CAPÍTULO SETE
PECADOS DOS PAIS
Torre Wayne / Gotham / 22h49 / Hoje A sombra perto do pico da Torre Wayne estava em pé, imóvel e com as pernas abertas acima da cabeça esculpida de uma águia, que se projetava da amurada da estrutura negra perfurando o céu noturno. A sombra observava a cidade. As ruas eram largos fios de luz bem abaixo, costurando o tecido de Gotham à noite. Os arranha-céus se destacavam com suas janelas iluminadas – não tantas acesas quanto fora mais cedo, mas o suficiente para sugerir os perfis de suas enormes formas escuras. A figura silhuetada escolhera a face norte para seu poleiro, permitindo a ele uma vista livre para os prédios menores do Diamond District e do Robinson Park, mais além. Cada uma das pontes que cruzava o rio Finger, ligando os bairros do centro com a Midtown, estava engarrafada com o trânsito noturno. Alguns seguiam rumo norte para o bairro dos teatros e dos restaurantes perto de Burnley, Uptown, enquanto o tráfego para o sul mais provavelmente se dirigia a alguns dos restaurantes mais elegantes em Chinatown ou nas áreas renovadas no litoral do distrito financeiro. Muitos podiam estar simplesmente fugindo de seus ambientes no centro de Gotham, buscando as diferentes pontes que levavam para fora da cidade propriamente dita. Além de Robinson Park, ficavam os prédios altos do Coventry District, escondendo a visão das torres escuras do asilo Arkham. A cidade estava cheia de vida esta noite, agitada e movimentada abaixo dele, mas, para o homem-morcego, aquele era seu templo de paz, muito mais santuário do que a batcaverna ou sua casa reclusa. Ali, ou no alto de vários pontos de vista diferentes que estimava acima da cidade, ele podia descansar a alma, observar a cidade que valorizava e, em sua vigilância, saber que, pelo momento, equilíbrio havia sido conquistado. Em todos os outros lugares ele se sentia em constante movimento, ansioso e inquieto. Mas ali, completamente imóvel na noite, com a cidade se estendendo sob seu olhar atento, podia parar e se dar o luxo da contemplação e do descanso real. Ali, pensou, havia equilíbrio na vigilância. Mas esta noite o equilíbrio não chegaria. Deixou seu olhar vagar sobre a cidade, e ele pousou pela primeira vez em muito tempo além do litoral de Gotham, sobre as colinas suaves de Bristol do outro lado do rio e sobre o brilho fraco de luz bruxuleante, obstruída por névoa e distância, da propriedade Wayne. Os papéis que ele recuperara do cadáver do Dr. Moon – os papéis do seu pai – e suas palavras o levaram de volta mais de meio século para o grande escritório revestido de madeira agora seis andares abaixo de seu poleiro.
Torre Wayne / Gotham / 11h28 / 5 de outubro de 1957 Thomas estava de pé diante do familiar revestimento de madeira com nós que decorava as enormes portas art decó. Esticou a mão sem pensar para ajeitar a gravata novamente e então, percebendo o que estava fazendo, suspirou de frustração, cruzou as mãos às costas e tentou conscientemente desacelerar sua respiração superficial. – O Sr. Wayne o verá agora, Thomas. – Obrigado, Liz – disse Thomas à secretária atrás da mesa. Ela trabalhava com o pai desde que ele conseguia se lembrar, embora não recordasse seu sobrenome. Usava os cabelos castanho-claro em um coque apertado e óculos enormes de armação de chifre. Sempre vestia o mesmo terninho cinza no escritório. Thomas desistira de especular quantos trajes iguais teria no closet. Era uma virtuose no que dizia respeito à enorme e complexa caixa do interfone no canto de sua mesa, e suas habilidades de estenografia e datilografia eram lendárias. Ainda assim, pensou que ela poderia gostar de alguma interação humana. – Um prazer vê-la novamente. – Melhor não deixá-lo esperando – ela disse em tom neutro. Acho que não. Thomas deu de ombros, se virou na direção das portas duplas de três metros e meio e puxou a da esquerda. Ele sabia que o pai sempre deixava a da direita trancada com travas no alto e embaixo. Visitantes sempre escolhiam a porta errada ao entrar. Isso era mais que uma diversão para o pai, claro; era outra forma de deixar todo mundo desequilibrado. O escritório se elevava por dois andares, um enorme espaço de extravagância art decó. Havia um grande globo em sua estrutura, posicionado no piso sob a estante embutida que cobria a parede direita da sala; ela dava para um bar que o Wayne mais velho achava conveniente para os clientes e para uso pessoal. Os livros eram uma seleção elegante, embora, pelo que Thomas sabia, seu pai jamais se dignara a tirar um de suas prateleiras perfeitamente organizadas. A parede oposta apresentava uma galeria de pinturas, uma coleção eclética de Matisse, Monet e Renoir originais que havia sido comprada mais como investimento que por qualquer apreciação da arte envolvida. No canto mais distante, em frente às portas, uma enorme escrivaninha de cerejeira, perfeitamente envernizada, repousava diante de uma janela de vidro que tomava toda a altura da sala. Duas cadeiras de couro vermelho demasiadamente estofadas estavam viradas para a escrivaninha como acólitos curvados em oração. O aparelho de som de alta definição estava desligado. O único barulho na sala era o estalar da fita de cotações perto da escrivaninha, atrás da qual havia uma cadeira giratória, o encosto com projeções laterais voltado para Thomas. Era a catedral de Patrick Wayne, pensou Thomas, e ele sempre se sentia um infiel ao entrar ali. A cadeira girou silenciosamente, seu ocupante por fim se dignando a reconhecer a presença do jovem. – Você está atrasado. Não suficientemente atrasado, pensou Thomas. – O Dr. Horowitz me prendeu mais do que eu esperava... E boa tarde para o senhor também, pai.
– Então boa tarde – respondeu Patrick, com um único riso sem humor. Os ombros de Patrick Wayne ainda eram largos, mas tinham se tornado um tanto curvados com o tempo e o peso de carregar a Wayne Enterprises. Seus cabelos haviam embranquecido e estavam rareando perceptivelmente no alto da cabeça. As mãos grandes ficaram um pouco deformadas pela artrite, mas ainda pareciam suficientemente fortes para rasgar o catálogo telefônico de Gotham duas vezes. Seu tom era descontraído, até mesmo agradável. – Acredito que tenha se divertido noite passada? – Sim, obrigado – disse Thomas, cruzando o comprido piso até ficar de pé diante da escrivaninha do pai. – Foi uma festa de Martha Kane. – Pelo que ouvi, ela tem muitas – disse Patrick, e vendo a expressão do filho, ergueu a mão. – Não, não quero dizer nada com isso. Ela sempre foi uma garota animada, Thomas, e você sabe disso. Sente-se, acho que é hora de conversarmos, você e eu. Thomas ergueu a sobrancelha e depois se sentou no braço de uma das poltronas de couro. Ele aprendera havia muito tempo que seu pai cortara dois centímetros e meio do assento dessas cadeiras para garantir que qualquer um que se sentasse ali ficasse ligeiramente abaixo do nível do seu olho. – Sobre o que gostaria de conversar, senhor? Patrick esticou a mão, tirando uma grande pasta de uma pilha e a abrindo diante de si. – Bem, na verdade é sobre Martha Kane... E as suas companhias. – Senhor, isso é passar dos limites. – Que maldição, garoto, pare de falar e preste atenção uma vez que seja – rosnou Patrick, pegando a pilha de papéis diante dele. Várias fotografias em preto e branco caíram de entre as folhas. Algumas pareciam ainda não estar totalmente secas. – A família Kane é nossa vizinha. Diabos, Roddy Kane e eu jogamos golfe há mais de uma década, mas aquela garota parece atrair problemas. Ela não se junta às pessoas certas, garoto. Ignorou todas as senhoras da sociedade de Gotham, incluindo sua mãe, mas tem tempo para ficar no Bowery ou naquele apartamentinho que mantém em Otisburg para não se sabe quais propósitos! E agora começou a circular com esse Sinclair... – Eu sei tudo sobre Denholm Sinclair, senhor – disse Thomas, se levantando. – Sabe, garoto? – reagiu Patrick, folheando os papéis e rapidamente encontrando aquele que buscava. – Então suponho que saiba que ele está trabalhando para a máfia Rossetti. Está com eles pelo tipo de dinheiro que não pode conseguir. – Denny e Martha são adultos, senhor – retrucou Thomas. – Eles sabem o que estão fazendo. – Ah? E suponho que isso significa que você também sabe? – devolveu Patrick do outro lado da escrivaninha. – Você está em casa há menos de um dia, recém-saído da todopoderosa faculdade de medicina de Harvard, e eu acordo com a notícia de que estava no pequeno café de Lewis Moxon. Que maldição, garoto, o homem é filho de Julius Moxon, o maior senhor do crime que esta cidade já viu. – E daí? – gritou Thomas. – Então eles não são seu tipo de gente? Eles têm problemas, claro, mas quem não tem? O que há de errado com eles? – Eles são criminosos, garoto! – rugiu Patrick, se levantando atrás da escrivaninha. – O
que você pensa? Que com todo o conhecimento que enfiaram na sua cabeça lá e todo o seu vodu médico você vai dar a eles duas aspirinas e eles irão melhorar? Você não pode curálos como um caso de rubéola. Eu conheci esse tipo de gente minha vida inteira; tive de trabalhar com eles, vigiá-los, proteger você deles, e posso lhe dizer, garoto, que eles não mudam! Estão lá para derrubar você, para usá-lo, drená-lo e depois cuspir fora. Thomas estava olhando para as fotografias espalhadas na mesa. Fotografias dele na noite anterior no Koffee Klatch... De Denholm e Martha... Dela desmaiada na frente do carro de Thomas. Ele esticou a mão e tocou a fotografia enquanto falava. – Muito legal, pai. Você mandou alguém me seguir? – Ah, acorde, garoto! – resmungou Patrick. – Você é um Wayne! Você tem responsabilidade para com a empresa e o nome... E essas pessoas nunca irão merecer você. Os leopardos não podem mudar suas manchas, e esses parasitas também não podem. Eu o apoiei durante todo esse absurdo da faculdade de medicina e você conseguiu passar bem por isso, mas precisa despertar para suas responsabilidades. Há um império aqui que você precisa aprender a comandar. É melhor colocar ordem na vida, filho, parar de sonhar acordado e ter uma visão de seu futuro antes que essas pragas o destruam. – Acha que não sei o que quero? – disse Thomas. – Há um modo de vida melhor do que este, senhor, e irei descobri-lo. – Isto é a vida, garoto – disse Patrick, em um tom que desafiava contestação. – Há predadores e há presas, e quanto mais cedo você aprender isso, melhor. – Senhor, não pode... – O Dr. Horowitz lhe falou sobre administrar aquela verba? – perguntou Patrick. – Sim, senhor – respondeu Thomas, sentindo o muro baixar novamente entre eles. – Bom, prossiga e saia – disse Patrick, desviando o olhar enquanto voltava a se sentar. – Tenho trabalho a fazer. Talvez o veja no café da manhã. A audiência estava encerrada. – Sim, senhor – disse Thomas com um suspiro. – Talvez. Thomas cruzou as portas da Torre Wayne para a Moench Row. Respirou fundo, embora ainda não conseguisse evitar a sensação de claustrofobia que tomara conta dele dentro do prédio. O Buick estava estacionado junto ao meio-fio com um dos porteiros ao lado. Ao ver Thomas, o homem rapidamente abriu a porta do motorista e ficou em posição de sentido. Talvez tivesse sido soldado na Guerra da Coreia, talvez fosse um veterano... Ou talvez, igualmente provável, tivesse visto muitos filmes de guerra e fingisse ser o herói da porta do Buick. O jovem era um ladrão, um desertor ou um vigarista? Ele roubaria a carteira de Thomas ou morreria defendendo-o? O que faz de um homem quem ele é? E, se realmente houvesse algo errado com sua forma de pensar, por que não poderia ele ser curado como tudo mais? Thomas contornou o Buick e sentou no banco do motorista. O porteiro já havia ligado o motor e fechou a porta com firmeza assim que Thomas entrou. Thomas ficou sentado, pensando por um momento, e depois enfiou a mão no bolso do
paletó.
Dr. Richter – Salão de Palestras Kane / Segunda-feira, 14h.
Thomas pôs o bilhete no bolso e empurrou a alavanca para o modo “drive”.


Nenhum comentário:
Postar um comentário