Duncan ldaho olhou para o monstruoso touro salusano através dos barrotes que criavam um campo de força ativado em sua jaula. Seus olhos de menino se cravaram nos multifacetados do feroz animal. Tinha um lombo negro coberto de escamas, múltiplos chifres e dois cérebros que tinham um só pensamento: destruir tudo que se movesse.
Fazia semanas que o menino trabalhava nos estábulos, e se esforçava ao máximo nas tarefas mais desprezíveis. Dava de comer e beber aos touros, cuidava deles e limpava suas jaulas enquanto os animais eram retidos atrás barreiras de força.
Gostava do seu trabalho, apesar de outros o considerarem degradante. Duncan não achava isso. Considerava mais que suficiente seu pagamento de liberdade e felicidade. Devido à generosidade de seu benfeitor, o duque Paulus Atreides, amava-o de todo coração.
Duncan comia bem, dispunha de uma habitação confortável e roupa limpa. Embora ninguém exigisse, trabalhava até deixar a pele. Sempre havia momentos para relaxar, e ele e outros empregados tinham um ginásio e uma sala de pulverização. Também podia ir banhar-se no mar, e um homem cordial dos moles o levava para pescar de vez em quando.
O velho duque tinha cinco touros para suas touradas. Duncan tentara aproximarse dos animais, tentava domá-los com subornos de erva verde e fruta fresca, mas um exasperado Yresk , o responsável pelos estábulos, tinha-o pilhado com as mãos na massa.
— O velho duque os quer para suas touradas. Acha que os prefere mansos? — Seus olhos inchados se dilataram de raiva Tinha aceito o menino obedecendo as ordens do duque, mas a contra gosto, e não lhe dispensava nenhum trato especial —. Quer que ataquem, não que ronronem na arena.
Duncan baixara os olhos. Sempre obediente, não voltou a tentar amansar os touros.
Tinha visto hologravações das touradas do duque, assim como das tarefas de outros famosos matadores. Embora a morte de seus magníficos tutelados o entristecesse, a valentia e segurança do duque Atreides o assombrava.
A última tourada celebrada em Caladan acontecera em homenagem à partida de Leto Atreides para outro planeta. Agora, depois de muitos meses, haveria outra, pois o velho duque tinha anunciado homenagearia seus convidados de IX, que
tinham se instalado em Caladan como exilados.
Exilados. Em certo sentido, Duncan também o era...
Embora seu dormitório estivesse em um edifício anexo comunal, onde viviam muitos trabalhadores do castelo, Duncan passava a noite às vezes nos estábulos, para ouvir os sons que os animais produziam. Tinha suportado circunstâncias muito piores em sua vida. Os estábulos eram confortáveis, e gostava de ficar a sós com os animais.
Sempre que dormia ali ouvia os movimentos dos touros em seus sonhos. Adaptava-se a seus estados de ânimo e instintos. Não obstante, há dias notava um nervosismo crescente nos animais, como se soubessem que sua antiga nêmeses, o velho duque, pensava em realizar outra tourada.
De pé em frente as jaulas, Duncan observou marcas recentes, onde os touros salusanos tinham arremetido para libertar-se ou atacar inimigos imaginários.
Não era normal. Duncan sabia. Tinha passado tanto tempo estudando os touros que acreditava compreender seus instintos. Conhecia suas reações, sabia como provocá-los e acalmá-los, mas aquele comportamento era incomum.
Quando comentou isso com Yresk , o homem pareceu alarmar-se.
Coçou seu escasso cabelo branco mas logo sua expressão mudou. Cravou seus olhos desconfiados em Duncan.
— Escute, esses touros não tem nada. Se eu não o conhecesse bem, pensaria que é outro Harkonnen disposto a criar problemas. Continue com suas tarefas.
— Harkonnen! Eu os odeio.
— Você viveu com eles, rato de estábulo. Os Atreides aprenderam a viver sempre vigilantes. — Deu uma cotovelada em Duncan —. Já terminou suas tarefas, ou quer que te arranje mais?
Yresk tinha vindo de Richese muitos anos antes, de modo que não era um verdadeiro Atreides. Mesmo assim, Duncan não quis contradizê-lo, mas continuou tentando.
— Fui um escravo. Tentaram me caçar como se fosse um animal.
Yresk franziu suas espessas sobrancelhas. Devido a seu corpo gorducho e seu cabelo arrepiado e desgrenhado parecia um espantalho.
— A velha inimizade entre as Casas ainda perdura, mesmo entre as pessoas humildes. Como sei que não quer me enganar?
— Não falei sobre os touros por esse motivo, senhor — disse Duncan —. Estou preocupado, isso é tudo. Não sei nada sobre inimizades entre Casas.
Yresk riu.
— As rixas entre os Harkonnen e os Atreides são milenares. Não sabe nada a respeito da Batalha de Corrin, a grande traição, a Ponte de Hrethgir? Que um covarde antepassado Harkonnen quase frustrou a vitória dos humanos sobre as odiadas mentes mecânicas? Corrin foi nosso último baluarte, e teríamos perecido se um Atreides não nos tivesse salvado.
— Nunca aprendi sobre a história — admitiu Duncan —. Tinha bastante trabalho em encontrar comida.
Por trás das dobras de pele enrugada, os olhos do administrador eram grandes e expressivos, como se tentasse fingir que era um homem velho e afável.
— Bem, bem, a Casa Atreides e a Casa Harkonnen foram aliadas em outro tempo, amigas até, mas tudo acabou com aquela traição. A inimizade perdurou, e você, rapaz, veio de Giedi Prime. Do planeta natal dos Harkonnen. — Yresk encolheu seus ombros ossudos —. Não espera que confiemos em você, não é? Agradeça pela confiança que o velho duque depositou em você.
— Mas eu não tive nada que ver com a Batalha de Corrin —
protestou Duncan, que não entendia nada —. O que tem isso a ver com os touros? Aconteceu há muitos séculos.
— Não tenho tempo para mais conversa. — Yresk pegou uma pá de esterco que estava pendurada na parede —. À partir de agora, guarde suas suspeitas para si.
Embora Duncan se esforçasse e fizesse o possível para ganhar seu sustento, sua procedência de um planeta dominado pelos Harkonnen não deixava de lhe causar problemas. Outras meninos de quadra, não só Yresk, tratavam-no como se fosse um espião... embora Duncan ignorasse o que Rabban poderia esperar de um infiltrado de nove anos. Entretanto, nunca havia se sentido tão ofendido com isso.
— Está acontecendo algo com os touros, senhor — insistiu —. É
necessário que o duque saiba antes da tourada.
Yresk riu de novo.
— Quando necessitar do conselho de um menino para cumprir meu trabalho pedirei, jovem Idaho.
O responsável pelos estábulos partiu, e Duncan voltou a observar os ferozes touros salusanos, que lhe devolveram o olhar com seus olhos facetados.
Algo terrível estava acontecendo. Sabia disso, mas ninguém o ouvia. Se contemplarmos do ponto de vista adequado, as imperfeições podem ser muito valiosas. As Grandes Escolas, com sua busca incessante da perfeição, consideram difícil de compreender este postulado, basta demonstrar que nada no universo é infeliz. Das filosofias da Velha Terra, um dos manuscritos recuperados
Na escuridão do dormitório isolado e protegido que tinha recebido no complexo da Escola Materna, Mohiam se levantou na cama e apalpou seu ventre volumoso. Sentiu a pele tensa e esticada, sem a flexibilidade da juventude. Sua camisola estava empapada de suor e o pesadelo continuava gravado em sua mente. Visões de sangue e chamas palpitavam no fundo de sua cabeça.
Tinha sido um presságio, uma mensagem... uma aterradora premonição que nenhuma Bene Gesserit podia ignorar.
Perguntou-se quanta melange sua enfermeira teria lhe administrado, se teria interagido com outros medicamentos. Ainda sentia o sabor amargo de canela e gengibre em seu paladar. Quanta especiaria uma mulher grávida podia tomar? Mohiam estremeceu. Por mais que tentasse racionalizar seu terror, não podia ignorar a importância da mensagem.
Sonhos... pesadelos... predições... Terríveis acontecimentos que sacudiriam o Império durante milênios. Um futuro que devia ser abortado!
Não se atrevia a desprezar o aviso, mas o teria interpretado da maneira correta?
A reverenda madre Gaius Helen Mohiam era um simples calhau no início de uma avalanche.
A Irmandade sabia o que estava fazendo? Sabia algo sobre o bebê que crescia em seu interior, que nasceria dentro de um mês? O núcleo da visão se concentrou
em sua filha. Algo importante, algo terrível... As reverendas madres não tinham contado tudo, e agora até as irmãs da Outra Memória estavam assustadas.
Lá fora estava chovendo e as velhas paredes de gesso gotejavam umidade. Embora radiadores de uma precisão absoluta mantivessem sua habitação a uma temperatura confortável, o calor caseiro procedia das brasas de um fogo que ardia em frente a sua cama, um anacronismo ineficaz, mas o aroma de lenha e o brilho amarelo alaranjado dos carvões inspirava uma espécie de complacência primitiva.
As fogueiras da destruição, as chamas de um inferno que se propagavam de um planeta a outro através da galáxia. Jihad! Jihad! Esse seria o destino da humanidade se os planos da Bene Gesserit para sua filha falhassem.
Mohiam se acalmou e fez uma verificação rápida de seus sistemas corporais. Nenhuma emergência, tudo funcionava normalmente, todas as leituras bioquímicas eram ótimas.
Tinha sido somente um pesadelo... ou algo mais?
Mais racionalização. Sabia que não devia desculpar-se, mas atender aos ensinos da premonição. A Outra Memória sabia a verdade.
As irmãs submetiam Mohiam a uma estrita observação. Uma luz púrpura no canto da habitação estava conectada a um visicom de visão noturna, com monitores no outro extremo que informavam à reverenda madre Anirul Sadow Tonkin, a jovem parecia possuir mais importância do que lhe dava sua idade. No sonho de Mohiam, as Vozes da Outra Memória tinham insinuado o papel de Anirul no projeto. O pesadelo tinha soltado suas língua, tinha transformado suas lembranças reticentes em explicações veladas. Kwisatz Haderach. O caminho mais curto. O messias e superser das Bene Gesserit, desejado e esperado durante tanto tempo.
A Irmandade contava com numerosos programas de reprodução, desenhados a partir de diversas características da humanidade. Muitos careciam de importância, alguns eram meras falácias ou diversões. Nenhum possuía a transcendência do programa do Kwisatz Haderach.
No princípio do projeto, que remontava a cem gerações, as reverendas madres que conheciam seus mistérios tinham jurado guardar silêncio, inclusive na Outra Memória, exceto para revelar todos os detalhes a irmãs muito especiais de cada geração.
Anirul era uma delas, a mãe Kwisatz. Sabia tudo sobre o programa.
Por isso até a madre superiora lhe dá atenção!
Nem sequer Mohiam tinha recebido informação a respeito, apesar de a menina que crescia em seu útero se encontrar a apenas três passos da culminação do programa. A esta altura, o verdadeiro plano genético já era uma realidade. O futuro dependeria dessa menina. Sua primeira filha, a defeituosa, tinha sido um passo em falso, um equívoco. E qualquer equívoco podia desencadear o terrível futuro que vira em seu sonho.
O pesadelo de Mohiam lhe mostrara o destino da humanidade se o plano tomasse um caminho errado. A premonição tinha sido como um presente, e face à dificuldade da decisão, não podia desprezá-la. Não se atrevia.
Anirul conhece meus pensamentos, o terrível ato predito em meu sonho? É uma advertência, uma promessa, ou uma ordem?
Pensamentos... A Outra Memória... Uma multidão de memórias ancestrais que lhe ofereciam conselhos, temores, advertências. Já não podiam silenciar seus conhecimentos sobre o Kwisatz Haderach, como sempre tinham feito. Agora Mohiam podia convocá-las, e vinham discretamente, individualmente ou em multidão. Podia pedir seu assessoramento coletivo, mas não queria fazê-lo. Já tinham lhe revelado o suficiente para despertá-la com um grito nos lábios.
Não devemos permitir equívocos.
Mohiam devia tomar uma decisão sem ajuda externa, escolher seu próprio caminho e determinar a melhor maneira de eliminar o destino espantoso e sangrento que vira no sonho.
Levantou-se da cama e se encaminhou cansada até a habitação contigua, para a creche onde cuidavam dos bebês. Seu ventre inchado dificultava seus movimentos. Mohiam se perguntou se as espiãs da Irmandade estariam vigiando.
Já dentro da creche, detectou a respiração irregular de sua primeira filha Harkonnen, de nove meses de idade. Em seu útero, sua segunda filha esperneou e se agitou. Ela a estaria incentivando? O bebê teria desencadeado a premonição?
A Irmandade necessitava de uma criança perfeita, forte e saudável.
As crias defeituosas eram irrelevantes. Em qualquer outra circunstância, a Bene Gesserit teria encontrado uma utilidade para aquele ser aleijado, mas Mohiam
compreendera seu papel fundamental no programa Kwisatz Haderach, e também o que aconteceria se o programa se desviasse por um caminho errado. O sonho estava vivo em sua mente, como um holoesquema. Tinha que obedecêlo sem pensar, simples assim. Faça-o. O consumo contínuo de melange desencadeava, às vezes, visões prescientes, e Mohiam não tinha a menor duvida a respeito do que vira. A visão era tão clara como um cristal, milhões de pessoas assassinadas, o Império caído, a Bene Gesserit quase destruída, a galáxia arrasada por outra Jihad. Tudo isso ocorreria se o plano saísse errado. O que importava uma vida não desejada ante a possibilidade de tais ameaças?
Sua primeira filha do barão Harkonnen se interpunha no caminho, significava um perigo. Podia interferir na progressão correta da escada genética. Mohiam devia eliminar todas as possibilidades do engano acontecer, do contrário suas mãos se manchariam com o sangue de milhões de pessoas.
Minha própria filha?
Recordou-se que na realidade não lhe pertencia. Era um produto do índice de reprodução da Bene Gesserit, e propriedade de todas as irmãs que se comprometeram (sabendo ou não) com o programa de reprodução global. Tinha dado a luz outras filhas para a Irmandade, mas só duas podiam ser portadoras de uma combinação de genes tão perigosa.
Duas. Mas só podia haver uma. Do contrário, o perigo seria muito grande.
Esta menina nunca se adaptaria ao plano mestre. A Irmandade já a descartara. Talvez algum dia a menina fosse educada como criada ou cozinheira da Escola Materna, mas nunca chegaria a nada importante. De qualquer forma, Anirul mal se aproximara e percebeu que ela recebia poucos cuidados das outras irmãs.
Eu a amo, pensou Mohiam, e se repreendeu por aquele arrebatamento de emoção. Era preciso tomar decisões difíceis e pagar certos preços. Uma fria onda de lembranças procedentes da visão a invadiu, e reafirmou sua determinação.
Massageou com suavidade o pescoço e a têmpora da menina, mas logo retirou as mãos. Uma Bene Gesserit não sentia nem demonstrava amor, nem romântico nem familiar. Eram sentimentos considerados perigosos e impróprios.
Mohiam culpou uma vez mais as mudanças químicas em seu corpo de grávida, e tentou analisar seus sentimentos, reconciliá-los com os ensinos recebidos durante toda sua vida. Se não queria a menina porque o amor estava proibido... por que
não... Engoliu em seco, incapaz de traduzir em palavras a ideia terrível. E se amava a menina, contra todos os ditados, era mais um motivo para agir como devia.
Elimine a tentação.
Sentia amor pela menina ou só compaixão? Não queria comentar aqueles pensamentos com nenhuma irmã. Sentia vergonha de experimentá
los, mas não pelo que ia fazer.
Haja com rapidez. Acabe com isso de uma vez!
O futuro exigia que Mohiam agisse daquela maneira. Se não agisse incentivada pelo presságio, planetas inteiros morreriam. Um imenso destino aguardava sua nova filha, e para assegurar esse destino devia sacrificar a outra.
Mas Mohiam hesitava, como se a grande carga maternal a impedisse.
Acariciou a garganta da menina. Pele cálida, respiração lenta e regular. Nas sombras, Mohiam não podia ver os ossos faciais disformes e o ombro fundo. A pele era pálida. A menina parecia tão frágil... remexeu-se e choramingou. — Mohiam sentiu a respiração morna do bebê contra sua mão. Fechou o punho e lutou para recuperar o controle de suas emoções.
— Não devo temer — sussurrou —. O medo é o assassino da mente... — Mas estava tremendo. Viu outro visicom pela extremidade do olho, ele projetava um brilho púrpura na escuridão da creche. Interpôs o corpo entre a câmara e a menina, dando as costas aos monitores. Concentrou sua atenção no futuro, não no que estava fazendo. Em certas ocasiões, até uma reverenda madre tinha consciência...
Mohiam fez o que o sonho lhe ordenara, e apertou um travesseiro contra o rosto da menina, até que os sons e movimentos cessaram.
Uma vez concluída a missão, ainda tremula, alisou os lençóis sobre o pequeno corpo, apoiou a cabeça da menina sobre o travesseiro e cobriu seus braços e o ombro disforme com uma manta. De repente se sentiu muito velha. Muito mais do que era.
Pronto, Mohiam apoiou a palma da mão sobre seu ventre inchado.
Você não pode nos falhar, filha.
Quem governa assume uma responsabilidade irrevogável para com os governados. É um administrador. Em certas ocasiões, isso exige um ato desinteressado de amor que pode ser divertido só para os governados.

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