CAPÍTULO CINCO
ENCONTRO ÀS CEGAS
The Bowery / Gotham / 23h15 / 4 de outubro de 1957
– Bem-vindo ao Koffee Klatch, Sr. Wayne. Ele quase se virou e saiu. Thomas Wayne estava impecavelmente vestido para qualquer lugar menos aquele. Seu corpo saudável sustentava perfeitamente o paletó branco e a gravata-borboleta preta, e ele tomara um cuidado extra com o Brylcreem para garantir que seus cabelos escuros se esticassem para trás desde a testa e ficassem lisos. Suas calças sociais afinavam de forma elegante, cortadas para terminar exatamente acima do brilho de seus sapatos sociais de couro envernizado. Um cravo vermelho na lapela dava cor ao traje afora isso monótono, e seu rosto estava rapidamente ganhando o mesmo tom. Ele teria se encaixado bem em qualquer um dos mais refinados restaurantes e boates da cidade – só que não estava em nenhum desses lugares. Ele estava à beira da anarquia. Pelo menos estava caso a anarquia fosse definida como o nível superior daquele café de porão em Bowery. O Koffee Klatch ficava em uma área arruinada de Uptown ao sul do bairro dos teatros Park Row, mas não suficientemente ao sul para ser elegantemente próximo ao Riverfront Park. O bairro dos teatros estava cheio de luzes brilhantes, exibindo produções de primeira categoria como My Fair Lady, Auntie Mame e Bells Are Ringing – montagens que refletiam o verniz de otimismo que envolvia o país como um todo. Mas o que alimentava aqueles sonhos noturnos era um exército de atores, músicos, coreógrafos e dramaturgos que preferiam o On the Road de Jack Kerouac e o “Uivo” de Allen Ginsberg a Rodgers e Hammerstein. O Bowery se tornara o centro da contracultura da geração beat em Gotham: ponto de encontro de intelectuais, artistas e livres-pensadores que festejavam o inconformismo e a criatividade espontânea. Essas palavras elevadas eram elas mesmas uma camada superficial sobre excesso hedonista, vidas boêmias e experiências com drogas recreativas. A geração beat não era tanto a favor de algo específico quanto era contra tudo que remotamente pudesse ser definido como limite. Eles viam fraturas de estresse na ordem em concreto e aço dos Estados Unidos pós-guerra e estavam determinados a derrubá-la e se libertar. Então, a partir do balcão do porão que se debruçava sobre o retângulo do andar inferior, aquilo parecia muito anarquia para o formando de medicina de Harvard em seus trajes noturnos formais. O lugar estava lotado, e não havia ventilação. O cheiro dos sujos na sala era esmagador. A noite de julho estivera fresca do lado de fora, mas, naquele momento, no aperto do Klatch, o calor era opressivo e o cheiro de álcool e perfume barato, nauseante.
– Tommy! Wayne inclinou a cabeça, apertando os olhos. Ouvira seu nome ser chamado de algum lugar, mas estava quase afogado em um mar de vozes e bongôs. – Tommy! Aqui embaixo! Thomas olhou por sobre a balaustrada para um emaranhado de camisetas de malha, jeans e cabelos escuros. Demorou um tempo até vê-la, olhando para ele com um sorriso radiante enquanto acenava para chamar sua atenção. Martha Kane havia sido literalmente a garota da casa ao lado desde que ele se lembrava, embora, no seu caso, a casa ao lado ficasse a quatrocentos metros através de uma reserva florestal. Seu pai era Roderick “Roddy” Kane, que criara sua empresa, a Kane Chemical, se valendo de duas guerras mundiais, ambição sem limites e um impressionante talento para saber exatamente o quanto ceder para fechar o negócio. Dizia-se que ele tinha uma personalidade, mas que apenas a esposa, a antiga Maureen Vandergrift, dos Vandergrift de aço da Pensilvânia, e sua filha sabiam onde encontrar o interruptor para ligá-la. Segundo as brincadeiras feitas nas melhores festas, as propriedades dos Kane consistiam “daquela metade de Gotham que já não é dos Wayne”. Na verdade era um grande exagero, mas a realidade parecia ter saído de moda no momento. O que era verdade era que Martha, dos dois lados da linhagem, era herdeira de dinheiro acumulado por antigas gerações e pela atual. Como seus pais com frequência lhe apresentavam, era uma enorme responsabilidade, à qual Martha tipicamente não dava qualquer importância. Seus cabelos escuros e olhos castanhos líquidos eram onipresentes na imprensa de Gotham, embora igualmente prováveis no tabloide Daily Inquirer e nas páginas de sociedade do Gotham Globe ou do Gazette. Mas, para Thomas, ela era simplesmente Martha, a vizinha de personalidade forte que podia convencer e já o convencera a entrar em todos os planos loucos que conseguia conceber desde que ele tinha oito anos de idade. Thomas desceu cuidadosamente a escada metálica. O corrimão de ferro fundido parecia coberto de algo desagradavelmente viscoso, que, refletiu, não era diferente da própria multidão. Abriu caminho entre os corpos em movimento na pista da boate, um floco branco à deriva em ondas escuras. Contornou com sucesso apenas relativo as pequenas mesas agrupadas próximas demais e finalmente conseguiu chegar ao canto que Martha estabelecera como seu reino e no qual fazia as honras. – Você está impecável!– cumprimentou Martha. Olhou para ele erguendo uma sobrancelha cuidadosamente delineada. Vestia um cardigã escuro e jeans apertados que exibiam seu corpo generosamente. – Você disse que iríamos à cidade – Thomas deu de ombros, tentando dosar o gesto com um sorriso constrangido. – E estamos nela, querido! – disse Martha com um largo sorriso, tirando os cabelos do rosto enquanto dava o braço a ele. – Apenas não é a cidade a qual você está acostumado; já estava na hora de isso acontecer. Vamos, tenho amigos que você precisa conhecer! Thomas se inclinou junto ao ouvido de Martha. – Achei que esta noite seríamos só nós dois. – Ah, que absurdo, Tommy – disse Martha rindo e dando um tapa no braço dele com a mão
direita. – Duas pessoas sozinhas são sérias demais. Estamos aqui para festejar. Deixe-me apresentar Denholm Sinclair. O homem estava de pé no canto oposto à mesinha. Era aproximadamente da mesma altura que Thomas, mas com ombros ligeiramente mais largos e um corpo mais musculoso. Tinha cabelos negros ondulados cuidadosamente penteados e um cavanhaque de artista aparado profissionalmente. Usava um paletó esportivo sobre uma camisa de colarinho aberto e calças cinza de pregas com mocassins. Estendeu a mão para Thomas, o rosto se abrindo em um sorriso brilhante. – Prazer em conhecê-lo, companheiro... Pode me chamar de Denny. Thomas apertou a mão oferecida e se arrependeu. Denholm tinha o aperto de um gorila. Antes que pudesse dizer algo, Martha respondeu por ele: – E você pode chamá-lo de Tommy; eu sempre chamei. E esta é Celia, minha melhor amiga! Thomas conseguiu retirar a mão e se virou para acompanhar o gesto de Martha. – Como vai, Sr. Wayne? – disse Celia de sua cadeira, estendendo a mão com o braço branco e ágil. Ela tinha uma expressão triste e distante, os grandes olhos castanhos não exatamente concentrados em Thomas enquanto apertava sua mão. Os cabelos eram curtos, os cachos colados à cabeça. Tinha lábios cheios projetados sob um nariz proeminente, e embora os cílios fossem obviamente falsos, ficavam bem nela. – Bem, obrigado, Srta... – perguntou Thomas, a voz morrendo em tom de pergunta. – Kazantzakis – interrompeu Martha. – Celia Kazantzakis. – Ah – disse Thomas, hesitando por um momento. – Por favor, apenas Celia está bem – disse Kazantzakis, anuindo de leve. – E, por favor, me chame de Thomas – disse Wayne. Denholm já puxara uma cadeira para Martha, que se sentou rapidamente, deslizando mais para perto de Sinclair. Seus braços se enroscaram na manga do paletó esporte de Denholm, e ela se apoiou nele. – Não é quase perfeito? No instante em que conheci Celia eu soube que vocês tinham de ficar juntos. Thomas assentiu com o sorriso mais simpático que conseguiu produzir. Martha fizera novamente, e agora ele estava num encontro às cegas em outro dos projetos de Martha. Para ela, Gotham era seu parque de diversões, tudo ali ou lhe pertencia, ou pertenceria caso se desse o trabalho de comprar. Havia no seu parque de diversões lugares maravilhosos que irritavam seus pais, com cujo desconforto tinha um prazer particular, porque significava que pelo menos estavam prestando atenção nela. – Então, como você conheceu Martha? – perguntou Thomas, se virando para a jovem ao seu lado. – No orfanato. Orfanato Rua Cooper. Já ouviu falar dele? – Certamente, acho que é um de nossos projetos – anuiu Thomas, os olhos ardendo com a fumaça. – Em Burnley, perto do jardim botânico, não? – Isso mesmo – disse Celia anuindo, pegando seu coquetel e tomando um gole desanimado. – Fui criada ali.
– Ah, lamento – disse Thomas. – Não lamente – disse Celia dando de ombros. – Eu não conheci nada diferente daquilo. De qualquer forma, agora sou secretária lá, tento manter o lugar de pé. Martha apareceu certo dia com um cheque que nos deixou bastante bem e com a promessa de mais quando precisássemos. Uma coisa levou a outra, e começamos a nos encontrar nos mesmos lugares acidentalmente de propósito. Thomas deu uma espiada em Martha, que estava se enrolando mais em Sinclair e murmurando algo no ombro dele. Celia parou de falar, deixando a conversa estagnar na mesa entre eles e morrer. Thomas tentou ressuscitá-la. – E gosta do seu trabalho? – Ahn? – Na verdade nada... Apenas perguntei... – Escute, lamento... – Thomas – ele ajudou. – Lamento, Thomas. Estou um pouco distraída hoje – respondeu Celia, fazendo um gesto de mão no ar denso. A fumaça na sala estava assentando mais densa que um fog londrino. – Um amigo meu desapareceu, e não sei o que fazer em relação a isso. – Desapareceu? – disse Thomas, erguendo as sobrancelhas. – Quem desapareceu? – Lorenzo – disse Celia, mordendo o lábio inferior. – É só um cara que eu conheço chamado Lorenzo Rossetti. Desapareceu há uns dez dias. Sem telefonema. Sem cartãopostal... Nada. – Isso parece sério. Você notificou as autoridades? – Na verdade, acho que seria melhor deixarmos as autoridades fora disso – disse Denholm do outro lado da mesa. – Por quê? – perguntou Thomas. Ele não tivera consciência de que Sinclair estava escutando a conversa. – Bem, porque nos negócios dele isso provavelmente não seria lucrativo a longo prazo – disse Denholm, arqueando levemente as sobrancelhas. – Acho que apenas viajou a trabalho e voltará quando tiver terminado. – Quer dizer... Quer dizer que ele pode estar envolvido em atividades nefandas? – perguntou Thomas, incrédulo. – Ah, sinceramente, Thomas! Você é muito quadrado! – disse Martha rindo, o martíni sacudindo um pouco em sua mão enquanto acenava com ele. – Relaxe um pouco, tá? Estamos festejando! – E obrigado por vir à minha casa para festejar – cumprimentou uma voz nasalada. Thomas notou a expressão de desprezo no rosto de Sinclair antes de se virar. Ele media um pouco menos de 1,65 metro, peito largo, com mãos grandes e fortes. A cabeça tinha forma de um bloco, e ele parecia não ter pescoço. Vestia um paletó formal, mas o colarinho da camisa estava aberto e a gravata-borboleta pendia dele desfeita. Os cabelos escuros eram cortados curtos, e deles se projetavam levemente as orelhas. Parecia um jogador de futebol americano ligeiramente encolhido, e era jovem. Thomas imaginou que
deveria ter no máximo vinte e tantos. – Oi, Lew! –Martha abriu um largo sorriso, erguendo a taça. – Srta. Kane, um prazer vê-la novamente. – Conhece meu amigo Tommy? Cabelos curtos fez um gesto para que Thomas permanecesse sentado. – Está tudo bem, Sr. Wayne. Não tenha esse trabalho. Fico contente que esteja aqui. O nome é Moxon. Lew Moxon. – Obrigado, ah... Lew – disse Thomas, enquanto Moxon apertava sua mão. – Nós nos conhecemos? – Não, mas um cara precisaria ser cego para não reconhecer um Wayne nesta cidade – disse o homem. – Fico feliz que tenha vindo dar classe à espelunca. Se precisar de qualquer coisa, é só chamar Lew. – Generosidade sua, Moxon – disse Sinclair com um sorriso apertado. – Não sabia que você se dava com a sociedade. O sorriso de Lew esfriou ligeiramente. – Ah, não o tinha visto aí, Sinclair... Mas Srta. Kane tem o hábito de cuidar dos necessitados. – Todos temos amigos – respondeu Sinclair. – Alguns amigos são maiores que outros, e todos precisamos de uma ajudinha aqui e ali. E quanto a você, Moxon? Você comprou este lugar sozinho ou seus amigos o ajudaram? – Está latindo para a árvore errada, meu amigo – retrucou Lew, um frio no ar a despeito do calor no salão. – Trabalho à noite desde que tenho 12 anos. Este lugar é cem por cento meu. – E quanto seu velho pagou a você pelos trabalhos quando tinha 12 anos? – bufou Sinclair. – Quero dizer, certamente o grande Julius Moxon, com tanto dinheiro escorrendo para ele de locais obscuros, tem o suficiente para financiar um lugar chique como este para seu garotinho. – Isso não é legal, cara – disse Moxon, abrindo e fechando os punhos ao lado do corpo. – Minhas mãos estão limpas, e meu lugar vai bem. Por falar nisso, como estão indo as coisas entre você e o velho Rossetti? Não vejo o garoto de Cesare por aqui há algum tempo. Você o colocou de férias? Celia prendeu a respiração, o lábio inferior tremendo. Sinclair começou a se levantar lentamente, afastando Martha. – Minha casa – disse Moxon com um sorriso. – Você realmente quer fazer isso aqui? – Desculpem – disse Thomas, se levantando de repente, as pernas metálicas de sua cadeira guinchando acima do som dos bongôs. As cabeças de Sinclair e Lew se viraram na sua direção. Thomas ergueu as duas mãos enquanto falava. – Quero fazer apenas uma observação, se puder. Sinclair ficou paralisado com uma das mãos no bolso do casaco. A mão direita de Moxon pairou dentro da lapela do paletó. – Gostaria de chamar atenção para o fato de que estamos festejando minha formatura na faculdade de medicina de Harvard, o que, como provavelmente sabem, é algo realmente importante para mim... E obrigado por seus parabéns, mas a questão é que só começarei
minha residência amanhã de manhã, de modo que tecnicamente não devo usar nada daquelas coisas médicas que despejaram na minha cabeça nos últimos, ahn, oito anos, mais ou menos. Talvez vocês achassem que isso serviria para algo, mas aparentemente preciso de mais alguma coisa no treinamento profissional. Moxon lançou a Thomas um olhar atônito. Sinclair piscou. – Então o resumo é o seguinte: eu coloquei este paletó branco realmente elegante, e sim, sei que provavelmente deveria estar com algo de couro ou gasto, mas foi o que me coube para a noite. E seria realmente difícil tirar manchas de sangue disto, e não devo salvar a vida de ninguém por pelo menos mais algumas semanas. Então, Lew... Que tal me conseguir um drinque para que possamos brindar ao meu futuro em vez de arrasar com meu paletó? Lew encarou Thomas por um momento. – Por favor? – insistiu Thomas. – Café serve. Posso brindar a mim mesmo com café... Vocês servem café aqui? Surgiu um largo sorriso no rosto de Lew Moxon. – Certamente, Sr. Wayne, o que quiser. Você está absolutamente certo. Se um dia precisar de um favor, sou o seu cara. Sinclair se sentou, dando um risinho. – Bela jogada, Tommy. – Chame-me Thomas – disse, enquanto se jogava em sua própria cadeira. Wayne esticou a mão, pegando da mesa o martíni pela metade de Martha e o virando em um só gole. Denholm assentiu. – Acho que estou começando a gostar de você, Thomas. Que tal lhe mostrar alguns lugares que conheço? – Ótimo – respondeu Thomas, pousando a taça de martíni de Martha, a mão tremendo levemente. – Mas antes vamos pedir outro drinque para Martha. Martha olhou para sua taça vazia e começou a rir.


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