Precisava compreender a grande extensão arenosa e suas sutilezas, antes de saber como mudar a situação para melhor.
Os Fremen obedeciam com convicção as sugestões de Kynes, por mais absurdas que parecessem. Agora acreditavam em tudo o que dizia.
Não obstante, Kynes estava tão preocupado que não reparava em sua devoção. Se o planetólogo dizia que era preciso tomar determinadas medidas, os Fremen percorriam o deserto, estabeleciam pontos de recolhimento em regiões longínquas, voltavam a abrir os postos de análise botânicas abandonadas há tempos imemoriais pelo Império. Alguns ajudantes devotos chegaram a viajar aos territórios proibidos do sul, utilizando um meio de transporte que não revelaram a Kynes.
Durante aquelas primeiras semanas frenéticas de recolhimento de informação,
dois Fremen se perderam, embora Kynes nunca soubesse.
Deleitava-se com as informações que chegavam. Era mais do que tinha sonhado durante os anos de trabalho solitário como planetólogo imperial.
encontrava-se em um paraíso científico.
No dia anterior ao seu casamento redigiu seu primeiro relatório desde que se unira ao sietch, como culminação de semanas de trabalho. Um mensageiro Fremen o entregou em Arrakeen, de onde foi transmitido ao imperador. O trabalho de Kynes com os Fremen ameaçava provocar um conflito de interesses, mas devia conservar as aparências. Em nenhum ponto do relatório falava, nem sequer de leve, a respeito de sua nova relação com o povo do deserto. Kaitain nunca devia suspeitar que se convertera em um nativo.
Em sua mente, Arrakis já não existia. O planeta era, e sempre seria, Dune. Depois de viver no sietch, só o imaginava com seu nome Fremen.
Quanto mais descobria, mais intuía que aquele planeta seco e árido continha mais segredos do que o imperador imaginava.
Dune era um depósito de tesouros à espera de ser aberto.
Stilgar tinha se recuperado completamente de sua ferida, e insistiu em ajudar Kynes nas tarefas mais tediosas. O jovem Fremen afirmou que era a única forma de aliviar a pesada carga de água que recaía sobre seu clã. O planetólogo não acreditava que existisse tal obrigação, mas se inclinou sob a pressão do sietch como um salgueiro sob o vento. Os Fremen não passariam ignorariam ou perdoariam algo semelhante.
Ofereceram-lhe como esposa a irmã solteira de Stilgar. Quase sem que o planetólogo se desse conta, era como se a moça o tivesse adotado.
Remendava suas roupas, oferecia-lhe comida antes que ele reparasse que estava faminto. Suas mãos eram velozes, uma viva inteligência iluminava seus olhos azuis, e lhe tinha economizado muitos passos em falso, mesmo antes que pudesse reagir. Tinha considerado seus cuidados como pouco mais que gratidão por ter salvo a vida de seu irmão, e a tinha aceito sem interesse.
Kynes nunca tinha pensado em casamento, era um homem muito solitário, muito absorto em seu trabalho. Entretanto, depois de ter sido aceito na comunidade, começou a reparar que os Fremen se ofendiam com muita facilidade. Kynes não se atreveu a recusar a proposta. Também compreendeu que, tendo em conta
as numerosas restrições políticas dos Harkonnen contra os Fremen, talvez seu casamento com Frieth aplainaria o caminho para futuros pesquisadores.
Em conseqüência, quando as duas luas cheias se elevaram ao céu, Pardot Kynes se reuniu com outros Fremen para celebrar o ritual do matrimônio. Antes que a noite terminasse seria um homem casado. Usava agora uma fina barba, a primeira de sua vida. Parecia-lhe que Frieth gostava, embora não estivesse acostumada a expressar suas opiniões. Precedida pelo caolho Heinar, assim como pela sayyadina do sietch (uma líder religiosa muito parecida com a reverenda madre), a comitiva nupcial desceu das montanhas, depois de uma longa e cautelosa travessia, até as areias semeadas de dunas. As luas banhavam a paisagem com um brilho nacarado.
Enquanto observava as dunas sinuosas, Kynes pensou pela primeira vez que lhe recordavam as suaves e sensuais curva de uma mulher.
Possivelmente pensei mais no casamento do que suspeitava.
Caminharam em fila indiana sobre as dunas, subiram pela parte exposta ao vento, e depois riscaram um caminho sobre o cume. Vigias do sietch se deslocaram à pontos estratégicos para observar sinais de vermes ou a aproximação de naves espiãs Harkonnen. Kynes se sentia seguro com essas precauções. Agora era um deles, e sabia que os Fremen dariam a vida por ele.
Olhou para a encantadora moça Fremen banhada pela luz da lua, com seu longo cabelo e seus olhos azuis concentrados nele, que o analisavam ou talvez simplesmente o amavam. Vestia a capa negra indicadora de que era uma mulher prometida.
Durante horas, outras esposas Fremen tinham trançado o cabelo de Frieth com seus anéis metálicos de água, junto com os pertencentes ao seu futuro marido, afim de simbolizar a comunhão de seus bens. Muitos meses antes, o sietch tomara todas as provisões do veículo terrestre de Kynes, e guardado a água contida nelas em seus principais armazéns. Uma vez que o aceitaram entre eles, recebeu um pagamento em água por sua contribuição, e Kynes ingressou na comunidade como um homem relativamente rico.
Enquanto Frieth olhava para seu prometido, Kynes percebeu pela primeira vez como ela era formosa e desejável, e depois se repreendeu por não ter observado isso antes. As mulheres solteiras Fremen correram sobre o campo de dunas, com o cabelo ondeando na brisa noturna. Kynes as contemplou iniciar o cântico e a dança matrimonial tradicionais.
Os membros do sietch apenas tinham lhe dado explicações sobre seus costumes, a procedência de seus rituais ou seu significado. Para os Fremen tudo era simples. No longínquo passado se desenvolveram formas de vida por pura necessidade, durante as peregrinações dos Zensunni de planeta em planeta, e nos séculos seguintes os costumes não tinham mudado. Ninguém se preocupava em questionar. Por que Kynes ia fazer isso? Além disso, se na verdade era um profeta, deveria assimilar tais coisas por pura intuição.
Não era muito difícil compreender o costume de rodear com anéis de água as tranças de uma mulher prometida, enquanto que as filhas solteiras usavam o cabelo solto. O grupo de mulheres solteiras revoava sobre a areia com os pés nus, como se flutuassem no ar. Algumas eram muito jovens, mas outras já tinham chegado à idade de casamento. As bailarinas davam voltas e voltas e seus cabelos se agitava em todas as direções, como halos ao redor de suas cabeças.
O símbolo de uma tormenta de areia pensou. Redemoinhos Coriolis.
Graças a seus estudos, sabia que tais ventos podiam superar os oitocentos quilômetros por hora. Impulsionavam as partículas de pó e areia com força suficiente para esfolar um homem e deixá-lo nos ossos.
Kynes, preocupado de repente, ergueu a vista. Comprovou, aliviado, que o céu da noite estava espaçoso e repleto de estrelas. Uma neblina de pó se elevaria como precursora de qualquer tormenta. Os observadores Fremen perceberiam mudanças de tempo com antecipação suficiente para tomar as precauções necessárias.
As jovens continuavam dançando e cantando. Kynes se colocou atrás de sua futura esposa, mas olhou para as luas gêmeas, pensou nos efeitos que causavam nas marés, em como as sutis variações da gravidade teriam afetado à geologia e clima daquele planeta. Talvez as ressonâncias do núcleo lhe revelassem mais do que precisava saber...
Nos meses vindouros desejava coletar muitas amostras da capa de gelo do pólo norte. Mediante a medição dos estratos e da análise dos conteúdos isotópicos, Kynes conseguiria traçar uma história climática precisa de Arrakis. Poderia delinear os ciclos de aquecimento e fusão, assim como os antigos mapas de precipitação, e utilizaria toda informação para descobrir onde tinha ido parar toda a água.
Até o momento, a aridez do planeta era absurda. Era possível que as reservas de água de um planeta ficassem ocultas em rocha sepultadas sob a areia, na mesma casca planetária? Um impacto astronômico? Explosões vulcânicas? Nenhuma das
opções lhe parecia muito viável. A complicada dança matrimonial acabou, e o naib avançou com a velha Sayyadina. A mulher Santa olhou para o casal e cravou a vista em Kynes, com olhos tão escuros que, à luz da lua, pareciam as órbitas predadoras de um corvo: o azul absoluto do vício de especiaria.
Depois de comer mantimentos Fremen durante meses, enriquecidos com melange, Kynes tinha se examinado num espelho certa manhã e observado que o branco de seus olhos começava a adquirir um tintura azul.
Aquilo o surpreendeu.
De qualquer modos, sentia-se mais vivo, com a mente mais ágil e o corpo cheio de energia. Em parte podia ser conseqüência do entusiasmo por suas investigações, mas sabia que a especiaria estava relacionada com isso.
A especiaria se encontrava em toda parte: no ar, nos mantimentos, na roupa, nas argamassas das paredes, nos tapetes. A melange estava entrelaçada com a vida do sietch tanto quanto a água.
Naquele dia, Turok, que cada manhã o guiava em suas explorações, tinha reparado nos olhos de Kynes, no novo tom azul.
— Está se transformando em um dos nossos, planetólogo.
Chamamos esse azul de Olhos do Ibad. Agora está integrado a Dune.
Nosso planeta o mudou para sempre.
Kynes tinha sorrido vacilante, com certa apreensão.
— Que assim seja — disse.
E agora estava a ponto de casar-se: outra mudança importante. A misteriosa Sayyadina, de pé a frente dele, pronunciou uma série de palavras em chakobsa, um idioma que Kynes não entendia, mas deu as respostas que tinha memorizado. Os anciões do sietch o tinham preparado com supremo cuidado. Talvez algum dia compreendesse os rituais que o rodeavam, o idioma antigo, as misteriosas tradições. Por agora só podia formular hipóteses.
Continuou preocupado durante o resto da cerimônia, enquanto pensava na análise que realizaria em zonas arenosas e rochosas do planeta, enquanto sonhava com
as novas estações experimentais que construiria, e nos jardins experimentais que plantaria. Tinha grandes planos em mente, e toda a mão de obra necessária. Custaria um imenso esforço despertar o planeta novamente, mas agora os Fremen partilhavam seu sonho, e Pardot Kynes sabia que era possível.
Sorriu, e Frieth olhou para ele, sorridente também, embora seus pensamentos devessem ser muito diferentes dos seus. Quase alheio às atividades que aconteciam ao redor, e sem prestar atenção à sua importância, Kynes se viu casado ao estilo Fremen quase antes de compreender como isso acontecera. Os poderosos constroem castelos, e atrás dos seus muros escondem suas dúvidas e temores. Máxima Bene Gesserit
A névoa matutina arrastava o cheiro de iodo desde o mar.
Geralmente, Paulus Atreides a considerava plácida e revigorizante, mas naquele dia lhe pareceu muito inquietante.
O velho duque estava em um dos balcões, respirando ar puro. Amava este planeta, em especial suas manhãs. O silêncio lhe proporcionava mais energia que uma boa noite de sono.
Mesmo em tempos tão turbulentos como estes.
Envolveu-se em um grosso manto adornado com lã verde de Canidar. Sua esposa parou atrás dele, respirando com lentidão, como fazia sempre que discutiam. Como Paulus não protestou, aproximou-se e se acotovelou junto a ele para contemplar seu mundo. Tinha os olhos cansados e parecia ofendida. O duque a abraçou e ela se apertou contra ele, mas depois tentou prosseguir a discussão. Insistiu que a Casa Atreides corria um grave perigo por culpa do que ele tinha feito.
Até seus ouvidos chegaram gritos e gargalhadas afogadas vindas do pátio. O duque observou satisfeito que seu filho Leto já tinha iniciado seus exercícios de treinamento com o príncipe exilado de IX. Ambos usavam escudos corporais que zumbiam e cintilavam sob a luz alaranjada do amanhecer. Brandiam facas atordoantes sem corte na mão esquerda e espadas de treinamento na mão direita.
Durante as semanas transcorridas desde sua chegada a Caladan, Rhombur tinha recuperado completamente. O exercício e o ar puro tinham melhorado sua saúde, seu tônus muscular e sua tez. Não obstante, o coração e o estado de ânimo
do jovem musculoso demorariam muito mais para sarar. Ainda parecia aturdido com os terríveis acontecimentos que tinha vivido.
Os dois se moveram em círculos e entrechocaram as espadas para calcular a rapidez com que podiam mover as armas sem que os campos protetores as desviassem. Desafiavam e atacavam de súbito e as folhas ricocheteavam nos campos reluzentes.
— Muito gasto de energia para esta horas — comentou Helena enquanto esfregava os olhos avermelhados. Um comentário prudente, que não poderia suscitar nenhum protesto. Deu um passo mais —. Rhombur até perdeu peso.
O velho duque olhou para ela e reparou suas delicadas feições, afiadas pela idade, nas poucas mechas grisalhas de seu cabelo escuro.
— É a melhor hora para treinar. Ensinei isso a Leto quando ele era um menino.
Ouviu o tinido de uma bóia indicadora de recifes e o barulho dos remos de uma barco de pesca, feito de vime com casco impermeável. Na distância viu as luzes de uma rede de pescaria que atravessava os bancos de névoa enquanto recolhia algas.
— Sim, os meninos estão se exercitando — disse Helena —, mas viu Kailea sentada ali? Por que acha que se levantou tão cedo?
O tom da pergunta o fez pensar duas vezes.
O duque baixou a vista e reparou na bela filha da Casa Vernius.
Kailea estava ajeitada em um banco de coral, sob o sol, enquanto comia languidamente de uma bandeja de frutas. Tinha seu exemplar encapado da Bíblia Católica Laranja ao lado (presente de Helena), mas não o lia.
Paulus coçou a barba.
— Essa menina sempre se levanta tão cedo? Suspeito que ainda não se adaptou aos dias caladanos.
Helena observou como Leto atacava com fúria o escudo de Rhombur e conseguia deslizar sua faca atordoante pelo escudo, de modo que o príncipe ixiano recebeu uma leve descarrega elétrica. Rhombur soltou um uivo e riu enquanto retrocedia. Leto ergueu sua espada de treinamento como se tivesse marcado um ponto. Olhou fugazmente para Kailea, e tocou sua frente com a ponta da espada em saudação.
— Não viu a forma como seu filho olha para ela, Paulus? — A voz de Helena era severa e desaprovadora.
— Não, não tinha visto.
O velho duque passou a vista de seu filho para moça uma vez mais.
Para ele, Kailea, a filha de Dominic Vernius, era apenas uma menina. Ele a vira pela última vez quando ela era uma garotinha. Talvez sua mente preguiçosa não tivesse percebido como ela tinha chegado a maturidade tão rapidamente. Nem Leto.
— Os hormônios do menino estão chegando ao auge — disse —.
Conversarei com Thufir. Encontraremos garotas apropriadas para ele.
— Como suas amantes? — Helena afastou a vista do seu marido com expressão ofendida.
— Não tem nada de errado. — Rogou que não voltasse a tocar no assunto —. Desde que não se torne nada sério.
Como qualquer senhor do Império, Paulus tinha seus devaneios. Seu matrimônio com Helena, uma das filhas da Casa Richese, tinha ocorrido por motivos estritamente políticos, depois de muitas considerações e negociações. Esforçouse todo o possível, e a amara por algum tempo, o que o surpreendera. Mas depois Helena se afastou dele, cada vez mais absorta na religião e em seus sonhos perdidos, arrancada da realidade.
Com muita discrição, Paulus havia retornado a suas amantes, que tratava como um cavalheiro mas com cuidado para não gerar bastardos.
Nunca falava disso, mas Helena sabia. Sempre soubera. E tinha que viver com essa realidade.
— Desde que não se chegue a nada sério? — Helena se inclinou sobre o corrimão para ver melhor a moça —. Temo que Leto sente algo por essa garota. Acho que está apaixonando por ela. Eu lhe disse que não o enviasse a IX.
— Não é amor — disse Paulus, que fingiu prestar atenção aos movimentos da luta com espada e escudo. Os meninos possuíam mais energia que destreza. Era necessário melhorar sua técnica. O guarda Harkonnen mais desajeitado poderia acabar com eles rapidamente.
— Tem certeza? — perguntou Helena —. Estamos lidando com coisas muito importantes, Leto é o herdeiro da Casa Atreides, o filho de um duque. Tem que agir com cautela e escolher seus objetivos românticos com prudência. Consultarnos, negociar as condições, conseguir o máximo que puder...
— Sei — murmurou Paulus.
— Muito bem — respondeu sua mulher com tom seco e frio —.
Talvez uma de suas protegidas não seja uma idéia tão ruim, depois de tudo.
Ao menos o afastará de Kailea.
Abaixo, a jovem comia uma fruta com parcimônia, admirando Leto, e riu ao ver uma manobra extravagante do rapaz. Rhombur contra-atacou, os escudos se entrechocaram e soltaram faíscas. Quando Leto se virou para lhe dar um sorriso, Kailea cravou a vista em sua bandeja com altivez fingida.
Helena reconheceu os movimentos da dança do galanteio, tão complicada como qualquer duelo com espada.
— Vê como se olham?
O velho duque sacudiu a cabeça com pesar.
— Em outra época a filha da Casa Vernius me teria parecido uma excelente esposa para Leto.
Sentia-se triste por seu amigo Dominic Vernius ter se tornado um fora da lei por um decreto imperial. O imperador Elrood, como se tivesse perdido a razão, declarara Vernius não só renegado e exilado, mas também traidor. Nem o conde Dominic nem lady Shando entraram em contato com Caladan, mas Paulus esperava que continuassem com vida. Ambos tinham se transformado em presas para os caçadores de recompensas.
A Casa Atreides correra um grande risco ao dar proteção aos dois jovens. Dominic Vernius tinha cobrado favores prestados às Casas do Landsraad, que tinham confirmado os jovens exilados em sua situação protegida, desde que não aspirassem recuperar o antigo título de sua Casa.
— Jamais concordaria com um matrimônio entre nosso filho e... ela
— disse Helena —. Enquanto você se divertia com touradas e desfiles, eu não perdi o contato com a realidade. Há anos que a Casa Vernius caiu em desgraça.
Eu lhe disse isso, mas você não me ouviu.
— Ai, Helena — disse Paulus —, sua herança richesiana a impede de olhar para IX com imparcialidade. Vernius sempre foi rival de sua família, e os derrotaram totalmente nas guerras comerciais.
Apesar de suas desavenças, tentava lhe conceder o devido respeito a uma dama de uma Grande Casa.
— Está claro que a ira de Deus caiu sobre IX— disse sua mulher —.
Não pode negar isso. Devia se desfazer de Rhombur e Kailea. Envie-os para longe, ou os mate... Faria-lhes um favor.
O duque Paulus se irritou. Sabia que sua mulher voltaria ao assunto cedo ou mais tarde.
— Helena! Vigie suas palavras. — Olhou para ela com incrédulo —.
É uma sugestão ultrajante, até mesmo partindo de você.
— Por que? Sua Casa provocou sua própria destruição quando violou as normas da Grande Revolução. A Casa Vernius desafiou a Deus com sua arrogância. Qualquer um é capaz de vê-lo. Eu o avisei antes que Leto partisse de IX. — Segurou a beira do seu manto, tremulo de indignação, enquanto tentava formular uma súplica razoável —. Por acaso a humanidade não aprendeu a lição? Pense nos horrores que padecemos, a escravidão, a exterminação quase total. Nunca mais podemos que nos afastar do caminho correto. IX tentava ressuscitar as máquinas pensantes.
Não criará uma máquina a...
— Não preciso que me cite versículos — interrompeu o duque.
Quando Helena usava sua mentalidade rígida e fanática, nenhuma refutação podia atravessar suas muralhas.
— Escute-me — rogou ela —. Eu lhe ensinarei as passagens do Livro...
— Dominic Vernius era meu amigo, Helena — disse Paulus—. E a Casa Atreides defende seus amigos. Rhombur e Kailea são meus convidados no castelo de Caladan, e não falarei mais disso com você.
Embora Helena saísse do dormitório, Paulus sabia que em outro momento
tentaria convencê-lo de novo. Suspirou.
Agarrou o corrimão e olhou para o pátio, onde os garotos continuavam seus exercícios. Era uma espécie de rixa, em que Leto e Rhombur riam e corriam esbanjando suas energias.
Apesar de seu fanatismo, Helena acertara em alguns aspectos. Era o tipo de brecha que seus inimigos tradicionais, os Harkonnen, utilizariam para tentar destruir a Casa Atreides. Se a Casa Vernius tinha violado os preceitos da Jihad Butleriana, a Casa Atreides seria considerada culpada por cumplicidade.
Mas a sorte estava lançada, e Paulus aceitaria o desafio. De qualquer modo, se encarregaria de tomar precauções para que nada terrível acontecesse a seu filho.
Os rapazes continuavam combatendo, o velho duque sabia que Rhombur desejava aniquilar os inimigos que tinham expulso sua família de seu lar ancestral. Para isso, ambos os jovens necessitavam se treinamento, não só a brutal instrução no uso de armas pessoais, mas também nas habilidades requeridas para guiar homens e nas abstrações do governo em grande escala.
O duque sorriu sem humor, pois sabia o que tinha que fazer.
Rhombur e Kailea tinham sido postos sob sua tutela. Tinha prometido que velaria por sua segurança, pelo juramento de sangue que o irmanava a Dominic Vernius. Devia lhes proporcionar todas as possibilidades.
Enviou Leto e Rhombur ao seu Professor de Assassinos, Thufir Hawat. O Mentat guerreiro parecia uma coluna de ferro enquanto contemplava seus dois novos tutelados. Aguardavam de pé sobre um escarpado situado a alguns quilômetros ao norte do castelo de Caladan. O
vento se chocava contra as rochas e subia a grande velocidade, agitando a erva. Gaivotas cinzas voavam em círculos sobre suas cabeças, gritando e procurando petiscos sobre a praia rochosa. Ciprestes anões se curvavam, inclinados pela constante brisa do oceano. Leto não sabia quem era Thufir Hawat. O robusto Mentat tinha treinado o jovem duque Paulus. Sua pele era grossa, por ter sido exposta aos ambientes mais cruéis de muitos planetas durante antigas campanhas Atreides, do calor mais infernal ao frio mais abrasante, passando por tormentas aterradoras e rigores dos grandes espaços abertos.
Thufir Hawat cruzou os braços sobre seu peitilho. Seus olhos pareciam armas, seu silêncio um incentivo.
Leto estava ao lado de seu amigo, inquieto. Seus dedos estavam tão gelados que desejou ter ficado no castelo. Quando vamos começar o treinamento? Rhombur e ele se olharam, impacientes, à espera.
— Olhem para mim! — ordenou Hawat —. Eu poderia estripá-los no instante em que trocaram esse olhar pretensioso.
Deu um passo ameaçador em direção aos dois.
Leto e Rhombur usavam roupas cômodas mas de aspecto majestoso. A brisa sacudia suas capas. A de Leto era de uma seda merh esmeralda brilhante, debruada de negro, enquanto que a do príncipe de lX exibia os tons púrpura e cobre da Casa Vernius.
Depois de um longo silêncio, Hawat ergueu o queixo, preparado para começar.
— Antes de mais nada, tirem essas capas ridículas.
Leto levou a mão ao fecho na garganta, mas Rhombur vacilou.
Naquela fração de segundo, Hawat desembainhou sua espada curta e cortou o diminuto cordão, a poucos milímetros da jugular do príncipe. O vento arrebatou a capa púrpura e a lançou pelo escarpado. O objeto caiu como um cometa até pousar nas águas turbulentas.
— Ei! — exclamou Rhombur —. Por que...
Hawat desprezou seus protestos.
— Vocês vieram aqui para aprender o manejo das armas. Por que se vestiram como se fossem para um baile do Landsraad ou para um banquete imperial? — O Mentat bufou, e depois cuspiu na direção do vento —. Lutar é um trabalho sujo, e a menos que tentem ocultar as armas nessas capas, usá-las é uma estupidez. É como sair vestindo seu próprio sudário.
Leto ainda segurava a capa verde em suas mãos. Hawat agarrou a ponta do tecido e ao mesmo tempo imobilizou a mão direita de Leto. Puxou com força e golpeou com o pé o tornozelo do jovem, que caiu sobre o chão rochoso.
Leto ofegou para recuperar o fôlego. Rhombur riu do seu amigo.
Hawat lançou a capa ao ar para que fosse se reunir com a de Rhombur no mar.
— Qualquer coisa pode transformar-se em uma arma — disse —.
Carregam espadas, e facas. Além disso, têm escudos. Entretanto, deveriam carregar oculto um bom sortimento de brinquedos: agulhas, campos atordoantes, pontas envenenadas. Enquanto seu inimigo presta atenção na arma visível — Hawat pegou uma espada de treinamento e estocou o ar —, podem utilizá-la como isca para atacar com algo ainda mais mortífero.
Leto se levantou , ao mesmo tempo em que sacudia o pó da roupa.
— Mas, senhor, não é nobre utilizar armas ocultas. Isso não vai contra as normas de...
Hawat estalou os dedos em frente ao rosto de Leto. — Não me fale das regras do assassinato. — A pele curtida do Mentat avermelhou ainda mais, como se mal pudesse conter sua ira —.
Qual é sua intenção, se pavonear em frente as damas ou eliminar seu inimigo? Isto não é um jogo.
Virou-se para Rhombur e olhou-o tão fixamente que o jovem retrocedeu um passo.
— Correm rumores de que há uma recompensa imperial por sua cabeça, príncipe, se abandonar o refúgio de Caladan. É o filho exilado da Casa Vernius. Sua vida não é a de um cidadão comum. Não sabe quando sofrerá o golpe mortal, assim deve estar preparado em todo momento. As intrigas cortesãs e a política possuem suas próprias normas, mas em certas ocasiões nem todos os jogadores respeitam as regras.
Rhombur engoliu em seco.
Hawat se voltou para o Leto.
— Rapaz, sua vida corre perigo também, como herdeiro da Casa Atreides. Todas as Grandes Casa têm que estar em alerta constante contra o assassinato.
Leto cravou a vista no instrutor.
— Compreendo, Thufir, e quero aprender. — Olhou para Rhombur
—. Queremos aprender.
— Começamos sempre por algum lugar — disse o instrutor —. Tem que haver tocos desajeitados trabalhando para outras famílias do Landsraad, mas vocês, meus filhos, têm que se transformar em exemplos.
Não só aprenderão a lutar com escudo e faca, nas artes sutis do assassinato, e também nas artimanhas da política e governo. Devem aprender a se defender tanto na retórica, como dos golpes físicos. — O Mentat ergueu os ombros e ficou firme —. Eu lhes ensinarei isso.
Conectou seu escudo corporal. Brandia uma faca em uma mão e uma espada larga na outra.
Leto conectou instintivamente o escudo de seu cinturão, e o campo Holtzman brilhou a sua frente. Rhombur se esforçou para imitá-lo, no instante em que o Mentat fingia atacar e se continha no segundo último.
Hawat passou as armas de uma mão para a outra, numa demonstração de que podia matar com qualquer uma delas.
— Sejam cautelosos. Talvez algum dia sua vida dependa disso. Qualquer caminho que limite futuras possibilidades pode transformar-se em uma armadilha mortal. Os humanos não abrem caminho através de um labirinto. Esquadrinham um imenso horizonte repleto de oportunidades únicas. Manual da Corporação Espacial
A Junção era um planeta austero, com paisagens monótonas e total controle climático, afim de eliminar inconveniências incomodas. Um lugar prático, escolhido como sede da Corporação Espacial por sua localização estratégica mais que por suas paisagens.
Aqui, os aspirantes aprendiam a transformarem-se em Navegantes. Bosques renascidos cobriam milhões de hectares, mas se limitavam a boj e carvalhos anões. Cresciam em abundância certas hortaliças da Velha Terra, cultivadas pelos nativos (batatas, pimentões, berinjelas, tomates e diversas ervas), mas tendiam a ser alcalóides, e eram comestíveis somente depois de um cuidadoso processamento.
Depois de seu exame, aturdido pelas novas perspectivas que a melange oferecia, D'murr Pilru fora levado até ali sem poder despedir-se de seu irmão gêmeo nem
de seus pais. A princípio ficou triste, mas as exigências do treinamento lhe proporcionaram tantos prodígios que esqueceu todo o resto. Descobriu que podia concentrar-se nas coisas muito melhor, e esquecer com mas facilidade.
Os edifícios da Junção (enormes formas avultadas com protuberâncias redondas e angulares) tinham o desenho normal da Corporação, muito parecidos com a embaixada de IX: práticos ao extremo e enormes. Cada edifício contava com um escudo com a insígnia do infinito. As infra-estruturas mecânicas eram de procedência ixiana e richesiana, instaladas séculos antes e ainda em funcionamento.
A Corporação Espacial preferia ambientes que não interferissem em suas importantes tarefas. Para um Navegante, qualquer distração significava um perigo em potencial. Cada estudante da Corporação aprendia a lição muito rapidamente, como o jovem aspirante D'murr: longe de casa e absorto em seus estudos, evitava qualquer preocupação com os problemas de seu antigo planeta.
No meio de um campo de erva negra, estava imerso em seu contêiner de gás de melange. Meio nadava meio rastejava, enquanto seu corpo continuava mudando e seus sistemas físicos se alteravam para adaptar-se ao bombardeio de especiaria. Tinham começado a crescer membranas entre os dedos de suas mãos e pés. Seu corpo estava mais largo e flácido que antes, e ia adotando forma de peixe. Ninguém tinha explicado o alcance das inevitáveis mudanças, e não fez perguntas. Não importava. Era tal a quantidade de universo aberto para ele, que considerava modesto o preço a pagar.
Os olhos de D'murr tinham diminuído e perdido as pestanas.
Também tinha desenvolvido cataratas. Não necessitava mais deles para ver, já que tinha outros olhos, os da visão interna. O universo se desdobrava para ele. No processo experimentava a sensação de estar deixando algo para trás, e não se incomodava.
Através da neblina, D'murr via o campo de erva negra coberto com fileiras de aspirantes em seus contêineres, navegantes que se preparavam.
Uma vida por contêiner. Os contêineres expeliam gases de melange filtrados, que redemoinhavam ao redor de ajudantes humanóides protegidos com máscaras, que esperavam para mover os contêineres quando ordenassem.
O Instrutor Chefe, um Timoneiro Navegante chamado Grodin, flutuava no interior de um contêiner negro içado sobre uma plataforma. Os aprendizes o viam mais com a mente que com os olhos. Grodin acabava de chegar da dobra
espacial com um aspirante, cujo contêiner estava ao lado do dele, conectados por um tubo flexível para que seus gases se misturassem.
D'murr já tinha realizado vôos curtos em três ocasiões.
Consideravam-lhe um dos melhores aspirantes. Assim que aprendesse a viajar pela dobra espacial sozinho, receberia o título de Piloto, o Navegante de patente mais inferior, mas muito superior ao que tinha sido quando era um simples ser humano.
As viagens pela dobra espacial do Timoneiro Grodin eram lendárias explorações através de incompreensíveis nós dimensionais. A voz do Instrutor Chefe surgia de um alto-falante situado dentro do contêiner de D'murr, e utilizava uma linguagem superior. Descreveu uma ocasião em que tinha transportado seres similares a dinossauros em um antiquado Cruzeiro. Ignorava que os monstros podiam esticar o pescoço até distâncias incríveis. Enquanto o Cruzeiro se encontrava em vôo, um desses seres abrira caminho, devorando tudo a sua frente, até a câmara de navegação, de modo que sua cara apareceu em frente ao contêiner de Grodin, que olhou para ele com os olhos arregalados...
Está-se muito bem aqui, pensou D'murr enquanto ouvia a história.
Inalou uma profunda baforada de melange. Os humanos, devido a seus sentidos embotados, comparavam aquele aroma penetrante com a canela mais potente, mas a melange era muito mais que isso, imensamente mais complexa.
D'murr já não precisava preocupar-se com os assuntos mundanos dos seres humanos, seres corriqueiros, limitados e imprevisíveis: maquinações políticas, superpopulação, quantas vidas brilhavam e se apagavam em apenas um instante, como faíscas de uma fogueira. Sua vida anterior não era mais que uma lembrança vaga e difusa, sem nomes nem rostos concretos. Via imagens, mas as ignorava. Nunca poderia voltar para o passado.
Em vez de terminar o relato sobre o ser em forma de dinossauro, o Timoneiro Grodin mudou de assunto e falou sobre os aspectos técnicos do que o aspirante selecionado tinha conseguido em sua viagem interestelar, e como tinham utilizado matemática de alto nível e mudanças dimensionais para escrutinar o futuro, assim como o monstro de pescoço comprido tinha examinado seu contêiner.
— Um Navegante tem que fazer muito mais que observar — disse pelo altofalante a voz estranha de Grodin —. Um Navegante utiliza o que vê para guiar naves espaciais através do vazio. O fato de não aplicar certos princípios básicos
pode conduzir à destruição do Cruzeiro e de todos que transporta.
Antes que um dos novos adeptos, como D'murr, chegasse a Piloto, deviam aprender a dominar determinadas crises, como um espaço dobrado em parte, sem presciência, um ataque de alergia da especiaria, geradores Holtzman defeituosos, e até mesmo sabotagem deliberada.
D'murr tentou imaginar como teriam padecido alguns de seus desafortunados predecessores. Contra a crença popular, os Navegantes utilizavam sua limitada presciência para escolher rotas seguras de navegação. Uma nave podia atravessar o vazio sem seu guia, mas esse perigoso jogo de adivinhações conduzia de maneira inevitável ao desastre.
Um Navegante da Corporação não garantia uma viagem segura, mas as probabilidades aumentavam de maneira substancial. Havia problemas quando imprevistos.
Estavam treinando D'murr até o limite dos conhecimentos da Corporação, o que não incluía todas as eventualidades. O universo e seus habitantes se achavam em uma estado de mudança constante. Todas as antigas escolas sabiam, incluindo a Bene Gesserit e os Mentats. Os sobreviventes aprendiam a adaptar-se à mudança, a esperar o inesperado.
No limite de sua consciência, seu contêiner de melange começou a deslocar-se sobre seu campo suspensor e se alinhou atrás dos contêineres de outros aspirantes. Ouviu um ajudante de instrutor recitar passagens do Manual da Corporação Espacial. Mecanismos de circulação do gás zumbiam ao seu redor. Cada detalhe parecia nítido, definido, importante.
Jamais havia se sentido tão vivo!
Inalou a melange e notou que suas preocupações começavam a dissipar-se. Seus pensamentos recuperaram a harmonia e deslizaram suavemente pelos caminhos neurais do seu cérebro.
— D'murr... D'murr, irmão...
O nome redemoinhou com o gás, como um sussurro no universo, um nome que não utilizava mais, agora que tinham lhe atribuído um número de navegação da Corporação. Os nomes se associavam com a individualidade.
Os nomes impunham limitações e idéias preconcebidas, relações familiares e histórias passadas, impunham a antítese do que significava ser um Navegante.
Um homem da Corporação se fundia com o cosmos e via rotas seguras através das curvas do destino, visões prescientes que permitiam guiar matéria de um lugar a outro, como peças de xadrez em um tabuleiro cósmico.
— Está me ouvindo, D'murr? D'murr?
A voz vinha do alto-falante situado dentro do seu contêiner, mas também de uma enorme distancia. Percebeu algo familiar no seu tom.
Tinha esquecido tantas coisas? D'murr. Quase tinha apagado esse nome da mente.
O cérebro de D'murr efetuou conexões que cada vez considerava menos importantes, e sua boca flácida formou palavras gorjeantes.
— Sim, estou ouvindo.
Empurrado pelo ajudante, o contêiner de D'murr deslizou por um caminho pavimentado em direção ao enorme edifício bulboso onde viviam os Navegantes. Ninguém parecia ouvir a voz.
— Sou eu, C'tair — continuou a transmissão —. Seu irmão. Está ouvindo? Esta porcaria funcionou por fim. Como está?
— C'tair?
O Navegante em treinamento sentiu que sua mente rastejava para os restos de seu preguiçoso estado pré-Corporação. Tentava ser humano de novo, mesmo que por um instante. Era importante?
O processo era penoso e limitado, como um homem diante de anteparas, mas a informação era precisa: sim, seu irmão gêmeo. C'tair Pilru.
Humano. Recebeu imagens fugazes do seu pai vestido de embaixador, de sua mãe com o uniforme do Banco da Corporação, de seu irmão quando brincavam e exploravam juntos. Aquelas imagens tinham sido expulsas de seus pensamentos, como quase tudo que pertencia àquele reino... mas não por completo.
— Sim — disse D'murr —. Eu o conheço. Lembro-me.
Em IX, refugiado no cubículo onde utilizava seu aparelho de transmissão improvisado, C'tair falava curvado, com medo de ser descoberto, mas valia o risco. Lágrimas corriam sobre seu rosto, e engoliu em seco. Os Tleilaxu e os
subóides continuavam a jogar suas redes, destruindo qualquer resíduo de tecnologia desconhecida que encontravam.
— Eles o separaram de mim na câmara de exames da Corporação —
sussurrou C'tair —. Não me deixaram vê-lo nem dizer adeus. Agora compreendo que você teve sorte, D'murr, pensando no que aconteceu em IX. Vê-lo agora partiria seu coração. — Respirou fundo —. Nossa cidade foi destruída pouco depois de termos sido separados pela Corporação.
Morreram centenas de milhares de pessoas. O poder passou para as mãos dos Bene Tleilax.
D'murr fez uma pausa para adaptar-se à comunicação limitada de pessoa a pessoa.
— Guiei um Cruzeiro através da dobra espacial, irmão. Eu vejo a galáxia com minha mente, vejo matemática. — Suas palavras indolentes conseguiram formar frases —. Agora sei por que... Se... Ai, sua conexão me faz sentir dor. Como é possível, C'tair?
— Esta comunicação lhe faz mal? — C'tair se afastou do transmissor e conteve o fôlego, com medo de ser ouvido pelos microfones Tleilaxu —.
Sinto muito, D'murr. Possivelmente deveria...
— Não é importante. A dor oscila, como uma enxaqueca... embora de maneira diferente. Percorre minha mente e a abandona. — A voz de D'murr parecia longínqua e etérea —. Que tipo de transmissão é esta? Que aparelho está utilizando?
— Você não me ouviu, D'murr? IX foi destruído. Nosso planeta, nossa cidade, é um campo de concentração. Nossa mãe morreu em uma explosão. Não pude salvá-la. Estive escondido aqui, perto de pessoas e corro um grande perigo por causa desta transmissão. Nosso pai está exilado, não sei onde... em Kaitain, acredito. A Casa Vernius se declarou renegada. Estou preso aqui!
D'murr continuou concentrado no que considerava a questão mais importante.
— Comunicação direta através da dobra espacial? Impossível.
Explique-me.
— Explicar? — repetiu D'murr.
Surpreso pela falta de preocupação de seu gêmeo com as notícias horrendas, C'tair decidiu seguir a corrente. Afinal, D'murr tinha sofrido mudanças mentais radicais, e ninguém podia culpá-lo por seu estado atual.
C'tair nunca entenderia o que seu gêmeo tinha padecido. Ele tinha fracassado nos exames da Corporação. comportara-se com excessivo temor e rigidez. Do contrário, agora também seria um Navegante.
Conteve o fôlego, ouviu um rangido no passadiço que corria por cima de seu cabeça, passos que se afastavam. Vozes sussurrantes. Depois o silêncio voltou e pôde continuar a conversa.
— Explique — repetiu D'murr.
C'tair falou com seu irmão do aparelho que havia criado.
— Lembra-se de Davee Rogo, o velho inventor que nos convidava a ir ao seu laboratório para nos ensinar as coisas em que trabalhava?
— Aleijado... muletas suspensoras. Muito decrépito para andar.
— Sim, falava freqüentemente de comunicação por meio de ondas de energia de neutrinos, uma rede de varinhas envoltas em cristais de silicato.
— Ai... Dor outra vez.
— Está sofrendo! — C'tair olhou ao redor, consciente do perigo que estava correndo —. Não me estenderei muito mais.
D'murr queria saber mais.
— Continue a explicação. Tenho que saber como é este aparelho.
— Um dia, durante os distúrbios, quando sentia necessidade de falar com você, recordei fragmentos das conversas. Acreditei ver, entre os escombros de um edifício ruído, uma imagem imprecisa de Rogo. Foi como uma visão. Falava com aquela voz velha e quebrada, e me disse o que devia fazer, que peças necessitava e como juntá-las. Deu-me as idéias que necessitava.
— Interessante.
A voz do Navegante era monótona e indiferente.
A falta de emoção e compaixão de seu irmão inquietou C'tair. Tentou formular
perguntas sobre as experiências de D'murr na Corporação Espacial, mas seu irmão não teve paciência e respondeu que não podia divulgar os segredos da Corporação, nem mesmo para seu irmão. Tinha viajado através da dobra espacial, e era incrível. Não podia revelar nada mais.
— Quando poderemos voltar a falar? — perguntou C'tair. Notou o aparelho perigosamente quente, como se estivesse a ponto de explodir.
Teria que desconectá-lo muito em breve. D'murr emitiu um grunhido de dor, mas não deu uma resposta concreta.
Apesar de saber do mal-estar de seu irmão, C'tair experimentava a necessidade humana de dizer adeus, embora não fosse assim no caso de D'murr.
— Até logo, então. Sinto sua falta.
Enquanto pronunciava aquelas palavras contidas a tanto tempo, notou um aplacamento de sua dor, uma sensação curiosa, pois não estava seguro de que seu irmão o compreendesse como antes.
C'tair cortou a comunicação, sentindo-se culpado. Depois ficou sentado um momento em silêncio, afligido por emoções contraditórias: alegria por ter falado com seu irmão, e tristeza pelas reações ambivalentes de D'murr. Até que ponto seu irmão tinha mudado?
D'murr deveria lamentar a morte de sua mãe e os trágicos acontecimentos em IX. O estado de ânimo de um Navegante da Corporação afetava toda a humanidade. Não deveria ser um Navegante mais sensível, mais propenso a defender a humanidade?
Em vez disso, parecia que o jovem tinha cortado todos os laços e queimado todas as pontes. D'murr representava a filosofia da Corporação, ou estava tão absorto em suas novas capacidades que se transformara em megalomaníaco? Era necessário que se comportasse daquela maneira?
D'murr eliminara todo contato com a humanidade? Não havia forma de saber.
C'tair experimentava a sensação de ter perdido seu irmão pela segunda vez.
Desconectou os contatos da máquina de bioneutrinos que durante um momento tinha expandido seus poderes mentais, amplificado seus pensamentos e permitido que se comunicasse com a longínqua Junção.
Marcado de repente, voltou para seu esconderijo e tombou no estreito beliche.
Com os olhos fechados, imaginou o mundo que se estendia além de suas pálpebras, e se perguntou como o veria seu gêmeo. Sua mente zumbia com um estranho resíduo do contato, seqüela da expansão mental.
D'murr parecia falar submerso em água, através de filtros de compreensão. C'tair começou a desentranhar significados subjacentes, sutilezas e engenhosidades. Durante toda a noite, no isolamento de sua habitação oculta, pensamentos encadeados percorreram sua mente, afligiram-no como uma possessão demoníaca. O contato tinha ativado algo em seu cérebro, uma reação assombrosa.
Não saiu de seu refúgio durante dias, absorto em suas lembranças, e utilizou o aparelho para concentrar seu pensamento até extremos de lucidez obsessiva. Hora depois de hora, a conversa reproduzida tornava-se mais clara, as palavras e os duplos significados se revelavam como as pétalas de uma flor, como se atravessasse as dobras espaciais em mente e memória.
Os matizes da conversa com D'murr adquiriam maior transparência, significados que C'tair não tinha captado a princípio. O que só lhe proporcionou um indício do que seu irmão tinha se tornado.
Achou isso emocionante. E aterrador.
Por fim, quando recuperou a consciência vários dias depois, viu esparramados ao seu redor os pacotes de comida e bebida. A habitação fedia. Olhou-se num espelho e se surpreendeu por ver que uma barba tinha crescido em seu rosto. Seus olhos estavam injetados e o cabelo desgrenhado. C'tair mal se reconheceu.
Se Kailea Vernius o visse agora, retrocederia tomada de horror ou desprezo, e o enviaria para trabalhar nos níveis inferiores mais imundos, com os subóides. Não obstante, por algum processo ignorado, depois da tragédia de IX e da violação de sua bela cidade subterrânea, seu amor infantil pela filha do conde lhe parecia irrelevante. De todos os sacrifícios que C'tair tinha feito, aquele era o mais insignificante.
E tinha certeza que outros ainda maiores o aguardavam.
Antes de se lavar ou de arrumar o esconderijo, iniciou os preparativos para chamar seu irmão novamente. As percepções regem o universo. Máxima Bene Gesserit
Uma lançadeira robô controlada abandonou o Cruzeiro que girava em órbita no sistema de Laoujin e desceu até a superfície de Wallach IX, ao mesmo tempo em que transmitia os códigos de segurança corretos que desativariam as defesas primárias da Irmandade. O lar das Bene Gesserit era mais uma etapa em sua longa rota entre as estrelas do Império.
Gaius Helen Mohiam, cujo espesso cabelo começava a ficar grisalho , e cujo corpo começava a trair sua idade, pensou que era estupendo voltar para casa depois de meses dedicada a outras tarefas, cada uma delas um fio na imensa tapeçaria das Bene Gesserit. Nenhuma irmã compreendia a configuração em sua totalidade, o entrelaçado de acontecimentos e pessoas, mas Mohiam cumpria sua parte.
A Irmandade a tinha chamado de volta, devido a gravidez avançada, para que permanecesse na Escola Materna até o momento de dar a luz. Só a mãe Kwisatz Anirul conhecia seu verdadeiro valor para o programa de reprodução, a forma de que tudo dependia da menina que crescia em seu corpo. Mohiam, por sua vez, sabia que a menina era importante, mas mesmo as vozes da Outra Memória, a que sempre podia convocar para que lhe oferecer uma cacofonia de conselhos, guardava um silêncio deliberado sobre o tema.
Ela era a única passageira da lançadeira. Os fabricantes richesianos do robô piloto, que trabalhavam sob o espectro da Jihad, superaram-se para arranjar um aparelho de aspecto extravagante, coberto de rebites, que nem emulava à mente humana nem parecia humano, nem sequer era sofisticado.
O robô piloto transportava passageiros e materiais de uma nave para a superfície de um planeta, para retornar de novo à nave mãe dentro de uma cadeia de atividades bem programada. Suas funções incluíam flexibilidade suficiente apenas para seguir os mapas de tráfico aéreo ou as condições meteorológicas adversas. O robô piloto conduzia a lançadeira em uma seqüência rotineira: do Cruzeiro ao planeta, do planeta ao Cruzeiro...
Mohiam, sentada perto de uma janelas da lançadeira, refletia sobre a sua deliciosa vingança sobre o barão. Já tinham passado vários meses e não havia dúvida de que o homem não tinha a menor suspeita, mas uma Bene Gesserit podia esperar muito tempo. Com os anos, com seu adorado corpo enfraquecido e tomado pela doença, um Vladimir Harkonnen totalmente derrotado podia mesmo nutrir a idéia de suicídio.
Talvez a ação de Mohiam tivesse sido impulsiva, mas era justa, perante o que o barão tinha feito. A madre superiora Harishka não permitiria que a Casa
Harkonnen ficasse impune, e Mohiam acreditava que sua iniciativa fora cruelmente adequada. Economizaria tempo e problemas para a Irmandade.
Enquanto a nave mergulhava na capa de nuvens, Mohiam imaginou se sua nova filha seria perfeita, por que o barão não lhes serviria mais de nada. Caso contrário, a Irmandade sempre possuía outras opções e planos.
Tinham diversos programas de reprodução.
Mohiam era do tipo que se considerava ótimo para certo programa genético misterioso. Conhecia os nomes de algumas candidatas, mas não de todas, e também sabia que a Irmandade não desejava gravidezes simultâneas no programa, pois temia que tal circunstância prejudicasse o índice de emparelhamentos. Não obstante, Mohiam se perguntava por que tinha sido escolhida de novo, depois de seu primeiro fracasso. Suas superioras não tinham explicado, e sabia que não devia perguntar. Além disso, as Vozes da Outra Memória também guardavam segredo.
Os detalhes importam?, perguntou-se. Carrego a víbora exigida em meu útero. Um parto perfeito elevaria o prestígio de Mohiam, poderia levá
la a ser escolhida madre superiora pelas superintendentes, quando fosse muito mais velha, dependendo da importância desta filha.
Pressentia que a menina seria muito importante.
Sentiu uma repentina mudança de movimento na lançadeira robô tripulada. Olhou pela janela estreita e viu que o horizonte de Wallach IX
variava, enquanto o aparelho dava voltas e descia desgovernado. O campo de segurança que rodeava seu assento emitiu um brilho amarelado, desconhecido e desconcertante. Os sons mecânicos, até então apenas um zumbido suave, aumentaram para um volume ensurdecedor.
As luzes do módulo de controle piscaram. Os movimentos do robô eram erráticos e inseguros. Mohiam tinha sido preparada para enfrentar qualquer crise, e sua mente trabalhou com rapidez. Sabia que nestas lançadeiras aconteciam avarias ocasionais, ínfimas de um ponto de vista estatístico mas exacerbadas pela falta de pilotos com capacidade de pensamento e reação. Quando um problema se apresentava, e Mohiam se era protagonista de um, as probabilidades de terminar em desastre eram altas.
A lançadeira caiu em descontrolada entre as nuvens. O robô piloto efetuou os
mesmos movimentos circulares, incapaz de tentar algo novo. O
motor emitiu um estertor estranho e emudeceu.
Não pode ser, pensou Mohiam. Agora não, grávida desta menina.
Sentia em suas vísceras que, se conseguisse sobreviver, sua filha seria perfeita, a menina que a Irmandade tanto necessitava.
Mas lapsos de a pensamentos assaltaram, e começou a tremer. Os Navegantes da Corporação, assim como o do Cruzeiro em órbita sobre sua cabeça, utilizavam complexos cálculos dimensionais, afim de ver o futuro e poder conduzir a nave sã e salva através dos perigosos vazios da dobra espacial. A Corporação Espacial teria descoberto o segredo do programa Bene Gesserit e o temia?
Enquanto a lançadeira se precipitava para o desastre, um desfile de possibilidades passou pela mente de Mohiam. O campo de segurança que a rodeava se expandiu e adotou um tom mais amarelado. Mohiam enlaçou as mãos sobre seu útero para protegê-lo e experimentou um desesperado desejo de viver e de que sua filha não nascida visse a luz sem problema.
Seus pensamentos transcendiam as preocupações domésticas de uma mãe e uma filha.
Perguntou-se se suas suspeitas estariam erradas E se uma força que nem ela nem as outras irmãs eram capazes de imaginar era a causadora disto? Com seu programa de reprodução as Bene Gesserit estavam brincando de Deus? Existia um verdadeiro Deus, apesar do cinismo e do cepticismo da Irmandade à respeito da religião?
Seria uma brincadeira muito cruel.
As deformidades de sua primeira filha, e agora a morte iminente deste feto e de Mohiam... Tudo apontava para um significado oculto, mas quem, ou o que, estava por trás deste acidente?
As Bene Gesserit não acreditavam em acidentes nem em coincidências.
— Não devo temer — rezou com os olhos fechados —. O medo é o assassino da mente. O medo é a pequena morte que conduz à destruição total. Enfrentarei meu medo. Permitirei que passe sobre e através de mim.
E quando tiver passado, observarei seu caminho com o olho interior. Onde o medo passou, não haverá nada. Só eu restarei.
Era a Litania Contra o Medo, criada em tempos remotos por uma irmã Bene Gesserit e transmitida de geração em geração.
Mohiam respirou fundo e notou que os tremores diminuíam.
A lançadeira se estabilizou momentaneamente, com a janela virada para o planeta. O motor chispou de novo. Viu que a massa continental se aproximava a grande velocidade, e revelou o extenso complexo da Escola Materna, uma cidade labiríntica de edifícios de estuque branco e telhados cor Siena.
Iriam se chocar contra o edifício principal, com um potente explosivo a bordo? Uma colisão destruiria o coração da Irmandade.
Mohiam não conseguiu se liberar do campo de segurança, apesar de seus esforços. A lançadeira mudou de direção e a terra desapareceu de sua vista. A janela se inclinou para cima e revelou o sol branco-azulado, na beira da atmosfera.
Então, o campo de segurança perdeu seu tom amarelado, e Mohiam compreendeu que a lançadeira se estabilizara. O motor funcionava de novo.
Na parte dianteira do compartimento, o robô piloto se movia com aparente eficiência, como se nada tivesse acontecido. Pelo visto, um de seus programas de emergência tinha funcionado.
Quando a lançadeira pousou com suavidade diante da grande praça, Mohiam exalou um longo suspiro de alívio. Correu para a porta, desejosa de alcançar a segurança do edifício mais próximo, mas logo se acalmou e saiu com serenidade. Uma reverenda madre tinha que manter as aparências.
Quando deslizou rampa abaixo, irmãs e acompanhantes a rodearam para protegê-la. A madre superiora ordenou que a lançadeira fosse submetida a um rigoroso exame, em busca de provas de sabotagem ou para confirmar uma simples avaria. Não obstante, uma repentina transmissão do Cruzeiro o impediu.
A reverenda madre Anirul Sadow Tonkin esperava Mohiam, transbordante de orgulho, com um aspecto muito juvenil graças a seu rosto de cerva e o cabelo brônzeo curto. Mohiam nunca compreendera a importância de Anirul, embora até a madre superiora lhe mostrasse deferência. As duas mulheres se saudaram com um movimento de cabeça.
Rodeada das outras irmãs, Mohiam foi escoltada até um edifício. Um numeroso contingente de guardas armados cuidaria de sua segurança.
Cuidariam dela e vigiariam até que desse a luz.
— As viagens acabaram para você, Mohiam — disse a madre superiora Harishka —. Ficará aqui até sua filha nascer. Aqueles de coração fraco, sejam fortes e não temam. Aqui está seu Deus que virá para vingá-los. Virá e os salvará dos adoradores de máquinas.
Bíblia Católica Laranja

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