De todos os milhares de mundos lendários do Império, o jovem Duncan Idaho nunca tinha conhecido outro além de Giedi Prime, um planeta transbordante de petróleo, coberto de indústrias, infestado de construções artificiais, ângulos retos, metal e fumaça. Os Harkonnen gostavam que seu lar fosse assim. Duncan nunca tinha conhecido outra coisa em seus oito anos de vida.
Neste momento, até os becos escuros e imundos de seu lar perdido teriam proporcionado um espetáculo esplêndido. Depois de meses de encarceramento com o resto de sua família, Duncan se perguntava se algum dia sairia da enorme cidade prisão do Barony. Ou se viveria para ver seu nono aniversário, para o qual já devia faltar pouco. Passou uma mão por seu negro cabelo encaracolado, apalpou o suor. E continuou correndo. Os caçadores estavam se aproximando.
Duncan se encontrava agora debaixo da cidade prisão, com seus perseguidores nos calcanhares. Atravessou agachado os estreitos túneis de manutenção, e se sentiu como o roedor coberto de placas que sua mãe lhe tinha permitido conservar como mascote quando tinha cinco anos.
Agachou-se ainda mais, deslizou por espaços diminutos, poços de ventilação fedorentos e tubos de condução de energia. Os adultos, devido a seu tamanho e suas armaduras, nunca poderiam segui-lo até ali. Arranhou o cotovelo nas paredes de metal, internou-se em lugares onde nenhum ser humano poderia se mover.
O menino tinha jurado que não se deixaria apanhar pelos Harkonnen, ao menos hoje não. Odiava seus jogos, negava-se a ser o mascote ou a presa de alguém. Orientou-se na escuridão guiando-se pelo aroma e pelo instinto, sentiu uma brisa viciada no rosto e percebeu a direção da corrente.
Seus ouvidos registravam ecos enquanto avançava: os sons dos outros meninos prisioneiros que fugiam, também desesperados. Em teoria eram seus companheiros de equipe, mas Duncan tinha aprendido, graças a fracassos anteriores, que não devia confiar em pessoas cujos instintos selvagens não estavam à altura dos seus.
Jurou que desta vez se livraria dos caçadores, mas sabia que nunca conseguiria completamente. Neste ambiente controlado, equipes de caça o apanhariam de
novo e o poriam a prova, uma e outra vez. Chamavam isso de treinamento. Ignorava de que.
Ainda sentia dores no flanco direito por causa do último episódio.
Como se fosse um animal, seus torturadores tinham passado seu corpo por uma máquina de costurar pele e um reparador neuro-celular. Suas costelas ainda não tinham se recuperado totalmente, mas melhoravam a cada dia que passava. Pelo menos até agora.
Com o localizador implantado em seu ombro, Duncan jamais poderia escapar da metrópole prisão. Barony era uma construção megalítica de plástico e plaz blindado, de 950 pisos de altura e 45 quilômetros de comprimento, sem entradas no nível do solo. Sempre encontrava muitos lugares onde se esconder durante os jogos praticados pelos Harkonnen, mas nunca a liberdade.
Os Harkonnen tinham muitos prisioneiros, e métodos sádicos para obrigá-los a cooperar. Se Duncan ganhasse esta caçada de treinamento, se evitasse os perseguidores durante tempo suficiente, os carcereiros prometeram que ele e sua família poderiam reintegrar-se a suas vidas anteriores. Prometeram o mesmos a todos os meninos. Os novatos necessitavam de um objetivo, um prêmio pelo qual lutar.
Atravessava por instinto passadiços secretos, ao mesmo tempo em que procurava ocultar seus passos. Não muito longe, a suas costas, ouviu o estampido e o vaio de um fuzil atordoante, o grito de dor de um menino, e depois espasmos arrepiantes, quando outro dos pequenos foi abatido.
Se os caçadores o capturassem, fariam-lhe mal, às vezes a sério e às vezes pior, segundo o fornecimento de novatos. Não era como brincar de esconder. Ao menos não para as vítimas.
Mesmo na sua idade, Duncan já sabia que a vida e a morte tinham um preço. Os Harkonnen eram indiferentes ao número de candidatos que sofressem durante o curso de seu treinamento. Assim os Harkonnen jogavam. Duncan compreendia as diversões cruéis. Tinha visto outros sentir prazer nelas, em especial nos meninos com os quais compartilhava sua reclusão, quando arrancavam as asas dos insetos ou colocavam fogo nas crias de roedores. Os Harkonnen e seus soldados eram como meninos adultos, só que com maiores recursos, maior imaginação e maior maldade.
Sem fazer o menor ruído, encontrou uma estreita e oxidada escada de acesso e subiu na escuridão, sem parar para pensar. Duncan tinha que decidir-se pelo
inesperado, esconder-se onde lhes dificultasse a localização.
Os degraus, rachados e cobertos de sulcos pela idade, machucaram suas mãos.
Esta seção da antiga Barony ainda funcionava. Condutos de energia e tubos elevadores sulcavam o edifício principal como tocas de vermes, retos, curvos, torcidos em ângulos oblíquos. O lugar era como uma enorme carreira de obstáculos, onde os soldados dos Harkonnen podiam disparar sobre sua presa sem o perigo de danificar edifícios mais importantes.
No corredor principal, sobre sua cabeça, ouviu pés que corriam, vozes filtradas pelos comunicadores de capacete, e depois um grito. Um assobio próximo indicou que os guardas tinham localizado seu implante.
O fogo branco de um fuzil laser varreu o teto sobre sua cabeça e fundiu as pranchas de metal. Duncan se soltou da escada e caiu. Um guarda armado apontou para ele. Outros dispararam de novo, acertaram as escoras, e a escada caiu atrás do menino.
Aterrissou no chão de um poço inferior, e a pesada escada caiu sobre ele. Mas Duncan conteve um grito de dor. Só teria servido para que os perseguidores se aproximassem mais, embora não tivesse esperanças de evitá-los durante muito tempo, devido ao implante em seu ombro. Quem, a não ser os Harkonnen, podiam ganhar este jogo?
Ficou em pé e correu com um novo e frenético desejo de liberdade.
Decepcionado, viu que o pequeno túnel dava para um passadiço mais amplo. Mais amplo significava problemas. Os adultos poderiam segui-lo até ali.
Ouviu gritos atrás de si, mais pés que corriam, disparos, e depois um grito estrangulado. Supunha-se que os perseguidores utilizavam fuzis atordoantes, mas Duncan sabia que, em uma fase tão avançada da caçada do dia, quase todos os outros teriam sido capturados... e as apostas eram altas. Os caçadores não gostavam de perder.
Duncan tinha que sobreviver. Tinha que ser o melhor. Se morresse, não voltaria a ver sua mãe. Mas se vivesse e derrotasse esses bastardos, talvez sua família obtivessem a liberdade, ao menos a liberdade de que podiam desfrutar os funcionários dos Harkonnen em Giedi Prime.
Duncan tinha visto outros novatos derrotar os perseguidores, mas esses meninos depois tinham desaparecido. Terei que acreditar nas noticias, os ganhadores e
suas famílias tinham obtido a liberdade. Duncan precisava de provas, e tinha muitos motivos para duvidar do que os Harkonnen diziam. Mas queria acreditar, não podia abandonar a esperança.
Não entendia por que tinham encarcerado seus pais. O que poderiam ter feito funcionários governamentais de pouca importância para merecer tal castigo? Só lembrava que um dia sua vida era normal e relativamente feliz, e no seguinte todos estavam ali, escravizados. Agora, o jovem Duncan se via obrigado quase a cada dia a fugir e lutar por sua vida, e pelo futuro de sua família. Estava melhorando.
Recordou aquela última tarde normal, em um jardim de grama bem podada, situado em um das terraços de Harko City, um dos estranhos parques com vistas que os Harkonnen permitiam a seus súditos. Os jardins e os sebes eram criados e fertilizados em jardins, porque as plantas não enraizavam bem no solo impregnado de resíduos de um planeta já explorado em excesso.
Os pais e outros familiares de Duncan estavam praticando jogos ao ar livre, lançavam bolas para buracos espalhados na erva, enquanto mecanismos internos de alta entropia faziam as bolas ricochetearem e saltarem aleatoriamente. O menino tinha observado que os jogos dos adultos eram muito diferentes, aborrecidos e estruturados, comparados aos que praticava com seus amigos.
Uma jovem se achava perto dele, e observava os jogos. Seu cabelo de cor chocolate, a pele negra e maçãs do rosto altas, mas sua expressão tensa e olhar duro diminuíam sua notável beleza. Não sabia quem era, apenas que se chamava Janess Milan e trabalhava com seus pais.
Enquanto Duncan contemplava os jogos dos adultos e ouvia as gargalhadas, sorriu para a mulher e observou:
— Estão treinando para ser velhos.
Pelo visto, Janess não se interessava pela sua opinião, porque lhe respondeu grosseiramente.
Duncan continuou contemplando os jogos à luz caliginosa do sol, mas cada vez sentia mais curiosidade pela desconhecida. Desconfiou que ela estava tensa. Janess olhava com freqüência para trás, como se esperasse algo.
Momentos depois soldados Harkonnen irromperam, detiveram seus pais, seu tio e dois sobrinhos. Compreendeu de maneira intuitiva que Janess tinha sido a causadora de tudo, por motivos que desconhecia. Nunca havia tornado a vê-la, e
sua família estava presa já há meio ano...
Atrás dele, uma abertura se abriu no teto com um rugido. Dois perseguidores com uniforme azul se deixaram cair, apontaram as armas para ele e soltaram uma gargalhada de triunfo. Duncan se lançou para frente, correndo em ziguezague. Um raio laser ricocheteou nas pranchas da parede, e deixou uma marca no corredor, parecida com um raio.
Duncan sentiu o cheiro de ozônio do metal chamuscado. Se um raio o atingisse, morreria. Detestava as risadas dos perseguidores, como se estivessem zombando dele.
Um par de caçadores surgiram de um corredor lateral, a um metro dele, mas Duncan foi mais rápido. Eles não reagiram com rapidez. Golpeou um no joelho e empurrou o outro para um lado, antes de passar entre os dois a toda velocidade.
O homem cambaleou e depois gritou, quando um raio laser chamuscou sua armadura.
— Parem de disparar, idiotas! Podem nos atingir!
Duncan correu como nunca tinha corrido, consciente que suas pernas infantis não podiam superar os adultos treinados para lutar. Mas recusava-se a se render. Não estava em seu sangue.
Mais adiante, onde o corredor se alargava, viu luzes brilhantes em um cruzamento de passadiços. Quando se aproximou, parou um momento e comprovou que o corredor transversal não era um túnel, mas um tubo elevador, um poço cilíndrico com um campo Holtzman no centro. Trens bala levitantes percorriam o tubo sem resistência, viajando de um extremo ao outro da enorme prisão.
Não havia portas nem passadiços abertos. Duncan não podia continuar correndo. Os homens apareceram perto dele e apontaram com os fuzis. perguntou-se se o abateriam caso se rendesse. Provavelmente, pensou, pois isso lhes proporcionaria uma boa descarga de adrenalina.
O campo antigravitacional brilhava tênue no centro do poço horizontal. Sabia mais ou menos como funcionava. Só restava um lugar para onde ir, e não estava certo do que aconteceria, mas sabia que se os guardas o capturassem o castigariam, ou talvez o matassem.
Virou-se e cravou a vista no campo antigravitacional. Respirou fundo e saltou
para o interior do poço.
Seu cabelo negro e encaracolado ondeou quando caiu. Gritou, um som a meio caminho entre um uivo de desespero e um grito de liberação.
Se morresse aqui, ao menos seria livre.
Então, o campo Holtzman o envolveu de súbito. Duncan, com o estômago subindo ao peito, encontrou-se à deriva em uma rede invisível.
Flutuava sem cair, pendurado no centro neutro do campo. Esta força mantinha suspensos os trens bala quando atravessavam a gigantesca Barony. Não era assombroso que o suspendesse. Viu que os guardas corriam para a beira da plataforma e gritavam encolerizados. Um deles agitou um punho. Dois apontaram suas armas.
Duncan moveu freneticamente braços e pernas, tentou nadar, tentando afastarse.
Um guarda gritou e desviou o fuzil de outro com um tapa. Duncan tinha ouvido falar dos efeitos terríveis que aconteciam quando um raio laser cruzava um campo Holtzman. Geravam um potencial destrutivo interativo em teoria tão mortífero como os engenhos atômicos proibidos.
Em conseqüência, os guardas dispararam seus fuzis atordoantes.
Duncan se retorceu no ar. Embora precisasse de um ponto de apoio, ao menos não seria um alvo fixo. Os raios passaram ao lado.
Protegido pelo campo Holtzman, notou que a pressão do ar mudava a seu redor e intuiu as correntes. Girou no ar, até que viu as luzes de um trem bala que se aproximava.
E se encontrava no centro do campo!
Duncan se revolveu em desespero. Derivou para o lado oposto da zona de levitação, longe dos guardas. Continuaram disparando, mas a mudança na pressão de ar desviou ainda mais os raios. Os homens uniformizados ajustaram os controles.
Abaixo dele havia outros portais, rampas e plataformas que conduziam às vísceras de Barony. Possivelmente poderia chegar a um... se conseguisse escapar do campo que o prendia.
Um raio atordoante roçou suas costas, perto do ombro, e Duncan experimentou a sensação de que milhares de insetos o picavam.
Por fim, libertou-se do campo e caiu de cabeça para baixo. Viu a plataforma bem a tempo. Estendeu o braço que não estava amortecido e segurou um corrimão. O trem passou com um estrondo e enviou uma massa de ar que não o atingiu por centímetros.
Não tivera tempo para adquirir muita aceleração em sua queda. De qualquer modo, a parada repentina quase lhe arrancou o outro braço.
Duncan se içou com muita dificuldade e se meteu em um túnel, mas só encontrou um diminuto nicho com paredes de metal. Não viu nenhuma saída. A escotilha estava fechada. Golpeou-a com os punhos, mas não podia ir a lugar algum.
Então, a porta exterior se fechou a suas costas, e ficou preso no nicho. Preso. Desta vez, tudo tinha terminado.
Momentos depois, os guardas abriram a escotilha posterior. Seus olhares, quando ergueram as armas, expressavam uma mescla de ira e admiração. Duncan esperou com resignação que o abatessem.
Não obstante, o capitão sorriu e disse:
— Parabéns, garoto. Você conseguiu.
Duncan, esgotado e de volta a sua cela, estava sentado com seus pais. Faziam sua refeição diária a base de cereais insípidos, bolachas ricas em fécula e folhinhas de proteína, uma comida satisfatória do ponto de vista dietético, mas carente de todo sabor. Até o momento, seus captores não haviam dito nada mais ao menino, além do “você conseguiu”. Isso devia significar a liberdade. Ao menos, esperava.
A cela da família estava muito suja. Embora seus pais tentassem mantê-la limpa, precisavam de vassouras, pano ou sabão, e contavam com muito pouca água, que não podia ser desperdiçada.
Durante os meses de confinamento, Duncan tinha sido submetido a um treinamento vigoroso e violento, enquanto a família permanecia em sua cela, temerosa, sem nada para fazer, sem trabalho nem diversões. Tinham dado um número a todos eles, assim como endereços de celas de escravos.
Aguardavam com temor alguma mudança em sua sentença.
Duncan relatou a sua mãe suas aventuras, com entusiasmo e orgulho, como tinha superado seus perseguidores em astúcia, como tinha vencido os melhores rastreadores Harkonnen. Nenhum dos outros meninos tinha conseguido naquele dia, mas Duncan estava seguro de que ganhara a liberdade.
Seriam libertados de um momento para outro. Tentou imaginar sua família livre de novo, fora do cárcere, contemplando uma noite clara e estrelada.
Seu pai olhava com orgulho para o menino, mas sua mãe custava a acreditar que aquilo pudesse ser verdade. Tinha bons motivos para não confiar nas promessas dos Harkonnen.
Aos poucos, as luzes da cela piscaram e o campo opaco da porta ficou transparente, para depois se abrir. Um grupo de guardas uniformizados de azul apareceu junto ao sorridente capitão que o tinha apanhado. O coração de Duncan deu um salto. Vão nos libertar?
Os homens uniformizados se afastaram em deferência a um homem de costas largas, lábios grossos e músculos pronunciados. Seu rosto estava queimado pelo sol e corado, como se passasse muito tempo longe do tenebroso Giedi Prime.
O pai de Duncan ficou em pé como se fosse impulsionado por uma mola e fez uma reverência desajeitada.
— Meu senhor Rabban!
Sem dar atenção aos pais, os olhos de Rabban só se fixavam no jovem novato de rosto arredondado.
— O capitão dos caçadores me disse que você é o melhor — disse a Duncan. Quando entrou na cela, os guardas se aglutinaram atrás dele.
Rabban sorriu.
— Deveria vê-lo no exercício de hoje, meu senhor — disse o capitão dos caçadores. — Nunca tive um tutelado mais cheio de recursos.
Rabban assentiu.
— Número 11.368, vi o histórico de suas caçadas. Suas feridas foram graves? Não? É jovem, não demorarão para cicatrizar. — Seus olhos se endureceram —. Promete muito. Vamos ver como se sai contra mim.
Virou-se.
— Venha comigo para começarmos a caçada, garoto. Rápido.
— Meu nome é Duncan ldaho — replicou o menino num tom de desafio —. E não sou um número.
Sua voz era fraca e aguda, mas denotava uma valentia que sobressaltou seus pais. Os guardas, surpresos, voltaram-se para ele. Duncan olhou para sua mãe para lhe pedir apoio, ou como se esperasse uma recompensa. Em vez disso, ela tentou fazê-lo se calar.
Rabban arrebatou o fuzil laser de um guarda. Sem titubear, disparou um raio mortal no peito do pai de Duncan. O homem saiu projetado para a parede. Em seguida, Rabban moveu a arma e vaporizou a cabeça da mãe de Duncan.
Duncan gritou. Seus pais caíram ao chão, montes sem vida de carne queimada e borbulhante.
— Agora não tem mais nenhum nome, 11.368 — disse Rabban —.
Venha comigo.
Os guardas o prenderam e não deixaram que corresse para seus pais.
Nem sequer lhe concederam tempo para chorar.
— Estes homens o prepararão para começarmos a próxima rodada de festas. Preciso de uma boa caçada.
Os guardas o arrastaram para fora da cela, enquanto Duncan esperneava e gritava. Sentia-se morto por dentro, exceto por uma chama gelada de ódio que floresceu em seu peito e queimou todos os vestígios de sua infância. O povo tem que acreditar que seu governante é um homem melhor que eles, do contrário não o seguiriam. Alem disso, um líder tem que ser alguém que dá a seu povo todo o pão e circo que necessita. Duque Paulus Atreides
As semanas de preparativos para sua ida para IX transcorreram como uma exalação, enquanto Leto tentava assimilar e armazenar todo um ano de lembranças, e gravar em sua mente todas as imagens de sua casa natal.
Sentiria falta do ar salgado e úmido de Caladan, suas manhãs envoltas em névoa e das sonoras tormentas do entardecer. Como um planeta máquina árido e sem cor podia comparar-se com isso?
Dos muitos palácios e vilas de férias do planeta, o castelo de Caladan, encravado no alto de um escarpado que dominava o mar, era o lugar que Leto levava em seu coração, a sede do governo. Algum dia, quando por fim usasse o anel de selo ducal, seria o vigésimo sexto duque Atreides que tomaria posse do castelo.
Sua mãe, Helena, dedicava muito tempo a ele, via presságios por toda parte e citava passagens da Bíblia Católica Laranja. Não gostava da ideia de perder seu filho por um ano, mas não se oporia às ordens do duque, ao menos declaradamente. Havia uma expressão preocupada em seu rosto, e Leto compreendeu que se preocupava especialmente com o fato de que Paulus tivesse escolhido, dentre todos os lugares, IX.
— É um foco supurante de tecnologia suspeita — disse-lhe quando seu marido não pôde ouvi-la.
— Tem certeza de que não reage assim porque IX é o principal rival da Casa Richese, mãe? — perguntou Leto.
— Claro que não! — Seus dedos longos interromperam por um momento a costura de um elegante colarinho da sua camisa —. A Casa Richese se atem à tecnologia antiga, confiável e verdadeira, aparelhos que cumprem as normas prescritas. Ninguém dúvida da fidelidade de Richese às normas do Jihad.
Olhou-o com seus olhos escuros, que ao pouco se umedeceram.
Acariciou seu ombro. Graças a um crescimento recente, estava quase tão alto quanto ela.
— Leto, Leto, não quero que perca sua inocência ali, nem sua alma
— disse —. Vai lhe custar muito.
Mais tarde, no salão, durante um tranqüilo jantar familiar a base de ensopado de pescado e pães-doces, Helena tinha pedido uma vez mais ao velho duque que o enviasse para outro lugar. Paulus se limitou a rir de suas preocupações, mas no final, a serena mas firme recusa de sua mulher em ver a razão o enfureceu.
— Dominic é meu amigo, e por Deus que eu não poderia colocá-lo nas mãos de melhor homem!
Leto, que tentava se concentrar em seu prato, estava inquieto pelos protestos de sua mãe, mas apoiou seu pai.
— Quero ir, mãe — disse. Deixou a colher junto à terrina e repetiu a frase que sempre dizia —: É para o meu bem.
Durante a educação de Leto, Paulus tinha tomado muitas decisões que Helena não tinha compartilhado: pôr o menino para trabalhar com aldeãos, relacionar-se com os cidadãos de igual para igual, permitir que fizesse amizade com meninos de classes inferiores. Leto compreendia o sentido comum disto, já que algum dia seria o duque dessa gente, mas Helena ainda se opunha em diversas frentes, e citava com freqüência passagens da Bíblia Católica Laranja para justificar suas opiniões.
Sua mãe não era uma mulher paciente, pouco afetuosa com seu filho único, embora se revestisse de uma fachada impecável durante as reuniões importantes e os acontecimentos públicos. Sempre se queixava de sua aparência, e repetia que nunca teria mais filhos. Educar um filho e dirigir a casa ducal já ocupava a maior parte de seu valioso tempo, que de outra maneira teria dedicado ao estudo da Bíblia Católica Laranja e outros textos religiosos. Era evidente que Helena tinha gerado um filho por obrigação a Casa Atreides, mas não pelo desejo de criá-lo.
Não era de estranhar que o velho duque procurasse a companhia de mulheres menos suscetíveis. Às vezes, de noite, atrás das enormes placas de teca elaccana, Leto ouvia as discussões e os gritos de seus pais. Lady Helena podia protestar tanto quanto quisesse sobre o fato de seu filho ser enviado a IX, mas o velho duque Paulus era a Casa Atreides. Sua palavra era lei, no castelo e em Caladan, por mais que sua esposa tentasse convencê-lo a mudar de opinião.
É para o seu bem.
Leto sabia que o matrimônio de seus pais tinha sido uma união de conveniência, um acordo comercial fechado entre as Casas do Landsraad para satisfazer as exigências das famílias importantes. Tinha sido uma ação desesperada por parte da arruinada Richese, e a Casa Atreides sempre podia esperar que a antiga grandeza daquela casa inovadora e tecnológica renascesse de novo. Enquanto isso, o velho duque tinha recebido substanciais concessões e recompensas por aceitar uma das numerosas filhas da Casa Richese.
— Uma casa nobre não pode permitir arrebatamentos e o romantismo que as
pessoas inferiores experimentam quando os hormônios guiam seus atos — sua mãe havia dito em certa ocasião, quando lhe explicava a política dos matrimônios. Sabia que um destino idêntico o aguardava.
Seu pai concordava com ela a esse respeito, e era ainda mais inflexível.
— Qual é a primeira regra da Casa? — repetia o velho duque.
E Leto a citava, palavra por palavra:
— Nunca se casar por amor, porque arruinaria nossa Casa.
Aos quatorze anos, Leto nunca se apaixonara, embora tivesse experimentado os calores do desejo. Seu pai o incentivava a flertar com as moças da aldeia, a brincar com todas que achasse atraentes, mas sem nunca prometer nada. Leto duvidava, dada sua posição como herdeiro da Casa Atreides, que alguma dia tivesse a possibilidade de se apaixonar, sobretudo pela mulher que um dia seria sua esposa.
Uma semana antes da partida de Leto, seu pai o agarrou pelo ombro e o levou para confraternizar com o povo, insistindo que devia saudar até mesmo os criados. O duque foi acompanhado de uma pequena guarda de honra à cidade marítima situada ao pé do castelo, comprou coisas, viu seus súditos e se fez ver. Paulus estava acostumado a ir acompanhado de seu filho nestas saídas, e Leto sempre passava muito bem.
Sob o céu azul claro, o velho duque ria com facilidade, transmitia seu bom humor contagiante. As pessoas sorriam quando o robusto homem passava entre eles. Leto e seu pai passearam pelo bazar, deixaram para trás as bancas de verduras e pescado fresco e se detiveram para inspecionar belas tapeçarias tecidas com fibras ponji e outros artigos exóticos. Paulus Atreides costumava comprar ninharias ou lembranças para sua esposa, sobretudo depois de suas escapadas, embora o duque, ao que parecia, não conhecesse muito bem os gostos de Helena e escolhesse coisas pouco apropriadas para ela.
O duque parou em frente a um posto de ostras e observou o céu azul, surpreso pelo que considerava uma brilhante ideia. Olhou para seu filho, e um amplo sorriso fendeu sua barba.
— Ah, é preciso se despedir com um espetáculo adequado rapaz.
Transformaremos sua partida em um acontecimento memorável para todo Caladan.
Leto se encolheu por dentro. Já tinha escutado em ocasiões anteriores as loucas idéias de seu pai, e sabia que o velho Duque as colocaria em prática, sem obedecer o bom senso.
— O que têm em mente, senhor? O que devo fazer?
— Nada, nada. Anunciarei uma celebração em honra a meu filho e herdeiro. — Agarrou a mão de Leto e a ergueu no ar, numa saudação triunfal, e depois sua voz se impôs à multidão —. Vamos celebrar uma tourada, um espetáculo antigo para o povo. Será um dia de celebração para Caladan, com holoprojeções transmitidas a todo o globo.
— Com touros salusanos? — perguntou Leto, que imaginou as monstruosas bestas de lombo arqueado, suas cabeças negras cobertas de múltiplos chifres, os olhos injetados. Quando criança visitava com freqüência os estábulos para olhar aqueles animais monstruosos. Yresk , o responsável pelos estábulos, um dos antigos empregados de sua mãe em Richese, preparava os touros para os ocasionais espetáculos de Paulus.
— É obvio — disse o velho duque —. E como de costume, eu os enfrentarei. — Moveu o braço com elegância, como se imaginasse uma capa colorida —. Estes velhos ossos ainda são bastante ágeis para se esquivar dessas bestas. Ordene a Yresk que prepare um, a menos que você queira escolhê-lo pessoalmente, rapaz.
— Pensei que nunca mais faria isso — disse ele —. Quase aconteceu um ano de...
— De onde tirou essa idéia?
— De seus conselheiros, senhor, é muito perigoso. Não é por isso que outros o substituíram nas corridas?
O ancião riu.
— Que tolice! Só me mantive afastado do arena por uma razão: os touros foram piores durante um tempo, algum desequilíbrio genético não os fazia aptos para as corridas. Isso mudou, e os novos touros são mais selvagens que nunca. Yresk diz que estão preparados para a luta, e eu também. — Rodeou os estreitos ombros do Leto —. Que melhor ocasião para uma tourada que a partida de meu filho? Assistirá esta corrida, a primeira de sua vida. Sua mãe já não poderá dizer que é muito pequeno.
Leto assentiu a contra gosto. Uma vez que tomava uma decisão, seu pai nunca se
retratava. Ao menos, Paulus era destro, e utilizaria um escudo pessoal.
Com a ajuda de escudos pessoais, Leto tinha lutado contra muitos competidores humanos, consciente das vantagens e limitações do escudo.
Um escudo podia parar tiros de projéteis e armas mortíferas de alta precisão, mas qualquer folha que se movesse a velocidade baixa podia atravessá-lo. Um touro salusano furioso, com seus chifres afiados, podia mover-se com a lentidão suficiente para atravessar o escudo melhor sintonizado.
Engoliu em seco, intrigado pelos novos touros. Os que o velho Yresk tinha lhe mostrado já pareciam bastante perigosos. Tinham acabado com a vida de três matadores, que Leto recordasse...
Entusiasmado com a idéia, o duque Paulus anunciou no bazar, usando os microfones instalados nos postos. Ao ouvir, o povo reunido no mercado prorrompeu em vivas, com os olhos brilhantes. Riram, em parte pela perspectiva do espetáculo em si, e também pelo dia de descanso e celebração que acabava de lhes conceder.
Leto sabia que sua mãe não gostaria da ideia de Paulus toureando e que Leto presenciasse o acontecimento, mas também sabia que, assim que Helena começasse a protestar, a resolução do velho duque seria mais inquebrável que nunca.
O estádio se estendia sob o sol do meio-dia. Os degraus formavam uma imensa arquibancada, tão abarrotada de gente que, nos extremos, pareciam pequenos peixes coloridos. O duque tinha decidido que o espetáculo seria grátis. Estava orgulhoso de sua habilidade e era um exibicionista nato.
Grandes bandeiras verde-negras ondulavam na brisa, enquanto uma banda soava dos alto-falantes. Colunas enfeitadas com os falcões dos Atreides cintilavam com emblemas que tinham sido polidos e pintados para o acontecimento. Milhares do ramos de flores colhidas nos campos e terras baixas foram lançadas na arena, uma insinuação muito pouco sutil de que o duque gostaria que as pessoas jogassem flores cada vez que matasse um touro.
Nos aposentos destinados aos matadores, Paulus esperava o momento da verdade. Leto estava de pé atrás de uma proteção, e escutava à multidão impaciente.
— Pai, estou muito preocupado pelo perigo que vai correr. Não deveria fazer isso... e muito menos por mim.
O velho duque desprezou o comentário com um gesto.
— Leto, meu filho, precisa compreender que governar pessoas e ganhar sua lealdade consiste em algo mais que assinar papéis, arrecadar impostos e assistir às reuniões do Landsraad.
Alisou sua capa vermelha, estendida diante de um espelho.
— Dependo dessa gente para produzir tudo que Caladan possa proporcionar. Eles tem que fazer de bom grado, trabalhando até a fadiga, e não só para tirar proveito mas também por sua honra e sua glória. Se a Casa Atreides fosse à guerra de novo, essa gente derramaria seu sangue por mim.
Entregariam sua vida sob nossas bandeiras. — Tocou sua armadura —.
Quer esticá-la?
Leto agarrou as cintas do peitilho de couro negro, puxou-as e as amarrou. Não disse nada, mas assentiu para indicar que compreendia.
— Como duque de meu povo, preciso lhes dar algo em troca, demonstrar meu valor. E não só para que se divirtam, mas também para gravar em suas mentes que sou um homem de grande importância, de heróicas dimensões... alguém a quem Deus concedeu a bênção para governá-los. Não conseguirei isso a menos que demonstre. A liderança não é um processo passivo.
Paulus checou o cinto do escudo e sorriu.
— Nunca se é muito velho para aprender — citou —. É uma frase de Agamenon... só para demonstrar que não estou tão adormecido quanto parece.
Thufir Hawat, o especialista em armas de rosto severo, aproximou-se do duque. Como Mentat leal, Hawat não criticava as decisões de seu superior. Deu o melhor conselho que pôde, sussurrando o que tinha observado nos movimentos da nova manada de touros salusanos mutantes.
Leto sabia que sua mãe estaria no camarote ducal. Iria vestida com seus melhores ornamentos, interpretaria seu papel, saudaria o povo. Na noite anterior, uma vez mais, produziu-se uma acalorada discussão atrás das portas do dormitório. Por fim, o duque Paulus a silenciara com uma ordem terminante e foi dormir; precisava descansar para enfrentar as provas que o aguardavam no dia seguinte.
O duque colocou sua capa debruada de verde e pegou os instrumentos que
necessitaria para vencer o touro selvagem: as adagas e uma longa vara enfeitada com plumas, com uma toxina nervosa na ponta.
Thufir Hawat sugerira que o responsável pelos estábulos tranqüilizasse o touro para diminuir seus impulsos assassinos, mas o duque adorava os desafios. Não desejava inimigos drogados.
Paulus virou o botão de ativação do escudo e conectou o campo. Era um simples meio escudo para proteger seu flanco. O duque utilizava uma capa de cores brilhantes, chamada muleta, para proteger seu outro flanco.
Fez uma reverência para seu filho, para seu Mentat e para os preparadores que esperavam na entrada da arena.
— Que o espetáculo comece — disse.
Leto o viu sair para a arena, enfeitado como um ave ansiosa por voar.
Quando surgiu, soou uma ovação.
Leto se situou para trás da proteção, e piscou devido ao brilho do sol.
Sorriu quando seu pai descreveu um lento círculo ao redor do arena, agitando sua capa e fazendo uma reverência ao seu povo. Leto percebeu com orgulho o amor e admiração que sentiam por aquele homem valente.
Enquanto esperava à sombra, Leto jurou que tentaria aprender tudo a respeito dos triunfos de seu pai, para que um dia o povo lhe demonstrasse igual respeito e admiração. Triunfos... Este seria mais um na longa lista do seu pai, supôs Leto. Mas não podia evitar sentir-se preocupado. Muitas coisas podiam mudar num piscar de um escudo, no brilho de um corno afiado, no golpe de uma pata contra o chão.
Soaram os trompetes e a voz do apresentador narrou os detalhes da tourada iminente. O duque Paulus apontou com um elegante gesto da sua luva adornada com lantejoulas para as amplas portas reforçadas do outro lado da arena.
Leto se mudou para outra arcada afim de gozar de melhor perspectiva, e percebeu que não ia assistir uma farsa. Seu pai ia lutar por sua vida.
Os ajudantes tinham preso as bestas ferozes, e o responsável pelos estábulos em pessoa tinha selecionado uma para a corrida. Depois de inspecionar o animal, o duque ficara satisfeito, seguro de que sua bravura agradaria à multidão. Ansiava entrar no campo de batalha.
As portas maciças se abriram com um rangido das dobradiças, e o touro salusano saiu trotando, meneando sua cabeça coberta de chifres e deslumbrado pela luz. Seus olhos facetados refulgiam de raiva. As escamas do lombo, negro como asa de corvo, refletiam cores iridescentes.
Paulus assobiou e agitou a capa.
— Venha cá, estúpido!
Os espectadores riram.
O touro se virou para ele, baixou a cabeça e emitiu um bufo potente.
Leto viu que seu pai ainda não tinha ligado o escudo protetor. Paulus moveu sua capa colorida para provocar a ira da besta. O touro salusano chutou o chão, soprou e carregou. Leto quis gritar, advertir seu pai. Tinha esquecido da sua proteção? Como esperava sobreviver sem escudo? Mas o touro passou ao lado e Paulus deu um giro, para que o animal arremetesse.
Seus chifres retorcidos rasgaram a parte inferior do tecido em pedaços. O
velho duque deu as costas ao touro, confiante em excesso. Dedicou uma reverência zombeteira ao público, endireitou-se e depois, com calma, sem pressa, ligou seu escudo pessoal.
O touro atacou de novo, e o duque utilizou a adaga para espetá-lo em seu flanco escamoso, antes de lhe causar uma leve ferida no flanco. Os olhos facetados do animal captaram múltiplas imagens de seu torturador adornado com cores vivas.
Carregou de novo.
Move-se com muita rapidez para penetrar o escudo, pensou Leto.
Mas se cansar e diminuir a velocidade, poderia ser muito perigoso...
Enquanto a corrida continuava, Leto observou que seu pai procurava enriquecer o espetáculo para que o público se divertisse. O velho duque poderia matar o touro a qualquer momento, mas preferia saborear a experiência.
A julgar pela reação dos espectadores, Leto sabia que se falariam durante anos daquele acontecimento. A vida dos camponeses e pescadores era muito aborrecida e dura, mas esta celebração ficaria gravada em suas mentes, uma orgulhosa imagem de seu duque. Note o que fazia o velho Paulus, apesar de sua idade!, diriam.
Por fim, o touro chegou a beira do esgotamento, com os olhos injetados, pesados e cansados estertores, enquanto seu líquido vital se derramava sobre a areia. Paulus decidiu pôr fim ao desafio. Tinha prolongado o espetáculo durante quase uma hora. Embora coberto de suor, ainda conservava sua aparência nobre, e não permitia que seus movimentos denotassem cansaço nem que suas roupas se desalinhassem.
Em seu camarote, Lady Helena continuava movendo suas bandeirolas, com um sorriso frio na boca.
Aquela altura, o touro era uma máquina enlouquecida, um monstro raivoso com poucos pontos vulneráveis em sua blindagem de escamas negras. Quando o animal carregou contra ele, os chifres cintilantes erguidos como lanças, Paulus fez uma finta à esquerda e deu meia volta. A seguir Paulus atirou a capa para o chão e agarrou o haste de sua lança com ambas as mãos. Concentrou toda sua força em uma potente estocada lateral.
Executada sem a menor falha e de uma beleza sem comparação, a folha da lança penetrou por uma fenda da pele blindada do touro, atravessou uma intercessão de osso e crânio, e perfurou os dois cérebros separados do animal: a forma mais difícil e sofisticada de matá-lo.
O touro estacou, resfolegou, bufou e caiu fulminado sobre a areia.
Paulus plantou o pé sobre a cabeça coberta de chifres, apoiou-se na lança, extraiu-a com um puxão e a jogou no chão. Em seguida, desembainhou sua espada e a fez girar sobre sua cabeça com um gesto de triunfo.
Os espectadores ficaram em pé como um só homem, gritaram, uivaram e aclamaram. Agitaram as bandeiras, apoderaram-se dos ramos que enfeitavam os suportes de vasos e os lançaram à arena. Fizeram coro o nome de Paulus várias vezes.
O patriarca Atreides, divertindo-se com a adoração que despertava, sorriu, deu meia volta e abriu a jaqueta, para que os espectadores vissem seu torso manchado de sangue e coberto de suor. Agora era o herói. Podia desprezar a etiqueta.
Quando os longos vivas emudeceram, o duque ergueu a espada e golpeou diversas vezes até cortar a cabeça do touro. Finalmente, cravou a espada ensangüentada no chão da praça e com ambas as mãos agarrou os chifres do touro e levantou sua cabeça.
— Leto! — gritou sem olhar para trás, e sua voz retumbou na arena
—. Leto, meu filho, venha aqui!
Leto, ainda protegido pelas sombras da arcada, titubeou um momento e depois avançou. Cruzou o arena com a cabeça bem erguida, até deter-se junto ao seu pai. A multidão o aclamou com renovado entusiasmo.
O velho duque ofereceu ao seu filho a cabeça ensangüentada do animal.
— Entrego-a a Leto Atreides! — anunciou ao público apontando para seu filho —. Vosso futuro duque!
A multidão continuou aplaudindo e gritando hurras. Leto segurou um dos chifres do touro. Seu pai e ele sustentaram o troféu no alto, e dele caiam grossas gotas vermelhas.
Quando Leto ouviu que o povo gritava seu nome, sentiu que algo se agitava em seu interior e perguntou-se pela primeira vez se era isso que sentia um líder de homens. N'kee: veneno de ação lenta que se concentra nas glândulas suprarenais; uma das toxinas mais insidiosas permitidas sob os acordos da Paz da Corporação e as restrições da Grande Convenção (veja-se Guerra de Assassinos). Manual dos Assassinos — Hummmm, o imperador nunca morrerá, como bem sabe, Shaddam. — Hasimir Fenring, um homem miúdo de grandes olhos escuros e cara de doninha, estava sentado do outro lado do console e diante de seu visitante, o príncipe herdeiro Shaddam —. Ao menos enquanto for bastante jovem para desfrutar do trono.
Fenring observou com olhar penetrante que a bola negra pousava sobre um ponto de pouco valor. O herdeiro do Império, que tinha terminado seu turno, não estava nada satisfeito com o resultado. Tinham sido companheiros íntimos durante quase toda sua vida, e Fenring sabia muito bem como distrai-lo no momento preciso.
Da sala de jogos do luxuoso apartamento de cobertura de Fenring, Shaddam podia ver as luzes do palácio imperial de seu pai, que brilhavam sobre a ladeira da colina a um quilômetro de distância. Com a ajuda de Fenring se livrara de seu irmão mais velho Fafnir fazia muitos anos, mas o Trono do Leão Dourado parecia tão fora de seu alcance como sempre.
Shaddam saiu para o balcão e exalou um longo e profundo suspiro.
Era um homem de traços pronunciados, com mais de trinta anos, de queixo firme e nariz aquilino. Usava o cabelo avermelhado curto, engomado e em forma de capacete. Lembrava os bustos de seu pai esculpidos um século antes, durante as primeiras décadas do reinado de Elrood.
Começava a anoitecer, e duas das quatro luas de Kaitain apareciam no ciclo, do outro lado do gigantesco edifício imperial. Planadores iluminados sulcavam os calmos céus do ocaso, perseguidos por bandos de pássaros cantores. Nessas ocasiões, Shaddam precisava se afastar do enorme palácio.
— Cento e trinta e seis anos de reinado — continuou Fenring com seu tom nasal —. E o pai de Elrood governou durante mais de um século. Pense nisso, hummmm? Seu pai subiu ao trono quando só tinha dezenove anos, e você tem quase o dobro dessa idade. — O homem de rosto largo fitou seu amigo com seus grandes olhos negros —. Isso não o incomoda?
Shaddam não respondeu e fixou a vista na linha do horizonte, consciente de que devia retomar a partida, mas seu amigo e ele estavam metidos em jogos muito mais importantes.
Depois de longos anos de estreita associação, Fenring sabia que o herdeiro imperial era incapaz de concentrar-se em problemas complicados quando outras diversões o distraíam. Então, acabarei com esta distração.
— É minha vez — disse.
Fenring ergueu uma varinha em seu lado do globo escudo e a passou através do escudo para ativar um disco interior, o que fez uma bola negra situada no centro do globo levitar. Com um cálculo perfeito, Fenring retirou a varinha e a bola caiu no centro de um receptáculo oval, conseguindo assim a pontuação máxima.
— Maldito seja, Hasimir, outra partida perfeita para você — disse Shaddam enquanto voltava do balcão —. Não obstante, quando for imperador, será prudente o bastante para me deixar ganhar?
Os olhos do Fenring eram alertas e ferozes. Eunuco genético, incapaz, de gerar filhos devido a suas deformações congênitas, era um dos guerreiros mais mortíferos do Império, mais feroz que qualquer Sardaukar.
— Quando for imperador? — Fenring e o príncipe herdeiro compartilhavam
tantos segredos mútuos que nenhum dos dois ocultava nada ao outro —. Shaddam, escute o que estou dizendo, hummmm? —
Emitiu um suspiro de exasperação —. Tem trinta e quatro anos e ainda está esperando que sua vida comece, o que te corresponde por direito de nascimento, Elrood pode viver outras três décadas, no mínimo. É um velho burseg teimoso, e tendo em conta a quantidade de cerveja de especiaria que engole, é capaz de enterrar nós dois.
— Nesse caso, para que falar disso? — Shaddam brincava com os controles da máquina, demonstrando que queria jogar outra partida —.
Tenho aqui tudo que preciso. — Prefere jogar até ficar velho? Pensei que desejava coisas melhores, hummm? O destino de seu sangue Corrino.
— Ah, sim. E se não cumprir meu destino — disse Shaddam com amargura —, o que será de você?
— Ficarei muito bem, obrigado.
A mãe de Fenring tinha sido treinada na Bene Gesserit antes de entrar no serviço imperial como dama de companhia da quarta esposa de Elrood. Tinha lhe educado bem, preparando-o para grandes empresas.
Mas Hasimir Fenring estava aborrecido com seu amigo. Em certo momento, pouco antes de cumprir os vinte anos, Shaddam tinha ambicionado muito o trono imperial, até o ponto de inspirar Fenring a envenenar o filho mais velho do imperador, Fafnir, que naquela época tinha quarenta e seis anos e aguardava ansioso o momento da coroação.
Fazia quinze anos que Fafnir tinha morrido, mas o velho abutre não dava sinais de morrer. No mínimo, Elrood deveria abdicar por sua própria vontade. Enquanto isso, Shaddam tinha perdido a energia, e se contentava em desfrutar os prazeres que sua posição lhe proporcionava. Ser príncipe herdeiro facilitava a vida. Mas Fenring queria muito mais, para seu amigo e para ele.
Shaddam o fulminou com o olhar. Fala, a mãe do príncipe herdeiro, o rechaçara quando era pequeno (o único filho que tivera com Elrood), e tinha deixado que sua dama de companhia, Chaola Fenring, exercesse de nodriza. Desde meninos, Shaddam e Hasimir tinham falado sobre o que fariam quando o príncipe ocupasse o Trono do Leão Dourado. Imperador Padishah Shaddam IV.
Mas para Shaddam, tais conversas já não continham a magia de sua infância. Tinham passado muitos anos, uma excessiva espera sem objetivo.
A esperança e o entusiasmo tinham dado espaço à apatia. Por que não passar os dias jogando?
— Você é um bastardo — disse Shaddam —. Vamos jogar outra partida.
Fenring fechou o console ignorando a sugestão de seu amigo.
— Talvez, mas há muitos assuntos graves no Império que exigem atenção, e sabe tão bem como eu que seu pai é um incompetente. Se o diretor de uma empresa conduzisse seus negócios como seu pai governa o Império, seria destituído. Pense no escândalo da CHOAM, por exemplo, a operação de extração de pedras soo.
— Ah, sim. Tem toda a razão, Hasimir.
Shaddam exalou um profundo suspiro.
— Impostores nobres: um duque, uma duquesa... Toda uma família de farsantes, sob o nariz de seu pai. Quem vigiava? Agora desapareceram em um planeta que não se acha sob o controle imperial. Isso nunca deveria ter ocorrido, hummm? Imagine os benefícios perdidos para Buzzel e os sistemas anexos. No que Elrood estava pensando?
Shaddam afastou a vista. Não gostava de discutir sobre assuntos imperiais sérios. Davam-lhe dor de cabeça. Tendo em conta o vigor aparente de seu pai, esses detalhes pareciam longínquos e irrelevantes para ele.
Mas Fenring insistiu.
— Tal como estão as coisas, suas possibilidades são remotas. Cento e cinqüenta e cinco anos, e ainda goza de uma saúde excelente. Fondil III, seu predecessor, viveu cento e setenta e cinco anos. Qual é a idade máxima que um imperador Corrino alcançou?
Shaddam franziu o sobrecenho e lançou um olhar ofegante ao aparelho de jogo.
— Sabe que não dou atenção a essas coisas, nem sequer quando o preceptor se zanga comigo.
Fenring apontou com um dedo.
— Elrood viverá duzentos anos, não tenha dúvida. Tem um grave problema, meu
amigo... a menos que me escute.
Arqueou suas sobrancelhas finas.
— Ah, sim, mais ideias tiradas do Manual de assassinos, suponho.
Tome cuidado para que não o surpreendam lendo-o. Já sabe o castigo que se impõe pela posse de um livro proibido.
— As pessoas tímidas só estão destinadas a trabalhos tímidos.
Nossos futuros, Shaddam, são muito mais amplos. Pense nas possibilidades, hipotéticas, é obvio. Além disso, o que tem de mau o veneno? Funciona muita bem e só afeta à pessoa escolhida, tal como diz a Grande Convenção. Nem mortes colaterais, nem perda de ganhos, nem destruição de propriedades hereditárias. Limpo e rápido.
— Os venenos são empregados nos assassinatos entre as Casas, não para o que está pensando.
— Não se queixou quando me encarreguei de Fafnir, hummmm?
Agora teria mais de sessenta anos, e ainda não teria saboreado o trono.
Quer esperar tanto tempo?
— Basta — insistiu Shaddam, embora resignado —. Nem se atreva a imaginar isso. Não é justo.
— E é justo negar o que te corresponde por direito de nascimento?
Qual seria sua eficácia como imperador se não puder assumir o poder antes de ser um ancião senil como seu pai? Olhe o que aconteceu em Arrakis.
Quando substituímos Abulurd Harkonnen, o dano já era irremediável.
Abulurd não sabia usar o chicote assim os trabalhadores não o respeitavam.
Agora o barão o utiliza com excessiva prodigalidade, e a moral esta caindo, o que causa deserções e sabotagens cada vez mais freqüentes. Claro que não culpam os Harkonnen. Tudo aponta para seu pai, o imperador Padishah, e às decisões errôneas que tomou. — Baixou a voz —. Você tem que fazer isso pela estabilidade do Império.
Shaddam olhou para o teto, como se procurasse olhos espiões ou outros aparelhos de escuta, embora soubesse que Fenring escaneava com regularidade seu apartamento de cobertura e o protegia com escudos impenetráveis.
— Em que tipo de veneno está pensando? Só falando de um ponto de vista hipotético, é obvio.
Uma vez mais, olhou para o palácio imperial. O edifício resplandecente parecia um graal lendário, um troféu inalcançável. — Algo que aja lentamente, hummmm? Dará a impressão que Elrood está envelhecendo. Ninguém se perguntará o que ocorre, pois já é muito velho. Deixe que me encarregarei disso. Como futuro imperador, não deveria se preocupar com os detalhes desses assuntos. Sempre fui seu coordenador, lembra-se?
Shaddam mordiscou o lábio inferior. Ninguém no Império sabia mais coisas sobre esse homem que ele. Havia a possibilidade de que seu amigo o traísse algum dia? Sim... embora Fenring soubesse muito bem que seu melhor caminho para o poder era Shaddam, o desafio consistia em controlar a ambição do seu amigo, em estar sempre um passo adiante dele.
O imperador Elrood IX, sabedor das habilidades mortíferas de Fenring, o utilizara em certo número de bem-sucedidas operações clandestinas. Elrood chegara a suspeitar do papel de Fenring na morte do príncipe herdeiro Fafnir, mas aceitara como algo inerente à política do Império. Ao longo dos anos Fenring tinha assassinado uns cinqüenta homens e uma dúzia de mulheres, e algumas de suas vítimas tinham sido também seus amantes, sem distinção de sexo. Orgulhava-se de ser um assassino capaz de olhar sua vítima nos olhos ou de matar pelas costas, sem o menor remorso.
Havia dias em que Shaddam desejava que o ambicioso Fenring e ele nunca tivessem forjado uma amizade de infância, porque assim não teria que enfrentar escolhas difíceis. Shaddam deveria ter abandonado seu companheiro de berço desde que aprendeu a andar. Era perigoso relacionar-se com um assassino tão implacável, e em certas ocasiões se sentia envergonhado por sua relação.
Mas Fenring era seu amigo. Existia uma atração mútua, algo indefinível de que tinham falado algumas vezes sem chegar a conclusão alguma. Nesse momento, Shaddam considerava mais fácil aceitar a amizade (e para seu próprio bem, achava que fosse amizade) em lugar de tentar cortá-la, o que poderia ser extremamente perigoso.
Uma voz ao seu lado interrompeu seus pensamentos.
— Seu conhaque favorito, meu príncipe. Fenring lhe oferecia uma taça de conhaque kirano escuro.
Aceitou a taça, mas contemplou o líquido com suspeita, enquanto o remexia na taca. Detectava outra cor que não tinha terminado se mesclado?
Aproximou o nariz, inalou o aroma como se fosse um perito, embora o que tentava era detectar algum agente químico estranho. O conhaque parecia normal. Mas Fenring teria tomado todo tipo de precauções. Era um homem sutil e tortuoso.
— Posso chamar o provador se quiser. Eu nunca o envenenaria, Shaddam — disse Fenring com um sorriso de possesso —. Entretanto, seu pai se encontra em uma posição muito diferente.
— Ah, sim. Um veneno de ação lenta, você disse? Creio que já tem alguma substância em mente. Quanto tempo meu pai viverá depois de que tiver iniciado o processo? Se chegarmos a um acordo, quero dizer.
— Dois anos, possivelmente três. O suficiente para que seu declínio pareça normal.
Shaddam alisou o queixo se esforçando para compor uma pose majestosa. Sua pele estava perfumada, seu cabelo avermelhado oleado com gel e penteado para trás.
— Tem que saber que só abrigaria uma idéia tão traiçoeira pelo bem do Império... para evitar que meu pai continue cometendo trapalhadas.
Um sorriso matreiro se insinuou na cara de doninha.
— É obvio.
— Dois ou três anos — murmurou Shaddam —. Tempo suficiente para me preparar com vistas às grandes responsabilidades da liderança, suponho... enquanto você atende algumas das tarefas mais desagradáveis do Império.
— Não vai beber o conhaque, Shaddam?
Shaddam sustentou o olhar duro daqueles olhos enormes e sentiu um calafrio de medo em sua espinha dorsal. Áquela altura estava muito comprometido para não confiar em Fenring. Inalou uma baforada de ar e bebeu o saboroso licor.
Três dias depois, Fenring deslizou como um fantasma entre os escudos e detectores do palácio e se deteve ante o imperador adormecido, que roncava pesadamente.
Ninguém no universo se importa.
Nenhuma outra pessoa poderia entrar no dormitório do imperador.
Mas ele tinha seus métodos: um suborno aqui, um horário manipulado ali, uma concubina indisposta, um porteiro distraído, o chambelán enviado para um recado urgente. Tinha feito isso muitas vezes, preparando o inevitável.
Todos estavam acostumados a ver Fenring andando livremente pelo palácio, e sabiam que era melhor não fazer muitas perguntas. Agora, segundo seu cálculo preciso (do qual ate um Mentat se sentiria orgulhoso), Fenring contava com três minutos. Quatro, com sorte.
Tempo suficiente para mudar o curso da história.
Com o mesmo cálculo de tempo exato que demonstrara durante a partida com Shaddam, assim como com seus ensaios com manequins e duas desafortunadas criadas da cozinha, Fenring esperou imóvel, enquanto estudava a respiração da sua vítima como um tigre Laça a ponto de saltar.
Em uma mão sustentava uma longa agulha do tamanho de um microcabelo entre dois esbeltos dedos, e na outra segurava um tubo opaco. O velho Elrood estava de costas, na posição correta, como uma múmia, com a pele tensa sobre o crânio.
Guiado por uma mão segura, o tubo opaco se aproximou. Fenring contou, à espera...
Entre duas aspirações de Elrood, Fenring acionou uma alavanca do tubo e orvalhou o rosto do ancião com um potente jorro anestésico.
Não aconteceu nenhuma mudança visível em Elrood, mas Fenring sabia que o amortecedor nervoso tinha um efeito imediato. Em seguida, uma agulha autoguiada, fina como uma fibra, subiu pelo nariz do homem, atravessou suas cavidades nasais e se alojou no lóbulo frontal do cérebro.
Fenring não esperou mais de um instante para lançar a bomba de tempo química. Tudo acabou em questão de segundos. Sem provas nem dor. A maquinaria interna, indetectável e provida de múltiplas capas, se pôs em ação. O pequeno catalisador cresceria e multiplicaria os danos, como a primeira célula podre de uma maçã.
Cada vez que o imperador consumisse sua bebida favorita (a cerveja de especiaria), seu cérebro liberaria diminutas dose do veneno catalisador em seu fluxo sanguíneo. Em conseqüência, um componente normal da dieta do ancião se transformaria quimicamente em chaumurky: veneno administrado em uma bebida. Sua mente apodreceria pouco a pouco... uma metamorfose que seria muito agradável de contemplar.
Fenring adorava a sutileza. Kwisat Haderach: o caminho mais curto. É o nome dado pelas Bene Gesserit ao desconhecido para o que procuraram uma solução genética: um Bene Gesserit varão cujos poderes mentais e orgânicos podem fazer ponte no espaço e no tempo. Terminologia do Império
Era outra manhã gelada. O pequeno sol branco azulado de Laoujin banhava os telhados de terracota e dissipava a chuva.
A reverenda mãe Anirul Sadow Tonkin tinha fechado o pescoço de seu hábito negro para se proteger do vento úmido que soprava do sul e umedecia seu cabelo castanho curto. Caminhou rapidamente sobre os paralelepípedos molhados, em direção à porta arqueada do edifício administrativo das Bene Gesserit.
Chegava tarde e corria, apesar de ser um espetáculo indigno de uma mulher de sua categoria, como se fosse uma colegial ruborizada. A madre superiora e seu
conselho seleto estariam esperando na câmara, afim de celebrar uma reunião que não poderia começar sem Anirul. Só ela possuía as projeções de reprodução de toda a Irmandade, assim como o conhecimento total da Outra Memória.
O enorme complexo da Escola Materna de Wallach IX era a base das operações da Bene Gesserit no entroncamento do Império. Aqui se tinha erguido o histórico primeiro santuário da Irmandade, nos dias posteriores ao Jihad Butleriano, quando se fundaram as grandes escolas da mente humana. Alguns dos edifícios localizados no enclave de aprendizagem tinham milhares de anos, e os ecos de fantasmas e lembranças ressoavam em suas paredes. Outros tinham sido construídos em épocas mais recentes, com estilos muito similares aos originais. A aparência bucólica do complexo da Escola Materna obedecia um dos preceitos principais da Irmandade: mínima aparência, máximo conteúdo. O rosto de Anirul eram longo e estreito, o que proporcionava ao seu rosto a aparência de um gamo, mas seus olhos continham a sabedoria de milênios.
Os edifícios de estuque e madeira, uma combinação de estilos arquitetônicos clássicos, contavam com telhas de terra cor Siena cobertas de musgo, assim como com janelas duplamente seladas, desenhadas para aproveitar o máximo do calor e da luz naturais do diminuto sol. As ruas e ruelas, singelas e estreitas, em combinação com a aparência arcaica do centro de ensino, desmentiam as sutis complexidades e o peso da história que se repartiam no interior. Os visitantes altivos não ficavam impressionados, o que nada importava à Irmandade.
Ao longo e ao largo do Império, as Bene Gesserit passavam quase desapercebidas, mas sempre intervinham em assuntos vitais, inclinavam o equilíbrio político em momentos cruciais, observavam, agiam, conseguiam seus objetivos. Era muito melhor que outros as subestimassem. Dessa forma, as irmãs encontravam menos obstáculos.
Apesar das suas deficiências e dificuldades superficiais, Wallach IX
continuava a ser o lugar perfeito para desenvolver os músculos psíquicos exigidos pelas reverendas mães. O complexo vigamento de estruturas e trabalhadores do planeta era muito valioso, muito enraizado na história e na tradição para ser substituído. Sim, havia climas mais benignos em planetas mais hospitaleiros, mas qualquer irmã que não fosse capaz de suportar estas condições não tinha lugar entre as dificuldades, os ambientes hostis e, com freqüência, as dolorosas decisões que uma verdadeira Bene Gesserit devia enfrentar.
A reverenda mãe Anirul controlou sua respiração entrecortada e subiu os degraus, escorregadios por causa da chuva, do edifício administrativo e logo se
deteve para olhar para a praça. Manteve as costas bem eretas, mas sentia todo o peso da história e da memória, e para uma Bene Gesserit existia pouca diferença entre ambas. As vozes de gerações anteriores despertavam ecos na Outra Memória, uma cacofonia de sabedoria, experiência e opiniões acessíveis a todas as reverendas mães, em especial a Anirul.
Naquele mesmo lugar, a primeira madre superiora, Raquell Berto Anirul (cujo sobrenome Anirul tinha adotado), fizera seus lendários discursos ao embrião da Irmandade. Raquell tinha forjado uma nova escola a partir de um grupo de irmãs desesperadas e dóceis que ainda não tinham se livrado do jugo de séculos de máquinas pensantes.
Teria consciência do que estava iniciando tanto tempo atrás?, perguntou-se Anirul. Tantos desejos e tantos planos que apoiou em uma única e secreta esperança. Em certas ocasiões, a presença da madre superiora Raquell lhe respondia. Mas hoje não.
Graças à capacidade de acessar à multidão de memórias vitais enterradas em sua psique, Anirul sabia qual era o degrau exato que sua ilustre antecessora tinha pisado, e pôde ouvir suas palavras exatas. Um calafrio a obrigou a deter-se. Embora fosse jovem em anos e de pele suave, albergava certa velhice, como todas as reverendas madres vivas, mas nela as vozes falavam mais alto. Era tranqüilizador contar com aquela turba de lembranças que forneciam conselho em tempos de necessidade. Impediam que cometesse enganos fatais.
Mas Anirul seria acusada de distração e atraso imperdoáveis se não fosse à reunião. Algumas diziam que era muito jovem para ser a Madre Kwisatz, mas a Outra Memória lhe tinha revelado mais que a qualquer outra irmã. Compreendia a preciosa busca, que remontava a muitos séculos, do Kwisatz Haderach melhor que as outras reverendas madres, porque as vidas anteriores lhe tinham revelado tudo, ao mesmo tempo em que ocultavam os detalhes a maior parte das Bene Gesserit. A idéia de um Kwisatz Haderach tinha sido o sonho da Irmandade durante milhares e milhares de anos, concebido em reuniões clandestinas até antes da vitória do Jihad. A Bene Gesserit tinha muitos programas de reprodução dirigidos a selecionar e potencializar diversas características da humanidade, e ninguém os compreendia em sua totalidade, mas as linhas genéticas do programa messiânico constituíam o segredo melhor guardado na história documentada do Império, tão secreto que até as vozes da Outra Memória se negavam a divulgar os detalhes.
Entretanto, tinham revelado a Anirul o projeto em sua totalidade, e a mulher
compreendia todas as implicações. Tinha sido escolhida como a Madre Kwisatz desta geração, a guardiã do objetivo mais importante da Bene Gesserit.
Não obstante, o prestígio e o poder não a desculpavam de chegar tarde às reuniões do conselho. Havia muitas madres que ainda a consideravam jovem e impetuosa.
Abriu uma pesada porta, coberta de hieróglifos em uma língua que só as reverendas madres recordavam, e entrou em um vestíbulo onde outras dez irmãs, vestidas com hábitos negros providos de capuz como o seu, aguardavam reunidas. Um murmúrio das conversas ressoava no edifício. “É
possível ocultar tesouros no interior de uma concha gasta e carente de pretensões”, rezava um dito popular da Bene Gesserit.
As irmãs se afastaram para abrir caminho a Anirul. Apesar de seu corpo ser alto e ossudo, Anirul conseguia conferir graça a seus movimentos, mas não lhe era fácil. Seguiram-na entre sussurros quando entrou na câmara octogonal, o lugar de reunião das dirigentes da antiga ordem. Seus passos arrancaram rangidos do chão de madeira e a porta se fechou a suas costas. Bancos de madeira branca de Elacca ladeavam a sala. A madre superiora Harishka estava sentada em um, como uma irmã comum. De ascendência mestiça, que revelava linhagens diversas da humanidade, a madre superiora era velha e encurvada, e seus olhos de cor amêndoa vigiavam sob seu capuz negro.
As irmãs se dirigiram para os lados da sala e tomaram assento nos bancos, assim como a madre superiora. Aos poucos o roçar dos hábitos cessou e ninguém mais falou. O velho edifício rangeu. Fora, caíam silenciosas cortinas de água que cobriam a luz branco azulada do sol.
— Anirul, espero seu relatório — disse por fim a mãe superiora, com um leve tom de irritação devido a seu atraso. Harishka era a superiora de toda a Irmandade, mas Anirul estava investida de toda a autoridade para tomar decisões sobre o projeto —. Você nos prometeu um resumo das projeções genéticas.
Anirul ocupou seu posto, no centro da sala. O teto abobadado se abria como uma flor até o extremo superior das vidraças góticas. Em cada seção de janela, os vitrais apresentavam os emblemas familiares das grandes líderes históricas da ordem.
Anirul respirou fundo para combater o nervosismo e emudecer a multidão de vozes que tagarelavam em seu interior. Muitas irmãs não gostariam do que ia
dizer. Embora as vozes de vidas passadas lhe oferecessem consolo e apoio, ia expor sua análise particular da situação, e deveria defendê-la. Ao mesmo tempo, teria que ser sincera. A madre superiora era uma especialista em não deixar escapar o menor engano. A madre superiora anotava tudo, e seus olhos amendoados brilhavam de expectativa e impaciência.
Anirul pigarreou e iniciou seu relatório com um sussurro que chegou a todos os ouvidos da sala mas a nenhum lugar mais. Nada escapava para que fosse captado por aparelhos de escuta ocultos. Todas conheciam seu trabalho, mas lhes proporcionou todos os detalhes, para sublinhar a importância do que ia dizer.
— Milhares de anos de cuidadosa reprodução nos aproximaram mais que nunca do nosso objetivo. Durante noventa gerações, um plano iniciado antes que os guerreiros butlerianos nos conduzissem à libertação das máquinas pensantes, a Irmandade planejou criar nossa própria arma. Nosso próprio super ser, que estenderá pontes no tempo e espaço com sua mente.
Suas palavras ressoaram. As outras Bene Gesserit não se moveram, apesar de parecerem aborrecidas com seu resumo do projeto. Muito bem, darei algo que alimentará suas esperanças.
— Mediante o DNA calculo que estamos a apenas três gerações do êxito. — Seu pulso se acelerou —. Logo teremos nosso Kwisatz Haderach.
— Seja precavida quando falar da mãe de todos os segredos —
advertiu a madre superiora, mas sua severidade não conseguiu ocultar sua saturação.
— Sou precavida com todos os aspectos de nosso programa, madre superiora — replicou Anirul em um tom excessivamente altivo. Reprimiu-se, apagou toda expressão de seu rosto, mas as demais já tinham percebido o deslize. Correriam murmúrios sobre sua insolência, sua juventude, sua falta de preparação para um papel tão importante —. Por isso estou tão certa do que devemos fazer. As amostras genéticas foram analisadas, todas as possibilidades projetadas. O caminho está mais livre de obstáculos que nunca.
Muitas irmãs antes que ela tinham trabalhado para alcançar aquele objetivo incrível, e agora seu dever consistia em administrar as decisões finais sobre a reprodução, assim como fiscalizar o nascimento e educação de uma nova menina, que seria com toda probabilidade a avó do Kwisatz Haderach.
— Tenho os nomes dos consortes genéticos finais — anunciou Anirul —. Nosso
índice de emparelhamentos indica que contam com as maiores probabilidades de êxito.
Fez uma pausa para saborear a atenção absoluta de todas as irmãs.
Qualquer forasteiro teria pensado que Anirul era apenas mais uma reverenda madre, que não se distinguia em nada das outras irmãs nem possuía nenhum talento especial. As Bene Gesserit eram especialistas em guardar segredos, e a Mãe Kwisatz era um dos mais importantes.
— Necessitamos de uma linhagem em particular de uma Casa antiga.
Este produzirá uma filha, nosso equivalente à mãe da Virgem Maria, que logo deverá aceitar o homem que escolhermos. Estes dois serão os avós e sua descendência, também uma filha, será preparada aqui, em Wallach IX. Esta mulher Bene Gesserit será a mãe de nosso Kwisatz Haderach, um menino que nós educaremos, sob nosso completo controle.
Anirul deixou escapar estas últimas palavras com um lento suspiro, e refletiu sobre a enormidade do que havia dito.
Apenas mais algumas décadas, e o assombroso nascimento aconteceria, provavelmente durante a vida de Anirul. Enquanto voltava ao passado por meio dos túneis da Outra Memória e se conscientizava do tecido temporal estendido em preparação desse acontecimento, Anirul compreendeu quão afortunada era por viver nessa época. No interior de sua mente, suas predecessoras formavam uma cauda espectral que observavam e aguardavam ansiosas.
Quando o programa de reprodução desse seus frutos por fim, já não seria preciso que as Bene Gesserit continuassem existindo como uma presença sutil e manipuladora na política do Império. Tudo lhes pertenceria, e o arcaico sistema feudal galáctico cairia.
Embora ninguém falasse, Anirul detectou preocupação nos olhos de suas irmãs, acossadas por uma dúvida que nenhuma se atrevia a expressar.
— E qual é esta linhagem? — perguntou a madre superiora.
Anirul não vacilou e se ergueu ainda mais.
— Temos que obter uma filha do... barão Vladimir Harkonnen.
Leu surpresa nos rostos. Os Harkonnen? Tinham sido incluídos nos programas de
reprodução, é obvio, como todas as Casas do Landsraad, mas ninguém tinha imaginado que O Salvador das Bene Gesserit viesse da semente de semelhante homem. O que pressagiava tal linhagem para o Kwisatz Haderach? Se nascesse um super-homem da estirpe Harkonnen, as Bene Gesserit seriam capazes de controlá-lo?
Todas estas perguntas, e muitas outras, circularam entre as irmãs, sem que nenhuma emitisse o menor som, nem sequer um sussurro direto.
Anirul compreendeu com clareza.
— Como todas sabem — disse por fim —, o barão Harkonnen é um homem astuto e manipulador. Embora tenhamos certeza de que se encontra informado dos numerosos programas de reprodução das Bene Gesserit, não podemos lhe revelar nosso plano, mas temos que imaginar uma forma que deixe grávida à irmã escolhida sem lhe explicar o motivo.
A mãe superiora franziu seus lábios.
— Os apetites sexuais do barão se concentram exclusivamente em homens e rapazes. Não aceitará uma amante feminina, sobretudo se nós a impusermos.
Anirul assentiu.
— Nossas capacidades de sedução serão postas a prova como nunca.
— Dirigiu um olhar desafiante à reverenda madre —. Mas não tenho dúvida que, com todos os recursos das Bene Gesserit, acharemos uma forma de dobrá-lo. Como reação ao estrito tabu butleriano contra as máquinas que realizam funções mentais, certo número de escolas desenvolveram seres humanos aperfeiçoados, com o fim de que assumissem a maioria das tarefas que eram executadas pelos ordenadores. Algumas das principais escolas que nasceram do Jihad incluem as Bene Gesserit, com sua preparação física e mental intensiva, a Corporação Espacial, com sua capacidade presciente de localizar atalhos seguros entre as dobras espaciais, e os Mentat, cujas mentes similares a ordenadores são capazes de proezas de raciocínio extraordinárias. Ikbhan, Tratado sobre a mente, volume I
Enquanto se preparava para ausentar-se de seu lar durante um ano inteiro, Leto tentava aferrar-se a sua confiança em si mesmo. Sabia que era um passo muito importante e compreendia por que seu pai tinha escolhido IX como centro de estudos. Mas sentiria falta de Caladan.
Não era a primeira viagem do jovem herdeiro ducal a um sistema estelar diferente. Leto e seu pai tinham explorado os múltiplos mundos de Gaar e o planeta Pilargo, envolto em névoas perenes, que se considerava a origem dos primitivos caladanos, mas não tinham sido mais que meras excursões, embora sempre emocionantes.
Entretanto, a perspectiva de ausentar-se durante tanto tempo, e sozinho, angustiava-o mais do que esperava, embora não se atrevesse a admitir. Algum dia serei duque.
Vestido com seus melhores ornamentos, Leto aguardava no espaçoporto municipal de Baia, acompanhado do velho duque, a chegada da lançadeira que o transportaria até um Cruzeiro da Corporação. Duas malas antigravitacionais flutuavam perto de seus pés.
Sua mãe tinha sugerido que tivesse criados, caixas cheias de roupas e jogos, e provisões de boa comida caladana, mas Paulus, entre gargalhadas, tinha explicado que quando tinha a idade do Leto tinha sobrevivido meses em um campo de batalha com o escasso conteúdo de sua mochila. Não obstante, insistiu que Leto levasse uma das facas de pesca tradicionais em Caladan em uma bainha presa em suas costas.
Leto concordou com seu pai, como de costume, e decidiu levar pouca bagagem. Além disso, IX não era um planeta ermo, mas uma potência industrial. Não sofreria muitas privações enquanto estudava. Em público, lady Helena suportava a decisão com elegância e estoicismo. Incorporou-se ao grupo que se despedia de Leto vestida com seus melhores ornamentos e uma capa resplandecente. Embora o futuro duque soubesse que sua mãe sofria por seu bem-estar, lady Atreides não traiu em nenhum momento seus sentimentos.
Leto ajustou as lentes dos prismáticos de seu pai e as enfocou nos vestígios da noite. Um ponto brilhante se movia diante das estrelas. Quando ajustou a teleobjetiva, o ponto cresceu até que Leto reconheceu um Cruzeiro em órbita baixa, rodeado pela mancha tremula de um sistema defensivo protetor.
— Está vendo? — perguntou Paulus, de pé junto ao seu filho.
— Está ali, com todos os escudos ativados ao máximo. Preocupam-se com alguma ação militar? Aqui?
Tendo em conta as graves conseqüências políticas e econômicas, Leto não podia
imaginar que alguém se atrevesse a atacar uma nave da Corporação. Embora a Corporação Espacial não mantivesse nenhum poder militar próprio, podia enfraquecer qualquer sistema solar, mediante a anulação dos serviços de transporte. Com seus complexos mecanismos de vigilância, a Corporação era capaz de seguir o rastro e identificar qualquer atacante e enviar mensagens ao imperador, que por sua vez mandaria os Sardaukar imperiais, segundo os acordos de um tratado mútuo.
— Nunca subestime as táticas do desespero, filho — disse Paulus, sem dar mais explicações. Em algumas ocasiões tinha contado ao seu filho historias de falsas acusações contra particulares, situações tramadas no passado para eliminar inimigos do imperador ou da Corporação.
Leto pensou em tudo o que ia abandonar, e o que mais ia sentir falta seria a perspicácia de seu pai, as breves mas sagazes lições que o velho duque lhe dava quando menos esperava.
— O Império funciona além das leis — continuou Paulus —. Uma base igualmente forte é a rede de alianças, favores e propaganda religiosa.
As crenças são mais poderosas que os fatos.
Leto contemplou a nave, magnífica e longínqua, e franziu o cenho.
Às vezes era difícil diferenciar a verdade da ficção...
Viu que um ponto alaranjado aparecia debaixo da enorme nave. A cor se transformou em uma mancha de luz descendente, que tomou a forma de uma lançadeira, que não demorou para flutuar sobre o campo de aterrissagem da Baía. Quatro gaivotas brancas revoaram ao seu redor, aproveitando as correntes de ar produzidas pela lançadeira em sua descida, e depois se dirigiram para os escarpados.
Um escudo brilhou e se apagou ao redor da lançadeira. A brisa salgada da manhã agitava os estandartes que enfeitavam as sebes do espaçoporto. A lançadeira, uma nave branca em forma de bala, flutuou para a plataforma de embarque, onde Leto e seu pai se mantinham afastados da guarda de honra. Uma multidão de curiosos saudava e gritava do perímetro da pista de aterrissagem. A nave e a plataforma se conectaram, e uma porta se abriu na fuselagem.
Sua mãe avançou para despedir-se e o abraçou sem dizer uma palavra. Tinha ameaçado presenciar sua partida de uma torre do castelo, mas Paulus a
convencera a ir ao espaçoporto. A multidão o aclamou e se despediu aos gritos. O duque Paulus e lady Helena seguraram sua mão.
— Lembre-se do que te disse, filho — disse Paulus, em referência aos numerosos conselhos que tinha dado durante os últimos dias —.
Aprenda sobre IX, aprenda tudo.
— Mas use a cabeça para discernir o que é verdade — acrescentou sua mãe.
— Sempre — respondeu —. Sentirei falta dos dois. Tentarei fazê-los sentir orgulho de mim.
— Já sentimos, filho.
O ancião retrocedeu para a escolta. Trocou saudações Atreides com o rapaz (a mão direita aberta junto à têmpora), e todos os soldados o imitaram. A seguir Paulus avançou para abraçar Leto.
Momentos depois, a lançadeira pilotada automaticamente se elevou sobre os escarpados negros, o mar bravio e as terras férteis de Caladan.
Leto estava sentado em uma poltrona do salão de observação, e olhava por uma janela. Quando a nave alcançou a escuridão anil do espaço, viu a silhueta metálica do Cruzeiro da Corporação, e em sua superfície o sol cintilava.
Quando se aproximaram, um buraco se abriu na parte inferior. Leto respirou fundo, e a imensa nave engoliu a lançadeira. Pensou no que tinha visto em um videolivro sobre Arrakis, a cena de um verme de areia tragando um recolector de especiaria. A metáfora o inquietou.
A lançadeira deslizou com suavidade no mole de acoplamento de uma nave de passageiros Wayku, pendurado em seu ancoradouro dentro do Cruzeiro. Leto subiu a bordo, seguido de suas malas flutuantes, e decidiu seguir as instruções de seu pai. Aprenda de tudo. Sua decidida curiosidade afugentou seus temores, e Leto subiu por uma escada até o salão de passageiros principal, onde encontrou assento em um banco junto a outra janela. Dois mercadores de pedras soo estavam sentados perto, e sua conversa veloz estava salpicada de gíria. O velho Paulus queria que Leto se valesse por si só, e para enriquecer a experiência Leto viajava como um passageiro normal, sem luxos especiais, pompa nem séquito, nem a menor indicação de que era filho de um duque.
Sua mãe teria se horrorizado.
A bordo da nave, vendedores Wayku usando óculos escuros e fones de ouvido passavam de passageiro em passageiro, vendendo pratos prontos e beberagens perfumadas a preços exorbitantes. Leto rechaçou com um gesto um vendedor persistente, embora os caldos e as brochetas de carne assada cheirassem muito bem. Ouviu a música que soava nos fones do homem e viu que sua cabeça, ombros e pés se moviam ao ritmo da música que seu cérebro recebia. Os Wayku trabalhavam e atendiam os clientes, mas conseguiam viver em sua própria cacofonia sensorial. Preferiam o universo interior a qualquer espetáculo exterior.
A nave, que controlava os Wayku para a Corporação, transportava passageiros de um sistema a outro. Os Wayku, uma desafortunada Grande Casa cujos planetas tinham sido destruídos durante a Terceira Guerra do Saque de Carvão, agora eram ciganos e viviam como nômades a bordo dos Cruzeiros da Corporação. Embora antigas condições de rendição proibissem os membros de sua raça a pisar em qualquer planeta do Império, a Corporação lhes concedera asilo, por motivos ignorados. Durante gerações, os Wayku não demonstraram o menor interesse em solicitar ao imperador a anistia ou a revogação daquelas severas restrições.
Leto olhou pelo guichê do salão e viu a área de carga do Cruzeiro iluminada, uma câmara de vazio tão grande que, em comparação, a zona de passageiros parecia um grão de arroz. Viu o teto sobre sua cabeça, mas não as paredes, a quilômetros de distância. Outras naves, grandes e pequenas, estavam estacionadas ali, fragatas, cargueiros, lançadeiras e couraçados.
Pilhas de caixas amarradas juntas (contêineres sem piloto desenhados para levar material de uma órbita baixa à superfície de um planeta) estavam penduradas junto às principais escotilhas exteriores.
Normas da Corporação, gravadas em cristais ridulianos fixados na parede principal de cada sala, proibiam aos passageiros abandonar o isolamento de sua zona. Leto vislumbrou pelos guichês adjacentes os passageiros de outra zona, uma mistura de raças que se dirigiam a todos os cantos do Império.
Os garçons Wayku finalizaram seu primeiro turno de serviço, e os passageiros esperaram. A viagem através da dobra espacial não durava mais de uma hora, mas em certas ocasiões os preparativos da partida exigiam dias.
Por fim, sem qualquer anúncio, Leto detectou uma tênue vibração que parecia provir de muito longe. Sentiu-o em todos os músculos do seu corpo. — Devemos estar viajando — disse um dos mercadores de pedras soo, que não pareciam nada impressionados. A julgar pela rapidez com que desviou a vista e a
forma estudada com que ignoraram o fato, Leto pensou que o mercador devia considerá-lo um caipira analfabeto.
Em uma câmara isolada situada sobre a nave, um Navegador da Corporação, submerso em um contêiner de gás saturado de melange, começou a vasculhar o espaço com sua mente. Vislumbrou e teceu um caminho seguro através do tecido do espaço tempo, que transportaria o Cruzeiro e seu conteúdo até distâncias imensas.
Na noite anterior, enquanto jantavam no castelo, a mãe de Leto perguntou se esses Navegadores violavam de algum modo a interação homem máquina proibida pelo Jihad Butleriano. Sabendo que Leto logo estaria em IX e correria o risco de se corromper, formulou com tom inocente a sugestão enquanto mastigava uma parte do peixe grelhado enfeitado com suco de limão. Costumava utilizar um tom mais razoável para lançar suas afirmações provocadoras. O efeito foi o mesmo de lançar um penhasco em um lago de águas serenas.
— Que tolice, Helena! — saltou Paulus enquanto secava a barba com um guardanapo —. Onde estaríamos sem os Navegadores?
— Só porque se acostumou com alguma coisa, isso não a transforma em correta, Paulus. A Bíblia Católica Laranja não diz nada a respeito das conveniências pessoais definirem a moralidade.
Antes que seu pai se metesse numa discussão, Leto interveio.
— Pensei que os Navegadores só viam um caminho, um caminho seguro. De fato, são os geradores Holtzman que controlam a nave. —
Decidiu acrescentar um trecho que recordava da Bíblia —: “O senhor supremo do mundo material é a mente humana, e as bestas do campo e as máquinas da cidade devem estar subordinadas a ela eternamente”.
— É obvio, querido — disse sua mãe, e abandonou o tema.
Não notou nenhuma mudança de sensação quando entraram na dobra espacial. Antes que Leto se desse conta, o Cruzeiro chegou a outro sistema solar, Harmonthep.
Uma vez ali, Leto teve que esperar mais cinco horas, enquanto entravam e saíam da área de carga do Cruzeiro naves de carga e lançadeiras, assim como transportes e uma superfragata. Depois, a nave da Corporação se afastou de novo, dobrou o espaço até chegar a um novo sistema solar (desta vez, Kirana
Aleph), onde o ciclo se repetiu.
Leto tirou uma sesta nos compartimentos de dormir, e depois saiu para comprar duas brochetas de carne fumegante e uma potente taça de tee.
Sua mãe teria gostado que guardas da Casa Atreides o escoltassem, mas Paulus tinha insistido que só havia uma maneira de que seu filho aprendesse a cuidar de si mesmo. Leto tinha um programa e instruções, e tinha jurado ater-se a elas.
Por fim, na terceira parada, uma tripulante Wayku ordenou a Leto que descesse três níveis e subisse em uma lançadeira automática. Tratava-se de uma mulher de aspecto severo, vestida com um uniforme chamativo, e parecia não estar de humor para conversa. Música melódica surgia de seus fones de ouvido.
— Estamos em IX? — perguntou Leto enquanto agarrava suas malas antigravitacionais, elas o seguiram quando se moveu.
— Estamos no sistema do Alkaurops — anunciou a mulher. Não podia ver seus olhos, ocultos atrás óculos escuros —. IX é o nono planeta.
Desembarcará aqui. Já lançamos as caixas de carga.
Leto obedeceu e se encaminhou para a lançadeira indicada, embora desejasse ter recebido mais informações. Não sabia muito bem o que devia fazer quando chegasse ao planeta industrializado de alta tecnologia, mas supôs que o conde Vernius o receberia, ou ao menos enviaria alguém em seu lugar.
A lançadeira automática saiu do interior do Cruzeiro para a superfície de um planeta coberto de montanhas, gelo e nuvens. A lançadeira funcionava de acordo com um número limitado de instruções, e a conversa não estava incluída em seu repertório de habilidades. Leto era o único passageiro à bordo, ao que parecia era a única pessoa que viajava para IX. O planeta recebia pouquíssimos visitantes.
Enquanto olhava pela janela, Leto experimentou a horrível sensação de que algo tinha saído errado. A lançadeira Wayku se aproximava de uma elevada mesa de bosques alpinos que cresciam em vales resguardados. Não viu edifícios, nenhuma das grandes estrutura ou fábricas que tinha esperado. Não havia fumaça no ar, nem cidades, nem o menor sinal de civilização.
Aquele não podia ser o mundo industrializado de IX. Olhou em redor, tenso, preparado para defender-se. Teria sido traído? Teria sido atraído até ali para serabandonado?
A lançadeira se deteve sobre uma planície árida, semeada de rochas de granito e pequenos brotos de flores brancas.
— Deve desembarcar aqui, senhor — anunciou o robopiloto com voz sintética.
— Onde estamos? — perguntou Leto —. Meu destino é a capital de IX.
— Devem desembarcar aqui.
— Responda! — Seu pai teria utilizado uma voz ensurdecedora para impedir qualquer resposta, mesmo daquela estúpida máquina —. Isto não pode ser a capital de IX. Olhe ao redor!
— Têm dez segundos para descer da nave, senhor, ou será expulso à força. Os horários da Corporação são muito estritos. O Cruzeiro já está preparado para partir para um novo sistema.
Leto amaldiçoou a si mesmo, deu um empurrão em suas malas e saiu à superfície coberta de penhascos. Ao fim de poucos segundos, a nave branca em forma de bala se elevou e diminuiu até transformar-se em um ponto de luz alaranjada no céu, antes de desaparecer de vista por completo.
O par de malas o seguiu, e um vento limpo revolveu seu cabelo. Leto estava sozinho.
— Olá? — gritou, mas ninguém respondeu.
Estremeceu quando viu as escarpadas montanhas polvilhadas de neve e gelo glacial. Impressionavam, um planeta oceânico em sua maior parte, tinha poucas montanhas que alcançassem aquela altitude. Mas não tinha vindo para ver montanhas.
— Olá! Sou Leto Atreides, de Caladan! — gritou —. Há alguém aqui?
Um funesto presságio angustiou seu peito. Estava longe de seu lar, em um planeta desconhecido, sem meios de averiguar onde se encontrava.
IX é isto? O vento era frio e penetrante, mas na planície reinava um detestável silêncio.
Tinha passado a vida escutando o sussurro do oceano, as canções das gaivotas e o agitação dos aldeãos. Ali não via nada, nenhum comitê de boas-vindas, nem sinais de civilização. O planeta parecia virgem e vazio!
Se me abandonaram aqui, alguém poderá me encontrar?
Espessas nuvens ocultavam o céu e um sol longínquo. Estremeceu de novo e se perguntou o que fazer, para onde ir. Se queria ser duque, tinha que aprender a tomar decisões.
Começou a nevar. O pincel da história pintou Abulurd Harkonnen da forma mais desfavorável possível. Julgado pelos patrões de seu meio-irmão mais novo, o barão Vladimir, e de seus filhos, Glossu Rabban e Feyd Rautha Rabban, Abulurd era um tipo de homem muito diferente. Entretanto, devemos analisar as freqüentes descrições de sua fraqueza, incompetência e decisões equivocadas à luz do fracasso fundamental da Casa Harkonnen. Embora exilado em Lankiveil e despojado de todo poder real, Abulurd conseguiu uma vitória que nenhum membro de sua extensa família conseguiu igualar: aprendeu a ser feliz com sua vida. Enciclopédia do Landsraad das Grandes Casas, edição post Jihad Embora os Harkonnen fossem formidáveis adversários no campo das manipulações, do subterfúgio e da desinformação, as Bene Gesserit eram as mestras indiscutíveis.
Na intenção de dar o próximo passo em seu ambicioso programa de reprodução, um projeto em que tinham trabalhado durante dez gerações antes da queda das máquinas pensantes, a Irmandade precisava encontrar algo que obrigasse ao barão a render-se a sua vontade.
Não demoraram muito em descobrir o ponto fraco da Casa Harkonnen.
A jovem irmã da Bene Gesserit Margot Rashino Zea se apresentou como nova criada no frio e inóspito Lankiveil, e assim se infiltrou no lar de Abulurd Harkonnen, o meio-irmão do barão. A bela Margot, selecionada em pessoa pela Mãe Kwisatz Anirul, tinha sido adestrada nas diversas formas de espiar e obter informação, de relacionar ínfimos dados desconexos para fazer uma idéia mais ampla.
Também conhecia sessenta e três formas de matar um ser humano só com os dedos. As irmãs se esforçavam por manter sua aparência de sisudas intelectuais, mas também tinham seus comandos. A irmã Margot era uma das melhores.
A casa principal de Abulurd Harkonnen se assentava sobre uma abrupta língua de terra que penetrava na água, ladeada pelo estreito fiorde de Tula. Um povoado
de pescadores rodeava a mansão de pedra. As granjas se encontravam terra adentro, nos vales estreitos e rochosos, mas quase todos os mantimentos do planeta procediam do mar gélido. A economia do Lankiveil se apoiava na frutífera indústria de peles de baleia.
Abulurd vivia na base das montanhas, cujas cúpulas muita poucas vezes se viam, devido às eternas nuvens de um tom cinza aço e a névoa perpétua. A casa principal e o povoado circundante eram o mais parecido a uma capital que aquele planeta fronteiriço podia oferecer.
Como chegavam poucos forasteiros, Margot tomou precauções para evitar que reparassem nela. Era mais alta que a maioria dos nativos, corpulentos e musculosos, de modo que andava um pouco encurvada.
Tingiu de escuro o cabelo cor de mel e o usava hirsuto e desgrenhado, como muitos aldeãos. Aplicou produtos químicos em sua pele suave e pálida, até que adotou um tom mais escuro e aparentou estar curtida pela intempérie. Integrouse ao ambiente e todo mundo a aceitou sem olhar duas vezes. Para uma mulher treinada pela Irmandade, manter o engano foi fácil.
Margot só era uma mais das numerosas espiões Gesserit enviadas às posses dos Harkonnen, e sua missão consistia em examinar toda a documentação referente a seus negócios. O barão carecia de motivos para suspeitar de uma investigação naquele momento (tivera poucos contatos com a Irmandade), mas se alguma das espiãs era descoberta, o malvado e vicioso homem não duvidaria em torturá-la até receber explicações. Por sorte, pensava Margot, qualquer Bene Gesserit bem treinada podia parar seu coração muito antes de que a dor a obrigasse a revelar segredos.
Por tradição, os Harkonnen eram propensos às manipulações e a ocultação, mas Margot sabia que encontraria a prova acusatória necessária.
Embora outras irmãs tinham proposto procurar o mais perto possível do centro de suas operações, Margot tinha chegado à conclusão que Abulurd era o objetivo perfeito. Afinal, o meio-irmão do barão tinha dirigido as operações relacionadas com a especiaria de Arrakis durante sete anos.
Tinha que contar com alguma informação. Se escondiam algo, o barão o faria aqui, debaixo do nariz de Abulurd.
Uma vez que as Bene Gesserit descobrissem alguns erros dos Harkonnen e conseguissem provas das indiscrições econômicas do barão, disporiam da arma decisiva para chantageá-lo e levar adiante seu programa de reprodução.
Margot, vestida como qualquer aldeã com peles e lãs tingidas, deslizou no interior da rústica mansão. Era um edifício alto, construído com madeira escura. Em todas as habitações, os lares impregnavam o ar de fumaça resinosa e os globos luminosos, de um tom laranja amarelado, faziam o possível por imitar à luz do sol.
Margot limpava, tirava o pó, ajudava na cozinha... e procurava relatórios econômicos. Por dois dias seguidos, o meio-irmão do barão a saudou com um sorriso cordial. Não notou nada estranho. Era um tipo crédulo, que pelo visto não preocupava com sua segurança, e permitia que aldeãos e forasteiros entrassem nas dependências principais e quartos de convidados de sua mansão, mesmo que se acotovelassem com ele. Seu cabelo era loiro cinzento, comprido até os ombros, e um rosto corado e enrugado que sempre exibia um meio sorriso. Dizia-se que tinha sido o favorito de seu pai Dimitri, que tinha incentivado Abulurd a tornar-se responsável pelas posses dos Harkonnen... mas Abulurd tinha tomado muitas decisões erradas, apoiadas nas pessoas e não nas exigências comerciais. Isso tinha provocado sua queda.
Vestida com as grossas e andrajosas roupas de Lankiveil, Margot mantinha fixos no chão seus olhos verde-acinzentados, ocultos atrás de óculos que os faziam parecer castanhos. Poderia ter se transformado em uma beldade loira, e de fato tinha considerado a possibilidade de seduzir Abulurd e lhe soltar a língua, mas ao final tinha descartado o plano. O
homem parecia devoto de corpo e alma a sua rechonchuda esposa, Emmi Rabban, a mãe de Glossu Rabban. Apaixonou-se por ela em Lankiveil fazia muito tempo, contraído matrimônio para decepção de seu pai e viajado com ela de planeta em planeta ao longo de sua carreira caótica. Abulurd parecia insensível a toda sedução feminina que não fosse a de sua mulher, Por isso, Margot utilizou encantos simples e uma silenciosa inocência para obter acesso a relatórios econômicos escritos, livros poeirentos e salas de inventário. Ninguém a atrapalhou.
Com o tempo, e aproveitando qualquer oportunidade, encontrou o que necessitava. Utilizou técnicas de memorização foto instantânea aprendidas em Wallach IX e examinou cristais ridulianos gravados, absorveu colunas de cifras, manifestos de carga, listas de equipes confiscadas ou postos em serviço, perdas suspeitas e danos produzidos por tormentas.
Em habitações próximas, grupos de mulheres esfolavam e estripavam pescado, trocavam ervas, cortavam raízes e frutos azedos para as perolas fumegantes de ensopado, que Abulurd e sua esposa serviam para toda a casa. Insistiam em
comer o mesmo e na mesma mesa que todos os seus trabalhadores. Margot acabou suas indagações pouco antes de a chamada para comer soasse em todos os aposentos da casa...
Mais tarde, em privado, enquanto escutava a tormenta caindo no exterior, revisou os dados em sua mente e estudou os registros de produção de especiaria que Abulurd possuía de Arrakis, assim como a atual correspondência do barão com a CHOAM, além das quantidades de melange roubadas de Arrakis por várias organizações de contrabandistas.
Teria guardado os dados até que as irmãs tivessem a oportunidade de analisá-los, mas Margot queria descobrir a resposta por si só. Fingiu dormir e mergulhou no problema, até cair em profundo transe.
As cifras tinham sido manipuladas com maestria mas, depois que Margot eliminou as máscaras e telas, encontrou a resposta. Uma Bene Gesserit podia vêla, mas duvidava que os conselheiros econômicos do imperador ou os contadores da CHOAM detectassem a fraude.
A menos que alguém lhes indicasse.
Sua descoberta sugeria que falsificavam os dados da produção de especiaria, muito abaixo da realidade, nos informes enviados ao imperador e a CHOAM. Ou os Harkonnen estavam vendendo melange de maneira ilícita (duvidoso, porque seria fácil seguir a pista), ou estavam acumulando reservas secretas.
Interessante, pensou Margot, ao mesmo tempo em que arqueava as sobrancelhas. Abriu os olhos, aproximou-se de uma janela reforçada e olhou por volta do mar de metal líquido, as ondas selvagens apanhadas no interior dos fiordes, as lúgubres nuvens negras que pendiam sobre os bastiões acidentados de rocha. ao longe, as baleias interpretavam uma estranha e triste canção.
No dia seguinte reservou uma passagem para o próximo Cruzeiro da Corporação. Depois se livrou do disfarce e subiu para um cargueiro cheio de peles de baleia processadas. Duvidou que alguém em Lankiveil tivesse reparado em sua chegada ou partida. Há quatro coisas que não se podem ocultar: o amor, a fumaça, uma coluna de fogo e um homem correndo através do bled. Sabedoria Fremen
Sozinho no deserto silencioso e árido: tal como devia ser. Pardot Kynes descobriu
que trabalhava melhor sem outra coisa além de seus pensamentos e muito tempo para pensar. As pessoas distraíam, e muito poucas pessoas possuíam a mesma concentração ou o mesmo estímulo.
Como planetólogo imperial em Arrakis, precisava absorver a imensa paisagem por todos os poros de sua pele. Em outro tempo tinha adotado a mentalidade necessária para sentir o pulso de um planeta. Agora, de pé em uma escarpada formação rochosa negra e vermelha que tinha se elevado da depressão que o rodeava, o homem magro e curtido pela intempérie olhou em ambas as direções. Deserto por toda parte.
O mapa em sua tela chamava a cordilheira de Borda da Montanha Oeste. Seu altímetro anunciava que os picos mais altos superavam muito a altitude de seis mil metros, mas não viu neve, geleiras, gelo, nem sinais de precipitação em parte alguma.
Até mesmo as cúpulas mais acidentadas de Salusa Secundus, que as explosões atômicas tinham arrasado, estavam cobertas de neve. Mas nesta zona o ar era tão desesperadamente seco que a água não sobrevivia em nenhuma forma.
Kynes olhou para o sul, para a parte do deserto conhecida como Planície Funerária. Sem dúvida os geógrafos poderiam encontrar abundantes diferenças para classificar a paisagem em subseções, mas poucos humanos que se aventuraram em suas vísceras tinham retornado.
Aquele era o domínio dos vermes. Na realidade, ninguém necessitava de mapas.
Kynes, pensativo, recordou antigas cartas de navegação da Velha Terra, com suas misteriosas zonas inexploradas onde se dizia: “Aqui há monstros.” Sim, pensou, enquanto recordava a caçada do incrível verme de areia que Rabban tinha executado. Aqui há monstros, de verdade.
Sobre o penhasco denteado da Borda da Muralha, tirou os filtros das fossas nasais do traje destilador e esfregou um ponto dolorido do nariz, onde o filtro roçava de maneira constante. Depois afastou a proteção da boca para respirar o tênue ar abrasador. Segundo suas instruções para andar pelo deserto, sabia que não devia expor-se de maneira desnecessária à perda de água, mas Kynes precisava aspirar os aromas e vibrações de Arrakis, tomar o pulso do planeta.
Percebeu o aroma do pó reaquecido, do sal dos minerais, os diversos sabores de areia, lava e basalto. Era um planeta desprovido dos aromas úmidos da vegetação em crescimento ou podre, dos aromas que traíam os ciclos da vida e da morte. Só areia e rocha e mais areia.
Depois de uma inspeção minuciosa, porém, até o deserto mais cruel revelava o bulir da vida, com cantos exóticos e animais e insetos adaptados a habitats hostis. ajoelhou-se para examinar bolsas ocultas nas rochas, diminutos ocos onde se refugiasse a mais ínfima umidade da manhã.
Descobriu líquens agarrados à dura superfície de pedra.
Umas poucas bolotas duras indicavam os dejetos de um pequeno roedor, talvez um rato canguru. Os insetos podiam construir seus lares em altitudes elevadas, junto com um pouco de erva batida pelo vento ou ervas solitárias. Nos paredões verticais se refugiavam os morcegos, e só saíam ao ocaso para caçar traças e mosquitos. De vez em quando divisava no céu azul um ponto escuro, que devia ser um falcão ou um ave carniceira.
Sobreviver parecia muito difícil para animais tão grandes.
Mas então, como os Fremen sobrevivem?
Tinha visto suas formas poeirentas nas ruas das aldeias, mas a gente do deserto era reservada, dedicava-se a seus assuntos e desaparecia Em seguida. Kynes tinha observado que os aldeãos “civilizados” os tratavam de uma forma diferente, mas não estava claro se isso se devia à admiração ou ao desprezo. “A cultura provém das cidades; a sabedoria, do deserto”, dizia uma antiga máxima Fremen.
Segundo algumas nota antropológicas que tinha encontrado, os Fremen constituíam os restos de um antigo povo nômade, os Zensunni, que tinham sido escravos arrastados de planeta em planeta. depois de terem sido liberados, ou possivelmente de terem escapado de seu cativeiro, tinham tentado durante séculos encontrar um lar, mas foram perseguidos por onde iam. Por fim, instalaram-se em Arrakis.
Kynes tinha ouvido rumores de que povoados Fremen inteiros estavam ocultos nas depressões e contrafortes rochosos da Muralha Escudo. Viviam de uma terra que não proporcionava quase nada... Como conseguiam?
Kynes ainda tinha muito que aprender de Arrakis, e certamente os Fremen poderiam lhe ensinar muitas coisas. Se conseguisse encontrá-los.
Na poeirenta Carthag, os Harkonnen se mostraram reticentes a proporcionar uma equipe ao indesejável planetólogo. O responsável por fornecimentos tinha examinado com o cenho franzido o selo do imperador Padishah que garantia apoio à Kynes, e o autorizara a levar roupa, uma tenda destiladora, um
equipamento de sobrevivência, quatro litrojons de água, algumas rações de conservas e um velho ornitóptero individual com abundante fornecimento de combustível. Eram artigos suficientes para uma pessoa como Kynes, que desconhecia os luxos. Não se interessava pelos atavios oficiais nem as comodidades inúteis. Estava muito mais interessado no problema de compreender Arrakis.
Depois de estudar os mapas das tormentas previstas e os ventos reinantes, Kynes se afastou no ornitóptero para nordeste, em direção ao coração do terreno montanhoso rodeado de regiões polares. Como as latitudes equatoriais eram ermos calcinados pelo sol, a maioria dos centros de população se agrupavam ao redor das terras altas.
Enquanto pilotava o sobrecarregado ornitóptero, prestava atenção ao potente zumbido de seus motores e à vibração das asas móveis. No ar e sozinho: essa era a melhor maneira de tomar nota das vistas, de conseguir uma ampla perspectiva das imperfeições e mapas biológicos, as cores da rocha, os canyons.
Através das janelas dianteiras, arranhadas pela areia, viu riachos e gargantas secos, ramais divergentes de leques aluviais de antigos rios.
Parecia que a abrasão produzida pela água tinha esculpido as paredes dos canyons, como um fio de linho shiga que tivesse serrado os estratos. Em certa ocasião acreditou ver uma praia incrustada de sal que talvez tinha sido um fundo seco de mar. Entretanto, quando voou para lá não conseguiu encontrá-la.
Kynes ficou convencido de que aquele planeta tivera água em outro tempo. Muita. Qualquer planetólogo perceberia. Mas onde ela tinha ido parar?
A quantidade de gelo retido nas calotas polares era insignificante.
Mercadores de água o recolhiam e transportavam até as cidades, onde a vendia por preços exorbitantes. As calotas não possuíam gelo suficiente para justificar oceanos desaparecidos ou rios secos. A água desapareceu, tinha sido levada do planeta... ou estava escondida?
Kynes continuou voando, com os olhos bem abertos. Tomava nota de todos os detalhes interessantes que via. necessitaria de anos para reunir informação suficiente para escrever um tratado bem documentado, mas durante o mês passado ali tinha irradiado dois relatórios sobre seus progressos ao imperador, com o fim de demonstrar que estava cumprindo sua missão. Havia entregue os relatórios a um Correio imperial e a um representante da Corporação, um em Arraken, o outro em Carthag. Mas ignorava se Elrood ou seus conselheiros os
tinham lido.
Kynes se perdia quase todo o tempo. Seus mapas eram de uma inexatidão deplorável ou de uma falsidade absoluta, o que o desconcertava.
Se Arrakis era a única fonte de melange, o que transformava esse planeta em um dos mais importantes do Império, por que se tinha cartografado tão mau o terreno? Se a Corporação Espacial tivesse instalado alguns satélites de alta resolução, quase todos os problemas se teriam solucionado.
Ninguém parecia saber a resposta.
De qualquer forma, perder-se não causava grandes preocupações a um planetólogo. Afinal, era um explorador, o que exigia que vagasse quase sem rumo. Mesmo quando seu ornitóptero começou a vibrar, continuou em frente. O motor de propulsão iônica era forte, e o aparelho funcionava bastante bem, inclusive em buracos e rajadas de ar quente. Contava com combustível suficiente para várias semanas.
Kynes recordava muito bem os anos passados no duro Salusa, tentando compreender a catástrofe que o tinha assolado séculos antes.
Tinha visto fotos antigas, soube a beleza que tinha sido sua capital. Mas em seu coração, sempre seria o lugar infernal que era agora.
Algo terrível tinha ocorrido em Arrakis, mas não tinham sobrevivido testemunhas ou gravações do antigo desastre. Não acreditava que tivesse sido uma guerra atômica, embora seria fácil defender essa teoria. As guerras desatadas antes e durante a Jihad Butleriana tinham sido devastadoras, tinham transformado sistemas solares inteiros em escória e pó.
Mas aqui tinha acontecido algo diferente.
Mais dias, mais vagabundagens.
Em uma cordilheira silenciosa e erma situada na metade do planeta, Kynes subiu à cúpula de outro pico rochoso. Tinha pousado seu ornitóptero sobre uma depressão semeada de calhaus, e depois tinha subido o penhasco, carregado com parte do equipamento.
Ao estilo carente de imaginação dos primeiros cartógrafos, aquele curvo braço de rocha que formava uma barreira entre o Erg de Habanya (ao este) e a grande depressão do Ciélago (ao oeste) tinha sido batizado para sempre como Falsa
Muralha Oriental. Decidiu que seria um bom lugar para estabelecer um posto de coleta de dados.
Kynes, que sentia o esgotamento nas coxas e ouvia o tinido de seu traje destilador, estava consciente de que suava muito. Mesmo assim, seu traje absorvia e reciclava toda sua umidade corporal, e além disso estava em boa forma. Quando não pôde mais suportar, tomou um gole morno pelo tubo próximo a sua garganta, e depois continuou subindo pela superfície acidentada. “O melhor lugar para conservar água é seu próprio corpo, dizia a sabedoria popular Fremen, segundo o comerciante que lhe tinha vendido o equipamento. Já tinha se acostumado ao traje destilador, uma espécie de segunda pele.
Ao chegar à topo acidentado (1.200 metros de altitude, segundo seu altímetro), deteve-se em frente a um refúgio natural formado por um saliente rochoso. Ali montou sua estação meteorológica portátil. Seus aparelhos analíticos registrariam as velocidades e direções dos ventos, as temperaturas, as pressões barométricas e as flutuações da umidade relativa.
Ao redor do globo, instalaram-se estações de análise muito antes que descobrissem as propriedades da melange. Naquela época Arrakis não era mais que um planeta árido, com poucos recursos e carente de interesse, atraindo apenas colonizadores desesperados. Muitas daquelas estações foram avariadas, abandonadas e mesmo esquecidas.
Kynes duvidava que a informação procedente dessas estações fosse fidedigna. No momento só confiava nos dados que seus instrumentos forneciam. Com a ajuda de um pequeno ventilador, um analisador de ar engoliu uma amostra da atmosfera e deu as leituras de sua composição: 23% de oxigênio, 75,4% de nitrogênio, 0,023% de dióxido de carbono, junto com outros gases em proporção ínfima.
As cifras eram muito peculiares. podia-se respirar sem problemas, é óbvio, e era o que se esperava de um planeta normal com um ecossistema florescente. Entretanto, nesse reino abrasador aquelas pressões parciais suscitavam grandes interrogações. Sem mares, sem tormentas de água, sem massas de plâncton, sem envoltório vegetal, de onde saía o oxigênio? Era absurdo.
As únicas formas grandes de vida nativa que conhecia eram os vermes de areia. Haveria tantos que seu metabolismo influíra de maneira quantificável na composição da atmosfera? Cresciam algumas formas estranhas de plâncton dentro da areia? Sabia-se que os depósitos de melange possuíam um componente orgânico, mas Kynes não tinha nem idéia sobre a origem. Existe alguma relação
entre os vorazes vermes e a especiaria?
Arrakis era um mostruário de mistérios ecológicos.
Uma vez terminados seus preparativos, deu meia volta. Então, percebeu com estupor que algumas partes daquele nicho tão pouco natural, situado sobre a cúpula de um pico isolado, tinham sido modeladas.
Agachou-se, assombrado, e percorreu com os dedos entalhes ásperos.
Degraus esculpidos na rocha! Mãos humanas os tinham feito pouco tempo antes, para facilitar o acesso a esse lugar. Um posto avançado? Um mirante? Um posto de observação Fremen?
Um calafrio o percorreu, e o traje destilador absorveu com avidez um fio de suor. Ao mesmo tempo sentiu uma onda de emoção, porque os Fremen podiam transformarem-se em aliados, um povo endurecido que compartilhasse suas intenções, a necessidade de compreender e melhorar...
Quando Kynes se voltou, sentiu-se desprotegido.
— Olá! — gritou, mas só o silêncio do deserto respondeu.
Como tudo isto se relaciona?, perguntou-se. E que sabem os Fremen disso? Quem pode saber se IX foi muito longe. Ocultam suas instalações, mantêm na escravidão seus operários e afirmam seu direito ao segredo. Ante tais circunstâncias, como não vão se sentir tentados a violar as restrições da Jihad Butleriana?

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