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domingo, 4 de junho de 2017

SD 951 : DUNE - A CASA ATREIDE

Conde ILBAN RICHESE

 Terceira apelação ao Landsraad

Utilize seus recursos e seu engenho, costumava dizer o velho duque.
Agora, só e tremuli, Leto analisou a situação.
Contemplou sua sombria e inesperada solidão sobre a superfície erma de IX, ou de onde foase que estava. Tinha sido abandonado por acidente ou por traição? Qual era a pior possibilidade? A Corporação teria os dados sobre o planeta em que o tinham desembarcado sem contemplações. Seu pai e as tropas da Casa Atreides mandariam uma expedição para encontrá-li quando não aparecesse em seu lugar do destino, mas quanto demorariam? Quanto tempo poderia sobreviver
aqui? Se Vernius era o responsável pela traição, informaria ao conde de seu desaparecimento?
Tentou ser otimista, mas sabia que passaria muito tempo antes que a ajuda chegasse. Leto não tinha comida nem roupas quentes, nem sequer um refúgio portátil, teria que solucionar o problema por si só.
— Olá! — gritou de novo. A imensa extensão deserta engoliu suas palavras sem se preocupar em lhe devolver algum eco. Considerou a possibilidade de explorar as cercanias em busca de algum ponto característico da paisagem ou uma aldeia, mas decidiu ficar onde estava. A seguir passou em revista mentalmente às posses que levava na bagagem, e tentou pensar em algo que servisse para enviar uma mensagem.
De repente, ouviu um rangido a um lado, entre um arbusto verde azulado de plantas espinhosas que se esforçavam por sobreviver na tundra.
Sobressaltado, deu um salto para trás e depois examinou o arbusto.
Assassinos? Um bando que pretendia capturá-lo? O resgate por um herdeiro ducal poderia reportar uma montanha de Solaris, além da ira de Paulus Atreides.
Puxou a faca curva da capa que levava às costas e se preparou para defender-se. Seu coração palpitava enquanto tentava preparar-se para o que fosse. Um Atreides não tinha escrúpulos na hora de derramar sangue necessário.
Os ramos e folhas se abriram para revelar uma plataforma de plaz redonda sobre a terra. Com um zumbido de maquinaria, um tubo elevador transparente emergiu do subsolo, incongruente por completo naquela paisagem acidentada.
Dentro do tubo transparente havia um jovem corpulento, com um sorriso de boas-vindas no rosto. Seu cabelo era loiro e rebelde, e parecia desgrenhado apesar de estar penteado com supremo cuidado. Usava largas calças de estilo militar e uma camisa de camuflagem que mudava de cor segundo o ambiente. Seu rosto, pálido e franco, parecia cheio devido à gordura infantil que já deveria ter desaparecido. Uma pequena bolsa pendurava de seu ombro esquerdo, similar a que tinha na mão. Aparentava a idade de Leto.
O elevador transparente parou e uma porta curva se abriu. Um jorro de ar quente acariciou o rosto e as mãos de Leto. Agachou-se, preparado para atacar com sua faca, embora fosse difícil que aquele jovem de aspecto inócuo fosse um assassino.
— Leto Atreides, não é? — perguntou o desconhecido. Falava em galach, o idioma comum do Império —. Que tal começamos com uma excursão?
Os olhos cinzentos de Leto se entreabriram e cravaram na hélice ixiana púrpura e cobre que adornava o pescoço da camisa do moço. Leto tentou dissimular seu alívio e procurou conservar uma aparência compatível com sua condição. Assentiu e baixou a faca, que o desconhecido tinha fingido não reparar.
— Sou Rhombur Vernius. pensei que você gostaria de esticar um pouco as pernas antes de descer. Sei que está acostumado com a natureza, embora eu prefira o subsolo. Possivelmente depois de passar um tempo conosco se sentirá em casa em nossas cidades subterrâneas. IX é muito bonito.
Ergueu a vista para as nuvens e o temporal de neve e chuva.
— Droga, por que está chovendo? Infernos carmesins, odeio os climas imprevisíveis! — Rhombur meneou a cabeça —. Disse ao controle de tempo que preparasse um dia quente e ensolarado. Peço-lhe desculpas, príncipe Leto, mas isto é muito triste para mim. O que acha de descermos ao Grand Palais?
Rhombur deixou cair as duas bolsas no elevador e deu um empurrão nas malas de Leto.
— Me alegro em conhecê-lo finalmente. Meu pai sempre fala dos Atreides. Estudaremos juntos durante um tempo, certamente árvores genealógicas e política do Landsraad. Sou o octogésimo sétimo na linha sucessória ao Trono do Leão Dourado, mas acredito que sua posição é ainda superior a minha.
O Trono do Leão Dourado. A linha de sucessão das Casas se elaborou segundo um complicado sistema combinado entre a CHOAM e o Landsraad. A posicção de Leto era bastante mais elevada que a do príncipe ixiano. Por parte de mãe, era o bisneto do Elrood IX, descendente de uma das três filhas que tivera com sua segunda esposa, Yvette, mas a diferença era insignificante. O imperador tinha muitos bisnetos. Nenhum deles chegaria a ser imperador. Ser um duque da Casa Atreides já era honra suficiente, pensava Leto.
Os dois jovens trocaram o semi-aperto de mãos do Império, e entrelaçaram os dedos. O príncipe ixiano usava um anel de jóias resplandecentes como o fogo na mão direita, e Leto não sentiu calos em sua palma.
— Pensei que estava em lugar errado — disse Leto, e permitiu que sua inquietação e confusão transparecessem por fim —. Pensei que tinha sido abandonado em uma rocha desabitada. IX é isto realmente? O planeta máquina?
Apontou para os espetaculares picos, a neve e as rochas, os bosques sombrios.
Leto observou a hesitação de Rhombur, e recordou os comentários de seu pai a respeito da obsessão ixiana pela segurança. — Oh, er, você já verá. Procuramos ser discretos. O príncipe indicou que entrasse no tubo, e a porta de plaz se fechou. Desceram a uma velocidade alarmante pelo que parecia um quilômetro de rocha, mas Rhombur continuou falando como se isso fosse coisa normal.
— Devido a natureza de nossas operações técnicas, lx possui incontáveis segredos, e muitos inimigos gostariam de nos destruir.
Tentamos manter ocultos de olhos curiosos nossas atividades e recursos. Os dois jovens atravessaram um favo luminoso de material artificial e entraram em uma imensa extensão de ar que revelou um enorme mundo subterrâneo, um país de conto de fadas escavado na casca planetária.
A sua frente surgiram gigantescas coroas de graciosas vigas mestras, conectadas com colunas tão altas que não se divisava a base. A cápsula de paredes de plaz continuou descendo, flutuando sobre um mecanismo antigravitacional ixiano. O chão transparente da cápsula provocava em Leto a inquietante sensação de cair pelo ar. Aferrou-se ao corrimão lateral, enquanto suas malas flutuantes evoluíam a seu redor.
Olhou para cima e viu o que parecia o ciclo nublado ixiano e o sol brancoazulado que se filtrava através das paredes. Projetores ocultos na superfície do planeta transmitiam imagens reais a telas de alta resolução que cobriam o teto de rocha.
Em comparação com o enorme mundo subterrâneo, até o interior de um Cruzeiro da Corporação parecia minúsculo. Leto viu edifícios geométricos que pendiam do teto da abóbada de pedra, como estalactites de cristal habitadas, conectadas entre si por passarelas e tubos. Veículos aéreos em forma de lágrima sulcavam silenciosamente aquele reino subterrâneo. Planadores ocupados por passageiros passavam a grande velocidade, como manchas de cores brilhantes. No chão da caverna avistou um lago e rios, protegidos dos olhos do exterior. — Vernii — disse Rhombur —. Nossa capital.
Enquanto a cápsula deslizava entre os edifícios suspensos, Leto viu veículos terrestres, ônibus e um sistema de metro aéreo. Teve a sensação de achar-se no interior de um floco de neve mágico.
— Seus edifícios são de uma beleza incrível — disse enquanto absorvia todos os detalhes —. Sempre tinha imaginado IX como um ruidoso mundo industrial. — Nós, er, fomentamos essa impressão aos forasteiros. Temos descoberto materiais estruturais que não só são agradáveis de um ponto de vista estético, mas também muito leves e fortes. Ao viver no subsolo, estamos protegidos e ocultos.
— O que permite conservar a superfície do planeta em condições impecáveis — disse Leto. A expressão do príncipe de IX deu a entender que nunca tinha pensado nisso.
— Os nobres e os administradores vivem nos edifícios superiores —
continuou Rhombur —. Operários, capatazes e as equipes de subóides vivem abaixo, em seus bairros. Todo mundo trabalha ombro a ombro pela prosperidade de IX.
— Há mais níveis abaixo desta cidade? Há gente que vive a maior profundidade?
— Bem, na realidade não se trata de gente. São subóides — reforçou Rhombur com um gesto desdenhoso —. Nós os criamos para realizarem trabalhos penosos sem se queixar. Um grande triunfo da engenharia genética. Não sei o que faríamos sem eles.
Seu compartimento flutuante se desviou de uma linha de metro aéreo e continuou sua descida. Quando se aproximaram do palácio mais espetacular, Leto disse:
— Suponho que seus investigadores me aguardam. — Ergueu o queixo e se preparou para a prova —. Nunca fui submetido a um escaneamento mental.
Rhombur riu.
— Posso conseguir que o submetam a um sondagem mental, se deseja experimentar... — O príncipe ixiano o estudou com atenção —.
Leto, Leto, se não confiássemos em você nunca teria obtive permissão para vir a IX. A segurança, er, mudou muito desde os tempos de seu pai. Não acredite nessas sinistras histórias que nós mesmos difundimos. Servem para assustar os curiosos.
A cápsula pousou por fim sobre uma ampla galeria construída na base de telhas entrelaçadas, e Leto notou que um aparelho de sujeição surgia por baixo. A câmara começou a mover-se lateralmente em direção a um edifício de plaz blindado.
Leto procurou dissimular seu alívio.
— De acordo. Me submeterei a seu julgamento.
— E eu farei o mesmo quando for a seu planeta. Água, peixes e céus imensos. Caladan parece... er, maravilhoso. — Seu tom insinuava justamente o contrário. O pessoal da casa vestido com librés negras e brancas surgiu do edifício de plaz blindado. Os homens e mulheres uniformizados formaram uma fila de cada lado do caminho do tubo e ficaram firmes. — Este é o Grand Palais — explicou Rhombur —, onde nosso pessoal atenderá todos os seus desejos. Como é nosso único visitante neste momento, eles vão mimá-lo como nunca.
— Toda esta gente só para servir a mim?
Leto recordou os tempos em que tivera que descamar e fatiar os peixes que pegava, se quisesse comer.
— Você é um dignitário importante, Leto. O filho de um duque, amigo de nossa família, um aliado no Landsraad. Esperava menos?
— Na verdade, sou de uma Casa que não possui grandes riquezas, de um planeta cujo único encanto vem dos pescadores, os fazendeiros que cultivam os melões paradan flutuantes e os cultivadores de arroz pundi.
Rhombur riu.
— Você é muito modesto!
Os jovens, seguidos das malas flutuantes, subiram três amplos e elegantes degraus e entraram no Grand Palais.
Leto passeou a vista pelo vestíbulo principal e contemplou as aranhas de cristal ixiano, o mais formoso de todo o Império. Taças e vasos de cristal adornavam mesas de marmolplaz, e a cada lado de uma mesa de recepção de blaquita havia estátuas de lapisjade em tamanho natural do conde Dominic Vernius e sua esposa, lady Shando Vernius. Leto reconheceu o casal real pelas trifotos que tinha visto.
O pessoal uniformizado entrou no edifício e se colocou à espera de receber instruções. Ao fundo do vestíbulo se abriram portas duplas e Dominic Vernius, calvo e de costas largas, aproximou-se com o aspecto de um djinn saído de uma
garrafa. Usava um manto sem mangas prateado e dourado, com uma borda branca no pescoço. Uma hélice ixiana púrpura e cobre adornava seu peitilho.
— Ah, então este é nosso jovem visitante! — trovejou Dominic de bom humor.
Rugas se desenharam ao redor de seus olhos castanhos. Suas feições eram muito parecidas com as de seu filho, mas em seu caso a gordura tinha formado dobras e rugas coradas, e seu bigode, escuro e cheio, emoldurava seus dentes. O conde Dominic era vários centímetros mais alto que seu filho. As feições do conde não eram estreitas e pronunciadas como as das linhagens Atreides e Corrino, pois procedia de uma linhagem já antiga nos tempos da Batalha de Corrin.
Shando, ex-concubina do imperador e agora esposa de Dominic, caminhava a seu lado, vestida com um traje de aspecto oficial. Suas feições belamente cinzeladas, seu nariz fino mas delicado e sua pele lhe concediam uma beleza majestosa, que se teria revelado até vestida com trapos. Parecia frágil e delicada a primeira vista, mas seu porte denotava a energia de seu caráter.
Ao seu lado, sua filha Kailea parecia querer superar sua mãe, com um vestido lavanda de brocado que ressaltava seu cabelo acobreado escuro.
Kailea parecia mais jovem que Leto, mas caminhava com graça e concentração estudadas, como se temesse perder o papel de um momento para outro. Tinha sobrancelhas finas e arqueadas, assombrosos olhos cor de esmeralda e uma boca generosa e felina, sobre um queixo estreito. Kailea executou uma reverência perfeita e extravagante com um leve sorriso.
Leto respondeu a cada apresentação, procurando não olhar para a filha de Vernius. Repetiu os gestos que sua mãe lhe tinha inculcado, abriu uma mala e extraiu uma caixa incrustada de jóias, um dos tesouros da família Atreides. Sustentou-o ante si, erguido em toda sua estatura.
— Para o senhor, lorde Vernius. Contém objetos únicos de nosso planeta. Também trago um presente para lady Vernius.
— Excelente, excelente! — Como se o cerimonial o impacientasse, Dominic aceitou o presente e indicou a um criado que o recolhesse —.
Desfrutarei do seu conteúdo esta noite, quando houver mais tempo. —
esfregou as mãos. Aparentava que se sentiria melhor em uma ferraria ou em um campo de batalha que em um luxuoso palácio —. fez boa viagem, Leto?
— Sem incidentes, senhor.
— Ah, alegra-me sabê-lo.
Dominic riu.
Leto sorriu, inseguro de como causar boa impressão. Pigarreou.
— Sim, senhor, mas pensei que tinham me abandonado quando a Corporação me deixou em seu planeta e só vi uma extensão erma.
— Ah! Pedi a seu pai que não lhe contasse sobre nossa pequena brincadeira. Fiz o mesmo com ele quando nos visitou pela primeira vez.
Ele acreditou estar sozinho e perdido. — Dominic transbordava de afabilidade —. Parece bastante descansado, jovenzinho. Na sua idade, o lag espacial não afeta muito. Quando saiu de Caladan, faz dois dias? É
assombrosa a rapidez com que os Cruzeiros percorrem enormes distancia.
Incrível. Estamos melhorando seu desenho para que cada nave possa transportar mas carga útil. — Sua voz ressonante conseguia que os lucros parecessem mais grandiosos —. Nosso segundo modelo será terminado na última hora de hoje, outro triunfo para nós. Vamos lhe mostrar todas as modificações que fizemos, para que façam parte de sua aprendizagem.
Leto sorriu, mas já sentia a cabeça a ponto de explodir. Ignorava quanta informação mais poderia assimilar. Quando o ano terminasse, seria uma pessoa totalmente diferente. Há armas que não podem ser sustentadas nas mãos. Só podem ser empunhadas na mente. Doutrina Bene Gesserit
A lançadeira das Bene Gesserit desceu pelo lado escuro de Giedi Prime e aterrissou no espaçoporto bem guardado de Harko City, pouco antes de meianoite, hora local.
O barão, preocupado com o que as malditas bruxas queriam dele, agora que tinha retornado do poço infernal que era Arrakis, saiu para um balcão elevado da fortaleza Harkonnen para ver as luzes da nave que chegava.
Ao redor, as torres monolíticas de plaz negro e aço projetavam luzes frias para a escuridão manchada de fumaça. Ruas e passarelas estavam cobertas por toldos e cercas providas de filtros para proteger os pedestres dos refugos industriais e a chuva ácida. Com um pouco mais de imaginação e atenção aos detalhes durante sua construção, Harko City poderia ter sido impressionante. Em vez disso, parecia velha e esgotada.
— Tenho os dados para você, meu barão — disse uma penetrante voz nasal atrás dele, tão próxima como um assassino.
O barão, virou-se, sobressaltado, ao tempo em que flexionava seus braços musculosos. A forma magra de seu Mentat pessoal, Piter De Vries, erguia-se na porta do balcão.
— Nunca volte a fazer isto, Piter. Você desliza como um verme. —
A comparação trouxe para sua mente a expedição de caça pelo deserto de seu sobrinho Rabban, assim como seus nefastos resultados —. Os Harkonnen matam vermes, já sabe.
— Ouvi dizer — replicou De Vries —. Mas às vezes mover-se em sigilo é o melhor método de obter informação.
Um sorriso irônico se desenhou em seus lábios, manchados de vermelho devido ao suco de safo que os Mentat bebiam para aumentar suas capacidades. O barão, sempre em busca de prazeres físicos e armado da curiosidade suficiente, tinha provado o safo, mas o considerou uma substância vil e amarga.
— É uma reverenda mãe e seu séquito — disse De Vries, ao mesmo tempo em que apontava para as luzes da lançadeira —. Quinze irmãs e seus acompanhantes, junto com quatro guardas homens. Não detectamos armas.
De Vries tinha sido treinado como Mentat pelos Bene Tleilax, feiticeiros genéticos que produziam alguns dos melhores computadores humanos do Império. Mas o barão não queria uma simples máquina de processamento de dados com cérebro humano. Queria um ser humano calculador e inteligente, alguém que não só compreendesse e computasse as conseqüências dos planos dos Harkonnen, mas também utilizasse sua imaginação corrupta para ajudar o barão a obter seus propósitos. Piter De Vries era uma criação especial, um dos infames Mentats pervertidos dos Tleilaxu.
— Mas o que querem? — murmurou o barão, enquanto contemplava a lançadeira, que acabava de aterrissar —. Essas bruxas parecem muito
confiantes, vindo aqui. — Seus soldados uniformizados de azul irromperam como uma manada de lobos antes que as passageiras saíssem da nave —.
Poderíamos as desintegrá-las em um instante com nossas defesas mais elementares.
— As Bene Gesserit não precisam de armas, meu senhor barão.
Alguns dizem que elas mesmas são uma arma. — De Vries levantou um dedo magro —. Nunca é prudente provocar a ira da Irmandade.
— Já sei, idiota! Bem, como se chama essa reverenda mãe e o que quer?
— Gaius Helen Mohiam. Quanto a seus desejos... a Irmandade se negou a revelar.
— Malditas sejam e seus segredos — grunhiu o barão. Avançou a grandes pernadas para o corredor para ir ao encontro da lançadeira.
Piter De Vries sorriu enquanto o seguia.
— Quando uma Bene Gesserit fala, costuma empregar adivinhações e insinuações, mas suas palavras também contêm muita verdade. É preciso desentranhá-la.
O barão respondeu com outro grunhido e continuou andando. Piter o seguiu.
Enquanto caminhava, o Mentat repassou seus conhecimentos sobre as bruxas de hábito negro. As Bene Gesserit se dedicavam a numerosos projetos de reprodução, como se cultivassem humanidade para seus propósitos desconhecidos. Também possuíam um dos maiores banco de dados de informação do Império, e utilizavam suas bibliotecas para estudar os movimentos dos povos, assim como os efeitos das ações de uma pessoa na política interplanetária.
Como Mentat, De Vries adoraria ter acesso àquele armazém de conhecimentos. Com tal tesouro de dados poderia realizar cálculos e projeções essenciais, talvez projeções suficientes para acabar com a Irmandade.
Mas as Bene Gesserit não permitiam o acesso a estranhos, nem sequer ao imperador. Portanto, um Mentat não tinha muito em que apoiar-se para efetuar seus cálculos. De Vries só podia tentar adivinhar as intenções das bruxas recém chegadas.
As Bene Gesserit se dedicavam a manipular em segredo políticas e sociedades, para que pouca gente pudesse rastrear as áreas exatas de influência. Entretanto, a reverenda mãe Gaius Helen Mohiam sabia planejar e executar uma entrada espetacular. Com o hábito negro batendo como asas, flanqueada por dois guardas masculinos de imaculadamente uniformizados, e seguida por seu acompanhante, entrou na sala de recepções da fortaleza Harkonnen.
O barão, sentado em frente a um reluzente escritório de plaz negro, esperava para recebê-la, acompanhado de seu Mentat pervertido, que se erguia a um lado com alguns guardas pessoais escolhidos para a ocasião.
Afim de exibir seu desprezo e falta de interesse pelas visitantes, o barão usava um manto informal e desalinhado. Não tinha preparado uma recepção para elas, nem cerimônia alguma.
Muito bem, pensou Mohiam, talvez seja melhor que transformemos este encontro em um assunto privado.
Identificou-se com voz sonora e firme e avançou um passo para ele, deixando seu séquito para trás. Tinha um rosto comum que denotava mais energia que delicadeza. Nem feia nem atraente. De perfil, seu nariz parecia muito grande, embora de frente não se notava.
— Barão Vladimir Harkonnen, minha Irmandade tem assuntos a tratar com o senhor.
— Não me interessa falar de nenhum assunto com bruxas —
replicou o barão, e apoiou seu queixo sobre os dedos. Seus olhos negros como aranhas examinaram o séquito e se detiveram especialmente no aspecto físico dos guardas. Os dedos da sua outra mão se agitavam nervosos sobre sua coxa.
— Mesmo assim, o senhor ouvirá o que tenho a dizer. — A voz da mulher era de ferro.
Ao ver que o barão se enfurecia, Piter De Vries se adiantou.
— Devo recordar-lhe, reverenda mãe, onde estão? Ninguém as convidou a vir aqui.
— E talvez eu deveria recordar-lhes — replicou a mulher ao Mentat
— que somos capazes de efetuar detalhadas análises de todas as atividades relacionadas com a produção de especiaria em Arrakis... O equipamento usado,
a mão de obra empregada, todo isso comparado com a produção de especiaria informada a CHOAM e calculada com nossas projeções precisas. Qualquer anomalia deveria ser muito... reveladora. — Arqueou as sobrancelhas —. Já fizemos um estudo preliminar apoiado em informes de primeira mão de nossas... — sorriu — fontes.
— Quer dizer espiões — atravessou o barão, indignado.
A mulher percebeu que ele se arrependia de suas palavras tão logo acabou de pronunciá-las porque confirmavam sua culpa.
O barão se levantou, flexionou seus braços musculosos, mas antes que pudesse replicar às insinuações de Mohiam, De Vries interveio.
— Talvez seja melhor que a reverenda mãe e o barão se reunissem a sós. Não há necessidade de transformar uma simples conversa em um espetáculo... e em algo suscetível de ser documentado.
— Estou de acordo — se apressou a aceitar Mohiam, enquanto dedicava ao Mentat pervertido um olhar de aprovação —. Nos retiramos para seus aposentos, barão?
O barão fez uma careta com seus lábios grossos.
— Por que deveria levar uma Bene Gesserit para meus aposentos privados?
— Porque não têm alternativa — replicou ela em voz baixa e inflexível.
O barão se assustou com tamanha audácia, mas depois lançou uma gargalhada estentórea.
— Por que não? Não há nada menos ostentoso que isso.
De Vries os observava com os olhos entreabertos. Estava reconsiderando sua sugestão, repassando dados e calculando probabilidades. A bruxa tinha aceito a idéia com excessiva rapidez. Queria estar a sós com o barão. Por que? Por que devia fazê-lo em privado?
— Permita eu que os acompanhe, meu barão — disse De Vries, e se encaminhou para a porta que os conduziria por corredores e tubos elevadores até a suíte privada do barão.
— Trata-se de um assunto entre o barão e eu — disse Mohiam.
O Harkonnen se agitou.
— Não dê ordens a minha gente, bruxa — disse com ar ameaçador.
— Quais são suas instruções, então? — perguntou a mulher com insolência.
Um momento de hesitação.
— Concedo-lhe uma audiência privada.
Mohiam inclinou apenas a cabeça, e depois olhou para seus acompanhantes e guardas. De Vries captou um veloz movimento de seus dedos, uma espécie de sinal.
A mulher cravou seus olhos de ave nos do Mentat, e De Vries ficou imóvel quando falou.
— Há uma coisa que pode fazer, Mentat. Pode ser tão amável e procurar que meus acompanhantes sejam bem tratados e alimentados, porque não temos tempo para ninharias. Temos que retornar quanto antes a Wallach IX.
— Faça-o — ordenou Harkonnen.
Com um olhar de despedida a De Vries, como se fosse o serviçal mais baixo do Império, a mulher seguiu o barão para fora do salão...
Quando entrou em seus aposentos, o barão se alegrou ao ver que tinha deixado sua roupa suja espalhada. Alguns móveis estavam fora de seu lugar, algumas manchas vermelhas na parede não tinham sido esfregadas com suficiente entusiasmo. Queria sublinhar que a bruxa não merecia um tratamento educado, nenhuma recepção cortês.
Cruzou os braços, ergueu os ombros e seu queixo.
— Muito bem, reverenda mãe, me diga o que deseja. Não tenho tempo para mais jogos de palavras.
Mohiam se permitiu um leve sorriso.
— Jogos de palavras? — Sabia que a Casa Harkonnen conhecia os matizes da política; talvez não o bondoso Abulurd, mas sim o barão e seus conselheiros —. Muito bem, barão. A Irmandade descobriu um uso para sua linha genética.
Fez uma pausa, e desfrutou da expressão assombrada que apareceu no rosto do
barão. Antes que ele pudesse balbuciar uma resposta, Mohiam explicou fragmentos cuidadosamente selecionados do guia. Mohiam ignorava os detalhes e os motivos. Só sabia obedecer.
— Sem dúvida sabe que durante muitos anos nossa Irmandade incorporou linhagens importantes. Nossas irmãs representam todo o espectro da humanidade nobre, albergamos os traços desejáveis de quase todas as Grandes e Menores Casa do Landsraad. Contamos até com algumas representantes, erradicadas há muitas gerações, da Casa Harkonnen.
— Querem reforçar sua parte Harkonnen? — perguntou o barão com cautela —. É isso?
— O senhor compreendeu bem. Temos que conceber um filho seu, Vladimir Harkonnen. Melhor dizendo, uma filha.
O barão retrocedeu alguns passos, estupefato, e depois soltou uma gargalhada.
— Terão que procurar em outro lugar. Não tenho filhos nem é provável que os tenha. O processo de reprodução, como necessita de mulheres, me repele.
Mohiam, que conhecia muito bem as preferências do barão, não disse nada. Ao contrário de muitos nobres, não tinha descendência, nem sequer filhos ilegítimos.
— Não obstante, queremos uma filha Harkonnen, barão. Não um herdeiro, nem sequer um pretendente, de modo que não deve se preocupar com... ambições dinásticas. Estudamos as linhagens com atenção e a mescla desejável é muito específica. Deve me deixar grávida.
As sobrancelhas do barão se arquearam ainda mais.
— Por que iria fazer isso, por todas as luas do Império?
Olhou-a de cima abaixo, despindo-a com os olhos. Mohiam era uma mulher de aspecto normal, de rosto larga e cabelo castanho murcho, sem traços chamativos. Era maior que ele, próxima ao final de seus anos férteis.
— Em especial com você — acrescentou.
— As Bene Gesserit determinam estas coisas mediante projeções genéticas, não pela atração física.
— Bem, pois me nego. — O barão deu meia volta e cruzou os braços
—. Saia. Leve seus parceiros e saia de Giedi Prime.
Mohiam olhou-o por alguns momentos, ao mesmo tempo em que assimilava os detalhes da estadia. Como utilizava técnicas analíticas Bene Gesserit, aprendeu muitas coisas sobre o barão e sua personalidade a partir de como mantinha sua fedorenta toca, um espaço que não estava cuidado nem decorado para visitantes oficiais. Sem saber, revelava muito sobre sua personalidade.
— Como desejar, barão — disse —. A próxima parada de minha lançadeira será Kaitain, onde já temos uma entrevista marcada com o imperador. Minha biblioteca pessoal na nave contém cópias de todos os registros que demonstram suas atividades de armazenamento de especiaria em Arrakis, e documentação sobre seus métodos de alterar a produção para ocultar seus armazéns particulares dos olhos da CHOAM e da Casa Corrino. Nossa análise preliminar contêm informação suficiente para iniciar uma auditoria global sobre suas atividades e o depor como diretor provisório da CHOAM.
O barão olhou-a fixamente. Nenhum dos dois se moveu, mas leu em seus olhos que dizia a verdade. Sem dúvida aquelas malditas bruxas tinham utilizado seus diabólicos métodos intuitivos para determinar com exatidão o que tinha feito, como tinha enganado Elrood IX. Também sabia que Mohiam não hesitaria em pôr em prática sua ameaça.
Cópias de todos os registros... De nada lhe serviria destruir sua nave.
A Irmandade infernal guardaria outras cópias em outra parte.
Era muito provável que a Bene Gesserit possuísse material para chantagear também à Casa Corrino, talvez dados indiscretos sobre negócios importantes mas sub-reptícios da Corporação Espacial e a poderosa CHOAM. Dados com os quais poderia forçar pactos. A Irmandade era especialista em descobrir as fraquezas de seus inimigos em potência.
O barão se enfureceu, mas não podia fazer nada para evitar a chantagem. Aquela bruxa podia destruí-lo com apenas uma palavra, e obrigá-lo a atender seu pedido.
— Para facilitar as coisas, possuo a capacidade de controlar minhas funções corporais — disse Mohiam —. Posso ovular à vontade, e garanto que não será necessário repetir esta tarefa desagradável. A partir de apenas um encontro com você, posso garantir o nascimento de uma menina. Não terá que se preocupar mais conosco.
As Bene Gesserit não paravam de tecer maquinações, e com elas nada era certo. O barão franziu a sobrancelha, enquanto repassava as possibilidades. Com essa filha que tanto desejavam, as bruxas tentavam criar um herdeiro ilegítimo e alegar direitos sobre a Casa Harkonnen na próxima geração? Era uma possibilidade sem sentido. Já estava educando Rabban para o cargo, e ninguém se oporia.
— Eu... — Procurou as palavras —. Necessito de um momento para refletir, e tenho que falar com meus conselheiros.
Mohiam esteve a ponto de virar os olhos, mas indicou com um gesto que não havia pressa. Afastou uma toalha manchada de sangue e se ajeitou no divã, para esperar com comodidade.
Apesar de sua personalidade desprezível, Vladimir Harkonnen era um homem atraente, musculoso e de feições agradáveis, cabelo avermelhado e lábios grossos. Entretanto, as Bene Gesserit inculcavam em todas as irmãs a crença fundamental de que a cópula era uma mera ferramenta para manipular os homens e obter deles a descendência que se integrasse na rede, geneticamente inter-relacionada, da Irmandade. Não obstante, proporcionava-lhe um grande prazer ter ao barão a sua mercê.
A reverenda mãe se reclinou, fechou os olhos e se concentrou no fluxo de hormônios do seu corpo, no funcionamento interno de seu sistema reprodutivo...
Sabia qual seria a resposta do barão.
— Piter! — gritou o barão enquanto percorria os corredores —.
Onde está meu Mentat?
De Vries surgiu com sigilo de um corredor adjacente, onde tinha tentado utilizar as câmeras ocultas que tinha instalado nos aposentos privados do barão.
— Estou aqui, meu barão — disse, e tomou um gole de um diminuto frasco. O sabor do safo disparava reações em seu cérebro, disparava seus neurônios e avivava suas capacidades mentais —. O que a bruxa pediu? O
que ela quer?
O barão virou-se, depois de ter encontrado por fim o objetivo apropriado para sua raiva.
— Quer que a engravide! Quer meu sêmen!
Engravidá-la?, pensou De Vries, e acrescentou a sua base de dados mental. Voltou a analisar o problema a hipervelocidade.
— Quer ser a mãe de minha filha! É incrível!
De Vries estava em modo Mentat.
Dado; não existe outra maneira de que o barão tenha filhos. Odeia ss mulheres. Além disso, de uma perspectiva política, é muito cauteloso para disseminar sua estirpe indiscriminadamente.
Dado: as Bene Gesserit guardam numerosos registros genéticos em Wallach IX, numerosos projetos de reprodução, cujos resultados estão abertos à interpretação. Se o barão tivesse um filho (uma filha?), o que as bruxas esperam obter?
Existe algum defeito ou vantagem nos genes dos Harkonnen que desejam aproveitar? Seu único propósito é castigar da forma mais humilhante o barão? Nesse caso, em que as ofendeu pessoalmente?
— Só a idéia me repugna! Cobrir essa poedeira — grunhiu o barão
—, De qualquer modo, a curiosidade me deixa louco. O que a Irmandade está procurando?
— Não consigo estabelecer uma projeção, barão. Dados insuficientes.
Parecia que o barão ia esbofetear De Vries, mas se conteve.
— Não sou um reprodutor das Bene Gesserit!
— Barão — De Vries disse com calma —, se for verdade que possuem informação sobre suas atividades ilegais, não pode permitir que isso seja revelado. Se estivessem sondando, não há dúvida que sua reação já lhes revelou tudo que precisavam saber. Se oferecerem provas a Kaitain, o imperador enviará seus Sardaukar para exterminar à Casa Harkonnen e substituí-la por outra Grande Família, como fizeram com os Richese antes de nós. Agradaria Elrood, sem dúvida. Ele e a CHOAM podem suspender seus contratos em qualquer momento. Até poderiam entregar Arrakis e a produção de especiaria à Casa Atreides, por exemplo, só para humilhá-lo.
— Os Atreides! Jamais permitirei que minhas propriedades caiam em suas mãos.
De Vries sabia que havia tocado um ponto sensível. A inimizade entre os Harkonnen e os Atreides se iniciou muitas gerações atrás, durante os trágicos acontecimentos da Batalha de Corrin.
— Deve fazer o que a bruxa exige, barão — disse —. As Bene Gesserit ganharam esta fase do jogo. Prioridade: proteger a fortuna de sua Casa, suas posses de especiarias e seus armazenamentos ilegais. — O
Mentat sorriu —. Pode se vingar mais adiante.
O barão tinha empalidecido.
— Piter, a partir deste mesmo momento quero que comece a destruir provas e a dispersar nossas reservas. Envie tudo para lugares onde ninguém pensará em investigar.
— Também para os planetas dos nossos aliados? Eu não recomendaria, barão. Muitas complicações. E as alianças mudam.
— Muito bem. — Os olhos do barão se iluminaram —. Concentre a maior parte em Lankiveil, debaixo do nariz do meu estúpido meio-irmão.
Nunca suspeitarão de Abulurd.
— Sim, meu barão. Excelente ideia.
— É claro que é uma excelente ideia! — Vladimir franziu a sobrancelha. Pensar em seu meio-irmão o tinha recordado seu mimado sobrinho —. Onde está Rabban? Possivelmente a bruxa prefira seu sêmen.
— Duvido muito, barão. Seus projetos genéticos costumam ser muito específicos.
— Bem, onde ele está? Rabban! — O barão virou-se e percorreu o corredor, como se procurasse algo para acossar —. Não o vi o dia todo.
— Foi para outra de suas caçadas estúpidas, no Posto de Vigilância Florestal. — De Vries conteve um sorriso —. Está sozinho para enfrentar o perigo, barão, e acredito que o melhor será que vá para seus aposentos. O
dever lhe chama. A regra básica é nunca apoiar a fraqueza; apoiar sempre a força. O livro Azhar da Bene Gesserit
Compilação dos Grandes Secretos
A nave planou sobre a erma paisagem noturna, carente das luzes de Giedi Prime e de gases industriais. Duncan Idaho, sozinho em um compartimento da nave, olhava por uma janela de plaz, enquanto a prisão da Barony se afastava deles.
Ao menos seus pais não eram mais prisioneiros. Rabban os matara para enfurecê-lo e obrigá-lo a lutar. Durante os últimos dias de preparativos, a fúria de Duncan aumentara imensamente.
As paredes nuas da adega estavam cobertas de geada. Duncan estava transido, com o coração cheio de dor, os nervos contidos, a pele parecia um manto insensível. Os motores vibravam através do chão. Ouvia nas cobertas superiores os movimentos da partida de caça. Os homens levavam fuzis com miras rastreadoras. Riam e conversavam, preparados para a caçada noturna.
Rabban também estava ali em cima.
Com o propósito de proporcionar a Duncan o que chamavam de uma
“boa chance”, a partida de caça tinha-lhe armado com uma faca romo (dizendo que não queriam que se machucasse), uma lanterna e uma corda: tudo o que um menino de oito anos necessitaria para evitar um esquadrão de caçadores profissionais Harkonnen em um território que conheciam como a palma da mão...
Acima, em uma poltrona macia e almofadada, Rabban sorriu ao pensar no menino aterrorizado e enfurecido no compartimento de carga. Se Duncan Idaho fosse maior e mais forte, seria tão perigoso como um animal.
O pirralho era resistente para seu tamanho, Rabban tinha que admitir. A forma que tinha evitado os preparadores de elite Harkonnen nas vísceras de Barony era admirável, sobretudo o truque com o tubo elevador.
A nave se afastou da cidade prisão, das zonas industriais encharcadas de petróleo, em direção a uma reserva de caça situada em uma meseta elevada, um lugar onde preponderavam pinheiros escuros e penhascos de arenito, cavernas, rochas e rios. A zona, desenhada totalmente, tinha inclusive alguns exemplares de vida selvagem melhorada geneticamente, cruéis predadores ansiosos pela carne tenra de um menino tanto quanto os próprios caçadores Harkonnen.
A nave pousou sobre um prado semeado de calhaus. Inclinou-se em um ângulo pronunciado, mas se endireitou com a ajuda dos estabilizadores.
Rabban envio um sinal de controle de seu cinturão.
A porta hidráulica que havia diante do menino se abriu e o liberou de seu cárcere. O ar frio da noite cortou suas bochechas. Duncan considerou a possibilidade de pôr-se a correr e refugiar-se entre os pinheiros. Uma vez ali, esconderia-se sob o manto de agulhas secas e mergulharia em um sono protetor.
Mas Rabban queria que o menino fugisse e se ocultasse, e sabia que não chegaria muito longe. No momento, Duncan tinha que agir apoiando-se no instinto, compensado pela inteligência. Não era o momento adequado para empreender ações inesperadas e imprudentes. Ainda não.
Duncan esperaria na nave até que os caçadores explicassem as regras, embora imaginasse o que deveria fazer. O cenário era maior, a caçada mais longa, as apostas mais elevadas... mas em essência se tratava do mesmo jogo para o qual tinha sido treinado na cidade prisão.
A escotilha superior se abriu a suas costas, e revelou duas formas rodeadas de um halo tênue: uma pessoa que reconheceu como o capitão dos caçadores de Barony, e o homem de costas largas que tinha matado seus pais: Rabban.
O menino afastou a vista da repentina luz e focou seus olhos, acostumados à penumbra, no prado e as espessas sombras das árvores. Era uma noite estrelada. Duncan ainda sentia dor nas costelas, como resultado de seu adestramento cruel.
— O Posto de Vigilância Florestal — disse o capitão dos caçadores
—. Como férias no deserto. Desfrute-as! Isto é um jogo, garoto. Nós o deixamos aqui, concedemos uma vantagem e saímos à caça. — Seus olhos se entreabriram —. Mas não tenha falsas ilusões. Isto é muito diferente de suas sessões de preparação em Barony. Se perder, morrerá, e sua cabeça dissecada se juntará a outros troféus que adornam a parede de lorde Rabban.
O sobrinho do barão dedicou a Duncan um largo sorriso. Rabban tremia de nervosismo e impaciência.
— E se escapar? — perguntou Duncan.
— Não escapará — respondeu Rabban.
Duncan não insistiu. Se forçasse uma resposta, o homem mentiria.
Se conseguisse escapar, teria que inventar suas próprias regras.
Obrigaram-no a descer para o prado, salpicado de orvalho. Usava roupas leves e sapatos gastos. O frio da noite o cortou como uma faca.
— Sobreviva o que puder, garoto! — gritou Rabban da porta da nave, e se meteu dentro enquanto a vibração dos motores aumentava seu ritmo —. me conceda uma boa caçada. A última foi muito decepcionante.
Duncan permaneceu imóvel enquanto a nave se erguia no ar, em direção a um pavilhão de caça vigiado. Dali, depois de tomar alguns copos, a partida de caça sairia em perseguição à sua presa.
Possivelmente os Harkonnen brincariam com ele por algum tempo e se divertiriam com sua atividade... ou talvez quando o apanhassem estariam entediados até os ossos, ansiosos por tomar uma bebida quente, e utilizariam suas armas para matá-lo na primeira oportunidade.
Duncan correu para o refúgio que as árvores ofereciam.
Seus pés deixaram um rastro de erva esmagada. Roçou os ramos grossos das árvores perenes e espalhou o tapete de agulhas secas enquanto subia para salientes abruptos de arenito.
À luz da lanterna, viu que exalava jorros de vapor, como pulsações do coração. Continuou subindo para os penhascos mais altos. Subiu aferrando-se à rocha sedimentária. Naquela zona, ao menos, não deixaria muitos sinais de pegadas, embora houvesse bolsas de neve nos salientes, parecidas com pequenas dunas.
Os afloramentos sobressaíam da ladeira da colina, sentinelas destacados sobre o tapete do bosque. O vento e a chuva tinham criado fossas e entalhes nos penhascos, alguns apenas suficientes para servir como tocas de roedores, e outros grandes o bastante para esconder um adulto.
Duncan, incentivado pelo desespero, subiu até o limite do esgotamento.
Quando chegou ao cume de uma elevação rochosa, que sua lanterna tingiu de um tom oxidado e torrado, se agachou e olhou ao redor.
perguntou-se se os caçadores já estariam à caminho. Não andariam muito longe.
Ouviu uivos de animais. Apagou a lanterna. Suas costelas e costas doíam, assim como o ponto do braço em que tinham implantado o localizador.
A suas costas, mais penhascos escarpados se elevavam nas sombras, semeados de entalhes e rebordos, cobertos de árvores esqueléticas que lembravam pelos de
verrugas. Uma grande distância separava-o da cidade mais próxima.
O Posto da Guarda Florestal. Sua mãe tinha falado desta reserva de caça isolada, favorita do sobrinho do barão. Rabban é tão cruel porque precisa demonstrar que não é como seu pai, havia dito em uma ocasião.
O menino tinha passado a maior parte de seus nove anos no interior de edifícios gigantescos, respirando ar reciclado impregnado de lubrificantes, solventes e gases de combustão, jamais tinha conhecido o frio do planeta, suas noites geladas, a claridade das estrelas.
O céu era uma imensa abóbada negra, em que se vislumbravam diminutos brilhos de luz, uma chuva de alfinetes que perfuravam as distâncias da galáxia. No espaço, os Navegantes da Corporação utilizavam sua mente para guiar os Cruzeiros, grandes como cidades, entre as estrelas.
Duncan nunca tinha visto uma nave da Corporação, nunca tinha saído de Giedi Prime, e agora duvidava que alguma vez o conseguisse.
Como tinha vivido nas vísceras de uma cidade industrial, nunca fora estimulado a aprender os desenhos que as estrelas formavam. Não obstante, mesmo que soubesse se orientar ou reconhecer as constelações, não tinha nenhum lugar aonde ir...
Agachado sobre o rebordo estudou seu mundo. Curvou-se e juntou os joelhos ao peito para conservar o calor corporal, mas continuou tremendo.
Ao longe, onde o terreno elevado mergulhava em um vale coberto de árvores em direção à austera silhueta do pavilhão de caça, viu uma fileira de luzes, globos luminosos que oscilavam como uma procissão de fadas. A partida de caça, bem descansada e armada, seguia seu rastro, sem se apressar. Eles estão se divertindo a valer. Duncan olhou e esperou, transido e desesperado. Tinha que decidir se queria viver. O que faria? Para onde iria? Quem o ajudaria?
O fuzil laser de Rabban tinha desintegrado o rosto de sua mãe, que já não poderia beijar, e seu cabelo, que já não poderia acariciar. Nunca mais ouviria sua voz quando o chamava de “doce Duncan”.
Os Harkonnen pretendiam repetir a jogada com ele, e não podia evitar isso. Era apenas um menino com uma faca romo, uma lanterna e uma corda. Os caçadores contavam com rastreadores richesianos, armaduras corporais climatizadas e armas potentes. Superavam-no em uma proporção de dez por um. Não tinha a menor chance.
Seria mais fácil esperar que chegassem. Inevitavelmente os rastreadores o localizariam, seguiriam o sinal implantado... mas podia estragar sua diversão. Se se rendesse, demonstrando assim seu desdém para diversões tão bárbaras, conseguiria uma pequena vitória, a única possível.
Ou, Duncan Idaho podia lutar, tentar prejudicar em todo possível aos Harkonnen. Sua mãe e seu pai não tinham gozado de nenhuma chance de lutar por suas vidas, mas Rabban lhe estava concedendo essa possibilidade.
Rabban o considerava um menino indefeso. A partida de caça pensava que acossar um menino proporcionaria certa diversão.
Ficou em pé com as pernas inchadas, sacudiu as roupas e parou de tremer. Não vou me render, decidiu. Só para lhes dar uma lição, só para demonstrar que não podem zombar de mim.
Duvidava que os caçadores usassem escudos pessoais.
Considerariam desnecessário tal proteção, sobretudo contra um menino.
O tato da faca que guardava no bolso era duro e tosco, inútil contra uma armadura. Mas podia conseguir algo mais com a folha, algo dolorosamente necessário. Sim, lutaria com todas as suas forças.
Duncan subiu o penhasco, apoiando-se em rochas e árvores caídas, até chegar a um fossa escavada na arenito. Rodeou os montes de neve para não deixar rastros.
O implante localizador os conduziria até ele, lá onde quer que fosse.
Sobre a cavidade, um saliente da parede quase vertical lhe proporcionou sua segunda chance: partes de arenito soltos, cobertos de liquens, enormes pedras brutas. Talvez pudesse movê-los...
Duncan deslizou no interior da fossa, onde não encontrou mais calor apenas mais escuridão. A entrada era tão baixa que um adulto teria que arrastar-se para acessar seu interior. Não havia outra saída. A cova não oferecia muita proteção. Teria que se apressar.
Acendeu a pequena lanterna, tirou a camisa e sacou a faca. Sentia o volume do implante localizador em seu braço esquerdo, na parte posterior do tricípite.
Sua pele já estava amortecida pelo frio, e sua mente aturdida pelas circunstâncias. Entretanto, quando manipulou a faca, sentiu-a perfurando seu músculo. Fechou os olhos e afundou mais a ponta.
Cravou a vista em na escura parede da cova e viu que a pálida luz lançava sombras esqueléticas. Sua mão direita se movia como se tivesse vida própria, como uma sonda para desenterrar o diminuto localizador. A dor se retirou para um canto remoto de sua consciência.
Por fim, o implante saiu, um diminuto micro fragmento de metal que caiu com um tinido sobre o chão da cova. Tecnologia sofisticada de Richese. Duncan, morto de dor, agarrou uma pedra para despedaçar o localizador. Mas pensou melhor: deixou a pedra e empurrou o diminuto dispositivo para as sombras, para que ninguém pudesse vê-lo.
Era melhor deixá-lo ali como isca.
Duncan se arrastou para fora e agarrou um punhado de neve. Gotas vermelhas caíram sobre o saliente de arenito. Aplicou um emplastro de neve à ferida do ombro, e o frio atenuou a dor do corte. Apertou o emplastro até que a neve tingida de rosa derreteu em seus dedos. Agarrou outro punhado, indiferente às marcas que deixava no chão. De qualquer modo, os Harkonnen viriam até ali.
Ao menos, a neve tinha estancado a hemorragia.
Depois subiu por cima da cova, procurando não deixar rastros. Viu que as luzes oscilantes do vale se dividiam. Os membros da partida de caça tinham escolhido caminhos diferentes para subir à colina. Um ornitóptero zumbiu sobre sua cabeça.
Duncan se moveu a maior velocidade possível, mas procurou não voltar a derramar sangue. Aplicou farrapos da sua camisa sobre a ferida, até ficar com o peito exposto ao frio, e depois se cobriu com os restos do objeto. Talvez os predadores do bosque farejassem o sangue e o seguissem, não em busca de diversão, mas de comida. Era um problema que não desejava considerar naquele momento.
Chegou ao saliente que dominava seu refúgio anterior. O instinto de Duncan o aconselhava a afastar-se o máximo possível daquele lugar, mas se obrigou a parar. Assim seria melhor. Se agachou atrás das partes de rocha soltas, mediu-as para ter certeza que teria forças para movê-los, e se preparou para esperar.
Em pouco tempo, o primeiro caçador subiu o penhasco que conduzia à cova. Provido de uma armadura antigravitacional, empunhava um fuzil laser. Olhou para um equipamento que recebia os sinais do localizador richesiano.
Duncan conteve o fôlego, imóvel. Um fio de sangue escorria por seu braço
esquerdo.
O caçador se deteve ante s fossa, observou a neve removida, as manchas de sangue, o piscar do seu localizador. Embora Duncan não pudesse ver seu rosto, imaginou o sorriso de triunfo.
O caçador se arrastou para o interior da cova, com o fuzil a frente.
— Peguei você, garotinho!
Duncan empurrou um penhasco coberto de liquens por cima da borda. Esse logo se deslocou por volta do segundo e lhe deu um forte empurrão. As duas pedras caíram, dando voltas no ar.
Ouviu o som do impacto e um rangido estremecedor. E a exclamação afogada do homem.
Duncan se arrastou para a borda, viu que um dos penhascos tinha caído para um lado e rolado pelo penhasco, arrastando os calhaus em seu caminho.
O outro penhasco tinha aterrissado sobre as costas do caçador, destruindo sua coluna vertebral.
Duncan desceu a toda pressa. O caçador ainda estava vivo, embora paralisado. Suas pernas se agitavam, e os saltos de suas botas golpeavam o chão recoberto de geada gelada. Duncan já não sentia medo dele.
Apontou sua lanterna para os olhos frágeis e estupefatos do homem.
Aquilo já não era um jogo. Sabia o que os Harkonnen lhe fariam, tinha visto o que Rabban fizera a seus pais.
Agora, Duncan jogaria segundo suas regras.
O caçador agonizante murmurou algo ininteligível. Duncan não vacilou. agachou-se com olhos sombrios e entreabertos, olhos que já não eram mais de um menino. A faca deslizou sob a mandíbula do homem. O
caçador se retorceu, ergueu o queixo, mais em sinal de aceitação que de desafio, e a faca se cravou. Um jorro de sangue brotou da jugular e formou uma poça escura e pegajosa no chão.
Duncan não perdeu tempo pensando no que tinha feito, não podia esperar que o cadáver do caçador esfriasse. Retirou o cinturão, encontrou um pequeno estojo
de primeiros socorros e uma barra alimentícia. Em seguida pegou o fuzil laser e com a culatra destroçou o localizador richesiano manchado de sangue. Já não necessitava dele como chamariz.
Que os perseguidores o seguissem valendo-se de seu engenho.
Supôs que até agradeceriam o desafio, depois que sua fúria se aplacasse.
Duncan se arrastou para fora. O fuzil laser, quase tão alto como ele, chacoalhou enquanto o carregava. Na planície, a fileira de luzes da partida de caça ia se aproximando.
Agora, melhor armado e animado, Duncan se perdeu na noite. Muitos elementos do Império acreditam que detinham o poder absoluto: a Corporação Espacial com seu monopólio sobre as viagens interestelares, a CHOAM com sua ditadura econômica, a Bene Gesserit com seus segredos, os Mentats com seu controle dos processos mentais, a Casa Corrino com seu trono, as Grandes e Menores Casa do Landsraad com suas enormes posses. Pobres de nós no dia em que uma destas facções resolver demonstrar que tem razão. Conde Hasimir Fenring. Despachos de Arrakis Leto teve uma hora para refrescar-se e descansar em seus aposentos em Grand Palais. — Er, sinto apressá-lo — disse Rhombur enquanto saía para o corredor de paredes acristaladas —, mas você não vai querer perder isto.
Levamos meses para construir um Cruzeiro. Me avise quando estiver preparado para ir à coberta de observação.
Leto, ainda nervoso, mas agradecido por poder ficar sozinho por alguns minutos, inspecionou sua bagagem e olhou para a habitação.
Contemplou seus pertences, guardadas com muito cuidado, muitos mais do que o necessário, incluindo bagatelas, um pacote de cartas de sua mãe e uma Bíblia Católica Laranja. Tinha prometido a ela que a cada noite leria alguns versículos.
Pensou no tempo que necessitaria para sentir-se em casa (um ano inteiro ausente de Caladan), e deixou tudo como estava. Logo teria tempo para ocupar-se disso. Um ano em IX.
Cansado depois de sua longa viagem, com a mente ainda aturdida pela
estranheza daquela metrópole subterrânea, Leto tirou a camisa e se jogou sobre a cama. Mal tinha conseguido provar a dureza do colchão e ajeitar o travesseiro, quando Rhombur chamou à porta.
— Vamos, Leto! Se apresse! Vista-se, vamos pegar um transporte.
Enquanto tentava colocar seu braço esquerdo pela manga, Leto se reuniu com o outro adolescente no corredor.
Um metrô os conduziu entre os edifícios invertidos até os subúrbios da cidade subterrânea, e depois uma cápsula elevadora os baixou até o segundo nível de edifícios, cobertos de cúpulas de observação. Rhombur abriu caminho entre as multidões que abarrotavam as galerias e janelas.
Agarrou Leto pelo braço enquanto deixavam para trás os guardas de Vernius e os espectadores. O príncipe estava com o rosto avermelhado, e se virou para outros.
— Que horas são? Já aconteceu?
— Ainda não. Faltam uns dez minutos.
— O Navegante chegará a qualquer momento. Sua câmara está sendo escoltada através do campo.
Rhombur murmurou agradecimentos e desculpas, ao mesmo tempo em que guiava seu confuso acompanhante até uma janela de metacristal situado na parede inclinada da galeria de observação.
Abriu-se outra porta no fundo da sala, e a multidão se afastou para dar passagem a dois jovens de cabelo escuro, gêmeos idênticos, a julgar por seu aspecto. Ladeavam a irmã de Rhombur, Kailea, como orgulhosa escolta. Durante o breve momento que a tinha perdido de vista, observou Leto, Kailea tinha posto um vestido diferente, menos frívolo mas não menos formoso. Parecia que sua presença embriagava os gêmeos, e seus cuidados constantes agradavam Kailea. Sorriu para os dois e guiou-os até um ponto estratégico na janela de observação.
Rhombur conduziu Leto até eles, muito mais interessados na vista que nos membros da multidão. Leto olhou ao redor e supôs que os espectadores eram autoridades importantes. Olhou para baixo, ainda ignorante do que ia acontecer.
Um imenso recinto se perdia na distância, no ponto onde o teto da gruta e o horizonte se confundiam. Divisou um Cruzeiro já terminado, uma nave do tamanho de um asteróide semelhante ao que o tinha transportado de Caladan a
IX. — Esta é, er, a fábrica mais importante de IX — disse Rhombur —.
É a única superfície do Império capaz de produzir um Cruzeiro. Todo mundo utiliza diques espaciais. Aqui, em um ambiente terrestre, a segurança e eficácia da construção em grande escala é muito rentável.
A nave reluzente ocupava quase toda a caverna subterrânea. Um leque de revestimentos dorsais decorativos brilhavam no lado mais próximo. Sobre a fuselagem se destacava uma cintilante hélice ixiana púrpura e acobreada, entrelaçada com o símbolo branco da Corporação Espacial, que simbolizava o infinito.
A nave descansava sobre um mecanismo elevador, que erguia a nave sobre o nível do chão para que grandes caminhões terrestres pudessem circular sob o casco. Operários subóides, usando uniformes brancos e chapeados, examinavam a fuselagem com aparelhos manuais e realizavam tarefas mecânicas rotineiras. Enquanto as equipes de operários inspecionavam a nave da Corporação, para prepará-la para sair ao espaço, fileiras de luzes dançavam ao redor da fábrica: barreiras de energia para repelir os intrusos.
Gruas e suportes elevadores pareciam diminutos parasitas que rastejavam sobre o casco do Cruzeiro, mas quase toda a maquinaria fora retirada para as paredes inclinadas da câmara, para não atrapalhar um...
lançamento? Leto pensou que era impossível. Milhares de operários se mexiam, retiravam equipamentos e preparavam a decolagem da nave formidável.
Os murmúrios do público aumentaram de intensidade, e Leto pressentiu que algo ia acontecer. Viu numerosas telas e imagens transmitidas por câmaras ocultas.
— Mas... — perguntou, aturdido pelo espetáculo — como fazem?
Uma nave deste tamanho? O teto é de rocha, e todas as paredes parecem sólidas.
Um dos gêmeos olhou para ele com um sorriso.
— Você já vai ver.
Os dois jovens tinham grandes olhos fundos em seus rostos quadrados e expressão concentrada. Eram alguns anos mais velhos que Leto. Sua pele pálida era uma conseqüência inevitável de viver no subsolo.
Não viu emblemas familiares no pescoço de sua roupa, e decidiu que não eram da Casa Vernius.
Kailea pigarreou e olhou para seu irmão.
— Rhombur — disse —, está esquecendo suas maneiras.
Rhombur recordou suas obrigações.
— Ah, sim! Este é Leto Atreides, herdeiro da Casa Atreides de Caladan. Apresento-lhe C'tair e D'murr Pilru. Seu pai é o embaixador de IX
em Kaitain, e sua mãe é banqueira da Corporação. Vivem em uma das casas do Grand Palais, de modo que os verá freqüentemente.
Os jovens fizeram uma reverência e pareceu que se aproximavam ainda mais de Kailea.
— Estamos nos preparando para os exames da Corporação, que acontecerão dentro de poucos meses — disse C'tair —. Temos a esperança de pilotar uma nave como esta algum dia.
Sua cabeça morena apontou para a nave enorme. Kailea olhou-os com preocupação em seus olhos verdes, como se sua aspiração de ser Navegantes não a convencesse.
Leto sentiu-se comovido pelo entusiasmo que viu nos olhos castanhos do jovem. O outro irmão era menos sociável, e parecia interessado apenas na atividade que se desenvolvia abaixo.
— A câmara do Navegante chegou — disse D'murr.
Um volumoso contêiner negro flutuou sobre um caminho espaçoso, elevado sobre elevadores industriais. Era uma tradição dos Navegantes da Corporação ocultarem sua aparência atrás de espessas nuvens de especiaria.
Acreditava-se que o processo de transformação em Navegante transformava a uma pessoa em algo mais que humano, algo mais evoluído.
A Corporação não confirmava nem negava as especulações.
— Não se vê nada dentro — disse C'tair.
— Sim, mas tem um Navegante dentro. Posso sentir.
D'murr se inclinou para frente, como se desejasse atravessar a janela de observação de metacristal. Quando os gêmeos deixaram de lhe dar atenção, fascinados pela nave, Kailea se voltou para Leto e sustentou seu olhar com brilhantes olhos esmeralda.
Rhombur indicou a nave e prosseguiu sua conversa veloz .
— Estes novos modelos de Cruzeiro otimizados têm emocionado meu pai. Não sei estudaram sua história, mas o princípio dos Cruzeiros eram de fabricação, er, richesiana. IX e Richese competiam para conseguir os contratos da Corporação, mas pouco a pouco ganhamos a mão, derrubando todos os aspectos de nossa sociedade no processo: subsídios, er, recrutamentos, arrecadação de impostos, o que fizesse falta. Em IX não fazemos as coisas pela metade.
— Também ouvi que são mestres na sabotagem industrial e nas leis sobre patentes — comentou Leto, recordando as palavras de sua mãe.
Rhombur meneou a cabeça.
— Mentiras espalhadas pelas Casas que nos invejam. Infernos carmesins, nós não roubamos idéias nem patentes. Só sustentamos uma guerra tecnológica com Richese, e ganhamos sem disparar um tiro. Demos-lhes golpes mortais, tão definitivos como se tivéssemos utilizado armas atômicas. Era ou eles ou nós. Faz uma geração, perderam a administração de Arrakis, quase ao mesmo tempo em que perdiam sua liderança tecnológica. Uma liderança familiar desastrosa, suponho.
— Minha mãe é richesiana — disse Leto, sarcástico.
Rhombur ruborizou, envergonhado.
— Oh, sinto muito. Tinha me esquecido.
Alisou-se o emaranhado cabelo loiro para ocupar as mãos em algo.
— Não foi nada. Não somos cegos — disse Leto —. Sei do que estão falando. Richese ainda existe, mas em uma escala muitíssimo menor. Muita burocracia e poucas inovações. Minha mãe nunca quis me levar lá, nem sequer para visitar sua família. Muitas lembranças dolorosas, suponho, embora suspeite que acreditava que as bodas com meu pai contribuiria para recuperar a fortuna de Richese.
O contêiner que guardava o misterioso Navegante entrou por um orifício no
extremo dianteiro do Cruzeiro. A câmara negra desapareceu nas vísceras da nave como um mosquito engolido por um peixe.
Embora fosse mais jovem que seu irmão, Kailea falou em tom muito sério:
— O novo programa de Cruzeiros será para nós o mais vantajoso de todos os tempos. Graças a este contrato, grandes quantias ingressarão em nossas contas. A Casa Vernius receberá vinte e cinco por cento de todos os Solaris que economizarmos para a Corporação Espacial durante a primeira década.
Leto, impressionado, pensou nas humildes atividades de Caladan: a colheita de arroz pundi, as barcos que descarregavam as mercadorias dos navios... e os vivas que a população dedicava ao velho duque depois das corridas de touros.
Os alto-falantes montados ao longo e largo da imensa câmara emitiram sirenes. Os operários subóides, como limagens de ferro atraídas por um campo magnético, abandonaram as imediações do Cruzeiro.
Piscaram luzes em outras janelas de observação das torres. Leto distinguiu diminutas formas apertadas contra janelas longínquas.
Rhombur se aproximou de Leto, enquanto os espectadores guardavam silêncio.
— Que aconteceu? — perguntou Leto —. O que vai acontecer?
— O Navegante vai decolar — disse C'tair.
— Ele se afastará de IX, para começar sua viagem — acrescentou D'murr.
Leto contemplou o teto de rocha, a barreira impenetrável de casca planetária, e compreendeu que era impossível. Ouviu um tênue zumbido, pouco perceptível. — Tirar uma nave destas características para o exterior não é difícil, er, ao menos para eles. — Rhombur cruzou os braços sobre o peito —.
Muito mais fácil que introduzir um Cruzeiro em um espaço fechado como este. Só um Timoneiro treinado é capaz.
Enquanto Leto olhava, com a respiração contida como todos os outros espectadores, o Cruzeiro refulgiu fugazmente, perdeu definição e desapareceu por completo.
Um forte estampido ressonou na gruta, devido ao repentino deslocamento de ar. Um tremor percorreu o edifício de observação, e os ouvidos de Leto se
tamparam.
Agora, a cova estava vazia, um imenso espaço fechado sem o menor sinal do Cruzeiro, só equipamento abandonado e um mapa de brilhos apagados no chão, paredes e teto.
— Lembra-se de como o Navegante dirige uma nave? — perguntou D'murr, ao perceber a confusão do Leto.
— Dobra o espaço — disse C'tair —. O Cruzeiro não atravessou a casca rochosa de IX em nenhum momento. O Navegante se limitou a ir daqui... para seu destino.
De entre o público se elevaram aplausos. Rhombur parecia muito satisfeito quando indicou o imenso vazio que se estendia sob seus pés.
— Agora temos lugar para começar a construir outro!
— Pura e simples economia de meios. — Kailea olhou para Leto —.
Não perdemos nem um segundo. As concubinas permitidas a meu pai graças ao acordo entre a Bene Gesserit e a Corporação não podiam, é obvio, dar a luz a um Sucessor Real, mas as intrigas eram constantes e cansativas em sua semelhança. Minha mãe, minhas irmãs e eu nos transformamos em peritas em evitar sutis instrumentos de morte. Na casa de meu pai, da princesa Irulan
As salas de aula destinadas ao príncipe herdeiro Shaddam no palácio imperial bastariam para receber um povoado de alguns planetas. O herdeiro dos Corrino meditava desinteressado diante de sua máquina de ensino, enquanto Fenring o observava.
— Meu pai ainda quer que eu tenha aulas como um menino. —
Shaddam olhou para as luzes e os mecanismos giratórios da máquina —. Já deveria estar casado a esta altura. Já deveria ter um herdeiro imperial.
— Para que? — riu Fenring —. Para que o trono possa saltar uma geração e passar diretamente para seu filho, quando for maior de idade, hummmm?
Shaddam tinha trinta e quatro anos, e pelas circunstâncias atuais se encontrava a uma vida de distância de tornar-se imperador. Cada vez que o velho tomava um gole de cerveja de especiaria ativava mais o veneno secreto, mas fazia meses que o n'kee agia e o único resultado visível era um comportamento cada vez mais irritável. Como se não tivesse mau gênio suficiente!
Naquela mesma manhã Elrood repreendera Shaddam por não prestar mais atenção aos estudos.
— Observe e aprenda! — Uma das tediosas frases de seu pai —.
Imite Fenring, ao menos uma vez.
Na infância Hasimir Fenring tinha assistido as aulas com o príncipe herdeiro. Em teoria fazia companhia a Shaddam, ao mesmo tempo em que adquiria conhecimentos sobre política e intrigas cortesãs. Nos estudos Fenring sempre se destacava mais que seu amigo. Devorava todos os dados que podiam ajudar a melhorar sua posição.
Sua mãe, Chaola, uma dama de companhia introspectiva, estabeleceu-se em uma casa tranqüila e viveu de sua pensão, depois da morte da quarta esposa do imperador, Fala. Ao criar os dois meninos juntos enquanto atendia à imperatriz Fala, Chaola tinha proporcionado a Fenring a oportunidade de ser muito mais que um simples acompanhante, quase como se tivesse planejado tudo.
Agora, Chaola fingia não entender o que seu filho fazia na corte, embora tivesse recebido o treinamento Bene Gesserit. Fenring era bastante inteligente para saber que sua mãe compreendia muito mais coisas do que sua posição sugeria, e que muitos planos e projetos de reprodução se desenvolveram sem que ele soubesse.
Shaddam soltou um suspiro de desespero e se voltou.
— Por que o velho não morre e me facilita as coisas? — cobriu a boca, alarmado com suas próprias palavras.
Fenring passeava de um lado para outro, ao mesmo tempo em que observava as bandeiras do Landsraad. O príncipe herdeiro devia saber de cor as cores e emblemas de cada Grande e Pequena Casa, mas Shaddam não conseguia recordar os nomes de todas as famílias.
— Seja paciente, meu amigo. Tudo a seu tempo. — Fenring acendeu uma varinha de incenso perfumado e inalou a fumaça —. Enquanto isso, instrua-se em temas que serão úteis ao seu reinado. Necessitará dessa informação em um
futuro próximo, hummmm?
— Pare de fazer esse ruído, Hasimir. Deixa-me nervoso. — Hummmm?
— Já me irritava quando era menino, e ainda consegue. Basta!
Na habitação contigua, atrás de supostas telas de intimidade, Shaddam ouviu as risadas de seu professor particular, o roçar de roupas, de lençóis, de pele contra pele. O professor passava as tardes com uma mulher esbelta e extraordinariamente bela, treinada sexualmente para chegar à Classe Perita. Shaddam tinha dado ordens à moça, e suas artes mantinham o professor distraído, para que Fenring e ele pudessem manter conversas privadas, algo bastante difícil em um lugar infestado de olhos observadores e ouvidos atentos.
Entretanto, o professor ignorava que a moça seria entregue como presente a Elrood, um complemento perfeito de seu harém. Aquele pequeno erro proporcionaria ao príncipe herdeiro uma boa ameaça para usar contra o fastidioso professor. Se o imperador chegasse a descobrir...
— Aprender a manipular as pessoas é uma parte importante da arte de governar — Fenring dizia com freqüência depois de sugerir uma idéia.
Isso, ao menos, Shaddam compreendia. Enquanto o príncipe herdeiro escutar meus conselhos, pensava Fenring, será um bom governante.
As telas mostravam enfadonhas estatísticas de meios de embarque, exportações fundamentais aos principais planetas, imagens holográficas de todos os produtos concebíveis, dos melhores cortes de baleia e tapeçarias áudio relaxantes ixianas... fio shiga, fabulosos objetos de arte Ecazi, arroz pundi e excremento de mulo. Tudo surgia da máquina de ensino como uma fonte de sabedoria descontrolada, como se Shaddam devesse conhecer e recordar todos os detalhes. Mas para isso existem os peritos e os conselheiros.
Fenring lançou um olhar para a tela.
— De todas as coisas do Império, Shaddam, qual considera a mais importante, hummmm?
— Agora você também é meu professor particular, Hasimir?
— Sempre — respondeu Fenring —. Se você for um grande imperador, beneficiará ao povo... e a mim.
A cama da habitação contigua produziu sons rítmicos.
— A paz e a tranquilidade são os mais importantes — grunhiu Shaddam.
Fenring apertou uma tecla da máquina. Apareceu a imagem de um planeta deserto. Arrakis. Fenring se sentou ao lado de Shaddam. — A especiaria melange. Isso é o mais importante. Sem ela o Império desmoronaria.
Inclinou-se e seus dedos voaram sobre os controles, convocando imagens do planeta deserto e as atividades de coleta de especiaria.
Shaddam contemplou uma sequência em que um gigantesco verme do deserto destruía uma fábrica de coleta nas profundezas do deserto. — Arrakis é a única fonte conhecida de melange em todo o universo.
—Fenring apoiou o punho sobre a mesa —. Mas por que? Com todos os exploradores e prospectores imperiais, e a enorme recompensa que a Casa Corrino ofereceu durante gerações, por que ninguém encontrou especiaria em outro lugar? Afinal, com um bilhão de planetas no Império, tem que haver em outra parte.
— Um bilhão? — Shaddam umedeceu os lábios —. Hasimir, sabe que isso é uma hipérbole para as massas. Não há mais de um milhão. — Um milhão, mil, que importa, hummmm? O que quero dizer é que se a melange for uma substância que se encontra no universo, deveríamos localizá-la em mais de um lugar. Sabe algo do planetólogo que seu pai enviou a Arrakis?
— É obvio, Pardot Kynes. Esperamos outro relatório dele a qualquer momento. Já se passaram várias semanas desde o último. — Ergueu a cabeça com orgulho —. Eu os leio assim que chegam.
Ouviram ofegos e risadas vindos da habitação contigua, pesados móveis arrastados, algo que caía ao chão com um golpe surdo. Shaddam se permitiu um leve sorriso. A concubina era muito bem treinada, sem dúvida.
Fenring virou os olhos e voltou para a máquina de ensinar.
— Preste atenção, Shaddam. A especiaria é vital, e entretanto apenas uma Casa de um só planeta controla toda a produção. A ameaça de um racionamento é muito séria, face à supervisão imperial e as pressões da CHOAM. Para preservar
a estabilidade do Império, necessitamos de uma fonte melhor de melange. Deveríamos criá-la sinteticamente, se for necessário. Necessitamos de uma alternativa... — voltou-se para o príncipe herdeiro com olhos cintilantes — que se ache sob nosso controle.
Shaddam apreciava mais estas discussões que as aulas programadas com o professor.
— Ah, sim! Uma alternativa a melange mudaria o equilíbrio de poder no Império, não é?
— Exato! Tal como estão as coisas, a CHOAM, a Corporação, as Bene Gesserit, os Mentats, o Landsraad. até a Casa Corrino, todos competem pela produção e distribuição da especiaria de um planeta, mas se existisse uma alternativa, nas mãos da Casa Imperial, os membros de sua família se transformariam em imperadores autênticos, não em simples marionetes sob o controle de outras forças políticas.
— Não somos marionetes — replicou Shaddam —. Nem mesmo meu decrépito pai o é. — Dirigiu um olhar nervoso para o teto, procurando câmaras espiãs ocultas embora Fenring já tivesse escaneado toda a sala.
— Como quiser, meu príncipe — disse Fenring, sem ceder um milímetro —. Se pusermos as rodas para girar, receberá esses benefícios quando o trono for seu. — Brincou com a máquina de ensinar —. Observe e aprenda! — disse, imitando com um falsete a voz de Elrood.
Shaddam riu do sarcasmo.
A máquina mostrou cenas dos lucros industriais de IX, de todas as novas invenções e modificações realizadas durante o frutífero governo da Casa Vernius.
— Por que acha que os ixianos não utilizam sua tecnologia para encontrar uma alternativa à especiaria? — perguntou Fenring —.
Receberam ordens diversas vezes para que analisassem a especiaria e desenvolvessem uma alternativa, mas só se importam com suas máquinas de navegação e seus estúpidos medidores de tempo. Quem se importa em saber a hora exata nos planetas do Império? Em que esses projetos são mais importantes que a especiaria? A Casa Vernius é um fracasso total, no que se refere a você.
— Esta máquina de ensinar é ixiana. O irritante desenho do novo Cruzeiro é
ixiano. E também seu veículo terrestre de alto rendimento e...
— Não importa — interrompeu Fenring —. Não acredito que a Casa Vernius dedique algum de seus recursos tecnológicos para solucionar o problema da alternativa à especiaria. Para eles não é uma prioridade.
— Então meu pai deveria guiá-los com, mas firmeza. — Shaddam enlaçou as mãos às costas e tratou de compor um porte imperial, avermelhado de indignação forçada —. Quando eu for imperador me encarregarei de que essa gente compreenda suas prioridades. Ah sim, eu em pessoa decidirei o que é o mais importante para o Império e a Casa Corrino.
Fenring rodeou a máquina de ensinar como um tigre Laça à espreita.
Agarrou uma tâmara açucarada de uma bandeja de fruta que havia em uma mesa lateral.
— O velho Elrood fez afirmações similares muito tempo atrás, mas até o momento não cumpriu nenhuma delas. — Agitou sua mão com longos dedos —. Oh, a princípio pediu aos ixianos que investigassem o assunto. Também ofereceu uma generosa recompensa ao primeiro explorador que descobrisse préespeciaria em planetas inexplorados. —
meteu a tâmara na boca, chupou seus dedos pegajosos e engoliu a fruta —.
Nada de nada.
— Nesse caso meu pai deveria aumentar a recompensa — disse Shaddam —. Não se esforçou o suficiente.
Fenring estudou suas unhas bem cortadas, e depois olhou para os olhos de Shaddam.
— Não será porque o velho Elrood não deseja considerar todas as alternativas necessárias?
— Ele é incompetente, mas não tão estúpido. Por que o faria?
— Imagine que alguém sugerisse utilizar os Bene Tleilax, por exemplo. Como única solução possível.
Fenring se apoiou contra uma coluna de pedra para observar a reação de Shaddam.
Uma expressão de asco cruzou o rosto do príncipe herdeiro.
— Os repugnantes Tleilaxu! Quem trabalharia com eles?
— Poderiam encontrar a resposta que procuramos.
— Não fala sério. Não se pode confiar nos Tleilaxu.
Recriou em sua mente a raça de pele cinzenta, cabelo grisalho e a pequena estatura, os olhos de contas, o nariz chato e os dentes afiados.
Mantinham-se afastados dos forasteiros, isolavam seus planetas centrais, cavavam uma sarjeta social em que pudessem mergulhar com prazer.
Entretanto, os Bene Tleilax eram verdadeiros feiticeiros genéticos Utilizavam métodos pouco ortodoxos e detestáveis do ponto de vista social, manipulavam carne morta ou viva, refugos biológicos. Graças a seus misteriosos mas poderosos contêineres de axlotl podiam cultivar clones de células vivas e gholas de mortos. Um aura escorregadia e furtiva rodeava os Tleilaxu. Como alguém podia levá-los a sério?
— Pense nisso, Shaddam. Por acaso não são os Tleilaxu professores da química orgânica e a mecânica celular, hummmm? — Fenring soprou
—. Graças a minha própria rede de espionagem, descobri que os Bene Tleilax, face à repugnância que despertam, desenvolveram uma nova técnica. Eu mesmo possuo... algumas de suas habilidades técnicas, e acredito que esta técnica Tleilaxu pode ser aplicada na produção de melange artificial... nossa própria fonte. — Cravou seus olhos brilhantes nos de Shaddam —. Ou não quer considerar todas as alternativas, e permitir que seu pai conserve o controle?
Shaddam se remexeu em seu assento, vacilante. Teria preferido estar jogando uma partida de bolaescudo. Não gostava de pensar naqueles seres anões. Os Bene Tleilax, fanáticos religiosos, eram muito reservados e não recebiam convidados. Indiferentes à opinião que suscitavam em outros planetas, enviavam seus representantes para observar e assinar tratados do mais alto nível, oferecendo seus produtos únicos de bioengenharia. Corriam rumores de que nenhum forasteiro tinha visto uma mulher Tleilaxu. Nunca.
Pensou que deviam ser assombrosamente belas... ou incrivelmente feias.
Ao ver que o príncipe herdeiro estremecia, Fenring lhe apontou um dedo.
— Shaddam, não caia na mesma armadilha que seu pai. Como amigo e
conselheiro, devo investigar possibilidades que passaram desapercebidas, hummmm? Esqueça esses sentimentos e pense na possível vitória se isto funcionar: uma vitória sobre o Landsraad, a Corporação, a CHOAM e a maldita Casa Harkonnen. É divertido pensar que todas as argúcias empregadas pelos Harkonnen para apoderar-se de Arrakis depois da queda de Richese não lhes terão servido de nada.
Sua voz adquiriu um tom mais untuoso, mais razoável.
— Qual o problema se tivermos que fazer um trato com os Tleilaxu, se com isso a Casa Corrino acabar com o monopólio da especiaria e estabelecer uma fonte independente?
Shaddam olhou para ele, dando as costas para a máquina de ensinar.
— Tem certeza disso?
— Não, não tenho — replicou Fenring —. Ninguém terá certeza até que se consiga. Mas ao menos temos que considerar a idéia, lhe dar uma oportunidade. Do contrário, alguém o fará... Inclusive até os Bene Tleilax.
Temos que fazê-lo por nossa própria sobrevivência.
— O que acontecerá quando meu pai descobrir? — perguntou Shaddam —. A idéia não o agradará. O velho Elrood nunca pensava por si só e o chaumurky de Fenring já tinha começado a fossilizar seu cérebro. O imperador sempre tinha sido um patético peão, manipulado por forças políticas. Talvez o abutre senil tivesse feito um trato com a Casa Harkonnen para lhes confiar o controle da produção de especiaria. Não seria uma surpresa para Shaddam saber que o poderoso barão tinha o velho Elrood preso por pés e mãos. A Casa Harkonnen era fabulosamente rica, e seus meios de influência eram uma lenda.
Seria estupendo deixá-los de joelhos.
Fenring cruzou os braços.
— Posso conseguir que tudo isto aconteça, Shaddam. Tenho contatos. Posso trazer aqui um representante dos Bene Tleilax sem que ninguém saiba. Pode defender nosso caso perante a Corte Imperial, e se seu pai o rechaçar, talvez averigüemos quem controla o trono... O rastro estaria fresco. Ponho a maquinaria em marcha, hummmm?
O príncipe herdeiro deu um olhar para a máquina de ensinar, que continuava dando aula para um aluno inexistente.
— Sim, sim, é claro — disse, impaciente agora que tinha tomado uma decisão —. Não percamos mais tempo. E pare de fazer esse ruído.
— Vai demorar um pouco para dispor todas as peças em seu lugar, mas o investimento valerá a pena.
Ouviu-se um longo gemido na habitação contigua, e depois um grito de êxtase, cada vez mais forte, até parecer que as paredes iam cair.
— Nosso professor aprendeu a agradar a sua pupila — disse Shaddam com um sorriso —. Ou possivelmente a vadia está fingindo.
Fenring riu e meneou a cabeça.
— Essa não era ela, meu amigo. Era a voz dele.
— Eu gostaria de saber que estão fazendo ali dentro — disse Shaddam.
— Não se preocupe. Tudo está gravado para que se divirta mais tarde. Se nosso amado professor colaborar conosco e não causar problemas, olharemos para nos divertir. Se, ao contrário, se tornar difícil, esperaremos até que seu pai tenha recebido como presente à nova concubina para seu prazer pessoal... e então passaremos ao imperador Elrood uma seleção destas imagens.
— E sairemos bem com a nossa — disse Shaddam.
— Exato, meu príncipe. O planetólogo tem acesso a muitas fontes, dados e projeções. Entretanto, suas ferramentas mais importantes são os seres humanos. Só cultivando a cultura ecológica entre o povo poderá salvar todo um planeta. Pardot Kynes. O caso de Bela Tegeuse.
Enquanto recolhia notas para seu próximo relatório ao imperador, Pardot Kynes descobriu prova de sutis manipulações ecológicas.
Suspeitava dos Fremen. Que outros responsáveis podiam existir nos baldios de Arrakis?
Chegou à conclusão de que o número de habitantes do deserto era muito maior
do que os Harkonnen supunham, e de que os Fremen alimentavam um sonho próprio... mas o planetólogo se perguntava se tinham desenvolvido um plano concreto para transformá-lo em realidade.
Enquanto meditava sobre os enigmas geológicos e ecológicos do planeta deserto, Kynes adquiriu a certeza de que estava a seu alcance insuflar vida naquelas areias calcinadas. Arrakis não era a pedra bruta morta que aparentava na superfície, mas sim uma semente capaz de dar frutos magníficos... desde que o meio ambiente recebesse os cuidados apropriados.
Os Harkonnen não iriam se incomodar. Embora governadores do planeta a décadas, o barão e sua corte caprichosa se comportavam como simples convidados, absolutamente dispostos a efetuar investimentos em Arrakis. Como planetólogo, tinha observado os sinais. Os Harkonnen estavam saqueando o planeta, despojavam-no de toda a melange possível sem pensar no futuro.
As maquinações políticas e as alternâncias de poder podiam desequilibrar as alianças com facilidade. dentro de poucas décadas, sem dúvida, o imperador entregaria o controle das operações relacionadas com a especiaria a outra Grande Casa. Fazer investimentos em Arrakis não beneficiava em nada os Harkonnen.
Pelo resto, muitos de seus habitantes eram pobres: contrabandistas, mercadores de água, comerciantes a quem custaria pouco fechar o negócio e mudar-se para outro planeta. A ninguém interessavam os apuros do planeta. Arrakis não era mais que um recurso a espremer e desprezar.
Não obstante, Kynes pensava que os Fremen tinham outros planos.
Dizia-se que os solitários habitantes do deserto se aferravam a seus costumes. Durante sua longa história, tinham vagado de planeta em planeta, pisoteados e escravizados, antes de fundar seu lar em Arrakis, um planeta que chamavam Dune desde tempos remotos. Era a gente que se dedicava mais àquele lugar. Sofriam as conseqüências dos atos dos exploradores.
Se Kynes pudesse ganhar a colaboração dos Fremen, e se existiam felpas como ele suspeitava, poderiam realizar mudanças em grande escala.
Assim que tivesse acumulado dados suficientes sobre mapas climáticos, conteúdo atmosférico e flutuações sazonais, poderia desenvolver um calendário realista, um plano que transformaria Arrakis, em longo prazo, em um planeta verde. Poderia ser feito!
Fazia uma semana que tinha concentrado suas atividades ao redor da Muralha Escudo, uma enorme cordilheira que abrangia as regiões do pólo norte. A maioria dos habitantes se estabeleceram em terrenos rochosos e protegidos, de difícil acesso aos vermes, conforme acreditava.
Para examinar o território de perto, Kynes decidiu viajar sem pressa em um veículo terrestre individual. Rodeou a base da Muralha Escudo, tomou medidas e recolheu espécimes. Mediu o ângulo dos estratos das rochas para determinar o fenômeno geológico que tinha originado uma barreira montanhosa tão formidável.
Com o tempo e meticulosos estudos, até poderia encontrar capas de fósseis, massas de pedra calcária com conchas marinhas ou seres oceânicos primitivos petrificados, procedentes do passado do planeta, muito mais úmido. Até o momento, a sutil evidencia de água primitiva era visível para o olho treinado. Descobrir aquele substrato criptozóico seria a pedra angular de seu tratado, a prova incontestável de suas suspeitas...
Uma manhã, cedo, Kynes subiu em seu veículo, deixando rastros no chão erodido da muralha montanhosa. Naquela zona todos os povoados, do maior até o mais humilde, estavam mapeados, sem dúvida para facilitar o pagamento de impostos e a exploração dos Harkonnen. Era uma sorte contar com esses mapas. Chegou aos arredores de um lugar chamado Windsack, onde tinham instalado um posto de guarda e barracões para os soldados Harkonnen, que viviam em uma precária aliança com os moradores do deserto. Kynes continuou seu caminho sobre o terreno desigual. Enquanto cantarolava para si, examinou as paredes dos penhascos. O zumbido dos motores era como uma canção de berço, e se perdeu em seus pensamentos.
Depois, quando passou por um topo e rodeou um saliente rochoso, sobressaltou-se ao ver um combate desesperado. Seis soldados trajando os melhores ornamentos dos Harkonnen e providos de escudos corporais brandiam espadas cerimoniosas contra três jovens Fremen que tinham encurralado.
Kynes freou o veículo. A deplorável cena lhe recordou o tigre Laça bem alimentado que tinha visto em uma ocasião em Salusa Secundus, brincando com um pobre rato de terra. O tigre não necessitava de mais comida, só se divertia brincando de predador. Tinha encurralado o aterrorizado roedor entre umas rochas, arranhava-o com suas garras largas e curvas, abria feridas dolorosas e sangrentas, feridas não mortais, de propósito. O tigre Laça brincou com o rato durante vários minutos, enquanto Kynes observava com seus prismáticos de alta
potência.
Aborrecido por fim, o tigre a decapitou com uma dentada e se afastou rebolando.
Em compensação, os três jovens Fremen opunham uma resistência muito mais feroz que o rato de terra, mas só contavam com facas e trajes destiladores. Os nativos do deserto não tinham a menor chance ante a capacidade militar e as armas dos soldados Harkonnen.
Mas não se renderam.
Os Fremen jogavam pedras com precisão, mas os projéteis ricocheteavam contra os escudos. Os Harkonnen riram e se aproximaram mais.
Kynes desceu de seu veículo, fascinado pela cena. Ajustou seu traje destilador, afrouxou as sujeições para gozar de mais liberdade de movimentos. Comprovou que usava a máscara bem posta, mas não fechada. De momento não sabia se devia observar de longe, como tinha feito com o tigre Laça, ou intervir de alguma forma.
Havia dois soldados Harkonnen para cada Fremen, e se Kynes fosse defender os jovens só conseguiria sair ferido ou ser acusado de resistência às autoridades Harkonnen. Um planetólogo imperial não devia intrometer-se em incidentes locais.
Apoiou a mão na faca que levava no cinto. Em qualquer caso, estava preparado, mas esperava ver tão somente uma troca de insultos, ameaças, e talvez uma pequena refrega que terminaria ressentidamente e com algumas contusões.
Mas de repente a natureza do confronto mudou, e Kynes compreendeu sua estupidez. Não se tratava de um simples jogo, mas de uma briga muito séria. Os Harkonnen ansiavam por sangue.
Os seis soldados se lançavam sobre os Fremen, que não cederam terreno. Um deles caiu, sangrando por uma artéria do pescoço.
Kynes esteve a ponto de gritar, mas engoliu suas palavras quando uma neblina vermelha turvou sua visão. Enquanto viajava pelo planeta tinha imaginado grandiosos planos para utilizar os Fremen como uma ferramenta, um autêntico povo do deserto com o qual compartilhar idéias.
Pensava em utilizá-los como mão de obra para seu projeto de transformação ecológica. Seriam seus aliados e colaboradores entusiastas.
Agora, aqueles Harkonnen imbecis tentavam, sem motivo aparente, matar seus trabalhadores, as ferramentas com as quais ele pretendia transformar o planeta. Não podia permitir.
Enquanto o terceiro membro do grupo sangrava sobre a areia, os outros dois Fremen, armados só com facas, atacaram com uma ferocidade assombrosa. — Taqwa!1 — gritaram.
Dois Harkonnen caíram, e seus quatro camaradas não foram em sua ajuda com a velocidade necessária. Os soldados de uniforme azul, vacilantes, avançaram para os jovens.
Kynes, indignado pela patente injustiça dos Harkonnen, agiu guiado por um impulso. Deslizou por trás dos soldados, com sigilo e rapidez.
Conectou seu escudo pessoal e desembainhou sua faca de ponta envenenada.
Durante os duros anos vividos em Salusa Secundus, tinha aprendido a usar aquele tipo de arma, e também a matar. Seus pais tinham trabalhado em uma das mais infames prisões do Império, e os ambientes que Kynes 1 Literalmente: "o preço da liberdade. Algo de grande valor. O pedido de um deus a um mortal (e o medo provocado por este pedido). Assim consta na Terminologia do Império que Frank Herbert acrescentou ao seu primeiro DUNE. (N. Sel T.)
tinha conhecido em suas explorações lhe tinham exigido com freqüência defender-se de temíveis predadores.
Não emitiu nenhum grito de batalha, porque isso teria dado acabado com o fator surpresa. Kynes segurava a arma embaixo. Não era muito valente mas sim impulsivo. Como se tivesse vontade própria, a faca atravessou pouco a pouco o escudo corporal do Harkonnen mais próximo, e se afundou para cima, até o osso. A lâmina penetrou sob a caixa torácica do homem, perfurou seus rins e cortou a coluna vertebral.
Kynes extraiu a faca, e a afundou no flanco de um segundo soldado Harkonnen. O escudo deteve a ponta envenenada um segundo, mas quando o Harkonnen se mexeu, Kynes lhe afundou a arma no abdômen, com a ponta para cima.
Dois Harkonnen tinham caído feridos mortalmente. Os dois sobreviventes contemplaram aturdidos aquela inesperada reviravolta nos acontecimentos, e uivaram de cólera. Afastaram-se um do outro, com a atenção concentrada em Kynes, embora os Fremen continuassem dando amostras de valentia, preparados
para lutar com unhas e dentes se fosse necessário.
Os Fremen se lançaram sobre seus atacantes. — Taqwa! — gritaram de novo.
Um dos Harkonnen lançou um cutilada mas Kynes se moveu com rapidez, encorajado pela vitória sobre suas duas primeiras vítimas.
Descreveu um arco com a faca, atravessou o escudo e cortou a garganta de seu atacante. Um entrisseur. O guarda deixou, cair a espada e levou as mãos ao pescoço em uma tentativa inútil de conter a hemorragia.
O quinto Harkonnen mordeu o pó.
Enquanto os dois Fremen atacavam o único sobrevivente, Kynes se inclinou sobre o jovem ferido e falou.
— Fique calmo. Vou ajudá-lo.
O jovem tinha sangrado muito, mas Kynes levava um estojo de primeiros socorros no cinturão. Aplicou um cicatrizante na ferida do pescoço, e utilizou hipofrascos de plasma e estimulantes de alta potencia para manter o jovem vivo. Tomou o pulso: batimento regular.
Kynes verificou a gravidade da ferida e se espantou que o jovem não tivesse sangrado mais. Sem atendimento médico, teria morrido em poucos minutos, mas Kynes estava surpreso de que tivesse sobrevivido por tanto tempo. O sangue Fremen coagula com assombrosa rapidez. Outro dado para arquivar em sua memória. Um processo adaptado de sobrevivência para reduzir a perda de umidade no deserto mais seco? — Eeeeeaah! — Nooo!
Kynes levantou a vista para ouvir gritos de dor e terror. Os Fremen tinham arrancado os olhos do Harkonnen sobrevivente e agora se dedicavam a esfolá-lo lentamente. Guardaram partes de pele em bolsas que levavam junto ao quadril.
Kynes se levantou, coberto de sangue e ofegante. Depois de contemplar aquela crueldade começou a perguntar-se se tinha agido bem.
Aqueles Fremen eram iguais a animais selvagens. Tentariam matá-lo agora,
mesmo depois do que tinha feito por eles? Era um completo desconhecido para aqueles jovens desesperados.
Observou e esperou, e quando os jovens terminaram sua tortura horrenda, olhouos nos olhos e pigarreou antes de falar em galach imperial.
— Meu nome é Pardot Kynes, e sou o planetólogo imperial destinado para Arrakis.
Reparou em sua pele manchada de sangue e decidiu não estender a mão para saudá-los. Talvez interpretassem mal o gesto.
— É um prazer. Sempre desejei conhecer os Fremen. É mais fácil ser aterrorizado por um inimigo que se admira. Thufir Hawat, Mentat e responsável pela segurança da Casa Atreides.
Oculto pelos grossos pinheiros, Duncan Idaho se ajoelhou sobre as agulhas suaves e sentiu um pouco de calor por fim. O ar frio da noite amortecia o aroma resinoso das árvores perenes, mas ao menos aqui estava protegido da brisa, afiada como navalha. Afastou-se o suficiente da cova para descansar. Só um momento.
Sabia que os caçadores Harkonnen não descansariam. Sentiriam-se mais motivados agora que tinha matado um deles. Possivelmente sintam mais prazer na caçada, pensou. Especialmente Rabban.
Duncan abriu o estojo de primeiros socorros que roubara do caçador e tirou um pequeno pacote de ungüento de novapele, que ao aplicar sobre o corte no ombro endureceu até formar uma atadura orgânica. Depois, devorou a ração nutritiva e guardou os pacotes nos bolsos.
Com a lanterna examinou o fuzil laser. Nunca tinha empunhado uma arma semelhante, mas tinha visto os guardas e caçadores usá-las. Embalou a arma e apalpou seus mecanismos e controles. Apontou o canhão para cima e tentou compreender seu funcionamento. Se queria lutar, tinha que aprender.
De repente, um raio branco saiu disparado para as taças das árvores.
Explodiram em chamas, e pedaços de agulhas fumegantes caíram como neve vermelha.
Assustado, Duncan deixou cair o fuzil e retrocedeu engatinhando, mas em
seguida recolheu a arma e tentou memorizar a combinação de botões que tinha apertado.
As copas ardiam como uma fogueira e projetavam volutas de fumaça acre. Duncan voltou a disparar, mas desta vez apontou, para comprovar que podia utilizar o fuzil para defender-se. A arma pesada não fora feita para um menino, sobretudo com o ombro e as costelas doloridas, mas poderia utilizá-la. Tinha que fazê-lo.
Como sabia que os Harkonnen se precipitariam para a chama, Duncan correu em busca de outro lugar onde pudesse se esconder. Dirigiu-se a um terreno elevado, perto da borda do penhasco, para continuar observando as luzes dispersas dos caçadores. Sabia com exatidão quantos eram e a distância que os separava dele.
Como podem ser tão estúpidos, que nem sequer se escondem?, perguntou-se. Excesso de confiança... Era esse seu erro? Nesse caso, seria útil. Os Harkonnen esperavam que se moldasse ao seu jogo, para depois acovardar-se e morrer no momento preciso. Duncan teria que decepcioná
los.
Talvez desta vez jogaremos a minha maneira.
Enquanto corria, se esquivava das manchas de areia e se mantinha afastado da vegetação ruidosa. Não obstante, a concentração de Duncan em seus perseguidores o distraiu de ver o perigo real. Ouviu um rangido de ramos atrás e por cima dele, o estalo dos arbustos, e a seguir um roçar de garras sobre a rocha, acompanhado de uma respiração pesada e rouca.
Não se tratava de um caçador Harkonnen, mas algum predador do bosque que farejava seu sangue.
Duncan se deteve e olhou para cima em busca de olhos que brilhassem nas sombras. Mas não se voltou para o afloramento rochoso que se projetava sobre sua cabeça até que ouviu um rosnado. À luz das estrelas, viu a silhueta agachada, de um cão selvagem, com o lombo arrepiado, as fauces abertas e as presas à mostra. Tinha os olhos cravados em sua presa: um menino de carne tenra.
Duncan retrocedeu e disparou o fuzil. Errou, mas o raio desprendeu fragmentos de rocha. O predador uivou e retrocedeu. Duncan disparou de novo, e desta vez abriu um buraco em sua anca direita. O animal desapareceu na escuridão com um rugido de dor.
O grito do predador, assim como os disparos do fuzil, atrairiam os caçadores Harkonnen. Duncan pôs-se a correr de novo à luz das estrelas.
Rabban, com os braços cruzados, contemplou o cadáver de seu caçador, estendido junto à cova. O ardiloso menino o tinha atraído para uma armadilha. Muito engenhoso. Um pedra bruta jogada sobre suas costas e uma faca romo em sua garganta. O golpe de graça.
Rabban refletiu tentando analisar a provocação. Percebia o aroma acre da morte até no frio da noite. Não era isso o que desejava, uma provocação?
Um dos caçadores rastejou ao interior do oco e com sua lanterna iluminou as manchas de sangue e o localizador richesiano destroçado.
— Aqui está a explicação, meu senhor. O pirralho tirou o aparelho de rastreamento. — O caçador engoliu em seco —. Um menino muito esperto. Boa presa.
Rabban contemplou o cadáver por alguns momentos mais. A queimadura do sol ainda ardia em suas bochechas. Sorriu pouco a pouco, e por fim explodiu em sonoras gargalhadas.
— Um menino de oito anos, com apenas sua imaginação e um par de armas incompetentes acabou com um de meus melhores homens!
Riu de novo. Os outros o observaram com nervosismo.
— Esse menino é perfeito para a caçada — proclamou Rabban.
Depois, golpeou o cadáver com a ponta de sua bota —. E este inútil não merecia fazer parte de minha equipe. Deixem-no aqui para que apodreça.
Que os carniceiros dêem conta dele.
Então, dois dos rastreadores captaram chamas nas árvores, e Rabban apontou.
— Ali! O pirralho tenta esquentar as mãos. — Riu uma vez mais, e por fim seus homens o acompanharam —. Será uma noite muito emocionante.
De uma elevação Duncan esquadrinhava a distância, longe do pavilhão custodiado. Uma luz piscou e se apagou, e quinze segundos depois reacendeu se apagou. Algum tipo de sinal que não procedia dos caçadores Harkonnen, muito afastados do pavilhão, do posto de guarda e das aldeias próximas.
A luz cintilou, e depois se fez a escuridão. Quem mais anda por aqui?
O Posto do Guarda Florestal era uma reserva exclusiva dos membros da família Harkonnen. Qualquer intruso era eliminado ou utilizado como presa em alguma caçada. Duncan olhou para a luz, que se apagava e acendia. Estava claro que se tratava de uma mensagem... Quem a estava enviando?
Respirou fundo e se sentiu pequeno mas desafiante em um mundo muito grande e hostil. Não tinha para onde ir nem a menor chance, mas até aquele momento tinha conseguido evitar os caçadores... Poderia resistir muito mais? Os Harkonnen não demorariam para chamar reforços, ornitópteros, localizadores vitais, e até mesmo animais farejadores que seguissem o aroma do sangue de sua camisa, como o cão selvagem tinha feito.
Duncan decidiu dirigir-se para as pessoas que emitiam os misteriosos sinais e confiar em sua sorte. Não esperava encontrar ninguém disposto a ajudá-lo, mas não renunciou à esperança. Talvez descobrisse algum meio de escapar, possivelmente como vagabundo.
Mas antes estenderia outra armadilha aos caçadores. Tinha imaginado algo que os surpreenderia, e lhe parecia me bastante simples. Se pudesse matar mais alguns perseguidores, suas chances de escapar aumentariam.
Depois de estudar as rochas, as manchas de neve e as árvores, escolheu o melhor ponto para sua segunda emboscada. Acendeu a lanterna e dirigiu o raio para o chão, para que nenhum olho sensível percebesse de longe seu brilho.
A distância que o separava de seus perseguidores não era muito grande. De vez em quando ouvia um grito, via os globos luminosos da partida que iluminavam seu caminho através do bosque, enquanto os rastreadores tentavam adivinhar o caminho que sua presa tomaria.
Duncan desejava que adivinhassem, mas jamais desconfiariam de suas intenções. Ajoelhou-se junto a uma depressão, introduziu a lanterna na neve e a afundou.
O brilho que se projetava através da neve era como água diluindo-se em uma esponja. Diminutos cristais de gelo refratavam a luz e aumentavam seu brilho, A depressão brilhava como uma ilha de luz.
Correu para o refúgio das árvores, com o fuzil pronto para disparar.
Estendeu-se sobre um tapete de agulhas de pinheiro, com cuidado de não
apresentar o menor alvo, e depois apoiou o canhão do fuzil sobre uma pequena rocha.
E esperou.
Os caçadores apareceram, como era de prever, e Duncan pensou que os papéis haviam se invertido: agora ele era o caçador e eles a presa.
Apontou com os dedos tensos sobre o botão de disparo. Por fim, os caçadores chegaram ao alvo e deram voltas ao redor da depressão luminosa, tentando elucidar que significava aquilo.
Dois deles se voltaram para as árvores, como se temessem um ataque. Outros formavam silhuetas sob a luz espectral, alvos perfeitos, tal como Duncan tinha esperado.
Na retaguarda do grupo reconheceu um homem corpulento de porte autoritário. Rabban! Duncan pensou em seus pais brutalmente assassinados e disparou sem vacilar.
Mas nesse momento um dos exploradores se plantou em frente a Rabban para lhe comunicar seu relatório. O raio atravessou o homem, que caiu inerte.
Rabban reagiu com uma agilidade surpreendente para um homem de seu tamanho e se lançou para um lado, enquanto o raio surgia pelo peito do explorador e mergulhava na depressão. Duncan disparou de novo e atingiu um segundo caçador. Os outros começaram a disparar às cegas para as árvores.
Os próximos alvos de Duncan foram os globos luminosos.
Explodiram um após o outro, e os caçadores ficaram mergulhados na escuridão. Abateu mais dois, enquanto o resto se dispersava.
Como a carga do fuzil estava se esgotando, o menino retrocedeu para ocultar-se atrás da colina de onde tinha lançado seu ataque, e depois correu desesperadamente para a luz que tinha visto. Fosse o que fosse, era sua única chance.
Os Harkonnen ficariam desorientados e desorganizados durante alguns momentos. Sabendo que era sua última oportunidade, Duncan esqueceu toda precaução. Correu, escorregou colina abaixo, chocou-se contra as rochas, mas não dedicou tempo para sentir a dor dos arranhões e das contusões. Não podia esconder seu rastro, nem tampouco tentou.
Atrás dele, à medida que aumentava a distância, ouviu grunhidos afogados, assim como gritos dos caçadores: uma manada de cães selvagens os tinha atacado. Duncan sorriu e continuou para a luz que piscava de forma intermitente perto do bordo da reserva florestal.
Quando chegou por fim, correu para um claro. Descobriu um ornitóptero silencioso, um aparelho de alta velocidade que podia transportar vários passageiros. A luz provinha do teto do aparelho, mas Duncan não viu ninguém. Esperou em silêncio por alguns momentos e avançou com cautela. Uma nave abandonada? Eles a teriam deixado para ele? Uma armadilha dos Harkonnen? Mas por que iriam fazer isso? Já o estavam caçando. Ou se tratava de um salvador milagroso? Duncan Idaho tinha obtido muitas coisas naquela noite e já estava esgotado, aturdido por tantas mudanças em sua vida, mas tinha apenas oito anos e não sabia pilotar o aparelho, embora fosse sua única esperança de escapar. Mesmo assim, possivelmente encontraria provisões dentro, mais comida, outra arma...
Apoiou-se contra o casco, inspecionou a zona, sem fazer o menor ruído. A escotilha estava aberta mas o interior do misterioso ornitóptero se encontrava às escuras. Avançou com cautela e empunhando o fuzil.
Então, mãos surgidas das sombras lhe arrebataram a arma das mãos.
Duncan cambaleou para trás ao mesmo tempo em que reprimia um grito.
A pessoa que aguardava no interior do veículo lançou o fuzil sobre as pranchas da coberta e agarrou o menino pelos braços. Mãos ásperas apertaram a ferida em seu ombro, e Duncan lançou uma exclamação de dor.
Esperneou e se revolveu, e quando levantou a vista viu uma mulher de rosto amargurado, cabelo cor chocolate e pele escura. Reconheceu-a imediatamente: Janess Millam, a mesma que tinha estado a seu lado durante os jogos no jardim... pouco antes dos soldados Harkonnen capturarem seus pais e enviarem toda sua família para a cidade prisão de Barony.
Essa mulher o vendera para os Harkonnen.
Janess lhe tampou a boca antes que pudesse gritar e imobilizou sua cabeça com firmeza. Não podia escapar.
— Peguei você — disse com voz rouca.
Acabava de vendê-lo novamente.
Consideramos os diversos planetas como reserva genéticas, fontes de conhecimento e sonhos, fontes do possível. Análise da Bene Gesserit, Arquivos de Wallach IX
O barão Vladimir Harkonnen era um perito em atos desprezíveis, mas o fato de ver-se obrigado àquela cópula turvava mais que qualquer vil situação em que tivesse participado. Desarmava-o completamente.
E além disso, por que a reverenda mãe tinha que comportar-se com tanta calma e presunção?
Despediu-se de seus guardas e funcionários, afim de eliminar todo possível espião da cidadela Harkonnen. Onde demônios está Rabban quando preciso dele? Caçando! Voltou para seus aposentos privados, com o estômago revirado.
Um nervoso suor molhava sua testa quando atravessou a arcada adornada, e conectou as cortinas de intimidade. Talvez se apagasse os globos luminosos e fingisse que fazia outra coisa...
Quando entrou, o barão experimentou grande alivio ao perceber que a bruxa não tirara a roupa nem se reclinara sedutoramente sobre os lençóis, à espera de sua volta. Estava sentada, vestida dos pés a cabeça, uma irmã da Bene Gesserit, mas com um insuportável sorriso de superioridade nos lábios.
O barão teve vontades de apagar aquele sorriso com um bofetão.
Respirou fundo, assombrado de que aquela bruxa o fizesse sentir-se tão indefeso.
— O máximo que posso lhes oferecer é um frasco com meu esperma
— disse tentando aparentar serenidade —. Fecunde a si mesma. Isso bastará para satisfazer seus propósitos. — Elevou seu queixo —. As Bene Gesserit terão que se conformar com isso.
— Não é possível, barão — disse a reverenda madre, sentada muito ereta sobre o divã —. Conhece as normas. Não criamos fetos em contêineres como os Tleilaxu. As Bene Gesserit têm de dar a luz mediante procedimentos naturais, sem intromissões artificiais, por motivos que é incapaz de compreender.
— Sou capaz de compreender muitas coisas — grunhiu ele.
— Isto não.
Tampouco tinha pensado que seu truque funcionasse.
— Necessitam do sangue Harkonnen. O que acha do meu sobrinho Glossu Rabban? Ou melhor ainda, seu pai, Abulurd. Vão a Lankiveil, e com ele engendrarão tantos filhos quantos quiserem. Não terão que ter tantos aborrecimentos.
— Inaceitável — disse Mohiam e lhe cravou um olhar frio. Seu rosto era comum mas implacável —. Não vim aqui negociar, barão. recebi ordens. Devo retornar a Wallach IX grávida de minha filha.
— Mas e se...
A bruxa levantou uma mão.
— Deixei muito claro o que acontecerá se discordar. Tome uma decisão. Conseguiremos nosso propósito de uma maneira ou outra.
De repente, sua habitação se transformou num lugar desconhecido e ameaçador para o barão. Ergueu os ombros, flexionou os bíceps. Embora fosse um homem musculoso, de corpo esbelto e reflexos rápidos, sua única escapatória parecia ser submeter aquela mulher pela força. Não obstante, conhecia as habilidades combativas das Bene Gesserit, em especial seus métodos estranhos e ancestrais... e duvidou de quem sairia vitorioso.
Ela se levantou e cruzou a habitação com passos silenciosos, para sentar-se muito rígida na beira da cama desordenada do barão.
— Se lhe servir de consolo, este ato me satisfaz tão pouco quanto a você.
Contemplou o corpo bem torneado do barão, suas costas largas, seu peitoral firme e o abdômen liso. Seu rosto tinha uma expressão altiva, que indicava seu berço nobre. Em outras circunstâncias, Vladimir Harkonnen teria sido um amante aceitável, como os preparadores masculinos com quem a Bene Gesserit tinha emparelhado Mohiam durante seus anos férteis.
Já tinha dado oito filhos à escola Bene Gesserit, e todos tinham sido criados longe dela em Wallach IX ou em outros planetas de treinamento.
Mohiam nunca tinha tentado segui-los. A Irmandade não permitia.
Aconteceria o mesmo com a filha que teria do barão Harkonnen.
Como muitas irmãs bem treinadas, Mohiam possuía a capacidade de manipular
suas funções corporais. Para chegar a reverenda madre tinha que conseguir alterar sua bioquímica mediante a ingestão de um veneno que aumentava os limites da consciência. Ao transmutar a droga mortal com seu corpo, mergulhou em suas linhagens anteriores, o que lhe permitia conversar com todas as suas antepassadas femininas, as vociferantes vidas interiores da Outra Memória.
Podia preparar seu útero, ovular à vontade, até escolher o sexo de seu filho no momento em que esperma e óvulo se uniam. As Bene Gesserit queriam uma filha, uma filha Harkonnen, e Mohiam a teria, tal como lhe tinham ordenado.
Como só conhecia poucos detalhes dos numerosos programas de reprodução, Mohiam não entendia por que as Bene Gesserit necessitavam daquela combinação de genes em particular, por que a tinham selecionado para gerar a menina e por que nenhum outro Harkonnen podia produzir uma descendência adequada aos interesses da Bene Gesserit. Só estava cumprindo seu dever. Para ela, o barão era uma ferramenta, um doador de esperma que devia resignar-se a seu papel.
Mohiam recolheu a saia escura e se estendeu sobre a cama, ao mesmo tempo em que olhava para ele.
— Venha, barão, não percamos mais tempo. Afinal, isso não é grande coisa. — Seu olhar desceu para a virilha do barão.
Quando ele avermelhou de raiva, ela continuou em voz baixa.
— Possuo a capacidade de aumentar seu prazer ou de atenuá-lo. Em qualquer caso, os resultados serão os mesmos. — Sorriu com seus lábios magros —. Pense nas reservas de melange que poderão conservar sem que o imperador saiba. — Sua voz se endureceu —. Por outra parte, tente imaginar a reação do velho Elrood contra a casa Harkonnen se descobrir que o enganaram desde o primeiro momento.
O barão franziu o sobrecenho e avançou para a cama. Mohiam fechou os olhos e murmurou uma bênção Bene Gesserit, uma oração para acalmar-se e concentrar suas funções corporais em seu metabolismo interno.
O barão estava mais enojado que excitado. Não suportava a visão da forma nua de Mohiam. Por sorte, ela conservava quase toda a roupa, assim como ele.
A mulher o manipulou até conseguir uma ereção, e Vladimir manteve os olhos fechados durante todo o ato mecânico. Não havia outra alternativa que não fosse fantasiar sobre conquistas anteriores, a dor, o poder... algo para afastar sua mente do repugnante e incompetente ato da cópula entre homem e mulher.
Não se tratava de fazer amor, nem muito menos, mas sim de um aborrecido ritual entre dois corpos com o objetivo de trocar material genético. Nem mesmo desfrutaram dele sexualmente.
Mas Mohiam conseguiu o que desejava.
Piter De Vries se plantou em silêncio frente a sua janela privada de observação. Como Mentat, tinha aprendido a deslizar como uma sombra, a ver sem ser visto. Uma antiga lei da física afirmava que o mero ato de observação mudava os parâmetros. Qualquer bom Mentat sabia contemplar uma cena como se fosse invisível, sem que as pessoas sujeitas a seu escrutínio percebessem conta.
De Vries tinha presenciado com freqüência as travessuras sexuais do barão. Às vezes os atos o repugnavam, em outras ocasiões o fascinavam...
mas muito poucas vezes lhe proporcionavam idéias.
Agora, mantinha os olhos colados aos diminutos orifícios de observação, absorvendo os detalhes, enquanto o barão se via forçado a copular com a bruxa Bene Gesserit. A cena lhe pareceu muito divertida, e sentiu prazer com o desconcerto do homem. Nunca tinha visto o barão superado pelos acontecimentos. Oh, oxalá tivesse tido tempo de gravar a cena, para deleitar-se com a cena outras vezes.
Assim que a mulher anunciou suas exigências, De Vries soube qual seria o desenlace. O barão se transformou no peão perfeito, apanhado sem remissão, sem a menor possibilidade de escolha.
Mas por quê? Inclusive com suas grandes destrezas de Mentat, De Vries não conseguia compreender o que a Irmandade desejava da Casa Harkonnen ou de sua descendência. A combinação genética não podia ser tão espetacular. Mas no momento, o Mentat se limitou a desfrutar do espetáculo. Muitas invenções melhoraram de forma seletiva habilidades ou aptidões concretas, acentuaram um aspecto ou outro. Entretanto, nenhum conseguiu sequer roçar a complexidade ou adaptabilidade da mente humana. Ikbhan, Tratado sobre a mente, Volume II
Leto se erguia ofegante junto a Zhaz, o capitão da guarda, na sala de treino do Grand Palais. O instrutor era um homem anguloso de cabelo castanho arrepiado, sobrancelhas povoadas e barba quadrada. Assim como seus tutelados, não vestia camisa, apenas calças curtas de luta. O cheiro de suor e metal aquecido impregnava o ar, mesmo com os esforços de um aparelho de extração de ar. Como quase todas as manhãs, o instrutor dedicava mais tempo a olhar que a lutar. Deixava que as máquinas de luta se ocupassem do trabalho.
Depois de seus estudos, Leto adorava a mudança de ritmo, o exercício físico, o desafio. Já tinha se adaptado a uma rotina, com base em horas de treinamento físico e mental de alta tecnologia, e mais horas dedicadas a visitar as instalações tecnológicas e receber instrução sobre filosofia mercantil. Começava a simpatizar com o entusiasmo de Rhombur, embora freqüentemente tivesse que ajudar o príncipe ixiano a entender conceitos difíceis. Rhombur não era curto de entendimento, mas desconhecia muitos assuntos práticos.
Cada três manhãs, os jovens saíam de suas salas-de-aula e se exercitavam na sala de treino automatizada. Leto agradecia o exercício e a descarga de adrenalina, mas tinha a impressão de que Rhombur e o instrutor de combate consideravam esta atividade como algo antiquado, exigido só pelas lembranças bélicas do conde Vernius.
Leto e o capitão de cabelo arrepiado viram que o corpulento príncipe Rhombur atacava com uma lança dourada um polido mek de combate. Zhaz não lutava com seus tutelados. Acreditava que se as forças de segurança e ele cumprissem
seu dever, nenhum membro da Casa Vernius teria que rebaixar-se jamais ao bárbaro combate corpo a corpo. Não obstante, colaborava na programação dos autômatos de combate autodidatas. O mek, do tamanho de um homem, encontrava-se em posição de descanso, e consistia em um ovóide negro sem traços distintivos, sem braços, pernas, nem rosto. Entretanto, assim que começava o combate, o engenho ixiano gerava uma série de toscas proeminências e adaptava diversas formas, apoiando-se na informação de seus sensores, que lhe indicava a melhor forma de defender-se de um adversário. Podia projetar punhos de aço, facas, cabos de flexoaço e outras surpresas de qualquer ponto de seu corpo. Seu rosto mecânico podia desaparecer por completo ou mudar de expressão, de uma estupidez destinada a enganar o inimigo até uma alegria diabólica, passando por um olhar feroz. O mek interpretava e reagia, aprendia a cada passo.
— Lembrem-se, nada de movimentos regulares — gritou Zhaz para Rhombur. Sua barba se sobressaía como uma pá de seu queixo —. Não deixe que ele calcule suas intenções.
O príncipe se agachou quando dois dardos romos passaram sobre sua cabeça. Uma faca surpresa lançada pelo mek causou um fio de sangue no ombro do jovem. Face à ferida, Rhombur fez uma finta e atacou, e Leto se sentiu orgulhoso de que seu colega real não gritasse de dor.
Rhombur tinha pedido conselho a Leto em várias ocasiões, inclusive críticas sobre seu estilo de lutar. Leto respondeu com sinceridade, mas sem esquecer que não era um instrutor profissional, e tampouco queria revelar muito sobre as técnicas Atreides. Rhombur as aprenderia com o Thufir Hawat, o professor de armas do velho duque. A ponta da espada do príncipe encontrou um ponto fraco no corpo negro do mek, e este caiu morto.
— Muito bem, Rhombur! — gritou Leto.
Zhaz assentiu.
— Muito melhor. Leto tinha lutado duas vezes com o mek n aquele dia, e o derrotara em cada ocasião, com um grau de dificuldade superior ao utilizado pelo príncipe Rhombur. Quando Zhaz perguntou a Leto como tinha adquirido aquela destreza, o jovem Atreides se mostrou esquivo, porque tampouco desejava se vangloriar.
Entretanto, agora tinha provas de que o método de treinamento Atreides era superior, face à arrepiante quase inteligência do mek. A preparação de Leto incluía facas, punhais, atordoantes de balas lentas e escudos corporais, e Thufir Hawat era um instrutor muito mais perigoso e imprevisível que qualquer autômato.
Enquanto Leto agarrava sua arma e se preparava para o próximo combate, as porta se abriram e Kailea entrou, coberta de jóias e de um cômodo vestido de fibra metálica cujo desenho parecia calculado para dotá
la de um aspecto esplêndido mas informal. Carregava um punção e um caderno gravador riduliano. Arqueou as sobrancelhas e fingiu surpresa ao encontrá-los na sala. — Oh! Perdoem-me. Vim dar uma olhada no desenho do mek.
A filha dos Vernius estava acostumada a distrair-se com passatempos intelectuais e culturais, além de estudar comércio e arte. Leto não conseguia afastar os olhos dela. Em certos momentos os olhos da moça pareciam flertar com ele, mas quase sempre o ignorava com tal intensidade, que Leto suspeitava que compartilhava a mesma atração que ele. Durante o tempo em que estava no Grand Palais, Leto tinha cruzado com ela na sala de jantar, nas galerias de observação ao ar livre e em bibliotecas. Tinha respondido com fragmentos de conversa desajeitada.
Além do brilho sugestivo de seus belos olhos verdes, Kailea não o tinha incentivara de nenhuma outra forma, mas Leto não conseguia parar de pensar nela.
Não é mais que uma menina brincando de dama, lembrou-se Leto.
Pena que não pudesse convencer sua imaginação disso. Kailea acreditava que estava destinada a um futuro muito mais glorioso que viver no subsolo de IX. Seu pai era um herói de guerra, o chefe de uma das Grandes Casas mais ricas, e sua mãe tinha sido concubina imperial devido a sua grande beleza, e a moça tinha uma cabeça excelente para os negócios. Era evidente que Kailea Vernius contava com um sem-fim de possibilidades.
A moça concentrou toda sua atenção no ovóide cinza imóvel. — Convenci nosso pai a pensar na possibilidade de comercializar nossos meks de combate de última geração. — Examinou a máquina de treinamento, mas olhava
para Leto com a extremidade do olho, tomava nota de seu perfil elegante —. Nossos aparelhos de combate são os melhores, reguláveis, versáteis e autodidatas. O mais próximo de um adversário humano que se desenvolveu desde o Jihad.
Leto sentiu um calafrio, e pensou em todas as advertências de sua mãe. Se estivesse presente, estaria apontando um dedo acusador e assentiria satisfeita. Leto olhou para o ovóide.
— Está dizendo que esta coisa tem cérebro?
— Por todos os Santos e pecadores, insinua que violamos as restrições impostas depois da Grande Revolução? — replicou o capitão Zhaz, estupefato —. “Não construirá uma máquina a semelhança da mente humana.” — Somos muito, er, cuidadosos com isso, Leto — disse Rhombur, enquanto secava o suor da nuca com uma toalha púrpura —. Não há nada com que se preocupar.
Leto não se conformou. — Bem, se o mek escanear as pessoas, se as prevê, como você disse, como processa a informação? Senão mediante um cérebro eletrônico, como? Isto não é só um aparelho sensível. Aprende e adapta seus ataques.
Kailea tomou notas no caderno de cristal e dominou um dos cachos dourados de seu cabelo acobreado escuro.
— Há muitas zonas cinzentas, Leto, e se agirmos com cautela a Casa Vernius obterá tremendos benefícios. — Passou um dedo por seus lábios curvos —. De qualquer modo, o melhor séria oferecer alguns modelos sem marca no mercado negro, afim de sondar as perspectivas.
— Não se preocupe, Leto — disse Rhombur, para encerrar o tema incômodo. Gotas de suor caiam de seu cabelo loiro e sua pele estava avermelhada por causa do esforço —. A Casa Vernius conta com equipes de Mentats e conselheiros legais que examinam a lei até o último detalhe.
— Olhou para sua irmã para que o apoiasse.
Ela assentiu com ar ausente. Em alguma das sessões de instrução recebidas no Grand Palais, Leto tinha aprendido sobre disputas de patentes interplanetárias, tecnicismos menores,
regras sutis. Os ixianos tinham descoberto uma forma substancialmente diferente de utilizar aparelhos mecânicos para processar dados, uma forma que não conjurava o espectro das máquinas pensantes, como as que tinham escravizado à humanidade durante tantos séculos? Não entendia como a Casa Vernius podia ter criado um mek de combate autodidata, sensível e regulável sem ter violado a proibição da Jihad.
Se sua mãe soubesse, ordenaria que voltasse para casa, por mais que seu pai se opusesse.
— Vamos ver se é um produto tão bom como diz — disse Leto.
Agarrou uma arma e deu as costas a Kailea. Sentiu os olhos da jovem cravados em seus ombros nus, nos músculos de suas costas. Zhaz retrocedeu para ver melhor.
Leto passou a lança de uma mão para a outra, adotou uma posição de combate clássica e gritou para a forma oval um grau de dificuldade.
— Sete ponto vinte e quatro!
Oito pontos mais alta que antes. O mek não se moveu.
— Muito alta — disse o professor de treinamento, e adiantou sua mandíbula barbada —. desconectei os níveis altos por causa de sua periculosidade.
Leto franziu o cenho. O instrutor de combate não queria que seus estudantes sofressem o menor percalço. Thufir Hawat teria rido dessa presunção. — Pretende se exibir para a jovem dama, maese Atreides? Poderia acabar morto.
Olhou para Kailea, que também o observava mas com uma expressão zombeteira. Baixou a vista para o caderno riduliano e riscou mais algumas cifras. Leto se ruborizou. Zhaz agarrou uma toalha de uma prateleira e a lançou para Leto.
— A sessão terminou. As distrações deste tipo não são boas para seu treinamento, e podem causar feridas graves. — voltou-se para a princesa
—. Lady Kailea. Peço-lhe que não entre na sala de treinamento quando Leto Atreides estiver combatendo com nossos meks. Muitas hormônios soltos no ar! —
O capitão da guarda não podia dissimular sua diversão —.
Sua presença poderia ser mais perigosa que a de qualquer inimigo. Temos que fazer uma coisa em Arrakis que jamais se tentou em escala planetária. Temos que utilizar o homem como uma força ecológica construtiva, introduzindo vida terraformada e adaptada: uma planta aqui, um animal ali, um homem em tal lugar, afim de transformar o ciclo da água e construir um novo tipo de paisagem. 

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