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domingo, 28 de maio de 2017

SD 924 : WAYNE DE GOTHAN

CAPÍTULO DEZ

DESTINO

Hospital Universitário de Gotham / Gotham / 13h56 / 5 de outubro de 1957 Thomas abriu caminho rumo à frente da sala de conferências. O cheiro da tinta nas paredes ainda estava fresco. A Fundação Kane – ostensivamente dirigida por Roddy Kane, mas em grande medida influenciada pelos projetos preferidos de sua filha Martha – havia recentemente financiado essa nova ala de pesquisa do hospital. Thomas sorriu levemente com o pensamento, porque embora o prédio tivesse sido financiado, o equipamento necessário para seu funcionamento não havia. Até aquele momento, a ala era um grande gesto público lutando para encontrar uso prático. As cadeiras eram de um novo plástico rígido. As mesas tinham um novo acabamento resistente com placas de madeira prensada e superfícies reluzentes. O chão de linóleo foi encerado até brilhar. Mas muitos dos estudantes usando as instalações tinham de conseguir suas próprias ferramentas de diagnóstico e reunir os próprios livros de medicina para encher as prateleiras vazias da biblioteca de pesquisa. Isso não era tanto culpa de Martha ou das instituições de caridade livres de impostos do pai quanto dos diretores da universidade, que podiam facilmente conseguir recursos para a construção de prédios – os símbolos literalmente concretos e muito visíveis da generosidade de Kane. Os presidentes da universidade tinham dificuldade de impressionar ex-alunos ricos ou possíveis grandes alunos percorrendo princípios, filosofias ou conceitos efêmeros. Thomas prometeu a si mesmo fazer algo em relação a isso. Ele desceu o corredor no sentido oposto dos outros residentes, que saíam do salão o mais rápido possível. Vários deles riam e pelo menos um chamou Thomas, mas sua atenção estava voltada para o púlpito no final da sala. O médico que reunia suas anotações era um homem pequeno, quase inteiramente careca a não ser por uma faixa de cabelos brancos cortados bem curtos que se estendiam de uma orelha à outra. Tinha sobrancelhas que pareciam cerdas brancas e olhos verdes intensos. Mais marcante era a comprida cicatriz que começava logo acima do olho direito e descia até a bochecha, cortando a sobrancelha direita. Tinha malares altos e proeminentes acima de um maxilar estreito e pontudo que parecia transmitir um ar de constante desafio. Vestia um jaleco de médico que fora alvejado até um branco quase ofuscante. Havia vincos afiados como navalhas nas calças pretas e os sapatos refletiam como espelhos. Suas orientações aos novos residentes do hospital haviam sido dadas com um sotaque alemão forte e um tom de desprezo quase obrigatório. – Dr. Richter! – chamou Thomas ao se aproximar do púlpito. – Senhor? O médico ergueu os olhos, confuso ao ouvir seu nome saindo dos lábios de um residente desconhecido.
– Sim... Quem é você? O que quer? – Senhor, meu nome é Thomas Wayne. – É um novo residente, não? – Sim, senhor, eu sou. – E por que estou desperdiçando meu tempo valioso escutando o senhor, Dr. Wayne? Thomas sabia que estava dando a Richter um sorriso idiota, mas continuou mesmo assim. – Só queria lhe dizer que sou um grande admirador do seu trabalho, senhor. Assisti à sua palestra em Harvard ano passado. Suas ideias para utilizar um vírus fabricado como um transmissor positivo foram revolucionárias. Richter deu um leve sorriso triste. – Devo cumprimentá-lo, Dr. Wayne. Meus residentes normalmente não têm coragem de me bajular antes do segundo ano. – Eles deveriam ter mais iniciativa – sugeriu Thomas. – Talvez um pouco mais de visão? – Então o senhor é um homem com tal visão, Sr. Wayne? – perguntou Richter, pousando suas anotações no púlpito e o agarrando pelas laterais enquanto olhava para Wayne. – Talvez eu seja um homem em busca de uma visão – respondeu Wayne, colocando as mãos nos bolsos de seu jaleco de laboratório.

Bowery / Gotham / 21h04 / 8 de outubro de 1957 – Bom vê-lo, Sr. Wayne – disse Lewis Moxon, esticando a mão, um sorriso sincero se abrindo em seu rosto. – Esperava vê-lo novamente. Bem-vindo de volta ao Klatch. – O prazer é meu, Sr. Moxon – disse Thomas, correspondendo ao aperto firme e amigável. – É Lew para os meus amigos – retrucou Moxon. – Pode me chamar de Lew. – Então insisto em ser Thomas – respondeu Wayne. Ele não aprendera todo o código de vestuário da geração beat. Usava um suéter com padrão Argyle e mocassins, mas pelo menos estava de colarinho aberto e tirara a gravata-borboleta. – Martha está aqui? – Claro, claro – respondeu Moxon, o sorriso murchando um pouco. – Ela o espera na pista com Celia e aquele cretino do Sinclair. Thomas, talvez você devesse ter uma palavrinha com ela sobre ele. Ele é problema. – Denholm? – disse Thomas, rindo. – Ele é um pouco grosseiro, mas é decente. O cara faz trabalho voluntário com Celia no orfanato. Está ajudando-a a acertar as contas de lá com o próprio dinheiro. – É? – retrucou Moxon. – Não tenho dúvida de que ele está fazendo algo com as contas, mas não acho que é com o dinheiro dele que está preocupado. Veja, Sr. Wayne... – Thomas – ele corrigiu. – Apenas Thomas, Lew. – Certo, Thomas – disse Moxon, anuindo. – Veja, você parece um cara legal. Está fora da minha jurisdição, mas alguém precisa puxar as rédeas de sua amiga Martha. Ela tem um Chassi de classe, não me entenda mal, mas está conduzindo a vida um pouco rápido demais. Não me entenda mal, camarada. Não tenho nada contra ela, mas parece que os problemas a seguem, e ela nunca parece ver o trem se aproximando até ser tarde demais.
– Martha é uma boa pessoa, Lew – disse Thomas, tentando ficar na cola de Lew enquanto se deslocavam em meio à massa fluida ao redor. – Ela é como você e eu, Lew: tentando sobreviver ao mundo que nossos pais nos deixaram. – Bem, eu ficaria muito mais feliz se ela desacelerasse um pouco, porque corre o risco de ter perda total na vida antes de ter a chance de pegar a carta de demissão – resmungou Lew. – Talvez todos nós. – O que você disse, Lou? – perguntou Thomas, o barulho no café aumentando quando chegavam ao alto da escada metálica. Moxon se virou de repente para encarar Thomas. – Posso alugar seus ouvidos um minuto? – Lou, eu realmente devia descer para... Havia algo nos olhos de Moxon que o fez parar, algo que ao mesmo tempo o aquecia e o abalava profundamente. Medo e esperança ao mesmo tempo. – Claro, Lou... Posso lhe dar uns minutos. Lou assentiu. Ele se virou do topo da escada para uma pesada porta preta na parede. Abriu rapidamente, acenando para que Thomas o seguisse. Entraram em um corredor que ia até os fundos do prédio. Havia uma escada e um elevador à esquerda. O elevador se abriu e de dentro saiu uma das garçonetes de Lew, uma bandeja de drinques equilibrada em uma das mãos enquanto ajeitava o cabelo com a outra. Quase derrubou a bandeja ao ver Lew, que se virou para a direita, abrindo uma porta que tinha um painel de vidro fosco no alto e a palavra Escritório pintada. Além dela, havia uma sala de espera com duas poltronas de couro muito estofadas e um sofá combinando. O sofá de couro estava manchado e gasto, mas em grande medida intacto. Um homem muito grande, de ombros largos e um terno cinza que lhe caía mal, largou a revista Life que estava folheando e se levantou imediatamente, a mão se enfiando sem pensar sob a lapela do paletó. – Relaxe, Donnegan – disse Lew ao gorila de terno. – Vá comer um sanduíche ou algo assim. Donnegan tirou a mão do paletó e contornou Thomas, seus olhos de aço nunca o abandonando enquanto saía pela porta. – Relações públicas? – perguntou Thomas quando a porta se fechou. – Só mais um presente do meu pai – disse Lew rindo enquanto abria a porta interna, acenando para que Thomas passasse. O escritório tinha mobília demais. A escrivaninha era de cerejeira envernizada, assim como o aparador combinando logo atrás. Mais duas grandes poltronas de couro estavam na frente da escrivaninha, que tinha atrás dela uma cadeira giratória de espaldar alto. Tudo isso era difícil de ver sob a camada grossa de papéis empilhados cuidadosamente por toda parte da escrivaninha, bem como do aparador. Aquilo surpreendeu Thomas; era o escritório de um homem trabalhando, não uma encenação. A parede da direita tinha um espelho que permitia ver do outro lado. Thomas olhou através dele para a boate abaixo, seus olhos se fixando em Martha aninhada em Denholm Sinclair.
– Ele deveria cair morto – disse Lew, se colocando junto a Thomas. – Ela diz que está apaixonada por ele – disse Thomas com um treinado distanciamento na voz. – Sinclair é um pilantra e a está enganando – disse Lew, balançando a cabeça. – Ela é bem grandinha, Lew – disse Thomas em voz baixa. – Nunca consegui dizer a ela o que fazer. E agora está crescida. – Isso ela está – disse Lew, assentindo. – Mas você não me trouxe aqui apenas para observar Martha Kane – disse Thomas, desviando da janela e se instalando lentamente em uma das grandes cadeiras de couro. – Certo – disse Lew, engolindo em seco e ajustando a gravata-borboleta como se de repente tivesse ficado apertada demais. Ele pigarreou e foi para trás da escrivaninha. A cadeira de espaldar alto guinchou levemente quando ele se assentou, e a seguir inclinou o corpo para a frente, de modo a afastar três pilhas de papéis que impediam uma visão clara de Thomas. Respirou fundo e começou uma cachoeira de palavras. – Thomas, sabe quem é meu velho? – Quem não ouviu falar em Julius Moxon? – disse Thomas com cuidado enquanto juntava as pontas dos dedos. – Bem, ele não é exatamente Papai sabe tudo, se você entende o que quero dizer – falou Lew. – O que ele quer, ele tem... E o que não pode ter, ele toma. – Soa bastante familiar – disse Thomas, cruzando as mãos no colo. – É? – disse Lewis, se inclinando para frente, as próprias mãos cruzadas sobre a escrivaninha. – Acho você um cara legal, Thomas. Talvez tenhamos mais em comum do que a maioria das pessoas imaginaria. Ambos temos famílias ricas, e acho que o conheço suficientemente bem para dizer que somos muito parecidos, você e eu. Quero dizer, claro, nossos pais são ricos e poderosos, mas... Mas não temos de ser quem nossos pais são. Tudo bem, talvez você tenha tido uma ótima infância... – Eu não contaria com isso – sussurrou Thomas. – É? Bem, nem eu! E agora não consigo deixar de ter pela vida inteira os mesmos doze anos de idade – bufou Lewis. – Meu velho, Julie, é meu dono... Ainda. Eu não gosto de ser de alguém. Construí esta boate do nada, praticamente com minhas próprias mãos, Wayne, e é um negócio de sucesso. Estamos no azul, e todos ganhando um bom dinheiro, mas isso não é suficiente para o meu velho. Ainda não é dinheiro suficiente, ele diz! Acha que estou cuidando de um passatempo aqui; limpo o bastante para dar a ele algo respeitável para o que apontar quando a polícia ou a imprensa começam a xeretar, mas nada que considere uma vida. Então, estou procurando a saída; não da boate, entenda, porque adoro este lugar, mas do meu velho e da sua dita família. Só que ele é dono da papelada deste lugar, e não o daria a mim, porque ter o nome nos documentos faz bem para a aparência dele. Thomas bufou suavemente uma vez. – Estamos ambos buscando a saída, amigo. – É – disse Lew, sorrindo, a cabeça raspada balançando para cima e para baixo enquanto o sorriso se alargava. – Então eu tenho uma proposta para você, Thomas... Um negócio totalmente legal. Você compra o Klatch, o que acha? Meu velho não vai perceber nada de
errado. De repente ofereça em troca outra coisa respeitável. – E depois? – disse Thomas, abrindo as mãos ao perguntar. – E depois eu trabalho para você, pago cada centavo, mais juros pelo tempo – respondeu Lewis com intensidade. – Por que ter todo esse trabalho? – perguntou Thomas. – Por que eu? – Porque você é o único bom escoteiro que conheço e temos uma ligação, você e eu – disse Lewis. – Quero sair, Thomas. Sair de todo o caos fedorento de minha família. Estou cansado da extorsão e dos traficantes de drogas, dos subornos e do dinheiro sujo. Eles nunca deixam espirrar em mim porque supostamente sou o cara que colocam na frente da família, dizendo como sou um bom garoto à luz do sol enquanto sugam a cidade à noite. Minhas meias podem estar limpas, Thomas, mas estou de pé no sangue o tempo todo, e não há removedor suficiente no mundo para se livrar dele. Tenho de sair antes que mais alguém note a sujeira... E preciso de ajuda para isso. O que me diz, Thomas? Estou tentando fazer a coisa certa aqui; você também não vai me abandonar, vai? Thomas olhou para Lewis por um momento, depois sorriu. – A despeito do que você ouviu, eu não controlo a Wayne Enterprises ou seu dinheiro. Também dependo do meu pai para as minhas despesas. O rosto de Lew ficou vermelho. – Então é assim? – Não, Lew, não é assim – disse Thomas, se levantando. – Ainda não sei como, mas vou ajudar você a encontrar essa saída. Thomas esticou a mão direita. Lew Moxon se levantou, olhando para a mão por um momento, então se adiantou, agarrando-a com tanta força que Thomas temeu que os ossos partissem. – Eu não vou deixar você na mão – prometeu Lewis. – Em qualquer momento que precisar de um favor, qualquer coisa, é só me procurar.

Asilo Arkham / Gotham / 10h19 / 14 de novembro de 1957 – Bem-vindo a Arkham, doutor – disse Thomas no centro do laboratório sem janelas, enfiando as mãos no jaleco de trabalho sob as luzes fluorescentes recém-instaladas. – Isto serve? – É perfeito, meu rapaz – respondeu o Dr. Richter, com o primeiro sinal de sorriso que Thomas se lembrava de ter visto em seu rosto. Thomas não estava tão certo. O Dr. Richter tinha algumas necessidades muito peculiares para suas experiências, e, somando tudo, o asilo Arkham havia sido a melhor escolha, embora um tanto bizarra. Ele havia sido construído sob as ordens de Elizabeth Arkham, viúva do capitão Jeremiah C. Arkham. A família dele investira em muitos fabricantes de armas no século anterior, e a riqueza resultante os catapultara para a alta sociedade. Uma das propriedades de Jeremiah era a Winchester Arms, por intermédio da qual Elizabeth conhecera Sarah Winchester. Quando Jeremiah morreu repentinamente em um acidente de caça, pouco antes do nascimento de seu primeiro filho, Elizabeth se voltou para o espiritismo e para Sarah, sua amiga da Costa Oeste, em busca de respostas. Sarah acreditava que ambas eram amaldiçoadas pelos pecados de suas famílias, e quando Elizabeth também se convenceu disso, iniciou a construção da casa Arkham, determinando que o prédio iria oferecer, para sempre, proteção contra os espíritos de todos que haviam morrido pelas balas com as quais sua família fizera fortuna. Ela escolheu o local para o prédio na Crane Island durante uma sessão espírita, e o trabalho começou imediatamente. O edifício se ergueu acima das margens baixas da terra, que se projetava como uma cunha no rio Sprang, com o bairro Burnley ao norte do outro lado do rio e os bairros de Coventry ao sul. Suas paredes, seus ângulos e decorações bizarros eram baseados em uma estrutura neogótica, mas se tornaram selvagens, expandindo-se sem nenhum objetivo arquitetônico claro. A determinação de continuar a construir criou um labirinto de salas, corredores, escadarias, alas, torreões e pináculos que estava sendo progressivamente expandido e nunca fazia sentido arquitetônico – de modo, segundo Elizabeth, a confundir os espíritos que visitavam. Dizia-se na época que vagar pelos salões da casa Arkham em crescimento constante era caminhar pela mente da própria louca Elizabeth. Operários regularmente se perdiam na trama labiríntica de salões bizarros, precisando ser resgatados e levados de volta para a luz. Havia o boato de que alguns nunca retornaram, com suas marteladas ainda sendo ouvidas nos cantos escuros das fundações aparentemente intermináveis da enorme estrutura. Em 1921, Amadeus Arkham, filho de Elizabeth, transformou a casa Arkham no asilo Elizabeth Arkham, instituição que recebeu o nome da mãe falecida após seu suposto suicídio. Ao que parecia, a construção de Arkham não aplacara a maldição da família: a esposa de Amadeus, Constance, e sua filha, Harriet, foram brutalmente agredidas, assassinadas e mutiladas por um interno fugido do asilo Arkham, Martin “Mad Dog” Hawkins. Amadeus pareceu ter lidado bem com esses acontecimentos horrendos, até Mad Dog ser devolvido aos seus cuidados. Na época, não se sabia que anos antes Amadeus facilitara a morte da mãe e posteriormente bloqueara a lembrança. Preso à maca para terapia de eletrochoque, Mad Dog infelizmente fizera Amadeus recordar-se disso. No final, Mad Dog estava morto e Amadeus se tornou inquilino de seu próprio asilo, escutando os fantasmas que percorriam os salões tortos e circulares do prédio e de sua mente. Sem herdeiros vivos, Gotham City assumiu a propriedade, e, embora uma sequência de administradores tenha cuidado da instituição sob diferentes nomes ao longo das décadas, a família Arkham sempre pareceu ser parte de suas esquisitas paredes. Thomas nunca deu crédito às histórias de fantasmas. Arkham de fato era estranho, mas isso era compreensível quando se refletia sobre as estranhas distorções da mente humana. E, como suas investigações haviam revelado, o lugar apresentava grandes vantagens para o projeto proposto pelo Dr. Richter. Primeiro, era seguro. Nenhum deles queria divulgar seu trabalho até que tivessem testado devidamente a metodologia de Richter e a preparado para a revisão dos pares. As ideias de Richter eram revolucionárias, mas muitos excelentes pesquisadores foram esquecidos pela história e pelo departamento de patentes, por terem publicado suas descobertas precipitadamente. Havia muitos corredores escondidos e escritórios abandonados que podiam ser transformados em espaço de laboratório. Thomas se valera do nome do pai na prefeitura para ter acesso à planta original da construção, bem como à da reforma. Encontrara exatamente o que precisava. – É uma espécie de milagre, Dr. Wayne – disse Richter, balançando a cabeça e apreciando. – Era originalmente um depósito de carvão da casa – explicou Thomas. – O conduto original de carvão foi transformado em rampa com portas de aço nas duas extremidades. – A porta é enorme – comentou Richter. – Quase ocupa a parede dos fundos. Thomas anuiu. Amadeus pretendera transformar o espaço em seu laboratório particular após a reforma, mas sua própria queda o impedira de usá-lo. O espaço foi esquecido durante toda a agitação do julgamento. – A rampa é larga o bastante para um caminhão. Podemos trazer basicamente qualquer coisa de que precise por ali. As portas são eletronicamente ativadas e com alarmes. Garanto que são muito seguras. – E quanto à energia? – Isto estava sendo transformado em um laboratório muito antes que eu o descobrisse – continuou Thomas, entrando na grande sala. Sua voz ecoava levemente no espaço aberto. – Gotham está concluindo sua nova usina de energia do outro lado do rio. As principais linhas de eletricidade para toda a área de Uptown passam por um conduto sob Arkham. Esta sala recebeu instalação especial para carga alta, de modo que não precisa se preocupar com isso. Com o teto de três metros e meio, conseguirá instalar seu equipamento aqui sem qualquer problema. Richter assentiu, aprovando. – Trabalhou bem, Dr. Wayne. – Obrigado – respondeu sorrindo. – Mas há mais. – Mais? – reagiu Richter, as sobrancelhas brancas se erguendo de repente. – O que mais há aqui? Thomas apontou para uma grande abertura escura no canto mais distante do laboratório. Esticou a mão, encontrou o interruptor, e acendeu. – Celas? – perguntou Richter, franzindo o rosto. – Sim, ou pelo menos é o que deveriam ser – explicou Thomas. Havia cinco celas dispostas em semicírculo no crescente da sala. Cada uma tinha espessas portas de metal que abriam para fora, cada uma com uma tranca eletrônica que só podia ser ativada da passagem oposta. – Achei que poderia usá-las para seus animais de laboratório. – Sim... Sim, claro – disse o Dr. Richter, que estava pálido, suor brotando em sua testa. – Está bem, doutor? – Sim... Estou bem, meu rapaz – disse Richter, seu sotaque de alguma forma mais forte que o normal. – Tem mais alguma surpresa para mim? – Sim – disse Thomas, radiante. – Mais uma.

 ***

Eles se sentaram no escritório. O novo tampo de fórmica reluzia sob as luminárias de mesa. Ainda podiam sentir o cheiro de tinta fresca na sala. Richter estava sentado à escrivaninha em uma exagerada cadeira de executivo em couro, com Thomas diante dele em sua própria cadeira de couro. Uma garrafa de champanhe aberta estava na mesa entre eles, enquanto erguiam as taças cheias. – Aos nossos sonhos – disse Thomas. – E que permaneçam nossos por enquanto – disse Richter, tocando sua taça na de Thomas. – O hospital não está assim tão animado com meu magistério. Se descobrirem nosso pequeno acerto antes que estejamos prontos para a publicação, isso poderá ser bastante ruim para nós dois. – Então, por favor, não conte a ninguém – disse Thomas com um risinho. Recostou na cadeira bebendo champanhe por um momento antes de prosseguir. – Realmente acha que irá funcionar, doutor? Quero dizer, acho que compreendo a teoria, mas a aplicação prática... – Funcionar? – bufou Richter. – Já funcionou. Precisa ser refinado, especialmente no que diz respeito às funções cerebrais mais elevadas, mas em termos de modificação comportamental já está provado. Foi a nova obra de Watson e Crick na área do DNA que realmente tornou tudo isto viável. – Watson, Crick e Franklin, você quer dizer – falou Thomas atrás da taça. – É, é... E Franklin – disse Richter, dando de ombros. – Pobre garota. Nem mesmo um obrigado quando deram o chapéu a ela, e agora ouvi dizer que está bastante doente. De qualquer forma, a pesquisa deles torna possível que modifiquemos o DNA e o usemos para transmitir informações através de um vírus. Usamos as técnicas de memória química que eu havia desenvolvido antes e as casamos com o DNA alterado, transmitido pelo hospedeiro viral. – Dá todo um novo significado à ideia de um pensamento que contagia, não é mesmo? – disse Thomas com um risinho. – É nosso sonho, Dr. Wayne – disse Richter em um tom de repente sério. – Significa que podemos alterar química e geneticamente a base moral subjacente do indivíduo. Se pensarmos em crime e corrupção como uma doença que infecta o corpo da humanidade, então podemos manipular criminosos para que se tornem o contravírus a essa mesma doença. É como criar uma vacina sociológica. Pense nisso, Thomas! Podemos virar os criminosos do mundo contra eles mesmos, destruindo suas organizações de dentro para fora. – Chega de atormentadores – suspirou Thomas, tomando outro grande gole da taça. – Chega de medo! – Um mundo onde não há mais crime. Não há mais guerra. Não há mais injustiça. Pela primeira vez, teríamos os meios para corrigir as motivações básicas de um ser humano; transformar criminosos em cidadãos respeitáveis, comunistas em capitalistas, caso queiramos. Não haverá mais prisões. Não haverá mais guerra – disse Richter, sorrindo e erguendo sua taça. – Beba, Dr. Wayne. Você está prestes a acabar com todos os males do mundo. – E isso realmente me faria ser alguém – anuiu Thomas. – Não é mesmo? – Você não é alguém agora? – Richter perguntou.
– Eu sou um zero, doutor – respondeu Thomas, girando a taça e examinando o redemoinho de bolhas em sua mão. – Sou o garotinho de Patrick Wayne. Ninguém percebe Thomas, ninguém vê Thomas, ninguém escuta Thomas, e isso, senhor, é um zero. – Então você quer ser algo mais? – perguntou Richter. – Ah, sim – respondeu Thomas, virando o conteúdo da taça. – Muito mais. – Você ofereceu os meios – disse Richter, se curvando levemente na cadeira. – Então, como gostaria de batizar nosso pequeno projeto, Dr. Wayne? Thomas olhou para o teto de pedra acima. – Vamos chamá-lo de Elísio... Projeto Elísio.

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