente. Mais imagens desfilaram em um segundo: seus tios e primos richesianos, os leais criados, servos, membros do governo e militares. Todos exibiam a mesma expressão, como se fossem um organismo múltiplo, e o estudavam de diferentes perspectivas, à espera de tomar uma decisão sobre ele. Não viu amor, aprovação nem falta de respeito em seus rostos, apenas a mais absoluta indiferença, como se na verdade tivesse cometido um ato vil e já não existisse.
Apareceu fugazmente o rosto depreciativo de sua mãe.
Não confie em ninguém, pensou.
Foi tomado por uma sensação de desalento, e logo a seguir de absoluta solidão. No mais profundo de seu ser, Leto viu seus próprios olhos cinzas, que o observavam inexpressivamente. Fazia frio ali, e estremeceu.
A liderança é uma tarefa solitária.
A dinastia Atreides desapareceria com ele naquele momento, ou geraria filhos cujas vozes se juntariam as de todos os Atreides desde os dias dos antigos gregos? Tentou ouvir seus filhos na cacofonia, mas não sentiu sua presença.
Os olhos acusadores não vacilaram.
Leto pensou: O governo é uma sociedade protetora. O povo está sob sua responsabilidade, prosperará ou morrerá segundo as decisões que eu tomar.
As imagens e os sons desapareceram, e sua mente se transformou em um lugar escuro e silencioso.
Sua viagem mental tinha durado um segundo, e agora Leto sabia exatamente o que devia fazer, sem pensar nas conseqüências.
— Ative os escudos! — gritou.
Rabban, que olhava para uma tela de observação situada no interior da inocente fragata Harkonnen, ficou surpreso pelo que viu. Subiu correndo de uma coberta para a seguinte, até que se plantou, congestionado e sem fôlego, diante de seu tio. Antes que o indignado mas tímido piloto Tleilaxu pudesse abrir fogo, um escudo começou a brilhar ao redor da nave Atreides.
Mas os escudos eram proibidos pelo contrato de transporte da Corporação, porque interrompiam o transe do Navegante e desorganizavam o campo da dobra espacial. Os enormes geradores Holtzman do Cruzeiro não funcionariam bem com a interferência. Tanto Rabban como o barão praguejaram.
O Cruzeiro vibrou quando saiu da dobra espacial.
Na câmara de navegação situada no alto do recinto de carga, o veterano Navegante sentiu que seu transe se dissolvia. Suas ondas cerebrais se paralisaram.
Os motores Holtzman grunhiram, e a dobra espacial ondeou a seu redor, perdeu estabilidade. Algo falhara na nave. O Navegante girou em seu contêiner de melange. Seus pés e mãos se agitaram, e pressentiu a escuridão que o envolvia.
A imensa nave se desviou de sua rota e saiu catapultada para o universo real.
Enquanto Rhombur caía ao chão atapetado da fragata, Leto agarrou um amparo para não perder o equilíbrio. Murmurou uma prece silenciosa.
Sua tripulação e ele só podiam torcer para que o Cruzeiro não emergisse dentro de um sol.
Thufir Hawat, como uma árvore ao lado de Leto, conseguiu manter o equilíbrio por pura força de vontade. O professor Mentat estava em transe, atravessando escuras regiões de lógica e análise. Leto não estava seguro de que suas projeções pudessem lhes ser úteis naquele momento. Talvez as conseqüências de um desastre como resultado de ativar um escudo dentro de um Cruzeiro eram tão complicadas que exigiam camadas e camadas de análise.
— Primeira projeção — anunciou Hawat por fim. Umedeceu seus lábios —. Expulsos da dobra espacial, as probabilidades de colidir contra um corpo celeste estão em uma entre...
A fragata sofreu uma sacudida, e algo golpeou a coberta. A comoção afogou as palavras de Hawat, e o homem voltou a mergulhar no reino secreto de seu transe Mentat.
Rhombur ficou em pé e ajustou os auriculares sobre seu cabelo loiro despenteado. — Ativar escudos em um Cruzeiro em movimento? É tão errado como, er, alguém disparar contra os Tleilaxu. — Olhou para seu amigo com os olhos arregalados —. Parece um dia apropriado para cometer loucuras.
Leto se inclinou sobre um painel de instrumentos e realizou alguns ajustes.
— Não tive opção — disse —. Agora compreendo. Alguém tentou nos culpar pelo ataque aos Tleilaxu, um incidente que poderia desencadear uma guerra entre as facções do Landsraad. Imagino todos os antigos feudos entrando em jogo, estratégias de batalhas planejadas aqui mesmo, no Cruzeiro. — secou a testa. Havia sentido a intuição em suas vísceras, como algo deduzido por um Mentat —. Tive que parar tudo, Rhombur, antes que as hostilidades explodissem.
O movimento errático do Cruzeiro cessou por fim. Os ruídos de fundo emudeceram.
Hawat saiu por fim do transe.
— Têm razão, meu duque. Quase todas as Casas têm um representante a bordo deste Cruzeiro, para assistir à coroação e o casamento do imperador. As estratégias bélicas planejadas aqui teriam se estendido ao coração do Império, se conselhos de guerra seriam reunidos e alianças entre planetas e exércitos seriam feitas. De forma inevitável, teriam surgido mais facções, como ramos de um Jacarandá. Desde a morte de Elrood as alianças estão mudando, ao mesmo tempo em que as Casas procuram novas oportunidades.
O rosto de Leto avermelhou. Seu coração martelava.
— Há paióis de pólvora espalhados ao longo do Império, e um deles se encontra nesta área de carga. Preferiria ver todos os ocupantes do Cruzeiro mortos, porque isso não seria nada comparado com a alternativa.
Conflagrações em todos os cantos do universo. Milhões de mortos.
— Caímos numa armadilha? — perguntou Rhombur.
— Se a guerra explodir aqui, ninguém se importará se nós dispararmos ou não. Temos que cortar as hostilidades pela raiz, e depois haverá tempo para descobrir as respostas. — Leto agarrou um microfone e falou com voz firme e autoritária —. O duque Leto Atreides chama o Navegante da Corporação. Responda, por favor.
A linha crepitou e uma voz ondulante respondeu, forte e distorcida, como se o Navegante fosse incapaz de recordar como falar com simples humanos.
— Todos poderíamos ter morrido, Atreides. — Pronunciou o nome da Casa de uma forma que recordou a Leto a palavra “traidor” —. Estamos em um setor desconhecido. Dobra espacial dissolvida. Escudos impedem transe de navegação. Baixe os escudos imediatamente.
— Não posso fazer isso — respondeu Leto.
Pelo comunicador ouviu que chegavam mensagens à câmara de navegação, acusações e exigências iradas das naves que viajavam a bordo.
O Navegante voltou a falar.
— Atreides tem que desconectar os escudos. Obedeça as leis e normas da Corporação.
— Negativo. — Leto continuava firme, mas sua tez tinha empalidecido e sua expressão mal ocultava seu horror —. Não acredito que possa nos tirar daqui enquanto meus escudos estiverem ativados, de modo que ficaremos aqui, em qualquer lugar que seja, até que aceite meu...
pedido.
— Depois de destruir uma nave Tleilaxu e ativar seus escudos têm a desfaçatez de fazer uma solicitação! — gritou uma voz com sotaque Tleilaxu.
— Atreides impertinente. — Era a voz do Navegante, que soava como se estivesse submerso em água.
Seguiram-se mais comunicações, que o Navegante silenciou com brutalidade.
— Faça seu pedido, Atreides.
Leto passeou a vista pelos olhares inquisitivos de seus amigos, e depois falou pelo sistema de comunicação,
— Primeiro, asseguro-lhe que nós não disparamos contra os Tleilaxu, e nossa intenção é provar isso. Se baixarmos nossos escudos, a Corporação tem que garantir a segurança de minha nave, da minha tripulação, e transferir a jurisdição deste assunto ao Landsraad
— Ao Landsraad? A nave se encontra sob jurisdição da Corporação Espacial.
— São obrigados pela honra — disse Leto —, como os membros do Landsraad, como eu mesmo. No Landsraad existe um procedimento legal conhecido como Julgamento de Confisco.
— Meu senhor! — protestou Hawat —. Não pode sacrificar a Casa Atreides, todos seus séculos de tradição... Leto desligou o microfone e apoiou uma mão no ombro do Mentat.
— Se milhões de seres tiverem que morrer para conservar o feudo, Caladan não valerá esse preço. — Thufir Hawat baixou a vista em sinal de aquiescência —. Além disso, sabemos que nós não disparamos. Um Mentat de sua categoria não teria muito trabalho para prová-lo.
Leto voltou a ligar o microfone.
— Me submeterei ao Julgamento de Confisco, mas todas as hostilidades têm que cessar imediatamente. Não haverá revanche, ou me negarei a desativar meus escudos, e este Cruzeiro permanecerá aqui, no meio do nada.
Leto pensou em blefar: ameaçar disparar os canhões laser contra seus próprios escudos para provocar a temida explosão atômica que pulverizaria o Cruzeiro. Em vez disso, decidiu mostrar-se razoável.
— Do que serve prolongar a discussão? Rendi-me, e me entregarei ao Landsraad em Kaitain para ser submetido ao Julgamento de Confisco.
Estou tentando apenas impedir uma guerra em grande escala por culpa de uma conclusão errada. Nós não atacamos ninguém. Estamos dispostos a enfrentar as acusações e as conseqüências, caso nos declarem culpados.
A linha continuou muda, e depois voltou a vida com um rangido.
— A Corporação Espacial aceita as condições. Garanto a segurança da nave Atreides e sua tripulação.
— Nesse caso, escute isto — disse Leto —. Sob as normas do Julgamento de Confisco, eu, duque Leto Atreides, renunciarei a todos os meus direitos e me porei a mercê do tribunal. Nenhum outro membro de minha Casa poderá ser detido ou submetido a procedimento legal.
Reconhece a jurisdição do Landsraad nesta matéria?
— Sim — respondeu o Navegante com tom mais firme, mais acostumado a falar agora.
Por fim, ainda nervoso, Leto desativou os escudos da fragata e se jogou em sua poltrona, tremulo. As outras naves desconectaram suas armas, embora a ira de suas tripulações ainda não tivesse acabado.
Agora começaria a verdadeira batalha. Na longa história de nossa Casa, a desgraça nos perseguiu incansavelmente, como se fôssemos sua presa. Quase poderia acreditar na maldição de Atreo, que remonta à antiga Grécia da Velha Terra. Duque Paulus Atreides.
De um discurso a seus generais.
No passeio ladeado por prismas do palácio imperial, a prometida do príncipe herdeiro, Anirul, e sua acompanhante, Margot Rashino Zea, cruzaram com três jovens moças da corte imperial. A cidade se estendia até o horizonte, e grandes obras enchiam as ruas e edifícios, preparativos para a espetacular cerimônia de coroação e as posteriores bodas do imperador.
O trio de cortesãs conversava animadamente, mas mal podiam mover-se com seus pesados vestidos, plumas ornamentais reluzentes e pesadas jóias. Não obstante, emudeceram quando as Bene Gesserit vestidas de negro se aproximaram.
— Um momento, Margot. — Anirul parou em frente as três jovens com penteado complicado e as espetou, com apenas um pingo de Voz —: Não percam seu tempo com fofocas. Façam algo produtivo, para variar.
Esperam-nos muitos preparativos antes que todos os representantes cheguem.
Os olhos de uma mulher, uma beldade de cabelo escuro, acenderam-se de ira por um instante, mas depois pensou melhor. Seu rosto adquiriu uma expressão conciliadora.
— Têm razão, senhora — disse, e sem mais conduziu suas acompanhantes para uma ampla arcada de rocha de lava salusana que levava aos aposentos dos embaixadores.
Margot trocou um olhar com a Madre Kwisatz.
— Mas por caso as fofocas não são comuns nas cortes imperiais, Anirul? — brincou —. Não é sua principal ocupação? Eu diria que essas damas estavam realizando sua tarefa de uma maneira admirável.
Anirul olhou carrancuda para ela, e pareceu mais velha do que sua aparência sugeria.
— Deveria ter lhes dado instruções específicas. Essas mulheres são meros adornos, como as fontes. Não têm a menor ideia de como ser produtivas.
Depois de anos vivendo em Wallach IX, e de descobrir através da Outra Memória a magnitude das realizações das Bene Gesserit ao longo da história imperial, considerava preciosas as vidas humanas, cada uma como uma faísca diminuta na fogueira da eternidade. Mas essas cortesãs não aspiravam outra
coisa além de ser petiscos apetitosos para os homens poderosos.
Na realidade, Anirul não possuía jurisdição sobre essas mulheres, nem sequer como futura esposa do príncipe herdeiro. Margot apoiou uma mão delicada em seu braço.
— Tem que ser menos impulsiva, Anirul. A madre superiora reconhece seu talento e aptidões, mas diz que tem que se controlar. Todas as formas de vida que prosperam se adaptam a seu ambiente. Agora está na corte imperial, e tem que se adaptar ao seu novo ambiente. As Bene Gesserit têm que trabalhar como se fossem invisíveis.
Anirul sorriu com ironia.
— Sempre considerei minha franqueza uma de minhas principais qualidades. A madre superiora Harishka sabe. Permite-me falar de temas polêmicos e aprender coisas que, de outra forma, não teria aprendido.
— Se os outros forem capazes de escutar.
Margot arqueou suas sobrancelhas pálidas.
Anirul continuou passeando, com a cabeça erguida como uma imperatriz. Pedras preciosas brilhavam na diadema que cobria seu cabelo brônzeo. Sabia que as cortesãs cochichavam sobre ela, perguntavam-se que missão secreta tinha levado a corte às Bene Gesserit, que feitiços tinham usado para seduzir Shaddam. Ai, se soubessem. Suas fofocas e especulações só serviriam para potencializar o atração de Anirul.
— Parece que nós também temos coisas para cochicharmos — disse.
— É obvio. A filha de Mohiam?
— E além disso o problema dos Atreides.
Quando chegaram a um jardim, Anirul aspirou o aroma de um sebe de rosas safira. A doce fragrância despertou seus sentidos. Margot e ela se sentaram em um banco, do qual podiam ver todas as pessoas que se aproximavam, embora falassem aos sussurros, para o caso de haver espiões nos arredores.
— O que os Atreides têm com a filha de Mohiam?
A irmã Margot, uma das agentes mais eficazes da Bene Gesserit, conhecia certos detalhes sobre a próxima fase do programa do Kwisatz Haderach, e a própria
Mohiam também tinha sido informada.
— Pense a longo prazo, Margot, pense nos mapas genéticos, na cadeia de gerações que acompanhamos. O duque Leto Atreides está preso, seu título e sua vida estão em perigo. Pode ser que pareça um nobre insignificante de uma Grande Casa pouco importante, mas pense no desastre que essa situação poderia significar para nós.
Margot respirou fundo quando as peças do quebra-cabeças encaixaram em sua mente.
— O duque Leto? Quer dizer que necessitamos dele para... — Não pôde pronunciar o mais secreto dos nomes: Kwisatz Haderach.
— Na próxima geração temos que contar com genes Atreides —
disse Anirul, repetindo as palavras das agitadas vozes que falavam em sua cabeça —. As pessoas tem medo de apoiar Leto neste assunto, e todos sabemos por quê. Pode ser que alguns magistrados simpatizem com sua causa por razões políticas, mas ninguém acredita na inocência de Leto. Por que cometeu essa estupidez? É incompreensível.
Margot meneou a cabeça com tristeza.
— Embora Shaddam tenha expressado em público sua neutralidade, em particular fala contra a Casa Atreides. Não acredita na inocência de Leto — disse Anirul —. Embora pode ser que o assunto não seja tão simples. Talvez o príncipe herdeiro esteja relacionado de algum modo com os Tleilaxu, algo que não revelou a ninguém. Acha isso possível?
— Hasimir não me disse nada. — Margot se deu conta de que tinha utilizado o nome, e sorriu para sua companheira —. Ele compartilha alguns segredos comigo. Com o tempo, seu homem também os compartilhará com você.
Anirul pensou em Shaddam e em Fenring, que nunca paravam de conspirar.
— Então estão tramando algo. Juntos. Talvez o destino de Leto faça parte de seu plano?
— Talvez.
Anirul se inclinou no banco de pedra para estar mais protegida pela sebe de rosas.
— Margot, nossos homens querem que a Casa Atreides caia por algum motivo... mas a Irmandade tem que conseguir a linhagem de Leto para finalizarmos nosso programa. Nisso depositamos nossas esperanças, e o trabalho de séculos depende disso.
Margot Rashino Zea, que não entendia tudo, olhou para Anirul com seus olhos verdes.
— Nossa necessidade de um herdeiro Atreides não depende de sua consideração de Grande Casa.
— Não? — Anirul explicou com paciência seus piores temores —. O
duque Leto não tem irmãos nem irmãs. Se seu estratagema fracassar e no Julgamento de Confisco o condenarem, poderia suicidar-se. É um jovem muito orgulhoso, e seria um golpe terrível depois da morte de seu pai.
Margot entreabriu os olhos, cética.
— Leto parece muito forte. Com seu caráter, continuará lutando, aconteça o que acontecer.
Alguns pássaros voaram sobre suas cabeças, e seus cânticos pareciam cristais ao quebrar-se. Anirul os seguiu com o olhar.
— E se um Tleilaxu vingativo o assassinar, mesmo que o imperador o perdoe? E se um Harkonnen aproveitar a oportunidade para provocar um
“acidente”? Leto Atreides não pode se permitir o luxo de perder a proteção da sua posição nobre. Precisamos que continue vivo, e preferivelmente em posição de poder.
— Sei o que quer dizer, Anirul.
— Terá que proteger este jovem duque a todo custo, e para começar temos que proteger o nível social de sua Grande Casa. Não pode ser condenado.
— Tem que haver uma forma — disse Margot com um sorriso tenso
—. Até Hasimir poderia aplaudir minha idéia, se descobrisse, apesar da sua oposição instintiva. Claro que não lhe diremos nenhuma palavra, e tampouco a Shaddam, mas deixará todos os jogadores na mais absoluta confusão.
Anirul aguardou em silêncio, mas seus olhos brilhavam de curiosidade. Margot se
aproximou mais da sua companheira.
— Utilizaremos nossa suspeita da conexão Tleilaxu para um retorcido estratagema dentro de outro estratagema. A questão é: poderemos fazer isso sem prejudicar Shaddam ou a Casa Corrino?
Anirul ficou rígida.
— Meu futuro marido e o Trono do Leão Dourado são elementos secundários em nosso programa de reprodução.
— Tem razão, é obvio — assentiu Margot, como se estivesse surpreza com sua indiscrição —. Como devemos agir?
— Começaremos enviando uma mensagem a Leto. A verdade é um camaleão. Aforismo Zensunni
Na segunda manhã do confinamento de Leto na prisão do Landsraad em Kaitain, um funcionário chegou para que assinasse documentos importantes, o pedido oficial de um Julgamento de Confisco e a entrega oficial de todas as propriedades da Casa Atreides. Era o momento da verdade para Leto, o momento em que devia ratificar o perigoso roteiro que escolhera.
Embora não houvesse dúvida de que era uma prisão, a cela contava com duas habitações, um sofá confortável, uma mesa de Jacarandá de Ecaz, um leitor de videolivros e outros complementos de qualidade similar. Tais cortesias lhe tinham sido concedidas por sua posição no Landsraad.
Nenhum líder de uma Grande Casa jamais seria tratado como um delinquente comum, ao menos até que perdesse tudo como resultado do processo ou se declarasse renegado como a Casa Vernius. Leto sabia que talvez nunca voltasse a desfrutar desses luxos, a menos que pudesse provar sua inocência.
Sua cela tinha calefação, comida abundante e saborosa, uma cama confortável, onde acabara adormecendo enquanto preparava suas alegações. Tinha poucas esperanças de resolver o problema com facilidade e rapidez. O Mensageiro só podia trazer mais problemas.
O funcionário, um tecnocrata do Landsraad, usava um uniforme marrom do Landsraad, com galões chapeados. Dirigiu-se a Leto como monsieur Atreides, sem o título de duque, como se os documentos do confisco já tivessem sido
processados. Leto preferiu não notar aquela falha de protocolo, embora continuasse sendo oficialmente duque até que se assinassem os papéis e a sentença estivesse selada com o polegar dos magistrados do tribunal. Em todos os séculos do Império, o Julgamento de Confisco só tinha sido invocado em três ocasiões. Em dois dos casos, o acusado perdera, e as Casas em litígio se arruinaram.
Leto esperava superar a situação. Não podia permitir que a Casa Atreides caísse em desgraça menos de um ano depois da morte de seu pai.
Isso lhe garantiria um posto nos anais do Landsraad como o mais incompetente líder de uma Casa na história do Império.
Leto, trajando seu uniforme negro e vermelho dos Atreides, sentou-se a uma mesa de plaz azul. Thufir Hawat, em sua condição de conselheiro Mentat, sentouse ao seu lado. Juntos, examinaram o dossiê. Como na maioria de assuntos oficiais do Império, as declarações das testemunhas e os documentos do julgamento estavam gravados em folhas microdelgadas de papel de cristal riduliano, registros permanentes que durariam milhares de anos.
Quando as tocava, cada folha se iluminava para permitir o exame do texto. O velho Mentat gravava cada página na memória. Mais tarde, assimilaria tudo até o último detalhe. Os documentos explicavam com precisão o que ocorreria durante os preparativos e o julgamento. Cada página tinha as marcas de identificação de diversos funcionários do tribunal, incluídas as dos advogados de Leto.
Como parte do procedimento, tinham liberado e permitido a volta a Caladan da tripulação da fragata Atreides, embora muitos seguidores leais ficassem em Kaitain para oferecer seu apoio silencioso. Qualquer culpa individual ou coletiva tinha sido assumida por seu comandante, o duque Atreides. Além disso, garantiase a segurança dos filhos de Vernius, com independência da categoria da Casa. Mesmo que o julgamento tivesse o pior resultado, Leto podia consolar-se com sua pequena vitória. Seus amigos continuariam a salvo.
Segundo as condições do confisco, que nem sequer sua mãe podia revogar de seu retiro com as irmãs do Isolamento, o duque Leto entregava todas as posses da família (incluídas as armas atômicas e a administração do planeta Caladan à administração do Conselho do Landsraad, enquanto se preparava para ser julgado por seus iguais.
Um julgamento que podia voltar-se contra ele.
Não obstante, ganhasse ou perdesse, Leto sabia que evitara uma conflagração
em escala galáctica e salvo milhões de vidas. Agira corretamente, sem pensar nas conseqüências que recairiam sobre ele. O
velho duque Paulus teria feito o mesmo em tais circunstâncias.
— Sim, Thufir, tudo isto é correto — disse Leto quando voltou a última página de cristal riduliano. Tirou o anel com o selo ducal, desprendeu o falcão vermelho de seu uniforme e entregou os objetos ao tecnocrata. Teve a sensação de ser desmembrado.
Se perdesse, as posses de Caladan ficariam a mercê do Landsraad, e os habitantes do planeta se tornariam meros espectadores de latrocínio.
Tinha sido despojado de tudo, e seu futuro e sua fortuna depositados no limbo. Talvez entreguem Caladan aos Harkonnen, pensou desesperado, só para nos humilhar,
O tecnocrata lhe entregou uma magna pluma. Leto apertou seu dedo indicador contra o diminuto artefato de tinta e assinou os documentos de cristal. Sentiu um tênue chiado de eletricidade estática na folha, ou talvez fosse obra de seu nervosismo. O tecnocrata acrescentou seu sinal de identificação como testemunha. Hawat o imitou com reticência.
Quando o tecnocrata partiu, Leto anunciou:
— Agora sou um plebeu, sem título nem feudo.
— Só até nossa vitória — disse Hawat —, independentemente do resultado, sempre será meu duque — acrescentou com um leve tremor na voz. O Mentat passeou pela cela como uma pantera dos pântanos cativa.
Deteve-se, de costas para uma janela que dava para uma imensa dependência do palácio imperial. O sol da manhã mantinha o rosto de Hawat na sombra.
— Estudei as provas oficiais, os dados recolhidos pelos exploratórios no hangar do Cruzeiro e as declarações das testemunhas. Concordo com seus advogados, a situação é muito ruim, meu senhor. Temos que começar com a presunção de que não instigou este ato, e trabalharemos a partir daí.
Leto suspirou.
— Thufir, se você não acredita em mim, não teremos a menor chance no tribunal.
— Tenho certeza da sua inocência. Bem, existem diversas possibilidades, que enumerarei em ordem de probabilidade crescente.
Primeiro, embora se trate de uma possibilidade muito remota, a destruição da nave Tleilaxu pode ter sido acidental.
— Necessitamos de algo melhor, Thufir. Ninguém acreditará nisso.
— Bem, talvez os Tleilaxu tenham destruído sua própria nave para implicá-lo. Sabemos que dão pouco valor a vida. Talvez a tripulação e passageiros fossem apenas gholas, bens descartáveis. Podem cultivar outras duplicadas em seus tanques de axlotl.
Hawat juntou os dedos das mãos.
— Infelizmente, o problema reside na falta de motivo. Os Tleilaxu criariam um plano tão tortuoso só para se vingar por ter dado proteção aos filhos da Casa Vernius? O que ganhariam com isso?
— Lembre-se, Thufir, que manifestei uma clara hostilidade contra eles no Salão do Landsraad. Pode ser que também me considerem seu inimigo.
— Sim, mas não me parece provocação suficiente, meu duque. Não, isto é algo mais importante, o suficiente para que o autor corresse o risco de provocar uma guerra em grande escala. — Fez uma pausa —. Sou incapaz de adivinhar o que os Tleilaxu ganhariam com a destruição da Casa Atreides. No máximo, é um inimigo sem importância para eles. Leto se concentrou, mas se o Mentat era incapaz de descobrir uma cadeia associativa, ainda menos seria um simples duque.
— De acordo. Qual é a outra possibilidade?
— Sabotagem ixiana. Um ixiano renegado que queria atentar contra os Tleilaxu. Uma tentativa desajeitada de ajudar o exilado Dominic Vernius. Também é possível que o próprio Vernius esteja comprometido, embora não se saiba nada dele desde que se declarou renegado.
— Sabotagem? Como?
— É difícil saber. A destruição do interior da nave Tleilaxu sugere um projétil de multifase. As análises dos resíduos químicos confirmam.
Leto se reclinou em sua cadeira.
— Mas como? Quem poderia disparar este projétil? Não podemos esquecer que as testemunhas afirmam ter visto projéteis lançados de nossa fragata. Essa zona do hangar estava vazia. Você e eu estávamos olhando. A nossa era a única nave próxima.
— As poucas respostas que posso proporcionar são muito improváveis, meu duque. Uma nave de ataque pequena poderia ter disparado esse projétil, mas é impossível ocultar um veículo com essas características. Até um indivíduo provido de um aparelho de respiração teria sido detectado no hangar, e isso sem citarmos um lança mísseis manual. Além disso, durante a viagem na dobra espacial ninguém poderia sair das naves. — Não sou um Mentat, Thufir, mas isto cheira a Harkonnen —
murmurou Leto, enquanto desenhava círculos com o dedo sobre a mesa de plaz azul. Tinha que pensar, tinha que ser forte.
Hawat lhe ofereceu uma análise concisa.
— Quando algo execrável ocorre, três caminhos principais conduzem invariavelmente ao culpado: dinheiro, poder ou vingança. Este incidente foi uma cilada, e seu objetivo era destruir a Casa Atreides, e pode ser que esteja relacionado com a conspiração que matou seu pai.
Leto exalou um profundo suspiro.
— Nossa família gozou de alguns anos de tranqüilidade sob o comando de Dmitri Harkonnen e seu filho Abulurd, que nos deixaram viver em paz. Agora temo que a velha inimizade tenha ressuscitado. Pelo que me disseram, o barão está ansioso. O Mentat sorriu sombriamente.
— Exatamente o que eu pensava, meu senhor. Mas me desconcerta o método usado, com tantas naves como testemunhas. Demonstrar esta conjectura no tribunal não será fácil.
Apareceu um guarda em frente a porta provida de barrotes de energia e entrou com um pequeno pacote. Sem pronunciar palavra nem olhar para Leto, deixou-o na mesa e saiu.
Hawat passou um scanner sobre o pacote suspeito.
— Um cubo de mensagem — disse.
O Mentat indicou a Leto que se afastasse, abriu o pacote e revelou um objeto escuro. Não encontrou marcas do remetente, mas parecia importante.
Leto pegou o cubo, que brilhou depois que reconheceu a digital do seu polegar. Desfilaram palavras ante seu rosto, sincronizadas com os movimentos de seus olhos, duas frases que continham uma informação surpreendente: “O príncipe herdeiro Shaddam, assim como seu pai antes dele, mantém uma aliança secreta e ilegal com os Bene Tleilax. Esta informação pode ser muito valiosa para sua defesa, se tiver coragem de utilizá-la.
— Thufir! Olhe isto. Mas as palavras se dissolveram antes que o Mentat pudesse ler. A seguir o cubo se autodestruiu em sua palma. Não tinha nem idéia de quem podia ter enviado semelhante revelação. É possível que tivesse aliados secretos em Kaitain?
Inquieto de repente, quase paranóico, Leto empregou o código Atreides, a linguagem secreta que o duque Paulus tinha ensinado a poucos membros de sua corte. O rosto aquilino do jovem se escureceu quando revelou o que tinha lido e perguntou quem podia tê-lo enviado. O Mentat refletiu e respondeu com seus próprios sinais.
Os Tleilaxu não são famosos por suas proezas militares, mas esta relação explicaria sua vitória fácil sobre os ixianos e sua tecnologia de defesa. É possível que os Sardaukar tenham controlado em segredo a população. — E acrescentou —: Shaddam está metido nisto, e não quer que se saiba.
Os dedos de Leto perguntaram:
— Mas o que isso tem a ver com o ataque ao hangar do Cruzeiro?
Não vejo relação.
Hawat umedeceu seus lábios manchados e falou num sussurro.
— Possivelmente não existe, mas tanto faz, se pudermos utilizar essa informação quando estivermos na pior situação. Proponho-lhe um blefe, meu duque. Um blefe espetacular e desesperado. Em um Julgamento de Confisco, as normas habituais referentes às provas não se aplicam. Não é obrigatório revelar as provas à parte contrária nem aos magistrados antes do julgamento. Isto coloca a pessoa que possui informação secreta em uma posição de poder privilegiada, diretamente proporcional ao
perigo extremo que corre. Regra sobre as provas de Rogam, 3º edição
Quando o príncipe herdeiro Shaddam leu o inesperado cubo de mensagem de Leto Atreides, uma onda de raiva tornou seu rosto púrpura.
“Senhor, a minha defesa inclui a revelação de todos os dados referentes a sua relação com os Tleilaxu.”
— Impossível! Como ele terá descoberto?
Shaddam gritou uma obscenidade e lançou o cubo contra a parede.
Fenring correu para recolher os fragmentos, ansioso por ler a mensagem.
Shaddam o fulminou com a vista, como se tudo fosse culpa do seu conselheiro.
Era noite e ambos tinham abandonado o palácio para ir ao apartamento de cobertura privado de Fenring e desfrutar de alguns momentos de quietude. Shaddam passeou pela peça espaçosa, seguido por Fenring. Embora ainda não tivesse sido coroado, Shaddam sentou-se em uma enorme poltrona do balcão como se ela fosse um trono. O príncipe herdeiro olhou para seu Mentat.
— Bem, Hasimir, como acha que meu primo soube de nosso acordo com os Tleilaxu? Que provas possui? — Hummmm, pode ser que seja um blefe...
— Tal hipótese não pode ser mera coincidência. Não vamos considerar um blefe, mesmo que seja. Não podemos correr o risco de a verdade ser revelada no tribunal — grunhiu Shaddam —. Não aprovo o Julgamento de Confisco, nunca aprovei. Ele rouba a responsabilidade da partilha dos bens de uma Grande Casa pelo trono imperial, de mim.
Acredito que é um modelo lamentável.
— Mas não se pode fazer nada a respeito, Shaddam. É uma lei que remonta aos tempos butlerianos, quando a Casa Corrino foi escolhida para governar as ações da humanidade. Console-se por saber que, em tantos milhares de anos, esta é a quarta vez que é invocada. Parece que o ato desesperado de apostar tudo em uma carta não é muito popular.
Fenring se deteve na borda do balcão e olhou para as estrelas.
Baixou a voz até transformá-la em um sussurro detestável. — Talvez eu devesse visitar Leto Atreides em sua cela, hummmm?
Para descobrir exatamente o que sabe e como descobriu. É a solução mais óbvia para nosso pequeno dilema.
Shaddam se reclinou na cadeira, mas era muito dura para suas costas.
— O duque não dirá nada. Tem muito a perder. Talvez esteja blefando, mas não tenho dúvidas de que cumprirá sua ameaça. Os enormes olhos do Mentat se obscureceram.
— Quando faço perguntas, Shaddam, obtenho respostas. — Fenring apertou os punhos —. Já deveria saber disso, depois de tudo o que fiz por você. — O Mentat Thufir Hawat não o deixará sozinho nem que eu insista, e é um adversário formidável. É chamado de o Mestre de Assassinos.
— Esse também é meu talento, Shaddam. Imaginaremos uma forma de separálos. Ordene, e eu me encarregarei de que se cumpra.
Estava ansioso pela perspectiva de matar, e a provocação aumentava seu prazer. Os olhos de Fenring brilhavam, mas Shaddam o dissuadiu.
— Se for tão preparado como parece, Hasimir, terá tomado todo tipo de precauções. Assim que Leto se sentir ameaçado, revelará o que sabe, e quem sabe de quais medidas de segurança se rodeou, sobretudo se planejou isto desde o começo.
“... de todos os dados sobre sua relação com os Tleilaxu ...”
Uma brisa fria cruzou o balcão, mas Shaddam não entrou.
— Se nosso projeto for descoberto, as Grandes Casas poderiam proibir meu acesso ao trono, e uma força de ataque do Landsraad seria lançada contra IX.
— Agora se chama Xuttah, Shaddam — murmurou Fenring.
— Ou isso.
O príncipe herdeiro passou uma mão pelo cabelo avermelhado penteado com
brilhantina. A mensagem direta do prisioneiro Atreides o impressionara mais que a destruição de cem planetas. Imaginou se a notícia teria preocupado o velho Elrood. Mais que a maciça revolta no setor de Ecaz, no início de seu reinado?
Observe e aprenda.
Cale-se, velho abutre!
Shaddam franziu o sobrecenho.
— Pense, Hasimir. Parece muito evidente. Existe alguma possibilidade de Leto não ter destruído as naves Tleilaxu?
Fenring passou um dedo pelo seu queixo bicudo.
— Duvido, Shaddam. A nave Atreides estava ali, tal como as testemunhas confirmaram. As armas tinham sido disparadas, e Leto não dissimulava sua raiva contra os Bene Tleilax. Lembra do seu discurso ao Landsraad? Ele é culpado. Ninguém poderia acreditar no contrário.
— Acredito que até um pirralho de dezesseis anos poderia ser mais sutil. por que solicitou um Julgamento de Confisco? — Shaddam detestava não compreender as pessoas e seus atos —. Um perigo ridículo.
Fenring demorou alguns segundos antes de deixar cair sua idéia como se fosse uma bomba.
— Porque Leto sabia desde o primeiro momento que lhe enviaria essa mensagem?
Apontou para os fragmentos do cubo. Tinha que sublinhar o óbvio, porque Shaddam permitia com freqüência que a raiva paralisasse sua mente. Apressouse a continuar.
— Talvez esteja pensando o contrário, Shaddam. Pode ser que Leto atacou os Tleilaxu consciente de que poderia utilizar o incidente como pretexto para solicitar um Julgamento de Confisco, um foro público onde revelaria tudo o que sabe sobre nós. Todo o Império estará escutando.
— Mas por que, por que? — Shaddam estudou suas unhas bem manicuradas, vermelho de confusão —. O que tem contra mim? Sou seu primo!
Fenring suspirou.
— Leto Atreides é muito amigo do príncipe exilado de IX. Se descobriu nossa participação no golpe de estado, e a pesquisa que os Tleilaxu fazem sobre a especiaria sintética, não seriam motivos suficientes?
Herdou um profundo e equivocado sentido de honra do seu pai. Pense nisto: Leto assumiu a missão de castigar os Bene Tleilax. Mas se permitirmos que seja julgado pelo Landsraad, é possível que revele nossa implicação para nos arrastar em sua queda. Simples assim, hummmm? Ele cometeu o crime, sabendo que o protegeríamos... para nos proteger. De qualquer forma, terá nos castigado. Ao menos deixou uma porta aberta.
— Ah, sim. Mas isso é...
— Chantagem. Shaddam?
O príncipe herdeiro respirou fundo.
— Maldito seja! — levantou-se, por fim com aspecto imperial —.
Maldito seja! Se estiver certo, Hasimir, não teremos outro remédio senão ajudar. A lei escrita do Império não pode mudar, independente da Grande Casa que detenha o poder ou de que imperador se sente no Trono do Leão Dourado, os documentos da Constituição imperial estão estabelecidos há milhares de anos. Isto não quer dizer que cada regime seja legalmente idêntico. As variações emanam de sutilezas de interpretação e de lacunas jurídicas microscópicas, que chegam a ser bastante amplas para deixar passar um Cruzeiro. Lei do Império: comentários e impugnações
Leto estava deitado em sua cela. Sentia a morna carícia de um mecanismo de massagem que trabalhava os músculos tensos do seu pescoço e costas. Ainda não sabia o que ia fazer.
Até o momento não tinha recebido nenhuma resposta do príncipe herdeiro, e estava convencido de que seu blefe não funcionaria. De qualquer forma, confiar na mensagem secreta tinha sido um tiro às cegas, pois Leto não tinha nem idéia do que significava. Hora após hora, seu Mentat e ele discutiam os méritos do seu caso e a necessidade de confiar em suas aptidões.
Encontrava-se rodeado de artigos pessoais e comodidades para enfrentar as longas horas de ansiedade, contemplação e aborrecimento: videolivros, roupa de qualidade, instrumentos de escrita, até mensageiros que esperavam a frente da
sua cela para levar cubos de mensagem pessoais a quem desejasse. Todos sabiam o que estava em risco naquele julgamento, e nem todos em Kaitain queriam que Leto ganhasse.
De um ponto de vista técnico, devido aos procedimentos legais em que se envolvera, já não possuía bens pessoais. De qualquer modo, agradecia seu uso. Os videolivros e a roupa proporcionavam uma sensação de estabilidade, um vínculo com o que ele considerava sua vida anterior.
Desde o misterioso ataque no interior do Cruzeiro, sua vida mergulhara no caos.
Todo o futuro de Leto, o destino de sua Casa e suas posses em Caladan dependiam do Julgamento de Confisco. Tudo ou nada. Se fracassasse, sua Grande Casa se encontraria em uma situação ainda pior que a da renegada família Vernius. A Casa Atreides não existiria.
Nesse caso, ao menos não terei que me preocupar em negociar um casamento de conveniência para estabelecer melhores contatos com o Landsraad, pensou com ironia. Exalou um profundo suspiro, pensou em Kailea e em seus sonhos de um futuro que nunca se tornariam realidade. Se lhe tirassem seus títulos e posses, Leto Atreides poderia escolhê-la como esposa sem pensar em dinastias nem em política... mas ela o desejaria se não fosse duque, com seus sonhos de Kaitain e da corte imperial?
“Não sei como, mas sempre descubro algo positivo em qualquer contrariedade”, havia dito Rhombur. um pouco do otimismo do seu amigo não faria mal neste momento.
Thufir Hawat, sentado em frente ao escritório de plaz azul, passava as holopáginas projetadas, uma compilação das possíveis provas que utilizariam contra Leto, assim como uma análise da lei do Landsraad. Esta informação incluía as conclusões provisórias dos advogados de Leto e as projeções Mentat de Hawat.
O caso se apoiava em provas circunstanciais, mas de muito peso, começando com o discurso de Leto ao Conselho do Landsraad. Tinha um motivo evidente, e já tinha declarado a guerra verbal contra os Tleilaxu.
— Tudo aponta para minha culpa, não é? — perguntou Leto.
Levantou-se na cama oscilante, e a máquina de massagem parou imediatamente.
Hawat assentiu.

— Com muita perfeição, meu senhor. E as provas cada vez são piores. Os canhões de uma de nossas naves de combate foram examinados durante a investigação, e descobriram que tinham sido disparados. Um resultado muito negativo, e que se soma as outras provas.

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