EPÍLOGO
OBITUÁRIO
Mansão Wayne / Bristol / 20h35 / Hoje Alfred Pennyworth estava de pé no centro do mausoléu dos Wayne e contemplou a coluna de luar que penetrava pelo domo acima. A estrutura lembrava uma versão menor do Panteão de Roma, com direito a seu próprio óculo em miniatura – uma abertura circular no ponto mais alto do domo que permitia a entrada de luz do sol ou da lua na câmara abaixo. No centro do piso, bem abaixo do óculo, havia uma fonte feita de modo a que qualquer água da chuva que passasse pela abertura fluísse para ela. Exigia limpeza e manutenção regulares, mas Alfred não se incomodava com sua eventual presença entre os mortos. Em muitos sentidos, ele preferia. Mas seu objetivo naquela noite não era faxina. Ele vestia seu melhor terno e garantira que os sapatos estivessem engraxados até que brilhassem como espelhos. Usava seu sobretudo de pelo de camelo – o clima de abril estava atipicamente frio, consequência de um inverno prolongado e difícil – e luvas de couro. A aba de seu chapéu-coco estava agora apertada na mão direita, enquanto a esquerda segurava um buquê de flores. Estava diante de uma das criptas, olhando para as gravações na pedra.
BRUCE PATRICK WAYNE 19 DE FEVEREIRO DE 1963 FILHO DE THOMAS E MARTHA WAYNE
– Vejo que ainda não conseguiram colocar a data de falecimento – disse a voz rouca atrás dele. – Um daqueles detalhes para os quais ainda não tive tempo, comissário – disse Alfred, mal virando a cabeça. – Não que alguém vá esquecer a data tão cedo – disse James Gordon, se aproximando de Alfred, as mãos fundas nos bolsos do sobretudo. – Quinze de agosto; há apenas seis meses. Foi um senhor serviço fúnebre. – Quer dizer um espetáculo, não é mesmo, comissário? – disse Alfred, os olhos ainda fixos na tumba. – Nunca vi tanta gente tão ansiosa para entrar na lista de convidados de um funeral. Seria de pensar que todos o queriam morto. – Eu não estava entre eles – retrucou Gordon, passando a mão sobre o bigode grosso. Alfred lançou um olhar confuso para o comissário. – Minhas desculpas, comissário. Achei tê-lo incluído na lista de convidados. – Sim, você incluiu – concordou Gordon, olhando para o chão. – E obrigado, Alfred, por
pensar em mim, mas... Bem, eu não queria dizer adeus daquele jeito. Ele era muitas coisas para muita gente, boas e ruins, mas para mim era apenas Bruce, um cara que eu conheci que tinha um sorriso rápido, era impecavelmente generoso e tentava lidar com uma riqueza e um poder que nunca pediu ou particularmente queria. Não queria dizer adeus daquele jeito... Não com um grande espetáculo e o luto transmitido pela internet. Por isso estou contente por você ter me chamado aqui. Isso me dá uma oportunidade de dizer adeus adequadamente sem ter de me preocupar em ficar entre algum político e uma câmera. – Entendo o que quer dizer – concordou Alfred. – Foi um circo. – Suponho que não se possa culpar a mariposa por ser atraída para a chama – disse Gordon, dando de ombros e suspirando ao contemplar a tumba. – A morte de Bruce foi notícia internacional por quase duas semanas antes que não tivessem mais nada a dizer sobre ele. A história tinha tudo: fama, infâmia, riqueza e poder, tudo lançado sobre o pobre filho de Gotham que morreu com um tiro exatamente no mesmo lugar e da mesma forma que seus pais morreram mais de quarenta anos antes. Qualquer um que era alguém queria ser visto como parte de uma história dessas. – Metade deles estava aqui para ser vista – disse Alfred, corrigindo o comissário. – A outra metade mais provavelmente queria enfiar um alfinete nele para ter certeza de que estava morto. – Então imagino que tenham ficado desapontados – retrucou Gordon com um risinho triste. – Com o caixão fechado e tudo mais. – O senhor leu o relatório da autópsia – fungou Alfred. – Vários tiros no rosto. Realmente horrível. Os agentes funerários simplesmente desistiram de tentar recriar qualquer semelhança razoável. – Sim, bem, por isso pedi para encontrar você – continuou Gordon. – Não me entenda mal... Aprecio a oportunidade de vir aqui, mas por que escolheu este lugar? – Porque gosto de pensar que de alguma forma ele está aqui. – respondeu Alfred, melancólico. – Gostaria de pensar que o que o senhor tem a dizer dará alguma paz à sua alma. Gordon olhou para a tumba, anuiu e prosseguiu. – Ainda restam algumas coisas para que possamos encerrar a investigação, mas no geral acho que temos um quadro claro do que aconteceu. A desconhecida que você encontrou na cena continua a ser apenas isso. Não conseguimos identificá-la nas investigações, e interrogá-la não ajudará muito. Ela troca de personalidade o tempo todo, e alega ser tudo desde a mãe de Bruce Wayne até uma psicóloga clínica feita prisioneira de um demônio em sua cabeça. Os analistas em Arkham acham que esta última é uma fixação com sua terapeuta. De qualquer forma, aparentemente ela morava com a tal Doppel em Pearl. Suas impressões estão por toda a arma, junto com algumas parciais da mulher Richter. A balística corresponde inteiramente. Achamos que elas podem ter disputado a arma. Havia muito material na casa de Richter sobre o Sr. Wayne, e achamos que a desconhecida poderia estar seguindo Bruce. – E quanto à outra mulher, a outra vítima? – perguntou Alfred, se corrigindo. – Ellen Doppel? – Gordon pegou seu bloco e empurrou os óculos para o alto do nariz, mas logo desistiu de tentar ler ao suave luar azul que iluminava a tumba. – Bem, a essência da
história é que ela estava morando na casa dos Richter porque havia sido deixada para ela pela família Richter. Os peritos vasculharam a residência, mas não encontraram nada a não ser um bizarro santuário na biblioteca, claramente montado por um perseguidor. O promotor acha que Doppel estava tentando tratar da desconhecida, a seguiu até o beco, e simplesmente estava no lugar errado na hora errada. Pelo que entendo, o Sr. Wayne tinha o hábito de visitar aquele beco de tempos em tempos. – Sim, comissário, uma tradição que pretendo manter em homenagem a ele – disse Alfred. – Então imagino que tenha acabado. – Sim, no que me diz respeito – respondeu Gordon, enfiando as mãos novamente nos bolsos do casaco. – Foi nobre da parte do homem lhe deixar tanto da propriedade no testamento. – Meu empregador era um homem muito amável e generoso – disse Alfred, concordando gentilmente. – O Sr. Fox e eu temos agora a maioria das ações da Wayne Enterprises. – Vai manter o nome? – Esse nome traz benefícios a Gotham há algum tempo – disse Alfred. – Acho que pode continuar a fazê-lo por um pouco mais; a SEC não está mais interessada em investigar a companhia; dificilmente poderiam fazer acusações de extorsão contra o jovem Wayne agora que ele partiu. – Um pequeno bem por um preço tão alto – disse Gordon. Foi na direção do túmulo, colocando a mão na superfície da pedra e a pousando sobre o nome gravado. – Lamento, Bruce – disse Gordon. Sua voz se tornou baixa e rouca, quase inaudível mesmo no silêncio da noite. – Gostaria de ter estado lá para ajudá-lo. Adeus, velho amigo. Gordon se virou, a cabeça baixa. – Obrigado por vir, comissário – disse Alfred. – Tome cuidado na volta para casa. – Certamente – disse Gordon, assentindo para Alfred enquanto saía lentamente da tumba. – Ligue se precisar de algo, Alfred. O novo dono da Mansão Wayne ficou escutando os passos do comissário de polícia. Quando o silêncio tomou conta da tumba novamente, ele respirou fundo e se virou, olhando através do óculo para o céu estrelado. – Ouviu isso? – disse às estrelas. – Acabou. – Ouvi – respondeu uma forma alada, silhuetada contra as estrelas. Ela desceu em um sussurro para dentro da câmara, se colocando junto ao velho empregado. – Você fez um trabalho impressionante, Alfred – disse a sombra. – Obrigado. – Não há necessidade de agradecer, jovem... A sombra ergueu uma das mãos em alerta. – Quero dizer que não há necessidade de me agradecer – emendou Alfred. – Meu pai não me ensinou apenas a limpar os salões e tirar a poeira dos móveis. Minha formação na Inglaterra não se limitou a Eton. Meu pai continuava a ter fortes laços com seus amigos do OSS, e eles também ajudaram a, digamos, ampliar minha educação e minhas habilidades vocacionais. – Você as demonstrou bem – disse a forma na escuridão. – Por que estava monitorando minha frequência naquela noite, Alfred?
– Digamos apenas que eu não desisto fácil – respondeu Alfred. – E quanto às suas próprias investigações? – Marion Richter estava certa – respondeu. – O vírus é uma grande causa contribuidora para o tipo radical de criminosos que com frequência temos de enfrentar aqui em Gotham, mas não a causa. Ele amplia reações e certas capacidades genéticas, mas não cria criminosos. – Quer dizer como o Coringa, senhor? – perguntou Alfred. – Interessante, não? – refletiu a sombra. – Marion tentou obrigar o Coringa a ajudá-la manipulando suas motivações. A única coisa que o Coringa não suporta é controle e ordem, exatamente as coisas que Marion estava tentando instilar nele. Então ele se rebelou contra a programação de Marion e tentou me salvar de ser arrastado ainda mais para a trama dela. – E eu estava querendo perguntar... – Não, Alfred – cortou a forma. – Não tenho a mutação viral. Ela não foi passada para mim. – Mas senhor, achei que... – Sou quem sou porque escolhi este caminho, Alfred – disse o homem. – E agora verdadeiramente escolhi. A forma passou das sombras para a luz da lua. Sua capa adejava atrás dele como se tivesse vontade própria. O capuz familiar cobria sua cabeça, se projetando em orelhas selvagens dos dois lados. O símbolo de um morcego estava preso na frente de sua bat-roupa exomuscular. Batman pegou uma rosa da mão de Alfred e a colocou diante de uma das criptas.
MARTHA KANE WAYNE 7 DE DEZEMBRO DE 1937 – 15 DE AGOSTO DE 1971 ESPOSA E MÃE
Depois pegou uma segunda rosa e se deslocou para o nicho seguinte. Ali Batman parou e pensou por um momento na inscrição.
THOMAS ALAN WAYNE 26 DE NOVEMBRO DE 1935 – 15 DE AGOSTO DE 1971 MÉDICO, FILANTROPO, MARIDO E PAI
– Acha que realmente conhecemos nossos pais, Alfred? – perguntou Batman. – Não, senhor – respondeu Alfred. – E talvez seja melhor que eles vivam como nos lembramos deles, e não como realmente eram. Finalmente, Batman parou no terceiro nicho.
BRUCE PATRICK WAYNE 19 DE FEVEREIRO DE 1963
FILHO DE THOMAS E MARTHA WAYNE
Ali ele colocou uma terceira rosa. – Um tanto prematuro, não, senhor? – fungou Alfred. – Talvez seja um tanto atrasado – respondeu Batman. – Fico pensando em se Bruce Wayne não morreu há anos e apenas não sabia. Nós escolhemos nosso destino ou nosso destino nos escolhe? Seja como for, agora a escolha foi feita.























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