CAPÍTULO VINTE E CINCO
MORTO ENTERRA OS MORTOS
Crime Alley / Park Row / Gotham / 22h47 / Hoje Bruce se esforçou, se empurrando sobre o chão, mas parecia não conseguir firmar as pernas. As mãos rasgaram a camisa, o velho tecido frágil se desfazendo facilmente. Buscou o ferimento. A entrada não era grande, mas a dor era excruciante. Ele sabia que o dano real era maior do que parecia, e muito mais extenso. Pressionou o ferimento, mas o sangue continuou a escorrer. Bruce levou a mão atrás da orelha direita, ligando o transmissor subcutâneo. Alfred virá. Ele estará monitorando... Ah, Deus! Ninguém estaria escutando, nenhuma voz tranquilizadora soou nos ossos de seu ouvido. Ele estava só. – Socorro! – gritou Bruce, a voz ecoando no beco. – Me ajudem! Por favor! Alguém... – Nesta parte da cidade, a esta hora da noite? – perguntou a mulher, rindo. – Quem você está esperando... Batman? Bruce Wayne sabia que o relógio estava correndo e que seu tempo acabava rapidamente. – Ellen... – Marion... Sou Marion – retrucou a mulher. – Impossível! – disse Bruce, cuspindo sangue ao encolher os joelhos. – Marion Richter morreu em Arkham em 1979. Você precisaria ter... – Quase 70 anos? – completou Marion sorrindo, contornando Bruce com a 9 mm nas duas mãos ainda apontada para ele. – Eu não lhe disse que as mulheres Richter resistiam bem ao tempo? É uma característica genética herdada... Uma que a pesquisa do meu pai reforçou amplamente. Havia mais sangue no chão à sua volta do que ele teria esperado. Embora estivesse com os joelhos dobrados, parecia ter muito mais dificuldade de se levantar do que deveria. – Você? Você tem o vírus Richter? Marion ergueu a sobrancelha. – Claro... Você não? Bruce ergueu a cabeça, olhando furioso para Marion. – Ah, pobre Bruce – ela riu. – Por que você acha que tive todo esse trabalho? Eu lhe fiz um grande favor, Sr. Wayne: mostrei a verdade sobre si mesmo. Sua família me roubou tudo; até mesmo a memória de meu grande pai. Ele foi apagado, sua existência esquecida por todos juntamente com sua pesquisa... Por todos exceto eu, Sr. Wayne. Todos exceto eu! Bruce levou a mão esquerda às costas. A parte de trás do paletó do seu pai estava rasgada e escorregadia de sangue.
Ferimento de saída. Fico pensando em quão mal realmente estou. Joe Chill ficou de pé sob este mesmo poste. Agora estou sangrando no paletó de meu pai. Bruce tentou se colocar de pé, mas os músculos não estavam respondendo normalmente. Ergueu as mãos ensanguentadas para Marion, lançando-se na direção dela, mas os sapatos sociais do pai escorregaram no sangue do chão. Bruce caiu de frente, o lado direito do rosto batendo no asfalto. – Seu pai criou monstros – disse Bruce com um estranho tom gargarejante na voz. A arma disparou novamente. Bruce gritou com a dor lancinante na perna direita. – Meu pai era um homem cinco décadas à frente de seu tempo! – gritou Marion, continuando a segurar a arma firmemente. – Implante de memória falsa, transferência química de pensamento, modificadores de motivação básica, tudo feito através de programação genética e transmitido por um vírus... TUDO fruto de sua genialidade. Eu passei toda a minha vida tentando entender seu trabalho. Graças a equipamento moderno, consegui até mesmo aperfeiçoá-lo! Teremos a utopia dos sonhos de meu pai. Eu produzirei isso, e quando chegar o dia em que o crime finalmente estiver curado e a paz reinar em Gotham, o nome do meu pai... O nome do meu pai... será honrado e reluzirá como um farol de esperança para o mundo. – Tommy? Amanda! Eu disse a ela para ficar no cinema! – Melhor se apressar, irmã – disse Marion. – A cortina está prestes a fechar. – Tommy! Não! – disse Amanda, correndo da porta aberta do cinema até Bruce. Ela se jogou de joelhos ao lado de Bruce, o sangue dele encharcando o vestido da morte de sua mãe. – Deixe-me apresentar a antiga senhorita Ellen Doppel – disse Marion. Bruce tremeu enquanto a mulher que conhecia como Amanda soluçava junto a ele. – Tommy, me diga o que fazer! Eu sinto tanto frio... E não sinto nada... – Ela é minha obra-prima – suspirou Marion. – Quando minha irmã estava em Arkham, consegui colher algumas de suas lembranças antes que morresse. Esta versão de Amanda é um pouco confusa, tenho de admitir, já que precisei implantar várias outras lembranças falsas para fisgá-lo. Irei consertá-la assim que você estiver fora do caminho. – Então você planeja começar sua utopia me torturando e matando? – disse Bruce, contorcendo o rosto. – Não apenas o matando, Sr. Wayne – respondeu Marion. – Não, veja, como uma profissional de saúde mental, senti a obrigação de matar sua alma além de seu corpo. Acho importante que você compreenda a profundidade da traição de seu pai; a Gotham, a meu pai, à sua mãe e a você. – Do que você está falando? – gritou Bruce. – O encobrimento de seu pai – respondeu Marion. – A dinastia Wayne usou seu poder, dinheiro e influência para enterrar toda a roupa suja... E nesse processo enterrou meu pai, enterrou minha família... E finalmente enterrou minha mãe e minha irmã... Mas não era suficiente nos destruir. O vírus inicial se espalhou para seis transmissores. Seu pai teve de
caçá-los também. Sem eles o vírus acabaria sofrendo mutações a cada interação, a codificação da memória genética seria corrompida e o vírus seria extinto. Mas desde que os seis originais vivessem, o vírus poderia sobreviver por intermédio deles, e isso seu pai não permitiria. Ele até mesmo acertou as coisas com seu velho amigo Lew Moxon para que, quando o último dos seis fosse encontrado, todos fossem eliminados discretamente. Claro que seu pai só sabia dos quatro Apocalipse e que meu pai havia sido infectado. – Quem era o sexto? – perguntou Bruce, com dificuldade de respirar. – Infelizmente, embora o equipamento do laboratório pudesse ser de primeira linha para os anos 1950, era inadequado para conter o trabalho de meu pai – falou Marion. – Suponho que seu pai esperava que os capangas de Moxon capturassem os transmissores originais, mas Moxon contratou um assassino para cuidar do problema para ele. Acho que você provavelmente o conhece... Joe Chill. Pulmão perfurado. Não acertou o coração, mas a hemorragia é séria. Pode ter cortado uma artéria. Preciso deter o sangramento... Ficando com frio. – Me pergunto se, quando estava caído onde você está caído agora, seu pai sabia que havia contratado seu próprio assassinato – pensou Marion. Bruce fechou os olhos. – Por favor, Tommy! – gemeu Amanda. – Sou eu... Martha! Não me abandone! Não... – Então nós pagamos pelos pecados de nossos pais? – sussurrou Bruce roucamente. – Um de nós paga – disse Marion, levando a 9 mm à têmpora de Bruce. – NÃO! – berrou Amanda. A mulher deu um pulo em seu manchado vestido de noite verde, empurrando a mão de Marion no instante em que a arma disparou. O projétil de ponta oca acertou o asfalto, se cravando e achatando com o impacto. Amanda – agora Martha – se lançou contra Marion, os dedos arranhando as mãos dela enquanto tentava agarrar a arma. Marion tropeçou para trás sobre a lata de lixo, chocada com a fúria inesperada do ataque. Amanda se lançou sobre Marion sem hesitar, batendo a mulher mais velha contra a lata de lixo. A força drenou o ar dos pulmões de Marion. A Browning 9 mm caiu, deslizando pelo asfalto do beco e parando na frente do rosto de Bruce. Ele olhou para a arma, piscando. Eu sou o monstro? Eu me tornei o que odeio? A arma estava ao alcance dele. – Tommy! Socorro! – gritou Amanda. Marion se soltou de Amanda e se atirou para pegar a arma. Isso é quem sou... Isso é quem escolhi ser... Bruce agarrou a arma... E a afastou de si com toda a força que lhe restava, respirando dolorosamente. – Martha! – gritou. – Me ajude! Marion caiu no chão onde a arma estivera instantes antes. Levantou-se rapidamente, virou para recuperá-la... E se deparou com Amanda, que a segurava. – Se afaste dele! – guinchou Amanda. Em algum ponto das confusas camadas de memórias falsas e implantadas, ela deve ter disparado um revólver. Segurava a arma com firmeza nas duas mãos e estava em posição de tiro.
Marion se levantou lentamente, as mãos estendidas diante de si enquanto se esforçava para manter a voz serena. – Não se mexa, irmã! Sou Marion. Está quase terminado... Então seremos livres. – Livres? – disse Amanda, rindo loucamente da palavra. – Você matou meu marido! Você matou meu filho! – Não, eu matei nossos fantasmas, irmã querida – disse Marion com um sorriso gentil. – Matei o último homem que estava no nosso caminho. O mundo se lembrará do que eles fizeram a nós, nós faremos com que lembre, e os Wayne não irão mais nos assombrar. Você ficará novamente comigo, Amanda... E seremos livres. Amanda de repente inclinou a cabeça, os cachos do penteado cheio caindo sobre os ombros do vestido esmeralda manchado. – Amanda – disse, com um sorriso curioso. – Quem é Amanda? Marion abriu a boca para falar, se adiantando rapidamente. Amanda apertou o gatilho. A Browning 9 mm sacudiu nas mãos de Amanda. Marion foi imediatamente detida pelo impacto da bala, cambaleando para trás. Seus sapatos baixos deslizaram no sangue empoçado ao redor de Bruce, mas ela recuperou o equilíbrio. Um carmim escuro se abria em seu casaco. Ela gritou. – Não, Amanda! Não agora! – Você o matou! Você o matou! – gritou Amanda repetidamente enquanto o cano da Browning lançava fogo. Marion se contorceu com os três tiros seguintes antes dos impactos a derrubarem e ela cair no chão. Mas Amanda continuou a disparar, indo na direção da forma caída de Marion Richter. As cápsulas continuaram a voar do revólver até o extrator parar em posição aberta após o décimo primeiro tiro. A última das cápsulas estalou no calçamento. Fumaça subia do cano da pistola. Marion Richter estava estraçalhada e imóvel no chão. Amanda se colocou acima da mulher, olhos arregalados. Piscou, e então olhou para a arma como se nunca a tivesse visto antes. – Amanda – gemeu Bruce. – Consiga ajuda! Rápido... A mão de Amanda ficou flácida, a arma caindo no chão. Ela inclinou a cabeça de lado, olhando para a cena sangrenta a seus pés. – Ellen? – murmurou. – Martha! – disse Bruce, mal conseguindo falar. – Vá... Conseguir ajuda. – Marion? – sussurrou Amanda. De repente jogou a cabeça para trás e guinchou. – Marion! Onde estou? Quem sou eu? Você tem de me contar Marion. Você tem de me contar! Amanda desabou no chão, se ajoelhando acima do rosto sujo de sangue de Marion Richter e gritando para a mulher morta. – Quem sou eu, Marion? Você prometeu me contar quem eu era... Eu... Ah, Tommy! O que ela fez com você? Onde está meu filho? Pai? Quando papai vai voltar para casa? Marion,
você prometeu que papai estava vindo para casa... Bruce estremeceu. Ele vira homens morrer e pensara no que sentiram. Amanda, Martha, Ellen – todas haviam desaparecido em uma louca que não estava mais ancorada em nenhuma delas. Alfred fora embora, e o transmissor que tiveram tanto trabalho para implantar atrás de sua orelha continuava a transmitir seu chamado de emergência em uma frequência que ninguém escutava. Ele estava caído no beco onde um jovem Wayne morrera tantos anos antes apenas para morrer novamente. – Alfred! – Bruce gritou. Sua visão estava falhando. – Preciso de você! Pai... Mãe... Temos muito o que conversar... Muito a perdoar... Bruce fechou os olhos novamente. Sabia que seria pela última vez.


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