— O novo duque está afligido pela complexidade da administração das suas posses. Assistirá à coroação de Shaddam IV, é obvio. Nenhuma Grande Casa ousaria ofender o novo imperador Padishah desprezando-o no seu dia mais glorioso.
De Vries captou a idéia imediatamente.
— Quando o duque Leto vir à coroação... será nossa oportunidade de dar o golpe.
— Em Kaitain? — perguntou Rabban.
— Um pouco mais interessante que isso, suspeito — disse De Vries.
O barão bebeu um gole do conhaque antigo.
— Será uma vingança deliciosa. Leto nem sequer imaginará, não saberá de onde vieram os tiros.
Os olhos de Rabban se iluminaram.
— Faremos ele se retorcer, tio! O barão estendeu uma taça para seu sobrinho e outra para o Mentat.
Rabban tomou seu conhaque de um só gole, enquanto De Vries se limitou a contemplá-lo, como se estivesse realizando uma análise química visual.
— Sim, Rabban, ele se retorcerá e retorcerá, até que uma grande onda imperial o esmague. Só um Tleilaxu pode pôr o pé no Bandalomg, a cidade Santa dos Bene Tleilax, pois seu chão sagrado está fanaticamente guardado por Deus. Diplomada no Império, uma publicação do Laminem
O edifício, que ainda mostrava sinais do incêndio, outrora tinha sido uma fábrica de meks de combate ixiano, uma das sacrílegas indústrias que desafiavam os mandamentos da Jihad Butleriana. Mas não mais. Hidar Fen Ajidica contemplou as idas e vindas de contêineres e ajudantes, satisfeito por ver que o lugar fora purificado e dedicado a um bom uso.
Depois da vitória Tleilaxu, a instalação tinha sido esvaziada de sua venenosa maquinaria e abençoado por Mestres com hábito, para ser utilizada para os
elevados propósitos dos Bene Tleilax. Apesar do apoio do velho imperador Elrood, já falecido, Ajidica nunca tinha considerado aquele projeto como pertencente ao Império. Os Tleilaxu não agiam em benefício de ninguém além deles e de seu Deus. Tinham seus próprios propósitos, que nunca seriam compreendidos por estrangeiros corruptos.
— A estratégia Tleilaxu sempre é tecida em uma rede de estratégias, onde qualquer uma delas pode ser a verdadeira estratégia — entoou o axioma de seu povo —. A magia de nosso Deus é nossa salvação. Cada contêiner de axlotl guardava os ingredientes de um experimento diferente, e cada um representava uma alternativa à solução do problema da melange artificial. Nenhum estrangeiro jamais tinha visto um contêiner de axlotl, e nenhum compreendia sua verdadeira função. Para produzir a preciosa melange, Ajidica sabia que seria preciso utilizar métodos inquietantes. Se as Casas descobrissem ficariam horrorizadas, mas Deus os protegia, repetiu em sua alma secreta. Produziriam a especiaria em quantidades maciças.
Ao compreender a complexidade do projeto, o Mestre Pesquisador tinha chamado peritos tecnológicos de Tleilax, homens sábios com pontos de vista muito divergentes sobre a forma de alcançar o objetivo. Naquele momento inicial do processo precisava considerar todas as opções, estudar todas as provas para introduzir pistas diretamente no DNA das moléculas orgânicas, que os Tleilaxu chamavam de A Linguagem de Deus.
Todos os peritos tecnológicos concordaram que a especiaria artificial devia crescer como uma substância orgânica em um contêiner de axlotl, porque os contêineres eram fontes sagradas de vida e energia. Os Mestres Pesquisadores tinham criado incontáveis programas com resultados assombrosos, desde baceres a clones passando por gholas... embora tivessem produzido muitos fracassos.
Estes recipientes exóticos constituíam a descoberta Tleilaxu mais sagrada, e nem sequer o príncipe herdeiro Shaddam, seus conselheiros e os Sardaukar conheciam seu funcionamento. Tão secreto e em segurança em IX, agora Xuttah, tinha sido uma exigência contida no pacto com o imperador Elrood. O velho tinha concordado com ironia depreciativa.
Devia ter suposto que se apoderaria daqueles segredos quando quisesse.
Muita gente mantinha tais hipóteses ridículas a respeito dos Tleilaxu.
Ajidica estava acostumado a ser menosprezado pelos idiotas.
Só um Mestre Tleilaxu ou um Pesquisador Tleilaxu de pura cepa podiam acessar este conhecimento. Ajidica aspirou o aroma de produtos químicos fétidos, o desagradável fedor úmido que era uma conseqüência inevitável do funcionamento dos contêineres. Aromas naturais. Sinto a presença de meu Deus, pensou, formando as palavras em islarfliyat, o antiquísimo idioma que nunca se falava em voz alta fora dos kehls, os conselhos secretos de sua raça. Deus é misericordioso. Só ele pode me guiar.
Um globo luminoso flutuava a frente de seus olhos, piscavam com um brilho vermelho... longo, longo, curto, pausa... longo, curto, o vermelho vira azul... cinco rápidas piscadas e volta ao vermelho. O emissário do príncipe herdeiro estava ansioso por vê-lo. Hidar Fen Ajidica sabia que não devia fazer Hasimir Fenring esperar. Apesar de não possuir nenhum título de nobreza, o impaciente Fenring era o amigo mais íntimo do herdeiro imperial, e Fenring compreendia as manipulações do poder pessoal melhor que a maioria de líderes do Landsraad. Ajidica sentia certo respeito pelo homem.
Ajidica se voltou, resignado, e atravessou sem problemas uma zona de identificação que teria sido mortal para qualquer um que não tivesse a permissão pertinente. Nem sequer o príncipe herdeiro poderia cruzá-la sem perigo. Ajidica sorriu ao pensar na superioridade de seu povo. Os ixianos utilizavam máquinas e campos de força por motivos de segurança, como os desajeitados e desumanos subóides tinham descoberto... provocando espantosas detonações e danos colaterais. Os Tleilaxu, por sua vez, usavam agentes biológicos liberados mediante engenhosas interações, toxinas e gases nervosos que acabavam com os infiéis powindah assim que punham o pé onde não deviam.
Na zona de espera, um sorridente Hasimir Fenring saudou Ajidica quando saiu da zona de identificação. De alguns ângulos, o homem de queixo pequeno parecia uma doninha, e de outros um coelho, inofensivo na aparência mas na realidade muito perigoso. Os dois se encontraram no que tinha sido um vestíbulo ixiano, conectado por uma intrincada rede de elevadores de plaz transparente. Aquele assassino imperial tinha uma cabeça a mais de altura em relação ao Mestre Pesquisador.
— Ah, meu querido Ajidica — ronronou Fenring —, seus experimentos vão bem, hummmm? O príncipe herdeiro Shaddam deseja receber as últimas notícias, agora que vai iniciar a obra de seu Império.
— Estamos fazendo bons progressos, senhor. Nosso imperador não coroado recebeu meu presente, suponho.
— Sim, muito bonito, e lhe envia seus agradecimentos. — Fenring desenhou um sorriso tenso ao pensar no obséquio: um hermazorro de pele chapeada, capaz de autorreplicar-se, um peculiar brinquedo vivo que não servia absolutamente para nada —. De onde tirou um ser tão interessante?
— Somos adeptos das forças da vida, senhor.
Os olhos, pensou Ajidica. Vigie seus olhos. Revelam sentimentos perigosos. Malévolos, neste momento.
— Então vocês gostam de brincar de Deus?
— Só há um Deus Todo-poderoso — replicou Ajidica com indignação controlada —. Não me ocorreria ocupar seu lugar.
— Claro que não. — Os olhos de Fenring se entreabriram —. Nosso novo imperador lhe envia sua gratidão, mas salienta que teria preferido outro presente: uma amostra de especiaria artificial.
— Estamos trabalhando com esforço no problema, senhor, mas já dissemos ao imperador Elrood desde o primeiro momento que demoraríamos muitos anos, talvez décadas, para desenvolver um produto final. Até o momento, quase todo nosso trabalho se concentrou em consolidar nosso controle sobre Xuttah e adaptar as instalações existentes.
— Não realizaram progressos tangíveis, então? — O desprezo de Fenring era tão extremo que não pôde ser dissimulado.
— Temos muitos sinais promissores.
— Bem, posso comunicar a Shaddam a data em que receberá seu presente? Gostaria que fosse antes de sua coroação, dentro de seis semanas.
— Acredito que não será possível senhor. Recebemos uma provisão de melange como catalisador faz menos de um Mês Normal.
— Fornecemos especiaria suficiente para comprar vários planetas.
— É claro, é claro, e trabalhamos com a maior celeridade possível, mas é preciso alimentar e modificar os contêineres de axlotl, provavelmente durante várias gerações. Shaddam precisa ser paciente.
Fenring estudou o diminuto Tleilaxu, suspeitando que tentava enganá-lo.
— Paciente? Lembre-se, Ajidica, que um imperador não tem paciência ilimitada.
O anão não gostava daquele predador imperial.
Algo nos olhos enormes e nas palavras de Fenring transmitia uma ameaça latente, mesmo quando falava de temas corriqueiros. Não se engane. Este indivíduo será o novo homem forte do imperador... que me assassinará se eu fracassar.
Ajidica aspirou fundo, mas bocejou para não demonstrar temor.
Quando falou, o fez com absoluta serenidade.
— Quando Deus desejar nosso êxito, ele acontecerá. Agimos segundo seus planos, não os nossos, nem os do príncipe Shaddam. Assim é o costume do universo.
Um brilho perigoso cruzou os olhos de Fenring.
— Compreende a importância disto? Não só para o futuro da Casa Corrino e para a economia do Império... mas também para sua sobrevivência pessoal.
— Certamente. — Ajidica não reagiu à ameaça —. Meu povo aprendeu o valor da espera. Uma maçã colhida muito cedo pode estar verde e azeda, mas se esperar que amadureça, ela será vermelha e deliciosa.
Quando estiver aperfeiçoada, a especiaria artificial alterará toda a estrutura de poder do Império. Não é possível criar essa substância da noite para o dia.
Fenring se irritou.
— Somos pacientes, mas isto não pode continuar.
— Se desejarem — disse Ajidica com expressão de generosidade —, podemos fixar reuniões periódicas para mostrar nossos trabalhos e seus progressos. Não obstante, tais distrações serviriam apenas para atrapalhar nossas pesquisas, nossa análise de substâncias e nossas disposições.
— Não, prossiga — grunhiu Fenring.
Tenho o bastardo onde queria, pensou Ajidica, e não ele não gosta disso. Mesmo assim, tinha a impressão de que esse assassino o mataria sem vacilar. Mesmo agora, sob a férrea vigilância das câmeras de segurança, não havia dúvida de
que Fenring portava armas ocultas na roupa, pele e cabelo.
Atentará contra mim assim que não necessitar mais dos meus serviços, quando Shaddam pensar que tem tudo o que deseja.
Hidar Fen Ajidica também tinha suas armas ocultas. Tinha desenhado planos de contingência para lutar com os estrangeiros mais perigosos, afim de assegurar o controle dos Tleilaxu a qualquer momento.
É muito possível que nossos laboratórios descubram um substituto para a especiaria, pensou, mas nenhum powindah descobrirá jamais como se faz. Nosso programa adquirirá a condição de fenômeno natural, a vida de um planeta é um imenso tecido, com as fibras entrelaçadas firmemente. A princípio, as mudanças na vegetação e na fauna serão determinadas pelas forças físicas que manipularmos. Quando se estabilizarem, nossas mudanças se transformarão em influências controladoras, e também teremos que cuidar delas. Não esqueçam que só precisamos controlar três por cento da superfície de energia, e só três por cento, para derrubar toda a estrutura em nosso sistema autosuficiente. Pardot Kynets, Os sonhos de Arrakis
Quando seu filho Liet completou um ano e meio, Pardot Kynes e sua esposa fizeram uma viagem ao coração do deserto. Vestiram seu filho com um traje destilador feito sob medida, para proteger sua pele do sol e do calor.
Agradava sobremaneira a Kynes dedicar tempo a sua família, ensinar os adiantamentos na transformação de Dune. Toda sua vida dependia de que compartilhassem seus sonhos.
Seus três amigos, Stilgar, Turok e Ommun, tinham insistido em acompanhá-los para os proteger, mas Kynes os dispensou.
— Passei mais tempo sozinho em locais desolados do que qualquer de vocês viverá. Uma viagem de alguns dias com minha família não representa nenhum problema. — Fez um gesto tranqüilizador com as mãos
—. Além disso, não os carreguei com trabalho suficiente, ou querem ainda mais?
— Se tiver mais — disse Stilgar —, nós o faremos com supremo prazer.
— Basta que... se mantenham ocupados — disse Kynes, perplexo, e depois partiu a pé com Frieth e o jovem Liet. O menino estava montado em um dos três kulons, um asno do deserto domesticado introduzido em Dune por contrabandistas e prospectores.
O preço em água do animal era elevado, apesar da sua adaptação inata a um ambiente árido e hostil. Os Fremen tinham desenvolvido um traje destilador modificado de quatro patas para a besta, que recolhia toda a umidade que o animal exsudava. Não obstante, o traje dificultava os movimentos do animal (para não falar de seu aspecto ridículo), e Kynes decidiu desprezar essas medidas extremas, o que exigia contar com água extra para a viagem, que o animal carregava no lombo em litrojons.
Quando ainda não tinha amanhecido, o alto e barbudo Kynes guiou seu pequeno grupo por um trilha serpenteante que só um Fremen teria chamado de caminho. Seus olhos, assim como os de Frieth, eram do azul do Ibad. O asno do deserto subia mansamente pelo penhasco inclinado.
Kynes não se importava de andar. Tinha feito isso durante quase toda sua vida, quando estudava a ecologia de Salusa Secundus e Bela Tegeuse. Seus músculos eram fortes e firmes. Além disso, quando andava a pé podia concentrar mais sua vista nos calhaus e grãos de areia que pisava, ao invés das montanhas longínquas ou do sol abrasador.
Frieth, querendo agradar seu marido, desviava sua atenção cada vez que Kynes apontava para uma formação rochosa, estudava a composição de um pedaço de chão ou examinava fendas protegidas, aptas para plantar vegetação no futuro. Depois de um momento de incerteza, também lhe mostrou coisas.
— A maior virtude de um Fremen reside em sua capacidade de observação — disse como se citasse um velho provérbio —. Quanto mais observamos, mais aprendemos. Esse conhecimento nos proporciona poder, sobretudo se os outros são cegos.
— Interessante.
Kynes sabia muito pouco sobre a vida anterior de sua esposa.
Estivera muito ocupado para perguntar detalhes sobre sua infância e suas paixões, mas ela não parecia ofendida por sua concentração quase exclusiva no projeto de terraformação. Na cultura Fremen, os maridos e as esposas viviam em mundos diferentes, ligados por poucas pontes, estreitas e frágeis.
Entretanto, Kynes sabia que as mulheres Fremen tinham fama de ferozes guerreiras, implacáveis no campo de batalha e mais temidas que os soldados imperiais no combate corpo a corpo. Até o momento não tinha visto aquela veia de ferocidade em Frieth, e esperava não vê-la jamais.
Seria tão formidável antagonista como amiga.
De repente, uma pequena amostra de vegetação chamou sua atenção. Parou o kulon e se ajoelhou para inspecionar a diminuta planta verde que crescia em um oco sombreado, onde o pó e a areia se acumularam.
Reconheceu o espécime como uma planta estranha, e sacudiu o pó de suas folhas cerúleas.
— Olhe, Frieth — disse como um professor, com os olhos brilhantes
—. Maravilhosamente resistente.
Frieth assentiu.
— Arrancamos essas raízes em épocas de necessidade. Diz-se que apenas um tubérculo pode proporcionar meio litro de água, suficiente para que uma pessoa sobreviva vários dias.
Kynes se perguntou quanto a irmã de Stilgar sabia sobre o deserto.
Até esse momento não lhe tinha revelado nada. Era culpa dele, disse para si mesmo, por não lhe dar a devida atenção. O kulon, ansioso por comer as folhas frescas da planta, baixou o focinho para o chão, mas Kynes o afastou.
— Esta planta é muito importante para que a coma.
Explorou o terreno em busca de outros tubérculos, mas não viu nenhum. Pelo que tinha aprendido, sabia que aquelas plantas eram nativas de Dune, sobreviventes do cataclismo que secara ou encerrara a umidade do planeta.
Os viajantes fizeram uma pequena parada para alimentar seu filho.
Enquanto Frieth montava uma sombrinha flutuante sobre um saliente, Kynes relembrou o trabalho dos meses recentes e os grandes progressos que seu povo e ele tinham realizado no início do projeto, que demoraria séculos para frutificar.
Em épocas longínquas Dune tinha sido uma estação de análise botânica, um posto avançado onde se plantaram algumas mostras séculos atrás, nos dias da expansão imperial. Isto aconteceu antes que descobrissem as propriedades prescientes e geriátricas da melange. Quando o planeta era um deserto sem utilidade prática. As estações botânicas tinham sido abandonadas, assim como toda forma de vida animal e vegetal.
Muitas espécies tinham sobrevivido e sofrido transformações, ao mesmo tempo em que demonstravam uma resistência e adaptabilidade notáveis: espadas mutantes, cactos e outros tipos de vegetação próprias de terrenos áridos. Kynes já tinha estabelecido um acordo com os contrabandistas para que trouxessem carregamentos das sementes e embriões mais promissores. Em seguida, equipes de Fremen tinham espalhado pelas areias as preciosas sementes, cada uma das quais era germe de vida, um grão no futuro de Dune.
Um mercador de água tinha informado Kynes da morte do imperador Elrood IX, o que lhe tinha recordado sua audiência em Kaitain, quando o governante o encarregara de investigar a ecologia de Arrakis. O
planetólogo devia todo seu futuro a esse único encontro. Tinha contraído uma dívida de gratidão com Elrood, mas duvidava que o velho imperador se lembrasse dele durante o último ano.
Depois de receber a notícia surpreendente, Kynes tinha pensado em deslocar-se até Arrakeen, embarcar em um Cruzeiro e assistir os funerais de Estado, mas decidiu que se sentiria completamente deslocado. Agora era um habitante do deserto, alheio às complexidades da política imperial.
Além disso, Pardot Kynes estava dedicado a uma tarefa muito mais importante.
Muito ao sul, longe dos espiões Harkonnen, os Fremen tinham plantado erva resistente em ladeiras expostas ao vento, para que se enraizassem de frente para os ventos do oeste predominantes. Uma vez estabilizadas, cresceram e cresceram, os Fremen transportaram a erva e chegaram a construir sifs gigantescos que formavam uma barreira sinuosa de muitos quilômetros, e alguns deles alcançavam uma altura de centenas de metros. Absorto em seus pensamentos, Kynes ouviu sua esposa se remexer sob a sombrinha flutuante. Falava com doçura com o pequeno Liet, enquanto este mamava através de uma dobra do traje destilador.
Kynes refletiu sobre a segunda fase do processo de transformação ecológica, durante a qual sua equipe plantaria plantas mais resistentes, acrescentaria fertilizantes químicos processados, construiria armadilhas de vento e
precipitadores de orvalho. Mais adiante com cuidado para não violentar a nova e frágil ecologia, acrescentariam plantas mais profundas, que incluiriam amaranto, cinzento, retama negra e tamarisco anão, seguidas por espécies familiares do deserto como saguaro e cactos. O calendário se estendia até o horizonte, décadas e séculos no futuro.
Nas zonas habitadas do norte de Dune, os Fremen deviam contentar-se com pequenas plantas e colheitas ocultas. A numerosa população Fremen conhecia o segredo da terraformação, dedicava seu sangue e suor coletivos, conseguiam ocultar dos olhos curiosos seu tarefa monumental e o sonho que a acompanhava.
Kynes tinha a paciência de contemplar a lenta metamorfose. Os Fremen tinham depositado uma grande fé em seu Umma. Sua confiança inquebrantável nos sonhos de um só homem, e a colaboração que dedicavam a suas difíceis exigências, enterneciam o coração de Kynes, mas estava decidido a lhes oferecer algo mais que sermões e promessas vazias.
Os Fremen mereciam ver um brilho radiante de esperança.
Havia outros que conheciam a Depressão de Gelo, é obvio, mas queria ser o primeiro a mostrá-la a sua esposa Frieth e a seu filho Liet.
— Vou levá-los para ver algo incrível — disse Kynes, enquanto sua mulher desmontava o mini acampamento —, Quero lhe mostrar como Dune pode ser. Então compreenderá por que trabalho tanto.
— Já compreendo, meu marido. — Frieth sorriu e fechou a tampa de sua mochila —. Não tem segredos para mim.
Olhou para ele com uma confiança estranha, e Kynes compreendeu que não era preciso explicar seus sonhos aos Fremen. A nenhum Fremen.
Quando avistou a trilha abrupta e difícil que os aguardava, Frieth decidiu levar a menino nos braços, em vez de carregá-lo sobre o kulon.
Kynes, absorto de novo em seus pensamentos, começou a falar em voz alta com Frieth, como se fosse seu mais devoto estudante.
— O que os analfabetos ecológicos não entendem de um ecossistema é que não é um sistema.
Agarrou-se a uma rocha da muralha montanhosa e se impulsionou para frente. Não se virou para observar as dificuldades do kulon para avançar. Seus cascos
tropeçaram em uma rocha solta, mas continuaram adiante.
O pequeno Liet chorou brevemente nos braços de sua mãe, que continuou escutando seu marido.
— Um sistema mantém certa estabilidade variável, suscetível de ser destruída por um só passo em falso. O menor equívoco provoca a destruição total. Um sistema ecológico flui de um ponto a outro, mas se algo obstrui esse fluxo, a ordem vem abaixo. Uma pessoa inexperiente poderia não ver o desastre iminente até que fosse muito tarde.
Os Fremen já tinham introduzido insetos e animais escavadores, afim de que oxigenar o solo. Raposas, ratos cangurus, e animais maiores como lebres do deserto e ratos de areia, junto com seus predadores correspondentes, o falcão do deserto e o lobo anão, escorpiões, centopéias e aranhas, e até mesmo o morcego do deserto e vespas, todos interrelacionados na rede da vida.
Ignorava se Frieth compreendia o que dizia, ou se estava interessada.
Com seu silêncio, dava a entender que concordava totalmente. Por um momento, desejou que sua esposa discutisse com ele, mas Pardot Kynes era seu marido e os Fremen o consideravam um profeta. Suas crenças eram muito fortes para questionar o que dizia.
Kynes respirou fundo através de seus filtros nasais e continuou escalando a ladeira da montanha. Se não chegassem à boca da caverna antes do meio-dia, o sol os abrasaria. Teriam que procurar refúgio e não chegariam à Depressão de Gelo até o dia seguinte. Kynes, ansioso por mostrar-lhes seu tesouro ecológico, acelerou o passo.
As rochas se elevavam a frente deles e a sua direita como a espinha dorsal de um lagarto faminto, projetando sombras e afogando sons. O kulon trotava incansável, farejava o chão em busca de algo para comer.
Frieth, que carregava o menino sem queixar-se, deteve-se de repente. Seus olhos azuis se dilataram e olharam de um lado para outro. Inclinou a cabeça para escutar.
Kynes, cansado, sentindo calor e impaciente por alcançar seu destino, caminhou cinco metros mais sem reparar em que sua esposa havia parado.
— Marido! — sussurrou ela com a vista cravada na barreira montanhosa.
— O que foi? — perguntou Kynes, e piscou.
Um ornitóptero blindado apareceu pelo outro lado da muralha montanhosa. Tinha distintivos Harkonnen.
Frieth estreitou o bebê contra seu seio e correu em busca de refúgio.
— Marido! Por aqui! — Introduziu o menino em uma pequena fenda rochosa e correu para Kynes antes que este conseguisse reagir —.
Harkonnen! Temos que nos esconder!
Agarrou-o pela manga do traje destilador.
O ornitóptero, com capacidade para dois homens, descreveu círculos perto da parede rochosa. Kynes compreendeu que eles os tinham visto.
Atacar os Fremen solitários e caçá-los com total impunidade constituía uma diversão para as tropas Harkonnen.
Surgiram armas do focinho chato do aparelho. A porta lateral de plaz se abriu, e um sorridente Harkonnen uniformizado apontou seu fuzil laser.
Tinha espaço suficiente para escolher seu alvo e apontar com calma.
Foi quando sua mulher passou junto ao asno do deserto, emitiu um grito aterrador e açoitou os quartos traseiros do animal. Assustada a besta empinou e correu trilha acima.
Frieth deu meia volta e desceu o penhasco a toda pressa, concentrada. Kynes se esforçou por segui-la. Caíram rolando pela ladeira, em busca de alguma sombra. Kynes não podia acreditar que tivesse deixado Liet sozinho, até compreender que seu filho estava muito melhor protegido que eles dois. O bebê, a salvo entre as sombras, tinha guardado um silêncio instintivo e não se movia.
Sentia-se desajeitado e exposto, mas Frieth, ao que parecia, sabia o que deviam fazer. Crescera como uma Fremen, e sabia fundir-se com o deserto. O ornitóptero passou sobre eles e se dirigiu para o kulon apavorado.
Frieth devia saber que os Harkonnen eliminariam primeiro o animal. O
atirador mostrou pela porta seu rosto sorridente e torrado pelo sol. Disparou um raio branco-alaranjado quase invisível, que transformou o asno do deserto em
partes de carne fumegante, vários dos quais rodaram pela penhasco, a cabeça e as patas dianteiras caíram, chamuscadas, sobre a trilha.
Depois, os disparos se concentraram na parede rochosa, e fragmentos de pedra saíram em todas direções. Kynes e Frieth correram em ziguezague, até se esconderem atrás de um saliente de lava rochosa, na qual ricochetearam os disparos. Kynes sentiu o aroma de ozônio e pedra chamuscada.
O ornitóptero se aproximou mais. O atirador apontou sua própria arma, sem permitir ao piloto que utilizasse as armas do aparelho.
Nesse momento as tropas que protegiam Kynes abriram fogo.
Muito perto da cova, e de almenas camufladas na muralha rochosa, canhoneiros Fremen dispararam contra o casco blindado do ornitóptero.
Raios laser brilhantes cegaram a porta da cabine. Um defensor invisível utilizou um lança-foguetes antiquado, apoiando-o sobre o ombro, para disparar pequenos explosivos obtidos dos contrabandistas. O projétil alcançou a parte inferior do aparelho, que oscilou no ar.
O atirador caiu no vazio e se chocou contra as rochas, seguido de seu fuzil laser.
Frieth estava agachada contra a parede do penhasco, abraçada a Kynes e assombrada pela inesperada aparição dos Fremen. Kynes imaginava que teria que enfrentar os atacantes com as mãos nuas, mas por sorte não tinha sido necessário.
Enquanto o ornitóptero dava voltas no ar, os Fremen abriram fogo contra suas partes mais fracas. O ar cheirava a fogo e metal queimado. O
piloto tentou estabilizar o aparelho, envolto em uma nuvem de fumaça negra, mas o ornitóptero se precipitou para o chão.
Chocou-se contra a parede do penhasco, partiu-se e continuou descendo na vertical. As asas articuladas continuaram batendo em vão, como músculos involuntários, até que o aparelho se desfez contra o chão. — Que eu saiba, não há nenhum sietch por aqui — disse Frieth, sem fôlego e confusa —. Quem são estas pessoas? A que tribo pertencem?
— São soldados sob minhas ordens.
Observou que o piloto tinha sobrevivido à colisão. Parte da coberta se abriu, e o
ferido se arrastou para fora, com um braço inerte. Ao fim de poucos momentos, soldados Fremen com uniforme de camuflagem saíram das rochas e se precipitaram para os restos do aparelho.
O piloto tentou retornar à duvidosa segurança do ornitóptero, mas dois Fremen o retiveram. Produziu-se o brilho branco-azulado de um crys, e o piloto morreu no ato. Mestres de água (manipuladores de corpos consagrados) levaram o cadáver para recuperar sua água. Kynes sabia que toda umidade ou produtos químicos fertilizantes extraídos daquele corpo seriam dedicados ao projeto da Depressão de Gelo, em vez de enriquecer uma única unidade familiar.
— O que pode haver tão importante aqui em cima? — perguntou Frieth —. O que você está fazendo, marido?
Kynes lhe dedicou um sorriso radiante.
— Você já vai descobrir. Queria que fosse nossa primeira visitante.
Frieth correu para tirar o menino de seu refúgio. Ergueu-o e verificou se não estava ferido. O pequeno Liet nem sequer chorava.
— É um verdadeiro Fremen — disse a mulher com orgulho, e o aproximou de Kynes.
Equipes de homens começavam a desmantelar o ornitóptero, e a retirar o metal, os motores e as provisões. Os Fremen mais jovens escalavam a perigosa parede do precipício para recuperar o fuzil laser. Kynes e sua esposa passaram junto aos restos do kulon. Kynes exalou um suspiro de tristeza.
— Comeremos carne por fim. Não é algo freqüente, assim celebraremos na cova.
Os Fremen se esmeravam em eliminar os rastros da colisão.
Arrastaram os pesados componentes até túneis ocultos, camuflaram as marcas deixadas nas rochas e até alisaram a areia. Embora Kynes convivesse há muito tempo com aquela gente, sua eficácia ainda o assombrava.
Ficou à frente da comitiva e conduziu Frieth até a abertura protegida.
Passava do meio-dia e o sol queimava, com sua linha de fogo amarelo a crista trincada das montanhas. O aroma de umidade e o frio que surgia da cova eram
vivificantes.
Kynes tirou os filtros e aspirou uma profunda baforada de ar. Indicou a sua mulher que o imitasse. Ela sorriu assombrada quando esquadrinhou as sombras.
— Cheiro a água, esposo.
Ele a agarrou pelo braço.
— Venha comigo. Isto é algo que quero que veja.
Quando dobraram uma esquina angulosa, cujo propósito era impedir a perda de luz e evaporação da gruta, Kynes apontou com um gesto empolado para o Éden que tinha criado na Depressão de Gelo.
Globos luminosos amarelos flutuavam no teto. O ar estava impregnado de umidade, enriquecido com as fragrâncias de flores, arbustos e árvores. O doce rumor da água corrente chegava de estreitos canais.
Brotos magenta e alaranjados explodiam em maciços de flores que pareciam plantados aleatoriamente.
Sistemas de irrigação vertiam gotículas de água em depósitos repletos de algas, ao mesmo tempo em que ventiladores agitavam o ar para manter constante o nível de umidade. A gruta fervia de vida com manchas de cor, mariposas, traças e abelhas, embriagadas pelo tesouro de pólen e néctar que as rodeava.
Frieth soltou uma leve exclamação, e por um momento Kynes vislumbrou o que ocultava a máscara de porcelana do seu rosto, e viu muito mais do que tinha percebido até então.
— Isto é o paraíso, meu amor!
Um colibri revoou a frente dela, mas se afastou em seguida. Os jardineiros Fremen cuidavam das plantas sem dissimular sua euforia.
— Um dia, jardins como este florescerão ao longo de Dune, ao ar livre. Isto é apenas uma vitrine de exposição, com colheitas, plantas, água, árvores frutíferas, flores decorativas, erva verde. É um símbolo para todos os Fremen, a mensagem da minha visão. Quando virem isto, compreenderão o que podem obter.
Escorria umidade pelas paredes da caverna, acariciando a rocha ressecada que só tinha conhecido sede durante incontáveis eras.
— Nem sequer eu tinha compreendido completamente... até agora —
disse Frieth.
— Compreende agora que vale a pena lutar, até mesmo morrer, por isso?
Kynes passeou pela cova, aspirando a fragrância das folhas e das flores. Viu uma árvore de onde pendiam frutos similares a laranjas amadurecidas. Agarrou um, grande e dourado. Nenhum dos trabalhadores pôs em dúvida seu direito a comê-lo. — Um portygul — disse —, um dos frutos de que falei no sietch da Muralha Vermelha.
Entregou-o a Frieth como um presente, e ela o sustentou em suas mãos bronzeadas com reverência, pois era o maior tesouro que lhe tinham dado.
Kynes fez um gesto que abrangia toda a gruta.
— Lembre de tudo isto, minha esposa. Todos os Fremen têm que ver. Dune, nosso Dune, pode ser assim dentro de poucos séculos. Até os inocentes carregam culpa a sua maneira. Ninguém vive sem pagar de uma forma ou outra. Lady Helena Atreides, diário pessoal
Assim que recebeu a notícia da primeira coroação imperial em quase século e médio, a Casa Atreides começou a trabalhar nos preparativos. Da alvorada ao anoitecer, os criados do castelo de Caladan foram do guarda-roupa ao armazém, afim de reunir os objetos de vestir, jóias e presentes necessários para a viagem à corte imperial.
Nesse ínterim, Leto vagava por seus aposentos, tentava dar consistência a seu plano e decidir a melhor forma de obter a anistia para Rhombur e Kailea. O novo imperador, Shaddam, tem que atender minhas súplicas.
Seus conselheiros de protocolo tinham discutido durante horas sobre as cores adequadas das capas, braceletes e mantos de seda merh, se as jóias deviam ser chamativas ou discretas, caras gemas importadas de Ecaz ou mais simples. Por fim, devido a memorável ocasião compartilhada com Rhombur, Leto insistiu em levar uma pequena gema coralina que flutuasse em uma esfera transparente
cheia de água.
Kailea tinha muita vontade de visitar o palácio imperial, onde sua mãe tinha prestado seus serviços, era o sonho de toda sua vida. Leto percebia o desejo em seus olhos verdes, a esperança em seu rosto, mas não teve outra alternativa senão proibir-lhe. Rhombur tinha que fazer parte do séquito para defender a causa de sua família, mas se fracassassem o herdeiro de Vernius poderia ser executado por abandonar seu refúgio. A vida de Kailea também correria perigo.
Não obstante, se sua missão tivesse êxito, Leto jurou a Kailea que a levaria a capital do planeta, em férias como nunca tinha sonhado.
Na hora silenciosa que precede ao amanhecer, Leto passeava por sua habitação, ouvindo o rangido das velhas vigas. Era o som confortável do lar. Quantas vezes outros duques tinham feito o mesmo enquanto meditavam sobre questões de Estado? Não tinha dúvida de que o duque Paulus percorrera aquele chão várias vezes, preocupado com as revoltas dos primitivos no moderado sul, ou com as exigências do imperador para que esmagasse rebeliões em outros planetas. Naqueles tempos, Paulus Atreides tinha manchado de sangue sua espada pela primeira vez e se transformara em companheiro de armas de Dominic Vernius.
Durante toda sua vida, o velho duque tinha servido ao Império com talento e sutileza, soubera quando ser implacável e quando ser indulgente.
Utilizara a dedicação, a ética e a estabilidade econômica para moldar uma população devotamente fiel e orgulhosa da Casa Atreides.
Como Leto poderia estar a sua altura?
Sua voz ressoou na habitação.
— Pai, você me legou uma carga muito pesada.
Respirou fundo e deixou de compadecer-se, irritado. Faria tudo que estivesse em suas mãos por Caladan e pela memória do velho duque.
Em manhãs mais tranqüilas, Rhombur e ele teriam descido ao pátio de práticas para exercitar-se com facas e escudos sob o olhar vigilante de Thufir Hawat. Hoje, entretanto, Leto esperava descansar um pouco mais, esperança que não se materializou. Tinha dormido mau, atormentado pelo peso de decisões que precisava tomar. O mar se chocava contra o penhasco, águas turbulentas que refletiam o estado de ânimo de Leto.
Envolveu-se em uma capa forrada de pele de baleia importada, prendeu o cinturão e desceu descalço a escada que conduzia ao grande salão. Percebeu o aroma de café amargo, e o tênue aroma da melange que acrescentaria em sua taça. Leto sorriu, consciente de que o cozinheiro insistiria que o jovem duque recebesse uma injeção adicional de energia.
Ouviu ruídos na cozinha, pois estavam enchendo as unidades de preparação de comida, dispondo o café da manhã e atiçando as antiquadas chaminés. O velho duque sempre tinha preferido fogo de verdade em algumas estadias, e Leto tinha continuado a tradição.
Quando atravessou descalço a Sala das Espadas, a caminho do salão de banquetes, topou com um personagem inesperado.
Duncan Idaho, o jovem menino de quadras, tinha pego uma espada cerimoniosa de Paulus, longa e muito trabalhada, de seu armeiro. Segurava-a com a ponta apoiada contra o chão de lajes. Embora a espada fosse quase do seu tamanho, Duncan segurava o pomo com decisão.
O menino virou-se, sobressaltado ao ser descoberto. Leto ia lhe perguntar que fazia ali, só e sem permissão, mas viu os olhos arregalados de Duncan, e as lágrimas que sulcavam seu rosto.
O menino, envergonhado mas cheio de orgulho, se ergueu em toda sua estatura.
— Sinto muito, meu senhor duque. — Sua voz expressava um profundo pesar. Contemplou a espada e depois o retrato de Paulus Atreides na parede do fundo da sala de jantar. O patriarca olhava do quadro com invencível determinação. Estava vestido de matador, como se nada no universo pudesse desviá-lo de seu propósito —. Sinto muita falta dele —
disse Duncan.
Leto sentiu um nó na garganta e se aproximou do menino.
Paulus tinha deixado sua marca em muitas vidas. Até neste menino que trabalhava com os touros, um menino normal — que mesmo assim tinha conseguido enganar os caçadores Harkonnen e fugir de Giedi Prime
—, sentia a perda como uma ferida mortal.
Não sou o único que ainda chora a morte de meu pai, compreendeu Leto. Apertou o ombro de Duncan, em um silêncio mais eloqüente que uma longa
conversa.
Duncan se apoiou na espada como se fosse uma muleta. Sua pele ruborizada recuperou o tom normal, e respirou fundo.
— Vim... vim lhe fazer uma pergunta, meu senhor, antes que parta para Kaitain.
Ouviu-se o tinido de panelas ao longe, e movimentos apressados dos criados. Alguém não demoraria para subir aos aposentos de Leto com a bandeja do café da manhã. Encontrariam seu quarto vazio.
— Pergunte — disse.
— É sobre os touros, senhor. Agora que Yresk morreu, eu cuido deles todos os dias, eu e outros meninos de quadra... mas o que vai fazer com eles? Toureará como seu pai?
— Não! — exclamou Leto, sentindo um calafrio de medo —. Não —
repetiu com mais calma —. Acredito que não. Os dias de touradas em Caladan terminaram.
— Então o que eu vou fazer, meu senhor? Tenho que continuar cuidando dos animais?
Leto conteve uma gargalhada. Na sua idade, aquele menino deveria estar brincando, levando alguns recados, e com a cabeça cheia de fantasias sobre as grandes aventura que o aguardavam na vida. Mas nos olhos de Duncan viu uma pessoa muito mais velha que sua idade biológica.
— Escapou da cidade prisão dos Harkonnen, não é?
Duncan assentiu e mordeu o lábio inferior.
— Lutou contra eles em sua reserva florestal quando só tinha oito anos de idade. Matou vários, e se lembro bem, arrancou um artefato que tinham implantado em seu ombro e fez uma armadilha para os caçadores Harkonnen. Humilhou muito mesmo a Glossu Rabban.
Duncan assentiu de novo, sem orgulho, só confirmando os fatos.
— E atravessou o Império e chegou a Caladan, o lugar que considerava seu destino. Nem a distância de vários continentes o impediu de chegar a nossa porta.
— Tudo isso é certo, meu duque.
Leto apontou a espada cerimonial.
— Meu pai utilizava essa espada para exercitar-se. Por enquanto é muito grande para você, mas talvez com um pouco de instrução se transforme em um bom guerreiro. Um duque sempre precisa guardas e protetores de confiança. — umedeceu os lábios —. Acha que está capacitado para isso?
Os olhos verde-azulados do menino brilharam. Sorriu.
— Vai me enviar para a escola de armas de Ginaz, para que possa chegar a ser um mestre espadachim?
— Ei, ei! — Leto soltou uma súbita gargalhada que o surpreendeu, porque se parecia muito com a de seu pai — Não nos precipitemos, Duncan Idaho. Vamos forçá-lo até o limite de suas possibilidades, e depois veremos se merece tal recompensa.
Duncan assentiu com solenidade.
— Eu a merecerei.
Leto chamou os criados com um gesto. Tomaria o café da manhã com o menino e continuariam conversando.
— Pode contar comigo, meu duque.
Leto aspirou profundamente. Quem dera possuísse a confiança inquebrantável daquele menino.
— Sim, Duncan, acredito em você. Parece que as inovações possuem vida e consciência próprias. Dadas as condições ideais, uma idéia radicalmente nova, uma mudança paradigmática, pode aparecer em muitas mentes simultaneamente. Ou pode permanecer oculta nos pensamentos de um homem durante anos, décadas, séculos... até que ocorre o mesmo a outra pessoa. Quantas descobertas brilhantes morrem sem ter nascido, ou permanecem adormecidas, sem que o Império as aceite? Defensor do Povo de Richese.

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