CAPÍTULO TREZE
RÉDEAS CURTAS NA VIDA
Galeria subterrânea 57D / Gotham / 20h12 / Hoje
– Você está indo pelo caminho errado, Tommy! A voz estridente de Harley ecoou pelos tijolos sujos que formavam o arco do velho corredor da adega, com um labirinto de corredores se ramificando dos dois lados. O sistema de esgotos de Arkham fora recentemente canalizado para uma grande tubulação que percorria um dos lados da trincheira central do antigo saguão, enquanto dutos subterrâneos, bem como vários cabos instalados apressadamente, seguiam pelas paredes laterais. As pessoas raramente vinham aqui sozinhas; era fácil demais se perder nos corredores que bifurcavam. Contudo, era o caminho mais rápido desde a área subterrânea abandonada onde, em 1988, teve início o projeto de expansão do metrô de Gotham, e onde ele acabara de deixar o batmóvel recarregando nas linhas de energia principais. A área dava acesso rápido àquela adega esquecida e, através dela, às regiões mais habitadas de Arkham acima, onde Gordon dissera que estaria esperando por ambos. Quanto a Harley, tinha as mãos atadas às costas, e o aperto de Batman em seu braço era firme. O corredor estava um breu, com Batman usando a imagem subsônica de seu capuz para determinar a localização das paredes ao redor. Uma das vantagens de o batmóvel não ter janelas era que isso dificultava muito para que os passageiros soubessem onde estavam, e o uso do equipamento do capuz também ajudava a manter sua localização em segredo até que saíssem para a luz. Então, ou Harley estava insana ou algo dera errado. Ela é insana... Mas nunca subestime a insanidade. – Você vai se atrasar para a festa! – gritou Harley. – Todo mundo está esperando... Todo mundo... E você está estragando a surpresa. Harley tropeçou de leve, e Batman tentou compensar a mudança de peso, mas era tarde demais. Harley se jogou com força contra ele, desequilibrando-o levemente e escapando de seu aperto. Em um instante ela havia se lançado pelo arco e para a escuridão além dele. Batman rugiu de frustração. Deveria ter sido mais rápido, mas os anos o estavam desgastando. Ele se virou imediatamente, a bat-roupa respondendo, usando mais energia. Fechou os olhos e disparou atrás da mulher que gargalhava. O corredor virava e dobrava em vários ângulos, duas encruzilhadas e outros corredores transversais. Batman ligou o gravador de imagens no cinto de utilidades. O sistema de GPS não funcionaria tão abaixo da superfície – especialmente com a enorme estrutura de Arkham logo acima –, mas a imagem subsônica permitiria, pelo menos, que ele refizesse seus passos para fora do ventre aterrador da monstruosa arquitetura de Elizabeth Arkham. Havia no ar
um leve sinal de calor causado pela passagem dela, que Batman conseguia captar de tempos em tempos no ar úmido e frio ao redor. Ele estava se aproximando, e as provocações que ecoavam se tornavam mais claras a cada passo. – Você foi convidado! Você foi convidado! Batman parou um instante em um lance de escadas que levava para baixo, mas se deu conta de que terminava em um muro de pedra. Os corredores aqui tinham apenas noventa centímetros de largura, embora o teto ficasse a bons quatro metros e meio acima. Passou por painéis de vitrais Tiffany que nunca viram a luz e olhou para alcovas escuras. O corredor virava mais uma vez, inexplicavelmente, para uma varanda de madeira apodrecida totalmente cercada por paredes de alvenaria. Uma escada caracol de ferro fundido subia em espirais por um fosso negro no canto mais distante da varanda. Duas janelas com vidro bisotado estavam posicionadas na pedra dos dois lados de uma porta metálica, que permitia a saída do aposento à direita. A porta nos fundos da varanda ainda se movia, uma luz brilhante sobrecarregando a imagem térmica. Batman abriu os olhos, as íris contraindo enquanto ele passava pela porta. Apenas metade das velhas lâmpadas fluorescentes penduradas no teto ainda lançava sua melancolia esverdeada sobre o espaço. Os reatores de algumas das lâmpadas falhavam, fazendo com que piscassem em eventuais pulsos de luz. Havia uma enorme e metálica porta de segurança, grande o suficiente para permitir a passagem de caminhões, tomando completamente a extremidade oposta do aposento, com grandes manchas de ferrugem surgindo em sua superfície onde a velha tinta descascara. Na parede mais distante havia uma janela de vidro laminado, estilhaçado em uma teia cristalina em um ponto por forte impacto, uma mancha escura escorrendo do vidro atrás. Um umbral quebrado estava tombado na estrutura que levava à sala sombria além do vidro. O piso era uma bagunça de equipamento de laboratório antigo. Mesas metálicas viradas estavam caídas em meio a vidro temperado estilhaçado, pipetas quebradas e suportes para reações químicas. Várias centrífugas cinza-azuladas estavam esmagadas no chão entre várias incubadoras. Microscópios enormes se projetavam do entulho, e muitos equipamentos desafiavam explicação. Na parede oposta havia três geladeiras, suas portas abertas. Para o Batman parecia que uma bomba havia explodido no espaço apertado, mas a sala não apresentava marcas de explosão ou qualquer queimadura. – Ei, Tommy! Batman se virou imediatamente para a voz. Havia uma grande passagem em arco para uma sala circular à esquerda da porta e da janela quebradas. Cinco portas metálicas de celas estavam dispostas no círculo. A segunda, da esquerda para a direita, estava retorcida e quebrada. A porta do centro estava trancada, com as três outras abertas. Quinn olhou para Batman pela pequena janela da porta fechada ao centro. – Você sem dúvida sabe entreter uma garota, Tommy! Obrigada pela noite divertida... Pena que ela tenha de terminar. Batman foi em passos rápidos até a porta da cela, o vidro sendo esmagado sob suas botas. Estendeu a mão para a maçaneta, tentando torcê-la, mas ela não cedeu. Examinou a tranca com mais cuidado.
Harley Quinn se trancara na cela. Ela se afastou da porta, lançando as mãos para cima. Sua maquiagem branca parecia mórbida sob as luzes que rapidamente piscavam no teto da cela. – Seja bem-vindo em casa, Tommy! Passei metade da minha vida tentando colocá-la em uma cela... E agora preciso tirá-la de uma. A tranca era velha e ele concluiu que teria de encontrar uma forma de superá-la. Batman se afastou da porta, olhando ao redor da sala circular. Nunca use a força para quebrar um cadeado quando uma chave pode resolver. Onde alguém manteria uma chave em uma área de segurança? Batman se virou, recuando para o espaço do laboratório destruído. Atrás dele, Harley Quinn começou a cantar em sua voz aguda, com um forte sotaque do Brooklyn, a melodia de uma canção que ele recordava vagamente da Segunda Guerra Mundial.
Chute o morcego uma vez, depois chute o morcego duas vezes, depois chute o morcego novamente... Foi uma época medonha...
Batman pensou um momento. As chaves nunca estariam em local aberto. Estariam tão trancadas quanto os internos. A voz de Harley ecoou da cela atrás dele.
Passado é passado e morto morreu para não viver novamente... Foi uma época medonha!
Batman passou por cima de um suporte de tubos de ensaio, indo até a porta quebrada do escritório. Arrancou os restos da estrutura, tateando em busca do interruptor. As duplas luminárias de mesa se acenderam. Uma das lâmpadas exibiu um clarão brilhante e depois morreu com um som de estalo. A luz tremeluzindo através do vidro laminado rachado não recebia muita ajuda da iluminação da única luminária. Revelou uma grande escrivaninha, seu tampo de fórmica curvado nas beiradas e descolando da madeira abaixo. Atrás do móvel estava uma cadeira de espaldar alto, o couro rachado e partido em certos pontos, o estofado úmido saindo pelas aberturas. Perto da mesa, havia duas cadeiras de couro menores em condição similar. Batman contornou cuidadosamente a escrivaninha. Uma grossa camada de poeira cobria praticamente tudo na sala, incluindo os papéis que ainda se encontravam sob o tampo de mármore... Com exceção de um volume. Esse único livro estava no topo da escrivaninha, a capa totalmente livre de poeira e bem conservada. Era um velho livro de anotações, os escritos da capa, feitos à mão, claramente identificáveis como “Projeto Elísio – Dr. Ernst Richter”. Um único envelope amarelado saía de entre as páginas do livro.
Você nunca saberá os esquemas que eles tramaram ao redor de você... Para cobrar todas as dívidas de seu pai há muito atrasadas...
Batman esticou a mão, abrindo o livro na página marcada, mas foi imediatamente detido pelo envelope. Era mais do antigo papel timbrado de seu pai. As letras de máquina de escrever sobre ele diziam: “Do Dr. Thomas Wayne para seu filho.” Quando virou o envelope na mão, o polegar enluvado passou sobre ele, borrando as letras. Olhou para a página do livro e viu a leve impressão onde a tinta havia sido transferida do envelope para a página. A tinta da máquina de escrever ainda está fresca! À distância, além da porta quebrada do escritório, Harley Quinn cantava a plenos pulmões.
Chute o morcego uma vez, depois chute o morcego duas vezes, depois chute o morcego novamente... Vem aí um tempo medonho!
As palavras no alto da página chamaram a atenção de Batman. Harley Quinn desapareceu de seus pensamentos, assim como sua promessa de entregá-la ao comissário Gordon no saguão do Arkham acima deles. Batman começou a ler...
Diário de observação do Projeto Elísio 17 FEV 1958 / 8h35: Café da manhã padrão servido a todos os indivíduos do teste às 8h10. Todos os indivíduos despertos. Indivíduo 3 parece agitado e nervoso – responde agressivamente a todas as perguntas. Todos os outros indivíduos sociáveis e calmos. Novo indivíduo adicionado ontem: indivíduo 4, sexo masculino, aproximadamente 28 anos de idade, excelentes condições físicas, demonstrando sintomas sociopatas antissociais e borderlines. Introduzido no programa ontem às 17h pelo Dr. Wayne. Simultaneamente à chegada do indivíduo 4, o Dr. Wayne determinou que eu adiantasse o programa para os protocolos da Fase VI, integrando a extração química da ética de espelho com a integração genética de memória e os sistemas de entrega viral. O transmissor mais promissor parece ser um dsDNA do Grupo 1 na família Caudovirales myoviridae, associado a um transmissor de Escherichia coli. Isso permite a transmissão por água, o que é mais fácil de administrar. As lembranças genéticas modificadas nós então inserimos por alteração química das linhagens de Myoviridae, e o sistema deve estar completo. Eu preferiria testes adicionais, mas como nossas modificações comportamentais iniciais serão apenas nos níveis da ética básica, os riscos são mínimos. 20 FEV 1958 / 22h45: A alteração química do DNA não está se unindo devidamente ao DNA do indivíduo 4 por intermédio da Myoviridae. Podemos combinar o dsDNA diretamente com os indivíduos como foi feito com os indivíduos 1 e 3, mas no final, para o protocolo operar corretamente, o transmissor precisará se automodificar de modo a corresponder ao DNA dos indivíduos para ligação. Precisaremos modificar a Myoviridae para se adaptar ao hospedeiro, tornando a transmissão mais dinâmica. 11 MAR 1958 / 16h40: As modificações de mutação dinâmica do dsDNA do Grupo 1 se provaram transmissores ideais. Todos os quatro indivíduos apresentaram melhorias marcantes na acuidade mental e nas motivações básicas. Os novos acréscimos de canalização de memória à memória genética tornaram a implantação da ética mais estável e permanente. Mesmo a aparência física de cada um dos indivíduos parece ter melhorado, embora essa seja estritamente uma observação pessoal. Semana que vem devo estabelecer uma liberdade limitada no terreno para cada um dos indivíduos caso suas melhorias continuem neste ritmo. Hoje não posso chegar tarde em casa. As meninas sentem minha falta. 17 MAR 1958 / 21h35: Os componentes de mutação dinâmica na Myoviridae estão se transformando além de seus parâmetros originais. Indivíduos 1, 2 e 4 apresentam sinais de alteração física produzida pela reestruturação genética
dinâmica. Estou implantando o protocolo de contravírus para deter a disseminação da mutação até que esse resultado aberrante possa ser investigado. Observação pessoal: hoje o míssil americano Vanguard finalmente foi colocado em órbita com sucesso. Acredito que meu velho amigo Werner não irá se ressentir com tanto sucesso. 25 MAR 1958 / 03h: O contravírus não se mostrou eficaz. O redirecionamento de ética dos indivíduos parece estar se aprofundando como pretendido, mas continua a haver mudanças físicas mais aparentes em todos os indivíduos. Cada uma se manifesta de forma diferente. Os indivíduos 1 e 4 dão sinais de mais força. Os indivíduos do sexo feminino 2 e 3 apresentam agilidade significativamente aumentada. Todos os indivíduos demonstram acuidade mental avançada. Não consigo dar conta de seus pedidos de livros e material de leitura. Todos os indivíduos também apresentam estados exageradamente emocionais e variações emocionais maníaco-depressivas. Infelizmente isso parece estar associado a uma crescente sensação de superioridade e a um fortalecimento de seus problemas sociopatas originais. 29 MAR 1958 / 01h: Todos os quatro indivíduos começaram a me interrogar sobre meu passado. Posso ver como eles olham para mim – o que estão pensando de mim. Nós os fizemos, e agora eles nos desfarão. Eles são os monstros e nós somos os monstros por criá-los. Eu telefonei para Thomas, mas seu pai faleceu no dia 26 e tem sido impossível para ele se afastar. Diz que agora estará encarregado dos ativos da família e poderá financiar esta pesquisa devidamente – mas nenhum volume de dinheiro consertará o que fizemos.
31 MAR 1958 / 11h30: Precisamos encerrar isto pelo nosso bem e pelo bem dos quatro indivíduos. Thomas está indisponível, já que tem lidado com o funeral do pai e as questões relativas à empresa paterna. Reunião foi marcada para quinta-feira, dia 3. 2 ABR ... Eles saíram. O telefone não funciona. Estou no escritório e eles estão à porta. Eu os vejo sorrir para mim através do vidro. Eles estão à porta. Eles estão A página estava salpicada de manchas escuras. Batman ergueu os olhos do livro aberto. A teia de aranha, formada no vidro laminado quebrado, brilhava clara à luz das lâmpadas fluorescentes verdes da sala além, colorida apenas por uma mancha escura escorrendo pelo vidro e pela parede abaixo até o chão. Havia outro grupo de manchas no vidro, à esquerda do ponto de impacto. Era quase invisível, mas Batman se deu conta de que era um escrito. Ele se adiantou para ter uma visão melhor da palavra desbotada, o envelope do pai ainda na mão.


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