Discursos sobre a liderança
Como membro oficial do Conselho Federado das Grandes e Menores Casa, o duque Leto Atreides embarcou em um Cruzeiro e viajou para Kaitain para participar da nova assembléia do Landsraad. Vestido pela primeira vez com seu manto oficial extra-planetário, recuperara-se o suficiente da morte de seu pai para fazer sua primeira aparição em público.
Depois que Leto tomou a decisão de ir, Thufir Hawat e outros peritos em protocolo se fecharam com ele nas salas de conferências do castelo para lhe dar um treinamento rápido de diplomacia. Os conselheiros o rodeavam como professores severos e insistiam que para ser um bom governante devia compreender e analisar todos os fatores sociais, econômicos e políticos em jogo. A luz áspera dos globos banhava a habitação de pedra, no entanto a brisa marinha entrava pela janela, acompanhada pelo retumbar das ondas e os gritos das gaivotas. Leto prestava atenção às aulas.
O novo duque tinha insistido que Rhombur se sentasse a seu lado durante as sessões.
— Um dia precisará saber sobre estas coisas, quando sua Casa for restaurada — disse. Alguns conselheiros tinham aceitado com cuidadoso ceticismo, mas não o contrariaram.
Quando partiu do espaçoporto de Baía City, acompanhado só por Thufir Hawat como escolta e confidente, os conselheiros o advertiram a controlar seu caráter impulsivo.
Leto tinha apertado a capa ao redor dos ombros.
— Compreendo — disse —, mas meu sentido da honra me obriga a cumprir meu dever, — a antiga tradição garantia a Leto o direito de aparecer ante o fórum do Landsraad e apresentar uma solicitação. Uma solicitação de justiça. Como novo duque, ia com intenções ocultas, e suficiente ira e ingenuidade juvenil para acreditar no triunfo face às advertências dos seus conselheiros. Entretanto, recordou com tristeza as poucas vezes que seu pai tinha apresentado petições ao Landsraad. Paulus sempre tinha voltado para casa vermelho de ira, expressando desprezo para a irritante burocracia.
Mas Leto começava de zero e com esperanças impolutas.
Sob os eternos céus ensolarados de Kaitain, o enorme Salão de Oratória do Landsraad se erguia, desmesurado e imponente, como o pico mais alto na cordilheira de edifícios legislativos e escritórios governamentais que rodeavam um terreno elipsoidal. O Salão tinha sido construído graças a contribuições de todas as Casas, e cada família nobre tentou superar a outras em magnificência. Os representantes da CHOAM
tinham colaborado na arrecadação de fundos ao longo do Império, e só graças a uma ordem especial de um imperador anterior, Hassik Corrino III, executaramse os planos exorbitantes de construção do Landsraad, para que não fizesse sombra ao palácio imperial.
Depois do holocausto nuclear de Salusa Secundus e a mudança da sede imperial, todos tinham esperado estabelecer uma otimista nova ordem.
Hassik III desejara demonstrar que, face à quase total destruição da Casa Corrino, o Império e seus assuntos continuariam funcionando em um nível mais dinâmico que nunca.
Bandeiras das Grandes Casa ondeavam como um arco íris de escamas de dragão ao longo das muralhas exteriores do Salão do Landsraad. Leto tentou localizar a insígnia verde e negra da Casa Atreides, e por conseguiu. Em troca, as cores púrpura e cobre da Casa Vernius tinham sido retirados e queimados em público.
Thufir Hawat não deixava o jovem duque sozinho em nenhum momento. Leto sentia falta da presença de seu amigo Rhombur, mas ainda não era prudente que o jovem exilado abandonasse o refúgio de Caladan.
Dominic Vernius ainda não tinha dado sinais de vida, nem mesmo depois de receber a notícia da morte de Shando. Leto sabia que estaria chorando a perda, e preparando a vingança...
Em qualquer caso, Leto deveria se expor sem ajuda. Seu pai não teria esperado menos dele. Sob o brilhante sol de Kaitain, ergueu os ombros, pensou na história familiar e em todo o acontecido dos obscuros dias de Atreo. Avançou pelas ruas pavimentadas e não se permitiu sentir-se inferior ante a grandeza do Landsraad.
Quando entraram no Salão de Oratória em companhia dos representantes de outras famílias, Leto viu as cores da Casa Harkonnen, com o símbolo do grifo branco. Com apenas um olhar para as bandeiras, recordou os nomes das outras famílias: as Casas Richese, Teranos, Mutelli, Ecaz, Dyvetz e Canidar. No centro
de todas as bandeiras pendia a insígnia, muito maior, da Casa Corrino, em escarlate e ouro com o símbolo central do leão.
A fanfarra que anunciou sua entrada e a de outros representantes foi ensurdecedora. Enquanto os homens e algumas poucas mulheres entravam, um pregoeiro anunciava o nome e posição de cada pessoa. Leto só viu alguns nobres de verdade. A maioria dos presentes eram embaixadores, líderes políticos ou aduladores pagos.
Embora possuísse um título real, Leto não se sentia poderoso ou importante. Afinal, o que era um duque de uma Casa de categoria média, comparado com o primeiro-ministro de uma família rica? Embora controlasse a economia e a população de Caladan, assim como as outras posses dos Atreides, muitas Grandes Casas possuíam mais riquezas e planetas. Por um momento se imaginou como um peixinho nadando entre tubarões, mas afastou esses pensamentos temendo que diminuíssem sua confiança. O velho duque nunca se permitiria o luxo de sentir-se pequeno.
Já no enorme Salão, perguntou-se onde encontraria os assentos ocupados em outro tempo pela Casa Vernius. Só lhe proporcionava uma pequena satisfação saber que, apesar de seu controle sobre IX, jamais se permitiria aos Bene Tleilax tal honra. O Landsraad nunca permitiria que os desprezados representantes dos Tleilaxu entrassem naquele clube tão exclusivo. Geralmente, Leto não teria aceito esses consolos, mas neste caso fez uma exceção.
Quando o Conselho se iniciou, entre intermináveis formalidades, acomodou-se em um assento negro e marrom situado a um lado, similar ao dos dignitários das outras Casas. Hawat o acompanhou, e Leto contemplou o ritual, ansioso por aprender e preparado para intervir, mas devia esperar que o chamassem.
Os chefes das famílias reais não podiam perder tempo com tais assembléias, e enquanto se falava e discutia sobre temas corriqueiros, Leto não demorou para compreender por quê. Pouco ficava claro dos discursos intermináveis sobre detalhes protocolares ou a lei imperial.
Entretanto, Leto pensava em dar tratamento oficial àquela assembléia. Quando o painel luminoso indicou que tinha chegado sua vez de falar, o jovem cruzou a enorme extensão e subiu a um palanque central.
Tentou não aparentar sua idade adolescente, recordou a imponente presença de seu pai e os vivas que o saudavam na arena, quando levantava uma cabeça de touro.
Leto contemplou as caras aborrecidas e respirou fundo. Os amplificadores transmitiriam suas palavras aos ouvintes dispostos a escutar.
Além disso, seriam gravadas como documentário. Seria um discurso crucial para ele. Quase nenhuma daquelas pessoas tinha a menor ideia a respeito de sua personalidade, e poucos conheciam seu nome. Leto compreendeu que formariam uma impressão dele a partir de suas palavras, e sentiu sobre seus ombros um peso ainda maior.
Esperou até estar seguro de ter captado a atenção de todos os presentes, embora duvidasse que, depois de tantas horas de reunião, alguém tivesse energia para concentrar-se em algo novo.
— Muitos dos senhores foram amigos e aliados de meu pai Paulus Atreides — começou —, que acaba de ser traiçoeiramente assassinado. —
Desviou a vista de maneira visível para os assentos reservados à Casa Harkonnen. Não sabia os nomes nem o título dos dois homens que representavam à Casa inimiga.
Sua insinuação ficou muito clara, embora não lançasse acusações concretas nem apresentasse provas. O chefe de quadras Yresk , que não tinha sobrevivido ao interrogatório, tal como Leto tinha solicitado, confirmara a cumplicidade de Helena, mas não pôde dar mais detalhes sobre os conspiradores. As palavras do novo duque Atreides ganharam a atenção dos aborrecidos membros da câmara.
Os Harkonnen sussurraram entre si e lançaram olhares nervosos e irritados para o estrado. Leto se virou para o núcleo central de representantes.
Bem diante dele, no assento da Casa Mucelli, reconheceu o velho conde Flambert, um ancião cuja memória se eclipsara muitos anos atrás. Estava acompanhado de um ex-candidato a Mentat de cabelo loiro, que fazia as vezes de gravador portátil do conde. A única missão do frustrado aspirante a Mentat era recordar coisas para o ancião Flambert. Embora jamais tivesse finalizado seu treinamento como computador humano, o fracassado Mentat servia adequadamente às necessidades do conde senil.
A voz de Leto chegou a toda a assembléia, tão clara e concisa como o tangido dos sinos em uma fria manhã de Caladan.
— Na porta do imperador há um letreiro que diz: “A lei é a ciência definitiva.” Por isso vim até aqui em nome de uma antiga Grande Casa, que já não pode
expressar-se por si mesma. A Casa Vernius era uma fiel aliada de mim família.
Vários assistentes sopraram. Outros se remexeram, inquietos. Já tinham escutado muitas coisas sobre Vernius.
O jovem Atreides continuou, impertérrito.
— O conde Dominic Vernius e sua família foram obrigados a declarar-se renegados depois da conquista ilegal de IX pelos Bene Tleilax, uma raça que todos os aqui presentes consideram depravada e repugnante, não merecedora de estar representada nesta augusta assembléia. Quando a Casa Vernius pediu ajuda e apoio contra a rebelião, todos se esconderam nas sombras. — Leto teve a cautela de não acusar explicitamente ao imperador Elrood, embora soubesse quem tinha incentivado as hostilidades.
Um murmúrio se ergueu no Salão do Landsraad, acompanhado por expressões de confusão e indignação. Leto compreendeu que agora o viam como um jovem arrivista, um rebelde descarado que desconhecia a verdadeira ordem das coisas no seio do Império. Tinha tido a infeliz ideia de colocar sob a luz, assuntos muito desagradáveis.
— Todos consideravam Dominic Vernius um homem honrado, digno de confiança. Todos comercializavam com IX. Quantos dos senhores chamamos o conde Dominic de amigo?
Passeou um rápido olhar ao redor, mas voltou a falar antes que alguém reunisse coragem para levantar a mão.
— Embora eu não seja membro da família Vernius, os invasores Tleilaxu ameaçaram minha vida. Escapei graças a meu pai. O conde Vernius e sua esposa também fugiram, abandonando todas as suas posses, e muito recentemente lady Shando Vernius foi assassinada, depois de ser acossada como um animal. — Sentiu dor e ira, mas respirou fundo e prosseguiu —: Saibam, todos os que me ouvem, que guardo sérias reservas pelos Bene Tleilax e seus recentes atos ultrajantes. Eles tem que ser levados à justiça. A Casa Atreides não é aliada do governo ilegal de IX. Como se atrevem a rebatizar o planeta como Xuttuh? O Império é civilizado ou estamos mergulhados na barbárie? — Aguardou. O pulso ressoava em sua cabeça —. Se o Landsraad ignorar esta tragédia incrível, é porque não percebe que pode acontecer o mesmo a qualquer um de nós.
Um representante da Casa Harkonnen falou com brutal franqueza.
— A Casa Vernius se declarou renegada. Em cumprimento da antiga lei, os Sardaukar do imperador e os caçadores de recompensas tinham direito a perseguir e eliminar a esposa do renegado. Vá com cuidado, filhotinho de duque. Só lhes concedemos direito a dar asilo aos seus filhos movidos pela bondade de nossos corações. Nada exigia isso.
Leto acreditava que os Harkonnen estavam enganados, mas não queria discutir um ponto legal, sobretudo sem o assessoramento do Thufir.
— De maneira que qualquer Casa pode ser perseguida e seus membros assassinados pelos Sardaukar? Se um poder aniquila uma Grande Casa do Landsraad, os senhores se limitarão a tapar os olhos e esperar não ser os próximos?
— O imperador não age por capricho! — gritou alguém, e obteve eco em algumas vozes isoladas.
Leto compreendeu que aquela demonstração de patriotismo e lealdade era uma provável conseqüência da saúde declinante de Elrood.
Fazia meses que o ancião não governava, deitado em seu leito e quase agonizante. Cruzou os braços.
— Pode ser que eu seja jovem, mas não sou cego. Reflitam sobre isto, membros do Landsraad, com suas alianças flutuantes e falsas lealdades. Que garantia podem oferecer mutuamente, se suas promessas são levadas pelo vento? — Então, repetiu as palavras com que seu pai o recebera quando desceu da nave de resgate —: A Casa Atreides valoriza a lealdade e a honra acima da política.
Levantou uma mão, e sua voz adquiriu autoridade e energia.
— Quero que se lembrem da Casa Vernius. Pode acontecer o mesmo a qualquer um dos senhores, e assim será se não forem cautelosos. Em quem podem depositar sua lealdade, se cada Casa se voltar contra a outra a menor oportunidade?
Viu que suas palavras impressionavam alguns representantes, mas no fundo de seu coração sabia que, se solicitasse uma votação para retirar o preço de sangue sobre a Casa Vernius, poucos o apoiariam. Leto respirou fundo. Deu meia volta, mas acrescentou por cima do ombro:
— Talvez todos devessem pensar em sua situação particular.
Perguntem-se: em quem posso confiar realmente?
Encaminhou-se para o arco de entrada da câmara do Conselho do Landsraad. Não houve aplausos... mas tampouco vaias. Só um silêncio tenso, e suspeitou que havia tocado um ponto sensível de alguns membros.
Ou possivelmente seria apenas puro otimismo? O duque Leto Atreides tinha muito que aprender sobre assuntos de estado, como sem dúvida lhe diria Hawat durante a viagem de volta, mas jurou que jamais seria como os lacaios impostores daquela câmara. Até o fim de seus dias seria sincero e leal. Com o tempo, outros perceberiam, inclusive possivelmente seus inimigos.
Thufir Hawat se reuniu com ele nos portais, e ambos saíram do enorme Salão de Oratória enquanto o Landsraad continuava a assembléia sem eles. A História demonstra que o avanço da tecnologia não é uma curva ascendente contínua. Há períodos estáveis, aumentos repentinos e retrocessos. Tecnologia do Império, 502.” edição
Enquanto duas figuras sombrias observavam, o doutor Yungar passou um exploratório Suk sobre o ancião, que jazia com o rosto macilento em sua cama coberto com volumosas mantas, lençóis bordados e tecidos transparentes. O diagnosticador zumbia.
Ele nunca mais precisará de suas concubinas, pensou Shaddam.
— O imperador morreu — anunciou Yungar, enquanto jogava seu longo cabelo grisalho sobre o ombro.
— Ao menos agora descansa em paz — disse Shaddam em voz baixa e rouca, embora um calafrio supersticioso percorresse sua espinha dorsal.
Elrood teria descoberto, no final, quem era o responsável pela sua morte?
Pouco antes de expirar, os olhos reptilianos do velho se cravaram em seu filho. O príncipe herdeiro, com um nó no estômago, recordou aquele terrível dia em que o imperador tinha descoberto a cumplicidade de Shaddam no assassinato de Fafnir, seu filho mais velho... e a risada afogada do velho quando tinha descoberto que seu filho menor tinha misturado anticoncepcionais na comida de sua própria mãe, Fala, para que não concebesse outro filho que rivalizasse com ele.
Elrood teria suspeitado? Tinha amaldiçoado seu filho antes de expirar?
Bem, agora era muito tarde para que mudar de opinião. O velho regente tinha morrido, afinal, e Shaddam fora o responsável. Não, ele não.
Fenring. Caso necessário, seria o bode expiatório. Um príncipe herdeiro jamais admitiria qualquer culpa.
Logo deixaria de ser príncipe herdeiro. Seria imperador, por fim.
Imperador Padishah do Universo Conhecido. Era necessário, não obstante, que dissimulasse seu entusiasmo. Teria que esperar até depois da coroação oficial.
— Era de esperar, é obvio — disse Hasimir Fenring a seu lado, com sua enorme cabeça encurvada e o queixo apoiado no peito —. Há tempo que o pobre homem estava degenerando, hummmm.
O médico Suk fechou o instrumento e o guardou no bolso do manto.
Tinham ordenado que todos saíssem dos aposentos: as concubinas, os guardas, até mesmo o chambelán Hesban.
— Entretanto, há algo estranho neste caso — disse Yungar —. Há dias que me sinto inquieto... Não é somente porque um ancião tenha falecido por causas naturais. Temos que ser muito cautelosos com nossa análise, já que se trata do imperador...
— Tratava-se do imperador — corrigiu Shaddam.
— Foi isso que quis dizer.
O médico Suk passou uma mão pela tatuagem em forma de diamante em sua testa. Shaddam se perguntou se estava aborrecido porque não ia mais receber os suculentos honorários por seus cuidados.
— Meu bom doutor, o imperador Elrood era velho e sofria grandes tensões. — Fenring se inclinou e tocou a testa fria do velho, que recordava a Shaddam uma rocha coberta de pergaminho, como se o estivesse benzendo —. Nós testemunhamos as visíveis mudanças em sua saúde e capacidade mental há, digamos, dois anos. Seria melhor que não fossem feitas insinuações e suspeitas infundadas, que só serviriam para prejudicar a estabilidade do Império, sobre tudo em tempos difíceis, hummmm? O
imperador Padishah Elrood IX tinha mais de cento e cinqüenta anos de idade, e foi protagonista de um dos reinados mais longos na história dos Corrino. Deixemos assim.
Shaddam pigarreou.
— Que outra coisa poderia ser, doutor? A segurança que rodeava meu pai é impenetrável, há guardas e detectores de venenos por toda parte.
Ninguém pôde atentar contra ele.
Yungar passeou seu olhar inquieto entre o príncipe herdeiro e o homem escondido atrás dele.
— Identidade, motivo e oportunidade. Essas são as perguntas, e embora não seja detetive, estou seguro de que um Mentat poderia responder às três. Reunirei meus dados e os submeterei a uma junta de revisão. É apenas uma formalidade, mas tem que ser feita.
— Quem faria isso a meu pai? — perguntou Shaddam, ao mesmo tempo em que se aproximava mais. A rudeza do doutor o irritava, mas aquele Suk já demonstrara sua natureza pomposa. Parecia que o morto os observava de seu leito, acusando-os com seus dedos curvados.
— Primeiro precisarei reunir mais provas, senhor.
— Provas? De que tipo?
Acalmou-se. Sua testa se cobriu de suor, e passou uma mão por seu cabelo avermelhado impolutamente penteado. Talvez estava exagerando a situação.
Fenring parecia muito sereno e se deslocou para o outro lado da cama, perto dos restos da última cerveja de especiaria que o imperador tinha tomado.
O doutor sussurrou a Shaddam:
— Como Suk leal é meu dever avisá-lo, príncipe Shaddam, de que talvez também corra perigo. Certas forças, conforme relatórios que vi, não querem que a Casa Corrino continue no poder.
— Desde quando a Escola Suk obtém relatórios a respeito de alianças e intrigas imperiais? — perguntou Fenring, que tinha se aproximado silenciosamente. Não tinha ouvido as palavras concretas, mas há anos tinha aprendido a valiosa arte de ler os lábios. Ajudava muito em suas atividades de espionagem. Tinha tentado ensinar o truque a Shaddam, mas este ainda não tinha dominado o dom.
— Temos nossas fontes — disse o médico Suk —. Infelizmente, tais contatos são necessários mesmo para uma escola como a nossa, dedicada a cura. —
Shaddam sorriu com ironia, recordando a insistência do medico em que pagassem todos os seus honorários antes de ver o paciente —.
Vivemos tempos perigosos.
— Suspeitam de alguém em particular? — perguntou Shaddam, seguindo o olhar do médico. Talvez pudessem culpar o chambelán Hesban.
Preparar provas falsas, espalhar rumores.
— Em sua posição, seria prudente suspeitar de todos, senhor. Eu gostaria de fazer uma autópsia no imperador Elrood. Com a ajuda de um colega da Escola Interior, analisaremos cada órgão, cada tecido, cada célula... só para ter certeza.
Shaddam franziu o sobrecenho.
— Parece-me uma terrível falta de respeito com meu pai.
Horrorizava-o pensar em... cirurgia. Melhor deixá-lo descansar em paz.
Temos que preparar imediatamente os funerais de Estado. E minha cerimônia de coroação.
— Ao contrário — insistiu Yungar —, demonstraremos respeito para com sua memória se tentamos descobrir o que ocorreu. Talvez alguém implantou algo em seu corpo, quando seu comportamento começou a mudar, algo que causou uma morte lenta. Um médico Suk seria capaz de detectar os sinais mais sutis, mesmo depois de dois anos.
— Só de pensar em autópsia fico doente — disse Shaddam —. Sou o herdeiro do Império, e proíbo isso.
Olhou para o cadáver, e os pelos dos seus braços se arrepiaram, como se o fantasma do velho flutuasse sobre sua cabeça. Lançou um olhar de preocupação para as sombras da extinta chaminé.
Tinha esperado experimentar júbilo quando seu pai por fim lhe cedesse o Trono do Leão Dourado, mas agora, consciente de que seu chaumurky tinha sido o causador de sua morte, a pele de Shaddam se arrepiou.
— Segundo a lei imperial, poderia insistir oficialmente nisso, senhor
— explicou o médico Suk com voz pausada —. E devo fazê-lo, para seu próprio bem. Vejo que não tem experiência no terreno das intrigas, já que cresceu
protegido na corte. Considera-me um estúpido, mas lhe asseguro que não estou enganado. Sinto isso nas vísceras.
— Possivelmente o bom doutor esteja certo — disse Tenring.
— Como pode...? — Shaddam percebeu um brilho peculiar nos olhos de Fenring e olhou para o médico —. Tenho que consultar meu conselheiro.
— É claro.
Os dois homens se retiraram para a porta.
— Você está louco? — sussurrou Shaddam, quando Fenring e ele estavam a uma distância prudente.
— Siga a corrente, por enquanto. Depois, por culpa de algum... —
Fenring sorriu e escolheu a palavra precisa — mal-entendido, o velho Elrood será incinerado antes que possam abri-lo.
— Entendo — disse Shaddam, e se voltou para Yungar —. Chame seu colega e façam o que for necessário. Meu pai será transportado à enfermaria.
— Levará um dia para que o outro médico chegue — disse o Suk —.
Preciso que o cadáver seja congelado.
Shaddam sorriu.
— Assim se fará.
— Nesse caso me despeço, senhor.
O médico fez uma reverência e partiu rapidamente. Seu longo rábico grisalho, rodeado com um aro de prata, pendia-lhe sobre as costas.
Quando ficaram sozinhos, Fenring disse com um sorriso torcido:
— Era isso ou matar o bastardo, e não devíamos correr esse risco.
Uma hora depois, devido a uma desafortunada cadeia de mal-entendidos, o imperador Elrood IX foi reduzido a cinzas no crematório imperial, e seus restos se perderam. Um servo e dois médicos da corte pagaram com sua vida pelo engano.
Minha memória e a história são as duas caras da mesma moeda. Entretanto, com o tempo a história inclina-se a apresentar uma opinião favorável dos acontecimentos, no entanto a memória está condenada a preservar os piores aspectos. Lady Helena Atreides, diário pessoal
Pai, eu não estava preparado.
As marés noturnas de Caladan eram violentas e a chuva impulsionada pelo vento tamborilava sobre as janelas da torre do castelo.
Outro tipo de tormenta se desencadeava no interior do duque Leto: a preocupação pelo futuro de sua Casa.
Tinha fugido desta tarefa durante muito tempo... durante meses, de fato. Aquela noite não desejava outra coisa senão sentar-se em uma habitação aquecida por um bom fogo, em companhia de Rhombur e Kailea.
Em vez disso, tinha decidido examinar por fim alguns objetos pessoais do velho duque.
As coisas do seu pai estavam guardadas em arcas alinhadas contra uma parede. Os criados tinham alimentado o fogo com grossos troncos, e uma jarra de vinho quente impregnava a habitação com o aroma especiado de terrameg e um pouco da cara melange. Quatro globos luminosos proporcionavam luz suficiente.
Kailea tinha encontrado uma capa de pele em um armário, e se envolveu com ela para aquecer-se, mas a dotava de um aspecto impressionante. Devido as mudanças radicais ocorridas em sua vida, a filha de Vernius era uma sobrevivente nata. Parecia que, por pura força de vontade, Kailea modificava para melhor tudo que a rodeava.
Graças aos inconvenientes políticos derivados de qualquer romance com a família renegada, o duque Leto, regente agora de uma Grande Casa, sentia-se cada vez mais atraído por ela, mas recordava o conselho número um de seu pai: “Nunca se case por amor, ou trará a ruína para nossa Casa.”
Paulus Atreides tinha lançado aquela máxima em seu filho tantas vezes como qualquer outra diretriz sobre liderança. Leto sabia que nunca poderia desobedecer a ordem do velho duque. Estava muito arraigada em seu ser.
Mas se sentia atraído por Kailea, embora até o momento não tivesse reunido coragem para expressar seus sentimentos. Acreditava que ela sabia.
Kailea possuía uma mente forte e lógica. Lia-o com seus olhos esmeralda, na curva de sua boca felina, nos olhares furtivos que lhe dirigia.
Com permissão de Leto, Rhombur recostou outras arcas em busca de lembranças de guerra que falassem da amizade entre Paulus Atreides e Dominic Vernius. Tirou um xale grande bordado e o desdobrou.
— O que é isto? Nunca vi seu pai usando isso.
Leto examinou o desenho e viu o que era: o falcão da Casa Atreides abraçando a lâmpada richesiana do conhecimento.
— Acho que é a capa que usou no casamento.
— Ah — disse Rhombur —. Perdão.
Dobrou a capa e voltou a guardá-la na arca.
Leto meneou a cabeça e respirou fundo. Sabia que ia encontrar muitas lembranças que o comoveriam, mas devia superá-las.
— Meu pai não escolheu morrer, Rhombur. Minha mãe tomou decisões por sua conta e risco. Poderia ter sido uma valiosa conselheira para mim. Em outras circunstâncias, teria agradecido sua ajuda e diretrizes, mas agora... — Suspirou e olhou com amargura para Kailea —. Como disse, tomou decisões por sua conta e risco. Só Leto e o Mentat sabiam a verdade sobre a cumplicidade de Helena no assassinato, e era um segredo que Leto havia jurado levar para a tumba. Como o chefe de estábulos tinha morrido durante o interrogatório, Leto tinha as mãos manchadas de sangre pela primeira — mas última —
vez. Nem mesmo Rhombur e Kailea suspeitavam de nada.
Tinha enviado sua mãe para longe do castelo de Caladan com dois de seus criados, escolhidos por ele. Para seu “descanso e bem-estar”, lady Helena tinha sido conduzida a este continente, onde viveria em condições primitivas com as irmãs do Isolamento, uma retrógrada comunidade religiosa. Helena, com altivez mas sem pedir explicações ao seu filho, tinha aceito o castigo. Embora dissimulasse, Leto chorava a perda de sua mãe, e o assombrava ter ficado sem pais em questão de poucos meses. Entretanto, Helena tinha cometido o ato de
traição mais aberrante contra sua própria família e sua própria Casa, e Leto nunca poderia perdoá-la nem vê-la de novo. Matá-la estava descartado, a idéia apenas tinha cruzado sua mente.
Afinal, era sua mãe. Além disso, perdê-la de vista também era uma questão prática, porque tinha poucas posses para administrar, e o bem-estar dos cidadãos de Caladan era prioritário. Era preciso que se dedicasse a governar.
Rhombur extraiu de outra arca um velho baralho de cartas feitas à mão e algumas relíquias do velho duque, que incluíam honras militares, uma faca sem fio e uma pequena bandeira manchada de sangue. Leto descobriu conchas marinhas, um lenço colorido, um poema de amor anônimo, uma mecha de cabelo castanho avermelhado (não era a cor de Helena), uma mecha de cabelo loiro e braceletes esmaltados desenhados para uma mulher.
Sabia que seu pai tivera amantes, embora Paulus nunca tivesse levado nenhuma ao castelo de Caladan como concubina oficial. Limitou-se a se divertir, e não havia dúvida de que tinha obsequiado suas mulheres com jóias, tecidos ou doces.
Leto fechou a tampa da arca. O duque Paulus tinha direito a suas lembranças, seu passado e seus segredos. Nenhuma daquelas lembranças tinha diminuído a riqueza da Casa Atreides. Precisava ocupar-se da política e dos negócios. Thufir Hawat, outros conselheiros da corte e até o príncipe Rhombur estavam fazendo o possível por guiá-lo, mas Leto se sentia como um recém-nascido que devia aprender tudo a partir de zero.
Kailea serviu uma caneca de vinho quente e a estendeu para Leto, e depois serviu outras duas para ela e seu irmão. O duque bebeu com ar pensativo, saboreando o líquido especiado. O calor impregnou seus ossos e ele sorriu.
Kailea contemplou a curiosa parafernália e ajustou uma mecha de cabelo atrás da orelha. Leto observou que seu lábio inferior tremia.
— O que aconteceu, Kailea?
A jovem respirou fundo e olhou para seu irmão, e depois para Leto. — Nunca poderei revisar as coisas de minha mãe. Nem as do Grand Palais, nem as poucas que levaram quando fugimos.
Rhombur abraçou sua irmã, mas ela continuou olhando para Leto.
— Minha mãe guardava presentes do próprio imperador, tesouros que ele lhe deu
quando abandonou seu serviço. Tinha tantas lembranças, tantas histórias para me contar, mas eu não a escutava...
— Não pense assim — disse Rhombur, tentando consolá-la —.
Criaremos nossas próprias lembranças.
— E faremos que outros nos recordem — disse Kailea com voz quebradiça.
Leto, comovido e cansado, acariciou o selo ducal que carregava no dedo. Ainda o sentia como um peso estranho, mas sabia que nunca voltaria a tirá-lo, até que em um futuro longínquo o entregasse a seu filho para que continuasse a tradição da Casa Atreides.
A chuva aumentou contra os muros e janelas do velho castelo de pedra, enquanto o mar chocava ondas espumantes contra os escarpados.
Leto se sentia muito pequeno, comparado com a imensidão de Caladan.
Embora a noite fosse inóspita, quando o duque trocou sorrisos com Kailea e Rhombur, sentiu-se confortável e satisfeito em sua casa.
Leto soube da morte do imperador enquanto três criados tentavam pendurar a cabeça do touro salusano na sala de jantar. Os criados utilizavam cordas e polias para erguer o monstruoso troféu até um ponto da parede sem adornos.
Um sombrio Thufir Hawat observava a cena, com as mãos enlaçadas às costas. O Mentat tocou com ar ausente a longa cicatriz em sua perna, uma lembrança do dia em que salvou um Paulus muito mais jovem de outro touro raivoso. Desta vez, entretanto, não tinha agido com rapidez suficiente...
Kailea estremeceu quando olhou para o animal.
— Será difícil comer nesta sala, com essa coisa nos olhando. Ainda vejo o sangue em seus chifres.
Leto contemplou o touro com olhar apreciativo.
— Eu o entendo como um aviso de que nunca podemos que baixar a guarda. Até um animal obtuso, graças à intervenção de conspiradores humanos, pode aniquilar o líder de uma Grande Casa do Landsraad. —
Sentiu um arrepiou —. Pense nisso, Kailea.
— Não é um pensamento muito consolador — murmurou, com os olhos brilhantes de lágrimas. Piscou para contê-las e voltou para suas atividades.
Com uma pasta de cristal riduliano a frente dela sobre a mesa, concentrou suas energias em estudar as contas da casa. Aplicou o que tinha aprendido no Escritório Orbital de IX e analisou os ganhos das posses Atreides para determinar como se distribuíam o trabalho e a produtividade pelos continentes e mares de Caladan. Leto e ela tinham falado do assunto em profundidade, apesar da sua juventude. Kailea Vernius era muito hábil para os negócios, descobriu Leto com prazer.
— Ser duque não consiste só em esgrima e força — Thufir Hawat havia dito em certa ocasião, muito antes das calamidades recentes —. A administração das pequenas coisas é uma batalha frequentemente mais difícil.
Por algum motivo, aquelas palavras ficaram gravadas na mente de Leto, e agora estava descobrindo sua sabedoria implícita...
O mensageiro imperial, recém desembarcado de um Cruzeiro da Corporação, entrou na sala vestido com as cores escarlate e dourada imperiais.
— Solicito uma audiência com o duque Leto Atreides — disse.
Leto. Rhombur e Kailea ficaram petrificados, ao recordar a horrível noticia que tinham recebido da última vez que um arauto entrara na sala de audiências. Leto rezou para que não tivesse acontecido nada ao fugitivo Dominic Vernius em sua fuga. Aquele mensageiro oficial usava as cores da Casa Corrino, e parecia que repetira a mensagem dúzias de vezes.
— É meu dever anunciar a todos os membros das Grandes e Pequenas Casa do Landsraad que o imperador Padishah Elrood IX morreu, depois de uma longa enfermidade no ano cento e trinta e oito de seu reinado. Que a história recorde com afeto sua regência, e que sua alma encontre a paz eterna.
Leto ficou estupefato. Um dos criados quase deixou cair a cabeça do touro salusano, mas Hawat gritou para que o homem se concentrasse no trabalho.
O imperador tinha reinado pela duração normal de duas vidas.
Elrood vivia em Kaitain, rodeado de guardas, protegido de toda ameaça, escravo da especiaria geriátrica. Leto jamais tinha pensado que fosse morrer algum dia, embora durante os dois últimos anos tivesse ouvido rumores a respeito da crescente fraqueza de Elrood.
Leto se virou para o mensageiro.
— Rogo que transmita nossas condolências ao príncipe herdeiro Shaddam. Quando se celebrará o funeral de Estado? A Casa Atreides assistirá, é obvio.
— Não será necessário — respondeu o mensageiro —. A pedido do trono, só haverá uma pequena cerimônia para os familiares próximos.
— Entendo.
— Entretanto, Shaddam Corrino, que logo será coroado imperador Padishah do Universo Conhecido, Shaddam IV, solicita sua presença e seu juramento de lealdade na cerimônia de posse do Trono do Leão Dourado.
Estão realizando os últimos preparativos para a coroação.
Leto deu um olhar fugaz para Thufir Hawat.
— Assim será — respondeu.
O mensageiro continuou.
— Depois de definido o protocolo e o calendário oficial, Caladan será informado.
Fez uma reverência, passou a capa púrpura e dourada ao redor de seus braços e deu meia volta. Saiu do salão, em direção a um veículo que o transportaria ao espaçoporto para seguir viagem ao próximo planeta imperial, onde repetiria a mensagem. — Bem, er... uma boa notícia — disse Rhombur com amargura. Seu rosto estava pálido, mas decidido —. Se não fosse pelos ciúmes e a intervenção do imperador, minha família poderia superar a crise de IX. O
Landsraad teria enviado ajuda.
— Elrood não queria que superássemos a crise — disse Kailea, ao mesmo tempo que levantava a vista dos registros de contas —. Só lamento que minha mãe não tenha vivido para escutar esta notícia.
Os lábios de Leto se curvaram em um sorriso de prudente otimismo.
— Isto nos proporciona uma oportunidade inesperada. Pensem bem.
Elrood era o único que tinha uma rixa pessoal contra a Casa Vernius. Sua mãe e
ele compartilharam um passado doloroso, e todos sabemos que esse é o verdadeiro motivo de sua negativa de retirar o preço de sangue por sua família. Era algo pessoal.
Hawat olhou para Leto. Escutava em silêncio, a espera do que seu novo duque ia sugerir.
— Tentei falar com o Conselho do Landsraad — disse Leto —, mas são uma turma de inúteis que não querem se comprometer. Não farão nada para nos ajudar. Mas meu primo Shaddam... — passou a língua pelo lábio inferior —. Só o vi três vezes, mas minha avó materna também era filha de Elrood. Posso mencionar laços de sangue. Quando Shaddam for coroado novo imperador, solicitarei que os anistie. Quando a Casa Atreides jurar lealdade, pedirei que recorde a grande historia da Casa Vernius.
— Por que acha que ele concordará? — perguntou Kailea —. O que ganha com isso?
— Seria um ato de justiça — disse Rhombur.
Sua irmã olhou para ele como se tivesse perdido o juízo.
— Fará isso para estabelecer o tom do seu reinado — disse Leto —.
Qualquer novo imperador deseja forjar uma imagem, demonstrar que é diferente de seu predecessor, que não foi influenciado pelos velhos costumes. Possivelmente Shaddam seja propenso ao perdão. Dizem que não se entendia com seu pai, e não tenho dúvida de que vai querer afirmar sua própria personalidade depois de mais de cem anos sob o reinado de Elrood.
Kailea se jogou nos braços de Leto e o abraçou desajeitadamente.
— Seria maravilhoso recuperar nossa liberdade, Leto, e as posses familiares. Talvez possamos fazer algo por salvar IX.
— Não pode perder a esperança, Kailea — disse Rhombur com cauteloso otimismo —. Se puder imaginar, possivelmente aconteça.
— Não devemos ter medo de pedir — disse Leto.
— De acordo — disse Rhombur —. Se alguém puder conseguir, esse é você, meu amigo.
Leto, inflamado pelo otimismo e determinação, começou a desenvolver um
plano para sua viagem oficial a IX.
— Faremos algo que não esperarão — disse —. Rhombur e eu apareceremos juntos na coroação.
Viu o olhar alarmado do Mentat
— É perigoso levar o filho de Vernius, meu senhor.
— Por isso não o esperarão. Do que sentidos precisamos, que somos incapazes de ver e ouvir do outro mundo que nos rodeia? Bíblia Católica Laranja
Alguns consideravam bela a aridez rochosa do Posto de Guarda Florestal, uma maravilha da natureza, mas o barão Vladimir Harkonnen não gostava de ficar longe de edifícios fechados, ângulos retos, metal e plástico. O ar lhe parecia viciado e desagradável sem as emanações da indústria, dos lubrificantes e da maquinaria. Muito inquietante, muito hostil.
Não obstante, o barão conhecia a importância do seu destino, e se distraía contemplando o desconforto, ainda maior, do seu Mentat. Piter De Vries, com um manto sujo e o cabelo revolto, esforçava-se por continuar ereto. Apesar de seu mente funcionar como uma máquina poderosa, seu corpo era esquelético e fraco.
— Tudo aqui é tão primitivo, meu barão, tão sujo e frio — disse De Vries com olhos arregalados —. Tem certeza de que temos que nos afastar tanto? Não existe outra alternativa?
— Algumas pessoas pagam muito para visitar lugares como este —
respondeu o barão —. Eles os chamam de reservas naturais.
— Piter, feche o bico e não se atrase — disse Rabban.
Subiam uma ladeira em direção a um muro de arenito coberto de gelo e rodeado de covas. O Mentat franziu o sobrecenho e respondeu com sua língua afiada.
— Este não é o lugar onde aquele menino fez você e seus caçadores de idiotas,
Rabban? O sobrinho do barão se virou e cravou o olhar no Mentat.
— Da próxima vez eu caçarei você se não conter a língua. — O prezado Mentat do seu tio? — respondeu De Vries em tom indiferente —. Onde iria encontrar um substituto?
— Tem razão — admitiu o barão com uma risada.
Rabban resmungou algo para si mesmo.
Previamente, os guardas e peritos em caça do barão tinham vasculhado a isolada reserva de caça, uma medida de segurança para que os três homens pudessem ir sozinhos, sem seu séquito habitual. Rabban, armado com uma pistola maula e um rifle de calor, insistia que podia dar conta de todos os cães selvagens e outros predadores que os atacassem. O
barão não tinha tanta confiança no sobrinho, sobretudo considerando que um menino tinha demonstrado ser mais esperto que ele, mas ao menos ali estavam a salvo de olhares indiscretos.
Ao chegar ao alto do montículo, os três descansaram por um instante, e logo subiram outra costa. Rabban abria a marcha, e foi afastando galhos até que chegaram a uma extensão de arenito. Uma rachadura de pouca profundidade desenhava um espaço negro entre a pedra e o chão.
— É aqui — disse Rabban —. Sigam-me.
O barão se ajoelhou e dirigiu um anel de luz para a abertura da cova.
— Siga-me, Piter. — Não sou um espeleólogo — respondeu o Mentat —. Além disso estou cansado.
— Não está em boa forma — replicou o barão, enquanto respirava fundo para sentir seus músculos —. Precisa fazer mais exercício.
— O senhor não me comprou para isso, barão.
— Comprei-o para que fizesse tudo o que eu quisesse.
Agachou-se e passou pela abertura. O diminuto mas poderoso raio de luz sondou
as trevas.
Embora o barão tentasse manter seu corpo em perfeito estado, tinha sofrido inesperadas dores e fraquezas durante todo o ano anterior. Ninguém tinha recebido (ou possivelmente ninguém tinha ousado fazer comentários) que também tinha começado a engordar, apesar de não ter mudado a dieta.
Sua pele parecia mais lustrosa e fofa. Tinha considerado a possibilidade de expor o problema a algum medico, até mesmo a um Suk , apesar dos custos exorbitantes da consulta. Pelo visto, a vida era uma cadeia incessante de problemas.
— Esse lugar cheira a urina de urso — se queixou De Vries enquanto passava pelo oco.
— Como sabe como cheira a urina de urso? — perguntou Rabban, e empurrou o Mentat para abrir caminho.
— Senti o seu cheiro. Não pode existir um animal selvagem mais fétido que você.
Os três se ergueram no interior e o barão acendeu um pequeno globo luminoso, que flutuou para o alto e iluminou o fundo da cova.. Era um lugar inóspito e coberto de musgo e pó, sem sinais de ter sido habitado por seres humanos.
— Uma estupenda projeção mimética, não? — disse o barão —. O
melhor que nosso povo já fez.
Estendeu uma mão coberta de anéis e a imagem na parede se tornou imprecisa.
Rabban localizou um pequeno saliente na parede e o apertou. Toda a parede se abriu, e revelou um túnel de acesso.
— Um esconderijo muito especial — disse o barão.
Acenderam-se as luzes de um passadiço que conduzia ao coração do penhasco. Uma vez lá dentro, fecharam a suas costas a projeção da parede falsa, De Vries olhou ao redor, assombrado.
— Guardou este segredo até de mim, barão?
— Rabban descobriu esta cova durante uma de suas caçadas.
Fizemos... algumas modificações utilizando uma nova tecnologia, uma técnica
prodigiosa. Acredito que compreenderá as possibilidades assim que lhe explicar tudo. — Um esconderijo muito inteligente — admitiu o Mentat —. Nunca sobram preocupações em relação aos espiões.
O barão ergueu a mão para o teto e gritou a pleno pulmão:
— Que o maldito príncipe herdeiro Shaddam seja jogado na latrina!
Não, melhor, nas cavernas do império mais profundas, incrustadas de excrementos e abrasadas pela lava.
A exclamação surpreendeu o próprio De Vries, e o barão riu.
— Aqui, Piter, como em nenhum outro lugar de Giedi Prime, os espiões não me preocupam.
Guiou-os até a câmara principal.
— Nós três poderíamos nos esconder aqui e resistir até mesmo a um ataque de engenhos atômicos. Ninguém nos encontraria. Os contêineres de entropia nula contam com uma quantidade infinita de provisões e armas.
Aqui depositei tudo que é vital para a Casa Harkonnen, desde registros genealógicos até documentos econômicos, passando pelo material reservado para as chantagens. Todos os detalhes desagradáveis e fascinantes que acumulamos sobre as outras Casa.
Rabban se sentou em uma mesa polida e apertou um botão de um painel. De repente, as paredes se tornaram transparentes e mostraram vários cadáveres distorcidos sob uma luz amarelada, vinte e um no total, cjue pendiam entre folhas de plástico, em exposição.
— Esta é a equipe de construção — disse Rabban —. É nosso...
monumento especial em sua memória.
— Bastante faraônico — brincou o barão.
Os cadáveres estavam descoloridos e inchados, os rostos deformados em caretas macabras. Sua expressão misturava mais tristeza resignada que terror pela morte iminente. Qualquer um que construísse uma câmara secreta para os Harkonnen devia estar consciente de estar condenado desde o primeiro momento.
— Será um espetáculo desagradável quando começarem a apodrecer
— disse o barão —, mas com o tempo se transformarão em esqueletos esplêndidos.
Nas outras paredes foram gravados grifos azuis Harkonnen, assim como imagens pornográficas de humanos copulando, de bestialismo, desenhos sugestivos de um relógio mecânico que teria ofendido a maioria de observadores. Rabban soltou uma risita, enquanto parte masculinas e femininas interagiam seguindo um ritmo eterno e contínuo.
De Vries passeou a vista ao redor, analisou os detalhes e os aplicou a sua projeção Mentat.
O barão sorriu.
— A câmara está rodeada por uma projeção protetora que torna um objeto invisível para as longitudes de onda. Nenhum exploratório pode detectar este lugar usando visão, som, calor ou tato. Nós o chamamos de não-campo. Pense nisso. Estamos em um lugar que não existe para o resto do universo. É o lugar perfeito para conversarmos sobre nossos... deliciosos planos.
— Nunca tinha ouvido falar de um campo semelhante — disse De Vries —. Quem o inventou?
— Possivelmente você se lembra do pesquisador de Richese que veio nos visitar. — Chobyn? — perguntou o Mentat, e depois respondeu a sua própria pergunta —. Sim, esse era o nome.
— Ele veio a nós em segredo, com uma técnica revolucionária desenvolvida pelos ríchesianos. É uma tecnologia nova e perigosa, mas nosso amigo Chon entreviu as possibilidades. Foi inteligente o bastante para oferecê-la à Casa Harkonnen em troca de uma remuneração generosa.
— Que pagamos sem reclamar — acrescentou Rabban. — Valia até o último solari — continuou o barão. Tamborilou com os dedos sobre a mesa —. Aqui nem uma alma pode nos ouvir, nem mesmo um Navegante da Corporação com sua maldita presciência. Chobyn está trabalhando para nós em algo ainda melhor.
Rabban, impaciente, sentou-se em um dos assentos.
— Deixe de rodeios.
De Vries se sentou à mesa com os olhos brilhantes, enquanto suas capacidades Mentat analisavam as implicações de uma tecnologia invisível, sua possível utilização. O barão passeou a vista de seu sobrinho para o Mentat. Que grande contraste entre este par, que representam os extremos do espectro intelectual. Tanto Rabban como De Vries necessitavam de supervisão constante, o primeiro devido a sua pouca inteligência e temperamento ruim, e o segundo porque seu brilhantismo podia ser igualmente perigoso.
Apesar de suas deficiências evidentes, Rabban era o único Harkonnen que podia suceder ao barão. Abulurd não era qualificado, certamente. Além daquelas duas filhas bastardas que a Bene Gesserit lhe tinha imposto, o barão não tinha filhos. portanto, devia treinar seu sobrinho no uso e abuso apropriados do poder, e morreria satisfeito se soubesse que a Casa Harkonnen continuaria como sempre.
Ainda seria melhor se os Atreides fossem destruídos,.. Talvez Rabban devesse ter dois Mentats que o guiassem. Devido a sua natureza feroz, o governo de Rabban seria especialmente brutal, em uma escala jamais vista em Giedi Prime, apesar do longo histórico de torturas e maus-tratos aos escravos Harkonnen.
O barão adotou uma expressão sombria.
— Calem-se e me escutem, os dois. Piter, quero que utilize suas capacidades de Mentat a cem por cem.
De Vries extraiu um frasco de suco de safo de um bolso interior.
Tomou um gole e apertou os lábios de uma forma que o barão considerou repulsiva.
— Meus espiões me trouxeram uma informação muito preocupante
— disse o barão —. Está relacionada com IX e com alguns planos que o imperador concebeu antes de morrer. — Seus dedos se agitaram ao ritmo das abominações que passavam por sua cabeça —. Este plano tem sérias implicações para a fortuna de nossa família. Nem sequer a CHOAM e a Corporação possuem essa informação.
Rabban grunhiu. De Vries se ergueu muito rígido, à espera de mais dados.
— Parece que o imperador e os Tleilaxu estabeleceram uma espécie de aliança para realizar experimentos blasfemos e ilegais.
— A merda e os vermes são primos irmãos — disse Rabban.
O barão riu da analogia.
— Soube que nosso amado imperador foi o instigador da queda de IX. Obrigou a Casa Vernius a declarar-se renegada e ajudou os Tleilaxu a iniciarem pesquisas e adaptarem seus métodos às instalações ixianas. — A que pesquisas se refere, meu barão? — perguntou o Mentat.
O barão deixou cair sua bomba:
— Procuram um método biológico de sintetizar a melange.
Acreditam que podem produzir especiaria artificial, e assim eliminarão Arrakis, ou seja a nós, dos canais de distribuição.
Rabban bufou.
— Impossível. Ninguém pode conseguir isso.
Mas a mente de De Vries dava voltas enquanto as peças da informação iam se encaixando.
— Eu não subestimaria os Tleilaxu, sobretudo combinados com as instalações e a tecnologia de IX. Terão tudo que necessitarem.
Rabban se levantou.
— Se o imperador for capaz de fabricar melange, que será de nossas posses? O que será de todas as reservas de especiaria que acumulamos durante anos?
— Se a nova especiaria for semelhante e eficaz, a fortuna dos Harkonnen, apoiada na especiaria, vai se evaporar — explicou De Vries sem se alterar —. Da noite para o dia, como se diz.
— Exato, Piter! — O barão descarregou seu punho coberto de anéis sobre a mesa —. Colher especiaria em Arrakis é muito caro. Se o imperador contar com suas próprias reservas de melange, o mercado virá abaixo e a Casa Corrino controlará o resto: um novo monopólio, exclusivo do imperador.
— A CHOAM não fará nenhuma objeção — disse Rabban com surpreendente perspicácia.
— Nesse caso teremos que passar esta informação à Corporação Espacial — sugeriu De Vries —. Temos que revelar as manobras do imperador, e conseguir que Shaddam suspenda suas pesquisas. Nem a CHOAM nem a Corporação vão querer perder seus investimentos na produção de especiaria.
— E se o novo imperador chegar a um acordo com eles, Piter? —
perguntou o barão —. A Casa Corrino possui parte da CHOAM. Shaddam deseja iniciar seu reinado com um gesto espetacular. E se a CHOAM o convencer a lhes conceder acesso a especiaria sintética com um desconto extraordinário, em troca de sua colaboração? Para a Corporação seria interessante ter um fornecimento mais barato e de confiança. Poderiam abandonar Arrakis, se for muito difícil.
— Então, só nós ficaremos com o rabo ao ar — grunhiu Rabban —.
Todos pisotearão a Casa Harkonnen. O Mentat falou com os olhos semicerrados.
— Nem sequer poderíamos apresentar uma queixa oficial às Casas do Landsraad. A notícia de um substituto da especiaria enlouqueceria as famílias federadas. As alianças políticas mudaram recentemente, e certo número de Casas veriam com bons olhos o fim de nosso monopólio. Se o preço da melange cair, não perderiam o sono. Os únicos que sairiam perdendo seriam os que investiram em reservas secretas e ilegais de especiaria, ou os que investiram nas operações de coleta de especiaria em Arrakis.
— Em outras palavras, de novo nós, e alguns de nossos mais firmes aliados — disse o barão.
— As Bene Gesserit, e seu amor entre elas, não se importariam de conseguir fornecimentos a preço menor.
O barão fulminou seu sobrinho com o olhar. Rabban deu uma risadinha.
— Que podemos fazer?
De Vries respondeu sem consultar o barão.
— A Casa Harkonnen terá que enfrentar sozinha o problema. Não podemos esperar ajuda de ninguém.
— Lembre-se que nós somos um quase feudo de Arrakis — disse o barão —. Foi concedido com a permissão tácita da CHOAM e do imperador. Agora é como se estivéssemos em um gancho onde nos penduraram para secar. Temos que ser muito cautelosos.
— Precisamos de poderio militar para combater tantos inimigos —
disse Rabban.
— Temos que ser sutis — disse De Vries.
— Sutileza? — O barão arqueou as sobrancelhas —. De acordo, eu adoro provar coisas novas.
— Temos que interromper essas pesquisas Tleilaxu em IX — disse De Vries —, ou melhor ainda, destruí-las. Sugiro que a Casa Harkonnen liquide diversos bens, acumule uma reserva em metal e extraia os maiores benefícios de nossa produção atual de especiaria, porque pode desaparecer a qualquer momento.
O barão olhou para Rabban.
— Temos que espremê-la ao máximo. Ah, e direi ao idiota de seu pai que aumente a colheita de peles de baleia em Lankiveil. Temos que encher as arcas. As batalhas iminentes podem consumir muito dos nossos recursos. O Mentat secou uma gota vermelha dos lábios.
— Temos que fazer tudo isto no mais absoluto segredo. A CHOAM
vigia nossas atividades econômicas, e detectaria qualquer manobra incomum. Não devemos permitir que a CHOAM e a Corporação se aliem ao nosso novo imperador contra a Casa Harkonnen.
— Temos que fazer o Império continuar dependendo de nós — disse o barão.
Rabban enrugou a testa, enquanto tentava abrir caminho desajeitadamente entre o labirinto de implicações.
— Mas se os Tleilaxu estão entrincheirados em IX, como vamos interromper estas investigações sem revelar sua verdadeira natureza, sem denunciar nossa implicação e fazer todos os nossos inimigos nos atacar?
De Vries contemplou as imagens sexuais das paredes. Os corpos podres pendiam nos expositores como espiões espectrais. Sua mente não parava de analisar
dados.
— Alguém tem que lutar por nós, preferivelmente sem que saiba —
disse por fim.
— Quem? — perguntou Rabban.
— Para isso trouxe Piter — disse o barão —. Necessitamos de sugestões.
— Projeção primária — disse De Vries —. A Casa Atreides.
Rabban ficou boquiaberto.
— Os Atreides nunca lutariam por nós! — O velho duque morreu — replicou o Mentat —, a Casa Atreides se encontra em uma situação instável. Leto, o sucessor de Paulus, é um jovenzinho impetuoso. Não tem amigos no Landsraad, e recentemente fez um discurso bastante embaraçoso no Conselho. Voltou para casa humilhado. O barão esperou, impaciente por saber as idéias de seu Mentat.
— Segundo ponto: a Casa Vernius, firme aliada dos Atreides, foi expulsa de IX pelos Tleilaxu. Dominic Vernius é um fugitivo da lei e se oferece uma recompensa por sua cabeça, enquanto Shando Vernius foi executada recentemente, devido a sua condição de renegada. A Casa Atreides acolheu os dois filhos de Vernius. São muito unidos às vítimas dos Tleilaxu.
De Vries ergueu um dedo para relacionar os pontos.
— Agora, o impulsivo Leto é amigo íntimo do príncipe exilado de IX. O duque Leto culpa os Tleilaxu pela queda de IX, pela morte de Shando e pela situação de sua família. A Casa Atreides antepõe a lealdade e a honra à política, Leto disse isso ao Landsraad. Talvez considere que seja seu dever ajudar Rhombur Vernius a reconquistar IX. Quem melhor para agir em nosso favor?
O barão sorriu.
— Assim... iniciar uma guerra entre a Casa Atreides e os Tleilaxu!
Dessa forma, a Casa Atreides e a pesquisa sobre a especiaria sintética serão destruídas.
Para Rabban era difícil imaginar tudo aquilo. A julgar pela expressão concentrada de seu rosto, o barão compreendeu que seu sobrinho se esforçava ao máximo por pensar e não perder os detalhes do plano. O Mentat assentiu.
— Se agirmos com cautela, poderíamos obter isso de tal forma que a Casa Harkonnen fique completamente à margem das hostilidades.
Conseguiremos nosso objetivo sem sujar as mãos.
— Brilhante, Piter! Me alegro de não ter mandado executá-lo todas as vezes em que me irritou muito.
— E eu também — disse De Vries. O barão abriu uma câmara de entropia nula e extraiu uma garrafa de conhaque kirana.
— Temos que brindar. — Sorriu com astúcia —. Porque acabo de compreender quando e como faremos isso.
Seus dois ouvintes não podiam estar mais atentos.

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