Por fim , férias ! 😊😀☺😁😃
quarta-feira, 31 de maio de 2017
segunda-feira, 29 de maio de 2017
domingo, 28 de maio de 2017
SD 941 : WAYNE DE GOTHAN
OBITUÁRIOS DO Gotham Herald
BRUCE PATRICK WAYNE
Bruce Patrick Wayne, industrialista bilionário, filantropo e personalidade pública de Gotham City, morreu tragicamente na noite da última sexta-feira em Crime Alley, Park Row, no bairro dos teatros de Uptown Gotham. A causa foram múltiplos ferimentos de balas. (Ver matéria relacionada, “Suspeitas cercam assassinato de Wayne”, página 1, e encarte especial Seção J, “A dinastia Wayne”.) Wayne era uma celebridade de Gotham tanto pelas manchetes quanto por presidir uma das maiores empresas multinacionais do mundo. Sua vida foi muito cedo marcada por tragédia quando seus pais, Thomas e Martha Wayne, foram assassinados na Crime Alley enquanto Bruce, então com dez anos de idade, assistia. (Ver matéria relacionada na página 6, Seção J.) Aos 14 anos Bruce Wayne iniciou uma viagem pelo mundo, tendo estudado em Cambridge, Sorbonne e outras universidades europeias. Contudo, nunca permaneceu muito tempo e com frequência abandonou após um semestre. Além da academia, Wayne adquiriu com sucesso várias habilidades práticas. Seu conhecimento de tantas disciplinas variadas fez de Wayne um indivíduo incomum e imprevisível. Aos 20 anos ele tentou ingressar no FBI, mas desistiu após conhecer seus regulamentos e conduta e retornou a Gotham, assumindo o manto da fortuna dos Wayne em seu aniversário de 21 anos. (Ver “Cronologia de Bruce Wayne”, Seção J, página 2.) Seus primeiros anos levaram a grande fama, e ele foi duas vezes escolhido como o solteirão mais cobiçado do mundo pela revista Gotham Living. Foi noticiado que namorou a princesa Portia Storme, Vicki Vale e sua guarda-costas Sasha Bordeaux, com quem foi envolvido na morte de outra de suas conhecidas, a personalidade televisiva Vesper Fairchild (Ver “Mistério na Mansão Wayne”, Seção J, página 3.) A despeito de ser constantemente visto na companhia de mulheres famosas, Wayne nunca se casou. Sob sua liderança controvertida, a Wayne Enterprises se tornou uma formidável multinacional que incluía Wayne Aerospace, Wayne Biotech, Wayne Chemical, Wayne Electronics, Wayne Entertainment, Wayne Foods, Wayne Industries, o Wayne Institute for Advanced Studies, Wayne Medical, Wayne Research, Wayne Shipping, Wayne Steel e Wayne Technologies. O braço filantrópico, a Fundação Wayne, apoia causas em todo o mundo. As operações Wayne são agora dirigidas por Alfred Pennyworth, que é presidente e chefe do conselho de diretores, e Lucius Fox, o CEO. Em seus últimos anos, Wayne se tornou mais recluso e abandonou a celebridade que havia sido sua marca na juventude. Bruce era filho de Thomas e Martha Wayne (ambos falecidos), de Bristol. Não há parentes vivos.
BRUCE PATRICK WAYNE
Bruce Patrick Wayne, industrialista bilionário, filantropo e personalidade pública de Gotham City, morreu tragicamente na noite da última sexta-feira em Crime Alley, Park Row, no bairro dos teatros de Uptown Gotham. A causa foram múltiplos ferimentos de balas. (Ver matéria relacionada, “Suspeitas cercam assassinato de Wayne”, página 1, e encarte especial Seção J, “A dinastia Wayne”.) Wayne era uma celebridade de Gotham tanto pelas manchetes quanto por presidir uma das maiores empresas multinacionais do mundo. Sua vida foi muito cedo marcada por tragédia quando seus pais, Thomas e Martha Wayne, foram assassinados na Crime Alley enquanto Bruce, então com dez anos de idade, assistia. (Ver matéria relacionada na página 6, Seção J.) Aos 14 anos Bruce Wayne iniciou uma viagem pelo mundo, tendo estudado em Cambridge, Sorbonne e outras universidades europeias. Contudo, nunca permaneceu muito tempo e com frequência abandonou após um semestre. Além da academia, Wayne adquiriu com sucesso várias habilidades práticas. Seu conhecimento de tantas disciplinas variadas fez de Wayne um indivíduo incomum e imprevisível. Aos 20 anos ele tentou ingressar no FBI, mas desistiu após conhecer seus regulamentos e conduta e retornou a Gotham, assumindo o manto da fortuna dos Wayne em seu aniversário de 21 anos. (Ver “Cronologia de Bruce Wayne”, Seção J, página 2.) Seus primeiros anos levaram a grande fama, e ele foi duas vezes escolhido como o solteirão mais cobiçado do mundo pela revista Gotham Living. Foi noticiado que namorou a princesa Portia Storme, Vicki Vale e sua guarda-costas Sasha Bordeaux, com quem foi envolvido na morte de outra de suas conhecidas, a personalidade televisiva Vesper Fairchild (Ver “Mistério na Mansão Wayne”, Seção J, página 3.) A despeito de ser constantemente visto na companhia de mulheres famosas, Wayne nunca se casou. Sob sua liderança controvertida, a Wayne Enterprises se tornou uma formidável multinacional que incluía Wayne Aerospace, Wayne Biotech, Wayne Chemical, Wayne Electronics, Wayne Entertainment, Wayne Foods, Wayne Industries, o Wayne Institute for Advanced Studies, Wayne Medical, Wayne Research, Wayne Shipping, Wayne Steel e Wayne Technologies. O braço filantrópico, a Fundação Wayne, apoia causas em todo o mundo. As operações Wayne são agora dirigidas por Alfred Pennyworth, que é presidente e chefe do conselho de diretores, e Lucius Fox, o CEO. Em seus últimos anos, Wayne se tornou mais recluso e abandonou a celebridade que havia sido sua marca na juventude. Bruce era filho de Thomas e Martha Wayne (ambos falecidos), de Bristol. Não há parentes vivos.
SD 940 : WAYNE DE GOTHAN
EPÍLOGO
OBITUÁRIO
Mansão Wayne / Bristol / 20h35 / Hoje Alfred Pennyworth estava de pé no centro do mausoléu dos Wayne e contemplou a coluna de luar que penetrava pelo domo acima. A estrutura lembrava uma versão menor do Panteão de Roma, com direito a seu próprio óculo em miniatura – uma abertura circular no ponto mais alto do domo que permitia a entrada de luz do sol ou da lua na câmara abaixo. No centro do piso, bem abaixo do óculo, havia uma fonte feita de modo a que qualquer água da chuva que passasse pela abertura fluísse para ela. Exigia limpeza e manutenção regulares, mas Alfred não se incomodava com sua eventual presença entre os mortos. Em muitos sentidos, ele preferia. Mas seu objetivo naquela noite não era faxina. Ele vestia seu melhor terno e garantira que os sapatos estivessem engraxados até que brilhassem como espelhos. Usava seu sobretudo de pelo de camelo – o clima de abril estava atipicamente frio, consequência de um inverno prolongado e difícil – e luvas de couro. A aba de seu chapéu-coco estava agora apertada na mão direita, enquanto a esquerda segurava um buquê de flores. Estava diante de uma das criptas, olhando para as gravações na pedra.
BRUCE PATRICK WAYNE 19 DE FEVEREIRO DE 1963 FILHO DE THOMAS E MARTHA WAYNE
– Vejo que ainda não conseguiram colocar a data de falecimento – disse a voz rouca atrás dele. – Um daqueles detalhes para os quais ainda não tive tempo, comissário – disse Alfred, mal virando a cabeça. – Não que alguém vá esquecer a data tão cedo – disse James Gordon, se aproximando de Alfred, as mãos fundas nos bolsos do sobretudo. – Quinze de agosto; há apenas seis meses. Foi um senhor serviço fúnebre. – Quer dizer um espetáculo, não é mesmo, comissário? – disse Alfred, os olhos ainda fixos na tumba. – Nunca vi tanta gente tão ansiosa para entrar na lista de convidados de um funeral. Seria de pensar que todos o queriam morto. – Eu não estava entre eles – retrucou Gordon, passando a mão sobre o bigode grosso. Alfred lançou um olhar confuso para o comissário. – Minhas desculpas, comissário. Achei tê-lo incluído na lista de convidados. – Sim, você incluiu – concordou Gordon, olhando para o chão. – E obrigado, Alfred, por
pensar em mim, mas... Bem, eu não queria dizer adeus daquele jeito. Ele era muitas coisas para muita gente, boas e ruins, mas para mim era apenas Bruce, um cara que eu conheci que tinha um sorriso rápido, era impecavelmente generoso e tentava lidar com uma riqueza e um poder que nunca pediu ou particularmente queria. Não queria dizer adeus daquele jeito... Não com um grande espetáculo e o luto transmitido pela internet. Por isso estou contente por você ter me chamado aqui. Isso me dá uma oportunidade de dizer adeus adequadamente sem ter de me preocupar em ficar entre algum político e uma câmera. – Entendo o que quer dizer – concordou Alfred. – Foi um circo. – Suponho que não se possa culpar a mariposa por ser atraída para a chama – disse Gordon, dando de ombros e suspirando ao contemplar a tumba. – A morte de Bruce foi notícia internacional por quase duas semanas antes que não tivessem mais nada a dizer sobre ele. A história tinha tudo: fama, infâmia, riqueza e poder, tudo lançado sobre o pobre filho de Gotham que morreu com um tiro exatamente no mesmo lugar e da mesma forma que seus pais morreram mais de quarenta anos antes. Qualquer um que era alguém queria ser visto como parte de uma história dessas. – Metade deles estava aqui para ser vista – disse Alfred, corrigindo o comissário. – A outra metade mais provavelmente queria enfiar um alfinete nele para ter certeza de que estava morto. – Então imagino que tenham ficado desapontados – retrucou Gordon com um risinho triste. – Com o caixão fechado e tudo mais. – O senhor leu o relatório da autópsia – fungou Alfred. – Vários tiros no rosto. Realmente horrível. Os agentes funerários simplesmente desistiram de tentar recriar qualquer semelhança razoável. – Sim, bem, por isso pedi para encontrar você – continuou Gordon. – Não me entenda mal... Aprecio a oportunidade de vir aqui, mas por que escolheu este lugar? – Porque gosto de pensar que de alguma forma ele está aqui. – respondeu Alfred, melancólico. – Gostaria de pensar que o que o senhor tem a dizer dará alguma paz à sua alma. Gordon olhou para a tumba, anuiu e prosseguiu. – Ainda restam algumas coisas para que possamos encerrar a investigação, mas no geral acho que temos um quadro claro do que aconteceu. A desconhecida que você encontrou na cena continua a ser apenas isso. Não conseguimos identificá-la nas investigações, e interrogá-la não ajudará muito. Ela troca de personalidade o tempo todo, e alega ser tudo desde a mãe de Bruce Wayne até uma psicóloga clínica feita prisioneira de um demônio em sua cabeça. Os analistas em Arkham acham que esta última é uma fixação com sua terapeuta. De qualquer forma, aparentemente ela morava com a tal Doppel em Pearl. Suas impressões estão por toda a arma, junto com algumas parciais da mulher Richter. A balística corresponde inteiramente. Achamos que elas podem ter disputado a arma. Havia muito material na casa de Richter sobre o Sr. Wayne, e achamos que a desconhecida poderia estar seguindo Bruce. – E quanto à outra mulher, a outra vítima? – perguntou Alfred, se corrigindo. – Ellen Doppel? – Gordon pegou seu bloco e empurrou os óculos para o alto do nariz, mas logo desistiu de tentar ler ao suave luar azul que iluminava a tumba. – Bem, a essência da
história é que ela estava morando na casa dos Richter porque havia sido deixada para ela pela família Richter. Os peritos vasculharam a residência, mas não encontraram nada a não ser um bizarro santuário na biblioteca, claramente montado por um perseguidor. O promotor acha que Doppel estava tentando tratar da desconhecida, a seguiu até o beco, e simplesmente estava no lugar errado na hora errada. Pelo que entendo, o Sr. Wayne tinha o hábito de visitar aquele beco de tempos em tempos. – Sim, comissário, uma tradição que pretendo manter em homenagem a ele – disse Alfred. – Então imagino que tenha acabado. – Sim, no que me diz respeito – respondeu Gordon, enfiando as mãos novamente nos bolsos do casaco. – Foi nobre da parte do homem lhe deixar tanto da propriedade no testamento. – Meu empregador era um homem muito amável e generoso – disse Alfred, concordando gentilmente. – O Sr. Fox e eu temos agora a maioria das ações da Wayne Enterprises. – Vai manter o nome? – Esse nome traz benefícios a Gotham há algum tempo – disse Alfred. – Acho que pode continuar a fazê-lo por um pouco mais; a SEC não está mais interessada em investigar a companhia; dificilmente poderiam fazer acusações de extorsão contra o jovem Wayne agora que ele partiu. – Um pequeno bem por um preço tão alto – disse Gordon. Foi na direção do túmulo, colocando a mão na superfície da pedra e a pousando sobre o nome gravado. – Lamento, Bruce – disse Gordon. Sua voz se tornou baixa e rouca, quase inaudível mesmo no silêncio da noite. – Gostaria de ter estado lá para ajudá-lo. Adeus, velho amigo. Gordon se virou, a cabeça baixa. – Obrigado por vir, comissário – disse Alfred. – Tome cuidado na volta para casa. – Certamente – disse Gordon, assentindo para Alfred enquanto saía lentamente da tumba. – Ligue se precisar de algo, Alfred. O novo dono da Mansão Wayne ficou escutando os passos do comissário de polícia. Quando o silêncio tomou conta da tumba novamente, ele respirou fundo e se virou, olhando através do óculo para o céu estrelado. – Ouviu isso? – disse às estrelas. – Acabou. – Ouvi – respondeu uma forma alada, silhuetada contra as estrelas. Ela desceu em um sussurro para dentro da câmara, se colocando junto ao velho empregado. – Você fez um trabalho impressionante, Alfred – disse a sombra. – Obrigado. – Não há necessidade de agradecer, jovem... A sombra ergueu uma das mãos em alerta. – Quero dizer que não há necessidade de me agradecer – emendou Alfred. – Meu pai não me ensinou apenas a limpar os salões e tirar a poeira dos móveis. Minha formação na Inglaterra não se limitou a Eton. Meu pai continuava a ter fortes laços com seus amigos do OSS, e eles também ajudaram a, digamos, ampliar minha educação e minhas habilidades vocacionais. – Você as demonstrou bem – disse a forma na escuridão. – Por que estava monitorando minha frequência naquela noite, Alfred?
– Digamos apenas que eu não desisto fácil – respondeu Alfred. – E quanto às suas próprias investigações? – Marion Richter estava certa – respondeu. – O vírus é uma grande causa contribuidora para o tipo radical de criminosos que com frequência temos de enfrentar aqui em Gotham, mas não a causa. Ele amplia reações e certas capacidades genéticas, mas não cria criminosos. – Quer dizer como o Coringa, senhor? – perguntou Alfred. – Interessante, não? – refletiu a sombra. – Marion tentou obrigar o Coringa a ajudá-la manipulando suas motivações. A única coisa que o Coringa não suporta é controle e ordem, exatamente as coisas que Marion estava tentando instilar nele. Então ele se rebelou contra a programação de Marion e tentou me salvar de ser arrastado ainda mais para a trama dela. – E eu estava querendo perguntar... – Não, Alfred – cortou a forma. – Não tenho a mutação viral. Ela não foi passada para mim. – Mas senhor, achei que... – Sou quem sou porque escolhi este caminho, Alfred – disse o homem. – E agora verdadeiramente escolhi. A forma passou das sombras para a luz da lua. Sua capa adejava atrás dele como se tivesse vontade própria. O capuz familiar cobria sua cabeça, se projetando em orelhas selvagens dos dois lados. O símbolo de um morcego estava preso na frente de sua bat-roupa exomuscular. Batman pegou uma rosa da mão de Alfred e a colocou diante de uma das criptas.
MARTHA KANE WAYNE 7 DE DEZEMBRO DE 1937 – 15 DE AGOSTO DE 1971 ESPOSA E MÃE
Depois pegou uma segunda rosa e se deslocou para o nicho seguinte. Ali Batman parou e pensou por um momento na inscrição.
THOMAS ALAN WAYNE 26 DE NOVEMBRO DE 1935 – 15 DE AGOSTO DE 1971 MÉDICO, FILANTROPO, MARIDO E PAI
– Acha que realmente conhecemos nossos pais, Alfred? – perguntou Batman. – Não, senhor – respondeu Alfred. – E talvez seja melhor que eles vivam como nos lembramos deles, e não como realmente eram. Finalmente, Batman parou no terceiro nicho.
BRUCE PATRICK WAYNE 19 DE FEVEREIRO DE 1963
FILHO DE THOMAS E MARTHA WAYNE
Ali ele colocou uma terceira rosa. – Um tanto prematuro, não, senhor? – fungou Alfred. – Talvez seja um tanto atrasado – respondeu Batman. – Fico pensando em se Bruce Wayne não morreu há anos e apenas não sabia. Nós escolhemos nosso destino ou nosso destino nos escolhe? Seja como for, agora a escolha foi feita.
OBITUÁRIO
Mansão Wayne / Bristol / 20h35 / Hoje Alfred Pennyworth estava de pé no centro do mausoléu dos Wayne e contemplou a coluna de luar que penetrava pelo domo acima. A estrutura lembrava uma versão menor do Panteão de Roma, com direito a seu próprio óculo em miniatura – uma abertura circular no ponto mais alto do domo que permitia a entrada de luz do sol ou da lua na câmara abaixo. No centro do piso, bem abaixo do óculo, havia uma fonte feita de modo a que qualquer água da chuva que passasse pela abertura fluísse para ela. Exigia limpeza e manutenção regulares, mas Alfred não se incomodava com sua eventual presença entre os mortos. Em muitos sentidos, ele preferia. Mas seu objetivo naquela noite não era faxina. Ele vestia seu melhor terno e garantira que os sapatos estivessem engraxados até que brilhassem como espelhos. Usava seu sobretudo de pelo de camelo – o clima de abril estava atipicamente frio, consequência de um inverno prolongado e difícil – e luvas de couro. A aba de seu chapéu-coco estava agora apertada na mão direita, enquanto a esquerda segurava um buquê de flores. Estava diante de uma das criptas, olhando para as gravações na pedra.
BRUCE PATRICK WAYNE 19 DE FEVEREIRO DE 1963 FILHO DE THOMAS E MARTHA WAYNE
– Vejo que ainda não conseguiram colocar a data de falecimento – disse a voz rouca atrás dele. – Um daqueles detalhes para os quais ainda não tive tempo, comissário – disse Alfred, mal virando a cabeça. – Não que alguém vá esquecer a data tão cedo – disse James Gordon, se aproximando de Alfred, as mãos fundas nos bolsos do sobretudo. – Quinze de agosto; há apenas seis meses. Foi um senhor serviço fúnebre. – Quer dizer um espetáculo, não é mesmo, comissário? – disse Alfred, os olhos ainda fixos na tumba. – Nunca vi tanta gente tão ansiosa para entrar na lista de convidados de um funeral. Seria de pensar que todos o queriam morto. – Eu não estava entre eles – retrucou Gordon, passando a mão sobre o bigode grosso. Alfred lançou um olhar confuso para o comissário. – Minhas desculpas, comissário. Achei tê-lo incluído na lista de convidados. – Sim, você incluiu – concordou Gordon, olhando para o chão. – E obrigado, Alfred, por
pensar em mim, mas... Bem, eu não queria dizer adeus daquele jeito. Ele era muitas coisas para muita gente, boas e ruins, mas para mim era apenas Bruce, um cara que eu conheci que tinha um sorriso rápido, era impecavelmente generoso e tentava lidar com uma riqueza e um poder que nunca pediu ou particularmente queria. Não queria dizer adeus daquele jeito... Não com um grande espetáculo e o luto transmitido pela internet. Por isso estou contente por você ter me chamado aqui. Isso me dá uma oportunidade de dizer adeus adequadamente sem ter de me preocupar em ficar entre algum político e uma câmera. – Entendo o que quer dizer – concordou Alfred. – Foi um circo. – Suponho que não se possa culpar a mariposa por ser atraída para a chama – disse Gordon, dando de ombros e suspirando ao contemplar a tumba. – A morte de Bruce foi notícia internacional por quase duas semanas antes que não tivessem mais nada a dizer sobre ele. A história tinha tudo: fama, infâmia, riqueza e poder, tudo lançado sobre o pobre filho de Gotham que morreu com um tiro exatamente no mesmo lugar e da mesma forma que seus pais morreram mais de quarenta anos antes. Qualquer um que era alguém queria ser visto como parte de uma história dessas. – Metade deles estava aqui para ser vista – disse Alfred, corrigindo o comissário. – A outra metade mais provavelmente queria enfiar um alfinete nele para ter certeza de que estava morto. – Então imagino que tenham ficado desapontados – retrucou Gordon com um risinho triste. – Com o caixão fechado e tudo mais. – O senhor leu o relatório da autópsia – fungou Alfred. – Vários tiros no rosto. Realmente horrível. Os agentes funerários simplesmente desistiram de tentar recriar qualquer semelhança razoável. – Sim, bem, por isso pedi para encontrar você – continuou Gordon. – Não me entenda mal... Aprecio a oportunidade de vir aqui, mas por que escolheu este lugar? – Porque gosto de pensar que de alguma forma ele está aqui. – respondeu Alfred, melancólico. – Gostaria de pensar que o que o senhor tem a dizer dará alguma paz à sua alma. Gordon olhou para a tumba, anuiu e prosseguiu. – Ainda restam algumas coisas para que possamos encerrar a investigação, mas no geral acho que temos um quadro claro do que aconteceu. A desconhecida que você encontrou na cena continua a ser apenas isso. Não conseguimos identificá-la nas investigações, e interrogá-la não ajudará muito. Ela troca de personalidade o tempo todo, e alega ser tudo desde a mãe de Bruce Wayne até uma psicóloga clínica feita prisioneira de um demônio em sua cabeça. Os analistas em Arkham acham que esta última é uma fixação com sua terapeuta. De qualquer forma, aparentemente ela morava com a tal Doppel em Pearl. Suas impressões estão por toda a arma, junto com algumas parciais da mulher Richter. A balística corresponde inteiramente. Achamos que elas podem ter disputado a arma. Havia muito material na casa de Richter sobre o Sr. Wayne, e achamos que a desconhecida poderia estar seguindo Bruce. – E quanto à outra mulher, a outra vítima? – perguntou Alfred, se corrigindo. – Ellen Doppel? – Gordon pegou seu bloco e empurrou os óculos para o alto do nariz, mas logo desistiu de tentar ler ao suave luar azul que iluminava a tumba. – Bem, a essência da
história é que ela estava morando na casa dos Richter porque havia sido deixada para ela pela família Richter. Os peritos vasculharam a residência, mas não encontraram nada a não ser um bizarro santuário na biblioteca, claramente montado por um perseguidor. O promotor acha que Doppel estava tentando tratar da desconhecida, a seguiu até o beco, e simplesmente estava no lugar errado na hora errada. Pelo que entendo, o Sr. Wayne tinha o hábito de visitar aquele beco de tempos em tempos. – Sim, comissário, uma tradição que pretendo manter em homenagem a ele – disse Alfred. – Então imagino que tenha acabado. – Sim, no que me diz respeito – respondeu Gordon, enfiando as mãos novamente nos bolsos do casaco. – Foi nobre da parte do homem lhe deixar tanto da propriedade no testamento. – Meu empregador era um homem muito amável e generoso – disse Alfred, concordando gentilmente. – O Sr. Fox e eu temos agora a maioria das ações da Wayne Enterprises. – Vai manter o nome? – Esse nome traz benefícios a Gotham há algum tempo – disse Alfred. – Acho que pode continuar a fazê-lo por um pouco mais; a SEC não está mais interessada em investigar a companhia; dificilmente poderiam fazer acusações de extorsão contra o jovem Wayne agora que ele partiu. – Um pequeno bem por um preço tão alto – disse Gordon. Foi na direção do túmulo, colocando a mão na superfície da pedra e a pousando sobre o nome gravado. – Lamento, Bruce – disse Gordon. Sua voz se tornou baixa e rouca, quase inaudível mesmo no silêncio da noite. – Gostaria de ter estado lá para ajudá-lo. Adeus, velho amigo. Gordon se virou, a cabeça baixa. – Obrigado por vir, comissário – disse Alfred. – Tome cuidado na volta para casa. – Certamente – disse Gordon, assentindo para Alfred enquanto saía lentamente da tumba. – Ligue se precisar de algo, Alfred. O novo dono da Mansão Wayne ficou escutando os passos do comissário de polícia. Quando o silêncio tomou conta da tumba novamente, ele respirou fundo e se virou, olhando através do óculo para o céu estrelado. – Ouviu isso? – disse às estrelas. – Acabou. – Ouvi – respondeu uma forma alada, silhuetada contra as estrelas. Ela desceu em um sussurro para dentro da câmara, se colocando junto ao velho empregado. – Você fez um trabalho impressionante, Alfred – disse a sombra. – Obrigado. – Não há necessidade de agradecer, jovem... A sombra ergueu uma das mãos em alerta. – Quero dizer que não há necessidade de me agradecer – emendou Alfred. – Meu pai não me ensinou apenas a limpar os salões e tirar a poeira dos móveis. Minha formação na Inglaterra não se limitou a Eton. Meu pai continuava a ter fortes laços com seus amigos do OSS, e eles também ajudaram a, digamos, ampliar minha educação e minhas habilidades vocacionais. – Você as demonstrou bem – disse a forma na escuridão. – Por que estava monitorando minha frequência naquela noite, Alfred?
– Digamos apenas que eu não desisto fácil – respondeu Alfred. – E quanto às suas próprias investigações? – Marion Richter estava certa – respondeu. – O vírus é uma grande causa contribuidora para o tipo radical de criminosos que com frequência temos de enfrentar aqui em Gotham, mas não a causa. Ele amplia reações e certas capacidades genéticas, mas não cria criminosos. – Quer dizer como o Coringa, senhor? – perguntou Alfred. – Interessante, não? – refletiu a sombra. – Marion tentou obrigar o Coringa a ajudá-la manipulando suas motivações. A única coisa que o Coringa não suporta é controle e ordem, exatamente as coisas que Marion estava tentando instilar nele. Então ele se rebelou contra a programação de Marion e tentou me salvar de ser arrastado ainda mais para a trama dela. – E eu estava querendo perguntar... – Não, Alfred – cortou a forma. – Não tenho a mutação viral. Ela não foi passada para mim. – Mas senhor, achei que... – Sou quem sou porque escolhi este caminho, Alfred – disse o homem. – E agora verdadeiramente escolhi. A forma passou das sombras para a luz da lua. Sua capa adejava atrás dele como se tivesse vontade própria. O capuz familiar cobria sua cabeça, se projetando em orelhas selvagens dos dois lados. O símbolo de um morcego estava preso na frente de sua bat-roupa exomuscular. Batman pegou uma rosa da mão de Alfred e a colocou diante de uma das criptas.
MARTHA KANE WAYNE 7 DE DEZEMBRO DE 1937 – 15 DE AGOSTO DE 1971 ESPOSA E MÃE
Depois pegou uma segunda rosa e se deslocou para o nicho seguinte. Ali Batman parou e pensou por um momento na inscrição.
THOMAS ALAN WAYNE 26 DE NOVEMBRO DE 1935 – 15 DE AGOSTO DE 1971 MÉDICO, FILANTROPO, MARIDO E PAI
– Acha que realmente conhecemos nossos pais, Alfred? – perguntou Batman. – Não, senhor – respondeu Alfred. – E talvez seja melhor que eles vivam como nos lembramos deles, e não como realmente eram. Finalmente, Batman parou no terceiro nicho.
BRUCE PATRICK WAYNE 19 DE FEVEREIRO DE 1963
FILHO DE THOMAS E MARTHA WAYNE
Ali ele colocou uma terceira rosa. – Um tanto prematuro, não, senhor? – fungou Alfred. – Talvez seja um tanto atrasado – respondeu Batman. – Fico pensando em se Bruce Wayne não morreu há anos e apenas não sabia. Nós escolhemos nosso destino ou nosso destino nos escolhe? Seja como for, agora a escolha foi feita.
SD 939 : WAYNE DE GOTHAN
CAPÍTULO VINTE E CINCO
MORTO ENTERRA OS MORTOS
Crime Alley / Park Row / Gotham / 22h47 / Hoje Bruce se esforçou, se empurrando sobre o chão, mas parecia não conseguir firmar as pernas. As mãos rasgaram a camisa, o velho tecido frágil se desfazendo facilmente. Buscou o ferimento. A entrada não era grande, mas a dor era excruciante. Ele sabia que o dano real era maior do que parecia, e muito mais extenso. Pressionou o ferimento, mas o sangue continuou a escorrer. Bruce levou a mão atrás da orelha direita, ligando o transmissor subcutâneo. Alfred virá. Ele estará monitorando... Ah, Deus! Ninguém estaria escutando, nenhuma voz tranquilizadora soou nos ossos de seu ouvido. Ele estava só. – Socorro! – gritou Bruce, a voz ecoando no beco. – Me ajudem! Por favor! Alguém... – Nesta parte da cidade, a esta hora da noite? – perguntou a mulher, rindo. – Quem você está esperando... Batman? Bruce Wayne sabia que o relógio estava correndo e que seu tempo acabava rapidamente. – Ellen... – Marion... Sou Marion – retrucou a mulher. – Impossível! – disse Bruce, cuspindo sangue ao encolher os joelhos. – Marion Richter morreu em Arkham em 1979. Você precisaria ter... – Quase 70 anos? – completou Marion sorrindo, contornando Bruce com a 9 mm nas duas mãos ainda apontada para ele. – Eu não lhe disse que as mulheres Richter resistiam bem ao tempo? É uma característica genética herdada... Uma que a pesquisa do meu pai reforçou amplamente. Havia mais sangue no chão à sua volta do que ele teria esperado. Embora estivesse com os joelhos dobrados, parecia ter muito mais dificuldade de se levantar do que deveria. – Você? Você tem o vírus Richter? Marion ergueu a sobrancelha. – Claro... Você não? Bruce ergueu a cabeça, olhando furioso para Marion. – Ah, pobre Bruce – ela riu. – Por que você acha que tive todo esse trabalho? Eu lhe fiz um grande favor, Sr. Wayne: mostrei a verdade sobre si mesmo. Sua família me roubou tudo; até mesmo a memória de meu grande pai. Ele foi apagado, sua existência esquecida por todos juntamente com sua pesquisa... Por todos exceto eu, Sr. Wayne. Todos exceto eu! Bruce levou a mão esquerda às costas. A parte de trás do paletó do seu pai estava rasgada e escorregadia de sangue.
Ferimento de saída. Fico pensando em quão mal realmente estou. Joe Chill ficou de pé sob este mesmo poste. Agora estou sangrando no paletó de meu pai. Bruce tentou se colocar de pé, mas os músculos não estavam respondendo normalmente. Ergueu as mãos ensanguentadas para Marion, lançando-se na direção dela, mas os sapatos sociais do pai escorregaram no sangue do chão. Bruce caiu de frente, o lado direito do rosto batendo no asfalto. – Seu pai criou monstros – disse Bruce com um estranho tom gargarejante na voz. A arma disparou novamente. Bruce gritou com a dor lancinante na perna direita. – Meu pai era um homem cinco décadas à frente de seu tempo! – gritou Marion, continuando a segurar a arma firmemente. – Implante de memória falsa, transferência química de pensamento, modificadores de motivação básica, tudo feito através de programação genética e transmitido por um vírus... TUDO fruto de sua genialidade. Eu passei toda a minha vida tentando entender seu trabalho. Graças a equipamento moderno, consegui até mesmo aperfeiçoá-lo! Teremos a utopia dos sonhos de meu pai. Eu produzirei isso, e quando chegar o dia em que o crime finalmente estiver curado e a paz reinar em Gotham, o nome do meu pai... O nome do meu pai... será honrado e reluzirá como um farol de esperança para o mundo. – Tommy? Amanda! Eu disse a ela para ficar no cinema! – Melhor se apressar, irmã – disse Marion. – A cortina está prestes a fechar. – Tommy! Não! – disse Amanda, correndo da porta aberta do cinema até Bruce. Ela se jogou de joelhos ao lado de Bruce, o sangue dele encharcando o vestido da morte de sua mãe. – Deixe-me apresentar a antiga senhorita Ellen Doppel – disse Marion. Bruce tremeu enquanto a mulher que conhecia como Amanda soluçava junto a ele. – Tommy, me diga o que fazer! Eu sinto tanto frio... E não sinto nada... – Ela é minha obra-prima – suspirou Marion. – Quando minha irmã estava em Arkham, consegui colher algumas de suas lembranças antes que morresse. Esta versão de Amanda é um pouco confusa, tenho de admitir, já que precisei implantar várias outras lembranças falsas para fisgá-lo. Irei consertá-la assim que você estiver fora do caminho. – Então você planeja começar sua utopia me torturando e matando? – disse Bruce, contorcendo o rosto. – Não apenas o matando, Sr. Wayne – respondeu Marion. – Não, veja, como uma profissional de saúde mental, senti a obrigação de matar sua alma além de seu corpo. Acho importante que você compreenda a profundidade da traição de seu pai; a Gotham, a meu pai, à sua mãe e a você. – Do que você está falando? – gritou Bruce. – O encobrimento de seu pai – respondeu Marion. – A dinastia Wayne usou seu poder, dinheiro e influência para enterrar toda a roupa suja... E nesse processo enterrou meu pai, enterrou minha família... E finalmente enterrou minha mãe e minha irmã... Mas não era suficiente nos destruir. O vírus inicial se espalhou para seis transmissores. Seu pai teve de
caçá-los também. Sem eles o vírus acabaria sofrendo mutações a cada interação, a codificação da memória genética seria corrompida e o vírus seria extinto. Mas desde que os seis originais vivessem, o vírus poderia sobreviver por intermédio deles, e isso seu pai não permitiria. Ele até mesmo acertou as coisas com seu velho amigo Lew Moxon para que, quando o último dos seis fosse encontrado, todos fossem eliminados discretamente. Claro que seu pai só sabia dos quatro Apocalipse e que meu pai havia sido infectado. – Quem era o sexto? – perguntou Bruce, com dificuldade de respirar. – Infelizmente, embora o equipamento do laboratório pudesse ser de primeira linha para os anos 1950, era inadequado para conter o trabalho de meu pai – falou Marion. – Suponho que seu pai esperava que os capangas de Moxon capturassem os transmissores originais, mas Moxon contratou um assassino para cuidar do problema para ele. Acho que você provavelmente o conhece... Joe Chill. Pulmão perfurado. Não acertou o coração, mas a hemorragia é séria. Pode ter cortado uma artéria. Preciso deter o sangramento... Ficando com frio. – Me pergunto se, quando estava caído onde você está caído agora, seu pai sabia que havia contratado seu próprio assassinato – pensou Marion. Bruce fechou os olhos. – Por favor, Tommy! – gemeu Amanda. – Sou eu... Martha! Não me abandone! Não... – Então nós pagamos pelos pecados de nossos pais? – sussurrou Bruce roucamente. – Um de nós paga – disse Marion, levando a 9 mm à têmpora de Bruce. – NÃO! – berrou Amanda. A mulher deu um pulo em seu manchado vestido de noite verde, empurrando a mão de Marion no instante em que a arma disparou. O projétil de ponta oca acertou o asfalto, se cravando e achatando com o impacto. Amanda – agora Martha – se lançou contra Marion, os dedos arranhando as mãos dela enquanto tentava agarrar a arma. Marion tropeçou para trás sobre a lata de lixo, chocada com a fúria inesperada do ataque. Amanda se lançou sobre Marion sem hesitar, batendo a mulher mais velha contra a lata de lixo. A força drenou o ar dos pulmões de Marion. A Browning 9 mm caiu, deslizando pelo asfalto do beco e parando na frente do rosto de Bruce. Ele olhou para a arma, piscando. Eu sou o monstro? Eu me tornei o que odeio? A arma estava ao alcance dele. – Tommy! Socorro! – gritou Amanda. Marion se soltou de Amanda e se atirou para pegar a arma. Isso é quem sou... Isso é quem escolhi ser... Bruce agarrou a arma... E a afastou de si com toda a força que lhe restava, respirando dolorosamente. – Martha! – gritou. – Me ajude! Marion caiu no chão onde a arma estivera instantes antes. Levantou-se rapidamente, virou para recuperá-la... E se deparou com Amanda, que a segurava. – Se afaste dele! – guinchou Amanda. Em algum ponto das confusas camadas de memórias falsas e implantadas, ela deve ter disparado um revólver. Segurava a arma com firmeza nas duas mãos e estava em posição de tiro.
Marion se levantou lentamente, as mãos estendidas diante de si enquanto se esforçava para manter a voz serena. – Não se mexa, irmã! Sou Marion. Está quase terminado... Então seremos livres. – Livres? – disse Amanda, rindo loucamente da palavra. – Você matou meu marido! Você matou meu filho! – Não, eu matei nossos fantasmas, irmã querida – disse Marion com um sorriso gentil. – Matei o último homem que estava no nosso caminho. O mundo se lembrará do que eles fizeram a nós, nós faremos com que lembre, e os Wayne não irão mais nos assombrar. Você ficará novamente comigo, Amanda... E seremos livres. Amanda de repente inclinou a cabeça, os cachos do penteado cheio caindo sobre os ombros do vestido esmeralda manchado. – Amanda – disse, com um sorriso curioso. – Quem é Amanda? Marion abriu a boca para falar, se adiantando rapidamente. Amanda apertou o gatilho. A Browning 9 mm sacudiu nas mãos de Amanda. Marion foi imediatamente detida pelo impacto da bala, cambaleando para trás. Seus sapatos baixos deslizaram no sangue empoçado ao redor de Bruce, mas ela recuperou o equilíbrio. Um carmim escuro se abria em seu casaco. Ela gritou. – Não, Amanda! Não agora! – Você o matou! Você o matou! – gritou Amanda repetidamente enquanto o cano da Browning lançava fogo. Marion se contorceu com os três tiros seguintes antes dos impactos a derrubarem e ela cair no chão. Mas Amanda continuou a disparar, indo na direção da forma caída de Marion Richter. As cápsulas continuaram a voar do revólver até o extrator parar em posição aberta após o décimo primeiro tiro. A última das cápsulas estalou no calçamento. Fumaça subia do cano da pistola. Marion Richter estava estraçalhada e imóvel no chão. Amanda se colocou acima da mulher, olhos arregalados. Piscou, e então olhou para a arma como se nunca a tivesse visto antes. – Amanda – gemeu Bruce. – Consiga ajuda! Rápido... A mão de Amanda ficou flácida, a arma caindo no chão. Ela inclinou a cabeça de lado, olhando para a cena sangrenta a seus pés. – Ellen? – murmurou. – Martha! – disse Bruce, mal conseguindo falar. – Vá... Conseguir ajuda. – Marion? – sussurrou Amanda. De repente jogou a cabeça para trás e guinchou. – Marion! Onde estou? Quem sou eu? Você tem de me contar Marion. Você tem de me contar! Amanda desabou no chão, se ajoelhando acima do rosto sujo de sangue de Marion Richter e gritando para a mulher morta. – Quem sou eu, Marion? Você prometeu me contar quem eu era... Eu... Ah, Tommy! O que ela fez com você? Onde está meu filho? Pai? Quando papai vai voltar para casa? Marion,
você prometeu que papai estava vindo para casa... Bruce estremeceu. Ele vira homens morrer e pensara no que sentiram. Amanda, Martha, Ellen – todas haviam desaparecido em uma louca que não estava mais ancorada em nenhuma delas. Alfred fora embora, e o transmissor que tiveram tanto trabalho para implantar atrás de sua orelha continuava a transmitir seu chamado de emergência em uma frequência que ninguém escutava. Ele estava caído no beco onde um jovem Wayne morrera tantos anos antes apenas para morrer novamente. – Alfred! – Bruce gritou. Sua visão estava falhando. – Preciso de você! Pai... Mãe... Temos muito o que conversar... Muito a perdoar... Bruce fechou os olhos novamente. Sabia que seria pela última vez.
MORTO ENTERRA OS MORTOS
Crime Alley / Park Row / Gotham / 22h47 / Hoje Bruce se esforçou, se empurrando sobre o chão, mas parecia não conseguir firmar as pernas. As mãos rasgaram a camisa, o velho tecido frágil se desfazendo facilmente. Buscou o ferimento. A entrada não era grande, mas a dor era excruciante. Ele sabia que o dano real era maior do que parecia, e muito mais extenso. Pressionou o ferimento, mas o sangue continuou a escorrer. Bruce levou a mão atrás da orelha direita, ligando o transmissor subcutâneo. Alfred virá. Ele estará monitorando... Ah, Deus! Ninguém estaria escutando, nenhuma voz tranquilizadora soou nos ossos de seu ouvido. Ele estava só. – Socorro! – gritou Bruce, a voz ecoando no beco. – Me ajudem! Por favor! Alguém... – Nesta parte da cidade, a esta hora da noite? – perguntou a mulher, rindo. – Quem você está esperando... Batman? Bruce Wayne sabia que o relógio estava correndo e que seu tempo acabava rapidamente. – Ellen... – Marion... Sou Marion – retrucou a mulher. – Impossível! – disse Bruce, cuspindo sangue ao encolher os joelhos. – Marion Richter morreu em Arkham em 1979. Você precisaria ter... – Quase 70 anos? – completou Marion sorrindo, contornando Bruce com a 9 mm nas duas mãos ainda apontada para ele. – Eu não lhe disse que as mulheres Richter resistiam bem ao tempo? É uma característica genética herdada... Uma que a pesquisa do meu pai reforçou amplamente. Havia mais sangue no chão à sua volta do que ele teria esperado. Embora estivesse com os joelhos dobrados, parecia ter muito mais dificuldade de se levantar do que deveria. – Você? Você tem o vírus Richter? Marion ergueu a sobrancelha. – Claro... Você não? Bruce ergueu a cabeça, olhando furioso para Marion. – Ah, pobre Bruce – ela riu. – Por que você acha que tive todo esse trabalho? Eu lhe fiz um grande favor, Sr. Wayne: mostrei a verdade sobre si mesmo. Sua família me roubou tudo; até mesmo a memória de meu grande pai. Ele foi apagado, sua existência esquecida por todos juntamente com sua pesquisa... Por todos exceto eu, Sr. Wayne. Todos exceto eu! Bruce levou a mão esquerda às costas. A parte de trás do paletó do seu pai estava rasgada e escorregadia de sangue.
Ferimento de saída. Fico pensando em quão mal realmente estou. Joe Chill ficou de pé sob este mesmo poste. Agora estou sangrando no paletó de meu pai. Bruce tentou se colocar de pé, mas os músculos não estavam respondendo normalmente. Ergueu as mãos ensanguentadas para Marion, lançando-se na direção dela, mas os sapatos sociais do pai escorregaram no sangue do chão. Bruce caiu de frente, o lado direito do rosto batendo no asfalto. – Seu pai criou monstros – disse Bruce com um estranho tom gargarejante na voz. A arma disparou novamente. Bruce gritou com a dor lancinante na perna direita. – Meu pai era um homem cinco décadas à frente de seu tempo! – gritou Marion, continuando a segurar a arma firmemente. – Implante de memória falsa, transferência química de pensamento, modificadores de motivação básica, tudo feito através de programação genética e transmitido por um vírus... TUDO fruto de sua genialidade. Eu passei toda a minha vida tentando entender seu trabalho. Graças a equipamento moderno, consegui até mesmo aperfeiçoá-lo! Teremos a utopia dos sonhos de meu pai. Eu produzirei isso, e quando chegar o dia em que o crime finalmente estiver curado e a paz reinar em Gotham, o nome do meu pai... O nome do meu pai... será honrado e reluzirá como um farol de esperança para o mundo. – Tommy? Amanda! Eu disse a ela para ficar no cinema! – Melhor se apressar, irmã – disse Marion. – A cortina está prestes a fechar. – Tommy! Não! – disse Amanda, correndo da porta aberta do cinema até Bruce. Ela se jogou de joelhos ao lado de Bruce, o sangue dele encharcando o vestido da morte de sua mãe. – Deixe-me apresentar a antiga senhorita Ellen Doppel – disse Marion. Bruce tremeu enquanto a mulher que conhecia como Amanda soluçava junto a ele. – Tommy, me diga o que fazer! Eu sinto tanto frio... E não sinto nada... – Ela é minha obra-prima – suspirou Marion. – Quando minha irmã estava em Arkham, consegui colher algumas de suas lembranças antes que morresse. Esta versão de Amanda é um pouco confusa, tenho de admitir, já que precisei implantar várias outras lembranças falsas para fisgá-lo. Irei consertá-la assim que você estiver fora do caminho. – Então você planeja começar sua utopia me torturando e matando? – disse Bruce, contorcendo o rosto. – Não apenas o matando, Sr. Wayne – respondeu Marion. – Não, veja, como uma profissional de saúde mental, senti a obrigação de matar sua alma além de seu corpo. Acho importante que você compreenda a profundidade da traição de seu pai; a Gotham, a meu pai, à sua mãe e a você. – Do que você está falando? – gritou Bruce. – O encobrimento de seu pai – respondeu Marion. – A dinastia Wayne usou seu poder, dinheiro e influência para enterrar toda a roupa suja... E nesse processo enterrou meu pai, enterrou minha família... E finalmente enterrou minha mãe e minha irmã... Mas não era suficiente nos destruir. O vírus inicial se espalhou para seis transmissores. Seu pai teve de
caçá-los também. Sem eles o vírus acabaria sofrendo mutações a cada interação, a codificação da memória genética seria corrompida e o vírus seria extinto. Mas desde que os seis originais vivessem, o vírus poderia sobreviver por intermédio deles, e isso seu pai não permitiria. Ele até mesmo acertou as coisas com seu velho amigo Lew Moxon para que, quando o último dos seis fosse encontrado, todos fossem eliminados discretamente. Claro que seu pai só sabia dos quatro Apocalipse e que meu pai havia sido infectado. – Quem era o sexto? – perguntou Bruce, com dificuldade de respirar. – Infelizmente, embora o equipamento do laboratório pudesse ser de primeira linha para os anos 1950, era inadequado para conter o trabalho de meu pai – falou Marion. – Suponho que seu pai esperava que os capangas de Moxon capturassem os transmissores originais, mas Moxon contratou um assassino para cuidar do problema para ele. Acho que você provavelmente o conhece... Joe Chill. Pulmão perfurado. Não acertou o coração, mas a hemorragia é séria. Pode ter cortado uma artéria. Preciso deter o sangramento... Ficando com frio. – Me pergunto se, quando estava caído onde você está caído agora, seu pai sabia que havia contratado seu próprio assassinato – pensou Marion. Bruce fechou os olhos. – Por favor, Tommy! – gemeu Amanda. – Sou eu... Martha! Não me abandone! Não... – Então nós pagamos pelos pecados de nossos pais? – sussurrou Bruce roucamente. – Um de nós paga – disse Marion, levando a 9 mm à têmpora de Bruce. – NÃO! – berrou Amanda. A mulher deu um pulo em seu manchado vestido de noite verde, empurrando a mão de Marion no instante em que a arma disparou. O projétil de ponta oca acertou o asfalto, se cravando e achatando com o impacto. Amanda – agora Martha – se lançou contra Marion, os dedos arranhando as mãos dela enquanto tentava agarrar a arma. Marion tropeçou para trás sobre a lata de lixo, chocada com a fúria inesperada do ataque. Amanda se lançou sobre Marion sem hesitar, batendo a mulher mais velha contra a lata de lixo. A força drenou o ar dos pulmões de Marion. A Browning 9 mm caiu, deslizando pelo asfalto do beco e parando na frente do rosto de Bruce. Ele olhou para a arma, piscando. Eu sou o monstro? Eu me tornei o que odeio? A arma estava ao alcance dele. – Tommy! Socorro! – gritou Amanda. Marion se soltou de Amanda e se atirou para pegar a arma. Isso é quem sou... Isso é quem escolhi ser... Bruce agarrou a arma... E a afastou de si com toda a força que lhe restava, respirando dolorosamente. – Martha! – gritou. – Me ajude! Marion caiu no chão onde a arma estivera instantes antes. Levantou-se rapidamente, virou para recuperá-la... E se deparou com Amanda, que a segurava. – Se afaste dele! – guinchou Amanda. Em algum ponto das confusas camadas de memórias falsas e implantadas, ela deve ter disparado um revólver. Segurava a arma com firmeza nas duas mãos e estava em posição de tiro.
Marion se levantou lentamente, as mãos estendidas diante de si enquanto se esforçava para manter a voz serena. – Não se mexa, irmã! Sou Marion. Está quase terminado... Então seremos livres. – Livres? – disse Amanda, rindo loucamente da palavra. – Você matou meu marido! Você matou meu filho! – Não, eu matei nossos fantasmas, irmã querida – disse Marion com um sorriso gentil. – Matei o último homem que estava no nosso caminho. O mundo se lembrará do que eles fizeram a nós, nós faremos com que lembre, e os Wayne não irão mais nos assombrar. Você ficará novamente comigo, Amanda... E seremos livres. Amanda de repente inclinou a cabeça, os cachos do penteado cheio caindo sobre os ombros do vestido esmeralda manchado. – Amanda – disse, com um sorriso curioso. – Quem é Amanda? Marion abriu a boca para falar, se adiantando rapidamente. Amanda apertou o gatilho. A Browning 9 mm sacudiu nas mãos de Amanda. Marion foi imediatamente detida pelo impacto da bala, cambaleando para trás. Seus sapatos baixos deslizaram no sangue empoçado ao redor de Bruce, mas ela recuperou o equilíbrio. Um carmim escuro se abria em seu casaco. Ela gritou. – Não, Amanda! Não agora! – Você o matou! Você o matou! – gritou Amanda repetidamente enquanto o cano da Browning lançava fogo. Marion se contorceu com os três tiros seguintes antes dos impactos a derrubarem e ela cair no chão. Mas Amanda continuou a disparar, indo na direção da forma caída de Marion Richter. As cápsulas continuaram a voar do revólver até o extrator parar em posição aberta após o décimo primeiro tiro. A última das cápsulas estalou no calçamento. Fumaça subia do cano da pistola. Marion Richter estava estraçalhada e imóvel no chão. Amanda se colocou acima da mulher, olhos arregalados. Piscou, e então olhou para a arma como se nunca a tivesse visto antes. – Amanda – gemeu Bruce. – Consiga ajuda! Rápido... A mão de Amanda ficou flácida, a arma caindo no chão. Ela inclinou a cabeça de lado, olhando para a cena sangrenta a seus pés. – Ellen? – murmurou. – Martha! – disse Bruce, mal conseguindo falar. – Vá... Conseguir ajuda. – Marion? – sussurrou Amanda. De repente jogou a cabeça para trás e guinchou. – Marion! Onde estou? Quem sou eu? Você tem de me contar Marion. Você tem de me contar! Amanda desabou no chão, se ajoelhando acima do rosto sujo de sangue de Marion Richter e gritando para a mulher morta. – Quem sou eu, Marion? Você prometeu me contar quem eu era... Eu... Ah, Tommy! O que ela fez com você? Onde está meu filho? Pai? Quando papai vai voltar para casa? Marion,
você prometeu que papai estava vindo para casa... Bruce estremeceu. Ele vira homens morrer e pensara no que sentiram. Amanda, Martha, Ellen – todas haviam desaparecido em uma louca que não estava mais ancorada em nenhuma delas. Alfred fora embora, e o transmissor que tiveram tanto trabalho para implantar atrás de sua orelha continuava a transmitir seu chamado de emergência em uma frequência que ninguém escutava. Ele estava caído no beco onde um jovem Wayne morrera tantos anos antes apenas para morrer novamente. – Alfred! – Bruce gritou. Sua visão estava falhando. – Preciso de você! Pai... Mãe... Temos muito o que conversar... Muito a perdoar... Bruce fechou os olhos novamente. Sabia que seria pela última vez.
SD 938 : WAYNE DE GOTHAN
CAPÍTULO VINTE E QUATRO
EXPIAÇÃO
Academy Theater / Park Row / Gotham / 22h35 / Hoje Bruce Wayne recobrou a consciência lentamente. Viu diante dele um borrão brilhante cercado por escuridão. Uma música fina e estridente ecoava ao redor, abafada como se pela distância. Eu estava indo levar Amanda Richter para casa. Houve um telefonema... A enfermeira Doppel... Depois a escopeta do meu avô... Uma risada borbulhante soou em seu ouvido esquerdo. – Ah, Thomas, é muito engraçado! Bruce virou a cabeça devagar, inseguro. Tentou colocar os olhos em foco. Parecia ter dificuldade para controlar os movimentos. A silhueta enevoada de uma cabeça acima de um comprido pescoço afilado encheu sua visão. Cabelos louros platinados entravam e saíam de foco. A cabeça vaga se inclinou para trás, rindo novamente. Bruce fechou os olhos com força, depois os abriu. A forma ao lado entrou em foco. Estava sentada à sua esquerda em uma fileira de poltronas de cinema enquanto ria de algo que passava na tela. Ele balançou a cabeça, tentando clareá-la, depois olhou novamente. Era outra versão de Amanda Richter. Seus cabelos compridos estavam empilhados na cabeça em um estilo cheio que lembrava vagamente o final dos anos 1960. A maquiagem de Amanda havia sido feita com cuidado para combinar com os olhos verde-esmeralda. Os olhos de Bruce arregalaram com o choque da identificação, sua visão clareando de repente. As manchas escuras ainda podiam ser vistas no cetim, se projetando em um padrão irregular a partir do buraco de entrada, aberto no alto e curvo colarinho logo acima do seio esquerdo. A mancha irradiava sem ser perturbada pela cintura apertada, se dividindo logo acima do joelho em pequenas manchas e salpicos. Era o vestido dela... É o vestido dela. Mãe? Ela se virou para encará-lo, as pupilas dilatadas e sem foco. – Ah, Thomas, isso realmente me leva ao passado! Bruce se virou para a tela. Originalmente era um filme mudo, mas ele podia ouvir uma metálica orquestração de piano saindo pelos alto-falantes do cinema. Douglas Fairbanks saltou para o balcão após ter derrotado Noah Beery e olhou sedutoramente para Marguerite de la Motte. É aquele mesmo maldito filme. Viemos à retrospectiva de cinema de arte naquela noite.
Era um programa de caridade para o Conselho de Artes de Gotham. Bruce baixou os olhos rapidamente. O casaco do smoking estava desabotoado, revelando a camisa social pregueada abaixo. Também havia uma terrível mancha escura em seus trajes, com dois buracos do tamanho de um dedo separados por dois centímetros e meio no peito. O smoking de meu pai. As mãos de Bruce começaram a tremer. Uma figura pequena estava sentada à sua direita. Ele se virou lentamente, temendo o que poderia estar ali. O boneco de ventríloquo Scarface olhou para ele. Não estava mais em seu habitual terno listrado de gângster, mas vestia agora um pequeno smoking que era um pouco grande demais para ele. Bruce o reconheceu imediatamente como sendo seu, de quando era garoto. Ele sabia pelo padrão das manchas que haviam sido gravadas em sua infância. Bruce tentou se levantar no mesmo instante, mas as pernas estavam fracas. – Sente-se, Thomas! – mandou Amanda. – Você está estragando o espetáculo. Bruce caiu de costas na poltrona. Sentia dificuldade de respirar. Douglas Fairbanks estava de pé junto a Marguerite de la Motte e falava galantemente para a multidão que aplaudia abaixo. Um letreiro surgiu na tela.
Você viu este?
De repente o filme pulou. Houve um estalo alto e um som rascante. Então a cena passou a mostrar outra multidão – também silenciosa, e dessa vez sem a leve música de fundo. Era o salão de baile da Mansão Kane... E Bruce se deu conta de que estava vendo o filme feito naquela noite pelo jornalista. Havia arranhões no filme, mas a imagem ainda era clara. Havia a fantasia confusa que parecia mais um morcego que qualquer herói da imaginação popular, lutando contra a máfia de Moxon no final do salão. Depois Lewis Moxon sendo deixado inconsciente. – Ah, Thomas – disse Amanda de forma meiga, se enrolando no braço esquerdo de Bruce. – Eu não tinha visto você de verdade antes daquela noite. – Amanda, temos de sair daqui – disse Bruce. – Thomas! O filme está quase no fim; além disso, é você – ronronou Amanda para ele. – Acho que comecei a me apaixonar por você naquele momento, quando socou o pobre Lewis. Acho que ele nunca o perdoou. O final do filme ficou brilhante e granulado, e então o som surgiu novamente, uma música de marcha dramática soando pelo salão. Um novo letreiro, este animado mas ainda em preto e branco. Ele dizia: “News on the March”, e o título foi gritado pela voz do locutor. A música continuou enquanto um segundo letreiro surgia na tela.
NEWS ON THE MARCH O FIM DE UM APOCALIPSE Justiceira assassina encontra um final terrível FEVEREIRO DE 1962
Bruce respirou com cuidado, os olhos fixos na tela. É uma mensagem... Para mim... – Penitenciária de Blackgate! – continuou o locutor em um tom dramático e grave enquanto uma velha imagem de arquivo dos muros da prisão surgia na tela. – Ilha de julgamento para o primeiro dos assassinos em massa conhecido como o Apocalipse. Aqui, dentro dessas paredes, foi declarado o sinistro fim de Adele “A Chanteuse” Lafontaine. O filme mostrava Chanteuse sendo conduzida escada acima para a estrutura da forca elevada e o laço sendo colocado em seu pescoço. Ela vestia o mesmo casaco verde característico em que sempre havia aparecido. – Julgada e condenada por crimes sensacionalistas e com frequência mortais, Lafontaine foi sentenciada a ser enforcada à meia-noite por seus crimes, mas teve um destino ainda mais chocante. Por um erro do carrasco, a distância de sua queda foi mal calculada... Amanda desviou os olhos. – ...e o resultado foi uma decapitação quase completa da criminosa. Foi uma queda longa demais e uma parada rápida demais para a mulher que um dia foi saudada como heroína justiceira e, desde então, se tornou uma das assassinas mais ostensivas de Gotham City. Um Apocalipse a menos... Faltam mais três! Bruce baixou os olhos de repente para o boneco Scarface, que o encarava da poltrona à direita. Ele sabia algo da história de Scarface. Aqueles no submundo juravam que o boneco era amaldiçoado, e, segundo a lenda, havia sido esculpido da madeira da forca de Blackgate por um interno chamado Donnegan. Donnegan foi colega de cela de Arnold Wesker, que fugiu de Blackgate com a figura esculpida. Wesker circulou pelo submundo no começo dos anos 1960, bem na época em que os vilões mais radicais de Gotham começaram a surgir. Bruce olhou novamente para Scarface. Você é a fonte? Cada supercriminoso da cidade foi infectado pelo vírus que você carregou com o sangue de Chanteuse? Isso significaria que cada perturbado fantasiado que... – Estamos indo embora – disse Bruce, se levantando. – Agora! – Mas o espetáculo não terminou, Tommy! – se queixou Amanda, apontando para a tela. – Eu sei como termina – rosnou Bruce, colocando Amanda de pé. Ele a arrastou pela fileira, sentindo os pés ainda inseguros. – E quanto a Bruce? – gemeu Amanda, esticando a mão na direção do boneco de ventríloquo. Bruce a ignorou. Muitas das poltronas estavam quebradas, bloqueando a passagem. O cinema estava fechado havia algum tempo. Ele sabia, porque o comprara e fechara. O projetor continuou a rodar da cabine no alto da parede enquanto ele arrastava Amanda. Chegou às portas dos fundos do cinema e as empurrou. Elas se moveram levemente, depois travaram. Bruce soltou a mão de Amanda, agarrando a beirada interna de uma das portas duplas com a ponta dos dedos e puxando a porta de vaivém na sua direção. Ela abriu facilmente... Revelando uma firme placa de aço soldada à moldura que enchia a saída por completo. – Droga! – disse Bruce, se virando e procurando uma saída, qualquer saída, que não
aquela que ele sabia estaria aberta para ele. O noticiário continuou a passar na tela, os sons enchendo o cinema dilapidado e a nova atração chamando sua atenção.
NEWS ON THE MARCH
CRUZADA DA FUNDAÇÃO WAYNE CONTRA SARAMPO ALEMÃO Todos os cidadãos testados para presença do vírus diante de surto AGOSTO DE 1965
– O surto nacional de rubéola, popularmente conhecida como sarampo alemão, tem devastado comunidades de costa a costa... Mas hoje, graças à generosidade do filantropo local Dr. Thomas Wayne, Gotham tem uma nova arma contra o flagelo: um teste rápido para identificar o vírus em todo cidadão da cidade e vizinhanças. Thomas Wayne sorriu da tela rasgada do cinema, acenando para a câmera. A isso se seguiu uma cascata de tomadas mostrando profissionais de saúde tirando sangue de pessoas de idades e profissões diferentes. – Em uma ajuda inestimável a possíveis esforços de quarentena, a Wayne Enterprises está financiando este programa sem usar impostos. Hospitais, clínicas e mesmo o seu médico local estão fazendo sua parte para garantir que cada homem, mulher e, isso mesmo, Suzie, criança de Gotham possa se beneficiar desses exames. Bruce agarrou a mão de Amanda mais uma vez, a levando para a saída seguinte, enquanto repassava o noticiário na cabeça. O teste para o vírus em 65 só poder ter sido um disfarce, uma fachada. Havia um surto de rubéola na época e havia preocupações com isso, mas a doença em si não justificava que toda uma cidade fizesse exame para identificar o vírus. TODOS tinham o vírus. A única razão de examinar toda a cidade seria se alguém estivesse procurando algo mais. Foi totalmente financiada pela Wayne Enterprises – então seu pai devia estar caçando, tentando encontrar e isolar qualquer um que pudesse ter tido contato com o vírus de Richter. Qualquer um com emoções exageradas, concentração obsessiva ou radicalismos em vestimenta e comportamento... O segundo conjunto de portas de saída também estava lacrado. Cada uma das saídas laterais também se revelou bloqueada, até ele chegar à única que sabia que iria se abrir – a mesma que se abrira tantos anos antes. Bruce se virou para a mulher que usava o último vestido que sua mãe usara na vida. – Amanda! Preste atenção! – Como? – disse a mulher, parecendo confusa e tonta. – Tommy, com quem você está falando? – Preste atenção! – disse Bruce, sacudindo-a de leve. – Quero que você fique aqui dentro, entendeu? – Me leve para casa, Tommy – murmurou Amanda. – Eu sempre o amei muito. Você sabe disso, Tommy.
– Sim... Sim eu sei disso – disse Bruce. – Eu tenho de... sair e cuidar de uma coisa. Quero que você volte e se sente com Bruce... Está entendendo? Amanda ergueu o rosto para Bruce, os olhos vidrados, mas o sorriso radiante. – Eu... acho que sim. E se tivéssemos ficado um pouco mais? E se tivéssemos saído por outra porta? E se... E se... – Você vai para lá, entendeu? – disse Bruce, a voz pesada de emoção. – Eu voltarei para pegar você. – Claro, Tommy – disse Amanda, dando um tapinha no rosto dele. – Você sempre cuida de mim. Bruce a viu voltar para o cinema. Passou pela fileira novamente e se sentou junto ao boneco Scarface, passando o braço por ele afetuosamente. Bruce cruzou a cortina lateral e chegou às portas de incêndio duplas. Crime Alley, ele sabia, estava logo além. Ele se agachou, respirou fundo, agarrou os pegadores e abriu.
Crime Alley / Park Row / Gotham / 22h46 / Hoje
O território era terrivelmente familiar. Bruce escancarou as portas, girando rapidamente para a direita. O beco era estreito, mas ele lembrava que existia uma vaga de estacionamento à direita da saída. Havia um carro estacionado ali naquela noite de 15 de agosto de 1971... Bruce rolou no para-choque curvo do carro. Era um Pontiac Grand Prix 1966 – branco com teto preto – idêntico ao que estava estacionado no mesmo lugar naquela noite. Deu uma volta agachado entre o carro e a parede do beco, os sentidos alertas. Nada se moveu. Ele podia ouvir uma música tocando no final do beco. Lembrava dela como sendo cantada por um artista com o nome improvável de Gilbert O’Sullivan. Passos se aproximaram pelo beco. Bruce contornou o carro, movendo-se pela parede oposta de volta ao beco. Havia uma grande caçamba de lixo ali que o protegia de quem estivesse se aproximando e, igualmente importante, estava colocada de tal forma que havia uma sombra escura que podia esconder sua presença. Ele deslizou para a escuridão – era dono da noite – e ficou tenso. Estava preparado para derrubar seus inimigos que haviam escolhido aquele lugar – aquele lugar sagrado – para torturá-lo. A figura chegou ao círculo de luz dura, lançado pela luminária da porta de saída. – Olá? O-olá? Bruce, chocado, esticou a mão da sombra e arrastou a mulher para seu canto protegido do beco. – Enfermeira Doppel? – Sr. Grayson! – O que diabos está fazendo aqui?
– Eu.... eu recebi uma mensagem – ela disse. Vestia jeans e uma jaqueta contra o frio, e os mesmos sapatos baixos que sempre vira nela. – Dizia que se quisesse a Srta. Amanda de volta, deveria encontrar você aqui. Acho que ouvi alguém atrás de mim no beco... – Não é seguro... Você tem de sair daqui – disse Bruce, estudando o beco mas não vendo movimento. – Já pode até ser tarde demais. – Não, Sr. Wayne – disse a enfermeira Doppel. – Acho que o senhor está exatamente na hora. Eram 22h47. O cano da pistola semiautomática 9 mm colou no tórax de Bruce quando a mulher recuou, fazendo com que a bala passasse sob seu pulmão esquerdo. Era uma ponta oca que se expandia com o impacto e rasgava tecidos, tendões, órgãos e veias em seu caminho curto e crescente. O impacto da bala jogou Bruce de costas sobre a caçamba. Ele se inclinou para frente, as mãos se fechando sobre o ferimento na camisa do pai, sangue fresco escorrendo sobre a velha mancha.
EXPIAÇÃO
Academy Theater / Park Row / Gotham / 22h35 / Hoje Bruce Wayne recobrou a consciência lentamente. Viu diante dele um borrão brilhante cercado por escuridão. Uma música fina e estridente ecoava ao redor, abafada como se pela distância. Eu estava indo levar Amanda Richter para casa. Houve um telefonema... A enfermeira Doppel... Depois a escopeta do meu avô... Uma risada borbulhante soou em seu ouvido esquerdo. – Ah, Thomas, é muito engraçado! Bruce virou a cabeça devagar, inseguro. Tentou colocar os olhos em foco. Parecia ter dificuldade para controlar os movimentos. A silhueta enevoada de uma cabeça acima de um comprido pescoço afilado encheu sua visão. Cabelos louros platinados entravam e saíam de foco. A cabeça vaga se inclinou para trás, rindo novamente. Bruce fechou os olhos com força, depois os abriu. A forma ao lado entrou em foco. Estava sentada à sua esquerda em uma fileira de poltronas de cinema enquanto ria de algo que passava na tela. Ele balançou a cabeça, tentando clareá-la, depois olhou novamente. Era outra versão de Amanda Richter. Seus cabelos compridos estavam empilhados na cabeça em um estilo cheio que lembrava vagamente o final dos anos 1960. A maquiagem de Amanda havia sido feita com cuidado para combinar com os olhos verde-esmeralda. Os olhos de Bruce arregalaram com o choque da identificação, sua visão clareando de repente. As manchas escuras ainda podiam ser vistas no cetim, se projetando em um padrão irregular a partir do buraco de entrada, aberto no alto e curvo colarinho logo acima do seio esquerdo. A mancha irradiava sem ser perturbada pela cintura apertada, se dividindo logo acima do joelho em pequenas manchas e salpicos. Era o vestido dela... É o vestido dela. Mãe? Ela se virou para encará-lo, as pupilas dilatadas e sem foco. – Ah, Thomas, isso realmente me leva ao passado! Bruce se virou para a tela. Originalmente era um filme mudo, mas ele podia ouvir uma metálica orquestração de piano saindo pelos alto-falantes do cinema. Douglas Fairbanks saltou para o balcão após ter derrotado Noah Beery e olhou sedutoramente para Marguerite de la Motte. É aquele mesmo maldito filme. Viemos à retrospectiva de cinema de arte naquela noite.
Era um programa de caridade para o Conselho de Artes de Gotham. Bruce baixou os olhos rapidamente. O casaco do smoking estava desabotoado, revelando a camisa social pregueada abaixo. Também havia uma terrível mancha escura em seus trajes, com dois buracos do tamanho de um dedo separados por dois centímetros e meio no peito. O smoking de meu pai. As mãos de Bruce começaram a tremer. Uma figura pequena estava sentada à sua direita. Ele se virou lentamente, temendo o que poderia estar ali. O boneco de ventríloquo Scarface olhou para ele. Não estava mais em seu habitual terno listrado de gângster, mas vestia agora um pequeno smoking que era um pouco grande demais para ele. Bruce o reconheceu imediatamente como sendo seu, de quando era garoto. Ele sabia pelo padrão das manchas que haviam sido gravadas em sua infância. Bruce tentou se levantar no mesmo instante, mas as pernas estavam fracas. – Sente-se, Thomas! – mandou Amanda. – Você está estragando o espetáculo. Bruce caiu de costas na poltrona. Sentia dificuldade de respirar. Douglas Fairbanks estava de pé junto a Marguerite de la Motte e falava galantemente para a multidão que aplaudia abaixo. Um letreiro surgiu na tela.
Você viu este?
De repente o filme pulou. Houve um estalo alto e um som rascante. Então a cena passou a mostrar outra multidão – também silenciosa, e dessa vez sem a leve música de fundo. Era o salão de baile da Mansão Kane... E Bruce se deu conta de que estava vendo o filme feito naquela noite pelo jornalista. Havia arranhões no filme, mas a imagem ainda era clara. Havia a fantasia confusa que parecia mais um morcego que qualquer herói da imaginação popular, lutando contra a máfia de Moxon no final do salão. Depois Lewis Moxon sendo deixado inconsciente. – Ah, Thomas – disse Amanda de forma meiga, se enrolando no braço esquerdo de Bruce. – Eu não tinha visto você de verdade antes daquela noite. – Amanda, temos de sair daqui – disse Bruce. – Thomas! O filme está quase no fim; além disso, é você – ronronou Amanda para ele. – Acho que comecei a me apaixonar por você naquele momento, quando socou o pobre Lewis. Acho que ele nunca o perdoou. O final do filme ficou brilhante e granulado, e então o som surgiu novamente, uma música de marcha dramática soando pelo salão. Um novo letreiro, este animado mas ainda em preto e branco. Ele dizia: “News on the March”, e o título foi gritado pela voz do locutor. A música continuou enquanto um segundo letreiro surgia na tela.
NEWS ON THE MARCH O FIM DE UM APOCALIPSE Justiceira assassina encontra um final terrível FEVEREIRO DE 1962
Bruce respirou com cuidado, os olhos fixos na tela. É uma mensagem... Para mim... – Penitenciária de Blackgate! – continuou o locutor em um tom dramático e grave enquanto uma velha imagem de arquivo dos muros da prisão surgia na tela. – Ilha de julgamento para o primeiro dos assassinos em massa conhecido como o Apocalipse. Aqui, dentro dessas paredes, foi declarado o sinistro fim de Adele “A Chanteuse” Lafontaine. O filme mostrava Chanteuse sendo conduzida escada acima para a estrutura da forca elevada e o laço sendo colocado em seu pescoço. Ela vestia o mesmo casaco verde característico em que sempre havia aparecido. – Julgada e condenada por crimes sensacionalistas e com frequência mortais, Lafontaine foi sentenciada a ser enforcada à meia-noite por seus crimes, mas teve um destino ainda mais chocante. Por um erro do carrasco, a distância de sua queda foi mal calculada... Amanda desviou os olhos. – ...e o resultado foi uma decapitação quase completa da criminosa. Foi uma queda longa demais e uma parada rápida demais para a mulher que um dia foi saudada como heroína justiceira e, desde então, se tornou uma das assassinas mais ostensivas de Gotham City. Um Apocalipse a menos... Faltam mais três! Bruce baixou os olhos de repente para o boneco Scarface, que o encarava da poltrona à direita. Ele sabia algo da história de Scarface. Aqueles no submundo juravam que o boneco era amaldiçoado, e, segundo a lenda, havia sido esculpido da madeira da forca de Blackgate por um interno chamado Donnegan. Donnegan foi colega de cela de Arnold Wesker, que fugiu de Blackgate com a figura esculpida. Wesker circulou pelo submundo no começo dos anos 1960, bem na época em que os vilões mais radicais de Gotham começaram a surgir. Bruce olhou novamente para Scarface. Você é a fonte? Cada supercriminoso da cidade foi infectado pelo vírus que você carregou com o sangue de Chanteuse? Isso significaria que cada perturbado fantasiado que... – Estamos indo embora – disse Bruce, se levantando. – Agora! – Mas o espetáculo não terminou, Tommy! – se queixou Amanda, apontando para a tela. – Eu sei como termina – rosnou Bruce, colocando Amanda de pé. Ele a arrastou pela fileira, sentindo os pés ainda inseguros. – E quanto a Bruce? – gemeu Amanda, esticando a mão na direção do boneco de ventríloquo. Bruce a ignorou. Muitas das poltronas estavam quebradas, bloqueando a passagem. O cinema estava fechado havia algum tempo. Ele sabia, porque o comprara e fechara. O projetor continuou a rodar da cabine no alto da parede enquanto ele arrastava Amanda. Chegou às portas dos fundos do cinema e as empurrou. Elas se moveram levemente, depois travaram. Bruce soltou a mão de Amanda, agarrando a beirada interna de uma das portas duplas com a ponta dos dedos e puxando a porta de vaivém na sua direção. Ela abriu facilmente... Revelando uma firme placa de aço soldada à moldura que enchia a saída por completo. – Droga! – disse Bruce, se virando e procurando uma saída, qualquer saída, que não
aquela que ele sabia estaria aberta para ele. O noticiário continuou a passar na tela, os sons enchendo o cinema dilapidado e a nova atração chamando sua atenção.
NEWS ON THE MARCH
CRUZADA DA FUNDAÇÃO WAYNE CONTRA SARAMPO ALEMÃO Todos os cidadãos testados para presença do vírus diante de surto AGOSTO DE 1965
– O surto nacional de rubéola, popularmente conhecida como sarampo alemão, tem devastado comunidades de costa a costa... Mas hoje, graças à generosidade do filantropo local Dr. Thomas Wayne, Gotham tem uma nova arma contra o flagelo: um teste rápido para identificar o vírus em todo cidadão da cidade e vizinhanças. Thomas Wayne sorriu da tela rasgada do cinema, acenando para a câmera. A isso se seguiu uma cascata de tomadas mostrando profissionais de saúde tirando sangue de pessoas de idades e profissões diferentes. – Em uma ajuda inestimável a possíveis esforços de quarentena, a Wayne Enterprises está financiando este programa sem usar impostos. Hospitais, clínicas e mesmo o seu médico local estão fazendo sua parte para garantir que cada homem, mulher e, isso mesmo, Suzie, criança de Gotham possa se beneficiar desses exames. Bruce agarrou a mão de Amanda mais uma vez, a levando para a saída seguinte, enquanto repassava o noticiário na cabeça. O teste para o vírus em 65 só poder ter sido um disfarce, uma fachada. Havia um surto de rubéola na época e havia preocupações com isso, mas a doença em si não justificava que toda uma cidade fizesse exame para identificar o vírus. TODOS tinham o vírus. A única razão de examinar toda a cidade seria se alguém estivesse procurando algo mais. Foi totalmente financiada pela Wayne Enterprises – então seu pai devia estar caçando, tentando encontrar e isolar qualquer um que pudesse ter tido contato com o vírus de Richter. Qualquer um com emoções exageradas, concentração obsessiva ou radicalismos em vestimenta e comportamento... O segundo conjunto de portas de saída também estava lacrado. Cada uma das saídas laterais também se revelou bloqueada, até ele chegar à única que sabia que iria se abrir – a mesma que se abrira tantos anos antes. Bruce se virou para a mulher que usava o último vestido que sua mãe usara na vida. – Amanda! Preste atenção! – Como? – disse a mulher, parecendo confusa e tonta. – Tommy, com quem você está falando? – Preste atenção! – disse Bruce, sacudindo-a de leve. – Quero que você fique aqui dentro, entendeu? – Me leve para casa, Tommy – murmurou Amanda. – Eu sempre o amei muito. Você sabe disso, Tommy.
– Sim... Sim eu sei disso – disse Bruce. – Eu tenho de... sair e cuidar de uma coisa. Quero que você volte e se sente com Bruce... Está entendendo? Amanda ergueu o rosto para Bruce, os olhos vidrados, mas o sorriso radiante. – Eu... acho que sim. E se tivéssemos ficado um pouco mais? E se tivéssemos saído por outra porta? E se... E se... – Você vai para lá, entendeu? – disse Bruce, a voz pesada de emoção. – Eu voltarei para pegar você. – Claro, Tommy – disse Amanda, dando um tapinha no rosto dele. – Você sempre cuida de mim. Bruce a viu voltar para o cinema. Passou pela fileira novamente e se sentou junto ao boneco Scarface, passando o braço por ele afetuosamente. Bruce cruzou a cortina lateral e chegou às portas de incêndio duplas. Crime Alley, ele sabia, estava logo além. Ele se agachou, respirou fundo, agarrou os pegadores e abriu.
Crime Alley / Park Row / Gotham / 22h46 / Hoje
O território era terrivelmente familiar. Bruce escancarou as portas, girando rapidamente para a direita. O beco era estreito, mas ele lembrava que existia uma vaga de estacionamento à direita da saída. Havia um carro estacionado ali naquela noite de 15 de agosto de 1971... Bruce rolou no para-choque curvo do carro. Era um Pontiac Grand Prix 1966 – branco com teto preto – idêntico ao que estava estacionado no mesmo lugar naquela noite. Deu uma volta agachado entre o carro e a parede do beco, os sentidos alertas. Nada se moveu. Ele podia ouvir uma música tocando no final do beco. Lembrava dela como sendo cantada por um artista com o nome improvável de Gilbert O’Sullivan. Passos se aproximaram pelo beco. Bruce contornou o carro, movendo-se pela parede oposta de volta ao beco. Havia uma grande caçamba de lixo ali que o protegia de quem estivesse se aproximando e, igualmente importante, estava colocada de tal forma que havia uma sombra escura que podia esconder sua presença. Ele deslizou para a escuridão – era dono da noite – e ficou tenso. Estava preparado para derrubar seus inimigos que haviam escolhido aquele lugar – aquele lugar sagrado – para torturá-lo. A figura chegou ao círculo de luz dura, lançado pela luminária da porta de saída. – Olá? O-olá? Bruce, chocado, esticou a mão da sombra e arrastou a mulher para seu canto protegido do beco. – Enfermeira Doppel? – Sr. Grayson! – O que diabos está fazendo aqui?
– Eu.... eu recebi uma mensagem – ela disse. Vestia jeans e uma jaqueta contra o frio, e os mesmos sapatos baixos que sempre vira nela. – Dizia que se quisesse a Srta. Amanda de volta, deveria encontrar você aqui. Acho que ouvi alguém atrás de mim no beco... – Não é seguro... Você tem de sair daqui – disse Bruce, estudando o beco mas não vendo movimento. – Já pode até ser tarde demais. – Não, Sr. Wayne – disse a enfermeira Doppel. – Acho que o senhor está exatamente na hora. Eram 22h47. O cano da pistola semiautomática 9 mm colou no tórax de Bruce quando a mulher recuou, fazendo com que a bala passasse sob seu pulmão esquerdo. Era uma ponta oca que se expandia com o impacto e rasgava tecidos, tendões, órgãos e veias em seu caminho curto e crescente. O impacto da bala jogou Bruce de costas sobre a caçamba. Ele se inclinou para frente, as mãos se fechando sobre o ferimento na camisa do pai, sangue fresco escorrendo sobre a velha mancha.
SD 937 : WAYNE DE GOTHAN
CAPÍTULO VINTE E TRÊS
O ABISMO
Mansão Kane / Bristol / 23h58 / Hoje Batman podia sentir a vida se esvaindo da bat-roupa. A resposta estava se tornando mais lenta e havia mais resistência aos seus próprios movimentos do que deveria. Ele não conseguia romper o que o prendia nem conseguia se soltar das faixas de seda, cuja flexibilidade e força faziam com que seu próprio peso trabalhasse contra. Tinha de subir. Batman agarrou a seda e puxou com toda força, se afastando das lâminas cortantes abaixo que continuavam a abrir talhos em sua bat-roupa, deixando sua integridade em farrapos. Echo e Query continuavam sua dança aérea ao redor dele, mergulhando e tentando enrolá-lo ainda mais com sua teia de seda. Batman acertou Query na investida seguinte, arremessandoa girando e rolando para baixo até que a seda enrolada em sua cintura deteve a queda. Continuou a escalar, arrastando a seda carmim com ele ao fazê-lo. Podia ver as compridas manchas escuras do fluido da sua bat-roupa sujando o tecido que pendia abaixo dele. Surgiu fogo de automáticas abaixo, e balas acertaram o teto logo acima. Olhou ao redor rapidamente e encontrou o que precisava: o núcleo motorizado do móbile. Tudo era ligado àquele grande mecanismo chumbado no teto. Batman segurou uma das barras do móbile e subiu. Echo agarrou sua bota, tentando arrancá-lo da viga, mas ele chutou com força, também a lançando em rodopio. A voz do seu pai continuava no salão. – ...os convidados não tinham ideia do que realmente acontecera. Todos acreditavam que era eu na fantasia... Que eu era a figura heroica que derrotara a gangue Moxon e partira para prender Julius Moxon... Batman chegou ao mecanismo central, tirando várias pequenas bolas de C-4 e detonadores remotos do cinto de utilidades. Começou a apertá-los junto aos oito parafusos que prendiam o mecanismo ao teto. Tinha cinco colocados quando Echo e Query se atiraram sobre ele ao mesmo tempo. Com o braço direito, Echo prendera seu pescoço em um aperto feroz. Query se agarrara a uma das pernas e tentava arrancá-lo de sua posição na viga. Terá de ser suficiente. Batman virou o rosto e detonou os explosivos. Os pequenos artefatos arrancaram as cabeças dos parafusos, furando a frente de sua batroupa. A blindagem reativa funcionou, mas ele podia sentir os impactos. A bat-roupa estava falhando. A força fizera com que a placa se soltasse parcialmente do teto. O solavanco repentino e o barulho das explosões pegaram Echo e Query de surpresa, fazendo com que
ambas reduzissem a pressão. Era tudo de que Batman precisava. Tirou as duas mulheres e as derrubou com a seda enrolada nas cinturas. Quando ela esticou, quicaram quase quatro metros e meio abaixo do teto. – ...o homem que conhecia como Denholm Sinclair havia sido perdido para mim... Certamente perdido para Martha. Ele se tornara um monstro repulsivo que chamava a si mesmo de Discípulo e a mim de sua inspiração e seu criador... Batman se ergueu, segurando a barra com as duas mãos. Os alarmes da bat-roupa soavam em seu ouvido. Passou as pernas sobre a barra, apoiando os pés nos dois lados do teto danificado em cócoras invertidas, e segurou firme na barra enquanto empurrava com as pernas. – Eu sabia que ele iria matar Julius Moxon, e assim que tivesse feito isso voltaria à festa e mataria novamente... Com minha fantasia e disfarçado de mim... A cantoneira de sustentação gemeu com a carga repentina. O alarme da bat-roupa se tornou mais insistente. De repente o suporte cedeu, arrancando com ele uma grande superfície de gesso do teto. O móbile, as múltiplas vigas, as compridas faixas de seda, Amanda, Echo, Query e todos os manequins suspensos despencaram sobre o piso do salão de baile. Batman mal conseguiu rolar ao tocar o chão, permitindo que o poder remanescente na batroupa dissipasse a energia da queda. Ele se colocou de pé e viu Query, Echo e seus espadachins lutando para escapar da própria teia. Foi para o meio deles, prendendo cada um onde os encontrou com as braçadeiras e, quando necessário, usando os punhos para explicar por que não deveriam resistir. Enquanto isso a voz do pai soava no saguão. – ...Então fiz com que eu fosse seu próximo alvo. Não consegui pensar em mais nada que pudesse afastá-lo da Mansão Kane. Minha ideia original... O pouco que era... Havia sido afastá-lo da casa Kane e de volta à minha própria propriedade. Os céus sabem que havia muitas armas deixadas por meu pai... Mas mesmo com ele muito ferido não consegui ganhar muita dianteira... Ele encontrou Amanda entre os manequins. Sacou uma faca, cortou seus cabos e a enrolou em uma das sedas vermelhas para que o fluido da bat-roupa não a sujasse. Pegou-a, colocou sobre o ombro e se virou para seguir o som da voz do pai. Ela o levou até o coreto. Havia um antigo gravador de rolo Wollensak 1515 tocando rolos de sete polegadas no modo LP. Uma pilha de caixas de fita Scotch gastas estava ao lado do gravador, com a do alto aberta e vazia. O gravador propriamente dito estava ligado a um grande alto-falante que ainda ecoava pelo saguão. – Desci correndo a Ravina Peterson. Podia ouvi-lo bem próximo de mim. Estava em pânico e sem saber exatamente o que... Batman esticou a mão, apertando o botão de parar do lado direito. Os rolos pararam de girar. O som no saguão morreu. Batman olhou para o rolo de fita. O plástico transparente estava amarelando, assim como a etiqueta, mas ainda era legível.
T. Wayne – Observações sobre Apocalipse / 3 de 12
Havia sete caixas junto ao gravador... incluindo a vazia. Batman virou a alavanca de rebobinar para a esquerda. O rolo girou para trás. Batman recolocou o seletor no meio assim que a fita passou pelos cabeçotes de Rec/Play, dando mais algumas voltas livre antes de parar. Retirou o rolo do pino e o guardou na caixa vazia, fechando a tampa. Depois foi até um dos soldados confederados inconscientes no chão arrasado e pegou a bolsa de mapas dele. Voltou ao gravador, com Amanda ainda sobre o ombro, e enfiou as fitas na bolsa. Suas mãos tremiam o tempo todo. Caminhou até o vidro ensaboado das portas duplas, abriu e saiu para a noite fria. Com Amanda e as fitas, cruzou o terreno tomado por ervas daninhas até a floresta vizinha, desceu a Ravina Peterson e foi para sua caverna.
Caverna / Mansão Wayne / Bristol / 23h59 / 26 de outubro de 1958
Thomas estava encharcado. O velho lago subterrâneo que criara as cavernas mudara havia muito. A própria entrada da caverna se tornara o ponto de escoamento do lago, um rio que corria para a ravina além. A entrada era fácil de achar seguindo o rio, mas, sendo a área selvagem da propriedade Wayne, poucos a tinham descoberto. Thomas odiava o lugar com toda a sua alma, mas estava desesperado. Ele se lançou cegamente em sua boca, chapinhando ruidosamente no curso d’água e entrando na escuridão. – Você não pode fugir de si mesmo, Thomas! – ecoou levemente a voz de Discípulo entrando na caverna atrás do Dr. Wayne. – Eu cresci além de você agora... Me tornei algo maior do que você esperava ou achava possível. Thomas sabia que, infelizmente, isso era parcialmente verdade. Vira a carnificina no laboratório e lera os relatórios. O vírus que ele e Richter haviam liberado tivera resultados imprevisíveis na reprogramação genética, mas em geral os resultados eram consistentes: fortaleciam e ampliavam várias características presentes. Os infectados pareciam ser mais exuberantes, usando roupas, uniformes ou fantasias espalhafatosos como expressão exterior de sua visão interna de si mesmos. Certas predisposições genéticas também eram exageradas de forma desproporcional – força, destreza ou acuidade mental em certas áreas ou raciocínio. Ética, moral e ligações sociais – objeto principal de sua modificação comportamental – se revelaram as mais inconstantes. Uma inconstância que, na opinião médica de Thomas, muito provavelmente faria com que fosse morto. Eu posso consertar isso. Se puder argumentar com Denholm... Ou pelo menos obrigá-lo a voltar ao laboratório... Jarvis o trancou, mas ainda está lá. Então poderia consertar isso – consertar Denholm e os outros e acertar as coisas. O vírus ainda não saíra dos hospedeiros – ele estava certo disso. Só havia quatro membros do Apocalipse, e nenhum outro relato de outros justiceiros ou criminosos bizarros. A doença parecia limitada à corrente sanguínea até o momento. Tudo que precisava fazer era contê-los, prendê-los e descobrir uma cura. Tudo que precisava fazer...
– Thomas, o que há de errado? – ecoou a voz de Denholm na caverna. Estava mais perto agora, junto à entrada. – Você queria que eu fosse bom. Queria que levasse a justiça aos culpados, não é? Thomas avançou dentro da caverna. Sabia instintivamente que havia uma pequena alcova à direita da entrada. Seu pai o obrigara muitas vezes a encontrá-la no breu completo da caverna. Engoliu em seco e então seguiu pelo túnel, as pontas dos dedos da mão direita percorrendo a superfície fria, escorregadia e irregular da parede até mergulhar em um abismo à direita. Thomas entrou no vazio e parou. Podia ouvir os morcegos despertando. – Foi isso que eu fiz, Thomas – ressoou a voz de Denholm pela caverna. – Descobri os culpados de Gotham, e isso foi uma revelação... Uma revelação pura e brilhante. Capangas, mafiosos, ladrões, assaltantes... Eles são apenas os ramos, Thomas. São folhas que desaparecem no outono e renascem na primavera. Thomas tateou desajeitadamente atrás do corpo, esperando que a parede da caverna ainda fosse onde ele lembrava... Onde seu pai o obrigara a encontrá-la. – Sabe, também lamento pelos inocentes – disse Discípulo em uma voz suave e baixa, pouco acima do som da água do rio correndo ao seu redor. – Aqueles órfãos que morreram no incêndio, aquilo foi uma tragédia terrível, um crime de horror sem precedentes e crueldade insensível. Eu chorei por eles. Chorei por eles todos. Patrick Wayne só tinha um refúgio da vida. Era descer para aquela caverna, onde podia esconder seus ébrios acessos de raiva na escuridão e descontar nos morcegos acima. Ele voltara ali com frequência até o dia em que morreu, sempre deixando as ferramentas de sua fúria particular bem lubrificadas e prontas. – E morri com eles, Thomas; você garantiu isso – disse Denholm, rindo. – Você queimou as impurezas de minha alma escura, matou tudo o que eu havia sido um dia. Agora farei o mesmo pelos outros, Thomas, exatamente como você queria que eu fizesse. Thomas sentiu o aço frio e liso atrás de si exatamente onde o pai o deixara. – Eu me ergui como uma fênix das cinzas em que você me transformou, meu caro Thomas. – A voz de Denholm ecoou pela caverna. Thomas correu os dedos pelo cano. Sentiu os suportes que o velho Patrick instalara logo acima do carregador. O tubo corrugado estava fixado paralelamente ao cano, se abrindo na ponta. As lentes de vidro pareciam intactas. Ele só esperava que as pilhas também estivessem boas. – E quem pagará pelos gritos daquelas crianças? Celia, que foi quem deu o desfalque? Thomas trincou os dentes, as mãos tremendo enquanto se fechavam sobre a lanterna superposta, buscando o interruptor. – Ou talvez Martha – murmurou Denholm. – A querida Martha Kane, cujo desejo cego de aplacar sua consciência culpada forneceu o dinheiro que alimentou os fogos de ganância e desespero? Sim... Ela desempenhou um papel nas mortes daquelas crianças. Ela também precisa pagar. Com um movimento, Thomas pegou a escopeta, usando o movimento para cima para puxar o carregador. Apoiou a arma pesada no quadril com a mão direita enquanto usava a esquerda
para empurrar o interruptor para frente na lanterna instalada no cano da arma. A luz se acendeu imediatamente, o facho cortando um estreito círculo iluminado no vazio. Denholm se virou na direção da luz. Estava sorrindo para sua presa do outro lado da caverna, o rio subterrâneo correndo entre eles. “Levante-se. Maldição, garoto!” A voz do pai emergiu através dos zunidos em seu ouvido. “Não é assim que se segura uma arma!” – Vai ficar tudo bem, Denholm – disse Thomas, a voz carecendo da força das palavras no mesmo instante em que as dizia atrás do cano da escopeta. A luz da lanterna continuou a lançar sombras mutantes sobre o rosto ainda mascarado de Denholm. – Vou levar você a um lugar... Um lugar seguro... E vamos resolver isso. Eu vou consertar as coisas... – CONSERTAR as coisas? – retrucou Denholm com um sorriso maldoso. – Você ME fez para CONSERTÁ-LAS! “Custe o que custar, garoto, vou fazer de você um homem!” – Denholm, por favor – disse Thomas, a luz falhando acima da escopeta. Suas mãos suavam. – Só venha comigo. Vamos para a casa. Eu posso ajudá-lo. – Não, Thomas – disse Denholm, o sorriso malévolo. – Sou eu quem irá ajudar você. Está no meu sangue, você o colocou no meu sangue. – O quê? – O vírus – disse Denholm. – O presente. Ele vive em minhas veias. Eu vou dar a você esse presente, Thomas. Vou dá-lo ao mundo. “Só há dois tipos de pessoas neste mundo: os caçadores e os caçados, e é bom você decidir imediatamente que irá caçar!” Denholm deu um passo para dentro do rio, a água espirrando ao redor da malha da fantasia. A ridícula capa com pontas se agitava atrás dele enquanto se movia. A máscara de tecido se amontoara do lado da cabeça, criando pequenas dobras pontudas. No estado nervoso de Thomas, parecia uma versão de um morcego dos quadrinhos dominicais. – Lá fora é matar ou morrer, não é como aquele mundo de quadrinhos em que você vive! – Denholm, você não está bem – disse Thomas, a voz tremendo. A arma parecia escorregadia em suas mãos. As velhas pilhas na lanterna colocada sobre o cano falhavam, fazendo com que a luz ao redor de Denholm ficasse amarela e fraca. – Por favor, só venha comigo e eu posso curar isso. – Ir com você? Mas eu vim por você, Thomas, meu querido, incrédulo Thomas. Nunca realmente comprometido com a fé das convicções que esposou... Sempre se questionando. Vim para acabar com suas dúvidas, Thomas – falou Denholm, o Discípulo, desde a luz que diminuía ao redor dele. – Vim para purgá-lo de tudo isso, Thomas, assim como purguei as almas de tantos outros. Também irei purificá-lo, querido Thomas. Você pode ficar livre da culpa, livre do medo. Enviei muitas almas torturadas para essa paz... Uma paz que você me apresentou, querido Thomas... E que eu agora devolvo a você. “E hoje você vai aprender a matar, filho. Você vai matar alguma coisa!” Thomas se lembrou de ficar do outro lado da arma, se apoiando no pé de trás, apertando o ombro com força sobre a coronha.
– Por favor, Denholm... Eu só quero ajudar. – Você está doente, Thomas – rosnou Denholm. – Eu vou curar você. “Seja homem! Me mostre que é um homem!” Thomas soltara a trava de segurança sem pensar. O morcego de quadrinhos saltou sobre ele da beira da água. “ATIRE!” Thomas não ouviu a arma disparar. Ele sentiu o golpe repentino no ombro, seu corpo se curvando e absorvendo o recuo do disparo. Seus olhos se abriram e viram o buraco no peito fantasiado, a mancha carmim se expandindo como maré sobre o tecido. Denholm recuara com o impacto, cambaleando de volta para a beira do rio. “Matar ou ser morto...” Lágrimas corriam pelas faces de Thomas. Parte de sua mente examinava o ferimento no peito de Denholm, revendo os passos necessários para ter alguma chance de salvar o paciente. Costelas quebradas... Pulmões perfurados... Hemorragia interna... “Isso, garoto! Me mostre!” Thomas carregou outro cartucho bem a tempo. Denholm, furioso, investiu contra ele novamente, sangue correndo pelo peito, escorrendo por entre os dentes à mostra. O rugido da escopeta ecoou pela caverna. Thomas não estava tão pronto dessa vez, o recuo da arma quase a arrancando de suas mãos. O impacto atingiu Denholm no ombro, girando seu corpo. Ele se equilibrou antes de cair, virou mais uma vez e gritou. Thomas retomara posição, as cápsulas voando do ejetor da escopeta. Berrou a cada disparo, sua voz afogada pela sequência de explosões do cano da arma. Depois que o sexto cartucho foi expelido, apertou o gatilho de um cano vazio. Denholm felizmente estava caído de barriga para baixo no rio, não podendo mais ser reconhecido por causa da carnificina produzida pelas mãos de Thomas. Seu corpo flutuou um pouco no rio antes de se prender nas pedras à entrada da caverna. Thomas foi até o local onde o rio corria ao redor de Denholm Sinclair, a escopeta sustentada frouxamente pela mão direita. Thomas prometera a Martha que tomaria conta dele. Tudo dera muito errado. Ele baixou os olhos para o corpo; a água era escura à luz da lua. O sangue infectado de Denholm estava descendo o córrego na direção do rio Gotham e das torres acesas da cidade.
Batcaverna / Mansão Wayne / Bristol / 20h59 / Hoje – ...acabou com qualquer esperança de limitar o vírus Richter aos que haviam sido infectados. Enquanto eu via seu sangue correr pelo riacho, me dei conta de que os efeitos do vírus podiam se espalhar pelo contato com o sangue infectado ou outros agentes similares. Também sabia que havia mais três portadores ainda à solta na cidade... O telefone da mansão estava tocando. Bruce estava sentado ao seu terminal na batcaverna escutando a continuação da fita. Demorara algum tempo para encontrar um velho aparelho de rolo, mas agora estava tocando a fita na caverna. Tirara a bat-roupa muito danificada; sua energia havia esgotado totalmente,
e o sistema exomuscular estava completamente comprometido. Escutava a voz de um pai que, agora se dava conta, nunca havia realmente conhecido. O telefone da mansão continuava a tocar. – ...Mais uma vez Jarvis insistiu em cuidar do problema, e desde então fico pensando em se haveria algum outro motivo por trás de seus esforços. Ele certamente é o único homem que tem mais influência sobre mim do que gosto de reconhecer. Suponho que parte de meus motivos para fazer esta gravação seja que meus filhos não sejam ameaçados após meu falecimento, que a culpa e a responsabilidade por tudo o que aconteceu repouse sobre meus ombros, e não sobre os deles... Bruce lentamente tomou consciência do som, pensando vagamente em por que Alfred não atendia ao telefone. Então lembrou. Parou o gravador e pegou o telefone. – Propriedade Wayne – disse secamente. – Sim, eu... Ahn... Desculpe por telefonar, mas estava pensando se poderia me ajudar. Estou tentando entrar em contato com uma pessoa. – Enfermeira Doppel? – disse Bruce, mais como uma declaração que como uma pergunta. – Sim! Sou... É o Sr. Grayson? – Sim, todos os outros estão... fora – respondeu Bruce. Alfred fora embora e ele sentia muito a perda dele. Virando na cadeira, olhou para a imagem em vídeo da inconsciente Amanda, deitada no sofá na reprodução do estúdio ali perto. – Aparentemente também sou o cozinheiro chefe e o lavador de pratos aqui... Para não falar de babá. – Ah, Sr. Grayson, fico muito aliviada de encontrá-lo. Fiz exatamente o que pediu, mas não tive mais notícias de Amanda desde que entreguei aquele livro. Ela não telefonou desde então, e... – Pode relaxar, enfermeira Doppel – disse Bruce, esfregando os olhos com a mão. – Ela está comigo. Está inconsciente no momento. – Não precisa se preocupar muito com isso – ela respondeu. – Pode ser apenas efeito de ela não estar tomando os medicamentos na hora certa. – A senhora sabe melhor do que eu. – A voz de Bruce soava cansada a seus próprios ouvidos. – Fora isso, não acho que esteja ferida. – Ah, graças a Deus! – respondeu Doppel. – Pode trazê-la para casa? Eu não tenho carro, e sem a medicação... Bruce ficou paralisado na cadeira, olhando com furiosa perturbação para a passarela metálica que levava ao elevador da caverna. Seus olhos estavam fixos em algo que ele tinha certeza de que não estava lá quando partira mais cedo para a Mansão Kane. Ali, apoiada nas grades, reluzente e bem lubrificada, estava a escopeta do seu avô. – Eu a levarei – disse Bruce. – Estarei aí em cerca de vinte minutos. Os olhos fixos na arma. Foi a última coisa que se lembrou de ter visto antes de acordar.
O ABISMO
Mansão Kane / Bristol / 23h58 / Hoje Batman podia sentir a vida se esvaindo da bat-roupa. A resposta estava se tornando mais lenta e havia mais resistência aos seus próprios movimentos do que deveria. Ele não conseguia romper o que o prendia nem conseguia se soltar das faixas de seda, cuja flexibilidade e força faziam com que seu próprio peso trabalhasse contra. Tinha de subir. Batman agarrou a seda e puxou com toda força, se afastando das lâminas cortantes abaixo que continuavam a abrir talhos em sua bat-roupa, deixando sua integridade em farrapos. Echo e Query continuavam sua dança aérea ao redor dele, mergulhando e tentando enrolá-lo ainda mais com sua teia de seda. Batman acertou Query na investida seguinte, arremessandoa girando e rolando para baixo até que a seda enrolada em sua cintura deteve a queda. Continuou a escalar, arrastando a seda carmim com ele ao fazê-lo. Podia ver as compridas manchas escuras do fluido da sua bat-roupa sujando o tecido que pendia abaixo dele. Surgiu fogo de automáticas abaixo, e balas acertaram o teto logo acima. Olhou ao redor rapidamente e encontrou o que precisava: o núcleo motorizado do móbile. Tudo era ligado àquele grande mecanismo chumbado no teto. Batman segurou uma das barras do móbile e subiu. Echo agarrou sua bota, tentando arrancá-lo da viga, mas ele chutou com força, também a lançando em rodopio. A voz do seu pai continuava no salão. – ...os convidados não tinham ideia do que realmente acontecera. Todos acreditavam que era eu na fantasia... Que eu era a figura heroica que derrotara a gangue Moxon e partira para prender Julius Moxon... Batman chegou ao mecanismo central, tirando várias pequenas bolas de C-4 e detonadores remotos do cinto de utilidades. Começou a apertá-los junto aos oito parafusos que prendiam o mecanismo ao teto. Tinha cinco colocados quando Echo e Query se atiraram sobre ele ao mesmo tempo. Com o braço direito, Echo prendera seu pescoço em um aperto feroz. Query se agarrara a uma das pernas e tentava arrancá-lo de sua posição na viga. Terá de ser suficiente. Batman virou o rosto e detonou os explosivos. Os pequenos artefatos arrancaram as cabeças dos parafusos, furando a frente de sua batroupa. A blindagem reativa funcionou, mas ele podia sentir os impactos. A bat-roupa estava falhando. A força fizera com que a placa se soltasse parcialmente do teto. O solavanco repentino e o barulho das explosões pegaram Echo e Query de surpresa, fazendo com que
ambas reduzissem a pressão. Era tudo de que Batman precisava. Tirou as duas mulheres e as derrubou com a seda enrolada nas cinturas. Quando ela esticou, quicaram quase quatro metros e meio abaixo do teto. – ...o homem que conhecia como Denholm Sinclair havia sido perdido para mim... Certamente perdido para Martha. Ele se tornara um monstro repulsivo que chamava a si mesmo de Discípulo e a mim de sua inspiração e seu criador... Batman se ergueu, segurando a barra com as duas mãos. Os alarmes da bat-roupa soavam em seu ouvido. Passou as pernas sobre a barra, apoiando os pés nos dois lados do teto danificado em cócoras invertidas, e segurou firme na barra enquanto empurrava com as pernas. – Eu sabia que ele iria matar Julius Moxon, e assim que tivesse feito isso voltaria à festa e mataria novamente... Com minha fantasia e disfarçado de mim... A cantoneira de sustentação gemeu com a carga repentina. O alarme da bat-roupa se tornou mais insistente. De repente o suporte cedeu, arrancando com ele uma grande superfície de gesso do teto. O móbile, as múltiplas vigas, as compridas faixas de seda, Amanda, Echo, Query e todos os manequins suspensos despencaram sobre o piso do salão de baile. Batman mal conseguiu rolar ao tocar o chão, permitindo que o poder remanescente na batroupa dissipasse a energia da queda. Ele se colocou de pé e viu Query, Echo e seus espadachins lutando para escapar da própria teia. Foi para o meio deles, prendendo cada um onde os encontrou com as braçadeiras e, quando necessário, usando os punhos para explicar por que não deveriam resistir. Enquanto isso a voz do pai soava no saguão. – ...Então fiz com que eu fosse seu próximo alvo. Não consegui pensar em mais nada que pudesse afastá-lo da Mansão Kane. Minha ideia original... O pouco que era... Havia sido afastá-lo da casa Kane e de volta à minha própria propriedade. Os céus sabem que havia muitas armas deixadas por meu pai... Mas mesmo com ele muito ferido não consegui ganhar muita dianteira... Ele encontrou Amanda entre os manequins. Sacou uma faca, cortou seus cabos e a enrolou em uma das sedas vermelhas para que o fluido da bat-roupa não a sujasse. Pegou-a, colocou sobre o ombro e se virou para seguir o som da voz do pai. Ela o levou até o coreto. Havia um antigo gravador de rolo Wollensak 1515 tocando rolos de sete polegadas no modo LP. Uma pilha de caixas de fita Scotch gastas estava ao lado do gravador, com a do alto aberta e vazia. O gravador propriamente dito estava ligado a um grande alto-falante que ainda ecoava pelo saguão. – Desci correndo a Ravina Peterson. Podia ouvi-lo bem próximo de mim. Estava em pânico e sem saber exatamente o que... Batman esticou a mão, apertando o botão de parar do lado direito. Os rolos pararam de girar. O som no saguão morreu. Batman olhou para o rolo de fita. O plástico transparente estava amarelando, assim como a etiqueta, mas ainda era legível.
T. Wayne – Observações sobre Apocalipse / 3 de 12
Havia sete caixas junto ao gravador... incluindo a vazia. Batman virou a alavanca de rebobinar para a esquerda. O rolo girou para trás. Batman recolocou o seletor no meio assim que a fita passou pelos cabeçotes de Rec/Play, dando mais algumas voltas livre antes de parar. Retirou o rolo do pino e o guardou na caixa vazia, fechando a tampa. Depois foi até um dos soldados confederados inconscientes no chão arrasado e pegou a bolsa de mapas dele. Voltou ao gravador, com Amanda ainda sobre o ombro, e enfiou as fitas na bolsa. Suas mãos tremiam o tempo todo. Caminhou até o vidro ensaboado das portas duplas, abriu e saiu para a noite fria. Com Amanda e as fitas, cruzou o terreno tomado por ervas daninhas até a floresta vizinha, desceu a Ravina Peterson e foi para sua caverna.
Caverna / Mansão Wayne / Bristol / 23h59 / 26 de outubro de 1958
Thomas estava encharcado. O velho lago subterrâneo que criara as cavernas mudara havia muito. A própria entrada da caverna se tornara o ponto de escoamento do lago, um rio que corria para a ravina além. A entrada era fácil de achar seguindo o rio, mas, sendo a área selvagem da propriedade Wayne, poucos a tinham descoberto. Thomas odiava o lugar com toda a sua alma, mas estava desesperado. Ele se lançou cegamente em sua boca, chapinhando ruidosamente no curso d’água e entrando na escuridão. – Você não pode fugir de si mesmo, Thomas! – ecoou levemente a voz de Discípulo entrando na caverna atrás do Dr. Wayne. – Eu cresci além de você agora... Me tornei algo maior do que você esperava ou achava possível. Thomas sabia que, infelizmente, isso era parcialmente verdade. Vira a carnificina no laboratório e lera os relatórios. O vírus que ele e Richter haviam liberado tivera resultados imprevisíveis na reprogramação genética, mas em geral os resultados eram consistentes: fortaleciam e ampliavam várias características presentes. Os infectados pareciam ser mais exuberantes, usando roupas, uniformes ou fantasias espalhafatosos como expressão exterior de sua visão interna de si mesmos. Certas predisposições genéticas também eram exageradas de forma desproporcional – força, destreza ou acuidade mental em certas áreas ou raciocínio. Ética, moral e ligações sociais – objeto principal de sua modificação comportamental – se revelaram as mais inconstantes. Uma inconstância que, na opinião médica de Thomas, muito provavelmente faria com que fosse morto. Eu posso consertar isso. Se puder argumentar com Denholm... Ou pelo menos obrigá-lo a voltar ao laboratório... Jarvis o trancou, mas ainda está lá. Então poderia consertar isso – consertar Denholm e os outros e acertar as coisas. O vírus ainda não saíra dos hospedeiros – ele estava certo disso. Só havia quatro membros do Apocalipse, e nenhum outro relato de outros justiceiros ou criminosos bizarros. A doença parecia limitada à corrente sanguínea até o momento. Tudo que precisava fazer era contê-los, prendê-los e descobrir uma cura. Tudo que precisava fazer...
– Thomas, o que há de errado? – ecoou a voz de Denholm na caverna. Estava mais perto agora, junto à entrada. – Você queria que eu fosse bom. Queria que levasse a justiça aos culpados, não é? Thomas avançou dentro da caverna. Sabia instintivamente que havia uma pequena alcova à direita da entrada. Seu pai o obrigara muitas vezes a encontrá-la no breu completo da caverna. Engoliu em seco e então seguiu pelo túnel, as pontas dos dedos da mão direita percorrendo a superfície fria, escorregadia e irregular da parede até mergulhar em um abismo à direita. Thomas entrou no vazio e parou. Podia ouvir os morcegos despertando. – Foi isso que eu fiz, Thomas – ressoou a voz de Denholm pela caverna. – Descobri os culpados de Gotham, e isso foi uma revelação... Uma revelação pura e brilhante. Capangas, mafiosos, ladrões, assaltantes... Eles são apenas os ramos, Thomas. São folhas que desaparecem no outono e renascem na primavera. Thomas tateou desajeitadamente atrás do corpo, esperando que a parede da caverna ainda fosse onde ele lembrava... Onde seu pai o obrigara a encontrá-la. – Sabe, também lamento pelos inocentes – disse Discípulo em uma voz suave e baixa, pouco acima do som da água do rio correndo ao seu redor. – Aqueles órfãos que morreram no incêndio, aquilo foi uma tragédia terrível, um crime de horror sem precedentes e crueldade insensível. Eu chorei por eles. Chorei por eles todos. Patrick Wayne só tinha um refúgio da vida. Era descer para aquela caverna, onde podia esconder seus ébrios acessos de raiva na escuridão e descontar nos morcegos acima. Ele voltara ali com frequência até o dia em que morreu, sempre deixando as ferramentas de sua fúria particular bem lubrificadas e prontas. – E morri com eles, Thomas; você garantiu isso – disse Denholm, rindo. – Você queimou as impurezas de minha alma escura, matou tudo o que eu havia sido um dia. Agora farei o mesmo pelos outros, Thomas, exatamente como você queria que eu fizesse. Thomas sentiu o aço frio e liso atrás de si exatamente onde o pai o deixara. – Eu me ergui como uma fênix das cinzas em que você me transformou, meu caro Thomas. – A voz de Denholm ecoou pela caverna. Thomas correu os dedos pelo cano. Sentiu os suportes que o velho Patrick instalara logo acima do carregador. O tubo corrugado estava fixado paralelamente ao cano, se abrindo na ponta. As lentes de vidro pareciam intactas. Ele só esperava que as pilhas também estivessem boas. – E quem pagará pelos gritos daquelas crianças? Celia, que foi quem deu o desfalque? Thomas trincou os dentes, as mãos tremendo enquanto se fechavam sobre a lanterna superposta, buscando o interruptor. – Ou talvez Martha – murmurou Denholm. – A querida Martha Kane, cujo desejo cego de aplacar sua consciência culpada forneceu o dinheiro que alimentou os fogos de ganância e desespero? Sim... Ela desempenhou um papel nas mortes daquelas crianças. Ela também precisa pagar. Com um movimento, Thomas pegou a escopeta, usando o movimento para cima para puxar o carregador. Apoiou a arma pesada no quadril com a mão direita enquanto usava a esquerda
para empurrar o interruptor para frente na lanterna instalada no cano da arma. A luz se acendeu imediatamente, o facho cortando um estreito círculo iluminado no vazio. Denholm se virou na direção da luz. Estava sorrindo para sua presa do outro lado da caverna, o rio subterrâneo correndo entre eles. “Levante-se. Maldição, garoto!” A voz do pai emergiu através dos zunidos em seu ouvido. “Não é assim que se segura uma arma!” – Vai ficar tudo bem, Denholm – disse Thomas, a voz carecendo da força das palavras no mesmo instante em que as dizia atrás do cano da escopeta. A luz da lanterna continuou a lançar sombras mutantes sobre o rosto ainda mascarado de Denholm. – Vou levar você a um lugar... Um lugar seguro... E vamos resolver isso. Eu vou consertar as coisas... – CONSERTAR as coisas? – retrucou Denholm com um sorriso maldoso. – Você ME fez para CONSERTÁ-LAS! “Custe o que custar, garoto, vou fazer de você um homem!” – Denholm, por favor – disse Thomas, a luz falhando acima da escopeta. Suas mãos suavam. – Só venha comigo. Vamos para a casa. Eu posso ajudá-lo. – Não, Thomas – disse Denholm, o sorriso malévolo. – Sou eu quem irá ajudar você. Está no meu sangue, você o colocou no meu sangue. – O quê? – O vírus – disse Denholm. – O presente. Ele vive em minhas veias. Eu vou dar a você esse presente, Thomas. Vou dá-lo ao mundo. “Só há dois tipos de pessoas neste mundo: os caçadores e os caçados, e é bom você decidir imediatamente que irá caçar!” Denholm deu um passo para dentro do rio, a água espirrando ao redor da malha da fantasia. A ridícula capa com pontas se agitava atrás dele enquanto se movia. A máscara de tecido se amontoara do lado da cabeça, criando pequenas dobras pontudas. No estado nervoso de Thomas, parecia uma versão de um morcego dos quadrinhos dominicais. – Lá fora é matar ou morrer, não é como aquele mundo de quadrinhos em que você vive! – Denholm, você não está bem – disse Thomas, a voz tremendo. A arma parecia escorregadia em suas mãos. As velhas pilhas na lanterna colocada sobre o cano falhavam, fazendo com que a luz ao redor de Denholm ficasse amarela e fraca. – Por favor, só venha comigo e eu posso curar isso. – Ir com você? Mas eu vim por você, Thomas, meu querido, incrédulo Thomas. Nunca realmente comprometido com a fé das convicções que esposou... Sempre se questionando. Vim para acabar com suas dúvidas, Thomas – falou Denholm, o Discípulo, desde a luz que diminuía ao redor dele. – Vim para purgá-lo de tudo isso, Thomas, assim como purguei as almas de tantos outros. Também irei purificá-lo, querido Thomas. Você pode ficar livre da culpa, livre do medo. Enviei muitas almas torturadas para essa paz... Uma paz que você me apresentou, querido Thomas... E que eu agora devolvo a você. “E hoje você vai aprender a matar, filho. Você vai matar alguma coisa!” Thomas se lembrou de ficar do outro lado da arma, se apoiando no pé de trás, apertando o ombro com força sobre a coronha.
– Por favor, Denholm... Eu só quero ajudar. – Você está doente, Thomas – rosnou Denholm. – Eu vou curar você. “Seja homem! Me mostre que é um homem!” Thomas soltara a trava de segurança sem pensar. O morcego de quadrinhos saltou sobre ele da beira da água. “ATIRE!” Thomas não ouviu a arma disparar. Ele sentiu o golpe repentino no ombro, seu corpo se curvando e absorvendo o recuo do disparo. Seus olhos se abriram e viram o buraco no peito fantasiado, a mancha carmim se expandindo como maré sobre o tecido. Denholm recuara com o impacto, cambaleando de volta para a beira do rio. “Matar ou ser morto...” Lágrimas corriam pelas faces de Thomas. Parte de sua mente examinava o ferimento no peito de Denholm, revendo os passos necessários para ter alguma chance de salvar o paciente. Costelas quebradas... Pulmões perfurados... Hemorragia interna... “Isso, garoto! Me mostre!” Thomas carregou outro cartucho bem a tempo. Denholm, furioso, investiu contra ele novamente, sangue correndo pelo peito, escorrendo por entre os dentes à mostra. O rugido da escopeta ecoou pela caverna. Thomas não estava tão pronto dessa vez, o recuo da arma quase a arrancando de suas mãos. O impacto atingiu Denholm no ombro, girando seu corpo. Ele se equilibrou antes de cair, virou mais uma vez e gritou. Thomas retomara posição, as cápsulas voando do ejetor da escopeta. Berrou a cada disparo, sua voz afogada pela sequência de explosões do cano da arma. Depois que o sexto cartucho foi expelido, apertou o gatilho de um cano vazio. Denholm felizmente estava caído de barriga para baixo no rio, não podendo mais ser reconhecido por causa da carnificina produzida pelas mãos de Thomas. Seu corpo flutuou um pouco no rio antes de se prender nas pedras à entrada da caverna. Thomas foi até o local onde o rio corria ao redor de Denholm Sinclair, a escopeta sustentada frouxamente pela mão direita. Thomas prometera a Martha que tomaria conta dele. Tudo dera muito errado. Ele baixou os olhos para o corpo; a água era escura à luz da lua. O sangue infectado de Denholm estava descendo o córrego na direção do rio Gotham e das torres acesas da cidade.
Batcaverna / Mansão Wayne / Bristol / 20h59 / Hoje – ...acabou com qualquer esperança de limitar o vírus Richter aos que haviam sido infectados. Enquanto eu via seu sangue correr pelo riacho, me dei conta de que os efeitos do vírus podiam se espalhar pelo contato com o sangue infectado ou outros agentes similares. Também sabia que havia mais três portadores ainda à solta na cidade... O telefone da mansão estava tocando. Bruce estava sentado ao seu terminal na batcaverna escutando a continuação da fita. Demorara algum tempo para encontrar um velho aparelho de rolo, mas agora estava tocando a fita na caverna. Tirara a bat-roupa muito danificada; sua energia havia esgotado totalmente,
e o sistema exomuscular estava completamente comprometido. Escutava a voz de um pai que, agora se dava conta, nunca havia realmente conhecido. O telefone da mansão continuava a tocar. – ...Mais uma vez Jarvis insistiu em cuidar do problema, e desde então fico pensando em se haveria algum outro motivo por trás de seus esforços. Ele certamente é o único homem que tem mais influência sobre mim do que gosto de reconhecer. Suponho que parte de meus motivos para fazer esta gravação seja que meus filhos não sejam ameaçados após meu falecimento, que a culpa e a responsabilidade por tudo o que aconteceu repouse sobre meus ombros, e não sobre os deles... Bruce lentamente tomou consciência do som, pensando vagamente em por que Alfred não atendia ao telefone. Então lembrou. Parou o gravador e pegou o telefone. – Propriedade Wayne – disse secamente. – Sim, eu... Ahn... Desculpe por telefonar, mas estava pensando se poderia me ajudar. Estou tentando entrar em contato com uma pessoa. – Enfermeira Doppel? – disse Bruce, mais como uma declaração que como uma pergunta. – Sim! Sou... É o Sr. Grayson? – Sim, todos os outros estão... fora – respondeu Bruce. Alfred fora embora e ele sentia muito a perda dele. Virando na cadeira, olhou para a imagem em vídeo da inconsciente Amanda, deitada no sofá na reprodução do estúdio ali perto. – Aparentemente também sou o cozinheiro chefe e o lavador de pratos aqui... Para não falar de babá. – Ah, Sr. Grayson, fico muito aliviada de encontrá-lo. Fiz exatamente o que pediu, mas não tive mais notícias de Amanda desde que entreguei aquele livro. Ela não telefonou desde então, e... – Pode relaxar, enfermeira Doppel – disse Bruce, esfregando os olhos com a mão. – Ela está comigo. Está inconsciente no momento. – Não precisa se preocupar muito com isso – ela respondeu. – Pode ser apenas efeito de ela não estar tomando os medicamentos na hora certa. – A senhora sabe melhor do que eu. – A voz de Bruce soava cansada a seus próprios ouvidos. – Fora isso, não acho que esteja ferida. – Ah, graças a Deus! – respondeu Doppel. – Pode trazê-la para casa? Eu não tenho carro, e sem a medicação... Bruce ficou paralisado na cadeira, olhando com furiosa perturbação para a passarela metálica que levava ao elevador da caverna. Seus olhos estavam fixos em algo que ele tinha certeza de que não estava lá quando partira mais cedo para a Mansão Kane. Ali, apoiada nas grades, reluzente e bem lubrificada, estava a escopeta do seu avô. – Eu a levarei – disse Bruce. – Estarei aí em cerca de vinte minutos. Os olhos fixos na arma. Foi a última coisa que se lembrou de ter visto antes de acordar.
SD 936 : WAYNE DE GOTHAN
CAPÍTULO VINTE E DOIS
IDENTIDADE SECRETA
Mansão Kane / Bristol / 23h57 / 26 de outubro de 1958 – Tommy! – sussurrou a mulher no vestido de melindrosa vermelho, tremendo ao se sentar no chão do salão de baile. – Por favor! O que vamos fazer? O homem de máscara e capa segurou os ombros dela. Sua voz estava mais grave que o normal – em suas lembranças, a mudança se justificaria pela emoção do momento. – Martha, vou cuidar de você... Vou cuidar de todos nós. O homem de capa se levantou e se afastou da melindrosa vestida de vermelho. A máfia à porta virou os canos das armas na sua direção. – Sou Thomas Wayne – disse o homem de capa bruscamente. – O que você quer? Thomas subiu cambaleando a rampa de empregados atrás da Mansão Kane, a maleta de médico na mão. Ele se aferrara a ela como a um salva-vidas quando a vira no aparador da sala de jantar dos Wayne. Tinha a ideia horrível de que seria necessária. A cabeça ainda latejava do golpe que Discípulo desferira. Seu quarto de vestir voltara a ele como se de um lugar distante, e demorara alguns minutos antes de se dar conta da coisa medonha que havia acontecido. Vestiu rapidamente jeans e camisa com colarinho, calçando os sapatos sem se preocupar com meias. Thomas podia ver as portas fechadas do salão de baile. Havia figuras do outro lado do vidro, mas o conjunto não estava tocando, e ele não conseguia ouvir nenhum outro som. Ficou momentaneamente confuso, pensando se deveria tentar entrar no salão diretamente pelo pátio ou procurar outro caminho. Seu olho captou movimento através do vidro à esquerda. Thomas viu através de outras portas duplas dois homens grandes colocando um terceiro no sofá da biblioteca. Ele o reconheceu imediatamente de fotos nos jornais. Era Julius Moxon. Thomas foi para o pátio, olhando através dos vidros das portas. Os dois homens grandes haviam saído. Julius ficara sozinho no sofá. Mesmo à distância estava óbvio que sua respiração era difícil e que um ferimento no ombro ainda sangrava muito. Os homens de Moxon já estão aqui. Denholm deve estar em algum lugar próximo. Lewis também. Se conseguir costurar o Moxon mais velho antes que algo aconteça, então talvez Lewis possa me ajudar a tirar esses caras daqui antes que Denholm instaure o caos. Thomas tentou a maçaneta da porta. Abriu facilmente e ele entrou em silêncio na biblioteca, abrindo sua maleta de médico. Tinha de dar um jeito naquilo.
– Psiu! Wayne! – disse Lewis, tentando chamar a atenção do homem de capa. – Pare! Você não sabe o que está fazendo! O homem se virou para encarar Lewis. Os cabelos escovinha de Lewis brilhavam de suor quando se levantou, tirando o chapéu de cowboy e enxugando a cabeça com o lenço ao redor do pescoço. – Está tudo bem, pessoal – disse em voz alta com um sorriso forçado. – É só uma brincadeira de Halloween. Ha ha! Esses rapazes realmente nos enganaram. Saídos de um filme de Cagney, não é? Alguns surtos de riso nervoso pairaram no salão de baile, mas ninguém mais se mexeu. – Relaxe, pessoal... A brincadeira está quase no fim – disse Lewis conforme ia na direção da figura de capa. Ele se inclinou para perto e falou sotto voce apenas para os ouvidos do mascarado. – Me acompanhe, Thomas, e ninguém vai perceber. – Você acha que isso é um jogo, Moxon! – gritou o homem de capa, erguendo as mãos de repente e agarrando Lewis pela garganta. – Os Moxon estão sugando a vida de Gotham há tempo demais, agredindo e abrindo caminho à força pela vida decente e rindo da sociedade da qual se alimentam. Sua família é um câncer nesta cidade; um câncer que pretendo remover com minhas próprias mãos se necessário! – Thomas – guinchou Moxon sob o aperto do homem. – Não precisa ser assim. – Saulie! – disse um dos mafiosos pálidos com uma Thompson na mão. – O que fazemos? – Nós os explodimos? – rosnou outro. – E transformar o garoto do chefe em hambúrguer? – cortou Salvatore. – Estão malucos? Lewis ergueu os braços, tentando arrancar a mão de seu pescoço, mas o aperto era forte como uma prensa. Arrastava-o para trás, os calcanhares guinchando no piso encerado. – Thomas, pare – suplicou Lewis, os olhos se enchendo de lágrimas. – Você vai estragar tudo! – Está pegando isso, Ryder? – falou Virginia com excitação mal contida no ouvido do cinegrafista. – Cale a boca, Vi! – sussurrou o cowboy. – Estou ocupado. A Bell and Howell 70D girava. Harold contou os segundos de cabeça. Acabara de colocar um filme e tinha quase trinta metros disponíveis. A 24 quadros por segundo isso dava uns três minutos, mas a corda nunca durava mais do que uma tomada de trinta segundos antes de precisar ser apertada novamente. Ele sabia com instinto perfeito que teria de parar e dar corda na câmera em alguns segundos. Aquele Wayne elitista segurava o filho mimado de Julius Moxon pelo pescoço e estava arrastando o sujeito por todo o salão de baile na direção dos capangas armados à entrada. Vinte e quatro... vinte e cinco... vinte e seis... Maldição! Harold soltou o disparador, abrindo a borboleta da corda e girando a câmera com toda força. Girou a plataforma na frente da câmera para que a grande angular estivesse sobre a abertura, e ergueu a câmera.
– Abaixem as armas ou quebro o pescoço dele – gritou o homem encapado enquanto arrastava Lewis Moxon pelo piso. – Claro, Doc – disse Salvatore, o observando com olhos de aço. – Vocês ouviram o homem, rapazes... Relaxem um pouco. O homem de capa empurrou Lewis sobre o grupo de capangas conforme passava entre Salvatore e Big Eddie. Big Eddie tinha muita iniciativa e pouco cérebro. Havia sido atormentado a noite inteira e queria dar o troco. Tirou sua Browning 9 mm do bolso do casaco achando ser rápido o bastante para pegar um médico bicha. Estava errado. A câmera de Harold não pegou. O tiro foi disparado no momento em que levava a câmera ao olho. Harold praguejou enquanto apertava o dedo no disparador e a Bell and Howell recomeçava a girar. – Meu Deus! – exclamou Ryder. – Aquele é Thomas Wayne! Lá estava o socialite fantasiado de morcego colocando Edward “Big Eddie” Cronkle de joelhos. O antebraço do homem estava curvado em um ângulo impossível, o rádio e a ulna estalando quando Wayne segurou o braço com as duas mãos e o partiu sobre o joelho. A semiautomática caiu das mãos do grande capanga, retinindo sobre o piso. Harold viu através da lente da câmera Salvatore agarrar a fantasia de morcego por trás e tentar prender seus braços, mas a figura mascarada e encapada era um demônio à solta. Travou os dois pés no chão e chutou com tanta força que Salvatore se curvou para trás. Ambos caíram no chão. Os assassinos remanescentes da gangue Moxon se lançaram sobre o médico maníaco, tentando arrancá-lo de Salvatore. Um foi jogado por cima do bando, a cabeça caída para trás enquanto tombava no chão como um boneco quebrado. De repente parecia que o dervixe fantasiado estava se levantando, cercado pelos gangsteres, os punhos atingindo o círculo em um tumulto frenético. Os mafiosos em pânico caíam na confusão. O justiceiro mascarado bloqueou um golpe conforme se agachava de outro. Enfiou sua bota no queixo de um homem, que uivou de dor pouco antes de o morcego fantasiado baixar o punho como um martelo sobre o maxilar do homem, o deixando esparramado em silêncio. A câmera continuou a girar... O morcego humano pegou Lewis Moxon enquanto tentava abrir as portas. Ele o virou ao golpeá-lo. A cabeça de Lewis bateu na porta atrás, e ele despencou no chão. Vinte e seis... vinte e sete... vinte e oito. Clique. Ryder soltou o disparador. Viu o homem que sabia ser Thomas Wayne abrir as portas do salão de baile, a brisa do saguão balançando sua capa enquanto passava. Harold xingou novamente, porque ainda estava dando corda na câmera. Mas conseguiu colocar a lente de close no lugar a tempo de pegar a reação da Srta. Martha
Kane em seu vestido vermelho de melindrosa, quando se ergueu em meio a seus convidados chocados e viu o herói encapado partir. Era adoração e assombro. Ele soltou o disparador. A câmara parou com um clique repentino. – Grande novidade! – suspirou. Thomas Wayne ergueu os olhos de seu trabalho. Julius Moxon estava apagado no sofá – felizmente –, mas Thomas cuidara dos ferimentos mais graves e conseguira estabilizá-lo. – Ele é meu, Thomas – disse a voz conhecida atrás dele. Thomas se virou, erguendo os olhos de onde estava ajoelhado na biblioteca. – Você poderia simplesmente ter pedido a fantasia emprestada – disse Thomas, descontraído. – Fica péssima em você. – Saia do caminho, Thomas – disse Discípulo. – Você não é o problema que precisa ser resolvido. – E como exatamente você vai resolver este... problema, Denholm? – perguntou Thomas, se levantando e encarando o homem com sua fantasia. O ferimento de antes estava sangrando novamente, e ele mancava ligeiramente de um segundo ferimento novo. Seu sangue pingava no tapete. – Você não resolve nem conserta o câncer – zombou Discípulo. – Você o destrói. – Você o mata – corrigiu Thomas. – Isso mesmo – disse Denholm, sorrindo sob a máscara antiquada. – E quanto ao Dr. Richter? – perguntou Thomas. – Foi por isso que ele morreu? – Ele era um nazista, Thomas! – rosnou Discípulo. – Trabalhou na divisão médica da SS. Fez as coisas mais horríveis que se pode imaginar a outros seres humanos, tudo sob a proteção da ciência desacreditada e de uma sociedade mais sombria do que o próprio inferno. E então, quando a justiça estava prestes a se lançar sobre ele, fez um acordo com nosso governo, nossos serviços de informações militares, para ser levado para os bons e velhos Estados Unidos em um acordo secreto chamado “Paperclip”. Toda a tortura, a dor hedionda, os assassinatos prolongados que ele supervisionou deveriam ser perdoados e esquecidos porque ele poderia ter levado algum conhecimento para uma cova merecida? Nós o observamos, Destino, Chanteuse, Ceifador e eu, ouvimos suas desculpas e suas mentiras, mas nós o conhecíamos pelo que era no coração, Thomas... Sabíamos quem havia sido e que nunca iria mudar. – Ele estava tentando ajudá-los – disse Thomas em voz alta. – Estava tentando ser publicado – retrucou Discípulo, cuspindo as palavras. – Estava tentando apagar seu passado enterrando os cadáveres fedorentos e podres e quem ele realmente era sob um belo piso de linóleo banhado em Spic and Span e encerado com Aerowax! – Ele tinha uma família – gritou Thomas de volta. – Uma esposa e filhas que se importavam com ele. – E quanto aos homens que ele torturou até a morte em suas experiências? – devolveu Discípulo. – Também não tinham esposas e filhinhos? E não me diga que ele estava apenas obedecendo a ordens ou que simplesmente não sabia que o que fazia estava destruindo a
civilização porque.... porque... Discípulo ergueu os olhos, brilhantes e reluzentes atrás da máscara, êxtase refletindo-se em seu sorriso repentino. – Agora vejo claramente – murmurou Discípulo. – Você está bastante certo, Thomas. – Não são apenas os Julius Moxons, mas aqueles que dão poder a eles... Também eles são culpados. Moxon tem de morrer, claro, mas agora vejo que isso não é suficiente. Todos têm de morrer... Até o último deles... Antes que a cidade fique limpa. Porque aposto que, só nesta festa, metade das pessoas lucra com os negócios de Julius Moxon. Elas também têm de morrer, a classe alta corrupta. Então a cidade ficará limpa, então... – E quanto a Martha? – perguntou Thomas em voz baixa. – Seria melhor para ela ser curada como eu mesmo fui curado. – E quanto a mim, Denholm? – perguntou Thomas, se levantando e recuando lentamente na direção das portas francesas abertas. – Você? Você foi aquele que abriu meus olhos, Thomas – disse Discípulo. – Sou seu discípulo. – Mas eu sou o pior de todos – provocou Thomas. Ele chegara à porta, a brisa fria da noite secando o suor que se acumulara em suas costas. – Eu paguei as contas de Richter. Dei a ele o dinheiro que lhe permitiu fazer as experiências. E acabei de operar Julius Moxon aqui, conscientemente agi como cúmplice de um criminoso conhecido. E agora vou consertar você... Eliminar seu objetivo e seus dons especiais e tornar você comum novamente. E quando fizer isso, terei derrotado você, Denholm Sinclair... E o Discípulo não existirá mais. Denholm uivou de fúria, se lançando na direção dele, mas Thomas estava preparado e pulou para o terraço. Thomas começou a correr. Podia ouvir Discípulo investindo sobre ele enquanto cruzava o gramado e saltava para a ravina que ficava entre as duas propriedades. Sabia que seu velho amigo fora bastante ferido nas batalhas armadas do começo da noite, mas isso não parecia o estar desacelerando tanto quanto Thomas esperara. O que eu estava esperando? Que poderia afastá-lo de Martha e dos outros? Que poderia conseguir o perdão que Richter nunca terá? Ele havia partido na direção da casa, mas agora sabia que nunca conseguiria chegar tão longe. Denholm o alcançaria subindo a colina, e esse seria seu fim. Só havia um outro lugar aonde ele podia ir e onde poderia encontrar uma arma contra o monstro que ajudara a criar. Esperava que ainda estivesse lá. Esperava que ainda funcionasse.
IDENTIDADE SECRETA
Mansão Kane / Bristol / 23h57 / 26 de outubro de 1958 – Tommy! – sussurrou a mulher no vestido de melindrosa vermelho, tremendo ao se sentar no chão do salão de baile. – Por favor! O que vamos fazer? O homem de máscara e capa segurou os ombros dela. Sua voz estava mais grave que o normal – em suas lembranças, a mudança se justificaria pela emoção do momento. – Martha, vou cuidar de você... Vou cuidar de todos nós. O homem de capa se levantou e se afastou da melindrosa vestida de vermelho. A máfia à porta virou os canos das armas na sua direção. – Sou Thomas Wayne – disse o homem de capa bruscamente. – O que você quer? Thomas subiu cambaleando a rampa de empregados atrás da Mansão Kane, a maleta de médico na mão. Ele se aferrara a ela como a um salva-vidas quando a vira no aparador da sala de jantar dos Wayne. Tinha a ideia horrível de que seria necessária. A cabeça ainda latejava do golpe que Discípulo desferira. Seu quarto de vestir voltara a ele como se de um lugar distante, e demorara alguns minutos antes de se dar conta da coisa medonha que havia acontecido. Vestiu rapidamente jeans e camisa com colarinho, calçando os sapatos sem se preocupar com meias. Thomas podia ver as portas fechadas do salão de baile. Havia figuras do outro lado do vidro, mas o conjunto não estava tocando, e ele não conseguia ouvir nenhum outro som. Ficou momentaneamente confuso, pensando se deveria tentar entrar no salão diretamente pelo pátio ou procurar outro caminho. Seu olho captou movimento através do vidro à esquerda. Thomas viu através de outras portas duplas dois homens grandes colocando um terceiro no sofá da biblioteca. Ele o reconheceu imediatamente de fotos nos jornais. Era Julius Moxon. Thomas foi para o pátio, olhando através dos vidros das portas. Os dois homens grandes haviam saído. Julius ficara sozinho no sofá. Mesmo à distância estava óbvio que sua respiração era difícil e que um ferimento no ombro ainda sangrava muito. Os homens de Moxon já estão aqui. Denholm deve estar em algum lugar próximo. Lewis também. Se conseguir costurar o Moxon mais velho antes que algo aconteça, então talvez Lewis possa me ajudar a tirar esses caras daqui antes que Denholm instaure o caos. Thomas tentou a maçaneta da porta. Abriu facilmente e ele entrou em silêncio na biblioteca, abrindo sua maleta de médico. Tinha de dar um jeito naquilo.
– Psiu! Wayne! – disse Lewis, tentando chamar a atenção do homem de capa. – Pare! Você não sabe o que está fazendo! O homem se virou para encarar Lewis. Os cabelos escovinha de Lewis brilhavam de suor quando se levantou, tirando o chapéu de cowboy e enxugando a cabeça com o lenço ao redor do pescoço. – Está tudo bem, pessoal – disse em voz alta com um sorriso forçado. – É só uma brincadeira de Halloween. Ha ha! Esses rapazes realmente nos enganaram. Saídos de um filme de Cagney, não é? Alguns surtos de riso nervoso pairaram no salão de baile, mas ninguém mais se mexeu. – Relaxe, pessoal... A brincadeira está quase no fim – disse Lewis conforme ia na direção da figura de capa. Ele se inclinou para perto e falou sotto voce apenas para os ouvidos do mascarado. – Me acompanhe, Thomas, e ninguém vai perceber. – Você acha que isso é um jogo, Moxon! – gritou o homem de capa, erguendo as mãos de repente e agarrando Lewis pela garganta. – Os Moxon estão sugando a vida de Gotham há tempo demais, agredindo e abrindo caminho à força pela vida decente e rindo da sociedade da qual se alimentam. Sua família é um câncer nesta cidade; um câncer que pretendo remover com minhas próprias mãos se necessário! – Thomas – guinchou Moxon sob o aperto do homem. – Não precisa ser assim. – Saulie! – disse um dos mafiosos pálidos com uma Thompson na mão. – O que fazemos? – Nós os explodimos? – rosnou outro. – E transformar o garoto do chefe em hambúrguer? – cortou Salvatore. – Estão malucos? Lewis ergueu os braços, tentando arrancar a mão de seu pescoço, mas o aperto era forte como uma prensa. Arrastava-o para trás, os calcanhares guinchando no piso encerado. – Thomas, pare – suplicou Lewis, os olhos se enchendo de lágrimas. – Você vai estragar tudo! – Está pegando isso, Ryder? – falou Virginia com excitação mal contida no ouvido do cinegrafista. – Cale a boca, Vi! – sussurrou o cowboy. – Estou ocupado. A Bell and Howell 70D girava. Harold contou os segundos de cabeça. Acabara de colocar um filme e tinha quase trinta metros disponíveis. A 24 quadros por segundo isso dava uns três minutos, mas a corda nunca durava mais do que uma tomada de trinta segundos antes de precisar ser apertada novamente. Ele sabia com instinto perfeito que teria de parar e dar corda na câmera em alguns segundos. Aquele Wayne elitista segurava o filho mimado de Julius Moxon pelo pescoço e estava arrastando o sujeito por todo o salão de baile na direção dos capangas armados à entrada. Vinte e quatro... vinte e cinco... vinte e seis... Maldição! Harold soltou o disparador, abrindo a borboleta da corda e girando a câmera com toda força. Girou a plataforma na frente da câmera para que a grande angular estivesse sobre a abertura, e ergueu a câmera.
– Abaixem as armas ou quebro o pescoço dele – gritou o homem encapado enquanto arrastava Lewis Moxon pelo piso. – Claro, Doc – disse Salvatore, o observando com olhos de aço. – Vocês ouviram o homem, rapazes... Relaxem um pouco. O homem de capa empurrou Lewis sobre o grupo de capangas conforme passava entre Salvatore e Big Eddie. Big Eddie tinha muita iniciativa e pouco cérebro. Havia sido atormentado a noite inteira e queria dar o troco. Tirou sua Browning 9 mm do bolso do casaco achando ser rápido o bastante para pegar um médico bicha. Estava errado. A câmera de Harold não pegou. O tiro foi disparado no momento em que levava a câmera ao olho. Harold praguejou enquanto apertava o dedo no disparador e a Bell and Howell recomeçava a girar. – Meu Deus! – exclamou Ryder. – Aquele é Thomas Wayne! Lá estava o socialite fantasiado de morcego colocando Edward “Big Eddie” Cronkle de joelhos. O antebraço do homem estava curvado em um ângulo impossível, o rádio e a ulna estalando quando Wayne segurou o braço com as duas mãos e o partiu sobre o joelho. A semiautomática caiu das mãos do grande capanga, retinindo sobre o piso. Harold viu através da lente da câmera Salvatore agarrar a fantasia de morcego por trás e tentar prender seus braços, mas a figura mascarada e encapada era um demônio à solta. Travou os dois pés no chão e chutou com tanta força que Salvatore se curvou para trás. Ambos caíram no chão. Os assassinos remanescentes da gangue Moxon se lançaram sobre o médico maníaco, tentando arrancá-lo de Salvatore. Um foi jogado por cima do bando, a cabeça caída para trás enquanto tombava no chão como um boneco quebrado. De repente parecia que o dervixe fantasiado estava se levantando, cercado pelos gangsteres, os punhos atingindo o círculo em um tumulto frenético. Os mafiosos em pânico caíam na confusão. O justiceiro mascarado bloqueou um golpe conforme se agachava de outro. Enfiou sua bota no queixo de um homem, que uivou de dor pouco antes de o morcego fantasiado baixar o punho como um martelo sobre o maxilar do homem, o deixando esparramado em silêncio. A câmera continuou a girar... O morcego humano pegou Lewis Moxon enquanto tentava abrir as portas. Ele o virou ao golpeá-lo. A cabeça de Lewis bateu na porta atrás, e ele despencou no chão. Vinte e seis... vinte e sete... vinte e oito. Clique. Ryder soltou o disparador. Viu o homem que sabia ser Thomas Wayne abrir as portas do salão de baile, a brisa do saguão balançando sua capa enquanto passava. Harold xingou novamente, porque ainda estava dando corda na câmera. Mas conseguiu colocar a lente de close no lugar a tempo de pegar a reação da Srta. Martha
Kane em seu vestido vermelho de melindrosa, quando se ergueu em meio a seus convidados chocados e viu o herói encapado partir. Era adoração e assombro. Ele soltou o disparador. A câmara parou com um clique repentino. – Grande novidade! – suspirou. Thomas Wayne ergueu os olhos de seu trabalho. Julius Moxon estava apagado no sofá – felizmente –, mas Thomas cuidara dos ferimentos mais graves e conseguira estabilizá-lo. – Ele é meu, Thomas – disse a voz conhecida atrás dele. Thomas se virou, erguendo os olhos de onde estava ajoelhado na biblioteca. – Você poderia simplesmente ter pedido a fantasia emprestada – disse Thomas, descontraído. – Fica péssima em você. – Saia do caminho, Thomas – disse Discípulo. – Você não é o problema que precisa ser resolvido. – E como exatamente você vai resolver este... problema, Denholm? – perguntou Thomas, se levantando e encarando o homem com sua fantasia. O ferimento de antes estava sangrando novamente, e ele mancava ligeiramente de um segundo ferimento novo. Seu sangue pingava no tapete. – Você não resolve nem conserta o câncer – zombou Discípulo. – Você o destrói. – Você o mata – corrigiu Thomas. – Isso mesmo – disse Denholm, sorrindo sob a máscara antiquada. – E quanto ao Dr. Richter? – perguntou Thomas. – Foi por isso que ele morreu? – Ele era um nazista, Thomas! – rosnou Discípulo. – Trabalhou na divisão médica da SS. Fez as coisas mais horríveis que se pode imaginar a outros seres humanos, tudo sob a proteção da ciência desacreditada e de uma sociedade mais sombria do que o próprio inferno. E então, quando a justiça estava prestes a se lançar sobre ele, fez um acordo com nosso governo, nossos serviços de informações militares, para ser levado para os bons e velhos Estados Unidos em um acordo secreto chamado “Paperclip”. Toda a tortura, a dor hedionda, os assassinatos prolongados que ele supervisionou deveriam ser perdoados e esquecidos porque ele poderia ter levado algum conhecimento para uma cova merecida? Nós o observamos, Destino, Chanteuse, Ceifador e eu, ouvimos suas desculpas e suas mentiras, mas nós o conhecíamos pelo que era no coração, Thomas... Sabíamos quem havia sido e que nunca iria mudar. – Ele estava tentando ajudá-los – disse Thomas em voz alta. – Estava tentando ser publicado – retrucou Discípulo, cuspindo as palavras. – Estava tentando apagar seu passado enterrando os cadáveres fedorentos e podres e quem ele realmente era sob um belo piso de linóleo banhado em Spic and Span e encerado com Aerowax! – Ele tinha uma família – gritou Thomas de volta. – Uma esposa e filhas que se importavam com ele. – E quanto aos homens que ele torturou até a morte em suas experiências? – devolveu Discípulo. – Também não tinham esposas e filhinhos? E não me diga que ele estava apenas obedecendo a ordens ou que simplesmente não sabia que o que fazia estava destruindo a
civilização porque.... porque... Discípulo ergueu os olhos, brilhantes e reluzentes atrás da máscara, êxtase refletindo-se em seu sorriso repentino. – Agora vejo claramente – murmurou Discípulo. – Você está bastante certo, Thomas. – Não são apenas os Julius Moxons, mas aqueles que dão poder a eles... Também eles são culpados. Moxon tem de morrer, claro, mas agora vejo que isso não é suficiente. Todos têm de morrer... Até o último deles... Antes que a cidade fique limpa. Porque aposto que, só nesta festa, metade das pessoas lucra com os negócios de Julius Moxon. Elas também têm de morrer, a classe alta corrupta. Então a cidade ficará limpa, então... – E quanto a Martha? – perguntou Thomas em voz baixa. – Seria melhor para ela ser curada como eu mesmo fui curado. – E quanto a mim, Denholm? – perguntou Thomas, se levantando e recuando lentamente na direção das portas francesas abertas. – Você? Você foi aquele que abriu meus olhos, Thomas – disse Discípulo. – Sou seu discípulo. – Mas eu sou o pior de todos – provocou Thomas. Ele chegara à porta, a brisa fria da noite secando o suor que se acumulara em suas costas. – Eu paguei as contas de Richter. Dei a ele o dinheiro que lhe permitiu fazer as experiências. E acabei de operar Julius Moxon aqui, conscientemente agi como cúmplice de um criminoso conhecido. E agora vou consertar você... Eliminar seu objetivo e seus dons especiais e tornar você comum novamente. E quando fizer isso, terei derrotado você, Denholm Sinclair... E o Discípulo não existirá mais. Denholm uivou de fúria, se lançando na direção dele, mas Thomas estava preparado e pulou para o terraço. Thomas começou a correr. Podia ouvir Discípulo investindo sobre ele enquanto cruzava o gramado e saltava para a ravina que ficava entre as duas propriedades. Sabia que seu velho amigo fora bastante ferido nas batalhas armadas do começo da noite, mas isso não parecia o estar desacelerando tanto quanto Thomas esperara. O que eu estava esperando? Que poderia afastá-lo de Martha e dos outros? Que poderia conseguir o perdão que Richter nunca terá? Ele havia partido na direção da casa, mas agora sabia que nunca conseguiria chegar tão longe. Denholm o alcançaria subindo a colina, e esse seria seu fim. Só havia um outro lugar aonde ele podia ir e onde poderia encontrar uma arma contra o monstro que ajudara a criar. Esperava que ainda estivesse lá. Esperava que ainda funcionasse.
SD 935 : WAYNE DE GOTHAN
CAPÍTULO VINTE E UM
DISFARCES
Mansão Kane / 23h42 / Hoje Batman passou como uma sombra sob a entrada coberta que dominava a porta principal da Mansão Kane e subiu silenciosamente os largos degraus desertos. As portas principais, havia muito bloqueadas, estavam agora escancaradas, convidando-o a entrar no saguão escuro. Deslizou para as sombras envolventes, fechando os olhos para compreender os arredores. O velho saguão ganhou relevo tridimensional em sua mente, um lugar ao mesmo tempo familiar e estranho. Eu brinquei aqui quando garoto. Minha mãe ficava na base da escadaria e me chamava do patamar acima. Eu sempre tentava deslizar pelo corrimão largo, e minha mãe sempre me alertava que era perigoso demais. Era uma brincadeira que sempre fazíamos... Aqui nestes degraus... Batman franziu o cenho nas sombras, escuras demais para que fosse visto. Isso foi antes de vovó Kane morrer e mãe vender a propriedade para a Kane Corp em 65. Todo o patrimônio foi colocado sob custódia depois do assassinato de minha mãe. A empresa quebrou pouco depois e fechou as portas, e o patrimônio está em litígio desde então. O Banco de Gotham adquiriu o título da propriedade há vinte anos e trancou as portas de um bem que não podia manter e pelo qual nunca se interessou. Um som fraco de música chegou aos seus ouvidos dos fundos do saguão. Ele passou para a visão noturna e, ao olhar naquela direção, um retângulo brilhante de luz surgiu desenhando o perfil das portas duplas. Batman foi até as portas, abriu os olhos e as escancarou.
Mansão Kane / Bristol / 23h44 / 26 de outubro de 1958 – Senhoras e senhores! – anunciou o porteiro ao salão, batendo com seu cajado decorado. Bertie fora vestido como um lacaio elisabetano e estava muito contente de manter a aparência para seu papel. O conjunto parou de tocar na extremidade oposta do salão de baile. Esquisitos em roupas brilhantes pararam de girar no salão para olhar, enquanto aqueles tomando os limites da pista se viraram, curiosos. Vários dos convidados no pátio além das portas francesas entraram novamente para espiar. Harold Ryder apontou para a entrada sua câmera Bell and Howell 70D de 16 mm, usada para fazer cinejornais, e apertou o botão. Estava vestido como cowboy para a ocasião,
escolhendo como fantasia o que considerava ser a saída menos ridícula. A câmera junto ao rosto exigia que o chapéu de cowboy fosse empurrado para a parte de trás da cabeça. A festa estava um tédio: ele preferia trabalhar com crimes, mas os crimes estavam em baixa. Ouvira falar de alguma coisa acontecendo no Amusement Mile mais cedo, mas àquela altura já estava preso ali cobrindo o bando do baile. Ainda assim, apenas alguns poucos convidados mereciam esse tipo de introdução, e sua entrada justificava alguns metros de filme para os noticiários de mais tarde. Ademais, ele só tinha mais alguns metros no rolo, e isso lhe daria a desculpa para terminar o filme antes de colocar outro. – Quem é desta vez? – perguntou Virginia Vale, repórter do Gotham Gazette. Ela estava vestida de pastorinha, com direito a gorro, mas a ilusão era prejudicada pelo cigarro balançando no canto do lábio inferior enquanto falava. – Não sei – respondeu Harold, verificando o foco enquanto a câmera girava. – Número 501 dos 500, imagino. Bertie se empertigou em sua fantasia, oferecendo a todos os olhos no salão lotado a oportunidade de dedicar a devida atenção. – Dr. Thomas Wayne! – anunciou. A figura fantasiada cruzou o umbral sob os aplausos do salão repleto. A câmera continuou girando. – Parece que o Dr. Wayne tem se exercitado – fungou Virginia. – Mas olhe só aquela fantasia – respirou Harold. Ele não trouxera o equipamento de som complicado e pesado, então podia dizer o que quisesse, desde que de uma forma que não fizesse a câmera tremer. – Quem ele deveria ser? – O comunicado à imprensa dos Kane diz que ele viria como Douglas Fairbanks – disse Virginia baixando os olhos para a folha dobrada. – Fairbanks? Então por que está com malha e shorts? – Se ele é Douglas Fairbanks, eu sou Bettie Page – bufou Virginia. – Não me dê esperanças – censurou Harold. Ele soltou o gatilho, baixando a câmera. Sem pensar, puxou a lingueta de dar corda, segurando-a firme com a mão direita enquanto torcia a câmera com a esquerda. Era um velho hábito de seus dias como cinegrafista de guerra no Pacífico Sul, garantindo que a câmera ganhasse corda rápido e estivesse sempre pronta. – Mas vou lhe dizer uma coisa... Ele parece mais um morcego do que um herói naquela roupa. – Bem, parece estar funcionando com alguém – disse Virginia, apontando. Martha Kane, com seu vestido de melindrosa e usando uma máscara dominó branca com lantejoulas acima de seu sorriso espetacular, cruzou o salão e tomou seu novo convidado pelo braço.
Mansão Kane / Bristol / 23h47 / Hoje
O ar tinha um cheiro forte de poeira queimada e lavanda. Os olhos de Batman se apertaram sob o capuz, os lábios se esticando sobre os dentes enquanto recuava do ataque a seus sentidos e passava pelas portas duplas. O salão de baile era enorme, e era difícil ver sua extensão. Tudo estava em movimento, o
aposento tomado por uma dança circular confusa. Compridas faixas de seda vermelha cascateavam da cúpula rachada acima, suspensas de um conjunto de varas metálicas horizontais, motores e mais varas – um enorme móbile mecânico que quase enchia o salão. Entre as faixas de seda, vários casais de manequins em tamanho natural estavam a centímetros do chão. As figuras, suspensas do móbile acima, balançavam e rodopiavam em suas poses, cada uma vestida para um baile de máscaras. O ruído de um velho fonógrafo ecoou da extremidade do salão, uma versão arranhada de uma canção de big band. Batman entrou cautelosamente no salão. Vamos ver se conseguimos penetrar nesta festa. As paredes pareciam se contorcer sob as sombras cambiantes das cascatas de seda e das figuras suspensas. Candelabros espalhafatosos brilhavam demais acima sob suas proteções de tecido barato. Uma fumaça fina se erguia de onde velhas lâmpadas incandescentes tocavam teias de aranha. Cada um dos enormes objetos se torcia e balançava quando a seda esbarrava neles, seus cristais pendurados soando com dolorosa clareza em seus ouvidos. A tinta rachada e o revestimento dourado dos ornamentos de parede estavam foscos sob duas décadas de descuido. As portas francesas cobertas de sabão escondiam qualquer vista do terraço. Um casal de marionetes surgiu. Um vestia o que parecia uma imitação ruim de uma de suas primeiras bat-roupas. Uma figura feminina pendia flácida em pose de dança correspondente, suspensa das varas em constante movimentação acima. Essa com um vestido de melindrosa, a cabeça jogada para trás e a boca aberta. Amanda Richter! Amanda imediatamente saiu de vista, mergulhando nas revoluções das figuras cambiantes suspensas do teto e desaparecendo entre as faixas de seda vermelha, que também giravam em arco pelo salão. Ele levou a mão ao cinto de utilidades sem olhar. O batbumerangue com lâmina de teflon se abriu em sua mão. Ele conferiu o nível de energia da bat-roupa e descobriu que estava em 38%. Não houvera tempo para recarregá-la desde sua última utilização mais cedo naquele dia. Teria de bastar. As figuras se sacudiram ligeiramente. A gravação fez um som de arranhão, como se a agulha tivesse sido arrastada sobre os sulcos. Em seguida outro som tomou o salão, cavernoso, ecoante e levemente distorcido. Causou na coluna de Batman um arrepio como nunca experimentara antes. – Meu nome é Dr. Thomas Wayne... Este é o meu depoimento... Ou, talvez, minha confissão relativa aos acontecimentos de 26 de outubro de 1958 no Baile de Caridade Kane. Fiquei em silêncio tempo demais. Batman se colocou entre os manequins fantasiados que giravam entre o tecido de seda, seu indicador colocado sobre a curva posterior do bat-bumerangue, preparado para cortar os cabos caso as marionetes em tamanho natural ficassem no seu caminho. Ele podia ver o vestido vermelho de melindrosa de Amanda à frente em meio ao labirinto de formas mutáveis.
– Eu não poderia descansar até fazer um registro para meus filhos, ambos queridos para mim. Não podia suportar a ideia de que eles pudessem ser confrontados por meu passado sem ouvir de mim as razões para o que aconteceu, como tudo deu errado a despeito de minhas mais nobres intenções... Um dos manequins à sua direita se moveu. Batman se agachou e pressionou o braço do soldado confederado, empurrando a Uzi em sua mão para cima enquanto disparava um fluxo ruidoso de seu cano. O manequim de Maria Antonieta diante dele pulou com o impacto das balas, a cabeça explodindo em cacos de gesso que retiniram no deformado piso de madeira de lei. Uma série de estalos soou ao seu redor. Vários dos manequins se agacharam no chão. Real e irreal. Vivos e mortos. Algumas dessas fantasias cobrem gesso, e algumas cobrem assassinos que respiram. Qual é qual? Mosqueteiros, ninjas, cavaleiros, piratas e xoguns se ergueram contra ele, mas todos tinham algo em comum: portavam idênticos facões kukri tanto. – Então eu fiz este registro por eles, e pela paz de minha própria alma. – A música mudou, mas ainda é a mesma canção – rosnou Batman. – É hora de dançar.
Mansão Kane / Bristol / 23h53 / 26 de outubro de 1958 Lew Moxon estava em seu traje cinza de cowboy com máscara dominó, tomando um martíni ao lado da pista de dança e vendo seu amigo no ridículo traje de morcego dançar com a anfitriã melindrosa. Parecia que finalmente Thomas Wayne estava fazendo progresso com Martha. Lew ouvira histórias no Koffee Klatch sobre algo grande acontecendo naquela noite. Seu pai e seu antigo modo de comandar a cidade estavam sendo extintos. Todos estavam com medo do bicho-papão Apocalipse e ficando desesperados. Que se aflijam. Lew sorriu, erguendo a taça ao morcego quando passou por ele na pista de dança. Eu tenho minha passagem para fora... Obrigado, Dr. Wayne! Naquele instante, as portas duplas na extremidade do salão de baile se abriram com força. Salvatore, seguido por outros seis da gangue Moxon, abriram caminho para o salão. Big Eddie sacou sua Thompson, disparando uma rajada no teto engessado sob os gritos de várias mulheres e não poucos homens. A banda perdeu o ritmo da canção e parou desajeitada. – Todo mundo! Deitado no chão! – gritou Salvatore acima dos gritos contínuos. – Fiquem quietos e ninguém se machuca! Lew se sentou lentamente com os convivas apavorados. – Só estamos procurando um médico que faça um atendimento – gritou Salvatore. – Onde está o Dr. Wayne?
Mansão Kane / Bristol / 23h53 / Hoje – ...tinha toda intenção de ir ao evento até Denholm Sinclair, então chamando a si mesmo de Discípulo, aparecer em meus aposentos aqui na Mansão Wayne. Ele me atacou,
me deixando inconsciente, e depois, usando minha fantasia, conseguiu entrar na Mansão Kane passando-se por mim... Batman segurou o soldado confederado, continuando a usar seu impulso contra o agressor. Enrolou o braço no soldado, que continuou a sacudir o braço livre, tentando colocar a Uzi em ângulo de tiro em seu alvo. Mas o homem-morcego se lançou contra ele, balançando os dois nos cabos suspensos. Isso os arremessou em um arco que se elevava no ar enquanto ambos tiravam do caminho uma dupla de piratas agachados. Batman girou com o confederado, jogando as costas dele contra a parede espelhada do salão de baile. Ouviu o soldado perder o fôlego com um prazeroso “uf” enquanto o homem ficava flácido abaixo dele. O Cruzado Encapuzado arrancou a Uzi de sua mão, nesse processo quebrando o dedo que estava no gatilho. A automática desmontou nas mãos treinadas de Batman enquanto ele se jogava no chão e rolava até uma posição de luta. – Eu estava inconsciente. Assim que recobrei os sentidos, soube que tinha de ir à Mansão Kane e deter Denholm. Martha estava lá. Eu não tinha ideia do que ele poderia fazer... Dois piratas tentaram flanquear Batman ao mesmo tempo, enquanto o cavaleiro tentava distraí-lo pela frente. Batman prendeu o braço projetado do primeiro pirata com o seu esquerdo, usando a massa corporal para acrescentar peso ao chute no pirata que investia pela direita. Sua bota foi fundo na barriga do segundo pirata, e ele dobrou a perna novamente no joelho, erguendo o segundo chute até a lateral da cabeça. A armadura reagiu imediatamente, lançando-se contra a cabeça do segundo pirata com tal força que seus pés levantaram do chão e o corpo girou no ar. Mas durante o segundo chute o cavaleiro dera um passo rápido para frente, cortando a perna esticada da bat-roupa. Batman sentiu a bat-roupa enrijecer de repente enquanto a blindagem reativa era acionada, então levou a perna para trás do corpo e virou, ainda prendendo o braço do primeiro pirata. Sentiu a articulação do ombro do pirata se soltar com um estalo satisfatório enquanto girava, empurrando o pirata para trás e o arremessando sobre o próprio corpo na direção do cavaleiro. Amanda e seu vestido vermelho de melindrosa passaram rapidamente por ele em meio às compridas faixas de seda vermelha e aos manequins que ainda circulavam. Xoguns, ninjas e mosqueteiros moviam-se ao redor dele, as lâminas erguidas enquanto esperavam uma oportunidade. Batman teve consciência de um alarme soando no capuz. Baixou os olhos para a perna direita. Um comprido talho atravessava a coxa de sua bat-roupa. Um líquido negro escorria do corte. Que tipo de lâmina eles estão usando? O Cavaleiro das Trevas escolheu o alvo – um oficial de cavalaria da União, bem à esquerda. Fez um movimento na direção do homem, que brandiu a lâmina cedo demais. Batman se esquivou, depois chutou o homem no peito, arremessando-o de costas e espalhando os manequins suspensos. Batman o seguiu para o aglomerado de figuras fantasiadas e saltou sobre ele quase imediatamente. Lançou o joelho esquerdo sobre o pulso do homem, esmagando-o sobre o piso e fazendo com que soltasse a lâmina. A mão direita se ergueu para tirar o oficial da União da batalha definitivamente.
Seu punho não desceu. Uma loura acrobática vestindo uma malha verde-escura amarrara sua mão em uma das compridas faixas de seda que desciam do teto. Uma segunda mulher – morena – desceu girando do teto de um segundo pano com graça mortal. Query e Echo? As capangas de Charada também estão nisto? É como se todos os criminosos da cidade estivessem sendo manipulados! O mosqueteiro e os ninjas se aproximaram, com o pulso de Batman irremediavelmente preso na seda. Ele agarrou o tecido com as duas mãos, tentando escalar, mas Echo girava ao redor dele, enrolando a segunda faixa de seda em seus pés balançantes. Batman chutou com força, fazendo Echo rodar para trás, mas ela deteve o rodopio e voltou para ele. Query usou uma terceira faixa de seda, passando-a pelo tronco de Batman, sob os braços e prendendo a capa. Os espadachins começaram a cortar a bat-roupa acima deles. Batman ergueu as pernas, envolvendo a parte superior da seda com os pés. Isso o tirou do caminho das lâminas no momento em que Query balançava novamente, arrastando a comprida seda atrás. Batman forçou o tecido com os pés usando sua massa como apoio. Atingiu Query com um golpe sólido das costas da mão, mandando-a em um rodopio rápido, mas Echo enrolara sua mão esquerda por trás. Ele tentou se livrar do tecido – a trama era flexível o suficiente para não romper nem esgarçar. Armas, facas, explosivos... Eu sobrevivi a tudo isso só para ser imobilizado por uma teia de seda? Batman uivou, furioso com o que o prendia, mas não tinha nada sólido que pudesse empurrar ou que servisse de apoio. Podia sentir a vida escoando da bat-roupa. Abaixo dele, Amanda Richter deslizou, suspensa nos braços de um manequim, enquanto a voz morta de seu pai continuava a soar pelo salão. – Eu fui à Mansão Kane, mas era tarde demais...
DISFARCES
Mansão Kane / 23h42 / Hoje Batman passou como uma sombra sob a entrada coberta que dominava a porta principal da Mansão Kane e subiu silenciosamente os largos degraus desertos. As portas principais, havia muito bloqueadas, estavam agora escancaradas, convidando-o a entrar no saguão escuro. Deslizou para as sombras envolventes, fechando os olhos para compreender os arredores. O velho saguão ganhou relevo tridimensional em sua mente, um lugar ao mesmo tempo familiar e estranho. Eu brinquei aqui quando garoto. Minha mãe ficava na base da escadaria e me chamava do patamar acima. Eu sempre tentava deslizar pelo corrimão largo, e minha mãe sempre me alertava que era perigoso demais. Era uma brincadeira que sempre fazíamos... Aqui nestes degraus... Batman franziu o cenho nas sombras, escuras demais para que fosse visto. Isso foi antes de vovó Kane morrer e mãe vender a propriedade para a Kane Corp em 65. Todo o patrimônio foi colocado sob custódia depois do assassinato de minha mãe. A empresa quebrou pouco depois e fechou as portas, e o patrimônio está em litígio desde então. O Banco de Gotham adquiriu o título da propriedade há vinte anos e trancou as portas de um bem que não podia manter e pelo qual nunca se interessou. Um som fraco de música chegou aos seus ouvidos dos fundos do saguão. Ele passou para a visão noturna e, ao olhar naquela direção, um retângulo brilhante de luz surgiu desenhando o perfil das portas duplas. Batman foi até as portas, abriu os olhos e as escancarou.
Mansão Kane / Bristol / 23h44 / 26 de outubro de 1958 – Senhoras e senhores! – anunciou o porteiro ao salão, batendo com seu cajado decorado. Bertie fora vestido como um lacaio elisabetano e estava muito contente de manter a aparência para seu papel. O conjunto parou de tocar na extremidade oposta do salão de baile. Esquisitos em roupas brilhantes pararam de girar no salão para olhar, enquanto aqueles tomando os limites da pista se viraram, curiosos. Vários dos convidados no pátio além das portas francesas entraram novamente para espiar. Harold Ryder apontou para a entrada sua câmera Bell and Howell 70D de 16 mm, usada para fazer cinejornais, e apertou o botão. Estava vestido como cowboy para a ocasião,
escolhendo como fantasia o que considerava ser a saída menos ridícula. A câmera junto ao rosto exigia que o chapéu de cowboy fosse empurrado para a parte de trás da cabeça. A festa estava um tédio: ele preferia trabalhar com crimes, mas os crimes estavam em baixa. Ouvira falar de alguma coisa acontecendo no Amusement Mile mais cedo, mas àquela altura já estava preso ali cobrindo o bando do baile. Ainda assim, apenas alguns poucos convidados mereciam esse tipo de introdução, e sua entrada justificava alguns metros de filme para os noticiários de mais tarde. Ademais, ele só tinha mais alguns metros no rolo, e isso lhe daria a desculpa para terminar o filme antes de colocar outro. – Quem é desta vez? – perguntou Virginia Vale, repórter do Gotham Gazette. Ela estava vestida de pastorinha, com direito a gorro, mas a ilusão era prejudicada pelo cigarro balançando no canto do lábio inferior enquanto falava. – Não sei – respondeu Harold, verificando o foco enquanto a câmera girava. – Número 501 dos 500, imagino. Bertie se empertigou em sua fantasia, oferecendo a todos os olhos no salão lotado a oportunidade de dedicar a devida atenção. – Dr. Thomas Wayne! – anunciou. A figura fantasiada cruzou o umbral sob os aplausos do salão repleto. A câmera continuou girando. – Parece que o Dr. Wayne tem se exercitado – fungou Virginia. – Mas olhe só aquela fantasia – respirou Harold. Ele não trouxera o equipamento de som complicado e pesado, então podia dizer o que quisesse, desde que de uma forma que não fizesse a câmera tremer. – Quem ele deveria ser? – O comunicado à imprensa dos Kane diz que ele viria como Douglas Fairbanks – disse Virginia baixando os olhos para a folha dobrada. – Fairbanks? Então por que está com malha e shorts? – Se ele é Douglas Fairbanks, eu sou Bettie Page – bufou Virginia. – Não me dê esperanças – censurou Harold. Ele soltou o gatilho, baixando a câmera. Sem pensar, puxou a lingueta de dar corda, segurando-a firme com a mão direita enquanto torcia a câmera com a esquerda. Era um velho hábito de seus dias como cinegrafista de guerra no Pacífico Sul, garantindo que a câmera ganhasse corda rápido e estivesse sempre pronta. – Mas vou lhe dizer uma coisa... Ele parece mais um morcego do que um herói naquela roupa. – Bem, parece estar funcionando com alguém – disse Virginia, apontando. Martha Kane, com seu vestido de melindrosa e usando uma máscara dominó branca com lantejoulas acima de seu sorriso espetacular, cruzou o salão e tomou seu novo convidado pelo braço.
Mansão Kane / Bristol / 23h47 / Hoje
O ar tinha um cheiro forte de poeira queimada e lavanda. Os olhos de Batman se apertaram sob o capuz, os lábios se esticando sobre os dentes enquanto recuava do ataque a seus sentidos e passava pelas portas duplas. O salão de baile era enorme, e era difícil ver sua extensão. Tudo estava em movimento, o
aposento tomado por uma dança circular confusa. Compridas faixas de seda vermelha cascateavam da cúpula rachada acima, suspensas de um conjunto de varas metálicas horizontais, motores e mais varas – um enorme móbile mecânico que quase enchia o salão. Entre as faixas de seda, vários casais de manequins em tamanho natural estavam a centímetros do chão. As figuras, suspensas do móbile acima, balançavam e rodopiavam em suas poses, cada uma vestida para um baile de máscaras. O ruído de um velho fonógrafo ecoou da extremidade do salão, uma versão arranhada de uma canção de big band. Batman entrou cautelosamente no salão. Vamos ver se conseguimos penetrar nesta festa. As paredes pareciam se contorcer sob as sombras cambiantes das cascatas de seda e das figuras suspensas. Candelabros espalhafatosos brilhavam demais acima sob suas proteções de tecido barato. Uma fumaça fina se erguia de onde velhas lâmpadas incandescentes tocavam teias de aranha. Cada um dos enormes objetos se torcia e balançava quando a seda esbarrava neles, seus cristais pendurados soando com dolorosa clareza em seus ouvidos. A tinta rachada e o revestimento dourado dos ornamentos de parede estavam foscos sob duas décadas de descuido. As portas francesas cobertas de sabão escondiam qualquer vista do terraço. Um casal de marionetes surgiu. Um vestia o que parecia uma imitação ruim de uma de suas primeiras bat-roupas. Uma figura feminina pendia flácida em pose de dança correspondente, suspensa das varas em constante movimentação acima. Essa com um vestido de melindrosa, a cabeça jogada para trás e a boca aberta. Amanda Richter! Amanda imediatamente saiu de vista, mergulhando nas revoluções das figuras cambiantes suspensas do teto e desaparecendo entre as faixas de seda vermelha, que também giravam em arco pelo salão. Ele levou a mão ao cinto de utilidades sem olhar. O batbumerangue com lâmina de teflon se abriu em sua mão. Ele conferiu o nível de energia da bat-roupa e descobriu que estava em 38%. Não houvera tempo para recarregá-la desde sua última utilização mais cedo naquele dia. Teria de bastar. As figuras se sacudiram ligeiramente. A gravação fez um som de arranhão, como se a agulha tivesse sido arrastada sobre os sulcos. Em seguida outro som tomou o salão, cavernoso, ecoante e levemente distorcido. Causou na coluna de Batman um arrepio como nunca experimentara antes. – Meu nome é Dr. Thomas Wayne... Este é o meu depoimento... Ou, talvez, minha confissão relativa aos acontecimentos de 26 de outubro de 1958 no Baile de Caridade Kane. Fiquei em silêncio tempo demais. Batman se colocou entre os manequins fantasiados que giravam entre o tecido de seda, seu indicador colocado sobre a curva posterior do bat-bumerangue, preparado para cortar os cabos caso as marionetes em tamanho natural ficassem no seu caminho. Ele podia ver o vestido vermelho de melindrosa de Amanda à frente em meio ao labirinto de formas mutáveis.
– Eu não poderia descansar até fazer um registro para meus filhos, ambos queridos para mim. Não podia suportar a ideia de que eles pudessem ser confrontados por meu passado sem ouvir de mim as razões para o que aconteceu, como tudo deu errado a despeito de minhas mais nobres intenções... Um dos manequins à sua direita se moveu. Batman se agachou e pressionou o braço do soldado confederado, empurrando a Uzi em sua mão para cima enquanto disparava um fluxo ruidoso de seu cano. O manequim de Maria Antonieta diante dele pulou com o impacto das balas, a cabeça explodindo em cacos de gesso que retiniram no deformado piso de madeira de lei. Uma série de estalos soou ao seu redor. Vários dos manequins se agacharam no chão. Real e irreal. Vivos e mortos. Algumas dessas fantasias cobrem gesso, e algumas cobrem assassinos que respiram. Qual é qual? Mosqueteiros, ninjas, cavaleiros, piratas e xoguns se ergueram contra ele, mas todos tinham algo em comum: portavam idênticos facões kukri tanto. – Então eu fiz este registro por eles, e pela paz de minha própria alma. – A música mudou, mas ainda é a mesma canção – rosnou Batman. – É hora de dançar.
Mansão Kane / Bristol / 23h53 / 26 de outubro de 1958 Lew Moxon estava em seu traje cinza de cowboy com máscara dominó, tomando um martíni ao lado da pista de dança e vendo seu amigo no ridículo traje de morcego dançar com a anfitriã melindrosa. Parecia que finalmente Thomas Wayne estava fazendo progresso com Martha. Lew ouvira histórias no Koffee Klatch sobre algo grande acontecendo naquela noite. Seu pai e seu antigo modo de comandar a cidade estavam sendo extintos. Todos estavam com medo do bicho-papão Apocalipse e ficando desesperados. Que se aflijam. Lew sorriu, erguendo a taça ao morcego quando passou por ele na pista de dança. Eu tenho minha passagem para fora... Obrigado, Dr. Wayne! Naquele instante, as portas duplas na extremidade do salão de baile se abriram com força. Salvatore, seguido por outros seis da gangue Moxon, abriram caminho para o salão. Big Eddie sacou sua Thompson, disparando uma rajada no teto engessado sob os gritos de várias mulheres e não poucos homens. A banda perdeu o ritmo da canção e parou desajeitada. – Todo mundo! Deitado no chão! – gritou Salvatore acima dos gritos contínuos. – Fiquem quietos e ninguém se machuca! Lew se sentou lentamente com os convivas apavorados. – Só estamos procurando um médico que faça um atendimento – gritou Salvatore. – Onde está o Dr. Wayne?
Mansão Kane / Bristol / 23h53 / Hoje – ...tinha toda intenção de ir ao evento até Denholm Sinclair, então chamando a si mesmo de Discípulo, aparecer em meus aposentos aqui na Mansão Wayne. Ele me atacou,
me deixando inconsciente, e depois, usando minha fantasia, conseguiu entrar na Mansão Kane passando-se por mim... Batman segurou o soldado confederado, continuando a usar seu impulso contra o agressor. Enrolou o braço no soldado, que continuou a sacudir o braço livre, tentando colocar a Uzi em ângulo de tiro em seu alvo. Mas o homem-morcego se lançou contra ele, balançando os dois nos cabos suspensos. Isso os arremessou em um arco que se elevava no ar enquanto ambos tiravam do caminho uma dupla de piratas agachados. Batman girou com o confederado, jogando as costas dele contra a parede espelhada do salão de baile. Ouviu o soldado perder o fôlego com um prazeroso “uf” enquanto o homem ficava flácido abaixo dele. O Cruzado Encapuzado arrancou a Uzi de sua mão, nesse processo quebrando o dedo que estava no gatilho. A automática desmontou nas mãos treinadas de Batman enquanto ele se jogava no chão e rolava até uma posição de luta. – Eu estava inconsciente. Assim que recobrei os sentidos, soube que tinha de ir à Mansão Kane e deter Denholm. Martha estava lá. Eu não tinha ideia do que ele poderia fazer... Dois piratas tentaram flanquear Batman ao mesmo tempo, enquanto o cavaleiro tentava distraí-lo pela frente. Batman prendeu o braço projetado do primeiro pirata com o seu esquerdo, usando a massa corporal para acrescentar peso ao chute no pirata que investia pela direita. Sua bota foi fundo na barriga do segundo pirata, e ele dobrou a perna novamente no joelho, erguendo o segundo chute até a lateral da cabeça. A armadura reagiu imediatamente, lançando-se contra a cabeça do segundo pirata com tal força que seus pés levantaram do chão e o corpo girou no ar. Mas durante o segundo chute o cavaleiro dera um passo rápido para frente, cortando a perna esticada da bat-roupa. Batman sentiu a bat-roupa enrijecer de repente enquanto a blindagem reativa era acionada, então levou a perna para trás do corpo e virou, ainda prendendo o braço do primeiro pirata. Sentiu a articulação do ombro do pirata se soltar com um estalo satisfatório enquanto girava, empurrando o pirata para trás e o arremessando sobre o próprio corpo na direção do cavaleiro. Amanda e seu vestido vermelho de melindrosa passaram rapidamente por ele em meio às compridas faixas de seda vermelha e aos manequins que ainda circulavam. Xoguns, ninjas e mosqueteiros moviam-se ao redor dele, as lâminas erguidas enquanto esperavam uma oportunidade. Batman teve consciência de um alarme soando no capuz. Baixou os olhos para a perna direita. Um comprido talho atravessava a coxa de sua bat-roupa. Um líquido negro escorria do corte. Que tipo de lâmina eles estão usando? O Cavaleiro das Trevas escolheu o alvo – um oficial de cavalaria da União, bem à esquerda. Fez um movimento na direção do homem, que brandiu a lâmina cedo demais. Batman se esquivou, depois chutou o homem no peito, arremessando-o de costas e espalhando os manequins suspensos. Batman o seguiu para o aglomerado de figuras fantasiadas e saltou sobre ele quase imediatamente. Lançou o joelho esquerdo sobre o pulso do homem, esmagando-o sobre o piso e fazendo com que soltasse a lâmina. A mão direita se ergueu para tirar o oficial da União da batalha definitivamente.
Seu punho não desceu. Uma loura acrobática vestindo uma malha verde-escura amarrara sua mão em uma das compridas faixas de seda que desciam do teto. Uma segunda mulher – morena – desceu girando do teto de um segundo pano com graça mortal. Query e Echo? As capangas de Charada também estão nisto? É como se todos os criminosos da cidade estivessem sendo manipulados! O mosqueteiro e os ninjas se aproximaram, com o pulso de Batman irremediavelmente preso na seda. Ele agarrou o tecido com as duas mãos, tentando escalar, mas Echo girava ao redor dele, enrolando a segunda faixa de seda em seus pés balançantes. Batman chutou com força, fazendo Echo rodar para trás, mas ela deteve o rodopio e voltou para ele. Query usou uma terceira faixa de seda, passando-a pelo tronco de Batman, sob os braços e prendendo a capa. Os espadachins começaram a cortar a bat-roupa acima deles. Batman ergueu as pernas, envolvendo a parte superior da seda com os pés. Isso o tirou do caminho das lâminas no momento em que Query balançava novamente, arrastando a comprida seda atrás. Batman forçou o tecido com os pés usando sua massa como apoio. Atingiu Query com um golpe sólido das costas da mão, mandando-a em um rodopio rápido, mas Echo enrolara sua mão esquerda por trás. Ele tentou se livrar do tecido – a trama era flexível o suficiente para não romper nem esgarçar. Armas, facas, explosivos... Eu sobrevivi a tudo isso só para ser imobilizado por uma teia de seda? Batman uivou, furioso com o que o prendia, mas não tinha nada sólido que pudesse empurrar ou que servisse de apoio. Podia sentir a vida escoando da bat-roupa. Abaixo dele, Amanda Richter deslizou, suspensa nos braços de um manequim, enquanto a voz morta de seu pai continuava a soar pelo salão. – Eu fui à Mansão Kane, mas era tarde demais...
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