Powered By Blogger

domingo, 28 de maio de 2017

SD 931 : WAYNE DE GOTHAN

CAPÍTULO DEZESSETE

A PIADA É COM ELE

Galeria subterrânea / Gotham / 22h04 / Hoje Bruce avaliou suas opções enquanto permanecia de costas para a parede do metrô abandonado, escondido nas sombras atrás de um arco de sustentação. O veículo parecia intacto e protegido – haveria uma cratera bastante grande sob Gotham caso a segurança tivesse sido violada de alguma forma –, mas a questão de como o haviam encontrado persistia em sua cabeça. Bruce se agachou, espiando pela esquina mais uma vez com cuidado. Os uniformes certamente eram as camisas azul-claro com gravatas, quepes e calças escuras do policiamento de trânsito de Gotham, ornamentados com escudos e cinturões dotados de cassetetes expansíveis, algemas, porta-carregadores e coldres. A autenticidade, no entanto, era prejudicada pelas máscaras de palhaço em látex que todos usavam. Um sorriso malicioso passou pelo rosto de Bruce. Ele contou dezoito deles, o que parecia um belo desafio... Até lembrar que sua bat-roupa exomuscular e todas as ferramentas de seu ofício estavam dentro do veículo. Ele de repente se sentiu desajeitado, como se tivesse ido a um baile de gala usando apenas roupa de baixo. Ele ainda era Bruce Wayne... E o que antes fora uma vantagem era agora uma fraqueza. Vozes dos policiais de imitação ecoaram pela via lateral até ele. Era impossível distinguir uma da outra. – O que ele quer que seja feito com isso? – Precisamos tirar isso daqui antes que ele volte e levar para a Sessenta e Um. – E se não fizermos isso? – Você realmente quer correr esse risco? – Vamos lá, amarre isso direito. Quer arranhar a pintura? – Você acha que eu conseguiria, Joey? Bruce olhou ao redor procurando algo, qualquer coisa que pudesse usar. Quando seus olhos encontraram, ele sorriu. Uma conferida rápida no ângulo de visão de seu inimigo, e ele foi até o canto mais distante do túnel, pegou silenciosamente a velha lata de tinta e voltou correndo para o túnel. – Ei, Joey, o que é aquilo? Um dos policiais palhaços desviou os olhos do vagão aberto. Eles estavam quase acabando de enrolar o carro do Batman. Mais dois minutos e a coisa estaria pronta para ser
dada ao chefe com laço de fita. – O que é o quê? – Ouvi alguma coisa no túnel. O que é? O Palhaço Joey ergueu a cabeça. A máscara de látex o incomodava, mas era preciso usar o rosto que o chefe mandava ou podia-se acabar não usando rosto algum. – Não estou ouvindo nada, Saul. – Preste atenção, cara, estou dizendo. Palhaço Joey contornou o vagão rumo à entrada do desvio de manutenção. O velho metrô mergulhava no escuro nas duas direções. Agora ele também ouviu. – Ah, caramba, Saul – resmungou Joey. – É só água correndo. Estamos morando nestes túneis há um ano e você não ouviu água antes? O som da água correndo parou de repente. Palhaço Joey levou a mão à 9 mm no coldre e sacou a arma. Na escuridão, o som da água correndo recomeçou. – Mas que porra é essa? – murmurou Palhaço Joey para si mesmo, a arma preparada na mão direita enquanto tentava pegar a lanterna do cinturão com a outra. O facho de luz varreu o túnel escuro enquanto avançava cuidadosamente. – Ah, você está de sacanagem – murmurou consigo mesmo quando o facho pousou em uma torneira saindo da parede do túnel. Água corria dela, caindo sobre o cascalho abaixo. Palhaço Joey avançou rapidamente, guardou a arma e começou a girar o registro, fechando a torneira. A água corrente começava a deixá-lo desconfortável. Passara mais tempo do que esperava no túnel. O fluxo de água parou. – Já está resolvido... Não tem nada aqui – disse Palhaço Joey, dando a volta. A água recomeçou. Ele se virou num instante, o facho da lanterna pousando novamente sobre a torneira. Não saía água dela... Mas ele podia ouvir o som de um fino fio de água em algum lugar mais para dentro do túnel. Era um som muito familiar que o deixava ainda mais ansioso a cada momento. A natureza começou a se manifestar. O som parou... Depois reiniciou. Palhaço Joey olhou ao longo do facho de luz, mas, por mais que tentasse, não conseguiu identificar a fonte do som – um som que apelava à sua bexiga com urgência crescente. O barulho parou novamente, mas a urgência permaneceu. Palhaço Joey esperou o máximo que conseguiu, considerando o som como sendo apenas outro cano vazando em meio a um milhão de outros. Quanto a ele, precisava urgentemente de alívio. O túnel era escuro e a ele parecia um lugar tão bom quanto qualquer outro. Palhaço Joey enfiou a lanterna sob o queixo de látex enquanto abria rapidamente as calças do uniforme da polícia e baixava as mãos. Dessa vez, o som da água na parede do túnel foi um enorme alívio para Palhaço Joey. Quando finalmente terminou, começou a fechar o zíper... Mas estava inconsciente antes de conseguir abotoar as calças.
– Ei, Joey! Por que demorou tanto? – gritou Palhaço Saul. Palhaço Joey apenas deu de ombros. – Bem, obrigado por nada – disse Palhaço Musculoso. – Enquanto você perseguia o bichopapão, nós terminamos o serviço. – Ei, agora podemos sair daqui antes que o Morcego apareça? – perguntou Palhaço Nervoso. – É – disse Palhaço Joey, subindo no vagão. – Vamos pegar uma carona com isso. – Acha que o chefe não vai se importar? – perguntou Palhaço Nervoso. – Ele? – respondeu Palhaço Joey. – Ele vai ficar feliz de nos ver. Bruce suava sob a máscara de látex. As roupas haviam caído bem, e desde que andasse ligeiramente curvado e não falasse demais, conseguiria imitar bem Joey. Pobre Joey. Voltarei e o entregarei à polícia quanto tivermos terminado. Ele consegue aguentar algumas horas amordaçado e nu no escuro. O vagão avançou pelo velho túnel do metrô. Bruce conhecia bem o sistema, mas havia trechos que não haviam sido mapeados. Durante a Segunda Guerra Mundial, alguns túneis foram construídos pelo Departamento da Guerra e nunca catalogados. Bruce ouviu histórias da Plataforma Sessenta e Um, um desvio subterrâneo especial que permitia ao presidente Roosevelt acesso discreto à cidade. Havia uma plataforma idêntica em Nova York, mas as localizações permaneciam secretas nas duas cidades. E agora, a crer naqueles capangas, estavam saindo do mapa oficial do subterrâneo de Gotham. Ele achava que deveriam estar em algum ponto sob a velha Gotham, em um subnível não mais utilizado. Podiam estar perto da Estação Central – talvez abaixo dela, pelo que sabia –, e, à luz da locomotiva que empurrava o vagão aberto pelos antigos trilhos, as paredes do túnel se tornavam cada vez mais bizarras. Enormes excertos de parques de diversão começavam a decorar as paredes, cada um apenas parcial e cortado em traços isolados – orelhas, olhos, bocas escancaradas, mesmo nesses casos nunca inteiros, nunca completos. Eram hieróglifos aleatórios que prometiam e hipnotizavam com a esperança de um significado que permanecia esquivo. Bruce tocou o batmóvel levemente com a mão. A superfície cedeu suavemente ao toque. Era tranquilizador e estava dolorosamente perto. Ele ansiava pelo poder que representava e por ser parte desse poder mais uma vez. Autocontrole é poder. Conhecimento é mais importante que força. Espere para atacar no momento certo. As rodas sob o vagão começaram a guinchar. Luzes brilhantes se projetaram no túnel quando fizeram uma curva passando por um arco. O vagão com o batmóvel deslizou e parou em uma plataforma junto a uma enorme sala abobadada com quase três andares de altura. Havia dínamos enormes enfileirados no piso, ligados a motores com mais de meio século. Na extremidade do espaço mecânico, uma escadaria metálica levava a um segundo nível de galerias que contornavam o perímetro da sala quadrada. Por todo o andar principal da sala e
tomando o passeio acima, havia palhaços com roupas e máscaras similares, todos aplaudindo um homem de pé em um elaborado trono no alto da escadaria metálica. A base estava manchada e a maquiagem desigual, mas a cabeleira selvagem estava atipicamente puxada para trás e presa às costas. As linhas no rosto sempre foram hediondas, mas agora haviam caído com a idade, a pele sob o queixo solta e balançante. Ele ainda gesticulava teatralmente, porém a velha agilidade desaparecera dos movimentos. O terno era o mesmo roxo sujo. Ele segurava um enorme revólver Magnum na mão direita. Mas eram acima de tudo os olhos – os olhos terríveis – e a voz semelhante a cascalho riscando um quadro-negro que confirmaram a Bruce que aquela só poderia ser uma pessoa em todo o mundo. Coringa... – Isso mesmo, crianças! – guinchou o Coringa de seu poleiro. – Eles roubaram tudo de vocês para seu próprio bem! Que história de ninar: roubar dos pobres para dar aos ricos, porque eles sabem o que fazer com isso. Nunca tivemos dinheiro, então é melhor deixar que aqueles que lidaram com ele antes cuidem antes que o usemos para algo útil! Mas eu tive uma ideia melhor, meninos! Digo que vamos tomar de volta! Tomar dos ricos e dar a nós mesmos! E quando eu for eleito, a qualquer momento de acordo com meu relógio, é exatamente isso que vamos fazer! Aplausos se elevaram novamente da polícia palhaça, incluindo aqueles no vagão. Bruce aplaudiu com eles. – E então – disse o Coringa se curvando, a mão com o Magnum .44 ternamente sobre o coração e a voz em um crescendo –, é com a mais profunda humildade e um senso de assombrosas promessas vazias que anuncio minha candidatura isolada a imperador dos Estados Unidos da América! Os aplausos foram ensurdecedores. A locomotiva de serviço que os levara até lá estava se soltando do vagão aberto e recuando novamente para o túnel. O Coringa ergueu a Magnum. A arma trovejou em sua mão, jogando-o para trás com tanta força que ele quase derrubou o trono. Policiais palhaços tentaram sair do caminho, mas um recebeu o projétil no meio do peito e foi arremessado contra um painel elétrico. Este explodiu em fagulhas ao ser atingido, mas isso foi desimportante no que dizia respeito ao policial palhaço. Estava morto antes de atingir o painel. – Um terrorista! – declarou o Coringa. – Ele está morto, então só pode ser um terrorista. Penetrou em nosso lar seguro e agora, como veem, eu os deixei protegidos dele mais uma vez! Terrorista mau! Precisamos detê-los... Precisamos impedir que nos obriguem a fazer o que não queremos! Nos obriguem a fazer o que não queremos? Do que ele está falando? – Queremos ser livres – disse o Coringa, se jogando no trono. – Estão nos obrigando a fazer o que eles querem... E queremos ser LIVRES, MALDIÇÃO! As últimas palavras do Coringa ecoaram pelo salão, encontrando um silêncio desconfortável. Os policiais palhaços, inquietos, se entreolharam enquanto o Coringa permanecia imóvel no trono. – COLETIVA DE IMPRENSA! – gritou o Coringa, se colocando de pé no alto da escada. Os policiais palhaços se moveram nervosamente.
– Sou o imperador, e convoquei uma coletiva de imprensa! – exigiu o Coringa. – A imprensa irá se reunir aqui, diante do trono, e magnanimamente nós responderemos a suas questões sobre nossa nova política interna de 120 por cento de impostos para todos que tenham mais dinheiro do que nós, bem como minha política de segurança sempre popular de encontre-o-desgraçado-que-me-fez-isso-e-o-mate. Perguntas, pessoal! Preciso de perguntas! – Senhor – perguntou timidamente Palhaço Musculoso desde o vagão. Estava ao lado de Bruce. – O que quer que façamos? O Coringa ergueu a cabeça como se refletindo sobre a pergunta. – Fico contente por ter perguntado isso. Na verdade ninguém nunca fica contente de ouvir tal pergunta, mas é isso que as pessoas que mandam sempre dizem, não é? Mas no seu caso, como somos todos homens de ação, danem-se os torpedos e vamos para o vale da morte, eu responderei a essa pergunta. Os policiais palhaços escutaram atentamente. O Coringa se inclinou para frente. – Nós... Vamos... ESPERAR! – Esperar? – repetiu Palhaço Musculoso. – Isso mesmo! Você ganhou o prêmio, Bongo! – disse o Coringa com uma risada hedionda. – Vamos ficar sentados sobre nossos traseiros gordos... Perdão, seu traseiro gordo... Porque... É um carro novinho! Isso mesmo, Bongo... É um batmóvel novinho com bancos esportivos, luxuoso estofamento de couro, rádio do cidadão, som de oito faixas E mais armamento do que qualquer país do Terceiro Mundo que você consiga citar. E enquanto NÓS tivermos a propriedade deste prêmio adorável, o Morcego tem suas asas aparadas aqui na cidade. Ele não vai chamar um táxi, porque, com todos aqueles brinquedinhos maravilhosos no cinto, nunca pensaria em levar uma carteira. Ele não pode pegar carona, pois basta olhar para o modo bizarro como se veste! Seu camarada Gordon está vigiado e... e... é longe demais para ele ir andando e chegar a tempo, então... Ele perderá o compromisso no baile, e eu estarei LIVRE! O Coringa gritou, uivando com as mãos nas têmporas. – Não SUPORTO esses pensamentos... Esses venenosos pensamentos ORGANIZADOS, dispostos em pequenas filas arrumadas cheias de objetivo e... Sentido! – falou, estremecendo de fúria. – Eu os quero fora da minha cabeça... Quero voltar a ser eu mesmo! A respiração do Coringa era entrecortada. – Ele virá... Ele virá pegar seu carro, porque não vai querer registrar o roubo ou o seguro vai aumentar. Mas virá principalmente porque é DELE... E não deixará que EU o tenha. Somos velhos amigos, vocês sabem... E ficando mais velhos a cada minuto. E quando chegar, teremos de fazer uma festa para ele e mantê-lo aqui até de manhã, para que aquelas terríveis vozes organizadas e RAZOÁVEIS que colocaram em minha cabeça não possam ficar com ele. Então eu estarei novamente livre de propósito. Então serei eu mesmo. A respiração do Coringa era entrecortada, mas então sorriu, seu rosto horrendo se animando enquanto os olhos queimavam novamente. – Oláááá – ronronou o Coringa. – Acho que nosso convidado pode já ter chegado sem se anunciar.

Nenhum comentário:

Postar um comentário