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domingo, 28 de maio de 2017

SD 929 : WAYNE DE GOTHAN

CAPÍTULO QUINZE

NÃO ATIRE NO MENSAGEIRO

Asilo Arkham / Gotham / 21h02 / Hoje O laboratório arruinado e há muito esquecido estava escuro e silencioso novamente. O espaço parecia aliviado, como se preferisse ser uma tumba lacrada de sonhos e morte escondida do mundo. Mas o mundo ainda não tinha terminado com ele. Os puxadores enferrujados das grandes portas de aço no final do laboratório giraram lentamente, gemendo com o esforço. As engrenagens presas a eles puxaram as barras de travamento, que guincharam conforme se recolhiam. O som por fim parou com o movimento. Batman observou tudo em silêncio por entre olhos fechados, como havia feito durante as três horas anteriores. O mundo ao seu redor era ligeiramente distorcido por causa do ângulo do aparelho de telepresença, que deixara no alto do entulho no laboratório. Funcionava segundo o mesmo princípio do capuz – usando imagens sônicas –, mas, caso a distância fosse curta, podia transmitir de forma remota diretamente para o capuz, assim permitindo que ele “estivesse” na sala, embora seu corpo físico estivesse na verdade a alguns metros dali. Talvez a imprensa vá chamar isso de equipamento batfantasma, pensou maliciosamente desde o poleiro acima da porta que usara mais cedo para entrar na sala. Ele colocara o transmissor de telepresença pouco antes de voltar ao espectrógrafo e desligar o emissor responsável por mascarar sua movimentação pela sala. Depois pegara Harley Quinn, entregara-a a Gordon e voltara para lá o mais rápido possível. Quem colocou o livro e o envelope naquele laboratório esperava que eles partissem comigo. Se quisessem que o livro se tornasse público, a esta altura ele já teria. Então isso significava que voltariam para pegá-lo. Só havia duas entradas para a sala, e ele estava acima de uma delas. A outra estava se abrindo enquanto ele observava pelo equipamento remoto, e sabia que aquela também estava protegida. Uma figura passou entre as portas de aço na extremidade oposta da sala. Ele sentiu o perfil, embora não os traços através da imagem sônica. Quem estivera monitorando a sala com as câmeras de IV decidira eliminar também aquelas transmissões e os emissores, de modo que ele tinha de confiar nas imagens mais nebulosas do sistema sônico. Passando pela abertura estreita entre as portas de aço, a figura entrou cautelosamente na sala, abrindo caminho na escuridão. Hesitou um momento, deu um passo cauteloso e seguiu na direção da porta quebrada do escritório. Parecia segurar algo na mão. Batman desligou a ligação com o fantasma, e seus arredores imediatos surgiram. Deslizou silenciosamente de seu poleiro, abriu a porta do laboratório sem nenhum ruído e entrou.
A silhueta tinha uma lanterna, seu facho circular correndo sobre a porta caída do escritório. Deu mais um passo... Clique... vrrrr... A figura se virou, a luz passando sobre a parede, mas era tarde demais. A armadilha de cabos já havia feito o serviço, ligando os motores elétricos que ele liberara da mesa de operação e derrubando duas barras pesadas sobre a porta. As grandes portas de aço se fecharam de forma grandiosa e ruidosamente definitiva quando o segundo motor enrolou os cabos e girou a trava antes que a silhueta pudesse escapar. – Você queria me ver? – rugiu Batman, saindo para os escombros atrás da figura escura junto às portas. A figura girou em pânico, a lanterna brilhando nos olhos de Batman. Ergueu uma mão para se defender, mas Batman já podia ver a lanterna tremendo de medo. – Não! Espere! – Era uma voz feminina, em pânico e trêmula. – Você não entende! Me deixe explicar! Ela tropeçou, caindo de costas nos escombros. Batman correu até ela, o facho da lanterna batendo no rosto de repente identificável da mulher. Ele se conteve, sempre atento aos muitos rostos que era obrigado a usar, lembrando em cada momento qual seria o da vez. – Quem é você? – Dra. Doppel – disse a mulher, engasgando. – Quero dizer, enfermeira Doppel. Participe do jogo. Interprete o papel. – Por que está aqui? – rosnou junto ao rosto da mulher. – Eu trabalho aqui... Quero dizer, trabalhava aqui. Ele colocou a mão esquerda enluvada atrás do pescoço dela, puxando o rosto para mais perto do seu. Sua voz era furiosa. – Por que está aqui? A mulher tremeu sob seus punhos, mas os olhos permaneceram fixos no semblante vazio da máscara. – Vim pegar um livro. – Este livro? – perguntou Batman, erguendo o sujo e antiquado livro de anotações com a mão direita, virando a cabeça dela com a esquerda para que pudesse vê-lo. – Sim... Talvez... Parece com o que ela descreveu. – Quem? – Batman sacudiu levemente o pescoço dela. – Quem descreveu? – Amanda! – revelou Doppel, os olhos se enchendo de lágrimas. – Ela me mandou vir aqui e pegar esse livro. Ela me ligou. Eu não sabia que tinha saído de casa. Não sei há quanto tempo pode estar sumida. Ela disse que eu nunca mais a encontraria se eu não... Se eu não... – Se não o quê? – pressionou, sacudindo o pescoço dela novamente. – Se eu não seguisse suas instruções e tirasse esse livro de Arkham – respondeu Doppel, engasgando. – Disse que não deveria ligar para a polícia, que tudo ficaria bem se eu simplesmente viesse aqui, pegasse o livro na escrivaninha do velho laboratório de pesquisa do pai e o levasse a um endereço em Midtown. – Que endereço?
– Por favor, eu só quero... – Que endereço? – Avenida Moldoff quinze-dois-quarenta-e-sete – disse Doppel. Batman se levantou lentamente, erguendo a enfermeira com ele e a colocando de pé. – Como você sabia deste lugar? – Eu não sabia – respondeu Doppel, tentando recuperar o equilíbrio em meio ao equipamento quebrado que cobria o chão. – Amanda me contou onde ficavam as portas externas e como passar por elas. Eu trabalhei durante anos neste lugar e nunca soube que isto ficava aqui embaixo. Olha, só estou tentando encontrar uma mulher. Seu nome é Amanda Richter, ela é um indivíduo altamente perturbado e acho que está sendo manipulada a fazer coisas contra sua vontade. Você aparentemente é o Cruzado Encapuzado de quem os noticiários não param de falar. O que vai fazer quanto a isto? – Vou fazer o que é necessário – retrucou Batman com um sorriso malicioso. – E você vai entregar este livro.
Galeria subterrânea 57D / Gotham / 21h17 / Hoje Batman se acomodou no assento do piloto do batmóvel e ligou o veículo. Amanda Richter, pensou. Não há coincidências. Ele tirou o envelope e a carta que havia recuperado e guardado mais cedo. Faria testes químicos depois, mas por ora era o conteúdo que o interessava. Ligou a luz de mapas acima – que nunca usara para ler mapas – e sacou a carta. Batman parou. Meu pai era um santo. Meu pai era o homem perfeito. Ficou pensando se isso poderia ser verdade. Seu pai usando a riqueza e o poder da Wayne Enterprises para financiar pesquisa de eugenia... A ideia era inacreditável. Seu pai era... Seu pai era... Apenas nesse momento Bruce Wayne se deu conta de que, na verdade, não sabia nada sobre o pai além da crença de que era um homem nobre e bom que morrera sem razão nos braços do filho. Thomas e Martha Wayne sempre foram estátuas de mármore, o ideal de perfeição e modelo de todas as virtudes. Mas agora ele estava sendo confrontado com a dura realidade do passado deles, que, naquele momento, relutava em conhecer. Batman abriu as páginas. Repassou os trechos que lera muito rapidamente no laboratório – os momentos em que o pai descobrira Richter no laboratório e ligou para Jarvis pedindo ajuda. Algo chamou sua atenção.

...apenas ficar quieto. Eu não sabia o que fazer além de seguir o conselho de Jarvis. No dia seguinte havia uma nota no Gotham Gazette sobre a morte do Dr. Richter – curta e abaixo da dobra – descrevendo como morrera em consequência de um acidente na sala de segurança do asilo Arkham, mas nada além. Eu era o único a carregar o conhecimento culpado de que ele morrera em consequência de nossos estudos de modificação comportamental. E foi com uma terrível ironia que nosso trabalho começou a dar frutos. Os quatro indivíduos de nosso experimento haviam fugido para a cidade, e logo os jornais estavam cheios de matérias sobre criminosos e mafiosos do submundo sendo subitamente eliminados de formas que, pela primeira vez em muito tempo, deixavam os bandidos da cidade com
medo. Comecei a ter esperança de que o terrível sacrifício do Dr. Richter pudesse realmente levar à realização do sonho de uma Gotham livre do crime, pelo qual havíamos trabalhado tanto. Os jornais e a televisão começaram a chamar nossos quatro indivíduos fugidos de “O Apocalipse” – talvez uma referência aos Quatro Cavaleiros do Apocalipse. Acredito que receberam esse nome dos criminosos que foram atacados por eles nas ruas...

Batman falou em voz alta: – Kronos: nova pesquisa. Por volta de 1958, Gotham, Apocalipse. A tela se acendeu no ar à sua direita. Para seu desalento, o primeiro resultado era da Wikipedia. Ele tocou com a mão enluvada e a página se abriu.

APOCALIPSE, O

Este artigo é sobre a história de Gotham. Para Apocalipses específicos, ver Apocalipse (desambiguação). O Apocalipse eram quatro justiceiros que iniciaram uma guerra contra grupos criminosos e mafiosos em Gotham City de meados de 1958 até o inverno de 1968. Inicialmente chamados de heróis por público e imprensa, eles logo se revelaram violentos e radicais em suas punições, e instáveis em suas interpretações limitadas do que constituía um crime.

Principais participantes

Eram quatro os membros do Apocalipse, conhecidos por quatro nomes sensacionalistas dados pela imprensa popular. Tinham históricos criminosos notórios e usaram seu conhecimento do crime contra os alvos durante seu surto justiceiro. Suas identidades reais inicialmente não eram conhecidas, mas posteriormente os quatro foram identificados.

• DESTINO: Caprice Atropos, antes ventanista e assassina com supostos laços com a família criminosa Moxon. Destino era conhecida por seu corpo esguio e os cabelos louros compridos. Usava uma máscara preta, uma malha de tricô negra com luvas pretas e botas de camurça pretas com solas especiais. As únicas duas vítimas que escaparam da morte em suas mãos relataram que só viam seus cabelos enquanto ela atacava. Ela com frequência cruzava tetos e escalava paredes, e podia superar qualquer tranca na perseguição às suas vítimas. Perseguia principalmente criminosos envolvidos em extorsão, suborno e roubo. • CEIFADOR: Michael “A Foice” Smalls havia sido assassino profissional da máfia Rossetti. Ceifador era um homem alto de corpo esguio que não traía sua força e agilidade incomuns. Como Destino, ele era conhecido por seguir suas vítimas e era sempre visto de preto – no seu caso, uma capa escura com capuz. Suas armas preferidas eram com lâminas – incluindo foices –, e desmembramento era uma assinatura de seus ataques. Vários relatos alegam que ele se lançava sobre suas vítimas como uma ave de rapina (carece de citação). Com frequência tinha como alvos agressores, assassinos, pistoleiros e figuras de autoridade. • CHANTEUSE: Adele Lafontaine, antes conhecida como a Viúva Negra do Robinson Park, era a integrante mais sutil do Apocalipse. Tinha longos cabelos negros e, independentemente do que mais vestisse, sempre era vista com um sobretudo militar verde e de lã. O único sobrevivente de um de seus ataques alegou ter ouvido a voz suplicante da irmã pedindo sua ajuda pouco antes de Chanteuse tentar cortar sua garganta. Muitos outros que estiveram perto dela relataram ter ouvido vozes de conhecidos os chamando e se sentido compelidos a responder. Suas vítimas eram principalmente pedófilos, prostitutas e traficantes de drogas, embora posteriormente tenha incluído executivos de bancos, corretores, advogados e juízes. • DISCÍPULO: Denholm Sinclair, um fraudador envolvido no incêndio do orfanato Kane. Embora houvesse muitas fotografias de Sinclair antes de sua prisão inicial, depois não foram dadas descrições consistentes por vítimas sobreviventes ou testemunhas. Todos os relatos coincidem em que tinha enorme força física e uma determinação fanática na perseguição da presa. Muitos relatos diziam que usava disfarces para atacar suas vítimas de perto enquanto estavam distraídas. Discípulo chamava atenção não apenas por matar suas vítimas, mas por fazê-lo de forma a humilhá-las na morte. Seus alvos principais pareciam ser mafiosos, extorsionários e funcionários municipais que considerava “corruptos”.

Todos os quatro haviam sido internados no asilo Arkham antes de sua fuga e de seus esforços coordenados posteriores. Embora houvesse boatos de outros membros pertencentes ao grupo, não foi oferecida prova substancial para confirmar qualquer outro indivíduo ligado a esses quatro.


HISTÓRIA

Embora os jornais não tenham utilizado o apelido “O Apocalipse” até domingo, 18 de maio de 1958 (Gotham Gazette), o primeiro incidente envolvendo o Apocalipse foi identificado no sábado, 5 de abril de 1958, quando o Sr. Joseph “Irlandês” Donohough foi encontrado morto, pendurado de cabeça para baixo da West Side Bridge com as palavras “agente da máfia” presas às costas da camisa. Donohough era conhecido na época por sua ligação com a máfia de Julius Moxon. Na terça-feira seguinte, dia 8, três gangsteres Rossetti – James “Jimmie” Noonan, Maurice “Mort” Arbuckle e Percival “Bolsa” Vernandez – foram retirados do rio Gotham em um carro pertencente ao mafioso Cezar Rossetti, cada um com a palavra “capanga” gravada na testa. No dia seguinte, Anthony “Tony” Falcone, sobrinho de Brutus Falcone que havia tentado levar sua operação de Chicago para Gotham naquela primavera, foi encontrado pendurado em um poste de iluminação em Moench Row com a palavra “extorsionário” presa ao peito...

Batman ficou um tempo olhando para a tela, o motor do batmóvel roncando atrás dele. – Kronos: relacionar registros policiais por volta de 1958 e Apocalipse com registros policiais deste mês. Houve uma pausa momentânea antes que começasse a cascata de informações. – Droga – Batman murmurou para si mesmo. – Estamos sendo assombrados. Cada incidente do Apocalipse de 1958 estava sendo reencenado em Gotham no presente. – Kronos: piloto automático para a avenida Moldoff quinze-dois-quarenta-e-sete – disse Batman para o computador. – Destino ajustado – respondeu a voz. O mapa tridimensional de Gotham surgiu em uma tela colorida flutuando diante dele, as ruas da superfície parecendo mais perto que as rotas abaixo da superfície que ele iria pegar. – Confirma? Batman conhecia bem o destino. Ele identificara o endereço no momento em que a enfermeira Doppel o dissera. – Confirmado. Partir. O veículo saiu de seu nicho escondido e começou a avançar sob as ruas de Gotham, seguindo rumo sul sob o Schwartz Bypass e sob as ruas de Coventry. Logo chegaria o East Side District. Amanda pedira à enfermeira para entregar o livro incriminador em uma casa que Bruce Wayne visitara com frequência quando garoto. Sua mãe o levava para brincar com a menininha que vivia lá. Aquela garota agora se tornara a última mulher que ele esperava ver novamente. Era o endereço residencial de Mallory Moxon e seu pai aleijado, Lewis.

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