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domingo, 4 de junho de 2017

SD 965 : DUNE - A CASA ATREIDE

— Thufir, sabemos que os projéteis foram disparados. Assim declaramos desde o princípio. Rhombur e eu saímos para praticar antes que o Cruzeiro dobrasse o espaço. Todos os membros da nossa tripulação são testemunhas.
— Os magistrados podem não acreditar. A explicação é muito conveniente, como se fosse um álibi planejado. Pensarão que praticamos afim de explicar as análise das armas, porque sabíamos que íamos disparar contra os Tleilaxu. Um truque muito simples.
— Sempre foram peritos em detalhes retorcidos — disse Leto com um sorriso —. Examinam tudo repetidas vezes, analisam cada aspecto, efetuam cálculos e projeções.
— Isso é justamente o que necessitamos agora, meu duque.
— Não esqueça que temos a verdade de nosso lado, Thufir, e que é uma aliada poderosa. Nos apresentaremos ao tribunal de nossos iguais com a cabeça erguida, e contaremos o acontecido e, sobretudo, o que não aconteceu. Têm que acreditar, ou os séculos de honra e honradez Atreides não significarão nada.
— Oxalá possuísse sua energia e seu otimismo — respondeu Hawat
—. Demonstra uma firmeza e serenidade notáveis. — Uma expressão agridoce apareceu no rosto do Mentat —. Seu pai o ensinou bem. Estaria orgulhoso de você. — Apagou o holoprojetor, e as páginas das provas desapareceram no ar sufocante da prisão —. Até o momento, entre os magistrados e membros do júri do Landsraad com direito a voto, contamos com alguns que sem dúvida o declararão inocente, graças a alianças do passado. Leto sorriu, mas notou o nervosismo do seu Mentat. Levantou-se da cama e, coberto com uma bata azul, passeou descalço pela habitação.
Sentiu frio e subiu a temperatura da cela.
— Muita gente acreditará depois de que ouvirem minha declaração e visto as provas.
Hawat olhou para ele como se fosse outra vez um menino.
— Contamos com a vantagem de a maioria de seus aliados votarem a favor de sua inocência só porque desprezam a praga Tleilaxu. Independente de sua opinião sobre o caso, você tem sangue nobre, é membro de uma família respeitada do Landsraad. É um deles, e não o destruirão para compensar os Bene
Tleilax. Várias Casas nos deram seu apoio por respeito ao seu pai. Ao menos um magistrado ficou impressionado pela coragem de sua primeira aparição no Conselho do Landsraad, alguns meses atrás.
— Mas todo mundo acredita que cometi um ato terrível. — Leto franziu o sobrecenho —. Esses outros motivos são uma piada.
— Eles não o conhecem, é pouco mais que um menino com fama de insolente e impulsivo. Por hora, meu duque, o que tem que nos preocupar é o veredito, não os motivos. Se triunfar, terá muitos anos para consolidar sua reputação.
— E se perder, nada mais importará.
Hawat assentiu com solenidade e se ergueu como um monólito.
— Não existem regras fixas para um Julgamento de Confisco. É um foro livre, sem formalidades sobre as provas ou os procedimentos, um contêiner sem contenção. Sem os mecanismos normais, não temos que revelar a corte as provas que apresentaremos, mas tampouco os demais devem fazê-lo. Não saberemos as mentiras que nossos inimigos contarão, ou se falsificaram provas instrumentais. Não veremos as supostas provas que os Tleilaxu possuem, nem conheceremos os testemunhos das testemunhas. Dirão muitas coisas desagradáveis a respeito da Casa Atreides. Precisa estar preparado.
Leto ergueu a vista quando ouviu um ruído, e viu um guarda desconectar o campo de confinamento para dar passagem a Rhombur. O
príncipe ixiano vestia uma camisa branca com a hélice de Vernius no pescoço. Tinha o rosto congestionado devido à sessão que acabava de terminar no ginásio, e o cabelo molhado da ducha. O anel de opafogo cintilava em sua mão direita.
Leto pensou nas semelhanças entre sua situação e a do seu amigo, as duas Casas tomadas pela desordem, quase aniquiladas. Rhombur, que tinha recebido a proteção provisória do tribunal, ia vê-lo todo dia à mesma hora.
— Terminou seus exercícios? — perguntou Leto com forçado tom risonho, apesar do pessimismo de Hawat.
— Hoje quebrei a máquina de treinamento físico — respondeu Rhombur sorrindo —. Deve ter sido construída por uma dessas Casas Menores de má fama. Controle de qualidade inexistente. Nada igual a qualidade ixiana.
Leto riu quando Rhombur e ele entrelaçaram as pontas dos dedos no semi aperto
de mãos do Império.
Rhombur coçou seu cabelo loiro molhado.
— O exercício me ajuda a pensar. Estes dias está difícil me concentrar em algo. Er, minha irmã lhe enviou seu apoio através de um Mensageiro recém-chegado de Caladan. Achei que você gostaria de saber.
Talvez o anime.
Sua expressão se tornou séria, revelando a tensão de sua longa odisséia, os sinais sutis de dor e maturidade forçada que um rapaz de dezesseis anos não deveria ter padecido, Leto sabia que seu amigo estava preocupado com seu destino e o de sua irmã, caso a Casa Atreides perdesse o julgamento. Duas grandes e nobres famílias destruídas em um lapso de tempo insolitamente curto. Talvez Rhombur e Kailea fossem procurar seu pai renegado...
— Thufir e eu estávamos falando dos méritos do nosso caso — disse Leto —. Ou da falta de méritos, como diz ele.
— Eu não disse isso, meu duque — protestou Hawat.
— Bem, trago boas notícias — anunciou Rhombur —. A Bene Gesserit deseja contribuir com Reveladoras da Verdade no julgamento.
Essas reverendas madres podem descobrir que está mentindo.
— Excelente — disse Leto. — Isto acabará com o problema em um instante. Assim que eu falar, poderão verificar que digo a verdade. Pode ser tão simples?
— Geralmente o testemunho de uma Reveladora da Verdade seria inadmissível — advertiu Hawat —, mas é possível que neste caso se abra uma exceção, embora eu duvide. As bruxas guardam intenções secretas, e os jurisconsultos afirmam que, por conseqüência, são subornáveis, o que invalida seu testemunho.
Leto piscou, surpreso.
— Subornáveis? Não conhecem muitas reverendas madres. —
Refletiu a respeito e considerou várias possibilidades —. Mas intenções secretas? Por que a Bene Gesserit faria esse oferecimento? O que ganham com minha inocência ou minha culpa?
— Vá com cuidado, meu duque — advertiu Hawat.
— Vale a pena tentar — disse Rhombur —. Mesmo que não seja aceito, o testemunho de uma Reveladora da Verdade daria mais peso à versão dos acontecimentos de Leto. As Reveladoras da Verdade poderiam examinar a você e a todos os que o rodeavam, incluídos eu, Hawat, a tripulação da fragata e os criados de Caladan. Sabemos que suas histórias coincidirão. Demonstrarão nossa inocência sem sombra de dúvida. —
Sorriu —. Estaremos de volta a Caladan antes que perceba.
Hawat não parecia muito convencido.
— Quem entrou em contato, príncipe? Que irmã da Bene Gesserit lhe comunicou este generoso oferecimento? O que pediu em troca? — Não pediu, er, nada — respondeu Rhombur.
— Ainda não, talvez — disse Hawat —, mas essas bruxas pensam a longo prazo.
O príncipe ixiano coçou a testa. — Ela se chama Margot. Faz parte do séquito de lady Anirul, e suponho que veio para assistir ao casamento imperial.
Leto teve uma idéia.
— Uma Bene Gesserit vai casar se com o imperador. Será isto obra de Shaddam, em resposta a nossa mensagem?
— As Bene Gesserit não são garotas dos recados — disse Hawat —.
Sua independência é lendária. Fizeram esta oferta porque quiseram, porque lhes beneficia de alguma forma.
— Não perguntei por que — disse Rhombur —, mas pense nisto: seu oferecimento só poderia nos beneficiar se Leto for inocente.
— Eu sou!
Hawat sorriu para Rhombur.
— Certamente a Bene Gesserit sabe que Leto não está mentindo, do contrario não fariam essa sugestão.
Perguntou-se o que as irmãs sabiam, e o que esperavam conseguir.
— A menos que queiram me pôr a prova — sugeriu Leto —. Se aceitar sua Reveladora da Verdade, saberão que não estou mentindo. Se eu recusar, se convencerão de que escondo algo.
Hawat olhou por uma janela da cela.
— Lembrem-se que estamos ansiosos por um julgamento que é uma casca vazia. Existem queixas contra as Bene Gesserit, e contra seus métodos estranhos e misteriosos. As Reveladoras da Verdade podem trair seu juramento e mentir, por um propósito mais importante. Bruxaria, feitiçaria... Talvez não devêssemos aceitar sua ajuda.
— Acha que é um truque? — perguntou Leto. — Sempre suspeito de tudo — disse o Mentat. Seus olhos cintilaram
—. É algo inato em mim. Pode ser que essas bruxas sejam mensageiras do Império. Que alianças estão ocultando? O pior tipo de alianças são aquelas que nos enfraquecem. Pior ainda é quando o imperador não reconhece tal aliança pelo que ela é. Príncipe Raphael Corrino, Discursos sobre a liderança.
O príncipe herdeiro Shaddam não fez nada para que o representante dos Tleilaxu se sentisse confortável ou acolhido no palácio. Shaddam detestava estar na mesma habitação que ele, mas a reunião era necessária.
Sardaukar armados até os dentes escoltaram Hidar Fen Ajidica por um passadiço, vários corredores de manutenção, escadas semi ocultas e uma sucessão de portas com barrotes.
Shaddam tinha escolhido a habitação mais privada, uma câmara tão secreta que não aparecia nos planos do edifício. Muito tempo antes, poucos anos depois da morte do príncipe herdeiro Fafnir, Hasimir Fenring tinha descoberto a estadia durante suas explorações. Pelo visto, a habitação secreta tinha sido utilizada por Elrood nos primeiros tempos de seu interminável reinado, quando tinha tomado concubinas extra-oficiais, além das reconhecidas oficialmente.
Havia uma só mesa na gélida habitação. As paredes e o chão cheiravam a mofo. As mantas e lençóis da estreita cama colada a parede se reduzira a fibras e penugem. Um vetusto buquê de flores, agora petrificado em folhas e caules
enegrecidos, adornava o canto em que o tinham abandonado décadas atrás. O lugar transmitia a impressão desejada, embora Shaddam soubesse que os Bene Tleilax não fossem famosos por prestar atenção às sutilezas.
Do outro lado da mesa, Hidar Fen Ajidica, trajando suas roupas marrons, enlaçou as mãos cinzentas sobre a superfície de madeira. Piscou e olhou para Shaddam.
— Mandou me chamar, senhor? Interrompi minhas pesquisas seguindo suas ordens.
Shaddam agarrou uma bandeja de carne de bacer gelatinosa que um dos guardas tinha levado, pois não tivera tempo para comer. Saboreou o molho de cogumelos com manteiga, e depois empurrou o prato para Ajidica.
O pequeno homem se recusou a tocar na comida. Shaddam franziu o sobrecenho.
— Vocês fabricam a carne de bacer. Não consomem seus próprios produtos culinários?
Ajidica negou com a cabeça.
— Embora nós sejamos os criadores desses seres, não os consumimos. Peço que me perdoe, senhor. Falemos do que é importante.
Estou ansioso por retornar a Xuttah e aos meus laboratórios.
Shaddam soprou e decidiu ir direto ao assunto. Esfregou as têmporas, onde sua permanente dor de cabeça ameaçava piorar.
— Devo lhe fazer um pedido... Não, uma exigência, em minha qualidade de imperador.
— Perdoe-me, senhor príncipe — interrompeu-o Ajidica —, mas ainda não foi coroado.
Os guardas ficaram tensos. Os olhos de Shaddam se arregalaram.
— Há algum homem mais poderoso que eu em todo o Império?
— Não, meu senhor. Foi apenas uma precisão semântica.
Shaddam se inclinou sobre a mesa como um predador, tão perto que sentiu os
desagradáveis aromas do outro homem.
— Escute, Hidar Fen Ajidica, seu povo tem que retirar as acusações contra Leto. Não quero que este caso chegue aos tribunais. — reclinou-se de novo, pegou outro pedaço de carne e continuou com a boca cheia —.
Retire suas acusações e eu lhes darei uma recompensa. E o assunto será encerrado.
A solução era simples e hábil. Como o Tleilaxu não respondeu imediatamente, Shaddam tentou ser magnânimo.
— Depois de falar com meus conselheiros, decidi que os Tleilaxu devem ser compensados por suas perdas. — Fez uma careta —. Só as perdas reais. Os gholas não contam.
— Entendo, senhor, mas lamento dizer que pede algo impossível —
respondeu Ajidica —. Não podemos esquecer este crime cometido contra o povo Tleilaxu e sua honra.
Shaddam quase engasgou com o pedaço de carne.
— “Tleilaxu” e “honra” são palavras que não combinam.
Ajidica o ignorou.
— Entretanto, todo o Landsraad soube deste horrível acontecimento.
Se retirarmos as acusações, a Casa Atreides sairá totalmente impune. — A ponta de seu nariz tremeu —. Sem dúvida o senhor é um grande estadista e sabe que não podemos voltar atrás.
Shaddam estava furioso. Sua dor de cabeça estava piorando.
— Não estou pedindo. Estou ordenando.
O homem refletiu por alguns segundos, e seus olhos escuros cintilaram.
— Posso perguntar por que o destino de Leto Atreides é tão importante para o senhor? O duque representa uma Casa pouco importante.
Por que não o joga aos lobos e no concede um desagravo?
Shaddam emitiu um grunhido.
— Porque Leto sabe de suas pesquisas sobre a especiaria artificial em IX.
De repente as feições inexpressivas da Ajidica se alarmaram.
— Impossível! Mantivemos a segurança mais rigorosa.
— Então por que ele me enviou uma mensagem dizendo o contrário?
— respondeu Shaddam, a ponto de levantar-se de seu assento —. Leto utiliza este conhecimento para me chantagear. Se for declarado culpado no julgamento revelará o que sabe e nossa cumplicidade. O Landsraad se rebelará contra mim. Pense nisso: meu pai, com minha ajuda, permitiu que uma Grande Casa do Landsraad fosse destruída. Algo sem precedentes! E
não só por uma Casa rival, mas por seu povo, os Tleilaxu.
O pesquisador pareceu ofender-se, mas não replicou.
Shaddam grunhiu, mas se recordou que devia guardar as aparências.
— Se descobrirem que fiz tudo isto afim de ter uma fonte privada de especiaria artificial, deixando sem benefícios o Landsraad, a Bene Gesserit e à Corporação, meu reinado não durará uma semana.
— Estamos em um beco sem saída, senhor.
— Não, não estamos! — explodiu Shaddam —. O piloto da nave Tleilaxu sobrevivente é sua testemunha chave, obriguem-no a mudar seu testemunho. Talvez não tenha visto com tanta clareza como pensou a princípio. Serão bem recompensados, com recursos procedentes de minhas arcas e da Casa Atreides.
— Não é suficiente, senhor — disse Ajidica, com uma irritante expressão impassível —. Os Atreides têm que ser humilhados por suas ações. Têm que ser humilhados em público. Têm que pagar.
O imperador olhou com desprezo para o pesquisador Tleilaxu.
— Quer que envie mais Sardaukar a IX? Estou certo de que algumas legiões vigiariam muito de perto suas atividades.
Ajidica continuou imperturbável.
O olhar do Shaddam se endureceu.
— Mês após mês esperei, e ainda não me deu o que preciso. Agora diz que pode demorar décadas. Nenhum de nós durará tanto se Leto revelar o que fizemos.
O príncipe herdeiro afastou a bandeja. Embora a preparação do prato fosse perfeita, apenas o saboreara porque sua mente estava em outra parte, embotada pela dor de cabeça. Por que era tão difícil ser imperador?
— Faça o que quiser, senhor — disse Ajidica —. Leto Atreides não será perdoado, e tem que ser castigado.
Shaddam enrugou o nariz e se despediu do homenzinho. A partir do momento em que fosse coroado imperador do Universo Conhecido, teria muitas outras coisas que fazer, coisas importantes.
Oxalá pudesse livrar-se daquela maldita dor de cabeça. O pior tipo de proteção é a confiança. A melhor defesa é a suspeita. Hasimir Fenring
Thufir Hawat e Rhombur Vernius podiam entrar e sair da cela a vontade, Leto tinha jurado por sua honra — e em parte por sua própria segurança — não abandoná-la, O Mentat e o príncipe ixiano saíam com freqüência para discutir os detalhes das declarações com diversos membros da tripulação da fragata Atreides e com qualquer um que pudesse ajudar sua causa. Nesses intervalos, Leto se sentava em seu escritório. Embora o velho Mentat o advertisse para que nunca desse as costas à porta, Leto pensava que não corria perigo naquela cela de alta segurança.
Desfrutou de alguns momentos de silêncio e concentração, enquanto examinava as numerosas projeções das provas que lhe tinham preparado.
Mesmo que guardas Sardaukar o escoltassem, teria se mostrado reticente a passear pelo palácio imperial, sabendo que a sombra da acusação pendia sobre ele. Não demoraria para comparecer ante seus iguais e proclamar sua inocência.
Ouviu um ruído no campo de confinamento da cela, a suas costas, mas não voltou a vista. Terminou suas notas sobre a destruição da primeira nave Tleilaxu e adicionou um detalhe técnico que não tinha considerado antes.
— Thufir? — perguntou Leto —. esqueceu algo?
Olhou para trás.
Um alto guarda do Landsraad se erguia com seu uniforme e uma expressão estranha em seu rosto largo. Sua pele parecia pastosa, como grafite. Leto percebeu uma peculiar estupidez em seus movimentos. Um inquietante tom cinzento na pele das mãos, mas não do rosto...
Leto deslizou a mão por baixo da mesa e empunhou a faca que Hawat tinha levado às escondidas. Não tinha sido difícil para o guerreiro Mentat. Leto não mudou sua postura nem sua expressão afável. Todas as lições que o Mentat lhe ensinara afloraram em seus músculos, despertos e preparados. Sabia que algo estava acontecendo, e que sua vida corria perigo.
De repente, o homem se livrou do uniforme, e quando este caiu, o mesmo aconteceu com seu rosto inexpressivo. Uma máscara! Também se desprenderam as mãos e os braços.
Leto saltou para um lado e se refugiou atrás da mesa. Agachado, segurou a faca e considerou suas chances.
O corpo do guarda se partiu pela cintura, revelando um par de anões Tleilaxu de rosto flexível. Um saltou dos ombros do outro. Ambos vestidos com roupas negras que marcavam todos os músculos.
Os assassinos Tleilaxu começaram a rodeá-lo. Seus olhos diminutos brilhavam. Algo refulgia em suas mãos: quatro armas, sem dúvida letais.
Um deles se lançou sobre Leto. — Morra, demônio powindah — gritou.
Leto pensou em refugiar-se sob a escrivaninha ou a mesa auxiliar, mas decidiu que se matasse um anão as chances se igualariam. Sem vacilar, lançou a faca e cortou a jugular do atacante.
Um dardo prateado passou assobiando junto a orelha de Leto, que se lançou para trás da mesinha auxiliar, que continuava projetando imagens por cima da escrivaninha. Um segundo dardo se cravou na parede, junto a sua cabeça.
Então ouviu o zumbido de um fuzil laser. Um raio de luz púrpura atravessou a habitação e o segundo Tleilaxu caiu fulminado. Seu rosto se fundiu, abrasado pelo raio. Um cheiro de carne queimada impregnou o ar.
— Quebraram nossa segurança — ouviu o capitão dizer, seu inesperado salvador.
— Eu não chamaria isso de segurança — replicou Hawat.
— Cortaram a garganta deste com uma faca — disse um dos guardas.
— De onde saiu essa faca? — O capitão ajudou Leto a levantar —.
Eles o feriram, senhor? Leto olhou para seu Mentat, mas deixou que Hawat respondesse.
— Tendo em conta suas eficazes medidas de segurança, senhor —
ironizou Hawat —, como poderia alguém introduzir uma arma aqui?
— Lutei com um dos atacantes — explicou Leto — e o matei com sua própria arma. — Seus olhos cinzentos piscaram. Seu corpo tremia por causa da adrenalina —. Imagino que os Bene Tleilax não querem esperar pelo resultado do julgamento.
— Infernos carmesins! — exclamou Rhombur ao entrar e ver aquela ofensa —. Sem dúvida isto não beneficiará os Tleilaxu no julgamento. Se estavam tão seguros de ganhar, por que quiseram fazer justiça com suas próprias mãos?
O capitão da guarda se voltou para seus homens e ordenou que tirassem os corpos.
— Os assassinos dispararam dois dardos — disse Leto, e apontou os pontos onde eles se cravaram.
— Tomem cuidado quando os manipularem — advertiu Hawat —. É
possível que estejam envenenados. Quando Leto, Rhombur e Hawat ficaram a sós, o Mentat introduziu uma pistola maula na gaveta inferior do escritório.
— Para o caso de novo ataque — disse —. Da próxima vez uma faca não será suficiente. Visto da órbita, o planeta IX é pacifico e antigo, mas sob sua superfície são desenvolvidos projetos imensos e executadas grandes obras. Desta forma, nosso planeta é uma metáfora do Império, Dominic Vernius, As explorações secretas de IX.
Hasimir Fenring estendeu a Shaddam alguns documentos escritos na linguagem secreta que o príncipe herdeiro e ele tinham inventado durante sua infância. Podiam estar seguros de que seus segredos não seriam descobertos. Shaddam se sentou no trono da sala de audiências, e a luz interior do dossel de cristal Hagal projetou seu brilho, como uma água marinha iluminada pelo fogo.
Fenring fervia de energia suficiente para os dois.
— São os dossiês das Grandes Casas do Landsraad que assistirão ao Julgamento de Confisco. — Seus grandes olhos pareciam buracos negros no labirinto de sua mente —. consegui descobrir algo vergonhoso e ilegal em todas elas. Em resumo, contamos com meios suficientes de persuasão.
Shaddam se inclinou no trono, como se estivesse surpreso. Seus olhos, avermelhados devido à insônia, cintilaram de ira.
Fenring já o vira a beira do pânico em ocasiões anteriores, quando tinham acordado a morte de seu irmão, Fafnir. — Acalme-se, Shaddam, hummmm? — sussurrou —. Já cuidei de tudo.
— Maldito seja, Hasimir! Se alguém desconfiar de nossas tentativas de suborno, a ruína cairá sobre a Casa Corrino. Não podemos permitir que ninguém descubra nossa implicação neste plano! — Shaddam meneou a cabeça, como se o Império já estivesse ruindo —. Perguntarão por que nos preocupamos tanto em salvar um duque insignificante.
Fenring sorriu para transmitir confiança ao príncipe.
— O Landsraad é composto de Grandes Casas, muitas das quais são nossas aliadas, Shaddam. Algumas insinuações entre os nobres, um pouco de melange gratuita, alguns subornos e ameaças...
— Sempre segui suas sugestões, talvez com muita freqüência. Mas não demorarei para ser o imperador de um milhão de planetas, e terei que pensar sem ajuda. E pretendo fazer isso agora mesmo.
— Os imperadores têm conselheiros, Shaddam. Sempre. — Fenring compreendeu que devia ser mais cauteloso. Algo tinha inquietado Shaddam, algo recente. O que ele sabe que eu não sei?
— Por uma vez, não utilizarei seus métodos, Hasimir — respondeu Shaddam —. Encontraremos outra forma.
Fenring, intrigado, ficou ao lado do príncipe herdeiro, como um igual. Entretanto, por algum motivo, Shaddam tinha mudado. Que tinha acontecido? Desde meninos não tinham mamado do mesmo peito, quando a mãe de Hasimir tinha sido a ama de leite de Shaddam? Quando adolescentes, não tinham recebido instrução juntos? Quando maiores não tinham tramado planos e conspirações juntos? Por que agora se negava a escutar
seus
conselhos?
Fenring se aproximou do ouvido do príncipe herdeiro. Procurou parecer contrito. — Peço que me perdoe, senhor, mas, hummmm... Tinha certeza que aprovaria, e as notas foram entregues aos representantes apropriados, notas em que se solicita seu apoio ao imperador quando chegar o momento de votar no julgamento.
— Sua ousadia chegou até esse ponto? Sem me consultar antes? —
Shaddam avermelhou de indignação —. Pensou que me deixaria arrastar, planejasse o que planejasse?
Shaddam tinha se enfurecido. Que mais o incomodava? Fenring se agastou um passo do trono.
— Por favor, senhor. Está exagerando, perdendo a perspectiva.
— Ao contrário, acredito que estou ganhando perspectiva. — Suas narinas se dilataram —. Acha que sou um idiota, não é, Hasimir? Desde que éramos crianças sempre me explicou as coisas. Sempre pensou mais depressa que eu, sempre foi mais inteligente, mais desumano, ou ao menos aparentava isso. Entretanto, acredite ou não, posso me encarregar de qualquer situação sem sua ajuda.
— Nunca duvidei de sua inteligência, meu amigo. Graças a sua posição na Casa Corrino, seu futuro sempre esteve garantido, mas eu tive que lutar dia após dia para consolidar o meu. Quero ser seu porta-voz e seu confidente.
Shaddam se inclinou em seu trono.
— Ah, sim. Pensei que você era o cérebro atrás do trono e que eu sua marionete.
— Marionete? É claro que não
Fenring se afastou outro passo. Shaddam era muito instável, e Fenring não sabia o que estava acontecendo. Ele sabe de algo que eu ignoro. Shaddam nunca tinha questionado os atos de seu amigo, nem se interessava pelos detalhes dos subornos e da violência. — Hummmm... Sempre pensei na melhor forma de ajudá-lo a ser um grande governante.
Shaddam ficou em pé e olhou para o homem com cara de doninha que se erguia a um metro do trono. Fenring decidiu não retroceder nem um passo mais. O que ele sabe? Que notícia lhe deram?
— Nunca faria nada para prejudicá-lo, velho amigo. Faz muito tempo que, hummmm, nos conhecemos. — levou a mão ao coração, ao estilo do Império —. Sei como pensa e o conheço... sem limitações, hummmm? De fato é muito brilhante. O problema é que demora a tomar decisões difíceis, embora necessárias.
Shaddam se aproximou e lhe disse:
— Tenho que tomar uma decisão difícil, Hasimir, e depende do resultado de suas maquinações.
Fenring esperou, temeroso das idéias mau aconselhadas que o príncipe herdeiro pudesse ter, mas não se atreveu a discutir.
— Saiba disto: não vou perdoar sua conduta deplorável. Se esta cadeia de subornos se voltar contra nós, minha mão não vacilará quando assinar sua sentença de morte por traição.
Fenring empalideceu, e sua expressão estupefata satisfez o príncipe.
Tendo em conta o volúvel ânimo de seu amigo, Fenring tinha certeza de que seria capaz de assinar a ordem. Apertou as mandíbulas e decidiu pôr fim àquela loucura.
— O que disse a respeito de nossa amizade é certo, Shaddam. —
Mediu suas palavras —. Mas eu teria sido um louco de não ter tomado certas precauções para revelar sua implicação em certas... hummmm, como posso dizer... aventuras. Se algo me ocorrer, tudo virá à luz: a causa da morte de seu pai, as atividades relacionadas com a especiaria artificial em IX, até o assassinato de Fafnir quando éramos adolescente. Se eu não tivesse envenenado
seu irmão, agora ele estaria sentado no trono. Você e eu estamos juntos. Progredimos... ou caímos.
Shaddam não pareceu surpreso.
— Ah, sim. Muito previsível, Hasimir. Sempre me avisou que não se deve ser previsível.
Fenring teve o cuidado de parecer envergonhado. Guardou silêncio.
— Foi você que me enredou em um plano que ninguém sabe se algum dia obteremos algo tangível. — Os olhos de Shaddam cintilaram —.
Especiaria sintética, nada menos! Oxalá nunca tivesse me envolvido com os Tleilaxu. E agora posso sofrer as desagradáveis conseqüências desta conspiração. Veja onde seu plano nos levou? — Hummmm, não discutirei com você, Shaddam. Mas conhece os riscos do projeto, e os enormes lucros potenciais. Precisa ter paciência.
— Paciência? Neste momento vejo apenas duas possibilidades —
sentou-se de novo no trono —. Como você disse, ou serei coroado, e você e eu chegaremos ao topo, ou cairemos juntos, para o exílio ou a morte. —
Suspirou —. Assim, corremos um perigo mortal, tudo por culpa de sua maldita conspiração da especiaria.
Fenring recorreu a sua última e desesperada idéia, enquanto seus grandes olhos se moviam de um lado para outro em busca de uma escapatória.
— Você recebeu uma notícia ruim, senhor. Me diga o que aconteceu.
No palácio imperial aconteciam poucas coisas sem que Fenring fossse informado imediatamente.
Shaddam cruzou as mãos. Fenring se inclinou para frente, com os olhos atentos. O príncipe herdeiro suspirou, resignado.
— Os Tleilaxu enviaram dois assassinos para matar Leto em sua cela.
Fenring se sobressaltou e perguntou se a notícia era boa ou ruim.
— Conseguiram?
— Não, não. Nosso jovem duque se defendeu com êxito. Mas isto me causa uma grande preocupação.
Fenring se encolheu, surpreso com a notícia.
— Mas isso é uma loucura. Pensei que já tinha falado com nosso contato Tleilaxu e ordenado que...
— Eu o fiz — interrompeu Shaddam —, mas ao que parece você não é o único que se zomba de minhas ordens. Ou Ajidica ignorou minhas instruções, ou não controla mais os seus.
Fenring grunhiu, aliviado por ter desviado a ira do príncipe.
— Temos que responder com firmeza. Faça Hidar Fen Ajidica saber que deve obedecer as ordens do imperador rapidamente, ou o castigo será implacável.
Shaddam olhou para ele mostrando cautela, já não tão franco e cordial como antes.
— Você sabe muito bem o que deve fazer, Hasimir.
Fenring aproveitou a oportunidade de congraçar-se com o príncipe.
— Sempre sei, senhor. — E se afastou pela sala de audiências.
Shaddam passeou em frente ao trono, afim de se acalmar e ordenar os pensamentos. Quando Fenring chegou à arcada, de repente o príncipe gritou:
— Nossas diferenças não acabam aqui, Hasimir. As coisas mudarão depois que eu for coroado. — Sim, senhor. Deve fazer... hummmm, o que considera apropriado.
Fenring fez uma reverência e abandonou a sala, contente por sair com vida. Quando é preciso realizar determinadas ações, sempre existem alternativas. O importante é cumprir a missão. Conde Hasimir Fenring, Embaixador em Arrakis.
O piloto Tleilaxu que tinha sobrevivido ao ataque dentro do Cruzeiro era uma testemunha material do julgamento, e portanto se viu obrigado a permanecer em
Kaitain. Não era um prisioneiro, e se ocupavam de suas necessidades, embora ninguém procurasse sua companhia. Os Bene Tleilax nem sequer tinham revelado seu nome. O homem queria voltar ao trabalho, voltar para a nave.
Entretanto, devido ao grande número de convidados que chegavam para assistir à cerimônia de coroação e ao casamento imperial, era difícil de acomodá-lo. Os encarregados de protocolo de Shaddam, secretamente satisfeitos, só puderam lhe oferecer uma pequena e austera habitação.
O piloto não pareceu se importar, o que irritou os encarregados de protocolo. Não se queixou de nada enquanto esperava para dar seu testemunho a justiça e condenar assim o abominável Leto Atreides.
As noites de Kaitain eram perfeitas, claras e cheias de estrelas e luas.
A escuridão nunca era total, mas atenuada por sucessivas auroras. Mesmo assim, quase toda a capital dormia durante certas horas.
Hasimir Fenring se introduziu com facilidade na habitação do Tleilaxu. movia-se silenciosamente e não utilizava iluminação alguma.
Estava acostumado com a noite: ela era sua amiga.
Fenring nunca tinha visto um Tleilaxu adormecido, mas quando se aproximou da cama, descobriu que o piloto estava desperto, completamente acordado. O homem de pele cinza olhou para ele na escuridão como se pudesse ver melhor ainda que o assassino de Shaddam.
— Tenho uma pistola maula apontada para seu peito — disse o Tleilaxu —. Quem é você? Veio me matar? — Hummmm, não. — Fenring se recuperou imediatamente —. Sou Hasimir Fenring, companheiro inseparável do príncipe herdeiro Shaddam, e trago uma mensagem e um pedido.
— Quais são? — perguntou o piloto.
— O príncipe herdeiro Shaddam lhe pede que reconsidere os detalhes do seu testemunho, hummmm? Deseja que a paz reine entre as Casas do Landsraad, e não quer que uma sombra assim caia sobre a Casa Atreides, cujos membros serviram aos imperadores Padishah desde a época de nossa Grande Revolução.
— Besteira — replicou o Tleilaxu —. Leto Atreides disparou contra nossas naves, destruiu uma e danificou a minha. Há centenas de mortos.
provocou a pior tormenta política dos últimos tempos.
— Claro, claro! — disse Fenring —. E vocês podem impedir que se propague mais, hummmm? Shaddam deseja começar seu reinado com paz e prosperidade. É incapaz de pensar em termos mais amplos?
— Só penso em meu povo, e na punição para o homem que acabou com eles. Todo mundo sabe que o Atreides é culpado. Ele tem que pagar por seus atos. Só então nos sentiremos vingados. — Sorriu com seus lábios magros. A pistola não se desviou nem um milímetro. Fenring compreendeu por que aquele homem havia alcançado a patente de piloto. Estava claro que tinha coragem suficiente —. Depois, Shaddam terá um reinado tão tranqüilo quanto desejar.
— Isso me entristece — disse Fenring em tom de decepção —.
Transmitirei sua resposta ao príncipe herdeiro.
Cruzou os braços e fez uma reverência de despedida, ao mesmo tempo em que estendia as palmas para frente. O movimento disparou duas pistolas maula presas em seus punhos, e dois dardos mortíferos se cravaram na garganta do piloto.
O Tleilaxu apertou instintivamente o gatilho da pistola, mas Fenring se esquivou agilmente das setas que se cravaram na parede e vibraram por alguns segundos. O ocupante da habitação ao lado esmurrou a parede para exigir silêncio.
Fenring estudou sua obra. Todas as provas se encontravam na habitação, e os Bene Tleilax compreenderiam o significado daquilo: depois da revoltante tentativa de assassinato de Leto Atreides, desobedecendo as ordens de Shaddam, Hidar Fen Ajidica tinha que tomar cuidado.
Os Tleilaxu se orgulhavam de sua capacidade para guardar segredos.
Não havia dúvida de que eliminariam discretamente o nome do piloto da lista de testemunhas, e não voltariam a mencioná-lo. E desse modo suas alegações teriam menos peso.
Não obstante, Fenring confiava que este assassinato não aumentasse ainda mais o desejo de vingança do homenzinho. Como reagiria Hidar Fen Ajidica?
Fenring saiu da habitação e se fundiu com as sombras. Deixou o corpo, para o caso de os Bene Tleilax desejarem ressuscitá-lo como ghola.
Afinal, devia ter sido um bom piloto.
Ao tramar qualquer ato de vingança, é conveniente saborear os preparativos e todos os seus momentos, pois acontece com freqüência que a forma de execução é muito diferente da pensada a princípio. Hasimir Fenring. Despacho de Arrakis.
O barão Vladimir Harkonnen não podia sentir-se mais satisfeito com o rumo que os acontecimentos tinham tomado. Teria ficado ainda mais satisfeito se o resto do Império pudesse apreciar as deliciosas complexidades do seu plano, mas jamais poderia revelá-las.
Por ser uma Casa importante, os atuais administradores da produção de especiaria em Arrakis, os Harkonnen foram alojados em luxuosas habitações de uma asa isolada do palácio. Já tinham recebido os passes para a coroação e casamento.
Entretanto, antes de toda a pompa e cerimônia, o barão teria o triste dever de presenciar o terrível julgamento de Leto Atreides. Agitou os dedos sobre sua perna e umedeceu os lábios grossos. Ai, a carga da nobreza.
Estava sentado em uma macia poltrona anil, e embalava uma esfera em seu regaço. No interior da bola transparente brilhavam holoimagens de jogos artificiais e exibições luminosas, prévias dos festejos que Kaitain viveria dentro de alguns dias. Em um canto da estadia, uma chaminé musical emitia notas suaves e calmantes. Nos últimos tempos se sentia cansado com freqüência, notava o corpo fraco e tremulo.
— Quero que abandone o planeta — disse o barão a Glossu Rabban sem parar de olhar para a esfera de cristal —. Não o quero aqui durante o julgamento e coroação.
O homem de ombros largos se irritou. Cortara o cabelo muito curto, sem elegância, para sua aparição em público, e usava um colete de pele almofadado que lhe dava ainda mais aspecto de barril.
— Por quê? Fiz tudo o que me pediu, e nossos planos foram coroados de êxito. Por que me manda embora agora?
— Porque não o quero aqui — disse o barão —. Não posso permitir que alguém o veja e pense que teve algo a ver com a situação do pobre Leto. Seu aspecto é muito... maligno.
O sobrinho do barão franziu o sobrecenho, ainda desafiador.
— Mas quero olhar nos olhos dele quando ouvir sua sentença.
— Por isso deve partir. Não entende? Isso o delatará.
Rabban grunhiu e se rendeu.
— Posso assistir à execução, ao menos? — Parecia a ponto de chorar.
— Depende de quando ela acontecer. — O barão olhou para os dedos cheios de anéis e repicou com eles sobre a suave superfície da esfera.
— Não se preocupe, garantirei que o acontecimento seja gravado para seu prazer.
O barão se levantou da poltrona com esforço e rodeou o cinturão de sua bata. Suspirou e passeou pela habitação descalço. Viu a banheira trabalhada, com seus complicados controles de massagem e temperatura.
Como seu corpo continuava atormentado por dores misteriosas, decidiu tomar um longo e sibarítico banho.
Rabban, ainda aborrecido, continuou imóvel na soleira dos opulentos aposentos do barão.
— O que devo fazer, tio?
— Pegue o primeiro Cruzeiro disponível. Quero que vá para Arrakis e vigie a produção de especiaria. Que os lucros não parem de aumentar. —
Sorriu e moveu os dedos para se despedir do seu sobrinho —. Não faça essa cara. Divirta-se caçando alguns Fremen. Já fez sua parte nesta conspiração, e muito bem, por certo. — Sua voz soou consoladora —. Mas temos que ser cautelosos. Sobretudo agora. Preste atenção ao que faço e trate de aprender disso.
Rabban assentiu e partiu. Sozinho por fim, o barão começou a pensar na forma de localizar algum jovenzinho de pele suave que o atendesse no banheiro. Queria estar completamente relaxado e preparado para o dia seguinte.
Amanhã não teria nada melhor que fazer além de observar e saborear o acontecimento, quando o jovem Leto se encontrasse apanhado em mais armadilhas do que podia imaginar.
Logo a Casa Atreides deixaria de existir. O que é mais importante, a forma que a justiça adota ou o resultado? Por mais que o tribunal diseccione as provas, os alicerces da verdade permanecem incólumes. Infelizmente para muitos acusados, com freqüência só a vítima e o perpetrador conhecem a verdade genuína. Todos os outros têm que tomar sua própria decisão. Lei do Landsraad, condições e análises.
Na manhã do julgamento. Leto Atreides se distraiu escolhendo seu traje. Outros, na mesma situação, teriam usado seus objetos mais caros, camisas de seda mehr, colares e pulseiras, junto com capas forradas de pele de baleia e elegantes chapéus adornados com plumas e lantejoulas.
Em vez disso, Leto se decidiu por calças simples, uma camisa de riscas azuis e brancas e uma boina de pescador, a vestimenta simples que deveria usar se fosse condenado. De seu cinturão pendia uma bolsa com iscas de pesca e a bainha vazia de uma faca. Um plebeu comum, que seria.
Com esta atitude, Leto proclamava ao Landsraad que sobreviveria, qualquer que fosse o resultado do julgamento. As coisas simples lhe bastariam.
Seguindo o exemplo de seu pai, sempre havia tentado tratar bem a seus leais, até o extremo de muitos soldados e criados o considerarem um dos seus, um camarada. Agora, enquanto se vestia, começou a pensar em si mesmo como um homem simples, e descobriu que a sensação não o desagradava. Fazia que compreendesse o tremendo peso da responsabilidade que recaía sobre seus ombros desde a morte do velho duque.
Ser um humilde pescador significaria um alívio em certo sentido. Já não teria que se preocupar com conspirações, alianças instáveis e traições.
Pena que Kailea nunca aceitaria ser mulher de um pescador.
Além disso, não posso decepcionar meu povo.
Em uma breve carta enviada de Caladan, sua mãe tinha expressado seu desacordo com o Julgamento de Confisco. Para ela, a perda de posição social relacionada com a destruição da Casa Atreides seria um golpe mortal, embora agora (de forma transitiva, imaginava ela) vivesse com austeridade entre as
irmãs do Isolamento.
Devido à decadência da Casa Richese, Helena tinha contraído matrimônio com um membro da Casa Atreides, afim de equilibrar a cambaleante fortuna de sua família depois que o imperador Elrood retirara o semifeudo de Arrakis e o concedera aos Harkonnen.
Como dote de Helena, a Casa Atreides tinha recebido poder político, uma diretoria na CHOAM e o direito a voto no Landsraad. Mas o duque Paulus nunca tinha proporcionado a sua mulher a fabulosa fortuna que ela desejava, e Leto sabia que sua mãe ainda abrigava esperanças de recuperar as glórias passadas de sua família. Tudo isto seria impossível para ela se Leto perdesse o julgamento.
Depois de receber a citação de comparecimento no meio da amanhã, Leto se encontrou com seus assessores legais no corredor: duas brilhantes advogadas elaccanas, Clere Ruim e Liruda Viol, famosas por seus sucessos. Tinham sido recomendadas pelo embaixador ixiano no exílio, Cammar Pilru, e Thufir Hawat as interrogara minuciosamente.
As advogadas usavam trajes escuros e se ateriam aos formalismos legais, embora neste julgamento Leto sabia que tudo dependia dele.
Precisava de provas concretas a seu favor.
Clere Ruim entregou uma fina folha de cristal riduliano, que continha uma breve declaração.
— Perdoe-me, lorde Leto. Isto acaba de chegar faz alguns momentos.
Leto, assustado, leu as palavras. A seu lado, os ombros de Hawat se nublaram, como se tivesse adivinhado o conteúdo do documento. Rhombur se aproximou para tentar ler as gravuras do cristal.
— O que é, Leto? Deixe vê-lo.
— O tribunal decidiu que nenhuma Reveladora da Verdade Bene Gesserit pode falar em meu nome. Tal testemunho não será considerado.
Rhombur explodiu de indignação.
— Infernos carmesins! Mas se tudo é plausível em um Julgamento de Confisco! Não podem fazer isso. A outra advogada elaccana meneou a cabeça, inexpressiva.
— Adotaram a postura de que as demais leis imperiais atuam em seu contrário. Numerosas normas proíbem expressamente o testemunho das Reveladoras da Verdade. Talvez os requisitos das provas sejam flexíveis em um procedimento como este, os magistrados decidiram que essa flexibilidade não as inclui.
— Assim... adeus Reveladoras da Verdade. — Rhombur franziu o sobrecenho —. Era nossa maior esperança.
Leto ergueu a cabeça.
— Nesse caso teremos que fazê-lo sem ajuda. — Olhou para seu amigo —. Venha, quase sempre é você o que me transmite otimismo.
— Um elemento positivo — atravessou Bruda Viol — é que os Tleilaxu eliminaram o piloto sobrevivente da lista de testemunhas. Não deram explicações.
Leto exalou um suspiro de alívio, mas Hawat disse:
— Mesmo assim restam muitos testemunhos acusadores, meu duque.
A seguir se dirigiram para a lotada sala do tribunal do Landsraad. A advogada Ruim se sentou no final da longa mesa da defesa, diante do alto estrado dos magistrados. Sussurrou algo ao ouvido de Leto, mas este estava lendo os nomes dos magistrados designados: sete duques, barões, condes e senhores escolhidos aleatoriamente entre as Grandes e Pequenas Casa do Landsraad.
Esses homens decidiriam sua sorte.
Como os Tleilaxu não pertenciam a nenhuma Casa real e tinham sido expulsos do Landsraad depois da queda de IX, não estavam representados.
Nos dias anteriores ao julgamento, indignados dignitários Bene Tleilax tinham exigido justiça nos pátios do palácio, mas depois do atentado contra a vida de Leto, guardas Sardaukar os tinham dispersado.
Os magistrados entraram solenemente na sala. Tomaram assento no estrado curvo de madeira maciça que se abatia sobre a mesa da defesa. As bandeiras e emblemas de suas Casas pendiam atrás de cada cadeira.
Leto, que tinha sido informado por suas advogadas e Hawat, reconheceram a todos. Dois magistrados, o barão Terkillian Irma de Anbus IV e lorde Bain Ou'Garce de Hagal, tinham sido fiéis aliados econômicos da Casa Atreides. Um, o duque Pard Vidal de Ecaz, era um inimigo jurado do velho duque e aliado dos
Harkonnen. Outro, o conde Antón Recheie, tinha fama de aceitar subornos, o que o transformava em presa fácil dos Harkonnen.
Empate, pensou Leto. Os outros três magistrados podiam decidir-se por qualquer dos lados, mas sentiu o cheiro da traição no ar. Viu-o nas expressões dos magistrados, na forma em que evitavam olhá-lo nos olhos.
Já se decidiram me condenar, perguntou-se.
— Temos más notícias, duque Leto — disse Bruda Viol. Seu rosto era quadrado e severo, desprovido de paixão, como se tivesse visto tantas injustiças que nada a impressionava —. Acabamos de descobrir que um dos três magistrados indecisos. Rincon de Casa Fazcel, perdeu uma imensa fortuna nas mãos de IX em uma guerra comercial relacionada com as minas dos asteróides do sistema Klytemn. Há cinco anos os conselheiros de Rincon o impediram de declarar uma guerra feudal contra Dominic Vernius.
A outra advogada assentiu e baixou a voz.
— Chegou a nossos ouvidos o rumor de que Rincon considera sua queda a única oportunidade de apropriar-se de IX, agora que a Casa Vernius se declarou renegada.
Um fio de suor frio correu pelas costas de Leto.
— Este julgamento tem alguma relação com o que ocorreu realmente no Cruzeiro? — ironizou amargurado.
Tanto Bruda Viol como Clere Ruim olharam para ele desconcertadas.
— Três a dois, meu duque — disse Hawat —. Portanto, temos que ganhar nos dois juízes indecisos e não perder nenhum dos poucos apoios que conseguimos.
— Tudo sairá bem — disse Rhombur.
A sala do tribunal, blindada e sem janelas, tinha sido em outros tempos chancelaria ducal durante as obras de construção de Kaitain. Seu teto gótico abobadado estava adornado com afrescos de tema militar e os emblemas e escudos das Grandes Casas. Leto se concentrou no falcão vermelho dos Atreides. Embora tentasse conservar a calma, uma terrível sensação de perda o invadiu, um desejo do que nunca voltaria a existir. Em pouco tempo tinha perdido tudo que seu pai deixara, e a Casa Atreides se encontrava a beira da ruína.
Quando sentiu que as lágrimas brotavam em seus olhos, amaldiçoou-se por sua
fraqueza momentânea. Nem tudo estava perdido. Ainda podia ganhar. Ganharia! Apertou os lábios e rechaçou a onda de desespero. O
Landsraad estava observando-o e tinha que ser forte o bastante para enfrentar tudo que o esperava. Não podia entregar-se ao desespero, nem a nenhuma outra emoção.
Os observadores enchiam a sala e discutiam exaltados. Duas mesas flanqueavam a mesa da defesa. Seus acusadores sentaram-se à mesa da esquerda: representantes designados pelos Tleilaxu, talvez patrocinados pelos Harkonnen e outros inimigos dos Atreides. O odiado barão e seu séquito se acomodaram na tribuna dos espectadores. Na outra mesa se sentavam os aliados e amigos dos Atreides. Leto saudou cada um com um sorriso de confiança.
Mas seus pensamentos não eram tão audazes, pois devia admitir que seu caso tinha poucas chances de sucesso. Os fiscais apresentariam a prova das armas disparadas da nave Atreides, dúzias de testemunhas neutras convencidas de que os disparos não podiam ter vindo de outra nave. Até sem o testemunho do piloto Tleilaxu, bastaria o de outros observadores. O
testemunho de seus companheiros e da tripulação não seria suficiente, nem o dos numerosos amigos da família que atestariam sua firmeza moral.
— Talvez a proscrição das Reveladoras da Verdade nos permita para uma apelação — sugeriu Clere , mas isso não consolou Leto. De repente, por um corredor lateral, os Tleilaxu chegaram com seus Mentats pervertidos. Chegaram com a mínima pompa, mas com o estrépito de um veículo com aspecto diabólico. Rodava sobre rodas engripadas, acompanhado do ruído de engrenagens. Fez-se silêncio na sala e os espectadores esticaram o pescoço para contemplar o engenho mais aterrador que tinham visto em sua vida.
Com certeza fazem isso de propósito, pensou Leto, para me deixar mais nervoso.
Os Tleilaxu passaram com seu veículo detestável diante da mesa da defesa e olharam para Leto com olhos escuros e ferozes. O público começou a murmurar. Continuando, o cortejo Tleilaxu se deteve sob o estrado dos juízes.
— O que significa isso? — exclamou um dos magistrados, o barão Terkillian, e se inclinou para frente com o sobrecenho franzido.
O líder dos Tleilaxu dirigiu um olhar de ódio a Leto e se voltou para o magistrado.
— Excelências, nos anais da jurisprudência imperial os Julgamentos de Confisco são escassos, mas a lei é inequívoca: “Se a defesa do acusado é desprezada, este perderá todas as suas posses, sem exceção.” Todas.
— Sei. — Terkillian Irmã continuava áspero —. Que relação tem isso com este artefato?
O porta-voz Tleilaxu respirou fundo.
— Pretendemos reclamar não só as posses da Casa Atreides, mas também a pessoa do odioso criminoso Leto Atreides, incluído suas células e seu material genético.
O público soltou um murmúrio de surpresa, e os ajudantes Tleilaxu manipularam os controles da máquina. Folhas de serra começaram a girar, e arcos elétricos saltaram de uma agulha longa a outra. Aquele artefato era atroz e exagerado, sem dúvida de propósito.
— Com este engenho sangraremos o duque Leto Atreides nesta sala, até a última gota. Nós o esfolaremos, e arrancaremos seus olhos para usá
los em nossas análises e experimentos. Todas as suas células serão nossas, para os propósitos que decidirmos. — Inspirou pelo nariz —. Estamos em nosso direito!
Leto permaneceu imóvel, com um esforço desesperado por ocultar sua angústia. Um suor frio desceu por suas costas. Queria que seus advogados dissessem algo, mas guardaram silêncio.
— Talvez o acusado descubra alguma vantagem em seu destino —
sugeriu o Tleilaxu com um sorriso perverso —, já que não tem herdeiro: com suas células temos a opção de ressuscitá-lo como um ghola.
Para obedecer todas as suas ordens, pensou Leto, horrorizado.
Rhombur lançou um olhar desafiante aos Tleilaxu da mesa da defesa, enquanto Hawat continuava sentado a seu lado como uma estátua. As duas advogadas tomavam notas.
— Acabemos com esta palhaçada — trovejou lorde Bain Ou'Garee
—. Decidiremos esta questão mais tarde. Comecemos o julgamento. Quero escutar o que o Atreides tem a dizer em sua defesa.
Leto compreendeu que estava perdido, mas procurou não demonstrar. Todos os presentes na sala sabiam que odiava os Tleilaxu e conheciam seu apoio à família ixiana exilada. Podia chamar testemunhas que atestassem sua retidão moral, mas ninguém o conhecia realmente. Era jovem e inexperiente, empurrado pela tragédia ao papel de duque. A única vez que os membros do Landsraad tinham visto Leto fora quando tinha falado ao Conselho dando mostras de seu temperamento impetuoso.
Saltaram faíscas da máquina de dissecação dos Tleilaxu, como uma besta faminta e impaciente. Leto teve certeza que não haveria apelação.
Antes que chamassem a primeira testemunha, as enormes portas de latão esculpidas se abriram de súbito e golpearam as paredes. Um murmúrio percorreu a sala e Leto ouviu o ressoar de botas com saltos de metal sobre o chão de marmorita.
Voltou a cabeça e viu o príncipe herdeiro Shaddam, vestido com peles púrpuras e douradas, em vez de seu habitual uniforme Sardaukar.
Seguido por uma escolta de elite, o futuro imperador avançou decidido e prendeu a atenção de todos. Quatro homens armados até os dentes escrutinaram o público, preparados para usar a violência ante qualquer manifestação.
Um Julgamento de Confisco já era bastante insólito no tribunal do Landsraad, mas a aparição do futuro imperador Padishah não tinha precedentes.
Shaddam passou junho a Leto sem olhar para ele. Os Sardaukar tomaram posições atrás da mesa da defesa, o que aumentou a inquietação de Leto.
O rosto de Shaddam era impenetrável, e seu lábio superior se agitava levemente. Era impossível saber suas intenções. A mensagem o ofendera?, perguntou-se Leto. Ou pensa em aceitar meu blefe? Vai me esmagar diante de todo o Landsraad? Quem me defenderia se o fizesse?
Shaddam chegou em frente ao estrado e ergueu a vista.
— Antes que o julgamento comece — anunciou —, quero fazer uma declaração. O tribunal me permite?
Embora Leto não confiasse em seu primo longínquo, teve que admitir que o porte de Shaddam era majestoso e elegante. Pela primeira vez viu aquele homem como uma verdadeira presença por direito próprio, não só a sombra de seu pai, o velho Elrood. A coroação de Shaddam seria celebrada dentro de dois dias,
seguida de suas bodas com Anirul, acontecimentos que talvez Leto não viveria para ver. A poderosa Bene Gesserit tinha dado seu apoio ao iminente reinado de Shaddam, e todas as Grandes e Pequenas Casas queriam estar a seu lado.
Sente-se ameaçado por mim?, pensou.
O presidente do tribunal assentiu efusivamente.
— Senhor, seu interesse no caso nos honra. É obvio que este tribunal o escutará. — Leto conhecia só os dados históricos sobre aquele magistrado, o barão Lareira Olin, do planeta Risp Vil, rico em titânio —.
Rogo que fale.
— Com a permissão da corte — disse Shaddam —, eu gostaria que meu primo Leto Atreides se colocasse a meu lado. Preciso comentar sobre estas acusações maliciosas e espero evitar que o tribunal desperdice o valioso tempo dos seus membros.
Leto, estupefato, olhou para Hawat. O que está havendo? “Primo”?
Da maneira como dissera, soou como uma palavra carinhosa... mas ele e eu nunca fomos amigos. Leto era o simples neto de uma das esposas de Elrood, a segunda, nem sequer da mãe de Shaddam, A árvore genealógica Corrino se estendia entre as Casas do Landsraad. Qualquer relação consangüínea significaria pouco para Shaddam.
O magistrado assentiu. As advogadas de Leto estavam perplexas, sem saber como reagir. Leto ficou em pé com cautela e avançou para o príncipe herdeiro com os joelhos trêmulos. Deteve-se a um passo dele.
Embora tivessem peso e traços faciais similares, estavam vestidos de forma muito diferente, exemplificando os dois extremos sociais. Com sua tosca indumentária de pescador, Leto se sentiu como uma bolinha de pó em meio de um furacão.
Fez uma reverência, mas Shaddam salvou o abismo entre ambos, apoiando uma mão no ombro de Leto. O imaculado manto do príncipe herdeiro se derramou como uma cascata sobre o braço do jovem Atreides.
— Falo do coração da Casa Corrino, o sangue dos imperadores Padishah — começou Shaddam —, com as vozes solidárias de todos os meus antepassados que se relacionaram com a Casa Atreides. O pai deste homem, o duque Paulus
Atreides, lutou corajosamente pela causa imperial contra os rebeldes de Ecaz. Nem na batalha nem assediada pelos maiores perigos a Casa Atreides cometeu, que eu saiba, a menor traição nem ato desonroso, até remontar a seu heroísmo e sacrifício na ponte do Hrethgir, durante a Jihad Butleriana. Jamais foram assassinos covardes. Eu os desafio a provarem o contrário.
Entreabriu os olhos, e os magistrados afastaram a vista, incômodos.
Shaddam passeou a vista de magistrado em magistrado.
— Quem dos senhores, conhecedores das histórias de suas Casas, pode dizer o mesmo? Quem exibiu a mesma lealdade, a mesma honra sem mácula? Poucos de nós, para falar a verdade, podemos nos comparar com a Casa Atreides. — Fez uma pausa significativa, só interrompida por uma aguda descarga de estática procedente da ameaçadora máquina de dissecação Tleilaxu —. E por isso estamos aqui hoje, não é assim, cavaleiros? Pela verdade e pela honra.
Alguns magistrados assentiram, porque era o que se esperava deles, mas pareciam perplexos. Os líderes imperiais nunca apareciam nos tribunais do Landsraad. Por que Shaddam se envolvia em um assunto de relativa importância?
Ele leu minha mensagem!, compreendeu Leto. E esta é sua resposta.
De qualquer modo, esperava que alguma armadilha aparecesse de um momento para outro. Não entendia em que se colocara, mas a intenção de Shaddam não podia ser unicamente de resgatá-lo. De todas as Grandes Casas do Landsraad, a do Corrino era a mais tortuosa.
— A Casa Atreides sempre seguiu o caminho reto — continuou Shaddam, e ergueu um pouco mais sua voz majestosa —. Sempre! O jovem Atreides foi educado neste código ético familiar, e se viu obrigado a ocupar seu cargo antes do tempo devido a morte absurda de seu nobre pai.
Shaddam avançou um passo.
— Na minha opinião, é impossível que este homem disparasse contra as naves Tleilaxu. Tal ato seria contrário às crenças e princípios da Casa Atreides. As provas que demonstrem o contrário devem ser falsas.
Minhas Reveladoras da Verdade me confirmaram isso depois de falar com Leto e suas testemunhas.
Ele está mentindo, pensou Leto. Eu não falei com nenhuma Reveladora da Verdade!
— Mas, alteza real — disse o magistrado Prad Vidal, com o sobrecenho franzido —, os canhões de sua nave mostravam sinais de ter sido disparados, está insinuando que as naves Tleilaxu sofreram danos por causa de um acidente? Uma loucura! Coincidência?
Shaddam deu de ombros.
— Pelo que me diz respeito, o duque Leto explicou suas circunstâncias plenamente. Eu também voei em uma nave de combate para praticar. O resto da investigação não é concludente. Talvez tenha sido um acidente, sim, não provocado pelos Atreides. Pode ter sido causado por uma falha mecânica.
— Nas duas naves Tleilaxu? — perguntou Vidal.
Leto ficou sem fala. Shaddam estava a ponto de iniciar seu reinado.
Se o imperador utilizava sua influência a favor de Leto, que representante iria contrariar a coroa? As repercussões podiam ser graves e duradouras.
Tudo é uma questão de política, jogos do poder do Landsraad, troca de favores, pensou Leto, e se esforçou por oferecer uma aparência serena.
Nada disto tem relação com a verdade. Agora que o príncipe herdeiro tinha deixado clara sua postura, qualquer magistrado que votasse para condenar Leto desafiaria de forma aberta o novo imperador. Nem sequer os inimigos da Casa Atreides ousariam correr o risco.
— Quem sabe? — respondeu Shaddam, com um gesto que equivalia a desprezar a questão por ser irrelevante —. Talvez restos da primeira explosão acidental alcançaram à outra nave.
Ninguém engoliu essa explicação nem por um momento, mas o príncipe herdeiro lhes oferecia uma saída, uma plataforma sobre a qual pousar.
Os magistrados conferenciaram em voz baixa entre eles. Alguns admitiram que o raciocínio de Shaddam era plausível, mas Vidal não estava entre eles. O suor molhava sua testa.
Leto viu que o porta-voz Tleilaxu meneava a cabeça, manifestando em silêncio sua frustração. Parecia um menino aborrecido.
O príncipe herdeiro continuou.
— Estou aqui, por meu direito e dever de comandante supremo, para interceder por meu primo, o duque Leto Atreides. Solicito que anulem este julgamento e lhe devolvam seus títulos e propriedades. Se atenderem este...
pedido, prometo enviar uma delegação de diplomatas imperiais para convencer os Tleilaxu a esquecerem o assunto e não se vingar dos Atreides em nenhum sentido.
Shaddam olhou fixamente para os Tleilaxu, e Leto teve a impressão de que o imperador também tinha o anão contra as cordas. Ao ver que Shaddam apoiava a Casa Atreides, sua arrogância ruiu.
— E se os querelantes não concordarem? — perguntou Vidal.
Shaddam sorriu.
— Oh, eles concordarão. Estou disposto a abrir as arcas imperiais para oferecer uma compensação generosa pelo que sem dúvida foi um desgraçado acidente. É meu dever manter a paz e a estabilidade do Império.
Não posso permitir que esta inimizade destrua o que meu querido pai forjou durante seu longo reinado.
Leto captou o olhar de Shaddam e detectou um brilho de medo sob sua pátina de fanfarronice. Shaddam o advertiu com um gesto que se mantivesse em silêncio, o que avivou ainda mais a curiosidade do duque pelos alarmes que seu blefe tinha disparado.
Em conseqüência, calou, mas Shaddam o deixaria viver depois disso, sem saber que provas possuía contra ele?
Depois de um breve conciliábulo entre seus colegas, o barão Lareira Olin pigarreou e anunciou:
— Este tribunal decide que todas as provas contra Leto Atreides são circunstanciais. Tendo em conta dúvidas tão extremas, não existem motivos suficientes para realizar um julgamento de conseqüências tão graves, sobretudo a luz do testemunho do príncipe herdeiro Shaddam. Portanto, declaramos Leto Atreides inocente e lhe devolvemos seu título e suas propriedades.
Leto, assombrado, recebeu a felicitação do futuro imperador, e depois foi rodeado por seus amigos e partidários. Todos estavam encantados, mas apesar de
sua juventude Leto não era ingênuo: sabia que muitos estavam contentes apenas pela derrota dos Tleilaxu.
Os assistentes prorromperam em vivas e aplausos, com exceção de uns poucos que guardaram silêncio. Leto se fixou neles, com a segurança de que Thufir Hawat fazia o mesmo.
— Leto, tenho que fazer algo mais — disse Shaddam, interrompendo o clamor.
E a seguir extraiu de sua manga uma faca com o punho cravejada de jóias, de uma cor verde-azulada translúcida, como quartzo de Hagal do trono imperial. Shaddam se aproximou do Leto com rapidez e todos emudeceram. Thufir Hawat ficou em pé de um salto, muito tarde.
Então, com um sorriso, Shaddam deslizou a faca na bainha vazia de Leto.
— Receba meus parabéns, primo — disse —. Receba esta faca em reconhecimento aos serviços que me prestou. Fazemos o que é preciso. Malditas sejam a amizade e a lealdade. Fazemos o que é preciso! Diário pessoal de Lady Helena Atreides.
Hasimir Fenring meditava em seus aposentos privados, perplexo.
Como Shaddam pode me fazer isto?
A cápsula de mensagem com o selo oficial imperial, o leão de cera da Casa Corrino, jazia aberta sobre a cama. Tinha quebrado em pedaços o decreto de Shaddam, mas não antes de memorizar cada palavra.
Um novo destino. Um castigo? Uma promoção?
“Hasimir Fenring, em reconhecimento a seus infatigáveis serviços ao Império e ao trono do imperador Padishah, destino-o pela presente a um cargo recém criado como Observador Imperial em Arrakis. Devido a importância vital deste planeta para a economia imperial, contará com todos os recursos necessários para executar sua missão. Blá, blá, blá. Como pode? Que forma estúpida de desperdiçar o talento do Mentat.
Que vingança mesquinha enviá-lo a um poço de areia, cheio de vermes e
gentinha. Estava irado e desejava comentar o assunto com a fascinante Margot Rashino Zea, em que confiava mais do que o aconselhável. Afinal, era uma bruxa Bene Gesserit ...
Devido à importância vital do planeta! Soprou, aborrecido, e depois se dedicou a quebrar tudo que estava ao alcance de suas mãos. Sabia que Shaddam o castigara em um arrebatamento de indignação. O novo cargo era um insulto para um homem com as aptidões de Fenring, e o expulsava do centro do poder imperial. Precisava estar aqui, em Kaitain, no olho do furacão da política, não perdido em um esquecido canto do espaço.
Mas ninguém podia questionar ou descumprir o decreto de Shaddam.
Fenring tinha trinta dias para apresentar-se naquele planeta árido.
Perguntou-se se retornaria algum dia. Todas as pessoas estão contidas em um só indivíduo, assim como toda a eternidade em um momento, e todo o universo em um grão de areia. Aforismo Fremen.
O dia da coroação e bodas de Shaddam IV chegara, um ambiente festivo reinava em todos os planetas do Império. Multidões jubilosas se dedicavam a beber, dançar, assistir a espetáculos esportivos e exibições de fogos artificiais. O velho Elrood tinha reinado durante tanto tempo, que poucos recordavam a última vez que um novo imperador tinha sido coroado.
Em Kaitain, a capital, as multidões se amontoavam ao longo das magníficas avenidas, junto ao caminho que seguiria a comitiva imperial.
Era um dia ensolarado, como de costume, e os vendedores estavam esgotando suas reservas de lembranças, objetos comemorativos e refrescos.
Bandeiras da Casa Corrino ondeavam na brisa. Para a ocasião, todos vestiam as cores escarlate e ouro. Guardas Sardaukar custodiavam o caminho, embelezados com objetos de brocado dourado sobre seus uniformes cinza e negro. Imóveis como estátuas, sustentavam seus rifles laser, indiferentes à fanfarra e o bulício da multidão, preparados para reagir com presteza mortífera ante a menor insinuação de ameaça à presença imperial. Quando o príncipe herdeiro e lady Anirul passaram em uma limusine puxada por seis leões dourados de Harmonthep, milhares de gargantas prorromperam em
vivas. Os animais, cujas crinas magníficas se agitavam com a brisa suave, foram engalanados com jóias.
O aspecto de Anirul era suntuoso. Saudou e sorriu. Tinha renunciado a seu hábito Bene Gesserit e usava uma cascata de babados, pulseiras e colares de pérolas. O sol se refletia nos prismas e jóias incrustados em seu diadema. A seu lado, Shaddam parecia um verdadeiro imperador, com seu cabelo avermelhado e um uniforme transbordante de galões e medalhas.
Como o matrimônio do príncipe herdeiro não fazia presumir o menor favoritismo para nenhuma Casa, o Landsraad tinha aceito Anirul como consorte imperial, embora muitos tivessem questionado suas origens misteriosas e sua filiação à Bene Gesserit. Depois da morte de Elrood, seguida pela coroação e bodas, o Império estava imerso em muitas mudanças. Shaddam confiava em aproveitarse dessas circunstâncias. Com expressão paternal, jogou Solaris e pacotes de pó de gemas para a multidão, conforme a tradição imperial. O povo o amava. Estava rodeado de riqueza. Com um estalo de seus dedos, podia condenar à aniquilação planetas inteiros. Assim era como tinha imaginado a tarefa de imperador.
Os trompetistas emitiram sons jubilosos.
— Não vai se sentar comigo, Hasimir? — perguntou a loira esbelta, ao mesmo tempo em que lhe dirigia um sorriso coquete durante a recepção anterior a coroação.
Fenring não soube se Margot Rashino Zea havia impostado uma voz sensual ou era a sua própria. O Mentat segurava uma bandeja de canapés exóticos. Detectores de venenos flutuavam como mariposas sobre os convidados. A recepção se prolongaria durante horas e os convidados poderiam tomar quantos aperitivos desejassem.
A irmã Margot Rashino Zea era mais alta que Fenring, e se aproximava muito dele quando falava. Seu vestido coral e negro realçava a deliciosa perfeição de seu corpo e rosto. Usava um colar de pérolas caladano e um broche incrustado de ouro e pedras preciosas. Sua pele recordava leite mesclado com mel.
Ao seu redor, no vestíbulo da galeria do Grande Teatro, nobres de ambos os sexos vestidos com elegância conversavam e bebiam excelentes vinhos em taças. O cristal tilintava quando as taças em brindes repetidos se chocavam. Ao fim de uma hora, os reunidos seriam testemunhas do duplo acontecimento que seria celebrado no cenário principal: a coroação do imperador Padishah
Shaddam Corrino IV e seu enlace matrimonial com lady Anirul Sadow Tonkin, da Bene Gesserit.
Fenring assentiu com a cabeça e dedicou uma reverência a sua acompanhante.
— Seria uma honra para mim me sentar a seu lado, adorável Margot.
Sentaram-se no banco. Margot inspecionou os canapés que ele tinha escolhido e pegou um.
Era uma festa alegre, pensou Fenring, sem os murmúrios de descontentamento que tanto tinham envenenado o palácio durante os últimos meses. Estava satisfeito com seus esforços neste sentido. Cimentara as alianças chave, e as Casas Federadas já não falavam em rebelar-se contra Shaddam. As Bene Gesserit tinham dado apoio público à estirpe dos Corrino, e não havia dúvida que as bruxas continuavam com suas maquinações secretas em outras Grandes Casas. Fenring considerava curioso que muitos nobres que se mostraram suspeitos e contrários a ele já não se contassem entre os vivos, mais curioso ainda porque ele não era o responsável.
O julgamento de Leto Atreides tinha terminado graças à intervenção do imperador, e os únicos que não tinham ficado satisfeitos com o veredicto eram os Bene Tleilax. Shaddam e ele os sossegariam muito em breve. O grande mistério que intrigava Fenring era que ninguém parecia saber com exatidão o que tinha ocorrido a bordo do Cruzeiro da Corporação.
Quanto mais observava e considerava a estranha cadeia de acontecimentos, mais começava a acreditar na possibilidade de que alguém tivesse criado uma cilada para o jovem Leto... mas quem e como?
Nenhuma Casa se gabou disso, e como todos, quase sem exceção, tinha acreditado na culpa do Atreides, nem sequer as línguas mais violentas tinham espalhado rumores.
Fenring desejava saber o que tinha ocorrido, mesmo que fosse para acrescentar o método a seu próprio repertório. Não obstante, em seu novo destino em Arrakis teria poucas chances de desvendar o segredo.
Antes de continuar sua agradável conversa com Margot, ouviu os gritos da multidão reunida no exterior e o ressoar de trompetes.
— Shaddam e o séquito imperial estão a ponto de chegar — disse ela ao mesmo tempo em que movia sua cabeleira loira —. É melhor ocuparmos nossos
assentos.
Fenring sabia que a carruagem do príncipe estava a ponto de entrar nos terrenos do teatro e dos edifícios governamentais. Tentou dissimular sua decepção.
— Mas você estará na seção reservada às Bene Gesserit, querida. —
Olhou para ela com olhos cintilantes, enquanto molhava uma parte do faisão de Kaitain em uma terrina de molho de ameixas —. Você gostaria que eu vestisse um de seus hábitos e fingisse ser membro da Irmandade? — Engoliu a carne, saboreando-a, ela faria aquilo para estar a seu lado, hummmm? Ela lhe deu alguns leves golpes no peito. — Não podem dizer que você não é o que aparenta, Hasimir Fenring.
Ele entreabriu seus enormes olhos.
— O que quer dizer?
— Quem vai dizer que você e eu temos muito em comum. —
Apoiou um de seus generosos seios contra o braço de Hasimir—.
Possivelmente seja conveniente formalizarmos esta aliança que estamos criando.
Fenring passeou a vista em redor, para ver se alguém estava escutando. Os espiões o aborreciam. Depois se aproximou mais dela e disse com voz inexpressiva:
— Nunca quis me casar. Sou um eunuco genético, incapaz de gerar filhos.
— Isso significa que deveremos fazer certos sacrifícios, cada um a sua maneira, mas isso não me preocupa sabe? — Arqueou suas sobrancelhas douradas —. Além disso, imagino que conhece outras maneiras de agradar uma mulher. Eu, de minha parte, fui preparada para todas as eventualidades.
Um sorriso cruel cruzou o rosto de Fenring. — Ah, sim? Hummmm. Minha querida Margot, tenho a impressão de que está submetendo a minha consideração um acordo comercial.
— E você, Hasimir, parece um homem muito mais prático que romântico. Acredito que formamos um bom casal. Os dois somos peritos em reconhecer planos complexos, meadas emaranhadas que relacionam ações na aparência
independentes.
— Os resultados devem ser mortíferos, não é?
Ela estendeu seu guardanapo para secar um pouco de molho no canto da boca de Fenring.
— Precisa de alguém que cuide de você.
Fenring estudou a refinada forma com que elevava o queixo, a perfeição e precisão de sua linguagem, que tanto contrastava com suas vacilações e dificuldades ocasionais. Entretanto, percebeu o brilho dos segredos ocultos atrás daquelas pupilas deliciosas... muitos segredos.
Poderia dedicar anos para desvendar aqueles segredos, desfrutando de cada um.
Fenring se recordou que aquelas bruxas eram muito inteligentes. Não empreendiam ações individuais. As aparências sempre enganavam.
— Você e sua Irmandade têm em mente um propósito muito mais importante, minha querida Margot. Sei algumas coisas sobre a Bene Gesserit. São um organismo coletivo.
— Informei ao organismo de meus desejos.
— Informou, ou pediu permissão? Ou foi enviada para me seduzir?
A primeira dama da Casa Venene passou com um par de cãezinhos pelados. Seu vestido dourado era tão volumoso que alguns convidados tiveram que afastar-se para deixá-la passar. A mulher andava com a vista cravada à frente, como se tivesse medo de perder o equilíbrio.
Margot a contemplou e depois se voltou para Fenring.
— Existem indubitáveis vantagens para todos nós, e a madre superiora Harishka já me deu sua bênção. Conseguiria uma valiosa relação com a Irmandade, embora eu não vá revelar todos os nossos segredos.
Deu-lhe uma cotovelada de brincadeira, e Fenring esteve a ponto de deixar cair a bandeja. — Hummmm — disse enquanto olhava para sua figura perfeita —. E
eu sou a chave do poder de Shaddam. Sou a pessoa em que ele mais confia.
Margot arqueou as sobrancelhas, pensativa.
— Por isso o mandou para Arrakis? Porque é seu confidente? Me disseram que a nova missão não o agrada muito.
— Como descobriu? — Franziu o sobrecenho e experimentou a incômoda sensação de que pisava em terreno falso —. Fui comunicado há apenas dois dias.
— Hasimir Fenring, tem que aprender a utilizar todas as circunstâncias em seu favor. Arrakis é a chave da melange, e a especiaria expande o universo. Nosso novo imperador talvez pense que o destinou a outra missão, mas na realidade lhe confiou algo de vital importância.
Pense; Observador Imperial em Arrakis.
— Sim, e o barão Harkonnen não ficará satisfeito. Suspeito que esteve ocultando pequenos detalhes desde o princípio.
A mulher o recompensou com um sorriso cálido.
— Ninguém pode ocultar-lhe tais coisas, querido. E tampouco a mim.
Fenring lhe devolveu o sorriso.
— Nesse caso, podemos aliviar os dias de exílio revelando nossos segredos.
Margot passou seus dedos finos e longos pela manga de Fenring.
— Arrakis é um lugar muito difícil para viver, mas... Conseguiria suportá-lo em minha companhia?
Fenring adotou cautela, como de costume. Embora a multidão estivesse infestada de vestidos extravagantes e plumagens exóticas, Margot era a mulher mais bela de toda a sala.
— Talvez, mas o que me atrai ali? É um lugar horrível, em todos os sentidos.
— Minhas irmãs o descrevem como um planeta cheio de antigos mistérios, e minha estadia nele aumentaria meu prestígio entre a Bene Gesserit. Poderia significar um passo importante em minha preparação para me transformar em reverenda madre. Pense: vermes de areia, Fremen, especiaria. Poderia ser muito interessante desvendar seus mistérios juntos.
Sua companhia me estimula, Hasimir.
— Refletirei sobre sua... proposta.
Sentia-se atraído para ela tanto física como emocionalmente...
sentimentos muito fastidiosos. Quando os tinha experimentado no passado, quisera rechaçar a atração, desfazer-se dela. Mas Margot Rashino Zea era diferente, ou ao menos parecia. O tempo diria.
Fenring ouvira rumores sobre os programas de reprodução da Bene Gesserit, mas devido a sua deformidade congênita, a Irmandade não devia cobiçar sua linha genética. Tinha que haver algo mais. Era evidente que os motivos de Margot transcendiam seus sentimentos pessoais, se é que sentia algo por ele. Devia ter intuído oportunidades nele, tanto para ela como para as irmãs.
Mas Margot também lhe oferecia algo, uma nova forma de chegar ao poder. Até agora, sua única vantagem tinha sido Shaddam, seu companheiro de infância. Entretanto, a situação tinha mudado já que o príncipe se comportava de uma forma estranha. Shaddam havia sobrevalorizado suas próprias aptidões, tentado tomar decisões sozinho e pensar por si mesmo. Uma forma de agir imprudente e perigosa, e ao que parecia ainda não se dera conta disso.
Dadas as circunstâncias, Fenring necessitava de novos contatos em centros de poder. Como as Bene Gesserit.
Quando a limusine imperial parou na entrada, os convidados começaram a entrar no Grande Teatro. Fenring deixou a bandeja sobre uma mesa auxiliar e Margot agarrou seu braço.
— Senta comigo? — disse.
— Sim. — Fenring lhe piscou um olho —. E talvez faça algo mais que isso.
Margot sorriu, e ele pensou que, se algum dia fosse necessário, seria muito difícil matar essa mulher.
Cada Grande Casa tinha recebido uma dúzia de convites para o acontecimento que teria lugar no Grande Teatro, enquanto o resto da população do Império o veria retransmitido. Todo o universo falaria dos detalhes da magnífica cerimônia durante a década seguinte, tal como Shaddam desejava.
Como representante da Casa Atreides, o duque Leto se sentou com seu séquito nos assentos de plaz negro da segunda fila, nível principal. O
querido primo do imperador tinha mantido as aparências desde que o julgamento
tinha finalizado, mas não acreditava que aquela fingida amizade perdurasse depois de sua volta a Caladan, a menos que Shaddam tentasse lhe devolvesse o favor. Cuidado com o que compra, havia dito o velho duque, porque pode haver um preço oculto.
Thufir Hawat estava sentado à direita de Leto, e um orgulhoso e efusivo Rhombur Vernius a sua esquerda. Do outro lado de Rhombur se sentava sua irmã Kailea, que tinha se juntado à delegação depois da desistência de Leto. Tinha ido apressada a Kaitain para assistir à coroação e dar apoio ao seu irmão. Seus olhos esmeralda brilhavam de entusiasmo e lançava exclamações de admiração ao ver tantas maravilhas. O coração de Leto se inflamava ao ver sua alegria, sentimento que não tinha mostrado desde a fuga de IX.
Rhombur Vernius exibia cores púrpura e cobre, no entanto Kailea se decidiu por cobrir seus ombros com uma capa Atreides adornada com o emblema do falcão vermelho, assim como Leto. Kailea segurou seu braço e deixou que a acompanhasse ao seu assento.
— Escolhi estas cores por respeito ao anfitrião que nos concedeu asilo — disse com doçura —, e para celebrar a recuperação da Casa Atreides.
Beijou-o na bochecha.
Como a questão da sentença de morte sobre a Casa Vernius ainda pendia sobre o horizonte como uma nuvem de tormenta, os descendentes assistiram a festividade por sua conta e risco. Entretanto, dado o ambiente festivo, Thufir Hawat deduziu que estariam a salvo, desde que não prolongassem sua estadia. Quando disse isso a Leto, ele riu. — Thufir, Mentats sempre dão garantias?
Mas Hawat considerou seu comentário divertido.
Embora nesse momento Kaitain fosse um dos lugares mais seguros do universo, Leto duvidava que Dominic Vernius aparecesse. Mesmo agora, depois da morte do vingativo Elrood, o pai de Rhombur não tinha ousado sair de seu esconderijo, nem tampouco enviara alguma mensagem.
Ao fundo do amplo teatro, tanto na platéia como nos anfiteatros, sentavam-se representantes de Casas Menores e das diversas facções, entre elas a CHOAM, a Corporação Espacial, os Mentats, os médicos Suk e outras bases de poder espalhadas entre um milhão de planetas. A Casa Harkonnen se isolou em um camarote. O barão, acompanhado do seu sobrinho Rabban, não olhou em
nenhum momento em direção aos Atreides.
— As cores, os sons, os perfumes, tudo me aturde — disse Kailea, e respirando fundo se aproximou mais de Leto —. Nunca tinha visto nada igual, nem em IX nem em Caladan.
— Ninguém no Império tinha visto algo semelhante nos últimos cento e quarenta anos — respondeu Leto.
Na primeira fila, bem diante dos Atreides, sentou-se um grupo da Bene Gesserit vestidas com hábitos negros idênticos, inclusive a murcha madre superiora Harishka. A um lado da fila montava guarda um contingente dos Sardaukar, com uniformes cerimoniais.
A delegação Bene Gesserit saudou a reverenda madre Anirul, a futura imperatriz, quando passou junto ao grupo, acompanhada de uma numerosa guarda de honra e suas damas de companhia. Rhombur procurou com o olhar a loira atraente que tinha entregado o misterioso cubo de mensagem, e a descobriu sentada com Hasimir Fenring.
No teatro se respirava uma atmosfera de espera. Por fim, fez-se o silêncio.
Shaddam, vestido com o uniforme oficial de comandante em chefe dos Sardaukar, adornado com galões chapeados e o emblema do Leão Dourado da Casa Corrino, avançou pelo corredor sobre um tapete de veludo e damasco. Seu cabelo escuro brilhava. Os membros da corte o seguiam, vestidos em escarlate e ouro.
Fechava a comitiva o Supremo Sacerdote de Dur, que tinha coroado todos os imperadores desde a queda das máquinas pensantes. Face a obrigação de avalizar a coroação, o Supremo Sacerdote pulverizou com orgulho o pó vermelho sagrado de Dur a direita e a esquerda.
Ao ver o passo majestoso e o imaculado uniforme de Shaddam, Leto recordou o dia em que o príncipe herdeiro tinha percorrido outro corredor para testemunhar em sua defesa, vistoso com as sedas e jóias próprias de um imperador. Agora tinha mais aparência militar, de comandante em chefe de todas as forças imperiais.
— Uma evidente manobra política — murmurou Hawat no ouvido de Leto —. Percebe? Shaddam está dando a entender aos Sardaukar que se considera um deles, que são importantes para seu reinado.
Leto assentiu, pois conhecia bem aquela prática. Como seu pai antes dele, o jovem duque confraternizava com seus homens, comia com eles e assistia suas rotinas diárias para demonstrar que nunca pediria a suas tropas o que ele não fosse capaz de fazer.
— Me parece mais cena que conteúdo — disse Rhombur.
— A tarefa de governar um império sempre deixa uma fresta para as exibições — disse Kailea.
Leto recordou com dor a afeição do velho duque pelas touradas e outros espetáculos.
Shaddam se deleitava em seu esplendor, banhado em glória. Fez uma reverência quando passou em frente a futura esposa e o contingente da Bene Gesserit. Antes se celebraria a coroação. Shaddam se deteve no lugar previsto e se voltou para o Supremo Sacerdote de Dur, que sustentava a coroa imperial sobre uma almofada dourada.
Uma ampla cortina se abriu atrás do príncipe herdeiro para descobrir o estrado imperial, que tinha sido transportado até ali. O maciço trono imperial tinha sido esculpido em uma única peça de quartzo verde azulado, a maior jóia de sua classe jamais descoberta, que remontava aos tempos do imperador Hassik III. Projetores ocultos lançavam lasers sintonizados para as profundidades do bloco de cristal, que refratava uma coroa de arco íris.
O público conteve o fôlego ao contemplar a beleza do trono.
Não há dúvida que os cerimoniais cumprem uma importante função na vida do Império, pensou Leto. Exercem uma influência aglutinadora, convencem as pessoas de que fazem parte de algo significativo.
Essas cerimônias cimentavam a impressão de que era a Humanidade, e não o Caos, quem governava o universo. Até um imperador ególatra como Shaddam podia fazer o bem, pensou Leto... e desejou isso com ardor.
O príncipe herdeiro subiu solene para o estrado real e se sentou no trono, com a vista cravada a frente, o Supremo Sacerdote se colocou atrás dele e elevou a coroa sobre sua cabeça.
— Jura fidelidade ao Sacro Império, príncipe herdeiro Shaddam Raphael Corrino IV?
A voz do sacerdote se ouviu em todo o teatro, amplificada por alto-falantes de alta fidelidade. Essas mesmas palavras foram transmitidas a todo o planeta de Kaitain e a todo o universo.
— Sim — respondeu Shaddam com voz retumbante.
O Supremo Sacerdote depositou o símbolo do seu poder sobre a cabeça do príncipe, transformando-o em supremo monarca de pleno direito.
— Entrego o novo imperador Padishah Shaddam IV — disse aos dignitários —. Que seu reino brilhe como as estrelas!
— Que seu reino brilhe como as estrelas! — o público fez coro com entusiasmo.
Quando Shaddam se levantou do trono com a coroa cintilante na cabeça, o fez como imperador do Universo Conhecido. As milhares de pessoas reunidas no teatro o aplaudiram e aclamaram. Passeou a vista pelo público, que era um microcosmos de tudo quanto governava, e seu olhar se pousou na doce Anirul, imóvel ao pé do estrado com sua guarda de honra e damas de companhia. O imperador estendeu uma mão para indicar que se reunisse com ele.
Harishka, a madre superiora da Bene Gesserit, conduziu Anirul até Shaddam. As mulheres se moviam como se deslizassem, como se Shaddam fosse um ímã que as atraía até sua presença. Depois, a anciã Harishka voltou para seu assento com as outras Bene Gesserit.
O sacerdote dirigiu umas palavras ao casal, enquanto o novo imperador deslizava dois anéis de diamantes no dedo anelar de Anirul, e a seguir uma aliança de pedras soo vermelhas que tinha pertencido a sua avó paterna.
Quando foram declarados marido e mulher, o Supremo Sacerdote de Dur os apresentou a assembléia. Hasimir Fenring se inclinou para Margot.
— Subimos e vemos se o Supremo Sacerdote é capaz de improvisar outra cerimônia rápida?
Margot soltou uma risadinha e lhe deu uma cotovelada.
Naquela noite, os festejos na capital alcançaram um ponto alto de adrenalina, feromonas e música. O casal real assistiu um banquete, seguido de um grande baile, e depois de uma orgia culinária, comparada com a qual o banquete não tinha sido mais que um aperitivo. Quando os recém casados partiram para o palácio imperial, os nobres jogaram rosas de seda mehr e os seguiram.
Por fim, o imperador Shaddam IV e lady Anirul se retiraram para seu leito matrimonial. No corredor, nobres e damas ébrios tocavam sinos de cristal e outros instrumentos, interpretando a tradicional serenata nupcial que augurava fertilidade à união.
Este tipo de celebrações não tinha mudado muito durante milênios, e remontavam aos dias pré-butlerianos, até as raízes do Império. Mais de mil valiosos presentes foram dispostos sobre a grama do jardim. As oferendas seriam recolhidas pelos criados e distribuídas posteriormente entre o povo, e as festividades se prolongariam durante uma semana.
Quando todas as celebrações terminassem, Shaddam poderia dedicar-se por fim a arte de governar seu Império. No final, o lendário acontecimento chamado “Golpe de Leto” cimentou a imensa popularidade do duque Atreides. Projetou-se como um resplandecente farol de honra sobre um mar galáctico de escuridão. Para muitos membros do Landsraad, a sinceridade e a ingenuidade de Leto se transformaram em um símbolo de honra que envergonhou muitas Casas, de maneira que mudaram seu comportamento... ao menos durante um breve tempo, depois do qual se impuseram uma vez mais as antigas pautas familiares. Origens da Casa Atreides: Sementes do futuro no Império Galáctico, por Bronso de IX.
Furioso com o fracasso de sua conspiração, o barão Harkonnen percorria de um lado para outro os corredores de sua fortaleza em Giedi Prime. Ordenou a seus ajudantes que lhe trouxessem um anão para o torturar. Precisava dominar alguém, esmagá-lo por completo.
Quando Yh'imm, um dos responsáveis pelas diversões do barão, queixou-se de que não era digno dele castigar um homem apoiando-se só em seu tamanho, o barão ordenou que amputassem as pernas de Yh'imm na altura do joelho. Dessa maneira não haveria necessidade de procurar um anão.
Enquanto Yh'imm era levado entre uivos e súplicas até a sala de cirurgia Harkonnen, o barão pediu a seu sobrinho e a De Vries que se reunissem com ele em seu estúdio para uma conversa de vital importância.
O barão, que os esperava atrás de uma mesa cheia de papéis e informes de cristal riduliano, trovejou para si:
— Malditos sejam os Atreides, do jovem duque até seus bastardos antepassados! Oxalá todos tivessem morrido na batalha de Corrin. —
Virou-se quando De Vries entrou no estúdio, e quase perdeu o equilíbrio devido a seu desajeitado controle muscular. Agarrou-se a beira da mesa para não cair —. Como Leto conseguiu sobreviver ao julgamento? Não tinha provas, carecia de defesa. Não tem nem ideia do que na verdade ocorreu.
Os rugidos do barão chegaram até os corredores. Rabban vinha correndo.
— Maldito seja Shaddam por interferir! Acredita que por ser imperador tem direito a tomar partido? O que vai ganhar com isso?
Tanto Rabban como De Vries vacilaram na entrada do estúdio, sem o menor desejo de ser vítimas da fúria do barão. O Mentat fechou os olhos e massageou as sobrancelhas, enquanto tentava pensar no que dizer ou fazer.
Rabban se aproximou de um nicho, serviu-se uma taça de conhaque kirano e o engoliu de um gole.
O barão se afastou da mesa e passeou com grandes passos, com estranhos movimentos, como se lhe custasse manter o equilíbrio. Devido a seu recente aumento de peso, as roupas necessitavam de suspensórios.
— Deveria explodir uma guerra onde eu recolheria os restos depois da carnificina. Mas esse maldito Atreides impediu. Ao insistir que ocorresse esse Julgamento de Confisco, malditos sejam os antigos ritos, e por seu desejo de sacrificar-se por seus amigos e tripulantes, Leto Atreides ganhou o favor do Landsraad. Sua popularidade é imensa.
Piter De Vries pigarreou.
— Talvez, meu barão, tenha sido um erro atacar os Tleilaxu.
Ninguém quer os Tleilaxu por perto. Foi difícil provocar uma sensação de indignação geral. Nunca pensamos que este assunto acabaria em um julgamento.
— Nós não cometemos erros! — grunhiu Rabban em defesa do seu tio —. Se importa com sua vida, Piter?
De Vries não respondeu, mas tampouco demonstrou o menor temor, era um formidável lutador e possuía truques e experiência para acabar com o fanfarrão do Rabban se acabassem em uma luta corpo a corpo.
O barão olhou para seu sobrinho, decepcionado. Parece incapaz de captar algo oculto sob uma fina capa de sutileza. Rabban fulminou o Mentat com o olhar.
— O duque Leto é apenas o impetuoso governante de uma Família sem importância. A Casa Atreides consegue seus ganhos vendendo arroz pundi! — O fato é, Rabban — respondeu com suavidade o Mentat pervertido, com voz de serpente —, que pelo visto caiu nas graças dos membros do Landsraad. Admiram o que conseguiu. Nós o transformamos em herói.
Rabban se serviu de outra taça.
— O conselho do Landsraad se tornou altruísta? — soprou o barão.
— Isso é ainda mais inconcebível que o fato de Leto ganhar.
Ouviram-se sons detestáveis das salas de cirurgia, gritos de agonia que ressoaram pelos corredores até o estúdio do barão. Os globos de luz piscaram mas mantiveram seu nível de iluminação.
O barão olhou para De Vries e apontou com a mão em direção às salas de cirurgia.
— É melhor se encarregar disto, Piter. Quero que esse idiota sobreviva à cirurgia... ao menos até que me canse de torturá-lo. — Sim, meu barão — disse o Mentat, e se dirigiu para as salas de cirurgia.
Os gritos se tornaram agudos, o barão ouviu o som de cortadores laser e uma serra.
O barão pensou em seu brinquedo novo e no que faria a Yh'imm enquanto o efeito dos sedativos começasse a diminuir. Era possível que os médicos tivessem realizado a tarefa sem usar sedativos? Talvez.
Extasiado, Rabban fechou os olhos para escutar. Se pudesse escolher, teria preferido caçar o homem na reserva de Giedi Prime, mas o barão pensava que isso representaria muitos problemas, correr, rastrear e checar rochas cobertas de neve. Além disso, fazia um tempo que sentia dores intensas nos membros, seus músculos se enfraqueceram e seu corpo estava perdendo a forma...
O barão inventaria suas diversões. Assim que tivessem cauterizado os cotos de
Yh'imm, fingiria que era o duque Atreides em pessoa. Seria muito divertido.
O barão recuperou a calma e pensou que era absurdo aborrecer-se tanto pelo fracasso de um plano. Durante incontáveis gerações os Harkonnen tinham tecido armadilhas para seus inimigos mortais, mas era difícil acabar com os Atreides, sobretudo quando se viam encurralados. A inimizade remontava até a Grande Revolução, a traição e as acusações de covardia. Após isso os Harkonnen sempre tinham odiado os Atreides, e vice-versa.
E assim seria sempre.
Ainda temos Arrakis disse o barão. Ainda controlamos a produção de melange, embora estejamos sob a férula da CHOAM e o olho vigilante do imperador Padishah.
Sorriu para Rabban, que lhe correspondeu maquinalmente.
O barão agitou um punho no ar.
— Enquanto controlarmos Arrakis, controlaremos nossa fortuna. —
Apoiou a mão no ombro almofadado de seu sobrinho —. Arrancaremos especiaria das areias até que Arrakis não seja mais que um casca oca! O universo contém fontes de energia não utilizadas e, portanto, inimagináveis. Elas estão diante dos nossos olhos, mas não as vemos. Estão em nossas mentes, mas não pensamos nelas. Mas eu sim! Tio Holtzman, Conferência completas.
No planeta Junção, pertencente a Corporação Espacial, aquele que tinha sido D'murr Pilru foi conduzido ao tribunal dos Navegantes. Não lhe explicaram o motivo, e apesar de toda sua intuição e compreensão do universo, não conseguiu imaginar o que queriam dele.
Não estava acompanhado de nenhum outro novato, nenhum dos novos pilotos que tinham aprendido o funcionamento da dobra espacial com ele. Em um extenso terreno de raquítica erva negra, os contêineres herméticos cheios de especiaria do alto tribunal estavam dispostos em um semicírculo sobre lajes, onde ainda se podiam ver os sinais de milhares de convocações anteriores.
O contêiner de D'murr, menor, achava-se diante deles, solitário no centro do semicírculo. Como sua vida de Navegante era relativamente recente, pois ainda era um piloto de patente inferior, conservava quase toda sua forma humana dentro do contêiner. Os membros do tribunal, todos Timoneiros, exibiam cabeças enormes e olhos alterados de uma forma monstruosa, que esquadrinhavam através da neblina alaranjada e canela.
Algum dia serei como eles, pensou D'murr. Em outro tempo teria se encolhido de horror. Agora o aceitava como algo inevitável. Pensou em todas as revelações que o aguardavam.
O tribunal da Corporação falou com sua concisa linguagem matemática, pensamentos e palavras comunicadas por meio do tecido do espaço, muito mais eficaz que qualquer conversa humana. Grodin, o Instrutor Chefe, atuava como porta-voz.
— Você foi vigiado — disse Grodin.
Seguindo um procedimento estabelecido há muito tempo, os Instrutores da Corporação colocavam aparelhos de hologravação nas câmaras de navegação de todos os Cruzeiros e em todos os contêineres de treinamento dos aspirantes a Piloto. Aleatoriamente, as gravações eram recuperadas dos transportes e das naves de carga, e enviadas a Junção.
— Todas as provas são estudadas detalhadamente.
D'murr sabia que os empregados do Banco da Corporação e seus sócios comerciais da CHOAM deviam assegurar-se de que se cumprissem as normas de navegação e que respeitassem os dispositivos de segurança.
Parecia-lhe correto.
— A Corporação está perplexa com as transmissões não autorizadas que foram dirigidas a sua câmara de navegação.
O aparelho de comunicações de seu irmão! D'murr se remexeu em seu contêiner, compreendendo todas as implicações e os castigos que deveria enfrentar. Talvez se transformasse em um daqueles patéticos Navegantes fracassados, atrofiados e desumanos, o preço físico pago, mas sem nenhum benefício. Não obstante, D'murr sabia que suas aptidões eram muito apreciadas. Talvez os Timoneiros o perdoassem...
— Estamos curiosos — disse Grodin.
D'murr lhes contou tudo, até o último detalhe. Tentou recordar o que C'tair havia dito, e informou as condições no interior do isolado IX, a decisão dos Tleilax de voltar aos desenhos dos Cruzeiros mais primitivos.
Tal decisão os inquietava, mas o tribunal estava mais interessado no Funcionamento do transcepun Rogo.
— Nunca tivemos transmissões instantâneas pela dobra espacial —
disse Grodin. Durante séculos, todas as mensagens foram transportadas por mensageiros, em forma física, em uma nave física que atravessava o universo com mais rapidez que qualquer outro método de transmissão —.
Podemos aproveitar esta inovação?
D'murr compreendeu as possibilidades militares e econômicas do engenho, se se demonstrasse viável. Se bem que não conhecia todos os detalhes técnicos, seu irmão tinha inventado um sistema que intrigava sobremaneira à Corporação Espacial. Ela o queria.
Um membro do tribunal sugeriu a possibilidade de utilizar um Navegante com a mente potencializada em cada um dos extremos, em vez de um simples ser humano como C'tair Pilru. Outro disse que possivelmente o vínculo era mais mental que tecnológico, uma conexão potencializada pela antiga intimidade dos gêmeos e a similitude de suas ondas cerebrais.
Talvez, entre os numerosos Pilotos, Navegantes e Timoneiros, a Corporação poderia encontrar outros com conexões mentais similares, embora não fosse provável. Entretanto, apesar do custo e das dificuldades, este método de comunicação era um serviço que devia ser testado, para depois oferecê-lo ao imperador em troca de uma grande soma.
— Você pode conservar sua patente de Piloto — disse Grodin, e deu por terminado o interrogatório.
Depois de sua volta triunfal de Kaitain, o duque Leto Atreides e Rhombur Vernius tinham esperado durante semanas pela resposta do novo imperador ao pedido de audiência. Leto estava preparado para abordar uma lançadeira e viajar ao palácio imperial assim que um correio chegasse com a confirmação. Tinha jurado que não faria menção a seu blefe, decidido a não tocar no tema da conexão entre os Corrino e os Tleilaxu, mas Shaddam IV devia estar curioso.
Se passasse outra semana sem receber resposta, Leto iria a Kaitain por iniciativa
própria.
Aproveitando aquele momento de popularidade crescente, Leto desejava expor os assuntos da anistia e as reparações à Casa Vernius.
Acreditava que seria uma boa oportunidade para resolver a situação de uma forma positiva, mas à medida que os dias transcorriam, viu que a oportunidade escorria como areia entre seus dedos. Até o otimista Rhombur se mostrava frustrado e nervoso, enquanto Kailea ia se resignando a suas poucas opções.
Por fim, mediante um comunicado normal irradiado por um mensageiro humano, o imperador sugeria, pois quase não dispunha de tempo para reunir-se com seu primo, que utilizassem um método que acabava de ser oferecido pela Corporação Espacial, um procedimento instantâneo chamado Cofradnet. Implicava na conexão mental entre dois Navegantes da Corporação situados em sistemas estelares diferentes. Um Cruzeiro em órbita ao redor de Caladan e outro sobre Kaitain podiam, em teoria, facilitar uma conversa entre o duque Leto Atreides e o imperador Shaddam IV.
— Ao menos poderei lhe expor meus pedidos — disse Leto, embora jamais tivesse ouvido falar daquele método de comunicação. Shaddam parecia disposto a utilizá-lo, possivelmente porque desta forma ninguém seria testemunha de sua entrevista com Leto Atreides.
Os olhos esmeralda de Kailea se iluminaram, e nem sequer se importou com a cabeça de touro pendurada na sala de jantar. Foi colocar um vestido com as cores de Vernius, embora não fosse provável que a vissem durante a transmissão. Rhombur se apresentou na hora combinada, acompanhado por Thufir Hawat. Leto ordenou aos criados e guardas que saíssem da estadia.
O Cruzeiro que havia trazido o Mensageiro continuava em órbita geoestacionária sobre Caladan. Outro esperava sobre Kaitain. Os sofisticados Timoneiros da Corporação a bordo de cada nave, separados por uma distância imensa, utilizariam um misterioso procedimento que lhes permitiria expandir suas mentes através do vazio e acoplar pensamentos para criar uma conexão. A Corporação tinha testado com centenas de Navegantes, antes de encontrar dois capazes de estabelecer uma comunicação direta, mediante telepatia, presciência alimentada pela melange ou algum outro método ainda indeterminado.
Leto respirou fundo, incomodado por não ter mais tempo para ensaiar seu discurso, mas já tinha esperado muito. Não se atrevia a solicitar um adiamento...
Shaddam falou de um magnífico jardim botânico do palácio imperial rodeado de
sebes. Usava um microfone no queixo, que transmitia suas palavras aos altofalantes da câmara de navegação do Cruzeiro que sobrevoava seu planeta.
— Está me ouvindo, Leto Atreides? Aqui faz uma manhã ensolarada, e acabo de retornar de meu passeio matinal.
Tomou um gole de suco açucarado.
Quando as palavras do imperador chegaram à câmara de navegação da nave em órbita ao redor de Kaitain, o Timoneiro do Cruzeiro de Caladan experimentou em sua mente um eco do que seu colega tinha ouvido e interrompeu a comunicação para repetir as palavras do imperador no cintilante globo altofalante que flutuava dentro de seu compartimento cheio de especiaria. Leto ouviu as palavras em seu próprio sistema de megafonia, distorcidas e sob volume, sem matizes emocionais De qualquer modo, eram as palavras do imperador.
— Sempre preferi o sol das manhãs de Caladan, primo — respondeu Leto, com a intenção de iniciar a conversa em termos cordiais —. Você deveria visitar nosso humilde planeta.
O Navegante de Caladan estava conectado de novo com seu colega, e as palavras de Leto se ouviram na outra nave e depois foram transmitidas a Kaitain.
— Este novo sistema de comunicações é maravilhoso — disse Shaddam, sem responder à sugestão de Leto. Entretanto, aparentava desfrutar com o Cofradnet, como se fosse um brinquedo novo —. Muito mais veloz que os mensageiros humanos, embora suponha que o preço será proibitivo. Ah, sim. Aqui está mais um monopólio da Corporação. Espero que não cobrem muito pelas mensagens urgentes.
Leto se perguntou se aquelas palavras foram dirigidas a ele ou aos espiões da Corporação.
Shaddam tossiu, som que não se repetiram no processo de tradução.
— Há muitos assuntos importantes nos planetas imperiais, e pouco tempo para analisá-los. Quase não disponho de ocasiões para cultivar amizades como a sua, primo. Do que deseja me falar?
Leto respirou fundo e seu rosto aquilino se endureceu.
— Grande imperador Shaddam, suplico-lhes que conceda anistia à Casa Vernius e a restitua ao lugar que lhe corresponde por direito no Landsraad. O planeta IX é
vital para a economia, e não pode continuar nas mãos dos Tleilaxu. Já destruíram fábricas importantes e diminuíram a produção de materiais vitais para a segurança do Império. — E, como se se referisse a seu blefe, acrescentou —: Ambos sabemos o que está acontecendo na realidade, mesmo neste momento.
— Não posso falar desses assuntos através de intermediários — se apressou a responder Shaddam.
Os olhos de Leto se dilataram ao compreender o possível equívoco de Shaddam.
— Está insinuando que a Corporação é indigna de nossa confiança, senhor? Transporta exércitos para o Império e as Grandes Casas. Descobre planos de batalha antes que aconteçam. Cofradnet é mais segura que uma conversa cara a cara na sala de audiências imperial.
— Mas ainda não examinamos os detalhes desse assunto —
protestou Shaddam, na defensiva.
Tinha sido testemunha da crescente popularidade e influência de Leto Atreides. Teria aquele arrivista contatos que chegavam até a Corporação Espacial? Passeou o olhar por seus jardins vazios e desejou que Fenring estivesse a seu lado, mas o homem com cara de doninha estava preparando sua viagem para Arrakis. Possivelmente foi um erro salvar Leto, pensou.
Leto defendeu com palavras precisas e concisas o caso dos ixianos, e assegurou que a Casa Vernius nunca fabricara tecnologia proibida. Apesar das suas promessas, os Tleilaxu não tinham apresentado provas ao corpo governante do Landsraad, e tinham posto mãos à obra devido a sua cobiça pelas riquezas de IX. Graças a conversas sustentadas com Rhombur, Leto proporcionou cifras aproximadas sobre o valor do feudo e os danos ocasionados pelos Tleilaxu.
— Isso me parece excessivo — disse Shaddam, com muita precipitação —. Os informes dos Bene Tleilax indicam cifras muito inferiores.
Ele esteve ali, pensou Leto.
— A explicação é evidente, senhor. Fizeram-no para minimizar a eventual indenização que teriam que pagar.
Leto prosseguiu, comentou os cálculos estimados de vidas ixianas perdidas, e falou do preço de sangue que Elrood havia oferecido pela morte de lady Shando. Depois, com voz tremula de emoção, fez algumas conjecturas sobre a
desesperada fuga do conde Vernius, que continuava escondido em algum mundo longínquo e desconhecido.
Durante uma pausa na conversa. Shaddam irritou-se. Perguntou-se quanto sabia aquele descarado Leto sobre o assunto dos Tleilaxu. Tinha misturado insinuações, mas era um blefe? Como novo imperador precisava agir com celeridade para controlar a situação, mas não podia permitir que a Casa Vernius retornasse a seu lar ancestral. A pesquisa sobre a especiaria sintética era essencial. A família Vernius era uma vítima inocente (a Shaddam era indiferente o orgulho ferido ou o desejo de vingança de seu pai), mas não podia perdoar àquela gente, como se não tivesse acontecido nada.
Por fim, o imperador pigarreou e falou.
— O máximo que podemos oferecer é uma anistia limitada. Como Rhombur e Kailea se encontram sob sua tutela, Leto, garanto-lhes proteção e perdão totais. A partir de hoje não haverá recompensa por suas cabeças.
Ficam absolvidos de qualquer maldade que tenham cometido. Dou-lhe minha palavra.
Leto viu uma expressão de júbilo incrédulo nos rostos de seus amigos.
— Obrigado, senhor — disse —, mas o que decide sobre a restituição da fortuna familiar?
— Nada de restituições! — respondeu Shaddam com um tom muito mais severo que o homem da Corporação conseguiu imitar —. A Casa Vernius não recuperará sua posição em Xuttah, antes IX. Ah, sim. Os Bene Tleilax me apresentaram abundante e concludente documentação, e sua veracidade me satisfez. Por razões de segurança imperial não posso divulgar os detalhes. Você já testou bastante a minha paciência.
— Qualquer prova cuja análise se nega carece de validade, senhor —
replicou Leto, irritado —. Deveria apresentar-se ante um tribunal.
— E quanto a meu pai e a outros sobreviventes da Casa Vernius —
perguntou Rhombur pelo microfone que Leto estava utilizando —, serão anistiados, seja qual for seu paradeiro? Meu pai não fez mal a ninguém.
A resposta de Shaddam, dirigida a Leto, foi veloz e aguda, como a mordida de uma serpente venenosa.
— Fui indulgente com você, primo, mas aviso que não deve abusar da sua sorte. Se não estivesse favoravelmente inclinado por você, nunca teria me rebaixado a atestar em seu favor, nem teria lhe concedido esta audiência, nem privilégios para seus amigos. Anistia para os dois, isso é tudo.
Leto se enfureceu ao ouvir aquelas palavras duras, mas manteve a compostura. Estava claro que não podia pressionar mais Shaddam.
— Sugiro que aceite estas condições enquanto estou disposto a concedê-las — disse Shaddam —. A qualquer momento podem ser apresentadas mais provas contra a Casa Vernius, e me veria obrigado a julgar com menor benevolência.
Leto conferenciou com Rhombur e Kailea, longe do microfone. Os jovens aceitaram a contra gosto.
— Ao menos conseguimos uma pequena vitória, Leto — disse Kailea com sua doce voz —. Nos garantiram a vida, e gozaremos de nossa liberdade pessoal, já que não de nossa herança. Além disso, viver aqui com você não é tão terrível. Como Rhombur costuma dizer, as coisas sempre podem melhorar.
Rhombur apoiou uma mão no ombro de sua irmã.
— Se isso basta para Kailea, basta para mim também.
— Trato feito — disse Shaddam. A aceitação tinha sido transmitida pelos intermediários da Corporação. — Os documentos oficiais serão preparados. — Então suas palavras se transformaram em facas —: Espero não voltar a ouvir falar deste assunto.
O imperador cortou com brutalidade a comunicação e os dois Navegantes interromperam seu contato mental. Leto abraçou Rhombur e Kailea, sabendo que por fim estavam a salvo. Só os imprudentes deixam testemunhas. Hasimir Fenring.
— Vou sentir falta de Kaitain — disse Fenring com tom sombrio.
Ao final do dia devia apresentar-se em Arrakis como Observador Imperial de Shaddam. Exilado no deserto, pensou com amargura. Mas Margot o ajudara a compreender as oportunidades de que disporia. Havia a possibilidade do imperador ter em mente algo mais que um simples castigo? Conseguiria levantar-se a uma posição de poder?
Fenring tinha crescido ao lado de Shaddam. Ambos eram duas décadas mais jovens que Fafnir, o teórico herdeiro do Trono do Leão Dourado. Com um príncipe herdeiro e um montão de filhas de suas diversas esposas, Elrood não tinha esperado muito do segundo príncipe, e por sugestão de sua mãe, uma Bene Gesserit, tinha permitido que Fenring assistisse as aulas com ele.
Com os anos, Fenring tinha se transformado em um “coordenador”, uma pessoa que realizava tarefas necessárias para seu amigo Shaddam, por mais desagradáveis que fossem, incluindo o assassinato de Fafnir. Ambos compartilhavam muitos segredos, muitos para separarem-se agora sem graves repercussões... e os dois sabiam.
Shaddam está em dívida comigo, maldito seja! Quando o imperador encontrar tempo para refletir, compreenderia que não podia se permitir o luxo de ter Fenring como inimigo, nem sequer como servidor imperial reticente. Shaddam não demoraria em chamá-lo de volta. Era só uma questão de tempo.
De alguma forma, descobriria uma forma de fortalecer todas as circunstâncias a seu favor. Lady Margot, com quem se casara em uma cerimônia simples três dias antes, se encarregou dos demais criados. Ditou ordens sem cessar para que os preparativos da viagem se acelerassem.
Como irmã Bene Gesserit, tinha poucas necessidades e não tinha gostos extravagantes, mas como era consciente da importância das aparências, enviou uma nave a Arrakis carregada de roupas e enfeites para seu marido.
Eles se instalariam em uma residência privada, longe de Carthag, o centro de poder dos Harkonnen. Esta demonstração de independência e luxo acentuaria o poder de Shaddam e de seus olhos sempre vigilantes ante os governantes e funcionários Harkonnen.
Fenring, sorridente, observava Margot enquanto finalizava os preparativos. Era como uma corrente de cores alegres e cabelo, sorrisos alentadores e palavras severas para os que trabalhavam muito devagar.
Uma mulher magnífica! Sua nova esposa e ele guardavam segredos fascinantes, e o processo de mútuo descobrimento seria extremamente prazeroso.
Ao anoitecer partiriam para o planeta deserto, que os nativos chamavam de Dune.
Mais tarde, Fenring se sentou em frente ao console de jogos, à espera de que o imperador Padishah Shaddam IV efetuasse o próximo movimento.
Encontravam-se sozinhos em uma habitação de paredes de plaz situada no alto de um pináculo do palácio. Ao longe se ouvia o zumbido de ornitópteros.
Fenring cantarolava para si, embora soubesse que Shaddam odiava aquele costume. Por fim, o imperador deslizou uma varinha através do escudo brilhante à velocidade precisa, nem muito depressa nem muito devagar. A varinha ativou um disco giratório interior, e a bola negra que havia no centro do globo flutuou no ar. Shaddam liberou a varinha, e a bola caiu no receptáculo de número 9. — Esteve praticando, senhor, hummmm? — disse Fenring —. Por caso um imperador não tem tarefas mais importantes? De qualquer modo, deve se esforçar mais se quiser me vencer.
O imperador contemplou a varinha que acabava de utilizar, como se lhe tivesse falhado.
— Quer trocar de varinha, senhor? — ofereceu Fenring em tom zombeteiro —. Essa não funciona bem?
Shaddam meneou a cabeça.
— Fico com esta, Hasimir. Será nossa última partida durante um tempo. — Respirou fundo —. Já lhe disse que posso dirigir as coisas sozinho. Mas isso não significa que não valorize seus serviços.
— É obvio, senhor. Por isso me enviou para um poço de pó habitado por vermes de areia e bárbaros fedorentos. — Olhou para Shaddam com frieza —. Acredito que é um grave equívoco, alteza. Nestes primeiros dias de seu reinado, necessita de conselhos bons e objetivos. Não pode enfrentar sozinho todas as tarefas, e em quem pode confiar mais que em mim?
— A verdade é que dirigi a crise de Leto Atreides bastante bem. Eu sozinho evitei o desastre.
— Admito que o resultado foi positivo, mas ainda não sabemos o que sabe sobre nós e os Tleilaxu. — Não queria aparentar muita preocupação. — Hummmm. Talvez esteja certo, mas se tiver solucionado o problema, me permita uma pergunta. Se não foi Leto, quem disparou contra as naves Tleilaxu? E como?
— Estou refletindo sobre isso.
Os grandes olhos de Fenring cintilaram.
— Leto é muito popular neste momento, e talvez um dia seja uma ameaça para
seu trono. Tanto importa se provocou a crise ou não, o duque Atreides a transformou em uma vitória inegável para ele e a honra de sua Casa. Superou um obstáculo infranqueável com absoluta elegância. Os membros do Landsraad percebem estas coisas.
— Isso sim, é verdade, é verdade... mas não há nada com se que preocupar.
— Não estou tão seguro, senhor. Talvez o descontentamento entre as Casas não se dissipou ainda, face ao que nos fez acreditar.
— Temos a Bene Gesserit do nosso lado, graças a minha esposa.
Fenring bufou.
— Com a qual se casou por minha sugestão, senhor. O fato das bruxas dizerem uma coisa, não significa que seja verdade. O que acontecerá se a aliança não bastar?
— Que quer dizer?
Shaddam indicou com impaciência a Fenring que era sua vez de jogar.
— Pense em como o duque Leto é imprevisível. Talvez esteja em segredo fazendo alianças militares para atacar Kaitain. Sua popularidade se traduz em mais poder, e não há dúvida de que é ambicioso. Os líderes das Grandes Casa estão ansiosos por falar com ele. Você, em troca, carece desse apoio popular.
— Tenho meus Sardaukar. Rugas de dúvida se desenharam no rosto do Mentat.
— Tenha certeza que não estão infiltrados entre as legiões, vou estar em Arrakis, e essas coisas me preocupam. Acredito quando diz que pode dirigir a situação sem ajuda. Só lhes dou meu melhor conselho, como sempre fiz, senhor.
— Agradeço por isso, Hasimir, mas não posso acreditar que meu primo Leto provocou a crise do Cruzeiro com o fim de alcançar este objetivo em particular. Era uma ação muito desajeitada e perigosa. Não podia saber que eu interviria a seu favor.
— Sabia que faria algo assim se descobrisse que possuía informação secreta.
Shaddam meneou a cabeça.
— Não. As chances de fracassar eram enormes. Esteve a ponto de perder todas as posses de sua família.
Fenring estendeu um dedo longo.
— Mas pense na glória que colheu. Pense no que aconteceu. Duvido que planejasse desta maneira, mas agora Leto é um herói. Seu povo o ama, todos os nobres o admiram e os Tleilaxu passaram por idiotas. Sugiro, senhor, já que insiste em fazê-lo sozinho, que vigie de perto as ambições da Casa Atreides.
— Obrigado por seu conselho, Hasimir — disse Shaddam enquanto estudava o console —. Ah, por certo, não lhe disse que vou... promovê-lo?
Fenring bufou.
— Eu não chamaria de promoção o fato de ser enviado a Arrakis.
“Observador Imperial” não soa muito impressionante, não é?
Shaddam sorriu e ergueu o queixo em um gesto muito imperial.
Imaginava que iria provocar essa reação.
— Ah, sim... mas que tal se for conde Fenring? O Mentat ficou estupefato.
— Vai me nomear... conde?
Shaddam assentiu.
— Conde Hasimir Fenring, Observador Imperial em Arrakis. A fortuna de sua família aumentará, meu amigo. Tenho a intenção de estabelecê-lo no Landsraad.
— Com um diretório da CHOAM, como incentivo?
Shaddam riu.
— Tudo a seu tempo, Hasimir.
— Suponho que isso transforme Margot em condessa, não?
Seus grandes olhos brilharam quando Shaddam assentiu. Tentou dissimular seu prazer, mas o imperador o leu em seu rosto.
— E agora contarei por que esta missão é tão importante, para você e para o Império. Lembra-se de um homem chamado Pardot Kynes, o planetólogo que meu pai enviou a Arrakis alguns anos atrás?
— É claro.
— Bem, nos últimos tempos não nos foi de grande ajuda. Alguns relatórios erráticos, incompletos e, ao que parece, censurados. Um de meus espiões me informou que Kynes se misturou com os Fremen, que talvez tenha cruzado a linha divisória e agora seja um deles, um nativo.
Fenring arqueou as sobrancelhas.
— Um servidor imperial misturado com essa raça repugnante e primitiva?
— Espero que não, mas eu gostaria que descobrisse a verdade. Em essência, nomeio-o meu Czar da Especiaria Imperial, que fiscalizará em segredo as operações da melange em Arrakis assim como os progressos de nossos experimentos em Xuttah. Viajará entre esses planetas e o palácio imperial. Transmitirá só mensagens codificadas, e só a mim.
Quando Fenring assimilou a magnitude da missão e suas repercussões, experimentou um imenso júbilo. Sim, agora compreendia as possibilidades. Precisava contar a Margot. Com sua mente Bene Gesserit, adivinharia sem dúvida as vantagens adicionais.
— Isso é alentador, senhor. Uma tarefa digna de meus talentos peculiares. Hummmm, acredito que isso será divertido.
Fenring se concentrou no jogo, ativou o disco giratório interior e guiou a bola flutuante. Caiu no receptáculo do número 8. Meneou a cabeça.
— Uma pena — disse Shaddam e, com um movimento, deixou cair a bola final no número 10 e ganhou a partida. O progresso e o lucro requerem um investimento substancial em pessoal, equipamentos e recursos. Entretanto, o recurso que quase sempre se ignora, mas que proporciona os maiores rendimentos, é a investimento em tempo. Dominic Vernius, As operações secretas de IX.

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