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domingo, 28 de maio de 2017

SD 936 : WAYNE DE GOTHAN

CAPÍTULO VINTE E DOIS

IDENTIDADE SECRETA

Mansão Kane / Bristol / 23h57 / 26 de outubro de 1958 – Tommy! – sussurrou a mulher no vestido de melindrosa vermelho, tremendo ao se sentar no chão do salão de baile. – Por favor! O que vamos fazer? O homem de máscara e capa segurou os ombros dela. Sua voz estava mais grave que o normal – em suas lembranças, a mudança se justificaria pela emoção do momento. – Martha, vou cuidar de você... Vou cuidar de todos nós. O homem de capa se levantou e se afastou da melindrosa vestida de vermelho. A máfia à porta virou os canos das armas na sua direção. – Sou Thomas Wayne – disse o homem de capa bruscamente. – O que você quer? Thomas subiu cambaleando a rampa de empregados atrás da Mansão Kane, a maleta de médico na mão. Ele se aferrara a ela como a um salva-vidas quando a vira no aparador da sala de jantar dos Wayne. Tinha a ideia horrível de que seria necessária. A cabeça ainda latejava do golpe que Discípulo desferira. Seu quarto de vestir voltara a ele como se de um lugar distante, e demorara alguns minutos antes de se dar conta da coisa medonha que havia acontecido. Vestiu rapidamente jeans e camisa com colarinho, calçando os sapatos sem se preocupar com meias. Thomas podia ver as portas fechadas do salão de baile. Havia figuras do outro lado do vidro, mas o conjunto não estava tocando, e ele não conseguia ouvir nenhum outro som. Ficou momentaneamente confuso, pensando se deveria tentar entrar no salão diretamente pelo pátio ou procurar outro caminho. Seu olho captou movimento através do vidro à esquerda. Thomas viu através de outras portas duplas dois homens grandes colocando um terceiro no sofá da biblioteca. Ele o reconheceu imediatamente de fotos nos jornais. Era Julius Moxon. Thomas foi para o pátio, olhando através dos vidros das portas. Os dois homens grandes haviam saído. Julius ficara sozinho no sofá. Mesmo à distância estava óbvio que sua respiração era difícil e que um ferimento no ombro ainda sangrava muito. Os homens de Moxon já estão aqui. Denholm deve estar em algum lugar próximo. Lewis também. Se conseguir costurar o Moxon mais velho antes que algo aconteça, então talvez Lewis possa me ajudar a tirar esses caras daqui antes que Denholm instaure o caos. Thomas tentou a maçaneta da porta. Abriu facilmente e ele entrou em silêncio na biblioteca, abrindo sua maleta de médico. Tinha de dar um jeito naquilo.
– Psiu! Wayne! – disse Lewis, tentando chamar a atenção do homem de capa. – Pare! Você não sabe o que está fazendo! O homem se virou para encarar Lewis. Os cabelos escovinha de Lewis brilhavam de suor quando se levantou, tirando o chapéu de cowboy e enxugando a cabeça com o lenço ao redor do pescoço. – Está tudo bem, pessoal – disse em voz alta com um sorriso forçado. – É só uma brincadeira de Halloween. Ha ha! Esses rapazes realmente nos enganaram. Saídos de um filme de Cagney, não é? Alguns surtos de riso nervoso pairaram no salão de baile, mas ninguém mais se mexeu. – Relaxe, pessoal... A brincadeira está quase no fim – disse Lewis conforme ia na direção da figura de capa. Ele se inclinou para perto e falou sotto voce apenas para os ouvidos do mascarado. – Me acompanhe, Thomas, e ninguém vai perceber. – Você acha que isso é um jogo, Moxon! – gritou o homem de capa, erguendo as mãos de repente e agarrando Lewis pela garganta. – Os Moxon estão sugando a vida de Gotham há tempo demais, agredindo e abrindo caminho à força pela vida decente e rindo da sociedade da qual se alimentam. Sua família é um câncer nesta cidade; um câncer que pretendo remover com minhas próprias mãos se necessário! – Thomas – guinchou Moxon sob o aperto do homem. – Não precisa ser assim. – Saulie! – disse um dos mafiosos pálidos com uma Thompson na mão. – O que fazemos? – Nós os explodimos? – rosnou outro. – E transformar o garoto do chefe em hambúrguer? – cortou Salvatore. – Estão malucos? Lewis ergueu os braços, tentando arrancar a mão de seu pescoço, mas o aperto era forte como uma prensa. Arrastava-o para trás, os calcanhares guinchando no piso encerado. – Thomas, pare – suplicou Lewis, os olhos se enchendo de lágrimas. – Você vai estragar tudo! – Está pegando isso, Ryder? – falou Virginia com excitação mal contida no ouvido do cinegrafista. – Cale a boca, Vi! – sussurrou o cowboy. – Estou ocupado. A Bell and Howell 70D girava. Harold contou os segundos de cabeça. Acabara de colocar um filme e tinha quase trinta metros disponíveis. A 24 quadros por segundo isso dava uns três minutos, mas a corda nunca durava mais do que uma tomada de trinta segundos antes de precisar ser apertada novamente. Ele sabia com instinto perfeito que teria de parar e dar corda na câmera em alguns segundos. Aquele Wayne elitista segurava o filho mimado de Julius Moxon pelo pescoço e estava arrastando o sujeito por todo o salão de baile na direção dos capangas armados à entrada. Vinte e quatro... vinte e cinco... vinte e seis... Maldição! Harold soltou o disparador, abrindo a borboleta da corda e girando a câmera com toda força. Girou a plataforma na frente da câmera para que a grande angular estivesse sobre a abertura, e ergueu a câmera.
– Abaixem as armas ou quebro o pescoço dele – gritou o homem encapado enquanto arrastava Lewis Moxon pelo piso. – Claro, Doc – disse Salvatore, o observando com olhos de aço. – Vocês ouviram o homem, rapazes... Relaxem um pouco. O homem de capa empurrou Lewis sobre o grupo de capangas conforme passava entre Salvatore e Big Eddie. Big Eddie tinha muita iniciativa e pouco cérebro. Havia sido atormentado a noite inteira e queria dar o troco. Tirou sua Browning 9 mm do bolso do casaco achando ser rápido o bastante para pegar um médico bicha. Estava errado. A câmera de Harold não pegou. O tiro foi disparado no momento em que levava a câmera ao olho. Harold praguejou enquanto apertava o dedo no disparador e a Bell and Howell recomeçava a girar. – Meu Deus! – exclamou Ryder. – Aquele é Thomas Wayne! Lá estava o socialite fantasiado de morcego colocando Edward “Big Eddie” Cronkle de joelhos. O antebraço do homem estava curvado em um ângulo impossível, o rádio e a ulna estalando quando Wayne segurou o braço com as duas mãos e o partiu sobre o joelho. A semiautomática caiu das mãos do grande capanga, retinindo sobre o piso. Harold viu através da lente da câmera Salvatore agarrar a fantasia de morcego por trás e tentar prender seus braços, mas a figura mascarada e encapada era um demônio à solta. Travou os dois pés no chão e chutou com tanta força que Salvatore se curvou para trás. Ambos caíram no chão. Os assassinos remanescentes da gangue Moxon se lançaram sobre o médico maníaco, tentando arrancá-lo de Salvatore. Um foi jogado por cima do bando, a cabeça caída para trás enquanto tombava no chão como um boneco quebrado. De repente parecia que o dervixe fantasiado estava se levantando, cercado pelos gangsteres, os punhos atingindo o círculo em um tumulto frenético. Os mafiosos em pânico caíam na confusão. O justiceiro mascarado bloqueou um golpe conforme se agachava de outro. Enfiou sua bota no queixo de um homem, que uivou de dor pouco antes de o morcego fantasiado baixar o punho como um martelo sobre o maxilar do homem, o deixando esparramado em silêncio. A câmera continuou a girar... O morcego humano pegou Lewis Moxon enquanto tentava abrir as portas. Ele o virou ao golpeá-lo. A cabeça de Lewis bateu na porta atrás, e ele despencou no chão. Vinte e seis... vinte e sete... vinte e oito. Clique. Ryder soltou o disparador. Viu o homem que sabia ser Thomas Wayne abrir as portas do salão de baile, a brisa do saguão balançando sua capa enquanto passava. Harold xingou novamente, porque ainda estava dando corda na câmera. Mas conseguiu colocar a lente de close no lugar a tempo de pegar a reação da Srta. Martha
Kane em seu vestido vermelho de melindrosa, quando se ergueu em meio a seus convidados chocados e viu o herói encapado partir. Era adoração e assombro. Ele soltou o disparador. A câmara parou com um clique repentino. – Grande novidade! – suspirou. Thomas Wayne ergueu os olhos de seu trabalho. Julius Moxon estava apagado no sofá – felizmente –, mas Thomas cuidara dos ferimentos mais graves e conseguira estabilizá-lo. – Ele é meu, Thomas – disse a voz conhecida atrás dele. Thomas se virou, erguendo os olhos de onde estava ajoelhado na biblioteca. – Você poderia simplesmente ter pedido a fantasia emprestada – disse Thomas, descontraído. – Fica péssima em você. – Saia do caminho, Thomas – disse Discípulo. – Você não é o problema que precisa ser resolvido. – E como exatamente você vai resolver este... problema, Denholm? – perguntou Thomas, se levantando e encarando o homem com sua fantasia. O ferimento de antes estava sangrando novamente, e ele mancava ligeiramente de um segundo ferimento novo. Seu sangue pingava no tapete. – Você não resolve nem conserta o câncer – zombou Discípulo. – Você o destrói. – Você o mata – corrigiu Thomas. – Isso mesmo – disse Denholm, sorrindo sob a máscara antiquada. – E quanto ao Dr. Richter? – perguntou Thomas. – Foi por isso que ele morreu? – Ele era um nazista, Thomas! – rosnou Discípulo. – Trabalhou na divisão médica da SS. Fez as coisas mais horríveis que se pode imaginar a outros seres humanos, tudo sob a proteção da ciência desacreditada e de uma sociedade mais sombria do que o próprio inferno. E então, quando a justiça estava prestes a se lançar sobre ele, fez um acordo com nosso governo, nossos serviços de informações militares, para ser levado para os bons e velhos Estados Unidos em um acordo secreto chamado “Paperclip”. Toda a tortura, a dor hedionda, os assassinatos prolongados que ele supervisionou deveriam ser perdoados e esquecidos porque ele poderia ter levado algum conhecimento para uma cova merecida? Nós o observamos, Destino, Chanteuse, Ceifador e eu, ouvimos suas desculpas e suas mentiras, mas nós o conhecíamos pelo que era no coração, Thomas... Sabíamos quem havia sido e que nunca iria mudar. – Ele estava tentando ajudá-los – disse Thomas em voz alta. – Estava tentando ser publicado – retrucou Discípulo, cuspindo as palavras. – Estava tentando apagar seu passado enterrando os cadáveres fedorentos e podres e quem ele realmente era sob um belo piso de linóleo banhado em Spic and Span e encerado com Aerowax! – Ele tinha uma família – gritou Thomas de volta. – Uma esposa e filhas que se importavam com ele. – E quanto aos homens que ele torturou até a morte em suas experiências? – devolveu Discípulo. – Também não tinham esposas e filhinhos? E não me diga que ele estava apenas obedecendo a ordens ou que simplesmente não sabia que o que fazia estava destruindo a
civilização porque.... porque... Discípulo ergueu os olhos, brilhantes e reluzentes atrás da máscara, êxtase refletindo-se em seu sorriso repentino. – Agora vejo claramente – murmurou Discípulo. – Você está bastante certo, Thomas. – Não são apenas os Julius Moxons, mas aqueles que dão poder a eles... Também eles são culpados. Moxon tem de morrer, claro, mas agora vejo que isso não é suficiente. Todos têm de morrer... Até o último deles... Antes que a cidade fique limpa. Porque aposto que, só nesta festa, metade das pessoas lucra com os negócios de Julius Moxon. Elas também têm de morrer, a classe alta corrupta. Então a cidade ficará limpa, então... – E quanto a Martha? – perguntou Thomas em voz baixa. – Seria melhor para ela ser curada como eu mesmo fui curado. – E quanto a mim, Denholm? – perguntou Thomas, se levantando e recuando lentamente na direção das portas francesas abertas. – Você? Você foi aquele que abriu meus olhos, Thomas – disse Discípulo. – Sou seu discípulo. – Mas eu sou o pior de todos – provocou Thomas. Ele chegara à porta, a brisa fria da noite secando o suor que se acumulara em suas costas. – Eu paguei as contas de Richter. Dei a ele o dinheiro que lhe permitiu fazer as experiências. E acabei de operar Julius Moxon aqui, conscientemente agi como cúmplice de um criminoso conhecido. E agora vou consertar você... Eliminar seu objetivo e seus dons especiais e tornar você comum novamente. E quando fizer isso, terei derrotado você, Denholm Sinclair... E o Discípulo não existirá mais. Denholm uivou de fúria, se lançando na direção dele, mas Thomas estava preparado e pulou para o terraço. Thomas começou a correr. Podia ouvir Discípulo investindo sobre ele enquanto cruzava o gramado e saltava para a ravina que ficava entre as duas propriedades. Sabia que seu velho amigo fora bastante ferido nas batalhas armadas do começo da noite, mas isso não parecia o estar desacelerando tanto quanto Thomas esperara. O que eu estava esperando? Que poderia afastá-lo de Martha e dos outros? Que poderia conseguir o perdão que Richter nunca terá? Ele havia partido na direção da casa, mas agora sabia que nunca conseguiria chegar tão longe. Denholm o alcançaria subindo a colina, e esse seria seu fim. Só havia um outro lugar aonde ele podia ir e onde poderia encontrar uma arma contra o monstro que ajudara a criar. Esperava que ainda estivesse lá. Esperava que ainda funcionasse.

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