CAPÍTULO QUATRO
CADÁVER DE BOA APARÊNCIA
Quartel-general da DPGC / Gotham / 21h07 / Hoje James Gordon estava no teto do quartel-general da polícia olhando para a caixa do disjuntor. O cadeado estava pendurado na porta aberta da caixa. Parara de balançar havia algum tempo. A noite estava gelada, sua respiração criando nuvens diante dele, e ele de pé na clara noite de outono. Como diabos as coisas chegaram a esse ponto? O comissário de polícia de Gotham City, James Gordon, conhecia a resposta melhor que qualquer um. Ele crescera em Chicago com o irmão Roger, os dois brincando de “polícia e ladrão” pelo quarteirão do Lincoln Park cercado de sobrados. Não importava muito para os garotos quem era “polícia” e quem era “ladrão”, e eles muitas vezes tiravam cara ou coroa para decidir qual seria qual. Apenas muito tempo depois, Gordon – um tenente da polícia recém-promovido que estava de mudança com esposa e filho para um novo emprego em Gotham – descobriu como aquele cara ou coroa era arbitrário no DPGC. Seu primeiro parceiro ali foi Arthur Flass – um policial absolutamente sujo. Gordon devidamente denunciou a rede de extorsão do parceiro ao então comissário Gillian Loeb. Logo teve sua ingenuidade arrancada com tacos de beisebol por vários de seus irmãos policiais; aparentemente, Loeb recebia uma parte de todos os policiais corruptos da cidade. A surra só conseguiu endurecer ainda mais o jovem tenente. Gordon se tornou conhecido como um policial “intocável”, mas, com Loeb comandando a polícia e controlando a Divisão de Assuntos Internos, era óbvio que a carreira de James Gordon havia morrido na surra com tacos de beisebol, mesmo que seu corpo não tivesse. Então a sorte de Gordon mudou pelas mãos de um morcego. Batman havia sido louvado como um cidadão valoroso pelo comissário Loeb ao surgir. Loeb acreditava que aquele Batman poderia ser comprado e controlado quase como qualquer outra pessoa, e suas estripulias eram uma distração para os negócios mais obscuros do comissário. Loeb não contara com esse “maluco de capa” de olho em sua própria rede. Então, quando “o morcego” abriu a lata de vermes do comissário, Loeb reagiu classificandoo de criminoso, vingador, anarquista e terrorista. Batman se tornou o criminoso mais procurado de Gotham. E quem melhor para derrotar tal ameaça à lei e à ordem do que o totalmente limpo, intocável tenente detetive James Gordon? Fora como tentar apagar um incêndio com gasolina. Foi o começo de uma amizade explosiva.
Eles eram homens diferentes com abordagens diferentes do problema, mas ambos concordavam quanto a qual era o problema. Gordon nunca poderia aceitar Batman agindo fora do processo legal. Batman com frequência ficava frustrado com a insistência de Gordon em um processo que, muitas vezes, prejudicava a justiça. Mas juntos eles conseguiram virar o jogo com Flass e, finalmente, Loeb, derrubando os dois. Aparentemente, Batman era a salvação da carreira de Gordon, desde que Gordon pudesse justificar a si mesmo o fato de permitir que Batman existisse. Isso exigia distorcer seus princípios de modo a alcançá-los, uma dicotomia que todos os dias o fazia se questionar e às vezes se odiar. Ele passara a ver Batman como seu amigo, mas o odiava – o odiava pela violação que representava em sua vida e pelas coisas que Gordon precisava pedir que o fora da lei fizesse quando a justiça não podia ser obtida pelas próprias instituições que jurara honrar e proteger. Batman fizera dele um sucesso ao custo de um pedaço de sua alma. A sorte de Gordon melhorou na polícia, embora a um alto custo pessoal. A surra que ele recebera também fora o começo do fim da relação com a esposa, o estresse de ser um policial de princípios finamente se revelando como rachaduras no casamento. Seu irmão Roger e a esposa Thelma haviam morrido em um terrível acidente de carro, deixando a filha Bárbara sem lar. Os Gordon adotaram a garota de 13 anos em parte por dever e em parte pela esperança de que ajudasse a salvar seu casamento. Quando a esposa de Gordon por fim o abandonou, ele amara a garota e se dedicara a ela, transformando-a em uma bela jovem com um futuro brilhante. Então Batman surgira na varanda de seu apartamento e atirara nela a sangue-frio... Ela morrera sozinha, sangrando no corredor. Gordon ficou olhando para a alavanca que acenderia o bat-sinal no teto do quartel-general. – Já se passaram quinze minutos, Gordon – disse a voz rouca acima dele. – Não consegue se decidir? O comissário deu um pulo com o som, sua mão instintivamente procurando a arma de serviço. Uma delicada inibição que rondava sua mente se rompeu. Ele sabia que devia parar, mas já havia ultrapassado esse ponto, a arma sacada do coldre, sendo erguida na direção da silhueta que bloqueava as estrelas com sua forma odiada e excessivamente familiar. Desta vez eu vou até o fim, pensou Gordon com distanciamento. Eu realmente vou até o fim. Uma substância fria parecida com gel se projetou da sombra, envolvendo a arma e a mão de Gordon em uma massa terrível. O dedo de Gordon apertou o gatilho, mas o gel estava endurecendo rápido demais. O comissário puxou a arma, olhando através dos óculos para o cano abaixo, preso e envolvido pela massa dura e borrachenta. Gordon gritou de fúria, tentando soltar a arma da massa densa que a prendia à mão direita. – Seu maldito! Seu filho da puta! – Você precisa se acalmar, Gordon – disse o Cavaleiro das Trevas rispidamente, sua capa se movendo levemente atrás dele. Batman estava encarapitado no alto da escadaria, olhando para o comissário. As grandes lentes do bat-sinal – o nome era outra afetação da imprensa – estavam escuras na beirada do teto, o olho invocador fechado. – Se você conseguir apertar o
gatilho, a bala não terá para onde ir. A arma irá explodir e você poderá perder a mão... E acho melhor não envolver minha mãe nisto. Emocionalmente exausto, James Gordon caiu de joelhos. – O que está fazendo aqui? – Vim porque você precisa de mim. – sussurrou o morcego. – Porque a caçada não terminou... Os monstros ainda estão lá fora. – O monstro está bem aqui – retrucou Gordon. Ele odiava o homem-morcego mais do que tudo que já havia odiado na vida. E precisava dele tanto quanto. – Eu deveria ter matado você quando tive a chance. – Estenda a mão com a arma – disse Batman, descendo silenciosamente de seu posto para ficar de pé no teto à frente de Gordon. O comissário ergueu o braço. Batman tomou o pulso de Gordon com um firme aperto da mão direita, enquanto tirava uma pequena lata de aerossol no cinto de utilidades com a esquerda. Ele jogou o solvente sobre a mão presa do comissário. O gel cristalizou e a seguir esfarelou em um átimo. Batman estava esperando por isso, arrancando a arma de Gordon antes que ele tivesse tempo de reagir. O Cruzado Encapuzado recuou um passo para as sombras do teto, os olhos atentos fixos no velho amigo. – Barbara ainda está viva, Gordon – encorajou Batman. – Está no norte do estado fazendo faculdade. Foi colocada em uma cadeira de rodas, mas ainda está viva, e eu não fiz isso. O Coringa fez. – Não minta para mim – bufou Gordon. – Nunca menti para você – retrucou Batman com a voz áspera como cascalho. – É uma lembrança falsa, Gordon. Um fantasma conjurado por Spellbinder para fazer com que você e os outros cometam crimes por toda a cidade. – Não, você está errado, não foi Spellbinder – disse Gordon, sorrindo com satisfação presunçosa. – Aquela maníaca usa hipnose para controlar suas vítimas, e ambos sabemos que a hipnose se desgasta se não for reforçada. Ademais, estamos com Spellbinder, quero dizer, Fay Moffit, em Arkham, e ela está sofrendo de suas próprias alucinações. – Ela é uma sociopata psicótica – resmungou Batman. – Alucinações seriam uma evolução para ela. – Diz que você a seduziu para que roubasse o boneco Scarface – Gordon retrucou. – E também acredita nisso. – Então não é hipnose – respondeu Batman. – Drogas psicotrópicas, talvez com um componente de modificação comportamental ou de memória. Alguém lançou um feitiço em Spellbinder, é? Então agora você tem uma bagunça generalizada e quer que eu a limpe. Por isso me queria? – Eu não queria você, absolutamente – sibilou Gordon. – Então vamos apenas dizer que é por isso que você está de pé no teto não usando o batsinal para me convocar – retrucou Batman. Gordon piscou, tentando ver além de sua fúria. – Há cerca de três meses, todos que estão cometendo esses crimes receberam um cartão pelo correio. Ele dizia: “Este cartão lhe dará sorte.” Nada mais, e todos com um carimbo postal da Gotham Central.
– Deixe-me ver – exigiu Batman. – Não tenho – respondeu o comissário. – Joguei fora há meses. – Mostre sua carteira – exigiu Batman. O comissário levou a mão às costas e sacou a carteira, abrindo as divisões com os dedos. Batman esticou a mão e agilmente tirou o cartão. – Ei – disse Gordon. – Eu jurava que não estava aí. – Mas não foi para isso que você veio ao teto para não usar o bat-sinal – disse Batman, examinando o cartão cuidadosamente. – É o mesmo tipo de cartão que agora está espalhado pela cidade inteira. – Isso mesmo – respondeu Gordon. – Conseguimos rastrear a produção até a Lunare Products, em sua unidade em Dixon Docks, saindo do Englehart Boulevard. É uma propriedade em nome de um certo Dr. Chandra Bulan. As duas palavras são pseudônimos para... – Lua – disse Batman, cuspindo a palavra. – Ambas são palavras do sudeste da Ásia para Lua. – Dr. Moon – concordou Gordon. – Ele era especialista em manipulação de memória, e isto parece seu modus operandi. – Era especialista é o ponto – concordou Batman. – Moon está morto, e há anos. – Então ele está muito ativo para um cadáver – retrucou Gordon. – Temos recebido relatórios de que há um culto oriental crescendo em Chinatown com o Dr. Moon na liderança. – Não imagino que esteja se referindo a Sun Myung Moon e a Igreja da Unificação – disse Batman, sorrindo sob o capuz. – Estaria perguntando a você caso estivesse? – resmungou Gordon. – Você acha que o Dr. Moon se levantou do túmulo e está espalhando estes cartões por toda a cidade – afirmou Batman, colocando o cartão em um saco de provas em seu cinto de utilidades. – Alguém está espalhando isso por toda a cidade e, se for verdade, este último surto de criminalidade que tivemos foi uma pequena amostra da tempestade que está se formando – afirmou Gordon. Batman assentiu, depois devolveu a arma a Gordon pela coronha. Gordon olhou para a arma por alguns instantes, depois balançou a cabeça. – Melhor você ficar com ela. – Isso nunca aconteceu, Gordon – insistiu Batman. – É uma lembrança que não passa de sonho. Gordon respirou fundo. – Não para mim. Eu me lembro de todos os detalhes... Vê-la cair na entrada do apartamento... O sangue se espalhando nos azulejos abaixo dela... Você de pé no umbral. Minha mente racional sabe que é tudo falso... Mas se eu pegar essa arma, também sei que irei usá-la contra você. Dói demais e parece certo demais. Batman anuiu. Ejetou o pente e o jogou do outro lado do teto, depois soltou o ferrolho, tirando a haste de guia e a mola do chassi da arma. Espalhou as peças ao redor dele em arco.
– Avisarei quando estiver terminado. – O que você vai fazer? – perguntou Gordon. – Visitar um morto – respondeu Batman. Gordon ia perguntar como... Mas Batman havia partido.
Dixon Foundation College / Gotham / 21h42 / Hoje Batman suava. A bat-roupa estava esquentando demais, os níveis de energia do cinto de utilidades caindo perigosamente a despeito dos capacitores adicionais que instalara. O sistema de refrigeração da bat-roupa estava sendo forçado ao limite, mas, apesar de tudo, Bruce Wayne estava adorando o desafio e apreciando o esforço. Oito jovens membros do culto tinham conseguido se lançar contra ele ao mesmo tempo na cabine de som do auditório que desmoronava. Seus golpes estavam começando a penetrar na enfraquecida armadura ativa da bat-roupa, chegando às costelas. Batman sorria. Era seu tipo de luta. Os membros do Culto Lunar vinham em grande medida das gangues da vizinha Chinatown, e a guarda de Moon havia sido bem treinada em artes marciais. Seu entusiasmo pelo líder era fanático e absoluto, impelindo-os com o mesmo tipo de zelo que alimentava Batman. Ele tinha a vantagem da experiência, mas seu corpo estava envelhecendo. Eles tinham a vantagem do número, mas não eram treinados em combate em grupo. Nenhum dos dois lados iria recuar. Era o equilíbrio que tornava aquilo interessante para ele. Com um grito, Batman se projetou com toda a sua força. A bat-roupa reagiu, arrancando mais potência dos esmorecidos capacitores. Os membros do culto foram lançados para longe, dois atravessando o vidro da cabine e caindo flácidos entre os assentos quebrados abaixo. Batman se colocou de pé imediatamente. Dois dos guardas remanescentes recuperaram suas posições, as cabeças raspadas brilhando com sangue, tchacos surgindo em suas mãos em um súbito borrão. Filmes demais. Talvez não seja seu primeiro erro... Certamente será o último. Batman avançou contra o primeiro, a ponta da arma de corrente zumbindo na direção de sua cabeça. Ele mudou de posição, e então bloqueou o tchaco com o antebraço no momento exato, fazendo com que ele voltasse sobre o rosto do atacante, cujo nariz se partiu com um barulho satisfatório. Batman girou, acrescentando ferimento a ferimento, enquanto seu cotovelo pegava o nariz partido de baixo para cima e empurrava os ossos para o rosto. A virada o deixou diante do segundo adversário remanescente, cuja arma girava produzindo um borrão rumo ao Cavaleiro das Trevas ofegante. Batman cruzou os antebraços diante de si, segurando os bastões entre o punho das luvas. Os braços deslizaram para baixo pela madeira lisa, arrancando a arma das mãos do jovem e surpreso membro do culto. – Nunca gire a arma – orientou Batman, enrolando os bastões em torno da corrente de metal até ficarem lado a lado em sua mão. – É melhor segurar com firmeza.
Batman enfiou o punho, ainda segurando os bois bastões, sobre o rosto do jovem, jogandoo de joelhos. O sorriso brotou em seu rosto enquanto dançou o punho com os bastões repetidamente, martelando o membro do culto. Quando o rapaz parou de se mover, o punho parou. Batman saltou pela janela estilhaçada, a capa se abrindo devidamente para desacelerar a descida enquanto ele pousava três metros abaixo sobre os corpos que o precederam. O Dixon Foundation College havia sido um dia uma instituição particular, porém, quando o financiamento terminou, o mesmo aconteceu com os alunos. O auditório de aula estava em ruínas, mas panos vermelhos brilhantes haviam sido pendurados como bandeiras ao longo das placas de reboco que despencavam da parede. Havia um púlpito, ponto focal do auditório vazio. O Dr. Moon estava no púlpito. Tenho de admitir que ele está bastante bem... Considerando que está morto há dez anos. A pele do rosto havia sido esticada para trás em uma máscara com aparência de couro, os lábios retesados em um sorriso hediondo. Moon olhou com órbitas vazias para o Batman, que se aproximava. Usava um chapéu de bobo da corte, colorido e com sinos na extremidade de cada uma das cinco pontas. O cabelo que aparecia sob ele estava despenteado e suas unhas eram compridas, mas isso era compreensível para alguém arrancado do túmulo. Vestia uma túnica de seda vermelha resplandecente. Não parecia nem um pouco incomodado com o fato de que ele e sua túnica fossem sustentados por um cano de ferro preso verticalmente ao piso, enfiado na base de suas costas e chegando à cavidade torácica. As mãos de Moon estavam apoiadas no púlpito, os dedos ossudos enrolados sobre uma pilha de papéis. O rosto de Batman ganhou expressão raivosa. Os papéis no púlpito estavam amarelados pela idade, ressecados e frágeis, mas o cabeçalho antiquado era facilmente reconhecível.
WAYNE ENTERPRISES DA MESA DO DR. THOMAS WAYNE Batman sentiu o suor se acumular na base da coluna, um arrepio correndo a despeito do calor residual da bat-roupa. Empurrou o corpo de Moon, deslocando a clavícula de seu encaixe e fazendo com que o cadáver escorregasse pelo cano até formar uma pilha a seus pés. Batman e todas as camadas da bat-roupa não poderiam proteger Bruce Wayne das palavras nas páginas que ele tomou nas mãos.
Ao Dr. Ernst Richter
Caro Ernst, Posso compreender sua reticência em prosseguir com este projeto, e lhe escrevo hoje na esperança de lançar alguma luz sobre minha aparente obsessão por seu trabalho. Ordenei que esta carta lhe fosse entregue pessoalmente por meu empregado, em quem tenho total confiança, para ficar certo de que chegará unicamente às suas mãos. Talvez para que você entenda plenamente, tenho de explicar como Martha me apresentou a Denholm Sinclair em primeiro lugar e como isso levou à minha amizade com Lewis Moxon...


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