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domingo, 28 de maio de 2017

SD 928 : WAYNE DE GOTHAN

CAPÍTULO CATORZE

CONFUSÃO SANGRENTA

Asilo Arkham / Gotham / 22h56 / 2 de abril de 1958 Thomas recuou um passo. Não conseguia parar de tremer. Piscou, olhando para a palavra rabiscada com sangue na janela junto ao raio brilhante esmagado no vidro.

Nazista

O Dr. Ernst Richter estava caído como uma boneca quebrada abaixo do vidro laminado partido, seu sangue escorrendo do ponto de impacto. Os ossos da face haviam sido esmagados pela força que o arremessara por sobre a escrivaninha, os traços inchados e descoloridos. Uma parte da mente de Thomas catalogou rapidamente os múltiplos traumas, sua formação médica funcionando no fundo da mente quase com vontade própria. Pelo ângulo de cabeça e pescoço, provavelmente havia vértebras partidas em C5 ou C6. Ele também suspeitava de fraturas no crânio nas regiões frontal e parietal, dada a forma estranha da cabeça. A clavícula provavelmente se partira do lado esquerdo, assim como várias costelas. Havia uma fratura múltipla do rádio no antebraço esquerdo e muito provavelmente as duas pernas também estavam quebradas. As lacerações na têmpora pelo impacto, bem como a laceração da artéria carótida externa no lado direito, haviam sido as causas da maior parte do sangramento. A julgar pelo volume de sangue espalhado sobre a mesa e empoçado no chão, a artéria fora cortada antes de o Dr. Richter ser arremessado contra o vidro. Enquanto ele ainda estava vivo. Thomas estremeceu ao recuar na direção dos arquivos. Estava achando difícil pensar. Ele se sentira mal de postergar sua reunião com o Dr. Richter, e decidira visitá-lo no laboratório de pesquisa naquela noite. A morte súbita de Patrick Wayne por ataque cardíaco quase duas semanas antes virara a vida de Thomas pelo avesso. Era como se as mãos frias do pai também tivessem parado o coração no centro da vida de Thomas, arrastando seu filho para o túmulo com ele. Os arranjos do funeral, as várias encarnações e maquinações do intricado testamento do pai e as exigências de patrimônio e império de que Thomas demonstrasse tanto liderança quanto força pelo bem do mercado e dos acionistas – tudo isso havia roubado dele a vida que escolhera para si mesmo. Mas era um tipo diferente de morte que estava sujando a placa de linóleo no canto mais distante da grande escrivaninha. Não era o sonho frio, silencioso, entorpecedor e imaginado, mas uma raiva e uma fúria violenta, roxa. Era algo desenjaulado que, de alguma forma, apelava ao cerne de Thomas, invocando uma fera que ele mantinha cuidadosamente trancada do lado de dentro, nunca dando atenção ao seu uivo. Ele temia aquela fera, e o fato de que a
carnificina ao redor o conclamava a despertá-la, o arrepiava ainda mais. Thomas cambaleou pela porta quebrada do escritório até o laboratório arrasado. O equipamento e as mesas jogados em pilhas na sala haviam sido seu primeiro choque ao atravessar a porta da passagem em labirinto. Ele correra até o escritório imediatamente ao ver o vidro danificado. Mas agora estava se tornando mais consciente do ambiente à sua volta e do perigo implícito. Seu corpo ainda estava carregado de adrenalina quando se virou para a alcova das celas à direita. As portas de todas as celas estavam abertas. Seus ocupantes haviam fugido. – Denholm – arfou Thomas. Uma brisa fria suave espalhou papéis aos seus pés. Thomas virou o rosto na direção da brisa refrescante. As grandes portas estavam entreabertas para a comprida rampa que se erguia além. Thomas passou em disparada pela abertura entre as portas, subindo a rampa correndo. As portas externas também estavam abertas, e logo se viu no terreno atrás do asilo Arkham. Em algum lugar da mente ele pensou em encontrar Denholm e os outros indivíduos do estudo – sim, essa era a palavra para isso, não era?, estudo – e por um tempo vagou freneticamente à procura deles. Só algum tempo depois – quanto ele de repente não conseguia lembrar –, é que caiu por entre as portas de uma cabine da Bell Telephone, fechando-a atrás de si. A luz se acendeu quando pegou o fone em seu apoio cromado. A mão tremia tanto ao sair do bolso da calça que derrubou moedas sobre o piso metálico. Pegou algumas, colocando-as na fenda e rapidamente discando o único número de que conseguia se lembrar. O receptor berrou em seu ouvido enquanto o telefone tocava, aparentemente a um milhão de quilômetros dali. – Boa noite – disse a voz superior, com o desprezo treinado de um sotaque londrino. – Residência Wayne. – Jarvis! – Thomas disse o nome como se fosse um salva-vidas jogado a ele em um mar tempestuoso. – Me ajude... Por favor... – Dr. Wayne. O que há, senhor? Posso ajudá-lo? – Por favor, Jarvis... Preciso de você. – Onde está, senhor? Posso mandar um carro imediatamente... – NÃO! – gritou Thomas ao telefone. – Não mande ninguém... Não quero ninguém... Quero dizer, eu preciso de você, Jarvis. – Calma, Dr. Wayne – disse Jarvis, a voz mudando sutilmente. A deferência desapareceu, dando lugar a um tom assertivo. – Diga qual é a sua localização. – Eu... eu não... – gaguejou Thomas. – Olhe ao redor – disse a voz baixa e exigente. – O que vê? – Há... Há um parque do outro lado da avenida – disse Thomas, engolindo em seco. – E um rio mais para frente. Estou em uma rua com sobrados... Eu estava em Arkham, mas... Mas... – O senhor atravessou uma ponte de pedestres? – Sim, sim, atravessei. Acho que estou no lado sul de Burnley, perto de Riverside Parkway. – Vê alguma placa de rua? – disse a voz insistente.
– Ah, não, Jarvis... Não sei o que fazer. – Placa de rua, doutor! Vê alguma? – O quê? Sim... Sim. – Thomas espiou através do vidro sujo da cabine. – Diz rua Cronk... Avenida 114, eu acho. – Espere exatamente aí por mim, Dr. Wayne – disse Jarvis, a voz desafiando oposição ou questionamento. – Deixe o fone fora do gancho. Não ligue para ninguém; ninguém, está entendendo? – Jarvis, e... – Está me entendendo, Dr. Wayne? – Sim... Sim, eu entendo. – Estarei aí dentro de quinze minutos – instruiu Jarvis. – Não faça nada até eu chegar. – Mas eu... – Nada, está entendendo? Não faça NADA! Estou indo... O relógio de pêndulo no saguão da frente se preparava para soar três horas quando Thomas ouviu os passos dos degraus da frente da mansão. A luz da lua nascente caía sobre seus ombros vinda das janelas de dois andares atrás dele, enquanto sentava na grande escadaria do saguão principal. Conseguira trocar a camisa e as calças sujas de sangue, as mãos trêmulas durante o processo, e tentara limpar corpo e alma em um demorado banho quente. Sentia-se mais calmo, mas o sono era impossível. Pensava em se algum dia seria possível novamente. Thomas se ergueu quando a tranca das grandes portas da frente foi solta, permitindo que se abrissem. Prendeu a respiração. Nada de detetives. Nada de polícia. Nada de testemunhas acusatórias. Era Jarvis – sozinho. – Dr. Wayne, deveria estar na cama – disse Jarvis, seu elegante sotaque britânico novamente dominante. Thomas soltou o ar estremecendo. – Mas, Jarvis, e quanto aos indivíduos fugidos? Eles estão à solta na cidade agora e... O Dr. Richter caído... Caído ali em seu... Em seu próprio... – Tudo foi resolvido, Dr. Wayne – disse Jarvis suavemente. – Tomei a liberdade de cuidar disso pessoalmente. – Cuidar disso... Pessoalmente? – repetiu Thomas. – Mas, Jarvis, um homem está morto... – Sim, Dr. Wayne – disse Jarvis, tirando as luvas brancas de algodão com um tédio quase descontraído. – É uma tragédia, mas eu sirvo a esta família, Dr. Wayne... Eu lhe asseguro de que cuidei de tudo pessoalmente. – Mas, Jarvis, como você poderia... Jarvis interrompeu Thomas. – Seu pai alguma vez lhe falou sobre minha profissão anterior, Dr. Wayne? Thomas, chocado, balançou a cabeça lentamente. – Não, Jarvis. Nós não conversávamos muito.
– Como o senhor é o mestre da Mansão Wayne e, aparentemente, bastante necessitado de meus serviços, talvez eu devesse esclarecer – continuou Jarvis, colocando as luvas na mesinha lateral. – Nasci em 1908 em uma pequena aldeia na periferia de Londres. Meu pai era um empregado doméstico, embora se imaginasse como um ator. Eu mesmo atuei por algum tempo na juventude, mas me mostrei hábil com armas. Estava com vinte e tantos anos, como dizem, quando a guerra chegou à minha amada Inglaterra. E atendi ao apelo, Dr. Wayne... Atendi enfaticamente. – Jarvis, não sei o que isso diz respeito a... – O que sabe sobre o EOE, Dr. Wayne? – Não acho que tenha conhecimento – suspirou Thomas. – Era o Executivo de Operações Especiais, embora os poucos que conhecessem se referissem a nós como os Irregulares de Baker Street, depois que nos transferiram para o número 64 da Baker Street – contou Jarvis, indo na direção da base da escadaria, os olhos fixos em Thomas. – Talvez esteja mais familiarizado com nossos equivalentes americanos; a OSS? – Você era um... espião? – perguntou Thomas, piscando. Ele pensou por um instante em se o choque dos acontecimentos da noite o teria enlouquecido, ou se talvez tivesse sido Jarvis a perder a sanidade. – Esse é um termo amplo demais, Dr. Wayne – continuou Jarvis, caminhando até Thomas. – Na verdade fui treinado como médico. Nosso objetivo específico era fazer operações de sabotagem e guerra de guerrilha, bem como treinar e apoiar unidades de resistência por trás das linhas nazistas. Eu fazia parte do SO2, conduzindo operações em Telemark, Noruega, contra uma fábrica de água pesada. Era parte de nosso treinamento estar bem além da linha de frente, Dr. Wayne, e com frequência nos era útil enquanto estávamos lá garantir que pudéssemos limpar as coisas. Algumas vezes era melhor para os vivos que os mortos fossem encontrados em um lugar diferente de onde morreram... Ou, na maioria dos casos, que simplesmente não fossem encontrados. – O que você fez com o Dr. Richter? – perguntou Thomas, ao mesmo tempo temendo e precisando desesperadamente da resposta. – Como disse, Dr. Wayne – respondeu Jarvis, olhando para Thomas com seu rosto sereno. – Não precisa se preocupar. Não retorne ao laboratório. Eu o isolei. O incidente não será ligado ao senhor. As coisas parecerão melhores pela manhã. – Jarvis, como posso... – Venha, deixe que o leve para cama. Eu tenho um drinque especial para ajudá-lo a descansar – disse Jarvis, tomando Thomas pelo braço, virando-o e conduzindo para o segundo patamar. – Isso é o que faço, Dr. Wayne. Eu limpo as coisas.
Asilo Arkham / Gotham / 20h31 / Hoje Batman dobrou cuidadosamente os papéis timbrados do pai. Era um papel diferente das páginas que encontrara esperando por ele nas mãos do falecido Dr. Moon, e neste caso pareciam começar no meio, já que a primeira página tinha o número sete. Ele não lera
metade delas, mas já lera o bastante. Batman ergueu os olhos dos papéis para olhar novamente para a mancha leve no vidro. Nazista. Ele olhou mais uma vez para o livro, e então ao redor. Algo ali não estava certo. Ele sentia como se... Estou sendo observado. Quem quer estivesse por trás disso controlara cada situação muito cuidadosamente; fazia sentido que não deixasse nada ao acaso. Iriam querer ver o rato debater-se sob suas patas. Alguém montara a armadilha – esse Manipulador, como começara a chamar a pessoa em sua cabeça – e ele mordera a isca. Não... Eu ainda não mordi. Olhou para o diário aberto na mesa. Queriam que eu visse isto, mas apenas eu. Se quisessem que fosse de conhecimento público, a esta altura já estaria em todos os noticiários do país. Não... Querem que eu o leve, mas e se não levar? E se eu não disparar a armadilha e, em vez disso, instalar outra armadilha dentro da deles? Batman guardou o envelope e seu conteúdo em uma bolsa no cinto. Depois esticou a mão enluvada, fechando lentamente o diário e o arrumando na mesa de modo perfeito. Fechou os olhos. A sala foi instantaneamente substituída em sua mente pela imagem tridimensional fantasmagórica. – Camada de contraste térmico – murmurou. A sala em sua mente foi colorida por uma assinatura de calor. Ele podia ver suas próprias pegadas, o calor do livro na mesa por tê-lo aberto, e a assinatura muito mais brilhante de suas mãos e dedos no livro. Ainda não está lá... Quase, mas não ainda. – Mudança para IV – sussurrou no silêncio. O capuz ouviu e a imagem em sua mente passou das leituras térmica e luminosa para a faixa infravermelha. – Manter! – ordenou com silenciosa firmeza. Eu possuo o negror. A escuridão é minha força. Pontos de luz brilhante na faixa infravermelha. Pequenas câmeras de fibra ótica – do tipo frequentemente usado em procedimentos cirúrgicos – haviam sido colocadas por todo o escritório arrasado e o laboratório além dele. Não podia ver as celas de onde estava, mas Batman não duvidava de que também estavam sendo vigiadas. Cada uma tinha um emissor de infravermelho que permitiria que as câmeras funcionassem com ou sem as luzes da sala acesas. Batman sorriu. Aqueles que combatia não eram perfeitos... Eram bons, mas podiam cometer erros. Então passou por cima da porta quebrada do escritório, vasculhando entre os restos espalhados e esmagados do laboratório. Havia vários equipamentos que ainda pareciam funcionar; um microscópio, duas centrífugas. Havia uma mesa de operação com motores que parecia operacional. Finalmente encontrou aquilo de que precisava: um espectrômetro
infravermelho ainda em boas condições. Batman sorriu sob o capuz. Teria preferido usar seu próprio equipamento, mas não podia se arriscar com o tempo que levaria para ir até seu esconderijo e voltar. Ele se inclinou e pegou uma centrífuga, examinando-a cuidadosamente. Sem pressa. Descartou aquilo e pegou um microscópio, sondando-o com enorme cuidado por vários minutos. Paciência é parte da ilusão. Caminhou relaxadamente até o espectrômetro, viu que o emissor estava intacto e que o aparelho ainda estava ligado à tomada na parede. Ajoelhou ao lado dele e apertou o interruptor do emissor. A imagem de IV de repente se apagou em sua mente. Batman abriu os olhos, se levantando rapidamente e indo até a mesa de operação virada. Tirou o conjunto de ferramentas dobráveis do cinto de utilidades e começou a remover componentes da mesa, primeiro os motores, depois arrancando os cabos de ajuste. Tudo ganhou forma em sua mente. Ele adorava trabalhar com as mãos. Alguns minutos depois, o emissor de infravermelho morreu. A imagem de IV na mente de Batman clareou, mostrando-o novamente ajoelhado em posição quase idêntica à que estava quando ligara o emissor. Batman continuou a brincar com o instrumento um pouco, depois passou para outro equipamento. – Ei, morceguinho! – chamou Harley de sua cela. – Quando você vai me tirar para dançar? Eu nunca sou tirada para dançar! Batman se ergueu em meio às ruínas do laboratório. – Agora mesmo, Harley. Vamos agora mesmo. – Onde você estava, inferno? James Gordon estava na protegida doca de desembarque no lado sul de Arkham. Ela havia sido colocada em um local estranho – assim como muitas coisas em Arkham –, mas era bem adequada para transferência de prisioneiros. Partia de um beco estreito em frente ao bloco dos guardas, com grandes arcobotantes se projetando da parede da velha capela. As estrelas podiam ser vistas brilhando através da faixa de céu aberto bem acima. – Também é um prazer vê-lo, comissário – rosnou Batman. – Desculpe estar atrasado para a festa, mas eu lhe trouxe um presente. O Cruzado Encapuzado empurrou para frente a ainda amarrada Harley Quinn, que estava atipicamente quieta. James Gordon acenou para que os quatro policiais da SWAT com blindagem que estavam atrás dele se adiantassem e levassem a mulher sob custódia. – Você me disse para encontrá-lo aqui há mais de uma hora – retrucou Gordon. – Me deixou plantado esse tempo todo, juntamente com a Equipe de Alta Segurança. Você não costuma agir assim. Batman esperou que os guardas levassem Harley de volta para a boca escura de Arkham.
Só quando ouviu a porta de segurança se trancando ele se virou e falou. – Preciso ir. – Não. Espere um momento – disse Gordon. – Algo acontecerá esta noite. Harley é apenas a ponta do iceberg nisso tudo. – Nisso o quê? Havia impaciência em sua voz. – Não é você que deveria me dizer? – retrucou Gordon. – Tenho relatórios de todas as delegacias sobre ações de justiceiros em cada parte da cidade. É como um surto repentino de justiça pelas próprias mãos. Encontramos um dos capangas de Falcone pendurado de cabeça para baixo na West Side Bridge, jogado lá por cidadãos desconhecidos, um alfaiate, seu filho e dois empresários do Diamond District. Por Deus, a 125ª Delegacia da Moench Row teve de conter uma malta que tentava linchar um assaltante! E não tente me dizer que isso é apenas coincidência, porque sei que não é! – Por quê? – perguntou Batman, se virando e cravando os olhos no comissário. – O que sabe? Gordon raramente tinha uma vantagem sobre Batman, e estava desfrutando daquilo. – Você não sabe, não é? Acho que vou parar um pouco e saborear o momento. Sei que tudo isso já aconteceu antes, há décadas, e se tem a ver com pegar atalhos para a lei nesta cidade, tem a ver com você. Então, o que está acontecendo, Batman? Deixe-me participar da brincadeira também. – Seu trabalho é segurá-los – disse Batman simplesmente. – O meu é pegá-los. – Droga, isso não é uma resposta! – gritou Gordon. – O que está escondendo? – Você tem o seu trabalho a fazer – disse Batman, se virando e mergulhando na escuridão. – E eu estou atrasado para fazer o meu.

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